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o COMERCIO INTER-INSULAR

NOS

SÉCULOS

MADEIRA,

AÇORES

XV

E

E

XVI

CANÁRIAS

REGIÃO

AUTÓNOMA

DA

MADEIRA

o COMERCIO

I N T ER- lN S U LA R

NOS

SÉCULOS

MADEIRA,

AÇORES

XV

E

E

XVI

CANÁRIAS

(ALGUNS ELEMENTOS PARA O SEU ESTUDO)

SECRETARIA

ALBERTO

REGIONAL

DO

VIEIRA

TURISMO

E

CULTURA

CENTRO· DE

ESTUDOS

DE

HISTÓRIA

1 987

DO

ATLÂNTICO

Capa,

Fotografia:

gráficos e

Esc.

mapas:

VIRGfLIO

MANUELA

ARANHA

GOMES

ABREVIATURAS

A.A.P.D. Arquivo da Alfândega de Ponta Delgada. A.C.M.R.G. Arquivo da Câmara Municipal da Ribeira Grande, A.C.M.V. Arquivo da Câmara Municipal das Velas (S. Jorge). A.E.A. Anuário de Estudos Atlânticos. A.H.M. Arquivo Histórico da Madeira. A.H.P.L.P. Arquivo Histórico e Provincial de Las Palmas. A.N.T.T. Arquivo Nacional da Torre do Tombo. A.R.M. Arquivo Regional da Madeira. B.C.R.C.A. Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores. B.I.H.I.T. Boletim do Instituto Histórico da Ilha' Terceira. B.P.A.A.H. Biblioteca Pública e Arquivo de Angra do Heroísmo. B .P.A.P.D. Biblioteca Pública e Arquivo de Ponta Delgada. C.C. Corpo Cronológico. C.H.C.A. Colóquio de História Canário-Americana. J.R.C. Julgado de Resíduos e Capelas. Ma Misericórdia. N.A. Núcleo Antigo.

5

PÀ<ilNA r~ BI!ANCO

INTRODUÇÃO

A abordagem e conhecimento das sociedades insulares tem sido, em certa medida, um domínio de investigação histórica muito solicitado nas últimas décadas. Desde Fernand Braudel, Pierre Chaunu, A. Rumeu de Armas, Frédéric Mauro, T. Bentley Duncan e Magalhães Godinho reconheceu-se a necessidade de um estudo atento da história insular, como componente basilar do conhecimento do processo histórico atlântico-europeu. Daí a valorização dos fundos arquivísticos regionais e o seu aproveitamento para a explicitação da análise da expansão atlântica. Os autores supracitados exerceram uma acção muito importante na análise global ou comparativa deste restrito mundo insular, como forma de clarificar os vectores dominantes do seu processo histórico. Assim as ilhas atlânticas que até então mereciam, apenas,

monografias delimitadas espacio-temporalmente, passam a ser encaradas no contexto mais amplo do Atlântico, destacando-se aí como principal área da influência nos séculos XV e XVI. Neste contexto valoriza-se o seu inter-relacionamento com o litoral africano, americano e europeu, passando a ser consideradas corno pontos-chave para a afirmação da hegemonia no Atlântico. Em síntese, a historiografia insular ou pró-insular ultrapassou a fase introspectiva, mediante o impulso teórico-metodológico externo, mantendo-se até ao momento, em parte arreigada a essas perspectivas de análise impostas pela historiografia europeia. Tal cir- cunstância terá condicionado a proliferação de títulos bem como uma maior atenção por este domínio historiográfico. Aí valoriza-se quer o desenvolvimentó do processo histórico, num âmbito restrito, quer, num campo mais vasto, o seu inter-relacionamento com o Velho e o Novo Mundo. Pouca ou nenhuma atenção foi dada às conexões internas do mundo das ilhas que deveras marcaram a vivência destas sociedades insulares. Só muito recentemente com os trabalhos de Artur Teodoro de Matos e Manuel Lobo Cabrera foi posta em destaque esta

e)

nova e importante faceta da História Insulana.

Gaspar Frutuoso (1522-1591), pela sua importante obra sobre a História dos arquipé- lagos atlânticos (Canárias, Cabo Verde, Madeira e Açores), poderá ser considerado o

et) Artur Teodoro de Matos, "Las relaciones entre Azares, Canarias y America Espaiiola en los siglas XVI

y XVII

, Historia Maritima, Las Palmas, 1982 (no prelo) Manuel Lobo Cabrera. Elisa Torres Santana, -Aproximaclón 'de

in Congresso Internacional de

Las Palmas, 1982 (no prelo); Manuel Lobo Cabrera, «Gran Canaria y los contactos com

,

in V C.H.C.A

las islas portuguesas atlanticas: Azores Madera, Cabo Verde y Santo Tomé

las relaciones entre Canarias y Azares em los siglas XVI y XVII

Angra do Heroísmo, 1984,352-375. Manuel Lobo Cabrera e Margarida I. Martín Socas. «Emigracion y comercio

entre Madeira y Canarias en el siglo XV)", in ibidem, 678-700.

, in Os Açores e o Atlantico (séculos XVI-XVII).

pioneiro desta inovadora perspectivação da realidade histórica insular. Ele terá sido ainda o pioneiro a evidenciar e delinear os traços comuns destas sociedades nascentes, tanto ao nível geográfico, como ao administrativo e económico (2). Na realidade não estava equivocado quando tentou essa abordagem, pois os referidos arquipélagos pertencem à Macaronésia ao mesmo tempo que fazem parte de um conjunto, que é o Atlântico. A perspicácia e pormenor das suas descrições atestam, por um lado, o conhecimento profundo que havia destas ilhas em finais do século XVI e, por outro, as possibilidades ou assiduidade dos contactos entre as diversas ilhas. Para escrever os referidos relatos Gaspar Frutuoso terá percorrido algumas delas, apoiando-se, ainda, no testemunho oral do viajante e do mercador que frequentavam a ilha de S. Miguel e). Talvez o facto de ser filho do mercador Frutuoso Dias, natural de Ponta Delgada, tenha contribuído para essa familia- rização com os arquipélagos vizinhos, com que os açorianos mantinham contactos assíduos (4). Para além desta tentativa de análise comparada e de conjunto dos arquipélagos atlânticos, o texto frutuosiano poderá ser considerado ainda como a primeira memória atenta que preserva o cotejo do inter-relacionamento destes arquipélagos, dando conta do movi- mento migratório e comercial entre a Madeira, os Açores e as Canárias. Todavia o seu apelo para a fundamentação da sociedade e economia insulares e do sistema de inter-conexões manteve-se no esquecimento por várias gerações, sendo apro- veitado, apenas, no nosso século. Partindo das tentativas já referenciadas e cientes da importância desse tipo de abordagem lançamos mãos, em 1982, de um projecto de estudo do Mediterrâneo Atlântico nas suas peculiaridades, fazendo-o incidir nas relações entre estes três arquipélagos, situados. às portas do Atlântico Sul. Aqui conclui-se a primeira fase desse plano, cujo objectivo primordial é o conhecimento da realidade histórica insular. Assim, esta monografia define- -se pelo seu carácter introdutório ao tratamento do tema. As lacunas da documentação nos três arquipélagos são imensas, pelo que fomos impossibilitados de estabelecer as séries cronológicas necessárias para um estudo desta índole. Deste modo o tratamento do comércio inter-insular ficou muito limitado em termos documentais e expositivos, não pela sua importância no contexto económico insular, mas sim pelas referidas lacunas. Todavia, a informação respigada nessa documentação, ainda que diminuta em termos numéricos, é suficientemente elucidativa para podermos afirmar a

sua importância na economia insular.

. Além disso os reflexos da compartimentação geográfica, aliados à dificuldade de contactos com as ilhas fizeram-se sentir, de modo evidente, neste primeiro resultado da investigação em curso. Assim, a dispersão geográfica da documentação açoriana, em consonância com a impossibilidade material de uma adequada permanência no arquipélago canário, impossíbitaram-nos de um maior aprofundamento destes arquipélagos. Se nas Canárias essa lacuna foi colmatada parcialmente pela riquíssima produção historiográfica deste século, nomeadamente da Universidade de La Laguna e da Casa Colón (Las Palmas), nos Açores apenas podemos ficar agradecidos ao brilhante e minucioso trabalho de recolha de Ernesto do Canto, reproduzido parcialmente no Arquivo dos Açores. Uma maior familiarização com o riquíssimo acervo documental madeirense, aliada à importância deste arquipélago no sistema de inter-conexões insulares, levaram-nos a apostar nessa documentação e partir dela para a análise pretendida. Além disso, porque reconhecemos ter sido a Madeira a ilha onde se lançou a primeira experiência de ocupação atlântica, com

e)

Rodrigo Rodrigues. «Notícia biográfica do Dr. Gaspar Frutoso

Delgada, 1984, XV-CVX; Manuel Lobo Cabrera

354-356.

, «Aproximacion a las relaciones entre Canarias y Azores

in Saudades do da Terra, L.0 I, Ponta

",

(3)

(4)

Rodrigo Rodrigues, art, cit.,

Idem,

Ibidem,

XXVI,

LXVII.

XL-XLI, LXIV.

implicações nas ilhas vizinhas, estruturámos a nossa exposiçao a partir daí. associando depois os Açores e as Canárias. Aliás, a Madeira contribuiu em muito para o arranque da ocupação e valorização sócio-económica desses arquipélagos vizinhos. Este impacto madei- rense terá condicionado o desenvolvimento das suas sociedades, evidenciando a similitude de processos, técnicas e produtos. Neste sentido poderá considerar-se o colono madeirense como o principal obreiro desta sociedade e economia insulares. A concretização deste estudo não seria possível sem a prestimosa colaboração de instituições, amigos e mestres a quem agradecemos vivamente. De entre estes distinguimos o contributo do Professor Doutor Manuel Lobo Cabrera, que nos encaminhou pelas sendas da investigação arquivística e bibliográfica canária, e o Professor Doutor Artur Teodoro de Matos, timoneiro deste cruzeiro atlântico, pela orientação e impulsionamento dado a este trabalho. Para a presente edição deste nosso trabalho estamos gratos a todos os elementos da Comissão Instaladora do Centro de Estudos de História do Atlântico por nos confiarem a honra da primeira edição desta instituição. Ao Professor Doutor Luís de Albuquerque o nosso especial agradecimento pelos sábios conselhos dados, quando da preparação do texto para edição, e pelo empenho e acompanhamento da impressão.

Ponta Delgada, Janeiro-Maio de

1985

9

PÀ<ilNA r~ BI!ANCO

PRIMEIRA PARTE

PÀ<ilNA r~ BI!ANCO

o ATLÂNTICO E AS ÁREAS INSULARES

1. A ECONOMIA INSULAR

O processo de ocupação do mundo insular atlântico surge, nos séculos XV e XVI,

como um movimento ímpar da expansão e da colonização do Ocidente. A expectativa do Novo Mundo aliada aos incentivos da nova economia de mercado condicionaram a valorização, não só destas ilhas, mas do Atlântico em geral. Os arquipélagos da Madeira, Açores e Canárias, porque próximos da Europa e posicionados estratégicamente nos rumos da navegação atlântica, surgem desde muito cedo como pólos importantes para o domínio

do Atlântico. Talvez por isso mesmo Frédéric Mauro não hesite em afirmar: «iles sans

doute, mais iles aussi important que

A sua ocupação e valorização sócio-económica faz parte de uma estratégia do Ocidente, marcada pela paulatina desvalorização do mercado mediterrânico em favor do

novo mercado atlântico. Esta transmutação de centros de influência foi responsável pela valorização dos arquipélagos atlânticos. Talvez por isso mesmo certa historiografia ocidental não hesitou em denominar este Novo Mundo insular de Mediterrâneo Atlântico. Pierre Chaunu vai mais longe e divide o Atlântico em duas áreas de influência perfeitamente

definidas: o Mediterrâneo

A imagem do Mediterrâneo como centro dominante das trocas comerciais, exóticas ou

não, domina o imaginário dos ocidentais na expansão do litoral insular, africano e americano e). A tudo isso vem juntar-se a constante presença de gentes ribeirinhas da bacia mediterrânica, interessadas em impôr as suas técnicas de negócio, o seu capital, os seus produtos (4).

As ilhas dos arquipélagos da Madeira, Açores e Canárias situadas às portas do Novo Mundo e, porque próximas do velho centro de comércio surgem, nos séculos XV e XVI, como o último resquício mediterrânico e a esperança de novo centro atlântico. Daí o referido epíteto que sintetiza as aspirações dos europeus na alvorada de uma nova era. Esta premência e constância do Mediterrâneo nos primórdios da expansão atlântica poderá ser corresponsabilizada pela dominante mercantil das novas experiências de arrotea- mento nesta área inexplorada. Certamente os povos peninsulares e ribeirinhos da bacia

des

continents» e).

Atlântico e o Americano CZ).

,

e) Des produits et des hommes, Paris. 1972. 53 (2) Sevilla y América. Siglos XVI y XVII. Sevilha. 1982, 43 (3) Frédéric Mauro. La XVI". siécle européen. Aspects économiques, Paris. 1970. 103; Femand Braudel ,

La Mediterranée

(4)

Manuel

et

le monde

Mediterranéen (

),

vol.

I,

Paris,

1976,

141-142.

Nunes Dias. O capitalismo monárquico português. vol. II. Coimbra, 1964, 171, 179. 182,

mediterrânica, ao comprometerem-se com o processo de expansão atlântica, não puseram de parte a sua tradição agrícola, incentivadora das trocas comerciais. Por isso na bagagem dos primeiros cabouqueiros insulares eram imprescindíveis as cepas, as socas de cana, alguns grãos do precioso cereal, de mistura com os artefactos de uso corrente.

O processo de ocupação e domínio do Atlântico foi, deste modo, definido por uma

transplantação material e mental de que os colonos peninsulares foram os principais obreiros. Mais do que uma tentativa de recriação do velho rincão natal, este processo foi a primeira experiência de ajustamento das arroteias às directrizes da nova economia de mercado (5). Assim, a aposta preferencial de cultura irá incidir nos produtos em falta na Europa e naqueles mais valorizados nessa economia nascente, como o açúcar e o pastel.

A sociedade e economia insulares surgem na confluência destes vectores externos em

consonância com as condições mesológicas do multifacetado mundo insular. Todavia, a sua distribuição e a sua valorização não foram simultâneas nem obedeceram aos mesmos princípios organizativos, mercê da sua repartição pelas coroas peninsulares e senhorios ilhéus. Na Madeira e nos Açores o arranque sócio-económico dependeu, de modo uniforme, da intervenção da coroa e senhorio (1433-1497), enquanto nas Canárias os mesmos agentes tiveram uma acção diversificada e localizada em ilhas. Nesta última situação o processo de integração do arquipélago foi muito moroso e variou de ilha para ilha, sendo comum distinguir as ilhas realengas das senhoriais. Não obstante esta forma diversificada de direcção e domínio, é notória a dominância dos princípios definidores da nova economia de mercado, visível na selecção das culturas e no incentivo que lhes foi dado. As Canárias, pela riqueza dos seus recursos humanos e naturais surgiu, desde o século XIV, como primeiro alvo preferencial dos povos peninsulares e mediterrânicos. Todavia o seu processo de conquista e ocupação foi retardado pela disputa entre Portugal e Castela, bem como, pelo afrontamento da população guanche. Deste modo, a Madeira e o Porto Santo irão assumir a posição dianteira neste processo, surgindo, desde princípios do século XV, como importantes focos de recepção e materialização das necessidades e dos anseios sociais, políticos e económicos do Ocidente. O arquipélago açoriano, colocado numa posição excêntrica em relação ao principal pólo de atracção atlântica nas primeiras décadas do século XV e, mercê da premência dos fenómenos sísmicos e vulcânicos, não se apresentava muito favorável a esse desenvolvimento inicial. Apenas na segunda metade do século este espaço multifacetado atrairá as atenções dos peninsulares e até dos descontentes com a situação madeirense. Assim, a partir da década de 70 as ilhas açorianas surgem como uma concorrente da Madeira, galvanizando as atenções de madeirenses e peninsulares. A experiência adquirida pelos colonos imigrantes da Madeira foi importante para a valorização sócio-económica deste arquipélago bem como do canário.

A Madeira, que se encontrava a pouco mais de meio século da sua existência como

sociedade insular, estava já em condições de oferecer contingentes de colonos preparados para o lançamento de novas arroteias e culturas nas ilhas vizinhas. Assim terá sucedido com a transplantação da cana-de-açúcar para as ilhas de Santa Maria, S. Miguel, Terceira, Gran Canaria e Tenerife. Deste modo o arquipélago madeirense, posicionado estrategicamente nesse mundo de ilhas, dominará todas as conexões atlântico-insulares; será um intermediário entre os dois arquipélagos do extremo ocidental e oriental e um importante veículo que

assegurará a unidade e a vizinhança, e aproximará as parcelas deste Novo Mundo; pelo seu lado, ambos os arquipélagos vizinhos integrarão a Madeira nos circuitos comerciais do litoral africano e americano.

A aproximação e vizinhança das ilhas que compõem o Mediterrâneo 'Atlântico serão

(5) José V. Torres, Introdução à História Económica e Social da Europa. Coimbra, 1983, 83-85; Maria

Olímpia da Rocha Gil,

Ciências Humanas, vol. III, 1981, 371-375; Pierre Chaunu, vil/e et l'Atlantique, vol. VIII. 79.

Os

Açores e a nova economia de mercado (séculos XVI-XVII)>>, in Arquipélago, série

corresponsabilizadas por esta identidade, bem como pelas assimetrias e complementaridades do seu desenvolvimento económico. Estas características dominantes do mundo insular são

o único meio estabilizador dos mecanismos sócio-económicos insulares, uma vez que

criaram as condições necessárias à resolução dos problemas quotidianos e à valorização das potencialidades locais. Foi, certamente, a única possibilidade da economia insular se afirmar em face da premência e dominância da Europa Ocidental; assim sucedeu com os cereais que, produzidos apenas em algumas ilhas, foram suficientes, em condições normais,

para satisfazer as necessidades da dieta local. Esta conjugação de interesses marcará, por todo o século XVI, as linhas complicadas das conexões insulares. O afrontamento das economias das ilhas aparece apenas no domínio das culturas coloniais - pastel, açúcar, vinho - impostas pelo Ocidente com a única finalidade de suprir as suas carências; tal imposição externa, dominante em todo esse mundo, conduziu a um afrontamento e a uma crítica desarticulação da economia insular. Todos estes produtos

são

O açúcar na Madeira, Gran Canaria , Tenerife, La Palma e o pastel, em S. Miguel, Terceira, exerceram uma acção devastadora do equilíbrio da exploração económica local, retirando o espaço agricultado às culturas similares. Tal circunstancionalismo culminou

sempre numa situação de forte dependência em relação ao mercado externo que, para além de consumidor exclusivo destes produtos, surge como o principal fornecedor dos produtos ou artefactos que os povos das ilhas carecem. Qualquer eventualidade que pusesse em causa

a produção dessas culturas era o prelúdio da estagnação do comércio e da fome. Assim

sucedeu em 15]3 na ilha de Tenerife com a acção do bicho da cana que destruiu grande

parte das fazendas de açúcar que, segundo reclamação dos seus vizinhos, «es lo principal de

la isla- (). De igual modo se poderá definir a situação madeirense, na segunda metade do

século XVI, mercê da concorrência do açúcar brasileiro que abateu o comércio do «da ilha

que he o fruito e comercio principal dclla e remedio dos lavradores» (8). Terá sido com base nesta ambiência que Fernand Braudel defendeu, em 1949, para estas ilhas um regime produtivo de monocultura e). No entanto nesse mesmo ano Orlando Ribeiro esclarecia o carácter de não monocultura do regime de exploração agrícola madeirense eo). E, volvidos vinte anos, Elias Serra Rafols respondia a Francisco Marales Lezcano , enunciando que nas Canárias nunca existiu um regime de monocultura, uma vez que a economia canária foi dominada por uma variedade de culturas, cuja actuação não é uniforme no tempo e no espaço r!"). Mais tarde, Frédéric Mauro, secundado por Vitorino Magalhães Godinho, retomam a questão, enunciando que a economia insular se definiu

o suporte mais poderoso do domínio europeu na economia das

ilhas (6).

apenas por um regime de produtos dominantes e não de

monocultura (12).

(6) Femand Braudel , ibidem. I, 182, Pierre Chaunu , ibidem, vol. VIII, 79.

ç7) Acuerdos dei Cabildo de Teneri]e, III. 277-283, n.? Tenerife por mano de mensagero

42,

Capitulaciones

que presenta

ai Rey

la isla de

(8)

A. R. M., C. M.F., Tombo Velho,

fi.

178,

5

de

Dezembro de

1598.

(9)

Ob.

cit .• ed.

de

1949,

123.

eo)

L'fie de Madêre

(

),

Lisboa,

1949,

67.

(11)

«EI

gofio nuestro de cada dia

,

in Estudios Canarios, XIV-XV,

1969-1970,97-99;

corroborado por

M. A. Ladero Quesada (Espana en 1492, Madrid, 1978, 205-218), Eduardo Aznar Vallejo (La lntegracián de las islas Canarias en la corona da -Castilla, La Laguna, t983, 455) e Fernando Clavijo Hernandez « Los documentos

de tletamentos (

surgiu pela primeira vez em Slntesis de la historia economicá de Canarias , Tenerife , 1966. sendo depois reforçada

1970 e em

em Las relaciones mercantiles entre Inglaterra y los archipélagos atlantico ibéricos (

in Historia General de las

Islas Canarias,

,conjoncture

économique et structure sociale en Amérique latine depuis I'époque coloniale

A divisão

Structure Sociales, Hommage à Ernest Labrousse, Paris, 1974,237-251; Vitorino Magalhães Godinho,

.}»

in IV C. H.

C. A

vol. 1,36. A tese de Victor Morales Lezcano, baseada em F. Braudel

) La Laguna,

1960 50 I; Idem,

, in Conjoncture Economique.

Cultivos

e 2 )

dominantes y ciclos agrícolas en la historia Modema de las islas Canarias

IV,

11-22.

Frédéric Mauro, Le Portugal et l'Atlantique au Xvt!«, siõclet

), Paris,

,

da história de Portugal em períodos

,

in Ensaios !l,

2."

ed.,

Lisboa,

1978.

t2-14.

Deste modo, e em face de uma análise aturada da economia insular, parece-nos que a mesma não se rege por princípios exclusivistas, de acordo com a premência das solicitações externas. Antes pelo contrário, o seu desenvolvimento sócio-económico processou-se de forma variada, sendo a exploração económica dominada por esses vectores dominadores, confrontados com as condições e recursos do meio, com solicitações da economia de subsistência. É difícil, senão impossível, conseguir definir um ciclo em que impere a monocultura de exportação, num espaço amplo e multifacetado como é o mundo insular, ou em cada arquipélago em particular. O espírito de inter-ajuda atrás enunciado é a prova cabal disso. Os modelos, embora perfeitamente delineados, não se ajustam à realidade sócio- -económica, que é extremamente variada e enriquecida de múltiplas matrizes. Embora alguns produtos, como o trigo, o açúcar, o vinho e o pastel, surjam em épocas e ilhas diferenciadas como os mais importantes e definidores das trocas externas, não são os únicos na economia insular. A análise dos produtos na exploração agrícola comercial do mundo insular comprovará esse facto.

2.

AS ÁREAS INSULARES A EXPANSÃO E O COMÉRCIO NO ATLÂNTICO: AS ROTAS DE NAVEGAÇÃO E COMÉRCIO

A valorização do Atlântico nos séculos XV e XVI conduziu a um intrincado liame de

e).

importantes e duradouras de todas as

e).

rotas de navegação e de comércio que ligavam o Velho Continente ao litoral atlântico

Esta multiplicidade de rotas resultou das complementaridades económicas e de formas de exploração adoptadas. Se é certo que esses vectores geraram as referidas rotas, não é menos

certo que as condições mesológicas deste oceano, dominadas pelas correntes, ventos e

tempestades, delinearam o seu rumo e). As mais

traçadas neste mar foram sem dúvida a da Índia e a das Índias, que galvanizaram as

atenções dos monarcas, da população europeia e insular, dos piratas e corsários.

No traçado de ambas situava-se o Mediterrâneo Atlântico com uma actuação primordial na manutenção e apoio à navegação atlântica. As ilhas da Madeira e das Canárias surgem nos séculos XV e XVI como entrepostos para o comércio no litoral africano, americano e asiático. Os portos principais das ilhas da Madeira, Gran Canaria, La Gomera, Hierro, Tenerife e Lanzarote animam-se de forma diversa com o apoio a essa navegação c comércio nas rotas da ida, enquanto os Açores, com as ilhas de Flores, Corvo, Terceira e S. Miguel, surgem como a escala necessária e fundamental da rota de retomo. Segundo Pierre Chaunu a rota das Índias de Castela assentou em quatro vértices fundamentais: Sevilha, Canárias, Antilhas, Açores (4). Nesse traçado, portanto, a Madeira mantinha-se numa posição excêntrica, pois apenas servia as rotas portuguesas do Brasil e da costa africana. As dificuldades do espaço entre as Canárias e Castela, devido ao golfo de las Yéguas (ou golfo das Éguas), em consonância com o prolongado percurso até às Antilhas, fizeram das Canárias uma escala obrigatória e imprescindível para a carreira das Índias (5). Aí as

e) Avelino Teixeira da Mota, «As rotas marítimas portuguesas no Atlântico de meados do século XV ao

penúltimo quartel do século XVJ.>, in Do Tempo e da História, III, 1970, 18-19: Frédéric Mauro, «Les routes

océaniques et la domination de I' Atlantique», in Études SUl' /' expansion portugaise 98, 106,

Joaquim Navarro y

Morgado, Navegacián dei oceano Atlantlco( , , ,), Madrid, 1876: Derrotero de las islas Canárias y orchipiélago de la Modera, Madrid. 1864; Glyn Daniel, The Atlantic Seaways (as rotas do Atlântico), Lisboa, 1961, sep. do «Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa". Julho-Setembro de 1961: Ed. le Danais, L' Atlantique. Histoire et

vie

1500-1900, Paris, 1970,

(2)

Pierre et Hughette Chaunu, Séville et l'Atlantlque , t.

océan,

Paris,

1939,

150-184,

VII,

18-21;

t.

VIII, 349;

d'un

e)

São múltiplas as obras e estudos sobre as carreiras da Índia e Índias. Sobre a carreira da Índia e rotas

portuguesas no atlântico citaremos: Gabriel Pereira, Roteiros portugueses de Lisboa fi índia /lOS séculos XVI e XVII. Lisboa. 1898: Frazão de Vasconcellos, Subsídios para a história da carreira da lndia ao tempo dos Filipes. Lisboa, 1960. António da Silva Rego, "Viagens portuguesas à Índia no século XVI», in, Aliais da Acad;mlll

Portuguesa de História, " série. vol. V. 1951. \09-242; Virgínia Rau , «Les escates de la carreira de India

in X Colloque Maritime, Bruxelas. 1968; Avelino Teixeira da Mota, Jorge Borges de

(XVo-XVIIIo siécle)

Macedo c Frédéric Mauro.

129-151: José Roberto do Amaral Lapa. "Variação triangular da rota do Cabo (séculos XVI, XVII, XVIII). in

lbidem , XXV.

Coimbra. XXV\, 1978. 137-144, Sobre a Correra de las índias veja-se: Pierre Chaunu, art . cit.; Francisco

Sevillu, Canarias y América". in Historia General de las islas Cal/ar/as, Il , 225-240: Augustin

, in ibidem, II, 169-174, Uma primeira análise

Morales Padrón

, in Revista da Universidade de

-Les routes portugaises de l'Atlantique , in Anuario de Estudos Americanos XXV, 1968.

"Escalas da carreira da Índia

1968.507-513: Luís de Albuquerque.

Guimerá Ravina. «Canarias en la Carrera de Índias 1564-1778

comparativa das duas rotas foi feita por Artur Teodoro de Matos. "As carreiras da Índia e Índias no século XVI.

VI Coloquio de Historia Canario-Americanu, Las Palmas, 1984 (no prelo),

Esboço de estudo comparativo

in

(4) Sevltlav América, Siglos XVI -" XVI!. 43-48,

(5) Ibldem.'43-54: Francisco Mora1es

Padrón , "Canárias en los cronistas de Índias

,

ln A.E,A

X.

1964.

17

naus faziam aguada, procediam aos necessários reparos e se reabasteciam de lenha e géneros imprescindíveis para a longa caminhada de um a dois meses. As ilhas de Tenerife, Gran Canaria, Hierro, La Gomera e Lanzarote eram favorecidas com essa escala técnica, pois para além de poderem escoar os seus produtos no abastecimento das naus, estava facilitada a sua intervenção no comércio americano (6).

O arquipélago canário, nomeadamente a ilha de Tenerife, mereceu também a preferência

dos navegadores portugueses nas suas viagens ao Brasil, à costa africana e à Indiat"). Assim terá sucedido, por várias vezes, no século XVI, sendo de referir em 1530, a escala da armada de Martim Afonso de Sousa em Tenerife e, em 1563, a viagem do jesuíta Sebastião

de Pinat").

As ilhas Canárias surgem, pois como uma importante base de aprovisionamento para as naus portuguesas com destino ao Brasil, Cabo Verde, Guiné e Angola e, mesmo, como relevantes entrepostos do comércio ilegal de escravos na costa africana (9).

Os ingleses serviram-se igualmente das Canárias como o ponto de apoio para as suas navegações de comércio e corso nas costas africana e americana. Entre 1524 e 1600 contam-se treze viagens em que aportaram a este arquipélago, sendo de salientar a de John Hawkins em 1564 e a de Francis Drake em 1581 eo).

A escala da rota de retorno das principais carreiras oceânicas passava obrigatoriamente

pelos Açores. Este arquipélago surge, desde princípios do século XVI, como o principal ponto de apoio para essa navegação, sendo para os espanhóis as «Canárias de los retomas» (11). Ambas as escalas são imprescindíveis à navegação e comércio atlântico. As dificuldades

e delongas da viagem de retorno implicavam uma paragem retemperadora em pleno oceano,

onde fosse possível reparar os danos das embarcações, fazer o aprovisionamento de víveres

e de água. Por vezes os portos açorianos apresentavam-se como o reduto seguro para a

protecção e defesa de qualquer assalto corsário. Tudo isso oferecerá a praça de Angra, onde

a coroa portuguesa centralizou serviços e infraestruturas de apoio, como a Provedoria das

Armas, a partir de 1527et 2 ) . Segundo o testemunho de viajantes, na segunda metade do século XVI a cidade de Angra, mercê de uma forte rede de fortificações e de bom porto de abrigo, era o principal entreposto comercial do tráfego oceânico na rota de retorno. Pompeo Arditi, em 1567, refere que ilha afluem muitos navios por ser mais cómodo à navegação do que qualquer das outras; por isso nela tocam todos os vindos das Índias orientais e ocidentais, do Brasil, São Tomé, Mina e Cabo Verde, a abastecer-se de mantimentos, parecendo que Deus põe milagrosamente esta ilha no meio de tão grande oceano para salvação dos míseros

211-213; Manuel Lobo Cabrera,

«Gran Canaria y Indias (

Haring, Comercio y navegación entre Espana y las Índias,

h

in IV C.H.C.A., vol. I, 111-128; Clarence H.

México,

1979, 23.

(6) Gaspar Frutuoso (Saudades da Terra. L;" I. 87) refere que o comércio, do vinho em Las Palmas se desenvolveu pela necessidade que havia dele para abastecer os navios da carreira de Indias; veja-se infra II. a parte,

cap. II, sobre o comércio canário-americano.

n Pierre Chaunu, Séville et I'Atlantique, T. VIII, 378-380. (8) J. G. Salvador, Os cristãos novos e o comércio atlântico meridional. S. Paulo, 1978, 241-242.

(9)

Enriqueta Vila Vilar,

"Las Canarias como base

de aprovisionamento de navios

portuguêses», in II

C.H.C.A

vol,

I.

1977, 287,

293;

Idem, Hispanoamerica y el comercio de esclavos, Sevilha,

1977.

e o ) Richard Hakluyt, The Principal navegations (

),

12 vols.,

Glasgow,

1903-1905 (reedição de

t. VIII,

160,

297,

310, 407; t.

IX,

361, t.

X, 11-12,98,

184,204,452; t. XI, 44, 278, 384; J.

W.

1982),

Blake,

Europeans in West Africa,

ataques navales contra las islas Concrias, 5 vols., Madrid, 1947-1950; Idem, Los viages de John Hawkins a

1450-1560. voI. II, Londres,

1946, 250; Antonio Rume~ de Armas, Pirater~as y

Canarias,

Sevilha,

1947.

(11)

Pierre Chaunu, Sevilla y America. Siglos XVI y XVII. 44,

55-58.

(12)

Artur Teodoro de

Matos,

"A Provedoria das

Armadas

da

Ilha Terceira e a carreira da

Índia

no

século XVI,

in

/I

Seminario Internacional de Historia Indo-Portuguesa

(no prelo).

navegantes, que muitas vezes lá chegam sem mastros nem velas, ou sem mantimentos e aí se fornecem de tudo» e 3 ) . Vinte anos volvidos Mosquera de Figueiroa corrobora esse movimento do porto de Angra, dizendo que «es mucho el comercio com las Índias

Orientales y Ocidentalis, por ser escala importantissima para el refresco y refugio de sus

armadas, por tener en si agua en abundancia muy delgada y saludable»

A participação madeirense na carreira das Índias foi esporádica. justificando-se esta

ausência pela posição marginal em relação à sua rota. Todavia a Madeira representa um porto de escala muito importante para as navegações portuguesas para o Brasil, Golfo da Guiné e Índia e s ). Desde o século XV que ficou demarcada essa posição da escala madeirense para as explorações geográficas e comerciais dos portugueses na costa ocidental africana. Esta opção pela Madeira adveio dos conflitos latentes com Castela pela posse das Canárias. A expansão comercial de finais do século XV, com a abertura da rota do Cabo, veio valorizar mais uma vez esta escala aquém equador, surgindo inúmeras referências, em roteiros e relatos de viagens. à escala madeirense e 6 ) . Os mesmos ingleses que utilizaram as

Canárias tocavam com assiduidade a Madeira, onde se proviam de vinho para a viagemt").

e 4 ) .

A Madeira, como as Canárias, muito raramente foi escolhida como escala de retorno

- uma vez que essa missão estava, por condicionalismos geográficos, reservada aos Açores. Todavia verificou-se ocasionalmente a escala das embarcações vindas da Mina.

Índia e Índias na Madeira. Em 1520 o monarca determinava o modo de transporte de carga

da nau de D

Soares. capitão de uma nau oriunda de Mina, reclamava ao provedor da fazenda . Aí atacavam não só as naus do comércio americano e índico, mas também as embarcações do

comércio insular 1581, mas de acordo com a opinião de Filipe II essa prática era assídua nestas últimas décadas do séculor!").

A posição demarcada do Mediterrâneo Atlântico no comércio e na navegação atlântica

fez com que as coroas peninsulares investissem aí todas as tarefas de apoio, defesa e controle do trato comercial. As ilhas eram os bastiões avançados, suportes e símbolos da hegemonia peninsular no Atlântico. A disputa pela riqueza em movimento neste oceano será feita na área definida por elas, pois para aí incidiam piratas e corsários ingleses, franceses e holandeses, ávidos das riquezas em circulação nas rotas americanas e índicas. Uma das maiores preocupações das coroas peninsulares terá sido a defesa das embarcações que sulcavam o Atlântico em relação às investidas dos corsários europeus. A área definida pela

Diogo de Lima, originário da Índia, para o reino, enquanto em 1528 André

e 3 ) "Viagem de Pompeo Arditi

e 4 ) "Conquista da Ilha Terceira em 1583», in Arquivo dos Açores. IV, 281. Idêntica é a opinião de J. H.

», in B./B./.T., VI, 1968, 179.

Linschoot cm 1589 ("História da Navegação (

lo" VI, 1963, 13) c do Pe. Manuel Luis Maldonado (Phoenix Angrense, cit. por Hélder Lima, Os Açores na

), Angra do Heroísmo, 1978, 125-127). Veja-se ainda Marcelino Lima, Anais do

economia atlântica (

)>>, in B.l.H./.T I, 1943, 154) de Gaspar Frutuoso (Ob. ctt

Município

Madrid,

da

1886,

século

XVII

(

Horta,

Famalicão,

1940, 629; Ccsareo Fernandez Duro, La conquista de los Açores en /583,

p.

9; Maria Olímpia

)>>,

in Do Tempo

da Rochu Gil,

I' da Histária,

«O porto de Ponta Delgada e o comércio açoreano no 1970, 67-70.

III,

e s ) Pierre Chaunu,

e 6 ) Em 1508 a armada de Jorge de Aguiar com destino

Séville et l'Atlantique,

t. VIII. 442-448; José Gonçalves Salvador, ob, clt

242.

il Índill pllSSOU pelu Madeira (José Ramos Coelho,

Alguns documentos do Arquivo Nacional da Torre do Tombo acerca das Navegações dos Portuguêses, Lisboa,

1892. 197), Veja-se Luis de Albuquerque, art. cit.,

Portugal et

l'Atlantique ali XVlle siêclc,

490-491.

142; António da Silva Rego. art, cit

81; Frédéric Mauro. Le

(17) J, W. Blake. Europeans in West A/rica. /450-/560, vol. II, Londres, 1942,250,327-328,361,398;

Richard

Hakluyt, ob, cit

e s ) A.N.T.T

C.C

l.

VIII, 424,

II.

89-137.

t.

X,

carta

11-12, 93, 266.

régia

de

26

de

Abril de

1520, Ibidem,

II,

153-26, auto de

requerimento de

17 de Dezembro de 1528.

(19)

Joel

Serrão,

"Holandeses

e

ingleses em portos de Portugal no domínio filipino». in D.A.H.M.,

n.O

3,

9-13.

19

Península Ibérica, Canárias e Açores era o principal foco de intervenção do corso

europeu eo) sobre os navios que transportavam açúcar ou pastel ao velho

Sendo o ouro, a prata e as especiarias orientais os principais alvos da cobiça dos corsários, lógico será admitir que a intervenção destes se fizesse em particular entre os Açores e o Cabo de S, Vicente (22), Foi tendo em conta essa insegurança das embarcações e das ilhas açorianas que, em 1543, Bartolomeu Ferraz traçou um plano de fortificação desse

arquipélago, justificado, segundo ele, "porque as ilhas Terceiras importarão muito assv pelo

que

os franceses sserem tão

Outra e não menos importante preocupação das referidas coroas incidia sobre o comércio ilegal que aí se fazia com as mercadorias do Novo Mundo rê"). Deste modo as necessidades da defesa e da vigilância, bem como da guarda e da protecção das armadas ou frotas implicaram a criação de estruturas capazes de manter com segurança e vantagem o monopólio comercial ibérico. Desde o início da escala das rotas que esta situação de insegurança se evidenciará, pelo que ambas as coroas delinearam, em separado, um plano de defesa e apoio às suas embarcações. Da parte portuguesa promulgara-se em 1520 o regimento para as naus da

lndia nos Açores, no qual se estabelecem as formas de intervenção à chegada das naus da Índia ao arquipélago. Define-se nesse diploma o modo de segurar a mercadoria das mãos do

viagem até Lisboae s). A insu-

ficiência destas prerrogativas tornou necessária e urgente a Provedoria das Armadas da

Índia, Brasil e Guiné, sendo seu provedor, desde 1527, Pera Anes do Canto. Depois, a

partir da década de 30, procurou-se delinear um plano de defesa das principais ilhas do arquipélago, com particular incidência para os portos de apoio de Angra, Ponta Delgada e Horta. Ao provedor competia a superintendência de toda a acção de defesa e abastecimento

açorianos e 6 ) . Além disso a sua

acção de apoio alargava-se à Armada das Ilhas, criada expressamente para comboiar, desde o Corvo até Lisboa, as embarcações vindas do Brasil, Índia e Mina, e a fiscalização do mar dos Açores. No período de 1536 a 1556 há notícia de pelo menos doze armadas terem sido

continente e 1 ) ,

per ssy valem como por serem o velhacoute e socorro muy principal das naos da Índia e

dessarrozoados que justo vel injusto tomão tudo que podem» e 3 ) .

contrabando e corso, o abastecimento necessário para a

das embarcações em escala ou em passagem pelos mares

eo) Avelino Teixeira da Mota,

"As rotas marítimas portuguesas

»,28.

e l ) Só em meados do século XVI os corsários franceses tomaram 30 navios espanhóis e portugueses

), 502. Veja-se António

Rumeu de Armas, oh. cit., Frédéric Mauro, oh. cit., 447; Maria Olímpia da Rocha Gil, O arquipélago dos Açores

IV,

pp. IV-V; Manuel Lobo, Protocolos de Alonso Gutierrez, 11-12; "Defesa da navegação de Portugal contra os Franceses 1552 » , in Arquivo Histórico Português, VI, 1908, 161-168; v. Fernandez Asis, Epistolario de Filipe /I, Madrid, 1943, passim; Antónia Haredia Herrera, Catálogo de las consultas dei Consejo de Indias, 2 vols.,

Madrid,

(22) Há notícia da presença francesa ao largo dos Açores em 1543, 1551, 1552, 1553, 1557-1561, 1571, 1577, 1581, 1583, 1587, 1590-1591. Veja-se nota 21 e A.G.I. Real Ratronato-gobierno, leg. 268, fls. 283-90

«Archivo General de Índias

n.? 45,

e 3 ) A.N.T.T., Cartas Missivas, maço 3, n.? 205, s.d., earta de Bartolomeu Ferraz, pubI. in Arquivo dos

carregados com açúcar para Flandres; M. Mollat, Le commerce maritime normand (

110 século XVII (

1972.

),

Secretaria

de

Estado

307-352; Elias Serra Rafols,

leg.

,

«Introduclón»,

in Acuerdos dei Cablldo de Tenerife,

in Boletim de Fi/moteca Ultramarina Portuguesa, n.? 26, 1964, 68-70; A.G.I

84, Ibidem,

1971,260,

371. doe.

Açores,

V, 364-367.

e

4 ) Eufemio Lorenzo Sanz. oh.

cit.,

voI. II,

123, 127. 330-342.

e s ) A.N.T.T., Leis,

maço 2,

n.?

167, publ.

in Arquivo dos Açores,

II, 29-33.

e 6 )

Artur Teodoro

de Matos,

"A

Provedoria

das Armadas da ilha Terceira (

)>>

enviadas nessa missãot"). E, entre 1531-1535, Duarte Coelho era capitão-mar da armada no Atlântico, tendo-se deslocado em Abril de 1535 com os seus navios aos Açores, onde permaneceu até Julho r'"), Por vezes essa armada não chegava atempadamente aos Açores ou os poucos navios que aí chegavam eram insuficientes para a defesa das frotas, pelo que o provedor era forçado a armar ou fretar embarcações para a referida missão. Assim sucedeu entre 1532 e 1555 por onze vezes e 9 ) . Esta incerteza da vinda da armada das ilhas e a presença constante dos corsários franceses levaram o provedor, em 1537, a apresentar ao monarca um plano de construção de caravelas para a referida armada nas ilhas eo). Aliando a este projecto de criação de uma armada insular surge, em 1543, o plano de defesa dos Açores, traçado por Bartolomeu Ferraz, como forma de dissuasão aos corsários franceses C"). Todavia só muito mais tarde, em face do agravamemto da acção dos corsários nórdicos e franceses, se tornou possível a concretização desse plano de fortificação das ilhas, com a construção dos castelo de S. Brás (1553) no porto de Ponta Delgada, do Castelo de S. Sebastião (1572) na baía do Porto Pipas (Angra) e de um baluarte (1572) na baía da Horta (32). Sendo a Terceira o mais importante porto de escala da Carreira das Índias, os monarcas espanhóis viram-se, por diversas vezes, na necessidade de solicitar o apoio do provedor das armadas às embarcações espanholas que por aí passavam r'"). Mas o menosprezo português ou a necessidade de uma guarda e uma defesa mais eficazes das armadas da América exigiram uma reorganização do sistema de frotas da Carreira de las Indias. Assim desde 1521 estas passaram a representar uma nova estrutura organizativa e defensiva, primeiro com a criação do sistema de frotas anuais armadas ou ocasionalmente escoltadas por uma armada protectora, depois, a partir de 1555, com o estabelecimento de duas frotas anuais para o tráfico americano: Nueva Espãna e Tierra Fiermee 4 ) . Para além desta regulamentação rigorosa das frotas definira-se, desde 1521, a necessidade da sua escolta na área definida pelo Cabo de São Vicente, Canárias e Açores. A partir de então as armadas espanholas passaram a surgir com frequência nos Açores, a aguardar as naus da Índiae S ) .

(27) Ibidem: conhecem-se os regimentos dados em 1572 e 1575 a Pedro Correia de Lacerda, veja-se Artur Teodoro de Matos. Os Açores e a carreira das Índias no século XVI, 965.

1.0 IV, cap. XXI; Maria

Olímpia da Rocha Gil, O Arquipélago dos Açores no século XXVII, 350-352. es) Avelino Teixeira da Mota, "Duarte Coelho, capitão mor de armadas no Atlântico (1531-1535)", in /I Colóquio Luso-Brasileiro de História do Brasil, publ. in Revista das Ciências do Homem, vol. IV, série A,

Lourenço Marques,

Para o conhecimento da acção desta armada confronte-se Gaspar Frutuoso, oh. cit

1972, 301-352.

(29)

Artur Teodoro de Matos,

"A Provedoria

1-49-91, carta régia de

eo) A.N.T.T., C.C.,

das

1 de Setembro de 1532, publ.

armadas da ilha Tereeira(

)" in Arquivo dos Açores,

I,

120-121.

e t ) Documento já citado

e 2 ) A.N.T.T., C.C.

na nota 24.

rei, publ. in Arquivo dos

Açores, III, 18; B.A.P.D. Fundo Ernesto do Canto, ms 10, "Extractos de documentos michaelenses», vol. VIII, n." 219, carta régia de II de Julho de 1572; Francisco Ferreira Drumond, Anais da Ilha Terceira, 1,649; Gaspar Frutuoso, oh. cit., 1.° Vl, 23; G. Perbellini, «Fortificazioni delle isole di Sâo Miguel e Terceira nell'archipé1ago

delle

C 3 ) Assim sucedeu em 1518, 1547, 1548 e 1571; veja-se Artur Teodoro de Matos, Os Açores e a carreira das índias no século XVI, 100-101. No período de 1518 a 1598 há notícia da escala e assistência, por quarenta

vezes, à armada da América na Terceira, tendo-se guardado em terra, por dezoito vezes, ouro e prata. Veja-se

in A.E.A., V, 1959,

445-482.

rV-37-12, 23-III-155I, carta de Manuel Nunes Ribeiro ao

n.?

13, Roma,

1971.

Açores",

in R. Castellum,

ainda Manuel Gonçalves da Costa,

"Mártires jesuítas nas águas das Canárias (1570-157])

,

e 4 ) Eufemio

Lorenzo Sanz,

oh.

cit

vol. II,

275-282.

Há notícia da presença de uma armada real nos Açores em 1530-1532, 1537, 1539, 1552, 1554-1557,

1559.1561,1571,1572,1579-1581,1583,1587, 1590-1598; veja-se Antónia Heredia Herrera, oh, cit., vol , I,

C S )

A escolta das frotas das Índias espanholas mereceu maior atenção da coroa peninsular

nas duas últimas décadas do século XVI, mercê do reforço das investidas dos corsários franceses, holandeses e ingleses. Depois da invasão de Portugal pelas tropas de Filipe II, importantes almirantes da armada espanhola passaram a surgir com assiduidade no mar açoreano a capitanear armadas de defesa e protecção das referidas frotas. Assim, foram incumbidos dessa missão Don Álvaro Bazan (1580, 1590-1591), D. Pedro de Valdés (1581) e o Marquês de Santa Cruz (1587)(36). Conhecida e sistematizada a importância destes arquipélagos na navegação e comércio Atlântico, importa discernir qual o impacto deste movimento na sociedade insular e qual a paricipação dos insulares nesse trato de mercadorias, sob a forma de contrabando ou não. Muitos estudiosos têm afirmado o reduzido proveito de algumas ilhas que desempenharam um papel de relevo neste trato, como sejam as ilhas açorianas. Todavia as principais contrapartidas económicas da intervenção destas ilhas assentam, fundamentalmente, na prestação de serviço a essas rotas. Se a partir da Madeira e das Canárias estava facilitada a actuação dos insulares com o Novo Mundo, por meio da produção local do vinho, cereais e queijo, nos Açores apenas se verificava uma intervenção de apoio ou então uma intromissão no contrabando das especiarias, açúcar, ouro e pratar"). As possibilidades de comércio directo esbarravam com um apertado sistema de vigilância e limitação criadas pelas coroas peninsulares, que impossibilitava seu desenvolvimento. Deste modo para o ilhéu o maior benefício terá resultado de uma remuneração indirecta por meio do abastecimento das

embarcações em escala, da faina de apoio e reparo das mesmas. Pelo menos esta era a situação que se vivia na ilha Terceira, como nos retrata Pedro Frias em finais do

século XVI: «a gente desta Ylhas eram inclinadas a seu jnteresse do qual vjvjam e se sostentavão êj era vemderem has armadas de Castela e de Portugal, as crjações, os frutos, que Recolhjam e os oficjaes suas obras que tjnham p.to pera o tempo das frotas e nam podjam vjver sem esta comunjcaram» e s ).

O aprovisionamento das naus das diversas frotas que sulcavam o Atlântico era uma

preocupação constante das coroas peninsulares, pelo que nos diversos regimentos para as

referidas frotas e para as estruturas de apoio nestas criadas nos arquipélagos era dada a

especial importância

Os arquipélagos madeirense e canário tiveram uma acção muito influente no aprovi- sionamento das naus da Índia em vinho, legumes frescos, carne, água e lenha. No caso das Canárias essa situação é-nos descrita, de modo exemplar, por Gonzalo Fernándes de Oviedo

a

esse

serviço r'").

103,

141, 323-326; vol. II,

ibidem,

passims; V. Fernandez Asis, oh. cit., pp. 100-102.

pp. 34-35, 59-60, 63-64,

148, 349; Artur

vol. I,

Teodoro de Matos,

e 6 )

V. Fernandez, oh. cit., /z.o 673,686,704, 1802, 136, 142; Antónia Heredia Herrera, ob. cit

n.? 870, 872-873 (23 a 24 de Maio de 1581); Archivo General de Simaneas, Guerra Antigua, Legajo 104, doe. 13,17,18,25,148,241 (Junho a Julho de 1580); lbidem, legajo 250, doe. 10,23-27 (Julho a Agosto de 1589). A armada que saíu a 8 de Abril de 1581 era composta de sete navios. dirigindo-se cinco para São Miguel, um para a Terceira e o outro à Madeira ("Archivo General de Sirnancas» in Boletim da Filmotcca Ultramarina Portuguesa,

n.?

"A

Provedoria das Armadas da ilha Terceira

38

a

e 7 )

40,

1969, 29-31).

Artur Teodoro de Matos,

Os Açores e a carreira das Índias 110 século XVI,

; Maria Olímpia da Rocha Gil. ibidem

105-106; Idem.

339-364.

eH)

Pedro

Frias, Crónica

dei-Rei D. António.

Coimbra, 1955, 31.

e 9 ) Tenha-se em consideração o regimento para as naus da Índia nos Açores de 1520, bem como o

regimento da armada capitaneada por Fernão Soares (A.N.T.T. Gavetas, 15-20-1. cit, por José Ramos Coelho,

ob. cit .• 1160-1183). Segundo Luis de Figueiredo Falcão (Livro em que contem toda a fazenda (

1859, 200 e 205) o mantimento e apetrechos de uma nau de quinhentas e cinquenta toneladas com duzentos e cinquenta soldados e cento c doze tripulantes orçava em trezentos e cinquenta e quatro mil reis. Sobre a alimentação a bordo veja-se: Moreira Braga, "Perspectiva sobre a alimentação a bordo de uma caravela portuguesa no século XVI», in Aliais do Clube Militar Naval. n.? 113, 1983.381-390; Jean Merrien, A vida quotidiana dos

), Lisboa,

Marinheiros

no tempo do Rei-Sol.

Lisboa, s.d.,

87-90.

em 1534: «Tornando el viaje deste camino de muestro Índias, digo pues que de una destas siete islas en especial de Gran Canaria, o la Gomera, o la Palma (porque estan en mas derecha derrota y alproposito, e som fertiles a abundan de abastimentos y de lo que conviene a los que esta larga navegación haccen tomam alli los navios refresco agua e lena e pau fresco e gallinas, e pescados sallados e pagos que las naos saean de Espana» (40). Na Madeira habitualmente faziam escala as naus portuguesas da rota da Mina, Brasil e Índia, que aí se abasteciam de vinho e lenha; por vezes, muitas embarcações espanholas também apartavam à ilha antes do habitual refresco das Canárias. Assim sucedeu em 1498 com a expedição de Colombo (41). Esse serviço de apoio às embarcações portuguesas era assegurado e pago pelo provedor da Fazenda da Ilha (42). Dele apenas se referencia, em 1517, a entrega de oitenta arrobas de lenha a uma nau que se dirigia à Índia e do envio ao reino, em 1531, de duzentas pipas de vinho para a frota da Índia (43). Por vezes as embarcações escalavam a ilha para tomar o vinho necessário para a viagem. Aliás não foram só os portugueses que utilizaram o vinho madeirense na ementa das naus que sulcavam o Atlântico, pois também os ingleses o fizeram por diversas vezes; é o caso, em 1533, da escala de Richard Eraen na sua viagem à Guiné, que tomou algumas pipas de vinho no Funchal (44). A Madeira também provia as embarcações de retomo que por aí passavam; assim sucedeu em 1528 com uma nau régia capitaneada por André Soares, procedente de Mina, que recebeu do provedor da fazenda biscoito, pescado, azeite e vinho para sustento dos dezoito tripulantes, no período de vinte dias de viagem até Lisboa (45). As embarcações régias que iam à Madeira carregar açúcar para o reino ou principais praças italianas e flamengas eram igualmente abastecidas pelo almoxarifado dos quartos e quintos conforme a duração da viagem e número de tripulantes (46). De acordo com o regimento de 1520 o almoxarifado do Funchal deveria assegurar o reparo e abastecimento dos navios. Esse aprovisionamento era atribuído de acordo com a demora do percurso; assim, os que se dirigiam ao reino recebiam mantimentos para vinte dias, sendo de quarenta dias para poente e sessenta para o levante (47); esses mantimentos consistiam em carne, peixe, biscoito e vinho e eram distribuídos em rações individuais à tripulação. Em 1508 há informação da ração completa da nau «S. Martinho» com quarenta e cinco tripulantes que se dirigia para o levante; cada tripulante recebeu duas arrobas de biscoitos, dois almudes e meio de vinho, duas pescadas e meia e uma arroba de carne (48). Nos Açores, desde 1520 que o referido abastecimento às naus da Índia, Brasil, Mina e Guiné fora regulamentado, ficando essa missão a cargo do provedor das armadas. O dinheiro para essas despesas era retirado das receitas do almoxarifado de Angra, tendo-se fixado em 1539 no valor de quarenta mil reais o quantitativo máximo a despender nesse serviço (49).

vol.

(40) G. Fernandez de Oviedo, I, lib. 2, cap. 9, p. 36, cit. por Pierre Chaunu, Sévllle et 'Atlantique, t. VIII, I, 354(4).

(41)

Bartolomeu de Las Casas, História de Las índias,

vol. I, México.

1981, 496-497.

(42) A.N.T.T., C.C dos contos.

11-87-162. 20 de Fevereiro de 1520. treslado do regimento do almoxarife e oficiais

(43) lbidem,

II, 69-71, 25-IV-1517; ibidem, 11-166-13. 9-XII-1530.

(44) J. W. Blake, ob. cit vol. II. 314.

(45) A.N.T.T., C.C

II-I 53-26,

17-XII-1528.

n." 903, foI. 12; Idem, C.C., II-72-Il. 20-VII-1508; Ibidem, II-15-52, 30-VIII-1508;

lbidem, II-159-28, 7-X-1529. (47) Ibidem, II-87-162, 20-II-1520. (48) lbidem, I1-15-52, 30-VIII-1508.

B.P.A.P.D., Fundo Ernesto do Canto, ms 78, t. I. l ." parte. fls. 2-2 v." e I. I, 2. a parte, fls. 42-43,

provisões de II de Agosto de 1539 e 19 de Maio de 1548. Por vezes há até grandes dificuldades no pagamento.

Veja-se Artur Teodoro de Matos, "A Provedoria das Armadas na ilha Terceira

(46) Idem. NA

(49)

»

Em 1523 o refresco da caravela "Santo António», capitaneada por Pedro Camelo, custou

quatro mil e seiscentos reais, tendo o dito recebido seis carneiros, duas dúzias de galinhas,

uma arroba de azeite,

A assiduidade da escala terceirense, a partir do fim do segundo quartel do século XVI, aliada à conjuntura difícil da produção cerealífera terceirense, vieram causar dificuldades à acção de reabastecimento das naus. As insuficiências de gado, pescado e trigo na Terceira

obrigavam o provedor das armadas a adquirir estes produtos nas ilhas vizinhas, designa-

damente em S.

Em certa me-dida, e de acordo com a opinião do Pe. Manuel Luis Maldonado, esta

escala apresentava-se proveitosa para o burgo angrense, uma vez que com ela se adquiriram

pão fresco, madeira e lenha (50).

Miguel, S. Jorge, Faial e Pico (51).

moeda e

Todavia, a imposição da obrigatoriedade do fornecimento das naus em escala da armada das ilhas apresentava-se como um pesado encargo para os açorianos.

metais preciosos a troco de carne, panos, fruta, pão, vinho, legumes e peixe (52).

(50) A.N.T.T"

C.C.,

III-7-111, 27 de. Julho de 1523, carta de Pero Camello Pereira ao contador, com

recibo, publ. Arquivo dos Açores,

II, 42.

(51) Gaspar Frutuoso, oh. cit., L." VI, 13,57-59, Artur Teodoro de Matos, «A Provedoria das Armadas da

; Alberto Vieira, «A questão cerealífera nos Açores nos séculos XV-XVII (,. ')", in Arquipélago,

ilha Terceira

série História e Filosofia, vol. VII, 1985, 135-136, 142-143.

(52) B.P.A.A.H., Fenix Angrense, alento 3. 0 , fl. 96, cit por Artur Teodoro de Matos, Os Açores e a

104; B.P.A.P.D., Fundo Ernesto do Canto, ms. 29, fls. 7-21, 28-II-1574,

carreira das índias no século XVI,

carta do colégio de Angra para as mais províncias.

4

SEGUNDA PARTE

PÀ<ilNA r~ BI!ANCO

o COMÉRCIO INTER-INSULAR

I. FACTORES

O comércio no mercado insular depende da intervenção de múltiplos factores, activa-

dores ou não do sistema de trocas. Assim, se os produtos surgem como o elemento justificativo e vitalizador das trocas comerciais, não são por si só suficientes para a sua

manutenção. Torna-se, pois, necessário a criação de condições que as favoreçam, como os meios e vias de comunicação adequados, agentes habilitados para os diversos serviços e instrumentos de pagamento ajustados ao volume e duração de trocas. O comércio surge neste contexto como uma consequência lógica de todos esses condicionalismos e o seu nível de desenvolvimento dependerá em muito do estádio atingido por esses factores. Nesse sentido o comércio é, ao mesmo tempo, consequência e causa do desenvolvimento da sociedade e economia insulares, pois resulta de um determinado estádio de desenvolvimento dos factores assinalados e, simultaneamente, influencia estes, bem como a sociedade insular, em geral. Terá sido o surto do comércio açucareiro que, na Madeira e nas Canárias, condicionou o desenvolvimento de infraestruturas portuárias e a valorização patrimonial dos principais centros urbanos. O mesmo sucedeu na ilha de

S. Miguel com

Esta actividade, que mereceu a adesão dos ilhéus e encontrou os mecanismos adequados

a um elevado nível de desenvolvimento, não era alheia às venalidades da economia

atlântica, bem como aos obstáculos naturais e humanos. O europeu impõe e domina os circuitos de troca, fazendo desta área uma região periférica definida como um mercado de reserva para as suas necessidades mercantis. Além disso as coroas peninsulares, empe- nhadas num comércio monopolista, intervêm, com assiduidade, por meio da regulamentação exaustiva das actividades económicas, delimitando o campo de manobra dos agentes aí

intervenientes. Esse excessivo intervencionismo, as intempéries, as tempestades marítimas,

a peste, a pirataria e o corso foram os principais responsáveis pelo bloqueamento dos circuitos comerciais em determinadas épocas das centúrias em análise.

o surto

do pastel.

I. I Regulamentação das actividades económicas

O comércio, bem como as mais actividades económicas estavam sujeitos a um controle

e regulamentação por parte das coroas de Portugal e Castela. Para isso contribuiu, em

primeiro lugar, a necessidade de preservar o monopólio real do comércio de determinados produtos em áreas definidas. Em segundo e, em termos restritos das novas áreas de ocupação atlântica, essa intervenção constante da coroa e dos municípios tinha como meta o abastecimento local, bem como a definição dos produtos adequados que merecessem uma troca valiosa no mercado atlântico-mediterrânico. Aí, a coroa, por meio de repartições

adequadas (almoxarifado, provedoria da fazenda) e com a colaboração das instituições locais (a vereação) exercia esse controle e ditava as medidas necessárias ao cumprimento e manutenção da sua política económica. Tendo em conta que a primeira situação mereceu já tratamento adequado por especia- listas de renome, apenas nos deteremos sobre a segunda, encarada, é certo, ao nível do mercado insulare).

A economia insular, como vimos, estrutura-se na consonância dos vectores marcantes

da política expansionista europeia, com as diferenças ou as assimetrias resultantes da estrutura do solo, do clima e do seu posicionamento geográfico. Todo este conjunto de factores definirá um processo peculiar de cada grupo destas ilhas. De acordo com esse dimensionamento teremos a definição e regulamentação das actividades económicas da sociedade insular. Há necessidade, por parte das administrações central e insular, de exercer um estrito controle destas actividades nos seus múltiplos aspectos, no sentido de assegurar o cumprimento de uma dada política, acima referida. Esta preocupação é constante e abrange todos os sectores de actividade. As autoridades municipais e régias intervêm na produção, no processo transformador das matérias-primas, na distribuição e no comércio dos produtos locais e estrangeiros. O município legisla sobre a forma de postura e de acórdão, regulamentando com minúcia todas as actividades sectoriais acima enunciadas; a coroa, por sua vez, através das instituições próprias, intervém por meio de regimentos e alvarás. Deste modo os produtos e as actividades que definem a economia de subsistência e de mercado sujeitavam-se ao intervencionismo municipal e régio; esta actuação regia-se pelos princípios básicos da comunidade insular de provisão, qualidade, preço, peso e medida adequados desses produtos. As repartições régias surgem, muitas vezes, como mecanismos coarctivos, tendo como finalidade básica a defesa do património real. A sua acção tem como princípio impedir a vigência e generalização de práticas fraudulentas e lesivas desse património. O contrabando surge, neste circuito, ao mesmo tempo como causa e consequência deste apertado sistema de controle de produtos no mercado insular, pois, como é bem sabido, a excessiva regulamentação dos mecanismos de troca, para além de entorpecer e de retardar esta, cria 0'1 toma inevitável o aparecimento de circuitos paralelos. Ao mercador insular e europeu não satisfazem estas medidas intervencionistas da coroa e do município, pois limitam o seu restrito campo de manobra e oneram a sua acção; daí que ele actue de modo a poder ter uma intervenção activa na formulação das normas, ao mesmo tempo que se serve de subterfúgios para contrariar as leis e normas vigentes. Como atrás enunciamos, este intervencionismo é geral, uma vez que atinge os vários sectores de actividade: produção, actividade artesanal ou transformadora e comércio. De seguida daremos conta dessa intervenção, de modo separado, de acordo com os referidos sectores de actividade e com os produtos, ou seja, com as componentes da economia insular.

Produção

A intervenção das autoridades inicia-se com a distribuição das terras para arrotear, em

que se define não só o proprietário, a forma de sucessão e os limites das arroteias, mas também os produtos adequados para o seu cultivo e). Esta última situação resultava, em

e) Para Portugal veja-se Fernando Navais, Estrutura e Dinâmica do Sistema Colonial (séculos XVI-XV/lJ.

Lisboa, 1978; Manuel Nunes Dias, O capitalismo monárquico português, 2 vols, Coimbra,

1964. Para Espanha

temos: C. H. Haring, Comercio y navegacián entre Espana y las Índias. 2." edicão. México, 1979; Francisco Morales Padron, EI comercio canario americano (siglas XVI. XVlI Y XVlIl) , Sevilha, 1955: Idem. Sevilha Canarias y America, Gran Cariaria, 1970, Eufemio Lorenzo Sanz, Comercio de Espana com America en la época

de Filipe

e) Acerca da

1/,

2 vols.

Valladolid,

1979-1980.

repartição

das

terras veja-se Fernando Jasmins

Pereira, A ilha

da Madeira no período

primeiro lugar, de política expansionista europeia e, em segundo, da necessidade de assegurar a subsistência das ilhas. No primeiro caso salienta-se o lançamento de produtos coloniais, componentes fundamentais do comércio atlântico: o açúcar e o pastel. O mesmo sucede no segundo, com a transplantação dos componentes fundamentais da dieta europeia- -mediterrânica: a vinha e os cereais.

De

acordo com

estes dados

temos conhecimento de algumas situações bem claras.

Assim, na Madeira, em 1492, recomendava-se o plantio das terras aráveis com trigo ou cevada enquanto, em 1508, se ordenava que «se nam rompa em toda essa ylha terra pera se

em ella se ave r de lavrar e semear pam nem pera outra alguüa cousa somente pera se

fazerem

terras de cultura estavam reservadas para o trigo e pastel, principais produtos da economia micaelense (4). No que respeita às Canárias é significativa a actuação dos governadores de Tenerife e Gran Cariaria, o primeiro apostado na cultura da cana do açúcar e o segundo num conjunto de culturas capazes de assegurarem a subsistência e um comércio rendoso (5). O incentivo à produção açucareira, na Madeira e nas Canárias, derivava das facilidades do seu rápido escoamento e, igualmente, da criação de condições para o normal andamento das tarefas agrícolas e da laboração dos engenhos; por isso se regulamentou o uso das águas, a construção de levadas, o corte e o transporte da lenha e o reparo dos engenhos (6). Definido o proprietário, o regime de exploração e o produto adequado ao solo e às necessidades do momento, não estava ainda concluída a intervenção das autoridades, uma

canaveaes pera açuquares» e). Na ilha de S. Miguel definira-se, em 1532, que as

henriquino. Lisboa. 1959. Sep. de Ultramar; Id

Madeira (capitanin do Funchul, século XV). Coimbra. 1959, pp. 87-115; Eduardo Aznar Vallejo , La integracián de las islas Canarias en la <'01'0110 de Castllla (/478-1526), La Laguna, 1983; Elias Serra Rafais, Las datas de Tencri]e, La Laguna. 1974, Elias Rafols e Leopoldo de La Rosa, Reformacián deI repartimiento em Teneri]e em

1506. La Laguna de Tenerife, 1963; Scbasuin Jiménez Sanchez, Primeros repartimientos de tierras y aguas en

Grun Canaria, Las Palmas, 1940. e) A.R.M. C.M.F" Registo geral, t. I, fls , v." ; 291. Regimento sobre a lenha dado à Madeira em J8 de

Agosto de

B.r.A.p.D., C.P.A" L.0 3 de registo, fi. 98 -». Note-se que em 1576 o elevado preço de carne em

Ponta Delgada era justificado por seu termo ser «caje toda a terra delle aproveitada de pastes e terras de parn», (Id., ibidem, L."4 11. 83 v.", «capítulo de uma carta régia àcerca do talbo da carne", publ. in Arquivo dos Açores, vol. III, p. 55). (5) Veja-se Emma González Yancs, -Irnportación y exportación en Tenerife, durante los primeros anos de la conquista (l497-1503)", in Revista de Histário, n." 101-104. pp. 79-91; Leopoldo de La Rosa «EI repoblamiento do los Reinos de lcod y Dautc», in Estudios Cunarios XIV-XV, 1968-1970, 35-43 Manuela Marrero, «Los

l1amengos en los cornienzos hispânicos de Tcnerifc». in Studi ln memoria di Frederigo Melis, t. 1II,1978, pp. 587-588; idem, «Algunas consideracloncs sobre Tcncrife cn el primer tercio dei siglo XV]", in A.E.A" n." 23

Alguns elementos para (1 estudo da Histária económica da

1508,

publ,

iII A,H.M"

Vol.

XVIII,

1974,

p. 508.

(4)

1977,

pp.

373-374.

As datas de terra em Tenerife documentam de modo esclarecedor essa situação. Veja-se Elias Serra Rafols,

Las

datas de Tencri]e,

La Laguna,

1974.

(6)

Na Madeira a regulamentação do corte de árvores foi estabelecida pelos regimentos de 15 de Janeiro de

1515,27 de Agosto 1562 (Veja-se Álvaro Rodrigues de Azevedo, «Anotações" in Saudades da Terra. Funchal, 1873, 436-471). As posturas da câmara do Funchal de 1587 apresenta um título sobre os engenhos cm que se

rcgulumenta o transporte de lenha e madeiras para os engenhos (A.R.M., C.M.F" Livro de Posturas, 11. 68-71).

O mesmo sucede em Tenerife e Gran Cunaria. Veja-se Miguel Angel Ladero Quesada, «Ordenanzas municipales

y regulacion de la actividade ccónomica en Andalucia y Canarias. Siglos XIV-XVII", in II C.H.C.A" vol. II, pp. 142-156. Quanto às águas, na Madeira e regulamentação da sua distribuição e aproveitamento fez-se desde os

inícios do povoamento com o Infante D. Fernando, em 1461, seguindo-se outras medidas legislativas no mesmo sentido. Veja-se Álvaro Rodrigues de Azevedo, ob clt., p, 673; Fernando Augusto da Silva, «Águas» in

Elucidario Madeirense, vol. I, 1940, pp. 24-25; lei" "Levadas" in oh cit, vol. II, 1945,242-243. Nas Canárias estas mereceram igual atenção das autoridades locais, tendo-se regulamentado a sua distribuição por posturas. Veja-se Marcos Guimcrá Pcraza, Reglmen jurídico de Las aguas en Canarias, La Laguna de Tenerife, 1960; Francisco Morales Padron , Ordenanzas del conccjo de Gran Canaria (l53/), Las Palmas, 1974, 30; José Peraza

de Ayala, Las Ordenanzas de Tenerife (

), Santa Cruz de Tenerife, 1976, V, 12, VII, VIII, 6; X 1 a 27. Em

Tenerife , o cablldo definira em 1508 não só o modo de funcionamento dos engenhos, por meio de ordenança, mas também a forma de apanhar II cana de açucar. (Acuerdos dei cabildo de Tenerife, II, 1952, n.? 1, p. 1, acórdão de

27 de Maio de 1508; ibld., 13, p. 9, acórdão de II de Agosto de 1508).

29

vez que estas pretendiam não só assegurar a sua manutenção, mas também a qualidade e preços condignos.

A defesa e manutenção da qualidade do produto colhido no solo insular é uma das

constantes da actuação das autoridades régias e locais, atingindo especialmente os produtos da exportação: o vinho, o pastel e o açúcar. A todos se definiam, por regimentos

específicos, as tarefas de cultivo, do cuidado e da laboração final do produto, de modo a que este se apresentasse nas condições e quantidades necessárias para a sua comercialização. Assim, para o pastel aparece nos Açores o regimento de 1536, em que se estabeleciam normas para a sua cultura e laboração, ao mesmo tempo que se criavam cargos de

aldeadores para assegurar o seu

cumprimento e). Idêntica é a situação na Madeira e nas

Canárias com o açúcar, que é alvo de constantes regulamentações e de um controle assíduo dos aldeadores para o efeito eleitos em vereação (8). Deste modo, o monarca D. Manuel, para garantir a boa qualidade do açúcar madeirense de exportação e assegurar o seu crédito

no mercado europeu, ordenara, em 1485, que todo o mestre de açúcar deveria ser examinado e aprovado por três homens bons, ao mesmo tempo que estipulava a obrigato-

riedade de uma vistoria qualitativa ao açúcar, após a sua laboração, por oficiais competen-

tes:

os aldeadorest").

O engenho, estrutura industrial complexa e fundamental para a laboração do açúcar,

era o centro de toda a actividade açucareira e mantinha-se activo os doze meses do ano. Enquanto durava a safra, de Janeiro a Junho, tinha intensa actividade com a laboração do

açúcar; nos restantes meses aproveitava-se a disponibilidade para as necessárias reparações, abastecimento de lenha e víveres para a safra seguinte. Uma mão de obra especializada assegurava as principais tarefas da sua laboração: mestre de açúcar, caldeireiro, purgador, espumeiro, refinador, caixeiro, etc.; entretanto um grupo numeroso de almocreves garantta

a referida laboração,

Deste grupo numeroso de assalariados dependia o funcionamento do engenho e bem assim a qualidade do produto laborado. Daí que as autoridades municipais tenham acautelado esta situação ao regulamentarem exaustivamente, por postura, as principais tarefas. Ao mesmo tempo exigia-se que os ofícios empenhados nessas actividades fossem examinados e aprovados pelas autoridades competentes (11). Francisco Morales Padron refere, a propósito, que nas ordenanças de Gran Canaria (1531) tudo gira em torno do açúcar e 2 ) .

fornecendo

as canas e lenha eo).

«Regimento sobre o beneficiar do

pastel e enleição dos lealdeadores», publ. por Maria Olímpia da Rocha Gil, «Os Açores e a IIOW/ economia de

ainda

Francisco Carreiro da Costa, A cultura do pastel nos Açores. Subsídios para a sua história, Ponta Delgada, 1966,

(7)

L. 0 de registo,

1568-1603, fls.

191-195,

13 de Outubro de 1536,

mercado (séculos XVI-XVl/) , in Arquipélago, III, 1981, Série Ciências Humanas, pp. 393-400. Veja-se

Sep.

(8) Para a Madeira veja-se Fernando Jasmins Pereira, Alguns elementos para a História Económica da

), pp. 107-115, 129-138; Maria do Carmo Jasmins Pereira Rodrigues, O açucar na ilha da Madeira

(século XV/), Lisboa, 1964, pp. 38-46. Para as Canárias temos; Maria Luisa Fabrellas, "La produción de açzucar

Madeira (

do B.C.R.C.A

n.? 4 (1966).

en

Tenerife

in Revista de História, n.? 100 (1952),468-469; Guilhermo Camacho y Perez Galdós, "EI cultivo de

la

cana de azúcar y la industria azucarera en Gran Canaria (1510-1535)

in A.E.A

n.? 7, 1961, 37-38.

(9) A.P.M., C.M.F., Registo Geral, t. I, fi. 219, 17 de Dezembro de 1485, Regimento sobre aldeamento do

XV, pp. 192-195. Para o conhecimento da orgânica de funcionamento desta prática

veja-se Fernando Jasmins Pereira, ibid., 134-137; Maria do Carmo Jasmins Pereira Rodrigues, ob, cit., pp. 40-46.

A negligência dos aldeadores e da população em geral obrigaram D. Manuel I a recomendar com assiduidade esta

prática e enviar novo regimento em 1501 (A.R.M., C.M.F., Registo Geral, t. I. fls., 185 v. 0-187, publ. in A.H.M., XV, pp. 416-417. Ao mesmo tempo impunham-se pesadas penas aos infractores, que iam até à perda do açúcar.

açucar, publ. in A.H.M

eo)' Veja-se Guilhermo Camacho y Pérez Galdós, ob cit., 35-39; Eduardo Aznar Vallejo, ob. cit., 392-401.

(11) Para a Madeira foi regulamentado por postura de 1587 (A.R.M, C.M.F

L.0 de Posturas, fls. 68-71).

Nas Canárias temos idênticas posturas em Gran Canaria (Francisco Morales Padron, ibid

(José Peraza de Ayala,

ibid.,

XVI).

27 e 40) e Tenerife

(12) Ibidem,pp. 26-27.

As actividades artesanais

As actividades artesanais estavam organizadas em ofícios, sendo estes regulamentados por leis e pragmáticas régias e ordenanças concelhias (13). Esta intervenção das autoridades, e especialmente a das concelhias, tinha como finalidade assegurar a qualidade de matéria- -prima, dos ingredientes e dos métodos usados na sua laboração, de modo a que o artefacto se apresentasse no mercado com a qualidade desejável; ao mesmo tempo a vereação actuava no sentido de evitar a especulação, definindo uma tabela de preços para os serviços a prestar aos artefactosr!"). Além disso, todo o oficial mecânico deveria ser examinado por um juíz do referido ofício sendo, depois, obrigado a apresentar anualmente fiança e juramento perante a vereação et 5 ) . O município, mercê deste apertado sistema de regulamentação, exarado nas posturas, tinha sob controle todos os ofícios, bem como todas as actividades artesanais e transfor- madoras. Destas algumas houve que, pela sua importância para a vida do burgo, mereceram uma constante vigilância por parte dos almotacés: o moleiro, as padeiras, os vendeiros, as regateiras, os carniceiros sujeitavam-se ao rigoroso controle destes oficiais concelhios et 6 ) ; esta era uma forma de assegurar o fornecimento dos produtos essenciais para a vida do burgo.

357-360. Leopoldo

de La Rosa Oliveira, "Los orígines de la vida municipal en Canárias», in História General de las islas Canarias.

m, pp. 155-172.

et 4 ) Para a Madeira temos nas posturas de 1587 um título de "Sapateiros. tauxa; alfaytes; boieiros; ferradores; oleiros; barbeiros; carniceiros», (A.R.M., C.M.F L,0 de Posturas, fls. 60 v. u-68). Nos Açores essas actividades mereciam idêntica atenção do município, veja-se Urbano de Mendonça Dias, A vida de nossos avós. vol. VIII. Vila Franca do Campo, 1948. 21-133; António dos Santos Pereira, "A administração municipal na Vila das Velas na segunda metade do século XVI". in Os Açores e o Atlântico, séculos XIV-XVlf, pp. 714, 725-726;

(13) Miguel Angel Ladero Quesada, ob. cit

153-154; Eduardo Aznar Vallejo, ob. cit

A,C,M.R.G"

L," 4 de Acôrdãos,

/599,

fi. 45-46 v.", 24 de Novembro.

 

et 5 )

Na

Madeira

temos

um

"Título

das

examinaçôes

fianças.

juramentos».

A.R.M .•

C.M.F.,

L.0

de

Posturas, fls. 31-32 v:", Nos registos das vereações deparamos com uma referência à eleição em vereação dos examinadores dos mestres de açúcar. A.R.M,. C.M.F n.? 1302, 1497, fi. 98-100 v.", vereação de 18 de Janeiro de 1497. O juiz para o exame dos ofícios era eleito entre os membros de cada corporação ou então pelos oficiais de câmara. A 31 de Dezembro de 1596. na Ribeira Grande procedeu-se à eleição do juiz dos sapateiros (A.C.M.G.R. L,°2 dos Acárdãos, /596, fi. 34). Além disso a aprendizagem do ofício era igualmente autorizada pelo município (A.C.M.R.G .• L,0 3 de Acárdãos, /578, fls, 139 v.", 18 de Outubro). Veja-se ainda. Urbano de Mendonça Dias. ob, cit., vol. VIII, pp, 40, 47-48, A questão da cxamínação dos ofícios na Ribeira Grande deu azo a acesa

polémica a respeito dos moleiros; o litígio surgiu em 1578 em face das reclamações da população e dos moleiros contra Manuel Afonso; a vereação tomou primeiro a iniciativa de sugerir ao dito Manuel Afonso que solicitasse ao juiz dos moleiros, Afonso Luis. os necessários ensinamentos, e depois, de acordo com as posturas, passou a prover os moleiros para os vários moinhos da vila (A.C.M.R.G .• L, o 3 de Acôrdãos, /578, fls., 101-106. 28 de Julho; lbid. fls. 119 v,o 122. 3 de Setembro); para impedir qualquer desvio recomenda ainda ao juiz examinador que o exame se faça na presença de vereação (lbid, fi, 122 v.", 13 de Setembro). Saliente-se que os moleiros constituiam um estrato sócio-profissional muito importante no município da Ribeira Grande, pois esta era uma das principais zonas de produção de trigo e aí estavam sediados a maior parte dos moinhos da ilha, Sobre as fianças

veja-se A,R,M., C.M.F

Ibidem, n.? 1299, fls. 124-128; lbidem, n.?

n.? 1297, fls. 44 v.o-45, 20 de Abril de 1482; lbidem, n.? 1298, fls. 154 v.o-156;

\300. fls. 234-247; A.C.M.R.G .• L,o 3 de Acórdãos. fls. 12 v. o-14.

19-28 v .",

Idem,

L," 2 de Acárdãos,

fls. 40-60;

Idem, L.O 4 de Acôrdãos,

fls.

74-139.

et 6 ) Na Madeira temos uma postura para os moleiros e outra para as padeiras. A.R.M .• C.M.F

L.0 de

Posturas. fls. 25-30 v.", 16 v.o-25. Nos Açores há igualmente referência a essa actuação, nomeadamente na vila da Ribeira Grande, A.C.M.R.G., L,0 3 de Acôrdãos, /578, fls. 101-106.28 de Julho; lbid., fls. 119 v.o-I21, 3 de Setembro. O mesmo sucede na Vila elo Topo em S. Jorge; A. Santos Pereira, ob, cit., p. 714. Para as Canárias

veja-se Eduardo Aznar Vallejo, ob, cit., pp. 389-391.

31

o comércio

As coroas de Portugal e Castela exerceram um rigoroso controle sobre o comércio com

as s~as colónias no AtI~ntico. Através de Lisboa e Sevilha os dois impérios atlânticos

mantinham um regular sistema de controle das rotas e do comércio. As ilhas atlânticas

posicionadas estrategicamente nesse trama de relações económicas, viram assim toda a economia condicionada por uma política intervencionista e proibitivat!").

Deste modo nas Canárias, área charneira para o relacionamento com as Índias de Castela, a coroa, por intermédio da Casa de Contratacción de Sevilha, exercía um assíduo e rigoroso controle nas ligações entre este arquipélago e o novo continente. O seu objectivo era impedir a quebra do monopólio andaluz e evitar o contrabando de nacionais e estrangeiros, com o ouro, prata e açúcar das Índias. Até 1564, altura em que foi criado o lugar de juiz de registo, o comércio feito a partir das Canárias estava sujeito a autorizações especiais, por um determinado períodor "). Idêntica é a situação relativamente à Madeira e aos Açores, em relação ao comércio no litoral atlântico e, nomeadamente, com o Brasil a partir do século XVII. No período da união das duas coroas tornou-se possível nos três arquipélagos uma política concertada de defesa do exclusivo comercial hispânico et 9 ) .

O mercado insular, pela sua importância no contexto da economia europeia-atlântica,

mereceu igualmente a intervenção da coroa: esta, por meio das diversas repartições régias existentes nas ilhas, exerceu um rigoroso controle sobre o movimento de troca entre o

próspero mercado destas e o da Europa mediterrânica e atlântica; tal intervenção não deriva

só da necessidade de assegurar a arrecadação dos direitos reais, mas também do exercício do

domínio exclusivo do comércio insular. Assim a fiscalidade e a tendência monopolista-

-intervencionista ditaram o aparecimento de instituições próprias: o almoxarifado e a alfândega, o primeiro com a superintendência de arrecadação dos direitos reais e a segunda com a finalidade de regular as entradas e saídas e de arrecadar os respectivos direitostê'').

A alfândega surge como a mais importante instituição para regular e controlar as actividades

de troca, sendo uma das vias mais adequadas para o controle do comércio insular. Na

Madeira a alfândega surge, desde 1477, como uma necessidade de organizar a actividade

fiscal e de regular o

ano os serviços de fisco, criando duas alfândegas, uma na capitania do Funchal e outra na

trânsito de mercadorias e 1 ) . A infanta Dona Beatriz organizou naquele

e 7 ) Fréderic

Mauro, Le

portugal et l'Atlantique ali XV/Je siêcle

(

),

Paris,

1960, 433-448;

Victor

Morales Lezcano, Relaciones Mercantiles entre Inglaterra y los archipélagos dele Atlantico (

), La Laguna,

1970.

e s ) A primeira autorização data de 1535, tendo-se permitido a carga dos produtos locais por um período de dois anos (Reales Cédulas, 2, n.? 52, 1535) sumariado por Leopoldo de la Rosa, «Catálogo dei Archivo Municipal de La Laguna » , in Revista de História, n.' 101-40 3 115-116; Fransisco Morales Padron, «Fundos Canarios en el Archivo de Índia», in A.E.A., n.? 24-25; Idem, Cedulario de Canarias, 3 vais. Sevilha, 1970; Eduardo Aznar Val1ejo, ob. cit., pp. 315-317; Francisco Morales Padron «Las relaciones comerciales canario- -americanas», in Historia General de las islas Canarias, III, pp. 317-329. As referidas ordenanças, leis e regimentos foram condenadas no livro VIII título XXXXI «Dei comercio, y navegacion de las íslas de Canária», in Reconpilación de leya de los regnos de las Indias, UI!. Madrid. 1943, (19) Veja-se Artur Teodoro de Matos, Os Açores e a carreira das Índias no século XVI: Lisboa, 1983, Sep. de Estudos de História de Portugal, vol. Il, séculos XVI-XX. Note-se que em 1595, 1598 e 1629 o monarca

proibira a descarga das naus das Índias no Funchal (A.R.M., C.M.F

fls. 22 v. °-23). e 9 ) Urbano Medonça Dias, A vida de nossos avós, vol. II, Vila Franca do Campo, 1964, 57-110; Eduardo

Aznar Val1ejo, ob, cit., pp. 121- 141. O primeiro foral e regimento doalmoxarifado da Madeira data de 4 de Julho

de

Registo Geral,

t. III,

fls.

216 e 253; t.

11-44.

VI,

1499, a que se seguiu o foral novo de 1515. Veja-se Utbano de Mendonça.Dias, Ibidem, pp.

e l )

Femando Jasmins Pereira, ob. cit., pp.

183-193; Álvaro Rodrigues da Azevedo, ob. cit., pp. 596-601.

de Machico; entre esta data e 1483 estes serviços adquirem uma orgânica adequada ao

volume das trocas madeirenses e 2 ) .

Em finais do século XV e princípios do seguinte o desenvolvimento do comércio do açúcar implicou a criação de novas alfândegas na Ribeira Brava, Ponta de Sol e Calhetae 3 ) . Com a alfândega nova no Funchal, a partir de 1508, todo o serviço de exportação do açúcar passará a fazer-se por aíe 4 ) . O monarca, ao estipular esta medida, em 1512, aduzia em seu favor a perda que a coroa tinha com a arrecadação dos direitos em diversas localidades e s ). Até princípio do último quartel do século XV o movimento de carga e descarga, no calhau do Funchal, fazia-se na presença dos oficiais do duque ou dos seus rendeiros; desde então o juíz da alfândega, com os almoxarifes e os escrivães, passará a controlar toda essa actividade, lançando os direitos de acordo com o regimento; a partir de 1497 o despacho dos

navios era

Se os alvarás e os forais concediam aos naturais o privilégio de isenção da dízima das mercadorias de e para o reino, o mesmo já não sucedia com os estrangeiros que, para além de estarem sujeitos ao pagamento desse direito, viam limitada a sua acção com as medidas proibitivas da coroar?"). Assim, para além da interdição de vizinhança, estes viram restringidas as suas possibilidades de comércio pelos contingentes de 1483 e 1485; de facto, os referidos mestres ou mercadores eram obrigados a descarregar a sua mercadoria num prazo de três e, depois, cinco dias, pagando a respectiva dízima; caso contrário perdiam a mercadoria; esteve-lhes também vedada até 1508 a carga na ilha, pois apenas o podiam fazer os naturais e s ). Nos Açores a arrecadação dos direitos reais fazia-se do mesmo modo que na Madeira, regendo-se as referidas repartições pelos regimentos das suas similares do Funchal e 9 ) . No entanto aí elas adquiriram nesse caso uma estrutura mais complexa, e não só também mais adequada à realidade geo-humana como igualmente ajustada à sua importância no contexto da economia açoreana e atlântica. Nas Canárias a fazenda real, transplantada de Castela, organizou-se de acordo com as circunstâncias das ilhas após a conquista e o seu posicionamento no traçado das rotas

supervisionado por um juíz e vereador da câmara do Funchal e 6 ) .

da Infanta

D. Biatriz», pubI.

do principe sobre a

pensam que

p. 116;

apomtamentos sobre hos Dereytos», publ. in A.H.M., vol. XV, pp. 147-156; lbidem, t. I. fls. 270-256, /20 de Março de 1485/, «Apontamentos dei Rey dom Manuell semdo Duque pera esta ylha Da madeyra» pub. in

A.H.M., vol. XV, 147-156, lbidem, l. I, I1s. 270-256 v.o /20 de Março de 1485/,

Manuell semdo Duque pera esta ylha Da madeyra», publ.

(24) Sobre a construção da alfândega do Funchal veja-se José Pereira da Costa, A construção da alfandega

da Universidade de Coimbra»; António Aragão, Para a História

nova do Funchal, Lisboa, 1978, Sep. da

deI Rey dom

e 2 ) A.R.M., Registo Geral, l. I, 11. 231-238 v.", Beja, de 15 de Março de 1477,

in A.H.M.,

vol. XV,

e 3 ) A.R.M., C.M.F

pp.

Registo Geral, T.

ibidem,

79-88.

I,

fi.

8, Beja,

23 de Julho de 1481,

Apontamentos

«carta

levam hos esprivães quando despacham os açuquares na alfândega», publ. in A.H.M., vol.

t.

I,

fls.

238

v.o-249,

Tomar,

Revista

12 de Novembro

de

1483,

«Resposta

do

Duque

Apontamentos

in A.H.M., vol. XVIII. pp,

495-497.

e

XV,

alguüs

do Funchal.

Pequenos Passos para a sua História,

Funchal,

1979,

103-112.

(25) Fernando Augusto da Silva,

Alfândega », inElucidário Madeirense, vaI. I, p. 38. Não obstante já em

3 de Abril de 1509 o monarca em carta ao provedor ordenara a proibição de descarga em Machico, passando esta

a fazer-se apenas no Funchal (A.R.M., C.M.F

capitania de Machico tinha assento em Santa Cruz e manteve-se em funcionamento todo o século XVI. Não

sabemos, é certo, qual a sua forma de organização e actuação após estas medidas centralizadoras. e 6 ) A.R.M., C.M.F., n.? 1302, fl. 108 v.", vereação de 15 de Fevereiro de 1497.

), Coimbra. 1947, 30; Álvaro Rodrigues

de Azevedo, ob. cit., notas XX-XXI. Por carta régia de 1 de Junho de 1439 o monarca concedera a isenção do pagamento da dízima, (Chancelaria de D. Afonso V, L.0 19, fi. 77 v.", publ. J. M. Silva Marques, Os

descobrimentos portuguêses, I, n. o 314, p, 400).

Registo Geral, t. I, 66 v."). Salienta-se que a alfândega da

(27) Jerónimo Dias Leite, Descobrimento da ilha da Madeira (

e s

)

e 9 )

A.R.M., D.A

Urbano Mendonça Dias, ob. cit

ex.

I,

doe.

92.

11, pp. 9-10; Francisco Ferreira Drumond, Anais da ilha Terceira, 1,

481-90 e 550-551; Arquivo dos Açores, VI, 271-280; Maria Olímpia da Rocha Gil, O Porto de Ponta Delgada e o

comércio açoriano no século XVll (

),

pp.

58-60

e 72-73.

5

33

comerciais do Atlântico. Assim, o regime fiscal não se apresentou gravoso, pois a coroa concedera ao arquipélago um regime idêntico ao que se fizera na Madeira e nos Açores, várias isenções e privilégios incentivadores da sua ocupação e do seu desenvolvimento económico eo). Todavia a grande preocupação do legislador castelhano neste arquipélago incidia mais sobre o comércio canário-americano do que sobre o comércio canário em geral. Disto resultaram as constantes ordenanças e instruções da Casa de Contrataccián de Sevilha aos oficiais régios das ilhas deste arquipélago (31).

Legislação

A regulamentação do comércio no mercado insular e deste com as restantes áreas do

Atlântico era uma das competências que os municípios não descuravam na sua acção governativa. Esta intervenção resultava da necessidade de assegurar o abastecimento do mercado local dos produtos essenciais para o quotidiano da comunidade insular; para isso os oficiais eleitos definiam medidas, exaradas ou não sob a forma de posturas, que vão desde a proibição de exportação de produtos locais ao reajustamento e à regulamentação dos circuitos de distribuição e venda, e, mesmo, à proibição de entrada de produtos lesivos da economia concelhia têê). Em síntese, a sua intervenção incidia, fundamentalmente, nos seguintes domínios:

- definição dos locais de compra e venda: a praça pública com o' seu numeroso grupo de lojas e tendas;

- controle dos preços, por meio do tabelamento do preço de venda dos produtos agrícolas, dos artefactos e dos serviços prestados pelos vários oficiais mecânicos;

- controle de pesos e medidas por intermédio de vistorias assíduas dos almotacés;

- proibição de saída dos produtos considerados essenciais para subsistência da

comunidade insular: trigo, gado e derivados, presunto, azeite, cera, cebo, fruta seca

tecidos e

e verde, madeiras,

pipas vazias,

artefactos de importação C'").

A venda de qualquer produto deveria fazer-se em praça pública, nas lojas e tendas,

sendo proibida a venda em casa ou de porta em porta, como era hábito dos bufarinheirose 4 ) .

Os vinhos e a comida no Funchal, em 1541, apenas poderiam ser vendidos nas ruas do

eo) Eduardo Aznar Vallejo, ob. cit., pp. 121-122 e 144; Eduardo Aznar Vallejo e Miguel Angel Ladero

)>>, in IV, C.H.C.A., I, Las Palmas, 1980,79·108; Pedro Cullen dei

Quesada, «La Hacienda Real en CanariasI

Castillo, Incorporacion de la islas y fuero y privilegio concedidos a Gran Canaria,

Las Palmas, 1978.

(31) Em 1573 enviado à ilha de La Palma um oficial real com as necessárias instruções para a carga de

mercadorias para as Índias (F. Morales Padron, « Fondos Canarios en el Archivo de Indias», A.E.A., n.? 28, doe.

n.? 8, p. 424). Veja-se

e 2 ) Eduardo Aznar Vallejo, ob, cit 51 e 313-317. (33) Cf. Elias Serra Ráfols e Leopoldo de La Rosa, Acuerdos dei cabildo de Tenerife, 3 vols., La Laguna, 1949, 1952, 1970: Eduardo Aznar Vallejo, ob.cit., 108,313-317 e 323; José Peraza de Ayala, ob. cit.; Francisco Morales Padron, Ordenanzas del concejo de Gran Canaria, Las Palmas, 1974; A.R.M., C.M.F., L.0 de Posturas; Urbano Mendonça Dias, A vida de nossos avós. VaI. III, Vila Franca do Campo, 1944. e 4 ) Em 6 de Junho de 1489 a vereação Funchalense proibe os bufarinheiros de venderem a retalho pelas casas, só o permitindo em lugares e lojas públicas (A.R.M., C.M.F.• n.? 1299, fi. 103 v."), Ao mesmo tempo o talhare vender da carne só era permitido no talho (ibidem, n.? 1300, fi. 82, vereação de 12 de Maio de 1492), mas apenas ao sábado e domingo, pois a sua venda nos restantes dias da semana estava sujeita a uma licença especial, (ibtdem, n.? 1306, fls. 37 v.o·38 v.", vereação de 28 de Abril de 1531). Em Tenerife a venda de mantimentos por miudo fazia-se apenas nas tendas montadas nas praças públicas dei Adelantado e de La Concepcion. Veja-se Acuerdos dei cabildo de Tenerife, III, n.? 277, pp. 154-155,24 de Janeiro de 1522; Ibidem, I, n.? 108, p. 216, 14 de Agosto de 1523;Leopoldo de La Rosa, «Catalogo deI Archivo Municipal de La Laguna», in Revista de História, n.? 101-104, pp. 249 e 251, cédulas de 1530 e 1533; Ibidem, n.? 115-116, p. 110, cédula de 1564; Eduardo Aznar VaIlejo, ob. cit p. 313.

Idem, Cedulario de Canaris,

3 vols., Sevilha, 1970.

Matoso, dos Peixes e Direita C S ) . Idêntica é a situação dos artífices que vêem reduzida a sua disseminação no burgo com a obrigatoriedade de assentarem a sua tenda num arruamento determinado pela vereação. Esta situação facilitava a actividade do município na fiscalidade, inspecção e controle das lojas e tendas.

O controle sobre os agentes do mercado local mais se amplia com a obrigatoriedade de

pagamento de fiança por todos os oficiais mecânicos e intervenientes nas actividades da praça pública: vendeiros, regatões, carniceiros, etc. Muitas vezes o município vedava o acesso a estas actividades como forma de evitar o roubo. Assim, no Funchal, os escravos e

moços solteiros que viviam de sua soldada não podiam exercer o ofício de vendeiro ou regatão e Ó ) .

A venda dos produtos de importação estava sujeita a uma regulamentação especial, de

modo a evitar-se o açambarcamento e a especulação r"). Assim, só era permitida a sua

venda a retalho nove ou quinze dias após a sua entrada, respectivamente em Tenerife e no Funchal; além disso a sua venda só se poderia efectuar após vistoria dos deputados e sua subsequente licença, ficando o infractor sujeito a pesadas penas e s ). Nas Canárias duas particularidades evidenciam uma similar orgânica do mercado interno. Assim, entre 1521-1522, funcionou em Tenerife um mercado franco, uma vez por semana, que foi encerrado pelo dano que acarretava às rendas do concelho r"). Ao mesmo nível funcionaram no século XVI feiras locais com carácter sazonal. Além disso em Gran Canaria, Tenerife e La Palma a venda de determinados produtos de consumo em áreas definidas era muitas vezes entregue, em regime de monopólio, a determinados moradores; as casas de venda eram conhecidas por bodegones Ç't),

O controle das entradas fazia-se de acordo com as carências locais, tendo-se em vista a

necessidade de evitar a concorrência dos produtos do estrangeiro ou das ilhas vizinhas, bem como a sua utilização como represália para com as nações inimigas; no primeiro caso temos

como exemplo a actuação do cabildo de Tenerife ao proibir a entrada de vinhos de fora e ao incentivar a cultura da vinhat'"); no segundo temos as represálias mútuas entre Portugal e Castela, na década de 70, que surgem nas Canárias em ordens de 1476 e 1480 e na Madeira em 1471 (42). Além disso há referência a represálias nas Canárias em 1592 contra a França e

de 1547. n.? 1302, f1s. 54 v.", vereação

de 18 de Outubro de 1497; Ibidem, fi. 69, vereação de 31 de Outubro de 1497; Ibidem, n.? 1312, f1s. 41 v.0-42,

vereação de I de Junho de 1596. Para Tenerife essa interdição abrangia apenas os escravos; Leopoldo de La Rosa.

e s ) A.R.M, C.M.F.,

) Janeiro

e Ó ) Assim o determinavam as posturas de 1497 e 1596. A.R.M., C.M.F.,

n.?

1308, fls. 5-6

v.".

Vereação de (

Ibidem,

n."

101-104. doe.

e 7 )

Esta

n.? 24,

p. 262,

cédula de

constantes

1560.

é uma das preocupações

da vereação

Funchalense e do Cabildo de Tenerife que

deliberam com assiduidade sobre isso. As penas impostas denunciam o empenho do município e a gravidade com

que estes encaravam estas situações. Veja-se A.R.M

lbidcm, o." 1385. fls. 42, 27 de Fevereiro de 1527; Acuerdos dei cabildo de Tenerife, IV, n.? 373, p. 184,20 de

Fevereiro de

e s ) Nas Canárias esta prática estava definida nas posturas de Tenerife e Oran Canaria; Francisco Mora1es Padron, ob. cit p. 16; Jose Peraza de Ayala, ob. cit.: Acuerdos dei cabildo de Tenerife I, n.? 707, p. 151. 12 de Fevereiro de 1507. O mesmo sucede na Madeira a partir de 1482; A.R.M., C.M.F., n.? 1297, f1s. 45 v:", de

26

C.M.F.• n." 1297, f1s. 44 v.0-45, 20 de Abril de 1482;

1523.

1492.

1523; lbidem,

1482; lbidem,

n." 374

p.

209.

I

de Julho de

195 v.",

II

de

Abril de

n.° 1301, fls.

de Maio de

e 9 ) Acuerdos dei cabildo de Tenerife, IV. 0.° 261, p. 112, de 15 de Novembro de 1521; Ibidem, n.° 263,

pp.

113-115, 18 de Novembro de 1521; Ibidem, n.? 276, pp. 122-123,

10 de Janeiro de

1522; n.? 282, lb idem ,

p.

127, 21 de Fevereiro de 1522. Elias Serra Rafols comenta, a propósito desta criação efémera: "se dita una

amplia ordenanza que nos deja atónitos por su franquia y libertad tan contrarias ai habitual y minucioso

ordenancismo de la época

(40) Eduardo Aznar Vallejo, oh. cit., p. 108. (41) Acuerdos dei cabildo de Tenerife, 111, 0.° 179, p. 181,22 de Dezembro de 1516; lbidem, Ill , n.? 201,

p. 199,4 de Setembro de 1517; lbidem, IV, n.? 44, p. 21, 18 de Maio de 1519; lbidem, IV, n.? 65, p. 30,15 de

p. 30, 18 de Abril de 1519; lbidem, IV, n.? 153, p. 58, 1 de Junho de 1520;

Ibidem, IV, n." 332, p. 160. 18 de Agosto de 1522; José Peraza de Ayala, ob. cit.; p. 108.

Abril de 1519; Ibidem,

(" Introducción» in Acuerdos dei cabildo de Tenerife, IV. p. XI).

IV, n.? 66,

(42) Eduardo Azanar Vallejo, Documentos Canarios (

). La Laguna,

1981, pp.

1-11 does.

n. o 1, 6,

24.

35

em 1596 contra a Inglaterra, o mesmo sucedendo na Madeira em 1485 contra a Escócia e Bruges (43). Mas se os produtos de fora não deparavam com grandes entraves à entrada, o mesmo já não sucedia à saída; nesse caso o concelho exercia um controle rigoroso sobre esse movimento, no sentido de coibir a saída dos produtos proibidos, porque necessários ao burgo; deste modo para todo o produto cuja exportação fosse autorizada, o mercador deveria

solicitar ao concelho a necessária licença de saída. O trigo, as madeiras, a carne e as verduras faziam parte desse grupo de produtos prescritos. A sua exportação só se fazia em condições específicas e mediante licença dos oficiais do concelho (44); e, muitas vezes, só

em condições muito

Na Madeira nos séculos XV e XVI, o açúcar galvanizou as atenções das autoridades madeirenses e régias. Este produto era, então, uma componente importante dos réditos da ilha e da coroa e, como tal, estava sob vigilância constante do senhorio, da coroa, do almoxarifado e da vereação. Segundo Vitorino Magalhães Godinho «o regime do comércio [do açúcar] vai oscilar entre a liberdade fortemente restringida pela intervenção quer da coroa quer dos poderosos grupos capitalistas, de um lado, e o monopólio global, primeiro, posteriormente um conjunto de monopólios cada qual em relação com uma escápula de outra banda» (46). Assim, desde 1469 e até princípios do século XVI, o comércio do açúcar madeirense fazia-se num apertado circuito sob controle da coroa e de um reduzido grupo de mercadores estrangeiros. As tentativas levadas a efeito pelo Infante D. Fernando para fazer vigorar o contrato de monopólio mereceram a oposição declarada e firme dos vizinhos do Funchal (47); somente conseguiu vigorar, a partir de 1487, o monopólio régio de exportação deste produto para o levante, um dos principais mercados do açúcar madeirense (48); e, finalmente, em 1498, D. Manuel I, em face da difícil situação de crise comercial, limita esse comércio, estabelecendo um máximo de produção e os contingentes para as diversas escápulas (49). Esta situação foi revogada em 1503, mas o comércio deste produto não obteve a necessária liberalização, pois o escoamento passou a fazer-se sob o regime de contrato entregue, na sua maioria, a estrangeiros ou seus agentes (50). Ao invés, nas Canárias, e mesmo nos Açores, o comércio do açúcar não suscitou a mesma atenção e intervenção da coroa, pois que esse trato foi aí deixado à iniciativa do grupo de mercadores nacionais ou estrangeiros; no caso das Canárias o seu comércio era quase exclusivo dos mercadores genoveses e flamengos. Mais do que o açúcar, o trigo e outros cereais serão o alvo primordial da intervenção

especiais era facultada a sua saída (45).

34, 47; A. Cioranescu, História de Santa Cruz. I. p. 376 (nota 44); Victor Morales Lezcano, Sintesls de la

História

1485.

(43)

economlca de Canarias, Tenerife,

1966, pp. 23-24.

A.R.M, C.M.F

n.? 1296,fls. 24-24 v;", s.d., (1471); Ibidem, n.? 1298, fls. I-I v.", 23 de Junho de

(44) Acuerdos dei cabildo de Tenerife, I n." 529, pp. 100-101, 20 de Julho de 1506. (45) É o caso do fornecimento das naus e armadas das rotas das índias, Índia e Brasil nos três arquipélagos. Veja-se 1. a parte.

(46)

Os Descobrimentos e a economia

mundial,

IV, p.

87.

(41)

Ernesto Gonçalves, «João Afonso do Estreito", in D.A.H.M

n.? 17, 1954, pp. 4-8; Fernando Jasmins

144-162; Maria do Carmo

Jasmins Pereira Rodrigues, O açucar na ilha da Madeira, pp. 91-101.

Registo Geral, t. I, fls. 65 v. 0-75

v .", Saragoça, 21 de Agosto de 1698. Apontamentos do Rei sobre o açucar, pubI. in A.H.M., XVII, pp. 372-380;

lbidem, fi. 293 v. 0-294, Lisboa, 18 de Janeiro de 1499, carta régia, pubI. in A.H.M" XVII, pp. 382-383.

Pereira, Alguns elementos para

(48)

o estudo da história

económica

da Madeira,

pp.

Vitorino Magalhães Godinho, ob, cit

IV, p, 87; A.R.M., C.M.F

(49)

Fernando

Jasmins Pereira,

O açucar madeirense (

), pp. 56-57.

C.M.F., Registo Geral, t. I, fls. 288-288 v,", Lisboa, 28 de Agosto de 1503, alvará régio

sobre a carga do açucar para Portugal, publ, in A.H.M., XVII, pp. 445-446; Fernando Jasmins Pereira, Ibidem;

), Funchal, 1962, pp. 25-33.

Virginia Rau e Jorge de Macedo, O açucar da Madeira no fim do século XV (

(50) A.R.M

assídua do município. Sendo produtos básicos da dieta alimentar insular, lógico será admitir que os vereadores, tendo a seu cargo o regimento da terra, estivessem preocupados e atentos ao fornecimento do cereal no mercado local (51). Numa breve passagem pelas vereações dos séculos XV e XVI existentes para os três arquipélagos verifica-se que esta questão atemorizava e preocupava constantemente os oficiais da Câmara quando se reuniam em vereação duas vezes por semana (52). A actuação de cada concelho será feita de acordo com as peculiaridades e a conjuntura específica da área a que se circunscreve. Podemos considerar para os três arquipélagos uma linha de conduta que, na globalidade, apresenta muitos pontos comuns. Assim, teremos para a Madeira e Açores a sua inspiração na administração de Lisboa e, para as Canárias, a transplantação e adaptação do modelo andaluz (53). Embora com raíz diferente essa actuação dos municípios insulares poderá definir-se do seguinte modo:

- controle da produção e dos circuitos de abastecimento e conservação de cereal.

- controle/regulamentação/proibição do comércio e transporte do cereal no mercado interno e externo.

Isto é, toda a acção concelhia é orientada no sentido da regulamentação e do controle da produção e do comércio do cereal, por meio dos exames na Madeira e nos Açores e da tazmia ou cala y cata nas Canárias, das medidas limitativas ou proibitivas da sua exportação. A sua aplicação variava de concelho para concelho consoante a prioridade fosse dada à produção ou à importação; assim nos concelhos de Ponta Delgada, Vila Franca do Campo, Ribeira Grande, Angra, São Sebastião, do arquipélago dos Açores, e em Santa Cruz de Tenerife e de La Palma e certamente nos cabildos de Lanzarote e Fuerteventura, predominam as ordenanças e posturas regulamentadoras da produção do referido cereal, assentes no princípio básico de assegurar as necessidades do consumo local. No Funchal, Las Palmas de Gran Canaria dominam as ordenações facultativas da importação do precioso grão, quer por meio da abertura do mercado a todo o que a ele concorresse, quer por meio de medidas aliciadoras (como sejam, no Funchal, o pagamento da descarga, dos sacos e da loja), quer ainda por meio de medidas proibitivas à sua saída. A concretização da primeira medida da referida política definia-se nos Açores pelo trigo dos exames, isto é, o trigo resultante do exame da produção e dos stocks de abastecimento dos granéis concelhios ou particulares, necessário para o fornecimento à população em momentos de penúria. Segundo o regimento régio de 26 de Junho de 1507 a

(51) Eduardo Aznar Vallejo, oh. cit., p. 253, A. Cioranescu, ob. cit

I, p. 318, Frédéric Mauro, lbidem,

pp. 300 e 306. Saliente-se que esta ambiência não é típica das ilhas, pois as mesmas preocupações dominam em

). II, 1972,

Coimbra e Algarve; veja-se António Oliveira, A vida económica e social em Coimbra (

pp. 122-130 e 162; Joaquim Antero Romero Magalhães, Para o estudo do Algarve económico durante o

século XVI.

(52) Fizemos um largo tratamento da questão cerealífera em alguns trabalhos já publicados. ,,0 comércio de

cereais dos Açores para a Madeira no século XVII», in Os Açores e o Atlântico (Séculos XIV-XVII), Angra do

Heroísmo,

vol. XLI, (1983), pp. 651-677; "A questão cerealífera nos Açores nos

séculos XV-XVII (elementos para o seu estudo)» in Arquipélago. História e Filosofia. vol. VII, n.? 1, 1984,

pp. l23-201; ,,0 comércio de cereiais das Canárias para a Madeira nos séculos XVI-XVII, in VI C,H.CA., Las

Lisboa,

1970, pp. 66-70.

1984, sep. do B.I.H.I.T

Palmas,

1984 (no prelo).

(53) Veja-se Urbano de Mendonça Dias, A vida de nossos avós,

vol. III,

Vila Franca do Campo, 1944,

idem, A Vila, Vila Franca do Campo, 1927, vol. VI; Maria Teresa Campos Rodrigues, A administração do município de Lisboa no século XV. separata dos n.O S 101-9 da Revista Municipal. pp. 83-110; Miguel Angel Ladero Quesada, «Ordenanzas municipales y regulacion de la actividad em Andalucia y Canárias siglas XIV-XVII», in II Colóquio Canario-Americano, 1977, Orã Canária, II, pp. 143-56, Eduardo Aznar Vallejo, Integracion de las islas Canarias en la carona de Castilla (1478-1526), Sevilha, La Laguna, 1983; Emma Conzalez Yanes, «Irnportación y exportacíón en Tenerife durante los primeros anos de la conquista (1497-

-1503)>>, in Revista de História. La Laguna, n.? 101-4, pp. 70-9i.

vereação tinha a incumbência de fazer, no início do Verão, por altura das colheitas, o orçamento do trigo necessário ao consumo e à sementeira até à nova colheita, armazenando-o depois em granéis à sua guarda, de modo a poder distribui-lo na altura da carência. A partir de 1561 juntar-se-à um quarto dos valores exportados. Para dar cumprimento a estas medidas a vereação ordenará que toda a exportação só deveria ser feita mediante licença sua após vistoria dos granéis a cargo do oficial dos exames (54). Nas Canárias, e mais propriamente em Tenerife, encontramos definida a mesma orientação sob a designação do tazmia ou cala y cata. O cabildo em momento de penúria, antes de autorizar a saída do cereal, procedia ao exame dos granéis e ao arrolamento da população, de modo a avaliar o trigo necessário ao consumo concelhio e assegurar a reserva

satisfatória (55). Esta prática derivava das primeiras medidas proibitivas

do século XV e do correcto dimensionamento da política cerealífera pelo cabildo em princípios do século XVI (56). Enquanto no primeiro período apenas se estipulava a proibição de saída, no segundo, ao pressentir-se a ineficácia dessa actuação, alarga-se o seu âmbito. Assim, em 1505, em face da falta de pão, ordena-se a vistoria às principais casas da ilha para, no ano imediato, se promulgar a ordenança sobre o pão, onde se definia o modo de actuar (57). A partir de então esta prática institucionaliza-se, tomando-se um hábito corrente na vida municipal (58).

Não obstante as medidas proibitivas terem maior força de lei em momentos de maior penúria, o certo é que em anos de abundância estas apresentavam-se como prejudiciais aos vizinhos das ilhas produtoras: Tenerife, La Palma e Fuerteventura. Pior era, no entanto, a situação dos mercadores, obrigados à troca das suas mercadorias por trigo. Daí a reivindi- cação dos moradores do direito de exportar metade da sua colheita, no que a coroa apenas concordou com um terço (59). Mesmo assim o cabildo passou a exercer um controle rigoroso sobre esta parte, ao definir como obrigatória a solicitação de licença para exportar e, mesmo, revogando essa regalia em momentos de penúria, como sucedeu em 1522 (60). O cabildo de Tenerife perante a contingência da conjuntura de crise e do movimento demográfico conclui que os dois terços não são suficientes para o sustento da população,

exaradas em finais

(54) Esta questão foi tratada em estudo que elaborámos sobre

A questão cerealífera nos Açores (

)>>,

pp.

144-158. Veja-se Urbano Mendonça Dias, A vida de nossos avós, voI. III, pp, 32-8, 489, 62-63. (55) Conhece-se uma tazmia de 1552,publicada por F. Moreno Fuentes, «Tazmia de la isla de Tenerife em

1552

,

in Anuario de Estudios Atlanticos. n.? 25, pp. 411-92.

), La Laguna, 1981, does. n." 156,440,568, 652,

727, 883. 892, 916. 986. 1193; Acuerdos dei cabildo de Tenerife, I, n.o 270, p. 48, 28 de Junho de 1502. (57) Ibidem, I. n.? 436-437, p. 81. 10 de Dezembro de 1505; lbidem, n." 540. pp. 103-108.8 de Novembro

de 1506; Ibidem, n.? 600-601. pp. 116-117; 12 de Fevereiro de 1507.

(56) Eduardo Aznar Vallejo, Documentos Canarios (

(58) A primeira

referência à cala y cata de 1511 (lbidem, 0.° II, n.° 185, p. 134. 5 de Dezembro)

seguindo-se esta prática em 1514 (lbidem, III, n.? 12, p. 5, 28 de Abril; lbidem, III. n.? 21, p. 18, 16 de Junho; lbidem, III, n." 22, p. 18, 21 de Julho) e em 1522 (lbidem. IV, n." 276, p. 123, 17 de Janeiro). (59) A primeira reclamação foi exarada em reunião de Tenerifc em I de Setembro de 1508 (Ibidem, II, n.? 15. p. 12) mas só em 28 de Fevereiro de 1512 é atendida (Ibidem, II, n." 33, pp. 264-265). Não obstante não

satisfaz as pretensões dos tenerifenhos (Ibidem, n.? 42, pp. 277-283, «capitulaciones que presenta ai rey la isla de Tenerife por mano de mensagero-), Veja-se Manuel Marrero, «Algunas viages atlanticos de los veeinos de

Tenerife en el primer tereio deI siglo XVI", II, C.H.C.A

Chaunu , Seville et l'Atlantlque, Paris, 1959. t. VIII, vol. I, p. 370; Sebastian Jimenez Sanchez, «EI trigo uno de

los alimentos de Gran Canarios prehispanicos», in Revista de História, La Laguna, n.° I, p. 213; J. Perez Vidal, «Aportacion portuguesa a la poblacion de Canarias», in Anilaria de Estudios Atlanticos, n.? 14, pp. 65-6:

E. Gonzalez Yanes, ob. cit

p. 85; Leopoldo de La Rosa, «Catálogo dei Archivo Municipal de La Laguna", in

Revista de História, La Laguna. n.? 101-104. pp. 256. 261; idem. ibidem, n." 113-4, assim; Manuela Marrero,

«Algunos viages atlanticos de los vecinos de Tenerife en el primer tereio dei siglo XVI", in II Colóquio de História Canario-Americana, Las Palmas, 1977. vol. I, pp. 64-5;. Idem. «Algunas consideraciones sobre Tenerife » , in Anilaria de estudios Atlanticos, n.? 23. p. 379. (60) Acuerdos dei cabildo de Tenerife, IV, n.? 314, p. 150, II de Julho de 1518; Ibldem, n.? 335, p. 161. 29 de Agosto de 1522. Ibidem, n.? 337. p. 161.5 de Setembro de 1522; Ibidem, n.? 343, p. 165,26 de Setembro de 1522, Ibidem, n." 380. p. 189. 26 de Março de 1523.

vol. I, 1977, pp. 64-65. Veja-se, Pierre e Huguette

pelo que ordena, a partir de Julho de 1522, que de todo o trigo a exportar deveria ficar uma reserva de dez por cento às ordens da câmara, a fim de ocorrer aos momentos de falta (61). De modo a controlar-se o cumprimento desta ordenação regulamentara-se a obrigatoriedade do registo do cereal a exportar e a solicitação da respectiva licença ao cabildo, ao mesmo tempo que se estabeleciam guardas de vigia nos portos (62). Quer em S. Miguel, quer em Tenerife, os produtores e mercadores, entre os quais se colocavam o capitão donatário, o senhorio e alguns funcionários concelhios e régios, usavam de todos os subterfúgios para fazer sair o seu trigo, agravando deste modo a situação de penúria cerealífera (63). No mercado consumidor carente toda a política cerealífera incidia a dois níveis no seu comércio: primeiro procurando assegurar o normal abastecimento de trigo, por meio de incentivos à sua introdução; depois através do controle dos circuitos de fornecimento de

da

mercado local, evitando a sua saída, sob a forma de grão ou de biscoito. Ao nível

Madeira define-se a actuação da vereação funchalense; primeiro, com o estabelecimento de contratos com alguns mercadores para meterem anualmente o trigo necessário ao provimento dela, pagando-se a descarga, os sacos e a loja; depois, com a abertura total do mercado à sua introdução, por meio da isenção da dízima de entrada (64). Caso estas medidas não fossem suficientes, então a vereação punha em prática o seu plano de emergência, que consistia na actuação junto dos mercadores e mestres de navios, obrigando-os a descarregar o trigo que conduziam ao reino ou às Canárias, ou então forçando-os a irem buscar o trigo aos Açores ou outras partes (65). A esta orientação aliavam-se as ordenações régias de 1508 a 1521, que tomavam obrigatória a rota de fornecimento de trigo açoriano ao mercado madeirense (66).

Assegurados os circuitos de abastecimento do mercado funchalense, tomava-se neces- sário controlar e regulamentar os circuitos internos de distribuição e venda, de' modo a evitar-se o açambarcamento e a especulacão. Neste caso a vereação actuava com medidas

drásticas, quer por meio do exame das lojas pelos almotacés, quer lançando pesadas multas

tempo, desde 1496 proibira-se a saída deste cereal, até

mesmo para o fornecimento de naus que escalavam a ilha pois, segundo se dizia, estas deveriam vir devidamente providas de Lisboa (68). Idêntica situação encontra-se definida no arquipélago canário nas ilhas da Gran Canaria, La Gomera, onde estava regulamentada a proibição de saída, e medidas de apoio aos circuitos e rotas abastecedoras com origem em Lanzarote, Tenerife ou Fuerteventura (69).

aos infractores (67). Ao mesmo

(61) Ibidem,

n.o 317,

p.

15\,

18 de Junho de

1522.

(62) Leopoldo de La Rosa, ob. cit., n.? 101-4, p, 261 (n.? 1-3); 264 (n.? 18); E. Gonzalez Yanes, oh. cit

p.

88.

(63) E. Gonza1ez Yanes, ibidem, p. 87; e o nosso estudo supracitado. (64) A.R.M., C.M.F., n.? 1297, fls. 17 v.0-8, vereação de 4 de Março de 1481; idem lbidem, fls.

23-23 v.", vereação de 8 de Junho de 1481; idem, lbidem, fls. 27-27 v.", vereação de 4 de Agosto de 1481; idem, ibidem. fls, 49 v.", vereação de 21 de Janeiro de 1486; idem, Ibidem, fi. 62, vereação de 11 de Fevereiro de 1486; idem, Ibidem, fi. 78, vereação de 20 de Março de 1486; idem, Ibidem, fi. 130, vereação de 14 de Maio de 1486; idem, ibidem, fls. 138-141, vereação de 5 de Julho de 1486; idem, ibidem, n.? 1301, fi. 48 v.", vereação de 10 de Agosto de 1496. A referida despesa era assegurada por 2/3 da renda da imposição do vinho, Ibidem, fi. 141, carta

de 5 de Dezembro de

(65) A.R.M., C.M.F., n.? 1302, fi. 23, vereação de 31 de Agosto de 1496; idem, lbidem, fi. 27, vereação

de 7 de Setembro de 1496; idem, ibidem, fls. 111-2, vereação de 21 de Fevereiro de 1497.

1581.

(66) Veja-se o nosso estudo "O comércio de cereais

(67) A.R.M., C.M.F

», citado.

de

1550.

n.? 1298, fi. 38 v.", vereação de 28 de Dezembro de 1485; idem, ibidem, n.? 1301,

fi. 48 v.", vereação de 17 de Outubro de 1495; idem, ibidem 1308, fi. 8, vereação de (7) de Janeiro de 1547;

idem,

1313,

fls. 43 v.", vereação de 20 de Setembro de 1597; idem, ibidem, n.? 1313, fIs. 47 v.0-48, vereação de 8 de Outubro

de

ibidem,

n.?

1309,

fls.

26 v.",

vereação de

13 de Abril

(68) Idem, ibidem, n.? 1302, fls. 46-46 v.", vereação de 26 de Setembro de 1496; idem, ibidem, n.?

1597.

(69) Eduardo Aznar Vallejo,

oh. cit.,

pp.

51,

251-2, 313.

A ilha de Gran Canaria tinha em Tenerife o celeiro de abastecimento anual, mas tal como

sucedia na Madeira em relação aos Açores, esse provimento despoletou vários litígios entre

as duas ilhas no período de 1531-1603, devido à segunda se negar a esse fornecimento t?");

pelo que respeita a La Gomera, o trato foi assegurado por cédula de 1521 (71). Se é certo que as medidas atrás enunciadas atestam o interesse do concelho em assegurar o normal funcionamento dos circuitos de abastecimento de modo a evitar-se qualquer situação de penúria ou de fome, também é verdade que as mesmas documentam, de modo evidente, a prernência da crise, resultante do esgotamento do solo e, acima de tudo, do aumento da população insular. Assim, ao nível das áreas produtoras, as medidas regulamentadoras do comércio do cereal surgem com maior acuidade, apontando para uma nítida tendência da sua proibição. Tal como sucede nos Açores, desde a década de 30 do século XVII e, em Tenerife, a partir de 1564-65, evidenciando-se nesta última a partir de princípios do século XVII. Deste modo se as crises de 1502, 1506, 1521 e 1546 surgem como fenómenos isolados, articulando-se com as más colheitas, ocasionadas por factores sazonais, o mesmo já não se poderá dizer em 1574, 1604, 1616, 1625, em que se nota uma marca evidente da crise estrutural, cujo agravamento se salienta de modo periódico em ciclos decenais (2). Esta situação da economia cerealífera das Canárias repercutir-se-á de modo evidente no mercado madeirense, que tinha nesse arquipélago uma fonte importante de abastecimento, em 1589 e 1596(3).

(0) Leopoldo de la Rosa, ob. cit.,

Revista de História,

n.?

113-4; p. 84 (n.? 41) 85 (n.? 72); Ibidem,

n.?

101-104,

p.

251 (n.?

12), 253 (n.? 3); Ibidem,

n.? 115-6 (1958), p.

III (n.?

108).

(71) Ibidem,

n. o

101-4, p.

nosso estudo,

246 (n.o 5).

(72)

Veja-se

,,0 comércio de cereais

>l,

citado; P. Chaunu ob. cit.,

pp. 371-373.

(3) A.R.M., C.M.F., n.? 1311,!l. 142 v.", vereação de 20 de Fevereiro de 1596, idem, ibidem, n.? 1311,

fls.

16-17

v.".

vereação de 4 de Fevereiro de 1589.

 

1.2 Técnicas

A NAVEGAÇÃO

A navegação no mundo insular deriva não só de factores implicítos ao próprio meio geográfico, mas de igual modo da premência de vectores e solicitações externas, resultantes do posicionamento desta área no mercado colonial e do estádio de desenvolvimento dos meios e técnicas de navegação. Os acidentes mesológicos serão perfeitamente ultrapassáveis mediante o avanço da tecnologia naval. Sendo esta vasta área insular dominada pelo oceano Atlântico, seria inevitável que a vivência ribeirinha incidisse fortemente no ilhéu e, ao mesmo tempo se verificasse um domínio das vias de comunicação marítimas, inclusive contactos internos. O mar será assim o elo de ligação e separação. O ilhéu viverá sob o fascínio desta enorme massa de água.

Vias

de comunicação e meios de transporte

As vias de comunicação e os meios de transporte são factores determinantes do desenvolvimento sócio-económico de uma dada região; tais factores são, de certo modo, os aferidores do estádio da sua evolução. É, por outro lado, evidente a interconexão entre eles e as actividades económicas, pois o valor mercantil implica a existência de meios e circuitos adequados para o seu escoamento; além disso, a facilidade de contacto ou de transporte poderá condicionar de modo positivo o nível e desenvolvimento da economia de áreas determinadas. A este propósito é muito esclarecedora a análise comparativa que Gaspar Frutuoso faz das ilhas açorianas e das Canárias: «A ilha de Tenerife dizem que foi a quarta conquistada e é logo a segunda ilha depois de Gran Canária, principal de todas as outras, ainda que a Palma o seja nas armadas e navegações, como, entre estas ilhas dos Açores, a mais rica e principal é esta ilha de S. Miguel, pois ela rende só mais que todas as outras juntas, mas a ilha Terceira, além de ser mais principal por ser a cabeça do bispado, o é também por a razão das escalas, armadas e navegações que ali vão ter em diversos tempos» e). Para o mundo insular o mar é o elo de ligacão e meio de comunicação mais importante. No caso do Mediterrâneo Atlântico esta permissa toma-se mais clara em virtude da descontinuidade e heterogeneidade do solo e costa. Num parco espaço terreste disseminado por dezoito ilhas com um solo acidentado e uma costa alta e escarpada, não é difícil de

compreender a dificuldade que aí se depararam nas comunicações internas e externas

Elias Serra Rafols, a propósito desta realidade, enuncia de modo esclarecedor: "Para compreender esta vida insular, hay que tener siempre presente esto: que se trata de islas

e).

e) Saudades da Terra, L,0 I, Ponta Delgada, 1984, p. 91. (2) Fernando Augusto da Silva (Pela Historia da Madeira, Funchal, 1947, p. 83) conduz-nos a esta realidade ao falar da sociedade madeirense nos seus primórdios: ,,- A torturante nostalgia dos mais antigos povoadores e as suas constantes preocupações no árduo trabalho das explorações agrícolas seriam bastantemente agravadas com a falta de notícias de tudo o que saudosamente tinham deixado nos limites do seu sempre tão lembrado rincão natal. Dizem as velhas crónicas que somente de ano a ano havia notícias pela queda de estio, porque então não se navegava no Inverno. E assim devera ser".

41

(

vida material espiritual, riqueza y saber; en eI tiene todo su origen y su fin» e). Sendo certa a importância primordial do Oceano Atlântico nas comunicações insulares e deste com o litoral afro-europeu-americano, não menos o serão em termos restritos das vias de comunicação terrestres, pois é por seu intermédio que se escoam os produtos para os

mercados ou postos do litoral, a partir dos quais entram nos circuitos comerciais locais e internacionais. Não obstante o interesse das autoridades municipais na abertura e preservação dos caminhos, nota-se em todo o mundo insular a insuficiência de vias de comunicação

terreste e a ineficácia

A importância das comunicações por terra no espaço insular relaciona-se com a formação orográfica de cada ilha. Assim, enquanto na Madeira elas são relativizadas, em S. Miguel, Terceira, Tenerife e Gran Canaria apresentar-se-ão como fundamentais para a economia local. Na Madeira os meios e vias de comunicação terrestres apenas ganham importância a partir de finais do século XVIII, sendo assim relativa a actuação dos carreteiros, dos boieiros e, mesmo, de bestas de carga na vida local (5). Toda a economia madeirense é dominada pelo mar e define-se pela litoralidade da sua implantação sócio- -geográfica. O mesmo não sucede nas ilhas de Gran Canaria e Tenerife, onde há a preocupação de traçar uma rede viária que ligue os canaviais aos engenhos e estes aos portos de cabotagem ou de exportação