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A delinquência acadêmica

MAURÍCIO TRAGTENBERG*

O tema é amplo: a relação entre a humanista e mandarinesca. Hoje, ela


dominação e o saber, a relação entre o forma a mão-de-obra destinada a manter
intelectual e a universidade como nas fábricas o despotismo do capital; nos
instituição dominante ligada à institutos de pesquisa, cria aqueles que
dominação, a universidade antipovo. deformam os dados econômicos em
A universidade está em crise. Isto ocorre detrimento dos assalariados; nas suas
porque a sociedade está em crise; através escolas de direito forma os aplicadores
da crise da universidade é que os jovens da legislação de exceção; nas escolas de
funcionam detectando as contradições medicina, aqueles que irão convertê-la
profundas do social, refletidas na numa medicina do capital ou utilizá-la
universidade. A universidade não é algo repressivamente contra os deserdados do
tão essencial como a linguagem; ela é sistema. Em suma, trata-se de “um
simplesmente uma instituição dominante complô de belas almas” recheadas de
ligada à dominação. Não é uma títulos acadêmicos, de um doutorismo
instituição neutra; é uma instituição de substituindo o bacharelismo, de uma
classe, onde as contradições de classe nova pedantocracia, da produção de um
aparecem. Para obscurecer esses fatores saber a serviço do poder, seja ele de que
ela desenvolve uma ideologia do saber espécie for.
neutro, científico, a neutralidade cultural Na instância das faculdades de educação,
e o mito de um saber “objetivo”, acima forma-se o planejador tecnocrata a quem
das contradições sociais. importa discutir os meios sem discutir os
No século passado, período do fins da educação, confeccionar reformas
capitalismo liberal, ela procurava formar estruturais que na realidade são
um tipo de “homem” que se verdadeiras “restaurações”. Formando o
caracterizava por um comportamento professor-policial, aquele que
autônomo, exigido por suas funções supervaloriza o sistema de exames, a
sociais: era a universidade liberal avaliação rígida do aluno, o
conformismo ante o saber professoral. A

*
In memoriam.
MAURÍCIO TRAGTENBERG foi professor do Departamento de Ciências Sociais da Escola de
Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas (FGV/SP), da Universidade Estadual de
Campinas (UNICAMP) e da Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP); autor de “Burocracia e Ideologia”
e “Administração, Poder e Ideologia”, entre outras obras.
Fonte: Texto apresentado no I Seminário de Educação Brasileira, realizado em 1978, em Campinas-SP.
Publicado em: TRAGTENBERG, M. Sobre Educação, Política e Sindicalismo. São Paulo: Editores
Associados; Cortez, 1990, 2ª ed. (Coleção teoria e práticas sociais, vol 1)
pretensa criação do conhecimento é hegemônico ante os dominados: os
substituída pelo controle sobre o parco estudantes. Isso se realiza através de um
conhecimento produzido pelas nossas processo que chamarei de
universidades, o controle do meio “contaminação”. O curso catedrático e
transforma-se em fim, e o “campus” dogmático transforma-se num curso
universitário cada vez mais parece um magisterial e crítico; a crítica ideológica
universo concentracionário que reúne é feita nos chamados “cursos críticos”,
aqueles que se originam da classe alta e que desempenham a função de um
média, enquanto professores, e os alunos tranquilizante no meio universitário.
da mesma extração social, como Essa apropriação da crítica pelo
“herdeiros” potenciais do poder através mandarinato universitário, mantido o
de um saber minguado, atestado por um sistema de exames, a conformidade ao
diploma. programa e o controle da docilidade do
estudante como alvos básicos, constitui-
A universidade classista se mantém
se numa farsa, numa fábrica de boa
através do poder exercido pela seleção
consciência e delinquência acadêmica,
dos estudantes e pelos mecanismos de
daqueles que trocam o poder da razão
nomeação de professores. Na pela razão do poder. Por isso é necessário
universidade mandarinal do século
realizar a crítica da crítica-crítica,
passado o professor cumpria a função de
destruir a apropriação da crítica pelo
“cão de guarda” do sistema: produtor e
mandarinato acadêmico. Watson
reprodutor da ideologia dominante,
demonstrou como, nas ciências
chefe de disciplina do estudante. Cabia à
humanas, as pesquisas em química
sua função professoral, acima de tudo,
molecular estão impregnadas de
inculcar as normas de passividade,
ideologia. Não se trata de discutir a
subserviência e docilidade, através da
apropriação burguesa do saber ou não-
repressão pedagógica, formando a mão- burguesa do saber, mas sim a destruição
de-obra para um sistema fundado na do “saber institucionalizado”, do “saber
desigualdade social, a qual acreditava burocratizado” como único “legítimo”.
legitimar-se através da desigualdade de A apropriação universitária (atual) do
rendimento escolar; enfim, onde a escola conhecimento é a concepção capitalista
“escolhia” pedagogicamente os de saber, onde ele se constitui em capital
“escolhidos” socialmente. e toma a forma nos hábitos
A transformação do professor de “cão de universitários.
guarda” em “cão pastor” acompanha a
A universidade reproduz o modo de
passagem da universidade
produção capitalista dominante não
pretensamente humanista e
mandarinesca à universidade apenas pela ideologia que transmite, mas
pelos servos que ela forma. Esse modo
tecnocrática, onde os critérios lucrativos
de produção determina o tipo de
da empresa privada, funcionarão para a
formação através das transformações
formação das fornadas de “colarinhos
introduzidas na escola, que coloca em
brancos” rumo às usinas, escritórios e
relação mestres e estudantes. O mestre
dependências ministeriais. É o mito da
possui um saber inacabado e o aluno uma
assessoria, do posto público, que
ignorância transitória, não há saber
mobiliza o diplomado universitário.
absoluto nem ignorância absoluta. A
A universidade dominante reproduz-se relação de saber não institui a diferença
mesmo através dos “cursos críticos”, em entre aluno e professor, a separação entre
que o juízo professoral aparece aluno e professor opera-se através de
uma relação de poder simbolizada pelo usurpação e monopólio da riqueza, do
sistema de exames – “esse batismo poder”. Isso levou os estudantes da
burocrático do saber”. O exame é a parte época a realizarem programas
visível da seleção; a invisível é a extracurriculares, onde Emerson fazia-se
entrevista, que cumpre as mesmas ouvir, já que o obscurantismo da época
funções de “exclusão” que possui a impedia a entrada nos prédios
empresa em relação ao futuro universitários, pois contrariavam a
empregado. Informalmente, docilmente, Igreja, o Estado e as grandes
ela “exclui” o candidato. Para o “corporações”, a que alguns intelectuais
professor, há o currículo visível, cooptados pretendem que tenham uma
publicações, conferências, traduções e “alma”.1
atividade didática, e há o currículo
Em nome do “atendimento à
invisível – esse de posse da chamada
comunidade”, “serviço público”, a
“informação” que possui espaço na
universidade tende cada vez mais à
universidade, onde o destino está em
adaptação indiscriminada a quaisquer
aberto e tudo é possível acontecer. É
pesquisas a serviço dos interesses
através da nomeação, da cooptação dos
econômicos hegemônicos; nesse andar, a
mais conformistas (nem sempre os mais
universidade brasileira oferecerá
produtivos) que a burocracia
disciplinas como as existentes na
universitária reproduz o canil de
metrópole (EUA): cursos de escotismo,
professores. Os valores de submissão e
defesa contra incêndios, economia
conformismo, a cada instante exibidos
doméstica e datilografia em nível de
pelos comportamentos dos professores,
secretariado, pois já existe isso em
já constituem um sistema ideológico.
Cornell, Wisconson e outros
Mas, em que consiste a delinquência
estabelecimentos legitimados. O conflito
acadêmica?
entre o técnico e o humanismo acaba em
compromisso, a universidade brasileira
A “delinquência acadêmica” aparece em
se prepara para ser uma
nossa época longe de seguir os ditames
“multiversidade”, isto é, ensina tudo
de Kant: “Ouse conhecer”. Se os
aquilo que o aluno possa pagar. A
estudantes procuram conhecer os
universidade, vista como prestadora de
espíritos audazes de nossa época é fora
serviços, corre o risco de enquadrar-se
da universidade que irão encontrá-los. A
numa “agência de poder”, especialmente
bem da verdade, raramente a audácia
após 1968, com a Operação Rondon e
caracterizou a profissão acadêmica. Os
sua aparente democratização, só nas
filósofos da revolução francesa se
vagas; funciona como tranquilidade
autodenominavam de “intelectuais” e
social. O assistencialismo universitário
não de “acadêmicos”. Isso ocorria
não resolve o problema da maioria da
porque a universidade mostrara-se hostil
população brasileira: o problema da
ao pensamento crítico avançado. Pela
terra.
mesma razão, o projeto de Jefferson para
a Universidade de Virgínia, concebida A universidade brasileira, nos últimos 15
para produção de um pensamento anos, preparou técnicos que funcionaram
independente da Igreja e do Estado (de como juízes e promotores, aplicando a
caráter crítico), fora substituído por uma Lei de Segurança Nacional, médicos que
“universidade que mascarava a assinavam atestados de óbito mentirosos,
1
Kaysen pretende atribuir uma “alma” à preocupar com tal esforço construtivo do
corporação multinacional; esta parece não se intelectual.
zelosos professores de Educação Moral e despe-se de qualquer responsabilidade
Cívica garantindo a hegemonia da social quanto ao seu papel profissional, a
ideologia da “segurança nacional” política de “panelas” acadêmicas de
codificada no Pentágono. corredor universitário e a publicação a
qualquer preço de um texto qualquer se
O problema significativo a ser colocado constituem no metro para medir o
é o nível de responsabilidade social dos sucesso universitário. Nesse universo
professores e pesquisadores não cabe uma simples pergunta: o
universitários. A não preocupação com conhecimento a quem e para que serve?
as finalidades sociais do conhecimento Enquanto este encontro de educadores,
produzido se constitui em fator de sob o signo de Paulo Freire, enfatiza a
“delinquência acadêmica” ou da “traição responsabilidade social do educador, da
do intelectual”. Em nome do “serviço à educação não confundida com
comunidade”, a intelectualidade inculcação, a maioria dos congressos
universitária se tornou cúmplice do acadêmicos serve de “mercado
genocídio, espionagem, engano e todo humano”, onde entram em contato
tipo de corrupção dominante, quando pessoas e cargos acadêmicos a serem
domina a “razão do Estado” em preenchidos, parecidos aos encontros
detrimento do povo. Isso vale para entre gerentes de hotel, em que se trocam
aqueles que aperfeiçoam secretamente informações sobre inovações técnicas,
armas nucleares (M.I.T.), armas revê-se velhos amigos e se estabelecem
químico-biológicas (Universidade da contatos comerciais.
Califórnia, Berkeley), pensadores
inseridos na Rand Corporation, como Estritamente, o mundo da realidade
aqueles que, na qualidade de intelectuais concreta e sempre muito generoso com o
com diploma acreditativo, funcionam na acadêmico, pois o título acadêmico
censura, na aplicação da computação torna-se o passaporte que permite o
com fins repressivos em nosso país. Uma ingresso nos escalões superiores da
universidade que produz pesquisas ou sociedade: a grande empresa, o grupo
cursos a quem é apto a pagá-los perde o militar e a burocracia estatal. O problema
senso da discriminação ética e da da responsabilidade social é
finalidade social de sua produção – é escamoteado, a ideologia do acadêmico
uma multiversidade que se vende no é não ter nenhuma ideologia, faz fé de
mercado ao primeiro comprador, sem apolítico, isto é, serve à política do
averiguar o fim da encomenda, isso poder.
coberto pela ideologia da neutralidade do
conhecimento e seu produto. Diferentemente, constitui, um legado da
filosofia racionalista do século XVIII,
Já na década de 1930, Frederic Lilge2 uma característica do “verdadeiro”
acusava a tradição universitária alemã da conhecimento o exercício da cidadania
neutralidade acadêmica de permitir aos do soberano direito de crítica
universitários alemães a felicidade de um questionando a autoridade, os privilégios
emprego permanente, escondendo a si e a tradição. O “serviço público”
próprios a futilidade de suas vidas e seu prestado por estes filósofos não consistia
trabalho. Em nome da “segurança na aceitação indiscriminada de qualquer
nacional”, o intelectual acadêmico projeto, fosse destinado à melhora de
2
Frederic LILGE, The Abuse of Learning: The
Failure of German University. Macmillan, New
York, 1948.
colheitas, ao aperfeiçoamento do Nenhum preceito ético pode substituir a
genocídio de grupos indígenas a pretexto prática social, a prática pedagógica.
de “emancipação” ou política de arrocho A delinquência acadêmica se caracteriza
salarial que converteram o Brasil no pela existência de estruturas de ensino
detentor do triste “record” de primeiro onde os meios (técnicas) se tornam os
país no mundo em acidentes de trabalho. fins, os fins formativos são esquecidos; a
Eis que a propaganda pela segurança no criação do conhecimento e sua
trabalho emitida pelas agências oficiais reprodução cede lugar ao controle
não substitui o aumento salarial. burocrático de sua produção como
O pensamento está fundamentalmente suprema virtude, onde “administrar”
ligado à ação. Bergson sublinhava no aparece como sinônimo de vigiar e punir
início do século a necessidade de o – o professor é controlado mediante os
homem agir como homem de critérios visíveis e invisíveis de
pensamento e pensar como homem de nomeação; o aluno, mediante os critérios
ação. A separação entre “fazer” e visíveis e invisíveis de exame. Isso
“pensar” se constitui numa das doenças resulta em escolas que se constituem em
que caracterizam a delinquência depósitos de alunos, como diria Lima
acadêmica – a análise e discussão dos Barreto em “Cemitério de Vivos”.
problemas relevantes do país constitui A alternativa é a criação de canais de
um ato político, constitui uma forma de participação real de professores,
ação, inerente à responsabilidade social estudantes e funcionários no meio
do intelectual. A valorização do que seja
universitário, que se oponham à
um homem culto está estritamente esclerose burocrática da instituição.
vinculada ao seu valor na defesa de
valores essenciais de cidadania, ao seu A autogestão pedagógica teria o mérito
exemplo revelado não pelo seu discurso, de devolver à universidade um sentido de
mas por sua existência, por sua ação. existência, qual seja: a definição de um
aprendizado fundado numa motivação
Ao analisar a “crise de consciência” dos participativa e não no decorar
intelectuais norte-americanos que deram determinados “clichês”, repetidos
o aval da “escalada” no Vietnã, Horowitz semestralmente nas provas que nada
notara que a disposição que eles provam, nos exames que nada examina,
revelaram no planejamento do genocídio mesmo porque o aluno sai da
estava vinculada à sua formação, à sua universidade com a sensação de estar
capacidade de discutir meios sem nunca mais velho, com um dado a mais: o
questionar os fins, a transformar os diploma acreditativo que em si perde
problemas políticos em problemas valor na medida em que perde sua
técnicos, a desprezar a consulta política, raridade.
preferindo as soluções de gabinete,
consumando o que definiríamos como a A participação discente não constitui um
traição dos intelectuais. É aqui onde a remédio mágico aos males acima
indignidade do intelectual substitui a apontados, porém a experiência
dignidade da inteligência. demonstrou que a simples presença
discente em colegiados é fator de sua
moralização.