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A angústia como incidência clínica do irrepresentável da pulsão: desamparo, trauma e repetição

A angústia como incidência clínica


do irrepresentável da pulsão: desamparo,
trauma e repetição
Anna Carolina Andrade Barbosa

Ao polão, entre letras e músicas, ciência e invenção

“É quase humilhante que, após trabalharmos por tanto tempo,


ainda estejamos tendo dificuldade para compreender os fatos mais fundamentais.
Mas decidimos nada simplificar e nada ocultar.
Se não conseguirmos ver as coisas claramente,
pelo menos veremos claramente quais são as obscuridades.”
FREUD. Inibição, sintoma e angústia, p. 124.

Resumo
As inquietações que nos trouxeram a estas investigações surgiram a partir de minha experiência
clínica. O que causa meu trabalho teórico e o que instiga minha escrita como analista é a escuta
de meus pacientes. De algum modo os efeitos desta produção devem a eles retornar. E acredito
que é nesta tensão entre o singular (o inédito que se apresenta na escuta de cada paciente em
nossa clínica) e o universal (que toda teoria pretende) que a transmissão da psicanálise pode
acontecer com mais rigor e vigor. Foi no contexto da escrita da dissertação de Mestrado, conclu-
ída em julho de 2006, “Inscrição e destinos do irrepresentável da pulsão: deslizamentos teóricos e inci-
dências na clínica psicanalítica”1, que a abordagem do tema da angústia se impôs. Realizamos uma
retomada de textos freudianos e assinalamos os desdobramentos na teoria freudiana da angústia
que realçam a presença de elementos do domínio do irrepresentável, através de um deslizamento
conceitual sobre desamparo, trauma, compulsão à repetição e pulsão de morte.

Palavras-chave
Angústia, Irrepresentável, Pulsão, Desamparo, Trauma, Compulsão à repetição, Pulsão de morte,
Real, Clínica psicanalítica, Transferência, Construções, Arcaico e originário.

1. A angústia é expressão destino da pulsão, um resultado do traba-


da dimensão excessiva, traumática lho psíquico. Em nosso entendimento, o
e irrepresentável da pulsão aparelho psíquico deve ser pensado como
Há uma irredutibilidade da pulsão à um aparato de captura e transformação da
representação, sendo que a última é um dispersão pulsional. O afeto é situado como

1. Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado em Psicologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Univer-
sidade Federal de Minas Gerais, em julho de 2006, sob orientação do Prof. Dr. Paulo César de Carvalho Ribeiro.

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excesso energético que possui um caráter simbólicas. Nesse sentido, o modelo da


irredutível à representação, de onde deri- neurose de angústia é paradigmático para
va sua intensidade traumática e o destino pensarmos a angústia. Desse modo, a an-
de compulsão. gústia é a expressão mais direta da insufici-
Os elementos fundamentais da angús- ência representacional do aparelho psíqui-
tia que nos revelam o irrepresentável são a co diante da invasão econômica. A angús-
dimensão traumática, excessiva; o domí- tia, tomada como efeito da insuficiência
nio do caráter quantitativo, de intensida- psíquica, se deve à impossibilidade consti-
de, em contraposição à qualidade; sua ca- tutiva de ligação da excitação, o que será
racterística de afeto desligado; sua incidên- retomado nos textos da segunda tópica. Ela
cia como excitação no corpo e que encon- se inscreve no psiquismo de forma precá-
tra uma insuficiência de elaboração psíqui- ria em relação a outros afetos, mas precisa-
ca devido à impossibilidade de representa- mente porque a angústia é o afeto desliga-
ção psíquica dessa excitação; e o destino do das representações, tanto primária
de compulsão. Para a psicanálise, a condi- quanto secundariamente. Daí sua expres-
ção de desamparo faz com que a constitui- são privilegiada sob a forma de descarga.
ção subjetiva, realizada a partir da inscri- Portanto, o que a angústia revela é uma
ção pulsional proveniente da alteridade, primazia da dimensão econômica e corpo-
tenha um caráter inevitavelmente traumá- ral da pulsão desde as origens: há uma de-
tico e irredutível. A retomada de alguns fasagem entre a inscrição da excitação no
pontos mais relevantes das concepções corpo e a inscrição da excitação no psi-
freudianas da angústia presentes em sua quismo, em função do excesso energético
obra nos auxilia a tomar a angústia como e da insuficiência de elaboração psíquica
incidência clínica do irrepresentável da da excitação somática.
pulsão, articulando-a ao desamparo, trau- A segunda teoria da angústia, proposta
ma e repetição. em “Inibição, Sintoma e Angústia” (1926),
A primeira teoria da angústia se faz apoi- retoma os elementos da teorização incipi-
ada sobre o modelo da neurose de angústia, a ente, de 1890, e introduz novos elemen-
partir dos textos de 1890, e nos revela a tos que estão além do princípio de prazer e
inscrição no aparelho psíquico de algo da que escapam ao paradigma representacio-
ordem do irrepresentável. Os primeiros nal, articulando a angústia às noções de
momentos da teorização de Freud sobre a compulsão à repetição, desamparo psíqui-
angústia se dão simultaneamente a seu es- co, pulsão de morte, trauma, despreparo,
forço de localização nosográfica das neu- susto. A angústia passa a ser abordada como
roses. Havia na neurose de angústia um uma reação a situações traumáticas.
sintoma nuclear que a distinguia das de- Procuraremos explicitar a seguir as
mais: a expectativa ansiosa ou angústia flu- principais contribuições de 1926 para a
tuante. Uma quantidade elevada de exci- compreensão metapsicológica da angústia
tação causava uma angústia difusa, irrita- e, principalmente, procuraremos pensar sua
bilidade, hipocondria, angústia moral, ata- incidência e manejo na clínica psicanalí-
ques de angústia. São manifestações de um tica. A teorização de 1890 e a de 1926 le-
mal-estar corporal, com vários sintomas vam à proposição de duas modalidades dis-
somáticos associados: taquicardia, sudore- tintas da angústia, que parece necessário
se, dispnéia. preservar: angústia automática, relacionada
Na neurose de angústia, a excitação à situação traumática que revela a experi-
ultrapassa o limiar suportável do aparelho ência de desamparo por parte do eu, e an-
psíquico, não encontrando uma inscrição gústia como um sinal para o eu se defender,
representacional na rede de associações relacionada às situações de perigo. Há uma
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diferenciação entre a angústia como uma to “estranho e complicado”: a qualquer


reação direta e automática a um trauma e decepção que o outro lhe cause, ela sim-
a angústia como um sinal do perigo de plesmente “deleta” o outro de sua vida. Os
abordagem desse trauma, resposta secun- primeiros tempos da análise são ocupados
dária do eu: por muito choro e poucas palavras. Lúcia
morou com a mãe até os quatro anos,
“Seguindo essa seqüência, angústia – pe- quando ela, junto com outros irmãos, fo-
rigo – desamparo (trauma), podemos ago- ram entregues à avó. Aos sete anos, foi
ra resumir o que se disse. Uma situação adotada por sua tia, irmã de sua mãe, e seu
de perigo é uma situação reconhecida, marido.
lembrada e esperada de desamparo. A Essa adoção intrafamiliar apresentou-
angústia é a reação original ao desampa- se como uma ruptura, agravada pelo silên-
ro no trauma, sendo reproduzida depois cio imposto em torno do acontecimento.
da situação de perigo como um sinal em Para ela, esse fato estava realçado com as
busca de ajuda”2. cores do abandono anterior – sempre sob
o risco iminente de repetir-se, nunca co-
O viés escolhido para nossa discussão locado por uma perspectiva de acolhimen-
sobre a angústia neste trabalho é o de tomá- to e filiação. Acompanha-a uma sensa-
la como uma evidência clínica do irrepre- ção constante de inadequação no mun-
sentável da pulsão. A tentativa de forma- do, de estar sem lugar, de se sentir ex-
lização teórica que apresentamos mantém cluída.
a opção por permanecer sempre próxima Lúcia tem o hábito de jogar com ami-
do viés clínico que a causou, incorporan- gos o jogo conhecido como “RPG”, no qual
do alguns fragmentos clínicos às discussões segundo ela os jogadores escolhem carac-
metapsicológicas. terísticas para as personagens que coinci-
Vejamos o campo fértil que a escuta dem de certo modo com suas próprias ca-
analítica de nossos pacientes sempre nos racterísticas pessoais. Ela espanta-se com
oferecerá, de modo inédito, desafiador, por as duas principais características pelas quais
vezes incômodo. se define no jogo: “invisível e intangível!
Quando o outro se aproxima, parece que
Fragmento clínico: primeiro momento dispara um alarme interno e eu saio cor-
Lúcia chega à análise queixando-se de rendo! Eu sempre penso que o outro vai
agir nas relações com as pessoas de um jei- me deixar e eu assim me defendo de saí-
da.” Como veremos, isso se transporá para
os jogos amorosos.
2. FREUD. Inibição, sintoma e angústia, p.161. A contex-
tualização das duas teorias da angústia na obra freudia- 2. Desamparo,
na nos permite mostrar que aquilo que nos acostuma-
despreparo, susto
mos a chamar de primeira teoria freudiana da angústia
corresponde a um segundo tempo de sua teorização. Articulando a angústia ao desamparo,
Podemos situar o desenvolvimento da primeira teoria Freud localiza o desamparo e o “defeito”
freudiana da angústia em dois tempos: o primeiro, no
contexto dos anos de 1890, e outro, tomado equivoca- constitutivo de nosso aparelho mental na
damente como a única concepção de angústia da pri- etiologia das neuroses. O fator biológico
meira tópica, que teria seu ápice no texto metapsicoló- diz respeito às condições de desamparo e
gico O Recalcamento (1915). No primeiro momento, a
base da teorização está sob o pilar energético, enquan- dependência, sob os quais a espécie hu-
to, no segundo, destaca-se a definição da angústia como mana é lançada ao mundo, em estado pou-
resultado da transformação da libido recalcada, ou seja, co acabado. É isso o que leva Freud a con-
como o efeito do desligamento do afeto que estava
vinculado à representação ideativa recalcada, concep- cluir que “O fator biológico, então, estabele-
ção claramente tributária do modelo representacional. ce as primeiras situações de perigo e cria a
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necessidade de ser amado que acompanhará a apresenta-se inerte diante do próprio de-
criança durante o resto de sua vida”3. sejo e diante do outro. Sua vida amorosa
Tomando a neurose traumática e a fica bastante comprometida, seja evitan-
compulsão à repetição como evidências da do se envolver com alguém, seja aproxi-
pulsão de morte, Freud busca um esboço mando-se de situações que só fazem reite-
de delimitação entre ansiedade, angústia, rar sua expectativa de fracasso. Os fracas-
medo e susto, propondo uma distinção sos sucessivos nas empreitadas amorosas
entre cada uma dessas respostas em rela- deixam em Lúcia uma sensação que ela
ção ao perigo, tarefa que retomará em “Ini- descreve como “horrível”. Sente-se à mar-
bição, Sintoma e Angústia” (1926)4. gem, de fora, em atraso, uma expectadora
Aquilo que melhor exprime o impac- da felicidade alheia. A análise de Lúcia
to traumático da dimensão pulsional, no passa por historicizar tantas fraturas que
domínio aquém da representação, é a de- marcam uma fragmentação insuportável.
finição freudiana de susto: “é o nome que A análise vai permitindo a Lúcia cons-
damos ao estado em que alguém fica, quando tatar um ponto de repetição em seu enre-
entrou em perigo sem estar preparado para ele, do amoroso, atestado pela sensação de
dando-se ênfase ao fator da surpresa”5. Freud déjà-vu que a acompanha nessas situações:
busca situar a neurose traumática em rela- sempre se interessa por um rapaz que, ain-
ção à concepção de trauma, relacionando da que se interesse por ela, não a escolhe.
a neurose traumática comum à ocorrência Algumas sessões são marcadas por um re-
de uma grande ruptura no escudo protetor lato contínuo de inúmeras situações que
contra os estímulos. Alerta-nos, no entan- têm sempre o mesmo padrão.
to, quanto aos equívocos de entendimen-
to a respeito dessa correlação. À psicanáli- 3. A dimensão econômica do trauma
se não se aplicaria a idéia do choque como Freud propõe uma concepção econô-
sendo o dano direto à estrutura molecular mica de trauma apoiada no aspecto quan-
ou histológica dos elementos do sistema titativo da pulsão e anuncia que a aborda-
nervoso, mas aos efeitos produzidos sobre gem que fará do tema da compulsão à re-
a mente pelo susto e pela ameaça à vida. petição e da pulsão de morte é uma espe-
Daí a importância concedida por Freud ao culação, uma tentativa de acompanhar
elemento de susto, causado pela falta de uma idéia sistematicamente, estimulada
qualquer preparação para a angústia. pela curiosidade de ver onde ela nos leva-
rá. Reitera o rearranjo proposto para a se-
Fragmento clínico: segundo momento gunda tópica, retomando as linhas mestras
Lúcia é acompanhada pela convicção da construção do aparelho psíquico pro-
de que haveria um risco iminente de aban- postas na “Carta 52”6. Encontramos uma
dono do outro. “No fundo eu sempre acho afirmação freudiana que converge para o
que o outro vai me deixar. Me sinto numa nosso argumento em relação ao irrepresen-
situação sem saída.” Ela defende-se previ- tável da pulsão, ao sustentarmos que o in-
amente com receio de ser abandonada: consciente é constituído por elementos que
ultrapassam o recalcado:

“Com base em impressões derivadas de


3. Ibidem, p.151.
4. Explicitamos aqui nossa opção, defendida por diversos nossa experiência psicanalítica, supomos
autores, de traduzir o termo alemão Angst por angús-
tia, e não por ansiedade, conforme o fez a Standard
Edition. A nosso ver, o equívoco de tradução só faz 5. FREUD. Além do princípio de prazer, p.23 (grifos nossos).
confundir ainda mais a difícil delimitação, porém ne- 6. FREUD. Extratos de documentos dirigidos a Fliess-
cessária, entre as noções de susto, medo e angústia. Carta 52, p.281-287.

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que todos os processos excitatórios que Fragmento clínico: terceiro momento


ocorrem nos outros sistemas deixam atrás É interessante notar que para Freud os
de si traços permanentes, os quais formam perigos internos se modificariam ao longo
os fundamentos da memória. Tais traços da vida, mas manteriam uma característi-
de memória, então, nada têm a ver com o ca comum: envolveriam a separação ou
fato de se tornarem conscientes; na ver- perda de um objeto amado, ou uma perda
dade, com freqüência são mais poderosos de seu amor, remetendo sempre a uma si-
e permanentes quando o processo que os tuação de desamparo8. O “caso Lúcia”, que
deixou atrás de si foi um processo que trago para nossa discussão, mostra a perti-
nunca penetrou na consciência”7. nência clínica da relação entre desampa-
ro, trauma e angústia. Nele testemunha-
Nosso ponto de vista é de que, se a mos o pavor diante do irrepresentável. A par-
compulsão à repetição abrange mais que o tir de um acontecimento trivial algo irrom-
retorno do recalcado, nesse sentido, de- pe da tela da fantasia e um objeto cai; o
veríamos considerar que a compulsão à irrepresentável atravessa a análise e ela
repetição de elementos inconscientes frag- toma outro rumo.
mentários, não simbolizados, aquém do Lúcia chega para uma sessão em meu
recalque e da representação, apresenta-se consultório, que fica em uma Vila, e toca
como uma resistência própria do incons- o interfone, como de costume. Para minha
ciente. Com base na retificação operada surpresa, me conta que estava ao portão,
na proposição da segunda tópica, a com- mas que não poderia entrar para a sessão,
pulsão à repetição desses elementos é, do pois havia um cachorro solto brincando
ponto de vista sistemático e dinâmico, uma na pracinha. Estranho e pergunto: “Um
resistência operada pelo Isso. cachorro?” Lúcia me responde que era um
Desde Freud sabemos que a compulsão cachorro poodle, pequeno, mas que ela tem
à repetição é algo derivado da natureza mais verdadeiro pânico de cachorros, o que
íntima das pulsões. Isto realça a importân- nunca havia me participado. De todo jei-
cia da concepção econômica de trauma, to, avisa-me que só trataríamos disso na
apoiada no aspecto quantitativo da pul- próxima sessão, pois ela não dava conta
são, para a compreensão do fenômeno da de passar pelo cachorro e estava indo em-
compulsão à repetição e da ação da pulsão bora.
de morte. A nosso ver, essa concepção de Na sessão seguinte, um conteúdo
trauma nos permite pensar que a excita- igualmente surpreendente emerge. Primei-
ção deixa, através de seus rastros, registros ramente, conta uma situação ocorrida ime-
que são inteiramente aquém da represen- diatamente após sua adoção, aos sete anos.
tação. É justamente esse caráter aquém da Para disfarçar o acontecimento, seus pais
representação aquilo que determina a per- adotivos mudam-se de cidade. Chegando
manência e a força de tais traços, e, por
isso mesmo, as modalidades e os destinos
da repetição desses traços. Esta é uma ques- 8. Freud proporá a existência de vários perigos específi-
cos, capazes de precipitar uma situação traumática em
tão clínica que se articula com as possibili- diferentes épocas da vida: o nascimento, a perda da
dades e limites da análise, o novo e o ve- mãe como um objeto, a perda do amor do objeto ama-
lho na repetição. do, a perda do amor do supereu (relacionado ao senti-
mento de culpa), a ameaça da castração. Resta a Freud
saber o que determinará a forma pela qual a angústia se
manifesta. Segundo Jones (1955, p.494), Freud teria
afirmado que todo afeto (...) é apenas uma reminiscên-
cia de um fato. (...) o “núcleo” de um fato é “a repeti-
ção de alguma experiência significativa específica”.
7. FREUD. Além do princípio de prazer, p.35. (FREUD. Inibição, sintoma e angústia, p. 88.)

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lá, são recebidos com um churrasco na casa te de suas necessidades. Embora esse de-
de amigos de seus pais. Ao ver dois cachor- terminante de dor não tenha uma seme-
ros, “bem pequenos”, ela tem uma crise de lhança com a perda do objeto, Freud ad-
pânico: chora, grita, até que os adultos a verte-nos: “Contudo, não pode ser para nada
colocam sobre uma mesa. que o uso comum da palavra tenha criado a
Sobrevém ao relato desse episódio ou- idéia de dor interna mental e tenha tratado o
tro bem mais significativo. Aos quatro sentimento de perda de objeto como equiva-
anos, ela, uma irmã e sua mãe biológica lente à dor física”10.
partiram da cidade em que moravam em A vida de Lúcia estava marcada por
direção à cidade de sua avó materna. Lú- bruscas e profundas rupturas. A adoção
cia não sabe localizar bem os indícios, mas intrafamiliar havia sido bastante truncada,
suspeitava que aquela era uma viagem com a começar pela obrigatoriedade do silên-
uma finalidade específica: sua mãe a dei- cio que se impunha sobre esse aconteci-
xaria definitivamente com outra pessoa. mento. O sintoma é uma tentativa de tra-
Nessa viagem, Lúcia lembra-se de ter vis- tamento para a angústia proveniente das
to um cachorro morto atropelado na es- experiências traumáticas, tendo um cará-
trada; uma visão que teria lhe despertado ter paradoxal: é uma tentativa de ligação
verdadeiro pavor. Estranha a lembrança de grandes somas de excitação não domi-
dessa cena, dizendo-me que nunca mais nadas psiquicamente e, ao mesmo tempo,
essa imagem tinha lhe ocorrido novamen- a reprodução das condições econômicas do
te. Após me contar essa cena, faz uma cons- trauma. Freud comenta: “Assim este seria o
trução: “O medo que tenho de cachorro é fenômeno fundamental e o principal proble-
o pavor que senti ao ver o cachorro despe- ma da neurose”11. Encontramos no fragmen-
daçado na estrada. Eu sabia de alguma ma- to clínico da análise de Lúcia a evidência
neira que minha mãe estava indo me en- clínica desse caráter paradoxal da angús-
tregar a outra pessoa. Eu era aquele cachor- tia. Desse modo, ao cumprir sua tarefa, o
ro que estava estraçalhado na estrada: era sintoma tem alguma eficácia, mas terá tam-
exatamente assim que eu me sentia.” bém certo fracasso. A análise terá de visar
Ao concluir que a angústia primária a um certo luto em torno do traumático,
da situação de desamparo é traduzida pos- para que uma perda de gozo possa se dar.
teriormente como uma reação ao perigo
de perda de objeto, Freud se vê diante do 4. A compulsão à repetição: o confronto
problema das outras reações à perda: o luto da psicanálise com o irrepresentável
e a dor. O fragmento clínico do “caso Lú- Sob a influência automática da com-
cia” põe em evidência a inter-relação en- pulsão à repetição, a angústia reengendra a
tre estes três termos. repetição da situação experimentada, o que
demonstra a inexistência de uma proteção
“A dor é assim a reação real à perda de completa ao retorno da situação traumáti-
objeto, enquanto a angústia é a reação ca original e a falha do aparelho psíquico
ao perigo que essa perda acarreta e, por em dominar toda a quantidade de excita-
um deslocamento ulterior, uma reação ao ção. Desse modo, ultrapassando o ideal do
perigo da perda do próprio objeto”9. tratamento que se restringia à superação
das resistências, Freud se aproxima mais
De algum modo, a criança sofreria ex- uma vez da aposta técnica na elaboração:
periências de dor física, independentemen- o fator dinâmico tornaria uma elaboração

10. Ibidem, p.166.


9. Inibição, sintoma e angústia, p.165. 11. Ibidem, p.142.

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desse tipo necessária e abrangente, sendo repetição, com ênfase na articulação com
a fase de elaboração o período de “ardoro- o domínio da pulsão de morte. A manifes-
so esforço”. Há uma angústia que nunca tação da pulsão de morte através da com-
cede, se considerarmos a influência auto- pulsão à repetição se expressa na tendên-
mática da compulsão à repetição sobre o cia à volta ao estado anterior à vida. Su-
Isso como uma resistência própria do in- pondo que todas as pulsões são conserva-
consciente. doras, adquiridas historicamente e que ten-
O Isso, formulado na proposição da dem à restauração de um estado anterior
segunda tópica freudiana, é o herdeiro das de coisas, Freud atribui às influências ex-
características fundamentais do inconsci- ternas a função de desvio dessa manuten-
ente tal como conceitualizado na primei- ção permanente da mesma situação. Apoi-
ra tópica, mas com uma distinção essenci- ando-se na biologia, afirma que
al: o Isso é mais que o recalcado. Acredita-
mos que a formulação teórica do Isso se “A entidade viva elementar, desde seu iní-
deve, em primeiro lugar, à necessidade de cio, não teria desejo de mudar; se as con-
reconhecer que o inconsciente não se res- dições permanecessem as mesmas, não
tringe à memória equivalente ao recalca- faria mais do que constantemente repetir
do, ou aos elementos da ordem da repre- o mesmo curso de vida. (...) Essas pul-
sentação; além disso, o conceito surge para sões, portanto, estão fadadas a dar uma
abarcar a aparição do funcionamento in- aparência enganadora de serem forças
consciente em seu caráter mais disruptivo, tendentes à mudança e ao progresso, ao
desligado, não simbolizado, e, conseqüen- passo que, de fato, estão apenas buscan-
temente, destinado à compulsão à repeti- do alcançar um antigo objetivo por ca-
ção em suas formas mais imediatas. minhos tanto velhos quanto novos”13.
O trauma é precisamente o que vin-
cula a pulsão à repetição. A angústia é o O reconhecimento da compulsão à
que rompe e rasga a borda do Imaginário repetição culminou numa virada na teoria
na borda com o Real. Como indicou La- e em implicações importantes para a téc-
can, “A angústia é aquilo do real que não nica analítica. Freud pressente os abalos
engana” – algo da estrutura que convoca que tais desdobramentos teórico-clínicos
no analista um certo saber-fazer com a an- trariam para a psicanálise. “Sob a nova téc-
gústia. Neste impasse que impede a passa- nica, muito pouco, e com freqüência nada resta
gem de Lúcia no dia em que chega para a deste deliciosamente calmo curso dos aconte-
sessão e encontra um cachorro no meio cimentos”14. Haveria certos casos que se
do caminho, a angústia provoca o corpo, comportariam como aqueles sob a técnica
que não passa; o NÃO dar conta de passar hipnótica, mas, mesmo esses, apenas até
pelo cachorro, a denegação, anuncia uma certo ponto. Nos demais casos, desde o
passagem a ser feita. Em seu lugar, o que início, “o paciente não recorda coisa alguma
passa é o cachorro despedaçado. São estes do que esqueceu e recalcou, mas expressa-o
destroços do irrepresentável o que a ana- pela atuação ou atua-o (acts it out). Ele o
lista irá recolher12. reproduz não como lembrança, mas como
O “Além do Princípio de Prazer” ação; repete-o, sem, naturalmente, saber que
(1920) suscita pontos teóricos e clínicos o está repetindo”15. Freud está diante da evi-
cruciais para pensarmos o destino do irre- dência clínica de que a repetição se apre-
presentável da pulsão e as modalidades da
13. FREUD, S. Além do princípio de prazer, p.48.
12. Devo tributar à Thereza Bruzzi estas preciosas indica- 14. Idem, p.165.
ções . 15. Idem.

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senta na cena analítica muito menos como jado por elas próprias e determinado por
lembrança, mas privilegiadamente como influências infantis primitivas”17.
ação.
O paciente começará o tratamento Nessa afirmativa Freud revela-nos o
por uma repetição desse tipo, que Freud caráter estranho e impositivo da compul-
associa à transferência, à produção de so- são à repetição na vida das pessoas, como
nhos, às associações confusas, à vergonha a “perpétua recorrência da mesma coisa”.
por estar em tratamento, à declaração de E acrescenta, numa passagem claramente
que nada tem a dizer. Com relação ao últi- influenciada por Nietzsche: 18
mo aspecto, comenta que isto se impõe
apesar de uma vida cheia de acontecimen- “Essa ‘perpétua recorrência da mesma
tos: “Enquanto o paciente se acha em trata- coisa’ não nos causa espanto quando se
mento, não pode fugir a esta compulsão à re- refere a um comportamento ativo por
petição; e, no final, compreendemos que esta parte da pessoa interessada, e podemos
é a sua maneira de recordar”16. Vemos que a discernir nela um traço de caráter essen-
recordação, antes o ideal a ser alcançado cial, que permanece sempre o mesmo, sen-
pela técnica, não é mais para Freud o pro- do compelido a expressar-se por uma re-
cesso principal da análise. O inconscien- petição das mesmas experiências. Fica-
te, movido pela compulsão à repetição, irá mos muito mais impressionados nos ca-
apresentar-se através da colocação em ato. sos em que o sujeito parece ter uma expe-
Mas, afinal, o que é que ele de fato riência passiva, sobre a qual não possui
repete ou atua? Freud nos diz que durante influência, mas nos quais se defronta com
o tratamento o paciente repete tudo, suas uma repetição da mesma fatalidade”19.
inibições, suas atitudes inúteis, seus traços
patológicos de caráter e todos os seus sin- Freud reconhece a primazia da com-
tomas. Sabemos que a compulsão à repeti- pulsão à repetição da pulsão de morte no
ção situa-se nos domínios da pulsão de funcionamento psíquico, sendo ela algo
morte. Exatamente essas situações indese- “mais primitivo, mais elementar e mais pulsi-
jadas e emoções penosas serão justamente onal do que o princípio de prazer que ela do-
as repetidas e engenhosamente revividas mina”20. Admite que é possível encontrar
pelos pacientes na transferência. casos em que “podemos observar os motivos
Por outro lado, a compulsão à repeti- puros da compulsão à repetição, desapoiados
ção não se dá apenas sob a transferência, por outros motivos”21.
mas é um fenômeno universal, estranho, O registro do Real, fundado por La-
demoníaco. A psicanálise revela a univer- can, auxilia-nos na abordagem da angús-
salidade da ação nas pessoas do fenômeno tia, tanto teórica quanto clinicamente. O
da compulsão à repetição, que não se res- Real só é possível de ser apreendido em
tringe à transferência no tratamento com relação aos registros do Simbólico e do
os neuróticos.

“A impressão que dão é de serem perse-


guidas por um destino maligno ou possu- 17. Idem, p.32-33.
ídas por algum poder ‘demoníaco’; a psi- 18. A “perpétua recorrência da mesma coisa” é um eco de
Nietzsche. FREUD, S. (1919). O Estranho. Rio de
canálise, porém, sempre foi de opinião de Janeiro: Imago, 1990, p.233-269. (Edição Standard
que seu destino é, na maior parte, arran- Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud –
ESB, v. XVII).
19. FREUD, S. Além do princípio de prazer, p.33.
20. Ibidem , p.34 (grifos nossos).
16. FREUD, S. Além do princípio de prazer, p.166. 21. FREUD, S. Além do princípio de prazer, p.33.

48 Reverso • Belo Horizonte • ano 30 • n. 56 • p. 41 - 60 • Out. 2008


A angústia como incidência clínica do irrepresentável da pulsão: desamparo, trauma e repetição

Imaginário. Conforme nos traz Martine to temos uma importante contribuição da


Lerude, o Real é “definido como o que esca- teorização de Lacan em torno do que de-
pa à apreensão do Simbólico, o Real não se signamos como irrepresentável.
pode dizer nem escrever, sendo por isso que
depende da categoria do impossível, ‘do que “Engendrada pelo real do trauma, a re-
não se cansa de não se escrever’”22. O Real é petição perpetua-se em conseqüência do
irredutível ao sentido e não se presta a uma fracasso da simbolização; Lacan definirá
representação imaginária unívoca; ele pró- daí em diante o real como ‘o que retorna
prio determina o estabelecimento das duas sempre ao mesmo lugar’. O trauma, situ-
outras categorias. ado por Freud no quadro da pulsão de
Lerude (2005) delineia o aparecimen- morte, é conceituado por Lacan como real
to do conceito na obra de Lacan. Na con- impossível de simbolizar”25.
ferência O Simbólico, o Imaginário e o Real
(1953), a dimensão do Real é introduzida Lacan passa a abordar a angústia e o
em referência à pulsão de morte e ao auto- sintoma sob novo prisma a partir da intro-
matismo da repetição. Lacan declara: dução da categoria de Real. Em La Troisiè-
“Uma coisa é impressionante: existe na aná- me (1974), Lacan afirma que “o sintoma é
lise toda uma parte de real nos sujeitos (...) o que ‘os sujeitos possuem de mais real’”26.
Existe algo que põe em jogo os limites da aná- Assim, apesar de nossa capacidade de sim-
lise, e esse algo consiste na relação do sujeito bolização, subsistiria sempre um não-sen-
com o real”23. O Real se especifica pela tido irredutível. Para que a análise não se
maneira singular como o sujeito se vincu- torne um processo infinito de proliferação
la com o Simbólico. Segundo Lerude, é a de sentido, ela deve atingir o Real do sin-
partir da leitura de Freud que Lacan desta- toma, modificando a relação do sujeito
ca a noção do Real, especialmente naqui- com essa parte irredutível.
lo que é irredutível nos tratamentos, o con- Lerude faz uma curiosa observação a
fronto com a castração, o ponto do umbi- respeito dos mal-entendidos em torno da
go do sonho, o ponto limite de não-senti- noção de Real:
do.
No seminário Os Quatro Conceitos “Entretanto, todos nós temos dela uma
Fundamentais da Psicanálise (1964-1965), experiência intuitiva que vai dos fenôme-
Lacan retorna a Freud para uma retomada nos de Unheimlich à angústia, do não-
do “Além do Princípio de Prazer” (1920), sentido de um certo tipo de humor à in-
abordando o Real articulado ao automa- venção poética que manipula a letra e que
tismo da repetição. Em 1966, Lacan afir- decompõe o sentido. Assim, quando o
ma: “O que não se atualizou à luz do simbó- quadro do Imaginário vacila e falha a
lico reaparece no real”24. Distingue duas ver- fala, quando a realidade não é mais or-
tentes da repetição, uma simbólica, que denada nem pacificada pela tela da fan-
decorre da insistência dos significantes tasia, a experiência do Real surge de ma-
(automaton); a outra real (tiché), resultan- neira particular para cada um”27.
te do encontro com o trauma. Nesse pon-

25 LERUDE, In: MIJOLLA, A. de. Dicionário interna-


22. LERUDE, In: MIJOLLA, A. de. Dicionário interna- cional de psicanálise: conceitos, noções, biografias,
cional de psicanálise: conceitos, noções, biografias, obras, eventos, instituições. Trad. Álvaro Cabral. Rio
obras, eventos, instituições. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Imago, 2005, p.1554.
de Janeiro: Imago, 2005, p.1553. 26. LACAN, J. apud LERUDE, in: MIJOLLA, idem,
23. LACAN, J. apud LERUDE, idem, p.1553. 2005, p.1554.
24. Idem, p.1554. 27. LERUDE, apud MIJOLLA, idem, 2005, p.1555.

Reverso • Belo Horizonte • ano 30 • n. 56 • p. 41 - 60 • Out. 2008 49


Anna Carolina Andrade Barbosa

4.1 Os diferentes estatutos em direção oposta; pois, aquilo de que alguém


da repetição na clínica se lembra foi: é uma retomada pra trás; en-
Ainda sobre os diferentes estatutos da quanto que a repetição propriamente dita é
repetição na clínica, gostaríamos de intro- uma reminiscência para a frente”30. Trata-se
duzir uma discussão a respeito das contri- de dois movimentos que têm a mesma di-
buições trazidas por Barros28. Concorda- reção, mas em sentidos opostos. Enquan-
mos inteiramente com o autor quando diz to a reminiscência trataria de um movi-
que a repetição deve ser pensada articu- mento no sentido do passado, a repetição
lando-a aos outros conceitos fundamen- seria um movimento para frente, para o
tais da psicanálise: pulsão, inconsciente, futuro. Partindo da idéia kierkegaardiana,
transferência. Poderíamos abordar a repe- Barros afirma que a repetição não significa
tição em relação ao sintoma, à constitui- necessariamente a reprodução do mesmo
ção do sujeito, à fixidez da fantasia, à es- e insiste na idéia de que há uma repetição
trutura da transferência, à economia pul- diferencial. Para ele, é através da repeti-
sional, às estruturas clínicas. O analista tra- ção do velho que o novo poderá aparecer.
balha, a todo tempo, na e com a repeti- Sobre a clínica da repetição, Barros
ção. Reiteramos, com Barros, nossa con- aposta na possibilidade de que um ato se
vicção de que a compulsão à repetição reverta em palavras pelas quais o sujeito
possui um caráter paradoxal: um viés uni- possa se representar. “É na passagem da ação
versal, que ultrapassa e antecede o sujei- à palavra que o sujeito assume a sua história;
to29; e um viés individual, singular, da ma- ou melhor, a historicização do sujeito corres-
neira como afeta, de modo inédito, cada ponde à significantização, assim como a pas-
sujeito. Barros sugere que nos voltemos sagem da pré-história é demonstrada pela pre-
para o aspecto demoníaco da repetição, sença de documentos escritos”31. Não se trata
para o automatismo da repetição. Nesse simplesmente de saber o que se repete, mas
sentido, aponta para sua dimensão de ex- de localizar o que há de mais singular na
timidade, realçada na teorização de Lacan: repetição.
“Não vem de nenhum Outro e não diz respei-
to a nenhum sujeito”, o que se expressa por “Na clínica psicanalítica se buscaria não
seu caráter imperativo. chegar ao ponto inaugural da repetição
Apoiando-se na concepção de Ki- (esse ponto inaugural, nós sabemos des-
erkegaard, que entende a repetição como de o Projeto, não existe no sentido ma-
retomada, Barros afirma que “Repetição e terial, pois corresponde ao objeto perdido
reminiscência são um mesmo movimento, mas desde sempre), mas permitir ao sujeito
que, abrindo mão da repetição do mes-
mo, possa chegar ao seu singular”32.
28. As contribuições trazidas desse autor baseiam-se emi-
nentemente em minhas anotações pessoais da confe-
rência de abertura de trabalhos realizada por Romildo Para Barros, é por esta razão que Freud
Rêgo Barros, O velho e o novo na repetição, a convite do insiste para que cada caso seja tratado
Grupo de Estudos Psicanalíticos (GREP), realizada em como se fosse o primeiro. A interpretação
Belo Horizonte, em março de 2003.
29.Acreditamos que o texto O Estranho (1919) traz de analítica é singular porque incide precisa-
modo genial o entendimento de que a compulsão à mente sobre a causa do desejo: “O que há
repetição tem uma dimensão de extimidade em relação
ao sujeito. A este respeito, ver nossa abordagem do
tema no item 2.4 “O estranho é a repetição constante
da mesma coisa”, p.140. BARBOSA, A. C. A. Capítu- 30. KIERKEGAARD, S. apud BARROS, R.R. La repri-
lo 2: O representável e o irrepresentável na teoria freudi- se, GF – FLAMMARION, p.65-66.
ana da pulsão In: Inscrição e destinos do irrepresentável 31. BARROS, R.R. Curso sobre a repetição, p. 3. (mi-
da pulsão: deslizamentos teóricos e incidências na clínica meo)
psicanalítica. Belo Horizonte, 2006, p.132-148. 32. Idem.

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A angústia como incidência clínica do irrepresentável da pulsão: desamparo, trauma e repetição

de mais singular no sujeito é a causa de seu que o analista deverá estar preparado para
desejo, através da qual ele rompe com os uni- uma luta perpétua com o paciente (diría-
versais. Em outras palavras, é na causa do mos, uma luta travada contra a compulsão
seu desejo que o sujeito pode reconhecer algo à repetição). “Se a ligação através da trans-
diferente de sua mera determinação simbóli- ferência transformou-se em algo de modo al-
ca”33. Seguindo Lacan, Barros afirma que o gum utilizável”35, o manejo da transferên-
índice da repetição só se constitui quan- cia é o que pode permitir tratar a pulsão
do, à analogia ou à associação entre dois na esfera psíquica, evitando que passe di-
eventos, se some algo do gozo: retamente para a esfera motora, ou seja,
que o paciente não esteja destinado ao
“Esse algo a mais é dado pela dimensão de automatismo da execução das ações repe-
gozo da narrativa, que surge como tiché, titivas e de seus prejuízos. A neurose de
como ruptura, que se dá no ponto em que transferência, ao atualizar a compulsão à
a demanda suposta no Outro se enlaça repetição, in statu nascendi, se oferece a nós
com o gozo fantasmático do sujeito. É o como o material para o trabalho terapêu-
que poderíamos chamar de interiorização tico. Freud se dá conta de que o manejo
do trauma, que revela o sujeito como divi- da transferência é o instrumento principal
dido. Algo de um saber sobre o próprio gozo, para lidar com a compulsão à repetição.
que no plano do trauma é recusado ao Desta constatação provêm os novos des-
sujeito, pode ser assumido por ele. dobramentos na teorização freudiana so-
(...) bre a técnica da psicanálise, ultrapassando
Em outros termos, é o aspecto de tiché o a superação da interpretação das resistên-
que dá realmente o caráter de repetição, cias como instrumento técnico privilegia-
e não o seu aspecto de automaton. Po- do e demarcando o germe da teorização
deríamos igualmente dizer que é o aspec- em torno do processo de elaboração.
to real da repetição que predomina sobre A neurose de transferência é o ado-
o seu aspecto simbólico. ecimento provocado pelo tratamento que
(...) evidencia a repetição como uma força atual
Penso que podemos aqui tentar uma e real. Segundo Freud, nós analistas deve-
hipótese geral: para que uma repeti- mos saber que o adoecimento não cessa
ção possa ser reconhecida no plano com o início de uma análise e é justamen-
simbólico é preciso que algo do real se te o estabelecimento da neurose de trans-
imponha como passagem”34. ferência que nos permite tratá-la não como
um acontecimento do passado, mas como
4.2 O tratamento analítico e a técnica: uma força atual. Dentro do campo do tra-
é possível abrir novos destinos tamento, o paciente experimenta o adoe-
ao irrepresentável? cimento, fragmento por fragmento, como
algo real e contemporâneo. Pensamos que
4.2.1 O manejo da transferência
é sob a transferência que a repetição se
Temos aqui a reviravolta teórico-clí- colocará diante do analista, que através de
nica: se a compulsão à repetição é o obje- seu manejo deve abrir novos destinos para
to da psicanálise, o manejo da transferên- aquilo que se impunha como a repetição
cia é o instrumento técnico. Freud nos dirá do mesmo.

33. Idem.
34. BARROS, R.R. Curso sobre a repetição, p.4 e 5. (mi-
meo). Grifo do autor. 35. FREUD, S. Recordar, repetir e elaborar, p.168.

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Anna Carolina Andrade Barbosa

4.2.2 A arqueologia psicanalítica alguma estrutura psíquica possa realmen-


“Construções em Análise” (1937) foi te ser vítima de destruição total”37.
o último escrito técnico de Freud publica-
do em vida. Retomaremos as suas indica- O trabalho da análise seria o de trazer
ções para a técnica analítica nesse artigo à luz os objetos psíquicos, mas Freud nos
por acreditarmos que esse texto insinua diz que esses são mais complicados do que
algumas saídas possíveis para o trabalho os objetos materiais do escavador e possu-
analítico diante da confrontação com o em uma estrutura que contém bastante
irrepresentável. Freud compara o trabalho coisa misteriosa. Esse ponto da teorização
de construção do analista ao do arqueólo- freudiana assinala coisas distintas, mas nem
go, assemelhando-o à escavação de algo por isso excludentes: embora estejamos de
que foi destruído e soterrado. Do mesmo acordo quanto à indestrutibilidade de cer-
modo que o arqueólogo, tas inscrições inconscientes, acreditamos
que o objeto psíquico tenha um caráter tão
“a partir dos restos encontrados nos es- fragmentário quanto o do arqueólogo,
combros, assim também o analista pro- como “restos nos escombros”, para utilizar
cede quando extrai suas inferências a a expressão do próprio Freud. O que signi-
partir dos fragmentos de lembranças, das fica sua atribuição de uma característica
associações e do comportamento do su- enigmática à natureza do objeto psíquico?
jeito da análise. Ambos possuem direito Isso revelaria que o trabalho na análise não
indiscutido a reconstruir por meio da su- se restringe ao descobrimento do que já
plementação e da combinação dos restos está inscrito como representação recalca-
que sobreviveram”36. da, mas abrange suas fraturas, próprias do
irrepresentável38. Reconhecer que a arque-
Aproximando as afinidades entre as ologia é irredutível à história implica que
tarefas de arqueólogos e analistas, Freud as modalidades com as quais a pulsão in-
reconhece que ambos estão igualmente siste não podem ser totalmente capturá-
sujeitos a dificuldades e erros. A condição veis nas redes do discurso que historiciza.
mais favorável do trabalho do analista em Em “Uma Nota sobre o Bloco Mági-
relação ao do arqueólogo seria justamente co” (1925 [1924]), Freud vale-se do en-
o acesso às repetições de reações de seus genhoso brinquedo para estabelecer um
pacientes, através da transferência. Freud paralelo entre ele e o aparelho mnêmico,
presume que, enquanto o arqueólogo lida propondo um modelo estruturado em sis-
com objetos destruídos que tiveram gran-
des partes perdidas e irrecuperáveis, o ob-
37. Idem, p.277-278.
jeto psíquico teria uma história primitiva, 38. Sobre este ponto, Laplanche declara: “O ser humano é
cujos elementos essenciais estão preserva- historizante, no sentido de que busca unificar-se, com-
dos: preender-se, sintetizar-se, dar sentido a sua vida ou
fazer com que algo que perdeu o sentido volte a tê-lo
(...) Na direção deste movimento espontâneo a psica-
“Mesmo coisas que parecem completa- nálise recupera até as falhas, até as debilidades, os pâni-
mente esquecidas estão presentes, de al- cos, os lutos, as catástrofes. A psicanálise não é senão
outra maneira de fazer a história. Mas um método de
guma maneira e em algum lugar, e sim- historizar-se segundo um modo que se pretende impre-
plesmente foram enterradas e tornadas ciso (...) A psicanálise não pode ceder à megalomania
inacessíveis ao indivíduo. Na verdade, de pretender integrar tudo. Nisto consiste a parte irre-
dutível, ao lado da história, da arqueologia; arqueolo-
como sabemos, é possível duvidar de que gia irredutível à história, que exuma e respeita o que é
irredutível. LAPLANCHE (La psychanalyse: histoire
ou archéologie?, in: La révolution copernicienne inache-
36. FREUD, S. Construções em análise, p. 277. vée), apud BLEICHMAR, S. 1994, p.61.

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A angústia como incidência clínica do irrepresentável da pulsão: desamparo, trauma e repetição

temas.39 Para dar conta dessa característica ter seus efeitos: “basta que elas estejam pre-
peculiar de nosso aparelho, ele irá se de- sentes”41.
bruçar sobre a estrutura do ‘Bloco Mági- Assim, a tarefa analítica não se restrin-
co’, considerando que há uma similarida- ge à recuperação de lembranças de algo que
de entre a construção desse invento e nos- está lá, a serem reveladas pela interpreta-
so aparelho perceptual: ambos forneceri- ção. Nesse momento, embora Freud se
am uma superfície sempre pronta a rece- aproxime, não reconhece claramente o que
ber novas inscrições e, simultaneamente, ele próprio explicitou em outros momen-
manteriam o registro de traços permanen- tos de sua obra. A radicalidade da inova-
tes das notas realizadas sobre ela. A dis- ção aberta pela construção como uma fer-
cussão é uma tentativa de descrever o ramenta do trabalho analítico diz respeito
modo pelo qual a memória se faz; se a me- ao reconhecimento de que o inconscien-
mória não é confiável, precisamos suple- te não é todo da ordem da representação,
mentá-la e para isso tomamos nota por es- que nem todos os seus elementos sofreram
crito. Portanto, mais do que um modelo o tratamento psíquico que o recalcamen-
para a memória, o que está anunciado é to destina a eles. A construção é uma ino-
um modelo para a inscrição dos traços in- vação da técnica diante da evidência de
conscientes. que a análise opera sobre fragmentos e so-
No ‘Bloco Mágico’, a escrita se dá so- bre hiâncias, fazendo surgir algo que nun-
bre a última folha de plástico, mas isso sem ca esteve lá onde a memória alcança. Nes-
o depósito ou acréscimo de material sobre se sentido, diríamos que os efeitos de ver-
essa superfície. Trata-se de escrita através dade produzidos pela análise não estão pro-
de sulcos, comparável a antigos modos de priamente na rememoração, mas na cons-
escrever: “um estilete pontiagudo calca a su- trução.
perfície, cujas depressões nela feitas constitu- Freud faz uma declaração que aponta
em a ‘escrita’”40. Pensamos que a idéia freu- para a relação entre os traços de memória
diana de uma escrita sem depósito ou acrés- e a questão da verdade histórica:
cimo de material, através de sulcos, pode
nos servir como uma proposição de um “Essas recordações poderiam ser descri-
modelo que leve em conta a dimensão de tas como alucinações, se uma crença em
negatividade através do qual se configu- sua presença concreta se tivesse somado
ram as inscrições pulsionais aquém da re- à sua clareza. (...) talvez seja uma ca-
presentação. No que diz respeito à perma- racterística geral das alucinações — à
nência e ao efeito das inscrições psíquicas, qual uma atenção suficiente não foi até
Freud nos alerta para o fato de que, embo- agora prestada — que, nelas, algo que
ra os traços permanentes das notas recebi- foi experimentado na infância e depois
das encontrados na camada de cera do esquecido retorne — algo que a criança
‘Bloco Mágico’ não estejam acessíveis para viu ou ouviu numa época em que ainda
a utilização, não significa que deixem de mal podia falar e que agora força o seu
caminho à consciência, provavelmente
deformado e deslocado, devido à opera-
ção de forças que se opõem a esse retor-
39. O ‘Bloco Mágico’ é constituído por três camadas: no”42.
uma prancha de cera; preso sobre ela encontra-se um
pedaço de papel encerado; a camada superior é um
plástico transparente, que repousa sobre as outras
camadas, mas cuja parte inferior não se encontra fixa-
da a estas. FREUD, S. Uma Nota sobre o Bloco Mági-
co, p.253-259. 41. Idem, p.258.
40. Idem, p.257. 42. FREUD, S. Construções em análise, p.285.

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Anna Carolina Andrade Barbosa

Apesar das deformações e ligações do tino psíquico. Desse modo, ao admitir a


material do passado com o presente real, a heterogeneidade entre os elementos pul-
análise deveria ir na direção do fragmento sionais, nos domínios do representável e
de verdade histórica; tanto na neurose do irrepresentável, somos imediatamente
quanto na psicose encontraríamos essa levados a reconhecer as diferentes moda-
transposição do passado para o presente ou lidades da repetição que encontramos na
para a expectativa futura. Segundo Freud, clínica.
a espera neurótica da ocorrência de algum Como a análise trabalha diante do que
acontecimento terrível, geradora de angús- é repetição diferencial e do que é repeti-
tia, remete-se a algo que em outra ocasião ção do mesmo? A análise pode operar com
realmente aconteceu e foi terrificante. elementos desligados, que têm um caráter
Freud traça uma analogia entre os de- indestrutível, destinado à repetição? De
lírios dos pacientes e as construções que que maneira aquilo que insiste como idên-
erguemos no decurso de um tratamento tico pode ser visado pelo trabalho analíti-
analítico como tentativas de explicação e co, pode se rearticular, se recompor? De
de cura, no sentido de que a eficácia de que modo a análise pode instalar um mo-
ambos se refere à recuperação de um frag- vimento de criação, pode fazer circular de
mento da experiência perdida ou à cons- outro modo esses elementos, pode inau-
trução de um elemento de verdade histó- gurar algo novo?
rica. Antes de retomarmos o fragmento clí-
nico, convém assinalar que compartilha-
“Será tarefa de cada investigação indivi- mos da concepção de memória legada por
dual revelar as conexões íntimas existen- Freud como algo sujeito aos efeitos do a
tes entre o material da rejeição atual e o posteriori44; ainda assim, se pensamos a ar-
do recalque original. Tal como nossa ticulação da memória ao inconsciente, é
construção só é eficaz porque recupera um relevante reconhecer a inscrição, a força e
fragmento de experiência perdida, assim a permanência de traços dos acontecimen-
também o delírio deve seu poder convin- tos históricos e contingentes.
cente ao elemento de verdade histórica que
ele insere no lugar da realidade rejeita- 4.2.3 A irredutibilidade das inscrições
da”43. do arcaico (irrepresentável)
às transcrições do originário
Qual a pertinência clínica de se to- (representável)
mar como tema de investigação os termos Na “Carta 52”, Freud sustenta a idéia
diferenciais da inscrição da pulsão, realçan- de que o aparelho psíquico se estrutura a
do a dimensão da inscrição pulsional em partir de fragmentos mnêmicos: “o materi-
um nível aquém da representação? No que al presente em traços de memória estaria su-
diz respeito ao tratamento analítico, trata- jeito, de tempos em tempos, a um rearranjo
se do intrincamento entre os distintos es- segundo novas circunstâncias — a uma re-
tatutos daquilo que se inscreve e o seu des- transcrição”45. Nesse sentido, interessa-nos

43. FREUD, S. Idem, p.286. Freud afirma, a nosso ver 44. Diante das oscilações freudianas e da controvérsia em
equivocadamente, que tanto na histeria quanto nas torno da noção de memória em psicanálise, agradeço à
psicoses os pacientes sofreriam de reminiscências; mas Suzana Braga por ter chamado a atenção para a necessi-
admite que esta era uma fórmula restrita diante da dade de que se explicitasse aqui a delimitação em torno
etiologia do sofrimento psíquico e declara que não do conceito de memória, com a qual compartilho.
deveríamos excluir o funcionamento de vários ou- 45. FREUD. Extratos de documentos dirigidos a Fliess-
tros fatores. Carta 52, p.281.

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A angústia como incidência clínica do irrepresentável da pulsão: desamparo, trauma e repetição

rever as possibilidades e impossibilidades a construção de um entramado, entretecido


de transcrições daquilo que é inscrito, re- no qual o analista ajuda a articular simboli-
alçando o lugar deixado a uma certa irre- zações faltantes”47. Já as representações-coi-
dutibilidade para o que Freud denomina sa seriam passíveis de ser retranscritas nos
signos ou índices de percepção, ao dife- termos do processo secundário e, portan-
renciá-las das representações-coisa. A no- to, recapturáveis no processo analítico atra-
ção de arcaico, forjada por Silvia Bleich- vés da associação livre. O inconsciente
mar, auxilia-nos a resguardar à pulsão um recalcado operou uma tradução possível,
caráter aquém da representação, para os mais estruturado, passível de ser fantasma-
elementos que se inscrevem como Wz tizado. Ficará para um artigo futuro a reto-
[Wahrnehmungszeichen] (indicação de per- mada desta discussão que realizamos a par-
cepção)], ou seja, signo ou índice de per- tir do modelo freudiano do aparelho psí-
cepção, em contraposição aos traços que quico proposto na “Carta 52”, que traz a
sofrem uma tradução posterior, Ub (Un- concepção do inconsciente e da memória
bewusstsein) [inconsciência], constituídos articulados a uma teoria do trauma, reco-
por representações-coisa e que acedem ao nhecendo a irredutibilidade de algumas
estatuto do recalcado originário. Daí deri- inscrições às transcrições.
vam diferentes destinos para a pulsão (ou
para a compulsão à repetição) e distintas 4.2.4 A técnica e a clínica diante
modalidades da apresentação da repetição do irrepresentável
na clínica46. Mas o que fazer com a perma- O fragmento clínico nos permite dis-
nência de elementos cujo caráter indestru- cutir como a angústia se apresenta na clí-
tível e isolado os condena à repetição? Blei- nica psicanalítica e o caminho percorrido
chmar concebe o aparelho como algo aber- no tratamento para encontrar novos des-
to a recomposições produtivas, efeitos de tinos para o irrepresentável: Lúcia e o trau-
novas inscrições, e aponta que a análise ma do abandono, desde o pavor diante do
deve visar modos de ligação e de ressim- irrepresentável até, em suas palavras, a
bolização. O destino das inscrições primor- construção de uma outra via narrativa.
diais pode ser sua recomposição sob a for-
ma dos sintomas, das transações, das fan- Fragmento clínico: quarto momento
tasias. Com o tempo, Lúcia começa a viver
A distinção entre esses dois estatutos, as relações com as pessoas sem tanto de-
arcaico e originário, e seus destinos exige sespero e sofrimento. A produção acadê-
nuances diferentes em relação ao método, mica da paciente repercute em sua análi-
ou seja, à maneira como a análise visa e se. Ela dedica-se a um estudo na área de
trata tais elementos. Bleichmar acompa- semiótica e parte de seus estudos diz res-
nha Freud, sugerindo uma estratificação no peito ao estatuto de verdade da realidade
inconsciente: haveria elementos irredutí- factual e da ficção: “As marcas ficam, per-
veis a toda tradução, indiciáticos, não in- manecem, mas a partir dessas marcas se dá
tegrados, constituídos por fragmentos de uma reinvenção.” Lúcia traz para a análi-
objetos. “Os ‘signos de percepção’ requerem se o que pensa a partir de seu estudo sobre
imagens virtuais e realidade: a realidade é
sempre um recorte, um certo ponto de vis-
46. Ver BARBOSA, A. C. A. Capítulo 3: Os termos
diferenciais da inscrição e dos destinos da pulsão: a ta, e ela supõe que poderia ter feito “um
irredutibilidade das inscrições (o irrepresentável) às
transcrições (o representável). In: Inscrição e destinos
do irrepresentável da pulsão: deslizamentos teóricos e 47. BLEICHMAR, S. A fundação do inconsciente: desti-
incidências na clínica psicanalítica. Belo Horizonte, nos da pulsão, destinos do sujeito. Porto Alegre: Ar-
2006, p.278-300. tes Médicas Sul, 1994, p. 56.

Reverso • Belo Horizonte • ano 30 • n. 56 • p. 41 - 60 • Out. 2008 55


Anna Carolina Andrade Barbosa

recorte melhorzinho”... Se antes só se quei- Algumas perguntas a acompanharam a


xava dos pais, comenta que há de sua par- vida inteira: “Por que minha mãe me dei-
te “um dedinho podre. A minha mente é xou? Por que me entregou para outra pes-
tão fértil, eu penso e invento tanta coisa! soa, por que me deixou com minha avó?
Se eu consigo inventar ou piorar as coisas Por que ela escolheu ficar com minha irmã
ruins, não é possível que eu não seja capaz e não comigo?!” No decorrer da análise a
de criar uma história melhor para falar de queixa desliza para outras perguntas: “Por
mim, né?!” que será que fui a escolhida pelos meus pais
Lúcia dedica-se a pesquisar diferentes adotivos? Às vezes me perguntava se era
modalidades narrativas. A primeira moda- porque tenho a pontinha das unhas bem
lidade narrativa é a figurativa, mais usual e branquinhas... E eu acho, foi pelos meus
prevalente. Desse modo, as histórias seri- belos olhos azuis!”. Tais questões, ainda que
am contadas sempre da mesma maneira, estejam atravessadas pelos ideais no nível
com a mesma estrutura e a mesma lógica e Imaginário, revelam a construção de um
encadeamento. Seria uma narrativa padro- lugar melhor em relação ao desejo do Ou-
nizada, com começo, meio e fim. A outra tro. Lúcia parece aos poucos ir retificando
modalidade narrativa, argumento que Lú- sua posição em relação ao fato da adoção
cia desenvolve, caminha em outra direção: e encontrando um lugar para sua filiação:
haveria outras narrativas possíveis, que es- “Eu acho que eu de alguma maneira nun-
capam a essa lógica previsível e fechada. A ca havia adotado meus pais”.
produção acadêmica de Lúcia desliza sobre A análise promove um movimento da
sua própria análise. Ela declara: “Existem queixa em direção a um reposicionamen-
outras maneiras de se contarem histórias e to diante da própria vida. Lúcia diz que
é isso o que eu estou querendo saber.” teme tornar-se “uma velha rabugenta quei-
Lúcia interessa-se por documentários xando-se de tudo e todos”. Diz ter pressa
e faz uma articulação de suas leituras com para tomar a rédea da vida nas mãos e vi-
um conceito teórico de Deleuze: fabula- ver ao seu próprio modo. A urgência sub-
ção. Me diz: “A fabulação é uma verdade jetiva faz com que Lúcia abra para si no-
que só se produz no ato da fala. Quando vas possibilidades amorosas, outros enre-
uma pessoa conta a sua história diante da dos; a paciente ultrapassa a contingência
câmera, a verdade dela irá aparecer não do emprego em que estava e retoma a cons-
apenas no conteúdo do que ela falou, mas trução da carreira profissional para o rumo
também nos intervalos, no olhar, na respi- que desejava. E num certo momento, me
ração, no semblante, no direcionamento diz que achava que já havia trabalhado
para quem ela fala. Ela não faz simplesmen- sobre muitas coisas importantes na análi-
te um relato ou uma descrição da realida- se, que se sentia bem o suficiente para po-
de, embora algo da realidade esteja lá no der se lançar nas coisas que gostaria de fa-
que ela diz. Então é algo vivo e singular: o zer e que queria se experimentar sem a
que ela fala tem a ver com a realidade, mas análise. Havia chegado a hora.
já é o seu olhar, uma construção sobre ela... A angústia, tanto como conceito teó-
só ela falaria daquele jeito. E mais: ela pró- rico quanto como incidência clínica, re-
pria é afetada e surpreendida com o que vela a inscrição no psiquismo de intensi-
ela fala e o ato de falar também altera a dades que não se transcreveram em quali-
maneira como ela vê sua realidade. Isso é dades, ou seja, de elementos que até então
parecido com o que a gente faz aqui na estavam no domínio do irrepresentável.
análise!” Em cada análise, seremos confrontados
Testemunho na análise de Lúcia seu com o desamparo do sujeito e com os efei-
reposicionamento em relação à adoção. tos traumáticos do excesso pulsional. Tal
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A angústia como incidência clínica do irrepresentável da pulsão: desamparo, trauma e repetição

excesso, se por um lado é aquilo que en- coberta”48. Incorporando fragmentos clínicos
gendra a constituição psíquica, por outro ao trabalho de formalização teórica, fizemos
fará para sempre uma exigência de traba- a opção por nos deixar afetar pelo irrepre-
lho ao aparelho. Como vimos no fragmen- sentável que a nós se apresenta e que em nós
to clínico da análise de Lúcia, diante do aciona os movimentos de interrogação. j
pavor das marcas de um abandono — até
então situado no domínio do irrepresen- ANXIETY AS A CLINICAL
tável —, e, por isso mesmo, destinadas à INCIDENT OF WHAT
IS NON-REPRESENTABLE
compulsão à repetição, a análise pode abrir IN THE INSTINCT:
ao sujeito a possibilidade de reordenar es- HELPLESSNESS, TRAUMA
sas marcas e construir outra narrativa para AND REPETITION
dizer de si e do que lhe aconteceu.
A compulsão à repetição sob a for- Abstract
ma em que se apresenta nos fenômenos This investigation was brought on by doubts
psicossomáticos, nas toxicomanias, nas that have come up in my clinical practice.
passagens ao ato, ou mesmo na fixidez das Both, my theoretical work and my writings as
constelações fantasmáticas na neurose, tal an analyst have resulted from what I have
como testemunhamos neste fragmento clí- heard from my patients. These effects should
nico, exige um trabalho não de decifração, return to them. I believe that it is the existing
mas de construção, de invenção, que con- tension between the singular (the inedita that
fira uma plasticidade ao que até então se appears in what we hear from each patient)
impunha como o mesmo, condenado à and the universal (that which all theory in-
repetição. tends to produce) that psychoanalytic trans-
O tratamento analítico intervém com mission can happen more vigorously and ri-
uma operação que abre novas vias. Por gorously. It was in the context of my Master’s
onde caminhamos, podemos concluir que dissertation, concluded in July 2006, ‘Ins-
a análise não se reduz à extração de ele- criptions and destinations of what is
mentos do inconsciente ou a lidar com as non-representable in drive (instinct);
representações como se já estivessem co- theoretical movements and incidents in
locadas desde sempre. Ao trabalhar com o clinical psychoanalysis’, [1] that the approxi-
estranho, o demoníaco, o disruptivo, o mation to anxiety occurred. We have studied
desligado, a análise reinaugura para o su- Freudian texts and pointed out developments
jeito a possibilidade de abrir novos cami- in the Freudian theory on anxiety that highli-
nhos para a circulação dos elementos pul- ght the presence of elements from the domain of
sionais. Sabemos que algo permanecerá ir- what is non-representable by using movements
redutível a uma simbolização; mas terá in the concepts of helplessness, trauma, the
valido a construção possível. conpulsion to repeat, and the death instinct.
O viés clínico deste trabalho define
tanto um método quanto uma ética. Al- Keywords
gumas palavras trazidas pelo casal Botella Anxiety, Non-representable, Instinct (drive),
nos parecem bem dizer do que nos insti- Helplessness, Trauma, Compulsion to repe-
gou a trazer para esta discussão um frag- at, Death instinct, Real, Psychoanalytical
mento clínico, mimetizando aquilo que é practice, Transference, Constructions, Archaic
o próprio trabalho da análise: “Nenhuma and original.
clínica poderia pretender demonstrar hipóte-
ses teóricas. (...) É no esclarecimento mútuo,
na estreiteza do intrincamento teoria-clínica 48. BOTELLA e BOTELLA. Irrepresentável: mais além
que uma ‘verdade’ nasce, mais do que é des- da representação, p. 50

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Anna Carolina Andrade Barbosa

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A angústia como incidência clínica do irrepresentável da pulsão: desamparo, trauma e repetição

SOBRE A AUTORA

Anna Carolina Andrade Barbosa


Psicóloga, Psicanalista. Mestre em Psicologia pela
UFMG, na Área de Concentração de “Estudos
Psicanalíticos”, Linha de Pesquisa “Investigações
Clínicas”. Professora Substituta do Departamento
de Psicologia da UFMG, nas áreas de Clínica e
Psicanálise, no período de 2003 a 2004.

Endereço para correspondência:


Rua Guajajaras, 619/casa 01 - Centro
30180-100 - BELO HORIZONTE/MG
Tel.: (31) 3082-1868
E-mail: annacarolpsi@hotmail.com

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