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Biografia

Fernando António Nogueira Pessoa, mais conhecido por Fernando


Pessoa nasceu em Lisboa no dia 13 de junho de 1888 e foi um poeta,
filósofo, dramaturgo, tradutor, e mais outras 7 profissões.
Foi educado na África do Sul, numa escola católica irlandesa,
ganhando uma maior familiaridade com o idioma inglês do que com o
idioma português durante aquela altura.
Em vida publicou quatro obras, três das quais na língua inglesa.
Fernando Pessoa traduziu várias obras em inglês, como por exemplo, de
Shakespeare e Edgar Allan Poe, para o português, e obras portuguesas,
nomeadamente de António Botto e Almada Negreiros, para o inglês.
Como poeta, teve diversos heterónimos, como Ricardo Reis, Álvaro
de Campos, Alberto Caeiro e Bernardo Soares (considerado um semi-
heterónimo), e é hoje considerado um dos maiores poetas da Língua
Portuguesa e da Literatura Mundial, sendo comparado a Luís de Camões.
Entre os seus maiores trabalhos destacam-se os livros
“Cancioneiro”, “Livro do desassossego” e “Mensagem”.
Faleceu no dia 30 de novembro de 1935, na sua terra natal, Lisboa,
com 47 anos.

O livro “Cancioneiro”
Cancioneiro é uma obra composta por poemas líricos e rimados, de
forte influência simbolista (Simbolismo é um movimento literário da
poesia e das outras artes que surgiu em França, no final do século XIX,
como oposição ao realismo, ao naturalismo e ao positivismo da época).
O próprio Fernando pessoa afirmou que "Cancioneiro" (ou outro
título igualmente inexpressivo) reuniria vários dos muitos poemas soltos
que tinha, e que são por natureza inclassificáveis e inexpressivos, o título
dessa obra não é, de forma alguma, "inexpressivo", porque o seu
entendimento global está relacionado diretamente ao título. Cancioneiro
é a designação dada ao conjunto de poemas líricos medievais,
portugueses ou espanhóis.
Os poemas de Fernando Pessoa reunidos sob o título de
Cancioneiro, além de prestar uma homenagem à tradição lírica lusitana de
preservar os seus mais antigos textos literários, também se relacionam
com as cantigas medievais, pois o ritmo e a métrica dos versos deixam
esses poemas tão harmoniosos que eles se transformam também em
"verdadeiras letras de música".
Para além do poema “liberdade”, destacam-se ainda deste livro os
poemas “Isto” e “Autopsicografia”.

Poema Liberdade
Ai que prazer Quanto é melhor, quanto há bruma,
Não cumprir um dever, Esperar por D.Sebastião,
Ter um livro para ler Quer venha ou não!

E não fazer!
Ler é maçada, Grande é a poesia, a bondade e as
danças...
Estudar é nada.
Mas o melhor do mundo são as
Sol doira crianças,
Sem literatura
Flores, música, o luar, e o sol, que
peca
O rio corre, bem ou mal,
Só quando, em vez de criar, seca.
Sem edição original.
E a brisa, essa,
Mais que isto
De tão naturalmente matinal,
É Jesus Cristo,
Como o tempo não tem pressa...
Que não sabia nada de finanças

Nem consta que tivesse biblioteca...


Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está
indistinta
A distinção entre nada e coisa
nenhuma.
Análise Estrófica
Datado de 16/3/1935, ano da morte de Fernando Pessoa, o poema
"Liberdade" é um dos poemas mais conhecidos e citados do poeta. É um
poema ortónimo, ou seja, escrito por Fernando Pessoa em seu próprio
nome e aborda um tema raras vezes abordado pelo poeta de modo tão
explicito: a liberdade humana.
No poema, o sujeito poético faz a apologia da liberdade e da
inutilidade da leitura e do estudo, recorrendo a diversos exemplos para
ilustrar a sua ideia. Assim sendo, alega que a natureza mantém os seus
próprios ciclos, independentemente da literatura, do estudo e do
pensamento humano.
1ª Estrofe
Na primeira estrofe o sujeito poético expressa o quão bom é não ter
deveres nem obrigações a cumprir, explicando a sua tese. Nos dois
primeiros versos, ele mostra a tese defendida, nos dois versos seguintes
dá um exemplo ilustrativo e nos últimos quatro versos, dá os argumentos.
Mostrando o prazer que é não realizar uma tarefa e revoltando-se contra
a leitura e o estudo.
Nos exemplos ilustrativos da tese, Pessoa transmite um certo
humor e ironia, tem uma abordagem leve e divertida acerca deste tema
de rebeldia maioritariamente por parte das crianças, mas de todos nós em
geral.
2ª Estrofe
Na segunda estrofe, ao falar do rio está a particularizar a natureza,
onde tudo acontece naturalmente, sem nenhuma edição/ação exterior e
parece “viver” sem preocupações de modo espontâneo e livre, ao
contrario da vida humana que é cheia de obrigações, rotinas e
constrangimentos expressando um desejo de uma certa preguiça, uma
vontade de viver em paz e livremente como a natureza, neste caso o rio.
3ª Estrofe
Alega, que os livros são apenas papéis pintados com tinta e que
estudar não permitirá a compreensão de todas as questões e ironiza a
dificuldade de as pessoas relaxarem e sentirem as coisas boas da vida. O
sujeito poético faz a apologia da liberdade e da inutilidade da leitura e do
estudo, recorrendo a diversos exemplos para ilustrar a sua ideia (2º
estrofe). Assim sendo, alega que a natureza mantém os seus próprios
ciclos, independentemente da literatura, do estudo e do pensamento
humano.
4ª Estrofe
“Bruma”- tipo de nevoeiro, um nevoeiro espesso
Na quarta estrofe, afirma que, de tão inútil ser o estudo, que
quando há a “bruma”/nevoeiro mais vale esperar por D. Sebastião,
mesmo que o rei jamais regresse. Ironizando a necessidade de os
portugueses terem um herói, a quem “louvar”.
5ª Estrofe
Na quinta estrofe, diz que o homem seria mais feliz se não tivesse
obrigações académicas e apenas desfrutasse da natureza deixando passar
o tempo sem preocupações. Também as crianças, que são inocentes e não
pensam, mas são o melhor do mundo, se sobrepõem a qualquer arte,
virtude ou técnica, que exigem esforço, estudo, concentração.
6ª Estrofe
Na ultima estrofe, Fernando Pessoa mostra que o saber é inútil para
o homem, dando o exemplo de Jesus Cristo, que, mesmo sem leitura e
sem ciência, se tornou uma figura de referência pela sua sabedoria,
fundando uma religião.

Conclusão:
Fernando Pessoa ortónimo valoriza o pensamento e a razão, o que
não invalida que, devido ao vício de pensar que o impede de sentir
simplesmente, se sinta dominado pela dor de pensar.
Neste sentido, o poema “Liberdade” exprime a profunda lucidez do
poeta que, ironicamente, analisa o estudo e o esforço, relativizando-os,
numa tentativa de racionalização.
Análise Formal
Neste poema há o uso de rimas ricas (“Livros são papéis pintados
com tinta. /Estudar é uma coisa em que está indistinta”).
Uso de rima externa e emparelhada, ou seja, a rima aparece no
final do verso e o 1º verso rima com o 2º, o 3º, o 4º… (“Ai que prazer/Não
cumprir um dever, /Ter um livro para ler/E não fazer!”).

Há um variado uso de recursos estilísticos.


Nos versos 5 e 6 da 3ª estrofe (“A distinção entre nada e coisa
nenhuma.”), há o uso do pleonasmo, ou seja, há uma redundância numa
expressão, enfatizando-a.
Nos versos 3 e 4, da 4ª estrofe (“Esperar por D.Sebastião, / Quer
venha ou não!”), há o uso de ironia, ou seja, há uma sátira, ou gozo, de
algo, ou alguém.
Nos versos 1 e 2 da 5ª estrofe (“Grande é a poesia, a bondade/ e as
danças...”), há o uso de enumeração, ou seja, há uma nomeação
acumulativa das partes de um todo e de elementos que mantêm uma
correlação lógica ou semântica.
No verso 5 da 5ª estrofe (“…o luar, e o sol, que peca”), há o uso de
personificação, ou seja, há uma atribuição a objetos inanimados ações
próprias dos seres humanos.

O vocabulário do poema é simples e claro, e há o uso de reticências


como forma de fornecer que ao leitor a ideia de que havia mais para
mencionar.
Comparação:
Podemos relacionar este poema, com a atualidade, e connosco
próprios, pois todos sentimos, por vezes, uma certa aversão ao trabalho.
Nestes momentos gostamos de não fazer nada, de entrar em “modo
preguiça”, e citando Fernando Pessoa, de “esperar por D. Sebastião/Quer
venha ou não!”. No fundo, quando nos queremos libertar, entrar numa
zona de liberdade pessoal, tentamo-nos libertar dos problemas, dos
deveres, da civilização…
Este poema também tende a alterar aquilo que nós costumamos
pensar acerca deste assunto, nomeadamente a ideia de que a liberdade
está estritamente associada à falta de responsabilidade. Isto é, apesar de
Fernando Pessoa dizer que bom é não cumprir um dever, ele pensa o
contrário, que o dever, a responsabilidade, é essencial para a liberdade, e
se o homem quiser ser livre, terá de se submeter ao cumprimento do
dever que lhe é imposto, pois, se meditarmos sobre o assunto,
entendemos que a preguiça acaba por ser um obstáculo à liberdade. Com
a preguiça continuamos seres menores, e, realmente, é cómodo ser
menor, e isto até nos traz um “falso” sentimento de liberdade, mas que
acaba por nos prender à ignorância e comodismo.
Sendo o autor um poeta e estudioso de inúmeros assuntos, parece
que o discurso utilizado é um pouco irónico e hiperbólico. Possivelmente
nem tudo o que é dito corresponde exatamente àquilo que pensa, sendo
então um modo de acentuar a ideia de transgressão e do prazer da
inércia. Ou seja, o titulo - Liberdade - acaba por ser apenas uma ironia
triste e amarga e um contrassenso propositado.

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