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Resenha 1 – Apropriações Contemporâneas da Idade Média

Marina Gomes Drehmer (11251126/noturno)

Pode-se afirmar que parte significativa do conhecimento que nos chega sobre a Idade
Média, bem como a forma de produzir conhecimento sobre este período, está vinculada a
conjuntura europeia do século XIX, da qual a própria História, enquanto campo de saber e
ofício, é caudatária. Assim, ao estudar a história medieval, antes de adentrá-la propriamente, é
pertinente revisitar a Europa de dois séculos atrás no intuito de conhecer/compreender porque
razões e de que maneira o passado medieval do continente europeu se tornou importante
elemento na tessitura do ideário político que ascendia no horizonte oitocentista. Ou seja, trata-
se de observar de que maneira elementos relacionados ao passado (da antiguidade e do
medievo) foram sendo apropriado e reinventado à luz dos interesses do então presente
europeu que se via às voltas com as questões do nacionalismo e a dimensão identitária
(balizada em identidade étnica de pretensos povos do passado) que este foi assumindo na
construção de projetos de futuro. É nessa linha que caminha a obra de Patrick Geary,
medievalista estadunidense, autor de O Mito das Nações: A Invenção do Nacionalismo.
No capítulo inaugural, Geary volta-se aos séculos XVIII e XIX, para pautar como a
emergência do nacionalismo na Europa deu-se de modo intrincado ao passado medieval do
continente europeu. Para este autor, a compreensão corrente sobre o passado do alto medievo
é maculada pela perspectiva do nacionalismo étnico que, segundo ele, nada mais é que uma
invenção – nem por isso, trivial ou de parcos efeitos – processada neste período bem mais
recente. Ele põe na berlinda a perspectiva amplamente difundida de que a ocupação do
continente europeu (tida como o processo originário disso que tomamos como Europa) foi
realizada por nações – bem definidas etnicamente e distintas entre si –, a saber, povos
bárbaros, com fronteiras étnicas demarcadas, que espalharam-se pelo terreno nos idos do alto
medievo e dos quais provém a ascendência das atuais nações. Este processo, segundo ele,
trata-se mais imediatamente de um constructo narrativo tecido no século XIX por intelectuais
e políticos que se viam defronte das questões de seu próprio tempo.
A principal questão orbitava em torno o crescente nacionalismo como ideário político
que concorreu para a formulação de uma nova costura em torno do que configurava o vínculo
de pertencimento ao grupo social. Os elementos de aglutinação identitária, relacionados à
perspectiva de nação, passaram a envolver língua, cultura e história comum, além de um dado
território de pertença. O pretenso passado comum no qual se projetava os grupos identitários
operou grande força: elementos provenientes de tempos remotos, tais como lendas e fontes
escritas, foram usados para costurar uma versão una de passado partilhado que servia à
validação de unidades étnicas – cuja a existência prévia é passível de dúvidas – que, por sua
vez, respaldavam unidades políticas como o Estado-nacional. Como essa montagem se
procedeu e quem nela esteve envolvida é um dos pontos sobre o qual Geary se debruça com
minúcia. Neste âmbito, o universo intelectual/científico em estruturação, em seus trânsitos
com as dimensões políticas, teve centralidade, como veremos a seguir.
Discutindo em que medida o nacionalismo oitocentista teria fabricado nações, o
medievalista percorre uma trajetória em que procura observar os elementos de conformação
das identidades coletivas agenciados em diferentes momentos. Para o baixo medievo, observa
que a nação estava longe de ser o critério central que indicava pertencimento a dada
coletividade. Passa à época das Revoluções, observando o nacionalismo francês que emerge
na conjuntura revolucionária, ponderando que a ideia de uma tradição cultural compartilhada
– que encontra no idioma sua maior expressão – ganha relevância nesse contexto. Volta-se à
emergência do nacionalismo na Alemanha (país que ocupa centralidade neste debate) que
ainda não se configurava como um Estado. Com o caso alemão, denota como foram surgindo
condições para que um nacionalismo de cunho cultural fosse sendo extrapolado para a
dimensão política em uma conjuntura muito peculiar que marcou o início do s. XIX. Na
Alemanha, a construção do sentimento de nação foi se enrobustecendo e convergindo para um
movimento político mais amplo. Neste processo, que envolveu intelectuais e políticos, o
passado, bem como as investigações sobre ele, exerceram papel fundamental no seu
desenrolar.
Geary demonstra como a Filologia, enquanto disciplina com estatuto científico, foi
essencial em meio a esse processo. A disciplina serviu como ferramenta aos estudos da
história clássica e medieval, vinculando a identificação de povos do passado à uma suposta
língua (pura) de origem. A história das nações forjou-se inicialmente por meio do corpo
instrumental fornecido pela filologia. Sua perspectiva foi extrapolada ao campo político,
acarretando efeitos pernicioso. Entre eles, a padronização linguística e sua imposição por
meio de políticas educacionais com finalidade de subjetivação. Eis aí o lócus de
criação/sustentação do Estado-nação: a origem de um povo costurada à origem da língua.
Essa perspectiva que vincula língua e identidade étnica perdura ainda (com alguma força).
Retroagindo no tempo, cabe observar o momento da história para o qual a filologia lançava
vista: voltava-se a meados do primeiro milênio, período de transição envolvendo o fim do
Império Romano e a expansão e estabelecimento de novas comunidades no continente
europeu; das quais supostamente descendem as nações modernas e nas quais se assentam sua
legitimidade. Pode-se dizer que teceu-se, neste domínio intelectual, uma bem engendrada
costura entre língua, território e povo, componentes indispensáveis para o que designamos
como nação. Seguindo nessa toada, surgiu a Etnoarqueologia, que também voltava-se aos
povos do passado, buscando por meio da cultura material testemunhos de tradições culturais
específicas, além de contribuir para vinculá-las a dado território. Com as evidências
arqueológicas, os povos ancestrais ganharam um aspecto ainda mais concreto ao somar-se
àquele da língua. Ou seja, a narrativa em torno deles ganhava mais corpo e concretude,
tornando mais difícil tomá-la como uma invenção.
Segundo Geary, o corpus desses saberes reservaram um legado que ainda reverbera na
geopolítica europeia, tendo sido decisivas para estabelecer os parâmetros legítimos do que
configura uma nação: língua, território e cultura peculiar remetida a um passado distante.
Porém, para ele, o vínculo entre os Estados modernos e e os povos do antigo medievo não
passa de uma perspectiva mitológica. Ele procura desmistificar essa perspectiva, mostrando
como os elementos, um a um, não se sustentam. É o caso da dimensão geográfica, uma vez
que, no caso dos grupos sociais antigos, as fronteiras distintivas nada tinham a ver com
divisas territoriais; e mesmo a língua, como procura evidenciar, tratava-se mais
imediatamente de distinção política ou social. Geary defende que o modelo de etnicidade
fornecido pela arqueologia e filologia não encontra sustentação e malogra, enquanto outras
formas étnicas, mais diversas e mais antigas, que escapam a homogeneização do modelo
nacional, dão sinais de retorno. Ele toma a etnicidade configura um fenômeno mental, e é
justo a isso que se deve sua força.
Como mote para o capítulo subsequente, no qual retoma certas tradições de
identificação/classificação de povos que remontam à Antiguidade Clássica, faz um
contrabalanço em suas ponderações, afirmando que os autores nacionalistas balizaram sua
perspectiva de nação nas tradições já consolidadas que tinham acesso por meio dos textos
históricos de que lançavam mão. Vale ponderar que, por vezes, na obra em questão, essa
costura em torno da ideia de nação parece se tratar de um ardil deliberado dos intelectuais
envolvidos na investigação sobre o passado dos povos; contudo parece mais plausível tomar
esses intelectuais como também “alvos” desse fenômeno mental que é a etnicidade, a qual
paradoxalmente ajudaram a dar corpo.
Em Povos Imaginados na Antiguidade, Geary retrocede no tempo para expor como se
estabelecia a questão identitária em épocas passadas, ponderando que embora o nacionalismo
étnico seja um fenômeno recente, a questão identitária não é (seria um fenômeno
iminentemente humano/universal estabelecer fronteiras étnicas?). O autor procura distinguir
as concepções antigas em torno da identidade coletiva das mais atuais, evidenciando que há
mudanças semânticas em termos comumente essencializados, tal como povo ou raça. Esses e
outros termos são fruto de muitas discussões ao largo dos séculos, e nos chegam, como diz o
autor, “impregnados de passado” – o que favorece sua essencialização e dificulta tomá-los em
sua historicidade. Quando o assunto é a categorização de grupos sociais, estamos embebidos
em uma atmosfera que se constituiu há muitos séculos e cujos mecanismos de classificação e
distinção que nos foram legados provém da Bíblia e da Antiguidade Clássica. Em suma, desde
o período Antigo, tencionou-se a dividir os grupos sociais entre grupos constitucionais,
fundamentados na lei, e grupos biológicos, de forte tradição oral e menos mediação nas
relações sociais. Trata-se de uma importante categorização que cindiu o mundo em civilizados
e bárbaros; em nós e o Outro(s), em históricos e a-históricos (de cultura escrita, de tradição
oral, etc.1). Inegavelmente, essa dicotomia até hoje, ainda que de formas atualizadas, segue
em plena vigência, entranhado em nossa forma de conceber o mundo e balizando a maneira
de interpretarmos/categorizarmos os grupos humanos.
Ao trazer essa discussão, Geary procura denotar como tradições da Antiguidade
repercutiram no modo dos etnógrafos oitocentistas conceberem e descreverem a sociedade
humana. Nesse sentido, vai atrás das origens dessa reflexão; trazendo, da Antiguidade os
textos de Heródoto, Plínio, Tito Lívio, Tácito. Começa pelo grego Heródoto que, conforme
interpreta Geary, apresenta uma perspectiva abrangente sobre surgimento e desaparecimento
de povos, atento às suas origens míticas; que valorizava aspectos culturais e que, devido a sua
posição outsider, não esbarra em juízos de valor. Na perspectiva de Heródoto, língua e
território eram importantes, mas não critério decisivo, o que surge diferente na concepção do
romano Plínio, para quem as fronteiras geográficas eram atributo importante. Plínio, ao
contrapor os demais povos aos romanos, tomava-os como naturais e, portanto, imutáveis 2.
Com este autor, os romanos tornam-se o parâmetro da civilidade. Discute ainda a obra do
romano Tito Lívio, que dedicou-se à etnogênese dos romanos. Para Tito Lívio, a ênfase do
pertencimento relaciona-se à dimensão constitucional – ser romano é uma condição legal.
Tácito, por sua vez, aproxima-se mais da perspectiva de Heródoto, produzindo uma obra que
valoriza os grupos bárbaros e que, no caso de Germania, foi de suma importância no
contexto do nacionalismo alemão.

1
Em que medida isso dá base/fundamento aos binarismos modernos? Ou estou misturando tudo no mesmo
saco?! Buscar mediação!
2
Levar em conta que a perspectiva da imutabilidade da natureza, das espécies, perdurou até os idos do XIX
também.
A distinção entre romanos e bárbaros tem nesses autores, de origem romana cuja obra
remonta ao período inicial da era cristã, importantes bases. Os critérios de distinção entre
romanos e os demais eram fundamentalmente diferentes. Disso, vale destacar a distinção entre
populus e gens; tendo a primeira categoria uma natureza propriamente política em que o
pertencimento passava pela questão legal; enquanto o pertencimento, no caso dos demais
povos, imersos em mitos, era determinada pelo nascimento, devido a sua natureza biológica.
Quanto ao legado bíblico (antigo testamento) com relação à categorização dos povos, até hoje,
testemunhamos seus ecos. A cisão envolvida na tradição bíblica era entre os povos de Deus e
os Outros, gentios, pertencentes ao mundo natural. Os povos aparecem de forma ainda mais
homogênea na narrativa bíblica do que nos textos Antigos, colaborando ainda mais para as
perspectivas puristas e homogeneizantes que nos foram legadas.
Seguindo para a tradição que surge no fim da Antiguidade (em sua fase cristã), cujos
autores herdaram tanto a tradição clássica, como a bíblica; surge um aspecto de pertencimento
que diz respeito ao próprio cristianismo que tenciona à unificação. Neste momento, as
distinções entre as gentes diluem-se diante da escolha de pertencer ao povo de Deus
(cristão?), elemento aglutinador e questão de escolha. Ao cabo desse período, nos idos do sec.
V d.C., é possível pintar o seguinte quadro: os habitantes do mundo romano concebiam os
grupos humanos em dois tipos, àqueles de natureza étnica, baseados em costumes,
ancestralidade e território; e os de natureza constitucional, cujo fundamento era a adesão à lei
e os valores.
Neste contexto de adesão, a diferença torna-se relacional, uma questão de perspectiva:
aquele que observa de dentro seu próprio grupo, nota sua heterogeneidade; todavia, se lançar
vista a um grupo externo, parece-lhe homogêneo e sem história. Era assim que os romanos
tomavam os grupos bárbaros em franca mobilidade neste momento da história. Os autores
deste período viam-se, contudo, diante de um dilema que não foram capazes de equacionar
por razões que Geary explora brevemente. Em contato com os grupos bárbaros, percebiam
sua complexidade que em nada correspondia à perspectiva herdada sobre eles. Esses grupos,
assim como os romanos, correspondiam a unidades políticas de natureza mais constitucional
do que étnica, que unia, com base em alianças políticas, uma diversidade de grupos de
distintas origens sob uma liderança comum. Assim como os romanos, esses grupos
transformaram-se profundamente diante do contato interétnico.
Pautando o processo complexo de criação dos povos europeus, Geary fecha o capítulo
dando um encadeamento narrativo para o que se processou nos cinco primeiros séculos da era
cristã, levando em conta o imperialismo e a decadência romana. Procura evidenciar como, em
meio a esse processo, os romanos foram se tornando gens, enquanto os grupos bárbaros foram
adquirindo estatuto de populus. Dá conta da participação dos autores, na constituição de uma
história dos povos bárbaros, suficientemente recuada no tempo. Remete à autoria de
Jornandes, o modelo que se difundiu entre os historiadores das “histórias bárbaras”, que
tratava, no limite, de vincular esses povos a origens greco-romana, o que lhes conferia
legitimidade.
O texto A Idade Média e a América Latina, de autoria do medievalista brasileiro
Marcelo Cândido da Silva, compõe a obra La Edad Media en Perspectiva Latinoamericana.
O capítulo se propõe a discutir o porquê estudar a Idade Média, levando em conta a
especificidade do continente americano que não possui um passado medieval. O autor recorre
às respostas de alguns historiadores de origem americana, arrematando o texto com sua
própria perspectiva.
De partida, aponta como o tema do medievo segue sendo atual. Destaca a conotação
negativa e desprestigiosa que comumente acompanha o período, para a qual, apresenta um
contraponto com perspectivas que atribuem-lhe aspectos mais valorosos – a exemplo de
certos valores coletivos nele forjado. Na sequência, ao postular a questão que se propõe a
discutir, percorre a dimensão institucional que a orbita. Procura pintar o cenário, trazendo a
questão do recurso para pesquisa em países cujo investimento no setor reflete sua condição
emergente e que, ainda por cima, não possuem passado medieval. Como sustentar a validade
de pesquisar o medievo diante dessas condições? Para o autor, essa indagação se baliza na
suposição tácita de que se deve estudar eventos diretamente relacionados à nossa própria
história; pressuposto com o qual Silva não se alinha, por conceber que o conhecimento sobre
o passado humano configura um bem universal.
Curiosamente, quando se trata do medievo parece haver um movimento de
patrimonialização por parte dos países europeus, que tomam o período como berço de suas
nações. Silva atravessa o Atlântico para discorrer sobre esse aspecto patrimonial da Idade
Média. De partida, lança mão da obra de Geary, ao pautar como o período é tomado como o
berço identitário das diferentes nações europeias, e mais recentemente, com a U.E., do que
seria uma identidade europeia comum a todos. Silva defende que a Idade Média, tomada
como uma continuidade, segue balizando projetos políticos e oferecendo elementos de
distinção entre o si e o outro. Para o autor, a relação entre medievo e identidades não se dá
apenas no campo político, mas é também produto de uma construção acadêmica. Essa
vinculação entre identidades contemporâneas e idade média, numa perspectiva continuísta,
serve aos porquês de seguir estudando o período.
Ainda no tocante à relação da Europa com o medievo, aponta para um movimento de
mudança de enfoque no âmbito investigativo que se processou nas últimas décadas. A Europa
surge então como unidade analítica, o que configurou ganhos no tocante a algumas temáticas;
ainda que muitas vezes opere no diapasão do medievo como patrimônio exclusivo europeu. O
autor procura observar, todavia, que, sob esse enfoque, nem tudo é adesão ao discurso
identitário. Pelo contrário, deu margem a outras perspectivas para o fenômeno das invasões
bárbaras e pôs em xeque uma pretensa homogeneidade étnica dos povos bárbaros. Nesse
sentido, o que discutem algumas correntes intelectuais é que, antes de serem entidades
naturais, esses povos eram frutos de constructos políticos e culturais. É nessa esteira que
aparece a Escola de Toronto, que aponta para o uso político, muito mais contingente, de
elementos culturais que era feito pelos povos bárbaros; que não possuíam, tal como na
perspectiva nacionalista, um núcleo duro da tradição. A emergência desse movimento acabou
abalando as perspectivas nacionalistas que, tomavam os elementos da cultura como evidência
comprobatória de povos bem demarcados. Acredito que a própria obra de Geary possa, em
dada medida, ser tributária deste movimento intelectual.
Voltando então à América Latina, traz novamente à pauta a questão do porquê estudar
o medievo – em princípio, sem espacializar a questão. Observa que as respostas, quando não
tomam seu estudo por inútil, vinculam-na diretamente ao papel relacionado a sociedade
contemporânea. Retorna novamente à especificidade latinoamericana: qual a pertinência e o
lugar dos estudos medievais na América Latina? Recorre então à difundida perspectiva do
mexicano Luis Weckmann, que advoga que o território americano teria raízes medievais que,
por si, respaldariam a validade de estudar o período. Silva tem o cuidado de diferenciar a
abordagem de Weckmann de uma outra bastante corrente até os idos de 1970 que se vale da
herança medieval ibérica, sobretudo do caráter feudal da produção, para justificar o atraso do
Brasil (da América espanhola também?!) no contraponto à América Inglesa (no caso, os EUA,
porque o Caribe Inglês...). A abordagem a qual Weckmann pode ser vinculado, diz respeito a
uma perspectiva que tem o medievo em melhor valia e que se vale da história cultural. Assim
que, o legado medieval estaria presente nas nossas tradições culturais; ou seja, o que os
ibéricos transpuseram para as novas colônias teria sido instituições que ainda estavam em
vigência em seu país quando da colonização da América. Silva postula críticas a perspectiva
do autor mexicano, e apresenta maior simpatia por perspectivas que reconhecem que práticas
e símbolos medievais, reminiscências que chegaram ao novo mundo, foram aqui apropriadas
e ressignificadas; o que nada tem a ver com questão identitária. Além disso, o autor ressalta
que essas apropriações estão longe de ser exclusividade dos países sem passado medieval.
Para Silva, a perspectiva da “herança medieval” é insatisfatória. Isso porque, além de
sua debilidade explicativa, coloca implicitamente o suposto compromisso de que só se
pode/deve estudar assuntos diretamente relacionados à nossa própria história; o que, como já
exposto, configura um desserviço à premissa da curiosidade e do interesse investigativo que
dão sustentação à atividade intelectual. Mais de uma vez, ao longo do texto, o autor insiste a
relevância de dissociar o estudo de uma perspectiva mais utilitarista.
Dito isso, o autor volta-se então à sua própria reflexão em torno da questão “por que
estudar a Idade Média?”. Um dos aspectos que destaca, vincula a uma questão mais
abrangente que seria mesmo o porquê estudar história, ou qualquer outra disciplina, vinculada
ao universo social/humano. Trata-se aí de um interesse mais abrangente que, no caso da
História, passa pelo interesse pelas formas de construção e transformação das sociedades.
Pelo que pude entender, quando se trata do medievo, portanto, trata-se de buscar compreendê-
lo sob o prisma da alteridade. Isso quer dizer que, menos do que atribuir nossas origens
ancestrais, estabelecendo uma relação de subordinação do presente a esse pretenso passado –
e, com isso, validar sua relevância –; devemos tomá-lo como diferença, como singularidade,
passível de comparação com o mundo contemporâneo. Isso, entre outras coisas, evidencia as
transformações sociais, aclarando que o “mundo social” não é sempre o mesmo “mundo”,
testemunhando a historicidade das coisas. Para Silva, é justo a especificidade do medievo que
lhe confere mérito para que siga sendo estudado. E é nesse sentido que ele compreende uma
via de compreensão da contemporaneidade. No tocante à questão geográfica, a como justificar
o estudo desde a América Latina, o autor advoga em favor de uma ligeira vantagem que o
distanciamento e a ausência de familiaridade com o objeto podem significar. Trata-se de
validar o olhar externo. Nesse aspecto, recordo-me da colocação de Geary sobre o lócus de
observação de Heródoto que, como outsider, contribuiu de modo decisivo para o
conhecimento dos grupos sociais.