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ILSE LOSA:

principais dados biográficos


1913
Ilse Lieblich Losa nesce em Bauer (Osnabrück, Alemanha).

1913 |1919
Passa os primeiros anos da infância em casa dos avós
paternos (Josef e Fanny Lieblich), regressando a casa dos pais
com seis anos de idade.

1928
Morre Arthur Lieblich (pai)

1930
Com dezassete anos, parte para Londres onde toma conta de
crianças durante um ano.

1933
Nunca me lembro de datas, De regresso à Alemanha, em 1933, fixa-se em Berlim, cidade
talvez porque me queira
onde teve vários empregos, todos temporários devido às
esquecer.
perseguições antissemitas que já se faziam sentir por toda a
Ilse Losa Alemanha.
1934
— Escreve uma carta a uma amiga em que acusava Hitler de ser um
assassino. A apreensão desta carta pela GESTAPO conduz Ilse Losa
a um interrogatório de três horas e a declarar que, ao escrever aquela
frase, não estava consciente do que fazia. Foi-lhe dado um prazo de
seis dias para abandonar o país.
— Ilse Lieblich refugia-se em Portugal, mais concretamente no Porto,
onde a aguarda o irmão Ernst, um ano mais novo, e um tio, um jovem
médico em Hamburgo que, por ter cometido o «crime» de viver com
uma ariana pura, fora obrigado a abandonar a Alemanha.
— Um ano mais tarde chega o irmão mais novo, Fritz, ao Porto.

1936
Casa com o arquiteto Arménio Losa, com quem tem duas filhas -
Alexandra e Margarida Losa.

1976
Ilse Losa é professora convidada na antiga Escola do Magistério
2006 Primário do Porto, onde ministra seminários de literatura infantil e
Morre, no Porto, com 92 anos. juvenil.
Obra | Ficção para a infância e a juventude

(1949). O Mundo em que Vivi. (MCPEB, 8.º ano)


(1949). Faísca Conta a sua História.
(1950). Histórias Quase Esquecidas.
(1955). A Flor Azul e Outras Histórias.
(1958). Um Fidalgo de Pernas Curtas.
(1962). O Príncipe Nabo [da Nabolândia] seguido de João e
Guida. (MCPEB, 5.º ano)
(1966). Um artista chamado Duque seguido de «Faísca conta
a sua história» e «Mosquito e o senhor Pechincha».
(1967). A Adivinha – peça em quatro quadros.
(1976). Beatriz e o Plátano.
(1979). Mosquito e o Senhor Pechincha.
(1980). Bonifácio.
(1981). Na Quinta das Cerejeiras.
Obra | Ficção para a infância e a juventude

(1981). A Estranha História de uma Tília.


(1982). O Expositor.
(1985). A Minha Melhor História.
(1986). Ana-Ana ou Uma Coisa Nunca Vista.
(1987). O senhor Leopardo seguido de «Bonifácio».
(1987). Ora Ouve... Histórias Antiquíssimas.
(1989). O Rei Rique e Outras Histórias
(1989). Silka.
(1989). A Visita ao Padrinho.
(1993). Viagem com Wish.
Obra | Seleção de histórias para a
infância e a juventude

(1987). Histórias Inesquecíveis para Crianças.

Obra | Ficção para adultos

(1951). Grades brancas.


(1952). Rio sem ponte.
(1955). Aqui havia uma casa.
(1958). Retta ou os ciúmes da morte.
(1962). Sob céus estranhos.
(1964). Encontro no outono.
(1979). O barco afundado.
(1984). Estas searas.
(1991). Caminhos sem destino.
(1993). Ida e volta: à procura de Babbitt.
(1997). À flor do tempo.
Obra | Ensaios

(1954). Nós e a criança. Um livro para os pais.


(1954). O papel do cinema na vida da criança.

Tradução de ficção para a infância e a


juventude

1954). Tewje, o leiteiro.


(1968). Pinky Pie. [de Eleanor Estes].
(1970). A dupla Maria. [de Erich Kästner.]
(1977). Quando eu era rapaz. [de Erich Kästner].
(1981). A terra é redonda. [de Peter Bichsel].
(1982). O rouxinol. [de Hans Christian Andersen].
(1987). «A história de Ivan, o pateta». [de Leão Tolstoi].
(1987). «Casco de prata». [de Pawel Bashow].
(1987). «A marcha nupcial». [de Selma Lagerlöf].
(1954). Ana Seghers.
(1954) Diário de Anne Frank: de 12 de Junho de 1942 a 1 de Agosto
de 1944.
(1960). No rasto de Anne Frank [de Ernst Schnabel].
(1961). Andorra – peça em 12 quadros [de Max Frisch].
(1961). Teatro [de Bertolt Brecht].
(1963). A velha menina [de Ivo Andrić].

Prémios

1980-81
Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para crianças pelo livro Na
quinta das cerejeiras (melhor texto).
1984
Grande Prémio Gulbenkian, pelo conjunto da sua obra para crianças e
1998
Grande Prémio de Crónica, da Associação Portuguesa de Escritores,
pelo livro À Flor do Tempo (1997).
Características da Obra

Narrativas de contornos realistas

Contexto Histórico:

— Em termos de política educativa, a instrução regular (primária) não constituiu uma

prioridade para o Estado Novo malgrado os discursos oficiais que contradiziam as

práticas;

— O nível de formação de professores decresceu, as escolas elementares e as

escolas para adultos criadas pela I República foram sendo sucessivamente fechadas

a partir de 1926, ou substituídas, em 1931, pelos «postos escolares» (Decreto Lei n.º

20 604, de 30 de novembro de 1931).


Narrativas de contornos realistas

A principal função da escola na moldura do Estado Novo era a de formar pessoas


felizes, dóceis e úteis através do ensino dos valores ideológicos do regime e do
controlo e vigilância apertada da consciência social e de classe:

«instrução útil e despretensiosa, protectora das virtudes que através dos séculos têm
salvaguardado os interêsses sociais da Nação (...), orientada no sentimento e no conceito
de família e de Pátria; (...) aquisição dos conhecimentos indispensáveis para o futuro
exercício de todas as profissões (...), tornar-se a grande massa dos indivíduos normais,
ou quási normais, em unidades úteis ao convívio social, e evitar que degenerem em
pesos mortos, causas de entorpecimento ou embaraço para progresso geral; orientação
das inteligências, em termos de conduzir os indivíduos à consciência dos interesses
gerais: da Nação, da região, do município ou da freguesia...»

(Decreto Lei n.º 22.369, de 30 de Março de 1933, p. 415).


Narrativas de contornos realistas

Estes objetivos seriam regulamentados de forma mais clara em 1936, no Decreto Lei
n.º 27 279, de 24 de novembro, que redefine as bases do ensino através da adoção
do livro único, da divisão das turmas por separação de sexos e da obrigatoriedade
de integração na Mocidade Portuguesa.

A literacia torna-se um conceito malquisto durante os quarenta anos desta política


educativa do Estado Novo literatura padronizada através da instituição de prémios
nacionais que animassem os autores a colaborar na criação de ferramentas de
divulgação do ideário do Estado

Literatura padronizada através da instituição de prémios nacionais que animassem


os autores a colaborar na criação de ferramentas de divulgação do ideário do
Estado
Narrativas de contornos realistas

«Assiste-se ao surto de uma literatura de pendor nacionalista (por vezes historicista),


não raro de cariz moralizante, onde se exaltam pretensos valores nacionais no
contexto dos objectivos de doutrinação ideológica do Estado Novo» (Gomes, 1997, p.
29).

A par desta propensão para o didatismo moralizante e da tendência para uma


literatura fantástica, melhor dito, fantasiosa, deparamo-nos com criações literárias
maiores, fundeadas no real, «questionadoras das realidades sociais e difusoras de
novos princípios de conduta» (Gomes, 1997, p. 35).
Narrativas de contornos realistas

1949 é o ano em que Ilse Losa inicia a sua leitura deste «tempo sem graça» com a
publicação de O Mundo em que Vivi e de Faísca Conta a sua História. Em Nós e a
Criança, podemos ler alguns príncípios orientadores da escrita de Ilse Losa, no que
respeita a uma literatura de pendor mais realista.
Narrativas de contornos realistas

«A criança quer saber e saber…


É por essa razão que não a satisfazemos apenas com contos, bonitos e encantadores, sim,
mas que não correspondem a esta curiosidade imensa das coisas reais.
Dêmos, portanto, à criança também a história construtiva e instrutiva. Contemos-lhe a vida
das abelhas e das formigas, o crescimento do trigo, a fabricação da farinha e do pão.
Falemos-lhe dos rios e dos mares e dos outros países e da sua gente... A questão é saber
contar, contar nessa linguagem de criança, simples e pura. [...]
É verdade que temos de falar à criança na gente pobre e esfomeada. [...] Todo o nosso
desejo seria não falar em coisas desagradáveis. Contudo, não lhes devemos dar uma ideia
falsa, não lhes devemos mentir. Penso que uma noção clara do que é justo e injusto sòmente
poderá ser-lhes vantajosa.
Satisfaçamos-lhes o eterno desejo do maravilhoso e a sua curiosidade do real. Narremos em
palavras simples e acessíveis. Que de modo nenhum se conte à criança, seja o que for, no
tom de doutrinar, de explicar!» (pp. 171-172).
Narrativas de contornos realistas

Parte I Parte II

O paraíso da infância
A primeira infância em casa dos A infância
avós, Markus e Ester Em casa dos pais, Selma e Leo
(pp. 5-52) Frankfurter (pp. 53-138)

Parte III

Declínio familiar
Marcado pela festa de tiro, prenúncio da
tragédia
(pp. 139-184)

Parte IV

Berlim
Perseguição e Fuga
Narrativas de contornos realistas

Intertertextualidade com a História Oficial:

• Referências à I Guerra Mundial (14-18);

• Referências a Guillerme II (1888-1918);

• Referência ao assassinato do reichminister Walther


Rathenau (1867-1922). Assassinado a 22 de Abril de
1922. De ascendência judaica;

• Referência a Paul von Hindenburg (1847-1934).


Responsável pela nomeação de Hitler como chanceler
do Reich;

• Referência à subida de Hitler ao poder (Janeiro de 1933).


Narrativas de contornos realistas

Receção do romance transgeracional

Motivos extraliterários:

• o facto de ser escrito em português por uma alemã


• a atualidade da problemática (Holocausto)

Motivos literários:

• apresentar uma personagem infantil/juvenil


• a temática abordada (eclosão do nacional-
socialismo/Holocausto)
• a tendência germanófoba da Europa
• a construção da identidade (infância-adolescência)
Narrativas de contornos realistas

Minho Lisboa

infância velhice

Faísca
Narrador
• Lugar mágico da autodiegético
infância
• Aventuras
• Afetos • Conforto
• Pobreza • Abundância
No Minho

«a cozinha era escura e tinha uma lareira que deitava muito fumo. Manuel vivia
só com a mãe. O pai estava no Brasil, para onde partira por ser pobre e por
julgar que enriqueceria naquele país (...). Mas afinal, (...) o pai do Manuel não
estava lá a ganhar dinheiro suficiente pelo que não podia mandar nenhum à Tia
Júlia. As cartas que escrevia eram bem tristes. Quando chegavam, a Tia Júlia
lia-as em voz alta para o Manuel e eu deitava-me ao lado deles. E ela, enquanto
lia, quase sempre chorava».

«Às vezes o Manuel e eu íamos para a beira-mar. (...) Depois do banho ele
costumava construir castelos de areia e eu a escavar um buraco fundo, mas
nunca descobri na praia minhocas nem caracóis. Lá só havia bichinhos quase
brancos que davam saltinhos curtos de pouca altura. (...) Quando subíamos às
rochas encontrávamos bichos que viviam dentro de conchas e a que o Manuel
chamava «mariscos». (...) Queria obrigar-me a comer também, provei uma vez,
larguei logo, enjoado, e nunca mais repeti a experiência» (Losa, 1973, pp. 111,
115-116).
Em Lisboa

«Quando entrei em casa da Luísa, parecia-me estar a sonhar. O chão era fofo,
porque tinha um tapete que dava vontade a um cão de se estender. As mobílias
da sala cheiravam bem. Também nunca tinha visto luz eléctrica. […]».

«Estuda [Luísa] no Liceu e toca piano. […]. O Manuel, com certeza, já não anda
na escola; a mãe deve precisar dele para o trabalho no campo. Se calhar, ele
nunca saiu da aldeia e não chegou a conhecer uma cidade grande. […] O
Manuel, com certeza, já não anda na escola; a mãe deve precisar dele para os
trabalhos no campo. Se calhar ele nunca teve ocasião de sair da aldeia e não
chegou ainda a conhecer uma cidade grande. Devia gostar de ver Lisboa com as
casas altas, os carros elétricos, os autocarros e as iluminações coloridas.
Pobre Manuel! (...)» (Losa, 1973, p. 122).
Narrativas de contornos realistas

— A Flor Azul e Outras Histórias (1955)


— Um Fidalgo de Pernas Curtas (1958)
— Mosquito e o Senhor Pechincha (1966)
— Beatriz e o Plátano (1976)
— O Quadro Roubado (1977)
— O Expositor (1983)
— «Joana e o mendigo», in A Minha Melhor História (1985)
— «Apesar de tudo», in A Minha Melhor História (1985)
— O Senhor Leopardo (1987)
Narrativas de contornos fantásticos
ou do «imaginário»

— Bonifácio (1980)
— A Estranha História de uma Tília (1981)
— Silka (1984)
— Ana-anA ou uma Coisa nunca Vista (1986)
— Ora Ouve... (1987), histórias com ressonância do património literário oral
— O Rei Rique e Outras Histórias (1989)
— Viagem com Wish (1993)
Obra dramática

— O Príncipe Nabo da Nabolândia (1962)


— João e Guida (1962)
— A Adivinha – Peça em Quatro Quadros (1967)
— Ana-anA ou uma Coisa nunca Vista (1986)
— Ora Ouve... (1987), histórias com ressonância do património literário oral
— O Rei Rique e Outras Histórias (1989)
— Viagem com Wish (1993)
Características da obra de Ilse Losa

A escrita de Ilse Losa demarca-se no panorama literário do Estado Novo pela dupla
condição cultural que governa a sua vida e a sua escrita:

— as circunstâncias de pertença a uma cultura judia alemã e de participação


na cultura católica de uma Europa do sul condicionam positivamente a sua escrita
e autorizam-na a focalizar criticamente a paisagem social que a cerca, seja a da
memória da infância e de parte da juventude vividas na Alemanha seja a de Portugal
a partir dos anos 30 do século XX.
Características da obra de Ilse Losa

O resgate da memória e a revisitação/representação ficcional das perseguições


nazis, da(s) partida(s) para o exílio, das chegadas a países estanhos (porque
estrangeiros) e do reajustamento do eu (ficcional, entenda-se) encontramo-lo no
seu texto inaugural O Mundo em que Vivi (1949), em A Estranha História de uma
Tília (1981) e no conto «Apesar de tudo», inserido no livro A Minha Melhor
História (1985).
Características da obra de Ilse Losa

É também do tecido da memória – ainda que de uma memória privada ou afetiva –


que se constroem os textos que compõem A Minha Melhor História (1985) bem
como o conto breve «Bisavô e bisavó», que encontramos em O Rei Rique e
Outras Histórias (1989).

Podemos ainda falar de um segundo tipo de resgate de memória na obra da Autora


– o da memória cultural (histórica, social e literária, ou seja, memória do sistema
literário) infundida no património literário.
Características da obra de Ilse Losa

Destaco os contos «A Ponte», «As vozes dos animais», ambos de A Flor Azul e
Outras Histórias (1955), os contos de Ora Ouve… (1987) – «O cão e o pardal»,
«A cozinheira espertalhona», «Era uma vez...» e «A senhora Neves» – que
dialogam respetivamente com «O cão e o pardal» (conto recolhido pelos irmãos
Grimm), «As orelhas do abade» (conto da tradição oral portuguesa), «Os Elfos»
(conto recolhido pelos irmãos Grimm) e «A mãe Holle» (conto também recolhido
pelos irmãos Grimm);
Características da obra de Ilse Losa

— Os textos dramáticos O Príncipe Nabo da Nabolândia (1962) e João e Guida


(1962), dialogam com «O príncipe barba de tordo» e «Hänsel e Gretel», resgatados
pelos irmãos Grimm, e, ainda, A Adivinha – Peça em Quatro Quadros (1967), que
recria «O alfaiatinho esperto» também da tradição oral alemã.
Características da obra de Ilse Losa

— Do ponto de vista da intertextualidade, refira-se o conto Na Quinta das


Cerejeiras (1981) e a alusão aos patriarcas bíblicos bem como o conto «O país da
Cucanha», da obra O Rei Rique e Outras Histórias (1989) que recria o mito de
«Cocagne» ou da terra prometida, descrita na Bíblia como a «terra do leite e do
mel». Este mesmo país – objeto de desejo – surge de novo recriado, em Viagem
com Wish (1993).
Características da escrita de Ilse Losa

— Num terceiro grupo, em que a intertextualidade se entretece com textos


literários assinados por autores (re) conhecidos, incluímos «As aventuras de
camisola» (A Flor Azul e Outras Histórias, 1955), que tem por base um conto do
escritor inglês Lola Daniel, Na Quinta das Cerejeiras (1989), em que surge
encaixado Sonho de uma Noite de Verão, de William Shakespeare (1564-1616),
e Viagem com Wish (1993), conto em que a voz lírica do poema «Basta
imaginar», de Manuel António Pina, e em que também a personagem Tom
Sawyer é convocada.

A intertextualidade é de maior importância quando falamos de educação literária


e de desenvolvimento da competência literária da criança e do jovem.
Características da escrita de Ilse Losa

— A existência de uma «infância agredida» surge de forma explícita em Faísca


Conta a sua História (1949), Um Fidalgo de Pernas Curtas (1958), Mosquito e
o Senhor Pechincha (1966) e O Expositor (1983);

— O respeito pela Natureza (animal, vegetal e humana)/amizade entre homem


e animais, visível, de forma mais explícita, em Beatriz e o Plátano (1976), nos
contos «A flor azul», «Dois inimigos que ficaram amigos», «As aventuras de
Camisola» de A Flor Azul e Outras Histórias (1955), de forma visível e
dramática em Um Artista Chamado Duque (1966), mas também em «Dois
Companheiros» e «Pepe, o Periquito», de O Quadro Roubado (1977), em
Bonifácio (1980) e no conto «Dandy» de O Rei Rique e Outras Histórias
(1989).
Características da escrita de Ilse Losa

— a Arte/imaginação e a sua importância/valorização, presente na novela de


contornos policiais O Quadro Roubado (1977), em que a reflexão ontológica
sobre a subordinação da obra ao autor e as possíveis funções da obra de arte se
destacam, e no conto O Expositor (1983), em que a mesma reflexão, ainda
que apresentando contornos diferentes – incidindo sobre a mercantilização da
obra de arte e sobre o desrespeito pela sensibilidade artística/imaginativa infantil
–, ocorre.
Características da escrita de Ilse Losa

Podemos incluir na linha temática da imaginação Ana-anA ou uma Coisa


nunca Vista (1986) e Viagem com Wish (1993), apesar de aqui o poder da
imaginação não se materializar em objeto de arte, mas no desejo de ordenação
do mundo. No entanto, a força motriz é também nestes textos a imaginação
como forma de criar mundos possíveis mais harmoniosos e desejáveis.
Possíveis projetos educativos

— À descoberta do Porto:
• Um Fidalgo de Pernas Curtas
• Quadro Roubado
• Sob Céus Estranhos

— Educação / sensibilização ambiental:


• Beatriz e o Plátano
• «A flor azul»
• Na Quinta das Cerejeiras
• Alguns contos de O Quadro Roubado
Possíveis projetos educativos

— II Guerra Mundial / Holocausto:


• Mundo em que Vivi
• «Apesar de tudo»
• A Estranha História de uma Tília
• Alguns textos de Grades Brancas
• Rio sem Ponte
• Sob Ceús Estranhos
Pranto em Buchenwald

Olho as tuas mãos e choro. As mãos que outrora passavam sobre o meu cabelo e com imensa ternura
acariciavam o meu corpo; que ao de leve brincavam com os caracóis da nossa menina e pousavam cheias
de serenidade na cabeça do nosso filho. As tuas mãos, que, ao chegar da noite calma, descansavam no meu
peito.

As tuas mãos, belas e pacíficas. Como neste inferno de horrores se torciam no desespero, se juntavam na
oração. Como dia após dia sangravam cada vez mais com o pesado trabalho… sem utilidade.

E agora estas mãos sem vida …

Olho as tuas mãos e choro. Choro o amor que foi meu um dia e a ternura desvanecida. Choro os tempos
longínquos e perdidos em que havia paz e felicidade.

Soluços e gritos à minha volta. Todos choram os seus mortos e a sua amarga miséria. Não sobre a ninguém
uma lágrima para a minha dor, nem uma única palavra de consolo.

As tuas mãos, frias e mortas. As minhas lágrimas quentes e vivas. E vivos os brutos que com as suas
torturas te feriram! Vivas essas malditas mãos que te mataram!

Olho as tuas mãos e choro…

Há séculos anunciaram-nos a justiça, falaram-nos dum Deus que reinava em templos e castigava os maus.

Que é desse Deus poderoso?!


Que é dessa justiça prometida?!
Tudo frio e morto… Como as tuas mãos.

Ilse Losa, Grades Brancas (1951)


Possíveis projetos educativos

Outros escritores de LIJ que escreveram sobre o tema:

Judith Kerr Tomi Ungerer Uri Orlev


Alemanha, 1923 França, 1931 Polónia, 1931

Quando Hitler me Otto A Ilha na Rua dos Pássaros


Roubou o Coelho Cor- Corre, Rapaz, Corre!
de-Rosa
Possíveis projetos educativos

Outros escritores de LIJ que escreveram sobre o tema:

Lois Lowry Claude Gutman Ruth Vander Zee


Honolulu, 1937 Palestina, 1946 Chicago, 1955

O Número das Estrelas A casa Vazia A História de Erika


Possíveis projetos educativos

Outros escritores de LIJ que escreveram sobre o tema:

Daniella Carmi John Boyne Markus Suzak


Tel Aviv, 1956 Dublin, 1971 Sidney, 1976

Samir e Jonathan O Rapaz do Pijama às A Rapariga que Roubava


Riscas Livros
Singularidade e originalidade
marcam a obra desta
importante figura da nossa
cultura.

Obrigada, Ilse,
pelos livros que nos deixaste.

Ana Cristina Macedo


Escola Superior de Educação do P. Porto

Biblioteca Almeida Garrett


23 de janeiro de 2018