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FACULDADE DE E NGENHARIA DA U NIVERSIDADE DO P ORTO

Determinação e Mitigação de Efeitos em


Transformadores Causados por
Transitórios Originados pela Abertura
de Disjuntores

João Pedro Borlido Oliveira Lima

V ERSÃO F INAL

Mestrado Integrado em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores

Orientador: Professor Doutor Hélder Filipe Duarte Leite

26 de Fevereiro de 2016

c João Pedro Borlido Oliveira Lima, 2016
Resumo

Os sistemas elétricos de energia encontram-se entre os sistemas mais complexos, extensos e


eficientes, concebidos até ao momento. O principal objetivo destes sistemas consiste na produção,
transporte e distribuição de energia elétrica para os consumidores, de forma segura e contínua.
Apesar de funcionarem, na maior parte do tempo, num regime estabilizado, caso se verifiquem
determinadas condições, poderão ser sede de fenómenos transitórios que, embora de curta duração,
acarretam consequências devastadoras para os equipamentos que os compõem.
Dos equipamentos com maior importância para o correto funcionamento dos sistemas elétri-
cos de energia destacam-se os transformadores de potência. Caso o nível de isolamento destes
seja insuficiente ou a proteção inadequada, as sobretensões com origem em manobras que os atin-
jam, podem provocar danos irreversíveis. Usualmente, a nível de projeto dos transformadores,
apenas se tem em consideração a possibilidade destes serem alvo de sobretensões com origem
em descargas atmosféricas. Esta lacuna, que se traduz na ausência de mecanismos internos para
atenuação de sobretensões com origem em manobras, é, geralmente, colmatada pela introdução
de meios de atenuação externos. No entanto, caso estes não estejam presentes, os transformadores
não dispõem de meios de defesa.
Desta forma, revela-se imprescindível um conhecimento mais aprofundado dos fenómenos
transitórios que envolvem transformadores, particularmente, aqueles que resultam de operações
de manobra.

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ii
Abstract

Electrical power systems are among the most complex, extensive and efficient systems desig-
ned to date. The goal of a power system is to generate, transport and distribute the electrical energy
demanded by consumers in a safe and continuous way. Although these systems operate, most of
the time, under steady state, if certain conditions appear, they can give rise to electrical transient
phenomena which, however short, yield devastating consequences for power system’s equipment.
One of the most important devices for proper electrical power system operation are power
transformers. If their insulation level or protection scheme is inadequate, switching transients
can cause irreversible damage. Usually, by internal design, power transformers take only into
account surges originating from lightning. This flaw, which translates into the absence of internal
mechanisms for switching transients mitigation, can be solved by applying external means of
attenuation. However, if these are not present, transformers lack any defense mechanism against
switching transients.
This way, a deeper knowledge of transient phenomena involving power transformers is requi-
red, particularly those which originate from switching operations.

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iv
Agradecimentos

Desejo expressar os meus sinceros agradecimentos às seguintes pessoas e entidades:

Ao meu orientador, o Professor Doutor Hélder Leite, por todo o acompanhamento e pelos
conselhos indispensáveis que me transmitiu.
À EFACEC, pela oportunidade que me foi dada ao tomar contacto com o dia-a-dia dos profis-
sionais que nela exercem a sua atividade, e pela aprendizagem constante e muito recompensadora
que me proporcionou.
Ao Eng.o Ricardo Castro Lopes, presença sempre constante e uma fonte de motivação durante
todo este trabalho.
Ao Eng.o Luís Braña, por todo o tempo que despendeu para me auxiliar sempre que necessitei.

Finalmente, um agradecimento muito especial aos meus pais, aos meus padrinhos, aos meus
avós e a todos os meus amigos.

João Pedro Borlido Oliveira Lima

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vi
Conteúdo

1 Introdução 1
1.1 Fenómenos Transitórios em Transformadores de Potência . . . . . . . . . . . . . 1
1.2 Motivação e Objetivos da Dissertação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2
1.3 Estrutura da Dissertação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2

2 Transitórios Eletromagnéticos e Sobretensões de Manobra em Transformadores de


Potência 3
2.1 Transitórios Decorrentes de Manobras de Ligação . . . . . . . . . . . . . . . . . 4
2.1.1 Ligação de Transformadores de Potência . . . . . . . . . . . . . . . . . 4
2.1.2 Ferroressonância . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7
2.2 Sobretensões com Origem em Manobras de Interrupção . . . . . . . . . . . . . . 13
2.2.1 Interrupção da Corrente Alternada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
2.2.1.1 Conceitos Gerais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
2.2.1.2 Supressão Convencional da Corrente . . . . . . . . . . . . . . 16
2.2.1.3 Supressão Virtual da Corrente . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18
2.2.2 Tensão Transitória de Restabelecimento . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20
2.2.2.1 Definições e Conceitos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20
2.2.2.2 Determinação do Valor Máximo e Taxa de Crescimento da Ten-
são Transitória de Restabelecimento . . . . . . . . . . . . . . 21
2.2.2.3 Reacendimento do Arco Elétrico . . . . . . . . . . . . . . . . 24
2.2.2.4 Influência da Distância entre Disjuntor e Ponto de Defeito . . . 25
2.2.2.5 Tensão Transitória de Restabelecimento de Frequência Dupla . 28
2.2.3 Defeito Consecutivo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30
2.2.4 Sobretensões em Sistemas Trifásicos de Corrente Alternada . . . . . . . 31
2.3 Técnicas de Mitigação de Sobretensões de Manobra em Transformadores de Po-
tência . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33
2.4 Resumo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35

3 Modelização e Simulação de Fenómenos Transitórios em Transformadores de Potên-


cia 37
3.1 Modelização de Linhas Aéreas e de Cabos Subterrâneos . . . . . . . . . . . . . 38
3.2 Modelização de Disjuntores com Tecnologia de Isolamento a Gás . . . . . . . . 39
3.3 Modelização de Transformadores de Potência . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42
3.4 Simulação Computacional de Fenómenos Transitórios . . . . . . . . . . . . . . . 43
3.5 Resumo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43

vii
viii CONTEÚDO

4 Caso de Estudo: Falha de Transformador Devido a Sobretensão de Manobra 45


4.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45
4.1.1 Descrição do Caso de Estudo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45
4.1.2 Informação Existente Relativa ao Caso de Estudo . . . . . . . . . . . . . 46
4.1.2.1 Formas de Onda da Tensão e da Corrente a Montante do Disjuntor 46
4.1.2.2 Características da Subestação . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47
4.1.2.3 Características do Transformador . . . . . . . . . . . . . . . . 47
4.1.3 Metodologia Adotada para Análise ao Caso de estudo . . . . . . . . . . 48
4.2 Modelização dos Componentes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49
4.2.1 Modelo do Transformador . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49
4.2.1.1 Determinação dos Parâmetros do Transformador . . . . . . . . 49
4.2.1.2 Ensaios para Validação dos Parâmetros do Transformador . . . 51
4.2.1.3 Inclusão de Capacidades Radiais e Axiais . . . . . . . . . . . 55
4.2.2 Modelo do Disjuntor . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55
4.2.3 Modelo do Cabo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61
4.3 Análise de Sensibilidade com Recurso aos Modelos Desenvolvidos . . . . . . . . 61
4.3.1 Variação da Impedância do Circuito Equivalente da Rede . . . . . . . . . 63
4.3.2 Variação da Distância entre Transformador e Curto-Circuito . . . . . . . 65
4.3.3 Variação do Instante de Abertura do Disjuntor . . . . . . . . . . . . . . . 66
4.3.4 Introdução de um Circuito RC de Amortecimento . . . . . . . . . . . . . 67
4.4 Avaliação das Sobretensões Resultantes da Abertura do Disjuntor em Diferentes
Condições de Funcionamento do Transformador . . . . . . . . . . . . . . . . . . 70
4.4.1 Aplicação de Diferentes Tipos de Curto-Circuito no Secundário do Trans-
formador . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 70
4.4.2 Introdução de Diferentes Tipos de Carga no Secundário do Transformador
e Abertura do Disjuntor num Instante de Corrente-Zero . . . . . . . . . . 71
4.5 Resumo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73

5 Conclusões e Trabalhos Futuros 75


5.1 Conclusões Gerais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 75
5.2 Trabalhos Futuros . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 76

Referências 77
Lista de Figuras

2.1 Ilustração do fenómeno de pré-arco (fonte: [10]). . . . . . . . . . . . . . . . . . 4


2.2 Curva de histerese (fonte: [9]). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5
2.3 Demonstração do desenvolvimento da sobreintensidade de ligação (fonte: [9]). . 5
2.4 Forma de onda típica da sobreintensidade de ligação (fonte: [9]). . . . . . . . . . 6
2.5 Circuito RLC em situação de ressonância - transferência de energia entre os cam-
pos elétrico e magnético. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7
2.6 Variação da impedância de um circuito RLC em função da frequência. . . . . . . 8
2.7 Diagrama fasorial de tensões e correntes num circuito RLC-série em situação de
ressonância. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8
2.8 Solução gráfica de um circuito LC-série ferroressonante. . . . . . . . . . . . . . 10
2.9 Soluções gráficas de um circuito LC-série ferroressonante, com diferentes valores
de capacidade. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
2.10 Diagramas fasoriais para os pontos de funcionamento 1 (a) e 2 (b). . . . . . . . . 12
2.11 Configurações propícias ao aparecimento de ferroressonância (fonte: [18]). . . . 13
2.12 Curvas características do arco elétrico e de um condutor metálico generalizado
(fonte: [27]). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14
2.13 Evolução das formas de onda da tensão da rede, corrente da rede e tensão do arco,
durante o processo de interrupção da corrente (fonte: [27]). . . . . . . . . . . . . 15
2.14 Circuito LC para demonstração do valor da sobretensão a jusante do disjuntor. . . 16
2.15 Relação entre a corrente suprimida e a capacidade do circuito (fonte: [26]). . . . 18
2.16 Supressão virtual da corrente (fonte: [26]). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19
2.17 Tensão transitória de restabelecimento em função de diferentes tipos de carga
(adaptado de [25]). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20
2.18 Diferentes formas de onda da tensão transitória de restabelecimento (fonte: [31]). 21
2.19 Circuito RLC para análise da tensão transitória de restabelecimento, com manobra
de disjuntor após curto-circuito. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22
2.20 Tensão transitória de restabelecimento para diferentes fases (θ = 0 e θ = π/2) da
corrente interrompida (fonte: [27]). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23
2.21 Tensão transitória de restabelecimento com diferentes taxas de crescimento. . . . 24
2.22 Reacendimento do arco elétrico (fonte: [2]) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25
2.23 Defeito quilométrico (fonte: [27]). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26
2.24 Tensão transitória de restabelecimento perante um defeito quilométrico (fonte: [27]). 27
2.25 Variação da taxa de crescimento inicial da TTR com a distância entre disjuntor e
ponto de defeito (fonte: [7]). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28
2.26 Circuito LC para análise da tensão transitória de restabelecimento de frequência
dupla, com manobra de disjuntor. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28
2.27 Tensão transitória de restabelecimento de frequência dupla (fonte: [34]). . . . . . 29

ix
x LISTA DE FIGURAS

2.28 Tensão transitória de restabelecimento de frequência dupla, estabelecida entre os


contactos do disjuntor (fonte: [34]). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29
2.29 Circuito simplificado de transformador protegido por um descarregador de sobre-
tensões. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30
2.30 Defeito consecutivo: corrente; tensão aos terminais do disjuntor; tensão aos ter-
minais do transformador (fonte: [27]). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31
2.31 Circuito equivalente para análise da tensão de restabelecimento no 1o polo do
disjuntor. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 32
2.32 Diagrama de tensões para o circuito equivalente da Figura 2.31. . . . . . . . . . 32
2.33 Circuito RC de amortecimento. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34

4.1 Esquema unifilar simplificado com os componentes do caso de estudo. . . . . . . 45


4.2 Registos da tensão e corrente trifásicas a montante do disjuntor de proteção do
transformador. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46
4.3 Características estipuladas do transformador em estudo. . . . . . . . . . . . . . . 47
4.4 Corte na janela do transformador em estudo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48
4.5 Característica de saturação do modelo de transformador do PSCAD. . . . . . . . 50
4.6 Esquema do circuito utilizado para a realização do ensaio em vazio no PSCAD. . 52
4.7 Registo da corrente no primário, perdas no primário e tensão no secundário, do
ensaio em vazio. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 52
4.8 Esquema do circuito utilizado para a realização do ensaio em curto-circuito no
PSCAD. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53
4.9 Registo da tensão e corrente primárias no ensaio em curto-circuito. . . . . . . . . 54
4.10 Sobreintensidade de ligação do transformador. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55
4.11 Forma de onda da sobreintensidade de ligação do transformador. . . . . . . . . . 55
4.12 Modelo do disjuntor desenvolvido em PSCAD. . . . . . . . . . . . . . . . . . . 56
4.13 Circuito RLC para validação do modelo do disjuntor. . . . . . . . . . . . . . . . 57
4.14 Formas de onda da tensão e da corrente associadas ao corte efetivo da corrente no
circuito RLC. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 58
4.15 Formas de onda da tensão e da corrente associadas à incapacidade de interrupção
da corrente no circuito RLC. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59
4.16 Estrutura de controlo para realização do corte da corrente quando esta se anula. . 60
4.17 Formas de onda da tensão e da corrente associadas à interrupção da corrente no
instante em que se anula. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 60
4.18 Modelo do cabo utilizado em PSCAD. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61
4.19 Circuito desenvolvido em PSCAD para a realização da análise de sensibilidade. . 62
4.20 Corrente no disjuntor e tensão no transformador para a indutância inicial (L =
0,00791 H). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63
4.21 Aproximação do gráfico de corrente da Figura 4.20 ao instante de interrupção. . . 64
4.22 a) Tensão máxima aos terminais do transformador e b) corrente no instante de
corte, em função da indutância. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 64
4.23 Corrente no disjuntor e tensão no transformador para um valor de indutância igual
a 4,05 H. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 65
4.24 Tensão máxima no transformador em função da distância a que se verifica o curto-
circuito. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 66
4.25 Tensão máxima no transformador em função do instante de abertura do disjuntor. 67
4.26 Circuito RC introduzido aos terminais do transformador no PSCAD. . . . . . . . 67
4.27 Corrente no disjuntor e tensão no transformador com um circuito RC de amorte-
cimento aos seus terminais (R = 10 Ω e C = 0,1 µF). . . . . . . . . . . . . . . . 68
LISTA DE FIGURAS xi

4.28 Tempo de subida da forma de onda da tensão máxima em função da capacidade


do circuito RC de amortecimento. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 69
4.29 Frequência da tensão em função da capacidade do circuito RC de amortecimento. 69
4.30 Tensão máxima no transformador em função de diferentes tipos de curto-circuito. 71
4.31 Corrente máxima no disjuntor em função de diferentes tipos de curto-circuito. . . 71
4.32 Tensão no transformador quando este alimenta uma carga resistiva e ocorre a aber-
tura do disjuntor. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 72
4.33 Tensão no transformador quando este alimenta uma carga indutiva e ocorre a aber-
tura do disjuntor. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 72
4.34 Tensão no transformador quando este alimenta uma carga capacitiva e ocorre a
abertura do disjuntor. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73
xii LISTA DE FIGURAS
Lista de Tabelas

3.1 Gama de frequências associadas a diferentes eventos que conduzem a fenómenos


transitórios (fonte: [36]). . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37

4.1 Parâmetros introduzidos no modelo do transformador do PSCAD. . . . . . . . . 49


4.2 Impedâncias de curto-circuito e tensões de curto-circuito (30 MVA). . . . . . . . 53
4.3 Corrente primária e respetivo desvio absoluto para os três ensaios em curto-circuito
realizados. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 54
4.4 Capacidades radiais e axiais do transformador. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 56
4.5 Valores iniciais das constantes do modelo do disjuntor, por forma a que este realize
o corte efetivo da corrente no circuito RLC. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 57
4.6 Valores iniciais das constantes do modelo do disjuntor, por forma a que este não
realize o corte efetivo da corrente no circuito RLC. . . . . . . . . . . . . . . . . 58
4.7 Distâncias entre transformador e local de ocorrência do curto-circuito, introduzi-
das no modelo do cabo. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 66
4.8 Capacidades testadas no circuito RC de amortecimento. . . . . . . . . . . . . . . 68
4.9 Tipo de carga a alimentar pelo transformador e respetiva potência. . . . . . . . . 72

xiii
xiv LISTA DE TABELAS
Acrónimos, Siglas e Símbolos

Lista de Acrónimos e Siglas

AT Alta Tensão
BT Baixa Tensão
DST Descarregador de Sobretensões
EMTP Electromagnetic Transients Program
MT Média Tensão
REG (Enrolamento de) Regulação
SIL Switching Impulse Level
TERC (Enrolamento) Terciário
TTR Tensão Transitória de Restabelecimento

Lista de Símbolos

µ Permeabilidade Magnética
ω Frequência Angular
A Área Interior da Bobine
C Capacidade
f Frequência
g Condutância Instantânea do Arco Elétrico
` Comprimento
L Indutância
I Corrente Elétrica
N Número de Espiras
P Potência Elétrica
t Tempo
V Tensão
X Reatância
Z Impedância

xv
Capítulo 1

Introdução

1.1 Fenómenos Transitórios em Transformadores de Potência

Os transformadores, sendo elementos fulcrais para o funcionamento de um sistema elétrico de


energia, têm de resistir a situações que vão muito para além do seu funcionamento normal. Apesar
de se encontrarem em regime estacionário durante a maior parte da sua vida útil, poderão ficar
sujeitos a diversos fenómenos transitórios, fruto das constantes alterações que ocorrem na rede.
As solicitações que decorrem destes fenómenos impõem esforços adicionais sobre toda a estrutura
do transformador (proporcionais à gama de potências associada), pelo que terá de se ter em conta
estes fatores aquando do seu projeto, procurando garantir um nível de isolamento adequado por
forma a minimizar os riscos associados e a assegurar um período de vida útil prolongado.
Os fenómenos transitórios em transformadores de potência estão associados a perturbações
relacionadas com curto-circuitos, operações de manobra, descargas atmosféricas ou variações de
carga. Aqueles podem ser divididos, essencialmente, em duas categorias:

• Sobreintensidades: correspondem a um aumento substancial da corrente elétrica para va-


lores superiores aos estipulados dos condutores, podendo danificá-los devido à dissipação
de calor excessiva e aos esforços eletrodinâmicos a que ficam sujeitos;

• Sobretensões: associadas a um crescimento significativo da tensão, que pode conduzir à


rutura do isolamento de um transformador. Estas podem ser classificadas como sobreten-
sões de origem externa (provocadas, geralmente, por descargas atmosféricas) ou de origem
interna (decorrentes da manobra de um disjuntor).

Este trabalho irá incidir, fundamentalmente, nas sobretensões de manobra. Apesar de as so-
bretensões devidas a descargas atmosféricas serem as mais gravosas e as que condicionam o nível
de isolamento para tensões inferiores a, aproximadamente, 400 kV [1], existem registos de falhas
de isolamento de transformadores devido a sobretensões resultantes da manobra de disjuntores,
mesmo após aqueles terem sido aprovados nos testes exigidos pelas normas [2–5]. Será, por isso,
necessário que os transformadores disponham de meios de proteção adequados, não só a nível

1
2 Introdução

interno (reforço das espiras mais próximas da extremidade de linha de um enrolamento, bom es-
tado de conservação do óleo, entre outros) mas também a nível externo (disjuntores com calibre e
tempos de resposta apropriados).

1.2 Motivação e Objetivos da Dissertação


A principal motivação para a realização desta dissertação advém do facto de os fenómenos
relacionados com as sobretensões de manobra se encontrarem pouco difundidos e explorados no
âmbito dos transformadores. Pela importância que estes assumem na cadeia de valor do transporte
e distribuição de energia, e com a crescente expansão e aumento da complexidade dos sistemas
elétricos de energia, é essencial dispor-se de um conhecimento aprofundado sobre todos os fe-
nómenos a que poderão estar sujeitos. Desta forma, será possível definirem-se estratégias que
possibilitem uma resposta adequada, por parte dos transformadores, às sobretensões de manobra,
salvaguardando a sua integridade.
Este trabalho possui, por isso, um papel importante na transmissão de conhecimento relativo
aos fenómenos transitórios a que os transformadores poderão estar sujeitos, com especial enfoque
nas sobretensões resultantes da manobra dos seus disjuntores de proteção.

1.3 Estrutura da Dissertação


Esta dissertação encontra-se estruturada em cinco capítulos. O presente capítulo identifica o
contexto em que a mesma foi desenvolvida, introduzindo e caracterizando os seus objetivos.
O Capítulo 2 é dedicado a uma exposição teórica, com suporte analítico, dos fenómenos tran-
sitórios decorrentes da manobra de um disjuntor (abertura e fecho) e das suas consequências para
os transformadores. Serão também introduzidas técnicas para mitigação das sobretensões de ma-
nobra nos transformadores.
O Capítulo 3 enquadra um conjunto de conceitos relativos à modelização de componentes
(especificamente, linhas/cabos, disjuntores e transformadores) e à simulação de fenómenos transi-
tórios.
O Capítulo 4 apresenta o caso de estudo de um transformador que foi alvo de uma sobreten-
são de manobra. Nele, encontram-se detalhados os estudos realizados com vista à compreensão
da influência que os diversos parâmetros do sistema possuem na sobretensão aos terminais do
transformador.
O Capítulo 5 expõe as conclusões registadas ao longo deste trabalho.
Capítulo 2

Transitórios Eletromagnéticos e
Sobretensões de Manobra em
Transformadores de Potência

Os principais eventos que estão na origem de solicitações dielétricas significativas nos transfor-
madores são, essencialmente, a sua ligação e a interrupção súbita do seu funcionamento. Ambas
podem provocar o aparecimento de sobretensões de magnitude elevada, cuja frequência própria
vai muito para além da frequência industrial [6].
As sobretensões de manobra, assim como qualquer fenómeno transitório que possa ocorrer
num circuito elétrico, estão sempre relacionadas com o armazenamento de energia em elementos
do circuito e a sua posterior libertação [7]. De uma forma geral, a elevada amplitude e frequência
das sobretensões, e os danos por elas causados, são determinados pelas características do circuito.
As sobretensões que surgem aos terminais de um transformador podem ser classificadas de
acordo com a sua duração em [8]:

• Sobretensões Temporárias: quando são considerados fenómenos de ferroressonância e na


ligação de transformadores. Podem ter durações de até 1 min e a forma de onda corresponde
à da frequência industrial;

• Sobretensões de Frente Lenta: interrupção de curto-circuitos e correntes fortemente indu-


tivas, possuindo uma duração até ao valor de crista que pode variar entre 20 a 5000 µs e
uma duração até meia amplitude de 20 ms;

Apesar de as sobretensões referidas anteriormente serem as mais comuns, caso se verifiquem


determinadas condições (distâncias reduzidas; elevada capacidade e/ou indutância no circuito), as
sobretensões de manobra também poderão constituir sobretensões de frente rápida (duração até
ao valor de crista entre 0,1 e 20 µs). No caso de se considerarem operações de manobra para
saída de serviço de um transformador ou para eliminação de curto-circuitos, em subestações com
tecnologia de isolamento a gás, a duração até ao valor de crista da onda é inferior a 0,1 µs podendo,

3
4 Transitórios Eletromagnéticos e Sobretensões de Manobra em Transformadores de Potência

estas ondas, atingir frequências entre 100 kHz a 50 MHz, sendo consideradas sobretensões de
frente muito rápida [8].
Neste capítulo serão explorados diferentes fenómenos transitórios resultantes da ligação e in-
terrupção do funcionamento de um transformador. Realizar-se-á uma análise às diferentes condi-
ções sob as quais poderão surgir sobretensões aos terminais daquele, avaliando-as em termos de
magnitude e frequência de oscilação. Adicionalmente, serão discutidos aspetos relacionados com
as técnicas de mitigação de sobretensões de manobra.

2.1 Transitórios Decorrentes de Manobras de Ligação

2.1.1 Ligação de Transformadores de Potência

O processo de ligação (ou excitação) de um transformador deve ser realizado seguindo um


conjunto de boas-práticas, nomeadamente, através da manutenção do secundário em vazio e, caso
existam tomadas de regulação, utilizando a posição correspondente à tomada máxima. Apesar
destes cuidados, não é possível determinar, a priori, qual o valor da tensão no instante de ligação.
Se tal fosse possível, poderia realizar-se a ligação do transformador no momento exato em que o
valor do fluxo magnético associado a essa tensão igualasse o fluxo existente no núcleo. Contudo,
o instante mais favorável a uma fase não o é para as restantes, pelo que, na prática, este pro-
cesso terá como consequência o aparecimento de um fenómeno transitório, sob a forma de uma
sobreintensidade de ligação [9].
A presença desta corrente, por si só, não constitui um problema de maior e não resultará numa
sobretensão. No entanto, o seu estabelecimento através do fecho dos contactos de um disjuntor
poderá dar origem a um pré-arco. Este ocorre pois o fecho dos disjuntores não pode ser realizado
instantaneamente, dando origem à circulação de uma corrente antes dos contactos se unirem. Este
fenómeno encontra-se representado na Figura 2.1.

Figura 2.1: Ilustração do fenómeno de pré-arco (fonte: [10]).


2.1 Transitórios Decorrentes de Manobras de Ligação 5

O eixo vertical representa a tensão de escorvamento do disjuntor (tensão associada à sua ri-
gidez dielétrica). Na posição aberto, a tensão de escorvamento possui um valor muito elevado
quando comparado com a tensão nominal do sistema, aos contactos do disjuntor. À medida que os
contactos se aproximam, a tensão de escorvamento do mesmo irá diminuir. No momento em que
esta iguala a tensão entre os contactos, existem condições para a formação de um canal ionizado
através do qual circulará um arco elétrico, designado de pré-arco. Esta mudança súbita nas con-
dições do sistema dará origem ao aparecimento de uma sobretensão que, geralmente, não possui
uma amplitude muito superior à tensão nominal do sistema, pelo que as consequências para um
transformador não serão de valorizar [11].
A sobreintensidade de ligação é caracterizada por possuir um valor muito superior à corrente
estipulada do transformador, o que provoca uma queda de tensão acentuada devido à impedância
existente entre a rede e o transformador [12].
Considere-se as Figuras 2.2 e 2.3. Quando o transformador é desligado, a corrente i segue a
curva de histerese até zero, enquanto a indução magnética adquire um valor não-nulo Br (ponto D
na Figura 2.2). Para uma indução magnética residual +Br , o instante de ligação em que a tensão
aplicada é zero conduz a um valor máximo de corrente (ver Figura 2.3).
Se o transformador não tivesse sido desligado, a corrente i e a indução magnética Br iriam
seguir as formas de onda a tracejado. Segundo o Teorema do Acoplamento de Fluxo Constante
(Constant Flux Linkage Theorem), o fluxo magnético num circuito indutivo não poderá variar
instantaneamente. Assim, o fluxo imediatamente posterior ao fecho do circuito (t = 0+ ) terá de
permanecer igual ao fluxo imediatamente anterior (t = 0− ). Desta forma, ao invés de a indução
magnética iniciar num valor negativo máximo (−Bmp ), irá começar em +Br e atingirá um valor de
pico positivo dado por Br + 2Bmp , conduzindo o núcleo até à saturação [9].

Figura 2.3: Demonstração do desenvolvimento


Figura 2.2: Curva de histerese (fonte: [9]). da sobreintensidade de ligação (fonte: [9]).

A forma de onda típica de uma sobreintensidade de ligação encontra-se representada na Fi-


gura 2.4. No caso de transformadores trifásicos, a evolução das correntes nas três fases passa
6 Transitórios Eletromagnéticos e Sobretensões de Manobra em Transformadores de Potência

por valores diferentes pois, como foi anteriormente referido, se a condição mais desfavorável é
atingida numa fase, não o será nas outras duas.

Figura 2.4: Forma de onda típica da sobreintensidade de ligação (fonte: [9]).

Como se constata, esta corrente possui um offset nos primeiros instantes, fruto de uma com-
ponente DC com um decaimento temporal determinado pela constante de tempo do enrolamento
primário (L/R). De um ponto de vista prático, esta constante de tempo não é, de todo, constante,
pois o valor da indutância L varia com a indução magnética. Durante os primeiros instantes, o nú-
cleo poderá estar em completa saturação (permeabilidade magnética muito reduzida - equivalente
à do ar) e, por isso, L possui um valor reduzido, o que resulta num decaimento acentuado. À me-
dida que as perdas no núcleo e no enrolamento atenuam o circuito, a indução magnética diminui,
aumentando L e, consequentemente, diminuindo o decaimento. Este fenómeno tem a duração de
alguns segundos [9].
De uma forma geral, transformadores de menor potência, ao contrário dos transformadores
de potências mais elevadas, possuem um decaimento acentuado devido às baixas constantes de
tempo.
A sobreintensidade de ligação é influenciada pelos seguintes fatores [9, 13]:

• Reatância no ar do enrolamento primário: esta reatância encontra-se diretamente rela-


cionada com o declive da curva de saturação do núcleo do transformador, o qual limita a
sobreintensidade de ligação em condições de saturação;

• Instante de ligação: a corrente será tanto maior quanto mais afastada estiver a tensão dos
seus extremos no instante de ligação, atingindo um máximo quando a tensão é zero;

• Densidade de fluxo residual: a magnitude da corrente será tanto maior quanto maior for
o fluxo residual, o qual depende das características do material do núcleo e do fator de
potência da carga no instante de ligação;

• Resistência-série da linha entre a fonte e o transformador: esta resistência proporciona


um efeito de amortecimento que reduz não apenas o valor de pico da sobreintensidade, mas
também contribui para que o decaimento seja mais rápido;

• Fator de potência em carga: se o transformador for ligado com carga aos seus terminais,
a magnitude da sobreintensidade de ligação será influenciada, até certo ponto, pelo fator de
potência da carga. Com efeito, o valor máximo da sobreintensidade de ligação será tanto
maior quanto menor for o fator de potência.

Salvo raras exceções, o fenómeno da sobreintensidade de ligação do transformador não cons-


titui um problema, pelo que se não adotam meios de a suprimir ou atenuar [6].
2.1 Transitórios Decorrentes de Manobras de Ligação 7

2.1.2 Ferroressonância

Associado à manobra de ligação de um transformador encontra-se, igualmente, o fenómeno


da ferroressonância. Esta poderá ocorrer caso se verifiquem determinadas condições no circuito,
as quais serão detalhadas seguidamente.
Nos circuitos elétricos podem-se distinguir dois tipos de ressonância: ressonância linear e
ressonância não-linear (ou ferroressonância).
A ressonância linear ocorre num circuito, a uma determinada frequência de ressonância, quando
as partes imaginárias da impedância desse circuito se anulam. Esta situação resulta numa transfe-
rência contínua de energia entre a indutância e a capacidade (ver Figura 2.5), a qual é dissipada
devido à resistência, sempre presente, do circuito. Os circuitos ressonantes possuem várias aplica-
ções no âmbito da eletrónica digital, nomeadamente, na realização de operações de sintonização e
filtragem de sinais [14].

Figura 2.5: Circuito RLC em situação de ressonância - transferência de energia entre os campos
elétrico e magnético.

Para o caso de um circuito RLC série, uma situação de ressonância verifica-se quando as
reatâncias indutiva e capacitiva são iguais em magnitude, mas anulam-se pelo desfasamento de
180o que possuem entre si. Neste circuito, a tensão estará em fase com a corrente (fator de potência
unitário) e o valor da impedância será mínimo, pois apenas terá uma componente resistiva:
q
Z= R2 + (XL + XC )2 = R [Ω] (2.1)

1
com XL = ωL e XC = − ωC .
A Figura 2.6 ilustra a evolução do valor da impedância e das suas componentes resistiva e
reativa, com a frequência. A frequência que se verifica aquando da interseção das curvas relativas
à reatância indutiva e capacitiva é a frequência de ressonância (ω0 ). Como foi referido anterior-
mente, a este valor de frequência está associada uma impedância mínima do circuito.
A frequência de ressonância será, então, dada por:
r
1 1
XL = −XC ⇐⇒ ωL = ⇐⇒ ω0 = [rad.s-1 ] (2.2)
ωC LC
8 Transitórios Eletromagnéticos e Sobretensões de Manobra em Transformadores de Potência

Figura 2.6: Variação da impedância de um circuito RLC em função da frequência.

Em suma, quando um circuito RLC-série se encontra numa situação de ressonância linear


(impedância mínima), devido ao facto de a corrente que circula pelo circuito ficar apenas limitada
pela resistência, as tensões na indutância e na capacidade serão mais elevadas do que a tensão
disponibilizada pela fonte. Na Figura 2.7 ilustra-se o diagrama fasorial de tensões e de corrente de
um circuito RLC-série, no qual as reatâncias indutiva e capacitiva se anulam (impedância mínima).
É possível observar-se que, apesar de o valor da tensão na indutância (VL ) e na capacidade (VC )
serem muito elevados quando comparado com a tensão do sistema (VS ), aquelas encontram-se
desfasadas de 180o , anulando-se. Desta forma, o valor da tensão do sistema será igual à tensão na
resistência (VR ).

Figura 2.7: Diagrama fasorial de tensões e correntes num circuito RLC-série em situação de
ressonância.

A ferroressonância é um caso especial de ressonância no qual a capacidade de um circuito se


encontra em série (ou paralelo) com uma indutância não-linear e as perdas desse circuito são muito
reduzidas. A ligação destes elementos, sob determinadas condições, pode dar origem a sobreten-
sões muito elevadas. Devido à sua natureza não-linear, o fenómeno da ferroressonância ainda não
2.1 Transitórios Decorrentes de Manobras de Ligação 9

se encontra convenientemente nem amplamente estudado [15]. Apesar de a sua probabilidade de


ocorrência ser diminuta, existem registos de alguns casos na literatura [16, 17].
Nos sistemas elétricos de energia existem várias indutâncias saturáveis (transformadores de
potência, transformadores de tensão, reatâncias shunt, entre outros) e também capacidades (cabos,
linhas longas, bancos de condensadores, entre outros). A presença destes elementos está, por
isso, associada a cenários com probabilidade de ocorrência de ferroressonância [18]. Contudo,
aqueles não são os únicos que poderão levar a uma situação de ferroressonância. De facto, esta
está dependente das condições iniciais do sistema, da característica de saturação do núcleo do
transformador, dos fluxos residuais, do tipo de ligação do transformador, do comprimento do
cabo, das perdas totais do circuito, entre outros [19, 20]. Por isso, a previsão da sua ocorrência é
uma tarefa extremamente árdua e complexa.
Em suma, a ocorrência da ferroressonância pressupõe, de uma forma simplificada, a presença
dos seguintes elementos/condições [15]:

• Indutância não-linear: neste caso, corresponde ao núcleo saturável de um transformador;

• Capacidade: presente nos cabos como capacidade à terra e capacidade entre condutores,
baterias de condensadores, etc.;

• Perdas reduzidas: por exemplo, um transformador em vazio (perdas Joule muito baixas),
com um núcleo de alto rendimento (perdas magnéticas diminutas);

• Fonte de tensão: são os grupos geradores do sistema elétrico, que têm como função estabe-
lecer uma tensão adequada para ser possível fornecer a energia que alimente as oscilações
devidas à ferroressonância.

Ao contrário da ressonância linear, a reatância indutiva XL depende, não apenas da frequência,


mas também da indução magnética presente no núcleo do transformador [21]. Como a variação da
indução magnética está associada a uma variação da permeabilidade magnética do núcleo (dada
por µ = µ0 µr ) e esta, por sua vez, é proporcional à indutância L (ver Expressão 2.3), compreende-
se que, pelo facto de a indutância variar, existirá maior probabilidade de a reatância indutiva tomar
um valor igual ao da reatância capacitiva, conduzindo a uma situação de ferroressonância.

N 2A
L = µ0 µr [H] (2.3)
`
A tensão aos terminais de uma indutância não-linear (transformador) irá depender da frequên-
cia angular ω e da corrente, representada na Expressão 2.4 através de uma função f (I):

VL = ω f (I) [V] (2.4)

Esta tensão irá estar em quadratura avanço com a corrente. A tensão aos terminais da capaci-
dade será dada por:

I
VC = − [V] (2.5)
ωC
10 Transitórios Eletromagnéticos e Sobretensões de Manobra em Transformadores de Potência

O sinal de subtração indica que a tensão VC se encontra com uma diferença de fase de 180o em
relação à tensão VL . A tensão VC irá estar em quadratura atraso com a corrente. A tensão total VS
será dada por:

I
VS = VL +VC = ω f (I) − [V] (2.6)
ωC
ou, como alternativa:

I
VL = VS −VC = VS + [V] (2.7)
ωC
A Expressão 2.7 mostra que VL possui um termo fixo VS e outro proporcional a I. Na Figura 2.8
encontram-se representadas as curvas dadas pelas expressões 2.4 e 2.7. Visto ambas as curvas
representarem a tensão VL , o ponto de funcionamento do circuito será dado pela interseção das
duas (ponto P). Neste instante, a tensão na capacidade corresponde a PQ e a tensão no indutor a
PB, excedendo, esta última, a tensão do sistema VS (dada por QB).

Figura 2.8: Solução gráfica de um circuito LC-série ferroressonante.

O declive da reta inclinada é dado por:

1
tan(α) = (2.8)
ωC
indicando que caso ω ou C sejam reduzidos, o declive irá aumentar e o ponto de funcionamento
P irá progredir pela curva. Simultaneamente, as tensões VC e VL irão aumentar significativamente.
Esta situação encontra-se demonstrada na Figura 2.9, a qual ilustra os efeitos da variação da capa-
cidade quando os restantes parâmetros se mantêm constantes.
A Figura 2.9 demonstra, igualmente, que a curva característica da capacidade interseta a curva
da indutância mais do que uma vez. Um desses casos foi identificado com três pontos de funcio-
namento distintos. Estes pontos correspondem às condições de circuito nas quais a lei de Kirchoff
das tensões é respeitada, traduzindo o princípio da conservação da energia [22]. Os valores de VL
2.1 Transitórios Decorrentes de Manobras de Ligação 11

Figura 2.9: Soluções gráficas de um circuito LC-série ferroressonante, com diferentes valores de
capacidade.

e VC correspondentes ao ponto de funcionamento 1 são negativos e excedem largamente os corres-


pondentes ao ponto de funcionamento 2. Para além disso, VC > VL no ponto de funcionamento 1,
enquanto que VC < VL para o ponto de funcionamento 2.
Os pontos de funcionamento 1 e 2 são considerados estáveis, pois uma pequena variação da
corrente I quando o sistema opera num deles, irá originar variações de tensão que tenderão a
restaurar a corrente para o seu valor inicial. Sendo estes dois pontos possíveis, o que determinará
o funcionamento do circuito num deles será o ângulo da tensão no momento da ligação.
O ponto de funcionamento 3 não é um ponto estável. Tal deve-se ao facto de uma variação da
corrente I originar alterações nos valores das tensões VL e VC que irão reforçar o desvio existente,
não permitindo uma operação estável. Apesar de a solução do sistema não se manter neste ponto
em regime permanente, poderá atingi-lo na ocorrência de um regime transitório [23].
Apresenta-se, na Figura 2.10 os diagramas fasoriais para o ponto de funcionamento 1 ( 2.10a)
e para o ponto de funcionamento 2 ( 2.10b). No ponto de funcionamento 1, a maior tensão regista-
se na indutância. Esta é igual à soma aritmética da tensão do sistema com a tensão na capacidade.
No ponto de funcionamento 2, a maior tensão situa-se na capacidade, sendo aquela igual à soma
aritmética da tensão do sistema com a tensão na indutância. Devido à elevada tensão que estabe-
lece na indutância, é o ponto de funcionamento 2 que constitui maior risco para o transformador,
pois este ficará sujeito a uma tensão significativamente superior à sua tensão estipulada (admitindo
que esta seja igual à tensão do sistema).
Conclui-se, desta forma, que as principais diferenças entre um circuito ferroressonante e um
circuito com ressonância linear são, para um determinado valor de frequência ω [22]:
12 Transitórios Eletromagnéticos e Sobretensões de Manobra em Transformadores de Potência

(b)

(a)

Figura 2.10: Diagramas fasoriais para os pontos de funcionamento 1 (a) e 2 (b).

• A ressonância é possível para uma gama elevada de valores de capacidade C;

• A frequência das formas de onda da tensão e corrente poderá ser diferente da frequência da
tensão do sistema;

• É possível existirem vários pontos de funcionamento estáveis em regime permanente, fi-


cando estes dependentes das condições iniciais de carga e fluxo na capacidade e indutância,
respetivamente;

• Existe a possibilidade de ocorrerem “saltos“ quando o circuito se desloca de um ponto


de funcionamento estável para outro, como resultado de uma alteração de parâmetros no
sistema.

Durante várias décadas, assumiu-se que a ferroressonância trifásica se encontrava limitada


à utilização de transformadores cujas configurações de enrolamentos primários não dispunham
de ligação à terra (por exemplo, transformadores com enrolamentos em triângulo ou em estrela
com neutro isolado) [24]. No entanto, devido à multiplicidade de proveniências de capacidades
e indutâncias não-lineares nos sistemas elétricos de energia, existem várias configurações através
das quais a ferroressonância poderá surgir.
As configurações mais propícias à ocorrência da ferroressonância encontram-se representadas
na Figura 2.11. Aquelas estão associadas à ligação de um transformador através de uma ou duas
fases. Esta ocorrência pode ser acidental (explosão de um fusível, rutura de um condutor, entre
outros) ou expectável (interrupção da corrente, por parte de um disjuntor, numa das fases, enquanto
um arco elétrico ainda persiste nas restantes).
Em todos os circuitos apresentados, estabelece-se uma ligação série entre as capacidades e as
indutâncias não-lineares, o que pode dar origem ao aparecimento de ferroressonância. A proba-
bilidade será tanto maior quanto menores forem as perdas no circuito (teoricamente, o caso mais
penalizador está associado a um transformador com um regime de funcionamento em vazio).
2.2 Sobretensões com Origem em Manobras de Interrupção 13

Figura 2.11: Configurações propícias ao aparecimento de ferroressonância (fonte: [18]).

2.2 Sobretensões com Origem em Manobras de Interrupção

2.2.1 Interrupção da Corrente Alternada

2.2.1.1 Conceitos Gerais

A interrupção da corrente alternada num sistema elétrico de energia é um processo que se


reveste de alguma complexidade. Dependendo de fatores como as condições iniciais do circuito,
aquela interrupção poderá ter consequências devastadoras para os equipamentos, devido, essen-
cialmente, às sobretensões de manobra que resultam da abertura (ou fecho) de um disjuntor. A
interrupção da corrente pode ser voluntária - realizada, por exemplo, pelo operador da rede, em
condições normais de funcionamento, quando este identifica a necessidade de se proceder a uma
reconfiguração da rede ou, simplesmente, para retirar de serviço algum equipamento de uma su-
bestação no sentido de se proceder à sua reparação - ou involuntária, no caso da ocorrência de um
curto-circuito.
A interrupção da corrente é realizada por dispositivos eletromecânicos com um poder de corte
adequado para o circuito em que se encontram inseridos. Em redes de Alta Tensão (AT), esta
função é assegurada por disjuntores. Estes são chamados a intervir quando ocorrem determinadas
alterações nos sistemas elétricos, podendo ter de interromper, estabelecer ou suportar (durante um
período de tempo previamente definido) correntes de curto-circuito. Os disjuntores podem, assim,
14 Transitórios Eletromagnéticos e Sobretensões de Manobra em Transformadores de Potência

permanecer durante longos períodos de tempo na posição de abertos ou fechados. Contudo, sem-
pre que forem solicitados, deverão possuir uma capacidade de atuação praticamente instantânea.
Um disjuntor consiste, essencialmente, num par de contactos - um fixo e outro móvel - dentro
de uma câmara de corte, a qual contém ou um meio isolante (óleo, ar comprimido, SF6 ) ou vácuo.
A performance de um disjuntor ideal pode ser sumarizada nos seguintes pontos [25]:

• Quando fechado, é um bom condutor (resistência muito baixa) e é capaz de suportar, de um


ponto de vista mecânico e térmico, qualquer corrente igual ou inferior ao seu poder de corte;

• Quando aberto, é um bom isolante (resistência muito elevada) e consegue suportar a tensão
que surge entre os seus contactos, a tensão à terra ou a tensão a outra(s) fase(s);

• Quando fechado, pode interromper, de forma rápida e segura, qualquer corrente igual ou
inferior ao seu poder de corte;

• Quando aberto, pode estabelecer, de forma rápida e segura, qualquer corrente igual ou infe-
rior ao seu poder de corte.

Num disjuntor, após a separação dos contactos, forma-se um arco elétrico constituído por um
plasma - resultante da ionização do meio isolante (disjuntores em SF6 ) ou do metal dos contactos
(disjuntores de vácuo) - que permite a passagem da corrente, uma vez que é um condutor elétrico.
O arco elétrico pode ser definido como uma descarga elétrica auto-sustentável que apresenta
uma queda de tensão reduzida, que é capaz de suster correntes elevadas e que se comporta como
uma resistência não-linear [26]. O arco apresenta uma resistência negativa (dada pela derivada da
tensão em ordem à corrente), isto é, a tensão entre os seus contactos diminui com a corrente, como
se pode verificar a partir da Figura 2.12:

Figura 2.12: Curvas características do arco elétrico e de um condutor metálico generalizado


(fonte: [27]).

As características do arco estão diretamente relacionadas com as propriedades do disjuntor,


como a sua geometria, o material dos contactos e o meio dielétrico. Assim, é prática comum
interpretar a corrente pós-arco como indicadora da performance do disjuntor [28].
2.2 Sobretensões com Origem em Manobras de Interrupção 15

Quando é transmitida uma ordem de abertura ao disjuntor, à medida que os contactos se afas-
tam, a tensão necessária para manter o arco vai aumentando. No caso de o sistema no qual o
disjuntor está inserido ser em corrente contínua, o arco acabará por extinguir-se por não ter con-
dições de estabilidade. Para tensões elevadas, o corte de uma corrente contínua é um processo
difícil, o que tem limitado a expansão deste tipo de sistemas [27].

Em corrente alternada, a ação dos disjuntores é facilitada pelo facto de a corrente se anular
regularmente em cada meio período. Contudo, o aparecimento do arco é inevitável, pois a massa
dos contactos e do mecanismo de acionamento não permite atingir as velocidades necessárias para
aqueles se afastarem no momento exato da passagem da corrente por zero. Estabelece-se, assim,
um arco entre os dois contactos. Após a anulação da corrente e a consequente extinção do arco,
surge, entre os contactos do disjuntor, uma tensão que tende a reacender o arco, designada por
Tensão Transitória de Restabelecimento (TTR). O processo de interrupção pode, então, ser divi-
dido nos seguintes períodos: período do arco, período da corrente-zero e período de regeneração
do dielétrico.

Apresenta-se, na Figura 2.13, a evolução gráfica da tensão da rede V , da corrente de curto-


circuito i, da tensão do arco Va e da tensão entre os contactos do disjuntor Vr , quando ocorre
um curto-circuito num circuito indutivo (tipo de circuito associado às redes de alta e muito alta
tensão).

Figura 2.13: Evolução das formas de onda da tensão da rede, corrente da rede e tensão do arco,
durante o processo de interrupção da corrente (fonte: [27]).

Pela análise a Figura 2.13, verifica-se que, no instante t0 , os contactos do disjuntor começaram
a afastar-se, e que a tensão do arco vai crescendo com as sucessivas alternâncias da corrente,
devido ao afastamento progressivo dos contactos do disjuntor. No instante t1 , o afastamento dos
contactos e a desionização do meio já são suficientes para o arco se extinguir, ficando a corrente
interrompida de forma definitiva. De seguida, estebelece-se um regime oscilante que dá origem a
uma sobretensão de manobra.
16 Transitórios Eletromagnéticos e Sobretensões de Manobra em Transformadores de Potência

2.2.1.2 Supressão Convencional da Corrente

Referiu-se, na Secção 2.2.1, que a corrente não é interrompida instantaneamente após a sepa-
ração dos contactos do disjuntor. Com efeito, a corrente continuará a circular entre os contactos,
através de um arco elétrico, até aqueles estarem suficientemente afastados e a corrente atingir o
seu zero natural. Podem, no entanto, existir situações em que tal não se verifica.
A supressão convencional da corrente é um fenómeno que se verifica quando a corrente é in-
terrompida prematuramente, ou seja, antes da sua passagem por zero. Para além daquela, também
existe a supressão virtual da corrente, que será discutida na Secção 2.2.1.3.
Os fatores mais comuns que propiciam a supressão convencional da corrente são [29]:

• Corte de pequenas correntes indutivas (dezenas ou centenas de ampere) por disjuntores com
elevada capacidade de corte (da ordem das dezenas de kA);

• Movimentação do meio dielétrico pode prolongar o arco até que este não possua condições
de estabilidade e se extinga antes da corrente se anular;

• A variação em degrau da impedância da descarga pode produzir uma oscilação no circuito


a ser interrompido. Esta oscilação, sobreposta à corrente do sistema, pode resultar numa
transição forçada da corrente para zero.

Os fatores referidos não são únicos pois, como se poderá evidenciar mais à frente, existem
diferenças quer se esteja na presença de disjuntores de vácuo ou dos restantes. Apesar de a supres-
são se verificar em todos os tipos de disjuntor, o maior valor instantâneo de corrente suprimida
ocorre, geralmente, nos disjuntores de vácuo [26, 28]. Este fenómeno dá origem a uma sobreten-
são elevada, a qual resulta da libertação da energia acumulada no campo magnético associado à
corrente. Esta energia é transferida para as capacidades que se encontrem em série ou paralelo
com as indutâncias, carregando-as, e vice-versa [29].
Para demonstrar o valor máximo da sobretensão que se verifica a jusante do disjuntor, quando
este interrompe uma corrente alternada, atente-se no circuito da Figura 2.14 [25].

Figura 2.14: Circuito LC para demonstração do valor da sobretensão a jusante do disjuntor.

Considerando uma corrente indutiva I interrompida pelo disjuntor D no instante em que se


anula, a energia armazenada do lado da carga é a energia armazenada na capacidade C2 , cuja
2.2 Sobretensões com Origem em Manobras de Interrupção 17

tensão se encontra no valor máximo. Esta energia é transferida para a indutância L2 e vice-versa,
sendo válida a seguinte expressão:

1 2 1 2
C2Vmax = L2 Imax (2.9)
2 2
onde Vmax e Imax representam, respetivamente, os valores máximos da tensão aos terminais da
capacidade e da corrente que percorre a indutância. No instante em que a corrente é interrompida,
a tensão Vmax é igual à tensão do lado da fonte e a frequência de oscilação da tensão e da corrente
é dada por:

1
fn = √ [Hz] (2.10)
2π L2C2
Quando a corrente é interrompida prematuramente, a energia armazenada do lado da carga é
equivalente à energia armazenada na capacidade e na indutância, sendo o seu valor igual a:

1 1
C2V0 2 + L2 I0 2 (2.11)
2 2
onde V0 e I0 correspondem, respetivamente, aos valores de tensão aos terminais da capacidade e
de corrente através da indutância no momento em que a corrente é interrompida.
Neste caso, a frequência das oscilações será igual à do caso anterior, cujo valor é dado pela
Expressão 2.10. No entanto, a tensão máxima na capacidade já não será a mesma. Esta pode ser
obtida pela seguinte expressão:

1 2 1 1
C2Vmax = C2V0 2 + L2 I0 2 (2.12)
2 2 2
da qual resulta que
r
L2 2
Vmax = I +V02 [V] (2.13)
C2 0
Verifica-se que a interrupção com corrente-zero é apenas um caso particular da interrupção
com supressão de corrente, no qual I0 = 0 e Vmax = V0 . Na maioria dos casos, o valor de L2
é muito elevado e o de C2 relativamente pequeno. Assim, independentemente do valor de I0 , o
valor máximo da tensão que poderá resultar no lado da carga quando a corrente é interrompida
prematuramente, é muito superior ao valor da tensão no caso em que a interrupção ocorre para
uma corrente nula.
Os fatores que influenciam a instabilidade do arco nos instantes próximos à anulação da cor-
rente dependem do tipo de disjuntor considerado, podendo distinguir-se dois casos [26]:

• Supressão da Corrente em Disjuntores de Ar, Óleo e SF6

Nos disjuntores de ar comprimido, óleo e SF6 , a instabilidade do arco que conduz à supressão
da corrente depende, essencialmente, da capacidade presente no sistema. A Figura 2.15 ilustra
esta dependência, para os vários tipos de disjuntor.
18 Transitórios Eletromagnéticos e Sobretensões de Manobra em Transformadores de Potência

Figura 2.15: Relação entre a corrente suprimida e a capacidade do circuito (fonte: [26]).

Para este tipo de disjuntores, um valor aproximado para a corrente suprimida (I0 ) pode ser
dado pela expressão

p
I0 = λ C2 [A] (2.14)

onde λ se designa por constante de surpessão. Alguns valores típicos para este parâmetro são:

Para disjuntores a óleo : 7 a 100000


Para disjuntores de ar comprimido : 15 a 400000
Para disjuntores de SF6 : 15 a 170000

Relativamente às capacidades, na maioria das aplicações, estas situam-se entre os 10 e 50 nF.

• Supressão da Corrente em Disjuntores de Vácuo

Ao contrário dos restantes tipos de disjuntor, no disjuntor de vácuo, a instabilidade do arco não
é tão influenciada pela capacidade do sistema (ver Figura 2.15), mas dependente, essencialmente,
do material que constitui os contactos do disjuntor.
Para este tipo de disjuntor não existe uma constante de supressão, no entanto, o valor da cor-
rente suprimida pode ser especificado da seguinte forma:

Para contactos de cobre-bismuto : 5 a 17 A


Para contactos de cobre cromado : 2 a 5 A

2.2.1.3 Supressão Virtual da Corrente

A supressão virtual da corrente não pode ser considerada um fenómeno real de supressão, pois
corresponde, na verdade, à interrupção de uma corrente transitória com uma frequência muito
2.2 Sobretensões com Origem em Manobras de Interrupção 19

superior à da frequência industrial. Este tipo de supressão encontra-se ilustrado na Figura 2.16.

(b)

(a)

Figura 2.16: Supressão virtual da corrente (fonte: [26]).

Na Figura 2.16a, as componentes de corrente à frequência industrial são representadas por IA ,


IB e IC . Assumindo, a título exemplificativo, que o reacendimento do arco ocorre instantes após a
interrupção da corrente à frequência industrial na fase A, a corrente transitória de alta frequência
associada ao reacendimento do arco, designada por iA , irá circular através da capacidade shunt
presente do lado da carga e as componentes iB e iC irão circular nas capacidades das fases B e C,
respetivamente. Aquela corrente sobrepor-se-á à componente de corrente à frequência industrial;
para além disso, a corrente de alta frequência poderá ter uma amplitude mais elevada do que a
corrente à frequência industrial e, por isso, aquela poderá forçar a interrupção da corrente em
instantes distintos àqueles em que a sua anulação se verificaria.
Os disjuntores de vácuo possuem uma elevada capacidade de interrupção de correntes de alta
frequência, sendo válido assumir que, em algumas situações, estes disjuntores poderão interrom-
per a corrente num instante de corrente-zero forçado pela componente de alta frequência, que
ocorre antes da anulação natural da componente à frequência industrial. Quando tal acontece, a
carga interpretará este evento como se da interrupção à frequência industrial se tratasse.
A anulação da componente de alta frequência irá ocorrer, aproximadamente, no mesmo ins-
tante em todas as fases, o que poderá dar origem a uma sequência de sobretensões transitórias que,
eventualmente, propiciarão um conjunto de reacendimentos nas três fases.
Conclui-se, desta forma, que, quando comparado com a supressão convencional, o valor ins-
tantâneo da corrente à frequência industrial, pelo qual esta é forçada a anular-se, é significativa-
mente superior no caso da supressão virtual. Contudo, a impedância característica será menor,
podendo considerar-se que a amplitude da sobretensão será próxima da que resulta de uma supres-
são convencional [26].
20 Transitórios Eletromagnéticos e Sobretensões de Manobra em Transformadores de Potência

2.2.2 Tensão Transitória de Restabelecimento

2.2.2.1 Definições e Conceitos

A TTR é dada pela diferença entre a sobretensão que provém da fonte e a sobretensão que
provém da carga, sendo a sua forma de onda determinada pela configuração do sistema [30]. A
duração da TTR é da ordem dos milissegundos, mas o conhecimento do seu valor de pico e taxa
de crescimento são de extrema importância, pois é com base nestes valores que se consegue deter-
minar se o disjuntor será capaz de interromper a corrente com sucesso. Caso a TTR seja superior
à tensão de escorvamento do disjuntor, o arco poderá restabelecer-se, agravando a sobretensão
resultante.
A TTR dependerá sempre do tipo de defeito, da localização do mesmo e do tipo de circuito. Na
Figura 2.17 ilustram-se as diferentes formas de onda daquela sobretensão para diferentes tipos de
circuito, sob condições normais de funcionamento, quando a corrente é interrompida no instante
em que se anula (situação mais favorável).

Figura 2.17: Tensão transitória de restabelecimento em função de diferentes tipos de carga (adap-
tado de [25]).

De referir que a forma de onda da TTR num circuito indutivo será sempre influenciada pela
capacidade inerente a esse mesmo circuito (presente, por exemplo, em cabos), situação que é
apresentada na Figura 2.17b. O elemento capacitivo interage com o elemento indutivo, originando
uma transferência de energia entre os campos elétrico e magnético. Esta transferência existe pois
a indutância resiste à variação da corrente gerando uma tensão aos seus terminais. Por sua vez, a
capacidade resiste à variação da tensão produzindo uma corrente. A capacidade procura manter a
tensão da indutância constante, variando a corrente que por ela circula, enquanto que a indutância
tenta manter uma corrente constante na capacidade, variando a tensão aos seus terminais. Neste
processo, há uma transferência de energia entre os dois elementos.
2.2 Sobretensões com Origem em Manobras de Interrupção 21

Constata-se, a partir da Figura 2.17, que, no caso de um circuito puramente resistivo, a TTR
que resulta da eliminação da corrente quando esta se anula é igual à tensão (e frequência) da
rede. No caso de um circuito indutivo (com a presença de uma capacidade) no qual a corrente foi
interrompida no instante em que se anula, a TTR apresenta-se com uma frequência elevada e o
seu valor de pico pode ir até 2 p.u. Quando se considera um circuito puramente capacitivo, a TTR
apresenta-se com uma forma exponencial, podendo o seu valor de pico atingir 2 p.u.
As formas de onda da TTR aos terminais de um disjuntor são, usualmente, classificadas em
três tipos: oscilatórias, exponenciais e triangulares. Estas encontram-se ilustradas na Figura 2.18.

Figura 2.18: Diferentes formas de onda da tensão transitória de restabelecimento (fonte: [31]).

A onda oscilatória (ou sub-amortecida) ocorre, geralmente, quando uma corrente de curto-
circuito é limitada pela presença de um transformador e a linha (ou cabo) que o alimenta não
possui uma impedância característica, pelo que a onda não é amortecida; a onda exponencial (ou
sobre-amortecida) surge na eliminação de defeitos aos terminais do disjuntor quando uma ou mais
linhas se encontram no lado oposto ao do defeito; a onda triangular encontra-se relacionada com
situações de defeito que ocorrem próximo do disjuntor, mas não aos seus terminais.

2.2.2.2 Determinação do Valor Máximo e Taxa de Crescimento da Tensão Transitória de


Restabelecimento

Como referido anteriormente, a TTR é dada pela diferença entre o valor de tensão que provém
da fonte e o que se verifica do lado da carga. Na Secção 2.2.1.2 introduziu-se a Expressão 2.13
com vista ao cálculo da tensão máxima do lado da carga. Seguidamente, proceder-se-á à determi-
nação do valor máximo e da taxa de crescimento da TTR. Para o efeito, considere-se o circuito da
Figura 2.19 no qual R1 , L1 e C1 representam, respetivamente, a resistência, a indutância e a capaci-
dade distribuídas de uma linha, aqui representadas sob a forma de parâmetros concentrados. Após
a ocorrência de um curto-circuito no ponto P, o circuito foi interrompido pela abertura do disjuntor
D. Tendo como ponto de partida o facto de a tensão aos terminais da capacidade (VC1 ) ser igual
à que se verifica aos terminais do disjuntor (VD ) após a abertura do mesmo (pois o curto-circuito
impõe uma tensão nula no terminal do lado da carga), e resolvendo as equações do circuito em
ordem a essa tensão (ver demonstração em [27]), a expressão final resulta na 2.15. Através desta
expressão, constata-se que a TTR (ou VD ) possui uma componente exponencial (transitória) e uma
componente à frequência industrial.
22 Transitórios Eletromagnéticos e Sobretensões de Manobra em Transformadores de Potência

Figura 2.19: Circuito RLC para análise da tensão transitória de restabelecimento, com manobra
de disjuntor após curto-circuito.

" #

r  ω 2
n
VD (t) = VC1 (t) = 2VS sinϕ cosθ − cos2 θ + sin2 θ e−αt cos (ωnt − γ) [V] (2.15)
ω

onde:

VS = valoreficaz
 da tensão de serviço da rede
ωL1
ϕ = atan R1
ω = 2π f
p
ωn = ω p 2 − α 2
ωp = √1
L1C1
R1
α= 2L1
ωn

γ = atan ω tanθ

No caso de a interrupção da corrente se dar no preciso instante em que esta se anula (θ = 0) a


expressão 2.15 simplifica-se para:


2sinϕ 1 − e−αt cos ωnt

VD (t) = [V] (2.16)

Ignorando o amortecimento das oscilações (α = 0), a máxima tensão aos terminais do disjuntor
será dada por:


VD max = 2 2VS sinϕ [V] (2.17)

Visto a corrente de curto-circuito que se verifica em redes de alta e muito alta tensão possuir
uma componente indutiva predominante, tem-se, no caso limite em que cosφ = 0:


VD max = 2 2VS [V] (2.18)
2.2 Sobretensões com Origem em Manobras de Interrupção 23

Conforme o exposto na Secção 2.2.1.2, sob determinadas condições, a corrente pode ser eli-
minada prematuramente. Nesses casos, considerando um corte com corrente máxima (θ = π2 ),
desprezando o amortecimento e supondo um circuito puramente indutivo, a máxima tensão aos
terminais do disjuntor será dada por:

√ ωn
VD max = 2VS [V] (2.19)
ω
Visto a frequência própria de um circuito (ωn ) ser da ordem das dezenas de kHz para redes de
alta tensão, a sobretensão é, no caso da interrupção não-ideal, substancialmente superior àquela
que se verifica com uma interrupção ideal.
Conclui-se, assim, que no caso em que a interrupção é ideal, o valor máximo da sobretensão
corresponde ao dobro do valor de pico da tensão da rede (ver expressão 2.18). Quando a inter-
rupção não é ideal, esse valor será consideravelmente mais elevado (ver expressão 2.19). Importa,
no entanto, referir que estes valores máximos teóricos nunca serão, na prática, atingidos, devido à
presença de amortecimento nos circuitos.
Os dois casos extremos são evidenciados na Figura 2.20.

(a) Corte com corrente nula.


(b) Corte com corrente máxima.

Figura 2.20: Tensão transitória de restabelecimento para diferentes fases (θ = 0 e θ = π/2) da


corrente interrompida (fonte: [27]).

Para além do valor de pico, outro parâmetro cujo conhecimento se revela fundamental é o
da taxa de crescimento da TTR. De facto, a resistência do arco não aumenta instantaneamente à
passagem da corrente por zero, mas sim exponencialmente, com uma determinada constante de
tempo. O corte ficará tanto mais facilitado quanto mais lento for o crescimento da TTR.
A taxa de crescimento da TTR é dada pela sua derivada, a qual, desprezando o amortecimento
e considerando cosφ = 0, possui um valor máximo teórico dado pela expressão 2.20.

√ √
 
dVD
= 2VS ω p = 2Zc Iω p [V.s-1 ] (2.20)
dt max

Onde Zc é a q
impedância característica da linha/cabo cujo valor é dado, para uma linha/cabo
sem perdas, por CL11 , e I a corrente que por ela circula.
24 Transitórios Eletromagnéticos e Sobretensões de Manobra em Transformadores de Potência

A impedância característica de um cabo é cerca de dez vezes inferior à impedância caracterís-


tica de uma linha. Por este motivo, a taxa de crescimento da TTR será consideravelmente maior
nas linhas aéreas do que nos cabos subterrâneos [7]. Constata-se, igualmente, que a taxa de cres-
cimento da TTR é proporcional à frequência própria da rede. Quanto maior for esta última (ou
seja, quanto menores forem os valores de L1 e C1 ), mais rapidamente se atingirá o valor máximo
da sobretensão e maior será a probabilidade de restabelecimento do arco.
Na Figura 2.21 ilustram-se dois exemplos de curvas da TTR.

Figura 2.21: Tensão transitória de restabelecimento com diferentes taxas de crescimento.

No primeiro exemplo, designado por TTR1, a taxa de crescimento é muito elevada, levando
a que a sobretensão ultrapasse a tensão de escorvamento do disjuntor (Ve ), conduzindo ao rea-
cendimento do arco. No segundo exemplo, designado por TTR2, apesar de o valor máximo da
sobretensão ser superior ao primeiro, a sua taxa de crescimento é inferior, conseguindo realizar-se
a interrupção definitiva da corrente.
A tensão de escorvamento está diretamente relacionada com o tipo de disjuntor. Tipicamente,
esta apresenta um aumento rápido nos instantes iniciais, seguido de uma zona de saturação que
corresponde ao afastamento máximo dos contactos e à desionização máxima do meio isolante.

2.2.2.3 Reacendimento do Arco Elétrico

O reacendimento do arco elétrico é um fenómeno que se verifica quando a tensão de escor-


vamento do disjuntor não é suficiente para suster a elevada taxa de crescimento da TTR. Sob
determinadas condições, aquele pode conduzir a uma nova sobretensão e a sucessivos reacendi-
mentos. De referir que os efeitos do reacendimento dependem não apenas do tipo de disjuntor,
mas também da rede na qual se encontram inseridos [32].
O aparecimento de uma nova sobretensão verifica-se quando o curto espaço de tempo que
decorre entre o reacendimento e a nova tentativa de interrupção, não é suficiente para que o afas-
tamento dos contactos que se verificou consiga suster a nova TTR. Como consequência, aparece
uma nova sobretensão. O movimento dos contactos durante o intervalo de tempo compreendido
2.2 Sobretensões com Origem em Manobras de Interrupção 25

entre os dois reacendimentos conduz, de facto, a um afastamento superior ao anterior. Assim,


pode-se concluir que a nova sobretensão será mais elevada que a anterior.
Este processo poderá repetir-se, com um conjunto de reacendimentos sucessivos a acontece-
rem através de um afastamento de contactos cada vez maior e com valores de energia magnética
acumulada progressivamente superiores. Como resultado, a amplitude da sobretensão irá aumen-
tar.
Na Figura 2.22 ilustra-se um exemplo de tentativa de corte no qual ocorreram reacendimentos
do arco e sucessivos aumentos da sobretensão, não tendo o disjuntor sido capaz de realizar o corte
efetivo da corrente.

Figura 2.22: Reacendimento do arco elétrico (fonte: [2])

Todos os tipos de disjuntor poderão, sob determinadas condições, conduzir a um reacendi-


mento do arco e este, por sua vez, poderá surgir para uma gama de tensões muito variada. A
ocorrência destes fenómenos, incluindo a sua magnitude, quantidade e frequência entre reacendi-
mentos, encontra-se estatisticamente dispersa [33].

2.2.2.4 Influência da Distância entre Disjuntor e Ponto de Defeito

O valor máximo e a taxa de crescimento da TTR determinados na Secção 2.2.2.2 referem-


se a um curto-circuito próximo do disjuntor (defeito terminal). No caso de o curto-circuito se
dar perto da subestação onde está instalado o disjuntor, aproximadamente a um quilómetro, as
solicitações impostas ao disjuntor pela corrente de curto-circuito são agravadas pela elevada taxa
de crescimento da TTR (resultante do aparecimento de ondas eletromagnéticas que se propagam
entre o disjuntor e o ponto de defeito) e pelo facto de esta aumentar com a intensidade da corrente.
26 Transitórios Eletromagnéticos e Sobretensões de Manobra em Transformadores de Potência

A diferença entre as sobretensões originadas pelos dois tipos de defeito referidos (defeito ter-
minal e defeito quilométrico) reside no facto de a impedância da linha limitar o valor da corrente.
Quanto mais afastado do disjuntor se der o defeito, maior será a influência da impedância da linha
na limitação da corrente e maior será a fração de tensão suportada pela linha. Assim, a tensão de
defeito divide-se pelos dois terminais do disjuntor em valores proporcionais aos da impedância da
fonte de tensão e da linha [7].
A Figura 2.23 ilustra um curto-circuito a uma distância ` da subestação.

(a) Circuito equivalente. (b) Perfil da tensão ao longo da linha.

Figura 2.23: Defeito quilométrico (fonte: [27]).

Verifica-se, através da Figura 2.23b, que o valor máximo da tensão regista-se na extremidade
do disjuntor e diminui de forma linear, ao longo da linha, até ao ponto de defeito. Como já referido
na Secção 2.2.2.1, as sobretensões propagam-se ao longo da linha e refletem-se quando encontram
uma descontinuidade (circuito aberto ou curto-circuito, por exemplo).
No circuito em análise, devido ao facto de não se estar perante um defeito terminal, a onda de
sobretensão terá um formato aproximadamente triangular (ver Figura 2.18). Esta onda encontrará,
numa das direções, um circuito interrompido pela abertura do disjuntor e, na outra direção, o
curto-circuito. Desta forma, as ondas irão refletir-se, interferindo com as ondas iniciais.
Conforme demonstrado em [27], o valor máximo da tensão no polo Q do disjuntor (VL ) é:

√ √ XL
VLmax = 2XL IL = 2V [V] (2.21)
Xs + XL
V
onde XL = ωL` e IL = Xs +XL .
A derivada de VL em ordem ao tempo é dada por:

√ √
  r
dVL L
= − 2IL ω = − 2IL ωZ0 [V.s-1 ] (2.22)
dt t=0 C
onde L e C representam, respetivamente, a indutância e a capacidade da linha por unidade de
comprimento, e Z0 a impedância característica da onda.
Relativamente à tensão no polo P do disjuntor, esta é igual a VLmax (desprezando a queda de
tensão do arco) no instante de extinção do arco, aumentando posteriormente até VSmax . A expressão
2.2 Sobretensões com Origem em Manobras de Interrupção 27

analítica de vs , ignorando o amortecimento, resulta em:

√ √
vs (t) = 2V − ( 2V −VLmax )cosω pt [V] (2.23)

O seu valor máximo verifica-se para ω pt = π:

√ √
VSmax = 2V + ( 2V −VLmax )
√ (2.24)
 
IL
= 2V 1 + [V]
Icc

Considerando a tensão aos terminais do disjuntor (vr ) como a diferença entre a tensão da rede
e a tensão do lado da carga (vr = vs − vL ), é possível verificar, a partir da Figura 2.24, que o
defeito quilométrico, devido à elevada taxa de crescimento da TTR a que dá origem, constitui uma
solicitação severa para o disjuntor.

Figura 2.24: Tensão transitória de restabelecimento perante um defeito quilométrico (fonte: [27]).

Evidencia-se, assim, o problema criado por um defeito quilométrico. Apesar de o valor má-
ximo inicial da TTR (VT ) não ser muito elevado (de facto, este é inferior a VSmax ), a sua taxa de
crescimento é muito acentuada, o que poderá fazer com que, caso esse valor ultrapasse a tensão
de escorvamento do disjuntor, este não consiga realizar o corte efetivo da corrente.
É, agora, possível, avaliar a influência do comprimento da linha na taxa de crescimento e
no valor máximo da TTR. Relativamente à tensão vs , apenas o seu valor máximo depende do
comprimento da linha, mantendo-se a sua frequência inalterada. Quanto à tensão vL , esta depende
do comprimento da linha, tanto em amplitude como em frequência. A taxa de crescimento inicial
da tensão vL é proporcional à impedância característica Z0 e à corrente de curto-circuito IL (ver
Expressão 2.22). Quanto menor for o comprimento `, maior será a corrente de curto-circuito e,
consequentemente, a taxa de crescimento da tensão. Por outro lado, com o decréscimo de `, a
amplitude da tensão também diminui (ver Expressão 2.21).
A variação inicial da TTR encontra-se, assim, fortemente dependente da distância entre o
disjuntor e o ponto de defeito. A Figura 2.25 é ilustrativa deste facto.
28 Transitórios Eletromagnéticos e Sobretensões de Manobra em Transformadores de Potência

Figura 2.25: Variação da taxa de crescimento inicial da TTR com a distância entre disjuntor e
ponto de defeito (fonte: [7]).

2.2.2.5 Tensão Transitória de Restabelecimento de Frequência Dupla

Por diversas vezes, aquando da interrupção de um circuito, estabelecem-se na rede dois regi-
mes transitórios com frequências próprias distintas, o que resulta na deformação da curva da TTR.
O circuito apresentado na Figura 2.26 é ilustrativo desse fenómeno.

Figura 2.26: Circuito LC para análise da tensão transitória de restabelecimento de frequência


dupla, com manobra de disjuntor.

Nos instantes prévios à separação dos contactos do disjuntor, a tensão encontra-se dividida de
forma proporcional às indutâncias, isto é, a tensão aos terminais das capacidades será, aproxima-
damente, dada por:

L2
VS [V] (2.25)
L1 + L2
Como L2 é, geralmente, bastante superior a L1 , as capacidades ficarão carregadas com uma
tensão próxima da tensão do sistema (VS ). Após a separação dos contactos do disjuntor, o circuito
do lado da fonte e o circuito do lado da carga ficam isolados entre si. Com efeito, instantes
depois de a corrente se anular, a capacidade C2 irá descarregar através da indutância L2 com uma
frequência própria:

1
ω2 = √ [rad.s-1 ] (2.26)
L2C2
2.2 Sobretensões com Origem em Manobras de Interrupção 29

Do lado da fonte, a capacidade C1 irá descarregar através da indutância L1 com uma frequência
própria:

1
ω1 = √ [rad.s-1 ] (2.27)
L1C1

As sobretensões que se verificam no lado da fonte e no lado da carga encontram-se representa-


das na Figura 2.27. A tensão aos terminais do disjuntor corresponderá à diferença entre estas duas
tensões. A forma de onda resultante é apresentada na Figura 2.28.

(a) A montante do disjuntor (rede). (b) A jusante do disjuntor (carga).

Figura 2.27: Tensão transitória de restabelecimento de frequência dupla (fonte: [34]).

Figura 2.28: Tensão transitória de restabelecimento de frequência dupla, estabelecida entre os


contactos do disjuntor (fonte: [34]).
30 Transitórios Eletromagnéticos e Sobretensões de Manobra em Transformadores de Potência

2.2.3 Defeito Consecutivo

O defeito consecutivo (ou evolutivo) é caracterizado por uma modificação da corrente durante
o processo de interrupção. Tal defeito pode surgir, por exemplo, nas seguintes condições [27]:

• Evolução de um defeito fase-terra para um defeito fase-fase, perto do fim do período de


interrupção;

• Ocorrência de descargas atmosféricas múltiplas, em que o contornamento de um isolador


- cuja corrente de curto-circuito associada é eliminada pelo disjuntor - é imediatamente
seguido por outro. O corte da nova corrente de curto-circuito apresenta, para o disjuntor,
dificuldades acrescidas, pois esta estabelece-se subitamente quando os contactos já estão
afastados.

Um outro caso típico de defeito consecutivo encontra-se representado na Figura 2.21.

Figura 2.29: Circuito simplificado de transformador protegido por um descarregador de sobre-


tensões.

Neste, o transformador encontra-se protegido contra sobretensões por um descarregador de so-


bretensões (DST), regulado para um valor demasiado baixo da respetiva tensão de escorvamento.
A abertura do disjuntor para a retirada de serviço do transformador, pode dar origem a uma so-
bretensão de manobra que o DST não consiga sustentar, provocando a circulação de uma corrente
de curto-circuito quando o disjuntor se encontra a terminar a operação de corte da corrente de
magnetização do transformador.
A Figura 2.30 representa a corrente e tensões associadas a este fenómeno.
No caso de não haver escorvamento, aplicam-se as curvas a tracejado. Porém, se se der o
escorvamento quando a tensão VT atingir o valor V1 , a capacidade do transformador descarrega-se
sobre o DST, com uma oscilação de frequência elevada. A tensão aos terminais do disjuntor (VD )
atinge, assim, o valor de pico V2 , podendo dar origem a duas situações:

• O disjuntor possui capacidade para suportar este valor de tensão e realizar o corte efetivo da
corrente;
2.2 Sobretensões com Origem em Manobras de Interrupção 31

Figura 2.30: Defeito consecutivo: corrente; tensão aos terminais do disjuntor; tensão aos termi-
nais do transformador (fonte: [27]).

• O disjuntor não possui capacidade para suportar este valor de tensão (situação evidenciada a
traço contínuo), o arco reacende-se e reinicia-se a corrente de curto-circuito, que o disjuntor
terá de cortar posteriormente.

A gravidade desta situação prende-se com o facto de o arco no disjuntor formar-se com os
contactos já abertos, ao contrário de uma situação dita “normal” na qual o arco se forma com a
abertura dos contactos [7].

2.2.4 Sobretensões em Sistemas Trifásicos de Corrente Alternada

A consideração de sistemas trifásicos de corrente alternada na determinação de sobretensões,


ao invés da sua representação numa única fase, é, de forma geral, mais complexa. Esta comple-
xidade advém não apenas da proliferação de componentes e ramos introduzidos pelas restantes
fases, mas também pelo facto de, por vezes, ser necessário considerar-se o acoplamento mútuo
entre fases.
Existem dois métodos para determinação de transitórios em circuitos trifásicos. O primeiro
consiste numa extensão da abordagem monofásica; o segundo passa pelo uso do método das com-
ponentes simétricas. Devido à dificuldade acrescida introduzida pelo último, é vulgar optar-se
pelo primeiro [34].
Na análise de transitórios em sistemas trifásicos terá de se ter sempre em consideração o
regime de neutro presente. Este poderá estar isolado, ligado diretamente à terra ou ligado à terra
através de uma impedância (usualmente, utiliza-se uma bobine de Petterson).
32 Transitórios Eletromagnéticos e Sobretensões de Manobra em Transformadores de Potência

No caso de o neutro se encontrar ligado diretamente à terra, as três fases serão independen-
tes entre si e, após a abertura de um disjuntor, comportar-se-ão como três circuitos monofásicos
distintos. Assim, serão válidas as expressões para a obtenção da tensão na carga e da TTR, in-
troduzidas nas Secções 2.2.1 e 2.2.2, respetivamente. Quando o neutro se encontrar isolado ou
ligado à terra através de uma impedância, aquela situação já não se verifica. Devido à natureza
equilibrada da carga, em regime estacionário, o seu neutro irá possuir um potencial próximo do
neutro da fonte. No entanto, quando ocorre uma manobra e estamos perante um regime de neutro
isolado ou ligado à terra através de uma impedância, aquela situação altera-se rapidamente.
Num sistema trifásico, a interrupção da corrente pelo disjuntor não acontece nas três fases
de forma simultânea, visto estas estarem desfasadas de 120o . Assim, apenas uma das fases será
interrompida em primeiro lugar. Quando tal sucede, a limitação imposta ao neutro da carga pelo
seu regime de funcionamento equilibrado deixará de existir. Com efeito, o neutro da carga tenderá
a deslocar-se para um potencial intermédio ao das duas fases que ainda se mantêm ligadas à fonte.
O circuito da Figura 2.31 possui o neutro isolado da terra e representa o instante em que o
disjuntor ainda só interrompeu uma das fases. A Figura 2.32, por sua vez, representa o diagrama
fasorial de tensões antes da interrupção da corrente.

Figura 2.31: Circuito equivalente para análise


da tensão de restabelecimento no 1o polo do dis-
juntor. Figura 2.32: Diagrama de tensões para o cir-
cuito equivalente da Figura 2.31.

A tensão aos terminais do 1o polo do disjuntor (D1 ) é dada pela expressão 2.28.

VD1 = V1 −V2 + ZI [V] (2.28)

Visto o neutro não estar ligado à terra, após a abertura do primeiro polo do disjuntor, o 2o e 3o
polos ficarão em série e, por isso, serão percorridos pela mesma corrente I. O seu valor eficaz é
obtido pela expressão 2.29.

V2 −V3
I= [A] (2.29)
2Z
2.3 Técnicas de Mitigação de Sobretensões de Manobra em Transformadores de Potência 33

Substituindo 2.29 em 2.28, obtém-se a expressão 2.30.

V2 +V3
VD1 = V1 − [V] (2.30)
2
V2 +V3
Pela Figura 2.32, depreende-se que 2 = − V21 . Assim, a tensão VD1 resultará agora na
expressão 2.31.

VD1 = 1.5V1 [V] (2.31)

A primeira fase a cortar terá, portanto, uma tensão de restabelecimento (tensão do sistema que
se verifica após a extinção da componente transitória da TTR) igual a 1,5 vezes a tensão fase-neutro
enquanto as restantes não cortarem, salvo se, quer o neutro do sistema quer o local de defeito,
estiverem ligados à terra por uma impedância nula, caso em que a tensão de restabelecimento é
igual à tensão fase-neutro (como num circuito monofásico). Esta relação designa-se por fator do
primeiro polo, o qual se traduz pela razão entre a tensão aos terminais do primeiro polo a abrir e a
tensão aos terminais de cada polo (iguais) findo o processo de interrupção da corrente [7].
Na prática, a impedância de ligação à terra nunca será nula, pelo que se admite que o valor da
tensão de restabelecimento se situará entre 1,3 a 1,5 vezes a tensão por fase [27].
Apesar de se ter evidenciado que os regimes de neutro possuem determinadas particularidades
que possibilitam uma distinção dos seus efeitos no processo de corte (no caso, constatou-se que
existe uma diferença considerável entre o regime de neutro ligado à terra e os restantes), realça-se
que, não obstante os efeitos aquando da utilização de um regime de neutro serem superiores aos
outros, todos os casos terão a sua importância pois, como se verificou em secções anteriores, os
fenómenos de elevada frequência são maioritariamente influenciados pelas capacidades à terra e
pelas indutâncias, não pelo regime de neutro [33].

2.3 Técnicas de Mitigação de Sobretensões de Manobra em Trans-


formadores de Potência
Existem várias técnicas que possibilitam uma redução do valor máximo de uma sobretensão
transitória que atinge os terminais de um transformador. Como na maioria das aplicações de
engenharia, os custos envolvidos e os níveis de desempenho requeridos constituem fatores condi-
cionantes no processo de decisão com vista à seleção da técnica mais adequada.
No que concerne aos transformadores para médias e altas tensões, a solução convencional para
mitigação dos efeitos das sobretensões com origem em descargas atmosféricas consiste na intro-
dução de um DST aos terminais de alta tensão do transformador. Esta solução apenas permite um
nível de proteção básico, limitando em amplitude os valores de sobretensão e não surtindo nenhum
efeito na redução da sua frequência [2]. Atualmente, a solução que tem demonstrado ser a mais
robusta e economicamente viável para mitigação dos efeitos das sobretensões de manobra con-
siste na introdução de um circuito RC de amortecimento, designado por RC-Snubber na literatura
anglo-saxónica.
34 Transitórios Eletromagnéticos e Sobretensões de Manobra em Transformadores de Potência

Apresenta-se, na Figura 2.33, um circuito exemplificativo da sua ligação a um transformador.


Este circuito é constituído por um elemento capacitivo e por um elemento resistivo ligados em
série, protegidos por um fusível.

(a) Esquema do circuito. (b) Montagem num transformador (fonte: [2]).

Figura 2.33: Circuito RC de amortecimento.

O condensador tem como principal objetivo a diminuição do gradiente da TTR do lado da


carga, por forma a que a probabilidade de reacendimentos no disjuntor seja também reduzida. A
vantagem para o transformador prende-se com a diminuição da frequência da sobretensão aplicada
aos seus terminais. Caso a frequência modificada seja muito inferior à frequência de ressonância
do transformador, o problema da amplificação interna das sobretensões ficará definitivamente so-
lucionado. A gama de valores de capacidade mais frequentemente utilizadas situa-se entre os 0,10
µF e os 0,50 µF [35]. Contudo, o valor exato a utilizar para um determinado transformador, de-
verá ser calculado com base na sua frequência de ressonância e nos parâmetros do sistema. Uma
solução de compromisso consistirá na diminuição da frequência da TTR para um valor inferior
à primeira frequência natural do transformador. Uma redução superior não conduzirá a nenhuma
vantagem, de um ponto de vista prático, e irá aumentar os custos finais da solução.

A introdução da resistência possibilita, pelo fator de amortecimento que introduz no circuito,


uma diminuição da amplitude da sobretensão e do valor da sobreintensidade durante o processo
de ligação. O valor desta resistência deverá estar compreendido entre 5 Ω e 25 Ω [35]. Se o valor
da resistência for demasiado baixo, a amplitude da sobretensão poderá ser superior aos limites
para os quais o disjuntor garante proteção. Por outro lado, se o valor da resistência se revelar
excessivo, a sobretensão será amortecida, no entanto, as perdas por efeito de Joule no circuito
serão superiores. Existe, por isso, a necessidade de se encontrar uma solução de compromisso
entre o fator de amplitude da sobretensão e as perdas no circuito.

Apesar das vantagens inerentes ao circuito RC anteriormente referidas, é aconselhável a utili-


zação deste em combinação com um DST [33].
2.4 Resumo 35

2.4 Resumo
No Capítulo 2 foram introduzidos diferentes tipos de fenómenos transitórios relacionados com
transformadores de potência e as técnicas utilizadas para os mitigar. Aqueles fenómenos foram
divididos em transitórios decorrentes de manobras de ligação e sobretensões com origem em ma-
nobras de interrupção.
No que concerne aos transitórios decorrentes de manobras de ligação, verificou-se que, aquando
da ligação dos transformadores, o aparecimento da sobreintensidade é inevitável. Esta é caracte-
rizada por possuir uma magnitude inicial elevada, seguida de um decaimento exponencial, atin-
gindo, ao fim de alguns segundos, o valor da corrente em vazio do transformador. A ligação
dos transformadores pode, também, conduzir a fenómenos de ferroressonância, caso determina-
das condições se propiciem. A ferroressonância poderá resultar no aparecimento de tensões e
correntes no transformador, muito superiores às estipuladas.
As sobretensões com origem em manobras de ligação resultam, na sua maioria, da interrupção
prematura da corrente. Aquelas serão tanto maiores quanto maior for o valor de corrente supri-
mida. Para além disso, caso o valor da tensão transitória de restabelecimento aos terminais do
disjuntor seja superior à sua tensão de escorvamento, o arco elétrico reacender-se-á, dando origem
a uma nova sobretensão que irá atingir o transformador.
As técnicas de mitigação das sobretensões de manobra que atingem os transformadores, restringem-
se à utilização de descarregadores de sobretensões e de circuitos RC de amortecimento. Nestes, a
resistência é a principal responsável pela atenuação da amplitude da sobretensão, enquanto que a
capacidade permite uma diminuição da taxa de crescimento da sobretensão.
36 Transitórios Eletromagnéticos e Sobretensões de Manobra em Transformadores de Potência
Capítulo 3

Modelização e Simulação de Fenómenos


Transitórios em Transformadores de
Potência

A realização de uma análise de transitórios válida e que conduza a resultados realistas, exige a
adoção de modelos de componentes adequados. Dependendo do caso de estudo, os modelos terão
de estar preparados para processar informação e produzir resultados compreendidos numa vasta
gama de frequências. Na Tabela 3.1 encontra-se um resumo dos diferentes eventos suscetíveis de
originarem fenómenos transitórios e a gama de frequências associadas a cada um:

Tabela 3.1: Gama de frequências associadas a diferentes eventos que conduzem a fenómenos
transitórios (fonte: [36]).

Evento Gama de Frequências


Ferroressonância 0.1 Hz a 1 kHz
Rejeição de Carga 0.1 Hz a 3 kHz
Eliminação de Curto-Circuitos 50 Hz a 3 kHz
Manobras em Linhas/Cabos 50 Hz a 20 kHz
Tensão Transitória de Restabelecimento 50 Hz a 100 kHz
Descargas Atmosféricas 10 kHz a 3 MHz
Manobras em Subestações GIS 100 kHz a 50 MHz

O nível de detalhe exigido para cada modelo varia com o caso de estudo. Por exemplo, uma
linha poderá ser modelizada através do seu esquema equivalente em π em alguns estudos rela-
cionados com a energização de linhas [8]; noutros casos, poderá ser necessário um modelo de
parâmetros concentrados dependente da frequência. Para além disso, os resultados encontram-
se estreitamente dependentes do valor de determinados parâmetros; por exemplo, a sobretensão
originada pela energização de uma linha dependerá do ponto exato onde aquela se encontrar na
sua forma de onda, para esse instante. Assim, terão de ser executadas várias simulações para o
mesmo sistema, com diferentes instantes de energização, quer de um modo previsível (no caso de

37
38 Modelização e Simulação de Fenómenos Transitórios em Transformadores de Potência

se pretender obter o valor da sobretensão máxima) ou estatístico (para se obter a distribuição de


probabilidade da sobretensão).
Apesar de o principal objetivo na área de investigação ser o desenvolvimento de modelos que
contemplem uma vasta gama de frequências, para a maioria dos componentes tal não é possível.
Em alguns casos, mesmo que aquelas versões completas existam, a sua utilização em aplicações
de simulação requer capacidades de processamento computacional muito avançadas, tornando-os
inviáveis.
Atualmente, a modelização dos componentes de um sistema elétrico de energia, atendendo
à dependência que os parâmetros possuem na frequência, pode ser alcançada através de modelos
matemáticos específicos para um determinado conjunto de frequências. Cada conjunto de frequên-
cias está associado a um determinado evento/fenómeno transitório (ver Tabela 3.1). A simulação
de um fenómeno transitório implica, não apenas uma escolha adequada dos modelos dos compo-
nentes, mas também a seleção da área do sistema que deverá ser representada e, em alguns casos,
o método (determinístico ou probabilístico) a ser utilizado [36].
No presente capítulo, a temática da modelização será detalhada, aprofundando-se aspetos rela-
cionados com a modelização de linhas aéreas, cabos subterrâneos, disjuntores e transformadores.
Posteriormente, serão introduzidos conceitos inerentes à simulação computacional de fenómenos
transitórios.

3.1 Modelização de Linhas Aéreas e de Cabos Subterrâneos

A representação mais adequada de uma linha aérea ou cabo subterrâneo é a baseada em mo-
delos de parâmetros distribuídos. Os modelos de parâmetros concentrados (como o modelo em π
já referido anteriormente, ou o modelo em T) são menos precisos que os anteriores e computacio-
nalmente mais exigentes, pois torna-se necessária uma interligação de vários destes modelos para
se conseguir realizar uma aproximação válida à natureza distribuída de uma linha ou cabo.
A dependência que os parâmetros de uma linha/cabo possuem em relação à frequência po-
derá ser um fator importante na adoção de um modelo, particularmente se a análise a realizar
envolver correntes de ligação à terra (curto-circuito fase-terra, por exemplo). Nestes casos, um
modelo de parâmetros distribuídos dependente da frequência permitirá uma representação muito
aproximada da linha/cabo perante diversos fenómenos transitórios, compreendidos numa ampla
gama de frequências. Os parâmetros deste modelo serão obtidos através de informações relativas
à geometria dos condutores, do meio físico que os envolve, entre outros.
A utilização de modelos em π encontra-se restrita a casos em que as linhas/cabos possuem um
comprimento reduzido e onde as variações da tensão ou corrente são lentas, quando comparadas
com os tempos de propagação [7]. No entanto, através da utilização em cascata de vários modelos
em π conseguir-se-á obter resultados sem perda expressiva de precisão. Geralmente, quanto maior
for o número de modelos em π no circuito, maior será a precisão.
3.2 Modelização de Disjuntores com Tecnologia de Isolamento a Gás 39

3.2 Modelização de Disjuntores com Tecnologia de Isolamento a Gás

A modelização de disjuntores (ou do arco elétrico) é essencial para a análise de operações de


manobra em circuitos. Os objetivos principais do modelo de um disjuntor são [37]:

• Do ponto de vista do sistema, determinar todas as tensões e correntes que são produzidas
dentro do próprio sistema, como resultado da ação do disjuntor;

• Do ponto de vista do disjuntor, avaliar se este será bem-sucedido quando for chamado a
atuar num determinado sistema, sob um conjunto específico de características.

Apesar de existirem diversos modelos propostos, desde modelos clássicos até modelos basea-
dos em algoritmos genéticos (ver [38–44]), nenhum deles considera todo o conjunto de fenómenos
físicos que caracterizam um disjuntor.
Os modelos existentes podem ser divididos nas seguintes categorias [25]:

• Modelos Físicos: consideram todos os fenómenos físicos em detalhe, ou seja, o modelo é


determinado a partir das leis de conservação da energia, propriedades dos meios gasosos e
do plasma, e mecanismos de transferência de energia;

• Modelos Caixa-Negra: estes consideram o arco como um dipolo, o qual é caracterizado


por uma função de transferência;

• Modelos de Fórmulas e Diagramas: são uma combinação dos dois modelos anteriores,
complementados com um conjunto de dados obtidos empiricamente.

Destes, a representação mais adequada em aplicações computacionais de simulação de tran-


sitórios é a do Modelo Caixa-Negra [45, 46]. Este modelo procura descrever a interação entre o
disjuntor e o circuito em que este se insere, durante o processo de interrupção. Os modelos Caixa-
Negra são expressos matematicamente através de uma (ou mais) equações diferenciais. Estas
incluem uma resistência (ou condutância) variável, em função de parâmetros mensuráveis como a
corrente do arco, tensão do arco e outras propriedades variáveis no tempo.
Na sua forma genérica, a condutância do arco de um disjuntor isolado a gás é função da
potência fornecida ao canal de plasma, da potência transferida do canal de plasma através de
arrefecimento e radiação, e do tempo [30]:

iarco 1
g = F(Pentra , Psai ,t) = = [Ω−1 ] (3.1)
uarco R
com
40 Modelização e Simulação de Fenómenos Transitórios em Transformadores de Potência

g = condutância instantânea do arco


Pentra = potência fornecida ao canal de plasma
Psai = potência transferida do canal de plasma
t = tempo
iarco = corrente instantânea do arco
uarco = tensão instantânea do arco
R = resistência instantânea do arco

A condutância instantânea do arco g varia quando Pentra e Psai não se encontram em equilíbrio.
A energia acumulada no canal de plasma é dada por:

Z t
Q= (Pentra − Psai )dt (3.2)
0

A condutância instantânea do arco, é:

t
Z 
g = F(Q) = F (Pentra − Psai )dt (3.3)
0

Como estamos interessados na variação da condutância, é necessário derivar a expressão 3.3,


ficando

dg dF(Q) dQ
= (3.4)
dt dQ dt

Dividindo pela condutância instantânea:

1 dg 1 dF(Q) dQ
= (3.5)
g dt g dQ dt

Derivando a expressão 3.2, e o seu resultado substituído com a expressão 3.3, na expressão 3.5,
é possível obter-se a equação geral do arco:

d[ln(g)] F 0 Q)
= (Pentra − Psai ) (3.6)
dt F(Q)

Para resolver esta equação, têm de ser considerados alguns pressupostos. É pelos diferentes
pressupostos assumidos que surge a diferenciação entre os modelos Caixa-Negra existentes.
Como supracitado, existem vários modelos referenciados na literatura, que possuem um obje-
tivo comum - descrever o comportamento do arco - distinguindo-se nas diferentes interpretações
físicas que realizam dos parâmetros. Na sua maioria, derivam dos modelos clássicos de Cassie [47]
e Mayr [48] ou são uma combinação destes [49].
Os modelos de Cassie e de Mayr, nas suas formas diferenciais, são dados pelas seguintes
expressões [50]:
3.2 Modelização de Disjuntores com Tecnologia de Isolamento a Gás 41

• Modelo de Cassie:

 2 !  2 !
1 dgc 1 ug 1 i
= −1 = −1 (3.7)
gc dt τc U0 gc τc U0 gc

• Modelo de Mayr:

u2 g2
   2 
1 dgm 1 1 i
= −1 = −1 (3.8)
gm dt τm P0 gm τm P0 gm

onde:

u = tensão instantânea do arco


i = corrente instantânea do arco
gc = condutância instantânea do arco no modelo de Cassie
gm = condutância instantânea do arco no modelo de Mayr
τc = constante de tempo do arco no modelo de Cassie
τm = constante de tempo do arco no modelo de Mayr
U0 = tensão constante do arco
P0 = perdas em potência (regime estacionário)

O modelo de Cassie assume que o canal do arco possui uma temperatura, densidade de cor-
rente e intensidade do campo elétrico constantes. As mudanças na condutância do arco são o
resultado de alterações na secção do arco e a dissipação da energia é realizada por convecção [26].
Este modelo é útil, principalmente, para o estudo do comportamento da condutância do arco no
intervalo de tempo associado às correntes mais elevadas, quando a temperatura do plasma é igual
ou superior a 8000K [30].
O modelo de Mayr assume que existem variações na temperatura do arco, e que o tamanho e
perfil da coluna do arco são constantes. A condução térmica é o mecanismo primário de dissipação
de energia [26]. Este modelo descreve adequadamente o comportamento do arco nos instantes
próximos da corrente-zero [30].
Com a utilização combinada dos dois modelos, é possível obter-se uma representação mais
realista do arco elétrico. Isto justifica-se pelo facto de, para correntes elevadas, toda a queda de
tensão ocorrer na equação de Cassie, mas, antes da anulação da corrente, a contribuição dada pela
equação de Mayr aumentar, enquanto que a de Cassie diminui para zero. A combinação dos dois
modelos é obtida pela soma da condutância instantânea de Cassie com a de Mayr:

1 1 1
= + (3.9)
g gc gm
42 Modelização e Simulação de Fenómenos Transitórios em Transformadores de Potência

Ambos os modelos proporcionam uma descrição qualitativa do comportamento do arco, de-


vendo, no entanto, ser utilizados com prudência quando o objetivo é a realização de uma análise
quantitativa.
Estas equações foram sendo alvo de diversas modificações, as quais introduziram mais parâ-
metros ou, por outro lado, definiram as equações de uma forma mais geral, tornando os modelos
mais adaptativos [37, 49]. Apesar disso, todos os modelos mantêm a ideia base de descrever o
comportamento do arco utilizando parâmetros τ e P, com diferentes interpretações físicas.
A representação das equações do arco em programas de transitórios foi, até ao momento,
definida como sendo realizável através de uma resistência variável. No entanto, esta não é a única.
Existem representações alternativas válidas, no entanto, estas apresentam algumas limitações [25]:

• Representação através de uma fonte de tensão: este modelo encontra-se limitado a casos
em que o disjuntor se encontra entre um nó do sistema e a terra, contudo, poderá ser utilizado
caso exista a opção de se introduzir uma fonte de tensão sem ligação à terra;

• Representação através de uma fonte de corrente: este modelo pode tornar-se numerica-
mente instável caso seja iniciado num instante de corrente muito elevada;

Conclui-se, desta forma, que a representação através de uma resistência variável é a mais
eficaz, pois permite a implementação direta das equações do arco numa estrutura de controlo
associada a essa resistência.

3.3 Modelização de Transformadores de Potência


A modelização de um transformador com vista à avaliação do impacto da distribuição das so-
bretensões pelas geometrias dos seus enrolamentos, não pode ser realizada através do seu modelo
equivalente para o regime permanente. Isto deve-se ao facto de as sobretensões representarem fe-
nómenos transitórios com uma frequência muito superior à frequência industrial e aquele modelo
não proporcionar uma representação adequada nestas condições.
O desenvolvimento de uma representação aceitável do transformador, que contemple toda a
gama de frequências, é uma tarefa árdua. Para além do facto de os diferentes tipos de sobretensões
possuírem características distintas, os transformadores de potências mais elevadas têm particula-
ridades construtivas singulares e, por isso, a sua resposta a fenómenos transitórios também será
única [15]. Um modelo completo do transformador exigiria que cada espira fosse representada
e que todos os acoplamentos (indutivos e capacitivos) fossem incluídos. A manipulação de tal
modelo só poderia ser realizada por computadores com elevada capacidade de processamento.
Contudo, um modelo tão detalhado não é, na verdade, necessário, na maioria das situações [34].
Nos estudos relacionados com transitórios decorrentes de uma manobra, um modelo de parâ-
metros concentrados com acoplamento entre enrolamentos será suficiente, desde que possua um
número de elementos RLC suficientes para que a impedância se adeque à gama de frequências es-
perada [8]. A característica não-linear do núcleo deverá ser, também, incluída. Para estes estudos,
os modelos de transformador podem ser categorizados da seguinte forma:
3.4 Simulação Computacional de Fenómenos Transitórios 43

• Modelo desenvolvido a partir das características estipuladas do transformador (os mode-


los presentes nos Electromagnetic Transients Program (EMTP) recaem, geralmente, nesta
categoria);

• Modelo sintetizado a partir da relação entre impedância do transformador e frequência;

• Modelo muito detalhado, obtido a partir das geometrias do transformador e características


dos materiais que o constituem. Este modelo é, posteriormente, reduzido para um que
produza resultados no domínio dos tempos.

3.4 Simulação Computacional de Fenómenos Transitórios


A resolução manual de problemas relacionados com fenómenos transitórios é uma tarefa com-
plexa, com exceção de casos onde os circuitos são simples e o número de componentes é reduzido.
Devido à progressiva expansão das redes integradas nos sistemas elétricos de energia e ao aumento
do número de componentes, a utilização de ferramentas de simulação computacional tornou-se in-
dispensável. Estas permitem o processamento de quantidades de dados significativas, de uma
forma sistemática, e num período de tempo muito reduzido.
O comportamento de um circuito perante fenómenos transitórios pode ser expresso através de
um determinado número de equações diferenciais (elevado se a rede for extensa) que descrevem
as correntes nos ramos e as tensões nos nós. Aquelas equações têm de ser resolvidas de forma
simultânea por forma a calcular os valores de tensão e de corrente num determinado instante. Tal
pode ser feito por via da integração, algo facilmente realizável através de um computador.
Na década de 60, surgiu uma ferramenta para a resolução computacional de problemas en-
volvendo fenómenos transitórios designada de EMTP. Apesar de existirem outras aproximações a
estes problemas, o EMTP revelou ser a mais robusta e prática [34]. O método utilizado neste pro-
grama recorre à integração trapezoidal implícita para resolver, numericamente, as equações dife-
renciais que modelizam o sistema, sendo a informação relativa ao passado do sistema modelizada
por geradores de corrente fictícios, também designado por método de Dommel, em homenagem
ao seu autor [27].

3.5 Resumo
No Capítulo 3 detalharam-se aspetos relacionados com a modelização de componentes para o
estudo de fenómenos transitórios em transformadores e com a simulação de fenómenos transitó-
rios.
O nível de detalhe exigido para cada modelo de componente dependerá sempre do caso de
estudo. Por diversas vezes, uma representação simplificada do modelo será suficiente e permi-
tirá uma maior otimização de recursos computacionais. No caso dos modelos de linhas/cabos,
privilegia-se a utilização de modelos de parâmetros distribuídos em estudos relacionados com so-
bretensões de manobra. Relativamente aos disjuntores, a sua modelização deverá ser realizada,
44 Modelização e Simulação de Fenómenos Transitórios em Transformadores de Potência

preferencialmente, por uma resistência variável, sendo o valor desta determinado pela resolução
de uma (ou mais) equações diferenciais. A modelização de transformadores exige a inclusão das
suas capacidades axiais e radiais, pois estas, para frequências mais elevadas, possuem maior in-
fluência na distribuição das tensões pelo enrolamento. Para além disso, é necessário definir um
acoplamento indutivo e capacitivo.
O desenvolvimento de meios computacionais para a simulação de transitórios teve o seu apo-
geu na década de 60, com a introdução do Electromagnetic Transients Program (EMTP). A maio-
ria das ferramentas de simulação atualmente disponíveis baseiam os seus princípios de funciona-
mento no EMTP original. Os programas de simulação de transitórios permitem uma manipulação
eficaz das equações que regem os princípios de funcionamento dos circuitos elétricos. Devido ao
curto intervalo de tempo em que se registam os fenómenos transitórios, a precisão na obtenção
de resultados através deste programas é uma mais valia. A obtenção dos mesmos resultados atra-
vés de uma via manual, devido à complexidade e dimensão dos sistemas elétricos atuais, seria
incomportável.
Capítulo 4

Caso de Estudo: Falha de


Transformador Devido a Sobretensão
de Manobra

4.1 Introdução

4.1.1 Descrição do Caso de Estudo

O presente capítulo será dedicado à exploração do caso de estudo do transformador de po-


tência de uma subestação, que foi alvo de uma sobretensão após a abertura do seu disjuntor de
proteção. Este transformador possuía um curto-circuito fase-fase pré-feito no enrolamento secun-
dário (fruto de uma ligação mal efetuada) e, quando se procedeu à sua ligação, esse curto-circuito
fez atuar o disjuntor de proteção do transformador. A avaliação do transformador em fábrica per-
mitiu concluir, por inspeção dos enrolamentos e estrutura isolante, que aquele terá sido alvo de
uma sobretensão no primário muito superior àquelas para as quais se garantiu, através da realiza-
ção de ensaios normalizados, que o transformador estava preparado para resistir sem ocorrer falha
do isolamento. O Switching Impulse Level (SIL) deste transformador é de 540 kV, pelo que se
deduz que a sobretensão terá sido superior a esse valor.
Apresenta-se, na Figura 4.1, um esquema unifilar simplificado com os componentes do caso
de estudo.

Figura 4.1: Esquema unifilar simplificado com os componentes do caso de estudo.

45
46 Caso de Estudo: Falha de Transformador Devido a Sobretensão de Manobra

4.1.2 Informação Existente Relativa ao Caso de Estudo

4.1.2.1 Formas de Onda da Tensão e da Corrente a Montante do Disjuntor

Na Figura 4.2 apresenta-se a evolução das formas de onda da tensão e da corrente trifásicas
que se registaram na subestação, a montante do disjuntor, antes, durante e após o curto-circuito.
Este curto-circuito envolveu as fases A e B (cor amarela e verde, respetivamente) e ocorreu no
instante -50 ms, tendo uma duração de, aproximadamente, 75 ms, até à atuação do disjuntor.

Figura 4.2: Registos da tensão e corrente trifásicas a montante do disjuntor de proteção do trans-
formador.

Relativamente à tensão, esta possuía uma amplitude de 108 kV em todas as fases, antes da
ocorrência do defeito. Durante o curto-circuito, o seu valor diminuiu para 80 kV, tendo regressado
aos 108 kV assim que aquele foi eliminado pela abertura do disjuntor.

No que concerne à corrente, esta era nula até ao instante de fecho do disjuntor. Durante o
curto-circuito, apresentou evoluções distintas nas três fases. Na fase A, a sua amplitude manteve-
se constante com um valor de, aproximadamente, 800 A. Isto deve-se ao facto de, para esta fase,
a corrente de curto-circuito ter sido estabelecida num instante de tensão próxima do seu extremo
negativo, o que resulta numa componente contínua nula e ausência de decaimento. Nas restantes
fases, tal não se verificou. A fase B atingiu cerca de 1000 A na primeira alternância positiva,
apresentando um decaimento nas seguintes. A fase C teve uma amplitude inicial de 700 A na
alternância negativa e foi alvo de um “corte” nas alternâncias positivas.
4.1 Introdução 47

4.1.2.2 Características da Subestação

A subestação onde se encontrava o transformador possui uma tecnologia de isolamento em


SF6 . O barramento ao qual o transformador estava ligado era de 132 kV e o cabo foi curto-
circuitado a uma distância de, aproximadamente, 70 metros do transformador.

4.1.2.3 Características do Transformador

Apresentam-se, na Figura 4.3, as características estipuladas do transformador em estudo.

Figura 4.3: Características estipuladas do transformador em estudo.

Este transformador possui cinco enrolamentos - um enrolamento de Alta Tensão (AT), um


enrolamento duplo de Baixa Tensão (BT), um enrolamento Terciário (TERC) e um enrolamento de
Regulação (REG) - os quais se encontram representados através do “corte na janela” na Figura 4.4.
O enrolamento de REG encontra-se acoplado ao de AT.
Aquando da ligação do transformador, este encontrava-se na posição de tomada no 4, o que,
conforme se pode verificar pela Figura 4.3, equivale a uma tensão estipulada de 147424 V e a uma
corrente estipulada de 117,5 A.
48 Caso de Estudo: Falha de Transformador Devido a Sobretensão de Manobra

Figura 4.4: Corte na janela do transformador em estudo.

4.1.3 Metodologia Adotada para Análise ao Caso de estudo

Os elementos existentes para a definição de um ponto de partida na abordagem ao caso de


estudo resumem-se a:

• Registo de tensões e correntes a montante do disjuntor de proteção do transformador;

• Rutura do isolamento evidencia que o transformador terá sido alvo de uma sobretensão.

A partir desta informação, não é possível reproduzir de forma adequada a sequência de even-
tos e os fenómenos que conduziram ao aparecimento da sobretensão e consequente falha de iso-
lamento do transformador. Para que tal fosse possível, seria necessário dispor de elementos como
as características do disjuntor, condições da rede/subestação no instante em que ocorreu o curto-
circuito, formas de onda da tensão e corrente a jusante do disjuntor, entre outros. Assim, ao
invés de uma fundamentação exata para o aparecimento da sobretensão, irá realizar-se uma aná-
lise de sensibilidade, explorando a influência dos diferentes parâmetros do sistema na amplitude e
frequência da sobretensão aos terminais do transformador, aquando da abertura do disjuntor. Para
atender a este objetivo, definiram-se as seguintes etapas:

• Desenvolvimento e validação de modelos computacionais para representação do transfor-


mador, do disjuntor e do cabo;

• Realização da análise de sensibilidade, com recurso a simulações, por forma a evidenciar


quais as implicações dos parâmetros do sistema no grau de severidade da sobretensão;

• Realização de ensaios de manobra, envolvendo diferentes condições de funcionamento do


transformador - nomeadamente, através da aplicação de diferentes tipos de curto-circuito
aos seus terminais e da introdução de diferentes tipos de carga, a serem alimentadas em
regime permanente.
4.2 Modelização dos Componentes 49

4.2 Modelização dos Componentes

A modelização realizada nesta secção teve como suporte informático o programa de simulação
de transitórios eletromagnéticos PSCAD
R
/EMTDCTM . A opção por este programa justifica-se
pelo facto de ser uma ferramenta de simulação muito robusta e que possui uma vasta gama de
elementos úteis para representar, de forma realista, os fenómenos relacionados com o caso de
estudo.

4.2.1 Modelo do Transformador

Conforme descrito na Secção 3.3, o modelo de um transformador para altas frequências terá
de possuir, para além das indutâncias associadas ao modelo equivalente em regime permanente,
capacidades axiais e radiais. O modelo de transformador utilizado foi um dos modelos incluídos
no PSCAD. Este modelo não permite a introdução de parâmetros relativos às capacidades, pelo
que estas foram adicionadas externamente.

4.2.1.1 Determinação dos Parâmetros do Transformador

No modelo desenvolvido foram introduzidos diversos parâmetros, os quais se determinaram


recorrendo às características estipuladas do transformador em estudo (ver Figura 4.3) e a um rela-
tório de ensaios realizados em fábrica. Os diversos parâmetros e respetivos valores encontram-se
na Tabela 4.1.

(b) Características de saturação do transformador.

(a) Características estipuladas e perdas do transfor-


mador.

Tabela 4.1: Parâmetros introduzidos no modelo do transformador do PSCAD.

A obtenção de alguns destes parâmetros foi imediata, no entanto, para outros, aquela exigiu
algumas considerações e cálculos adicionais. Antes de se iniciar a determinação dos parâmetros,
foi necessário especificar qual a potência e tensão de base do sistema, tendo-se optado por uma
50 Caso de Estudo: Falha de Transformador Devido a Sobretensão de Manobra

potência de 30 MVA e tensão de 136 kV. Estes serão os valores utilizados nas simulações do caso
de estudo, pelo que os parâmetros do transformador que deles dependem terão de estar definidos
segundo aquelas bases.

• Impedâncias de Curto-Circuito: as impedâncias de curto-circuito do transformador estão


presentes na Figura 4.3, no entanto, encontram-se com bases de potência distintas e a sua
introdução no PSCAD exige que se encontrem com a mesma base. A impedância para o
conjunto de enrolamentos AT/BT já se encontra na base do sistema. A dos enrolamentos
AT/TERC e dos enrolamentos BT/TERC não, sendo necessário proceder-se à sua alteração.
Assim, uma impedância de curto-circuito de 5,70% numa base de 10 MVA será igual a
17,10% na base do sistema. Por sua vez, uma impedância de curto-circuito de 1,39% numa
base de 10 MVA ficará com um valor de 4,17% na base do sistema;

• Perdas em Vazio e Perdas Joule: as perdas em vazio e perdas Joule do transformador fo-
ram obtidas recorrendo a um relatório de ensaios realizados em fábrica. Naquele, verificou-
se que as perdas em vazio correspondiam a 19,6 kW e as perdas Joule a 147 kW. Na base
de potência do sistema, estes valores equivalem a 0,000653 p.u. e a 0,0049 p.u., respetiva-
mente.

No que concerne às características de saturação do transformador (Tabela 4.1b), e para efei-


tos do cálculo computacional, optou-se por colocar a saturação no enrolamento terciário (pois,
segundo recomendações do sistema de apoio ao PSCAD, aquela deverá ser associada ao enrola-
mento mais próximo do núcleo). A característica de saturação e os diferentes parâmetros utilizados
são representados na Figura 4.5.

Figura 4.5: Característica de saturação do modelo de transformador do PSCAD.

• Reatância no Ar: o valor da reatância no ar foi determinado pela consulta de documentos


relativos ao transformador em estudo, sendo o seu valor de 155,8 Ω. Na impedância de base
do sistema (dada por Vb2 /Sb = 616, 53Ω), aquele valor equivale a 0,253 p.u.;
4.2 Modelização dos Componentes 51

• Indução de Saturação (Tensão do “Joelho”): admitindo que a indução magnética nominal


do núcleo do transformador em estudo é de 1,6956 T (valor que consta do catálogo do fabri-
cante da chapa ferromagnética utilizada) e que a indução de saturação, dada pela interseção
de uma reta coincidente com o declive final da saturação com o eixo das ordenadas, tem o
valor de, aproximadamente, 2,03 T, o seu valor por unidade corresponde a 1,197 p.u.;

• Corrente de Magnetização: visto apenas se possuir informação relativa à corrente em va-


zio (cujo valor é dado pela soma da corrente de magnetização com a corrente de perdas
magnéticas), optou-se por determinar o valor percentual da corrente de magnetização recor-
rendo a simulações. Supondo uma corrente em vazio de 1,3 A (valor obtido pela consulta de
um relatório de ensaios, no qual o ensaio em vazio foi realizado alimentando o enrolamento
terciário), em termos percentuais da corrente estipulada, aquele corresponde a 0,225%. A
corrente de magnetização terá de ser, obrigatoriamente, inferior. Assim, pela diminuição su-
cessiva deste valor até à obtenção de uma corrente em vazio que correspondesse à do ensaio,
chegou-se a uma corrente de magnetização de 0,11%.

Seguidamente, irão realizar-se ensaios económicos com vista à validação dos parâmetros in-
troduzidos.

4.2.1.2 Ensaios para Validação dos Parâmetros do Transformador

Os ensaios económicos (ensaio em vazio e ensaio em curto-circuito) fazem parte de um grupo


de ensaios de rotina realizados aos transformadores e são utilizados para determinação de parâ-
metros característicos constituintes dos esquemas equivalentes e outras grandezas características
de transformadores. No presente caso, irão utilizar-se de forma inversa, ou seja, encontrando-se
os parâmetros característicos previamente determinados, o modelo do transformador será válido
caso se verifiquem os valores das grandezas determinadas em cada um. A validação do modelo
do transformador será complementada com um ensaio para determinação da sobreintensidade de
ligação.

• Ensaio em Vazio

O ensaio em vazio é realizado com um dos enrolamentos alimentado com a tensão estipulada,
de frequência estipulada, e outro em vazio. O objetivo imediato deste ensaio é, no fundamental,
a medição da corrente e da potência ativa primárias (em vazio) e da tensão secundária. Neste
caso, irá alimentar-se o enrolamento terciário com a sua tensão estipulada (10 kV), permanecendo
os restantes em circuito aberto. Para o modelo do transformador ser válido, terá de surgir no
enrolamento primário a corrente e a potência em vazio (recorde-se que a corrente considerada
foi de 1,3 A e a potência de 19,6 kW). Na Figura 4.6, apresenta-se o esquema do circuito para a
realização do ensaio em vazio no PSCAD.
O registo das medições encontra-se na Figura 4.7. A corrente e potência em vazio foram
medidas considerando os respetivos valores eficazes e não os valores de pico pois, tanto a corrente
52 Caso de Estudo: Falha de Transformador Devido a Sobretensão de Manobra

Figura 4.6: Esquema do circuito utilizado para a realização do ensaio em vazio no PSCAD.

como a potência, contêm harmónicos. A tensão secundária foi medida considerando, igualmente,
o seu valor eficaz.

Figura 4.7: Registo da corrente no primário, perdas no primário e tensão no secundário, do ensaio
em vazio.

O valor eficaz de corrente em vazio obtido foi de 1,295 A e o da potência em vazio de 19,35
kW. A tensão secundária possui um valor máximo instantâneo, por fase, de 111 kV o que, rea-
lizando uma conversão para um valor eficaz entre fases representa 135,95 kV. Conclui-se, desta
forma, que os valores obtidos estão concordantes com os previstos.

• Ensaio em Curto-Circuito
4.2 Modelização dos Componentes 53

O ensaio em curto-circuito é realizado com um dos enrolamentos curto-circuitados, sendo


o outro alimentado com um valor percentual da tensão estipulada, à frequência estipulada, que
leve à circulação da corrente estipulada naquele enrolamento. O seu objetivo imediato consiste
na medição da tensão e potência ativa primárias. Neste caso, visto o transformador possuir três
enrolamentos, terão de se realizar três ensaios, com as diferentes combinações possíveis. Os
parâmetros do transformador serão os corretos caso o enrolamento primário seja percorrido pela
corrente estipulada desse enrolamento, quando alimentado com um valor percentual da tensão
(tensão de curto-circuito) correspondente à impedância de curto-circuito dessa combinação de
enrolamentos.
Apresenta-se, na Figura 4.8, o esquema do ensaio em curto-circuito realizado para a combina-
ção de enrolamentos AT/BT no PSCAD.

Figura 4.8: Esquema do circuito utilizado para a realização do ensaio em curto-circuito no PS-
CAD.

Os valores das impedâncias de curto-circuito (base de 30 MVA) e tensões de curto-circuito


para as diferentes combinações de enrolamentos encontram-se na Tabela 4.2.

Tabela 4.2: Impedâncias de curto-circuito e tensões de curto-circuito (30 MVA).

Enrolamentos Zcc (%) Ucc (kV)


AT/BT 10,90 14,82
AT/TERC 17,10 23,26
BT/TERC 4,17 0,88

A título exemplificativo, apresenta-se, na Figura 4.9, os resultados obtidos para a combina-


ção de enrolamentos AT/BT. Neste caso, a corrente registou um valor de 127,3 A. A Tabela 4.3
apresenta o conjunto dos valores de corrente obtidos para os três ensaios e os respetivos desvios
absolutos face aos valores de corrente estipulada.
Conclui-se, desta forma, que tanto o ensaio em vazio como o ensaio em curto-circuito permi-
tiram obter os valores esperados, validando o modelo de transformador desenvolvido. Contudo,
devido ao facto de o transformador em estudo ter sido ligado e percorrido pela sobreintensidade
54 Caso de Estudo: Falha de Transformador Devido a Sobretensão de Manobra

Figura 4.9: Registo da tensão e corrente primárias no ensaio em curto-circuito.

Tabela 4.3: Corrente primária e respetivo desvio absoluto para os três ensaios em curto-circuito
realizados.

Enrolamentos I1 (A) Desvio Absoluto (%)


AT/BT 127,3 0,078
AT/TERC 127,4 0,000
BT/TERC 821,0 0,460

subsequente, será necessário identificar se o modelo conseguirá, de facto, reproduzir essa mesma
corrente.

• Ensaio com Sobreintensidade de Ligação

O ensaio para determinação da sobreintensidade de ligação foi realizado alimentando o trans-


formador pelo enrolamento de AT, com a sua tensão estipulada, de frequência estipulada, e colo-
cando os restantes em vazio. Efetuou-se a ligação do transformador pelo fecho de um disjuntor aos
250 ms (considera-se que, neste instante, a tensão da rede já se encontra no regime permanente).
Apresenta-se, na Figura 4.10, o resultado obtido para um período de 10 s. Verifica-se que o modelo
desenvolvido consegue representar uma sobreintensidade de ligação cujo valor máximo inicial é
de, aproximadamente, 260 A. Aquela possui um decaimento inicial acentuado, diminuindo ao
longo do período considerado e aproximando-se do valor da corrente em vazio.
No gráfico da Figura 4.11 reduziu-se o intervalo de tempo considerado, por forma a visualizar-
se a forma de onda da sobreintensidade de ligação.
Devido ao facto de a sobreintensidade de ligação se encontrar, entre outros fatores, estreita-
mente dependente do instante de ligação e da indução magnética remanescente (ver Secção 2.1.1),
4.2 Modelização dos Componentes 55

Figura 4.10: Sobreintensidade de ligação do transformador.

Figura 4.11: Forma de onda da sobreintensidade de ligação do transformador.

não é possível identificar um valor fixo de corrente no qual este ensaio teria de resultar. Contudo,
o valor de corrente e a forma de onda obtidos indicam que o modelo desenvolvido possui uma
representação da sobreintensidade válida.
Encontram-se, desta forma, concluídos os ensaios para validação do modelo do transformador.

4.2.1.3 Inclusão de Capacidades Radiais e Axiais

Para possibilitar uma representação correta em altas frequências, ao modelo do transformador


desenvolvido terão de ser adicionadas capacidades radiais (entre enrolamentos) e axiais (do enrola-
mento à massa). Estas capacidades foram determinadas segundo dados do fabricante e encontram-
se na Tabela 4.4.

4.2.2 Modelo do Disjuntor

O modelo de disjuntor existente no PSCAD corresponde a uma representação simplista do


princípio de funcionamento de um disjuntor, pois a resistência através da qual é modelizado tran-
sita de um valor zero para um valor infinito de forma praticamente instantânea. Para além disso,
56 Caso de Estudo: Falha de Transformador Devido a Sobretensão de Manobra

Tabela 4.4: Capacidades radiais e axiais do transformador.

AT BT TERC Massa
AT - 1,2525065 nF - 574,144954 pF
BT 1,2525065 nF - 2,7819334 nF 2,077008 pF
TERC - 2,7819334 nF - 3,340000 nF

não possui a flexibilidade necessária para se conseguir criar situações em que o corte não é reali-
zado, sendo-o sempre. Desta forma, optou-se por desenvolver um novo modelo de disjuntor, tendo
como base as equações de Cassie e de Mayr expostas na Secção 3.2.
O diagrama de blocos do modelo desenvolvido encontra-se na Figura 4.12. Este foi dividido
em quatro parcelas que serão detalhadas seguidamente (os valores das constantes nelas contidos
foram introduzidos apenas a título de exemplo). O disjuntor foi modelizado recorrendo a uma
resistência variável o que, conforme se recorda, corresponde à solução de modelização mais eficaz.

Figura 4.12: Modelo do disjuntor desenvolvido em PSCAD.

A primeira parcela contém uma estrutura de controlo que realiza a atribuição de um valor à
4.2 Modelização dos Componentes 57

resistência, com base em duas condições temporais designadas por “Timer1” e “Timer2”. Assu-
mindo que o disjuntor se encontra inicialmente no estado aberto, a primeira condição corresponde
ao instante de fecho e a segunda ao instante de abertura. Verificando-se a condição “Timer1”, a
resistência adquire um valor muito reduzido, permitindo a passagem da corrente até se atingir a
condição “Timer2”. Após esta ser verificada, o valor da resistência será ditado pela ligação em
série dos modelos de Cassie e de Mayr (soma das resistências Rc e Rm ).
A segunda parcela permite determinar a tensão aos terminais do disjuntor, a qual é dada pela
diferença entre a tensão no terminal do lado da fonte (U1 ) e a tensão no terminal do lado da carga
(U2 ).
A terceira parcela corresponde ao modelo de Cassie (ver Expressão 3.7). A solução desta será
a resistência de Cassie (Rc ).
A quarta, e última, parcela é representativa do modelo de Mayr (ver Expressão 3.8), cuja
solução será a resistência de Mayr (Rm ).
Visto não se possuir informação relativa ao disjuntor real, as constantes do modelo desen-
volvido terão de ser determinadas por via de simulações sucessivas com os modelos da rede e
do transformador, identificando os limites para os quais o disjuntor realizará o corte efetivo da
corrente.
Para efeitos de validação do modelo de disjuntor, considere-se o circuito RLC monofásico da
Figura 4.13. Neste, o disjuntor é representado pela resistência variável R e a fonte de tensão possui
um valor de 100 kV, impondo ao sistema uma frequência de 50 Hz.

Figura 4.13: Circuito RLC para validação do modelo do disjuntor.

Seguidamente, irão expor-se dois casos distintos: um no qual o disjuntor realiza o corte e outro
onde não o consegue realizar. Os valores das constantes dos modelos para o primeiro caso são os
que constam da Tabela 4.5.

Tabela 4.5: Valores iniciais das constantes do modelo do disjuntor, por forma a que este realize o
corte efetivo da corrente no circuito RLC.

Timer1 (s) Timer2 (s) U0 (kV) τc (s) P0 (kW) τm (s)


0.155 0.205 70 0.3 0.008 0.3

Apresenta-se, na Figura 4.14, as formas de onda das tensões aos terminais do disjuntor, da
diferença entre elas e da corrente que o percorre. Verifica-se que o disjuntor interrompeu a corrente
no instante em que esta se anula, produzindo uma TTR aos seus terminais cujo valor máximo não
58 Caso de Estudo: Falha de Transformador Devido a Sobretensão de Manobra

ultrapassou 2 p.u. da tensão da fonte. Esta sobretensão teve a duração de, aproximadamente, 14
ms.

Figura 4.14: Formas de onda da tensão e da corrente associadas ao corte efetivo da corrente no
circuito RLC.

A Tabela 4.6 apresenta os valores das constantes dos modelos considerados no segundo caso.
Mantiveram-se os valores associados a Timer1, Timer2 e U0 , tendo-se alterado os restantes. Para
este caso, como se pretendia que o disjuntor não interrompesse a corrente com sucesso, reduziu-se
significativamente o valor de P0 , diminuindo, desta forma, a capacidade do disjuntor em dissipar
a potência associada ao arco elétrico. As constantes de tempo foram ajustadas para valores que
correspondem à incapacidade efetiva do disjuntor em interromper a corrente.

Tabela 4.6: Valores iniciais das constantes do modelo do disjuntor, por forma a que este não
realize o corte efetivo da corrente no circuito RLC.

Timer1 (s) Timer2 (s) U0 (kV) τc (s) P0 (kW) τm (s)


0.155 0.205 70 0.7 80 × 10−12 0.5

Os resultados obtidos encontram-se ilustrados na Figura 4.15.


4.2 Modelização dos Componentes 59

Figura 4.15: Formas de onda da tensão e da corrente associadas à incapacidade de interrupção da


corrente no circuito RLC.

Conforme se pretendia, a corrente não foi interrompida, tendo o disjuntor proporcionado con-
dições para aquela continuar a circular através de um arco elétrico. É possível verificar, a partir do
último gráfico da Figura 4.15, a forma característica da tensão do arco.
Desenvolveu-se, ainda, uma estrutura de controlo adicional com o objetivo de, independen-
temente do instante predefinido para a abertura do disjuntor, este apenas interromper a corrente
quando esta se anula (situação mais próxima da realidade). A estrutura de controlo referida pode
ser visualizada na Figura 4.16.
Com vista a testar esta funcionalidade, considere-se os parâmetros iniciais que constam da Ta-
bela 4.5. Os resultados obtidos estão ilustrados na Figura 4.17. Ao contrário dos casos anteriores,
com a introdução desta nova funcionalidade, estipulando-se um instante de abertura do disjuntor
aos 210 ms (corrente máxima), a interrupção da corrente só é realizada quando esta se anula. Neste
caso, a anulação da corrente e consequente interrupção ocorrem aos 215 ms.
Conclui-se, desta forma, que o modelo desenvolvido possui a versatilidade necessária para
representar a atuação do disjuntor sob diversos cenários. Contudo, os resultados obtidos encontrar-
se-ão sempre dependentes dos valores atribuídos a cada uma das constantes, pelo que, para uma
60 Caso de Estudo: Falha de Transformador Devido a Sobretensão de Manobra

Figura 4.16: Estrutura de controlo para realização do corte da corrente quando esta se anula.

Figura 4.17: Formas de onda da tensão e da corrente associadas à interrupção da corrente no


instante em que se anula.

modelização realista, será essencial incluir valores de constantes equivalentes às do disjuntor que
se pretende representar.
4.3 Análise de Sensibilidade com Recurso aos Modelos Desenvolvidos 61

4.2.3 Modelo do Cabo

O cabo no lado de BT do transformador no qual ocorreu o curto-circuito encontrava-se numa


galeria subterrânea. Para representar corretamente este cabo, fez-se uso de um modelo de cabo
dependente da frequência, disponível no PSCAD, o qual se apresenta na Figura 4.18.

(a) Representação no circuito.

(b) Representação em corte transversal.

Figura 4.18: Modelo do cabo utilizado em PSCAD.

Visto a informação disponível em relação ao cabo cingir-se ao seu comprimento (recorde-


se que este é de 70 m), no modelo do PSCAD apenas se alterou este parâmetro, garantindo-se,
no entanto, que esse modelo possibilita uma representação de fenómenos de reflexão de ondas
(ativando essa mesma opção), essenciais para o estudo de transitórios.

4.3 Análise de Sensibilidade com Recurso aos Modelos Desenvolvi-


dos
Como foi referido na introdução do presente capítulo, a escassez de informação relativa a este
caso de estudo não permitirá reproduzir a sequência de eventos exata que terá dado origem ao
aparecimento da sobretensão aos terminais do transformador. Contudo, será útil perceber qual a
influência dos parâmetros do sistema na amplitude e frequência da sobretensão, recorrendo a uma
análise de sensibilidade. Desta forma, e assumindo que o disjuntor será capaz de interromper a
corrente, irão efetuar-se os seguintes estudos com vista à determinação do valor da sobretensão
em cada um:
62 Caso de Estudo: Falha de Transformador Devido a Sobretensão de Manobra

• Variação da impedância do circuito equivalente da rede;

• Variação da distância entre o transformador e o curto-circuito;

• Variação do instante de abertura do disjuntor;

• Introdução de um circuito RC de amortecimento.

Apresenta-se, na Figura 4.19, o circuito utilizado para as simulações, no qual se encontram


incluídos os modelos desenvolvidos.

Figura 4.19: Circuito desenvolvido em PSCAD para a realização da análise de sensibilidade.

As condições iniciais para a realização das análises que se seguem são:

• Tomada de regulação do transformador na posição no 4;

• Curto-circuito pré-feito entre os terminais das fases A e B;

• Energização do transformador aos 50 ms e abertura do disjuntor aos 125 ms;

• Distância de 70 m entre o transformador e o curto-circuito;

• Simulações realizadas com uma taxa de amostragem de 0,3 µs;

• Admite-se que o disjuntor interrompe sempre a corrente.


4.3 Análise de Sensibilidade com Recurso aos Modelos Desenvolvidos 63

4.3.1 Variação da Impedância do Circuito Equivalente da Rede

A impedância do circuito equivalente da rede tem por objetivo representar a influência de todas
as impedâncias que se encontrem entre a geração e o barramento em análise, limitando o valor da
corrente. Tipicamente, em redes de alta tensão, a componente reativa da impedância prevalece
face à resistiva. Assim, com vista a avaliar o efeito dos parâmetros da rede na sobretensão aos
terminais do transformador, definiu-se um valor típico de indutância igual a 0,00791 H [51] e uma
resistência de 0,001 Ω. Fixando o valor da resistência e tomando o valor de indutância como ponto
de partida, serão testados mais nove valores de indutância adicionais, cuja sequência será obtida
pelo dobro da indutância imediatamente anterior.
A Figura 4.20 apresenta as formas de onda da corrente no disjuntor (corrente de curto-circuito)
e da tensão aos terminais do transformador para o primeiro valor de indutância.

Figura 4.20: Corrente no disjuntor e tensão no transformador para a indutância inicial (L =


0,00791 H).

As fases A, B e C são identificadas pelas cores azul, verde e vermelho, respetivamente. A


Figura 4.21 ilustra o mesmo registo de corrente da Figura 4.20, mas com um intervalo de tempo
aproximado ao instante de interrupção. Verifica-se que a corrente não foi interrompida no instante
64 Caso de Estudo: Falha de Transformador Devido a Sobretensão de Manobra

zero e, por isso, a sobretensão resultou num valor muito superior à tensão nominal do transforma-
dor.
Na Figura 4.22 apresenta-se a evolução da tensão máxima aos terminais do disjuntor e da
corrente no instante de corte, em função dos valores de indutância definidos anteriormente.

Figura 4.21: Aproximação do gráfico de corrente da Figura 4.20 ao instante de interrupção.

(a) (b)

Figura 4.22: a) Tensão máxima aos terminais do transformador e b) corrente no instante de corte,
em função da indutância.

Pela Expressão 2.13 mostrou-se que a tensão máxima aos terminais do transformador não
depende diretamente da indutância e capacidade a montante do disjuntor, mas sim a jusante. No
entanto, o gráfico da Figura 4.22a evidencia uma variação significativa daquele valor. Esta situação
poderá ser explicada pela observação da Figura 4.23, a qual representa a corrente no instante de
interrupção para o último valor de indutância testado (o mais elevado).
Comparando as Figuras 4.20 e 4.23 (valor mais baixo e valor mais alto de indutância, respe-
tivamente), é possível identificar uma alteração na forma de onda da corrente de curto-circuito.
A primeira, pelo seu decaimento, evidencia a presença de uma componente contínua. A segunda
mantém-se estável, pelo que não existe influência da componente contínua. A componente contí-
nua existe sempre que no instante de aparecimento de um curto-circuito o valor da tensão esteja
afastado dos seus extremos (máximo ou mínimo). O caso mais desfavorável (maior influência
da componente contínua e, por isso, maior valor de corrente de curto-circuito inicial) dá-se num
instante de interrupção em que a tensão é zero.
4.3 Análise de Sensibilidade com Recurso aos Modelos Desenvolvidos 65

Figura 4.23: Corrente no disjuntor e tensão no transformador para um valor de indutância igual a
4,05 H.

Para além do exposto, será também importante destacar a influência da indutância no valor
máximo da corrente. Com efeito, o aumento daquela origina uma diminuição da amplitude da
corrente, o que contribui para uma redução da sobretensão aos terminais do transformador.
Conclui-se, desta forma, que o valor da sobretensão aos terminais do transformador irá depen-
der sempre da impedância do circuito a montante do disjuntor. Apesar de a Expressão 2.13 não o
evidenciar diretamente, compreende-se que a impedância a montante irá afetar sempre a corrente
de curto-circuito e, por isso, o termo relativo ao valor da corrente no instante de interrupção.

4.3.2 Variação da Distância entre Transformador e Curto-Circuito

Para determinar a influência da distância entre o transformador e o curto-circuito no valor


da sobretensão aos terminais do transformador, consideraram-se os valores que constam na Ta-
bela 4.7.
A Figura 4.24 contém o gráfico representativo da evolução do valor máximo da tensão aos
terminais do transformador com a distância. Existe um valor de tensão máximo que ocorre a,
aproximadamente, 10 km. O aumento do valor da sobretensão para distâncias até 10 km deve-se,
66 Caso de Estudo: Falha de Transformador Devido a Sobretensão de Manobra

Tabela 4.7: Distâncias entre transformador e local de ocorrência do curto-circuito, introduzidas


no modelo do cabo.

Distâncias (km)
0,07
0,1
0,5
1
5
10
20
50
100

essencialmente, a fenómenos de reflexão e sobreposição de ondas. A partir dos 10 km, as perdas


no cabo já resultam numa atenuação da sobretensão, fruto da maior distância que estas têm de
percorrer.

Figura 4.24: Tensão máxima no transformador em função da distância a que se verifica o curto-
circuito.

4.3.3 Variação do Instante de Abertura do Disjuntor

A análise realizada nesta secção irá contemplar a interrupção numa vasta gama de corren-
tes, para se evidenciar o impacto que aquela possui na sobretensão aos terminais do transforma-
dor. Apesar de a interrupção de uma corrente elevada possuir uma probabilidade muito reduzida
(ver Secção 2.2.1.2), será interessante analisar qual a ordem de grandeza das tensões resultantes
da abertura do disjuntor. Para o efeito, e mantendo-se a ligação do transformador aos 50 ms,
definiram-se dez instantes de interrupção com início aos 115 ms e término aos 124 ms. Assim,
poder-se-á explorar o valor da sobretensão no instante de corrente máxima e nos instantes a seguir,
obtendo-se uma perceção da sua evolução. Os resultados obtidos encontram-se na Figura 4.25.
4.3 Análise de Sensibilidade com Recurso aos Modelos Desenvolvidos 67

Figura 4.25: Tensão máxima no transformador em função do instante de abertura do disjuntor.

A forma de onda criada pelos sucessivos valores de sobretensão é equivalente à forma de


onda dada pelos valores de corrente no instante de interrupção (ver Figura 4.21), visto estas se-
rem proporcionais (conforme demonstrado na Expressão 2.13). O valor máximo de sobretensão
registou-se para um instante de abertura de 118 ms e foi de, aproximadamente, 19 MV.

4.3.4 Introdução de um Circuito RC de Amortecimento

Assumindo que todos os componentes se encontram nas condições iniciais definidas para o
caso de estudo, introduziu-se um circuito RC de amortecimento nos terminais do enrolamento de
AT do transformador (ver Figura 4.26). Esta técnica permite, conforme o exposto na Secção 2.3,
uma redução significativa da amplitude e da taxa de crescimento da sobretensão aos terminais do
transformador.

Figura 4.26: Circuito RC introduzido aos terminais do transformador no PSCAD.

Com vista a demonstrar a utilização desta solução, considere-se um valor de resistência de 10


Ω e uma capacidade de 0,1 µF (valores típicos, retirados de [35]). Os resultados obtidos para a
ligação do transformador e posterior abertura do seu disjuntor associado podem ser visualizados
na Figura 4.27.
68 Caso de Estudo: Falha de Transformador Devido a Sobretensão de Manobra

Figura 4.27: Corrente no disjuntor e tensão no transformador com um circuito RC de amorteci-


mento aos seus terminais (R = 10 Ω e C = 0,1 µF).

Comparando estes resultados com os dos gráficos obtidos com as condições iniciais e na au-
sência de um circuito RC de amortecimento (ver Figura 4.20), a introdução desta solução proporci-
onou uma redução significativa da amplitude da sobretensão, tendo-se registado um valor máximo
de 270 kV (na solução inicial, o máximo foi de 1800 kV). Para além disso, é possível verificar que
a taxa de crescimento e a frequência própria diminuíram.
Para melhor se evidenciar a influência da capacidade no tempo de subida da forma de onda
da tensão máxima inicial e da frequência própria do circuito, realizaram-se simulações com os
valores de capacidade que constam na Tabela 4.8. A escolha destes valores teve como objetivo o
garantir uma perceção adequada do efeito da capacidade nos elementos referidos.

Tabela 4.8: Capacidades testadas no circuito RC de amortecimento.

Capacidades (µF)
0,1
1
10
20
30
50
100

Os gráficos com os resultados obtidos para a evolução do tempo de subida da forma de onda
da tensão inicial em função da capacidade do circuito RC de amortecimento, encontram-se na Fi-
gura 4.28. Por sua vez, os gráficos com os resultados obtidos para a evolução da frequência própria
4.3 Análise de Sensibilidade com Recurso aos Modelos Desenvolvidos 69

do circuito com o valor de capacidade do circuito RC de amortecimento, podem ser visualizados


na Figura 4.29.

Figura 4.28: Tempo de subida da forma de onda da tensão máxima em função da capacidade do
circuito RC de amortecimento.

Figura 4.29: Frequência da tensão em função da capacidade do circuito RC de amortecimento.

Com o aumento da capacidade, a tensão máxima inicial apresenta um tempo de subida maior,
ou seja, o seu pico ocorre para instantes de tempo superiores após a abertura do disjuntor (ver Fi-
gura 4.28). Recorde-se que um tempo de subida muito rápido poderá contribuir para que a tensão
transitória de restabelecimento (TTR) aos terminais do disjuntor de proteção do transformador,
ultrapasse a tensão de escorvamento do próprio disjuntor, dando origem a reacendimentos do arco
e a sobretensões sucessivamente maiores. Por outro lado, o aumento da capacidade irá resultar
num aumento do período da forma de onda da tensão e, por isso, numa diminuição da frequência
própria do circuito (ver Figura 4.29). Esta frequência tende para zero (sem, no entanto, o atingir)
à medida que a capacidade aumenta. O aumento da frequência própria é uma situação indesejável
70 Caso de Estudo: Falha de Transformador Devido a Sobretensão de Manobra

pois esta poderá aproximar-se das frequências naturais do transformador (a frequência natural de
um transformador é tanto mais reduzida quanto maior for a sua potência estipulada [9]), o que con-
duz ao fenómeno de ferroressonância e a um aumento considerável da corrente nos enrolamentos
e da tensão entre espiras.
Conclui-se, desta forma, que através da introdução de um circuito RC de amortecimento, é
possível atenuar-se consideravelmente as sobretensões de manobra que atingem um transformador
após a abertura do seu disjuntor de proteção. Para além disso, o circuito RC de amortecimento
também possibilita o aumento do tempo de subida da forma de onda da sobretensão e a diminuição
da frequência da mesma.

4.4 Avaliação das Sobretensões Resultantes da Abertura do Disjun-


tor em Diferentes Condições de Funcionamento do Transforma-
dor

As análises realizadas na Secção 4.3 visaram a determinação da influência de diversos parâ-


metros do circuito na sobretensão aos terminais do transformador, resultante da abertura do seu
disjuntor de proteção. Para o efeito, definiram-se algumas condições iniciais, como o facto de
o transformador, sob um regime de funcionamento em vazio, possuir um curto-circuito fase-fase
pré-feito aos seus terminais e a ligação daquele resultar na circulação de uma corrente de curto-
circuito sobreposta à sobreintensidade de ligação.
Na presente secção, irá explorar-se um conjunto adicional de condições de funcionamento do
transformador, com vista à avaliação da magnitude da sobretensão aos seus terminais. Aquelas
irão passar pela abertura do disjuntor com diferentes tipos de curto-circuito pré-feitos no secundá-
rio do transformador e pela abertura do disjuntor na ausência de curto-circuito no secundário do
transformador mas encontrando-se este a alimentar diferentes tipos de carga.

4.4.1 Aplicação de Diferentes Tipos de Curto-Circuito no Secundário do Transfor-


mador

Através da aplicação de diferentes tipos de curto-circuito nos terminais do transformador,


registaram-se os valores máximos de tensão e de corrente obtidos em cada um. Os resultados
são apresentados, respetivamente, nas Figuras 4.30 e 4.31.
O maior valor de sobretensão registou-se para o curto-circuito entre as fases A, C e a terra, e o
menor valor de sobretensão obteve-se para o curto-circuito fase-fase, envolvendo as fases A e B.
Conclui-se, desta forma, que o transformador do caso de estudo ficou sujeito a um curto-circuito
cuja sobretensão resultante da abertura do disjuntor corresponde à situação menos gravosa.
No que concerne à corrente, esta apresentou um maior valor para o curto-circuito trifásico,
envolvendo as fases A, B e C, e um menor valor para o curto-circuito fase-fase, envolvendo as
fases B e C.
4.4 Avaliação das Sobretensões Resultantes da Abertura do Disjuntor em Diferentes Condições
de Funcionamento do Transformador 71

Figura 4.30: Tensão máxima no transformador em função de diferentes tipos de curto-circuito.

Figura 4.31: Corrente máxima no disjuntor em função de diferentes tipos de curto-circuito.

4.4.2 Introdução de Diferentes Tipos de Carga no Secundário do Transformador e


Abertura do Disjuntor num Instante de Corrente-Zero

Até ao momento, considerou-se que o transformador se encontrava a funcionar em vazio


aquando da sua ligação e consequente aparecimento do curto-circuito. Na presente subsecção,
irá ser realizada uma avaliação à amplitude da sobretensão resultante da abertura do disjuntor,
quando o transformador se encontra em regime de funcionamento permanente, com diferentes
tipos de carga aos seus terminais e na ausência de curto-circuito. A abertura do disjuntor será
realizada num instante de corrente-zero.
Os tipos de carga e respetivas potências, a alimentar pelo transformador, encontram-se na
Tabela 4.9.
Os resultados obtidos para a carga resistiva, para a carga indutiva e para a carga capacitiva
podem ser encontrados, respetivamente, nas Figuras 4.32, 4.33 e 4.34. Através destas, é possível
72 Caso de Estudo: Falha de Transformador Devido a Sobretensão de Manobra

Tabela 4.9: Tipo de carga a alimentar pelo transformador e respetiva potência.

Tipo de Carga Potência


Resistiva 20 MW
Indutiva 20 Mvar
Capacitiva 20 Mvar

concluir-se que a sobretensão mais elevada está associada ao caso em que o transformador alimenta
uma carga indutiva. No caso da carga capacitiva, a sobretensão a ela associada é reduzida, apenas
ultrapassando a tensão do sistema em algumas dezenas de kV. Quando o transformador alimenta
uma carga resistiva, não existe ocorrência de sobretensão, algo que se justifica pelo facto de este
tipo de carga não possuir capacidade para acumular energia (ao contrário das cargas indutiva e
capacitiva), apenas a dissipando sob a forma de calor.

Figura 4.32: Tensão no transformador quando este alimenta uma carga resistiva e ocorre a aber-
tura do disjuntor.

Figura 4.33: Tensão no transformador quando este alimenta uma carga indutiva e ocorre a abertura
do disjuntor.
4.5 Resumo 73

Figura 4.34: Tensão no transformador quando este alimenta uma carga capacitiva e ocorre a
abertura do disjuntor.

4.5 Resumo
No Capítulo 4 realizou-se um conjunto diversificado de estudos com vista à avaliação do im-
pacto das sobretensões de manobra num transformador, resultantes de abertura do seu disjuntor
de proteção. Para a realização daqueles estudos, foi necessário desenvolverem-se modelos de
componentes (nomeadamente, do disjuntor, do transformador e do cabo) que possibilitassem uma
representação adequada das formas de onda de tensão e da corrente para frequências elevadas,
tipicamente associadas às sobretensões de manobra.
Através da variação da indutância representativa da impedância equivalente da rede verificou-
se que o valor da sobretensão estará sempre dependente daquela, mesmo que indiretamente, pois
a indutância influencia o valor da corrente no instante da interrupção.
A introdução de vários comprimentos de cabo, com vista a simular um aumento da distância
entre o transformador e o curto-circuito, revelou que a impedância do cabo (e o seu aumento com
o comprimento do mesmo) limita significativamente o valor da corrente e, por conseguinte, da
sobretensão, a partir dos 10 km.
A variação do instante de abertura do disjuntor possibilitou realizar a interrupção da corrente
com diferentes valores da mesma. Desta forma, mostrou-se que o valor da corrente interrom-
pida é diretamente proporcional à sobretensão resultante, visto que, quanto maior for a corrente
interrompida, maior será a energia libertada no circuito aquando da interrupção.
A inclusão de um circuito RC de amortecimento provou ser a solução ideal para a atenuação da
sobretensão de manobra que atinge os terminais do transformador, quer em termos de amplitude,
quer em frequência.
Com a aplicação de diferentes tipos de curto-circuito pré-feitos nos terminais de BT do trans-
formador e realizando o processo de ligação e posterior corte da corrente, foi possível concluir
que a sobretensão mais gravosa está associada ao curto-circuito trifásico, envolvendo as fases A,
B e C, e o menor valor de sobretensão ao curto-circuito fase-fase, envolvendo as fases A e B.
Com o transformador a funcionar em regime permanente e a alimentar diferentes tipos de
carga, concluiu-se que a sobretensão resultante da abertura do disjuntor é mais elevada no caso de
o transformador se encontrar a alimentar uma carga indutiva.
74 Caso de Estudo: Falha de Transformador Devido a Sobretensão de Manobra
Capítulo 5

Conclusões e Trabalhos Futuros

5.1 Conclusões Gerais

A presente dissertação permitiu explorar o panorama dos transitórios eletromagnéticos em


transformadores, com especial enfoque nas sobretensões de manobra. Apesar de as sobretensões
de manobra com elevada magnitude possuírem uma probabilidade de ocorrência diminuta, o seu
aparecimento pode ter consequências devastadoras para os transformadores.
Realizando uma comparação entre os fenómenos que decorrem das manobras de fecho e aber-
tura do disjuntor de proteção de um transformador, é possível concluir-se que a abertura do disjun-
tor poderá resultar num conjunto de fenómenos mais prejudiciais para o transformador. Destes,
destaca-se a interrupção da corrente com supressão da mesma, a qual, devido à quantidade de
energia acumulada no circuito, origina uma libertação repentina dessa energia, que se traduz no
aparecimento de uma sobretensão.
As técnicas para mitigação das sobretensões de manobra em transformadores de potência exis-
tem num número limitado. Com efeito, a solução que provou ser a mais eficaz consiste na intro-
dução de um circuito RC de amortecimento perto dos terminais de linha dos transformadores.
Neste circuito, a resistência possibilita uma atenuação da amplitude das sobretensões que atingem
o transformador, enquanto que a capacidade permite uma diminuição do gradiente da sobretensão.
Apesar das técnicas numéricas mais robustas e das interfaces gráficas apelativas presentes
nas diversas ferramentas de simulação de transitórios, estas encontram a sua maior limitação nos
modelos de componentes disponíveis. Com efeito, uma modelização adequada dos componentes
apresenta-se como determinante para a validação dos resultados das simulações.
Relativamente ao caso de estudo, a análise de sensibilidade realizada permitiu concluir que
a sobretensão resultante da manobra do disjuntor é influenciada por um vasto conjunto de parâ-
metros e condições do sistema, como a impedância equivalente da rede, o comprimento do cabo
entre o transformador e o curto-circuito e o instante de abertura do disjuntor. Verificou-se, igual-
mente, que a introdução de um circuito RC de amortecimento próximo aos terminais de linha do
transformador atenua significativamente o valor da sobretensão e da sua taxa de crescimento.

75
76 Conclusões e Trabalhos Futuros

5.2 Trabalhos Futuros


O modelo de disjuntor desenvolvido, apesar de já permitir realizar um conjunto de operações
diversificadas e com resultados mais próximos da realidade do que o modelo presente no PSCAD,
poderá, ainda, ser melhorado. Sugere-se, para o efeito, a adição de uma funcionalidade que per-
mita representar o fenómeno de reacendimento do arco elétrico.
O modelo de transformador incluído no PSCAD não possibilita a introdução de vários pon-
tos da curva de magnetização do transformador, realizando apenas uma aproximação através da
característica de saturação. Contudo, uma representação mais realista do transformador exige a
introdução daqueles pontos. Como tal, recomenda-se a utilização da versão mais recente do pro-
grama (esta já contempla o modelo de Jiles-Atherton, o qual é aceite como o modelo da curva de
magnetização mais adequado).
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