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Para a História da Liga dos Comunistas[N134]

Friedrich Engels

8 de Outubro de 1885

Transcrição autorizada

Primeira Edição: Publicado no livro: Karl Marx, Enthüllungen über den


Kommunisten-Prozess zu Köln, Hottingen-Zürich 1885, e no jornal Der
Sozialdemokrat, n.ºs 46-48, de 12, 19 e 26 de Novembro de 1885.Publicado
segundo o texto do jornal. Traduzido do alemão.
Fonte: Obras Escolhidas em três tomos, Editorial "Avante!" - Edição dirigida
por um colectivo composto por: José BARATA-MOURA, Eduardo CHITAS,
Francisco MELO e Álvaro PINA, tomo III, pág: 192-212.
Tradução: José BARATA-MOURA.
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo.
Direitos de Reprodução: © Direitos de tradução em língua portuguesa
reservados por Editorial "Avante!" - Edições Progresso Lisboa - Moscovo, 1982.

Com a condenação dos comunistas de Colónia em 1852 [N61] cai o pano


sobre o primeiro período do movimento operário autónomo alemão. Este
período está hoje quase esquecido. No entanto, ele durou de 1836 até 1852 e,
com a disseminação dos operários alemães pelo estrangeiro, o movimento
operou em quase todos os países civilizados [Kulturländer]. E não é tudo. O
movimento operário internacional hodierno é, em substância [der Sache
nach], um continuador directo do [movimento operário] alemão de então, que
foi, em geral, o primeiro movimento operário internacional, e que produziu
muitas das pessoas que tomaram o papel dirigente na Associação
Internacional dos Trabalhadores. E os princípios teóricos que a Liga dos
Comunistas inscreveu na sua bandeira, em 1847, no Manifesto Comunista,
formam hoje o vínculo internacional mais forte do movimento proletário todo,
tanto da Europa como da América.

Até agora, há apenas uma fonte principal para a história coerente deste
movimento. É o chamado livro negro: Die Communisten-Verschwörungen des
19, Jahrhunderts [As Conspirações de Comunistas do Século
XIX],de Wermuth e Stieber, Berlim, 2 partes, 1853 e 1854 (1*). Esta contrafacção
tecida de mentiras conjuntamente por dois dos mais miseráveis farrapos de
polícia [Polizeilumpen] do nosso século, regurgitando de falsificações
premeditadas, ainda hoje serve de fonte última a todos os escritos não-
comunistas sobre aquele tempo.

O que eu posso dar aqui é apenas um esboço, e mesmo este apenas na


medida em que a própria Liga entre em consideração; apenas o que é
absolutamente necessário para o entendimento das Enthüllungen
[Revelações]. Espero que ainda me seja dado alguma vez trabalhar o rico
material, reunido por Marx e por mim, para a história daquele glorioso tempo de
juventude do movimento operário internacional.

Da Liga secreta democrática-republicana dos «proscritos» — fundada em


Paris, no ano de 1834, por refugiados alemães — separaram-se, em 1836, os
elementos mais extremos, na maioria dos casos, proletários, e formaram a
nova secreta Liga dos Justos. A Liga-mãe, em que só ficaram os elementos
mais adormecidos à la(2*) Jacobus Venedey, em breve adormeceu totalmente:
quando, em 1840, a polícia farejou algumas secções na Alemanha, mal era já
uma sombra. A nova Liga, pelo contrário, desenvolveu-se de um modo
relativamente rápido. Originariamente, era um alporque alemão do comunismo
operário francês que se prendia a reminiscências babovistas [N135] e que por
essa mesma altura se desenvolvia em Paris; a comunidade de bens era exigida
como consequência necessária da «igualdade». Os objectivos eram os das
sociedades secretas parisienses daquele tempo: meia associação de
propaganda, meia conspiração, pelo que, contudo, Paris continuava a valer
como centro da acção revolucionária, apesar de a preparação de eventuais
golpes [Putsche] na Alemanha não estar excluída. Porém, uma vez que Paris
continuava a ser o campo de batalha decisivo, a Liga dessa altura, de facto,
não era muito mais do que o ramo alemão das sociedades secretas francesas,
nomeadamente, da Société des Saisons(3*), dirigida por Blanqui e Barbes, com
a qual estava em estreita conexão. Os franceses iniciaram o ataque em 12 de
Maio de 1839; as secções da Liga marcharam juntamente com eles e, assim,
foram envolvidas na derrota comum[N136].
Dos alemães foram presos, nomeadamente, Karl Schapper e Heinrich
Bauer; o governo de Louis-Philippe contentou-se em expulsá-los após uma
longa detenção(4*). Ambos foram para Londres. Schapper, de Weilburg, em
Nassau, quando estudante de silvicultura em Giessen, em 1832, membro da
conspiração organizada por Georg Büchner, tomou parte em 3 de Abril de 1833
no assalto à esquadra da polícia de Frankfurt [N137], fugiu para o estrangeiro e
participou na marcha de Mazzini sobre a Sabóia[N138], em Fevereiro de 1834.
Gigante de figura, resoluto e enérgico, sempre pronto a pôr em risco a
existência civil [burgerliche Existem] e a vida, era o modelo do revolucionário
de profissão tal como, nos anos trinta, desempenhou um papel. Com uma certa
lentidão no pensar, de modo nenhum era inacessível a melhor compreensão
teórica, como o seu desenvolvimento de «demagogo» [N139] para comunista já
havia mostrado, e depois de ter reconhecido algo atinha-se-lhe com tanto mais
firmeza. Precisamente por isso, a sua paixão revolucionária levou, por vezes, a
melhor sobre o seu entendimento; mas, depois, ele via sempre os seus erros e
reconhecia-os abertamente. Era um homem inteiro, e o que ele fez pela
fundação do movimento operário alemão permanece inesquecível.

Heinrich Bauer, de Franken, era sapateiro; um homenzinho vivo, desperto,


espirituoso, cujo corpo pequeno, porém, igualmente continha tanto de astúcia
como de decisão.

Chegado a Londres — onde Schapper, que fora compositor [de tipografia]


em Paris, procurava agora o seu sustento como professor de línguas —
juntaram de novo ambos os fios cortados da Liga e tornaram agora Londres o
centro da Liga. Juntou-se-lhes aqui, seja não anteriormente em Paris, Joseph
Moll, relojoeiro de Colónia, um Hércules de estatura média — quantas vezes
não defenderam ele e Schapper vitoriosamente a porta de uma sala contra
centenas de adversários que avançavam impetuosamente! —, um homem que
pelo menos igualava os seus dois camaradas em energia e decisão, mas que
espiritualmente ultrapassava ambos. Não só por ser um diplomata nato, como
os sucessos das suas numerosas viagens em missão demonstraram; ele era
também mais acessível à compreensão teórica. Conheci-os a todos os três em
1843, em Londres; eram os primeiros proletários revolucionários que via; e, por
muito que no pormenor as nossas perspectivas estivessem afastadas na altura
— pois eu ainda contrapunha ao comunismo igualitário (5*) limitado deles, nessa
altura, uma boa porção de arrogância filosófica igualmente limitada —, nunca
esquecerei, contudo, a imponente impressão que esses três homens
autênticos [wirklichen] me causaram, a mim que, nessa altura, precisamente,
me queria tornar um homem.
Em Londres como, numa medida menor, na Suíça, beneficiavam de
liberdade de associação e de reunião. Já em 7 de Fevereiro de 1840, fora
fundada a legal Associação Cultural Operária Alemã, que hoje ainda existe [N140].
Esta associação servia de campo de recrutamento para novos membros e,
uma vez que, como sempre, os comunistas eram os membros mais activos e
mais inteligentes da associação, compreende-se que a sua direcção estivesse
totalmente nas mãos da Liga. Em breve a Liga tinha várias
comunas [Gemeinde] — ou como, nessa altura, ainda se chamavam
«lojas» [«Hütte»] — em Londres. A mesma táctica óbvia foi seguida na Suíça e
noutros lugares. Onde se pudessem fundar associações operárias, eram
utilizadas da mesma maneira. Onde as leis o proibiam, ia-se para associações
corais, associações gímnicas e outras. A ligação era mantida, em grande parte,
por membros que continuamente iam e vinham, os quais, quando era preciso,
também funcionavam como emissários. Em ambos os aspectos, a Liga era
vivamente apoiada pela sageza dos governos que, pela expulsão, transformava
cada operário indesejável — e, em cada nove casos em dez, era um membro
da Liga — num emissário.

A expansão da Liga restaurada era significativa. Nomeadamente, na


Suíça, Weitling, August Becker (uma magnífica cabeça que, tal como muitos
alemães, se perdeu, porém, por inconsistência interna) e outros criaram uma
organização forte, mais ou menos ajuramentada ao sistema comunista
de Weitling. Não é aqui o lugar para criticar o comunismo de Weitling. Mas,
quanto ao seu significado como primeira efervescência teórica autónoma do
proletariado alemão, ainda hoje subscrevo as palavras de Marx no Vorwärts!
[N126]
 de Paris, de 1844: «Onde tinha para mostrar a burguesia» (alemã) «—
incluindo os seus filósofos e escribas [Schriftgelehrte](6*) —, em relação à
emancipação da burguesia(7*) — à emancipação política(8*) —, uma obra
parecida com as Garantien der Harmonie und Freiheit [Garantias da Harmonia
e Liberdade] de Weitling? Compare-se a mediocridade insípida, atrapalhada,
da literatura política alemã com esta estreia literária imensurável (9*) e brilhante
dos operários alemães; comparem-se estes gigantescos sapatos de criança do
proletariado(10*) com o carácter anão dos sapatos políticos gastos da
burguesia(11*), e ter-se-á de profetizar à gata-borralheira (12*) uma figura de
atleta(13*)». Esta figura de atleta está hoje diante de nós, embora ainda longe de
[completamente] crescida.

Na Alemanha, existiam também numerosas secções, pela natureza das


coisas, de natureza transitória; mas, as que surgiam mais do que
contrabalançavam as que morriam. Só sete anos depois, em fins de 1846, a
polícia descobriu um vestígio da Liga em Berlim (Mentel) e em Magdburg
(Beck), sem estar em condições de o continuar a seguir.
Em Paris, Weitling, que ainda lá se encontrava em 1840, voltou igualmente
a reunir os elementos dispersos, antes de ir para a Suíça.

A tropa de elite da Liga eram os alfaiates. Havia alfaiates alemães por toda
a parte: na Suíça, em Londres, em Paris. Nesta última cidade, o alemão era
tanto a língua dominante neste ramo de negócios que eu conheci lá em 1846
um alfaiate norueguês que tinha ido directamente por mar de Trondheim para
França e que, durante 18 meses, não tinha aprendido quase nenhuma palavra
de francês, mas [aprendera] um excelente alemão. Das comunas parisienses,
em 1847, duas consistiam predominantemente em alfaiates e uma em
marceneiros.

Desde que o centro de gravidade se deslocou de Paris para Londres, veio


para primeiro plano um novo momento: de alemã a Liga tornava-se
gradualmente internacional. Na associação operária, encontravam-se, além de
alemães e suíços, também membros de todas aquelas nacionalidades para as
quais a língua alemã servia predominantemente de meio de comunicação com
estrangeiros, portanto, nomeadamente: escandinavos, holandeses, húngaros,
checos, eslavos do Sul, também russos e alsacianos. Em 1847, entre outros,
havia também como frequentador regular um granadeiro da Guarda inglês, de
uniforme. Em breve a associação se chamou: Associação Cultural
Operária Comunista, e nos cartões de membro estava o lema: «Todos os
homens são irmãos», em pelo menos vinte línguas, se bem que, aqui e ali, não
sem erros de ortografia. Tal como a associação legal, também a Liga secreta
tomou, em breve, um carácter mais internacional; primeiro, num sentido ainda
limitado, praticamente pela variada nacionalidade dos membros, teoricamente
pela compreensão de que toda a revolução, para ser vitoriosa, teria de ser
europeia. Não se ia mais longe do que isto; mas, a base estava dada.

Mantinha-se uma estreita ligação com os revolucionários franceses,


através dos refugiados em Londres, camaradas de luta do 12 de Maio de 1839.
Acontecia o mesmo com os polacos mais radicais. A emigração oficial polaca,
tal como Mazzini, compreensivelmente, eram mais adversários do que aliados.
Os cartistas ingleses, em virtude do carácter especificamente inglês do seu
movimento, foram deixados de parte como não-revolucionários. Os dirigentes
londrinos da Liga só mais tarde estabeleceram ligação com eles através de
mim.

Além disso, o carácter da Liga também se tinha alterado com os eventos.


Apesar de se olhar sempre para Paris — e, nessa altura, com plena razão —
como a cidade revolucionária mãe, havia-se, no entanto, saído da dependência
dos conspiradores parisienses. A expansão da Liga elevou a sua
autoconsciência. Sentia-se que se criavam raízes cada vez mais na classe
operária alemã e que estes operários alemães estavam historicamente
chamados a ser os porta-bandeira dos operários do Norte e do Leste europeus.
Tinha-se em Weitling um teórico comunista que se podia resolutamente colocar
ao lado dos seus concorrentes franceses da altura. Finalmente, tinha-se
aprendido com a experiência do 12 de Maio que, de momento, não havia nada
[a esperar] das tentativas de golpe [Putschversuchen]. E se também se
continuava a explicar cada evento como sinal da tempestade prestes a
rebentar, se no conjunto se continuava a conservar os antigos estatutos
semiconspiratórios, isso era mais por culpa da velha desconfiança
revolucionária, que já começava a entrar em colisão com a melhor
compreensão [teórica] que se estava a impor.

No entanto, a doutrina social da Liga, indeterminada como era, tinha um


erro muito grande, mas que estava fundado nas condições mesmas. Os
membros, na medida em que, em geral, eram operários, eram quase
exclusivamente artesãos propriamente ditos. O homem que os explorava,
mesmo nas grandes metrópoles, era, na maioria dos casos, apenas um
pequeno mestre. A própria exploração da alfaiataria em grande escala — a
agora chamada confecção — pela conversão da oficina de alfaiataria em
indústria ao domicílio por conta de um grande capitalista, mesmo em Londres,
estava nessa altura só em germinação. Por um lado, o explorador desses
artesãos era um pequeno mestre, por outro lado, todos eles esperavam tornar-
se finalmente eles próprios pequenos mestres. E, além disso, estava ainda
colada ao artesão alemão dessa altura uma massa de representações
corporativas [Zunftvorstellungen] herdadas. Cabe-lhes a maior honra pelo facto
de — não sendo eles próprios ainda plenamente proletários, mas apenas um
apêndice, em vias de transição para o proletariado moderno, da pequena
burguesia [Kleinburgertum], um [apêndice] que ainda não estava em oposição
directa contra a burguesia, isto é, o grande capital — estes artesãos terem sido
capazes de antecipar instintivamente o seu desenvolvimento futuro e de, se
bem que não com plena consciência, se terem constituído como Partido do
proletariado. Mas era também inevitável que os seus velhos pré-juízos de
artesão a cada momento lhes pregassem uma rasteira sempre que se tratava
de criticar em pormenor a sociedade existente, isto é, de investigar factos
económicos. E eu não creio que nessa altura em toda a Liga houvesse um
único homem que alguma vez tivesse lido um livro sobre economia. Porém,
isso importava pouco; a «igualdade», a «fraternidade» e a «justiça» ajudavam,
no entanto, a passar por cima de todas as montanhas teóricas.

Entretanto, tinha-se formado, ao lado do comunismo da Liga e de Weitling,


um segundo, essencialmente diverso. Em Manchester, eu tinha dado com o
nariz em que os factos económicos — que na historiografia até hoje não
desempenham nenhum papel ou apenas um papel desprezado — são, pelo
menos no mundo moderno, um poder histórico decisivo; em que eles formam a
base para o surgimento das oposições de classes hodiernas; em que estas
oposições de classes — nos países em que, em virtude da grande indústria,
elas se desenvolveram completamente, portanto, nomeadamente, em
Inglaterra — são, por sua vez, a base da formação de partidos, das lutas de
partidos e, com isso, da história política toda. Marx não só tinha chegado à
mesma perspectiva como também já nos Deutsch-Französische
[N49]
Jahrbücher (1844)  havia a partir daí generalizado que, em geral, não é o
Estado que condiciona e rege a sociedade civil [bürgerliche Gesellschaft], mas
é a sociedade civil que [condiciona e rege] o Estado, que, por conseguinte, há
que explicar a política e a sua história a partir das relações económicas e do
seu desenvolvimento, e não inversamente. Quando no Verão de 1844 visitei
Marx em Paris, estabeleceu-se a nossa completa concordância em todos os
domínios teóricos, e daí data o nosso trabalho comum. Quando, na Primavera
de 1845, nos encontrámos de novo, em Bruxelas, Marx tinha já desenvolvido,
de um modo acabado, a partir das bases acima [referidas], a sua teoria
materialista da história nos seus traços principais e dedicámo-nos, a partir de
então, a elaborar no pormenor o modo de ver [Anschauungsweise] recém-
adquirido, nas mais diversas direcções.

Esta descoberta, que revolucionou a ciência histórica — que, como se vê,


é essencialmente obra de Marx e de que eu só me posso atribuir uma quota-
parte muito insignificante — foi, porém, de importância imediata para o
movimento operário desse tempo. Comunismo entre franceses e
alemães, cartismo entre ingleses, já não apareciam mais como algo de casual,
que igualmente podia não ter existido. Estes movimentos apresentavam-se
agora como um movimento da classe oprimida moderna, do proletariado, como
formas mais ou menos desenvolvidas da sua luta historicamente necessária
contra a classe dominante: a burguesia; como formas da luta das classes, mas
diferenciando-se de todas as lutas de classes anteriores apenas por isto:
porque a classe oprimida hodierna, o proletariado, não pode realizar a sua
emancipação sem emancipar ao mesmo tempo toda a sociedade da separação
em classes e, com ela, das lutas de classes. E comunismo nunca mais
significou: congeminação, por meio da fantasia, de um ideal de sociedade o
mais perfeito possível, mas: compreensão [teórica] da Natureza, das condições
e dos objectivos gerais, delas resultantes, da luta conduzida pelo proletariado.

De modo nenhum éramos de opinião que os novos resultados científicos


fossem de ciciar exclusivamente ao mundo «erudito» em livros grossos. Pelo
contrário. Nós estávamos já profundamente metidos no movimento político,
tínhamos uma certa adesão no mundo culto, nomeadamente, na Alemanha
Ocidental, e abundante contacto com o proletariado organizado. Estávamos
obrigados a fundamentar cientificamente a nossa perspectiva; porém, era
igualmente importante para nós ganhar o proletariado europeu — e, antes do
mais, o alemão — para as nossas convicções. Assim que clarificámos primeiro
as coisas para nós mesmos, atirámo-nos ao trabalho. Em Bruxelas, fundámos
uma Associação Operária Alemã[N51] e apoderámo-nos da Deutsche-Brüsseler-
Zeitung[N53], que até à revolução de Fevereiro foi um órgão nosso. Estivemos
em contacto com a parte revolucionária dos cartistas ingleses através de Julian
Harney, chefe de redacção do órgão central do movimento, The Northern
Star[N141], de que eu era colaborador. Entrámos igualmente numa espécie de
cartel com os democratas de Bruxelas (Marx era vice-presidente da Sociedade
Democrática[N142]) e com os sociais-democratas franceses da Reforme[N143], a
quem eu dava notícias sobre o movimento inglês e alemão. Em suma, as
nossas ligações com as organizações e órgãos de imprensa radicais e
proletários eram totalmente as que se podia desejar.

Com a Liga dos Justos estávamos como segue. A existência da Liga,


naturalmente, era de nós conhecida; em 1843, Schapper propõs-me a entrada,
que eu, bem entendido, recusei. Porém, nós permanecíamos não só em
contínua correspondência com os de Londres como num contacto ainda mais
estreito com o Dr. Ewerbeck, então dirigente das comunas parisienses. Sem
nos ocuparmos dos acontecimentos internos da Liga sabíamos contudo de
qualquer processo importante. Por outro lado, oralmente, por carta e pela
imprensa, influíamos sobre as perspectivas teóricas dos membros mais
significativos da Liga. Para isso serviam também diversas circulares
litografadas que nós em ocasiões particulares enviávamos aos nossos amigos
e correspondentes pelo mundo, quando se travava de coisas internas do
Partido comunista que se formava. Nestas, a Liga esteve ela própria, por
vezes, em jogo. Assim, um jovem estudante [Studiosus] da
Vestefália, Hermann Kriege, que fora para a América e se apresentara lá como
emissário da Liga, tinha-se associado com o louco Harro Harring para, por
meio da Liga, fazer a América do Sul sair dos gonzos e tinha fundado uma
folha(14*) onde, em nome da Liga, pregava um exaltado comunismo do devaneio
de amor, que repousava no «amor» e transbordava de amor. Arrancámos
contra isto numa circular(15*) que não falhou o seu efeito. Kriege desapareceu da
cena da Liga.

Mais tarde, Weitling veio para Bruxelas. Mas, já não era mais o jovem


ingénuo oficial-alfaiate que, admirado dos seus dotes próprios, procurava tornar
claro para si como é que, então, uma sociedade comunista poderia parecer.
Era o grande homem perseguido por invejosos por causa da sua superioridade,
que farejava por toda a parte rivais, inimigos secretos, armadilhas; [era] o
profeta acossado de país para país, que trazia pronta na algibeira uma receita
para a realização do céu na Terra e que imaginava que todos só andavam
atrás dela para lha roubarem. Ele já se tinha zangado com a gente da Liga em
Londres, e, também em Bruxelas, onde Marx e a mulher o tinham acolhido com
uma paciência quase sobre-humana; não conseguiu entender-se com ninguém.
Assim, foi pouco depois para a América, para tentar lá o
profetismo [Prophetentum].

Todas estas circunstâncias contribuíram para o revolucionamento


silencioso que se completava na Liga e, nomeadamente, entre os dirigentes de
Londres. A insuficiência da concepção do comunismo até então, tanto do
simples comunismo igualitário francês como do de Weitling, tornava-se para
eles cada vez mais clara. A regressão, introduzida por Weitling, do comunismo
ao cristianismo primitivo — por muitos pormenores geniais que se encontrem
no seu Evangelium des armen Sanders [Evangelho do Pobre Pecador] — tinha
entregado o movimento, na Suíça, em grande parte, nas mãos, primeiro, de
loucos como Albrecht e, depois, de pseudoprofetas como Kuhlmann. O
«socialismo verdadeiro» bufarinhado por alguns beletristas — uma tradução de
locuções socialistas francesas num corrompido alemão de Hegel e num
sentimental devaneio de amor (veja-se a secção sobre o socialismo alemão, ou
«verdadeiro», no Manifesto Comunista) —, que Kriege e a leitura dos escritos
correspondentes tinham introduzido na Liga, tinha que repugnar já aos velhos
revolucionários da Liga, por causa da debilidade babosa dele. Face à
insustentabilidade das representações teóricas de até então, face às
aberrações práticas que daí derivavam, em Londres, via-se cada vez mais que
Marx e eu, com a nossa nova teoria, tínhamos razão. Esta compreensão foi
indubitavelmente promovida pelo facto de entre os dirigentes de Londres se
encontrarem, então, dois homens que eram significativamente superiores aos
[já] mencionados em capacidade para o conhecimento teórico: o pintor de
miniaturas Karl Pfänder, de Heilbronn, e o alfaiate Georg Eccarius, de
Thuringen(16*).

Basta [dizer] que, na Primavera de 1847, Moll apareceu em Bruxelas em


casa de Marx e logo depois em Paris em minha casa para, em nome dos seus
camaradas, nos convidar repetidamente a entrar na Liga. Eles estavam
convencidos da correcção geral da nossa maneira de ver, assim como da
necessidade de libertar a Liga das velhas tradições e formas conspiratórias. Se
quiséssemos entrar, havia de nos ser dada a oportunidade, num congresso da
Liga, de desenvolver num manifesto o nosso comunismo crítico, que seria
publicado, em seguida, como manifesto da Liga; e, assim, poderíamos
contribuir com a nossa [parte] para que a organização antiquada da Liga fosse
substituída por uma [outra], conforme aos novos tempos e objectivos.

Que era necessária uma organização no interior da classe operária alemã,


que mais não fosse para a propaganda, e que essa organização, na medida
em que não fosse de natureza meramente local, mesmo fora da Alemanha, só
podia ser uma [organização] secreta — disso não tínhamos dúvida. Ora, uma
tal organização existia já, precisamente, na Liga. O que nós tínhamos até então
criticado a esta Liga era agora abandonado pelos próprios representantes da
Liga como erróneo; nós próprios éramos convidados a colaborar na
reorganização. Podíamos nós dizer que não? Certamente que não. Entrámos,
portanto, para a Liga; Marx formou em Bruxelas uma comuna da Liga com os
nossos amigos mais próximos, enquanto eu frequentava as três comunas
parisienses.

No Verão de 1847, teve lugar em Londres o primeiro congresso da Liga,


em que W. Wolff representou a comuna de Bruxelas e eu as de Paris.
Procedeu-se aí, antes do mais, à reorganização da Liga. O que ainda restava
dos velhos nomes místicos do tempo da conspiração foi agora também abolido;
a Liga organizou-se em comunas [Gemeinde], círculos [Kreise], círculos
directivos [leitende Kreise], autoridade central [Zentralbehörde] e
congresso [Kongress] e denominou-se a partir de então: «Liga dos
Comunistas» [«Bund der Kommunisten»]. «O objectivo da Liga é o
derrubamento da burguesia, a dominação do proletariado, a superação da
velha sociedade burguesa que repousa sobre oposições de classes, e a
fundação de uma nova sociedade sem classes e sem propriedade privada» —
assim dizia o artigo primeiro(17*). A organização ela própria era inteiramente
democrática, com autoridades eleitas e sempre amovíveis, e somente com isso
cortou-se o passo a todas as veleidades de conspiração, que requerem a
ditadura, e a Liga — pelo menos, em tempos habituais de paz — converteu-se
numa pura sociedade de propaganda. Estes novos estatutos — tão
democraticamente se procedia agora — foram apresentados para discussão às
comunas, depois foram mais uma vez debatidos no segundo Congresso e por
ele definitivamente aprovados em 8 de Dezembro de 1847. Estão reimpressos
por Wermuth e Stieber, [vol.] I, p. 239, An[exo] X.

O segundo Congresso teve lugar em fins de Novembro e princípios de


Dezembro do mesmo ano. Aqui Marx já estava presente e defendeu em longos
debates — o Congresso durou, pelo menos, 10 dias — a nova teoria. Toda a
contradição e dúvida foram finalmente resolvidas, os novos princípios foram
aprovados por unanimidade e Marx e eu fomos encarregados de elaborar
o Manifesto. Isto aconteceu imediatamente a seguir. Poucas semanas antes da
revolução de Fevereiro era enviado para Londres, para impressão. Desde
então, tem dado a volta ao mundo, foi traduzido em quase todas as línguas e
ainda hoje serve, nos mais variados países, de guia ao movimento proletário.
Para o lugar do antigo lema da Liga: «Todos os homens são irmãos», entrou o
novo grito de batalha: «Proletários de todos os países, uni-vos!», que
proclamava abertamente o carácter internacional da luta. Dezassete anos mais
tarde, este grito de batalha ecoou pelo mundo como grito de guerra
da Associação Internacional dos Trabalhadores e hoje o proletariado combativo
de todos os países tem-no inscrito nas suas bandeiras.

Rebentou a revolução de Fevereiro. A autoridade central, até aí em


Londres, transferiu logo os seus poderes para o círculo directivo de Bruxelas.
Mas esta decisão veio numa altura em que em Bruxelas dominava já um
efectivo estado de sítio e os alemães, nomeadamente, já não se podiam reunir
em parte nenhuma. Estávamos todos, precisamente, a dar o salto para Paris e,
assim, a nova autoridade central decidiu igualmente dissolver-se, transferir
todos os plenos poderes para Marx e mandatá-lo para que constituísse logo em
Paris uma nova autoridade central. Mal as cinco pessoas que tinham tomado
esta decisão (em 3 de Março de 1848) se tinham separado, a polícia entrou em
casa de Marx, prendeu-o e, no dia seguinte, compeliu-o a partir para França,
para onde ele de boa vontade queria ir.

Em breve nos encontrámos de novo todos em Paris. Aí foi também


elaborado o seguinte documento, assinado pelos membros da nova autoridade
central, que foi distribuído por toda a Alemanha e com o qual ainda hoje muitos
podem aprender alguma coisa:

«REIVINDICAÇÕES DO PARTIDO COMUNISTA NA ALEMANHA»[N145]

1. Toda a Alemanha será declarada uma República una, indivisível.

3. Os representantes do povo serão pagos, para que também os operários


possam ter assento no Parlamento do povo alemão.

4. Armamento geral do povo.

7. Os bens territoriais dos príncipes e outras [terras] feudais, todas as


minas, poços, etc, serão transformadas em propriedade do Estado. Nestas
terras será empreendida a agricultura em larga [escala] e com os meios de
ajuda mais modernos da ciência, em benefício da colectividade [Gesamtheit].
8. As hipotecas sobre terras de camponeses serão declaradas propriedade
do Estado. Os juros dessas hipotecas serão pagos pelos camponeses ao
Estado.

9. Nas regiões onde o sistema do arrendamento [de


terras, Pachtwesen] estiver desenvolvido, a renda fundiária [Grundrente] ou o
arrendamento [Pachtschilling] será pago ao Estado como imposto.

11. O Estado toma nas suas mãos todos os meios de transporte:


caminhos-de-ferro, canais, barcos a vapor, caminhos, correios, etc. Serão
transformados em propriedade do Estado e postos gratuitamente à disposição
da classe desprovida de meios.

14. Limitação do direito de herança.

15. Introdução de fortes impostos progressivos e abolição dos impostos de


consumo.

16. Estabelecimento de oficinas nacionais. O Estado garante a existência a


todos os operários e cuida dos incapazes de trabalho.

17. Instrução geral, gratuita, do povo.

E do interesse do proletariado alemão, do estado de pequeno burguês e


do estado camponês, trabalhar com toda a energia pela adopção das medidas
acima [referidas]. Pois, só pela sua realização podem os milhões [de pessoas]
que na Alemanha até aqui têm sido exploradas por um pequeno número, e que
se quer continuar a procurar manter na opressão, obter os seus direitos e o
poder que lhes é devido como produtores de toda a riqueza.

O Comité: 
Karl Marx, Karl Schapper, H. Bauer, F. Engels, J. Moll, W. Wolff

Em Paris dominava então a mania das legiões revolucionárias. Espanhóis,


italianos, belgas, holandeses, polacos, alemães juntavam-se em magote para
libertar as suas respectivas pátrias. A legião alemã era dirigida
por Herwegh, Bornstedt, Börnstein. Uma vez que logo depois da revolução os
operários estrangeiros, não só ficaram sem emprego, como também eram
ainda fustigados pelo público, estas legiões encontraram um grande afluxo. O
novo governo viu nelas um meio para se ver livre de operários estrangeiros e
concedeu-lhes a étape du soldat(18*), isto é, aboletamento e o subsídio de
marcha de 50 cêntimos por dia até à fronteira, onde então o sempre comovido
até às lágrimas ministro dos Negócios Estrangeiros, o bem-falante Lamartine,
sempre encontrava oportunidade de os denunciar aos respectivos governos.

Opusemo-nos da maneira mais decidida a este brincar à revolução. Trazer


para o meio da efervescência de então da Alemanha uma invasão que
coercivamente devia importar de fora a revolução significava pregar uma
rasteira à revolução na própria Alemanha, fortalecer os governos e entregar os
próprios legionários sem defesa — Lamartine encarregava-se disso — nas
mãos das tropas alemãs. Quando, depois, a revolução venceu em Viena e em
Berlim, a legião ficou, por maioria de razão, sem objectivos; mas, tinha-se
começado e havia que continuar a brincar.

Fundámos um clube comunista alemão[N146] onde aconselhávamos os


operários a manterem-se afastados da legião, mas, em contrapartida, a
regressarem individualmente à pátria e a agirem aí a favor do movimento. O
nosso velho amigo Flocon, que tinha assento no governo provisório, obteve
para os operários por nós enviados as mesmas ajudas de viagem que eram
atribuídas aos legionários. Deste modo, enviámos de volta para a Alemanha
trezentos ou quatrocentos operários, a grande maioria dos quais eram
membros da Liga.

Como era fácil de prever, face ao movimento das massas do povo então
desencadeado, a Liga mostrou-se uma alavanca muito fraca. Três quartos dos
membros da Liga, que anteriormente moravam no estrangeiro, com o regresso
à pátria, tinham mudado de residência; as suas comunas de até então estavam
por isso em grande parte dissolvidas, todo o contacto com a Liga, para eles,
tinha-se perdido. Uma parte dos mais ambiciosos de entre eles também não
voltou a procurar [contacto com ela], mas iniciou, cada um na sua localidade,
por conta própria, um pequeno movimento separado. E, finalmente, em cada
pequeno Estado isolado, em cada província, em cada cidade, as condições
eram de novo tão diversas que a Liga não estava em situação de dar mais do
que directivas totalmente gerais; era, porém, muito melhor que estas fossem
divulgadas pela imprensa. Em suma, desde o momento em que tinham
cessado as causas que tinham necessariamente tornado secreta a Liga, a Liga
secreta como tal cessou também de significar alguma coisa. Isto só
minimamente podia surpreender as pessoas que acabavam de desembaraçar
a mesma Liga secreta das últimas sombras do carácter conspiratório.

Mas, provava-se agora que a Liga tinha sido uma excelente escola de
actividade revolucionária. No Reno, onde a Neue Rheinische
(19*)
Zeitung  fornecia um ponto central firme, em Nassau, no Hessen renano, etc,
por toda a parte, membros da Liga estavam à cabeça do movimento
democrático extremo. Do mesmo modo em Hamburgo. Na Alemanha do Sul, o
predomínio da democracia pequeno-burguesa barrava o caminho. Em
Breslau, Wilhelm Wolff esteve activo com grande sucesso até ao Verão de
1848; detinha também um mandato pela Silésia como representante suplente
ao Parlamento de Frankfurt[N130]. Finalmente, em Berlim, o compositor
tipográfico Stephan Born, que em Bruxelas e em Paris tinha trabalhado como
membro activo da Liga, fundou uma «Fraternidade Operária», que teve uma
difusão considerável e subsistiu até 1850. Born, um jovem muito talentoso que,
porém, estava demasiado apressado na sua transformação em figura política,
«fraternizou-se» com os mais diversos gregos e troianos apenas para juntar um
magote de gente, e não era de modo nenhum o homem que podia trazer a
unidade às tendências que se opunham, luz ao caos. Nas publicações oficiais
desta associação circulam por isso perspectivas defendidas também
no Manifesto Comunista à mistura com reminiscências corporativas e desejos
corporativos, restos de Louis Blanc e Proudhon, proteccionices, etc; em suma,
queria-se agradar a toda a gente. Especialmente, eram postas em andamento
greves, associações de ofícios, cooperativas de produção e esquecia-se que
se tratava, antes do mais, de, por vitórias políticas, conquistar o terreno a partir
do qual somente, com o tempo, semelhantes coisas são realizáveis. Quando,
depois, as vitórias da reacção tornaram perceptível aos dirigentes da
Fraternidade a necessidade de entrar directamente na luta revolucionária foram
evidentemente abandonados pela massa confusa que tinham agrupado à sua
volta. Born participou em Dresden na insurreição de Maio de 1849 [N57] e
escapou com sorte. Mas, face ao grande movimento político do proletariado, a
«Fraternidade Operária» portou-se apenas como uma liga
separada [Sonderbund] que, em grande parte, só existia no papel e
desempenhou um papel tão subordinado que a reacção só achou necessário
reprimi-la em 1850 e aos alporques que continuaram a existir só muitos anos
depois. Born, que se chamava propriamente Buttermilch (20*), não se tornou
figura política nenhuma, mas um pequeno professor suíço que já não traduz
Marx em linguagem corporativa, mas o doce Renan no seu próprio alemão
açucarado.

Com o 13 de Junho de 1849 em Paris[N58], com a derrota das insurreições


de Maio alemãs e a repressão da revolução húngara pelos russos, fechou-se
um grande período da revolução de 1848. Mas a vitória da reacção não era de
modo nenhum definitiva. Uma reorganização das forças revolucionárias
dispersas era requerida, e portanto também a da Liga. As condições impediam
de novo, tal como antes de 1848, uma organização legal do proletariado; tinha-
se, portanto, que o organizar de novo secretamente.
No Outono de 1849, a maioria dos membros da autoridade central e do
congresso anteriores encontrava-se de novo junta em Londres. Faltava
apenas Schapper, que estava ainda preso em Wiesbaden, mas que depois da
sua absolvição na Primavera de 1850 igualmente chegou, e Moll, que após ter
cumprido uma série de viagens, das mais perigosas, em missão e de agitação
— por fim ganhou, mesmo no meio do exército prussiano na Província renana,
canhoneiros montados para a artilharia do Palatinado — se alistou na
companhia operária de Besançon no corpo de Willich e, durante um rencontro
no Murg, adiante da ponte de Rothenfels, foi morto com um tiro na cabeça. Em
contrapartida, Willich entrou então [em cena]. Willich era um daqueles
comunistas sentimentais tão correntes na Alemanha Ocidental desde 1845
que, por isso apenas, estava em oposição secreta, instintiva, contra a nossa
orientação crítica. Mas, mais do que isso, ele era o profeta completo,
convencido da sua missão pessoal de libertador predestinado do proletariado
alemão e, como tal, pretendente directo à ditadura política, não menos do que
à militar. Assim, ao lado do comunismo paleocristão pregado
por Weitling apareceu uma espécie de Islão comunista. Contudo, a propaganda
desta nova religião ficou, antes do mais, limitada à caserna de refugiados
comandados por Willich.

Portanto, a Liga foi organizada de novo, foi publicada a Mensagem de


Março de 1850 impressa no Anexo (IX, n.° 1 [N147]), e Heinrich Bauer foi enviado
como emissário à Alemanha. A Mensagem redigida por Marx e por mim ainda
hoje tem interesse, porque a democracia pequeno-burguesa mesmo agora é
ainda aquele partido que, por ocasião do próximo abalo europeu — que em
breve se verificará (o tempo de intervalo das revoluções europeias, 1815, 1830,
1848-1852, 1870, dura no nosso século de 15 a 18 anos) —, terá em todo o
caso de ser o primeiro a chegar ao leme, na Alemanha, como salvador da
sociedade ante os operários comunistas. Muito do que ali é dito aplica-se,
portanto, ainda hoje. A viagem em missão de Heinrich Bauer foi coroada de
completo sucesso. O pequeno sapateiro divertido era um diplomata nato. Ele
trouxe os antigos membros da Liga — que, em parte, se tinham tornado
indiferentes, em parte, operavam por conta própria — de novo para a
organização activa, nomeadamente, também os então dirigentes da
«Fraternidade Operária». A Liga começou a desempenhar o papel
determinante nas associações operárias, camponesas e gímnicas numa
medida de longe maior do que antes de 1848, de tal modo que a Mensagem
trimestral seguinte às comunas, de Junho de 1850, pôde constatar que o
estudante [Studiosus] Schurz, de Bonn (mais tarde, ex-ministro americano),
que viajava pela Alemanha no interesse da democracia pequeno-burguesa,
«tinha encontrado todas as forças utilizáveis já nas mãos da Liga» (v. Anexo
IX, n.° 2)(21*). A Liga era incondicionalmente a única organização revolucionária
que na Alemanha tinha algum significado.

Mas, o para que essa organização havia de servir dependia muito


essencialmente de se as perspectivas de um surto renovado da revolução se
realizassem. E, no decurso do ano de 1850, isso tornou-se cada vez mais
inverosímil, mesmo impossível. A crise industrial de 1847, que tinha preparado
a revolução de 1848, estava vencida; tinha rebentado um novo período de
prosperidade industrial, inaudita até aí; para quem tivesse olhos para ver e os
utilizasse tinha que ser claro que a tempestade revolucionária de 1848 se
esgotava gradualmente.

«Com esta prosperidade geral, em que as forças


produtivas da sociedade burguesa se desenvolvem tão
exuberantemente quanto é, em geral, possível no
interior das relações burguesas, não se pode falar de
maneira nenhuma de uma revolução real (22*). Uma tal
revolução só é possível nos períodos em que
estes dois factores — as forças produtivas modernas e
as formas de produção burguesas — entram
em contradição um com o outro(23*). As diversas
querelas em que agora os representantes das fracções
isoladas do partido continental da ordem se perdem e
mutuamente se comprometem, muito longe de darem
ocasião a novas revoluções, são, pelo contrário,
possíveis apenas porque a base das relações é
momentaneamente tão segura e — o que a reacção
não sabe — tão burguesa. Nela, todas as tentativas da
reacção que travam o desenvolvimento burguês
farão tão seguramente ricochete como toda a
indignação moral e todas as proclamações
entusiásticas dos democratas.»(24)

Escrevíamos isto, Marx e eu, na «Revue von Mai bis Oktober 1850»
[«Revista de Maio a Outubro de 1850»], na Neue Rheinische Zeitung. Politisch-
ökonomische Revue[N59], fascículos V e VI, Hamburg 1850 p. 153.

Esta fria concepção da situação foi, porém, para muita gente uma heresia,
num tempo em que Ledru-Rollin, Louis Blanc, Mazzini, Kossuth e — dos
pequenos luminares alemães — Ruge, Kinkel, Goegg e todos os outros se
reuniam em Londres aos magote para formar governos provisórios futuros, não
só para as suas res pectivas pátrias, mas também para toda a Europa, e
quando já só se tratava de obter o dinheiro preciso na América, como
empréstimo revolucionário, para que se realizassem num abrir e fechar de
olhos a revolução europeia e além disso, com ela, as implícitas diversas
repúblicas. De que um homem como Willich caísse nisto e que
também Schapper, pelo seu velho ímpeto revolucionário, se deixasse enganar,
de que a maioria dos operários de Londres — na maior parte, eles próprios
refugiados — os seguissem para o campo dos fazedores de revolução
democrato-burgueses, quem se pode admirar? Basta que se diga que a
reserva por nós defendida não ia no sentido desta gente; devia entrar-se na
fazedura de revoluções [Revolutionsmacherei]; nós recusámo-nos do modo
mais decidido. Seguiu-se a cisão; o resto pode ler-se nas Enthüllungen(25). Veio
depois a prisão, primeiro, de Nothjung, depois, de Haupt em Hamburg, o qual
se tornou traidor ao dar os nomes da autoridade central de Colónia e ao ter
servido no processo como testemunha principal; mas os seus parentes não
queriam passar por este opróbrio e expediram-no para o Rio de Janeiro, onde
ele se estabeleceu mais tarde como comerciante e onde, em reconhecimento
dos seus serviços, se tornou cônsul-geral, primeiro, da Prússia e, depois, da
Alemanha. Agora, está de novo na Europa(26).

Para melhor entendimento do que se segue, dou a lista dos acusados de


Colónia:

1. P. G. Röser, operário cigarreiro;


2. Heinrich Bürgers, que mais tarde morreu deputado
progressista ao Landtag;
3. Peter Nothjung, alfaiate, morreu há poucos anos como
fotógrafo em Breslau;
4. W. J. Reiff;
5. Dr. Hermann Becker, actualmente primeiro
burgomestre [Oberburgermeister] de Colónia e membro da
Câmara dos Senhores [Herrenhaus];
6. Dr. Roland Daniels, médico, morreu poucos anos depois do
processo de uma tísica apanhada na prisão;
7. Karl Otto, químico;
8. Dr. Abraham Jacobi, actualmente médico em New York;
9. Dr. J. J. Klein, actualmente médico e
vereador [Stadtverordneter] em Colónia;
10. Ferdinand Freiligrath que, nessa altura, porém, já estava
em Londres;
11. J. L. Ehrhard, empregado de comércio;
12. Friedrich Lessner, alfaiate, actualmente em Londres.
Destes, após um julgamento público perante os jurados, que durou de 4 de
Outubro a 12 de Novembro de 1852, foram condenados por tentativa de alta-
traição: Röser, Bürgers e Nothjung a 6 anos de presídio; Reiff, Otto, Becker, a
5; Lessner, a 3; Daniels, Klein, Jacobi e Ehrhard foram absolvidos.

Com o processo de Colónia encerra-se este primeiro período do


movimento operário comunista alemão. Imediatamente após a sentença
dissolvemos a nossa Liga; poucos meses mais tarde, a Liga
separada [Sonderbund] de Willich—Schapper[N148] também ia para o eterno
descanso.

Entre essa altura e hoje passou uma geração. Nessa altura, a Alemanha
era um país de artesãos e de indústria a domicílio repousando sobre trabalho
manual; hoje, é um grande país industrial apanhado ainda num contínuo
revolucionamento industrial. Nessa altura, tinha que se andar à procura um a
um dos operários que tinham um entendimento da sua situação como operários
e da sua oposição histórico-económica contra o capital, porque essa mesma
oposição estava apenas a surgir. Hoje, tem que se pôr o proletariado alemão
todo sob leis de excepção, apenas para atrasar minimamente o processo de
desenvolvimento para uma consciência plena da sua situação como classe
oprimida. Nessa altura, as poucas pessoas imbuídas do conhecimento do
papel histórico do proletariado tinham que se reunir em segredo, que se juntar
furtivamente em pequenas comunas de três até vinte pessoas. Hoje, o
proletariado alemão já não precisa mais de nenhuma organização oficial, nem
secreta nem legal; a simples e evidente conexão de camaradas de classe com
a mesma maneira de pensar basta para, sem quaisquer estatutos, autoridades,
resoluções e outras formas palpáveis semelhantes, abalar o Império Alemão
todo. Bismarck é árbitro na Europa; fora, para além das fronteiras [da
Alemanha]; mas, dentro delas, cresce diariamente de um modo mais
ameaçador aquela figura de atleta do proletariado alemão — que Marx, em
1844, já anteviu: o gigante, para quem o estreito edifício do Império feito à
medida dos filisteus se torna já demasiado apertado e cuja estatura poderosa e
largos ombros vão crescendo até ao momento em que o seu mero levantar-se
do assento faz em fanicos todo o edifício da constituição imperial. E ainda
mais. O movimento internacional do proletariado europeu e americano está
agora tão fortalecido que, não apenas a sua primeira forma estreita — a Liga
secreta —, como mesmo a sua, segunda forma, infinitamente mais abrangente
— a Associação Internacional dos Trabalhadores, legal —, se tornaram um
entrave para ele; que o simples sentimento de solidariedade, repousando na
compreensão da mesmidade da situação de classe, é suficiente, entre os
operários de todos os países e línguas, para criar e manter unido um mesmo e
grande Partido do proletariado. As doutrinas que a Liga defendeu de 1847 até
1852 e que, nessa altura, podiam ser tratadas pelo filistério [Philisterium] sábio,
com um encolher de ombros, como quimera de cabeças loucas extremas (27),
como doutrina secreta de alguns sectários dispersos, têm agora numerosos
apoiantes em todos os países civilizados do mundo, entre os condenados das
minas da Sibéria como entre os pesquisadores de ouro da Califórnia; e o
fundador desta doutrina, o homem mais odiado, mais caluniado do seu tempo
— Karl Marx — era, quando morreu, o conselheiro sempre procurado e sempre
pronto do proletariado dos dois mundos(28).

Londres, 8 de Outubro de 1885. 


Friedrich Engels

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Notas de rodapé:

(1*) Em anexo à primeira parte — que, como manual para polícias, continha
uma «história» do movimento operário — publicavam-se alguns documentos
da Liga dos Comunistas que haviam caído nas mãos da polícia. A segunda
parte continha uma «lista negra» com dados biográficos de pessoas que
estavam em ligação com o movimento operário e com o movimento
democrático, em geral. (Nota da edição portuguesa, segundo indicações
contidas nas MEW.) (retornar ao texto)

(2*) Em francês no texto: à maneira de. (Nota da edição portuguesa.) (retornar


ao texto)

(3*) Em francês no texto: Sociedade das Estações [do Ano]. (Nota da edição


portuguesa.) (retornar ao texto)

(4*) Schapper foi imediatamente preso após a insurreição de 12 de Maio e


expulso de França depois de sete meses de prisão. Bauer continuou a sua
actividade revolucionária em Paris, foi preso em 1842 e igualmente
expulso. (Nota da edição portuguesa, segundo indicações contidas nas MEW.)
(retornar ao texto)

(5*) Por comunismo igualitário [Gleichheitskommunismus] entendo, como disse,


unicamente o comunismo que assenta exclusiva ou predominantemente na
reivindicação de igualdade. (Nota de Engels) (retornar ao texto)

(6*) Biblicamente, tratava-se, entre os Judeus, dos «Doutores da Lei». (Nota da


edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(7*) O itálico é de Engels. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)


(8*) Nesta passagem do artigo citado, Engels não respeita o itálico de Marx
para «política». (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(9*) Engels não respeita o itálico de Marx para: «imensurável». (Nota da edição


portuguesa.) (retornar ao texto)

(10*) Marx apenas põe em itálico a expressão: «sapatos de criança». (Nota da


edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(11*) Marx acrescenta: alemã. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(12*) e (13*) «Gata-borralheira alemã» e «figura de atleta» estão em itálico no


texto de Marx. Engels tira toda esta citação do artigo de Marx: «Kritische
Randglossen zu dem Artikel "Der König von Preussen und die Sozialreform.
Von einem Preussen"» [«Glosas Marginais Críticas ao Artigo "O Rei da Prússia
e a Reforma Social. De Um Prussiano"»]. Ver MEW, Bd. 1, S. 405. (Nota da
edição portuguesa.) (retornar ao texto) (retornar ao texto)

(14*) Der Volks-Tribun[N144]. (retornar ao texto)

(15*) Tratava-se da Zirkular gegen Kriege [Circular contra Kriege] de Marx e


Engels. Ver MEW, Bd. 4, S. 3-17. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao
texto)

(16*) Pfänder morreu em Londres há quase oito anos. Era uma cabeça


pensante Particularmente fina, espirituoso, irónico, dialéctico. Eccarius, como é
sabido, foi mais tarde durante largos anos secretário-geral da Associação
Internacional dos Trabalhadores, em cujo Conselho Geral tinham assento,
entre outros, os seguintes antigos membros da
Liga: Eccarius, Pfänder, Lessner, Lochner, Marx, eu. Mais
tarde, Eccarius dedicou-se exclusivamente ao movimento sindical inglês. (Nota
de Engels.) (retornar ao texto)

(17*) Engels cita aqui o artigo 1 dos Estatutos da Liga dos


Comunistas. Ver MEW, Bd. 4, S. 596. (Nota da edição portuguesa.) (retornar
ao texto)

(18*) Em francês no texto. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(19*) Cf. o presente tomo, pp. 182-191. (Nota da edição portuguesa.) (retornar


ao texto)

(20*) Literalmente: leite de manteiga. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao


texto)

(21*) Cf. Ansprache der Zentralbehörde an den Bund vom Juni


1850 [Mensagem da Autoridade Central à Liga de Junho de 1850]. Ver MEW,
Bd. 7, S. 306-312. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)
(22*) Nesta citação, o itálico é apenas de Engels. (Nota da edição portuguesa.)
(retornar ao texto)

(23*) Na sua citação, Engels não reproduz os itálicos deste período no texto
original. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(24*) O itálico é apenas de Engels. Neste período, onde Engels cita: «tão
seguramente», no original apenas está: «tanto». Cf. MEW, Bd. 7, S. 440. Este
texto consta também do IV capítulo acrescentado por Engels à edição 1895 da
obra de Marx, As Lutas de Classes em França de 1848 a 1850. Cf. presente
edição, t. I, 1982, pp. 298-199. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(25*) Referência à obra de Marx Enthüllungen über den Kommunisten-Prozess


zu Köln [Revelações sobre o Processo dos Comunistas de Colónia]. Ver MEW,
Bd. 8, S. 405-470. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(26*) Schapper morreu nos finais dos anos sessenta em


Londres. Willich participou com distinção na Guerra Civil americana 63; na
batalha de Murfreesboro (Tenessee), como general de brigada, recebeu um tiro
no peito, mas curou-se e morreu há uns dez anos na América. — Acerca de
outras pessoas acima mencionadas, quero observar ainda que Heinrich
Bauer desapareceu na Austrália, Weitling e Ewerbeck morreram na
América. (Nota de Engels.) (retornar ao texto)

(27*) Isto é, extremistas. (Nota da edição portuguesa.) (retornar ao texto)

(28*) Da Europa e da América, Velho e Novo Mundo. (Nota da edição


portuguesa.) (retornar ao texto)

Notas de fim de tomo:

[N49] Deutsch-Französische Jahrbücher (Anais Franco-Alemães): publicaram-


se em Paris, em alemão, sob a direcção de K. Marx e A. Ruge. Saiu apenas o
primeiro fascículo (duplo) em Fevereiro de 1844. A principal causa da
interrupção da saída da revista foram as divergências de princípio entre Marx e
o radical burguês Ruge. (retornar ao texto)

[N51] A Deutsche Arbeiterverein (Associação Operária Alemã) de Bruxelas foi


fundada por Marx e Engels em fins de Agosto de 1847, com o objectivo de
educar politicamente os operários alemães residentes na Bélgica e de propagar
entre eles as ideias do comunismo científico. Sob a direcção de Marx, Engels e
dos seus companheiros, a Associação converteu-se num centro legal de união
dos proletários revolucionários alemães na Bélgica. Os melhores elementos da
Associação faziam parte da comuna de Bruxelas da Liga dos Comunistas. As
actividades da Associação Operária Alemã de Bruxelas foram suspensas
pouco depois da revolução de Fevereiro de 1848, em França, devido às
detenções e à expulsão dos seus membros pela polícia belga. (retornar ao
texto)
[N53] Deutsche-Brüsseler-Zeitung (Gazeta Alemã de Bruxelas): jornal fundado
pelos emigrados políticos alemães em Bruxelas; publicou-se de Janeiro de
1847 até Fevereiro de 1848. A partir de Setembro de 1847 Marx e Engels
colaboraram permanentemente nele e exerceram uma influência directa na sua
orientação. Sob a direcção de Marx e Engels, o jornal tornou-se órgão da Liga
dos Comunistas. (retornar ao texto)

[N57] Trata-se da insurreição armada em Dresden de 3 a 8 de Maio e das


insurreições na Alemanha do Sul e do Oeste de Maio a Julho de 1849 em
defesa da Constituição imperial aprovada pela Assembleia Nacional de
Frankfurt a 28 de de Março de 1849, mas rejeitada por vários Estados alemães.
Estas insurreições tinham um carácter isolado e espontâneo e foram
esmagadas em meados de Julho de 1849. (retornar ao texto)

[N58] A 13 de Junho de 1849 em Paris o partido pequeno-burguês da


Montanha organizou uma manifestação pacífica de protesto contra o envio de
tropas francesas para esmagar a revolução na Itália. A manifestação foi
dispersa pela tropa. Muitos dirigentes da Montanha foram presos e deportados
ou tiveram que emigrar de França. (retornar ao texto)

[N59] Neue Rheinische Zeitung. Politisch-ökonomische Revue (Nova Gazeta


Renana. Revista Politico-Económica): revista, órgão teórico da Liga dos
Comunistas, fundada por Marx e Engels, publicou-se de Dezembro de 1849 a
Novembro de 1850. Saíram seis números. (retornar ao texto)

[N61] Trata-se do processo provocatório de Colónia, organizado pelo governo


prussiano contra 11 membros da Liga dos Comunistas (4 de Outubro—12 de
Novembro de 1852). Acusados de crime de alta traição na base de documentos
falsos e de falsos testemunhos, sete deles foram condenados a reclusão em
presídio por prazos de três a seis anos. (retornar ao texto)

[N126] Vowärts! (Avante!): jornal alemão que se publicou em Paris de Janeiro a


Dezembro de 1844, duas vezes por semana. Marx e Engels colaboraram nele.
(retornar ao texto)

[N130] Assembleia de Frankfurt: Assembleia Nacional convocada depois da


revolução de Março na Alemanha, que iniciou as suas sessões a 18 de Maio de
1848 em Frankfurt. A tarefa principal da Assembleia consistia em liquidar o
fraccionamento político da Alemanha e em elaborar a Constituição de toda a
Alemanha. No entanto, em virtude da cobardia e das vacilações da sua maioria
liberal, da indecisão e da inconsequência da sua ala esquerda, a Assembleia
não se atreveu a tomar nas suas mãos o poder supremo do país e não soube
adoptar uma posição firme em relação às questões fundamentais da revolução
alemã de 1848-1849. A 30 de Maio de 1849, a Assembleia viu-se obrigada a
transferir a sua sede para Stuttgart. A 18 de Junho foi dissolvida pelas tropas. 
A Assembleia de Berlim reuniu-se em Berlim em Maio de 1848 para elaborar a
Constituição «de comum acordo com a Coroa». Ao adoptar esta fórmula como
base da sua actividade, a Assembleia renunciou com isso ao princípio da
soberania do povo; em Novembro foi transferida para Brandeburgo por um
decreto do rei; foi dissolvida durante o golpe de Estado na Prússia em
Dezembro de 1848. (retornar ao texto)

[N134] O trabalho de Engels Para a História da Liga dos Comunistas foi escrito


como introdução à edição alemã de 1885 do trabalho de Marx Revelações
sobre o Processo dos Comunistas de Colónia. Nos anos em que vigorou a Lei
de excepção era muito importante que a classe operária da Alemanha
aprendesse a experiência da luta revolucionária no período da ofensiva da
reacção de 1849-1852. Precisamente por isso Engels considerou necessário
reeditar esta publicação de Marx. (retornar ao texto)

[N135] Babovismo: corrente do comunismo utópico igualitário, fundada pelo


revolucionário francês de fins do século XVIII Gracchus Babeuf e pelos seus
adeptos. (retornar ao texto)

[N136] Société des Saisons (Sociedade das Estações do Ano): organização


conspirativa republicano-socialista secreta que actuava em Paris nos anos de
1837 a 1839 sob a direcção de A. Blanqui e A. Barbes. 
A sublevação de 12 de Maio de 1839, em Paris, na qual desempenharam o
papel principal os operários revolucionários, foi preparada pela Société des
Saisons; a sublevação, que não se apoiava nas amplas massas, foi esmagada
pelas tropas governamentais e pela Guarda Nacional. (retornar ao texto)

[N137] Trata-se de um episódio da luta dos democratas alemães contra a


reacção na Alemanha, denominado «atentado de Frankfurt»; um grupo de
elementos radicais assaltou a 3 de Abril de 1833 o órgão central da
Confederação Germânica — a Dieta Federal de Frankfurt — para provocar a
revolução no país e proclamar a República de toda a Alemanha; as tropas
esmagaram a sublevação, deficientemente preparada. (retornar ao texto)

[N138] Em Fevereiro de 1834, o democrata burguês italiano Mazzini organizou


uma expedição da «Jovem Itália», sociedade por ele fundada em 1831, e de
um grupo de emigrados revolucionários na Suíça, à Sabóia, com o objectivo de
provocar uma insurreição pela unificação da Itália e proclamar a república
italiana burguesa e independente. Depois de entrar na Sabóia o destacamento
foi derrotado pelas tropas do Piemonte. (retornar ao texto)

[N139] Chamava-se demagogos, na Alemanha, a partir de 1819, aos


participantes no movimento de oposição entre a intelectualidade alemã que se
pronunciavam contra o regime reaccionário dos Estados alemães e exigiam a
unificação da Alemanha. Os «demagogos» eram vítimas de uma cruel
repressão por parte das autoridades alemães. (retornar ao texto)

[N140] Trata-se da Deutsche Bildungsverein fur Arbeiter (Associação Cultural


Alemã para Operários), com sede, na década de 50 do século XIX, em
Londres, Great Windmill Street, fundada em Fevereiro de 1840, por K.
Schapper, J. Moll e outras personalidades da Liga dos Justos. Marx e Engels
participaram nas suas actividades nos anos de 1849 e 1850. A 17 de Setembro
de 1850, Marx, Engels e vários partidários seus abandonaram a Associação
porque uma grande parte dela passara para a fracção sectária aventureira
de Willich—Schapper. Com a fundação da Internacional em 1864, a
Associação transformou-se em Secção Alemã da Associação Internacional dos
Trabalhadores em Londres. A Associação existiu até 1918, quando foi
encerrada pelo governo de Inglaterra. (retornar ao texto)

[N141] The Northern Star (A Estrela do Norte): semanário inglês, órgão central


dos cartistas, fundado em 1837. Publicou-se até 1852, inicialmente em Leeds e
depois, a partir de Novembro de 1844, em Londres. O fundador e chefe da
redacção do jornal foi F. O'Connor. G. Harney foi também membro da
redacção. Entre 1843 e 1850 publicou artigos de Engels. (retornar ao texto)

[N142] Trata-se da Association démocratique (Associação


Democrática): fundada em Bruxelas no Outono de 1847, agrupava nas suas
fileiras revolucionários proletários, principalmente emigrados revolucionários
alemães, e elementos de vanguarda da democracia burguesa e pequeno-
burguesa. Marx e Engels desempenharam um papel activo na fundação da
Associação. A 15 de Novembro de 1847, Marx foi eleito vice-presidente da
mesma, tendo sido proposto para o cargo de presidente o democrata belga L.
Jottrand. Graças à influência de Marx, a Associação Democrática de Bruxelas
tornou-se um importante centro do movimento democrático internacional.
Depois da deportação de Marx de Bruxelas, no começo de Março de 1848, e
da repressão das autoridades belgas contra os elementos mais revolucionários
da Associação, a sua actividade ganhou um carácter mais estreito, puramente
local, tendo desaparecido de facto em 1849. (retornar ao texto)

[N143] La Réfome (A Reforma): diário francês, órgão dos democratas


revolucionários e socialistas pequeno-burgueses; publicou-se em Paris entre
1843 e 1850. Entre Outubro de 1847 e Janeiro de 1848 Engels publicou vários
artigos neste jornal. (retornar ao texto)

[N144] Der Volks-Tribun (O Tribuno Popular): semanário fundado pelos


«socialistas verdadeiros» alemães em Nova Iorque; publicou-se de 5 de
Janeiro até 31 de Dezembro de 1846. (retornar ao texto)

[N145] As Forderungen der Kommunistischen Partei in Deutschland


(Reivindicações do Partido Comunista na Alemanha) foram escritas por Marx e
Engels em Paris entre 21 e 29 de Março de 1848. Tornaram-se a plataforma
política da Liga dos Comunistas na revolução alemã, que então se iniciava.
Publicadas em panfleto foram distribuídas como directivas aos membros
da Liga dos Comunistas que regressavam à sua terra. Durante a revolução,
Marx, Engels e os seus partidários tentaram difundir este documento
programático entre as grandes massas. (retornar ao texto)

[N146] Trata-se do Klub der deutschen Arbeiter (Clube dos Operários


Alemães) fundado em Paris a 8-9 de Março de 1848 por iniciativa da Liga dos
Comunistas. Marx dirigia esta organização. A finalidade da fundação do clube
era unir os operários emigrados alemães em Paris e explicar-lhes a táctica do
proletariado na revolução democrática burguesa. (retornar ao texto)
[N147] Na edição de 1885 do trabalho de Marx Revelações sobre o Processo
dos Comunistas de Colónia, para a qual foi escrito o presente artigo como
introdução, Engels incluiu vários anexos, incluindo as mensagens
da Autoridade Central à Liga dos Comunistas de Março e Junho de
1850. (retornar ao texto)

[N148] Sonderbund (Liga separada): por analogia com a união dos cantões


católicos reaccionários da Suíça nos anos 40 do século XIX, Marx e Engels
chamavam ironicamente assim à fracção sectária aventureira de Willich—
Schapper, que se separara depois da cisão da Liga dos Comunistas de 15 de
Setembro de 1850 para formar uma organização à parte, com o seu próprio
Comité Central. Com a sua actividade, a fracção ajudou a polícia prussiana a
descobrir as sociedades ilegais da Liga dos Comunistas na Alemanha e
forneceu-lhe o pretexto para organizar em 1852, em Colónia, um processo
judicial contra destacados dirigentes da Liga dos Comunistas (ver nota
61). (retornar ao texto)