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PENSAMENTO PEDAGÓGICO DA EDUCAÇÃO FÍSICA BRASILEIRA:


*
ANALISANDO DIFERENTES PROPOSTAS PEDAGÓGICAS

Marcílio Souza Júnior1

Educação Física: diferentes designações e concepções


Dos tempos mais remotos aos dias atuais, encontramos, inúmeras denominações, ao que
hoje se chama Educação Física: educação corpórea – Desessartz, arte da conservação
dos meninos – Roulin, educação medicinal – Bruzet, educação natural – Rousseau,
ginástica – Rui Barbosa e até “aulas de física”, como, muitos de nossos alunos, ainda
hoje, se referem. Tais denominações refletem concepções e funções destas, ou para
estas, Educações Físicas no âmbito da educação, não sendo portanto meras junções de
termos. Mas é somente, em 1761, que Mr. Ballexer, de Gênova, em sua dissertação
apresentada à academia de Harlem, a designou Educação Física (Mello apud Lucena,
1994, p. 53).

Se tais denominações não são meras palavras e sim podem refletir diferentes
fundamentos e objetivos dados a Educação Física, mais complexas se tornam, tais
designações, quando associadas a determinadas compreensões da função social da
escola.

Responsabilizar a Educação Física pela educação das questões afetas ao fazer corporal,
ao movimentar-se corporal, assume um sentido polêmico quando imaginamos que este
entendimento de Educação Física a exime de uma educação dita intelectual, de uma
educação do saber, ou seja, a Educação Física assume a função de desenvolver e
aprimorar o físico, seja em caráter mais antigo de preparação para a guerra, seja num
sentido mais moderno de aquisição de aptidões atléticas, sem que para esta seja
necessária a reflexão acerca de um corpo2 de conhecimentos (Souza Júnior, 1999).

No entanto polêmicas se estabelecem, mesmo na produção teórica específica da área da


Educação Física. Uma dessas grandes polêmicas no ensino da Educação Física no
currículo da escola de educação básica diz respeito a estes elementos que rodeiam sua
denominação, porém não se referindo apenas aos termos usados e sim a seu objeto de
estudo, a sua legitimidade pedagógica e até mesmo a sua luta por um estatuto científico.

Propostas pedagógicas para o ensino da Educação Física


No Brasil, por volta da década de oitenta, surgem diferentes propostas pedagógicas para
o ensino da Educação Física na escola de educação básica, porém agora não mais
repensando sua designação e sim refletindo sua legitimidade pedagógica, principalmente

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Este texto é roteiro de fala acontecida no dia 10/12/02 durante o I Fórum de Educação Física da UEPB.
Este texto não passou por revisão de português.
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Licenciado em Educação Física pela Universidade de Pernambuco. Mestre e Doutor em Educação pela
Universidade Federal de Pernambuco/UFPE – Prof. da Universidade Salgado de Oliveira –
UNIVERSO/Recife e da Escola Superior de Educação Física/ESEF da Universidade de Pernambuco/UPE.
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O termo corpo se apresenta em destaque para chamarmos a atenção de um duplo sentido. Tanto
significando um conjunto, um grupo, no sentido de porção, como para levantar nossa discordância com a
separação/dicotomia entre corpo e espírito, conhecimento e execução, pensamento e ação, teoria e prática,
saber e fazer. Pois o conhecimento humano é fruto de uma existência humana, portanto resultado de uma
produção cultural, social e histórica, que, pelo menos por enquanto, não acontece para além de nossa,
mesmo que momentânea, existência corporal – nota do autor.
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num movimento de renovação de seu ensino, naquela época e talvez ainda hoje, muito
fundamentado no que chamamos esportivização das aulas de Educação Física.

Na necessidade de superar a “esportivização da Educação Física” as diferentes propostas


para a Educação Física escolar apresentam diferentes elementos.

Go Tani (1988), argumentando a favor de uma abordagem desenvolvimentista, procura


contribuir para superar a fragilidade da base teórico-científica da Educação Física. Para
isso, fundamenta-se nas teorias do desenvolvimento e da aprendizagem motora,
basicamente nas taxionomias de Bloom, com um viés de hierarquização a partir de uma
seqüência normal no tratamento dos conteúdos de ensino. Seu objeto de estudo é o
movimento humano, especificamente a aprendizagem do/pelo/para o movimento, sendo
função da Educação Física na escola o ensino das habilidades motoras básicas (correr,
andar, saltar...), as quais são, condições para as aprendizagens motoras específicas.

João Batista Freire (1989), objetivando estabelecer uma proposição crítica diante da
escola tradicional, na qual o aluno deve ser reconhecido de corpo inteiro, afirma a
necessidade de trabalhar nas aulas de Educação Física a cultura infantil, aproximando a
realidade da escola à realidade do aluno. Sua produção tem como fundamento teórico a
teoria psicogenética da construção do conhecimento a partir das idéias piagetianas.
Estabelece como objeto de estudo dessa Educação Física a gramática corporal.

Mauro Betti (1991), procurando ultrapassar uma situação de inespecificidade da


Educação Física, relaciona sua função ao elemento corpo, sem perder sua
responsabilidade pedagógica. Esta responsabilidade seria a de integrar o aluno na esfera
da cultura corporal de movimento, formando o cidadão que vai usufruir, produzir e
reproduzir as formas desta esfera específica. Fundamenta-se na teoria dos sistemas e da
personalidade, procurando reconhecer, respectivamente, as relações entre micro e
macroestrutura, indagando a existência de uma autonomia entre elas e as influências
hereditárias e ambientais na formação humana, mas identificando o eu como algo
imutável.

Coletivo de Autores (1992), defendendo uma perspectiva crítico-superadora, apresentam


como objeto de estudo da Educação Física na escola a expressão corporal como
linguagem. Fundamentando-se em teorias marxistas e defendendo uma lógica
materialista histórica e dialética, seus autores propõem uma Educação Física em que a
organização do conhecimento e a abordagem metodológica estejam voltadas para as
escolas públicas brasileiras, estabelecendo uma posição crítica em relação à educação
conservadora. A função da Educação Física seria tematizar os elementos da cultura
corporal, tratando pedagogicamente seus conhecimentos, de forma que os alunos
apreendam seu objeto de estudo.

Dartangnan Pinto Guedes (1993), analisando as contribuições que a disciplina Educação


Física escolar poderia oferecer aos hábitos de saúde das crianças e adolescentes, e,
futuramente, pessoas adultas, critica à ênfase esportiva dada nas aulas de Educação
Física nas escolas brasileiras. Fundamenta-se nas teorias da área da saúde, tais como: 1-
conceito de saúde: não apenas como ausência de enfermidades, mas como um estado de
completo bem estar físico, mental e social e também como condição humana num
continuum de dois pólos - saúde positiva: apreciar a vida e resistir aos desafios do
cotidiano - saúde negativa: morbidade e mortalidade (BOUCHARD); 2- o conceito de
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atividade física: segmento da atividade humana que consiste dos movimentos
perceptíveis e voluntários (esporte, jogos, locomoção, exercícios físicos, trabalho etc.); 3-
dados estatísticos acerca da mortalidade por causas de doenças degenerativas e
cardiovasculares - fatores de risco (sedentarismo é o maior). O objeto de estudo da
Educação Física nesta proposição é a Atividade física em substituição ao termo
movimento humano. A função da Educação Física escolar é: 1- desenvolver durante as
aulas conteúdos que possam se relacionar, de modo mais direto, com a promoção da
saúde do indivíduo; 2- favorecer a diminuição dos fatores de risco na idade escolar,
aumentando a probabilidade de redução na incidência das doenças degenerativas na vida
adulta; 3- praticar atividade física durante a escolarização de forma que incorporem
conhecimentos que os levem mais tarde a se tornarem pessoas ativas quando adultas.

Elenor KUNZ (1991, 1994), defendendo uma concepção Crítico-Emancipatória para a


Educação Física, procura romper com o modelo hegemônico do esporte e aptidão física e
oferece possibilidades de mudanças na prática. Seus fundamentos advêm das Teorias
Críticas da Escola de Frankfurt, com aproximações com Pedagogia Freireana, com as
Teorias de Habermas, Merleau-Ponty, Tamboer e Trebels. Segundo ele o objeto de
estudo da Educação Física é o mover-se/movimentar-se, sendo compreendido numa
dimensão da Cultura de Movimento advinda das compreensões acerca do Movimento
humano. A função da Educação Física escolar neste proposta é contribuir com a
formação humana, por via dos elementos da cultura de movimento (esporte, ginástica,
dança e lutas),sendo necessário o desenvolvimento de conhecimentos sobre as
particularidades deste(s) Ser(es) Humano(s) em movimento – ser no mundo.

Argumentando em favor de uma abordagem Cultural/Plural para o ensino da Educação


Física nas escolas, Jocimar DAOLIO (1993, 1995), faz uma crítica a perspectiva biológica,
no sentido anátomo-fisiológico que cerca esta disciplina. Este autor busca fundamentar-se
nas Teorias da Antropologia Social, principalmente de Marcel Mauss, com destaque para
o conceito de alteridade. O objeto de estudo da Educação Física é Cultura do Corpo,
reconhecendo e justificando a dimensão cultural das técnicas corporais. A função da
Educação Física escolar é ampliar o repertório corporal do alunos acerca das diferentes
práticas corporais e suas técnicas culturais.

Poderíamos reconhecer ainda outras proposições pedagógicas para a Educação Física,


no entanto as sete indicadas acima realmente se apresentam ainda como as mais
difundidas nacionalmente, seja por sua inserção no campo acadêmico universitário, por
suas referências em concursos públicos de professores de Educação Física e até pelo
reconhecimento de suas influências em propostas curriculares para o ensino de Educação
Física em escolas de redes públicas.

Aplicabilidade de uma proposta pedagógica: como optar ?


Muitas críticas são feitas as diferentes propostas pedagógicas para a Educação Física.
Muitas dessas são pertinentes e localizam os limites e as possibilidades de tais
proposições. No entanto a crítica da não aplicabilidade destas propostas pode, a
depender do ângulo e forma com a qual é feita, incorrer num equívoco.

Caso esta crítica aponte as deficiências de elaboração no que concerne ao


distanciamento da realidade da prática pedagógica da Educação Física na escola, ela se
configura como pertinente. Porém se esta crítica reclamar da dificuldade de
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materialização nas aulas de Educação Física, ela é incipiente, pois cabe aos professores
viabilizarem tal materialidade.

Uma proposta, mesmo que de excelente qualidade de elaboração, não é nada mais, nada
menos, que uma proposição. Não serão as propostas que darão aulas, não serão as
propostas que dirão o que fazer a cada aula. As propostas devem dar referências aos
professores para qualificar o ensino. Cabe aos professores se apropriarem das propostas,
analisando seus limites e possibilidades enquanto uma produção teórica e encontrar
mecanismos para implementa-la na prática pedagógica.

Partindo desse pressuposto, perguntamo-nos: que proposta optar? Inicialmente esta


pergunta deve ser respondida não no sentido de reconhecer qual é a melhor, pois assim
estaríamos caindo em juízos de valores relativos e pessoais. Uma proposta não se
materializa numa aula, por apenas um professor. Uma proposta precisa ser implementada
na forma de um projeto pedagógico coletivo.

Optar por uma proposta não deve ser uma decisão que se limite ao mundo pessoal de
predileções. Devemos olhar para as propostas e analisar diversos elementos, como por
exemplo:
1- Qual o contexto histórico de sua elaboração e a que elementos ela procurou
responder? Para aí procurarmos evidenciar a que contexto queremos que nossa
opção responda? A que projeto político-pedagógico?;
2- Que tipo de elaboração teve a proposta? Individual ou coletiva? Pessoal ou
Institucional? Produto de investigação ou de elaboração intelectual? Para assim
sabermos se ela possui fundamentos teórico-metodológicos mais consistentes com
a realidade educacional;
3- Que fundamentos teóricos tem tal proposta? Para assim reconhecermos o grau de
aproximação com os fundamentos teóricos da concepção educacional da
instituição que se quer levar tal proposição;
4- Que caráter tem a proposição? Denunciador ou anunciador? Ou os dois? Para
assim analisar os elementos de sua crítica e de suas proposições, tanto em termos
mais amplos pedagogicamente, quanto em termos mais específicos didaticamente;
5- A proposta possibilita interagir? Ou é uma proposta fechada? Possibilitando a
interação trabalhar com um coletivo de professores continuamente para elaboração
de elementos pormenores para sua implementação no cotidiano da prática
pedagógica.
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A que contexto atual deve responder o Pensamento Pedagógico da Educação
Física Brasileira?
• A LDB 9394/96, a Lei 10328/01 e a Portaria Interministerial n.º 73/01;
• Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica;
• Parâmetros Curriculares Nacionais;
• Reorganização Curricular de Redes de Ensino;
• Pedagogia de Projetos; Pedagogia das Competências; Educação na Perspectiva da
Qualidade Social;
• A inserção da Educação Física na Área de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias.

Inserção da Educação Física na área da Linguagem


“A linguagem é um sistema de signos ou sinais usados para indicar coisas, para a
comunicação entre pessoas e para a expressão de idéias, valores e sentimentos”. Ela
implica, portanto, numa totalidade estruturada, com princípios e leis próprios a qual pode
ser conhecida, exprimindo objetos que indicam, designam ou representam outros. A
linguagem possui três funções: 1- denotativa, indicando, apontando para as coisas; 2-
comunicativa, estabelecendo relação entre as coisas e; 3- conotativa, exprimindo sentidos
ou significados diferentes em relação a pensamentos, sentimentos, valores etc. (Chauí,
1995, p. 141).

Nos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (Brasil/MEC, 1999, p. 125) a
linguagem é considerada “como capacidade humana de articular significados coletivos em
sistemas arbitrários de representação, que são compartilhados e que variam de acordo
com as necessidades e experiências da vida em sociedade. A principal razão de qualquer
ato de linguagem é a produção de sentido”.

A Educação Física possibilita sintetizar e sistematizar representações do mundo no que


concerne à produção histórica e social de algumas das
dimensões/elaborações/manifestações da cultura humana, tais como exemplo: jogo,
esporte, ginástica, luta e dança. Dispondo de sua intencionalidade, o homem, em
interação com outros homens e com a natureza, produz, expressa e incorpora essa
cultura em forma de signos, idéias, conceitos e ações nas quais interpenetram
dialeticamente as intenções dos próprios homens e a realidade social.
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Referências bibliográficas

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