Você está na página 1de 81

SUMÁRIO

1 BARRAGENS ............................................................................................. 3

2 TIPOS DE BARRAGENS ............................................................................ 5

2.1 Barragem de terra: ............................................................................... 5

2.2 Barragem de enrocamento com face de concreto: ............................... 5

2.3 Barragem de contraforte:...................................................................... 6

2.4 Barragem de gravidade aliviada: .......................................................... 7

2.5 Barragem de concreto estrutural com contrafortes: ............................. 8

2.6 Barragens em arco: .............................................................................. 9

3 ESTRUTURAS.......................................................................................... 10

4 CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE O ROTEIRO BÁSICO PARA


PEQUENAS BARRAGENS DE TERRA .................................................................... 14

5 PRINCIPAIS ELEMENTOS DE UMA PEQUENA BARRAGEM DE TERRA


15

5.1 Maciço ou aterro ................................................................................. 17

5.2 Taludes do Maciço ............................................................................. 18

5.3 Crista do Maciço ................................................................................. 19

5.4 Base do Maciço .................................................................................. 20

5.5 Espelho d’água ................................................................................... 20

5.6 Borda livre ou folga ............................................................................ 21

5.7 Núcleo central .................................................................................... 21

5.8 Fundação ........................................................................................... 22

5.9 Drenagem interna ............................................................................... 22


5.10 Desarenador ................................................................................... 23

5.11 Altura da barragem ......................................................................... 23

5.12 Sistema extravasor ......................................................................... 24

5.13 Tomada de água ............................................................................. 24

6 DESAFIOS ................................................................................................ 25

7 CADASTRO DE INSPEÇÃO DE SEGURANÇA DE BARRAGENS .......... 26

8 DOCUMENTOS PARA INSPEÇÃO DE SEGURANÇA REGULAR DE


BARRAGEM: ............................................................................................................. 26

8.1 Fiscalização de barragens.................................................................. 27

8.2 Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens –


SNISB 28

9 GESTÃO DE BARRAGENS...................................................................... 28

10 MEDIDA PREVENTIVA ......................................................................... 29

10.1 Comunidade impede implantação de barragem que teria três vezes o


volume da de Fundão ............................................................................................ 30

11 OBRAS DE MANUTENÇÃO PREVENTIVA .......................................... 33

11.1 Mais Segurança .............................................................................. 34

12 SEGURANÇA DE BARRAGENS........................................................... 36

13 Barragens HIDRELÉTRICAS ................................................................ 38


1 BARRAGENS

Fonte:energiadasbarragens.blogspot.com

As barragens, definidas como obstáculos artificiais com a capacidade de deter


água, qualquer outro líquido, rejeitos, detritos, minérios, para fins de armazenamento
ou controle, podem variar em tamanho desde pequenos maciços de terra, usados
frequentemente em fazendas, a enormes estruturas de concreto ou de aterro,
geralmente usadas para fornecimento de água, de energia hidrelétrica, para controle
de cheias e para irrigação, além de diversas outras finalidades.
Construídas de forma natural ou artificial sobre córregos, rios ou canais, as
barragens têm a função de reter e controlar o fluxo de água. Independentemente de
sua finalidade e do tipo de funcionamento, que varia bastante, elas apresentam um
elemento comum: em algum ponto do percurso, a água fica retida no reservatório
formado pelos suportes erguidos.
Os principais tipos existentes de barragens são as de aterro, de concreto-
gravidade e de concreto em arco. As estruturas acessórias ou adicionais das
barragens incluem vertedouros, estruturas de descarga, casas de força elétrica e
unidades de controle. O termo barragem provém etimologicamente da palavra
francesa barrage, do século XII, que deriva das palavras barre, do francês, e barra,
do latim vulgar, que significam "travessa, tranca de fechar porta".
As barragens construídas para armazenar e controlar especificamente água se
destinam geralmente ao abastecimento doméstico e industrial, à irrigação, à
navegação, à recreação, ao controle de sedimentação, ao controle de cheias e à
produção de energia elétrica. Algumas barragens têm apenas uma função e são assim
conhecidas como "barragens de função única". Atualmente, as barragens são
construídas para servir a diversas funções e são, por isso, conhecidas como
"barragens de usos múltiplos", que é o caso da Usina de Três Marias (a regularizações
de vazões a navegação interior e a produção de energia elétrica).
O Registro Mundial de Barragens, da Comissão Internacional de Grandes
Barragens (CIGB/ICOLD), considera uma grande barragem a barragem que possua
altura de 15 metros (independentemente do volume de água armazenável em seu
reservatório) ou também a que possua altura entre 10 e 15 metros desde que tenha
capacidade de armazenar mais de três milhões de metros cúbicos de água em seu
reservatório. De acordo com esse critério, a altura de uma barragem é determinada
pela diferença da elevação de sua crista até o ponto mais baixo da sua fundação.
Historicamente, as barragens têm servido como fonte confiável de água para a
vida das pessoas ao longo dos últimos 5 mil anos, de acordo com registros
arqueológicos que se baseiam em investigações de ruínas e na observação de
estruturas ainda em funcionamento. As barragens permitem que as populações
coletem e armazenem água quando abundante e depois a usem nas épocas de seca.
Elas têm sido então fundamentais na formação de estoques de água,
indispensáveis ao estabelecimento e ao sustento de cidades e de fazendas, para a
irrigação e para a produção de alimentos.
“As barragens são utilizadas para o abastecimento de água para consumo
humano e de animais; para a irrigação, a recreação e o paisagismo; para o controle
da qualidade da água e de enchentes; para a garantia mínima de vazão a jusante;
navegação; aquicultura; geração de energia elétrica; e contenção de rejeitos”.
2 TIPOS DE BARRAGENS

A tipologia da barragem é definida em função de sua forma construtiva e do


material utilizado em seu corpo principal.

2.1 Barragem de terra:

É a mais comum no Brasil, caracterizada por vales muito largos e ombreiras


suaves. Pode ser de terra homogênea, construída com apenas um tipo de material;
ou de terra zoneada, aquela que, por falta de área de empréstimo com material
argiloso suficiente para a construção de todo o aterro, prioriza o núcleo argiloso, no
centro. Por ser uma estrutura menos rígida, permite fundações mais deformáveis,
transmitindo esforços baixos para as fundações de qualquer tipo de solo ou rocha.

Fonte:www.mineirosnaestrada.com.br

2.2 Barragem de enrocamento com face de concreto:

É constituída de enrocamentos e placas de concreto sobre o talude de


montante. Deve ser dada atenção especial à ligação entre as placas de concreto, pois
se apoiam em meio deformável, constituído pela camada de enrocamento que pode
sofrer recalques significativos no primeiro enchimento.
Exige atenção também com a ligação entre a face de concreto e a fundação
para garantir a estanqueidade dessa região.
Vantagens: construção mais rápida, pois independe do clima; taludes mais
íngremes, proporcionando menores volumes de material e maior altura da estrutura.
Desvantagem: a fundação deve ser em rocha sã, pois a estrutura não pode
sofrer recalques excessivos.

Fonte: fengdouglas.files.wordpress.com

2.3 Barragem de contraforte:

É um tipo raramente utilizado no Brasil e em queda no exterior, em favor dos


tipos de gravidade aliviados.
Fonte:www.mineirosnaestrada.com.br

2.4 Barragem de gravidade aliviada:

É alternativa à barragem de gravidade maciça. Nesta última, o concreto está


mal aproveitado porque as solicitações são muito menores que a resistência do
concreto. Na comparação, constata-se que a barragem de gravidade aliviada traz
economia no volume e diminuição das áreas sobre as quais pode agir a subpressão
e a pressão intersticial.
Fonte:www.mineirosnaestrada.com.br

2.5 Barragem de concreto estrutural com contrafortes:

É formada por uma laje impermeável a montante, apoiada em contrafortes


verticais, exercendo compressão na fundação, maior do que na barragem de
gravidade. A fundação, neste caso, deve ser rocha com elevada rigidez. Se
comparada com as barragens de gravidade, as principais vantagens são menor
volume e menor subpressão na base. No entanto, as barragens com contrafortes
exigem um projeto estrutural mais complexo e o uso de um número maior de fôrmas
na execução dos contrafortes.
Fonte:energiadasbarragens.blogspot.com

2.6 Barragens em arco:

São particularmente apropriadas para vales estreitos e com boas condições de


ombreiras. Essas estruturas tiram partido das propriedades de compressão do
concreto, transmitindo os empuxos hidráulicos para as ombreiras. Vantagens: uso de
menor quantidade de concreto em comparação com as demais; admitem fundações
de pior qualidade em relação às barragens em contrafortes, porque uma menor parte
da carga é efetivamente transferida para a fundação. Desvantagens: exigem boas
condições e ombreiras (geralmente em rocha), e a concretagem do arco requer
tecnologia mais sofisticada de locação, fôrma, armação e aplicação.
Fonte: www.google.com

3 ESTRUTURAS

As barragens podem ser constituídas de diversas estruturas funcionais


necessárias para a sua estabilidade, funcionamento e manutenção:
O barramento de cursos d’água para a formação de lagos artificiais constitui
uma das mais antigas técnicas de aumentar as disponibilidades hídricas para
atendimento de demandas por águas pelas sociedades. São dotadas de mecanismos
de controle com a finalidade de obter a elevação do nível de água ou criar um
reservatório de acumulação de água ou de regularização de vazões. Considera-se
nesse roteiro básico como pequena barragem, quando a altura do maciço, contada do
nível do terreno à crista, seja menor ou igual a 10 metros.
Diferentemente do passado, quando os reservatórios só eram vistos pelo lado
dos benefícios, hoje a sociedade está mais crítica e já olha para o reservatório pelo
lado dos impactos negativos e de pessoas que são deslocadas sem compensação
suficiente. Há fortes movimentos organizados contra a construção de grandes
barragens. Embora haja, em alguns casos, exageros nos males atribuídos aos
grandes lagos artificiais, é importante que sejam analisados seus pontos e opiniões.
Também, pode-se considerar que, muitas vezes, há exageros na avaliação dos
benefícios atribuídos a algumas obras. Uma análise técnica, equilibrada e imparcial,
que forneça subsídios à sociedade e aos decisores, para se construir ou não, ou ainda,
como operar e proteger os lagos existentes, deve ser sempre considerada.
Há de se atentar, no entanto, que os impactos ambientais decorrentes desses
empreendimentos são, na maioria das vezes, diretamente proporcionais à área
inundada pelo reservatório. A formação de um grande reservatório de água para a
produção de energia elétrica não deve ser avaliada da mesma forma que a construção
de um reservatório para abastecimento público ou para a viabilização da atividade
agropecuária. Não se pode usar as mesmas regras para os dois tipos diferentes de
empreendimentos, uma pode ser negativa para o meio ambiente e a outra
extremamente positiva.

Fonte:www.atlasdasaguas.ufv.br
A sustentabilidade da agropecuária, na maior parte das propriedades agrícolas,
é dependente da reservação de água para uso em períodos de escassez, o que é
geralmente resolvido com a construção de pequenos reservatórios. Em áreas rurais
utiliza-se a construção da barragem de terra para uma série de finalidades,
destacando-se a irrigação, seguida de: abastecimento da propriedade, piscicultura,
recreação, embelezamento, dessedentação de animais, dentre outras.
Os impactos provocados destes reservatórios geralmente são de pouca
expressividade face os benefícios que eles podem proporcionar. É de conhecimento
comum que a manutenção de uma carga hidrostática mais elevada sobre o terreno e
o aumento da área para infiltração proporcionam maior recarga de água em direção
aos mananciais subterrâneos. O abastecimento de aquíferos subterrâneos é
fundamental para aumentar o escoamento de base, minimizando oscilações de vazão
em cursos d’água superficiais. Com a elevação do nível freático, poderá haver maior
disponibilização de água para as plantas, por efeito de ascensão capilar, além de
possibilitar fluxo de água subterrânea suficiente para a manutenção da vazão e
perenização de pequenos córregos sob influência dessas águas freáticas.
Com maior recarga dos aquíferos no campo, os reservatórios podem servir
melhor ao seu mais nobre objetivo: armazenar quando o recurso é abundante, para
usar no momento de escassez. O aumento da disponibilidade hídrica nas bacias
hidrográficas, possibilitam também, que as outorgas de direito de uso da água sejam
concedidas para um maior número de usuários, atendendo, assim, aos múltiplos usos
da água de maneira mais eficaz.
Portanto, nada mais pertinente que os órgãos responsáveis pela gestão dos
recursos hídricos em níveis federal, estadual e de bacia hidrográfica estimulem e
facilitem a construção de pequenas barragens nas propriedades rurais objetivando o
uso múltiplo da água na bacia.
Ainda nessa contextualização destaca-se, também, a possibilidade de utilizar
os pequenos barramentos com o objetivo de amenizar problemas de inundações em
áreas urbanas de maior risco, implicando, assim grandes economias. Esse é o anseio
da gestão integrada, ou seja, compatibilizar riscos e oportunidades na escala da bacia.
Se ambientes urbanos sofrem cada vez mais com as inundações provocadas pelas
enchentes, pode-se armazenar esse excesso no campo, o que permite atenuar a onda
de cheia nas cidades e aproveitar essa água para irrigação nos períodos de escassez.
As pequenas barragens de terra por serem de fácil construção, muitas vezes
os aspetos técnicos, legais e ambientais são negligenciados. Sabe-se que os
rompimentos destas pequenas obras são frequentes sendo uma das principais causas
o suddimensionamento de extravasores, provocando galgamento. Os maiores
problemas hidrológicos observados advêm dos pequenos barramentos que, num
efeito dominó, podem vir a comprometer obras maiores e até causar mortes e grandes
prejuízos econômicos. Nesse contexto, observa-se uma grande lacuna na literatura
especializada quando se trata de metodologias confiáveis direcionadas ao
dimensionamento de pequenas obras hidráulicas, notadamente os pequenos
barramentos.
O projeto de uma barragem requer fundamentalmente a análise e aplicação
correta de dois itens relevantes relacionados à segurança da barragem quais sejam:
Estudos hidrológicos
Desenvolvidos na bacia hidrográfica em estudo onde se determina a vazão
máxima de cheia e o volume de armazenamento necessário a regularização da vazão
Estudos hidráulicos
Utilizados principalmente no dimensionamento do sistema extravasor
(eliminação do excesso de água e dissipador de energia), do desarenador (eliminação
dos depósitos do fundo e, ou esvaziamento do reservatório), e da tomada de água
(estrutura para captação da água represada).
Com a finalidade de fornecer subsídios aos técnicos que trabalham na área de
engenharia de recursos hídricos com foco na elaboração e implantação de pequenas
barragens de terra no estado de Minas Gerais desenvolveu-se o presente documento
cujo objetivo principal foi desenvolver um "Roteiro Básico para Elaboração de Projetos
de Pequenas Barragens de Terras" e objetivos específicos:
a) Estabelecer uma metodologia confiável direcionada ao dimensionamento
destas obras hidráulicas com base em informações hidrológicas regionais
de forma que os projetos apresentem maior eficácia, menor impacto
ambiental e menor custo financeiro e,
b) Apresentar os aspectos legais a serem considerados na construção destas
obras hidráulicas.

4 CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE O ROTEIRO BÁSICO PARA PEQUENAS


BARRAGENS DE TERRA

É fundamental esclarecer que o roteiro básico desenvolvido não tem a intenção


de apresentar a melhor solução para o barramento ou para suas estruturas em relação
ao empreendimento analisado. Nem pretende abranger os temas abordados com o
rigor das publicações técnicas de todos conhecido. A proposta deste roteiro é oferecer
aos técnicos um exemplo de desenvolvimento de um projeto de uma pequena
barragem de terra, em nível básico, acompanhado dos conceitos e equações
indispensáveis à sua compreensão.
A abordagem de maneira simples serve como ferramenta didática e não deve
induzir o leitor à falsa impressão de que se pode projetar bem e competentemente,
sem experiência. Julgar corretamente os valores obtidos requer anos de estudo e
prática. O auxílio a questões sobre métodos construtivos, cálculos estruturais,
estabilidade, geotecnia, percolação dentre outros, deve ser obtido na bibliografia
técnica e adequada ao projeto do barramento proposto.
Sabe-se que a maior parte das pesquisas geotécnicas na área das barragens
foram e são orientadas para o estudo de obras de grande porte, deixando em segundo
plano obras menores. Assim sendo, os projetos destas últimas ficam limitados apenas
a orientações provenientes de manuais técnicos, apostilhas didáticas e
recomendações empíricas.
É importante, também, destacar que obras hidráulicas como barramentos,
mesmo sendo de pequeno porte, distinguem- se por interferir nos cursos d’água e
estar sujeitas ao poder destruidor das enchentes, envolvendo riscos que jamais
podem ser desconsiderados. Assim sendo, o dimensionamento de projetos e obras
necessários ao uso dos recursos hídricos deverão ser executados sob
responsabilidade de profissional devidamente habilitado no CREA.
5 PRINCIPAIS ELEMENTOS DE UMA PEQUENA BARRAGEM DE TERRA

Objetivando um melhor entendimento de um projeto de uma pequena barragem


de terra, apresenta-se as suas principais partes constituintes, bem como, os conceitos
básicos e os procedimentos metodológicos (estudos hidrológicos e hidráulicos)
recomendados para o dimensionamento da obra.
Vista superior do maciço, espelho d’água e canal extravasor.

Fonte: www.google.com

Representação esquemática dos elementos básicos de uma pequena


barragem de terra.
Fonte: www.google.com

Vista de perfil da bacia hidráulica, do desarenador e respectiva tubulação


vertical e do extravasor lateral.

Fonte: www.google.com
5.1 Maciço ou aterro

É a própria estrutura da barragem. Construído transversalmente ao curso


d’água é a parte responsável por reter a água.
Etapas de construção do maciço de barragem da bacia do rio Doce - município
de Itambacuri e bacia do rio Jequitinhonha - município de Medina.

Construção do maciço - scraper conjugado

Fonte:energiadasbarragens.blogspot.com

Aplicação água usada na compactação do maciço

Fonte:energiadasbarragens.blogspot.com
Jusante inclinação 2:1

Fonte:energiadasbarragens.blogspot.com

5.2 Taludes do Maciço

São as faces laterais e inclinadas, paralelas ao eixo do maciço sendo, talude


de montante o lado que fica em contato com a água, e, jusante, o do outro lado, sem
contato com a água. O talude de montante deve ser mais inclinado que o de jusante,
para permitir a maior estabilidade do aterro, devido ao decréscimo da componente
horizontal da força, que tende a empurrar o maciço da barragem. Recomenda-se
inclinações de 2,5:1 e 2:1 para os taludes de montante e jusante, respectivamente.
Vistas de taludes de montante e jusante de uma barragem construída pela
Ruralminas na bacia do rio Doce - município de Itambacuri.
Montante inclinação 2,5:1
Fonte:energiadasbarragens.blogspot.com

Jusante inclinação 2:1

Fonte:energiadasbarragens.blogspot.com

5.3 Crista do Maciço

Na inexistência de fatores como trânsito pesado e certas condições locais, que


condicionam a largura da crista, podem ser adotados os valores determinados por
cálculo, utilizando a fórmula empírica do U. S. Bureau of Reclamation.

C = largura da crista da barragem (m); H = altura da barragem (m).


Vista do início de enchimento do reservatório, do monge e término da
construção da crista do maciço (C = 3,5 m).
Fonte:energiadasbarragens.blogspot.com

5.4 Base do Maciço

Consiste na projeção da crista e dos taludes de montante e jusante sobre a


superfície do terreno; é a área do terreno sobre a qual se coloca o aterro. O
comprimento da base do maciço (B), em metros, pode ser calculada por

em que,C = largura da crista da barragem (m);Zm = projeção horizontal no


talude de montante;Zj = projeção horizontal no talude de jusante;
H = altura da barragem (m).

5.5 Espelho d’água

Área da represa; superfície d’água acumulada no reservatório.


Fonte:energiadasbarragens.blogspot.com

5.6 Borda livre ou folga

Distância vertical entre o nível da água, quando a represa estiver cheia, e a


crista do maciço ou do aterro. Normalmente adota-se, como mínimo, o valor de 1,0
metro.

Fonte:energiadasbarragens.blogspot.com

5.7 Núcleo central

Quando o material disponível para construção do maciço ou aterro não é bom


(material homogêneo com predominância de argila), ou ainda, havendo uma camada
arenosa permeável no leito do local, é imprescindível a construção de um núcleo
central com predominância de argila que intercepte a trajetória da água. Pode-se
também, ao invés do núcleo central, utilizar diafragma de concreto (simples ou
armado), principalmente se a fundação for constituída de rocha.

5.8 Fundação

Construída transversalmente ao curso d’água e no eixo da barragem. Constitui-


se em uma vala ou trincheira que é preenchida com terra de boa qualidade
devidamente compactada. A realização de sondagens, necessária na fase de seleção
do local de construção da barragem, possibilitará o desenho do perfil da seção
transversal da área, que indicará a profundidade do núcleo impermeável. A sondagem
poderá ser feita por tradagem, sondagem a percussão, abertura de trincheiras ou por
meio de ensaios de resistência do solo. Sempre que possível a trincheira deverá ser
construída sob toda a base do maciço e abrangendo uma profundidade até a rocha
ou estrato impermeável. O equipamento mais apropriado é a retroescavadeira ou
escavadeira hidráulica.

Fonte:energiadasbarragens.blogspot.com

5.9 Drenagem interna

Para a linha de saturação manter-se abaixo do pé de uma barragem de terra,


isto é, dentro de seu corpo, ou para reduzir a subpressão hidráulica, pode-se recorrer
ao uso de drenos, colocados, geralmente, no terço final do talude de jusante, ou
mesmo construindo-se um enrocamento de pedras no final deste (dreno de pé). Os
drenos devem ser construídos de modo que as águas de infiltração possam sair sem
causar erosão no aterro, funcionando como filtros inversos. As camadas periféricas
devem ser de areia grossa e cascalho miúdo, aumentando-se o tamanho do material
à medida que se caminha para o centro.

Fonte:energiadasbarragens.blogspot.com

5.10 Desarenador

Objetiva principalmente a eliminação dos depósitos do fundo e ao


esvaziamento do reservatório. Informações sobre o funcionamento dessa estrutura e
da fórmula de dimensionamento mais apropriada.

5.11 Altura da barragem

A altura de uma barragem é a distância vertical entre a superfície do terreno


que recebe a barragem e a superfície da água no reservatório, por ocasião da
ocorrência da vazão máxima de projeto do extravasor, acrescida de uma borda livre
ou folga.
5.12 Sistema extravasor

O sistema extravasor de uma barragem corresponde basicamente a construção


de duas estruturas objetivando: a) permitir o escoamento da vazão máxima de
enchente e b) proteção do local de restituição das águas vertidas ao curso
d'água.

5.13 Tomada de água

É a estrutura para captação da água represada. Pode apresentar diversas


formas, entretanto, as mais comuns são aquelas construídas diretamente no
corpo da barragem ou por meio de torres de tomada inseridas na represa. No
dimensionamento da tubulação da tomada de água pode-se utilizar a mesma
fórmula para condutos forçados (equação de Hazen-Willians) utilizada no
dimensionamento do desarenador. Com base na vazão desejada, comprimento
da tubulação e do tipo de tubo a utilizar calcula-se o diâmetro necessário.

Fonte:www.sunordengenharia.com.br
6 DESAFIOS

Para projetar e construir barragens, são necessários profissionais qualificados,


com experiência e maturidade. “Esse é o primeiro grande desafio do
empreendimento”. O ideal é a formação em nível de pós-graduação, cursos ainda
raros no país diante do volume de obras. O campus de Tucuruí, da UFPA, por meio
do Núcleo de Desenvolvimento Amazônico em Engenharia (NDAE) abriu, no início de
2016, o curso de mestrado profissionalizante de Engenharia de Barragens e Gestão
Ambiental.
A Política Nacional de Segurança de Barragens (lei nº 12.334/2010) cria regras
para a acumulação de água, de resíduos industriais e a disposição final ou temporária
de rejeitos. Essa política também estabelece que a Agência Nacional de Águas (ANA)
é a responsável por organizar, implantar e gerir o Sistema Nacional de Informações
sobre Segurança de Barragens (SNISB); promover a articulação entre os órgãos
fiscalizadores de barragens; coordenar a elaboração do Relatório de Segurança de
Barragens; e receber denúncias dos demais órgãos ou entidades fiscalizadores sobre
qualquer não conformidade que implique em risco imediato à segurança ou qualquer
acidente ocorrido nas barragens.
A ANA também fiscaliza o atendimento às normas relativas à segurança de
barragens em cursos d'água sob sua jurisdição, além de manter o cadastro atualizado,
com identificação dos empreendedores.
O SNISB tem, por objetivo, coletar, armazenar, tratar, gerir e disponibilizar, para
a sociedade, as informações relacionadas à segurança de barragens em todo o
território nacional. A inserção de informações no sistema está sob a responsabilidade
de cada entidade ou órgão fiscalizador de segurança de barragens no Brasil.
Ficou perceptível a fragilidade do sistema quando assistimos ao trágico
acidente que ocorreu em Mariana (MG), com a barragem de Fundão.
A segurança e a fiscalização das barragens são o segundo grande desafio
enfrentado pelo setor. Basta dizer que o último dado gerado pelo Relatório de
Segurança de Barragens (RSB), emitido pela Agência Nacional de Águas (ANA),
revela que apenas 3% das barragens cadastradas no sistema foram, de fato,
vistoriadas. “Isso demonstra o tamanho do desafio”, lembrando que, segundo a
agência, o Brasil tem 166 empreendimentos na sua área de atuação.
A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) aponta 642, enquanto o
Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) fala em 663 barragens. A
fiscalização é extremamente importante para o cumprimento da Lei Nº 12.334/2010,
que estabeleceu a Política Nacional de Segurança de Barragens (PNSB). Porém, o
número de técnicos é insuficiente, além da falta de capacitação dos técnicos na
execução do serviço.

7 CADASTRO DE INSPEÇÃO DE SEGURANÇA DE BARRAGENS

O rompimento de um barramento pode causar inúmeros transtornos, risco à


vida, prejuízos econômicos, ambientais e sociais. Então, a inspeção regular das
barragens torna-se um instrumento de importância essencial para observar algum
perigo e avaliar a situação de cada barragem outorgada.
A Agência Nacional de Águas (ANA) tem o papel fundamental de fiscalizar a
segurança de barragens para as quais outorgou o direito de uso e de orientar as
medidas preventivas ou corretivas a serem tomadas pelo empreendedor de recursos
hídricos, que é o responsável legal pela segurança da barragem.
Com a avaliação realizada por um técnico especializado e experiente, é
possível apontar, com a antecedência ou urgência requerida, a necessidade de
recuperar ou reformar a barragem que representa ameaças. A inspeção regular
deverá ser realizada com a periodicidade estabelecida de acordo com a classificação
de risco e dano potencial da barragem, devendo ser realizadas pelo empreendedor
durante os ciclos de inspeções.

8 DOCUMENTOS PARA INSPEÇÃO DE SEGURANÇA REGULAR DE


BARRAGEM:

 Ficha de inspeção devidamente preenchida


 Relatório de inspeção de segurança regular da barragem (elaborado por
profissional habilitado pelo CREA);
 Extrato do relatório de inspeção, que deve ser encaminhado para a ANA
pelo sistema SNIRH. Obedecendo aos prazos estabelecidos em função
do nível de perigo constatado para a barragem: emergência - em até 1
dia após a realização da inspeção; alerta- em até 15 dias após a
realização da inspeção; ou normal e atenção- até 31 de maio de cada
ano, para as inspeções realizadas durante o Primeiro Ciclo de
Inspeções; e até 30 de novembro de cada ano, para as inspeções
realizadas durante o Segundo Ciclo de Inspeções.
A ficha e o relatório de inspeção deverão ser arquivados junto ao respectivo
Plano de Segurança de Barragem.

8.1 Fiscalização de barragens

A Política Nacional de Segurança de Barragens-PNSB (lei nº 12.334/2010),


define a ANA como instituição responsável por fiscalizar a segurança de barragens de
acumulação de água localizadas em rios de domínio da União para as quais emitiu
outorga, com exceção daquelas utilizadas para a geração de energia elétrica.
Além disso, é atribuição da ANA organizar, implantar e gerir o Sistema Nacional
de Informações sobre Segurança de Barragens (SNISB), assim como promover a
articulação entre os órgãos fiscalizadores de barragens e coordenar a elaboração do
Relatório de Segurança de Barragens.
Todos os empreendedores de barragens fiscalizadas pela ANA devem
obedecer a Resolução ANA nº 236/2017, que estabeleceu a periodicidade, qualificação
técnica e conteúdo do Plano de Segurança da Barragem, das Inspeções de
Segurança Regular e Especial, da Revisão Periódica de Segurança de Barragem e
do Plano de Ação de Emergência.
8.2 Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens – SNISB

De acordo com a Política Nacional de Segurança de Barragens, a Agência Nacional


de Águas (ANA) é a instituição fiscalizadora responsável por manter os cadastros atualizados
das barragens localizadas em rios de domínio da União, exceto aquelas destinadas para fins
de aproveitamento hidrelétrico, no Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de
Barragens (SNISB).
Apenas as barragens que tenham, no mínimo, um dos requisitos abaixo necessitam
constar no SNISB:
 Altura maior ou igual a 15 m;
 Capacidade total do reservatório maior ou igual a 3 hm³;
 Reservatórios que contenham resíduos perigosos, conforme normas
técnicas aplicáveis;
 Dano potencial associado médio ou alto.

9 GESTÃO DE BARRAGENS

Os responsáveis por empreendimentos industriais e minerários que possuem


barragens de contenção de rejeitos, de resíduos e de reservatórios de água devem
apresentar à Feam o Cadastro de Barragem, em cumprimento à Deliberação
Normativa COPAM 87/2005.
O formulário eletrônico do Cadastro de Barragem está disponível no Banco de
Declarações Ambientais – BDA - e deve ser preenchido e enviado à Fundação
Estadual de Meio Ambiente (Feam) exclusivamente em formato digital.
O BDA permite ao usuário realizar o Cadastro de Barragem e emitir protocolo
de envio, que deverá ser mantido pelo responsável para fins de comprovação junto
ao órgão ambiental. O cadastramento das barragens em Minas Gerais tem por
objetivo promover a classificação quanto ao potencial de dano ambiental e a
atualização sistemática das informações relativas às auditorias de segurança, visando
à minimização da probabilidade da ocorrência de acidentes com danos ambientais.
O medo de ser varrido sem qualquer chance de escapatória por uma onda de
rejeitos de minério ficou mais evidente em Minas após o emblemático rompimento da
Barragem do Fundão, em Mariana, em 5 de novembro de 2015. E voltou a se tornar
pesadelo de gente que vive aos pés desses grandes maciços destinados a represas
de resíduos depois que a Barragem de Casa de Pedra, em Congonhas, apresentou
infiltrações graves.
A estrutura precisou passar por intervenções urgentes e implantar um sistema
de evacuação de emergência para que as cerca de 4.800 pessoas que residem a
apenas 250 metros do complexo treinassem procedimentos de salvamento. A
exemplo dessas comunidades, muitas convivem com o medo de ser dizimadas como
em Mariana, onde houve 19 mortes – uma das vítimas nem sequer teve o corpo
localizado.
Esse tipo de receio persegue diariamente quem mora, por exemplo, abaixo da
Barragem de Capão da Serra, em Nova Lima, e vê obras sendo feitas no alto do
represamento sem saber a que se destinam. Da mesma forma, habitantes de alguns
bairros de Rio Acima, na Grande BH, ameaçados pelos rejeitos tóxicos da barragem
abandonada da Mundo Mineração, um perigo que pode contaminar até mesmo o Rio
das Velhas e comprometer o abastecimento da Grande BH.

10 MEDIDA PREVENTIVA

Abandonadas desde 2012, as duas barragens da Mundo Mineração, em Rio


Acima, foram assumidas pelo governo de Minas Gerais neste ano, justamente para
garantir que os minerais tóxicos acumulados não atinjam moradias e acabem
ingressando em corpos hídricos da região. O pior dos cenários seria a poluição
desastrosa do Rio das Velhas, justamente antes da captação realizada pela Copasa
em Nova Lima, responsável por abastecer cerca de 3 milhões de pessoas da Grande
BH.
Ainda que sob essa ameaça, poucas pessoas do entorno sabem do potencial
de gravidade. “Não tenho conhecimento sobre a barragem, só sei que existe. Muita
gente fala sobre ela. Já ouvi falar que ela pode uma hora romper. Acho que a
tendência é que pegue (a onda de rejeitos) umas fazendas e chegue até o Rio das
Velhas. O pessoal depois do reservatório (captação da Copasa) depende dessa água,
e a mineração de ouro é contaminada, pode acabar com tudo”, observa o aposentado
Antônio Bosco Ribeiro, de 64 anos, morador de um dos bairros com risco de ser
atingido em caso de rompimento, o Vila Nossa Senhora do Carmo.
Uma equipe de pesquisadores do Centro de Desenvolvimento da Tecnologia
Nuclear (CDTN) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que faz
levantamentos sobre as condições das estruturas e possíveis contaminações de
lençóis freáticos e de corpos hídricos superficiais, relataram que não foram
identificados riscos imediatos, apesar de as instalações estarem abandonadas e não
terem passado pelo procedimento de segurança que envolveria o encerramento das
atividades num empreendimento daquele porte. Os representantes do centro
confirmaram que vários tipos de tóxico de uso tradicional no processo de produção de
ouro se encontram dispostos nas barragens de rejeitos revestidas por membranas.
Um desses tóxicos é o cianeto, que, quando em contato com o homem ou os animais
em quantidade elevada, pode levar à morte em pouco tempo por parada
cardiorrespiratória.

10.1 Comunidade impede implantação de barragem que teria três vezes o


volume da de Fundão

Se a luta das comunidades de áreas ameaçadas em caso de rompimento das


barragens de rejeitos é para que as estruturas sejam monitoradas e apresentem
garantias de estabilidade, há mineiros que travam outra batalha: a resistência à
instalação de empreendimentos que venham a tirar a sua paz. Uma dessas estruturas
é a Barragem Maravilhas 3, que a mineradora Vale deseja construir em Itabirito,
próximo ao limite com Nova Lima, na Grande BH. Depois de conseguir a Licença de
Implantação em setembro, sendo confirmada em novembro pelo Conselho Estadual
de Política Ambiental (Copam), o início das obras está ainda suspenso por força de
liminar na Justiça concedida em favor do Ministério Público (MP). O barramento tem
alto potencial poluidor por ter dentro de sua área de alagamento condomínios de Nova
Lima como o Estância Alpina e o Vale dos Pinhais, além de ameaçar diversos corpos
hídricos e a própria captação de água da Copasa no Rio das Velhas, responsável pelo
abastecimento de 3 milhões de habitantes da Grande BH. A Vale afirma que a
construção segue todos os trâmites e exigências legais. O barramento está projetado
para alcançar uma altura máxima de 86 metros, com capacidade para conter 108
milhões de metros cúbicos (quase três vezes o volume da Barragem do Fundão, em
Mariana, que rompeu em 2015, matando 19 pessoas e desalojando milhares).
A mineradora admite que a construção ainda não tem data definida, mas que
será feita pelo método de alteamento para jusante (na direção de onde a água deixa
a estrutura), com um alteamento com aterro compactado e fundação sobre terreno
natural previsto em projeto. “Esta metodologia permite compactação de todo o corpo
da barragem, melhor controle da drenagem interna e maior resistência a sismos, além
de não apresentar risco de liquefação do maciço”, indica a empresa, numa referência
à técnica construtiva mais tradicional e atualmente malvista, de alteamento a montante
(na direção de onde a água vem), que é sujeita a vários problemas.
A técnica a montante era a utilizada na Barragem do Fundão, em Mariana, e
tem sido alvo de endurecimento de exigências pelas propostas de legislação que
tramitam na Assembleia Legislativa de Minas Gerais há dois anos, desde a época da
maior tragédia socioambiental do Brasil.

Fonte:www.faculdadearnaldo.com.br

A Vale sustenta que a construção da represa é necessária para dispor os


rejeitos provenientes das Instalações de Tratamento de Minério (ITM) das Minas do
Pico e Vargem Grande, que atualmente correspondem à produção de cinco unidades
industriais. Informou, também, que foi desenvolvido o estudo de ruptura hipotética
(uma simulação da extensão de estragos em caso de a barragem se romper) com a
elaboração de mapa de inundação, que consta no Plano de Ação de Emergência de
Barragens (PAEBM). “Para a barragem de Maravilhas 3, os estudos foram
desenvolvidos em cumprimento ao processo de licenciamento ambiental e o
documento PAEBM será protocolado na Defesa Civil municipal e estadual quando da
entrada de operação desta estrutura”, acrescentou a empresa por meio de nota.
Uma alegação adicional da Vale é que, durante o processo de licenciamento,
foram realizadas reuniões com as comunidades próximas ao empreendimento, bem
como com a Defesa Civil municipal de Itabirito para a “apresentação das ações
associadas à gestão de segurança e às atividades em desenvolvimento de prontidão
para gestão de emergências de barragens, como por exemplo o cadastro das pessoas
dentro da zona de autossalvamento, a implantação de sistema de sirenes e a proposta
de rotas de fuga e de pontos de encontro”.

Fonte:www.google.com
11 OBRAS DE MANUTENÇÃO PREVENTIVA

A análise frequente é responsável por apontar necessidades de adaptações ou


manutenções.
“A engenharia nacional é mais do que qualificada para construir e realizar
manutenções em barragens convencionais. Inclusive, nossas estruturas são mais
seguras do que muitas daquelas existentes em países desenvolvidos”. No entanto, o
cenário é totalmente oposto quando são abordadas as barragens de rejeitos de
mineração. “Grande parte do meio técnico concorda que esse tipo de estrutura tem
problemas e não é segura. São construídas sem os cuidados das convencionais”,
complementa.
Na mineração, a atividade principal é a exploração, e a barragem serve
somente para conter os detritos. Por isso, a estrutura normalmente é encarada pela
mineradora como um custo. “Visando maximizar seu lucro, a empresa acaba
reduzindo o investimento destinado para a barragem”.
Além disso, a estrutura é executada aos poucos e financeiramente não
compensa construir uma grande estrutura que demorará 30 anos para ser totalmente
preenchida. Assim, o minerador acaba fazendo um primeiro dique de cinco metros e,
quando este estiver cheio, começa a construção de outro e, assim, sucessivamente.
“A obra vai acontecendo aos poucos, o que dificulta a instalação de sistemas
adequados de drenagem”.
O próprio método construtivo utilizado em barragens de rejeitos de minérios
colabora para torná-las inseguras. A estimativa é que 90% dessas estruturas tenham
sido executadas sobre o próprio material de rejeitos. Esse era o caso da barragem de
Fundão, em Mariana (MG), que rompeu em novembro de 2015 provocando o maior
desastre ambiental da história do Brasil. “A alternativa é escolhida por proporcionar
menor custo”, indica o docente.
Mesmo após a tragédia de Mariana, efetivamente não houve grandes
mudanças na execução das barragens de rejeitos de minérios. O Departamento
Nacional de Produção Mineral (DNPM) – órgão federal responsável por cuidar da
mineração – passou a exigir relatórios detalhados sobre as condições das estruturas
em todo o país. “Porém, essa ação não é muito efetiva, somente obrigando o
minerador a apresentar a documentação técnica e a lidar com alguma burocracia”.
A construção precisa seguir à risca o projeto e tudo deve ser feito levando em
consideração as condições do entorno
Prova é que a estrutura de Mariana estava em conformidade com o manual de
vistorias. O relatório pede somente uma inspeção externa da barragem. Mas, em
Minas Gerais, foram as pressões internas que se elevaram e causaram o rompimento.
As revisões das técnicas construtivas, que deviam ser consideradas as
iniciativas mais importantes, acabaram ficando de lado. “O assunto chegou a ser
debatido com o impacto inicial causado pela tragédia. No entanto, a discussão esfriou
e caiu no esquecimento. Com isso, as coisas permanecem da mesma maneira que
estavam antes do ocorrido”, diz o geólogo.
Um dos principais cuidados para evitar a reedição da tragédia de Mariana é o
monitoramento constante e adequado. Essa verificação deve ser realizada com base
em instrumentos específicos, que têm a função de aferir as reais condições das
barragens. “O procedimento já ocorre nas estruturas convencionais, mas, nas de
rejeitos de minérios, as vistorias ficam restritas a análises visuais”.

11.1 Mais Segurança

A construção de uma barragem considerada segura começa com a elaboração


de um estudo do meio físico. Nesse levantamento são classificados os tipos de solo e
subsolo, estruturas geológicas, condições de água, entre outros elementos. “Também
é preciso realizar investigação geotécnica, atividade fundamental para qualquer obra
e, em especial, para as barragens. Afinal, são grandes obras que impõem tensões
elevadas no solo”, diz o docente.
Independentemente da tipologia, a execução deve ser feita de acordo com as
diretrizes das normas técnicas e sempre empregando os materiais adequados. “A
construção precisa seguir à risca o projeto e tudo deve ser feito levando em
consideração as condições do entorno”.
Não existem normas técnicas específicas para essas construções. O que há é
uma vasta coletânea de diretrizes para cada etapa do projeto e execução. “Mais de
50 normas precisam ser seguidas, como as que norteiam o processo de sondagem e
de realização do aterro”.
O Programa Estadual de Construção de Barragens prevê investimentos de R$
60 milhões, por meio de recursos da Secreataria de Estado da Agricultura,
Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag), para a implantação de 60 reservatórios
de água no interior do Estado até este ano, além da retomada das obras da maior
barragem do Espírito Santo.
Para a definição dos locais onde ficarão as 34 barragens, foram levados em
consideração os seguintes fatores:
 Existência de Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) firmados;
 Locais que possibilitavam a construção de barragens médias e com uma
maior relação volume/lâmina;
 Locais que não necessitavam de desapropriação (áreas doadas);
 Maior número de usuários beneficiados.

A Seag também está licitando as obras para a construção de 26 barragens de


uso coletivo em assentamentos de trabalhadores rurais capixabas no Norte do Estado.
Elas terão capacidade de armazenamento de 1,5 bilhão de litros de água e
representam um investimento de aproximadamente R$ 14 milhões.
A Seag também está concluindo as obras da barragem de Pinheiros-Boa
Esperança, um investimento de R$ 6,1 milhões. Essa barragem será a maior do
Espírito Santo, com cerca de 270 hectares de área alagada, em uma extensão de
aproximadamente 10 quilômetros. A capacidade de armazenamento da barragem
será de 17 bilhões de litros de água, quantidade suficiente para abastecer uma
população de 310 mil habitantes por um período de um ano.
A implantação da barragem teve início em 2003. Inicialmente, as obras eram
tocadas pela prefeitura de Pinheiros, em parceria com o Governo Federal. No entanto,
ao longo dos anos, o projeto sofreu com inúmeras paralisações. Como forma de dar
agilidade à conclusão da represa e aumentar a segurança hídrica em toda a região de
abrangência da barragem, o Governo do Estado decidiu assumir a obra no final do
ano passado. A expectativa é que o barramento esteja fechado até o primeiro
semestre de 2017.
As obras de conclusão da represa de Pinheiros-Boa Esperança consistem no
fechamento da barragem, na delimitação e na recuperação das áreas de preservação
permanente e na limpeza e na preparação da área que será alagada. Serão
reflorestados aproximadamente 100 hectares no entorno da barragem, cumprindo a
exigência legal de manter como Área de Preservação Ambiental (APP) uma faixa de
30 metros a partir da margem da represa.
Além das barragens citadas, a Companhia Espírito Santense de Saneamento
(Cesan) e a Seag firmaram um convênio para a elaboração de seis novos projetos de
barragens de médio porte. De acordo com o convênio, a Cesan vai repassar R$ 600
mil para que a Seag realize a licitação para elaborar os estudos e projetos básicos
necessários para contratar as obras de construção das barragens. A prioridade dos
empreendimentos é para o abastecimento humano, mas os reservatórios também
podem ser utilizados para outros fins, como geração de energia, irrigação e contenção
de enchentes.
O objetivo de construção das barragens é armazenar água para garantir a
segurança hídrica e a regularidade do abastecimento público. Os municípios
beneficiados serão Alto Rio Novo, Vila Pavão, Pedro Canário, Ecoporanga, Barra de
São Francisco e São Roque do Canaã, cidades que estão entre as mais afetadas pela
crise hídrica. A expectativa é que os projetos de engenharia sejam concluídos até o
primeiro semestre do ano que vem.
As barragens deverão ser construídas em áreas estratégicas e atender às
regiões que historicamente apresentam redução na disponibilidade da água e que
estão com os mananciais em estado extremamente crítico. A construção das
barragens também vai reduzir os efeitos das mudanças climáticas no regime de
chuvas e da baixa retenção de água pelo solo devido ao desmatamento.

12 SEGURANÇA DE BARRAGENS

A Lei nº 12.334/2010 estabelece a Política Nacional de Segurança de


Barragens. A segurança de barragens é a condição que visa manter a sua integridade
estrutural e operacional da barragem e a preservação da vida, da saúde, da
propriedade e do meio ambiente.
De acordo com lei, a segurança da barragem é responsabilidade do
empreendedor. Já a responsabilidade pela fiscalização da segurança das barragens
é dividida entre quatro grupos, de acordo com a finalidade da barragem. A saber:
 Barragens para geração de energia: Agência Nacional de Energia
Elétrica (ANEEL);
 Barragens para contenção de rejeitos minerais: Departamento Nacional
de Produção Mineral – DNPM;
 iii) Barragens para contenção de rejeitos industriais: Instituto Brasileiro
do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) ou
órgãos ambientais estaduais, a depender da emissão da Licença
Ambiental; e
 iv) Barragens de usos múltiplos: Agência Nacional de Águas (ANA) ou
de órgãos gestores estaduais de recursos hídricos.

Como exemplo de competências, no caso específico do acidente de


Mariana/MG, a fiscalização da segurança da barragem caberia ao Departamento
Nacional de Produção Mineral (DNPM), por se tratar de barragem de rejeitos.
A fiscalização da segurança, por sua vez, não exclui as ações de outros órgãos,
como a fiscalização relativa ao licenciamento ambiental, outorgas etc.
Atualmente o IBAMA cobra o cadastramento daqueles que possuem barragens
em seus empreendimentos, e que são obrigados a se registrarem no Cadastro
Técnico Federal (CTF), de que trata a Lei 10.165 de 2000.
Os empreendimentos que possuem barragens, sejam de água, sejam para
retenção de resíduos/rejeitos, além do Relatório Anual de Atividades Potencialmente
Poluidoras e Utilizadoras de Recursos Ambientais - RAPP, obrigatoriamente devem
também preencher o Relatório Anual para Barragens, em específico as pessoas
físicas e/ou jurídicas que exercerem atividade sujeita à Taxa de Controle de
Fiscalização Ambiental (TCFA) e que possuam barragens. Algumas informações que
são fornecidas no relatório: volume do barramento, tipo do produto/resíduo poluente
nela armazenado, existência de Plano de Ação de Emergência no âmbito do seu
respectivo licenciamento ambiental, bem como se houve algum tipo de monitoramento
de sua segurança naquele período.
13 BARRAGENS HIDRELÉTRICAS

Fonte: www.veja.abril.com.br

As barragens hidrelétricas constituem hoje a principal fonte de energia elétrica


no Brasil e uma das maiores produtoras no mundo. São complexas construções que
utilizam princípios básicos da física para gerar eletricidade, usando a força da água
represada que, ao ser pressionada a passar pelos dutos dos paredões, impulsiona as
pás das turbinas que acionam os geradores.
É uma fonte natural até certo ponto e uma alternativa extremamente viável
quando a água era encontrada abundantemente e não havia riscos de sua extinção
no mundo.
Apesar de serem projetos de engenharia caríssimos por conta de sua difícil
implantação, da necessidade de estudos prévios detalhados sobre viabilidade e de
exigir constante manutenção da infraestrutura produtiva, a eletricidade gerada pelas
barragens hidrelétricas ainda é uma das mais baratas que o homem já produziu.
Grandes dificuldades são encontradas para a construção de barragens como:
lidar com o regime dos rios, com seus cursos e relevos particulares, com o clima e até
com a inospitalidade do local a ser atendido por uma quantidade imensa de material
de construção e de máquinas.
Ainda assim, são obras que despertam o interesse tanto das construtoras como
dos governos, pelo seu alto custo, para uns, e pelo seu potencial de geração de
energia, para outros.
Além disso, as barragens são usadas para outros fins como a piscicultura, a
irrigação de áreas do entorno, captação de água para fornecimento a atividades
industriais, etc. porém, o grande problema delas é o alto custo socioambiental
causado pelos impactos de sua implantação.
Para a construção de uma barragem hidrelétrica, é necessário o represamento
da água de um rio que, sem ter como continuar seu curso natural, alaga grandes
paragens à sua volta, formando um imenso lago onde antes havia fauna e flora, além
de comunidades inteiras e povos originários.
Muitas pessoas perderão suas casas (cidades inteiras já foram alagadas),
juntamente com suas atividades econômicas, geralmente ligadas ao rio, e várias
espécies serão ameaçadas, tanto de plantas como de animais, por maior que seja o
esforço em catalogá-las e mudá-las de região.
Algumas espécies, simplesmente, não se adaptam, e assim também é com o
ser humano que é removido de seu habitat natural.
Por esse motivo é necessário pensar-se em alternativas para a construção de
barragens hidrelétricas e, principalmente, para nossa forma de consumo de
eletricidade. Além disso, por serem completamente dependentes dos regimes dos
rios, as mudanças climáticas que estão ocorrendo no mundo todo podem modificar a
capacidade de produção de uma barragem, jogando fora grandes quantias gastas.
Um investimento em novas tecnologias na produção, transmissão e no
consumo, que minimizem o desperdício, também é uma boa alternativa para diminuir
nossa necessidade de aumento na produção de energia.
14 A IMPORTÂNCIA DAS BARRAGENS PARA A CONVIVÊNCIA COM A SECA

A escassez de água sempre foi o grande desafio para a sobrevivência humana


e animal, sobretudo no Norte e Nordeste de Minas Gerais, onde a estiagem é
prolongada. Uma alternativa que sempre deu certo foi a construção de barragens
abertas ou subterrâneas.

Fonte: www.veja.abril.com.br

A técnica desta última é relativamente simples. Consiste em captar e


armazenar a água da chuva em pequenas valas abertas até a parte impermeável do
solo. Depois cobre-se com lonas, terra e vegetação rasteira.
Já as barragens abertas são depósitos de água bem maiores com a finalidade
de abastecer grandes áreas povoadas ou a atividade agropecuária. Há mais de quatro
séculos as barragens vêm propiciando enormes benefícios. Apesar de o Brasil ter a
maior reserva de água potável do mundo, sofremos problemas de contaminação de
mananciais e irregularidade pluviométrica. As barragens têm demonstrado resultados
bem exitosos para se evitar isso.
No entanto, necessitam de investimento financeiro, humano e ambiental, além
de acompanhamento, monitoramento e manutenção, para garantir seu funcionamento
e evitar acidentes. É exatamente isso que o governo do Estado de Minas vem fazendo.
Só para se ter ideia, a Secretaria de Estado de Desenvolvimento e Integração
do Norte e Nordeste de Minas Gerais (Sedinor) liberou R$ 9 milhões para as obras de
ampliação do sistema de abastecimento de água do município de Montes Claros e R$
4,2 milhões para a complementação da Barragem Viamão, em Mato Verde.
As obras em Montes Claros, que começaram a ser executadas no ano passado,
vão garantir o abastecimento em toda a cidade e distritos da zona rural 24 horas por
dia, sem sofrer interrupções. A capacidade de tratamento da Estação de Tratamento
de Água - ETA Verde Grande será quase dobrada, passando dos atuais 600
litros/segundo para 1.156 litros/segundo.

Parei aqui
Já a ETA Morrinhos, que será totalmente modernizada, passará dos atuais 250
para 400 litros/segundo. Além disso, um novo reservatório será construído com a
capacidade de 11 mil metros cúbicos e mais dois reservatórios nos bairros Ibituruna e
Sapucaia.
Essas ações têm o intuito de amenizar os efeitos da seca em todo o nosso
Estado, principalmente nas regiões mais secas, pois o total investido já chega a R$
34 milhões para essa obra, que faz parte das ações do programa Água Para Todos,
resultado de convênio firmado em outubro de 2016 entre o governo de Minas Gerais
e o Ministério das Cidades.
Não resta dúvida que as barragens são importantes instrumentos de
desenvolvimento, haja vista que propiciam a geração de energia hidrelétrica, o
fornecimento de água, a regulagem das cheias e beneficiam diretamente a irrigação,
o que pode ser traduzido em mais fartura para a mesa dos brasileiros.
Graças às barragens, o Brasil tem melhores condições de enfrentar os desafios
da seca e proporcionar uma vida menos cruel para sua gente. Continuaremos nessa
empreitada de ajudar os mineiros, das mais longínquas cidades, a terem água de
qualidade durante todo ano. Esse é o compromisso que já estamos cumprindo.
Barragens de terra são necessárias às atividades rurais
A água é um recurso natural de grande importância para o homem, pois sua utilização é
indispensável em qualquer atividade. Apesar da sua abundância na Terra, ao longo dos anos, ela
vem sofrendo agressões intensas e, em consequência, sua disponibilidade vem diminuindo cada
vez mais. É fácil perceber que a redução na quantidade e na qualidade da água poderá se tornar
um problema muito sério para a humanidade. Portanto, em qualquer situação, ela deve ser
utilizada de forma racional, isto é, de maneira não abusiva e sempre evitando-se a contaminação
dos mananciais.

Tendo em vista que a maioria das bacias de cabeceira, onde nascem os rios, encontram-se em
propriedades rurais, a preservação da qualidade da água deve iniciar pelo meio rural. Dependendo
da atividade que o produtor deseja praticar, para que ela seja conduzida de forma eficiente, torna-
se necessário construir uma barragem. Porém, a atual legislação referente à preservação dos
recursos ambientais reconhece que os cursos d’água, mesmo aqueles que se localizam em
propriedades particulares, são áreas de preservação permanente e, por isso, a construção de uma
barragem, que geralmente é feita interceptando um curso d’água, não poderá ser uma decisão
exclusivamente do produtor.

É preciso haver uma autorização dos órgãos competentes com base em comprovação de que a
obra será de interesse público ou que favorecerá o desenvolvimento social da região. É preciso,
também, haver comprovações de que a construção da barragem será conduzida seguindo critérios
técnicos adequados que resultarão em uma barragem eficiente, segura, sem riscos de
arrombamentos e dentro das normas de preservação do meio ambiente.

Uma barragem de terra é uma estrutura construída em sentido, geralmente, transversal ao fluxo
de um curso d’água, de tal forma que permita a formação de um reservatório artificial. Esse terá a
finalidade de acumular água ou elevar o nível do curso. Quando apenas as águas das chuvas
serão acumuladas no reservatório, ele é denominado de açude; já aqueles reservatórios que têm
regime normal de abastecimento (córregos, riachos ou rios) são denominados de represas.
Dependendo da atividade que o produtor deseja praticar, torna-se necessário a construção de uma
barragem
A construção de uma barragem poderá ser feita visando atender a diversas situações, tais
como permitir o abastecimento uniforme de água para comunidades; armazenar água para ser
utilizada em irrigações; elevar o nível de um curso de água para possibilitar o abastecimento, por
gravidade, a sistemas de irrigação, pisciculturas, criatórios de animais (bovinos, equídeos, aves),
entre outros; e possibilitar a instalação de rodas d’água, associadas a bombas de pistão, para
realizar bombeamento de água, possibilitando a criação de peixes em tanques-rede; entre outras.
Apesar de ser bastante fácil construir uma barragem, para que ela seja feita com segurança e seja
eficiente, torna-se necessário entender os elementos que a constituem; saber avaliar se um
determinado local é adequado para construí-la; e dominar as técnicas construtivas.

Com o objetivo de mostrar os critérios técnicos, que garantirão uma barragem eficiente, segura e
sem riscos de arrombamentos, o CPT – Centro de Produções Técnicas elaborou o
curso “Construções de Pequenas Barragens de Terra”, no qual você receberá informações do
professor José Dermeval Saraiva Lopes, engenheiro agrícola, mestre em engenharia agrícola,
com grande experiência prática.

Após fazer o curso e ser aprovado na avaliação, o aluno recebe um certificado de conclusão
emitido pela UOV – Universidade On-line de Viçosa, filiada mantenedora da ABED – Associação
Brasileira de Educação a Distância.

Na construção das barragens de terra são utilizados materiais naturais e equipamentos simples.
Elas são ideais de serem construídas em vales abertos; em locais que possuam grandes
quantidades de solo argiloso ou areno-argiloso; e que disponha, pelo menos, em uma de suas
laterais, de um espaço que possibilite a construção de um extravasor, sem a necessidade de fazer
grandes cortes no terreno. Todo o solo retirado na abertura do extravasor deverá ser aproveitado
para a construção do corpo da barragem.

Geologia de Barragens e a
importância na Engenharia
Toda obra de engenharia tem pelo menos parte de sua estrutura em contato com rochas
ou solos. Conhecer as condições geológicas do local no qual será inserida uma barragem, por
exemplo, possibilita um projeto executado de forma mais eficiente em vários aspectos. Cabe ao
geólogo fazer os levantamentos e toda a investigação necessária para trazer ao engenheiro a
natureza e a situação desses terrenos.
A obra ideal é aquela que tenha tempo de execução reduzido, e consequentemente, seus
custos também. Garantir a sua segurança para que não aconteçam desastres no futuro e a
preservação (ou mínimo desgaste possível) do meio ambiente são itens igualmente considerados
em um projeto. Não basta somente, como querem alguns profissionais, a adoção de coeficientes
de segurança mais altos, pois essa medida implica em obras mais caras, provavelmente mais
demoradas e, claro, menos competitivas.
A vida de uma obra de barramento inicia-se com o projeto da obra, passando pela
construção e operação. O projeto é constituído por quatro fases:
1. Inventário ou plano diretor;
2. Viabilidade;
3. Projeto básico;
4. Projeto executivo.
Geologia de Barragens explica detalhadamente cada uma das fases do projeto, e a partir
da vasta experiência do autor na área, são citados exemplos de como a falta da geologia em
projetos de engenharia aumenta a margem de prováveis desastres. A não valorização do mapa
geológico é visível no Brasil, fato é, que desastres de barragens estão cada vez mais comuns.
Irapé
A barragem de Irapé em Minas Gerais é um exemplo citado pelo autor. Nela, uma análise
das propriedades químicas ao final da fase de viabilidade permitiu constatar eflorescências sobre
os testemunhos de sondagens, cuja análise revelou tratar-se de sulfato de cálcio.
Tal fato levou a desconsiderar para esse projeto as alternativas de barragens de
enrocamento com face de concreto e de concreto compactado, que foram desenvolvidas como
mais viáveis, para optar por barragem de terra, cujo projeto foi desenvolvido na fase de projeto
básico e levado à construção em seguida. A mudança evitou sérios problemas futuros, pois
certamente os carbonatos do cimento reagiriam com o sulfato do agregado, provocando a
deterioração do concreto.
Para a barragem de Irapé, a pesquisa micropetrográfica bem detalhada foi essencial,
assim como deve ser para outras obras, pois alguns minerais presentes nos agregados podem
liberar sais quando em presença de água, os quais podem promover mudanças na pega e no
endurecimento do cimento, além de provocar a deterioração do concreto.
O conhecimento das condições hidrográficas e hidrológicas, estabilidade dos terrenos,
composição e propriedade dos solos e rochas, entre outros itens, são fundamentais para uma boa
investigação. Uma boa investigação é, portanto, um bom projeto.

Acúmulo de água em
barragens é solução apontada por
especialista em irrigação
Artigo do presidente da ABID, Helvécio Mattana, destaca as boas técnicas de
engenharia para a gestão de recursos hídricos
A crise hídrica, realidade em grande parte do território brasileiro e intensificada
no segundo semestre deste ano, tem sido tema de diversos estudos, principalmente
com o intuito de desenvolver novas alternativas para a falta de água e seus efeitos.
Outra vertente bastante discutida é o uso da água para a irrigação, como forma de
ampliar a agricultura irrigada no país, que carrega consigo efeitos multiplicadores tanto
na área econômica, como social.
Neste sentido e buscando destacar as boas práticas agrícolas que assegurem
a infiltração e captação de cada gota d’água que cai na propriedade, o engenheiro
agrônomo e presidente da Associação Brasileira de Irrigação e Drenagem (ABID),
Helvécio Mattana Saturnino, desenvolveu o artigo “A riqueza das gotas das chuvas
não pode ser perdida”. No trabalho, ele busca desmistificar as reservas deste recurso
em barragens de terra, demonstrando que essa é uma opção viável para manter a
água da chuva nas bacias hidrográficas,
Além disso, o engenheiro agrônomo destaca a capacidade, especialmente do
espaço rural, de coletar as chuvas e fazê-las cada vez mais produtivas ao longo do
ano, seja para a produção agrícola, garantindo os investimentos dos agricultores ou
para a regulação do fluxo hídrico ao longo do ano retendo as águas da estação
chuvosa.
“Na construção de barragens está a necessidade de conjugar as boas técnicas
de engenharia com as de gestão dos recursos hídricos, para que cada
empreendimento seja seguro e atenda às necessidades projetadas. Além disso, pelo
fato da maioria dos mananciais necessitarem de intervenções em áreas de
preservação permanente, é imprescindível a licença ambiental para construção das
barragens. Infelizmente, as dificuldades e morosidade dos processos de
licenciamento ambiental, têm levado muitos agricultores a desistirem do
empreendimento”, argumenta Mattana no artigo. De toda forma, ele considera que
guardar as águas de chuvas em pequenas e médias barragens pode ser considerado
um estratégico investimento.
No mesmo artigo, Helvécio faz a divulgação do documento intitulado
“Construção de barragens para fins de agricultura irrigada- cenário regulatório,
desenvolvido na cidade de Viçosa. A publicação aborda a importância das barragens
e traz os fundamentos e procedimentos necessários para que esses investimentos
sejam realizados. O trabalho completo pode ser acessado pelo link:
https://drive.google.com/viewerng/viewer?url=http://www.ciflorestas.com.br/arquivos/
d_d_d_32086.pdf
A IMPORTÂNCIA DAS BARRAGENS SUBTERRÂNEAS PARA AS FAMÍLIAS DO SEMI-
ÁRIDO PERNAMBUCANO

INTRODUÇÃO:

A escassez de água na região do semi-árido se constitui num grande obstáculo à


permanência humana no meio rural. Uma alternativa para esse problema é a construção das
Barragens Subterrâneas (BS’s). A técnica é relativamente simples, consiste em captar e armazenar
a água da chuva no perfil do solo por meio de uma ‘parede’ impermeável transversal ao
deslocamento da água. De baixo custo, essa tecnologia tem diversificado o sistema agrícola, e
consequentemente, melhora da qualidade alimentar da família. Com o objetivo de avaliar as
condições sócio-econômicas das famílias que dispõem das BS’s, faz-se necessário também
estudar a diversificação de cultivo e produção agrícola. Essa experiência relatada aqui pretende
mostrar como é possível criar condições de convivência com o semi-árido, tendo por base a
construção de barragens subterrâneas.

METODOLOGIA:

Este trabalho teve como principal fonte o Instituto Agrônomo de Pernambuco – IPA, no qual
foi possível fazer análises quantitativas e qualitativas das BS’s existentes no município de Pedra,
localizado no Agreste pernambucano, na microrregião do Vale do Ipanema, distante 255 Km da
capital. Foram recolhidos materiais iconográficos e realizadas visitas “in loco” na qual foi observado
quatro BS’s, sendo possível analisar os dados obtidos e delinear os resultados vistos em campo.

RESULTADOS:

As BS’s foram construídas, a priori, para oferecer a possibilidade de uma alimentação mais
adequada às famílias em época de seca, mas tem surpreendido pelo seu potencial de
aproveitamento. Elas podem fornecer água para uso doméstico, consumo animal e até irrigação.
Essas obras somam mais de 500 unidades no semi-árido pernambucano. É fundamental, antes de
construir uma barragem subterrânea, certificar-se da qualidade da água do riacho e do solo
circundante para não apresentar problemas de salinidade, que é o principal indicador. O outro, não
menos importante, diz respeito ao modo de construção das BS’s, que pode ser mecanizada ou
manual. O custo varia entre R$ 500, se for manual, usando a mão-de-obra familiar e dando
emprego temporário, até R$ 6 mil, se for mecanizada. Os resultados demonstram tanto a
exploração de culturas anuais, tais como milho, feijão, sorgo, como também culturas perenes:
manga, graviola, limão, goiaba, acerola. Para a criação de animais, ficou constatado que é melhor
“criar animais que bebam pouca água”, como afirma um criador de galinhas. Animais de menor
porte consomem menos água. Todos esses fatores elevam a qualidade de vida da família no semi-
árido, sem que se mostrem necessárias construções de mega barragens e/ou transposições.

CONCLUSÃO:

Ante o exposto, verifica-se que existem diferentes alternativas para a criação e a exploração
de reservas hídricas na região do semi-árido. A construção de BS’s, em condições favoráveis, pode
ser a salvação de milhares de famílias. Diante disso, esse estudo vem propor que a barragem
subterrânea constitua uma alternativa à captação de água, de forma que incremente a
produtividade agrícola, bem como vem propor a permanência do homem no campo com condições
dignas para a sua sobrevivência.

A segurança das barragens


brasileiras
15 de junho de 2009
63

As obras de engenharia devem sempre considerar os efeitos de chuvas


intensas.
E as barragens não são exceções
MAIS UMA vez a engenharia brasileira se viu diante de uma tragédia.
Agora foi o rompimento da barragem de
Algodões, no Piauí, em 27/5.
Desde o ano passado, Algodões era uma barragem doente, que
apresentava problemas sérios. Os responsáveis demoraram no diagnóstico e
subestimaram a doença. O remédio veio fraco e tardio. Com a confirmação de
pelo menos sete pessoas mortas, esse foi o maior acidente com barragens já
registrado no país.
Mais uma vez a chuva foi rapidamente apontada como a culpada pelos
governantes, pelos responsáveis e pelos irresponsáveis. O rompimento da
barragem e a inundação resultante foram classificados como súbitos ou
inesperados. São argumentos que não se sustentam quando avaliados com um
mínimo de seriedade.
As obras de engenharia devem sempre considerar os efeitos de chuvas
intensas. E as barragens não são exceções. Pelo contrário, são projetadas para
resistir à pior inundação prevista para acontecer em milhares de anos.
Anualmente, muitas barragens rompem no país. Em reunião técnica
realizada na ANA (Agência Nacional de Águas), horas antes da tragédia do
Piauí, falou-se em 800 acidentes ou incidentes com barragens brasileiras nos
últimos oito anos. Ou seja, em média, a cada três ou quatro dias, uma
barragem apresenta graves problemas no Brasil. A grande maioria sem
divulgação na mídia nacional.
Nesse cenário alarmante, com a população passando a temer as
barragens, pode parecer contraditório afirmar que a nossa engenharia de
barragens é uma das mais conceituadas do mundo. Sabemos projetar e
construir barragens seguras, com tecnologia que nada fica a dever a nenhum
país. A culpa desses inúmeros acidentes pode ser atribuída à má gestão.
Existem hoje no Brasil centenas de barragens sem dono, sem um responsável
privado ou governamental. Centenas de barragens abandonadas, sem
vistorias, sem avaliação, sem monitoramento, sem manutenção. Precisamos
urgentemente regulamentar a segurança das barragens.
No Brasil, políticos e governantes não dão importância à gestão das
barragens. Se dessem, já teriam aprovado um projeto de lei sobre o assunto
(PL 1181/03), que tramita há anos e sem pressa na Câmara dos Deputados.
Segurança de barragens tem sido tema frequente de encontros técnicos
no Brasil, reunindo os maiores
especialistas nacionais e estrangeiros. Como resultado, em dezembro de 2008,
duas tradicionais entidades da nossa engenharia, o CBDB (Comitê Brasileiro de
Barragens) e a ABMS (Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e
Engenharia Geotécnica), lançaram uma carta aberta, com recomendações
relevantes sobre o assunto. A criação de um órgão específico, tal como uma
comissão federal sobre segurança de barragens, é de extrema importância
para definir responsabilidades e implantar procedimentos padronizados. É
assim nos principais países desenvolvidos.
Um bom exemplo vem de Minas Gerais. Após a ruína da barragem da
Mineração Rio Verde, em 2001, a pressão da sociedade levou a Secretaria do
Meio Ambiente a implantar um programa estadual de segurança. Foram
estabelecidos os requisitos para a concessão e a renovação de licenças das
barragens de mineradoras classificadas com maior potencial de dano.
Os proprietários devem apresentar um plano de ações emergenciais,
delimitando a área afetada no caso de eventual rompimento. E devem ainda
apresentar anualmente um relatório de segurança, emitido por especialista
independente. O órgão ambiental tem poder para negar a licença se os
requisitos não forem atendidos.
No caso de Algodões, a emergência fora anunciada no início de maio,
quando milhares de residentes foram removidos das áreas a jusante da
barragem. A decisão sobre o eventual retorno das famílias não poderia ser
tomada em ambiente de pressões sociais e políticas. A situação requeria uma
avaliação especializada, com um painel independente de técnicos.
Na área da saúde, uma emergência sobre pandemia é tomada em
reunião de médicos especializados. Na Justiça, as decisões são tomadas por
magistrados e juízes. Mas a nossa engenharia anda mesmo sem prestígio: a
decisão sobre o risco de ruptura da barragem Algodões foi tomada por um
engenheiro cercado de políticos, bombeiros e leigos. As vidas dos moradores
foram decididas numa reunião de fundo político.
A situação da segurança das barragens permanece indefinida. As
autoridades precisam se sensibilizar para não repetir erros. Talvez a grande
tragédia de Algodões possa ao menos contribuir para reverter a situação.
O conhecimento sobre as implicações do armazenamento de milhões de
toneladas de rejeitos em barragens, principalmente a longo prazo, ainda não
são plenos. A construção de grandes barragens de rejeitos tem sido feita há
mais de um século, e essas estruturas requerem a manutenção da sua
integridade em perpetuidade. Porém, apenas um período relativamente curto
de sua existência e desempenho tem sido estudado.
As tecnologias para projeto e construção avançam de forma constante
durante o tempo, principalmente motivadas por falhas de barragens que
sinalizam a necessidade de uma análise mais profunda, bem como a requisição
de premissas mais conservadoras para projetos. O elevado número de
acidentes de barragens, de grande magnitude, ocorridos nos últimos anos,
principalmente em relação as estruturas de mineração, nos remete a questões
associadas a investigação destas falhas.
Nos casos históricos, tem-se o rompimento em 1986 da barragem de
rejeitos da Mina de Fernandinho (Itabirito) que resultou na morte de sete
pessoas. Ainda na cronologia dos grandes acidentes, destaca-se a Barragem
da Mineração Rio Verde (Macacos – Nova Lima) em 2001, em uma área de 43
hectares, com a morte de cinco operários e assoreamento de 6,4 km do leito
do rio Taquaras. Em 20 de março de 2003, a barragem de um dos reservatórios
da Indústria Cataguases de Papel se rompeu, liberando cerca de 1,4 bilhões de
litros de lixívia no córrego Rio Pomba e fazendo com que a FEAM implantasse
o sistema de fiscalização de barragens no Estado. Em Miraí, na Zona da Mata,
uma barragem da mineradora Rio Pomba Cataguases se rompeu em 2007,
resultando em 4.000 moradores desalojados. Para o ano de 2014, tem-se
registros do desabamento de um túnel na Mina do Pico, em Itabirito e, nesse
mesmo ano, a barragem da Herculano Mineração que se rompeu em setembro,
com a morte de 3 pessoas. Por fim, em 2015, o rompimento da Barragem da
Samarco, em Mariana, com a propagação de 62 milhões de m3 de rejeitos e a
destruição total do Distrito de Bento Rodrigues.
No cenário Internacional, cita-se em 2010, o rompimento do reservatório
de lixo tóxico da produção de alumínio na Hungria, no Leste Europeu, com a
morte de quatro pessoas. A China registrou inúmeros acidentes dessa natureza
nos últimos anos, com mais de duzentas mortes, sendo que a maioria está
associada aos efeitos da liquefação em função do grande número de tremores
de terra.
O levantamento efetuado em 2014 pelo ICOLD das rupturas de
barragens ocorridas entre os anos de 1915 a 2014, apresentado no Bulletin
121, considera as rupturas de barragens em cinco categorias, como pode ser
visto na Tabela 1 sendo:
• (1) Rupturas muito graves de barragens de rejeitos, com perdas de vida
de aproximadamente 20 pessoas e/ou derramamento igual ou superior a
1.000.000m3 de semi-sólidos e/ou danos em 20km ou mais.
• (2) Rupturas graves de barragens de rejeitos, com perdas de vida e/ou
derramamento igual ou superior a 100.000m3 de semi-sólidos e/ou danos em
20km ou mais.
• (3) Demais tipos de rupturas de barragens de rejeitos, com falhas de
engenharia ou de processo, que podem ser classificadas como muito grave ou
grave, sem perdas de vida.
• (4) Outros tipos de acidentes relacionados a barragens de rejeitos,
exceto aqueles que podem ser classificados como 1, 2 ou 3.
• (5) Outros tipos de acidentes não relacionados a rejeitos ou de causas
desconhecidas, tais como águas subterrâneas, fundação, etc.
Tabela 1 – Rupturas de barragens de rejeito entre 1915 e 2014 (ICOLD-
2014)

Em relação ao tipo de alteamento e/ou função dos barramentos, tem-se


que das 268 rupturas cadastradas, 32% refere-se a alteamentos de montante
(87 estruturas) e, deste percentual, cerca de 22% sem indicação de perdas de
vida humana. Entretanto, tem-se um total de 110 estruturas que não
apresentam esse tipo de informação, ou seja, 41% das rupturas não podem ser
classificadas em função do tipo de alteamento, como pode ser visto na Tabela
2.
Tabela 2 – Rupturas em função do tipo de alteamento

As rupturas de barragem não estão limitadas a técnicas antigas e


conservadoras ou para países com efetivo controle na regulamentação. A
maioria das falhas nas barragens de rejeito ocorrem em minas em operação,
sendo que 44% das falhas em todo mundo ocorreram nos Estados Unidos
(ICOLD, 2014). O Brasil está em oitava posição no ranking dos paísescom
registros de acidentes de barragens, como apresentado na Tabela 3.
Segundo o ICOLD, tem-se 8 rupturas cadastradas no Brasil, como pode
ser visualizado na Tabela 4, sendo que a ruptura de Crixás e do Pico de São
Luís são consideradas de pequena magnitude, com poucos dados disponíveis
na literatura de barragens. Percebe-se a ausência de muitas informações, o
que nos leva a concluir que a investigação dos acidentes de barragens ainda é
um processo moroso e com poucos dados sendo disponibilizados.
Tabela 4 – Rupturas ocorridas no Brasil

Adaptado de ICOLD-2014
Desde a emissão inicial do relatório do ICOLD em 2011, que foi
atualizado em 2014, as rupturas mantêm uma periodicidade de 8 meses, ou seja, 3
falhas a cada 2 anos. Segundo Chambers (2001), ao longo de uma estimativa de vida
de 10.000 anos, que é uma estimativa conservadora para garantia da integridade de
uma estrutura, têm-se uma chance desproporcional de ocorrência de falhas face a
elevação do número de estruturas. Entretanto, essa periodicidade é relevante se
considerado o fato de que os avanços tecnológicos para metodologias de disposição
ocorrem a todo momento, corrigindo e minimizando novas falhas. Ou seja, mesmo
com o advento e implementação de novas tecnologias, os acidentes continuam a
ocorrer na mesma proporção, o que nos leva a crer que não somente um bom projeto
garantirá a integridade das estruturas, devendo ser considerados outros fatores para
a vida útil do empreendimento.
Em relação a esses fatores, pode-se citar uma consistente campanha de
investigação geológico-geotécnica para subsidiar o projeto e possíveis intervenções
durante a operação, acompanhamento das metodologias construtivas adotadas,
adoção de planos efetivos de monitoramento e manutenção, processos de operação
condizentes com o que foi considerado no projeto, fiscalização incisiva e corretiva,
dentre outros. Já são 15 anos desde que o ICOLD iniciou os trabalhos para
investigação de técnicas construtivas e práticas operacionais de barragens de rejeitos
na ruptura, sendo que a taxa de falhas por ano tem se mantido constante.
O galgamento de uma barragem é, geralmente, o precursor de um evento de
ruptura e pode ser originado em função de um projeto inadequado do sistema
extravasor, bloqueio dos vertedouros ou decréscimo da crista da barragem e/ou borda
livre. Os problemas associados a fundação, incluindo a instabilidade geotécnica do
maciço, também são modos de falha recorrentes, assim como a erosão interna
causada por infiltração, denominada piping, e os desdobramentos da liquefação dos
rejeitos. Ainda pode-se associar os modos de ruptura a problemas estruturais
relacionados a utilização inadequada de materiais de construção, bem como a
estimativa inadequada dos parâmetros de resistência e falhas no sistema de
manutenção. O projeto e a construção de uma barragem não são os únicos pontos de
atenção na garantia de estabilidade de uma estrutura, devendo haver um rígido
controle de operação, manutenção e fiscalização durante toda a vida útil do
empreendimento.
De acordo com os levantamentos e estudos realizados, as principais
conclusões em relação as causas mais prováveis de rupturas são pontos que devem
ser observados para garantia da integridade e estabilidade de uma estrutura, tais
como:
• Causas associadas a negligência dos detalhamentos, tal como taxas de
alteamento muito elevadas (inclusive compactação das camadas), mudanças em
equipes de construção e operação, ultrapassagem das alturas de projeto, mudança
nas propriedades dos rejeitos durante a operação e a ausência de um balanço hídrico
criterioso na prevenção dos galgamentos;
• O conhecimento técnico existe para permitir que as barragens sejam
construídas e mantidas a estabilidade, mas rupturas ocorrem com frequência em
função de falhas de implantação e, principalmente, operação e manutenção das
estruturas;
• A proporção de rupturas tem se mantido a cada ano mesmo com os avanços
tecnológicos, ou seja, não tem sido dada a devida importância a gestão segura das
barragens no que diz respeito à manutenção e fiscalização das estruturas;
• A indústria da mineração opera com o objetivo constante de redução de
custos, uma vez que é perceptível os anseios de retorno sobre o capital investido face
a redução dos preços de venda dos minérios. Adiciona-se a isso a utilização de
profissionais cada vez menos experientes, com habilidades técnicas e operacionais
não tão apuradas.
Os relatórios sobre as rupturas em barragens de rejeito são, geralmente,
incompletos e fortemente tendenciosos, não levando em consideração a base de
dados mundial dos tipos de falhas históricas. A maioria dos incidentes em barragens
permanecem não declarados, especialmente nos países em desenvolvimento, uma
vez que, apesar do entendimento técnico sobre os mecanismos básicos de ruptura, a
taxa de rupturas por ano se mantém.
As lições aprendidas, principalmente com as rupturas, consistem em uma base
de dados essencial no entendimento do funcionamento a longo prazo das barragens
de rejeito.
Este texto analisa a adoção de procedimentos de licenciamento ambiental no
Brasil, na Índia e na China em uma área crítica para a ambição desenvolvimentista
desses países: a de construção de barragens e geração de infraestrutura hidrelétrica.
Para tanto, e a partir de análise bibliográfica e documental, são apresentadas
características dos processos de licenciamento ambiental de três empreendimentos
internacionalmente conhecidos por seus grandes potenciais hidrelétricos e também
por seus impactos socioambientais: a usina hidrelétrica de Belo Monte, no Brasil; o
complexo hidrelétrico do rio Nu, na China; e a barragem de Sardar Sarovar, na Índia.
Tendo em vista a adoção do instrumento de licenciamento ambiental – bem como
características semelhantes que advêm da condição de países emergentes e grandes
potências hidrelétricas –, é possível identificar similitudes na operação deste
instrumento de gestão ambiental. Não obstante, peculiaridades nacionais fazem com
que esses processos assumam um caráter único, marcado pelas distinções na
configuração do Estado, nos padrões de interação entre agências governamentais e
nas formas de ação da sociedade civil organizada.
Apesar de possuírem cultura, economia e sistemas políticos bastante
diferentes, Brasil, China e Índia têm sido tratados como parte de um mesmo bloco. Os
três países fazem parte do grupo denominado BRICS1 e são apontados como
economias com significativo crescimento econômico, que tendem a aumentar seu
protagonismo no cenário internacional. Conforme seria esperado, este crescimento
rápido se faz à custa do uso de recursos naturais, o que pode gerar impactos
significativos no meio biofísico. Em razão disso, ao mesmo tempo em que as pressões
sobre recursos naturais aumentam, a busca por protagonismo internacional também
demanda – ao menos formalmente – que esses países se comprometam com
regulações, políticas e instrumentos de gestão ambiental internacionalmente
estabelecidos, como é o caso dos procedimentos de licenciamento ambiental. Em
gestão ambiental, o processo de emulação de boas práticas é central. É comum que
um programa, um projeto ou um instrumento de gestão considerado bem-sucedido
em sua origem seja disseminado e replicado em outros contextos, na tentativa de
reprodução de seus resultados (Fonseca e Bursztyn, 2009; Milanez e Bührs, 2009). O
processo de emulação tem significativo alcance no nível internacional, e políticas
ambientais de países emergentes frequentemente são baseadas em suas congêneres
originadas em países desenvolvidos. Assim, a adoção de procedimentos de
licenciamento ambiental por países emergentes é amplamente disseminada a partir
dos anos de 1980, sob pressão iniciada em âmbito internacional por governos de
países desenvolvidos, agências multilaterais – tais como o Banco Mundial (Drake et
al., 2002; Santiso, 2001) – e por organizações da sociedade civil de alcance
internacional. Este estudo analisa a adoção de procedimentos de licenciamento
ambiental no Brasil, na Índia e na China em uma área crítica para a ambição
desenvolvimentista desses países, tanto no quantitativo de sua utilização, quanto nos
conflitos ambientais gerados: a de construção de barragens e geração de
infraestrutura hidrelétrica. Para tanto, e a partir de análise bibliográfica e documental,
serão apresentadas características dos processos de licenciamento ambiental de três
empreendimentos internacionalmente
conhecidos por seus grandes potenciais hidrelétricos e também por seus
impactos socioambientais: a usina hidrelétrica de Belo Monte, no Brasil; o complexo
hidrelétrico do rio Nu, na China; e a barragem de Sardar Sarovar, na Índia. Como o
objetivo deste artigo é identificar as peculiaridades nacionais na adoção de um
instrumento de gestão ambiental internacionalmente estabelecido, a pesquisa não
focará nas peculiaridades legais ou formais do licenciamento. O objetivo é apontar –
ainda que de forma não exaustiva – a influência de elementos como a configuração
do Estado, a relação entre agências governamentais e entre Estado e organizações
da sociedade civil, na forma como o processo de licenciamento ambiental é conduzido
nesses países. Este texto se estrutura da seguinte forma. A seção 1 apresenta a
introdução; a seção 2 disserta sobre as similaridades entre Brasil, China e Índia, no
que tange ao momento histórico de suas economias emergentes e à promoção de
obras de infraestrutura hidrelétrica. Já a seção 3, com base na descrição de cada
estudo de caso, apresenta as peculiaridades dos processos de licenciamento
ambiental nos países estudados, apontando as condições políticas e sociais que
fazem com que a emulação de políticas ambientais seja incompleta em cada caso,
reforçando o argumento de que, apesar do processo massivo de replicação de
instrumentos de gestão ambiental, as condições sociais e políticas nacionais são
fundamentais para a análise e explicação do sucesso ou fracasso na implementação
de políticas ambientais. O artigo conclui a sequência, na seção 4, retomando as
principais similitudes e diferenças nos processos de licenciamento ambiental nesses
três países e apontando os próximos passos da pesquisa, nas considerações finais.
2 ESTADO, DESENVOLVIMENTO E GRANDES BARRAGENS: BRASIL, CHINA E
ÍNDIA No contexto do protagonismo das economias emergentes no cenário global, o
papel do Estado volta a ser percebido como fundamental para o desenvolvimento.
Esse novo momento permite remeter a uma fase histórica posterior à Segunda Guerra
Mundial, em que economias periféricas também obtiveram significativo crescimento
econômico, com forte presença do Estado na economia.
No entanto, nesse novo ímpeto de interação Estado-economia, as condições
políticas e sociais não são as mesmas. A economia está mais integrada e globalizada;
a sociedade civil organizada é importante player na arena política; novos setores de
política pública, tais como as políticas de direitos humanos e de minorias, se
estruturaram. Entre essas novas áreas de políticas públicas, a política ambiental se
destaca. A forte presença estatal na economia (tal como ocorreu no Brasil no período
Vargas e no regime militar) está geralmente relacionada às políticas industriais e às
de infraestrutura. O regime militar brasileiro, por exemplo, levou a cabo uma série de
grandes obras de infraestrutura, tais como a Rodovia Transamazônica e usinas
hidrelétricas como a Usina Binacional de Itaipú (na fronteira com o Paraguai, no Sul
do Brasil), Tucuruí e Balbina (ambas na Amazônia brasileira). No entanto, tais obras
não enfrentaram, em seu momento histórico, grandes obstáculos sociais e/ou
ambientais, apesar de terem tido impactos significativos em ambas as frentes, como
no deslocamento de populações indígenas e ribeirinhas, na alteração do volume e
curso de rios e no alagamento de grandes parcelas de floresta nativa (Fearnside,
1989). Isso se deve, por um lado, ao fato de que a sociedade civil não se encontrava
articulada e não tinha importância política significativa na gestão de políticas públicas
e, por outro, ao fato de que a política ambiental ainda não se encontrava plenamente
estruturada dentro do aparato estatal. A partir da segunda metade do século XX,
avançou o ativismo de novos movimentos sociais, que ideologicamente questionam a
inexorabilidade do progresso científico e tecnológico, com foco na qualidade de vida
no longo prazo e na importância de valores e conhecimentos tradicionais (Ribeiro,
1991; Santilli, 2005). Em decorrência disso, e a partir de marcos como as conferências
das Nações Unidas sobre meio ambiente e desenvolvimento (em 1972 e 1992), a
chamada “questão socioambiental” se fortaleceu como área de política pública e se
alastrou em múltiplos domínios da política e da sociedade, tanto em âmbito local
quanto global (Soromenho-Marques, 1994). Tendo em vista essa dinâmica, na política
do início do século XXI, a ação do Estado, no campo das grandes obras de
infraestrutura, precisa levar em conta a sociedade civil organizada (Evans, 2012) –
movimentos indígenas, de atingidos por barragens, ambientalistas. Além disso, todas
essas questões precisam ser equacionadas
por distintos setores, dentro do aparato governamental, envolvidos em
diferentes áreas de políticas públicas, tais como política energética, de transportes,
de direitos de minorias e ambiental. A política energética é elemento estratégico do
processo de desenvolvimento, já que a geração de energia é condição sine qua non
para que políticas industriais e de desenvolvimento tecnológico sejam promovidas.
Assim como é também exemplar para ilustrar a interação e, por vezes, contradição
entre políticas de infraestrutura e política ambiental. Essa condição de ilustração
ganha corpo a partir da análise dos processos de licenciamento ambiental de grandes
usinas hidrelétricas. Do ponto de vista econômico, as barragens são fontes
importantes de energia para países com alto potencial hidrelétrico. Isso ocorre na
China, na Índia e no Brasil, que estão entre os países que mais utilizam barragens
como fonte de energia e de segurança hídrica (EPE, 2011; IEA, 2012; WCD, 2000). A
tabela 1 mostra que os três países estão ranqueados entre os dez maiores países em
três categorias-chave.
Na categoria dos países com maior produção de energia hidrelétrica, a China
aparece em primeiro lugar, com 722 Terawatts/hora (TWh), representando 20,5% da
produção hidrelétrica mundial; o Brasil aparece em segundo lugar, com produção de
403 TWh e 11,5% da produção mundial. A China também lidera o ranking mundial de
capacidade hidrelétrica instalada, com 171 Gigawatts (GW), enquanto o Brasil
ocupa a terceira posição, com 79 GW. Com relação ao percentual de energia
hidrelétrica na matriz energética de cada país, o Brasil ocupa o segundo lugar, com
78,2% de sua energia elétrica tendo origem hidrelétrica. A China, apesar de ocupar a
liderança nos dois rankings anteriores, tem apenas 17,2% de sua geração de energia
oriunda de hidrelétricas. A Índia ocupa a sétima posição nos três rankings citados. É
importante ter em mente que Brasil, China e Índia, somados, respondem por 35,3%
de toda a energia hidrelétrica produzida mundialmente. Portanto, um estudo
comparativo da presença de hidrelétricas nesses países é representativo dos dilemas
e problemas presentes na construção de barragens em nível global. Analisando sob
a ótica ambiental, as hidrelétricas provocam sérias consequências. Se, por um lado,
são reconhecidas fontes renováveis de energia e contribuem para a regularização da
vazão (evitando enchentes), por outro são responsáveis pelo alagamento de grandes
parcelas de floresta nativa, pelo desvio e alteração do curso de rios e pela emissão
de metano na atmosfera,2 entre outros impactos no ecossistema e na biodiversidade
regional. Em relação à questão social, hidrelétricas geram deslocamento e/ou impacto
direto nos meios de subsistência de populações tradicionais (como indígenas,
quilombolas e ribeirinhos) e de populações rurais em geral. Ao mesmo tempo, a
construção de uma hidrelétrica gera fluxo migratório intenso que, sem adequado
planejamento e preparação, pode ter consequências significativas para o
planejamento urbano e territorial e para ofertas de serviços públicos básicos, como
saúde, educação e segurança pública. Do ponto de vista administrativo, grandes
barragens – assim como outras importantes obras de infraestrutura – são úteis para
demonstrar dois dos principais gargalos na implementação de políticas públicas em
países emergentes: os conflitos e a falta de articulação entre órgãos e agências no
interior do aparato estatal. Em um momento histórico, em que o Estado recupera um
papel ativo no planejamento e na execução de políticas em diversos setores, a
recorrência de problemas de coordenação
tem o potencial de gerar múltiplas ineficiências, tanto por parte da ação estatal,
quanto em relação a accountability e controle social pela sociedade civil. 3
LICENCIAMENTO AMBIENTAL EM PAÍSES EMERGENTES: MÚLTIPLAS
REALIDADES Na sequência, apresentam-se relatos das semelhanças e
peculiaridades dos processos de licenciamento ambiental no Brasil, na China e na
Índia, com base em três casos de construção de grandes barragens. Considerando a
repercussão nacional e internacional, bem como a ampla bibliografia acadêmica em
torno de tais casos, acredita-se que os mesmos sejam representativos das principais
dinâmicas e dilemas em torno dos processos decisórios sobre grandes barragens. O
foco adotado é apontar características do processo decisório de cada país, que variam
conforme a configuração do Estado, as relações intragovernamentais e o perfil e as
possibilidades de ação encontradas pela sociedade civil organizada. 3.1 Hidrelétrica
de Belo Monte, Pará, Brasil O processo decisório de grandes barragens no Brasil
incorpora um processo de licenciamento ambiental que contempla três etapas
distintas: Licenciamento Prévio (LP), Licenciamento de Instalação (LI) e
Licenciamento de Operação (LO). É durante o processo de licenciamento que há
maior interação entre a burocracia do setor de energia e o setor ambiental, bem como
é o momento em que a sociedade civil organizada encontra canais ativos e busca
influenciar a política. No momento anterior ao licenciamento ambiental, o processo
decisório é centrado na burocracia do setor elétrico, tendo pouca interação com
órgãos ambientais. O processo de licenciamento ambiental brasileiro é bastante
complexo e considerado – ao menos formalmente – um dos mais rigorosos do mundo.
Um exemplo disso é que apenas no Brasil – e em nenhum outro país – é adotado um
processo de licenciamento composto por três fases distintas (World Bank, 2008). O
grau de abertura ao debate e a manifestação de conflitos e contradições dentro do
aparato estatal e entre Estado e sociedade civil são significativos, mas a probabilidade
de veto e de atraso das obras de infraestrutura é alta (Costa, 2010; Carvalho, 2006;
Pereira, 2013).
O caso da usina hidrelétrica de Belo Monte, situada no rio Xingu e localizada
no município de Altamira3 (figura 1), no Pará, é ímpar para explicitar como operam os
conflitos, contradições e esforços de coordenação intragovernamental no Estado
brasileiro, em uma área crítica ao desenvolvimento nacional (a de infraestrutura) e em
que a dimensão da incorporação de padrões de sustentabilidade ambiental representa
desafio significativo. A intenção de construir Belo Monte remonta ao regime militar, e
a previsão da obra já constava no Plano Nacional de Energia Elétrica (PNE) 1987-
2010. Neste plano, Belo Monte (anteriormente denominada Kararaô) era tida como
central para o aproveitamento energético do rio Xingu. Já em 1988, no evento Primeiro
Encontro dos Povos Indígenas do Xingu que contou com a participação de 3 mil
pessoas (sendo 650 índios), é identificada mobilização da sociedade civil afetada pela
usina. A possibilidade de impactos ambientais e sociais, sobretudo afetando
comunidades indígenas e ribeirinhas, foi a tônica de um discurso que uniu movimentos
e organizações ambientalistas e sociais nos níveis internacional, nacional e local. Não
obstante, Belo Monte continuou fazendo parte dos planejamentos energéticos do
governo federal. Após manifestações sociais e a recusa do Banco Mundial em
financiar a usina (Hochstetler, 2011), o projeto inicial foi remodelado em 1994, quando
foi definido que a usina alagaria 516 km2 de área, para um aproveitamento energético
médio de 4.500 Megawatts (MW), com potência instalada de 11.233 MW. Isso faz de
Belo Monte a terceira maior usina do mundo. A pressão pela construção aumentou
em 2001-2002, após o Brasil atravessar um período de racionamento energético
conhecido como “crise do apagão”. Tal crise evidenciou a precariedade e
vulnerabilidade da matriz energética nacional, apontando a deficiência de
investimentos em geração e distribuição de energia, que caracterizou a década de
1990. A construção de Belo Monte estava entre as medidas previstas em um plano
emergencial que foi elaborado em resposta à crise, para aumentar a oferta de energia.
Assim, o processo de licenciamento de Belo Monte foi iniciado em 2002 e desde então
ocorreu um processo conturbado, marcado por conflitos e oposição entre coalizões
favoráveis e contrárias à usina.
A coalizão favorável é composta por agências estatais do setor elétrico do
governo federal; por parte substantiva dos governos locais dos municípios
circundantes à obra; e por atores ligados à indústria de barragens e de produção de
alumínio (que serão beneficiados com a geração de energia). Entre os argumentos
dessa coalizão podem-se citar (Azevedo, 2011; Leite, 2010; Rosa et al, 2004; World
Bank, 2008): i) a energia hidrelétrica é mais barata e mais sustentável ambientalmente
que suas alternativas energéticas, como termoelétricas e usinas nucleares; ii) para a
promoção do desenvolvimento econômico e social nacional, atendendo a demanda
por suprir o uso comercial e residencial de 190 milhões de brasileiros, é necessário
ampliar significativamente a oferta de energia no Brasil, em uma taxa de 300 MW por
ano entre 2008 e 2015; e iii) Belo Monte alagará uma parcela pequena de área (516
km2 ) se comparado a seu grande potencial hidroelétrico, bem como não alagará
nenhuma terra indígena. Isso faz com que a construção da usina seja um projeto de
excelente custo-benefício, com impactos sociais e ambientais pequenos, quando
comparado ao montante de energia gerado. A coalizão contrária é composta pela
burocracia do setor ambiental e de setores ligados à questão indígena no governo
federal, por organizações não governamentais (ONGs)e movimentos preocupados
com questões ambientais e sociais e também pela atuação significativa do Ministério
Público (MP). Entre os principais argumentos dessa coalizão podem-se citar: i) a usina
terá impactos negativos na biodiversidade amazônica, seja com relação à
biodiversidade situada na área alagada, seja quanto às espécies situadas no regime
fluvial que a circunda; ii) a construção da obra acarretará danos sociais significativos,
como o deslocamento de um contingente entre 20 e 40 mil pessoas e impactos diretos
nos meios culturais e de subsistência de populações indígenas e ribeirinhas da região;
iii) embora a usina tenha um potencial instado de 11.233 MW, Belo Monte gerará em
média 4.500 MW – este potencial médio faz de Belo Monte uma das usinas de menor
eficiência energética do país, e para melhor aproveitar os mais de 11 mil MW
instalados e fazer de Belo Monte uma usina lucrativa, serão construídas outras
hidrelétricas na região, com impactos sociais e ambientais maiores do que Belo
Monte; iv) usinas hidrelétricas não são fontes limpas de energia, sendo grandes
emissoras de metano, gás que contribui, em forma mais acentuada que o CO2 , para
o advento das mudanças climáticas; e v) a energia gerada pela usina beneficiará
prioritariamente grandes indústrias de alumínio instaladas na Amazônia, e seus
benefícios não serão socializados de forma ampla para a população brasileira
(Fearnside, 2006, 2011; Fonseca e Bourgoignie, 2011; Painel de Especialistas, 2009;
Zhouri, 2011). É interessante notar que os órgãos ambientais são por vezes vistos
como atores-chave na coalizão contrária à usina, mas também são por vezes vistos
como um ator ambíguo, já que foram eles – sobretudo o Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) – que aprovaram o
licenciamento da usina.
Essa ambiguidade está intimamente relacionada com a percepção de que as
relações intragovernamentais, no governo federal, são marcadas por uma assimetria
de poder. Estudiosos como Fearnside (2011) e Carvalho (2006) argumentam que os
interesses defendidos por órgãos ligados ao setor ambiental e social seriam
sistematicamente subjugados por interesses de agências do setor elétrico e de grupos
econômicos privados. Se, por um lado, os elementos apontados anteriormente
denotam um processo intrinsecamente conflituoso e marcado por assimetrias de
poder, por outro, são identificados, entre as agências do governo federal, problemas
típicos de coordenação intragovernamental, tais como falhas no fluxo de informações
entre agências do setor elétrico e do setor ambiental (World Bank, 2008). A Casa Civil
da Presidência da República, órgão formalmente responsável pela coordenação de
ações entre as diversas agências do governo federal, fez esforços a fim de solucionar
essas faltas, como a criação de um Grupo de Trabalho Interministerial (GTI), em 2003
(Costa, 2010). No entanto, os instrumentos de coordenação utilizados pela Casa Civil
incluem o estabelecimento de datas-limite para a concessão da licença ambiental –
sem que a possibilidade de não execução da obra seja aventada como uma
possibilidade real (Rezende, 2009). Também há casos em que presidentes e diretores
dos órgãos ambientais foram substituídos em momentos críticos do processo de
licenciamento, dando a sensação de que os atores governamentais contrários à
construção da usina foram neutralizados durante o processo (Fonseca e Bourgoignie,
2011; Fearnside, 2011; Hochstetler, 2011; Painel de Especialistas, 2009). De todo
modo, após um longo processo que envolveu audiências públicas, estudos favoráveis
e contrários à usina e uma grande judicialização do processo,4 a LP foi emitida pelo
Ibama em 1o de fevereiro de 2010 – contudo, sob a acusação de que houve um
processo de licenciamento inadequado e apressado, bem como de que a Casa Civil
(responsável formal pela coordenação intragovernamental) interferiu indevidamente
na atuação do órgão licenciador (Leitão, 2010). O leilão da usina foi realizado em 20
de abril, sendo vencedor o Consórcio Norte Energia S/A. Atualmente, a usina de Belo
Monte encontra-se em construção, com base em uma LI concedida pelo Ibama em 1o
de junho de 2011. A previsão é de que as obras serão concluídas em 2015.
Para os que apoiam a construção da barragem, o licenciamento ambiental é
um processo burocrático e ineficiente, que atrasa em demasiado a execução de obras
de infraestrutura necessárias ao desenvolvimento nacional. A Índia, como país
emergente, necessita de energia elétrica e de recursos hídricos capazes de sustentar
elevadas taxas de crescimento econômico. Nesse contexto, houve, a partir dos anos
2000, um movimento de setores do governo e de empresários no sentido de simplificar
e tornar mais céleres os processos de licenciamento ambiental. De acordo com nova
lei relacionada ao licenciamento ambiental, publicada em 2009, há prazos reduzidos
para conceder as licenças e os processos de participação social – como as audiências
públicas – foram simplificados e tiveram seu escopo reduzido.17 16. A exemplo das
organizações indianas Narmada Bachao Andolan (Movimento Salve o rio Narmada),
Centro para o Conhecimento Tradicional (Setu), ARCHI-Vahini e organizações
internacionais como a União Internacional para a Conservação da Natureza e dos
Recursos Naturais – International Union for Conservation of Nature (IUCN) – e Oxfam.
17. Um exemplo disso é que, de acordo com a nova lei, só é permitida nas audiências
públicas a participação dos cidadãos diretamente impactados pela usina, tais como
os que serão deslocados. Assim, membros de organizações civis de âmbito nacional
ou internacional têm espaço menor de intervenção no processo decisório Esse novo
momento na política ambiental indiana segue uma orientação que favorece o
crescimento econômico, em detrimento da conservação ambiental. Tal momento é
exemplificado pelo próprio processo de Sardar Sarovar. Após um conflito que se
arrastou por mais de trinta anos,18 em 2006, uma decisão da Suprema Corte Indiana
permitiu a construção da última etapa da barragem, que ampliou sua altura para 163
metros, maximizando os impactos no ambiente natural e no deslocamento
populacional. Não houve, como em Belo Monte, um redimensionamento do projeto e
de seus impactos originalmente previstos. Não obstante, o processo decisório de
Sardar Sarovar contribuiu para o estabelecimento de um movimento
socioambientalista ativo e órgãos ambientais fortemente institucionalizados, ainda que
a desigualdade de poder seja a tônica dos conflitos e esforços de coordenação entre
as agências do Estado. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS: CARACTERÍSTICAS
COMPARADAS Analisar como as peculiaridades nacionais condicionam o
licenciamento ambiental em países emergentes foi o objetivo deste artigo.
Internacionalmente estabelecido, o licenciamento é presente no Brasil, na China e na
Índia. Tendo em vista a adoção deste instrumento – bem como características
semelhantes que advêm da condição de países emergentes e grandes potências
hidrelétricas –, é possível identificar similitudes na operação deste instrumento de
gestão ambiental. Não obstante, peculiaridades nacionais fazem com que esses
processos assumam um caráter único, marcado pelas distinções na configuração do
Estado, nos padrões de interação entre agências governamentais e nas formas de
ação da sociedade civil organizada. Assim, a comparação entre características dos
processos de licenciamento ambiental das barragens de Belo Monte, no Brasil; de
Sardar Sarovar, na Índia; e o complexo hidrelétrico do rio Nu, na China, traz lições
interessantes para situar o licenciamento ambiental brasileiro vis-à-vis a outros países
emergentes. A retomada de alguns pontos discutidos ao longo deste artigo permite a
elaboração de algumas conclusões preliminares. 18. Conflito marcado por ativismo da
sociedade civil e disputas intragovernamentais. Para informações detalhadas do
histórico do processo, ver Peterson (2010). Livro 1868.indb 26 29/08/2013 10:02:57
Texto para Discussão 1868 27 A Construção de Grandes Barragens no Brasil, na
China e na Índia: similitudes e peculiaridades dos processos de licenciamento
ambiental em países emergentes A primeira delas é que, apesar das diferenças nos
padrões de interação entre agências governamentais, existe, nos três países, uma
polarização entre agências governamentais do setor elétrico e do setor ambiental.
Cada setor governamental conta com uma coalizão de suporte, sendo frequente a
existência de alianças entre órgãos e membros do setor ambiental e de organizações
da sociedade civil socioambientalista, bem como alianças entre órgãos e membros do
setor elétrico e grupos de interesse econômico e produtivo. No Brasil e na Índia, tendo
em vista a maior transparência do processo de licenciamento, proporcionada pela
presença de instituições democráticas, é percebida uma significativa assimetria de
poder e conflitos entre órgãos do setor elétrico e ambiental, sendo o primeiro
responsável pelas decisões mais importantes do processo, e o segundo por
atribuições e possibilidades de ação limitadas, com foco em medidas de mitigação e
compensação para reduzir o impacto socioambiental. Na China, por sua vez, embora
haja também conflito entre os setores elétrico e ambiental, a visibilidade dos
mecanismos que condicionam o conflito é reduzida, na medida em que muitas fases
do processo de licenciamento ambiental ocorrem em sigilo. Outra conclusão
importante está relacionada com a abertura do processo à participação da sociedade
civil, que é maior no Brasil, onde a sociedade conta com múltiplos atores com poder
de veto. No caso brasileiro, o processo de licenciamento ocorre em período
relativamente longo, mas no qual os atores contrários à construção da usina
conseguem algumas conquistas-chave (tais como a remodelação do projeto inicial,
reduzindo potenciais impactos ambientais de Belo Monte). Até os anos 1990, o
licenciamento indiano tinha características semelhantes ao brasileiro. Além de
semelhanças na legislação, há semelhanças no perfil da sociedade civil organizada,
que tem um caráter predominantemente socioambientalista quando questões
ambientais e sociais estão imbricadas. Os fortes vínculos entre organizações locais,
nacionais e internacionais é outro ponto de contado entre Índia e Brasil. No entanto,
reformas na legislação indiana, realizadas na primeira década do século XXI, tiveram
o efeito de simplificar o processo de licenciamento ambiental, garantindo maior
celeridade na construção de grandes barragens. O efeito colateral foi a redução do
escopo de atuação da sociedade civil, que tem tido menos pontos de veto e menor
capacidade de influenciar os processos, potencializando impactos socioambientais.
De Livro 1868.indb 27 29/08/2013 10:02:57 28 Rio de Janeiro, agosto de 2013 toda
forma, em ambos os países, há uma grande polarização entre os setores elétrico e
ambiental, e a disputa pelo veto – em detrimento da busca por coordenação e
negociação – é a tônica do processo de licenciamento ambiental. Na China, por sua
vez, não há procedimentos formais para participação da sociedade civil no
licenciamento, e a atuação das organizações civis é significativamente centrada em
redes informais, que buscam angariar apoio de membros influentes no PCC. Apesar
de tímida quando comparada aos casos brasileiro e indiano, a mobilização em torno
do licenciamento ambiental no complexo hidrelétrico do rio Nu é apontada como ponto
de inflexão no processo decisório chinês como um todo (e não apenas na área
ambiental). Um exemplo disso é que as mobilizações contrárias à construção do
complexo hidrelétrico do rio Nu alcançaram inédito resultado ao provocar a suspensão
da construção das barragens. Já que a China está cada vez mais envolvida com
negociações internacionais na área ambiental, a busca por legitimidade social no
campo ambiental tem levado ao fortalecimento de órgãos governamentais e a uma
tolerância maior quanto à mobilização da sociedade civil, respaldada, inclusive, pela
ação das Gongos, que são organizações da sociedade civil parcialmente controladas
pelo governo central chinês. Se a atuação das Gongos, na China, ressalta um cenário
em que os interesses nacionais e locais na república chinesa não são homogêneos e
apresentam características por vezes conflituosas, o licenciamento da Barragem de
Sardar Sarovar demonstra a natureza ainda mais conflituosa do federalismo indiano.
As disputas envolvendo quatro estados da federação possuem, entre seus
ingredientes, clivagens étnicas e de casta, ampliando a polarização entre os atores e
grupos envolvidos no processo. Em contraste, ainda que disputas interestaduais
sejam comuns no federalismo brasileiro, o caso de Belo Monte não mostrou
significativos conflitos interestaduais. De modo geral, foi identificada uma confluência
de interesses entre agências do setor elétrico federal e governos locais, relacionando
a importância da usina ao desenvolvimento regional. Apesar de úteis para ilustrar
como o licenciamento ambiental opera em países emergentes, com instituições
políticas e culturais distintas, as breves comparações realizadas nos parágrafos
anteriores e no corpo do artigo não pretendem esgotar o assunto referente aos
processos de licenciamento nesses países. Na verdade, as conclusões apenas
indicam um campo frutífero para estudos que pretendam aprofundar esses pontos de
comparação, identificando nuances que não foram analisadas neste artigo, que se
baseia em fontes bibliográficas e documentais. Aprofundar alguns elementos
discutidos anteriormente será o objetivo das próximas fases desta pesquisa, que ainda
se encontram em andamento. Sem perder de vista a relação entre as peculiaridades
nacionais no licenciamento e os resultados dos processos decisórios, a etapa seguinte
desta pesquisa cuidará de analisar, em detalhes, os processos de conflito e
coordenação intragovernamental entre as esferas burocráticas envolvidas nas áreas
de políticas de infraestrutura e política ambiental no Brasil, na China e na Índia.
Obras de grandes impactos sociais, ambientais e econômicos, as barragens
sempre estiveram associadas ao desenvolvimento da civilização por permitirem
controlar inundações, gerar energia hidrelétrica, garantir o abastecimento de água
para consumo humano, irrigar plantações e até para navegação. Para se ter uma ideia
da importância dessas obras, atualmente quase metade dos rios de todo o planeta
tem ao menos uma grande barragem, segundo relatório da Comissão Mundial de
Barragens, entidade ligada ao Banco Mundial.
Por trás da concepção desses empreendimentos de alta complexidade, estão
profissionais que precisam contar com uma série de habilidades e domínio de
disciplinas como geotecnia e mecânica dos solos, além de sólidos conhecimentos
teóricos e práticos de engenharia. Disposição para viajar para lugares remotos, apreço
por situações desafiadoras, flexibilidade para assimilar inovações tecnológicas e,
ainda, capacidade para lidar com as imprevisibilidades da natureza são outras
características que devem compor o perfil do projetista de barragens.
Embora as exigências pareçam muitas, há oportunidades à disposição dos
profissionais que almejam ingressar nesse ramo, especialmente no Brasil, que aposta
na força de suas águas para ajudar a suportar o aumento da demanda por energia
aguardado para os próximos anos. Embora a principal matriz energética do País seja
hídrica, atualmente o Brasil explora apenas 20% do seu potencial hidrelétrico,
conforme dados do Governo Federal.
Para aqueles que trabalham diretamente projetando essas estruturas, o
mercado de trabalho nos últimos 40 anos passou por realidades bem distintas. Na
década de 1970, época de construção de algumas das maiores usinas brasileiras,
como Ilha Solteira (1973) e Água Vermelha (1978), as vagas para engenheiros e
geólogos eram muitas, tanto que não havia técnicos qualificados em quantidade
suficiente para atender ao mercado nacional, tendo em vista o grande número de
usinas hidrelétricas em construção. Quem conta isso é o consultor João Francisco A.
Silveira, diretor da SBB Engenharia, que atuou em obras como as das usinas
hidrelétricas São Simão (MG) e Promissão (SP), entre outras. O engenheiro, que na
época integrava a equipe de Mecânica de Rochas do IPT (Instituto de Pesquisas
Tecnológicas do Estado de São Paulo), lembra que tal situação obrigou as empresas
nacionais a se consorciarem com companhias estrangeiras. "Esse foi o caso da
Promon Engenharia, em São Paulo, que nesse período se associou à empresa norte-
americana Main para a elaboração do projeto executivo da Usina Hidrelétrica de
Marimbondo, na fronteira dos Estados de São Paulo e Minas Gerais", conta Silveira.
Quando a crise econômica mundial abateu a economia brasileira nos anos
1980, tudo mudou de figura. Com a interrupção dos investimentos, grandes empresas
de projeto começaram a demitir em resposta à falta de serviço. "A recuperação só
veio a partir de 1992 de forma que, hoje, temos novamente um mercado bastante
aquecido, novamente com escassez de profissionais qualificados para conceber
barragens", revela o projetista da Engevix Engenharia, Paulo Tsuneo Funagoshi, que
já trabalhou tanto em projetos de barragens de enrocamento com face de concreto,
como em barragens de concreto rolado de pequenas centrais hidrelétricas.
Além da atuação em projetos de novas estruturas hídricas, outros dois
segmentos diretamente relacionados à construção de barragens despontam como
promissores campos de atuação profissional para os engenheiros. O primeiro deles é
o de instrumentação, que consiste em processos de medição, monitoramento e
controle da estabilidade de barragens já implantadas. Realizado principalmente por
profissionais mais experientes, esse trabalho é de suma importância para operação
das barragens. "Sem contar que se trata de uma área muito interessante, uma vez
que envolve investigações empolgantes, muitas vezes desafiadoras, para se ter
certeza de que as barragens estejam sempre seguras", afirma João Francisco Silveira.
Os profissionais que buscarem ampliar seus conhecimentos na área de
sustentabilidade também podem vir a ganhar. Isso porque a tendência é que, cada
vez mais, os projetos de novas barragens estejam atrelados a soluções que
minimizem ou compensem o impacto ambiental gerado pela construção e operação
dessas estruturas, na maior parte das vezes, grandiosas.
O profissional
Como foi o início de sua carreira?Comecei como desenhista. Naquela época,
os projetistas faziam os estudos a lápis, em papel-manteiga e depois os desenhistas
passavam a nanquim para o papel vegetal ou poliéster. Como sempre fui curioso, não
ficava satisfeito em apenas passar a limpo. Então, procurei saber mais sobre os
projetos, aprendendo como, por que e para que as decisões de projeto aconteciam.
Isso me fez ver que cada projeto tinha suas particularidades, que as soluções
variavam muito de acordo com o local de implantação. Então resolvi investir nessa
carreira.
Como se especializou?
Quando comecei não havia curso específico para projetista de barragens, por
isso, a minha formação se baseou muito no aprendizado com excelentes profissionais.
Desde 1986, trabalho na Engevix Engenharia, onde pude colocar em prática todo meu
aprendizado em barragens de enrocamento com face de concreto, como as da UHE
Itá, Itapebi, Barra Grande, Campos Novos e Monjolinho, e também, em barragens
de concreto rolado de várias pequenas centrais hidrelétricas (PCHs).
Do que você mais gosta em sua profissão?
É muito interessante desenvolver um projeto em tridimensional e acompanhar
sua evolução na obra "in loco". Também dá muito orgulho ver que uma parte de uma
obra dessa magnitude, que contribui para o desenvolvimento do País e leva mais
conforto a inúmeras famílias, carrega em si muitas ideias suas.
Que dicas o senhor daria para o profissional que almeja ingressar nessa
atividade?
Em qualquer área, para ter sucesso é preciso gostar muito do que se faz. Além
disso, é importante realizar cursos de desenhos técnicos, desenvolver a visão
tridimensional e espacial, bem como dominar ferramentas CAD. Por fim, é importante
que o profissional seja dedicado, procure entender e mostrar ideias e estar sempre se
aperfeiçoando, sobretudo em relação ao desenvolvimento de novos softwares.

Currículo
Formação: engenharia civil e especialização na área de barragens
(instrumentação, tecnologia, segurança etc). Em empresas de projetos e
concessionárias é possível encontrar também profissionais de nível técnico, que
auxiliam o projetista principal em algumas etapas do desenvolvimento de uma
barragem.
Aptidões: conhecimento sobre geologia, geotecnia e softwares de desenho e
projeto. Também é importante ser criativo, já que muitas soluções de problemas
requerem o desenvolvimento de propostas e estratégias inovadoras.
Disponibilidade: em geral o trabalho requer dedicação por oito horas diárias,
mas a carga-horária varia de acordo com o volume de projetos. É importante ter
disponibilidade para viajar para diferentes localidades, inclusive as mais remotas, para
o acompanhamento das etapas de construção e inspeções de campo.
Oportunidades de trabalho: em escritórios de projeto, concessionárias de
energia, empresas de saneamento e órgãos públicos.
Remuneração média: em empresas de projetos de barragens, o salário inicial
de um engenheiro gira em torno de R$ 3.500. Já para estagiários, a remuneração é a
partir de R$ 8,00/hora.
Extravasamento por canal lateral com declividade e vertedor
com escada de dissipação de energia
No dimensionamento do extravasor em canal lateral considera -se dois
parâmetros básicos: a) descarga máxima prevista de extravasamento; e b)
características do material natural no local onde se pretende construir o canal
extravasor. A Figura 15 ilustra um canal extravasor lateral com declividade moderada
construído fora do aterro.

Extravasamento por canal lateral sem declividade e vertedor com


escada de dissipação de energia
Quando o excesso de água que escoa em canais extravasores deve ser
restituídas ao curso d’água à jusante da barragem em cota muito abaixo daquela do
canal extravasor devem ser instaladas estruturas de dissipação, as quais têm fina lidade
de reduzir o excesso de energia à níveis compatíveis e suportáveis pelas condições de
montante.
A solução de dimensionamento, aqui apresentada segue recomendação da
ELETROBRÁS (1984). O vertedor e a escada de dissipação de energia são necessários
para a proteção do local de restituição das águas vertidas ao rio. Esta proteção deverá
ser realizada por uma soleira afogada ao final do canal, seguida de uma escada de
dissipação de energia construída em alvenaria de pedra argamassada
A soleira afogada de ve ser construída com pedras soltas, para ser permeável à
água. O material para a construção da soleira deve ser determinado, considerando a
velocidade média do escoamento sobre ela.
Como a cota de fundo do canal extravasor corresponde ao nível de água nor mal
do reservatório, há a necessidade do dimensionamento de uma escada de dissipação
de energia (Figura 17), para proteção do local de restituição das águas vertidas para
o rio. Recomenda -se que o comprimento de cada degrau seja, no mínimo, o dobro de
sua altura. Essa proteção deve acompanhar a topografia do terreno natural.
A escada deve ter, no mínimo, a mesma largura do canal extravasor, e servir
como meio de proteção do talude da margem do curso d’água contra a erosão. Os
degraus da escada devem ser con struídos em alvenaria de pedra ou concreto, podendo
ser cogitada a utilização de gabiões.
O canal extravasor de seção trapezoidal deve ser dimensionado com base no
tipo e nas condições do material de que é feito ou com o qual é capeado, na largura
determinada para o vertedor e na vazão que deve comportar. Dependendo do material
e de suas condições, pode -se ter diferentes recomendações de taludes a serem
utilizados (Tabela 2) e velocidades de escoamento de água (Tabelas 4, 5 e 6), para
que não ocorram proble mas de desbarrancamento ou erosão do leito do canal.
Extravasamento por canal lateral sem declividade e rampa
extravasora
A rampa extravasora é muito utilizada como estrutura de dissipação de energia.
Esta estrutura de dissipação é constituída em uma rampa co declividade de 2:1 ou
menor, indo de encontro com o fundo do canal. A Figura 19 representa o escoamento
em uma rampa extravasora através do ressalto hidráulico.
Ainda segundo o mesmo autor, os ressaltos sempre acontecem quando há
passagem de um regime supercrítico, caracterizado por um escoamento rápido para
um outro regime de velocidade mais baixa, denominado subcrítico.Com a criação do
ressalto, pode haver muita turbulência com redução da velocidade e conseqüente
diminuição do potencial erosivo.
Em algumas situações, para dissipação de energia através de ressalto
hidráulico, este é confinado em estruturas denominadas de bac ia de dissipação, as
quais possuem o fundo revestido para resistir a força de cisalhamento do escoamento.
Na prática, raramente a bacia é projetada para conter o ressalto em todo e seu
comprimento, o que constitui em obras dispendiosas. Para aumentar a dis sipação de
energia, estabilização do ressalto, e diminuir as dimensões da bacia, com conseqüente
redução de custos, são construídas obras acessórias, tais como blocos amortecedores,
blocos de queda e soleiras. Existem bacias com projetos já desenvolvidos e testados,
denominados bacias USBR. A formação e controle do ressalto também podem ser
obtidos por meio de estruturas mais simples, como é o caso de uso de soleiras,
elevação brusca e depressão do fundo do canal.

Extravasamento através de vertedor em tulip a.


Normalmente, este dispositivo encontra -se conectado a tubulação do
desarenador. Utilizado como obra de arte, exige no seu dimensionamento maior
responsabilidade técnica. De acordo com vários autores pode -se utilizar para o seu
dimensionamento a equação
Estimativa do volume de armazenamento para garantir uma
vazão a ser regularizada
Os reservatórios têm por finalidade, acumular parte das águas disponíveis nos
períodos chuvosos, para compensar as deficiências nos períodos de estiagens,
exercendo um efei to regularizador das vazões naturais. Os estudos são realizados em
duas etapas, ou seja na primeira estima -se o volume de armazenamento de
reservatório para regularização de uma determinada vazão de interesse e na segunda
etapa identifica no campo a bacia hidráulica capaz de armazenar o volume de
regularização estimado.
A variabilidade temporal das vazões fluviais tem como resultado visível a
ocorrência de excessos hídricos nos períodos úmidos e a carência nos períodos secos.
Nada mais natural que seja prec onizada a formação de reservas durante o período
úmido para serem utilizadas na complementação das demandas na estação seca. O
estudo de um reservatório de regularização de vazões exige o conhecimento de sua
dimensão, das vazões afluentes, da demanda a ser suprida e das perdas que poderão
ocorrer.
Na literatura, sobre o assunto, existem diversos métodos para dimensionamento
de reservatórios. Neste estudo, foi utilizado o “método da curva de diferenças
acumuladas”, conforme apresentado em LANNA (1993), para a determinação do volume
de armazenamento necessário num reservatório para garantir uma determinada
descarga máxima regularizada. Supõem -se nesta situação que se deseja determinar a
menor capacidade útil de um reservatório suficiente para atender a maior d emanda
constante de água possível, num determinado período de anos.

Identificação no campo de uma bacia hidráulica capaz de


armazenar o volume de regularização estimado e determinação da
altura da barragem

O volume da bacia de acumulação, capaz de armaze nar a água, deve ser


determinado após a obtenção do levantamento planialtimétrico da área a ser inundada
pelo reservatório. No levantamento de bacias de acumulação de pequena área, a
diferença de altura entre as curvas de nível pode ser de 1 m, enquanto no de grandes
bacias esta diferença pode ser de 5 m ou mais.
A partir da área de cada curva de nível, determina -se o volume parcial de uma
curva a outra, considerando a formação de troncos de cone invertidos. Somam -se, de
h em h metros, os volumes parciais a té o volume total desejado, correspondendo a
última curva de nível atingida à altura do vertedor.
O volume de água a ser armazenada vai depender das necessidades a serem satisfeitas.
Dimensionamento do desarenador
Objetiva principalmente a eliminação d os depósitos do fundo e ao esvaziamento
do reservatório. As estruturas mais utilizadas para controle da vazão no desarenador
são os monges e as torres.
É a primeira estrutura a ser construída na implantação do projeto, pois, após
sua construção, o curso de água será desviado para o seu interior, por onde a água se
escoará, facilitando os trabalhos de construção do maciço da barragem.

INSTRUÇÕES A SEREM OBSERVADAS NA CONSTRUÇÃO DE


BARRAGENS DE TERRA
É importante verificar se o local onde pretende -se construir a barragem é o mais
adequado, tanto no aspecto construtivo, quanto no legal. Quanto ao aspecto
construtivo deve -se ponderar sobre as vantagens e desvantagens de cada situação de
forma que o local selecionado atenda, da melhor maneira possível, a barra gem, a
represa e o extravasor. Dentre os principais estudos necessários citam -se:
características topográficas do local, estudos geológicos e geotécnicos.
As principais considerações sobre a construção de uma barragem de terra,
abrangem, basicamente, dois aspectos: a) localização e construção do maciço e b)
medidas mitigadoras dos impactos ambientais.

4.1 Localização e construção do maciço


4.1.1 Limpeza do local – recomenda-se efetuar rigorosa limpeza no local onde
será assentado o maciço, na área de empr éstimo, bem como na área a ser inundada
pelo reservatório. Deve -se retirar árvores, arbustos, e todo material orgânico existente
nos referidos locais;
4.1.2 Solo estável – a barragem deve ser assentada sobre solo estável, isto é,
não sujeito a deslizamento s e a grandes acomodações provocadas pelo peso do aterro.
Deve-se evitar o assentamento sobre lajeiros de pedra, á vista ou a uma pequena
profundidade. A infiltração da água do reservatório acarreta escoamento entre o aterro
e o lajeiro de pedra, o que com promete, seriamente, e estabilidade do aterro. A
tendência normal é ocorrer deslizamento do aterro em razão de sua frágil soldadura
às pedras lisas dos lajeiros. As avaliações da textura, consistência e resistência do
material são fundamentais para caracte rização do material a ser utilizado como base
para as fundações e constituir o maciço de terra da barragem. Em pequenas barragens,
a caracterização dos solos em laboratório pode ser feita por análise da distribuição das
frações granulométricas, da pemeabil idade do material e o ensaio de Proctor
(necessário na fase de construção do maciço de terra). A coleta do material (solo) para
avaliação da qualidade e a estimativa da quantidade no local pode ser feita podem ser
realizadas por tradagem,trincheiras ou son dagem. Investigações com furos de trado
constituem o processo mais simples, rápido e econômico para investigações
preliminares das condições geológicas subsuperficiais, obtenção de amostras
deformadas em pesquisas de áreas de empréstimo, determinação do ní vel da águas e
indicação de mudanças nos tipos de materiais atravessados;
4.1.3 Preparo da fundação e das ombreiras - a realização de sondagens,
necessária na fase de seleção do local de construção da barragem, possibilitará o
desenho do perfil da seção transversal da área, que indicará a profundidade do núcleo
impermeável. A so ndagem poderá ser feita por tradagem, sondagem a percussão,
abertura de tricheiras ou por meio de ensaios de resistência do solo. Sempre que
possível a trincheira deverá ser construída sob toda a base do maciço e abrangendo
uma profundidade até a rocha ou estrato impermeável. O equipamento mais apropriado
é a retroescavadeira ou escavadeira hidráulica;
4.1.4. Núcleo central - quando a sondagem acusar a presença de camadas
permeáveis próximas à superfície e que poderiam permitir a passagem de água, torna -
se necessário a construção de um núcleo impermeável, ou diafragma, que intercepte a
trajetória da água. Após a abertura da trincheira, faz -se o seu enchimento para
formação do núcleo com material de boa qualidade, e isso se processa em todo o corpo
da barragem, sendo o núcleo elevado à medida que se eleva o aterro;
4.1.5. Corpo da barragem - após o enchimento da trincheira inicia -se o
levantamento do maciço de terra, lembrando que, caso o material do núcleo seja
diferente do resto do corpo da barragem, o enchi mento por camadas deve respeitar os
limites para deposição de cada material. Antes do lançamento da primeira camada de
solo, tornam -se necessários o revolvimento (aração) e umedecimento da camada -base
antes de sua compactação, com objetivo de proporcionar maior liga com a camada
superior. O aterro, que se constituirá no corpo da barragem, deverá ser feito
colocando-se camadas finas de 15 a 20 cm de solo e com aplicação de água ao solo
até que seja alcançado o conteúdo de umidade adequado (nem muito seco nem muito
encharcado) para se atingir a compactação máxima do aterro. A densidade de solo
recomendada para pequenas barragens é de 1,5 a 1,7 g cm -3;
4.1.6 Ausência de nascentes - evitar a presença de nascentes no local de
assentamento da barragem, pois, após o enchimento da represa, as nascentes tendem
a aumentar suas vazões, podendo chegar ao ponto de afetar a estabilidade do aterro;
4.1.7 Ausência de estratificações salinas no leito do reservatório – a presença
de sais no leito do reservatório acarretará, fa talmente, a ocorrência de água salobra,
isto é, com excesso de sais diluídos. Este excesso pode advir, também, do carreamento
dos sais estratificados na bacia de contribuição no período das chuvas;
4.1.8 Estreitamento da garganta do local de construção do maciço – com eixo
longitudinal perpendicular às ombreiras, contribui para diminuir o volume a ser gasto
no maciço e, consequentemente, o custo da obra;
4.1.9 Área do reservatório e declividade – com área mais espraiada possível e
com pequena declividade im plica numa maior capacidade de armazenamento de água;
4.1.10 Proximidade do local de extração de material a ser utilizado no aterro -
quanto maior a distância entre os dois locais, maior será o custo da obra;
4.1.11 Localização do extravasor – as condições topográficas do local devem ser
tais que possibilitem o posicionamento do extravasor fora do corpo da barragem.. O
extravasamento sobre o próprio maciço da barragem não é recomendável para
barragens de terra, e sim aquelas de alvenaria e/ou concreto;
4.1.12 Extravasor de segurança - na existência de barragens localizadas à
montante do local de interesse e havendo condições topográficas favoráveis é
aconselhável a construção de um extravasor de segurança. Normalmente é construído
com seção igual ou maior qu e o vertedor, projetado com baixa declividade e seção
coberta com vegetação, de forma a oferecer proteção contra a erosão;
4.1.13 Uso da água por gravidade – sempre que possível, escolher locais de
posicionamento da barragem que venham a possibilitar o uso da água por gravidade .
O bombeamento ou elevação mecânica da água só devem ser utilizados quando for
impossível o uso da gravidade;
4.1.14 Época de construção da barragem – as barragens devem ser construídas
preferencialmente durante o período seco do ano ;
4.1.15 Lâmina protetora - recomenda-se proteger o talude de montante, no local
de contato do espelho d’água, utilizando pedras de forma a evitar o solapamento
acarretado pelas ondas;
4.1.16 Controle da vegetação aquática – o controle de vegetação aquátic a como
as taboas, aguapé, salvínia dentre outras, é de suma importância devido a rápida
propagação destas espécies podendo ocupar toda área represada. Além de cobrirem
todo o espelho d’água, impedindo a entrada de luz solar, algumas podem ser tóxicas,
e, a sua decomposição pode aumentar a demanda de oxigênio da água;

4.2 Medidas mitigadoras dos impactos ambientais


4.2.1 Recuperação das “áreas de empréstimo” – aplicação de práticas mecânicas
e/ou revegetação com espécies nativas;
4.2.2 Proteção do reservatór io com relação ao assoreamento – é conveniente
que na área da bacia de contribuição sejam realizados serviços de conservação de solo
em toda sua extensão, como a construção de bacias de captação de água superficial,
cordões de contorno, terraços, plantio em nível, etc de forma a minimizar o
assoreamento do reservatório e a contaminação da água com fertilizantes e pesticidas,
principalmente em áreas de cultivo de culturas anuais;
4.2.3 Monitoramento da barragem – deve ser monitorada, periodicamente
(refazer a cobertura vegetal, preenchimento de rachaduras, desobstrução do
sangradouro, afloramento de água no talude de jusante da barragem, etc), no sentido
de contribuir para a segurança da obra;
4.2.4 Alteração da qualidade da água – controle da utilização de f ertilizantes e
defensivos agrícolas à montante do reservatório da barragem, bem como da descarga
de efluentes orgânicos (águas residuárias de residências, criatórios de animais ou
agroindústrias). Esses elementos podem trazer problemas com a qualidade da á gua do
reservatório, inclusive proporcionando sua eutrofização.

EXEMPLOS DE INCIDENTES E ACIDENTES EM BARRAGENS DE


TERRA ( link: Datashow )

Parte da palestra apresentada pelo pesquisador Humberto Paulo Euclydes no IV


Simpósio Nacional sobre Uso da água na Agricultura e I Simpósio Estadual sobre Usos
Múltiplos da Água, realizado em Passo Fundo, no período de 11 a 14 abril de 201.
Coordenação do evento: Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Alto Jacuí
e Universidade de Passo Fundo. Título da palestra: Segurança em pequenas
barragens para armazenamento de água: Aspectos técnicos e hidrológicos .
7. PLANO DE SEGURANÇA DE BARRAGENS
De acordo com Art 1º da Lei n 12.334 de 20 de setembro de 2010 que estabelece
a Política Nacional de Segurança de Barragens e cria o Sistema Nacional de
Informações sobre Segurança de Barragens e altera a redação do art. 35 da Lei
nº 9.433, de 8 de janeiro de 1997, e do art. 4 º da Lei nº 9.984, de 17 de julho de 2000,
no parágrafo único estabelece que esta Lei aplica -se a barragens destinadas à
acumulação de água para quais quer usos, à disposição final ou temporária de rejeitos
e à acumulação de resíduos industriais que apresentem pelo menos uma das seguintes
características:
I - altura do maciço, contada do nível do ponto mais baixo da fundação à crista, maior
ou igual a 15m (quinze metros);
II - capacidade total de reservatório maior ou igual a 3.000.000 m3 (trê s milhões de
metros cúbitos);
III - reservatório que contenha resíduos perigosos conforme normas técnicas
aplicáveis; e
IV - categoria de dano potencial associado, médio ou alto, em termos econômicos,
sociais, ambientais ou de perda de vidas humanas, co nforme definido no art. 6 º.

Ainda de acordo com o Art. 2º desta lei, estabelece a definição de Segurança de


Barragem como sendo a "condição que vise a manter a sua integridade estrutural e
operacional e a preservação da vida, da saúde, da propriedade e do meio ambiente";
e a definição de Gestão de Risco como "ações de caráter normativo, bem como
aplicação de medidas para prevenção, controle e mitigação de riscos".
Com base nessa contextualização observa -se que os impactos ambientais
decorrentes desses em preendimentos apresentam categorias de riscos e de gravidade
de grandes proporções quando comparados com os impactos advindos da construção
de pequenas barragens/reservatórios objetivando a reservação de água para uso na
agricultura irrigada, no abastecime nto da propriedade, na dessedentação de animais,
e na piscicultura.

Não se pode usar as mesmas regras ou o mesmo plano de segurança para os dois tipos
diferentes de empreendimentos. Por outro lado, é importante que haja algum tipo de
monitoramento nessas pequenas obras hidráulicas já existentes ou a serem construídas
nas propriedades rurais.

Sugere -se, então, que o empreendedor rural faça, de forma simplificada , um plano de
segurança da barragem sob sua responsabilidade, para ser utilizado durante toda v ida
útil da obra hidráulica. Esse plano deverá conter basicamente dois procedimentos ou
inspeções periódicas a serem realizadas com frequência: a) monitoramento no maciço
da barragem e b) monitoramento na bacia de contribuição do barramento. De
periodicidade semestral para o período seco e semanal para o período chuvoso,
podendo ser aplicadas diariamente em caso de chuvas intensas, ou quando observados
comportamentos anormais em qualquer dos diversos setores da barragem que possam
afetar potencialmente a s egurança da barragem.

Basicamente os principais problemas a serem monitorados no maciço da barragem são:


deslocamentos, deformações, recalques, percolação, níveis piezométricos, enquanto
na bacia de contribuição o principal problema é a identificação das áreas (ou focos)
mais susceptíveis ao processo erosivo/perda de solos devido a falta de aplicação de
técnicas de manejo integrado na bacia, podendo comprometer a vida útil do
reservatório. Identificado os problemas deve -se recorrer um engenheiro qualificad o
com experiência na área.
ASPECTOS LEGAIS
Com base nas informações relativas a localização geográfica e porte do projeto
da barragem (como: área inundada, volume de acumulação, vazão regularizada, dentre
outros) apresentada nesse “Exemplo de aplicação” e nos instrumentos legais
relacionados a construção de pequenos barramentos de terra em território mineiro
apresentados no documento “Roteiro básico para o dimensionamento de pequenas
barragens de terra ”, conclue-se:
1. A construção da barragem prevista (ár ea inundada de reservatório menor que
10 ha) está isenta de licenciamento ambiental - Deliberação Normativa COPAM nº 74,
de 09/set/2004 (Art. 01 - Listagem G: Atividades Agrossilvopastoris: códigos G -05-
02-9 e G-05-02-0, no Anexo Único dessa DN);
2. A construção da barragem está sujeita a outorga de direito de uso de água
pelo poder público estadual - Lei Estadual nº 13.199/99 de 29/jan/1999, Art. 18;
3. Com base na “Portaria IGAM N°49 de 01/julho/2010” que estabelece os
procedimentos para a regularização do uso de recursos hídricos do domínio do Estado
de Minas Gerais, e no documento “Manual Técnico e Administrativo de Outorga de
Direito de Uso de Recursos Hídricos no Estado de Minas Gerais”, publicado pelo IGA M
em 2010, disponível no endereço (http://www. igam.mg.gov.br/outorga/manaulde -
outorga) o usuário encontra todas as informações necessárias ao processo de
solicitação de outorga, desde o recebimento do requerimento na SUPRAM e sua inclusão
inicial no Sistema Integrado de Informações Ambientais até anál ise técnica conclusiva
e a publicação da Portaria de Outorga.
15 BIBLIOGRAFIA:

ATLAS digital das águas de Minas; uma ferramenta para o planejamento e gestão dos
recursos hídricos. Coordenação técnica, direção e roteirização Humberto Paulo
Euclydes. 2. ed. Belo Horizonte: RURALMINAS; Viçosa, MG: UFV, 2007. 1 CD-ROM.
ISBN 85-7601-082-8. Acompanha manual.

ATLAS DIGITAL DAS ÀGUAS DE MINAS - Uma ferramenta para o planejamento e


gestão dos recursos hídricos. Disponível em: (http://www.atlasdasaguas.ufv.br).
Acesso em: 10 nov. 2011.

CARVALHO, J.A. Dimensionamento de pequenas barragens para irrigação.


Lavras: Editora UFLA., 2008.158p.

DAKER, A. Captação, elevação e melhoramento da água: a água na agricultura.


6. Ed. Ver. E ampl. Rio de Janeiro: F. Bastos, 1983.v.2,408 p.

ELETROBRÁS Manual de microcentrais hidrelétricas. Brasília: Ministério das


Minas e Energia – ELETROBRÁS Centrais Elétricas Brasileiras S.A – DNAEE 1985.
344p.

HIDROTEC- Geração e transferência de tecnologia em recursos hídricos para o


estado de Minas Gerais. Disponível em: (http://www.hidrotec.ufv.br). Acesso em: 20
out. 2011.

LANA, A. E. Regularização de vazões em reservatórios. In: TUCCI,C.E.M. et AL.


Hidrologia: ciência e aplicação. Porto Alegre: ABRH-EDUSP, 1983.943p.

LANÇAS, K. P.; SOUZA, A. P.; CARDOSO, L. G. Obras de terra: sistematização e


pequenas barragens. Brasilia, DF: ABEAS, 1988. 108p.

LOUREIRO, B. T. Pequenas barragens de terra. Viçosa UFV, Impr. Univ., 1987. 34p.

IGAM Manual Técnico e Administrativo de Outorga de Direito de Usos de


Recursos Hídricos no estado de Minas Gerais. Instituto Mineiro de Gestão das
Águas. Belo Horizonte: IGAM, 2010.234p.

PORTO, R. M. Hidráulica básica. São Carlos: EESC/USP, 1998.540 p.