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Às margens do entender

quem diz o que é notícia?


Liliane Feitoza

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Às margens do entender
quem diz o que é notícia?
Liliane Feitoza
Editor: Lécio Cordeiro.
Projeto gráfico, editoração eletrônica e ilustrações: Box Design Editorial.
Capa: Felipe Moura.
Ilustração da capa: Cadu Loureiro.
Revisão de Texto: Suélen Franco.

Coordenação editorial:

Avenida Doutor Rinaldo de Pinho Alves, 2680


CEP: 53411-000 – Paratibe – Paulista/PE
Tel.: (81) 3447.1178
CNPJ: 14.605.341/0001-03

Fizeram-se todos os esforços para localizar os detentores dos direitos dos tex-
tos contidos neste livro. A Editora pede desculpas se houve alguma omissão
e, em edições futuras, terá prazer em incluir quaisquer créditos faltantes.

As palavras destacadas de amarelo ao longo do livro sofreram modificações com o novo Acordo Ortográfico.

F311a Feitoza, Liliane


Às margens do entender : quem diz o que é notícia? : 6o ano : ensino
fundamental / Liliane Feitoza. – Recife : Prazer de Ler, 2019.
48p. : il.

Inclui referências.

1. COMUNICAÇÃO NA EDUCAÇÃO – ENSINO FUNDAMEN-


TAL. 2. COMUNICAÇÃO DE MASSA – LINGUAGEM – ESTUDO
E ENSINO. 3. JORNALISMO – LINGUAGEM – ESTUDO E ENSINO.
4. RADIOJORNALISMO – ASPECTOS SOCIAIS. 5. TELEJORNA-
LISMO – ASPECTOS SOCIAIS. 6. NOTÍCIAS INTERNACIONAIS –
ASPECTOS SOCIAIS. 7. MIDIA (PUBLICIDADE). I. Título.

CDU 37
PeR – BPE 19-78 CDD 370

ISBN: 978-85-8168-701-8

Impresso no Brasil

Reprodução proibida.
Art. 184 do Código Penal e Lei no 9.610, de 19 de fevereiro de 1998.

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Apresentação

Os jornalistas são personagens muito populares em filmes e desenhos. Com frequência, as-
sistimos a programas em que esses profissionais aparecem investigando algum acontecimento
obscuro, denunciando fraudes ou mesmo revelando problemas sociais.
Mas além das situações polêmicas e sensacionais, o jornalismo também informa sobre aconte-
cimentos do cotidiano. As notícias, por exemplo, podem nos informar sobre a previsão do tempo
e nos ajudar a saber se devemos ou não levar um guarda-chuva ao sairmos de casa, podem nos
deixar a par das atrações culturais que ocorrerão no fim de semana e dos acontecimentos políti-
cos ou econômicos que envolvem o lugar onde vivemos.
Neste livro, falaremos sobre os diversos assuntos de que as notícias tratam, indo dos mais
surpreendentes aos mais comuns, com a intenção de entender melhor as margens que separam
o que é notícia do que não o é. Para isso, nos voltaremos para alguns conceitos, conheceremos
antepassados da notícia e exploraremos algumas características dos nossos pensamentos.
Vamos iniciar uma viagem cheia de histórias, algumas reais, outras inventadas, mas todas
úteis para praticar nossos conhecimentos sobre as notícias. Ao fim, não seremos jornalistas ou
especialistas, mas estaremos prontos para questionar os acontecimentos à nossa volta, levantando
outros pontos de vista. Também entenderemos que, mesmo existindo muitas forças influencian-
do a decisão do que será notícia, não podemos deixar de reivindicar espaço para que as diversas
vozes, inclusive a nossa, sejam representadas.
As notícias, portanto, podem falar de diversos assuntos, mas devem representar a todos nós.
Boa leitura!

Dedico este livro aos estudiosos e visionários de um jornalismo para o desenvolvimento.

Liliane Feitoza

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Às margens do
entender:
quem diz o que é
notícia?
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Para mandar no grupo da


família: um guia de como
checar se uma notícia é falsa

Apurando os fatos

Imagine que certo dia você e seu irmão ou sua irmã estavam sozinhos em casa durante uma tarde
comum. Na verdade, a tarde era até bastante monótona, pois vocês não tinham trabalho da escola
nem qualquer outra atividade para realizar. Em busca de algo que ajudasse a passar o tempo, vocês
decidiram filmar a casa, como se estivessem construindo um pequeno filme, literalmente caseiro.
Ao se aproximarem da janela, vocês notaram algo estranho no prédio vizinho. A partir daí, não só a
atenção dos dois, mas também a câmera do celular, voltaram-se totalmente para a situação atípica.
De início, vocês perceberam uma chama não muito grande, mas depois, com um pouco mais
de atenção, notaram a chama aumentar e que algumas pessoas corriam, tentando deixar o prédio.
Vocês continuaram filmando, tentaram observar por outras janelas e filmar o incêndio por outros
ângulos. Conforme o tempo passava, o pouco de fogo e a fumaça transformaram-se em um incêndio
de proporções consideráveis, ocorrendo, inclusive, algumas pequenas explosões.

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Só diante das explosões, vo-
cês atentaram para o fato de
que era necessário alertar o cor-
po de bombeiros a fim de que o
fogo fosse combatido. Por isso,
um de vocês ligou enquanto o
outro continuava a filmar. Nes-
se vídeo caseiro, vocês acompa-
nharam o desenvolver do caso,
desde o princípio até a chegada
dos bombeiros, que encontra-
ram uma situação já crítica.
Vocês não poderiam ima-
ginar enquanto o fato ocor-

Sergey Toronto e Vasily Smirnov/Shutterstock.com


ria, mas o incêndio filmado se
transformou no assunto mais
comentado da sua cidade du-
rante as semanas seguintes.
Graças ao horário, o prédio
não estava com a sua ocupação
habitual. Ninguém morreu,
mas uma grande quantidade de
pessoas se feriu, tanto por causa o vídeo amador feito por vo- dia monótono e tranquilo, o
do fogo quanto pelo desespero cês ter despertado o interesse vídeo que vocês fizeram certa-
típico de situações como essa, da imprensa. Depois de vocês mente não despertaria muito
fazendo com que muitas pes- postarem trechos do conteú- interesse e, se ainda assim ti-
soas se machucassem na tenta- do em uma rede social e esse vesse sido postado da mesma
tiva de deixar o prédio com ra- material receber muitos com- forma e na mesma rede social,
pidez. Além disso, um grande partilhamentos e comentários, certamente receberia menos
número de famílias perdeu seus jornalistas chegaram até vocês atenção do que recebeu. Di-
bens e ficou sem poder voltar não só para obter autorização ficilmente alguém afirmaria o
para casa. para retransmitir o conteúdo, contrário sobre isso, mas nosso
Não é difícil entender o no caso de jornalistas que tra- interesse, nesse início de con-
motivo de esse acontecimento balham em emissoras de tele- versa, é começar a pensar no
ter interessado a tantas pes- visão e para web jornais, mas porquê. Em outras palavras,
soas e tantos jornalistas, que também para conversar com por que concordamos que um
passaram a produzir notícias vocês sobre tudo o que acom- vídeo sobre a nossa casa seria
a respeito do incêndio, das fa- panharam, afinal vocês foram menos interessante do que um
mílias, da atuação dos bombei- observadores privilegiados, que vídeo sobre um incêndio?
ros, da investigação da perícia acompanharam todo o desen- Talvez lhe pareça bobo fazer
e até do que fazer em situações rolar da trama. uma pergunta como essa, mas
como essa. Também não é di- Se a tarde tivesse continua- explorar as razões pelas quais
fícil compreender o motivo de do como começou, mais um afirmamos com tanta certeza

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que o vídeo do incêndio tem mais chances de poderiam despertar o interesse de jornalistas dos
despertar interesse é o motivo de termos come- que seriam insignificantes para eles. Essa afir-
çado toda essa narrativa. Separando razões, po- mativa não quer dizer que as pessoas conhecem
demos dizer que o vídeo do incêndio envolve tão bem o tema de todas as notícias quanto os
uma quantidade maior de pessoas, ao contrário jornalistas nem que esse conhecimento das pes-
do vídeo da casa, que envolveria apenas você e soas é aplicável a todas as temáticas. Para deixar
seu irmão ou sua irmã. Também podemos afir- mais claro o que queremos dizer, vamos a alguns
mar que o vídeo do incêndio envolve uma si- exemplos.
tuação atípica, tensa, que ainda inclui o drama Pense que, em uma competição na sua escola,
de pessoas que se feriram ou se prejudicaram, você vai disputar a prova dos 100 metros rasos,
também há ação, conflito e imagens impressio- isto é, vai disputar com outros estudantes quem
nantes. Tudo isso, que está presente na situação consegue correr 100 metros com maior rapidez.
do incêndio, falta no vídeo sobre a casa. Se você for campeã ou campeão dessa prova,
Mesmo que você nunca tenha feito um exer- isso certamente despertará o interesse dos seus
cício como esse, de se perguntar por que algo colegas de turma e das pessoas da escola, mas
é importante e algo não é, duvido muito que dificilmente esse assunto será abordado em uma
os motivos que apresentei tenham feito pouco notícia de jornais da sua cidade ou estado, no
sentido para você. Pensando um pouco sobre o máximo ela interessará ao jornalzinho da sua es-
assunto, a maior parte das pessoas não encon- cola. Entretanto, se, ao observar o seu tempo, o
trará dificuldade em separar alguns assuntos que professor de educação física perceber que você
Sergey Novikov/Shutterstock.com

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quebrou o recorde nacional na prova, aí sem dúvidas o assunto
interessará não só a veículos de comunicação da sua cidade e es- A mídia
Quando falamos em mídia,
tado, mas também a jornalistas de veículos de peso nacional, que
estamos nos referindo a
aparecerão interessados em saber de você. todo o conjunto de meios
Já em outro exemplo, imagine que um dos seus professores ou de comunicação de que
dispomos. O termo vem
dos seus colegas de turma tropeçou e caiu nas escadas em frente à
da pronúncia em inglês da
sua escola: esse acontecimento cotidiano não atrairia a atenção de palavra media, o plural de
profissionais da mídia. Porém, se no lugar dos seus companheiros medium, que significa meio.
Assim, mídia seria o plural
de escola, tivesse caído a governadora do estado, que estava na sua
de meio, justamente porque
escola em uma visita para falar sobre a acessibilidade dos colégios ela designa todo um sistema
para alunos com dificuldade de locomoção, com toda a certeza composto de diversos meios.
esse assunto atrairia repórteres.
Assim como no caso do incêndio, você pode listar uma série de Hadrian/Shutterstock.com

motivos capazes de justificar por que um acontecimento interessa


aos jornalistas mais do que outros. No primeiro caso, o da cor-
rida, o interesse por uma simples competição escolar se justifica
pela existência de um recorde e pelo teor excepcional e inusitado
de a marca de um atleta profissional ser superada por uma criança
amadora no esporte. No segundo, o que faz uma simples queda
ser interessante é a notabilidade da pessoa que cai: não era um es-
tudante ou um professor que passou distraído, mas uma autorida-
de pública e, ironicamente, ao se propor a tratar de acessibilidade.
O que é importante fixar, nesse começo de conversa e após
todos esses exemplos, é que existem margens que separam fatos
com maiores e menores chances de atrair a atenção de jornalistas
e de se transformar em notícia. Além disso, o conhecimento do
que é interessante ou não para ser retratado não é um privilégio
exclusivo dos jornalistas, ou seja, outras pessoas também possuem
conhecimentos que se aplicam a essa identificação.
Mas de onde vêm esses conhecimentos? Ou seja, quem estabe-
lece ou estabeleceu as margens que separam o que é ou não inte-
ressante e importante a ponto de ser divulgado para uma grande
quantidade de pessoas? Esse pequeno livro é um convite a um
passeio histórico e sociológico em contato com acontecimentos
considerados importantes, a fim de pensar e questionar não só a
origem de algumas noções, mas também a sua manutenção.
Pela frente, estão histórias diversas que serão dissecadas e ana-
lisadas de formas distintas, como foram os exemplos por que _____________
O jornal mais antigo do mundo
passamos. Mas, em todas essas histórias e análises, pensaremos
ainda em circulação é o holandês
sobre essas margens, questionaremos essas importâncias e am- Haarlems Dagblad, fundado em 1656.
pliaremos as dimensões do nosso entendimento das novidades Atualmente o jornal alemão Bild
(imagem), fundado em 1952, é o
que nos cercam.
maior em circulação do Ocidente.

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Conhecendo
a notícia
Uma senhorinha idosa interessada em tudo muitas vezes aparece em livros de história ou fil-
quanto é novo. Pode parecer que não, mas essa é mes, por serem um elemento interessante para re-
uma forma possível de descrever as notícias que tratar a imprensa da época.
nos cercam. Talvez seja difícil imaginar a notícia Continuando com os filmes, também é possí-
como uma pessoa mais velha, afinal de contas ela vel ver neles antigas marcas da existência da no-
está sempre envolvida com as maiores novidades, tícia, isso porque há muito tempo o jornalista,
interessada em descobertas e atenta ao que aca- como personagem, e o seu trabalho frequentam
bou de acontecer. Além disso, diferentemente das as telas do cinema. Pense em filmes que você co-
senhorinhas do nosso tempo, que costumam se nhece e dos quais gosta que possuem jornalistas
envolver mais timidamente com recursos tecnoló- como personagens. Parando para refletir sobre
gicos, ela pode até apresentar alguma resistência, isso, encontraremos muitas referências, pois a fi-
mas logo se adapta às novas tecnologias. gura do jornalista destaca-se das tramas políticas
Hoje a notícia está nas redes sociais, nas pági- aos filmes de super-heróis, sendo, muitas vezes,
nas de Internet, nos serviços de mensagem instan- eles mesmos (os jornalistas, os jornais e as notí-
tânea para celulares, mas tudo isso sem abandonar cias) os assuntos de que tratam os filmes.
os velhos espaços: a notícia não deixou de fre- O simples conhecimento dessas ocorrências já
quentar jornais impressos, de passear pelas ondas nos prova que, mesmo se ocupando de aconteci-
do rádio ou de se propagar em imagens vibrantes mentos atuais, as notícias não são algo novo. Mas
pela televisão. a verdade é que mesmo essas lembranças remotas,
O fato é que não é de hoje que essa senhora, como os garotos dos séculos XIX e XX e alguns
a Dona Notícia, propõe-se a informar as pessoas. filmes antigos e clássicos, não são os eventos mais
Tanto é assim que ela deixou marcas por lugares antigos aos quais podemos associar as notícias,
onde passou. A imagem de garotos muito jovens principalmente se expandirmos seu significado.
gritando “Extra! Extra” e lendo as principais man- Podemos perceber as notícias a partir de dois
chetes do momento para vender jornais talvez não sentidos distintos. Por um lado, ela pode ser vista
seja estranha para você. Essa situação era comum como um produto resultante do trabalho de jor-
no final do século XIX e início do século XX e nalistas, ou seja, como algo que o jornalista faz no

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wikipedia.org
os interesses pela novidade que existiu antes das
notícias, podemos entender melhor os que passa-
ram a existir a partir dela.
Historicamente, é difícil apontar uma data de
nascimento para qualquer uma das duas, ainda
assim podemos fazer um esforço de localizá-las
em determinados períodos. A notícia-produto
depende da existência de uma imprensa, que só
pôde passar a existir depois da invenção da pren-
sa de tipos móveis no Ocidente, o que aconte-
ceu por volta dos anos 1450, e da circulação de
jornais ou boletins semelhantes a eles (boletins
manuscritos circulavam em cidades alemãs nos
fins do século XV, e os primeiros jornais mo-
dernos começaram a surgir na Europa no início
do século XVII). Assim, mesmo que essa notícia
não nos diga precisamente quantos anos tem,
podemos assegurar que ela já cumpre seu ofício
há mais de 400 anos.
Já a notícia-novidade pode olhar para essa ida-
de com desdém, ou seja, ela pode fazer pouco-
_____________
A primeira capa do jornal Folha de S.Paulo, fundado em -caso desses 400 anos e chamar a notícia-produto
1921 com o nome Folha da Noite. É importante perceber de criancinha, uma vez que já viveu muito mais
a antiga estética do periódico, sem a utilização de imagens,
do que isso. Alguns autores, como o pesquisador
como é mais recorrente hoje em dia. A Folha é um dos
jornais de maior circulação no Brasil atualmente. Mitchell Stephens, falam de uma “vocação huma-
na para comunicar o que é novo”; outros, como
dia a dia do seu trabalho. Mas, por outro, pode ser o português Jorge Pedro Sousa, afirmam que, por
entendida como uma novidade. Quando alguém necessidade, entretenimento ou por desejo, as ori-
diz: “Ontem li uma notícia sobre esse assunto”, gens da disseminação de novidades remontam aos
provavelmente se refere à notícia no primeiro sen- primórdios da humanidade. Nas obras desses dois
tido, como um produto jornalístico, que poderia pesquisadores do jornalismo, está a afirmação de
estar em um jornal impresso, em uma revista ou que as novidades são tão antigas quanto é a comu-
numa página de Internet, esperando para ser lida. nicação humana.
Já quando perguntamos “Tem alguma notícia da Antes do nascimento da notícia, nossa jovem
sua irmã?”, não estamos querendo saber se uma senhora de mais de 400 anos, muitas outras for-
empresa jornalística produziu conteúdos sobre a mas de divulgar novidades existiram. Adiante vi-
irmã da pessoa, mas se há novidades sobre ela. sitaremos alguns desses antepassados, na tentativa
A notícia como produto do trabalho jornalís- de aprender com eles e de entender de onde as
tico é exatamente do que queremos tratar, mas notícias herdaram algumas características. Mas,
não podemos deixar de considerar a notícia como antes disso, vamos falar um pouco mais sobre as
novidade, e há dois motivos para isso. Primeiro, notícias-produto e, principalmente, sobre o que
porque as novidades são como antepassados das elas consideram importante.
notícias atuais e, segundo, porque, olhando para

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Da prensa à Como funcionava
imprensa a prensa móvel
Como falamos acima, a notícia-produto 1. Os caracteres eram gravados em pecinhas
tem suas origens muito ligadas a outra senho- metálicas, inúmeras, agrupadas em caixas.
rinha, muito familiar a todas nós: a imprensa. 2. Em um bloco de metal, chamado ma-
Mas quem é essa senhora e por que ela foi tão triz, essas peças eram organizadas com-
importante para o desenvolvimento da notí- pondo textos, com os caracteres (tipos)
cia-produto? sequenciados formando palavras e, entre
Atribui-se a Johannes Gutenberg a criação elas, os devidos espaços. Com as palavras
de uma técnica de impressão que revolucionou em sequência, a página era “diagramada”
o mundo: a prensa de tipos móveis. A técnica como se fosse um jogo de encaixe: peça
de imprimir formas e caracteres gravados em por peça era disposta na placa.
relevo já existia no Oriente, mas ele criou tipos 3. Com um tecido, uma tinta era aplicada
móveis mais resistentes e duradouros. Com nos tipos móveis.
a tecnologia de Gutenberg, os tipos móveis 4. Sobre a matriz, colocava-se a superfície
(letras, números e outros caracteres) eram or- de impressão, que poderia ser um papel,
ganizados em uma placa metálica compondo tecido ou pergaminho.
textos e, ao absorverem a tinta, gravavam-nos 5. Uma espécie de prato era “prensada” so-
no papel. A partir dela, os textos passaram a ser bre a superfície de impressão, fazendo
mais rápida e facilmente reproduzidos (imagi- com que a página “diagramada” na ma-
ne escrever à mão várias páginas de um livro), triz fosse gravada nessa superfície.
inclusive as notícias. Impressas, as notícias pu- 6. Pronto, estava impressa a página, certo?
deram circular com maior regularidade, dando Não exatamente! Quando esse processo
origem à imprensa, nome que deriva desse ar- terminava, a página era verificada (uma
tefato, a prensa. espécie de “revisão de texto”) e, se fos-
Hoje, o termo imprensa é usado para de- sem identificadas falhas, os caracteres
signar toda a estrutura formada por profissio- eram reorganizados na matriz. Quan-
nais, veículos de comunicação e ferramentas do a página era aprovada, aí o processo
utilizadas no exercício do jornalismo, incluin- se repetia, gerando diversas cópias. E
do impresso, radiofônico, audiovisual, etc. assim eram feitos, página a página, os
Tudo isso porque a tecnologia de Gutenberg impressos.
foi uma grande incentivadora para que a notí-
cia-produto, inicialmente na forma impressa,
ganhasse o mundo e se tornasse indispensável.
______
O alemão Johannes Gutenberg
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(1398-1468), criador da prensa de
tipos móveis no Ocidente. Sua tecno-
logia possibilitou a disseminação de
ideias, informações e conhecimentos,
por isso o surgimento da prensa mar-
cou o início de uma revolução.

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A opinião do jornalista
é importante?

A seleção
do que
vai virar

Não é preciso pensar muito


notícia
há espaço suficiente para todos importante, o tempo. Além de
para compreender que o traba- nas mídias tradicionais; os pro- ter de escolher entre uma infi-
lho de selecionar os fatos que gramas jornalísticos na televisão nidade de acontecimentos e ter
serão transformados em no- e no rádio têm sempre a mesma de falar sobre uma variedade de
tícia não é uma tarefa fácil. O duração, e os jornais impres- temas, o jornalista precisa fazer
primeiro desafio nesse caminho sos também costumam ter um tudo muito rápido. Como já
está no espaço limitado. Agora número constante de páginas. dissemos, a Dona Notícia só se
mesmo, por todo o mundo, as- Ainda que na Internet o pro- interessa pelo que é novo. Ela
sim como pelo nosso país, mi- blema do espaço seja, em tese, não só deixa de se importar com
lhares de acontecimentos estão superado, não há limite de ta- acontecimentos que considera
se desenrolando, e os jornalistas manho para os sites, não dá para ultrapassados, mas também tem
não têm como dar atenção a to- falar sobre tudo, pois não há pouca paciência para esperar.
dos eles, então necessariamente jornalistas suficientes para exe- Essa senhorinha deseja que tudo
escolherão alguns. cutar essa ambiciosa tarefa. fique pronto o quanto antes.
É preciso escolher, pois não Ainda existe outro empecilho Tudo isso faz com que o tra-

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balho do jornalista seja uma correria constante, entre um universo
MidoSemsem/Shutterstock.com

de escolhas e uma fresta de tempo. Mas é importante fazer um


esclarecimento: mesmo que um jornal possuísse espaço ilimitado,
inúmeros jornalistas e uma capacidade de parar o tempo a fim de
agradar a nossa senhorinha apressada, ainda assim ele faria escolhas,
ou seja, ainda assim ele não produziria notícias sobre tudo.
Isso acontece porque nem tudo é considerado interessante a
ponto de ser transformado em notícia. Falamos sobre isso no nosso
começo de conversa e saímos de lá com duas certezas: de que há
margens separando fatos que tendem a interessar mais ou menos e
de que o conhecimento do que é interessante não é um saber exclu-
sivo dos jornalistas.
Saindo desse ambiente hipotético e pensando no trabalho coti-
diano dos jornalistas, podemos voltar a pensar no quanto é desafia-
dor precisar escolher entre uma diversidade de informações, saber
abordar temas muito diferentes (o interesse da notícia vai da vida
política e econômica à arte mais abstrata, passando pela mais preci-
sa e complexa descoberta científica) e fazer isso em um curto espaço
de tempo. Essa seria uma missão praticamente impossível se, ao
longo do tempo, os jornalistas não fizessem uso de algum auxílio.
O auxílio em questão são saberes que os jornalistas apreendem
e utilizam com facilidade. Eles ajudam os profissionais a lidar com
a diversidade e a fazê-lo com rapidez. Os estudiosos em jornalismo
chamam esses auxílios por alguns nomes. Há quem os chame de “cri-
térios de escolha das notícias”, “atributos de relevância”, “elementos
_____________
É inegável que os conflitos tanto da notícia”, “valores informativos”, entre alguns outros. Aqui, neste
nacionais como internacionais estão nosso trajeto, os recursos serão chamados de valores-notícia.
entre os temas mais noticiados.
De maneira resumida, os valores-notícia são regras práticas e fle-
A Primavera Árabe, por exemplo,
iniciada em 2011, ainda tem sido xíveis que guiam os procedimentos, dizendo para os jornalistas o
pauta dos veículos de comunicação e que interessa à notícia. É como se o valor-notícia fosse um velho
ganha destaque sempre que um fato
amigo da notícia — daqueles amigos que não têm medo de dizer o
novo acontece. Na imagem, protesto
no Egito em 2013. que o outro vai ou não gostar ­—, que não só auxilia os repórteres
a escolherem o que agradaria à nossa senhorinha, mas também a
agradar a sua grande pressa. Ele ajuda a selecionar o que é relevante
e merece ser noticiado.
Esse velho amigo, o valor-notícia, é de fato velho. O primeiro
enredo formal, ou seja, a primeira lista sobre o que priorizar na
hora de selecionar os acontecimentos foi produzida na Alemanha,
em 1690. Nesse período, o nome valor-notícia ainda não havia sido
criado; mesmo assim, os jornais (que já existiam) precisavam que a
seleção dos acontecimentos mais importantes acontecesse.
Nessa primeira lista, produzida por um importante estudioso
do jornalismo chamado Tobias Peucer, são exemplificadas situações

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que ajudam na compreensão do what’s news), no qual também tecimentos inesperados e inco-
que deve ser lembrado. Para ele, apresentou a sua lista. Para ele, muns. A normalidade também
entre o que deveria ser prioriza- os jornalistas devem identificar pode ser rompida por conflitos
do, estavam, em primeiro lugar, nos fatos alguns dos seguin- ou controvérsias, fazendo com
fatos muito excepcionais, como tes atributos, para garantir que que estes também interessem aos
monstruosidades, obras ou eles merecem ser selecionados profissionais da mídia. Por fim,
acontecimentos fantásticos ou e transformados em notícia: os ele destaca que serão mais inte-
mesmo trágicos, fossem eles na fatos deveriam envolver uma ressantes os acontecimentos que
arte, na ciência ou na natureza. grande quantidade de pessoas, estiverem próximos do público
Em segundo lugar, estariam os tratar de algo que impactas- do jornal, seja geograficamente,
assuntos envolvendo o Estado e se toda a nação ou que fosse seja pela similaridade cultural.
os governos: guerra e paz, suas do interesse coletivo. Também Pronto, agora que temos
motivações, detalhes sobre bata- poderiam ser selecionados os acesso a três listagens distintas,
lhas e estratégias, leis, nascimen- fatos que envolvessem pessoas cada uma produzida em mo-
to e morte de personalidades de destacada posição social/hie- mentos diferentes, podemos
políticas ou célebres, cerimônias, rárquica. Ele acrescenta que as aprofundar o nosso entendi-
entre outros. Finalmente, tam- notícias devem priorizar o que é mento do que é notícia agora e
bém deveria ser do interesse da novo e o que não é banal e co- do que foi em outros tempos. A
notícia a religião e suas questões, tidiano. Para entreter as pessoas, primeira lista, produzida no sé-
a exemplo de novas seitas, seus as notícias podem incluir atos culo XVII, está inserida em um
dogmas, rituais e fundadores, heroicos, anedotas e histórias período de conflitos religiosos e
obras lançadas, disputas cientí- que interessem pelo drama ou de amplo desenvolvimento da
ficas, relação com a natureza e pela emotividade que possam ciência; a que foi produzida na
cidadania, instituições religiosas, despertar. segunda metade do século XX,
como as igrejas, entre outros. A lista seguinte foi produzida em 1979, havia passado pelo
É interessante notar que esse no ano de 2005 pelo pesquisa- drama de duas guerras mun-
conjunto de situações-exemplo, dor português Nelson Traquina, diais e pela descrença na notí-
mesmo tendo sido escritas em a partir do estudo das listas de cia como algo independente da
1690 continuam sendo, em valores-notícia de outros autores, história e da sociedade; a última
grande parte, semelhantes às gerando os itens a seguir e alguns das listas, produzida no início
situações que na atualidade são outros, preocupados mais com o do século XXI, já estava inserida
priorizadas para a produção das formato do que com conteúdo. em um mundo de informações
notícias. Vamos apresentar mais Para ele, sobre o conteúdo, os já bastante modificado pela In-
duas listas de valores-notícia, jornalistas devem estar atentos ternet.
que poderiam ser mais dez ou ao tempo, trazendo novidade; Ainda que em cada uma das
20, graças à grande quantidade devem ainda privilegiar o que in- listas possamos identificar dife-
existente, e nelas vamos buscar teressa a uma grande quantidade renças, não é possível deixar de
semelhanças. de pessoas ou o que se referir a notar as semelhanças. Para os
Em 1979, um importante figuras notórias na sociedade. Os três autores, os jornalistas de-
estudioso do jornalismo chama- jornalistas ainda devem prestar vem estar atentos ao que é novo
do Herbert Gans publicou um redobrada atenção ao que abala e diferente e ao que atinge uma
livro chamado Decidindo o que a normalidade, como mortes, grande quantidade de pessoas.
é notícia (em inglês, Deciding infrações e escândalos ou acon- Devem ainda focalizar pessoas

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notórias, como governantes ou membros da elite, alguns valores e convidar você para avaliarmos
e se afastar de tudo que seja comum e corriqueiro. juntos alguns acontecimentos. Vamos desempe-
Ao contrário disso, interessa para ser selecionado nhar parte do papel dos jornalistas e justificar
o que for incomum, desviante e que de alguma por que alguns fatos possuem noticiabilidade,
forma rompa com o cotidiano. ou seja, merecem ser notícia.
A partir dessas e de outras listagens, elabo- Para facilitar nossa vida, nossos valores-notícia
ramos um pequeno quadro de valores-notícia. serão divididos em categorias, conforme o quadro
Dizendo de maneira mais simples, vou propor a seguir:

Quantidade de pessoas
Impacto Grandes dimensões
Interesse nacional

Incomum Imprevisível
Surpresa Raro Excêntrico
Inesperado

Rivalidade Briga
Conflito Guerra Disputa
Controvérsia Discórdia

Inovação Progresso
Descoberta Invenção Inédito
Pesquisa

Líderes governamentais Famosos


Proeminência Grau hierárquico Elite
Notoriedade Culto ao herói

Humor Suspense
Interesse humano Curiosidade Drama
Confidência Entretenimento

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Agora que já temos valores-notícia de referên- destruição se espalhasse.
cia, podemos realizar algumas análises, agindo Uma gigantesca quantidade de lama arrastou
como se fôssemos jornalistas diante de um fato. O caminhões, encobriu casas e deixou muitas pessoas
que vamos fazer, exatamente, é confrontar situa- submersas e outras tantas ilhadas. Todo o distrito
ções ou materiais jornalísticos, perguntando-nos, de Bento Rodrigues, que possuía aproximadamen-
nos dois casos, se eles possuem ou possuíram, no te 600 habitantes, foi destruído, juntamente com
momento da sua ocorrência, atributos suficientes cerca de 200 casas. O corpo de bombeiros come-
para agradar a exigente Dona Notícia. çou a realizar o processo de resgate e assegurou a
Imagine que você é jornalista de um veícu- existência de uma primeira vítima fatal. Enquanto
lo de comunicação localizado na cidade de Belo isso, a lama continuava se espalhando e danifican-
Horizonte, em Minas Gerais, o ano em questão é do os lugares pelos quais passava.
2015, e o mês, novembro. No dia 4 de novembro, Diante desse cenário, não é preciso ser jornalista
dia anterior ao que nos interessa, você havia pro- para saber que o fato é noticiável, ou seja, saber
duzido notícias sobre a instabilidade econômica e que ele possui alguns dos atributos necessários para
política do País, a situação já estava agitada, mas se transformar em notícia. Para nós, entretanto, a
nada comparado ao que estava por vir. No dia se- intenção é ir além e ser capaz de explicar ou fun-
guinte, duas barragens da Mineradora Samarco se damentar essa noticiabilidade. Para isso, volte para
romperam, entre as cidades de Mariana e Ouro o nosso quadro e observe cada uma das categorias
Preto, ambas localizadas no seu estado. As barra- e itens procurando notar quais foram acionados
gens represavam rejeitos do processo de minera- diante do rompimento da barragem.
ção, e o rompimento fez com que um cenário de

Gustavo Basso/Shutterstock.com

______
Passados mais de dois anos da tragédia ambiental em Mariana, o acontecimento continua pleno de valores-
-notícia, seja pelo rastro de destruição ainda não revertido, seja pela cobrança de penalidades aos responsáveis.

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Dando uma olhada, você nário, para uma situação menos amplamente conhecidas. Nesse
certamente identificou que a catastrófica. Você continua sen- caso, falamos ainda de líderes
ação envolve um enorme im- do um/uma jornalista, mas dife- governamentais e da notorie-
pacto, não só pela grande quan- rentemente do último caso, em dade que carregam, ou seja, da
tidade de pessoas envolvidas que o acontecimento surpreen- popularidade dessas pessoas que
(destaquem-se nesse momento deu a todos, o fato a ser coberto concorrem para ocupar impor-
os muitos desaparecidos), mas está sendo esperado por muitas tantes cargos na administração
também pelas grandes dimen- pessoas há meses. O jornal em do país ou do estado.
sões do acontecimento: estamos que você trabalha, inclusive, Nesses dois últimos casos,
falando de um distrito inteiro montou um amplo esquema simplificamos para você, apre-
sendo atingido, muitas casas de cobertura, isso porque é dia sentando situações que eram
e carros e um amplo território de eleições para o Governo do muito facilmente identificadas
sendo destruídos por uma quan- Estado, bem como para a Presi- como notícia. Agora vamos
tidade inacreditável de lama. dência da República. complicar um pouco. O nosso
Ser inacreditável nos leva Mais uma vez, é bem difícil terceiro exemplo não é sobre
para uma segunda categoria e que alguém discorde da noticia- um acontecimento que se pas-
para outros valores-notícia. A bilidade de uma eleição e do seu sou, mas sobre o anúncio de
situação é incomum, rara e, até resultado. Mas, repetindo nossa que algo vai acontecer. Narran-
onde sabíamos no momento, tarefa, vamos explicar por que é do dessa forma, já se inicia uma
imprevisível. Além de todos es- tão necessário que esse aconte- suspeita, mas a verdade é que
ses valores, há um considerável cimento seja transformado em muitas notícias são produzidas
interesse humano envolvido. É notícia. a partir do aviso de que algo
difícil pensar nesse desastre sem Outra vez, a categoria impac- acontecerá.
se tocar pelo drama das pessoas to tem uma importante partici- Chegou ao seu conhecimen-
que perderam familiares, casa, pação na noticiabilidade desse to a informação de que um
trabalho e até o lugar onde cons- acontecimento. Uma eleição ne- cantor, não muito famoso, mas
truíram sua vida. cessariamente causa um impacto apreciado por alguns, marcou
Nesse momento inicial, con- para uma grande quantidade um show na sua cidade. Diante
seguimos identificar seis valores- de pessoas, além de estar rela- disso, você se pergunta se deve-
-notícia que se ligaram com fa- cionada ao interesse da nação. ria ou não produzir uma notícia
cilidade ao fato. Com o passar Nesse caso, a categoria conflito sobre esse anúncio. Como fator
do tempo, a lama continuou se também é essencial. A eleição é, positivo, a favor da publicação,
espalhando, responsabilidades antes de tudo, uma disputa, que está o fato de que a notícia po-
foram cobradas, descobertas fo- envolve a rivalidade entre pes- deria avisar as pessoas sobre a
ram feitas, vários personagens, soas, grupos e ideias. existência do evento, permitin-
entre eles autoridades, começa- Outra categoria que você do que elas se preparassem para
ram a fazer parte da história e, deve ter notado é a proeminên- comparecer. Por outro lado,
assim, novos valores-notícia fo- cia. Uma notícia sobre o resul- você sabe que existem outras
ram acionados na cobertura des- tado de uma eleição não tem ferramentas de divulgação e que
sa tragédia, que passou a ser clas- como personagem um cidadão a notícia deve se dedicar mais a
sificada como o maior desastre comum, mas pessoas que se informar do que a divulgar. Na
ambiental já ocorrido no Brasil. encontram em posição de des- dúvida, vamos ver o que nos diz
Vamos agora mudar de ce- taque na sociedade e que são o quadro de referência.

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Diferentemente dos acon- rem muito. relevantes ou não relevantes,
tecimentos anteriores, este não Na verdade, os jornalistas mas há diversos graus de rele-
aciona muitos valores-notícia. não costumam portar listas vância.
O anúncio do show não movi- de valores-notícia. Os saberes, Mas, mesmo diante de to-
menta categorias como impac- como esses da lista, costumam dos esses novos saberes, algumas
to, surpresa, conflito ou desco- ficar armazenados diretamente dúvidas ainda não foram supri-
berta. Apenas na proeminência na cabeça dos profissionais, ten- das. Aprendemos, por exemplo,
e no interesse humano é que é do sido aprendidos na faculda- (1) que nem tudo interessa aos
possível encontrar valores-notí- de, quando estudaram a profis- jornalistas; (2) que nem todos
cia que se apliquem. A respeito são, e no cotidiano da prática, a os acontecimentos possuem os
do interesse humano, podería- partir da observação dos colegas atributos necessários para serem
mos decidir publicar a notícia mais experientes. transformados em notícia; (3)
por ela se enquadrar no valor- De uma forma ou de outra, que os valores-notícia auxiliam
-notícia entretenimento, não a aplicação dos valores-notícia é o jornalista nessa diferenciação,
pelo anúncio em si, mas pelo sempre aberta à diversidade dos ou seja, ajudam a separar o que
que o show pode proporcionar. fatos. Diferentes acontecimen- interessa para a produção de no-
Quanto à proeminência, por tos podem acionar diferentes tícias e o que pode ser descon-
sua vez, há o fato de o cantor valores-notícia, e a quantidade siderado; e (4) que a relevância
em questão ser pelo menos um e intensidade deles também se pode atingir diferentes graus.
pouco famoso. Produzir ou não altera. Quanto mais valores-no- O que ainda não sabemos
produzir a notícia, nesse caso, tícia um fato acionar, ou seja, é de onde vem essa definição
dependerá de outras questões quanto mais atributos estiverem primeira do que é ou não im-
além do acontecimento. Vere- envolvidos no acontecimento, portante. Será que ela sempre
mos, adiante, que é bem comum mais relevante ele tenderá a ser existiu ou foi criada junto com
que outros elementos, além dos considerado e mais inevitável o desenvolvimento do jornalis-
valores-notícia, orientem os será que ele seja transformado mo? Em outras palavras, quere-
jornalistas sobre a escolha ou o em notícia. mos conhecer melhor os gostos
descarte de acontecimentos. Pensando nos dois primeiros da Dona Notícia, queremos
Por ora, é importante lem- acontecimentos que analisa- compreender por que essa se-
brar que os valores-notícia são mos, podemos concordar que, nhorinha se interessa por algu-
auxiliares bem práticos, são por mais que um jornalista de- mas coisas, e não por outras.
versáteis e diretos, facilitando sejasse, não seria possível deixar O caminho que vamos per-
bastante a tarefa dos jornalistas de produzir notícias sobre. Eles correr nessa nova jornada é bas-
de corresponder às exigências eram, portanto, inevitavelmen- tante histórico. Como Dona
da Dona Notícia. O quadro de te relevantes. Já no terceiro caso, Notícia não gosta muito de falar
valores que apresentamos ante- o veículo ou o jornalista pode- sobre ela, mas, sim, sobre os ou-
riormente foi inspirado em lis- riam optar por não transformar tros, vamos precisar investigar
tagens de diversos autores, mas o anúncio em notícia, uma vez sua trajetória e suas influências.
isso não quer dizer que todos os que nesse caso a relevância é A partir de agora, vamos explo-
repórteres e jornalistas se guiem consideravelmente menor. As- rar antepassados da notícia, a
por uma lista semelhante a essa, sim, fica evidente que os aconte- fim de entender seus gostos a
ainda que as definições do que cimentos não são simplesmente partir das suas origens.
deve ser selecionado não se alte- noticiáveis ou não noticiáveis,

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Os mais pesquisados em
2015, segundo o Google
Você já parou para pensar na importância dos servi-
ços de busca? Eles possuem a tecnologia para organizar
uma enorme quantidade de conteúdo, em texto, ima-
gem, som, e colocá-lo em nossas mãos em um simples Escaneie o QR CODE
clique. A tecnologia também permite que essas empre-
sas monitorem o que estamos buscando, ou seja, o que
é mais interessante para nós.
Na matéria citada a seguir, o El País menciona a
lista de assuntos mais pesquisados no ano de 2015,
criada pela empresa Google, indicando o que desper-
tou maior interesse dos leitores. Entre os fatos men-
cionados, estão:
• Casos de corrupção envolvendo a empresa Petrobras (o mais buscado).
• A crise econômica que se instalava no País.
• O desastre ambiental em Mariana (que mencionamos anteriormente).
• A campanha #MeuPrimeiroAssédio, ocorrida nas redes sociais em resposta a mensagens de
pedofilia dirigidas a uma menina de 12 anos que participava de um reality show.
• Um atentado terrorista ocorrido em Paris, uma tragédia que impactou o mundo.
• O lançamento do Episódio 7 da saga Star Wars, previsto para dezembro daquele ano.

Se pararmos para pesqui-


sar detalhadamente cada um
desses temas, perceberemos
que eles apresentam uma lis-
ta riquíssima de valores-no-
tícia, embora de naturezas
muito distintas: a lista en-
volve desde tragédias até en-
tretenimento, passando pelo
ativismo em rede. Seriam os
serviços de busca um termô-
metro dos valores-notícia do
nosso tempo?

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Reflexão em pauta

1. (UFMG – adaptada) Observe esta imagem:

Imagine-se no papel de um repórter que com-


parece ao local onde ocorreu a cena retratada
nessa imagem.

Redija um texto para o jornal em que você


trabalha noticiando o fato e destacando os
elementos que fazem com que esse aconteci-
mento deva ser transformado em notícia. Dê
um título à sua produção.

2. A imagem abaixo expõe um material jornalístico publicado por um jornal da cidade de São
Paulo a respeito de uma possível epidemia de zika vírus. Repita os exercícios realizados durante
este capítulo e analise a noticiabilidade dessa ocorrência, utilizando, como parâmetro, os valores-
-notícia dispostos no quadro de referência.

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Escaneie o QR CODE a seguir
para ler a notícia na íntegra.

3. Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, dimi-
nuiu o passo até parar, encostando-se à parede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na
calçada, ainda úmida da chuva, e descansou na pedra o cachimbo.
Dois ou três passantes rodearam-no e indagaram se não se sentia bem. Dario abriu a boca, moveu
os lábios, não se ouviu resposta. O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque.
TREVISAN, D. Uma vela para Dario. Cemitério de Elefantes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964 (adaptado).

No texto, um acontecimento é narrado em linguagem literária. Esse mesmo fato, se relatado em


versão jornalística, com características de notícia, seria identificado em:
a) Aí, amigão, fui diminuindo o passo e tentei me apoiar no guarda-chuva... mas não deu. En-
costei na parede e fui escorregando. Foi mal, cara! Perdi os sentidos ali mesmo. Um povo que
passava falou comigo e tentou me socorrer. E eu, ali, estatelado, sem conseguir falar nada!
Cruzes! Que mal!
b) O representante comercial Dario Ferreira, 43 anos, não resistiu e caiu na calçada da Rua da
Abolição, quase esquina com a Padre Vieira, no centro da cidade, ontem por volta do meio-
-dia. O homem ainda tentou apoiar-se no guarda-chuva que trazia, mas não conseguiu. Aos
populares que tentaram socorrê-lo, não conseguiu dar qualquer informação.
c) Eu logo vi que podia se tratar de um ataque. Eu vinha logo atrás. O homem, todo aprumado,
de guarda-chuva no braço e cachimbo na boca, dobrou a esquina e foi diminuindo o passo
até se sentar no chão da calçada. Algumas pessoas que passavam pararam para ajudar, mas ele
nem conseguia falar.
d) Vítima
Idade: entre 40 e 45 anos
Sexo: masculino
Cor: branca
Ocorrência: Encontrado desacordado na Rua da Abolição, quase esquina com Padre Vieira.
Ambulância chamada às 12h34min por homem desconhecido. A caminho.
e) Pronto-socorro? Por favor, tem um homem caído na calçada da Rua da Abolição, quase es-
quina com a Padre Vieira. Ele parece desmaiado. Tem um grupo de pessoas em volta dele.
Mas parece que ninguém aqui pode ajudar. Ele precisa de uma ambulância rápido. Por favor,
venham logo!
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4. (Enem) É água que não acaba mais

Dados preliminares divulgados por pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA)


apontaram o Aquífero Alter do Chão como o maior depósito de água potável do planeta. Com
volume estimado em 86.000 quilômetros cúbicos de água doce, a reserva subterrânea está loca-
lizada sob os estados do Amazonas, Pará e Amapá. Essa quantidade de água será suficiente para
abastecer a população mundial durante 500 anos, diz Milton Matta, geólogo da UFPA. Em
termos comparativos, Alter do Chão tem quase o dobro do volume de água do Aquífero Gua-
rani (com 45.000 quilômetros cúbicos). Até então, Guarani era a maior reserva subterrânea do
mundo, distribuída por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.
Época. Nº623. 26 abr. 2010.

Essa notícia, publicada em uma revista de grande circulação, apresenta resultados de uma pes-
quisa científica realizada por uma universidade brasileira. Nessa situação específica de comunica-
ção, a função informativa da linguagem predomina, porque o autor do texto prioriza:
a) as suas opiniões, baseadas em fatos.
b) os aspectos objetivos e precisos.
c) os elementos de persuasão do leitor.
d) os elementos estéticos na construção do texto.
e) os aspectos subjetivos da mencionada pesquisa.

5. As notícias se interessam pelas novidades, por acontecimentos que acabaram de acontecer ou


que acabaram de ser descobertos. Mas não basta se ligar à atualidade para ser do interesse das
notícias. Alguns acontecimentos, mesmo que muito atuais, não aparecem nos jornais. Isso ocorre
porque os jornalistas, assim como as outras pessoas, percebem o mundo a partir de alguns valores
que separam o que é importante do que não é. Os valores-notícia são critérios que auxiliam os
jornalistas nessa separação. Sobre eles, podemos afirmar:
a) Os valores-notícia são utilizados e dominados exclusivamente pelos jornalistas, de forma que
pessoas fora dessa área de atuação não conseguem compreender esses critérios.
b) Ainda que os valores-notícia possam ser compreendidos por todas as pessoas, não só pelos
jornalistas, seu uso interessa apenas aos profissionais das notícias, pois são eles que as pro-
duzem.
c) Quanto à história, os valores que ajudam a selecionar o que será transformado em notícia são
recentes, passando a existir quando a Internet começou a oferecer espaços ilimitados para os
produtores da informação.
d) De maneira geral, todos os jornalistas profissionais são orientados por uma lista padronizada
de valores-notícia, que recebem durante a formação profissional.
e) Os valores-notícia são especialmente úteis por simplificar o trabalho dos jornalistas, apresen-
tando de antemão o que deve ser priorizado para a produção das notícias, mesmo diante de
uma grande variedade de temas.

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6. Analise as seguintes notícias.
Notícia 1: Chico Buarque
compra baguetes para o
lanche da tarde O cantor e
compositor desfilou de ber-
muda, camiseta e chinelos
pelas ruas do Leblon, Zona
Sul do Rio (Portal Ego)
Notícia 2: “Chico Buarque
compra baguetes”: inter-
nautas brincam e fazem
paródias “Entrou na pada-
ria como se fosse a única”,
“Andou na fila do pão com
seu passo tímido” [...] Foram
alguns dos comentários da
inusitada notícia, que ainda
descrevia a roupa de Chico
Buarque. (Jornal do Brasil)

Escaneie o QR CODE

Na sua opinião, e com base no que você aprendeu sobre valor-notícia, por que a segunda notícia
classifica a primeira como “inusitada”?

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Um
encontro
com
antepassados

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As 7 publicações
impressas mais antigas
do Brasil e do mundo

Antes de começar, precisa- saberes ao máximo de pessoas gostos que acabamos de co-
mos fazer um esclarecimento. possível. nhecer), visitar outros períodos
Falamos, anteriormente, que A falta de contribuição se e outras sociedades, a fim de
Dona Notícia, aquela senhori- deve, nesse caso, a um verda- conhecer alguns antepassados
nha apressada que procuramos deiro desconhecimento. Com e de aprender com eles. Viaja-
compreender, não costumava o tempo, a notícia foi perden- remos para períodos anteriores
contar muito sobre si. Tudo do o contato com alguns ante- à invenção da prensa de tipos
isso é verdadeiro, o que precisa- passados e se esquecendo deles. móveis de Gutenberg, bem
mos esclarecer é que o silêncio Assim, para provar que também como para antes da criação dos
da notícia sobre a sua história está interessada em se com- primeiros jornais impressos. Por
não se deve a má vontade ou a preender melhor, a Dona Notí- isso, qualquer fenômeno pareci-
uma tentativa de reter informa- cia se ofereceu para nos acom- do com a notícia que encontre-
ções. Por sua própria natureza, panhar nessa nossa jornada em mos no nosso caminho já não
a notícia não se interessa por busca de explicações. poderá ser tido como notícia-
omitir informações, ela gosta Iremos, portanto, nós e a -produto, e sim como notícia-
mesmo é de divulgar e de levar notícia (caracterizada por esses -novidade.

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Dissemos anteriormente que Império Romano. Ele precisava que seus comandos
as novidades e a necessidade de No auge da sua expansão chegassem aos extremos do terri-
transmiti-las ligam-se aos pri- territorial, o Império Romano tório, mas como garantir isso?
mórdios da humanidade, mas chegou a englobar grande par- A necessidade de manter
não iremos tão longe. A primei- te da atual Europa, uma faixa unidos os territórios conquista-
ra parada da nossa viagem foi do continente africano e ain- dos e de assegurar a autoridade
orientada pela história. Iremos da algumas porções da região do imperador e dos comandan-
para um período em que a es- atualmente conhecida como tes fez com que, durante o Im-
crita já tinha sido desenvolvida Oriente Médio. Era um impé- pério Romano, fosse desenvol-
e em que já não era uma prática rio realmente grandioso, o que vido um complexo sistema de
surpreendente, ainda que conti- era motivo de muito orgulho comunicação. Por meio de ins-
nuasse limitada a uma pequena para alguns romanos — muitos trumentos de comunicação, os
parte da população. acreditavam que esse domínio comandantes conseguiam não
Esse lugar, para onde vamos, jamais teria fim — mas também só expandir o alcance das suas
também é caracterizado por implicava muito trabalho. vozes, mas também fazer com
possuir uma sociedade muito Imagine a dificuldade do im- que sua autoridade estivesse em
complexa, com amplo desen- perador de Roma para garantir vários lugares ao mesmo tempo.
volvimento social, político e que a sua autoridade e as suas Não por acaso, é em Roma
econômico, sem mencionar o decisões fossem cumpridas em que vamos encontrar a primeira
poderio militar, que garantiu a todos esses espaços, uma vez que antepassada formal das notícias
formação de um grandioso ter- ele não poderia estar em mais de atuais, as actas romanas. Essas
ritório. A sociedade à qual esta- um lugar ao mesmo tempo. Con- actas eram de vários tipos, algu-
mos chegando está localizada, sidere ainda que, mesmo vivendo mas sigilosas, outras restritas a
historicamente, na Antiguida- em viagem, ele não teria acesso alguns setores, e outras, ainda,
de Clássica e ficou conhecida aos rápidos transportes de hoje, eram expostas para toda a popu-
como um dos maiores impérios mas dependeria de transportes lação. Para nós, interessam estas
de todos os tempos. Estamos fa- de tração animal para se deslo- últimas, chamadas de Acta Po-
lando de Roma, ou melhor, do car por esse imenso território. puli ou Acta Diurna.

Mohd KhairilX/Shutterstock.com

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As Actas Diurnas são impor- públicos envolvendo o impera- meio rural e em territórios bem
tantes para nós por dois princi- dor e outros magistrados; bata- menores, uma vez que a vida
pais motivos. O primeiro deles lhas travadas pelas legiões roma- política, social e econômica se
já foi exposto: elas eram ofere- nas; eleições e nomeações para limitava a cada um dos feudos.
cidas para toda a população, cargos públicos; combate de A nova realidade não agra-
assim como as notícias de hoje. gladiadores; além de descrições dou muito a Dona Notícia. Di-
Além disso, interessa-nos o as- de julgamentos e de uma lista ferentemente do que acontecia
sunto de que tratavam: elas se dos executados. no Império Romano, em que
dedicavam a registrar os acon- Ao retratar essas informa- sua ancestral era bastante famo-
tecimentos mais relevantes da ções, as Actas Diurnas também sa e valorizada, sendo procurada
vida na cidade e no Império. serviam para criar um senti- por todos, na Idade Média havia
Para serem lidas, as Actas mento de identidade e lealdade uma demanda menor por infor-
Diurnas eram afixadas durante entre os romanos e outros ha- mações e, por isso, uma impor-
alguns dias em espaços públi- bitantes do império, tarefa tão tância menor era atribuída a es-
cos onde ocorresse uma grande importante que fez com que ses recursos comunicativos.
circulação de pessoas. Depois elas persistissem por quase 400 Tentamos explicar que a di-
desse período, algumas delas anos, tendo sido extintas quan- minuição dos núcleos sociais e
eram retiradas, encadernadas do a sede imperial foi transfe- dos territórios reduzia apenas
e arquivadas. Esse processo rida para Constantinopla, em a atuação de instrumentos for-
também acontece hoje, com os 330 d.C. Diante do conheci- mais de divulgação dos aconte-
jornais impressos, que podem mento do que interessava a essa cimentos, mas que, mesmo as-
ser consultados em arquivos bisavó da notícia, você já pode sim, as novidades continuavam
públicos. Agora que já sabemos começar a se questionar sobre circulando, de maneira mais in-
um pouco sobre essa bisavó da as semelhanças e diferenças en- formal, entre as pessoas. Apesar
notícia, podemos começar a tre elas e os produtos jornalísti- disso, a senhorinha estava irre-
investigar os seus gostos, isto cos de hoje, mas, antes de nos dutível, só se acalmando depois
é, precisamos saber o que era dedicarmos totalmente a essa de conhecer os parentes que ti-
considerado interessante para comparação, é preciso conhecer nha naquela sociedade.
ser divulgado nelas. outros antepassados e aprender No período medieval, en-
Segundo alguns historiado- sobre eles. contramos crônicas, relatos de
res e comunicadores interessa- Seguindo, iremos encontrar viagem e cartas informativas,
dos nos primórdios do jornalis- tias-avós da notícia na socie- formatos que, graças ao estilo,
mo, essas produções se voltavam dade que se organizou após a à forma de narrar e ao interesse
para os acontecimentos e as queda do Império Romano, isto pela visão do autor, aproximam-
pessoas que eram consideradas é, na sociedade feudal. Depois -se mais das reportagens e das
ilustres, uma vez que queriam de guardar algumas lembranças crônicas atuais do que das no-
ser lembradas por isso. Mais da visita às Actas Diurnas, nós tícias. Mesmo diferentes, esses
detalhadamente, os conteúdos e a Dona Notícia chegamos a três formatos também precisa-
de maior interesse incluíam de- uma realidade diferente da ur- vam de critérios para selecionar
cretos de imperadores e senado- banização romana e do amplo o que era ou não interessante
res; nascimentos, casamentos e território do império. Na Idade discutir, de forma que podemos
mortes, envolvendo personali- Média, encontraremos a maior continuar com as nossas com-
dades notáveis; reuniões e atos parte da população vivendo no parações.

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Nas crônicas, eram registrados principal- lhas da China para os europeus. Nos relatos, era de
mente acontecimentos envolvendo nobres e mo- interesse dos viajantes o que era diferente da vida
narcas, divergindo de cronista para cronista se o com que estavam acostumados. Assim, os relatos
foco estaria na descrição do acontecimento ou traziam a descrição de povos, costumes, lugares e
no engrandecimento da figura dos senhores re- animais, descrições que muitas vezes se mistura-
tratados. Elas também podiam se referir à morte vam com o espanto que costumamos experimentar
ou ao crime, mas, em geral, só o faziam se eles sempre que estamos diante de algo desconhecido,
estivessem relacionados a membros da nobreza. além de uma boa porção de exagero.
Mais raramente, nas crônicas medievais, tam- Depois de saber um pouco mais sobre essas
bém podiam surgir referências a assuntos menos duas tias-avós, as cartas e as crônicas, e sobre o
nobres e mais cotidianos. tio-avô, o relato de viagem, podemos seguir via-
Nas cartas, eram transmitidas novidades e gem, para conhecer o antepassado mais próximo
acontecimentos recentes envolvendo a vida do e mais parecido com as notícias atuais. Vamos en-
feudo. Elas podiam ser enviadas tanto para al- contrar a mãe das notícias no período Renascen-
guém do mesmo feudo quanto para de outro. tista, prolongando-se pela Idade Moderna.
Produzidas, muitas vezes, por monges e outros Deixando a Idade Média entristecida, pela re-
membros do clero, as cartas não só relatavam os dução da importância que presenciou no cotidia-
acontecimentos, mas costumavam analisá-los, no dos seus antepassados, Dona Notícia seguiu
aplicando a moral religiosa daquela época. Por viagem, ainda reclamando do baixo alcance das
isso, muitas vezes interessava às cartas o que, aos informações que circulavam pelo período. Feliz-
olhos dos seus autores, parecia um desrespeito às mente para nós e para a autoestima da Dona No-
normas instituídas pela Igreja Católica. tícia, o período seguinte trazia uma realidade bem
Os relatos de viagem, como o nome bem diz, diferente.
traziam descrições de terras distantes, certamente O comércio, que se intensificou no final da
interessantes para pessoas que podiam passar toda Idade Média, bem como a insuficiência do modo
a vida sem sequer ter ido além do feudo em que vi- de vida feudal, voltou a conduzir a população
viam. O mais conhecido relato de viagem da épo- para as cidades, nas quais se desenvolveria o capi-
ca é o de Marco Polo, um mercador e explorador talismo moderno. Durante o Renascimento, tam-
veneziano que descreveu as diversidades e maravi- bém foram instituídas as primeiras universidades,
_____________
ymgerman/Shutterstock.com

Se antes a notícia
levava certo
tempo para
chegar aos mais
diversos locais,
hoje ela pode
estar nas mãos
do leitor em
segundos. Graças
à Internet, é
possível acessar
as últimas
notícias em
tempo real e de
qualquer lugar
do mundo.

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foi desenvolvida a indústria do depender do assunto, mas, ain- de outros assuntos.
papel e apareceram correntes da assim, elas tendiam a trazer A preocupação com a disse-
que questionavam, a partir de apenas uma notícia-novidade. minação da informação já era
textos e argumentos, a doutri- Quanto à forma de fixação tão grande que algumas folhas
na da Igreja Católica. Era um das informações, as folhas vo- volantes traziam notícias-no-
tempo de mudança, em que a lantes podiam ser tanto impres- vidades traduzidas para outros
escrita começava a adquirir uma sas quanto manuscritas. Isso idiomas. Essa tradução não só
importância nunca alcançada. porque, diante de uma folha tornava possível saber o que se
Nesse período, as crônicas e volante que parecesse muito passava em regiões de idiomas
as cartas continuaram existin- importante, uma pessoa pode- distintos, como também aju-
do, ainda que com característi- ria recopiar a informação e fa- dava a gerar uma consciência
cas distintas. Deve-se destacar a zer circular não só a que chegou ampliada, por deixar claro que
existência dos almanaques po- ao seu conhecimento, como os fatos poderiam gerar conse-
pulares, que eram livretos pro- também cópias delas, a fim de quências tanto nos espaços em
duzidos pelas primeiras tipo- aumentar o alcance e o conheci- que ocorriam como em outros,
grafias com informações sobre mento daquela novidade. distantes. Para alguns estudio-
agricultura, dias festivos, con- As folhas volantes mais anti- sos, essa percepção começa a
selhos sobre a vida cotidiana, gas que foram encontradas esta- formar e ampliar uma consciên-
dentre outros. vam na região que hoje conhe- cia continental, ou seja, criar
Encontrar todos esses tios e cemos como Itália, na Bolonha, entre os povos a noção de que
tias foi um grande consolo para em 1470. Já as últimas perdu- pertenciam a um mesmo conti-
Dona Notícia: a partir desse raram até o século XIX, convi- nente.
momento, ela conseguiu per- vendo com os primeiros jornais Não era só quem produzia
ceber como surgiram estruturas e com as primeiras notícias. O ou recopiava as folhas volantes
que no futuro fariam parte do que caracterizava folhas volantes, que percebia a sua importância.
seu cotidiano. As características além de se limitarem a tratar de Na época, era comum pessoas
da sociedade renascentista e os um só conteúdo, é que elas não que não sabiam ler pagarem
avanços tecnológicos faziam a eram publicadas com regularida- para ouvir o que diziam esses
nossa companheira de viagem de, ou seja, não eram edições fi- informativos. Essa prática per-
sentir que a sua história estava xas, com títulos de identificação durou por alguns séculos, uma
para começar. e períodos determinados para vez que as técnicas de impres-
A impressão da Dona No- serem lançadas novas edições. são e disseminação, bem como
tícia não estava errada e se tor- Dessa forma, as folhas volantes a percepção da importância das
nou muito mais evidente ao também podiam ser chamadas informações, avançaram muito
encontrar o seu familiar mais de folhas ocasionais. mais rápido que o combate ao
próximo, a folha volante. Esse Normalmente, as folhas vo- analfabetismo.
antepassado recebeu esse nome lantes surgiam como iniciativas Essa disponibilidade para
porque costumava ser compos- particulares, diante da necessi- pagar pelas notícias conduziu
to de apenas uma folha, que dade de fazer uma informação a duas percepções importantes
circulava entre as pessoas, pas- se disseminar, desaparecendo para o futuro do jornalismo.
sando de mão em mão. Em depois disso. Ao mesmo tempo, Primeiro, tornou-se claro que
alguns casos, as folhas volantes surgiam outras iniciativas e dife- as pessoas precisavam e queriam
podiam ganhar mais páginas, a rentes folhas volantes, tratando informações regulares. Segundo,

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também tornou-se evidente que as informações, fenômenos incomuns, inusitados e curiosos.
assim como outros serviços e recursos, podiam ser Analisando os temas de interesse das folhas
comercializadas. Não demorou para que essas per- volantes, o pesquisador português Jorge Pedro
cepções fizessem surgir os primeiros jornais. Sousa afirmou que as notícias contidas nelas, aqui
Todo esse percurso é muito interessante, mas enquadradas como notícias-novidades, já obede-
para nós ainda falta saber o que era publicado ou ciam a critérios idênticos aos contemporâneos, o
copiado nas folhas volantes. Precisamos saber o que se justifica, segundo ele, pela natureza cultu-
que era divulgado, a fim de entender melhor tan- ral e histórica dos valores-notícia.
to a atitude dos que copiavam e redistribuíam as A análise desse pesquisador, juntamente ao
folhas quanto a dos que pagavam para saber o que que aprendemos nas visitas aos antepassados da
aparecia nelas. Dona Notícia, deixa-nos diante de um conside-
As diversas folhas volantes que circularam pela rável avanço. Passamos a poder afirmar que os
Europa trataram de uma grande variedade de gostos da nossa senhorinha exigente não são im-
temas. Interessava a elas informar sobre grandes possíveis de ser explicados. Se voltarmos para es-
acontecimentos políticos e seus líderes, comér- ses antepassados e focalizarmos o que interessava
cio e acontecimentos sociais, entre os quais esta- a eles, encontraremos semelhanças não só entre
vam crimes e criminosos, calamidades e batalhas. cada um dos formatos, mas também entre eles e
Também surgiam folhas volantes para disseminar a notícia atual.

Actas Diurnas Crônicas Cartas Relatos de Folhas volantes


viagem
Os conteúdos de Aconte- Novidades Grandes acon-
maior interesse cimentos recentes Fatos tecimentos
incluíam decretos envolvendo da vida atípicos e políticos e seus
de imperadores e nobres e no feudo. diferen- líderes, comér-
senadores; nasci- monarcas, a Relatavam ciados na cio e aconteci-
mentos, casamentos morte ou o também descrição mentos sociais,
e mortes de perso- crime, mas, desrespeito de povos, entre os quais
nalidades notáveis; em geral, às normas costumes, estavam crimes
reuniões e atos pú- se eles esti- instituídas lugares e e criminosos,
blicos envolvendo o vessem re- pela Igreja animais. calamidades e
imperador e outros lacionados Católica. batalhas. Tam-
magistrados; bata- a membros bém surgiam
lhas travadas pelas da nobreza. folhas volantes
legiões romanas; para dissemi-
eleições e nomea- nar fenômenos
ções para cargos incomuns,
públicos; combate inusitados e
de gladiadores; curiosos.
além de descrições
de julgamentos e
de uma lista dos
executados.

Antiguidade Clássica Idade Média Renascimento –


Idade Moderna

476 1453 1789

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Note que, em todos os formatos de divulgação o gosto da Dona Notícia não diz respeito apenas
de informações, interessava o que dizia respeito a a ela, mas se relaciona com formas de compreen-
pessoas consideradas notórias, isto é, pessoas em der a importância dos acontecimentos que vieram
destaque social, fossem elas o imperador e os co- antes dela.
mandantes romanos, a nobreza ou os líderes po- Concordando com o pesquisador Jorge Pe-
líticos. Foram consideradas importantes por es- dro Sousa, também percebemos que os valores-
ses três formatos as pessoas com autoridade para -notícia têm uma natureza histórica e cultural.
comandar, julgar e criar leis, que se impusessem Assim, os valores-notícia que orientam a sele-
sobre as outras pessoas. Perceba que também in- ção das notícias hoje são herdeiros de concep-
teressavam acontecimentos que envolvessem a so- ções históricas e sociais do que é considerado
ciedade, ou seja, que fossem capazes de impactar válido e importante. Por mais que as notícias
a vida de muitos. continuem se interessando exclusivamente pelo
Nos três períodos, também percebemos inte- que é atual, sua maneira de fazer isso é mais
resse pelo que fosse na direção contrária à norma- antiga do que a nossa sociedade.
lidade ou à ordem estabelecida, como podemos Dona Notícia saiu satisfeita da nossa pequena
observar no destaque dado aos crimes e julgamen- jornada de visitas; segundo ela, estava conectada
tos, bem como às calamidades e ao desrespeito com o próprio passado. Agora não só faz as suas
às normas. Ainda nesse sentido, de se interessar exigências, mas compreende que elas também
pelo que é diferente do habitual, todos os tipos têm história, ou seja, que os gostos são represen-
de publicação voltaram-se também ao que rom- tantes de uma tradição. Ela sentiu que compreen-
pia a normalidade de maneira a entreter, como dia melhor a si mesma.
no combate dos gladiadores, na descrição de rea- Ainda que estivéssemos muito felizes com a
lidades diferentes e no destaque ao inusitado e alegria da nossa amiga, mais algumas questões
curioso. tornaram-se necessárias: tudo bem que existem
Depois de percebermos essas semelhanças razões históricas para os seus gostos, mas de onde
entre o que interessava nesses três períodos, eles vieram, antes de aparecerem nas Actas Diur-
podemos agora comparar o interesse dos ante- nas? Ou, melhor, o que pode explicar o surgimen-
passados da Dona Notícia com os dela. A nossa to e a manutenção desses gostos? E, ainda, o que
tabela de valores-notícia de referência nos dá torna alguma coisa relevante a ponto de entender-
material para perceber que, assim como seus mos que ela deve ser ressaltada, e não esquecida?
antepassados, as notícias atuais também se in- Mais e mais perguntas, e a Dona Notícia
teressam por sujeitos proeminentes, situações não se deixa abater, nem mesmo se chateia. Ela
que destoem da normalidade, ocorrências que aprendeu, ao longo da viagem anterior, que
impactem muitas pessoas ou toda a nação e ain- é bom estar em busca de informações sobre o
da por acontecimentos curiosos e com teor de mundo a nossa volta, pois elas nos dirão muito
entretenimento. sobre nós mesmos. Assim, seguiremos para mais
Ainda que os critérios de cada período car- uma jornada, desta vez em busca de explicações
reguem as suas particularidades, é fácil perceber para a origem dos gostos, antes de terem se tor-
semelhanças e manutenções. Essas repetições do nado história. Passaremos a investigar a essência
que é considerado interessante nos mostram que dos nossos pensamentos.

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Reflexão em pauta

1. Na atualidade, conhecemos as notícias como um produto do processo de produção jornalística,


isto é, como algo que foi produzido por jornalistas no decorrer do seu trabalho. Entretanto, o
termo notícia pode ser utilizado ainda em outro sentido. Sobre essa temática, responda aos itens
abaixo:
a) Diferencie notícia como produto e notícia como novidade, destacando quem as produz.

b) Indique qual das duas notícias pode ser considerada mais velha e justifique sua resposta.

c) Explique a relação de “parentesco” entre as notícias como produto e as notícias como novidade.

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2. O Império Romano pode ser caracterizado como um domínio de grande esplendor. Durante esse
período, as dimensões territoriais chegaram a proporções gigantescas, fazendo com que fosse difí-
cil organizar e manter tudo sob o comando de um único imperador, mesmo que ele comandasse
uma série de generais. Para se fazer a autoridade do imperador estar presente mesmo nos lugares
em que ele não estava, os romanos desenvolveram um conjunto de recursos comunicativos. Um
conjunto de informes, ou atas, era responsável por informar e comandar não só os membros das
legiões romanas, mas também a população. Entre esses recursos informativos, estavam as Actas
Diurnas. Explique o que eram, a quem se destinavam e o que era informado nessas atas.

3. A necessidade de se comunicar faz parte do ser humano, mas as formas como as diversas socieda-
des executaram seus processos comunicativos diferem entre si. Sobre os processos e instrumentos
comunicativos existentes no Império Romano e no período medieval, marque o que for correto.
a) Como os comandos romanos eram responsáveis por territórios muito maiores do que os dos
feudos, em Roma foi desenvolvido um complexo sistema de comunicação, ao passo que na
Idade Média a comunicação era praticamente inexistente.
b) Na história da humanidade, a passagem do tempo sempre trouxe consigo avanços e desen-
volvimentos. Com os processos comunicativos não é diferente, pois, na passagem da cidade-
-Estado romana para o período medieval, houve muitos avanços na forma de disseminar
informações.
c) Existiam muitas diferenças nas formas predominantes de comunicar e de informar as po-
pulações no Império Romano e no período feudal, mas em ambas as sociedades os recursos
comunicativos eram importantes para consolidar identidades e valores sociais.
d) O Império Romano demandava um complexo sistema de comunicação, a fim de coordenar
os variados grupos sociais e territoriais que estavam sob o seu comando. As crônicas e as cartas
eram formatos especialmente importantes para alcançar esse objetivo.
e) Ainda que os processos comunicativos desenvolvidos no período medieval não fossem tão
sofisticados quanto os atuais, seria um erro afirmar que a comunicação não tinha importância
nesse período. Os relatos de viagem, afixados em espaços públicos para serem lidos, são exem-
plos de como a comunicação entre os feudos era importante.

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4. As folhas volantes, comuns no período renascentista, podem ser descritas como antecessoras dos
primeiros jornais. Sobre as características dessas produções, sua circulação e seu conteúdo, mar-
que o que for correto.
a) As folhas volantes podem ser caracterizadas como os primeiros jornais, uma vez que, assim
como as produções atuais, elas divulgavam regularmente informações de interesse da popu-
lação.
b) Uma semelhança importante entre as folhas volantes e os jornais impressos diz respeito à
variedade de notícias e de temáticas que traziam a cada edição.
c) O período de popularização das folhas volantes ocorreu após a invenção da prensa de tipos
móveis do Ocidente. Por esse motivo, só participava da divulgação e distribuição das infor-
mações aqueles que tivessem uma tipografia aos seus serviços.
d) Os conteúdos que interessavam às folhas volantes eram muito distintos dos que interessam
aos jornais na atualidade, o que se deve à grande modificação dos valores-notícia.
e) As folhas volantes surgiam de maneira espontânea na sociedade, isto é, não eram produzidas
por comunicadores dedicados a isso, mas por pessoas que se viam diante de informações que
acreditavam que deveriam divulgar.

5. Segundo o pesquisador Jorge Pedro Sousa, as folhas volantes prepararam um mercado consumi-
dor e um público para o jornalismo industrializado. O autor faz essa afirmação, pois aquelas pu-
blicações eram bem acolhidas pela burguesia urbana, tanto que os analfabetos chegavam a pagar
para que o conteúdo fosse lido para eles. Considerando essa atenção dada às notícias, analise as
proposições.
I) A disponibilidade de realizar pagamentos para se informar é uma característica do período,
que não encontra correspondentes na atualidade.
II) O pagamento para obter informações é um indício de que as pessoas compreendiam a im-
portância de estar a par dos acontecimentos importantes para a região.
III) Na atualidade, nem todas as informações consumidas são compradas diretamente, mas em
todas as formas de produção de informações há modelos de financiamento, pelos quais se
paga pela produção dos conteúdos e pelo trabalho dos jornalistas, por exemplo.
IV) Atualmente, a publicidade é uma forma muito comum de pagar pela produção de notícias.
Por conta dos anúncios, muitas vezes o público não precisa pagar diretamente pela informa-
ção, pois quem paga são grandes empresas, que compram espaços em páginas e no intervalo
de programações com a finalidade de serem vistos pelo público que busca se informar ou
entreter.

Assinale a alternativa correta:


a) Todas as proposições estão corretas.
b) Apenas a proposição II está correta.
c) Está incorreta apenas a proposição IV.
d) Estão corretas apenas as proposições II e III.
e) Estão corretas as proposições II, III e IV.

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Relevância
social e a
notícia
Até agora, a nossa curiosidade nos trouxe co- Os primeiros estudiosos que nos ajudarão a
nhecimentos interessantes. Observando notícias e entender o que faz com que algo seja relevante
pensando sobre situações noticiáveis, aprendemos são dois estadunidenses: Dan Sperber e Deirdre
que não são apenas os jornalistas que conseguem Wilson. Eles desenvolveram uma teoria chamada
separar o que é do que não é noticiável. Vimos Teoria da Relevância. Entre as suas várias ideias,
também que existem critérios (não critérios úni- os autores afirmam que a separação do que é ou
cos e fixos, mas saberes que ajudam a identificar não relevante não é só uma questão de gosto, mas,
o que é interessante) e que eles possuem antece- muito antes disso, uma questão de sobrevivência.
dentes históricos. Nossa forma de entender o que O que eles querem dizer é que todos nós, se-
é importante não é exclusivamente nossa, ela é res humanos, possuímos uma capacidade de se-
influenciada pela história e pela sociedade. parar o que é ou o que não é relevante e que essa
Mesmo que todo esse conhecimento tenha capacidade foi essencial para que a nossa espécie
nos levado adiante em relação ao nosso ponto sobrevivesse, afinal de contas não somos tão rá-
de partida, ainda podemos ir além. O muito que pidos, tão fortes ou tão ferozes quanto outros
aprendemos não nos esclareceu, por exemplo, o animais. O que nós sabemos (e que é, segun-
que torna algum acontecimento relevante. Então, do eles, nossa grande qualidade) é prestar mais
é preciso fazer duas perguntas: o que faz com que atenção e nos dedicar mais ao que é relevante e
algo seja pertinente? O que é relevante para mim menos ao que não é.
é igualmente para você? Assim, para eles, em primeiro lugar, a rele-
Para responder a essas perguntas, Dona No- vância está ligada à necessidade de sobreviver.
tícia arrumou as malas, pois estava pronta para Esta faz com que alguns acontecimentos sejam
fazer outras viagens no tempo e no espaço, tudo considerados relevantes por todos, sem grandes
para obter mais conhecimento sobre suas prá- variações.
ticas. Mas logo foi possível perceber que, desta Pense na seguinte situação, você e seus co-
vez, não seria preciso sair do lugar. Com o auxí- legas de classe estão em uma sala, aguardando
lio de alguns pensadores, passaremos a investigar pelo transporte escolar que os levaria para casa.
a essência dos nossos pensamentos, de forma que Todos estão um pouco cansados, depois de um
as respostas poderão ser encontradas aqui mes- dia inteiro de atividades escolares. A maior parte
mo, onde estamos. pensa no que fará quando chegar em casa, alguns

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conversam com os amigos mais lia que farão no fim de semana, deve ser selecionado, mesmo
próximos, mas todos, sem exce- conversam sobre como apro- aqueles anteriores à existência
ção, estão um tanto distraídos. veitarão a praia, as brincadeiras do jornalismo, costumam privi-
Impaciente, você resolve ouvir com os primos e as comidas que legiar acontecimentos ligados ao
um pouco de música para pas- a sua avó sempre leva para esses perigo. A morte, as situações de
sar tempo, no entanto, perce- encontros. violência e o risco são temas que
bendo que o celular está descar- Estão todos atentos aos deta- estão sempre entre os de maior
regado, procura um carregador lhes da viagem e todos julgam interesse, seja para produzir as
e o conecta à primeira tomada que planejá-la é relevante, mas, notícias, seja para produzir as
que avista. Nesse momento, um de uma hora para outra, ocorre ancestrais dela.
estalo alto foi ouvido em toda um acidente entre dois carros Você deve se lembrar do de-
a sala, o carregador ficou escu- que estavam bem à frente do de sastre ecológico de Mariana, em
ro e um cheiro de queimado se vocês. Por estar dirigindo muito Minas Gerais, de que tratamos
espalhou. Todas as atenções, an- atentamente, sua mãe consegue anteriormente. Diante dele,
tes voltadas para os interesses de evitar que vocês se acidentem como dissemos, parecia óbvio
cada um, direcionaram-se para também, porém não é possível que o assunto deveria se trans-
a tomada. evitar o susto. Foi preciso des- formar em notícia. Além dos
Nenhum dos seus colegas, viar do acidente e sair da pis- valores-notícia que identifica-
nem os que conversavam, nem ta, além de ter de frear o carro mos antes, podemos relacionar
os que planejavam o futuro bruscamente. Ao mesmo tem- a temática com questões de pe-
próximo, muito menos você, po, a batida entre os dois car- rigo e risco à sobrevivência, que
deixaram de focar no pequeno ros gerou gritos dos envolvidos, explicam porque é tão inevitável
acidente elétrico, alguns chega- correria e muito barulho. considerar esse tema relevante.
ram até a se levantar da cadeira Não só vocês, mas todos os Assim como os riscos de
em que estavam e se direcionar que passavam interromperam, contaminação, as epidemias, as
para a porta. Retomando a ideia momentaneamente, sua roti- guerras ou os conflitos violentos
dos nossos autores, podemos na para dar atenção ao aciden- são situações da atualidade que
afirmar que, nessa situação, to- te. Também essa situação se continuam sendo notícia inevi-
dos julgaram o acontecimento assemelha ao pensamento de tavelmente, uma vez que se re-
como relevante e direcionaram Sperber e Wilson, de que consi- lacionam com a necessidade de
a atenção para ele por reconhe- deraremos relevante, de imedia- prestar atenção ao que pode ser
cerem, quase que por instinto, to, qualquer ocorrência que pa- perigoso, o que pode colocar a
que aquela situação poderia co- reça representar risco à vida ou nossa vida ou a nossa saúde em
locá-los em perigo. ao nosso bem-estar. Em outras risco. Da mesma forma, as ten-
Para clarear ainda mais, va- palavras, para eles, tudo o que é tativas de prevenir um perigo,
mos pensar em outro exemplo. perigoso e que possa gerar dano como a descoberta de uma vaci-
Desta vez, você já está voltan- é necessariamente relevante. na, o fim de um conflito violen-
do para casa, no carro da sua Nesse momento, Dona No- to ou um controle de substâncias
família, com a sua mãe, que tícia interrompe a explicação tóxicas vazadas, também são no-
dirige, e com seus dois irmãos, para compartilhar uma desco- tícias inevitáveis, uma vez que
que estudam na mesma escola. berta. Ela destaca, com razão, continuam se relacionando com
Vocês todos estão concentrados que os critérios que ajudam a essa proteção à vida e com a ne-
discutindo um passeio em famí- separar o que deve e o que não cessidade de sermos cuidadosos.

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Sabemos, por ora, com auxí- expressões são indícios de que, do aprendemos que os gostos
lio da Teoria da Relevância e da na atualidade, passamos a cha- dela eram semelhantes aos dos
observação dos nossos próprios mar de essencial e necessário o seus antepassados.
pensamentos, que aquilo que é que, na verdade, é apenas com- Além dos nossos antepassa-
perigoso é necessariamente re- patível com os nossos interesses dos, como os nossos pais e os
levante. Mas devemos admitir particulares, a fim de reforçar a nossos avós, o mundo à nossa
que, por mais que os riscos se- importância de algo para nós. volta também nos influencia.
jam imprevisíveis e possam nos Note que agora paramos de Vamos às evidências. Se você
atingir a qualquer momento, falar de situações que atingem a gosta muito de esportes, é pos-
não é todo dia que a nossa vida todos e passamos a nos importar sível que entre as suas práticas
entra em perigo. Na verdade, conosco, com os nossos gostos favoritas estejam o futebol e o
é comum que passemos muito e particularidades. Nesse ponto, voleibol, por exemplo, e não é
tempo sem entrar em contato a relevância deixa de se referir por acaso que esses são dois es-
com uma situação efetiva de pe- a algo que atinge a todos igual- portes especialmente populares
rigo e que grandes riscos sejam mente (somos todos guiados no Brasil. Por outro lado, difi-
circunstâncias atípicas. por uma necessidade comum de cilmente o rúgbi ou o críquete
Nessas situações, a avaliação sobreviver) e passa a incluir dife- estariam entre as suas modali-
de relevância continua aconte- renças. Em situações em que não dades favoritas ou entre aquelas
cendo, mas ela passa a se guiar há ameaças à nossa sobrevivên- em que você é mais habilidoso
por outros parâmetros, além da cia, utilizamos avaliações de rele- ou habilidosa. Na verdade, é até
sobrevivência. Em todo caso, vância particulares para priorizar possível que você nem saiba que
é interessante notar que, na o que é mais importante para esportes são esses.
nossa vida cotidiana, em que nós, e essa prioridade pode ser Antes de explicar aonde que-
não há grandes riscos e peri- diferente da dos outros. remos chegar, vamos a outro
gos ocorrendo a cada instante, Talvez essa afirmação lhe pa- exemplo. Pense agora em co-
continuamos usando expressões reça óbvia, já que é bem visível midas que você considere mui-
como “Eu não vivo sem isso”, que as pessoas têm gostos dife- to gostosas. Talvez você goste
“Eu preciso disso para viver” ou rentes. O que algumas vezes é muito de feijoada e ache que
“Como alguém consegue viver difícil de admitir é que as nossas brigadeiro é um dos doces mais
sem isso?” para falar de bens ou preferências não são exclusiva- incríveis que existem. Se você
práticas muito banais, como um mente nossas. Quem pode nos concordar com isso, você será
celular, uma comida favorita ou ajudar a entender isso é o nosso mais um entre muitos brasilei-
um programa de televisão que segundo estudioso de referên- ros que apreciam esses alimen-
apreciamos. cia, um sociólogo alemão cha- tos. Por sua vez, seria bastante
Quando alguém diz que não mado Alfred Schutz. surpreendente se você pensasse
vive sem celular, por exemplo, Quando afirma que as nos- que uma comida deliciosa é o
nós sabemos que esta não é sas preferências não são exclu- kholodets, um tipo de gelatina
uma afirmação literal, ou seja, sivamente nossas, Schutz quer de carne e legumes.
não quer dizer que a pessoa vai dizer que a sociedade influencia Provavelmente você não só
realmente morrer se ficar sem a formação dos nossos gostos. não listou o kholodets como uma
o aparelho, mas, sim, que ela A verdade é que já falamos um das suas comidas favoritas, mas
considera o celular como um pouco sobre isso na nossa via- também achou muito estranho
objeto muito importante. Essas gem com Dona Notícia, quan- que alguém goste disso: “Onde

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já se viu uma gelatina com carne?!”. A verdade, porque precisa fazer uma pergunta: “O que a for-
entretanto, é que o prato é muito popular na Rús- mação dos gostos tem a ver com as notícias?”. A
sia, onde talvez a nossa feijoada é que pareça um resposta para essa pergunta não poderia ser outra:
prato estranho. tudo a ver!
O que queremos dizer com esses exemplos é que, Agora vamos explicar: as notícias estão sempre
mesmo sendo construídos por nós, os nossos gostos comprometidas com a relevância. Estamos falan-
não estão desvinculados do mundo à nossa volta. do, desde o nosso começo de conversa, que não
Usando as palavras de Schutz, podemos dizer que são todos os assuntos que devem ser selecionados e
nascemos em um mundo já organizado, que nos transformados em notícias, não é tudo que agrada
ensina muito. Quando nascemos, somos expostos a a nossa amiga exigente. O que deve ser selecionado,
uma sociedade em que já existem definições, como em poucas palavras, são os fatos e acontecimentos
o que é considerado uma comida gostosa, o que é que possuem relevância para a população.
um esporte legal e o que é ou não estranho. As empresas jornalísticas não podem ignorar a
Certamente podemos escolher: nem todos os relevância, isto é, não podem deixar de produzir
brasileiros gostam de feijoada ou de futebol. Tam- conteúdo sobre o que desperta interesse, o que é
bém podemos nos acostumar e apreciar o que em essencial saber e o que gera efeitos positivos. Isso
outros momentos nos pareceu estranho, mas nos- faz com que a notícia tenha de lidar com três tipos
sas escolhas dependem do que nos foi apresenta- de informações relevantes.
do. É por esse motivo que podemos afirmar que O primeiro deles diz respeito ao que é ine-
os nossos gostos, mesmo sendo diferentes uns dos vitavelmente relevante, já que se liga a questões
outros, não são totalmente independentes, eles de sobrevivência. Querendo ou não, os veículos
partem de uma base comum, aquilo que está na de comunicação não podem deixar de falar so-
nossa cultura antes de nós. bre essas temáticas, assim como nós não podemos
Nesse ponto, Dona Notícia nos interrompe deixar de ficar atentos ao que é perigoso ou arris-
mais uma vez, não porque não concorde, mas cado. Chamaremos essa relevância de relevância

Escaneie o QR CODE

Os programas de imunização foram fundamentais para erradicar algumas


doenças fatais. Na imagem, a queda da cobertura vacinal, suas causas e surtos
de doenças associados a essa queda são noticiados pela BBC Brasil.

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imperativa.
Por esse motivo, sempre se-
rão notícias: epidemias, guerras,
violência, mortes e várias outras
situações em que estejam envol-
vidos riscos a que uma grande
quantidade de pessoas está ex-
posta. Pelo mesmo motivo, de-
vem ser notícias as informações
que ajudem as pessoas a se pre-
venirem quanto aos riscos, sendo
essas denominadas notícias de
O Carnaval de Olinda é um dos grandes eventos populares do Brasil e
serviço. Considerando que nem atrai olhares e turistas de todo o mundo. Na matéria do portal G1, o
sempre as notícias de serviço se tema do festejo em 2018 é anunciado: uma homenagem aos bonecos
impõem, como fazem os riscos, gigantes, uma manifestação cultural consagrada no Carnaval olindense.
e que muitos desconhecem que
há caminhos preventivos a serem
apreendidos, muitas vezes as in-
formações com o intuito de pre-
venir são tratadas como menos Escaneie o QR CODE
importantes do que aquelas que
já geraram danos e prejuízos.
Em seguida, há as notícias
que são relevantes não por trata-
rem de situações que constituem
perigo à vida e à saúde, mas por
serem compatíveis com a reali- ressantes para a maioria. Chamaremos essa forma de despertar inte-
dade social que nós todos com- resse de relevância tradicional.
partilhamos. Dissemos a pouco Para estimular esse tipo de relevância, as notícias partem de um
que os nossos gostos são cons- sistema de referências que já é familiar, ou seja, tratam como impor-
truídos a partir de uma realidade tante aquilo que já é assim considerado pela sociedade. Nesse sentido,
comum. Pois bem, essa realidade a notícia é um importante instrumento de reafirmação da realidade
comum é uma referência impor- vigente, ou seja, um recurso importante para garantir a manutenção
tantíssima para a notícia. e a continuidade dos modos de ser de uma sociedade.
Como as informações jor- Quando uma série de notícias informa sobre um campeonato de
nalísticas precisam despertar futebol, por exemplo, ela não só se apoia nessa realidade compar-
interesses em uma grande quan- tilhada, que ensinou à maior parte dos brasileiros ser o futebol um
tidade de pessoas, partir dessa esporte que caracteriza a nação e que é importante e interessante,
realidade compartilhada é uma mas também reafirmam essas percepções. Por estarem as socieda-
boa estratégia, pois dessa forma des em constante modificação, uma característica poderia deixar
é mais fácil atingir assuntos que de existir se não fosse reafirmada com frequência. A prova disso são
são, mesmo que com algumas alguns costumes e tradições que vão perdendo a popularidade por
diferenças de percepção, inte- não serem mais praticados pelos mais jovens.

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Por fim, há o terceiro tipo de relação das notí- mar a atenção para algo que a população deveria
cias com a relevância, este muito menos comum priorizar, mas que não o faz por não compreender
do que os dois anteriores. Concebendo que a rea- sua importância. Nessa relação com a relevância,
lidade social está em constante transformação, as diferente da anterior, as notícias não reforçariam
notícias também podem despertar relevância des- o que já existe, e sim educariam para a mudan-
tacando algo que tem a capacidade de gerar um ça. De maneira prática, essa relevância faria com
efeito para a população, embora não seja nada di- que se consolidassem novos valores-notícia, isto é,
retamente direcionado à sobrevivência nem pos- novos indicadores do que é importante e do que
sua uma relação com a tradição. deve receber atenção. Chamaremos esse tipo de
O que as notícias fariam, nesse caso, é cha- relevância de relevância para o futuro.

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Em matéria do El País Brasil, a opção pela bicicleta para realizar


os deslocamentos é apontada como algo que traz benefícios para
o meio ambiente, a saúde e as finanças pessoais.

Para alguns estudiosos da atualidade, que alguns motivos, dentre os quais destacaremos dois:
compreendem o papel fundamental dos meios há primordialmente uma busca dos veículos de co-
de comunicação para a organização da socieda- municação por segurança. É preciso deixar claro que
de, o compromisso com a mudança e, portanto, o a relevância para o futuro é um investimento a longo
uso da nossa relevância para o futuro devem ser o prazo e que pode encontrar resistência no público
objetivo fundamental da mídia, uma vez que ne- do jornal. Em seguida, mas não menos importante,
nhuma instituição da atualidade é mais capaz do há o fato de as empresas jornalísticas serem condu-
que ela de organizar discussões e dar espaço para zidas, muitas vezes, por outros interesses, além do
uma diversidade de pontos de vista. desejo de despertar relevância e de estimular trans-
Entretanto, por uma série de motivos, essa forma formações positivas na sociedade.
de despertar relevância, como já dissemos, é a menos Ao mesmo tempo que são representantes de
comum das três. Essa pequena inovação se deve a uma instituição social cuja função é intermediar

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a relação entre informações re-

emka74/Shutterstock.com
levantes e um público que pre-
cisa dessas informações, os veí-
culos de comunicação, em sua
maioria, também são empresas e
possuem uma série de interesses
econômicos, como o de alcançar
lucros, de superar a concorrência
e de agradar aos seus donos.
Quando os veículos de co-
municação priorizam as suas
necessidades empresariais e per-
cebem os seus receptores como
_____________
consumidores, e não como Há anos as propagandas ocupam páginas das revistas de entretenimento. Estas,
cidadãos, é comum que a rele- por ditarem certos comportamentos da sociedade, veiculam marcas que estejam
associadas a um modo de vida, como essa propaganda da Coca-Cola na revista
vância seja deixada de lado. Isso
norte-americana Life ("coca-cola traz refrescância em todo o mundo") em 1948.
acontece a fim de não compro-
meter um investimento ou os tes: a prefeitura da cidade e uma ga outros meios para se manter.
interesses dos donos do veículo rede de supermercados local. Os Em situações de conflito
de comunicação. donos do jornal sabem que esses como essa, é possível que a cla-
Para deixar essa afirmação anúncios são fundamentais para ra relevância jornalística não seja
mais clara, pense em um jor- pagar os funcionários, comprar suficiente para fazer com que um
nal de pequeno porte dedicado matéria-prima, pagar todos os acontecimento vire notícia. A si-
a transmitir informações sobre custos da produção de notícias e tuação se torna possível, entre
uma cidade não muito grande. para gerar lucros, em outras pa- outros motivos, pela ausência de
Tal jornal, ainda que tenha uma lavras, eles compreendem que o outros veículos de comunicação
circulação razoável, não conse- funcionamento de sua empresa (que poderiam ter outros anun-
gue pagar todos os seus custos jornalística depende dos recur- ciantes e não se intimidarem em
com a venda das edições aos assi- sos desses anunciantes. produzir a notícia), pela falta de
nantes e aos consumidores espo- Diante desse cenário, ima- transparência ligada ao trabalho
rádicos. Na verdade, o dinheiro gine que um repórter do jornal jornalístico e pela grande depen-
vindo da venda é uma porção descobre um esquema de desvio dência dos meios de comunica-
bem pequena do que o veículo de verbas na prefeitura ou apu- ção como forma de conhecer o
de comunicação arrecada. ra que a rede de supermercados que se passa.
Para manter-se, a equipe co- falsifica a data de vencimento Outras situações de conflito
mercial do jornal precisa vender dos produtos, colocando a po- entre os interesses comerciais de
espaço publicitário, isto é, preci- pulação em risco. Nas duas si- um veículo de comunicação e os
sa oferecer espaços para empre- tuações, há motivos de sobra interesses informativos do pú-
sas ou entidades públicas que para produzir notícias, mas blico podem ocorrer. Imagine
desejem divulgar seus produtos, também há os interesses comer- um país que possui poucas em-
serviços e atuações, em troca de ciais dos donos do jornal e o seu presas de comunicação capazes
dinheiro. No caso desse jornal, temor de que, contrariando seus de alcançar toda a nação dian-
são dois os principais anuncian- anunciantes, o jornal não consi- te de uma corrida eleitoral. As

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poucas empresas, por meio dos seus donos, po- da discussão de ideias e que todas as opções sejam
dem escolher os candidatos que são mais compa- exibidas, com a mesma intensidade, aos eleitores.
tíveis com os seus interesses e passar a dar menos Por motivos como esses, estudiosos compreen-
atenção para os demais. Eles podem, por exem- dem que a existência de monopólios de comuni-
plo, realizar debates e não incluir alguns dos can- cação é um risco à democracia.
didatos, com a justificativa de selecionar apenas A proibição aos monopólios de mídia também
os mais populares, porém é justamente o espaço é uma exigência da Constituição Federal Brasi-
nos grandes veículos que garante a popularidade leira, de acordo com o artigo 220, que trata da
e, sem ele, os candidatos desconhecidos permane- comunicação social, e, especificamente, segundo
cerão desconhecidos, assim como as suas ideias. o parágrafo quinto, “Os meios de comunicação
Em um cenário como esse citado, o privilé- social não podem, direta ou indiretamente, ser
gio dos interesses empresariais sobre os interesses objeto de monopólio ou oligopólio”. O problema
informativos não só atrapalha a candidatura dos é que a Constituição, quando foi escrita, deixou
políticos desconhecidos, como, muito além disso, a aplicação da proibição e o seu funcionamento
prejudica a efetivação da democracia, pois impede para serem detalhados em leis posteriores. Como
que a corrida eleitoral seja conduzida em função essas leis nunca foram escritas, essa ordem nunca
foi cobrada efetivamente.

cimento, mas cada um enfocar aspectos distin-


Monopólio e oligopólio:
tos dele ou contextualizar de formas diferentes.
por que são tão perigosos Essa diferença é fundamental para que os ci-
à comunicação? dadãos tenham acesso a uma riqueza maior de
Quando uma empresa de determinado se- informações e perspectivas. Quando esse mer-
tor atua sozinha, ou seja, não possui concor- cado é dominado por uma ou um grupo peque-
rentes, essa situação é chamada de monopólio. no de empresas, essa diversidade fica seriamente
Sendo essa empresa a única a ofertar produtos ameaçada, pois a decisão sobre o que e como
ou serviços naquele setor, ela atua de forma será noticiado depende dos interesses de quem
privilegiada, podendo, inclusive, praticar pre- noticia; e, sendo um ou poucos prestando esse
ços muito elevados. Já o oligopólio acontece serviço, ficamos dependentes de uma visão de
quando existe um grupo pequeno de empresas mundo mais estrita.
que domina esse mercado, cada uma detendo Carente de
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uma fatia enorme dele. inovações,
jornalismo
No mercado de serviços de comunicação, a local precisa se
propriedade das empresas encarregadas de pro- modernizar para
sobreviver
duzir e fazer circular informações é um aspecto
que merece bastante atenção. Isso porque os
acontecimentos analisados e noticiados podem
ser vistos sob diversos pontos de vista e contex-
tos: aquilo que um jornal pode achar relevante
pode não parecer relevante para outro, ou então
dois jornais podem noticiar o mesmo aconte-

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E o resultado disso é que, no Brasil, apenas compromisso dos meios de comunicação com a
cinco famílias controlam mais da metade de to- relevância social seja abandonado e, em conse-
dos os veículos de comunicação de maior audiên- quência disso, a população não tenha acesso às
cia. Os dados são da pesquisa Monitoramento da informações mais relevantes e mais necessárias
Propriedade da Mídia, um projeto do Ministério para exercer a sua cidadania.
de Cooperação Econômica e Desenvolvimento Por outro lado, o crescimento de novas plata-
da Alemanha interessado em fazer um diagnós- formas de compartilhamento de informações tem
tico, bem como em estimular a transparência e a um interessante potencial, embora também muitos
pluralidade da mídia ao redor do mundo. riscos. Hoje, tornou-se muito mais fácil produzir e
A pesquisa constrói dez indicadores de risco à compartilhar conteúdo e, para isso, não é necessá-
pluralidade, isto é, itens nos quais é avaliado em ria uma grande estrutura empresarial: mesmo com
que medida a concentração da propriedade da um dispositivo móvel, é possível criar e dissemi-
mídia impede que se tenha uma comunicação nar notícias. Isso significa que um blog ou mesmo
diversa e múltipla, capaz de representar os dife- um perfil em redes sociais pode ser um importante
rentes setores da sociedade. Dentre os dez indi- aliado da Dona Notícia, mas também pode com-
cadores, segundo a pesquisa, há altos riscos para prometer sua integridade. Se por um lado essa faci-
a diversidade da informação brasileira em seis. lidade permite trazer ao conhecimento do público
O que esses dados apontam, de maneira resumi- temas que não são considerados relevantes para os
da, é que, embora os veículos de comunicação brasi- grandes veículos de comunicação, estimulando no-
leiros cheguem aos lugares mais distantes, são poucas vos debates, também pode tornar Dona Notícia re-
as vozes e os interesses que os comandam. Com isso, fém de “boatos”, as famosas fake news: informações
há uma redução do espaço de debate, e principal- que trazem inverdades, meias-verdades, ou mesmo
mente a impossibilidade de um debate qualificado, verdades descontextualizadas, levando o público a
já que várias vozes deixam de ser ouvidas. formar uma opinião sem recursos suficientes para
A manutenção desse cenário permite que o isso, muitas vezes de forma equivocada.

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Em 2017, uma notícia falsa elaborada por um site de humor tomou proporções muito maiores que o esperado. O
Joselito Müller utilizou o fato da prisão de Sérgio Cabral para criar uma história de “ironia do destino” com base num
vídeo que viralizou em 2009. Nesse vídeo, um menino, morador de Manguinhos, no Rio de Janeiro, foi hostilizado
pelo ex-governador enquanto este passava em sua rua. Assim, o humorista elaborou uma fake news em que o
menino, Leandro, teria se tornado agente penitenciário de Bangu, onde Cabral está preso. O tom humorado passou
desapercebido, e a notícia se espalhou por Manguinhos como verdadeira. Leandro, então, passou a ter medo de ser
perseguido por bandidos até a história finalmente ser esclarecida.

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Reflexão em pauta

1. Para os teóricos Dan Sperber e Deirdre Wilson, a capacidade de avaliar relevância é uma vanta-
gem e uma necessidade da humanidade, uma vez que por meio dela é possível focalizar o que é
mais importante e urgente. Continuando nesse raciocínio, eles dão a entender que, antes de ser
uma questão de gosto, a relevância é uma questão de garantia da sobrevivência. A partir dessas
ideias, explique por que notícias sobre situações perigosas são sempre relevantes.

2. Segundo o sociólogo Alfred Schutz, o indivíduo e a sociedade são complementares, pois todas as
individualidades se formam a partir da realidade social e a sociedade só existe graças aos indiví-
duos e ao seu compartilhamento de crenças, ideias, valores e sentimentos. As ideias desse autor
nos ajudam a entender porque, mesmo que não haja uma pessoa exatamente igual à outra, é
comum que indivíduos e grupos compartilhem gostos.
Pensando na produção de notícias, explique porque esse compartilhamento é importante para
veículos de comunicação que precisam atender a grupos grandes e variados.

3. Sobre a separação entre relevância imperativa, relevância tradicional e relevância para o futuro,
marque o que for correto:
a) Os três tipos de relevância referem-se a gostos que são compartilhados de maneira muito
parecida por toda a população. Sendo fiéis a eles, os meios de comunicação de massa têm
garantia de que agradarão da mesma forma todos os membros do público.
b) Independentemente do tipo de relevância a que façamos referência, é necessário esclarecer
que a relevância sempre se relaciona com as pessoas. Por esse motivo, e considerando que as
pessoas são diferentes, o que é relevante sempre depende dos gostos de cada um.

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c) A relevância envolve tanto o compartilhamento de saberes e necessidades quanto os gostos
individuais. Nesse sentido, é possível indicar que a relevância imperativa e a relevância tra-
dicional tratam da coletividade, enquanto a relevância para o futuro diz respeito aos gostos
pessoais de cada um.
d) A relevância imperativa é a que atinge as pessoas de maneira mais semelhante, pois ela se
refere à necessidade, que vai além dos gostos. Por sua vez, as relevâncias tradicional e para o
futuro podem ser compreendidas como mais ou menos importantes, a depender da pessoa.
e) Enquanto a relevância tradicional se baseia em saberes que já existem e que são usados para
a construção da realidade, a relevância para o futuro é uma tentativa de impor uma visão de
mundo particular para a coletividade.

4. Ainda que seja essencial compreender os processos pelos quais um meio de comunicação separa
o que merece ou não ser transformado em notícia, ou seja, ainda que seja fundamental entender
os valores-notícia e a sua definição do que é relevante, esses saberes podem ser postos em segundo
plano por um conjunto de interesses empresariais. Isso porque, ao mesmo tempo que os veículos
de comunicação de massa são representantes de uma instituição social com um papel a cumprir, a
fim de garantir a democracia, eles também costumam ser empresas, movidos por outros interesses.
Sobre o conflito de interesses envolvendo as empresas jornalísticas e o direito de todo cidadão a
informar e a estar informado, assinale a alternativa incorreta:
a) O mal usufruto do direito à informação pode comprometer o acesso a outros direitos. Sem
conhecer o seu direito à moradia, por exemplo, cidadãos podem deixar de reivindicá-lo,
quando descumprido. Da mesma forma, sem o adequado acesso à informação, os cidadãos
podem ter comprometidos o seu direito de participar ativamente da vida pública.
b) Na atualidade, o direito à informação é particularmente essencial, uma vez que todos os dias
são tomadas decisões que, mesmo estando geograficamente afastadas dos indivíduos, inter-
ferem diretamente na vida deles. Os meios de comunicação funcionam, nesse cenário, como
um importante intermediário entre acontecimentos e um público que precisa saber dele.
c) Interesses empresariais dos donos de veículos de comunicação devem ser desconsiderados,
pois muito mais importantes do que eles é o direito à informação. Por isso, o ideal é que o
Poder Público (Federação, estado e município) seja o único responsável pela transmissão de
informações, excluindo as empresas privadas.
d) O conflito entre os interesses dos empresários de comunicação e o direito à informação en-
volve lados em situações desiguais. Enquanto os interesses dos empresários são privilégios
usufruídos por poucos, o direito à informação é uma garantia que deve atingir a todos, dos
mais ricos aos mais pobres.
e) Ainda que o direito à informação seja um bem essencial para sociedades democráticas, o con-
flito entre tal direito e os interesses dos empresários de comunicação não pode ser resolvido
simplesmente desconsiderando as empresas, uma vez que elas também têm um importante
papel a cumprir a fim de se adquirir um sistema midiático equilibrado.

5. A censura direta não é o único obstáculo capaz de comprometer uma atuação adequada dos
meios de comunicação. A falta de uma regulação dos direitos do público, visto como um con-
junto de cidadãos que precisam se informar para exercer plenamente a sua cidadania, também
compromete o sistema midiático do País.

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A respeito do não cumprimento de obrigações pelo Estado e pelo mercado de comunicação, há
um conjunto de requisitos que, embora dispostos na Constituição Federal, não são cobrados dos
veículos por falta de uma legislação específica. Isso faz com que os veículos deixem de cumprir
adequadamente o seu papel e com que o Estado não atue como um garantidor do interesse pú-
blico. Entre os requisitos listados mais descumpridos, estão:
“Proibição de monopólios e oligopólios nos meios de comunicação (artigo 220, parágrafo 5).
Preservação das finalidades educativas, culturais e informativas.
Proteção à cultura regional através da garantia de regionalização da produção.
Estímulo à produção independente (artigo 221).
Criação dos três modos complementares de exploração (privado, estatal e público) (artigo 223).”
BOLAÑO, Cesar Ricardo Siqueira. Qual a lógica das políticas de comunicação no Brasil?. São Paulo: Editora Paulus, 2014.

A partir das informações presentes no trecho e no enunciado, bem como dos seus conhecimentos
sobre a questão, analise as alternativas a seguir:
I) A determinação constitucional de que as emissoras de rádio e televisão devem priorizar fi-
nalidades “educativas, culturais e informativas”, conforme disposto no artigo 221, pode ser
compreendida como uma espécie de censura a outras temáticas.
II) A proibição de monopólios e oligopólios está, de fato, longe de ser cumprida, entretanto há
muitos avanços na regionalização e no estímulo a produções independentes. As duas moda-
lidades têm encontrado amplo espaço nas emissoras de rádio e televisão do País.
III) O poder executivo, aquele que possui a atribuição de governar conforme a constituição, é
responsável, entre outros, por observar o princípio da complementaridade do sistema mi-
diático, que deve ser composto de veículos privados, públicos e estatais. Na prática, não há
muita diferença entre veículos públicos e estatais, uma vez que ambos devem ser comanda-
dos por lideranças escolhidas pelos governantes eleitos.
Após leitura cuidadosa, assinale a alternativa correta:
a) Está correta apenas a proposição I.
b) Estão corretas apenas as proposições I e III.
c) Todas as proposições estão corretas.
d) Está correta apenas a proposição III.
e) Nenhuma alternativa está correta.

6. Analise as manchetes abaixo e classifique-as quanto ao tipo de relevância, assinalando A (para


relevância imperativa), B (para relevância tradicional) ou C (para relevância para o futuro).
a) ( ) Brasil perde para a Bélgica e está fora da Copa do Mundo [...] A seleção brasileira criou
chances, pressionou o adversário, mas perdeu muitos gols e sofreu com 20 minutos muito ruins
no primeiro tempo, quando a Bélgica fez dois gols. (Agência Brasil, jul. 2018)
b) ( ) Prédio desaba após incêndio no centro de São Paulo Cerca de 150 famílias ocupavam
o edifício, no Largo do Paissandu. Uma pessoa está desaparecida (El País, maio 2018)
c) ( ) Por que o uso de canudos está se tornando um problema global? Geralmente feito de plás-
tico, o artefato é apontado como um dos grandes poluentes globais. (Nexo Jornal, jun. 2016)
d) ( ) Lady Gaga cancela show no Rock in Rio: “Estou devastada”, posta cantora Cantora
alegou fortes dores devido à fibromialgia. (G1, set. 2017)
e) ( ) Surto de febre amarela já é o mais mortal desde 1980. E agora? O número de casos e
óbitos superou o do surto anterior — o que devemos fazer para evitar o avanço da febre ama-
rela? (Saúde, mar. 2018)
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Checagem de fatos:
um novo nicho no
jornalismo

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O fim e o
recomeço

igorstevanovic/Shutterstock.com

A jornada foi longa. Começamos refletindo siderava interessante. Para isso, contamos com o
sobre acontecimentos com maior ou menor po- auxílio dos valores-notícia e descobrimos que es-
tencial para serem transformados em notícia, as- ses critérios podem ser conhecidos por todos nós
sunto que, embora esteja sempre em volta de to- e podem ser usados para avaliar a maior ou menor
dos nós, é pensado por poucos. Mas fomos além, importância de acontecimentos. Com a ajuda de-
muito além, conhecemos a notícia em pessoa, les, deparamo-nos com os acontecimentos e, as-
uma senhora que já exerce a função de informar sim como fazem os jornalistas, analisamos a sua
há muitos anos, mas sem perder, com o passar noticiabilidade.
do tempo, seu interesse pelo que é novo, rápido e Ainda assim, nossa jornada estava só come-
interessante para a população. çando. Arrumamos as nossas malas e fomos in-
Depois desse encontro, descobrimos mais vestigar em diferentes tempos e sociedades de
perguntas. Tentamos entender de maneira orga- onde teriam vindo os critérios para selecionar as
nizada os gostos da Dona Notícia, o que ela con- notícias. No passado, encontramos os ancestrais

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da nossa amiga, Dona Notícia. levância imperativa, que vem do
Conhecemos as Actas Diurnas, nosso instinto de sobrevivência e
muito importantes no Império da nossa consequente necessidade
Romano, assim como os relatos de nos preservar, diante de poten-
de viagem, as crônicas e cartas, ciais perigos para nossa saúde e se-
do período medieval. Por fim, gurança. As notícias que despertam
conhecemos, no período renas- relevância dessa forma são aquelas
centista, um parente ainda mais consideradas inevitáveis, as que se-
próximo, as folhas volantes, já riam notícia independentemente
bastante parecidas com Dona da sociedade e do momento histó-
Notícia e preparando todo o rico.
ambiente para o surgimento dos Em seguida, sintetizamos a no-
primeiros jornais. ção de relevância tradicional. Esta,
Nessa viagem, descobrimos por sua vez, diz respeito a noções
que os critérios para a seleção de relevância que estão na socie-
do que importa hoje não são tão dade antes do nosso nascimento
distintos daqueles do passado, e que nos são ensinadas no nosso
tornando claro que a nossa per- processo de socialização. Esses sa-
cepção do que é importante tem beres são a base para a construção
história. Mesmo sem conhecer das individualidades e dos nossos
muito bem os seus antepassa- gostos pessoais. Para a produção
dos, de quem tinha se esque- de uma comunicação de massa, a
cido, Dona Notícia preservava existência de uma base de identi-
prioridades muito anteriores à dade comum é muito útil, pois ela
invenção da prensa de tipos mó- pode funcionar como uma forma
veis do Ocidente e muito ante- de aproximação, mesmo entre pes-
rior ao surgimento dos jornais. soas e grupos muito diferentes.
Depois desses saberes, ain- A vantagem da relevância tra-
da nos restava questionar a re- dicional, para o jornalismo, é que,
levância atribuída pela nossa ao repetir um valor já existente, já
mente, quando, diante de di- compartilhado, ela torna mais fácil
versos acontecimentos, presta- acertar e agradar a muitos. A des-
mos mais atenção a um do que vantagem, por outro lado, é que,
a outros. Nesse ponto, conhece- ao acionar a relevância pela tradi-
mos a Teoria da Relevância de ção, há um reforço da realidade as-
Sperber e Wilson e as reflexões sim como ela é, de forma que essa
sobre a formação dos gostos relevância não é muito capaz de es-
individuais de Alfred Schutz. timular mudanças.
Das várias ideias que coletamos, Quem faz isso é a relevância
passamos a falar em três formas para o futuro, nossa terceira cate-
distintas pelas quais a notícia goria. Com um objetivo bastante
reddees/Shutterstock.com

poderia alcançar relevância. didático, as notícias que despertam


A primeira delas foi a re- relevância conectadas com o futuro

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tentam tornar tradicionais ques- devem se sentir representadas
tões que muitas vezes são descon- como produtores, isto é, as vo-
sideradas. Assim, a relevância para zes dos diversos grupos sociais
o futuro se relaciona com o desejo precisam encontrar espaço nos
de transformar a sociedade para veículos de comunicação. Sem
melhor por meio da orientação dos essa diversidade de vozes, conti-
cidadãos para temas não muito co- nuaremos sendo uma sociedade
nhecidos. em que poucos falam e a maio-
Esse modo de acionar a rele- ria apenas escuta.
vância é, portanto, experimental. Ao fim dessa jornada, em
Um jornalismo que tenta utilizar que fomos além das margens
essa relevância compreende que a do entendimento de quem e
sociedade está em constante trans- do que participa na definição
formação e se dispõe a ser um ator do que é notícia, chegamos a
ativo nesse processo. É importan- um recomeço que nos estimu-
te destacar que, ao despertar a re- la a pensar de maneira distinta.
levância para o futuro, não são os Além dos critérios, da influên-
donos dos jornais ou os jornalistas cia histórica, dos dispositivos na
que apontam novos critérios do nossa mente e da influência de
que é relevante, mas os vários gru- interesses econômicos — todos
pos sociais, que passam a receber envolvidos de alguma forma na
espaço em uma mídia comprome- definição do que deve ser notí-
tida com a pluralidade. cia — comprometemo-nos a ser
Mas, para que uma diversida- também definidores.
de de vozes realmente possa ser Para isso, não é preciso que
ouvida e que os diversos grupos e todos nós viremos jornalistas,
interesses sociais participem da de- afinal o nosso primeiro passo foi
finição do que é notícia, é preciso entender que o conhecimento
garantir que o direito à informação das notícias não se restringe aos
não seja superado pelos interesses profissionais da mídia. O que
econômicos e políticos dos donos é necessário é não aceitarmos
dos veículos de comunicação. Uma as notícias atuais como a única
sociedade democrática não pode forma de informar, que reivin-
ser alcançada sem que seja univer- diquemos espaço para as nossas
salizada a possibilidade de obter vozes e para outras. Há, portan-
informações sobre o mundo e de to, muitas forças influenciando
informar o mundo a partir do seu a decisão do que será notícia,
ponto de vista. mas nenhuma deve ser mais im-
Em outras palavras, o direito portante do que o interesse pú-
à informação não quer dizer ape- blico e social, que não privilegia
nas que as pessoas têm o direito a mim ou a você, no entanto
de receber as informações produ- busca, na diversidade de vozes,
zidas por outros, mas também que o que é relevante para todos.

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