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A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 1

Parte Um - O Passado – Ma’asey Bereshit (A Obra da Criação)

Centelhas do Divino
Um dos cabalistas de maior influência na história do misticismo judaico foi Isaac
Lúria, conhecido como o Ari (o leão), que viveu no século XVI.
Conta-se que Lúria morou no Egito, fazendo um retiro parcial por mais de dez anos,
saindo de seu isolamento numa ilha fluvial somente uma vez por semana — no
Shabat.
Pouco antes de completar trinta anos, viajou para a cidade de Safed, não muito
longe de Jerusalém, onde encontrou e deu aulas à maioria dos cabalistas
conhecidos, que viviam em Safed naquele tempo.
Lúria tinha uma visão inteiramente nova.
No decorrer de alguns anos, ele conseguiu, com seus insights fascinantes,
transformar, de forma marcante, o curso do Judaísmo.
Muito do que se encontra na Cabala de hoje aborda a elevação das centelhas
sagradas.
Isto decorre do ensinamento de Lúria, que diz: "Não há aspecto da existência,
incluindo os de natureza orgânica e inorgânica, que não esteja repleto de centelhas
sagradas, que estão misturadas às klipot (cascas) e dela precisam ser separadas e
elevadas."
Imagine que você seja um artesão, com uma quantidade fixa de ouro fundido que
deve ser derramado num molde, a fim de fazer uma obra de arte perfeita.
Esta obra de arte irá irradiar uma luz mágica que permeará o mundo e produzirá o
mais alto nível de consciência primordial em toda a criação.
Entretanto, na hora que você derrama o ouro no molde, algo terrível acontece: o
molde se racha, e parte do ouro vaza e escapa.
O único jeito que você tem para completar a obra de arte é juntar todo o ouro
perdido, num só lugar, a fim de novamente fundir o ouro no molde.
Enquanto o ouro se espalha, cada parte se divide em incontáveis átomos de ouro,
que se difundem por toda a criação; cada um deles fica envolto por uma casca de
poeira que faz com que fique oculto.
O ouro é levado a toda parte, e a única maneira pela qual você pode terminar o
trabalho de fundir e completar sua obra de arte é ter a ajuda de muitas outras
pessoas para recolher o ouro.
O ouro representa a luz da consciência divina e cada átomo, uma centelha do
sagrado.
Se elas forem recolhidas num só lugar — não é um lugar fisico, mas simolicamente
o centro do universo —, todas as centelhas combinadas irradiariam consciência
primordial.
Mas, quando dispersas, as centelhas caem para níveis de consciência cada vez mais
densos, representados pelas cascas ou carapaças (klipot) que as envolvem.

A história do artesão e do ouro perdido é uma simples metáfora que ilustra a


cosmologia de Isaac Lúria, conhecida como o Rompimento dos Recipientes.
Esta cosmologia foi desenvolvida a partir das primeiras linhas de Gênesis, que
dizem: "E a Terra era vã (tohu) e vazia (bohu); e havia escuridão sobre a face do
abismo (tohum)."
A palavra "tohu" significa caos, assombro ou confusão.
Na visão de Lúria, este caos primordial era o resultado do rompimento dos
recipientes que haviam contido a luz da criação e, desse modo, a luz ficou oculta no
"abismo".
O abismo é uma alusão à morte.
Dessa maneira, perdeu-se o ouro.
No entanto, junto com o caos, existia o vazio (bohu), o que indica que havia outros
recipientes prontos para receber a luz.
Bohu, então, representa o potencial da criação, que é denominado na Cabala como
o Universo de Tikun (Retificação).
Este Universo de Tikun é um recipiente para a coleta de todo o ouro perdido.
Em linguagem cabalística, o ouro de nossa história é chamado nitzotzot: centelhas.
Cada partícula de nosso universo físico, cada estrutura e cada ser é uma casca que
contém centelhas sagradas.
De acordo com Lúria, nossa tarefa consiste em liberar cada centelha de sua casca e
elevá-la, para, ao final, conduzi-la a seu estado original.
Estas centelhas são elevadas por meio de atos de bondade amorosa, de nossa
harmonia com o universo e por um nível de consciência primordial mais elevado.
As ramificações deste ensinamento são enormes.
A cada momento de nossa existência, temos o potencial de elevar centelhas
sagradas.
Se não percebemos que temos esta habilidade, estando espiritualmente
adormecidos, não poderemos realizar muito, já que as centelhas são elevadas por
intermédio da própria consciência.
Nossas oportunidades de elevar centelhas são ilimitadas.
As escolhas feitas em nossas atividades, as interações que temos com família,
amigos, vizinhos, colegas de trabalho e até com estranhos; a maneira como
passamos nosso tempo livre, os livros que lemos, os programas de televisão a que
assistimos, o modo como nos relacionamos com a comida, enfim, tudo o que
acontece no dia-a dia tem centelhas presas em cascas aguardando libertação.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 2

Parte Um - O Passado – Ma’asey Bereshit (A Obra da Criação)

Consciência Primordial
Na passagem do século XIX para o século XX, vivia na cidade de Lublin, Polônia,
um rebbe hassídico, Jacob Isaac Ha-Hozeh, também conhecido como o Vidente de
Lublin.
Ele está presente em muitos contos hassídicos.
Diz-se que tinha o poder de reconhecer se alguém era culpado ou inocente
simplesmente ao olhar o rosto da pessoa.
Além disso, podia enxergar a alma de uma pessoa e descobrir qual a tarefa que ela
deveria realizar em cada estágio de sua reencarnação.
Esta tarefa é muitas vezes denominada tikun — reparar, consertar —, o que, em
termos místicos, refere-se ao trabalho espiritual que temos a oportunidade de fazer
durante o nosso tempo de vida para consertar nossas almas, as almas dos outros e
o mundo como um todo.
Certa vez, a congregação do Vidente de Lublin precisava levantar uma grande soma
a fim de estabelecer um fundo de segurança especial.
A vida era sempre perigosa para os judeus na Polônia; pogroms ocorriam com
freqüência.
Entretanto, estes dias eram especialmente conturbados, pois um jovem general
chamado Napoleão estava construindo um império na Europa e havia um boato de
que ele não tardaria a invadir a Polônia e a Rússia. Por essa razão, um fundo de
emergência tornava-se necessário para atender às contingências.
As pessoas incumbidas de angariar este fundo foram visitar Shmuel, o homem mais
rico da cidade, e ele lhes disse: "Darei seis milhões de rublos (uma soma enorme)
com uma condição. Quero ter direitos permanentes para um assento ao lado do
rebbe. Caso contrário, não contribuirei nem com um kopek (centavo)."
Eles jamais imaginaram angariar um milhão de rublos em toda a comunidade.
Shmuel estava disposto a dar seis milhões.
Mas o problema é que Heshel, o comerciante, geralmente sentava do lado do
rebbe.
Eles, então, foram ver Heshel e explicaram o que estava acontecendo.
Ele falou: "Só abro mão daquele lugar se o próprio rebbe me pedir para fazê-lo."
Assim, foram à presença do rebbe e contaram o que Heshel dissera.
O Vidente de Lublin sabia que o dinheiro era necessário, mas ele também sabia que
cada alma é muito importante.
Então, ele chamou Heshel, o comerciante, para uma reunião.
Os dois conversaram por muito tempo, o rebbe disse a Heshel que ele não poderia
prometer-lhe nada, que a única forma pela qual ele poderia desistir do lugar seria
por vontade própria. O rebbe não queria coagi-lo de forma alguma. Heshel olhou o
rebbe bem de perto e nada no rosto dele parecia revelar que, ao fazer isso,
conseguiria um lugar especial no mundo vindouro.
Mesmo assim, ele achou que viu um rápido piscar de olhos e teve certeza de que
seria recompensado de alguma forma, abrindo mão do lugar.
Assim, resolveu aceitar.
Shmuel deu os seis milhões e, daquela época em diante, teria o privilégio de ocupar
o lugar ao lado do grande Vidente de Lublin.
Ele estava presente em cada serviço religioso, em cada data sagrada.
Muitas vezes, ele sentava lá só para estar perto do rebbe, quando as pessoas
chegavam para pedir conselhos ou qualquer outra coisa.
Ele ouvia cada palavra que o rebbe dizia em público. Sempre que ele estava perto
do rebbe, sentia uma radiação de luz se espalhando por seu próprio corpo.
De fato, este lugar era tão importante para Shmuel que ele parou de se preocupar
com qualquer outra coisa em sua vida. Raramente ia para casa; quase nunca ia
trabalhar. Depois de alguns anos, seus negócios faliram completamente, mas
Shmuel estava desinteressado, porque o lugar ao lado do rebbe era mais
importante do que a própria vida.
Ele tomou dinheiro emprestado para pagar as contas de sua casa.
Na realidade, seu maior credor era Heshel, o comerciante.
O que, de fato, aconteceu foi que, durante os anos em que Shmuel estava em
declínio, Heshel estava numa linha ascendente.
Ele teve uma sorte incrível no mercado, sempre comprando produtos ao preço mais
baixo e revendendo a preço mais alto. Ele não cometia nenhum erro e tornou-se
imensamente rico.
Certo dia, Heshel pensou consigo, tenho dinheiro suficiente para me aposentar e o
bastante para comprar de volta o meu lugar pelo dobro do preço que Shmuel
pagou.
Além do mais, Shmuel agora lhe devia dezenas de milhares de rublos, e não
parecia que houvesse probabilidade alguma de pagamento da dívida.
Ele compraria de volta o lugar, a dívida seria liquidada e ele também teria sua
aposentadoria. Heshel fez a oferta.
Mas Shmuel recusou, dizendo que nunca abriria mão do lugar.
A briga continuou por alguns meses. A congregação inteira tomou partido. Alguns
diziam que o dinheiro seria útil, enquanto outros afirmavam que o lugar pertencia a
Shmuel, por direito.
E chegou a época dos Grandes Dias Sagrados.
Em Rosh Hashaná, o rebbe conduziu a Torá para a bimá (plataforma), onde a
leitura teria lugar. Shmuel, naturalmente, seguiu o rebbe.
Após a leitura da Torá, ele voltou para seu lugar. Porém, sentado em seu lugar
estava Heshel, o comerciante.
Eles discutiram. Oy voi voi, era Rosh Hashaná e eles estavam brigando.
Toda a congregação ficou agitada.
Essa situação continuou por algum tempo e, por fim, foi resolvido que o rebbe
decidiria.
Heshel disse: "Rebbe, já se passou muito tempo. Eu era o detentor original do
lugar. Deixei-o voluntariamente, mas só porque a congregação seria beneficiada
com uma contribuição de seis milhões de rublos. Agora, esta pessoa me deve
dinheiro. Além do mais, estou disposto a fazer uma contribuição de 12 milhões de
rublos. Parece-me justo que eu receba meu lugar de volta."
Era uma justificativa forte. Quando ele disse 12 milhões de rublos, uma forte
comoção percorreu a congregação. Uma soma astronômica!
Se eles votassem naquele momento, Heshel teria ganho por ampla maioria.
Entretanto, era o próprio rebbe que decidiria.
Shmuel levantou-se e ficou durante algum tempo em silêncio. O que poderia dizer?
Todo mundo esperou uns dois minutos. E, então, ele falou. "Rebbe", ele disse, "por
favor, devolva-me meu lugar".
Sua voz tremeu, ele quase soluçou quando gritou: "É a única coisa que tenho neste
mundo!" Foi só isso que ele disse; era só o que precisava ser dito.
Após um momento, o rebbe respondeu: "Heshel, você trocou o lugar por riqueza.
Foi uma troca justa. Você se tornou o homem mais rico de toda a região.
Mas Shmuel negociou o lugar para a sua alma. O lugar pertence a Shmuel. Eu não
decidi isto; isto foi decidido no céu. Pois, quando Shmuel disse que era a única
coisa que tinha neste mundo, os anjos no céu gritaram: 'Devolva o lugar a
Shmuel!"

Nossa dádiva mais preciosa


Todos nós temos coisas que, para nós, não têm preço.
Você já parou para pensar qual é a coisa mais preciosa que possui neste mundo?
Qual é a única coisa que você possui que, se lhe fosse tomada, você nunca seria o
mesmo de novo?
Pense sobre isso.
Pare por um minuto, feche seus olhos.
Você poderia responder que o relacionamento especial que tem com alguém é a
coisa mais preciosa do mundo. Ou poderia responder que sua saúde, assim como a
saúde daqueles que estão à sua volta, é o que há de mais precioso.
Talvez você tenha uma resposta diferente.
Entretanto, quando você leva esta pergunta cuidadosamente em consideração, será
que não existe algo que está acima de tudo isso?
Eu diria que nossa consciência primordial pode ser considerada nossa dádiva mais
inestimável.
Nós geralmente nem paramos para pensar nisso.
Mas como poderíamos estabelecer um relacionamento se nossas mentes não
funcionassem? Qual seria o valor de nossa excelente saúde física se não
pudéssemos apreciar as melhores coisas que a vida oferece?
Em resumo, qual seria o valor de qualquer coisa se não estivéssemos
completamente cientes de sua existência?
Na verdade, a única razão pela qual algo nos é precioso é porque estamos cientes
de seu valor.
Alguns tradicionais ensinamentos espirituais parecem insinuar que a mente é nossa
inimiga.
Nossos pensamentos nos mantêm perdidos em uma ilusão de dualidade.
Se nós pararmos a mente, poderemos atingir o mais alto nível de iluminação.
Esta idéia pode ser enganosa.
É verdade que a vasta maioria de nossos processos mentais não nos leva a lugar
algum. Mas a mente adiciona uma dimensão à nossa consciência natural que nos
diferencia da vida animal.
Você já teve oportunidade de observar os cervos na floresta?
A cada momento, eles param o que estão fazendo, levantam sua cabeça e prestam
atenção, farejam, observam.
A cada momento, eles ficam num estado intensamente alerta para um possível
perigo.
A maioria dos animais selvagens tem esta plena atenção muito bem apurada.
Todavia, nosso potencial para uma consciência mais elevada excede em muito a de
qualquer animal, pois temos mentes inigualáveis.
Devemos tomar as rédeas da mente e, ao mesmo tempo, devemos entender que a
mente não é nossa inimiga.
Ela é tudo de que dispomos e nos permite dar valor a tudo que consideramos
precioso nesta vida.
Sem a consciência primordial humana, nunca poderíamos vivenciar nossos próprios
processos e, o que é mais importante, a conexão com o Divino não seria possível.

Vivendo sem uma Consciência Primordial mais elevada


Não posso deixar de mencionar aqui uma pessoa que conhecemos em Jerusalém.
Seu apelido era Jochito, e sua irmã mais nova cuidava dele.
Eles moravam na Alemanha na década de 1930.
Bem cedo pela manhã do dia 10 de novembro de 1938, uma multidão de alemães
enfurecidos começou um quebra-quebra, em retaliação ao assassinato de um
funcionário da embaixada alemã em Paris.
Ele tinha sido morto por um judeu. A juventude hitlerista reagiu quebrando
vidraças, queimando prédios e espancando pessoas.
Esta data ficou conhecida como Kristallnacht, a Noite dos Vidros Quebrados.
Quase duzentas sinagogas foram destruídas. Mais de trinta judeus foram mortos e
vários outros ficaram seriamente feridos.
Infelizmente, Jochito foi um desses feridos. Ele foi apanhado na rua, espancado e
sua cabeça foi pisoteada por botas militares. Ele nunca mais foi o mesmo.
Cinqüenta anos mais tarde, seu corpo era muito saudável.
Ele era, de fato, tão saudável que sua irmã estava preocupada com o fato de que
ele poderia viver mais do que ela.
Isso seria um problema sério, pois, a cada dia depois daquela noite, há cinqüenta
anos, ele tinha de receber comida na boca, e as únicas palavras que pronunciava
eram "da, da, da".
O preço pago por Jochito salvou a maior parte de sua família.
Eles ficaram tão horrorizados que se mudaram para a Argentina, antes que os
assassinatos em massa começassem.
Dessa amua, algo de "bom" saiu deste horror.
Mas o preço foi absurdamente alto, pois sua mente tinha sido totalmente destruída.
Não podemos achar que nossa consciência primordial seja uma certeza de nossa
realidade e que nada alcance seu valor em nossas vidas.
A história sobre o lugar ao lado do rebbe trata da consciência primordial.
Quando a mente de Shmuel entrou em sintonia com a do Vidente de Lublin, ele
pôde se conectar a outros níveis de realidade.
Neste estado, que importância tinha o fato de ter perdido sua fortuna?
Ele possuía a única coisa que contava em sua vida: a contínua oportunidade de ser
levado a dimensões mais elevadas
Ele sabia que os anjos o apoiariam, e ele também sabia que o rebbe veria isso.
Nossa consciência primordial não é algo estático.
Ela pode navegar por um espectro bastante amplo.
Shmuel não estava satisfeito com uma consciência comum, cotidiana.
Ele buscou algo mais elevado, uma nova abertura que se apresentaria se ele
estivesse muito próximo ao rebbe.
Tendo em vista que nossa consciência primordial é, de uma maneira ampla, nosso
atributo mais importante, temos plena capacidade de diminuí-la ou ampliá-la.

O fluxo da Consciência Primordial


O Zohar aborda o universo como um todo, em termos muito mais amplos do que o
universo físico.
Na verdade, o universo físico, vasto como parece ser, não é nada comparado com o
universo místico dos domínios angelicais e demoníacos.
Enquanto o universo físico é dimensionado em termos de tempo e espaço, o
universo místico é mensurado em termos de níveis de consciência.
Estes níveis não devem ser vistos como compartimentos estanques, pois a
consciência primordial é um fluxo contínuo.
O som de uma nota musical é uma boa analogia para este exemplo de fluxo
contínuo.
Se nós batermos, com força, numa tecla de piano, a nota é ouvida
instantaneamente em seu nível mais compacto e forte.
Depois, ela lentamente se esvai.
Podemos perceber, de um momento para o outro, que ela vai se tornando mais
suave, mas não existem linhas visíveis fazendo a divisão.
Da mesma maneira, quando tocamos um instrumento de corda, outros
instrumentos na sala vão vibrar na mesma freqüência.
Dessa forma, quando tocamos uma corda, as outras são também afetadas.
Os mundos da consciência primordial se integram em um fluxo contínuo.
Cada um contém partes dos outros, que não podem ser separados.
Da mesma forma que uma nota musical tem uma freqüência vibratória em comum
com outras, independentemente de ser alta ou suave, os universos cabalísticos
compartilham um nível de consciência primordial.
Sendo a característica central da criação, a consciência primordial é como um ímã
que atrai tudo para si.
Tanto nosso maior anseio quanto nossos esforços no caminho espiritual, nossa
busca por conhecimento e nosso fascínio pela busca da verdade definitiva são
reflexos da atração inexorável deste ímã.
Assim como uma molécula de água em um pingo de chuva é levada para o oceano,
de uma forma ou de outra, não importa quanto tempo leve e por quantas
encarnações vá passar, a consciência primordial é atraída para a sua fonte.
Os cabalistas dizem que o amor funciona da mesma maneira.
O amor se baseia em um anseio de consumação: ser completo, estar em harmonia,
estar conectado e ser livre.
Apesar de, inicialmente, nossos impulsos hormonais serem a fonte de nosso desejo
sexual, à medida que o amor amadurece, faz com que os parceiros, de um jeito ou
de outro, finalmente, se aproximem da luz da consciência primordial.
Buscamos parceiros que nos complementem de alguma forma, que nos ajudem a
ser completos.
Tentamos despertar neles o eu mais abrangente, a fim de que eles possam
vivenciar nosso eu mais abrangente.
O Zohar diz: "Para criar o mundo, Eyn Sof, (o Sem-Fim, o Infinito Nada) emanou
uma centelha secreta (consciência primordial), da qual toda a luz emergiu e
irradiou-se. O mundo superior foi formado com esta luz. Então, uma dimensão
diferente de luz, uma luz sem brilho (consciência inferior) foi modelada para o
mundo inferior. Como ela é composta de luz que não ilumina, o mundo inferior é
atraído pelo mundo superior."
O simbolismo erótico da união dos amantes é um tema recorrente no Zohar.
Os místicos da tradição judaica concordam, de maneira geral, com o fato de que o
Cântico dos Cânticos, com suas alusões ao amor e à sexualidade, contém mais
segredos do universo do que qualquer outra parte das escrituras sagradas.
Por exemplo, com respeito ao verso "Pertenço ao meu amor e ele me deseja", o
Zohar diz: "O significado profundo deste verso é que um movimento abaixo é
acompanhado de um movimento acima, porque não há movimento acima até que
haja um movimento abaixo."
Esta descrição mística sugere que tudo, acima e abaixo, está interconectado.
Não podemos separar céu e terra, as dimensões espirituais de nosso mundo
material, ou quaisquer outros conceitos que se configurem como opostos.
A interconexão de todas as dimensões é um dos ensinamentos fundamentais da
Cabala.
Quando este conceito for bem entendido, ele terá um impacto significativo sobre a
maneira como vivemos nossas vidas.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 3

Parte Um - O Passado – Ma’asey Bereshit (A Obra da Criação)

Assim Como Acima, Também Abaixo Assim Como Abaixo, Também Acima
Por todo o Zohar, o tema dos mundos inferiores e superiores repete-se várias
vezes:
"O Sagrado dispôs tudo de tal maneira que o que há neste mundo deve ser uma
réplica de algo que existe no mundo superior";
"Há uma dimensão que está acima, em santidade elevada, e uma dimensão
embaixo".
"Quando o Sagrado coloca suas 'coroas', ele as recebe tanto de cima como de
baixo."
O conceito de "acima" e "abaixo" não deve ser entendido literalmente, de forma
linear.
Refere-se às dimensões da consciência.
Dimensões superiores e inferiores de consciência não estão separadas pelo espaço;
muito pelo contrário, elas são dimensões que representam a proximidade do
relacionamento com a verdade definitiva.
Quanto mais alta a conscientização, menor será a ilusão da separação.
A Terra representa um nível de consciência.
Tudo que está neste nível tem a contrapartida na consciência superior.
Não existe um objeto, por menor que seja, que não tenha uma correspondência em
outros domínios.
Assim, quando algo que está embaixo se movimenta, surge um estímulo
semelhante a seu equivalente que está acima.
Os dois domínios formam um todo interconectado.
É como se tudo no universo fosse refletido por uma contrapartida celestial.
Este parceiro é bem mais do que um gêmeo; é multifacetado como uma mescla de
todos os nossos elementos.
Supondo que cada indivíduo seja composto de muitas subpersonalidades, cada vez
que expressamos uma de nossas facetas na realidade como a conhecemos, nosso
equivalente está sendo ativado em outras realidades.
O amante está lá, assim como o cúmplice, a criança, o juiz, nossas forças e
fraquezas internas.
Qualquer que seja o estado no qual nos encontramos, esta é a característica que
energizamos em outras dimensões.
Quando, por exemplo, estamos num estado profundamente reflexivo, nossa
essência pensativa mais elevada é despertada.
Quando nos sentimos sem rumo, nosso "anjo" do comportamento errático está
ativado. E quando entramos em um estado de bondade amorosa, então nosso ser
mais elevado está ativado.
Além disso, assim como todas as nossas ações, palavras ou pensamentos
reverberam neste mundo, também o despertar de nossos aspectos mais elevados
reverbera no céu.
Esta antiga idéia cabalística é um modelo do universo, holístico e pleno de energia.
Ela atravessa camadas de realidade e inclui quaisquer dimensões possíveis da
criação: anjos, demônios, pensamentos, sentimentos, passado, futuro, esta
encarnação e todas as outras.
De acordo com este ponto de vista da tradição mística judaica, tudo — assim como
todas as "não-coisas" que algum dia existiram e que ainda hão de existir na criação
— está interconectado.
A noção de interconectividade foi inicialmente descrita, de forma detalhada, por um
místico da tradição judaica do século XII, Isaac, o Cego, que foi também a primeira
pessoa a utilizar a palavra "Cabala" para designar uma variedade de ensinamentos
e práticas místicas.
Antes de Isaac, o Cego, esses ensinamentos eram abordados de maneira indireta;
usavam-se palavras tais como: os trabalhos da carruagem, os domínios da criação,
o caminho da verdade e outras frases que insinuavam mistérios ocultos.
As pessoas que seguiam o caminho do misticismo também recebiam muitas
denominações: mestres da sabedoria, os que tinham um coração cheio de
sabedoria, aqueles que conheciam as leis e ainda outros rótulos enigmáticos.
Não se sabe se este mestre, Isaac, seria realmente cego ou se isto era uma
designação que dava a entender que ele não via as coisas da mesma forma que os
outros as viam.
Na verdade, dizia-se que ele possuía poderes místicos fenomenais, os quais lhe
permitiam perceber "algo no ar". Assim, parecia saber se uma pessoa morreria em
um futuro próximo ou se a alma de alguém seria de formação nova ou vinda de
outras reencarnações.
Ele descreveu o princípio da interconectividade como Tzipiyah, que pode ser
traduzido como "observação contemplativa".
Tzipiyah é a consciência primordial mística, que vivenciamos quando o sentido de
passado e futuro se dissolve e estamos plenamente presentes, totalmente dentro
do momento.
Isto é o que acredito tenha sido a vivência pessoal de Isaac, o Cego, e a base para
os seus profundos insights sobre a natureza mística do universo.
Quando refletimos sobre o conceito de tzipiyah, somos atraídos para uma nova
forma de nos relacionarmos com o universo.
Cada vez que movimentamos nossos braços, nossos braços celestes estão sendo
movimentados.
Cada vez que escrevemos uma palavra, uma palavra também está sendo escrita
nos céus.
Nós interagimos com o mundo e, durante todo o tempo, estamos simultaneamente
estimulando os mundos superiores. Não somente nunca estamos sós, como
também tudo o que fazemos, falamos ou pensamos repercute em outros universos
de uma maneira que está muito além de nossa imaginação.
Esta é uma contemplação de alto impacto que mexe conosco.
Como estou vivendo minha vida?
Até onde o mundo depende de minha próxima ação?
Se tudo reverbera no universo, como meus atos, palavras e pensamentos
influenciam quem sou, quem fui e quem serei?
É imperativo que elaboremos indagações sobre estas questões.
A Cabala tem respostas muito claras a todas elas.

Esferas de Consciência
Nosso senso de realidade reflete diretamente nosso nível de consciência.
Cada um de nós tem uma perspectiva da realidade, que é como uma fatia muito
fina de uma torta.
A própria torta alcança os limites do universo.
Se mudarmos nossa consciência, poderemos conseguir outra fatia da torta.
Além do mais, poderemos mudar nossas percepções com mais rapidez do que a
maioria das pessoas se dá conta.
Diz-se que "o Sagrado achou necessário criar tudo no mundo de modo que haveria
uma luz central de consciência primordial cercada por muitos recipientes".
Toda a criação foi construída sobre este princípio: ela é formada por consciência.
Se pudéssemos descrever isso sob a perspectiva de Deus, se isso fosse possível,
veríamos que tudo na criação está conectado a um centro: a fonte da criação.
O relato da criação no Gênesis descreve a evolução da consciência.
O primeiro dia: luz.
O segundo dia: fluido cósmico e separação dos fluidos superiores e inferiores.
O terceiro dia: terra, solo, mar, plantas, frutos, sementes.
O quarto dia: corpos celestes, estrelas, Sol e Lua.
O quinto dia: vida marinha e pássaros e grandes criaturas marinhas.
O sexto dia: criaturas da terra.
No final do sexto dia: humanidade.
Este aspecto final da criação diferenciou-se pelo modo de utilizar a linguagem,
“naa-seh adam betzelmaynu kidmumutaynu”, que significa "vamos fazer uma
criatura, chamada Adão, à nossa sombra, à nossa semelhança".
Claro está que os antigos sábios tinham curiosidade em saber a razão pela qual a
frase estava no plural.
O Divino é uma unidade: Quem ou o que mais estava sendo aludido no trecho
"nossa sombra"?
As palavras dão a entender que Deus estava se comunicando com algo que podia
comunicar-se com Ele.
No mínimo, a conclusão lógica que tiramos disso é que um dos aspectos da
semelhança deva ser que Adão seria capaz de comunicar-se com o Divino.
O paradoxo essencial da criação é a questão de como a unicidade torna-se
multiplicidade.
Como pode ela, a fonte mais do que perfeita, criar algo menor do que si mesma?
Como pode a unidade completa, que abrange tudo, dar lugar à idéia de um outro?
Mesmo que abandonemos a idéia de "criador", como nas tradições orientais, ainda
assim estaremos diante da incongruência da coexistência entre a unicidade e a
multiplicidade.
Mestres espirituais das tradições orientais referem-se à nossa visão da realidade
como maya, ou ilusão.
Estamos presos por trás de vários véus que "distorcem" a realidade.
Estes mestres esboçam uma teologia da não-dualidade, um sistema monístico de
unidade total: só há uma realidade, e toda multiplicidade é imaginária.
O mundo parece pluralístico só porque nossa consciência tem limitações.
Por outro lado, o cabalista não afirma que nossa visão da realidade está distorcida;
ele prefere dizer que é simplesmente a realidade da consciência humana.
Por exemplo, podemos formular a hipótese de que um mosquito tem um nível de
consciência diferente porque seu universo é formado de componentes elementares,
tais como calor, frio, suavidade, densidade, luz, escuridão e assim por diante.
Se partirmos do princípio de que isto é assim, não poderemos dizer que ele tem
uma percepção distorcida.
Ao contrário, ele tem uma "percepção de mosquito" perfeita da realidade, qualquer
que ela seja.
Do ponto de vista dos planos mais elevados de consciência, a consciência
primordial humana pode ser comparada à do mosquito.
Quanto mais ampla nossa consciência, mais nossa percepção de multiplicidade se
desfaz.
Este é um ensinamento de sabedoria universal, com uma diferença essencial
enfatizada pela Cabala.
Enquanto muitas tradições acentuam a natureza ilusória do mundo de uma forma
que rebaixa nossa realidade, a Cabala vai em direção oposta.
Ela enfatiza a natureza holística de todos os níveis de consciência primordial e
sugere que cada um deles é um reflexo de todos os outros.
Assim, a abordagem cabalista sugere que, por meio de nossa realidade, mesmo
limitada, temos acesso a todos os outros níveis.
Quando acrescentamos a esta perspectiva o fato de que a vida humana tem sua
base no livre-arbítrio consciente, o que não acontece com a maioria dos outros
aspectos da criação, a importância da repercussão de nossas ações sobre a
evolução do universo é enorme.
Enquanto em muitas tradições quase não podemos esperar para sair de nossos
corpos, na Cabala tentamos maximizar o precioso tempo que temos neste corpo.
Do ponto de vista cabalístico, a multiplicidade é um aspecto intencional na
totalidade da criação.
Podemos utilizar a idéia da natureza holística da criação para lidarmos com o
paradoxo.
Podemos ser, simultaneamente, unos e plurais.
Cada célula no corpo de uma pessoa desempenha sua própria tarefa, mas sabemos
que cada uma delas tem um conjunto de cromossomos idêntico ao das outras
células do corpo.
Podemos escolher focalizar no estado de separação ou na unidade.
Um é racional; o outro, uma lógica difusa — está aqui, não está aqui.
As pessoas que vivem nas dimensões da intuição não têm dificuldade em falar
sobre almas, de onde vêm, para onde vão, morte, anjos, demônios, céu ou inferno.
Aqueles que são mais atraídos para fundamentos racionais e analíticos da realidade
sentem-se mais desafiados por essas idéias.
Mas não existe caminho certo ou errado para explorar os mistérios da vida e da
morte.
Se o modelo holístico estiver correto, cada um de nós está conectado ao centro da
criação à sua própria maneira.
Só precisamos descobrir a linguagem interna que ajuda a nos comunicar com as
partes ocultas da alma.
É evidente que a consciência humana difere das outras formas de vida.
Certos tipos de pensamento simbólico, tais como imaginação, reflexão, projeção,
planejamento e humor, são, geralmente, atividades exclusivas da consciência
humana.
Mas, se a consciência humana for comparada à do mosquito, em relação ao
universo, devemos fazer a seguinte pergunta-chave:
O que acontece à realidade humana à medida que expandimos nossa consciência?

Expansão da Consciéncia
Na Cabala, a consciência expandida recebe o nome de “mochin de gadlut”, que
significa literalmente "mente maior".
Muitas técnicas são utilizadas para alcançar este estado.
Podemos obter uma pista para entender esse significado, fazendo um simples
exercício.
Caso você esteja disposto, permita que sua visão se expanda perifericamente.
Você não precisa tirar seus olhos destas palavras a fim de enxergar à sua volta.
Apenas observe que você pode olhar para este texto, ler estas palavras e, ainda
assim, captar mais informações visuais sobre o que está acontecendo à sua volta
neste momento.
Agora, observe qual é a sensação que você tem com a ampliação da sua
consciência visual.
Você vai encontrar imediatamente um sentido de maior atenção e presença.
A princípio, você vai ter de se esforçar para manter esta atenção, mas ela logo irá
se tornar natural.
Embora você possa, às vezes, voltar aos seus velhos hábitos e simplesmente ver
apenas as palavras à sua frente, sem observar o que está em volta, com um
simples lembrete você verá que pode rapidamente expandir seu sentido de
consciência visual.
Você pode fazer o mesmo, prestando mais atenção aos sons que estão à sua volta
neste momento.
Normalmente, existem sons que não ouvimos quando estamos concentrados em
alguma coisa. Mas, de repente, você percebe que um som estava presente o tempo
todo e você não o tinha percebido.
Você não precisa parar de ler para intensificar sua audição.
Isso também contribui para um nível mais elevado de consciência.
E ainda mais: repare em seu corpo quando você está sentado.
Você pode sentir uma pressão sob suas nádegas, pode sentir como seus pés tocam
o chão; pode estar ciente da posição de seu torso e de seus braços; pode reparar
nos movimentos de seu pescoço, cabeça e olhos.
Todos esses detalhes estão constantemente nos fornecendo um fluxo contínuo de
informações.
Quanto mais nos tornamos conscientes e prestamos atenção a esse fluxo, mais
sentiremos a sensação de estarmos alerta.
Tornamo-nos mais atentos, mais presentes, mais sintonizados com cada momento.
Tudo isso faz parte do processo de intensificação de nossa consciência primordial.
A maioria das pessoas desenvolve um padrão de rotinas por meio de repetições e
não percebe diferenças sutis em cada situação.
Com tanta coisa acontecendo à nossa volta, e dispondo de tão pouco tempo,
seguimos na vida "no piloto automático".
Todavia, agüentamos, contanto que a rotina permaneça familiar, conhecida.
Infelizmente, quando vivemos anos a fio neste estado mental automático, o
espelho da vida tende a ficar nebuloso e nosso ânimo esmorece.
Não é surpreendente que hoje em dia, nesse mundo em que todos parecem tão
ocupados, sentimentos de apatia, frustração, futilidade e desespero tenham
alcançado proporções quase epidêmicas.
Temos muito mais potencial de consciência do que percebemos.
Geralmente, sonhamos acordados, com nossas mentes muito ocupadas revendo
coisas que já aconteceram, ou fazendo fantasias sobre eventos futuros que quase
nunca acontecerão como previmos.
Como estamos ocupados com toda essa atividade mental, perdemos o que está
realmente acontecendo aqui e agora.
Podemos expandir nossas mentes sem muito esforço.
Tudo o que precisamos é um lembrete, um relógio interno que toque um alarme
para nos acordar a cada vez que caímos no nosso estado de consciência mais
restrito.
Cada vez que este alarme interno toca, sabemos, instantaneamente, que devemos
convidar a grandeza da mente, mochin de gadlut.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 4

Parte Um - O Passado – Ma’asey Bereshit (A Obra da Criação)

O Jardim do Éden – Parte 1


O Jardim do Éden é uma das histórias mais conhecidas e menos compreendidas da
literatura bíblica.
Ela vem sendo interpretada de várias maneiras, muitas das quais sugerem que é
um protótipo para a compreensão da natureza do bem e do mal, do relacionamento
entre homens e mulheres ou ainda do propósito da humanidade.
Entretanto, infelizmente, o ponto de vista do misticismo da tradição judaica a este
respeito raramente está disponível para o público em geral e, assim, um
componente de grande importância para um ensinamento de sabedoria mais
profundo permaneceu virtualmente desconhecido.
A história de Adão e Eva está firmemente implantada na psique ocidental e, de
muitas maneiras, ela continua exercendo influência sobre a forma como nos
relacionamos uns com os outros.
A leitura literal da história sugere que Adão e Eva foram os primeiros seres
humanos e que Eva foi presa fácil para a sedução.
Ela rapidamente sucumbiu à serpente ardilosa.
Ela não somente comeu do fruto proibido, como também se apressou a fazer com
que seu parceiro fizesse o mesmo.
Por causa desse ato de "desobediência", ela tem sido denegrida ao longo dos
tempos. Eva vem levando a culpa, devido à sua ignorância, por todos os
sofrimentos pelos quais as mulheres passam na hora do parto.
Pior ainda: diz-se que é culpada por toda a ruína e degradação da humanidade.
Uma rabina me disse certa vez que: "A história de Adão e Eva é talvez o exemplo
mais óbvio, em toda a Torá, no qual o relacionamento entre homem e mulher foi
contaminado por implicações absurdas.
Qualquer pressuposto de que Adão e Eva representam o relacionamento de um
casal, sendo eles o primeiro homem e a primeira mulher, é ridículo.
Muito pelo contrário.
Os místicos os tratam, assim como a todos os outros personagens bíblicos
principais, como arquétipos divinos.
Adão e Eva representam o princípio da dualidade, cada um é um pólo oposto do
outro.”
Um dos métodos utilizados pela tradição oriental para tratar polaridades desse tipo
é a imagem do yin e yang.
Da mesma maneira, a linguagem de Adão e Eva fala de expansão e contração, para
fora e para dentro, luz e escuridão, dureza e suavidade.
Nenhum é melhor do que o outro; ambos são necessários para que equilíbrio e
harmonia possam existir.
Além da dualidade de Adão e Eva, há um terceiro elemento na criação: a serpente,
que representa a força da fragmentação.
Um dos mais antigos textos do Midrash, escrito pelo rabino Eliezer, sugere que a
serpente que seduziu Eva tinha o aspecto de um camelo.
Muitas pessoas nunca tinham ouvido esta idéia.
A tradição oral judaica vai além para dizer que o anjo Samael, também conhecido
como Satã, montava este camelo. Muitos dizem que a própria serpente era Satã.
A palavra "camelo" em hebraico é gamal, que é a mesma palavra da letra hebraica
gimel.
Gimel, no alfabeto hebraico, representa o número 3.
Assim, quando o rabino Eliezer dizia que a serpente representava um camelo, ele
estava aludindo ao número 3.
Matematicamente, o número 3 é necessário para o mundo físico, que é
tridimensional — composto de três linhas de orientação: norte-sul, leste-oeste e
acima e abaixo.
Diz-se na Cabala que Satã representa o universo fisico.
Na verdade, o universo, como o conhecemos, é chamado nos escritos místicos de
"pele da serpente".
Na cosmologia mística do Jardim do Éden, o arquétipo da serpente se funde com a
força vital, a forma e a substância representadas por Adão e Eva.
Assim que a serpente torna-se capaz de se fundir com esta força vital, a fórmula
mística fica completa para a metafísica da criação.
O ensinamento cabalístico diz que Satã, a força da fragmentação, é o elemento
crucial exigido pela criação, pois sem ele tudo estaria unido a Deus — tudo se
tornaria "um".
Isto não significa que a força de rompimento de Satã esteja separada da unidade
de Deus, mas, paradoxalmente, que ela está contida dentro da unicidade do Divino.
Neste enfoque cabalístico, percebemos, com clareza, que a história do Jardim do
Éden é uma cosmologia que de muito transcende as versões mais comumente
aceitas.
Obviamente, uma nova percepção da história ocidental da criação afetaria
intensamente nossa maneira de ver as figuras de Adão, Eva e a serpente.
Também permearia nosso consciente coletivo de uma maneira que poderia ter um
impacto profundo no modo como nos enxergamos como seres humanos, como nos
relacionamos uns com os outros e como nos relacionamos com Deus.

Sementes de Pecado e Culpa


Vejamos mais de perto a leitura tradicional da história da criação, a fim de tentar
entender como ela se desenvolveu no imaginário do pensamento ocidental.
A história bíblica conta sobre um jardim "plantado por Deus" a leste de Éden, que
tinha nele todas as árvores frutíferas.
No centro deste jardim, havia duas árvores especiais: a Árvore da Vida e a Árvore
do Conhecimento do bem e do mal.
Um rio corria do Éden para o jardim, onde ele se dividia em quatro rios que fluíam
para fora do jardim.
Deus formou o homem do pó dos quatro cantos da terra e o colocou neste jardim
para cuidar dele e mantê-lo.
Ao homem foi dito que ele poderia comer frutos de qualquer árvore, exceto o fruto
da Árvore do Conhecimento do bem e do mal.
O homem, inclusive, foi avisado de que, "no dia que você comer um fruto desta
árvore, você certamente morrerá".
Depois que Deus havia trazido todos os animais e pássaros para que o homem
desse um nome a cada um deles, Ele fez com que o homem caísse em um sono
profundo. E, a partir da costela do homem, uma mulher foi feita.
Neste momento tanto o homem quanto a mulher estavam nus e não sentiam
vergonha.
Quase imediatamente na história, uma serpente se aproxima da mulher e lhe diz
que ela não morreria se comesse da Árvore do Conhecimento.
Pelo contrário, seus olhos se abririam e ela se tornaria como um deus, porque
passaria a conhecer o bem e o mal.
Ela, então, comeu do fruto e deu um pouco para que seu homem também comesse.
Como esperado, seus olhos se abriram tanto que agora podiam enxergar sua
nudez.
Eles imediatamente costuraram folhas de figueira para cobrir sua nudez.
Depois, "ouviram a voz do Senhor Deus andando no jardim na brisa do dia".
Então, esconderam-se atrás das árvores.
Deus chamou em voz alta "Onde está você?" e o homem respondeu que ouvira
uma voz e se escondera porque sabia que estava nu e estava com medo.
"Como é que vocês sabem que estão nus?", perguntou Deus.
"Vocês comeram da árvore da qual Eu disse que não era para comer?"
O enredo se fecha.
Na interpretação-padrão, passada de geração em geração, Adão e Eva,
confrontados por Deus, flagrados na infração da única regra imposta para esse
jardim, tentaram livrar-se da culpa.
Adão disse: "A mulher me deu o fruto." Eva retrucou: "A serpente me seduziu."
Assim, de acordo com o que conhecemos, a serpente foi a primeira a ser castigada
por Deus, amaldiçoada a permanecer para sempre rastejando sobre sua barriga e
comer poeira.
Em seguida, Deus virou-se para Eva e disse que sua dor de parto seria muito
intensa e que seu marido a dominaria.
Finalmente, Deus falou com Adão e lhe disse que daí por diante ele teria de suar e
trabalhar muito para conseguir seu alimento, e que o solo só produziria espinhos e
cardos por sua faina. Nesse momento, Deus deu-lhes roupas feitas de pele.
Então, parece que Deus, depois de refletir profundamente, pensou:
"O homem tornou-se um de nós, conhecendo o bem e o mal. E se ele comer da
Árvore da Vida e passar a viver para sempre?"
Assim, Deus expulsou Adão e Eva do Jardim do Éden.
Querubins montaram guarda para que Adão e Eva não pudessem voltar e uma
espada giratória foi colocada em funcionamento para que não se aproximassem da
Árvore da Vida.

Esta história, quando interpretada literalmente, é o arquétipo do pecado, mesmo


que a palavra "pecado" nunca tenha sido mencionada.
O pecado original foi desobedecer a Deus, e disso resultou que a humanidade
deixou de ser favorecida por Deus.
A história também inclui o arquétipo do mal, a serpente, e ainda a pureza e a
inocência, pois Adão e Eva não sabiam que estavam nus.
Contém o arquétipo da culpa, que instantaneamente gera a primeira negação e
inclui a primeira maldição feita por Deus, fazendo com que, teoricamente,
vislumbremos logo o tipo de castigo que sobrevém à desobediência.
Quando lemos esta história através dos filtros de nossa consciência atual, não
podemos deixar de nos perguntar o que ela tem de tão cativante para ter se
tornado a principal história da criação, na tradição espiritual ocidental.
Um editor moderno teria rejeitado o manuscrito, após a leitura das primeiras
páginas. Não somente é politicamente incorreto tratar as mulheres como servas,
mas o ato de comer algo proibido acarreta conseqüências inacreditáveis.
De acordo com a narrativa, Deus promete que todo aquele que comer o fruto irá
morrer naquele mesmo dia.
Mas não acontece assim.
Adão e Eva não morrem naquele dia.
Em vez disso, eles são castigados por toda a eternidade.
Deus nunca tinha dito nada a respeito de um castigo eterno.
Um editor moderno apontaria as inconsistências da história.
Além do mais, o editor observaria que o tratamento dado à sexualidade é
inaceitável, como se a nudez fosse uma coisa horrível.
Quem se identificaria com isso?
Há muitos furos na lógica desta história.
O maior deles é que só a Árvore do Conhecimento era proibida; Adão poderia ter
comido logo da Árvore da Vida.
Neste caso, ele não morreria nunca.
Por que será que Deus se arriscou a ter Adão comendo primeiro da Árvore da Vida,
adquirindo, conseqüentemente, vida eterna, para depois comer da Árvore do
Conhecimento?
Além do mais, por que a serpente iria se colocar de tal maneira a ser o único
recipiente da ira de Deus? O que tinha a ganhar? Por que atrair a morte a si
mesma? Ela poderia ter comido do fruto da Árvore da Vida e se tornado eterna.
Depois poderia ter comido da própria Árvore do Conhecimento e se tornado como
Deus. Apesar de esperta, seu comportamento não tem lógica alguma.
Pior do que tudo isso, a história rebaixa Deus, o que faria nosso editor pensar que
isso poderia ofender os leitores.
Faz com que Deus pareça menos Poderoso.
Deus proíbe Adão de comer daquela árvore especial, em vez de fazer com que os
frutos dificilmente pudessem ser alcançados, ou impossíveis de encontrar, ou
qualquer outro cenário.
Será que colocaríamos uma bala na mesa de centro, diante de uma inocente
criança de dois anos, para então dizer-lhe que não pode botá-la na boca?
A voz de Deus "anda" no jardim.
O que quer dizer isso?
Deus, chama Adão, "Onde está você?".
Será que isso significa que Deus não sabe onde Adão está?
Deus não conhece a natureza das serpentes?
Deus não sabe de antemão que Adão e Eva vão comer o fruto?
Deus "se pergunta" se eles vão comer da Árvore da Vida?
Deus tem de expulsá-los do jardim a fim de evitar que comam outros frutos?
Deus tem de colocar querubins para guardar o jardim e uma espada giratória para
guardar a Árvore da Vida?
Isso não vai dar certo.
Leitores modernos certamente rejeitariam a idéia de um Deus que não tem noção
das conseqüências de seus atos.
"Não", o editor moderno diria, "este manuscrito nunca será aceito pelos críticos".

A arte do estudo da Torá


É quase impossível compreender o relato literal dos cinco livros de Moisés sem
orientação adequada.
Existem centenas de comentários e, como podemos imaginar, com interpretações
contraditórias.
Ninguém concorda que exista uma maneira "correta" de ler a Torá.
De fato, a tradição oral sugere que há pelo menos 600 mil interpretações
diferentes, representando o número daqueles que receberam a Torá no Monte
Sinai, por intermédio de Moisés.
É isso que faz com que o estudo da Tora seja tão interessante.
Se nós simplesmente aceitarmos o significado literal daquilo que ela diz, então a
Torá se torna meramente um livro com muitas histórias incomuns.
Se nós, entretanto, nos empenharmos nesse estudo, trabalharmos e utilizarmos
uma variedade de métodos para analisar o texto, ela revela elos ocultos que nos
levam a novas investigações.
Um estudo contínuo e interativo torna-se um relacionamento místico entre o texto
e a pessoa que o estuda.
Muitas experiências com objetos inanimados envolvem interações místicas.
Um mecânico que regula uma máquina à perfeição, interage com ela como se a
máquina estivesse se comunicando com ele.
Um piloto ou capitão de um barco interage com a "personalidade" do avião ou do
barco.
Argila e ceramista tornam-se um só, enquanto a tigela vai surgindo na roda; tintas,
tela e pintor unem-se num relacionamento que leva o trabalho para uma realidade
diferente.
A arte transcende o mundo objetivo e entra em uma dimensão mística que é
inexplicável.
Estudiosos da Torá sempre tiveram um envolvimento artístico-espiritual com o
texto bíblico.
Envolvimento é uma boa palavra, pois a vivência é quase que um noivado.
O estudante torna-se íntimo de um conjunto de palavras, comentários, comentários
sobre comentários e um mundo novo se abre.
Este é o mundo que manteve a Torá viva e íntegra dentro do Judaísmo por mais de
dois mil anos.
As perguntas que brotaram na mente do nosso editor imaginário também foram
óbvias para leitores milênios atrás.
Boa parte da tradição oral aborda estas questões.
Muitas outras questões, nada fáceis de entender para os leitores modernos, foram
abordadas também.

Pardes: O Pomar da Torá


A Torá é estudada em quatro níveis diferentes, conhecidos pelo acrônimo P-R-D-S.
Um pardes é um pomar ou jardim.
Em hebraico, é soletrado com as consoantes peh, resh, dalet e samech.
No contexto do estudo da Torá, o peh representa p'shat, que significa a
interpretação simples ou literal.
Resh representa remez, que significa a interpretação do que está sendo insinuado
no texto: as metáforas, alegorias e as parábolas.
Dalet representa drash, que é uma análise do texto pela introdução de material
adicional.
Por fim, samech representa o sod do material, o segredo, significados ocultos que
oferecem insights sobre a estrutura do universo.
Vamos olhar para alguns elementos da história do Jardim do Éden, as árvores, os
rios, a formação do homem e verificar como isso é visto sob as quatro perspectivas
diferentes de interpretação.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 5

Parte Um - O Passado – Ma’asey Bereshit (A Obra da Criação)

O Jardim do Éden – Parte Final

P'shat (Literal)
Havia um lugar chamado Éden e ele possuía um jardim.
"Éden" vem da palavra acadiana "edinu", derivada do sumério "éden", que significa
"planície".
Esta explicação e o fato de rios correrem através deste lugar sugerem, então, que
Éden seja uma localização geográfica.
Comentaristas da Torá geralmente concordam que dois dos quatro rios que saem
do Éden são o Tigre e o Eufrates.
Quanto aos outros dois, alguns dizem que um deles poderia ser o Nilo, e o quarto
seria o Indus ou o Ganges, mas a maioria concorda que o ponto de encontro
comum era o Golfo Pérsico, que poderia ser o "rio", fluindo para dentro do jardim.
Embora o Jardim do Éden nunca tenha sido visto por ser humano algum, Resh
Lakish, um sábio talmúdico, disse: "Caso se encontre na terra de Israel, seu portal
é Bet Shean (uma região fértil perto de Tiberias); se estiver na Arábia, seu portal é
Bet Gerem (possivelmente uma região muito fértil em frente a Bet Shean, do outro
lado do Jordão); e se for entre os rios (sem nomes), seu portal é Damasco. "
Uma história registrada no Talmud conta que Alexandre da Macedônia encontrou o
Jardim do Éden no meio da África.
Ele encontrou mulheres guerreiras em sua jornada, que o preveniram para que não
lhes declarasse guerra, pois ele seria derrotado de qualquer maneira: se elas
fossem mortas, seria dito que ele ti-rou vantagem de mulheres, e se elas o
matassem, ele seria chamado o "Rei que Foi Morto por Mulheres".
Quando ele pediu pão, as mulheres lhe serviram um pão de forma de ouro.
Perguntou, então, se comiam ouro, e elas responderam: "Se você queria pão, será
que não havia pão suficiente em sua própria terra, você teve de viajar de tão longe
atrás dele?"
Quando deixou este lugar, escreveu no portão da cidade: "Eu, Alexandre da
Macedônia, fui um tolo até entrar nesta cidade de mulheres, na África, quando
então adquiri sabedoria."
Mais adiante, ele comeu um pouco de peixe salgado banhado em água de um poço
do lugar. O peixe exalou um aroma suave. Ele reconheceu, pelo perfume, que a
água provinha do Jardim do Éden.
Ele encontrou o jardim e gritou para que lhe abrissem o portão.
Os guardas disseram que este era o portão do Senhor, e só se abriria para os
justos. Ele respondeu que era um rei e que queria alguma coisa. Então, eles lhe
deram um olho. Aqui a história passa de literal a metafórica.

Remez (Indícios, Metáforas, Parábolas)


Alexandre pegou o olho e foi pesá-lo, usando como contrapeso todo o ouro e a
prata que ele levava consigo, e que era muito.
O olho era mais pesado do que toda a sua fortuna. Ele perguntou aos sábios que
viajavam com ele, "Como isto é possível?". Eles responderam que era um olho
humano, olho este que representa o desejo que nunca pode ser satisfeito.
O desejo dos seres humanos é muito mais pesado do que todo o ouro e a prata
existentes no mundo.
Ele pediu aos sábios que provassem isso, então eles salpicaram um pouco de poeira
sobre o olho, de modo que não poderia enxergar mais. Imediatamente, perdeu
todo o peso.

Eis aqui a história da criação no nível remez:


O primeiro homem foi criado do pó recolhido dos quatro cantos do mundo.
A humanidade foi criada assim para que uma pessoa nascida no Oriente e que
viesse a morrer no Ocidente não fosse recusada pela terra.
Assim, aonde quer que uma pessoa venha a falecer, o corpo será devolvido à terra.
Além disso, o pó utilizado tinha várias cores: vermelho, para o sangue; preto, para
os intestinos; branco, para os ossos; e verde, para a pele pálida.
O rabino Iehuda disse que Adão (Adam) foi chamado assim porque ele foi tirado da
terra (adamá).
O rabino Joshua, filho de Korah, falou que Adão foi assim chamado porque ele era
feito de carne e sangue (dam).
O rabino Eliezer quis saber que tipo de trabalho o primeiro homem teria de fazer no
jardim. Não havia campos para arar, e as árvores cresciam sozinhas.
Não havia necessidade de regar, pois um rio atravessava o jardim.
Portanto, as instruções dadas por Deus a Adão para "cuidar e mantê-lo" não
deviam se referir a cuidados com o jardim.
Na realidade, significava possivelmente que devemos seguir os ensinamentos da
Torá.
O rabino Eliezer falou: "A Árvore da Vida significa somente a Torá; pois está escrito
em Provérbios (3:18) 'Ela é uma árvore da vida para aqueles que a guardam, e
felizes os que a seguram com força'."
Em outro ponto, o rabino Eliezer descreveu uma metáfora diferente.
Ele disse que a árvore referia-se ao homem, porque se diz em Deuteronômio que "o
homem é uma árvore do campo"
O jardim refere-se à mulher porque é dito no Cântico dos Cânticos: "Um jardim
enclausurado é minha irmã, minha noiva."
Portanto, o centro do jardim sugere o centro da mulher, e o ato de colher o fruto
proibido refere-se a um relacionamento sexual inadequado.

Drash (Buscando, Examinando)


O rabino Meir disse que o fruto da Árvore do Conhecimento do bem e do mal era o
trigo. (A palavra que significa trigo, hita, é parecida com a palavra pecado, het.)
O rabino Judá disse que o fruto era a uva. (As uvas são conhecidas como as frutas
dos deuses.)
O rabino Aba de Acre disse que era a lima. (Uma fruta parecida com o limão — que
evoca um jogo de palavras relacionado ao desejo.)
O rabino José falou que eram figos. (Adão e Eva cobriram-se com folhas de
figueira.)
O rabino Azariá e o rabino Judá, filho do rabino Simão, disseram: "Que os céus não
permitam que nós fiquemos adivinhando qual era o fruto da árvore. O Sagrado não
revelou, de propósito, qual era o tipo de árvore, ou o nome de seu fruto, para que
nunca pudéssemos acusar este fruto de trazer o pecado para a Terra."'
(É interessante notar que nenhum comentário do Talmud ou do Midrash Rabá alude
ao fato de a Árvore do Conhecimento ser uma macieira. Esta idéia provém de
fontes não-judaicas.)
As palavras "homem" e "mulher" são compostas em parte de fogo e de Deus.
A palavra hebraica para homem é ish e, para mulher, é ishá.
Ambas incluem em sua ortografia as letras usadas em fogo (aish), que são alef e
shin.
Além das letras usadas em fogo; homem é soletrado com um yud e mulher, com
um hey.
As novas letras yud e hey são as primeiras duas letras do nome de Deus com
quatro letras: yud-hey-vav-hey. Dessa forma, ensina-se que Deus disse: "Se você
seguir Meus caminhos, Meu nome estará com você; mas, se você não o fizer, Eu
vou retirar Meu nome e você se tornará fogo."
Os quatro rios que correm através do Jardim do Éden provêm das raízes da Árvore
da Vida. Eles separam a região inferior (terra) da região superior (celestial).
As águas inferiores, que têm ligação com a terra, equivalem ao princípio feminino.
As águas superiores representam o princípio masculino
A água é utilizada como um símbolo porque espontaneamente se combina com
outras águas, sugerindo que a separação do céu e da terra é temporária e tudo
será um no mundo vindouro.

Sod (Oculto, Secreto)


Os ensinamentos ocultos da Torá são obtidos a partir de técnicas cabalísticas.
São misteriosos e de difícil compreensão sem uma formação substancial.
Esse é o motivo pelo qual temos tão poucos desses ensinamentos à disposição dos
leitores em geral, e também, por isso, a abordagem mística da história do Jardim
do Éden é raramente transmitida.
Na leitura sod há, na verdade, dois jardins do Éden, um embaixo e outro acima.
Seres santificados permanecem algum tempo no Jardim do Éden inferior após sua
morte e depois são elevados à academia celeste, o jardim superior.
Ainda há uma esfera mais elevada do que o jardim superior, para a qual estes
seres justos finalmente ascendem para banhar-se "em rios orvalhados de bálsamo
puro".
O rio que sai do Jardim do Éden representa a coluna central, das três que formam a
Árvore da Vida cabalística. O Éden é visto na Cabala como sendo o princípio da Mãe
Celestial, e a coluna central representa a presença do Divino na terra, chamada
Shechiná.
A Shechiná (água) é a força que alimenta toda a terra (jardim).
Os quatro rios que provêm do rio único representam as quatro emanações mais
importantes do divino: bondade amorosa (chessed), personificação do arcanjo
Michael; força (guevurá), o arcanjo Gabriel; triunfo (netzach), o arcanjo Uriel; e
grandeza (hod), o arcanjo Rafael.
O mistério do enunciado da oração do Shemá (Shemá Israel, Adonai Eloheinu,
Adonai Ehad —Escuta, Israel, o Senhor é Nosso Deus, o Senhor é Um) — é que ela
atrai um raio de luz de um mundo celestial oculto e o divide em setenta luzes,
representando as setenta nações da criação.
Estas luzes se tornam ramos luminosos da Árvore da Vida.
Quando os setenta ramos são iluminados, esta Árvore, assim como todas as outras
árvores do Jardim do Éden, emanam aromas e perfumes suaves, preparando todas
as polaridades para a união com a Unicidade Divina.
Na Cabala, o ímpeto para essa união, que faz com que o superior e o inferior
tornem-se um só, é a força motriz do processo de criação, o processo de nossas
vidas.

Técnicas Cabalísticas
Insights cabalísticos desafiam constantemente nosso senso de realidade.
Eles nos impulsionam, apresentando-nos a novos portais para os mistérios da
criação.
O olho que Alexandre recebeu foi uma sutil indicação, que ele não compreendeu.
Os sábios lhe falaram do poço sem fundo do desejo humano, mas ele não
reconheceu o olho como um símbolo de sua própria cobiça.
Caso tivesse entendido a mensagem logo no princípio, poderia ter tido permissão
para entrar no jardim.
A Cabala parte do princípio de que há segredos ocultos por toda parte.
Devemos ver sem nossos olhos, ouvir sem nossos ouvidos, saber sem nosso
intelecto.
Se formos capazes de ir além da superfície das aparências, descobriremos os
mistérios da criação.
Isto se aplica particularmente à Torá.
Ela é muitas vezes percebida pelos cabalistas como sendo a mente de Deus.
Tudo o que precisamos é aprender a decodificá-la.
Os cabalistas utilizam uma ampla variedade de ferramentas na busca dos códigos
ocultos. Uma delas é o método analítico da Guemátria, no qual cada letra do
alfabeto hebraico possui um valor numérico.
A primeira letra, alef tem o valor de um; a segunda letra, bet, o valor de dois; e
assim por diante. Após yud, que é igual a dez, os números aumentam por dezenas
até chegar a kuf, que corresponde a cem.
Daí, aumentam por centenas até a última letra, tav, quatrocentos.
Há um certo número de variações nos métodos de guemátria, no sentido da
decodificação da Torá.
Algumas letras recebem forma diferente quando se encontram no final de uma
palavra.
Sua nova forma pode receber valores numéricos diferentes. [Ver Tabela no final
deste Capítulo].

Outra variante consiste na troca da primeira letra do alfabeto, alef, pela última,
tav; em seguida, a segunda, bet, com a penúltima, shin; e assim por diante.
Este método é denominado atbash (alef-tav-bet-shin) e qualquer letra pode ser
trocada por seu par correspondente.Ver Figura abaixo

Obviamente, estas substituições alteram completamente as palavras e o significado


das frases.
O que é mais relevante é que cada palavra é em si um código para outra coisa.
Como vimos, jardim pode significar terra, água pode significar a Presença Divina,
Éden pode denotar mãe.
Os cabalistas são muito criativos em suas tentativas de decifrar os códigos místicos.
Eles consideram que cada ensinamento provém de um outro nível de realidade.
Dessa forma, entende-se que a Torá contém toda a sabedoria da criação.
Cada vez que um código é decifrado, descobrimos algo que não sabíamos.
Portanto, muitos métodos complexos têm sido utilizados neste processo para
obtermos uma lupa com a qual poderemos explorar a tessitura cósmica, fibra por
fibra.

Adão e Eva eram Gémeos Siameses


O primeiro Adão/Eva é chamado pelos cabalistas Adam ha-Rishon (consciência
humana primordial).
Este ser de modo algum se parecia com a forma humana, tal como a conhecemos.
Os sábios da tradição judaica abordaram este ponto de maneira figurada: tinha
dimensões assombrosas, da terra alcançava o céu; ocupava a terra de uma ponta a
outra.
Podia enxergar até os mais longínquos confins do universo, pois naquele tempo
havia a luz chamada Or Ein Sof, a Luz Ilimitada, uma metáfora para a consciência
primordial.
Adam ha-Rishon não enxergava com os olhos; ele via por meio de um "saber
incomensurável".
Como cada um dos seres mortais é uma centelha do Adam ha-Rishon original,
possuímos todos o potencial para perceber tudo que pode ser conhecido neste
universo.
Adão e Eva nasceram simultaneamente, lado a lado, ou de costas um para o outro,
ligados como gêmeos siameses.
Está escrito no Gênesis, "Homem e mulher, Ele os criou".
Em linguagem bíblica, diz-se que, para separá-los, Deus pegou um dos "lados" de
Adão; em linguagem do Zohar, diz-se que "Deus retirou Eva de Adão com uma
serra". (Para aqueles que dizem que Adão e Eva estavam ligados por suas costas,
esse ato de serrar é visto como a causa das protuberâncias que todos os seres
humanos têm ao longo de sua espinha dorsal.)
O Midrash Rabá relata: "Quando o Sagrado criou Adam ha-Rishon, ele era
andrógino. Deus criou Adam ha-Rishon com duas caras e dividiu-o(a) ao meio, de
forma que havia duas costas, uma de um lado e uma do outro lado."
A tese de que Adão e Eva estavam unidos no momento de seu nascimento não é
um segredo cabalístico; isso era debatido abertamente nos antigos textos
midrásticos. Além disso, há dois mil anos, sabia-se que o conceito de que Eva
proviria de uma costela de Adão era um simples mal-entendido.
A Torá não é ambígua neste ponto.
Ela repete uma segunda vez: "Homem e mulher, Ele os criou", e continua, "e os
abençoou, e chamou-os pelo nome de Adão no dia em que foram criados"
Toda vez que a Torá repete alguma coisa, a ênfase sempre sugere implicações mais
profundas.
Aqui, é impossível ignorar que a criação do homem e da mulher foi simultânea.
Só foi depois do "pecado" que Adam ha-Rishon teve seu tamanho reduzido.
Isso significa que Eva e Adão se tornaram entidades separadas enquanto ambos
ainda tinham dimensões gigantescas, isto é, quando ambos podiam enxergar os
confins do universo.
Naturalmente, o Jardim do Éden também era visto como algo enorme.
A Árvore da Vida, no centro do jardim, tinha mais de 19 mil quilômetros de altura e
aproximadamente 80 mil quilômetros de diâmetro.
Algumas fontes midrásticas sugerem que uma pessoa levaria quinhentos anos para
andar no seu diâmetro; isso faria com que tivesse milhões de quilômetros
transversalmente.
Esse tamanho descomunal tem por finalidade sugerir que a Árvore da Vida não
depende de nada; ela abriga debaixo de seus ramos todos os seres vivos, plantas
ou animais.
Embora saibamos hoje que o universo é significativamente maior do que alguns
milhões de quilômetros, os astrônomos da Antigüidade podem ter achado que o
universo inteiro poderia estar circunscrito a um espaço daquela magnitude.
Exageros em tamanho e números são utilizados propositalmente nos ensinamentos
de sabedoria para anular nossas fronteiras mentais.
Tradições místicas, tais como o Budismo e o Hinduísmo, muitas vezes usam o
dispositivo do exagero em seus textos de referência.
Diz-se no Budismo: "Buda terá mil vezes milhões de mundos, igual em número às
areias do Ganges. Haverá uma multidão de bodhisatvas, numa quantidade
incalculável de milhares de miríades de milhões."
Nos relatos indianos, o Rei Nagnajit fornece à sua filha Satya o seguinte dote em
seu casamento com Krishna: "Dez mil vacas, nove mil elefantes, novecentas mil
carruagens, noventa milhões de cavalos [e] nove bilhões de escravos."
E esta foi apenas uma das milhares de esposas com quem Krishna casou!
A incrível magnitude dessas concepções anula os limites de nossa realidade.
Torna-se evidente que os ensinamentos místicos transcendem os processos
mentais normais.
De muitas maneiras, a transposição literal dos relatos bíblicos sobre Adão, Eva e o
Jardim do Éden para dimensões humanas é um grande desserviço que dá lugar a
comparações, projeções e interpretações simplistas que geralmente podem nos
colocar em um caminho de imagens distorcidas e deduções erradas.
O ponto de vista místico, por outro lado, nos coloca diante de parâmetros
diferentes.

Duas Histórias da Criação


Dúvidas essenciais surgem quando lemos a história de Adão e Eva de maneira
literal:
Será que a serpente recebeu instruções de Deus para seduzir Eva?
Se isso é verdade, o castigo infligido por Deus pareceria hipócrita, ou pior,
absolutamente diabólico.
Se a serpente não estava seguindo instruções de Deus, será que ela era
simplesmente uma criadora de casos?
Uma criadora de casos no Jardim do Éden?
Então, isto é um paradoxo.
O Jardim do Éden é um sinônimo de paraíso.
O paraíso não tem criadores de casos. Portanto, a serpente deve, de alguma forma,
ter se beneficiado da conexão com Eva. No cenário místico descrito, a serpente se
beneficia adquirindo vitalidade. O nome de Eva, Chava (em hebraico), significa
vida, pois ela é "a mãe de todos os seres vivos".
Ela possui o poder da vida; todo o universo físico depende dela.
Se a serpente for capaz de se fundir com ela, então a criação física será possível;
se isso não acontecer, então a "fisicalidade", como a conhecemos, nunca ocorrerá.
A natureza intrínseca de Eva, como Mãe Celeste, é dar a vida.
A serpente lhe diz, "Você serão como deuses", o que significa "vocês serão capazes
de criar vida".
Mais tarde, Deus concorda que a serpente não estava mentindo, pois Deus diz que
Adão e Eva "tornaram-se como um de nós".
Isso significa que Adão e Eva eram semelhantes a Deus, pois agora tinham a
habilidade de criar vida.
O Zohar diz, claramente, que o fruto proibido era a sexualidade.
Eva e a serpente tiveram relações sexuais.
Em outras palavras, elas se fundiram.
A matéria agora estava vitalizada. Adão fundiu-se também e adicionou fauna.
E esta é a história da criação fisica, como a conhecemos.
Quem ler a Torá de maneira literal vai desafiar esta interpretação mística com a
idéia mais aceita: de que esta é uma história educativa a respeito de pecado e
castigo. Na verdade, a associação de Eva e da serpente com pecado e castigo é
automática na mitologia ocidental.
Como é que o cabalista responderia a esta objeção?
Quando relemos cuidadosamente o texto que está no início da Torá, vemos que há
duas histórias da criação.
Na primeira, homem e mulher são criados, e lhes é dito "crescei e multiplicai-vos".
Neste capítulo de abertura, que segue assim até o sétimo dia, tudo é agradável e
bonito.
A criação é perfeita, não há problemas no horizonte, e toda a história poderia ser
concluída após a primeira página.
Assim, temos a seguinte maneira para mostrar a criação: perfeita, sem problemas,
utópica.
No entanto, este nível de perfeição é como uma planície com apenas duas
dimensões.
Não tem profundidade, no sentido de que não há um livre-arbítrio real.
Se o universo fosse inteiramente pré condicionado, não haveria potencial para a
criatividade.
Isso é um dos significados do conceito de que a consciência humana foi criada à
imagem de Deus — isto é, nós podemos criar.
A prova dessa criatividade está em confrontar Deus, comendo o fruto.
Isto é a expressão do livre-arbítrio e a fonte de uma criação imperfeita, porém
cheia de vida. Portanto, a Torá conta a história de novo.
Ela volta ao sexto dia e fornece uma nova versão.
Nesse novo relato, o Jardim do Éden é apresentado, e Deus dá ordem a Adam ha-
Rishon para não comer da Árvore do Conhecimento, pois isso poderia, certamente
causar sua morte.
Esta é a afirmação de um fato.
Até este ponto, não havia morte no Jardim do Éden.
A morte nem existia.
De fato, nem o universo físico existia.
Todas as criações encantadoras do jardim não eram físicas.
Pode parecer confuso, pois lemos sobre terra, plantas, mares, pássaros, criaturas e
assim sucessivamente.
Parece ter semelhança com a Terra, como a conhecemos.
Mas, na dimensão mística, o Jardim do Éden está além de qualquer realidade com a
qual possamos entrar em contato em nosso nível atual de consciência.
A história do Jardim do Éden descreve uma situação na qual não há separação,
nem sentido de identidade.
O corpo de Adão e Eva, inicialmente em conjunto, não se parece com nada que nos
seja familiar. Até o conceito de gêmeos siameses é enganoso, porque Adão/Eva não
estavam em uma forma humana no momento em que foram divididos em duas
entidades. Nada tem uma correspondência familiar à nossa maneira de ver o
mundo.
Mas, assim que o universo físico é formado, lemos uma metáfora de que a voz de
Deus "anda" no jardim na brisa do dia. Isto é uma metáfora místico-poética que
indica que uma nova materialidade entrou na criação.
Deus pergunta a Adão e Eva, "Onde estão vocês!" Isto não é uma pergunta.
É retórico: "Vejam onde vocês estão! Vocês estão incorporados, vocês são seres
físicos. Eu avisei que este seria o resultado. Agora, vocês certamente irão morrer."
E o que acontece? Deus dá roupas feitas de pele a Adão e Eva.
Isto significa que eles agora têm um senso de separação.
Este foi o "castigo" do pensamento discriminatório. Houve uma separação; eles
agora se percebiam como seres individuais.
Antes da serpente, o senso de nudez não existia.
Só aparece quando a pessoa tem uma identidade, um sentido de individualidade.
Como metáfora sexual, o ato de comer da Árvore do Conhecimento não é uma ação
singular, como comer uma fruta qualquer. É relacional; dois são necessários para
comer do fruto desta árvore. Quando lemos esta parte cuidadosamente, vemos que
Adão não diz que Eva o forçou a comer, mas sim que ela ofereceu o fruto, e que
ele, por sua própria vontade, o pegou. Isso é mais o reconhecimento da existência
de um relacionamento do que o ato de culpar.
Existe um modo diferente de ler a tradução habitual, na qual Eva diz "a serpente
me enganou (seduziu) e eu comi".
A palavra utilizada aqui para sedução, hishiani, pode ser traduzida de modo a
significar "elevar" ou "içar". Assim, podemos traduzir a mesma frase como: "A
serpente me elevou [a um estado superior] e nós comemos [tivemos relações
sexuais]."
Esta interpretação acrescenta uma dimensão inteiramente nova à história.
Um estado mais alto de consciência foi despertado.
Isto significa que a criação propiciou um novo potencial de consciência.
Comentários básicos da Torá nunca mencionam esta possível leitura sobre Eva e a
serpente. Neste ponto da história, Deus amaldiçoa a serpente.
A leitura é "Você é mais amaldiçoada do que todo o gado e os animais do campo".
Não é curioso? Será que isso significa que todo o gado e outros animais são
amaldiçoados? Por que são amaldiçoados? Se eles não são amaldiçoados, qual é a
importância da maldição que a serpente recebeu?
Seria muito mais forte se Deus, simplesmente, dissesse para a serpente que ela
estava amaldiçoada para sempre.
Essa é uma questão que inquietou muito os comentaristas.
Alguns estudiosos do Talmud sugeriram que a maldição se referia à procriação, e
que o período de gestação de uma serpente seria muito mais longo do que o de
outros animais.
Outros contestam esta linha de raciocínio.
Entretanto, todos concordavam que a maldição, da maneira como estava escrita,
não fazia sentido; na verdade, a maneira como a comparação é feita suavizava o
poder da maldição.
A outra parte da maldição é que a serpente se arrastaria sobre sua barriga e
comeria poeira.
Há milhares de criaturas que se arrastam sobre suas barrigas, e muitas delas vivem
debaixo da superfície da terra. Também estão amaldiçoadas?
Por fim, há sérias controvérsias a respeito do verdadeiro significado e intenção da
maldição; alguns dizem até que não é, de maneira alguma, uma maldição.
A Torá diz que haverá inimizade entre humanos e serpentes; os humanos vão
esmagar as cabeças das serpentes, e as serpentes morderão os calcanhares dos
humanos.
Na Cabala, cabeça e calcanhar são palavras codificadas para épocas no desenrolar
da criação. A cabeça representa a primeira parte de uma era, e o calcanhar
representa o final de uma era.
Segundo esta visão, estamos atualmente na fase do calcanhar de um ciclo de seis
mil anos. Quando este ciclo terminar, uma era messiânica se iniciará.
Esmagar e morder sugerem pontos de transição.
O ato de a serpente morder nossos calcanhares indica que estamos nos
aproximando da realização da consciência messiânica.
Quando pisarmos em sua cabeça, estaremos finalmente entrando na nova era.
A palavra hebraica para serpente (nahash) possui valor numérico igual à palavra
messias (mashiach).
Do ponto de vista cabalístico, a serpente é o veículo para a consciência messiânica.
Assim, a serpente representa muito mais, em termos de misticismo judaico, do que
normalmente se conhece, e um entendimento mais profundo desses ensinamentos
muda completamente nossa visão da história da criação.
Sem a serpente, sem a energização da criação, nunca poderíamos ter a
oportunidade de seguir um caminho que nos levará de volta à nossa Fonte Divina.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 6

Parte Um - O Passado – Ma’asey Bereshit (A Obra da Criação)

Criação Mística
Em setembro de 1981, pouco tempo depois de nosso casamento, Shoshana e eu
fizemos uma viagem a Israel, a fim de decidir se aquele era o lugar onde realmente
gostaríamos de viver e estudar.
Chegamos um pouco antes de Rosh Hashaná e fomos, durante aquele mês,
convidados por várias famílias religiosamente observantes para jantares
comemorativos de Shabat e dos Dias Intensos.
Foi uma experiência maravilhosa em quase todos os sentidos, se não fosse por um
único senão que permeou toda a nossa estada, que nos incomodou profundamente
e quase nos desencorajou a voltar.
Rosh Hashaná é visto como o dia que marca a criação do mundo.
É como se fosse o aniversário de Adão e Eva.
Em nível esotérico, é o dia do julgamento, quando o nome de cada pessoa é
inscrito em um livro celestial, para a vida ou para a morte, no ano que vai começar.
Em uma das primeiras casas que visitamos, minha curiosidade foi provocada
quando Elisha, nosso anfitrião, manteve-se firme na crença fundamentalista de que
Adão e Eva eram pessoas de carne e osso e que a criação tinha ocorrido há 5.742
anos.
De acordo com Elisha, nada existia antes disso.
Achei esta idéia de alguma forma engraçada e disse: "Mas a ciência prova
claramente o contrário: arqueologia, geologia, biologia e astronomia, todas estas
ciências têm métodos para demonstrar que o mundo tem centenas de milhões de
anos."
Elisha disse: "Nenhuma dessas hipóteses científicas pode ser provada
Elas todas dependem de observação. Mas considere isso: E se a criação tiver sido
feita de modo que todos os objetos tenham sido criados ali mesmo?
E cada osso dos supostos animais pré-históricos tenha sido criado simultaneamente
a Adão e Eva, de modo que um teste de carbono radioativo mostraria que tinham
milhões de anos?"
"Você quer dizer", respondi, "que Deus fez uma brincadeira cósmica com a ciência,
e tudo é, na realidade, uma falsificação, a fim de enganar as pessoas, fazendo-as
pensar que o universo tem bilhões de anos, quando, de fato, só tem alguns
milhares de anos!"
"Sim, é exatamente isso o que estou dizendo. Além do mais, não há nada que um
cientista possa fazer para provar em termos absolutos que estou errado."
Discutir com Elisha sobre este ponto seria como discutir sobre se a queda de uma
árvore faz barulho, se ninguém ouviu nada.
Realmente, um ser brincalhão onisciente e onipotente poderia formar qualquer
miragem.
Se isto é assim, não haveria razão para acreditar que alguma coisa tivesse
acontecido há um minuto, e muito menos, há bilhões de anos.
Apesar de tudo, eu estava desconfortável com a visão de Elisha, baseada em um
Deus que empregava um complexo plano enganoso.
Embora seja verdade que um sistema de crenças que põe em dúvida a
"fisicalidade" do mundo material seria útil para nos abrirmos para a consciência
primordial mística, há muitas outras maneiras de sugerir a natureza ilusória de
nossa realidade, sem propor uma fraude deliberada.
Deus como trapaceiro acarretaria uma criação em que, por sua natureza, faltaria a
verdadeira fé como qualidade essencial.
Isto porque não se poderia acreditar em nada em um universo baseado em um
logro.
Elisha não está sozinho em seu posicionamento.
Ele representa uma fração pequena, mas significativa do povo judeu, que mantém
crenças fundamentalistas. É curioso notar que muitos fundamentalistas estão no
centro do que algumas pessoas acreditam ser o Judaísmo "autêntico" e suas
interpretações ou opiniões sobre leis, costumes e rituais são altamente respeitadas.
Portanto, eu estava muito perturbado, pois não poderia recorrer a esse tipo de
pessoa para a minha orientação espiritual.
A Cabala, entretanto, nos ensina de maneira diferente.
Ela diz que a criação não é algo que tenha acontecido em uma determinada época;
a criação está acontecendo o tempo todo.
Está acontecendo agora mesmo.
Há cerca de 5.700 anos, de acordo com o calendário hebraico, a consciência
humana tornou-se uma nova realidade nesta parte do universo.
É a isso que a Torá se refere como Adão e Eva no Jardim do Éden.
É a história da abertura de um novo nível de consciência.
Mas nunca devemos nos referir à criação como uma coisa do passado, pois ela está
em andamento e é constante, um fenômeno incessante.
Isto não impede a constatação de que o universo físico — sob o nosso ponto de
vista — teve um ponto de concepção.
De fato, de acordo com cálculos cabalísticos, o início do universo físico foi há mais
de 15 bilhões de anos.
Mas a Cabala também nos ensina que até mesmo 15 bilhões de anos não são
suficientes, pois o universo, como o conhecemos, não é o primeiro.
Houve outros.
Entretanto, o que importa é que a criação propriamente dita é um processo em
andamento. Então, colocá-la em um espaço limitado de tempo é absurdo — seja a
pessoa um cientista ou um religioso fundamentalista.
Por centenas de anos, cientistas vêm discutindo com teólogos sobre a evolução e o
tempo da criação.
Mas a Cabala é muito mais radical do que a ciência, pois propõe uma série de
criações.
O Sefer Yetzirah, um dos primeiros textos cabalísticos, diz que sete letras
específicas do alfabeto hebraico simbolizam sete universos e sete firmamentos.
São universos que foram criados e destruídos, mas existem opiniões diferentes
sobre em qual universo estamos atualmente vivendo.
O prolífico autor Aryeh Kaplan nos diz: "De acordo com alguns cabalistas, a
presente criação vem a ser a segunda, enquanto outros afirmam que é a sexta ou
sétima."
Por outro lado, muitos universos podem coexistir, pois, uma vez que
transcendemos o universo, tal como o conhecemos, o significado do tempo é
alterado.
Estes conceitos cabalísticos sobre universos múltiplos, lineares ou concomitantes
abrangem essencialmente toda a teoria científica, incluindo a evolução, e vão além
dela.
Criação Contínua
A teoria da criação contínua, sem começo e sem fim, toma por base a idéia de que
existe uma fonte de vida que emana eternamente a energia necessária para tudo o
que existe.
Caso essa fonte de vida fosse contida, mesmo que por apenas uma fração de
segundo, tudo desapareceria.
Significa que toda a humanidade, toda a natureza e toda a criação são sustentados
a cada momento.
É como se a criação fosse uma lâmpada que só fica iluminada enquanto a
eletricidade estiver circulando.
No momento em que desligamos a corrente, a luz se apaga. Quando entramos em
um quarto onde há uma luz acesa, não sabemos quando esta luz foi ligada.
Pode ter sido ligada um instante antes de nossa entrada.
Assim como em uma geladeira, talvez a porta para este lugar tenha um interruptor
embutido que acende a luz quando ela é aberta.
No entanto, sem informação adicional, nada poderemos deduzir do fato de que a
luz estava acesa quando abrimos a porta.
Não importa a rapidez com a qual abrimos a porta para ver se está escuro, a luz
estará sempre acesa quando a porta é aberta.
Imagine que a criação funcione da mesma maneira.
Quando estamos em um quarto escuro e à prova de som, não temos idéia do que
está ocorrendo no mundo, ou até mesmo se existe um mundo.
De fato, perdemos nosso sentido de realidade de maneira tão rápida em uma
situação como esta que não temos meios de saber se o mundo em si existe.
Na verdade, poderíamos estar num caixão, poderíamos estar morrendo, pois num
vazio, sem estímulo algum, não temos base alguma para avaliar a realidade.
Se formos capazes de sair da escuridão e abrir os olhos, poderemos rapidamente
reconstruir nossa base de realidade.
Durante este instante, ao reformularmos nosso mundo, seria como se a criação se
apresentasse nova em folha.
Agora imagine que, a cada vez que piscamos os olhos, caímos em um estado
mental de estar em um quarto isolado.
Cada vez que abrimos os olhos, vivenciamos a criação de forma nova.
Supondo que poderíamos piscar milhares de vezes por segundo, a criação pareceria
estar sempre começando.
Isto é realmente assim.
Olhe em volta.
Enquanto você olha para alguma coisa, tente imaginar que, de um momento para o
outro, ela está recebendo sua forma e sua substância do centro do universo.
Se esta fonte for desligada, tudo estaria acabado em um piscar de olhos.
Tudo o que vemos, tudo o que sabemos, poderia evaporar-se a qualquer momento.
A ciência moderna apresenta esta idéia no Princípio da Incerteza de Heisenberg.
Ele sugere que nunca sabemos se a existência de uma forma vai persistir, ou se
algo vai, instantaneamente, tomar uma forma completamente nova.
Na realidade, ainda que existam poucas verdades absolutas nesta criação, uma
delas é que as coisas estão em mudança constante.
Isto significa que nunca temos certeza, de um momento para o outro, se o fluxo
ininterrupto da criação se manterá.
Este conceito do fluxo contínuo da criação altera completamente a maneira como
vemos as coisas.
Quando temos um senso de substância e solidez, ficamos mais propensos a
acreditar no passado e no futuro.
A História tem uma dimensão importante em nossa realidade, e baseamos nossas
vidas em nossas próprias experiências, e também nas dos outros.
A teoria da criação contínua, entretanto, nos leva a um relacionamento com a vida
que místicos do mundo inteiro sugerem ser a realidade definitiva: só existe o
agora.
No Judaísmo, a dimensão adicional, certamente, é que o Agora está, como se diz,
na mão de Deus.
A dimensão deste momento é inteiramente sustentada pela natureza do Divino.
Assim, há um relacionamento vital entre Deus e cada aspecto da criação.
Cada uma de minhas respirações é iniciada, sustentada e nutrida pelo poder da
criação.
Cada evento é permeado pelo milagre da Presença Divina.
A Cabala e a Teoria do Big Bang
A visão cabalística de uma criação contínua diverge da fisica teórica moderna, que
atualmente segue a teoria do Big Bang.
O conceito do Big Bang postula que algo aconteceu, muitos bilhões de anos atrás, e
que instantaneamente se expandiu em um universo primordial.
De acordo com essa teoria, nosso universo continua a se expandir a partir do
impulso inicial.
A idéia de que a criação tenha ocorrido no passado nos leva à suposição de uma
distância no tempo entre o ato da criação e nossa vivência atual.
Implica distância física entre nossa localização no espaço e a força criativa.
Desse modo, a realidade na qual vivemos, em seus limites de tempo e espaço, nos
leva à noção equivocada de separação entre nós e a fonte da vida.
A crença em um estado de separação nos leva, muitas vezes, à perda da esperança
e a sensações de isolamento, que podem manifestar-se como alienação e
desespero.
Quase todas as dificuldades vivenciadas na busca espiritual estão relacionadas à
sensação de isolamento, diferente dos outros, desconectado da fonte da vida.
O misticismo da tradição judaica aborda o tema da sensação de estar só no cosmo,
questionando nossa compreensão essencial a respeito da criação.
A partir do momento em que percebemos e estabelecemos um relacionamento
íntimo com Deus, que é contínuo e preenche cada momento, nunca mais nos
sentiremos sós.
A visão mística sugere que este relacionamento é indispensável a ambos os lados,
pois tanto o Criador quanto a criação revelam-se simultaneamente.
Por exemplo, tanto um pai como uma mãe são definidos por seu filho.
Sem um filho, a pessoa não é mãe ou pai, e vice-versa.
Não há doador sem haver um receptor, e não podemos receber se nada nos é
dado.
Nada é separado, exceto pelo "senso" de separação, um sentimento que é
facilmente refutado.
Na verdade, se fôssemos separados da fonte da vida, não poderíamos existir.
O problema com a teoria do Big Bang é que ela sugere que alguma coisa aconteceu
no passado, uma explosão de energia, que continuou com sua própria força por
bilhões de anos.
Mas, na esfera do Divino, não existem o passado ou o futuro como os conhecemos.
Além do mais, a expansão, segundo a teoria do Big Bang, seria algo previsível, ao
passo que os místicos da tradição judaica crêem que a criação é sempre incerta.
Na verdade, o Big Bang é uma contínua emanação criativa.
O universo se equilibra constantemente sobre uma relação simbiótica entre o
Criador e a criação, cada um sendo parte integral da continuação do universo.
Se cada parte da relação deixa de nutrir a outra parte, o conjunto todo faz uma
parada súbita.
Por outro lado, a interação contínua entre o Criador e a criação define e nutre cada
momento — e cada momento, por sua vez, é outro impulso do Big Bang.
Um dos grandes mestres hassídicos do século XVIII, Reb Levi Isaac, de B erdichev,
escreveu: "A radiação contínua da força do Criador nunca deixa o mundo: a cada
instante, essas emanações [vitais] se irradiam para a Sua criação, para todos os
mundos, para todos os palácios (domínios de consciência mais elevada) e para
todos os anjos."'

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 7

Parte Um - O Passado – Ma’asey Bereshit (A Obra da Criação)

A Natureza de Deus – Parte 1


O que é Deus?
De certa forma, não há Deus.
Nossa percepção de Deus geralmente nos leva a um mal-entendido que pode abalar
seriamente nosso desenvolvimento espiritual.
Deus não é o que pensamos que Ele seja.
Deus não é uma coisa, um ser, um substantivo.
Ele não existe, na forma que definimos existência, pois Ele não ocupa espaço e não
está limitado pelo tempo.
Muitas vezes, os místicos da tradição judaica se referem a Ele como Ein Sof, que
significa Sem-Fim.
Ein Sof nunca deve ser conceituado de forma alguma.
Nunca deve ser chamado de Criador, Todo-Poderoso, Pai, Mãe, Infinito, o Um,
Brahma, Mente de Buda, Alá, Adonai, Elohim, El ou Shadai.
Quando O chamamos Deus, de que estamos falando?
Quando dizemos que Ele é misericordioso, cheio de bondade amorosa, fonte do
amor, podemos estar falando da imagem daquilo que pensamos que a natureza
divina deva ser, mas não estamos falando de Ein Sof
Da mesma forma, se dissermos que o Deus retratado na Bíblia é vingativo,
ciumento, irado, cruel, insensível ou punitivo, não podemos estar nos referindo a
Ein Sof
Ein Sof inclui cada atributo, mas não pode ser definido por nenhum deles
individualmente ou pela combinação de todos eles.

O mistério da origem do universo tem fascinado a consciência humana desde o


princípio da história registrada.
Em todas as culturas do mundo, encontramos questionamentos atemporais:
Será que existe um Criador e, em caso afirmativo, qual a sua natureza?
Se não existe, como foi que a criação se iniciou, e qual é o seu propósito?
Os místicos ensinam que existe uma conexão universal entre todas as coisas; a
ciência moderna fornece a mesma mensagem.
Esta conexão tem vários nomes.
Uns dizem que é a força da alma, outros a chamam amor; os antigos a chamavam
de éter, a ciência muitas vezes a chama de energia.
Ainda que todos concordem em que parece haver uma natureza fundamental no
desenrolar contínuo do universo, nossa relação como centro dessa natureza tem
sido motivo de notáveis polêmicas.
Místicos da tradição judaica estão particularmente preocupados em dar um nome a
"Ele", à conexão universal.
As pessoas confundem nomes com identidades.
Muitas pessoas de culturas primitivas têm nomes secretos.
Elas não irão lhe dizer seu nome por recear que você possa adquirir poder sobre
elas.
Da mesma forma, não deixarão que você tire um retrato delas.
Pessoas de mentalidade primitiva pensam que sua essência pode ser captada e
aprisionada se alguém tiver controle sobre seu nome ou imagem.
Dar um nome ao que é inominado é um obstáculo em que muitos tropeçam.
Achamos que, se algo tem um nome, então tem uma identidade.
Uma identidade é acompanhada de atributos.
Então, pensamos que sabemos alguma coisa.
Mas isso é um erro.
Por alguns milhares de anos, este erro ficou impregnado na psique humana.
A palavra "Deus" sugere uma corporificação de alguma coisa que pode ser
apreendida.
Demos um nome para o Desconhecido e Incognoscível, e depois passamos um
tempo infinito tentando conhecê-Lo.
Tentamos, pois Ele tem um nome; mas sempre falharemos porque é incognoscível.
O Judaísmo está tão preocupado com esse mal-entendido que faz de tudo para
evitar nomear Deus.
Apesar disso, vários nomes se infiltram porque nossas mentes não funcionam sem
símbolos.
Então, o que é o Deus sobre quem se fala na Bíblia?

Os cabalistas ensinam que a primeira linha do Gênesis foi mal traduzida.


A maioria acha que é: "No começo, Deus criou os céus e a Terra."
Mas as palavras verdadeiras, em hebraico, podem ser lidas de outra maneira.
Um cabalista diria: "Com um começo, [Ele] criou Deus (Elohim), os céus e a Terra."
Em outras palavras, do Nada foi criado o potencial para começar — o Começo.
Uma vez que havia um começo, Deus (em uma forma plural) foi criado — um Deus
com o qual a criação poderia se relacionar.
Então, os céus e a Terra foram criados.
Essa interpretação afeta profundamente todo o nosso relacionamento com Deus e a
criação, pois ela significa que todos os nomes que temos para Deus, e todas as
maneiras com as quais nos relacionamos com Deus, estão aquém da fonte da
criação, que precede até o Nada.
Esta é chamada de Ein Sof, que não é o nome de uma coisa, mas sim um processo
contínuo.

Eln Sof
A noção de Ein Sof foi descrita pela primeira vez pelo cabalista do século XII, Isaac,
o Cego.
Ele ensinou que Ein Sof precede o pensamento (machshavah), e até mesmo
precede o Nada (ayin), de onde nasce o pensamento.
O Nada é visto como um nível de consciência primordial que é o resultado da
"aniquilação do pensamento”
Claro está que a idéia de aniquilação do pensamento é um paradoxo.
Será que podemos imaginar um vazio sem começo e sem fim?
Podemos nós, limitados por mentes finitas, imaginar o infinito?
A resposta é: não, não podemos pensar no Nada.
Tudo que podemos imaginar tem algum tipo de linha de fronteira — os cabalistas a
chamam de vestimenta ou vaso — as fronteiras são os recipientes.
Todos os pensamentos, inclusive a imaginação, são vestimentas ou vasos.
Por definição, uma fronteira estabelece limites.
Podemos ser capazes de dar um nome ao infinito, podemos desenhar o símbolo do
número 8 deitado e dizer que ele representa o infinito, mas não importa o quanto
acreditamos que nossa imaginação é ilimitada, continuamos confinados dentro das
fronteiras de nossa própria realidade.
Se algo pode ser imaginado, não é infinito.
Se o infinito está além da imaginação, então o que diremos sobre o que transcende
o infinito — sobre quem o criou?
Ein Sof não está "restrito" pelo infinito.
Na verdade, de repente, ficamos sem palavras, pois a idéia de "trans-infinito" é um
absurdo lógico.
O que pode estar além do infinito?
Além disso, o que pode estar além do Nada que cerca o infinito?
Isto é Ein Sof.
Apesar de termos informação de que Ein Sof é inacessível por qualquer meio
intelectual, podemos ainda nos perguntar se existe um "saber" que transcende o
intelecto.
Será que Isaac, o Cego, tinha acesso a um nível de consciência primordial por meio
do qual poderia, de algum modo, intuir o imperceptível?
A resposta é afirmativa.

O misticismo da tradição judaica nos ensina que podemos conhecer Ein Sof por
caminhos que transcendem o pensamento.
Este aspecto do desenvolvimento de uma relação com o Sem-fim, a fonte da
criação, é a chave para toda a Cabala e o elemento vital de toda a prática judaica.
A instrução secreta para o desenvolvimento desta relação com o Incognoscível está
oculta nos fundamentos místicos da própria natureza desse relacionamento.
A palavra "Deus" e cada um de Seus vários nomes dentro da tradição judaica, tais
como El, Elohim, Adonai, Shadai etc., representam aspectos de Ein Sof
A análise desses aspectos nos fornece insights sobre a natureza de Ein Sof
Portanto, sempre que tratarmos de Deus nestes textos, não estaremos falando de
uma coisa em si, mas da representação de um mistério muito mais profundo.

O Beijo Divino
No Cântico dos Cânticos, a personagem mística suspira sobre o beijo de seu
amante:
"Beije-me ele com os beijos de sua boca; porque melhor é o seu amor do que o
vinho."
Podemos sentir o coração cheio de ansiedade da amante:
"Estou doente de amor, sua mão esquerda está sob minha cabeça e com a direita
ele me abraça."
Nós vivenciamos uma emoção de antecipação: "Meu amado abriu com sua mão a
fresta da porta e meu coração estremeceu por amor a ele. Eu me levantei para
abrir ao meu amado."
"Ah", dizemos, "a paixão do amor juvenil!"

Mas este não é um poema sobre jovens amantes.


É sobre todos os seres humanos, e descreve o relacionamento potencial com o
Divino.
Talvez você não acredite nisso; talvez você ache que ter uma relação íntima com o
Divino é algo que você não merece, que está reservado para os outros ou para uma
outra vida.
Mas não é assim.
Isto faz parte de nossa herança; está ao nosso alcance.
Tudo que precisamos é aprender a deixar de ter medo, pois é o medo que mantém
as barreiras da separação.
Em muitas tradições, a expressão mística de nossa relação com o Divino se dá por
intermédio de Eros, a chama do coração ardente.
Por quê?
A resposta é que, quando despertamos para o entendimento de que a presença de
Deus é revelada na plenitude de cada momento, nossos corações se enternecem e
as comportas de nossos anseios mais profundos se abrem.
Esta é uma compreensão intuitiva.
Não pode ser racionalmente explicada.
Apesar de não podermos atravessar a barreira entre nós e o que está além do
infinito, podemos vivenciar, nas profundezas de nosso ser, a compreensão de que,
a cada passo, o Divino nos acompanha; cada respiração está conectada com a
respiração do universo; e que amante, amado e a própria essência do amor são, no
fundo, o reflexo da mesma coisa.
Em cada um desses momentos, "percebemos" a presença do Divino, e não há
separação.
Um dos grandes místicos da tradição judaica, no século XIII, Abraão Abulafia, falou
sobre pessoas que alcançaram este nível de consciência espiritual:
"Agora, não estamos mais separados de nossa fonte, e veja, nós somos a fonte, e a
fonte somos nós. Estamos tão intimamente unidos com Ele que não podemos, de
maneira alguma, estar separados Dele, pois somos Ele.”
Há uma encantadora história sufi sobre um homem que constantemente clamava
por Deus, mas não obtinha resposta.
Um pouco mais tarde, o diabo sussurrou para este homem: "Por quanto tempo
você ainda vai esperar para Deus responder 'Aqui estou' a todas as suas súplicas?"
Isto abateu o homem e ele parou de clamar a Deus.
Entretanto, em um sonho ele vislumbrou a imagem do Divino, que lhe perguntou
por que havia cessado de chamar. O homem respondeu que Deus nunca respondia
a seu chamado. A sábia imagem do sonho, que representava Deus, respondeu:
"Você não entendeu que cada um de seus clamores Eram a minha própria
resposta?"
O desejo de chamar por Deus é sempre respondido assim que é proferido, pois, no
fundo, não há diferença entre o que chama e o que é chamado.
O Kotzker rebbe, Menachem Mendel, notório mestre hassídico do século XIX, que
viveu seus últimos vinte anos em reclusão voluntária, perguntou a um de seus
alunos: "Onde é que Deus mora?"
Enquanto os alunos falhavam em suas tentativas de dar uma resposta, o Kotzker
rebbe respondeu à sua própria pergunta: "Deus mora onde quer que o deixemos
entrar!"
Místicos, ao longo dos tempos, em todas as tradições, disseram a mesma coisa.
Não precisamos procurar por Deus porque a presença do Divino permeia tudo.
Se, afinal, existe uma busca, é, por assim dizer, de Deus à procura de Si mesmo.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 8

Parte Um - O Passado – Ma’asey Bereshit (A Obra da Criação)

A Natureza de Deus – Parte 2

Deus-Em-Processo
Quando pensamos em Deus, a descrição mais próxima seria que Deus não é um
ser, mas sim um processo.
Podemos pensar Nele como "sendo", como um verbo, e não como um substantivo.
Talvez entenderíamos melhor este conceito se dessemos um outro nome a Deus.
Poderíamos chamá-lo "Deus-em-processo", em vez de Deus, que sugere um
substantivo.
Esta idéia foi desenvolvida pelo rabino Zalman Schachter-Shalomi, que explica que
esse tipo de conceito implícito em "Deus-em-processo" é diferente daqueles
utilizados em nossa linguagem habitual.
A maioria dos nossos verbos é considerada transitiva, quando pede um objeto
direto, ou intransitiva, quando não.
Ele sugere que "Deus-em-processo" é como se fosse um verbo mutuamente
interativo que gera interdependência entre os dois sujeitos da oração, cada um
deles sendo o objeto direto do outro.
Por exemplo, "comunicando" poderia ser um verbo desse tipo.
Se eu estivesse falando em público, poderia não estar me comunicando.
Eu poderia estar ocupado com o ato da comunicação, mas, se os membros da
audiência não estivessem atentos, pensando em outras coisas, eu não estaria me
comunicando, não importa o quanto falasse.
Minha comunicação verbal depende de um ouvinte; ela não é uma via de mão
única.
Outros verbos óbvios que se ajustam a essa categoria são amar, compartilhar,
dançar, beijar, abraçar e assim por diante.
Podemos nos relacionar com Deus como se fosse um verbo interativo: é Deus-em-
processo.
Além do mais, nesse ponto de vista, a criação não deve ser tratada como um
substantivo. Também é um verbo interativo, pois está se criando constantemente.
E, querido leitor, você não deve se tratar pessoalmente como um substantivo —
como Joana, Guilherme, Bárbara ou João.
Da mesma forma que Deus é um verbo interativo, vocês também são ações; vocês
são Joana-em-processo, Guilherme-em-processo, Bárbara-em-processo e João-em-
processo em relação a Deus-em-processo, assim como eu sou David-em-processo.
Cada parte do universo encontra-se em um relacionamento dinâmico com todas as
outras partes.
Em outras interações humanas, tal como o casamento, um parceiro é o marido-em-
processo, enquanto o outro é a mulher-em-processo.
Os dois, nesse sentido, são um só.
Normalmente, vivenciamos relacionamentos em termos de suas partes
componentes.
Estamos errados, portanto, quando achamos que as partes estão separadas.

É importante lembrar que o conceito de Deus-em-processo é um caminho para


estabelecermos um relacionamento com o Divino, que não deve ser entendido
como um relacionamento com Ein Sof
Muitos nomes de Deus estão incluídos em Ein Sof; Deus-em-processo é um nome
— um nome que é como um verbo, uma ação, e não um substantivo.
A verdadeira descoberta da intimidade existente nesta nossa relação contínua com
o Divino pode mudar nossas vidas de maneira fantástica.
Às vezes, isso acontece espontaneamente, sem razão aparente.
Alguns chamam esta vivência de "graça".
Ela surge do nada.
Você poderia estar sentado na praia, andando num bosque, cuidando de uma
pessoa que está morrendo, até mesmo dirigindo por uma estrada e, de repente,
você se sente inundado por uma luz estranha que permeia sua consciência, e você
nunca mais será o mesmo.
Há inúmeros relatos sobre como tais transformações e vivências de conversão
mudaram o mundo.
Às vezes, indivíduos passam a dedicar-se à vida espiritual devido a esse tipo de
experiência.
Por outro lado, a maioria das pessoas que assume compromissos espirituais, assim
o faz porque anseia por uma conexão com a verdade e o sentido da vida.
Este compromisso geralmente envolve a obrigação de uma série de práticas que se
tornam parte da vida cotidiana de cada um.
Podem incluir meditação, orações, movimentos, estilos de alimentação, privações,
períodos de isolamento, mantras, cerimônias religiosas, atos de bondade amorosa e
muitas outras técnicas testadas ao longo dos anos, que podem mudar nossas
percepções.
Finalmente, quando as prioridades do praticante tornam-se claras, uma luz de
consciência primordial lentamente se ilumina e sua percepção da realidade vai
mudando, de forma consistente.
No caminho espiritual, tanto por intermédio de insights, que nos chegam como um
relâmpago, quanto pelo progresso lento porém firme da prática continuada, vamos
ganhando sabedoria.
Não se trata de conhecimento intelectual, mas de sabedoria — um conhecimento
profundo — inexplicável, indescritível e admirável, além da imaginação.
Esta sabedoria é a fonte da vivência mística, a força motriz de toda busca
espiritual.
É o que nos sustenta quando enfrentamos dúvidas, que nos alimenta quando o
mundo nos parece desolado e nos conforta quando somos confrontados com a
morte de entes queridos.
Sem ela, para onde nos voltaríamos?
Onde estaríamos sem a impressionante grandeza do incognoscível Deus?
Não há resposta a essa pergunta; nada podemos provar sobre Ein Sof.
Mas esta é uma pergunta que volta para si mesma.
Apesar disso, quando percebida sob a perspectiva do nosso relacionamento
dinâmico com o Divino, é uma pergunta que já inclui uma resposta, devido ao
seguinte paradoxo: a fonte da pergunta é a própria resposta que a pergunta
procura.
"O que seria eu sem Deus?" Considere esta pergunta como vinda de sua
consciência primordial interna. Não de você, o substantivo, a pessoa que você
pensa que é, mas de você, o verbo, o processo de estar em uma relação completa
e contínua com seu criador.
Quando uma pergunta surge dentro de você, quem está fazendo a pergunta e para
quem esta pergunta é feita?
Suponha que não exista um "eu" para fazer a pergunta, e não há um Deus lá fora
para respondê-la.
A pergunta é parte da ação de David-em-processo e Deus-em-processo.
Em um desenrolar mútuo.
Tente fazer isso de modo a dissolver todas as barreiras de separação.
Não há sujeito nem objeto.
Simplesmente um processo que está sempre começando.
Não há passado, nem futuro, só o Agora.
Cada momento é uma nova abertura.
Cada respiração e cada movimento ocorrem apenas no Agora.
Esta é minha dança com Deus-em-processo.
É uma extraordinária experiência de vida.
A reverência leva à sabedoria.
Uma linha dos Salmos é citada na abertura das orações matutinas judaicas:
"O início da sabedoria está no temor (e na reverência) a Y-H-V-H (o tetragrama,
um dos principais nomes não nomeados de Deus)."
Este Y-H-V-H é, muitas vezes, referido como Hashem, o Nome.
Não queremos dar-Lhe um nome, então O chamamos de o Nome.
É impressionante demais para ser nomeado.
Ainda assim, vivenciamos este temor respeitoso, esta reverência.

Pare por alguns momentos, feche os olhos e se permita mergulhar nesta idéia.
Meditar neste pensamento: o mistério do Ein Sof nos ensina que o centro do nosso
ser, de onde o temor surge, é o que nos impressiona.
É Ele!
Quando contemplamos nosso processo contínuo de abertura, aqui mesmo, agora
mesmo, entendemos que Deus-em-processo está sempre conosco.

O Zohar afirma: "Antes que figura e forma fossem criadas, Ele (Ein Sof) não tinha
nem forma nem aparência. Portanto, é proibido percebê-Lo de qualquer forma, até
mesmo pelas letras de Seu santo nome, ou por qualquer outro símbolo.
Entretanto, se Seu brilho e Sua glória não tivessem irradiado por toda a criação,
como poderia ter sido percebido, até mesmo pelos sábios?
Portanto, Ele desceu numa carruagem [mística], que ficou conhecida com as letras
Y-H-V-H, para que pudéssemos inferir Sua Presença, e, por esse motivo, Ele
permite que O chamemos por vários nomes, tais como El, Elohim, Shadai, Zevaot e
Y-H-V-H [entre outros, e também como Deus], cada um sendo um símbolo de
atributos divinos. Todavia, ai de quem se atreva a comparar Ein Sof com qualquer
atributo, pois Ele é ilimitado, e não há meios de compreendê-Lo."

Outro ensinamento do Zohar diz que: "Tudo aquilo que está no pensamento [de Ein
Sof] é inconcebível. Mais difícil ainda para qualquer pessoa seria entender Ein Sof;
de quem não se encontra vestígio e que não pode ser alcançado por qualquer tipo
de pensamento. Ainda assim, do meio deste mistério impenetrável, a primeira vez
que sentimos Ein Sof (seja o que for que nos fornece insight a respeito Dele) é
como o brilho de uma luz fraca e difusa, como a ponta de uma agulha, o oculto
desvão de um pensamento impossível de ser reconhecido até que uma luz Dele se
origine, onde existe uma marca de letras."
O Incognoscível pode ser discernido.
Começando num ponto indefinido, como a ponta de uma agulha, Ele irradia-se de
várias maneiras que podem ser percebidas — somente no contexto do processo e
interação.
Não somos uma audiência assistindo ao desempenho de Deus-em-processo num
palco. Nós mesmos estamos neste palco.
Misteriosamente, começamos a ter um vislumbre de Deus-em-processo quando
somos bem-sucedidos em nos fundir com o processo contínuo do desenrolar da
criação.
Nossa própria vivência de Deus-em-processo não é algo que possa ser lido num
livro. Vem a ser um tipo de revelação diferente daquela descrita pelos antigos
profetas.
Talvez algumas pessoas ainda sejam capazes de ouvir uma voz que ruge dos céus.
Mas isto é raro e, na verdade, até o Talmud tem sérios questionamentos sobre sua
veracidade.
Entretanto, não precisamos ser profetas para vivenciar Deus-em-processo.
Está em toda parte à nossa volta e é um aspecto de tudo o que fazemos.
Surge quando encontramos, repetidamente, a qualidade mágica da vida, a incrível
mescia e diversidade das experiências, a maravilhosa revelação da natureza, a
complexidade de nossas mentes e, acima de tudo, a reverência, o temor profundo
que vivenciamos quando percebemos a enormidade do universo.
De alguma forma, o próprio temor nos atrai para o centro da criação.
Em algum momento nos fundimos com ele.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 9

Parte Um - O Passado – Ma’asey Bereshit (A Obra da Criação)

A Natureza de Deus – Parte Final

Co-Participação com Deus-Em-Processo


Enquanto nosso relacionamento com Deus for de Pai para filho, estaremos
mantendo um modelo paternalista, que funciona mal, em que "Papai sabe tudo".
Não somente continuamos alienados, com um senso de abandono, como abrimos
mão de nossa responsabilidade pessoal.
Achamos que o Pai vai cuidar de tudo.
O Talmud registra a maravilhosa história de um debate sobre um aspecto esotérico
da lei, no qual um sábio, rabino Eliezer, se defendeu sozinho de vários outros
sábios.
Ele tentou apresentar todos os argumentos que podia imaginar a fim de convencer
seus pares, mas tudo foi em vão. Por fim, irritado, ele disse: "Se a Lei (Deus)
concorda comigo, faça com que esta árvore prove que estou certo."
Nesse momento, a árvore saiu voando do chão.
Uns dizem que se moveu cerca de 45 metros, outros, cerca de 180 metros.
Mas os sábios não ficaram convencidos e responderam: "Você não pode provar
nada com uma árvore."
Então, o rabino Eliezer disse: "Se a Lei concorda comigo, faça com que esse
córrego prove que estou certo" e, logo em seguida, o córrego inverteu sua direção
e começou a correr morro acima.
Os sábios novamente responderam: "Um córrego não pode provar nada."
O rabino Eliezer persistiu. "Se a Lei concorda comigo, faça com que as paredes da
escola provem que estou certo."
Conta-se que as paredes da escola começaram a se inclinar para dentro, mas,
antes que caíssem, outro sábio, rabino Joshua, gritou para as paredes, dizendo:
"Quando estudiosos estão envolvidos numa discussão sobre a Lei, que direito vocês
têm de interferir?"
Em resposta a isso, as paredes cessaram de se inclinar para dentro.
Conta-se que, em honra ao rabino Eliezer, elas nunca mais ficaram completamente
na vertical.
Mas, em honra ao rabino Joshua, elas não caíram.
A história não termina aqui.
O rabino Eliezer teimosamente gritou: "Se a Lei concorda comigo, faça com que os
céus provem que estou certo!" Neste momento, uma bat kol, uma voz celestial,
rugiu para todos os estudiosos: "Por que vocês estão discutindo com o rabino
Eliezer? Vocês não sabem que a Lei sempre concorda com ele?"
Poderíamos pensar que isto seria suficiente para que os sábios mudassem de idéia,
mas não foi assim.
Nesse ponto, o rabino se levantou e citou um verso do Deuteronômio:
"O mandamento que eu lhes dou não está escondido nem está distante de vocês.
Não está no céu para que vocês não digam 'Quem irá até os céus para trazê-lo para
nós, para que possamos ouvi-lo e cumpri-lo?'. Nem está além do mar, para que
vocês não digam, 'Quem irá atravessar o mar e trazê-lo para nós, para que
possamos ouvi-lo e cumpri-lo?'. Mas a palavra está muito perto de vocês, está em
suas bocas e em seus corações, para que vocês possam cumpri-la."
A posição do rabino Joshua era que a Torá tinha sido entregue a Moisés no Monte
Sinai, para que os assuntos terrestres ficassem no domínio da humanidade, e o céu
não deveria interferir.
Esta surpreendente afirmação do Talmud lembra que a razão humana tem
precedência sobre os mandamentos celestiais.
Ela declara enfaticamente sua completa independência na interpretação das leis de
Moisés. De várias maneiras, é uma prova definitiva a favor de um livre-arbítrio
total.
Os sábios votaram e derrotaram o rabino Eliezer, apesar do fato de Deus estar
nitidamente a seu favor!
O Talmud segue registrando uma conversa entre o rabino Nathan e o profeta Elias,
que falava com ele do céu.
Elias freqüentemente conversava com sábios, quando estes estavam sonhando ou
em estados alterados. Durante a conversa, o rabino Nathan perguntou o que o
Sagrado estava fazendo na hora do debate entre o rabino Eliezer e os sábios.
Elias respondeu que o Sagrado rira e dissera à legião de anjos (com um prazer
evidente): "Meus filhos me derrotaram!"
O Judaísmo é conhecido por sua chutzpah (audácia) no relacionamento com a força
criativa.
A Torá descreve muitos acontecimentos bíblicos nos quais Abraão e Moisés,
repetidas vezes, discutem com Deus até conseguir o que querem; isto até que Deus
mude de idéia, por assim dizer.
Além do mais, comentaristas bíblicos depreciam Noé porque ele não discutiu com
Deus sobre a destruição do mundo, mas docilmente construiu a arca, como lhe fora
ordenado.
Evidentemente, no Judaísmo, a palavra de Deus nunca foi vista como um decreto
final, mas sim como uma intenção divina que pode ser discutida, e em alguns
casos, revertida.
De acordo com a Cabala, o elo de união de nossa relação com Deus está
fundamentado na crença de que os seres humanos têm capacidade criativa para
intervir no curso "normal" dos acontecimentos.
Uma só palavra, um gesto ou um pensamento podem mudar a direção do processo
criativo.
Sendo assim, somos levados a concluir que os seres humanos têm um papel co-
criativo.
O livre-arbítrio é o ponto essencial sobre o qual tudo se equilibra para que a criação
possa criar-em-processo.
Ao longo dos tempos, teólogos têm debatido se os seres humanos têm, ou não,
habilidade de poder escolher livremente.
Esse tem sido um ponto-chave porque o livre-arbítrio pode dar a entender que
Deus não controla o universo.
Se Deus está no controle, então não somos realmente livres para escolher; Deus
sempre "sabe" o que vamos fazer. Se realmente temos opção de escolha e Deus
não "sabe", então Deus está deixando de receber informações essenciais.
A Torá se ergue sobre os alicerces do livre-arbítrio da humanidade.
A história de Adão e Eva no Jardim do Éden é uma descrição da livre escolha.
Desse ponto em diante, cada história bíblica envolve livre escolha.
Temos consciência humana.
É-nos dito que atos de bondade amorosa vão, em algum momento futuro, fazer
com que todos nesse mundo alcancem um nível de consciência mais elevado.
Temos a escolha de realizar, ou não, estas ações.
É-nos dito que uma palavra indelicada pode desencadear coisas que, por sua vez,
podem provocar grandes males e sofrimento no mundo.
Podemos escolher de que maneira vamos falar
Ainda mais, quando o místico sugere que nossas rezas podem mudar o resultado
dos acontecimentos, nosso comportamento pode influenciar até o grau de paz no
mundo, ou ainda que nossa observância a antigos rituais pode levar cura às almas
de outras dimensões.
Agora, imagine só o peso que carregamos sendo pessoas responsáveis e
conscientes do processo.
Nada é inconseqüente.
Cada grão de areia possui segredos incríveis.
Cada acontecimento contém mensagens misteriosas.
Cada encontro com outro ser representa um ponto de contato sobre o qual o
universo gira.
Quando nos colocamos nesse estado mental, a realidade, como a vemos, torna-se
uma grande oportunidade para vivenciar a interconexão de toda a criação.
Sob essa perspectiva, conseguimos compreender que cada peça é essencial ao
desenrolar da criação, inclusive nós.
Livre-arbítrio e processo andam lado a lado.
Quando estamos emaranhados na ilusão da separação, presos na armadilha do
sentido dos nossos "eus", não somos capazes de vivenciar o processo de interação.
Não entendemos isso porque "o eu" e "o outro" são coisas distintas.
Se, entretanto, formos capazes de fazer a mediação dessa "autoconsciência",
poderemos entrar na dimensão do Agora, onde tudo está conectado e funcionando
em conjunto.
Quando reunimos essas idéias todas, o paradigma da relação entre o Criador e a
criação muda de forma radical.
Deus é Deus-em-processo, a criação é criação-em-processo, todos os aspectos da
criação estão em processo e continuamente desabrochando como uma flor infinita
abrindo suas pétalas.
Nessa realidade, "saber" é um fenômeno que ocorre de momento a momento, o
passado e o futuro estão unicamente em nossas mentes, somos co-partícipes com
Deus-em-processo no processo cósmico e cada pessoa tem plena liberdade de
escolha para mudar o universo.
Nada que fazemos, dizemos ou pensamos é destituído de conseqüência; cada ação
afeta não somente esta realidade, mas também outras realidades, e toda criação
está interconectada. Nunca devemos designar atributos ao nosso parceiro no
processo (Deus-em-processo), mas podemos "conhecer" este parceiro por
intermédio da vivência direta com tudo o que encontramos e com cada pensamento
que surge em nossas mentes.

A Criação é um pensamento na mente de Deus


A definição intrínseca do que é ser ilimitado é que a Ele nada falta e nada pode
receber, pois Ele é tudo. Como Ele é tudo, teoricamente, é o potencial para ser uma
fonte infinita de entrega.
Podemos questionar isso, pois não há nada que Ele possa dar, sendo Ele tudo.
Teria de dar para Si mesmo.
Por milhares de anos, isso tem sido um dos principais enigmas filosóficos e
teológicos.
A Cabala sugere um meio de tratar a questão.
Afirma que, enquanto a fonte infinita de doação não tiver "vontade" de dar, nada
acontece.
Entretanto, no momento em que Ele tem a determinação de dar, esta vontade
inicia um "pensamento".
A Cabala diz: "A vontade, que é um pensamento [primordial], é o início de todas as
coisas, e a expressão [deste pensamento] é a realização".
Ou seja, a criação inteira nada mais é do que um pensamento na "mente" de Ein
Sof, se assim podemos falar
Outra maneira de expressar esta idéia é que a vontade de dar instantaneamente
cria, por sua vez, uma vontade de receber.
A idéia de que um doador infinito possa criar receptividade em Si próprio é o que os
cabalistas chamam tzimtzum (contração).
É preciso criar uma abertura no Seu interior para poder receber.
Aquilo que é dado é chamado de luz.
O que recebe é chamado de recipiente ou vaso.
Luz e recipiente estão sempre em equilíbrio, pois a luz vem de uma fonte infinita e
assim preenche completamente o recipiente.
Se colocarmos um balde debaixo das Cataratas do Iguaçu, ele se enche no mesmo
instante.
Se pusermos um trem de carga, vai acontecer o mesmo.
Agora, imagine que o universo todo esteja debaixo de uma catarata do Iguaçu de
luz, continuamente sendo preenchido.
De acordo com a Cabala, a interação entre o recipiente e a luz é o que faz o mundo
girar.
Tudo no universo é um recipiente que "deseja" receber a luz do doador infinito.
Cada molécula, planta, animal, pedra ou ser humano é um recipiente, cada um tem
a "vontade" de ser exatamente o que é.
A consciência humana é singular, no sentido de que ela tem a qualidade de ser
"conforme a imagem de Deus".
Esta qualidade é expressa pelo que chamamos de livre-arbítrio, e o livre-arbítrio,
em seu cerne, nada mais é do que a capacidade de conceder luz.
Em outras palavras, a consciência humana tem um desejo inerente de dar.
Esta capacidade humana de agir como Deus, sendo doador, é o sustentáculo sobre
o qual o universo inteiro se equilibra.
O motivo pelo qual isto é tão importante é que, se existisse somente a vontade de
receber, como está descrito acima, o universo seria inteiramente previsível.
Tudo seria predeterminado, toda a receptividade encontraria forma em seu próprio
modelo e cada aspecto do desenrolar da criação poderia ser antecipado.
O curinga introduzido aqui é a premissa de que a consciência humana foi instruída
por uma força que vem da alma, que lhe dá a capacidade de emular o infinito
Doador.
Dessa forma, os seres humanos têm uma capacidade extraordinária de influenciar a
direção da criação. Cada vez que fazemos uso do nosso livre-arbítrio no ato de
doar, estamos em co-parceria com o infinito Doador.
Quando isso é realizado, com clareza e plena atenção do que estamos fazendo,
elevamos a consciência da criação.

Aperfeiçoando constantemente a Criação


Os cabalistas dizem que Ein Sof é perfeito, por definição, e que este universo está
constantemente no processo de aperfeiçoar a si mesmo.
Na verdade, o Judaísmo afirma que o principal objetivo da existência é o
aperfeiçoamento contínuo do universo.
Imagine um programa avançado de computador instalado num computador
"inteligente", concebido para aprender enquanto está funcionando.
A cada vez que executa uma função, ele aprende com seus erros, e executa a
função com mais eficiência da próxima vez.
Sempre que ele estiver aprendendo, estará cumprindo seu propósito.
Entretanto, se o computador funcionar de um jeito tal que pare de se aperfeiçoar,
seu programa fará com que ele se autodestrua.
Por quê?
A razão é que seu objetivo era de se aperfeiçoar continuamente.
Se ele alcança a perfeição, já tem nada para fazer. Dessa forma, chega a um
impasse, sem ter como continuar.
Deus representa a perfeição.
O universo representa o potencial para o aperfeiçoamento.
Será que podemos esperar por um universo perfeito?
A resposta dos cabalistas é não, tendo em vista que nosso propósito é
continuamente nos aperfeiçoarmos, assim como o universo.
Se atingíssemos a perfeição, chegaríamos ao nosso fim e o universo deixaria de
existir.
A perfeição é um objetivo absurdo para o cabalista, porque um aspecto essencial da
perfeição de Deus é a criação.
Veja bem, a perfeição não pode ser perfeita sem o potencial para aperfeiçoar!
O Baal Shem Tov disse, "O livro do Zohar tem um significado diferente a cada dia".
Compreender isso é de suma importância.
Alguns ensinamentos dizem que tudo é perfeito, todos são perfeitos, tudo acontece
como deve ser e acidentes não ocorrem.
A única razão pela qual não percebemos esta perfeição é devido à nossa
perspectiva limitada.
Dizem que, assim que ficarmos mais iluminados, veremos que tudo é perfeito.
Isso poderia ser verdade, visto de um ponto de referência diferente, mas sob o
nosso ponto de vista, a vida é um processo em que é impelida em uma ou outra
direção e nunca estamos satisfeitos com a realidade à nossa volta.
Raramente atingimos um senso de perfeição e, se chegarmos a consegui-lo, só será
por um momento.
Vivemos num paradoxo.
Raramente queremos o que podemos obter e, muitas vezes, desejamos o que está
fora do nosso alcance. Devido ao fato de que a natureza da dualidade é imperfeita,
raramente encontramos o amigo perfeito, o cônjuge perfeito ou o professor
perfeito. E, se acreditamos que a perfeição está ao nosso alcance, certamente
ficaremos frustrados, infelizes e não realizados, ou até pior, entediados, sempre
cansados e indiferentes.
Esta visão do nosso contínuo aperfeiçoamento é de grande importância.
A partir do momento em que conseguirmos entender por completo que nosso
objetivo não é alcançar algum nível transcendental, mas sim poder lidar com o
mundo imperfeito como um parceiro em sua criação, então conquistaremos aquilo
que antes rejeitávamos. Em outras palavras, quando nos rendermos ao fato de que
estamos constantemente consertando tanto nossas próprias almas como as dos
outros à nossa volta, ganharemos um novo sentido de completude a cada
momento.
O mito da perfeição é aquele em que nós estamos sempre insatisfeitos com o que
está acontecendo agora. Nunca estamos "aqui" porque sempre estamos tentando
estar "lá", onde quer que isso seja. Mas procure compreender este importante
ensinamento: Quando aceitamos cada momento como uma nova oportunidade para
realizar nosso objetivo, estamos sempre presentes, sempre tendo sucesso, sempre
mudando o mundo para melhor.
E sempre estamos "aqui".
Um dos meus mestres, uma senhora sufi, ensinou-me esta noção de aqui e lá.
Ela simplesmente me disse: "Esqueça tudo sobre ‘lá'; pois 'lá' não existe. Temos
apenas o 'aqui'. É só isso."
Sempre que você for usar a palavra "lá", verifique, cuidadosamente, se a palavra
"aqui" não seria mais correta.
E será mesmo em 90% das vezes.
Quando entendermos plenamente que a vida está aqui, neste dado momento, não
iremos adormecer nem sentiremos tédio. Não procuraremos o parceiro perfeito,
nem o professor perfeito.
Faremos as melhores escolhas possíveis e trabalharemos com o que temos.
Com o aperfeiçoamento como nosso modelo, não precisamos olhar para além do
que temos, pois a idéia do aperfeiçoamento contínuo é perfeita em si mesma.
Os sábios da tradição judaica perguntaram: "Quem é rico?" A resposta: "Aquele
que está feliz com o que tem." E: "Esta pessoa é louvável aqui neste mundo e tudo
estará bem no mundo vindouro."
Que todos nós sejamos abençoados e possamos nos reconfortar em nossa
imperfeição e que encontremos a paz no eterno caos da vida.
E, lembre-se, estamos sempre aqui.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 10

Parte Dois - O Presente – Olam Há-Zeh (Este Mundo)

Molde da Criação – Parte 1


O símbolo mais conhecido da Cabala é a Árvore da Vida.
Dizem que ela representa a base essencial da criação.
A Árvore da Vida possui dez elementos primordiais.
Estes dez elementos estão baseados na parte inicial da Torá, na qual há dez
declarações que utilizam as palavras va-omer elohim, "E Elohim (Deus) disse..."
Estas dez declarações são consideradas emanações divinas com as quais o mundo
foi criado.
Cada emanação é um arquétipo que, combinado com outras emanações, fornece os
elementos místicos necessários para formar todos os aspectos da criação, sejam
eles físicos, emocionais, intelectuais ou espirituais.
Referimo-nos às emanações como sefirot (números), visto que todos os números
possíveis existentes na criação são uma combinação dos dez números básicos de
zero a nove.
Os cabalistas acreditam que, a cada vez que o número dez é escrito na Torá, está
relacionado de alguma forma à Árvore da Vida.
Dez pragas na história do Êxodo, dez mandamentos, dez dias de julgamento, de
Rosh Hashaná a Yom Ki-pur.
Até o fato de possuirmos dez dedos nas mãos e dez dedos nos pés está relacionado
com a Árvore da Vida.
Praticamente tudo o que existe na criação pode ser associado à Árvore da Vida.
Os comentaristas muitas vezes não concordam entre si a respeito das definições ou
características atribuídas às várias sefirot.
Não obstante, os cabalistas tendem a catalogar patriarcas e matriarcas bíblicos,
arcanjos, partes do corpo humano, nomes de Deus, direções, planetas, vogais,
cores e uma grande variedade de qualidades associadas com as várias sefirot.
A Árvore da Vida é vista como uma representação gráfica do projeto de criação.
Devido ao fato de que cada emanação é um arquétipo, cada uma representa um
vasto espectro de categorias.
O sistema é complexo porque os arquétipos não são facilmente definidos.
O Sefer Yetzirá usa um tipo de linguagem, como: "Estas são as dez sefirot do nada:
a respiração do Deus vivo; respiração da respiração; água da respiração; fogo da
água; acima; abaixo; leste; oeste; norte; sul."
Em uma leitura literal, a primeira sefirá é a respiração de Deus; a segunda é a
respiração causada pela respiração; a terceira é água; e a quarta é fogo, seguidas
pelas seis direções — dez sefirot no total.
Em hebraico, os nomes dados para as dez sefirot geralmente são: keter (coroa),
chochma (sabedoria), biná (compreensão), chessed (bondade amorosa), gevurá
(força), tiferet (beleza), netzach (triunfo/domínio), hod (grandeza/empatia), yessod
(fundação) e malkut (soberania).
Como keter é inefável e inaccessível, uma sefirá adicional chamada daat
(conhecimento) é muitas vezes acrescentada à lista, a fim de que haja dez
atributos em ação.
A Árvore da Vida é comumente representada por uma ilustração do desenho de dez
(às vezes 11) círculos.
Esquematicamente, as sefirot são desenhadas ao longo de três linhas verticais.
A linha central é o tronco, representando quatro (ou cinco) sefirot.
Dois ramos verticais, um de cada lado do tronco, representam três sefirot cada.
DNA e a Árvore da Vida
Os pesquisadores do DNA descobriram que quatro aminoácidos — adenina, timina,
guanina e citosina — ordenam-se de várias maneiras em combinações
seqüenciadas em padrões que são os fundamentos da vida.
Cada padrão guarda um código genético que determina todas as nossas
características genéticas.
Cada aminoácido sempre funciona com um par, e sempre se junta ao mesmo
parceiro: a adenina sempre forma um par com a timina (A-T) e a guanina sempre
forma um par com a citosina (G-C). Podemos imaginar esses pares como moedas
com cara e coroa.

Se enfileirarmos moedas numa lâmina de vidro, as moedas serão vistas de um


jeito, se observadas por cima do vidro, e de outro, se olharmos por debaixo da
lâmina de vidro.
De forma semelhante, acontece com os pares de aminoácidos — se tivermos uma
seqüência, A, A, A, G, G, G, haverá uma fileira correspondente que leria T, T, T, C,
C, C.
Diz-se que o código correspondente aos seres humanos contém bilhões de pares.
Você pode imaginar quantas variações teríamos encadeando bilhões de moedas e
virando-as, uma de cada vez, a fim de formar novas combinações?
Isso resultaria em um número enorme.
A seqüência na qual pares de aminoácidos se combinam é um fator determinante
de hereditariedade.
Os microbiólogos descrevem essas extensas cadeias como faixas paralelas que se
curvam em espirais, chamadas hélices duplas, para que possam caber num espaço
pequeno.
Hoje, temos testes de DNA para determinar muitas coisas.
Os microbiólogos precisam encontrar a localização exata ao longo desse finíssimo
filamento da dupla hélice, no qual a combinação codificada de um dado gene se
encontra. Quando acham esse ponto exato, podem então determinar se o código
corresponde, ou não, à outra amostra.
Assim, somente quatro aminoácidos, acoplados em dois pares, oferecem uma
possibilidade de combinação quase ilimitada.
Este é justamente o mesmo modelo que os cabalistas vêm utilizando nestes últimos
mil anos.
Em vez dos aminoácidos, os cabalistas descreveram quatro elementos-chave da
criação: expansão (chessed), que sempre forma par com a contração (gevurá); e o
ato de dar (netzach), que sempre forma par com o ato de receber (hod).
Entretanto, estes são somente quatro dos dez elementos primordiais que compõem
a Árvore da Vida.
Enquanto o universo físico pode ser descrito em termos de quatro elementos,
reunidos em um número infinito de combinações, o modelo cabalístico é muito mais
abrangente quando acrescentamos todas as dez dimensões da Árvore da Vida.

32 Caminhos
As dez sefirot estão conectadas por uma série de 22 linhas, verticais, horizontais e
diagonais. Ver Figura abaixo
Há 12 linhas diagonais, diz-se que representam as 12 tribos, assim como outras
características: os 12 meses, os 12 signos do zodíaco, as 12 permutações do
tetragrama (as quatro letras do nome sagrado de Deus) e as 12 qualidades
principais da expressão humana — fala, pensamento, ação, visão, audição,
movimento, cópula, olfato, sono, raiva, paladar e riso.
Cada um dos 22 conectores também representa uma letra do alfabeto hebrai-co.
Referimos o conjunto dessas 22 letras mais as dez sefirot como os 32 caminhos da
sabedoria.
Devido ao fato de que cada uma das sefirot representa uma vogal e cada elo
conector é uma consoante, vemos prontamente que cada palavra na língua
hebraica, neste esquema, é uma combinação de diferentes caminhos.
Isso, então, descortina um imenso potencial para a análise das palavras.
A Cabala é holística em muitos aspectos.
Todos os 32 caminhos são conectados entre si, direta ou indiretamente.
Uma mudança em qualquer um deles afeta todos.
Além disso, cada sefirá, individualmente, representa camadas sobre camadas de
sefirot internas.
Dessa forma, cada sefirá, individualmente, tem uma Árvore da Vida inteira, com
seus 32 caminhos, nela inserida. Ver Figura abaixo
Temos de ver isso como esferas dentro de esferas dentro de esferas.
Cada vez que abrimos uma esfera, descobrimos uma nova que se parece com a
anterior.

A Personalidade e a Árvore da Vida


Cada aspecto da criação, assim como cada indivíduo, é uma Árvore da Vida em
miniatura.
Cada um de nós representa formas físicas, emocionais, intelectuais e espirituais,
baseadas na maneira como harmonizamos nossa árvore interna.
Algumas partes têm mais influência do que outras.
Temos características pessoais dominantes com peculiaridades em nossas
personalidades, possuímos força ou fraqueza física, idiossincrasias, neuroses,
padrões de comportamento social etc.
Se tivéssemos ferramentas disponíveis para medir todas as energias representadas
na Árvore da Vida, encontraríamos padrões, da mesma forma que os microbiólogos
encontram padrões nos arranjos dos aminoácidos.
Entretanto, como o sistema cabalístico é extraordinariamente diversificado,
expandindo-se para muito além do campo da genética, nossa tarefa é muito mais
complicada do que a dos cientistas que verificam os resultados de testes de DNA.
Atualmente, um sistema muito aceito para a classificação de personalidade,
chamado Eneagrama, sugere que há nove arquétipos de personalidade.
Alguns comentaristas mostraram o paralelo entre este sistema e a Árvore da Vida.
Mas a abordagem cabalística é, de certa forma, mais sutil do que a descrição de
personalidades no Eneagrama.
A Árvore da Vida está modelada em tríades; dois aspectos operam de maneira
oposta, um ao outro, e um terceiro aspecto fica num ponto de equilíbrio móvel
entre ambos.
Vamos mostrar como funciona.

Chessed é a qualidade da expansão e da generosidade, nossa parte que cede,


mesmo que outra parte diga não.
Funciona melhor quando não existe autocrítica para reprimir o impulso.
A tendência de chessed é ser extremamente liberal, aberto para tentar qualquer
coisa.
Sem controle, entretanto, tem o potencial de sufocar o receptor.
Não tem autolimitação; só sabe como doar coisas.
Pura generosidade, ela vai oferecer comida continuamente; vai fabricar algodão-
doce até que este preencha a tenda do circo; vai abrir mão das jóias da família.
Gevurá é a qualidade da contração e do autocontrole.
Está colocada em oposição à generosidade.
Autocontrole é a habilidade de dizer não, mesmo havendo pressão da sociedade.
Gevurá representa também a justiça universal; entende que tudo causa impacto e
tem repercussões.
A tendência de gevurá é ser extremamente conservadora, preferindo que as coisas
fiquem como estão.
Sem controle, gevurá é opressiva.
Não permite movimento algum.
É estritamente conformista, calculista, rígida e crítica de forma exagerada.
Esses dois pólos operam e interagem um com outro.
Às vezes, somos levados mais por nosso espírito de generosidade; outras vezes,
recolhemo-nos.
O sistema é dinâmico e continuamente fluido.
Nós todos tendemos a nos inclinar para um lado ou para o outro.
Todavia, sofremos influências de muitas variáveis.
Dessa forma, ninguém é jamais 100% previsível.
Tendo em vista que os pólos de generosidade e autocontrole estão constantemente
num "cabo-de-guerra", um pêndulo, ou ponto de equilíbrio (tiferet), é necessário
para fazer a mediação entre os dois.
Tiferet representa compaixão e beleza.
De um modo geral, é o caminho do meio, nem é tolerante com seus próprios
desejos, nem é restritivo demais.
É importante perceber que tiferet causa seu próprio impacto na tríade; não é
simplesmente uma conseqüência passiva das duas forças opostas.
E a influência deste terceiro componente, que provém do tronco da própria árvore,
nos faz refletir sobre a generosidade e tecer considerações sobre a restrição.
Assim, podemos ver que toda tríade é dinâmica e variável.
A próxima tríade inclui netzach, que representa os pais, a dominação, a confiança e
a visão autocentrada.
Seu oposto é hod, que representa o filho, a submis-são, a receptividade e a
aceitação. Vemos logo aspectos positivos e negativos nes-ta dicotomia. O ato de
ser pai ou mãe representa tanto uma força de proteção quanto de dominação, e
está em oposição ao ato de ser filho, que tem pureza e inocência, e também
dependência. É simplesmente a dança entre o pai e a mãe que estão dentro de nós
e nossa criança interna, entre a autoconfiança e a submissão àquilo que está fora
do self.
O mediador, neste caso, é yessod, normalmente traduzido como fundação, mas
muitas vezes chamado de harmonia.
Sem um equilíbrio no drama entre os pais e o filho que estão dentro de nós, não
podemos ter uma fundação sólida.
Novamente, no entanto, temos um sistema dinâmico.
Algumas vezes, temos mais autoconfiança; em outras, ficamos bastante inseguros.
Temos vários graus de aceitação, dependendo da força de nossa voz interna que
expressa dúvida.
Algumas vezes, fazemos pressão para conseguir o que queremos, enquanto em
outras ocasiões submetemo-nos à realidade.
A harmonia desliza ao longo desta linha, trazendo a influência de uma força
adicional. Ela pressiona a criança que está dentro de nós a ser mais positiva e faz
com que o nosso egocentrismo fique mais moderado.
Tenta equilibrar a confiança individual com o potencial de ceder ao bom senso.
Por fim, malkut, na parte inferior da árvore, é o resultado de tudo o que está
acontecendo nessas outras seis sefirot.
É nossa realidade.
Certos acontecimentos em nossas vidas produzem reverberações para o alto.
Malkut é o receptor das duas extremidades.
Somos o resultado de um conjunto de arquétipos que interagem com o espetáculo
do mundo que está ao nosso redor.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 11

Parte Dois - O Presente – Olam Há-Zeh (Este Mundo)

Molde da Criação – Parte Final

Consciência de Chochma e Biná


As sete sefirot inferiores representam a consciência comum.
Todas as coisas que habitualmente passam por nossas mentes poderiam ser
definidas por combinações das sete sefirot inferiores.
Elas representam o universo físico.
Este é o nível no qual a consciência comum funciona.
Entretanto, temos acesso a dimensões mais elevadas de consciência.
A vivência desses níveis mais elevados recebe vários nomes, tais como Satori ou
Consciência Cósmica.
Na Cabala, chamamos isso de Consciência de Chochma e Biná.
A Cabala diz que o pensamento tem origem na dimensão do Nada. Este Nada é
denominado chochma, que, traduzido literalmente, quer dizer "sabedoria".
Obviamente, não é a sabedoria comum que conhecemos, mas sim o arquétipo da
sabedoria, no qual o molde do pensamento começa a se formar.
Se alguém nos apresenta uma fórmula matemática, tal como A2 + B2 = C2, ela
não tem significado algum, a não ser que saibamos como aplicá-la.
Precisamos saber o que A e B representam.
Sem essa compreensão, a fórmula é pura consciência de chochma.
É um molde vazio.
Pode ter grande sabedoria, pode representar uma verdade universal, mas, sem o
elemento de biná (compreensão), não serve para nada.
Biná seria entender que há uma relação entre a hipotenusa e os catetos nos
triângulos retos.
Isso é interessante e uma boa informação, mas não nos serve enquanto não
soubermos como esta relação funciona.
Assim que colocarmos chochma junto com biná — a fórmula com a compreensão —
teremos conhecimento (daat).
Este é o modelo da consciência sugerido pela Árvore da Vida.
É o procedimento consciente para quase tudo o que fazemos na vida.
A princípio, percorremos cada nível até daat, com a rapidez de um relâmpago.
Mas, se formos capazes de examinar minuciosamente nosso processo de
pensamento, geralmente poderemos reconhecer a maioria, senão todos estes
elementos.
A prática meditativa para alcançar a consciência de biná e a consciência de
chochma está descrita em texto mais adiante, em detalhes, no Caminho do
Desprendimento.

49 Dias Para Fazer Acertos na Alma


O dia sagrado de Shavuot é celebrado cinqüenta dias após Pessach.
O número 50 representa o portal para um novo nível de consciência primordial.
Algumas vezes, é denominado "o portão misterioso", porque não sabemos
exatamente como ter acesso a ele.
O Talmud diz que "cinqüenta portões de compreensão foram criados no mundo, e
todos, salvo um, foram dados a Moisés". Os 49 dias entre Pessach e Shavuot são
chamados de Contagem do Omer.
Durante esse período, os judeus contam os dias e as semanas, como parte do
serviço religioso usual, preparando-se para Shavuot, que também é conhecido
como o dia dos primeiros frutos, quando a colheita da cevada está terminada e o
trigo seria então plantado.
Cada uma das semanas dentro do período das sete semanas representa uma sefirá
diferente da Árvore da Vida, começando com chessed e terminando com malkut.
Cada dia da semana também representa sua própria sefirá.
Tradicionalmente, Shavuot é celebrado como o dia em que a Torá foi dada a Moisés
no Monte Sinai.
Devido ao fato de que a Torá é vista como um presente para nos ajudar a alcançar
uma consciência mais elevada, e para os cabalistas como o projeto da criação, os
místicos explicam que os 49 dias da contagem do Omer representam um período
no qual devemos nos preparar para receber a luz da Torá.
Na medida do possível, durante a contagem desses 49 dias, devemos tentar
examinar nossas próprias características, com grande detalhamento.
A prática da contagem do Omer é, na verdade, uma prática musar (o
desenvolvimento de nossa moral e ética), a fim de investigar nossos processos
internos.
Dedicando meia hora, em contemplação, em cada um dos 49 dias, poderemos
alterar nossas vidas, de forma significativa.
Mesmo pessoas muito ocupadas podem fazer isso.
O primeiro dia da primeira semana de nossa prática é chamado chessed de
chessed. Se pensarmos em chessed como sendo generosidade, este dia poderia
representar o cerne da bondade amorosa.
Poderíamos explorar a fonte da generosidade.
Que parte de mim está doando?
Como me sinto quando estou doando?
O que sinto quando não estou doando?
Onde é que meu doador interior se conecta com meu self mais elevado?
Dedicamos de 10 a 15 minutos à contemplação dessas questões.
No decorrer do dia, permitimo-nos refletir, por alguns minutos, sobre estes temas.
O segundo dia é gevurá de chessed.
Representa nossa restrição dentro da generosidade.
Onde é que meu doador interno está travado?
Que parte nega?
Que parte realmente me protege de ser generoso demais, sem que seja minha
parte egoísta em ação?
O terceiro dia é tiferet de chessed: a compaixão dentro da generosidade.
Que parte de mim está conectada com meu centro quando estou doando?
Será que sou compassivo para comigo quando estou doando, e quando não estou
doando?
Será que meu ato de dar é equilibrado; é demais, é muito pouco?
De que forma posso melhorar o equilíbrio de minha generosidade?
O quarto dia é netzach de chessed: ter autoconfiança quando se é generoso.
Será que me arrependo quando dou coisas para os outros?
Será que imponho restrições quando dou algo?
Será que fico lembrando de minha generosidade por muito tempo?
Será que fico apegado à idéia de ser uma pessoa generosa?
Será que anseio ser conhecido como um grande doador?
Este processo continua pelos 49 dias, à medida que percorremos as permutações
de nossas características e fazemos uma profunda autoanálise.
É uma boa idéia manter um diário durante esta prática e, à noite, anotarmos algum
insight ocorrido naquele dia. Uma ou duas frases são suficientes.
Mais exemplos estão incluídos nas notas ao final destes textos;
Logicamente, aprendemos muito sobre nós mesmos quando dedicamos um tempo
substancial à introspecção.
Tornamo-nos nossos próprios terapeutas, e podemos transformar em ações o que
descobrimos sobre nós mesmos.

Ciclos Dentro de Ciclos


Os cabalistas acreditam que cada processo cronológico tem seu paralelo na Árvore
da Vida.
Os primeiros sete anos de vida são vistos como uma era de chessed.
O primeiro ano é chessed de chessed (a essência da expansão); o segundo, gevurá
de chessed (a contenção da expansão); o terceiro, tiferet de chessed (a beleza da
expansão) e assim por diante.
Os próximos sete anos da vida, que levam à adolescência, são vistos como uma era
de gevurá (contenção ou justiça), com cada ano representando uma sefirá diferente
dentro de gevurá.
As idades de 14 a 21 são vistas como um tempo de tiferet (equilíbrio entre bondade
amorosa e contenção) e assim por diante.
Com 49 anos, completamos um ciclo.
Os místicos da tradição judaica dizem que cada sétimo ano deve ser um ano de
reflexão.
O quadragésimo nono ano deveria nos levar a um Jubileu, quando nos libertamos
do maior número possível de velhos hábitos e lançamos um olhar profundo sobre
nossas vidas.
Podemos participar de muitas maneiras deste Jubileu.
Não precisamos abrir mão dos nossos empregos e sair pelo mundo.
Muito pelo contrário: devemos celebrar nossos ciclos de sete anos e também os
ciclos de 49 trazendo para a nossa vida cotidiana uma grande quantidade de
vivências diversas.
Devemos conhecer coisas novas, dedicarmos mais tempo para nós mesmos,
eliminar entretenimentos que consomem muito tempo, tentar desenvolver novos
aspectos nos relacionamentos que já temos, refletir sobre quem somos e o que
fizemos com nossas vidas.
Podemos fazer isso tudo no decorrer de nossas atividades diárias normais.
Casamentos e relacionamentos também passam por ciclos.
Algumas pessoas dizem que esses ciclos também duram sete anos.
Quaisquer que sejam os valores numéricos, é importante que entendamos a
natureza cíclica da vida.
Temos a tendência de ver as coisas como se elas nunca mudassem.
O mercado de ações está em baixa, então vendemos; se estiver em alta,
compramos.
Se nossos relacionamentos vão mal, queremos escapar deles; se as coisas estão
ótimas, queremos estabelecer um compromisso eterno.
Quando utilizamos as técnicas cabalísticas, aprendemos não somente a nos
conhecer, como também adquirimos conhecimento sobre as permutações da vida.
Recebemos insights sobre os fluxos do universo e sobre nossos próprios ritmos.
Da mesma forma que temos biorritmos ao longo de vários períodos de nossas
vidas, temos também ritmos emocionais, ritmos mentais e, no nível místico, ritmos
espirituais.
Há épocas em que as coisas parecem ir melhor do que em outras, tanto em nossos
relacionamentos como em nossa situação financeira, nosso bem-estar, nosso
estado de ânimo, nossa sorte e em quase tudo mais.
Não é tão importante poder explicar as diferenças em nossos ritmos quanto estar
ciente deles.
Esta percepção ajuda na compreensão da natureza cíclica de tudo na criação.
Quando chegamos a entender esses ciclos, de maneira completa, nossas escolhas e
decisões são feitas com muito mais informações.
Não somos apanhados pela "montanha-russa" dos acontecimentos, nem por
emoções conflitantes.
A compreensão dos ciclos é a chave para o sucesso em todas as áreas da vida.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 12

Parte Dois - O Presente – Olam Há-Zeh (Este Mundo)

Cinco Mundos, Cinco Dimensões da Alma


De acordo com a Cabala, a criação é composta por cinco categorias principais de
consciência, denominadas mundos ou universos.
Apesar de darmos nomes diferentes aos mundos, eles não são universos
separados; na verdade, são concêntricos, um dentro do outro.
Assiá é o mundo físico; Yetzirá, o mundo das emoções; Beriá, o mundo do
intelecto; Atzilut, o mundo do espírito; e Adam Kadmon, a fonte primordial.
Cada um desses mundos é uma lente com a qual obtemos uma visão única da
realidade.
Assim, a Cabala nos ensina que a alma tem cinco níveis, cinco dimensões de
consciência primordial.
Cada dimensão da alma tem um relacionamento único com seu mundo, e cada um
desses relacionamentos é o veículo com o qual nos conectamos, misteriosamente,
com aquele mundo.
Alguns aspectos da alma têm mais relação com o nosso mundo físico, enquanto
outros residem, se assim podemos dizer, em outras dimensões de consciência
primordial.
Um aspecto da alma está sempre ligado ao centro da criação, e isto é nosso elo
eterno com a verdade.
De maneira concisa, as dimensões da alma são as seguintes:

Nefesh: O Mundo da Ação


Nefesh é o nível da alma mais conectado com o mundo físico.
Em essência, nefesh é a alma da estrutura atômica.
Cada partícula de matéria tem uma nefesh, assim como cada pedra, planta ou
corpo celeste.
Em termos humanos, nefesh está associada à consciência do corpo.
É a nossa parte mais ligada com o mundo físico que está à nossa volta.
Após a morte, é o aspecto da alma que mais demora a sair de perto da pessoa que
faleceu.
É também o aspecto da alma mais envolvido com o processo de purificação após a
morte.
Nefesh é às vezes chamada de alma animal.
O Zohar apresenta uma linda descrição dela: "Nefesh é o movimento mais fraco ao
qual o corpo se agarra, como a luz escura na parte inferior da chama da vela que
se agarra ao pavio (corpo) e só existe por causa dele.
Quando a vela está bem acesa, esta luz escura se torna um trono para a luz branca
que está acima (o próximo nível superior da alma: ruach). Quando ambos estão
ardendo bem, a luz branca torna-se um trono para a luz que não pode ser
plenamente distinguida (um nível, por sua vez, mais elevado da alma: neshama).
Então, está formada uma luz completa".
Assim, mesmo que a nefesh seja considerada a parte mais densa da alma, a menos
conectada com sua Fonte Divina, ela é o alicerce de todos os níveis de alma e a que
está mais diretamente associada com o corpo.
Este aspecto da alma é parte integral da própria vida, e praticamente qualquer lei
judaica pode ser suplantada pelo único mandamento que é visto como o mais
importante entre todos, que é a mitzvá de salvar a vida, chamada “pikuach
nefesh”.
Muitas formas de matéria física, tais como átomos de elementos químicos,
nêutrons, prótons e elétrons, são, antes de tudo, compostos do nível nefesh da
alma. Entretanto, assim como a matéria física pode ser organizada em formas de
complexidade crescente, desde organismos unicelulares até o ser humano, também
a alma essencial desenvolve aspectos, níveis mais elevados, que estão mais unidos
à fonte central da criação.
Este processo diferencia a vida humana.

Ruach: O Mundo da Formação


Ruach significa "vento" ou "espírito".
Está associado à consciência elementar e à informação que passa pelos sentidos.
Nos humanos, ruach está relacionado à fala e às emoções, as quais estão em
constante movimento pelo corpo.
Enquanto nefesh está associada à consciência do corpo, ruach se correlaciona
melhor com a consciência emocional.
Nossa "espiritualidade" está baseada no nível ruach da alma.
Sem entender muito bem, somos levados às lágrimas quando ficamos comovidos
com um poema, um olhar, uma obra de arte ou simplesmente observando a
natureza.
O amor, neste nível, nos é mais real e perdura por mais tempo.
Nossos sentidos de intenção e significado na vida dependem muito da forma como
nosso ruach é nutrido.
Ruach é alimentado por nossas ações: como vivemos nossas vidas, onde
despendemos nosso tempo e que "matérias-primas" ingerimos por meio dos nossos
sentidos.
Da mesma forma que o corpo é sustentado pelos alimentos, a alma é sustentada
pelas vivências.
Em muitas tradições, os alimentos são classificados por suas qualidades, tais como
alimentos que agitam, tranqüilizam, estimulam, perturbam, acalmam, fortalecem e
assim por diante.
Da mesma forma, nossas vivências afetam o espírito.
Quando ruach é levado ao seu nível mais alto, atingimos um estado de consciência
primordial que é descrito como ruach ha-kodesh, traduzido literalmente como
espírito sagrado. É um estado de espírito que transcende a consciência comum.
Com ruach ha-kodesh, habitamos outras dimensões de realidade e obtemos uma
visão clara da maneira como a vida irá se desenrolar.
Todos os profetas bíblicos tinham ruach ha-kodesh; este nível de profecia é uma
das aspirações no trabalho de contemplação intensa dentro da tradição judaica.

Neshama: O Mundo da Criação


A palavra "neshama" tem a mesma raiz em hebraico (nshm) que a palavra que
designa respiração.
Este nível da alma está associado com uma consciência primordial mais elevada e
com os domínios angelicais.
É uma qualidade que define a consciência humana.
O Zohar descreve a neshama da seguinte forma: "Nefesh e ruach se entrelaçam,
enquanto a neshama reside no caráter da pessoa. Esta é uma morada que não
pode ser descoberta ou localizada. Se uma pessoa se esforça para atingir pureza de
vida, ela é ajudada por uma neshama santificada. Mas, se a pessoa não se esforça
para alcançar esta retidão e esta pureza de vida, só estará animada por dois níveis
de alma: nefesh e ruach."
Embora todos nós tenhamos o poder de desenvolver o aspecto neshama de nossas
almas, não há certeza de que assim o faremos.
Por exemplo, pense no forno de um ceramista.
Alguns esmaltes requerem queima a uma temperatura específica, por um tempo
determinado. Se esta temperatura não for alcançada, o revestimento não ficará
vitrificado corretamente.
Numa visão espiritual, nossas vidas são animadas por ações conscientes
(combustível) e por uma vida limpa (oxigênio). Precisamos de uma boa mistura das
duas, para conseguir uma temperatura alta o suficiente para animar nosso
potencial de alma mais elevado.
Assim que isso é realizado, temos acesso a domínios mais amplos de consciência
primordial.
Embora o poder de nutrir nosso nível de alma mais elevado não esteja garantido,
podemos pressupor que o propósito da existência humana é atingir este sublime
objetivo.
O Zohar afirma: "Inicialmente, uma pessoa tem nefesh. Em seguida. ela é coroada
com o próximo nível que está sobre nefesh, que é ruach.
Depois disso, um nível superior, que está acima dos outros, a neshama, se instala,
e a pessoa se torna merecedora do mundo vindouro.
Nefesh não pode existir sem a ajuda de ruach, e ruach, por sua vez, é sustentado
pela neshama.
Os três formam uma unidade.
Em poucas palavras, podemos dizer que a vida humana não é completa sem
neshama.
Neshama emana de uma fonte elevada, enquanto ruach emana de uma fonte de
origem um tanto inferior. Quando essas duas fontes se unem, brilham com uma luz
celestial e são chamadas de "lâmpada".
Como está escrito em Provérbios: "A lâmpada de Deus é a neshama da
humanidade."
De muitas maneiras, a neshama é um aspecto essencial da criação.
Como a neshama é um aspecto da alma que está em conexão direta com a Fonte
Divina da vida, é por meio da neshama e dos níveis mais elevados da alma que
somos co-parceiros de Deus no contínuo desenrolar da criação.
A neshama é pura em sua essência. Não pode ser maculada.
Quando morremos, ela retorna imediatamente para a Fonte Divina.

Chayah: O Mundo da Emanação


Há dois níveis adicionais de alma, mais elevados ainda e altamente refinados.
Chayah, ou essência viva, é tão etérea que tem pouca conexão com o corpo e
habita principalmente em outras dimensões.
É sutil demais, e só adquirimos consciência primordial desse nível quando entramos
em estados alterados.
Nesses raros momentos, em que vivenciamos uma união de dimensões oceânicas e
uma intensa luz de pura unicidade, estamos acessando a consciência de chayah.
Nada pode ser dito sobre esse nível da alma, exceto que ele representa o mais alto
grau de consciência primordial acessível aos seres humanos.
Este é o domínio cabalístico da sabedoria (chochma), que é a fonte de toda
compreensão (biná).
A experiência da iluminação judaica, ou da fusão com Deus, devekut, reside na
dimensão de chayah. É sutil demais para descrever, intensa demais para ser
contida num conceito.

Yehidah: O Mundo da Vontade


O nível de alma mais conectado com a fonte da consciência primordial é chamado
Yehidah, que significa "unidade".
É o ponto central da alma e, como tal, desaparece dentro da infinitude da criação.
Algumas pessoas diriam que é o aspecto da alma que está diretamente conectado à
essência do Divino.
Não está "conosco", mas nunca estamos separados dela.
É onde a dualidade se dissolve.
É sutil demais para a consciência humana.
Yehidah é nosso elo final com Deus-em-processo, nossa parte que nunca está
separada do Divino. Quando esgotamos todos os recursos, a consciência primordial
da dimensão de yehidah pode ser suficiente para nos levar adiante em tempos mais
difíceis, pois ela é o aspecto de cada pessoa, eternamente conectada à perfeição.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 13

Parte Dois - O Presente – Olam Há-Zeh (Este Mundo)

Pureza da Alma
A visão cabalística da alma é de que os níveis mais elevados — neshama, chaya e
yekidah— sempre permanecem puros.
Este é um ensinamento de difícil entendimento para os que equiparam a alma às
ações de uma pessoa.
Como pode alguém que mata, estupra ou comete outros crimes hediondos ter uma
alma pura?
Por outro lado, poderíamos perguntar de que maneira o nível de alma que está
unido ao Divino poderia de alguma forma ser impuro.
Uma das histórias mais conhecidas sobre o Baal Shem Tov é baseada no tema da
pureza da alma.
É um relato maravilhoso sobre um contador de histórias que esquecia suas
histórias.
Começa no dia da morte do Baal Shem Tov, quando ele chamou seus alunos à
cabeceira de sua cama e deu uma missão a cada um deles.
Alguns foram enviados para outros mestres, outros receberam funções de liderança
e outros ainda foram mandados para casa.
Mas um de seus alunos mais queridos recebeu uma missão estranha.
O mestre disse a Reb Yakov Yosef que ele deveria ganhar sua vida como um
contador de histórias itinerante.
Embora Reb Yakov fosse um aluno dedicado do Baal Shem Tov, ele ficou
extremamente perturbado ao tomar conhecimento do seu futuro, que lhe pareceu
bem sombrio.
Ele questionou seu mestre agonizante: "Rebbe, fiz tudo o que podia para alcançar
humildade e aceitação, mas devo dizer que estou aterrorizado com a perspectiva de
uma vida nômade, sem ter um lar."
O rebbe examinou cuidadosamente seu aluno e finalmente disse: "Yakov, meu
querido, você deve fazer isso para se curar e produzir uma grande cura no mundo.
Mas você não vai fazer isso pelo resto de sua vida. Tenho certeza de que você vai
ter uma casa e uma família, pois este é o seu destino."
Yakov ficou aliviado, mas ainda se sentia inseguro.
"Rebbe, farei o que você me pediu. Porém, como estou resistindo tanto à idéia,
tenho medo de não desempenhar minha tarefa da melhor forma possível. Como é
que vou saber quando a tarefa estará terminada?"
O Baal Shem Tov sorriu e disse delicadamente: "Você receberá um sinal claro, e
não terá dúvida alguma de que seus dias errantes terminaram."
Depois da morte de seu mestre, Reb Yakov iniciou sua vida de contador de histórias
itinerante.
Parecia ter uma reserva quase infinita de histórias: histórias contadas pelo Baal
Shem Tov, histórias sobre a vida do Baal Shem Tov e outras que ele tinha
aprendido em seus estudos do Talmud e Midrash.
Em pouco tempo, ele ficou famoso.
Ele era conhecido em cada sinagoga e em cada taverna, onde quer que o hábito de
ouvir histórias fosse considerado um passatempo importante.
Ele comia bem e tinha seu alojamento assegurado aonde quer que fosse.
Na verdade, de certa forma, ele alcançava mais pessoas com suas histórias, e era
mais conhecido na comunidade em geral, do que muitos mestres que tinham suas
próprias congregações.
Como resultado de suas muitas viagens, constantemente conhecendo pessoas
novas, vendo condições de vida em muitas situações diferentes, o coração de Reb
Yakov foi serenando.
Seu mestre certamente soubera como esta missão seria importante.
O trabalho de Reb Yakov continuou por alguns anos, e ele se tornou outro homem.
Já não lhe importava o lugar onde estava ou com quem jantava. Ele entendeu que
cada pessoa que encontrava lhe oferecia mais uma oportunidade de ajudar uma
alma ou consertar o mundo.
Ele parou de se perguntar por quanto tempo mais estaria com o pé na estrada e
aprendeu a levar a vida, um dia de cada vez, momento a momento.
Certo dia, contaram a Reb Yakov que um nobre, um barão em Roma, pagava com
moedas de ouro por cada história nova sobre o Baal Shem Tov.
Reb Yakov sabia que seu próprio repertório de tais histórias era provavelmente o
mais extenso do mundo, então decidiu viajar para Roma.
Ele sabia que seus parcos recursos acabariam com esta viagem, mas estava certo
de que ganharia o suficiente para tornar sua vida mais confortável nos próximos
anos.
Ele chegou a Roma no dia antes do Shabat e foi convidado a ficar na mansão do
barão e sentar-se à mesa para o jantar de sexta-feira à noite.
Na verdade, o barão conhecia bem a reputação de Reb Yakov, e sua chegada foi
recebida com grande entusiasmo.
Era costume na casa do barão que, depois da refeição, seus convidados contassem
histórias. Algumas vezes, estas sessões de histórias se estendiam pela noite
adentro.
Quando o jantar terminou, naquela noite de Shabat, os convidados começaram a
relatar uma história depois da outra. Mas, sempre que era a vez de Reb Yakov, sua
mente ficava em branco. Não importa o quanto se esforçava, ele não conseguia
lembrar uma única história.
Isto era muito estranho. Ele conhecia cada uma das histórias que foram contadas
naquela noite, mas não conseguia que nenhuma surgisse em sua cabeça.
O barão parecia decepcionado, os convidados estavam espantados, mas Reb Yakov
nada tinha a dizer. Ele foi para a cama num estado de grande confusão.
Durante todo aquele tempo como contador de histórias, ele nunca vivenciara um
vazio assim. Deitado, não conseguia dormir.
Histórias após histórias surgiam em sua cabeça!
Dezenas de histórias.
Histórias maravilhosas, histórias poderosas, histórias que poderiam transformar as
pessoas.
Ele se preparou para contar algumas no dia seguinte, quando haveria outra refeição
festiva para celebrar o Shabat.
No final da manhã, sentado à mesa com o mesmo grupo de pessoas com quem
estivera na noite anterior, teve uma experiência mais esquisita ainda.
De novo, não podia recordar-se de uma única história e, por assim dizer, de
nenhuma palavra.
Quando chegou a hora da terceira refeição festiva de Shabat, ele se juntou aos
outros na mesa. Mas, ai do pobre Reb Yakov, mesmo que sua vida dependesse de
uma única história, ele também falharia.
Esta era a vivência mais triste, desde a morte de seu mestre.
E agora, o que fazer?
As histórias tinham desaparecido, parecia que para sempre.
Enquanto isso, durante todo esse tempo, o barão parecia ter uma paciência infinita.
Ele ouviu todas as outras histórias e nunca pressionou nem tentou persuadir Reb
Yakov com agrados. Na realidade, quando a terceira refeição terminou, ele pediu a
Yakov Yosef para continuar como seu hóspede por mais algum tempo.
Reb Yakov persistiu por mais uns dias, mas, ainda assim, nada conseguia lembrar.
Entristecido e um tanto envergonhado, sentindo que faltara com seu mestre depois
de todos aqueles anos, ele disse ao barão que tinha de partir.
Ele estava completamente sem dinheiro, pois havia gasto tudo o que possuía com
esta viagem à Itália.
Para onde iria?
O que poderia fazer agora que não sabia mais contar histórias?
Quando chegou a hora da partida de Reb Yakov, o bondoso barão lhe deu uma
bolsinha com dinheiro, o suficiente para ele voltar para a sua terra, e disse a Yakov
Yosef que deveria voltar se ele algum dia lembrasse de uma boa história.
Quando a carruagem partiu, uma história estranha veio à mente de Reb Yakov.
Já quase perdendo de vista a mansão, ele de repente gritou:
"Parem! Eu me lembrei de uma história!"
Os cavalos foram parados e a carruagem voltou ao portão onde o barão ainda se
encontrava. Reb Yakov saltou e disse: "Por alguma razão, acabei de lembrar um
acontecimento que ocorreu quando eu estava com o Rebbe. Foi há tanto tempo que
me parece um sonho. Mas eu estava lá, aconteceu e tenho certeza de que você
nunca ouviu esta história antes."
Saltava à vista que o barão estava encantado, e ele convidou Reb Yakov a sentar
na sombra. Reb Yakov, então, começou sua história.
"Certa vez, quando eu era muito jovem e acabara de me juntar ao Rebbe, lembro
que, logo depois da meia-noite, durante a semana de Pessach, ele me chamou,
assim como a alguns outros, e disse que tínhamos de fazer uma viagem com ele.
Atrelamos os cavalos, subimos na carroça e, com o Baal Shem Tov no controle das
rédeas, partimos. "Aquela foi uma de minhas primeiras experiências com kefitzat
ha-derech, o encurtamento do caminho. De alguma forma, o rebbe era capaz de
viajar por distâncias grandes num período incrivelmente curto. Não sei como ele
fazia isso. Por várias vezes, viajamos por centenas de quilômetros em apenas
poucas horas. Como os cavalos só poderiam, normalmente, percorrer oito a 15
quilômetros por hora, nunca conseguimos entender como o mestre era capaz de
realizar esse feito. Mas ele fez isso tantas vezes que paramos de nos admirar.
"Naquela noite, entramos numa cidade que ficava a mais de quinhentos
quilômetros de onde morávamos. Não creio que qualquer um de nós tivesse
visitado esta cidade antes, pois as pessoas que nela viviam eram sabidamente
antissemitas. Chegamos bem cedo pela manhã, e a cidade estava enfeitada para a
Páscoa. Quando entramos no bairro onde viviam os judeus, víamos, para onde quer
que olhássemos, que as janelas estavam cobertas por tábuas e as portas estavam
trancadas. O rebbe foi até uma das casas e, mesmo parecendo abandonada, ele
insistentemente bateu à porta.
Após alguns minutos, a porta foi entreaberta e uma pessoa assustada disse que
ninguém estava em casa. O rebbe, entretanto, insistiu que o deixassem entrar,
dizendo que era Israel, o filho de Eliezer.
Isso parece que resolveu a situação: o Baal Shem Tov era uma figura lendária,
mesmo quando em vida.
Quando a porta se abriu, vimos mais de uma dezena de pessoas amontoadas num
aposento escuro, devido às pesadas cortinas. Dentro da casa, falamos com o grupo
aterrorizado. Soubemos que os residentes da cidade, que não eram judeus,
acreditavam na calúnia de que os judeus consumiam sangue humano."

(Preciso fazer uma pausa nessa história para fazer com que o leitor saiba que, em
um passado recente, às vezes espalhavam boatos de que os judeus iriam roubar
bebês a fim de utilizar seu sangue em rituais secretos.
Os judeus faziam parte de uma das muitas minorias que sofriam esta forma de
atrocidade, que provém da intolerância e do ódio.
Lamentavelmente, até hoje, em algumas partes do mundo, esta forma de
ignorância persiste.
Que possa estar na vontade de Deus que isso tenha um fim em nossos dias!
Esta história, entretanto, tem uma virada fascinante... )

Reb Yakov continuou: "Naquela cidade, na época de Pessach e da Páscoa, as


pessoas da cidade costumavam agarrar um judeu desafortunado e amarrá-lo no
alto de um poste na praça central da cidade, como castigo por beber sangue
humano. Claro está que, em sua ignorância, eles não sabiam que a lei judaica
proíbe ingerir qualquer tipo de sangue.
Até um animal ou pássaro deve ser salgado, para que qualquer resquício de sangue
seja retirado antes de cozinhar a carne. Mas eles não teriam acreditado nisso. Na
maioria das vezes, o infeliz judeu era ridicularizado na praça e sobrevivia. Algumas
vezes, entretanto, especialmente se tivesse ocorrido recentemente uma morte
acidental na comunidade, o judeu seria morto, como se ele e todos os outros
judeus fossem culpados por toda e qualquer desgraça.
Naturalmente, todas as pessoas naquele aposento estavam muito assustadas,
tinham medo de ser encontradas e arrastadas para a praça da cidade.
Meu mestre, o Baal Shem Tov, ouviu cuidadosamente aqueles judeus ansiosos
expressarem seus medos. De fato, nesse dado momento, podíamos ver pela janela
da frente que, a meio quarteirão dali, o povo da cidade estava reunido na praça, a
fim de ouvir seu prefeito falar.
O prefeito tinha a tarefa de levar a turba à loucura.
De repente, o rebbe olhou para mim e, numa voz retumbante, disse: Reb Yakov,
quero que você vá para a praça e diga ao prefeito que quero falar com ele!
Fiquei chocado. Eu estava vestido como um judeu. Usava um casaco preto
comprido e o chapéu de formato tradicional. Tinha barba e cachos laterais. Eles
logo me reconheceriam. Seria eu o que seria amarrado no alto do poste.
Mas meu mestre simplesmente olhou para mim e eu sabia que não tinha escolha.
Minhas pernas tremiam tanto quando entrei naquela praça cheia de gente que
quase não podia ficar em pé.
As pessoas não acreditavam no que viam.
Um judeu andando na direção do prefeito! Subi os degraus que levavam ao
palanque; o próprio prefeito estava horrorizado em ter de me confrontar.
Eu lhe disse: 'O Baal Shem Tov, Israel, filho de Eliezer, pediu que o senhor fosse
falar com ele.' "O rosto do prefeito ficou branco, depois roxo e, finalmente,
cinzento. Pensei: sou um homem morto.
Então, ele me olhou nos olhos e disse: 'Diga a ele que irei assim que terminar aqui.'
De certo modo, a multidão me deixou passar. Voltei para a casa e contei ao rebbe o
que acontecera. Ele fez uma cara tão séria que eu quase não o reconheci. Ele me
disse: `Reb Yakov, volte agora mesmo e diga ao prefeito que exijo vê-lo
imediatamente!' Não tive outra escolha e voltei para a praça. De novo, a multidão
ficou impressionada com o judeu maluco que estava andando no meio deles.
Novamente, subi a escada do palanque e reparei que o prefeito estava tentando se
esconder atrás de alguém. Aproximei-me dele e disse: 'O Baal Shem Tov, Israel,
filho de Eliezer, exige que você vá à presença dele imediatamente.'
Pensei que ele cortaria minha garganta. Mas exatamente o oposto ocorreu.
Ele pegou no meu braço, desceu as escadas e me seguiu para a casa.
Uma vez dentro, o Baal Shem Tov o levou para um quarto nos fundos, e os dois
ficaram lá, a sós, por mais de uma hora.
Quando os dois retornaram, o rosto do prefeito estava completamente mudado.
Ele voltou à praça, disse ao povo para voltar para as suas casas e publicou um
edital acabando para sempre com o castigo para a falsa acusação do consumo de
sangue. Fiquei sabendo que, alguns meses depois, ele deixou a cidade e nunca
mais voltou. O Baal Shem Tov nunca nos contou o que ocorrera quando ele esteve
sozinho com o prefeito naquele quarto."

A História Dentro da História


Quando Reb Yakov terminou de contar a história, o barão ficou, por alguns
momentos, profundamente mergulhado em seus pensamentos e, então, agarrou o
contador de histórias e o abraçou e ainda beijou sua face.
Ele disse com um sorriso resplandecente:
"Sei o que o Baal Shem Tov disse para o prefeito! Você sabe", ele disse, "Eu era
aquele prefeito!"
Reb Yakov olhou o barão mais de perto. Fazia muitos anos.
Mas, sim, alguma coisa lhe pareceu familiar naquele homem.
O barão disse: Eu o reconheci no momento em que entrou na minha casa. Estive
esperando por você por muitos anos. Sabia que você viria. Quando você não pôde
contar história alguma, durante o Shabat, fiquei preocupado. No entanto, nunca
perdi a esperança. Preciso dizer, entretanto, que, quando você foi embora naquela
carruagem, eu me senti perdido. Naquele momento, gritei para seu mestre, o Baal
Shem Tov, e estou certo de que ele voltou para inspirá-lo.
Ouça minha história.
Nasci judeu. Meu pai foi rabino, o pai dele também foi rabino e uma longa linha de
ancestrais que foram santos rabinos na nossa família se estendia até onde
tínhamos registro.
Quando jovem, na universidade, saí da tradição familiar.
Achava que as leis antigas eram ridículas, que as velhas formas eram simplórias.
Existia um caminho melhor, acreditava, e então me tornei um livre pensador.
Não me senti embaraçado com o fato de ter sido escolhido prefeito de uma cidade
antissemita.
Achava que, o quanto antes acabassem com as velhas formas de ser, melhor seria
para todo mundo. Mas, uma noite, cerca de um mês antes que você e o Baal Shem
Tov chegassem à cidade, tive um sonho assustador.
Vi um grupo de sábios antigos sentados em volta de uma mesa que tinha sobre ela
uma alma murcha e à míngua esperando julgamento.
Um grande tzadik estava sentado na cabeceira da mesa.
Os sábios pareciam concordar que esta alma era inteiramente sem valor, nada de
bom tinha ficado nela e que deveria ser eternamente amaldiçoada. Porém, o tzadik
disse que cada alma é pura, cada alma tem mérito e que, se esta alma pudesse ver
a verdade, os portões celestes se abririam para ela. O tzadik estendeu seu dedo e
tocou a alma debilitada. Um ponto brilhante e iridescente apareceu onde ele tinha
tocado. Então, o sonho chegou ao fim, e uma voz repetia muitas e muitas vezes:
'Este tzadik é o Baal Shem Tov, Israel, o filho de Eliezer, o Baal Shem Tov.'
Depois que tive este sonho, não tive mais coragem de continuar com a calúnia do
sangue, mas eu era o prefeito...
O que podia fazer? E, então, você apareceu e disse que o Baal Shem Tov queria me
ver! A princípio, fiquei aturdido, por isso mandei você embora. Mas, na segunda
vez, sabia que o rebbe salvaria minha vida. Naquele aposento, ele me contou
muitas coisas. Conversamos sobre almas, céu, inferno e o destino da humanidade.
Falamos sobre uma nova consciência, uma mudança na maneira que as pessoas
viam as coisas — que ele chamou de messias — e falamos sobre a verdade e a paz.
Então, sabendo que eu era muito rico, ele me disse para vender tudo que eu
possuía e dividir a fortuna em três partes. Deveria dar um terço aos pobres; um
terço deveria ser utilizado para comprar minha liberdade; e o último terço deveria
ser utilizado para eu levar uma nova vida num país longínquo.
Pelo resto da vida, eu deveria fazer boas ações e ficar em paz com Deus.
E disse mais: que, quando alguém viesse e contasse minha própria história, eu
saberia que tinha sido absolvido. Meu amigo, muito obrigado por ter vindo.
No final das contas, tanto Reb Yakov quanto o barão foram liberados neste
momento. Diz-se que o barão deu a metade de sua fortuna a Reb Yakov.
Eles se tornaram amplamente conhecidos por suas histórias maravilhosas, seus
corações calorosos e suas boas ações.
Dessa forma, o Baal Shem Tov continuou seu trabalho, mesmo depois de ter
passado para outra realidade.

Muitos contos hassídicos sugerem que um rebbe sabe exatamente o que é


necessário para consertar nossa alma.
Nessa história, foi muito mais complexo.
Como num romance épico russo, o rebbe entrelaçou vidas de uma forma tal que o
desfecho da história só foi esclarecido depois que muitos anos se passaram.
O convite do Baal Shem Tov para que Reb Yakov encontrasse o prefeito e a
insistência em mandar o aluno para o meio de uma multidão de pessoas
enfurecidas são simplesmente cenas de uma obra maior.
Esta história hassídica nos dá a entender a mensagem de que cada acontecimento
é um ponto de união de uma grande quantidade de linhas de tempo que convergem
naquele momento.
Um dos ensinamentos mais importantes desta história é que cada ser humano tem
uma alma pura. Não importa em que grandes profundezas possamos cair, sempre
podemos ser redimidos.
Do ponto de vista judaico, o prefeito não poderia ter sido mais degenerado, pois ele
aceitava a tortura e a morte de judeus, na época da calúnia sobre o sangue.
Ainda assim, a história ensina que o Baal Shem Tov se esforçou para resgatar a
alma sagrada do prefeito.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 14

Parte Dois - O Presente – Olam Há-Zeh (Este Mundo)

Níveis de Alma e Consciência Primordial


Como vimos, os vários níveis de alma são associados com níveis de consciência
primordial.
Consciência primordial é vista como se estivesse num continuum; e a alma
também.
Os níveis da alma mais elevados estão, figurativamente, mais perto da fonte,
enquanto os níveis mais densos — ruach e nefesh— estão muito mais perto do
âmbito da consciência humana e podem ser afetados pela maneira como vivemos
nossas vidas.
Se dos nossos atos e palavras resultarem males para outras pessoas, se nossas
mentes se contraem, ficam estreitas e rígidas, ruach e nefesh são afetados pela
densidade da consciência humana.
É como se nadássemos numa água que se torna lama.
É assim que se tornam "poluídos".
Sendo assim, após a morte, nefesh e ruach têm de passar por um processo de
purificação para recuperar a fluidez da consciência primordial.
O simbolismo do Zohar sugere que cada nível de alma depende dos outros, mesmo
assim todos eles estão sintonizados na mesma freqüência.
Podemos imaginar isso como a corda de um violino.
Se alguma coisa interfere na liberdade de movimento, a corda não pode vibrar
corretamente e assim não produzirá o som adequado.
Podemos fazer pressão em certos níveis ao longo da corda, deixando que só uma
ponta seja tocada. Mas, enquanto alguma coisa prender a corda, ela nunca estará
operando plenamente.
O processo de redenção de nefesh e ruach é praticamente assegurado após a
morte.
Trataremos disso, bem detalhadamente, mais adiante nestes textos.
O que é enfatizado aqui é que as dimensões da alma que incluem neshama, chayah
e yehidah são sempre puras.
Elas não podem ser, de maneira alguma, maculadas, manchadas ou estragadas.
Algumas tradições sugerem que almas podem ser corrompidas.
Tais ensinamentos distorcem completamente o conceito de alma, como é descrito
no misticismo da tradição judaica, e podem ser danosos.
A reza matutina da tradição judaica inclui a frase que diz: "Meu Deus, a alma
(neshama) que você colocou dentro de mim é pura."
Podemos meditar sobre esta idéia para desenvolver a autoestima e aprofundar
nosso sentido de interconexão com todos os seres.
É uma prática simples.
Imagine que você tenha uma luz pura brilhando dentro de si.
Se você fechar seus olhos, poderá ter um indício desta luz que brilha no fundo do
seu ser. Então, diga para si mesmo: não importa o que sinto a meu respeito, sei
que tenho uma alma pura.
Quando contemplamos esta afirmação por algum tempo, começamos a sentir uma
centelha de paz interior.
O próximo passo nesta prática é ir reconhecendo aos poucos que cada pessoa que
encontramos possui uma alma pura.
Cada vez que vemos alguém, dizemos silenciosamente para nós mesmos: aí está
uma alma pura; existe outra alma pura.
Repare que a pessoa pode ser meiga e dócil ou pode ter uma personalidade
agressiva.
Não importa.
A alma de todos os seres é pura.
Se continuarmos com esta prática com todos os que encontrarmos, incluindo
aqueles em cuja presença temos sentimentos negativos, então as formas com as
quais nos relacionamos com nós mesmos e com os outros vão passar por
modificações fantásticas.
Esta prática, que parece tão simples, abre nossos corações.

Almas Gémeas
O Zohar ensina que, antes de enviar almas para o mundo, Deus as agrupa em
pares de duas almas, uma masculina e outra feminina.
Então, os pares são colocados nas mãos de uma emissária chamada Noite, que tem
as concepções a seu cargo.
Cada par é separado e cada pessoa nasce em seu devido tempo.
O Zohar continua, dizendo que as almas de cada par são reunidas por Deus, no
tempo certo, num só corpo e numa só alma.
Este ensinamento dá lugar a muitos questionamentos.
Por exemplo, será que está sendo realmente sugerido que somente uma pessoa no
mundo está destinada a ser a alma gêmea de outra?
Se fosse esse o caso, o que acontece se fizermos algo que provoque sua morte
precoce?
O que acontece se fizermos uma livre escolha e ficarmos com uma pessoa que não
é a alma gêmea?
Além do mais, isto significa que irmãos não podem ser almas gêmeas?
Quem disse que almas gêmeas devem ser de sexos diferentes?
Como é que a reencarnação se encaixa em tudo isso?
Na Cabala luriânica só existe uma alma primordial no mundo.
Esta é a alma de Adam Kadmon.
A partir desta alma única, centelhas foram disseminadas pelo universo.
Cada um de nós carrega centelhas caídas de Adão e Eva, e, dessa forma, todos nós
estamos relacionados, alma com alma.
O objetivo de Adão e Eva no jardim era fazer uma retificação que levaria o universo
a um novo nível de consciência.
O suposto fracasso nessa realização ocasionou a queda da grande alma universal.
A alma original é descrita como tendo 613 "membros" que representam as 613
missões específicas que Adão e Eva tinham de realizar para produzir a retificação
da criação.
Cada membro era, por sua vez, uma raiz que continha 600 mil raízes menores.
Então, se multiplicarmos os 613 membros pelas 600 mil raízes menores, podemos
deduzir que há mais de 3,5 bilhões de raízes de alma no total.
Cada uma desses bilhões de raízes menores é chamada de "grande alma".
Todas essas almas grandes são elas mesmas compostas de 600 mil almas
individuais, cada uma representada por uma centelha.
Quando calculamos isso, vemos que o número de centelhas chega a mais de 2.000
trilhões.
Apesar do enorme número de centelhas de alma nesta contagem, todas as almas
são sempre originárias da alma da família de Adão e Eva, composta dos 613
membros primários.
De acordo com Isaac Lúria, existem divisões fundamentais nos tipos de alma, tal
como entre Caim e Abel.
Enquanto uma simples leitura da história em Gênesis nos diz que Caim matou Abel,
pela leitura esotérica aprendemos que cada um representa uma força primordial.
Abel representa chessed, a força de expansão; Caim representa gevurá, a força de
contração.
O desenrolar da criação é o processo da luta contínua entre pólos opostos: luz e
escuridão, dar e receber, para cima e para baixo, direita e esquerda, vida e morte.
O conflito entre Caim e Abel é o primeiro das muitas descrições bíblicas de tensões
existentes entre forças opostas.
Da mesma forma, cada alma está conectada a uma raiz, que, por sua vez, está
associada a forças que podem estar em harmonia ou em oposição à fonte da raiz de
outras almas.
A Cabala de Lúria diz claramente que o objetivo de tudo na criação continua a ser a
conclusão da tarefa original de Adão e Eva.
Primeiro, devemos restabelecer a consciência primordial do Jardim do Éden e,
depois, temos a responsabilidade de redimir as centelhas caídas, para que o
universo seja elevado ao próximo nível: a consciência messiânica.
Esta idéia muda nosso relacionamento com a alma.
Cada alma é composta de muitas centelhas, não somente uma.
As centelhas estão conectadas com várias raízes das originais 613.
Podemos ver, por este arranjo, que a alma tem uma ampla diversidade e pode
rapidamente conectar-se com uma grande quantidade de outras almas.
De fato, podemos encontrar inúmeras outras almas, com potencial de serem
companheiras.
Imagine um quebra-cabeça gigante com bilhões de peças, mas só 613 variações
para as formas como as peças se encaixam.
Isto significa que cada peça pode combinar-se com muitas outras.
Se este quebra-cabeça só tivesse uma solução, nunca seríamos capazes de resolvê-
lo. Entretanto, este quebra-cabeça é dinâmico e pode ser solucionado de várias
maneiras.
Este é o próprio sentido de Deus-em-processo e criação-em-processo.
Podemos até não reconhecer uma determinada conexão de almas que temos com
outra pessoa, pois ela não seria romântica. Além do mais, se é romântica, ela pode
não se parecer com nossos sonhos.
Deus, constantemente, junta casais com naturezas opostas — naturezas rígidas
com delicadas, tagarelas com caladas, extrovertidas com introspectivas —, a fim de
que o mundo possa preservar seu equilíbrio.
A própria queixa que você tem de seu companheiro pode ser a qualidade essencial
que juntou vocês.
Portanto, o principal conselho do Zohar é que, cada vez que estiver procurando um
companheiro, você deve abençoar o Todo-Poderoso e rezar com todo o seu
coração, porque todo o propósito da conexão com uma alma gêmea, e também a
finalidade da existência, é a elevação da consciência do mundo.
Obviamente, há muitas almas gêmeas em potencial para todos nós.
Na verdade, na visão luriânica, podemos dizer que praticamente qualquer
relacionamento longo que temos é, por definição, uma conexão de almas gêmeas.
Algumas duram até a morte de um dos parceiros; outras não.
De uma forma ou de outra, mesmo depois de um começo muito romântico, quase
todos os casais comprometidos com a relação concordam que esta representa um
desafio, um processo contínuo de dar e receber.
Isto é um fator importante do aspecto místico das almas gêmeas, que é elevar a
consciência primordial, e é, de certa forma, diferente da visão idealista, que
pressupõe uma perfeita combinação e harmonia entre dois seres.
A maneira pela qual interagimos com qualquer uma de nossas almas gêmeas em
potencial a fim de ajudar a elevar a consciência do mundo é um dos grandes
mistérios da criação.
Então, rezamos não só para encontrar uma alma gêmea, mas também para ganhar
suficiente compreensão a fim de poder avaliar as diferenças dentro de nossos
relacionamentos e distinguir as partes que são desnecessárias das partes que
verdadeiramente nos elevam, a nós e ao mundo, a um novo estado de consciência
primordial.
Que todos sejamos abençoados com a obtenção deste insight!

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 15

Parte Dois - O Presente – Olam Há-Zeh (Este Mundo)

Almas
De acordo com a ciência ocidental, o universo físico é sustentado devido às forças
eletromagnéticas.
Existe a hipótese de que a mesma gravidade que mantém o sistema solar em
operação também mantenha unidos os prótons, nêutrons e elétrons dos átomos.
Várias forças podem ter energias diferentes e gradações peculiares, mas o princípio
geral é o mesmo.
Os físicos continuam a procurar por uma fórmula universal que descreva o
processo.
A força eletromagnética é certamente a característica principal do corpo humano,
mesmo que não possamos vê-la.
Se pudéssemos, de alguma maneira, eliminar o espaço entre os núcleos dos
átomos que compõem nosso corpo, toda a matéria física do corpo seria compactada
numa coisa menor do que um grão de areia.
Em outras palavras, somos como um grão de matéria espalhado por 1,50 a 1,80m
de espaço, que permanece agregado por forças eletromagnéticas que ninguém
ainda foi capaz de medir.
Ultimamente, vem sendo salientado que a fisica teórica e a metafísica esotérica
muitas vezes compartilham pontos de contato.
Os mistérios das forças eletromagnéticas estão para a ciência assim como a alma
está para a teologia ocidental.
A alma não existe como uma entidade, mas o universo depende dela.
Não podemos sentir seu gosto, cheirá-la, vê-la, ouvi-la, ou tocá-la, mas tudo o que
sentimos e os nossos próprios sentidos também só estão funcionando devido à
alma.
A alma, no misticismo da tradição judaica, é um dos aspectos mais essenciais da
própria criação. Da mesma forma que o universo físico não poderia existir sem
energia, a dimensão espiritual tem por base a "matéria da alma".
O ponto de vista cabalístico, naturalmente, é que não teríamos um universo sem a
dimensão espiritual, e assim poderíamos dizer que um dos principais pilares sobre
os quais a criação está apoiada é a alma.
A Cabala descreve a alma como uma espécie de campo magnético espiritual.
Este campo não é espacial e não possui limites, mas é associado à matéria.
Descrevendo esta associação, o Zohar sugere que as almas são "modeladas" da
mesma maneira que os corpos.
Assim, diz: "Da mesma forma que o corpo é formado neste mundo pela
combinação de quatro elementos, o espírito é formado no Jardim [do Éden] pela
combinação dos quatro ventos. Lá, o espírito é envolto pelos contornos do corpo.
Se não fosse pelos quatro ventos, que são ares do Jardim, o espírito não teria
roupagem (não teria recebido forma) alguma."
O "contorno do corpo" é um modelo primordial e pode ser descrito como a nossa
imagem refletida num espelho de outra dimensão.
O espelho não é como um espelho que reflete nossa forma física.
Pelo contrário, é um espelho diferente, de raios X, que mostra nossa substância
espiritual.
O modelo desta substância não está somente conosco; está simultaneamente em
outras dimensões de realidade. Quando pensamos sobre a alma, temos a
tendência, de alguma maneira, de lhe dar um corpo.
Damos a ela uma identidade: minha alma, sua alma.
Ela é vista como uma entidade que é de alguma forma conectada ao corpo.
Alguns dizem que ela chega no exato momento do nascimento; outros, que chega
durante a gestação ou no momento da concepção.
Mas todos concordam que a alma parte na hora da morte.
Durante o tempo de vida, ela está conosco; mas talvez ela também esteja em
outros lugares.
Não temos certeza para onde ela vai depois que morremos, mas algumas pessoas
dizem que sabem.
Conectar a alma a uma identidade é um erro, pois isso requer uma idéia de
separação. Isto é como dizer que a eletricidade necessária para fornecer energia a
uma casa é diferente daquela que sai da usina geradora.
Quando vemos um aparelho elétrico funcionando, devemos pressupor que a
eletricidade pertença a ele?
Será que a eletricidade que alimenta sua torradeira é diferente da eletricidade que
alimenta a torradeira da casa vizinha?
Obviamente, a eletricidade não pertence a nenhuma das casas em questão, pois,
quando a usina elétrica pára de funcionar, todas as casas da vizinhança ficam sem
luz. Entretanto, se moro perto de um vizinho que tem sua casa ligada à outra rede,
temos uma situação nova.
A eletricidade de uma casa não vem da mesma fonte que a da outra.
Apesar disso, não deixa de ser eletricidade, e funciona exatamente nos mesmos
princípios em ambas as casas, sem levar em consideração sua origem.
O mesmo ocorre com as almas.
Há um princípio primordial das almas, uma "grande alma" que abarca todas as
almas.
A partir daí, temos as linhagens que conectam as almas com múltiplos arquétipos.
Uma pesquisa na literatura religiosa e filosófica da tradição judaica revela que há
pontos de vista amplamente divergentes a respeito da alma.
A alma não pode ser pesquisada se não nos aprofundarmos nos mistérios do
propósito da vida, recompensa, castigo, morte, céu e inferno.
Pode ser por isso que a alma é um assunto que parece provocar uma "urticária"
intelectual.
Temos a impressão de que há muita gente "se coçando" quando um filósofo ou
teólogo fala sobre alma.
Entretanto, os místicos falam sobre alma sem levar em consideração a lógica, a
consistência ou as preocupações sobre concordância com qualquer sistema
convencional.
Isto acontece porque os místicos "vivenciam" outras realidades e, portanto, não
têm dúvidas sobre sua existência.
Tendo em vista que estas realidades não estão completamente desconectadas da
realidade material que vemos na frente dos nossos olhos, a conclusão é clara:
alguns aspectos do nosso mundo material estabelecem pontes entre realidades
diferentes.
Assim, podemos dizer que a alma é um meio que dissolve limites de consciência.

O amor é o irmão da alma


Podemos avaliar melhor a alma quando conhecemos seu irmão.
Da mesma forma que a alma transcende os limites do tempo e do espaço, seu
irmão, o amor, faz a mesma coisa.
Será que o amor tem limites de tempo?
Podemos dar um formato ao amor?
Algumas vezes, pode parecer que possui qualidades quando nele colocamos limites.
De fato, em algumas situações, somos capazes de sentir os sintomas do amor.
Mas isso é passageiro, e o amor continua sendo indeterminado, sem limites,
atemporal, e completamente além de nossa compreensão.
O amor pode ser visto como uma unidade, uma unicidade que permeia todas as
coisas.
Mas, mesmo assim, vivenciamos o amor em toda a sua multiplicidade: amor
paterno, amor materno, amor romântico, amor passional, amor divino, amor pela
família, amor pelos irmãos e assim por diante.
Cada uma dessas expressões do amor tem uma qualidade diferente.
Cada uma tem sua própria realidade.
Você gostaria de explicar o amor para alguém?
Como é que ele funciona?
Por que não funciona sempre da mesma forma?
Como podemos medi-lo?
Você quer dizer que nunca poderemos determinar o que atrai as pessoas e o que as
separa?
Certamente, o amor é uma vivência mística.
É por isso que é chamado de irmão da alma.
Será que o fato de não podermos explicar o amor significa que ele não existe?
Certamente que não.
Todos nós vivenciamos o amor.
A alma é exatamente assim.
Transcende todos os limites da consciência.
A princípio, parece mais difícil vivenciar a alma do que o amor, mas não é assim.
Vivenciamos a alma o tempo todo; simplesmente não damos um nome a isso.
O bater das ondas do mar, o estalar do fogo, o vento à noite e a impressionante
extensão do céu estrelado, tudo isso fala a linguagem da alma.
O vôo de um pássaro, a sombra de um rochedo, o ronronar de um gatinho, o
sorriso de um estranho tocam um acorde misterioso em nosso interior.
Chame isso do jeito que você quiser.
O místico diz que isto é a alma — enigmática e paradoxal.
Quando dizemos "Eu amo esta pessoa, mas não sei o motivo", estamos lidando
com um enigma.
Quando dizemos "Amo e odeio esta pessoa ao mesmo tempo", temos um paradoxo.
Nós todos conhecemos ambos os sentimentos.
Um enigma é como um duende: brinca conosco.
Por outro lado, um paradoxo é mais desagradável, faz conosco um "cabo-de-
guerra" e pode ser bem cansativo.
Da mesma forma, podemos abordar a alma com uma visão intuitiva, que vem do
lado direito do cérebro, e desfrutar de uma dança enigmática, como se fosse dentro
de um sonho do qual não gostaríamos de acordar.
Ou podemos mergulhar no paradoxo da existência da alma e lutar com as
perguntas difíceis, procurando por um apoio, uma maneira de compreender
totalmente a idéia.
Alguns dizem que a natureza do paradoxo é tão fugaz que nunca vamos conseguir;
outros dizem que existe um meio de transformar o paradoxo, para que possamos
trabalhar com ele.

A Linguagem da Alma
Aqui temos uma série de exercícios para ajudar a descobrir de que maneira a alma
pode ser vivenciada.
Cada exercício pode ser feito em menos de cinco minutos.
Escolha qualquer um deles.
1. Imagine que você esteja segurando um recém-nascido nos braços. Seus olhos
estão abertos. Você sabe que estes olhos ainda não podem focalizar, mas eles
estão olhando diretamente em seus próprios olhos. Feche seus olhos e, por dois ou
três minutos, tente imaginar este olhar e descubra o que você sente.
2. Imagine que você esteja segurando um ovo que tem um pintinho vivo dentro
dele. Suas mãos estão debaixo de uma lâmpada, que emite calor, e você pode
sentir as batidas do pintinho tentando sair do ovo. Permita-se segurar o ovo em
suas mãos, sentir os movimentos em seu interior, e imagine que, enquanto você
está segurando o ovo, o pintinho lentamente quebra a casca e se libera.
Feche seus olhos e absorva este momento.
3. Tente se lembrar da primeira vez em que você achou que estava se apaixonando
por alguém. Você lembra da experiência fisica? Afetou seus sentidos, o modo de
ver e o gosto das coisas? Será que o fato de se apaixonar era diferente do que
acontecia em sua vida cotidiana normal? Permaneça com esta lembrança por
alguns minutos.
4. Imagine que você tenha encontrado finalmente o ser mais sábio que já existiu,
quem quer que seja ele. Pode ter sido alguém conhecido ou um ser que esteja
inteiramente oculto. Em sua imaginação, perceba o que você sente na presença
dessa pessoa. Imagine a resposta que esta pessoa daria à sua pergunta.
Se você foi capaz de fazer qualquer um desses exercícios, terá descoberto que a
linguagem da alma não tem nada a ver com o cérebro; ela não fala com palavras.
Mas, apesar disso, ela é bem clara. ,
O olhar de uma criança recém-nascida nos emociona com uma ternura delicada,
que é indescritível e que, com um "murmúrio", aquece nosso coração.
O bater da nova vida dentro da casca do ovo, quase nascendo, envia vibrações
para as profundezas do nosso ser.
A vida despertando e brotando em direção à liberdade.
Quem pode entender o ato de se apaixonar?
Qual é a sua língua?
Palpitações, calor, confusão, claridade, náuseas, êxtase, dúvidas, medo, um
temporal no meio do oceano ou um sentimento pleno de paz.
Escolha uma delas ou todas, mas nenhuma delas mora na dimensão da
racionalidade.
O ser cheio de sabedoria que está dentro de nós pode estar em silêncio ou pode
falar palavras reconhecíveis.
Se falar, muitas vezes a mensagem é tão simples que chega a ser desconcertante:
"Seja você mesmo"; "Você está indo muito bem"; "Eu te amo"; "Largue (aquilo a
que você está apegado)".
E se ele ou ela não disser nada, perceba a experiência de estar em sua presença.
Pode ser calma, tranqüila, agradável, pode ser um sentimento de estar, afinal,
chegando em casa.
Ou, também, pode ser questionadora, curiosa, cheia de dúvidas, de deixar você
admirado ou cético. Isto também é a linguagem da alma.
A fim de nos harmonizar, temos de ampliar nossos limites e deixar para trás as
idéias preconcebidas.
Devemos aprender a ouvir, ver e sentir cada gradação de nossas vivências,
momento a momento.
A linguagem da alma vive nas bordas dos pensamentos, ou por trás deles.
Ela é simbólica, metafórica, poética.
Sempre existe um sentido oculto, um pouquinho além do nosso alcance.
Não importa o fato de sermos incapazes de entendê-la com as nossas mentes,
porque sempre existe outra parte do nosso ser que é tocado por ela, e isso é
suficiente.
Apesar das limitações de nossa verdade subjetiva, os cabalistas crêem que, por
meio da alma, recebemos informações de outras realidades.
A maneira como podemos sintonizar outras realidades é utilizando métodos
contemplativos para penetrar através dos véus que obscurecem nossos graus de
consciência primordial.
Comentando o Salmo 24:7, "Levantai, ó portões, as vossas cabeças", o Zohar diz:
"Os portões referem-se aos graus celestiais (níveis mais elevados de consciência),
por meio dos quais é possível que os seres humanos tenham um conhecimento do
Todo-Poderoso. Sem isso [consciência primordial], os seres humanos não poderiam
comunicar-se intimamente com Deus... Alguns aspectos da alma podem ser
conhecidos; outros permanecem desconhecidos. E assim acontece com o Sagrado.
É a Alma das almas, o Espírito dos espíritos, encoberto e envolto em véus; mesmo
assim, através destes portões [de consciência primordial], que são as portas para a
alma, que o Sagrado Se deixa conhecer."

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 16

Parte Dois - O Presente – Olam Há-Zeh (Este Mundo)

Trazendo uma alma para este mundo


Uma crença muito difundida, hoje em dia, é que a alma escolhe seus pais.
Algumas vezes, esta idéia é dita na forma de uma observação irônica: "Bem, você
deve ter escolhido um pai difícil por alguma razão!" ou "Acho que o fato de você
não se dar bem com sua mãe é para lhe servir de lição sobre alguma coisa que
aconteceu em sua vida passada".
Uma concepção oposta a esta é que o acaso é o fator decisivo.
Somente um dos milhões de espermatozóides penetra a parede do óvulo.
É uma casualidade, o que estiver mais perto, o que é mais rápido e mais forte: isso
vai determinar o DNA do feto.
O misticismo da tradição judaica fica entre estes dois pontos de vista.
De um lado, a existência do livre-arbítrio no universo garante que um certo grau de
aleatoriedade estará sempre presente.
Por outro lado, como tudo o que acontece nos mundos inferiores tem seu reflexo
nos mundos superiores, haverá uma relação e uma atração mística entre as almas.
"Quando o desejo faz com que um homem e uma mulher fiquem juntos, a criança
que provém dessa união será uma combinação de suas formas, pois Deus produz
esta criança num molde que tem características de ambos. Por esse motivo, o
homem e a mulher devem santificar-se neste momento, para que a forma seja tão
perfeita quanto possível."
Esta afirmação do Zohar sugere que o resultado da concepção está baseado não só
no que é, mas também no que poderia ser.
Em termos individuais, nossa parte "o que é" está relacionada à nossa constituição
genética — a matéria-prima com a qual lidamos.
Nossa parte "o que poderia ser" é o resultado das escolhas que fazemos na vida, a
maneira pela qual nos condicionamos.
O efeito recíproco desses dois fatores determina quem seremos em qualquer época
da vida.
O nível místico adiciona outra dimensão.
A parte "o que é" abrange uma história de conexões de alma, o conjunto complexo
de missões que cada alma estabeleceu para si, assim como o relacionamento da
alma com os domínios superiores e inferiores.
A parte "o que poderia ser" se concentra em ações simples de consciência
espiritual, expressas por intermédio do livre-arbítrio, que se torna o ponto de apoio
sobre o qual o mundo gira.
Nossas vidas, assim como o próprio universo, vão para uma balança que pesa
ações, palavras e pensamentos.
Uma única palavra pode mudar tudo.
Um único pensamento pode produzir uma nova harmonia no universo.
Cada ação tem a capacidade de alterar o destino.
Assim, o impressionante enredo que se revela a cada momento é incrível, pois
nunca sabemos o que vai acontecer mais à frente.
Este ensinamento místico encontra seu momento culminante na concepção, o
arquétipo do que é novo.

Corpo e Alma
Sabemos que álcool, drogas e cigarros são prejudiciais a uma gravidez.
Intuímos que estresse excessivo durante a gravidez pode ser nocivo, e que nove
meses bem equilibrados e relativamente tranqüilos podem ser benéficos, mas não
há maneira de avaliar isso.
Além do mais, bebês maravilhosamente saudáveis muitas vezes nascem após uma
gravidez traumática, e bebês que sofrem de cólicas ou outras complicações nascem
após uma gravidez ideal.
Quando consideramos a alma, os ensinamentos se tornam ainda mais etéreos.
O místico da tradição judaica acredita firmemente que o nível de nossa consciência
é um fator importante na atração das almas.
Em outras palavras, a alma do recém-nascido é afetada pelo estado de espírito de
ambos os genitores, o tempo todo, inclusive quando ocupados com o ato que leva à
concepção, durante o tempo da própria concepção (mesmo que ela possa ocorrer
horas depois) e durante a gravidez inteira.
Muitos comentários na tradição oral judaica tratam de uma série de idéias
relacionadas ao motivo pelo qual uma mulher fica grávida e outra não.
Muitos desses conceitos relacionam o fato a mérito, orações e vidas passadas.
Além do mais, no nível místico, está claro que as almas têm tarefas a realizar
enquanto estão associadas a uma forma física.
Assim, supomos que exista um grau de seletividade, um processo de escolha na
situação física dos genitores, que será relevante à tarefa da alma.
Certamente, o nível de consciência dos pais seria considerado um fator importante.
Várias histórias hassídicas descrevem as seleções que a alma faz: ou pais
extremamente virtuosos ou mais próximos da média das pessoas comuns.
Além disso, o ato sexual tem enormes implicações místicas.
Os místicos sugerem que, durante o ato de amor, devemos nos ver como
representantes da imagem divina.
Por outro lado, recebemos o conselho de que "é importante evitar pensamentos
invasivos durante o ato sexual. Os parceiros não devem pensar em nenhuma
pessoa do sexo oposto que não seja o próprio parceiro sexual".
Aryeh Kaplan, um dos mais produtivos ensaístas modernos do misticismo judaico,
sugere que meditação profunda "pode ter um efeito sobre a estrutura genética de
seu filho, assim como sobre a constituição espiritual da criança".
Ele se baseia na descrição da Torá, em que Jacó controla a reprodução genética de
seus carneiros, para que tenham marcas de manchas, faixas e listras no corpo.
Jacó fez isso porque tinha de dar os carneiros sem marcas para Labão, que era
corrupto.
Assim, Jacó descascou gravetos e meditou sobre eles, a fim de produzir os efeitos
desejados nos carneiros que iriam se reproduzir.
O que a teoria mística busca enfatizar neste exemplo é que a consciência está
conectada com as dimensões da alma.
Assim, nossa consciência primordial será um ímã que atrairá almas que estão em
níveis similares
Isso não é algo que podemos perceber logicamente.
Mas, se formos capazes de visualizar toda a criação como camadas de consciência
primordial, cada camada representando uma realidade diferente, podemos começar
a avaliar a dinâmica da interação com as dimensões da alma.
Somos propensos a não entender a relação entre alma e corpo.
Quando o corpo é bonito, tem emoções bem equilibradas e o intelecto é bem
desenvolvido, achamos que a alma desta pessoa provém de domínios mais
elevados.
Mas, se o corpo for defeituoso, com emoções instáveis e um intelecto que não é
grande coisa, supomos que esta alma venha de dimensões inferiores.
Mas não é absolutamente assim que esta relação se apresenta nos ensinamentos.
O Zohar afirma que, "quando Deus se deleita numa alma, inflige sofrimentos para o
corpo, de forma que a alma possa obter sua plena liberdade".
E em outro trecho está escrito que, "quando o sofrimento atinge uma boa pessoa, é
por causa do amor de Deus. O corpo é esmagado, a fim de dar mais poder à alma,
e fazê-la chegar mais perto do amor de Deus".
Este ensinamento nos é de difícil entendimento.
Achamos que deveria ser de outra maneira.
Coisas boas devem acontecer a pessoas boas.
Mas, certamente, isso não é o ponto de vista místico.
A alma tem a tarefa de se aperfeiçoar, assim como aperfeiçoar o mundo, elevando
tudo a um nível mais alto de consciência.
Existe um número infinito de maneiras para fazer isso.
Algumas vezes, um problema em nosso corpo físico é necessário para elevar a
consciência.
Doenças, ambientes desagradáveis, relacionamentos conturbados, pobreza,
sofrimento, morte precoce de um ente querido ou qualquer outro acontecimento,
de uma ampla variedade de experiências humanas severas, podem levar uma
pessoa a um nível mais elevado de consciência primordial.
Devido ao fato de que "elevar a consciência primordial" é um modo alternativo de
dizer "chegar mais perto de Deus' ou ainda "cumprir o propósito principal da
criação", o que quer que vivenciemos nesses corpos físicos para nos fazer alcançar
este objetivo é visto como outra oportunidade de elevar centelhas sagradas.
Na verdade, a superação dos desafios da vida faz muito mais pela formação do
caráter de uma pessoa do que não passar por prova alguma.
Obviamente, não gostaríamos de passar pela maioria dessas provas.
Ainda assim, é o que nos é reservado.
Não nos é dado escolher.
A maneira como aprendemos a lidar com o que nos é dado como nossa porção irá
afetar o desenvolvimento da alma.
Tenho acompanhado muitas famílias que sofreram tragédias de grande porte.
Talvez a situação mais desoladora ocorra quando os pais têm um filho
diagnosticado com uma doença terminal — especialmente uma cujo processo possa
levar anos.
Que Deus não permita que isso aconteça com qualquer pessoa que você conheça,
mas, ainda assim, os pais que acompanhei nessas situações angustiantes são
geralmente almas fortes que atingiram níveis extraordinários de consciência, e isso
sem falar das crianças fantásticas que encontrei.
Nunca podemos justificar uma tragédia neste contexto, mas nos ajuda a obter
insights e compaixão.
As situações não precisam ser tão dramáticas como uma doença terminal.
Um amigo que tem um filho problemático me perguntou certa vez:
"Como foi que isso aconteceu? Temos uma vida boa, demos a Tommy tudo o que
ele precisava. Demos amor. Tentamos dar-lhe uma boa formação, que ele não
aceitou. Não o mimamos com muitas coisas materiais, mas demos a ele coisas que
valiam a pena. Ainda assim, desde o começo, ele era revoltado, infeliz, brigão,
odioso e destrutivo. Ele queimava tudo o que podia. Ele era valentão e roubava
coisas das crianças menores. Procuramos dar a ajuda necessária, tanto emocional
quanto psicológica. Nada deu certo. O que foi que aconteceu?"
Então, perguntei:
"Vocês pararam de amar Tommy porque ele tinha uma vida dificil?"
"Não, certamente que não", ele respondeu. "Tudo isso me causa muita dor por vê-
lo sofrer tanto assim."
O pai de Tommy não o amou menos devido às suas dificuldades; quem sabe, ainda
sentisse mais amor porque isso estava partindo seu coração.
Não escolheríamos este cenário para nós. E o pai de Tommy fez tudo o que podia
para virar o jogo. A pergunta que devemos fazer é:
O que estava acontecendo com a alma de Tommy?
Ou com a do pai de Tommy?
Da mãe?
Do professor?
Do psicoterapeuta?
Dos irmãos?
Das irmãs?
Dos amigos?
O ambiente em que ele vivia foi profundamente afetado por Tommy.
Todo mundo, onde ele vivia, foi afetado por Tommy.
Ele chamou muita atenção.
E afetou muitas almas.
Quem sabe?
Gênios nascem de pais com pouca instrução; crianças com problemas mentais ou
emocionais muitas vezes nascem de pessoas mais inteligentes, mais piedosas, mais
caridosas; crianças incorrigíveis, seriamente antissociais ou amorais nascem de
famílias de todas as categorias.
Não podemos fazer comparações entre as almas a partir de eventos exteriores.
Vivemos em uma realidade fisica, mas a alma habita muitas outras realidades.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 17

Parte Dois - O Presente – Olam Há-Zeh (Este Mundo)

Aperfeiçoando o Universo
A alma é a chave cabalística para o descobrimento dos segredos da vida e da
morte.
Se sempre tivermos em mente que as dimensões da alma não devem ser
interpretadas como entidades físicas, mas como "forças modelares", como bolhas
que passam através de realidades, poderemos utilizar os ensinamentos sobre almas
para obter uma visão diferente da natureza espiritual do universo.
Num trecho notável do Zohar, o rabino Eleazar faz ao rabino Shimon a seguinte
pergunta:
"Já que Deus sabe que as pessoas vão morrer, por que motivo as almas são
enviadas para o mundo?"
O rabino Shimon respondeu: "Isto é um mistério que é explicado no versículo 'Beba
água de sua própria cisterna e água corrente de seu próprio poço'."
O termo "cisterna" designa um lugar onde a água não corre naturalmente.
(Isto representa metaforicamente uma alma que está neste mundo, que não é seu
habitat "natural".)
Quando uma alma não é poluída neste mundo, volta ao seu lugar designado
(natural) de uma maneira que é perfeita em todos os quatro lados, acima e abaixo.
Quando a alma sobe desse modo... as águas (radiações) da consciência inferior
correm para cima [para uma consciência mais elevada], como uma cisterna sendo
transformada num poço de água corrente.
Este processo da alma que retorna traz uma nova dimensão de união, estrutura,
desejo, amizade e harmonia para o universo.
Assim, o retorno de uma alma aperfeiçoada completa a união que foi inicialmente
despertada pelo amor e pela afeição celestes... [e, assim fazendo, aumenta o
aperfeiçoamento do universo inteiro].
Esta idéia é surpreendente e acrescenta uma dimensão inteiramente nova ao
conceito de alma.
Quando o hospedeiro da alma pensa, fala e age de forma a beneficiar o mundo com
bondade amorosa, caridade, paz para com seus vizinhos e outros atos afins, então
as dimensões mais elevadas da alma são despertadas, causando uma ativação nos
domínios de consciência mais elevada.
Na ocasião da morte, se uma alma retorna à sua fonte original com seus elementos
mais elevados, num estado mais aperfeiçoado, então o universo inteiro se
beneficia, pela obtenção de um novo nível de harmonia!
Não estamos simplesmente lidando com "minha" alma e "meu" carma.
Não somos vítimas das circunstâncias, servidores do rei, pequenos dentes de uma
engrenagem devastadora que gira constantemente, pulverizando-nos.
Muito pelo contrário, por meio de nossas almas estamos conectados à fonte da
criação e podemos transformar seu fluxo.

Destino e Milagres
O rabino Zusha, de Hanipoli (século XVIII), foi famoso por sua fé simples.
Contam-se muitas histórias sobre ele, mas talvez a mais conhecida diga resto à
resposta que deu a seus alunos, que perguntaram por que seus ensinamentos eram
diferentes daqueles dados por seu próprio mestre.
A resposta de Zusha foi: “Quando eu comparecer perante os juízes do tribunal
celeste, eles não vão perguntar se eu vivi minha vida como Moisés, ou se vivi
minha vida como Abraão. Eles vão me perguntar se vivi minha vida sendo o melhor
Zusha possível”.
Em sua juventude, o rabino Zusha e seu irmão Elimelech viajavam de cidade em
cidade, tendo aulas com diferentes rebes.
Naqueles dias, muitos cabalistas eram ascetas nômades, dormindo nas salas de
aula e vivendo de pedaços de pão e restos de comida — exceto no Shabat, quando
geralmente tinham a oportunidade de encher a barriga.
O cabalista aprende muito mais com as experiências de vida que com os livros.
Zusha e Elimelech adoravam participar de eventos alegres: noivados, circuncisões
e, especialmente, casamentos.
Casamentos têm muitos mistérios, e também muita comida.
Num casamento judaico tradicional, um certo número de rituais tem importância
cabalística.
A chupá (Cobertura sustentada por quatro colunas, que simboliza o futuro lar dos
noivos.) debaixo da qual a noiva e o noivo ficam durante a cerimônia, representa
um portal para o céu. Antes do casamento, numa cerimônia separada chamada
bedeken o noivo cobre o rosto da noiva com o véu.
Durante o tempo que passa debaixo do véu nupcial, diz-se que a noiva está em
comunhão com as almas de sua mãe, avós, e bisavós, numa corrente que volta até
Sara, a noiva de Abraão.
Além disso, durante esse tempo debaixo do véu nupcial, ela se conecta com as
almas de seus filhos, seus netos e seus bisnetos, à frente no tempo. quando a
consciência messiânica irá transformar nossa visão da realidade.
Pensar em todas essas conexões era o suficiente para deixar Zusha tonto.
Durante a cerimônia propriamente dita, assim que a noiva entra, segurando uma
vela, ela anda em círculos sete vezes em volta do noivo.
Isso simboliza que ela está iluminando os sete níveis primordiais da criação aos
quais ela e seu noivo estão juntando suas almas.
Sete bênçãos são ditas durante a cerimônia para comemorar a união em cada um
dos níveis.
E a quebra do copo ao final da cerimônia simboliza para os místicos o início da
criação, apesar de este ato ter muitos outros significados em cada um dos muitos
níveis.
Em outras palavras, a luz de cada casamento é tão brilhante que destrói todas as
concepções anteriores e abre o mundo para um conjunto completamente novo de
possibilidades.
Para Zusha, casamentos não eram simplesmente acontecimentos em que você
poderia conseguir boa comida, mas eventos milagrosos.
Ele acreditava que o mundo se equilibrava em cada casamento.
Esta é a história de um casamento especial que atraiu a atenção de Zusha.
Muitas pessoas pensam nas histórias hassídicas como fábulas, contos folclóricos ou
anedotas destinadas simplesmente a servir como divertimento ou ensinamento.
Mas os grandes cabalistas dizem que estas histórias, em algum nível, são sempre
reais.
Era um grande casamento.
As pessoas vieram de toda a região a fim de homenagear os noivos.
A organização da festa era suntuosa, comida farta, música tocando sem parar e
dançava-se com empolgação. Tudo estava planejado para enviar ondas e mais
ondas de alegria para o céu, de modo que uma vida de felicidade fosse assegurada
para o casal, tanto durante seu tempo nesta Terra quanto no mundo vindouro.
Mas Zusha estava assustado.
Ele vira alguma coisa acontecer, que o deixou preocupado.
Era uma coisa sutil, provavelmente ninguém mais havia reparado, mas era o tipo
de incidente que Zusha sempre notava.
Só para você saber, Zusha era um dos lamed-vav tzadikim, um dos 36 justos
ocultos que fazem seu trabalho neste mundo, em silêncio, a fim de manter o
universo inteiro coeso.
Sem o trabalho de um lamed-vav tzadikim, a dor e o sofrimento que poderiam
surgir seriam inimagináveis.
O incidente havia ocorrido durante a própria cerimônia do casamento.
Assim que a noiva tinha acabado de se juntar ao noivo debaixo da chupá, começou
a dar voltas ao redor dele, a fim de entrar nas dimensões mais elevadas.
Para muita gente, estes outros mundos são um mistério, alguns até diriam que são
fantasia.
Muitos supõem que estes mundos não são importantes, se comparados com a
realidade concreta. Mas, para o rabino Zusha, estes mundos eram tão reais quanto
qualquer coisa que pudesse tocar ou ver.
Na verdade, para ele, estes mundos tinham muito mais significado e eram mais
permanentes do que qualquer coisa na Terra.
Já na primeira infância, Zusha descobrira como penetrar em outras realidades.
Ele possuía uma visão interna misteriosa.
Quando alguém agia de certa maneira, era um sinal seguro de que alguma coisa
feliz iria acontecer para aquela pessoa num futuro próximo. Zusha aprendeu que,
quando alguém se movimentava para a esquerda ou para a direita, era de alguma
forma uma indicação de seu potencial para o sucesso.
Quando era criança, Zusha supunha que todo mundo tinha esta habilidade para
observar e, portanto, antecipar o que iria acontecer. Mais tarde, entretanto, ele
descobriu que, embora todo mundo tivesse a capacidade de prever o futuro, a
maioria das pessoas não queria se dar ao trabalho de desenvolver este dom único e
extraordinário.
Na verdade, ele raramente encontrava qualquer pessoa que visse as coisas da
mesma forma que ele. Por esse motivo, ele ficou extremamente perturbado quando
viu que a noiva só tinha dado cinco voltas em torno do noivo, em vez das sete
tradicionais.
Gente demais havia ficado em volta do baldaquino.
Alguns rabinos e muitos membros da família estavam aglomerados ali nesse
momento decisivo.
Todo mundo ficou perturbado, numa determinada hora, pelos latidos de um
cachorro.
A noiva fez o melhor que podia, mas ninguém estava realmente contando o número
de voltas.
Isto é, ninguém exceto o rabino Zusha, que fazia estas coisas automaticamente.
De fato, a mais suave rajada de vento, o quase silencioso grito de um pássaro, a
cor de uma mosca ou se uma pessoa estava inspirando ou expirando quando
alguma coisa era dita consistiam em mensagens para ele.
Cada um e todos os detalhes do universo desvelavam alguma coisa muito mas
muito maior para este larned-vav tzadik.
O fato de a noiva ter dado somente cinco voltas era um mau presságio.
Uma conexão não tinha sido completada em duas das sete esferas e, assim, a
harmonia do universo desse casal estava seriamente prejudicada.
A harmonia ficaria instável, e o desequilibro resultante poderia produzir duras
provações e sofrimento. A partir de suas observações sobre os ciclos da vida, o
rabino Zusha sabia que cada casal se depara com desafios contínuos, mas que
surgem dificuldades especiais no sétimo ano do casamento.
Esta é uma época em que os mundos estabelecem uma nova harmonia para os
próximos sete anos, ou pode acontecer que alguma coisa fique presa num ponto de
inflexibilidade.
Quando isso acontece, o casal se separa rapidamente.
Para o nosso doce casal, isto aconteceria em cinco anos.
Além disso, seria difícil por demais para o casal, pois seus dois mundos estariam
em conflito. O rabino Zusha sentia muito medo por eles.
Mas, graças a Deus, o destino não é tão predeterminado, como muita gente pensa.
Tudo o que fazemos tem influência sobre a maneira como a vida se revela para
nós. É claro que, na maioria das vezes, não percebemos as sutilezas das forças da
vida e, então, perdemos muitas oportunidades de direcionar nossos próprios
destinos.
É trabalho de um lamed-vav tzadik, entretanto, melhorar constantemente o destino
daqueles que estão à sua volta.
Dessa forma, o rabino Zusha começou a realizar sua tarefa, utilizar sua
considerável influência no cosmo para dar aos recém-casados um presente de
casamento secreto.
Era um presente sobre o qual nunca se poderia falar
Só o próprio Zusha, daí a cinco anos, poderia avaliar o fruto de seus esforços.
Durante suas orações, na manhã após o casamento, Zusha meditou profundamente
sobre o problema e abriu canais vitais.
Quando jovem, aprendera que, da mesma forma que podia observar as conexões
entre o universo e os atos individuais, podia, na realidade, influenciar o universo ao
fazer algo intencionalmente.
Por exemplo, quando ele notava que uma determinada ação desempenhada por
uma pessoa poderia, de forma invariável, levar a uma experiência dolorosa, ele
muitas vezes distraía esta pessoa no momento decisivo.
Se alguém dissesse alguma coisa que certamente traria aborrecimentos, Zusha
encontraria um meio de começar uma conversa com esta pessoa e, delicadamente,
conduzir o assunto, a fim de desfazer o estrago.
Esta era sua responsabilidade por ser um lamed-vav tzadik.
Ele não tinha escolha.
Ele até aprendeu a observar quando alguém estava num estado mental perigoso, e
encontrava meios de sutilmente afagar a psique dessa pessoa e desanuviar o
ambiente.
Algumas vezes, sem qualquer motivo aparente, nosso mau humor se transforma
em bom humor; isto pode se dever a um lamed-vavnik que esteja por perto.
Na verdade, às vezes, pensamos estar tendo uma conversa sem importância com
um estranho, mas o que está acontecendo de fato é que esta pessoa pode estar
nos ajudando a evitar uma tragédia séria.
Ademais, muitos de nós agimos como lamed-vav tzadikim sem nos darmos conta.
Mas este é assunto para uma outra história.
Zusha, em meditação profunda, começou a implorar pelos recém-casados, na corte
celeste.
Seria tão bom se as pessoas tivessem a sabedoria de ver a importância que têm as
pequenas ações.
Naturalmente, ele compreendia que a noiva não tinha causado o problema de
propósito. Pelo contrário, ela simplesmente vivenciara alguma coisa que já estava
nas mãos do destino.
Ainda assim, da maneira que as coisas acontecem neste mundo, se ela tivesse sido
capaz de dar as sete voltas, poderia ter influenciado seu destino e talvez modificado
o decreto simplesmente pelo poder de seu livre-arbítrio.
O rabino Zusha tentou, à sua maneira, completar as duas voltas.
A discussão nesta corte celeste foi muito complicada.
A vida dos noivos, assim como a de seus pais e avós, foi estudada exaustivamente.
Como acontecem com todos os seres humanos, erros haviam sido cometidos.
Alguns se haviam acumulado.
O decreto não estava baseado em um único caso, como às vezes acontece, mas em
uma série de eventos que levaram ao resultado inevitável.
Finalmente, Zusha juntou a súplica a uma negociação.
O casal tinha uma dívida a pagar. Mas, se ele tivesse sucesso em fazer com que os
recém-casados dessem mais do que estavam acostumados a doar para a caridade,
e se eles realizassem muitos atos de bondade amorosa nos próximos três meses, o
decreto seria cancelado.
E assim foi combinado, assinado e selado.
Quando o rabino Zusha terminou sua meditação, dispôs-se a procurar o casal, a fim
de persuadi-lo de que, de alguma forma, tinha de cumprir uma obrigação por este
desconhecida. Ele certamente não poderia contar a verdade e, mesmo se pudesse,
o casal não acreditaria.
Não, ele deveria fazer o trabalho de sua maneira habitual, nos bastidores.
Se ele tivesse sucesso, eles nem saberiam que Zusha estivera por perto.

Como é que esta história termina?


Será que Zusha conseguiu convencer o jovem casal a dar bastante dinheiro para a
caridade, para assim salvar seu casamento?
Nada nos foi dito, mas devemos supor que Zusha tenha achado um caminho.
Um lamed-vav tzadik geralmente consegue.
Aprendemos duas coisas importantes com esta história: nosso destino pode ser
revelado de várias maneiras e também que há forças neste mundo que podem
modificar o destino.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 18

Parte Dois - O Presente – Olam Há-Zeh (Este Mundo)

Muitas vezes, somos levados a fazer atos de caridade.


Será que é um lamed-vav tzadik sussurrando em nosso ouvido?
Será que estamos sob um decreto que precisa ser anulado?
Mesmo duvidando que isso possa ser verdade, o que temos a perder quando
sentimos uma compulsão de praticar um ato de bondade amorosa?
Realmente, algumas pessoas dizem que atos de bondade amorosa dão força aos
lamed-vav tzadikim e que esses atos mantêm o mundo coeso.
Quem poderia contradizer esta declaração?
O único propósito do lamed-vav tzadik é elevar as centelhas sagradas.
Durante esse processo, ele (ou ela) está constantemente desafiando o destino.
Diz-se que cada um de nós tem um aspecto do lamed-vav tzadik em nosso interior.
Será que isso quer dizer que podemos transformar nosso próprio destino e os
destinos das pessoas que estão à nossa volta?
O que é destino, como é que funciona e como podemos influenciá-lo?

Mude seu nome e transforme seu destino


Moshe Steinberg era um professor de relações internacionais na Universidade
Hebraica de Monte Scopus, em Jerusalém.
Seus dotes intelectuais eram admiráveis e sua vida inteira fora dedicada à
excelência acadêmica.
Infelizmente, ele não cuidou da própria saúde.
Suas longas horas de trabalho, associadas à falta de descanso e alimentação
inadequada, o levaram a ter um ataque cardíaco aos cinqüenta e poucos anos.
Seu filho Shlomo era um amigo nosso.
Ele também era um intelectual brilhante.
Shlomo nos dava notícias freqüentes sobre a saúde de seu pai. Parecia que piorava
um pouco mais a cada dia.
Inicialmente, o professor Steinberg deu entrada no hospital com dores fortes no
peito. Nos dias seguintes, foi resolvido que ele precisaria fazer uma cirurgia
cardíaca com urgência.
Durante a cirurgia, ele teve uma parada cardíaca e os médicos não conseguiram,
por vários minutos, fazer o coração funcionar de novo.
A princípio, os cirurgiões pensaram que tinham perdido o paciente.
Embora a equipe médica tivesse finalmente conseguido ressuscitar o Dr. Steinberg,
seu cérebro ficara substancialmente lesado.
Depois da cirurgia, o professor parecia estar parcialmente paralisado.
Ele não podia falar e quase não podia levantar sua cabeça ou seus braços.
Os médicos não tinham certeza se algum dia ele voltaria a falar.
Uma semana depois, os cirurgiões tiveram de operá-lo novamente, devido a uma
hemorragia interna. Dessa vez, o professor não acordou após a cirurgia e ficou em
coma profundo durante alguns dias.
Shlomo nos ligou logo em seguida.
Havia uma triste possibilidade de que seu pai nunca mais acordasse. E mesmo se
ele acordasse, provavelmente seria um inválido pelo resto de sua vida.
Shlomo nos disse que um grupo especial de orações estava sendo organizado no
Muro Ocidental para recitar salmos e dar a seu pai um novo nome.
O Talmud ensina que uma das maneiras de transformar o destino de alguém é
mudando o nome dessa pessoa.
Shlomo e sua família tinham feito tudo o que podiam por meio de orações, caridade
e obrigações para chegar mais perto de Deus. Seu último recurso seria mudar o
nome de Moshe.
As orações duraram algumas horas.
Durante esse período, demos ao professor o novo nome que sua família tinha
escolhido para ele: Rafael Bruchá Steinberg, um nome que aliava o poder de cura
de Deus (Rafael) com a força das bênçãos (Bruchá).
No dia seguinte, Rafael Bruchá saiu do coma.
Durante alguns dias, os médicos pensaram que ele nunca mais andaria e havia
algumas dúvidas sobre seu estado mental.
Entretanto, menos de uma semana após a mudança de nome, o professor
conseguiu se sentar e falar.
Ele descreveu para a família sua experiência fora do corpo, num outro plano, em
que tudo era feito de luz. Ele pensou que estava morto, e os seres de luz que
estavam à sua volta confirmaram esse fato. Ele disse que não lamentava isso.
Mas, depois, foi informado que iria viver como uma pessoa completamente
diferente do que tinha sido. E, então, ele acordou do coma.
O professor Steinberg começou, de fato, uma vida nova.
Depois de nove meses de recuperação, ele começou a tocar música e se
entusiasmou pela pintura com aquarelas.
Apesar de lecionar ocasionalmente, seu interesse principal era tomar-se um artista.
A última vez que ouvi falar dele, oito anos após sua enfermidade, ele estava
passando as férias de verão na Riviera italiana, pintando uma ou duas telas por dia.

Destino
Há um provérbio que diz: "O número de filhos que uma pessoa tem, seu tempo de
vida e o tamanho de sua riqueza não dependem do mérito dessa pessoa, mas de
mazal."
No misticismo da tradição judaica, o destino é muitas vezes chamado de mazal,
que é geralmente traduzido como sorte, mas que também significa "as estrelas do
zodíaco".
A idéia de que vivemos em função de mazal sugere que as almas têm seu destino
traçado desde o início e dependem do ritmo do universo.
Os cabalistas ensinam que a Lua é o recipiente místico onde as almas são reunidas
antes de sua liberação para o mundo.
A Lua, na Cabala, representa a receptividade.
Quando a Lua está cheia, está recebendo a luz universal em toda a sua plenitude e
expansão.
Quando a Lua é nova, não tem luz e está num estado mais contraído.
Assim, a implicação mística é que as almas são influenciadas pela fase da Lua
quando elas se associam aos corpos, cada uma tendo um nível diferente de
expansão ou de contração.
Em termos modernos, poderíamos dizer que isso descreve o motivo pelo qual
alguns são mais extrovertidos, enquanto outros são mais introvertidos, o que
parece ser o nosso destino.
Algumas pessoas pensam que o destino é um cenário fixo, mas os místicos
sugerem que ele é flexível.
Quando nos ocupamos com atividades que elevam a consciência, o destino se
adapta para dar apoio a elas.
Como exemplo, o Talmud diz que o que temos a receber a cada ano está
determinado pelo destino, "exceto o dinheiro gasto [na celebração] do Shabat e nos
outros dias sagrados. Quem gasta mais recebe mais e quem gasta menos recebe
menos"
Dessa forma, vemos que o destino é ajustável.
Nesse caso, a celebração do Shabat, ou de qualquer outro dia sagrado, é vista
como uma atividade que eleva a consciência e, portanto, temos carta branca para
convidar quantas pessoas quisermos para a nossa mesa de Shabat.
Em essência, para este tipo de evento, Deus (o destino) diz: "Eu vou pagar a
conta." Embora nossas vidas sejam influenciadas pelo destino, o livre-arbítrio pode
alterar nosso destino de forma marcante.
Somos capazes de influenciar o destino vivendo continuamente num estado de
consciência plena.
Quanto mais percebemos a relação existente entre o que fazemos e o que somos,
melhor poderemos controlar nossas próprias vidas.
O Talmud diz que devemos ser rápidos em ofertar pão a um pobre, pois "[a
misericórdia] é uma roda que gira neste mundo".
O rabino Gamaliel Beribi disse: "Quem quer que demonstre misericórdia para com
os outros recebe misericórdia do céu; quem quer que não mostre misericórdia para
com os outros não receberá misericórdia do céu."
Os dias intensos de Rosh Hashaná e Yom Kipur estão fundamentados sobre a idéia
de que o destino de uma pessoa é fixado por somente um ano.
Dizemos, na liturgia do Yom Kipur: "Em Rosh Hashaná foi inscrito e em Yom Kipur
foi selado [no livro do destino] quantos irão morrer e quantos irão nascer, quem
morrerá no tempo certo e quem morrerá antes deste tempo [por causa de más
ações]... quem vai descansar, quem vai andar pelo mundo, quem vai ficar
tranqüilo, quem vai sofrer, quem vai ser pobre, quem vai ser rico..."
Então, a congregação toda diz em voz alta: "Porém, teshuvá (mudança de
conduta), tefilá (oração) e tzedaká (caridade) cancelam a severidade do decreto."
O destino é o molde, desenhado num livro místico para a roupa que chamamos
vida.
Mas o desenho do destino é somente um esboço.
Podemos influenciar significativamente o desenho final de nossas vidas pela
maneira como cortamos o tecido do nosso destino, como o costuramos, como
fazemos os acabamentos e especialmente pela qualidade do tecido da vida que
escolhemos. Por fim, apesar de o modelo de nosso destino dever seguir um
protótipo essencial, um vestido, uma camisa, ou uma calça, temos muita liberdade
para modificar o produto final.
Além de sua fluidez e da influência do livre-arbítrio como aspecto modificador, o
destino pode ser mudado também pela introdução de um novo fator no universo,
alguma coisa inesperada.
Quando o inesperado é também inexplicável, chamamos isso de milagre.
Milagres confrontam as leis da natureza.
De fato, alguns dizem que o destino é a ordem natural das coisas, e que qualquer
mudança no fluxo do destino é milagroso.
Vamos ver o que isso significa.

Milagres
A literatura bíblica descreve muitos eventos milagrosos, assim como cajados que se
transformam em cobras, água que se torna sangue, pestes estranhas, animais que
falam, lepra que aparece instantaneamente e desaparece com a mesma rapidez, o
Sol que fica parado, um homem que é engolido por um peixe, regurgitado dias
mais tarde, vivo e por inteiro.
O Talmud contém vários relatos de milagres: o ato de matar com o olhar,
ressurreição dos mortos, luta com demônios, invocação de espíritos divinos,
teletransporte de uma cidade para outra, em alguns minutos, visita a dimensões
celestiais ou demoníacas, ainda em vida, curas incríveis, como também promessa
de gravidez a mulheres que eram sabidamente estéreis ou enfeitiçadas por meio de
poções.
Os milagres também desempenham um papel na história da maioria dos dias
sagrados. Os milagres da divisão do Mar Vermelho e das dez pragas estão
associados a Pessach.
A aparição de Deus no Monte Sinai está associada a Shavuot.
O fracasso do plano para um grande genocídio de judeus é parte da história de
Purim.
Hanukah está baseada no milagre ocorrido há 2.200 anos, quando os macabeus
derrotaram os gregos.
Quando recuperaram o serviço religioso no chamado Segundo Templo, os judeus
perceberam que o óleo utilizado para a menorá fora profanado e a quantidade de
óleo puro existente era suficiente para queimar apenas por um dia.
O milagre foi que o óleo queimou por oito dias, tempo necessário para preparar e
transportar um novo fornecimento.
Na maioria das vezes, os milagres são grandes, abruptos e evidentes.
O exemplo bíblico mais óbvio foi a divisão do mar conforme relatado no Êxodo.
Um grande milagre absolutamente repentino salvou os hebreus do extermínio.
Muitas vezes, ouvimos falar de milagres que aconteceram nos nossos dias: um
acidente de automóvel horrível, mas os passageiros nada sofreram; um
paraquedas que não abriu, mas que, de alguma forma, o paraquedista sobreviveu.
Muitos milagres estão nessa categoria.
Entretanto, dizem que, para cada grande milagre, ocorrem bilhões de pequenos
milagres.
Os místicos da tradição judaica dizem que é no nosso mundo de todo dia que a
verdadeira natureza milagrosa da criação se encontra.

Milagres precedem a Criação


A questão dos milagres era de grande interesse para os sábios do Talmud.
O universo é um lugar organizado?
Se ele é organizado, como a maioria acredita que seja, os milagres têm de ser algo
diferente do que eventos que aparecem assim do nada.
Uma das maneiras pelas quais os sábios antigos tratavam esta questão era por
meio da sugestão de que os milagres tinham sido preordenados; eles estavam na
mente de Deus, se assim podemos dizer, na hora da criação.
Isto é explícito num Midrash no qual Moisés discute com Deus, dizendo: "Se o
Senhor partir o mar, o Senhor irá contra a ordem natural das coisas. Quem poderia
confiar no Senhor? Sem dúvida, o Senhor estaria contradizendo Sua própria
promessa de manter o mar e a terra separados."
Esta é uma discussão importante.
Se não pudermos acreditar que existe um universo organizado, nossa fé estará
sendo desafiada.
Deus promete que as coisas vão andar de uma certa maneira; a água não vai se
separar assim como "quer queira, quer não".
Se não tivermos confiança na existência de um universo ordenado, nossa fé será
desafiada.
Assim, Moisés está fazendo uma pergunta crucial.
Deus colocou por escrito que a água tem certas propriedades, mas está a ponto de
modificar as regras no Mar Vermelho.
A resposta para este enigma é encontrada num Midrash que afirma: "O Sagrado
estipulou [uma precondição] para tudo que foi criado nos seis dias da criação. [No
começo da criação, o Sagrado disse,] Eu ordenei o mar a se dividir... Eu ordenei ao
Sol e à Lua que ficassem parados perante Josué; Eu ordenei ao corvo que
alimentasse Elias... Eu ordenei aos leões que não fizessem mal a Daniel, aos céus
que se abrissem a Ezequiel e ao peixe para regurgitar Jonas."
Tudo isso foi feito antes da criação de Adão e Eva, e isso significa que todos os
milagres são uma parte necessária do destino do universo
Na verdade, os sábios utilizavam este enfoque para resolver uma questão decisiva.
Existe uma ordem no universo ou não?
Eles dizem que sim.
Apesar de que um milagre parece modificar o fluxo regular das coisas, ele está
integrado ao mecanismo da criação.
O potencial para milagres é uma parte definida da estrutura atômica.
Embora tenhamos um universo ordenado, o universo, paradoxalmente, tem o
potencial de fazer coisas extraordinárias que poderíamos considerar milagrosas.
O conhecido cabalista Nachmanides acrescentou uma dimensão mística a esta
maneira de ver.
Em resposta à opinião de Maimônides, de que os milagres eram utilizados por Deus
para Se revelar às massas, Nachmanides sugeriu que um determinado nível de
realidade supera a natureza e, nessa realidade mais elevada, o milagroso é lugar-
comum.
Nachmanides disse que um milagre não é um evento singular, um contraponto ao
fluxo da natureza, mas seria, em outras palavras, um processo em andamento.
A única razão para pensarmos que um milagre se opõe ao fluxo normal da natureza
é porque não temos uma visão, abrangente o suficiente, dessas outras dimensões
da realidade.
Se tivéssemos, veríamos que tudo depende de milagres.

Um mar de milagres não-realizados


Os cabalistas ensinam que tudo o que fazemos movimenta uma energia
correspondente em outras dimensões de realidade.
Ações, palavras ou pensamentos acionam reverberações no universo.
O universo se revela a cada momento em função de todas as variáveis que levam
para aquele momento.
Quando permanecemos conscientes do sistema místico, temos cuidado com o que
fazemos, falamos ou até o que pensamos, pois sabemos que tudo é
interdependente e que um gesto aparentemente insignificante pode ter
conseqüências pesadas.
Por exemplo, quando saímos de casa para ir visitar alguém, influenciamos e somos
influenciados pelo que está à nossa volta de milhares de formas, desde a hora que
saímos até a volta para casa. Onde colocamos nossos pés, as pessoas que
encontramos, o tráfego e as impressões que causamos, tudo isso pode ser visto
como linhas que se cruzam no grande mosaico da vida.
E, agora, o que acontece quando o telefone toca, bem na hora que estamos saindo?
Nosso passeio é adiado por alguns minutos.
Isto modifica o desenho do mosaico todo.
Tudo ficou diferente.
Nosso planejamento é alterado. O sinal que estava verde agora ficou vermelho; a
pessoa a quem ofereceríamos um sorriso se foi; a formiga, que nunca vimos, foi
esmagada.
Na teoria do caos, existe um fenômeno muito conhecido, chamado o "efeito
borboleta", que diz que o ar movimentado por um inseto, em algum lugar do
mundo, pode ser a causa inicial para a formação de um tufão, que poderá ocorrer
mais tarde, em outra parte do mundo.
O termo técnico é "dependência sensível sobre condições iniciais".
Esta teoria acrescenta uma dimensão fantástica às nossas vidas.
O que significa se meu carro pudesse deslocar uma certa massa de ar se eu não
tivesse sido interrompido pelo toque do telefone e uma massa de ar completamente
diferente se eu tivesse atendido o telefone?
Que reverberações diferentes são ativadas no universo por estas duas situações?
Será que uma leva à formação de um tufão em minha vida, e a outra não leva a
nada?
Ainda mais, e o que dizer se o toque do telefone me fez evitar um acidente horrível
no qual poderia ter ficado aleijado ou ter morrido?
Um caminhão perdeu seus freios e atravessou um sinal vermelho, no ponto exato
onde eu teria estado se o telefone não tivesse tocado.
Devo chamar isso de milagre?
Ainda assim, como é que poderia saber se o acidente poderia mesmo ter ocorrido?
Dois minutos mais tarde, tudo parece normal.
Obviamente, isto seria um milagre "não-realizado".
No misticismo da tradição judaica, no instante em que abrimos nossos olhos para
as dimensões verdadeiras, da criação e da causalidade, nós nos encontramos
mergulhados num mar de milagres.
Esta compreensão é surpreendente.
A qualquer instante, a criação pode se revelar de uma maneira que seria desastrosa
para nós; assim, cada momento está recheado com a dádiva da vida.
Na verdade. como resultado dessa consciência, o místico ama a vida intensamente
e se sente amado por ela.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 19

Parte Dois - O Presente – Olam Há-Zeh (Este Mundo)

Anjos e Demônios
As forças da gravidade e do magnetismo sempre têm deixado os cientistas
perplexos.
Podemos medi-las, podemos ter uma idéia aproximada de como se parecem, temos
conhecimento de que alguma coisa está acontecendo, que tem força e atração, mas
estas forças são invisíveis e só com instrumentos apropriados poderemos discerni-
las.
Você pode colocar suas mãos perto de um ímã muito forte, e nada acontece.
Mas, se, no seu pulso, você estiver usando uma pulseira de ferro, sua mão será
puxada tão fortemente pelo ímã que você não conseguirá tirá-la dali.
Na realidade física, cada movimento que fazemos depende da energia
eletromagnética.
Sob a ótica da metafísica, em vez de chamar esta energia de eletromagnética,
poderíamos chamá-la de angélica-demoníaca.
Cada movimento que fazemos é respaldado ou por um anjo ou por um demônio.
Além do mais, tudo o que fazemos cria novos anjos e demônios.
Nesse contexto, anjos não têm personalidade nem são entidades.
Eles representam linhas de força, pacotes de energia como fótons de luz; não são
ondas nem partículas, e não podem ser discernidos, a não ser pelos efeitos que
causam.
Os ímãs metafísicos associados aos domínios de Deus são chamados anjos e
aqueles que são associados aos domínios satânicos são chamados de demônios.
Quando bato com minha cabeça, será que fui empurrado?
Não.
Não há nada por perto que possa ter-me empurrado.
Ainda assim, movimentei-me de maneira diferente do que faço normalmente,
porque, em geral, não costumo bater com a cabeça.
Será que foi um feixe de energia mal-intencionado?
Não.
Foi um demônio?
Sim.
Como é que os demônios agem?
Um demônio é uma configuração de circunstâncias que resulta na ação que faz com
que eu bata com minha cabeça.
Um conjunto de variáveis combinadas é chamado de demônio, sempre que um
resultado inevitável ocorre.
Entretanto, em qualquer ponto ao longo do caminho, uma dessas variáveis pode
mudar.
Posso virar à direita, em vez de virar à esquerda.
Então, evitaria bater com a cabeça.
Nesse caso, o ato de virar na outra direção foi causado por um anjo.
Simplesmente nunca vou me dar conta disso, porque, na realidade. não bati com a
cabeça. Portanto, cada momento está repleto de condições que me aproximam de
Deus e outros que me arrastam para bem longe.
Qualquer uma dessas condições, de maneira individual ou coletiva, pode ser
avaliada em minha escala do bem e do mal.
Estou, continuamente, cercado por anjos e demônios.

Anjos
Há, no misticismo da tradição judaica, um vasto material de referência a respeito
de anjos e muitos detalhes lá encontrados se contradizem.
Muitas das informações são baseadas na mitologia medieval, que foi influenciada
por idéias de uma variedade de fontes que vão muito além da literatura tradicional.
Existem dezenas de arcanjos, incluindo os quatro arcanjos principais, muitas vezes
identificados na tradição oral como Miguel, Gabriel, Uriel e Rafael.
Além desses, existem centenas de anjos, mencionados por seus nomes em vários
textos místicos.
Muitos nomes de anjo começam com os atributos que descrevem suas qualidades,
e terminam em “el” ou “yah”, que são nomes de Deus.
Mas a natureza de cada anjo, individualmente, não é sempre clara.
Gabriel significa "a força de Deus", mas Gabriel também recebe o nome de Anjo do
Fogo e de Anjo da Guerra.
Rafael é geralmente conhecido como o Anjo da Cura, mas é também chamado de
Príncipe de Hades.
Liliel é o Anjo da Noite, mas Lilit — cujo nome também significa "noite" — é
considerada o demônio feminino por excelência.
Miguel é o Anjo da Misericórdia e, algumas vezes, o Anjo da Oração, mas Sandalfon
também é conhecido como o Anjo da Oração.
A tradição judaica descreve uma relação de antagonismo entre seres humanos e
anjos.
Os anjos têm ciúme dos humanos porque nós, humanos, possuímos o livre-arbítrio,
e eles não.
O Midrash diz que os anjos debateram se os seres humanos deveriam fazer parte
da criação. O Anjo do Amor achou que seria uma boa idéia ter humanos nesta
criação, devido ao nosso potencial para expressar amor; o Anjo da Verdade se opôs
aos seres humanos, pois temos a tendência de contar muitas mentiras.
Durante o debate, Deus mostrou exemplos de humanos para os anjos, mas incluiu
somente personagens conhecidos da literatura bíblica.
Certamente, se logo no início Deus tivesse revelado aos anjos a verdadeira
natureza dos seres humanos, em vez de lhes mostrar somente as pessoas mais
notáveis e corretas, teria havido um grande tumulto nos céus.
Em seguida, o Anjo da Terra se rebelou e não quis dar ao arcanjo Gabriel nem um
grão de poeira sequer para que Deus criasse a humanidade.
O Anjo da Terra protestou dizendo que a terra física seria amaldiçoada e devastada
por causa da ignorância dos humanos; ele insistiu para que Deus tomasse a si a
responsabilidade, em vez de enviar um arcanjo como intermediário.
Este Midrash, que tem alguns milhares de anos, revela semelhanças entre as
preocupações dos sábios antigos e dos ambientalistas modernos.
No Midrash, Deus teve de pegar o pó utilizado para criar a humanidade,
diretamente da terra, em vez de enviar um anjo para fazer isso, sugerindo que
havia um pacto implícito, feito por Deus, de que a terra não seria destruída por
causa da ignorância humana.
O Anjo da Torá discutiu com Deus, dizendo que os dias dos seres humanos seriam
repletos de sofrimento, e que seria muito melhor se os humanos nem fossem
criados.
Em relação a essa disputa, Deus disse (prometeu) que os humanos iriam resistir
apesar das provações e dos tormentos da vida. Deus revelou o futuro a Adão e Eva
em um livro dado a eles no Jardim do Éden pela mão do anjo Raziel (segredos de
Deus).
Esse livro continha conhecimento sagrado: 72 ramos de sabedoria que revelavam a
formação de 670 registros de mistérios mais elevados.
No meio do livro, havia anotações secretas, que explicavam as 1.500 chaves do
universo, que não foram reveladas, nem mesmo aos santos anjos.
Quando Adão e Eva receberam esse livro, todos os anjos se reuniram em volta
deles, a fim de ouvi-los. Quando a leitura começou, os anjos exaltaram Adão e Eva,
como se eles fossem Deus, quando, então, o anjo Hadraniel foi enviado
secretamente para lhes dizer: "Adão e Eva, não revelem a glória do Mestre, pois o
privilégio de saber estas coisas só foi dado a vocês, e não aos anjos."
Por causa disso, Adão e Eva mantiveram o segredo, e aprenderam mistérios que
nem mesmo os ministros celestiais conheciam.
Quando Adão e Eva transgrediram as ordens do Mestre, a respeito da Árvore do
Conhecimento, o livro saiu voando de suas mãos. Adão ficou tão aflito que entrou
no rio Gihon (um dos rios do jardim) e ficou lá com água até o pescoço, de tal
modo que seu corpo ficou todo enrugado e seu rosto, abatido. (Não sabemos o que
Eva estava fazendo naquela hora.) Deus, então, fez um sinal para o arcanjo Rafael,
para que o livro fosse devolvido, e Adão o estudou pelo resto de sua vida.
Ele deixou o livro para seu filho Set, e foi sendo passado por várias gerações, até
chegar a Abraão. Ele ainda está escondido hoje, em algum lugar do mundo,
esperando por aqueles que saberão lê-lo.
Os anjos argumentaram que os humanos representariam um problema na criação,
porque estavam sempre estragando tudo.
Se o desejo dos anjos tivesse prevalecido, os humanos estariam fora do mapa, e o
universo estaria funcionando sem problemas e de maneira previsível.
Este é exatamente o ponto principal da discussão.
Qual seria o propósito de um universo inteiramente previsível?
O Zohar nos ensina que os anjos foram criados no momento em que Deus disse
"Seja a luz; e foi luz".
Em hebraico, lê-se só a primeira parte, e ela é repetida de novo: "Seja a luz; e seja
a luz."
Uma interpretação mística disso seria:
"Seja a luz da consciência primordial do lado direito, o lado do bem; e seja a luz da
consciência primordial do lado esquerdo, o lado da escuridão."
Esta interpretação tem o respaldo da próxima linha, que diz: "E Deus viu a luz [do
lado direito], e isso foi bom, e Deus separou a luz [da direita] da escuridão [da
esquerda]."
Os anjos foram criados no primeiro dia, a fim de ter uma existência permanente no
lado do bem. O rabino Eleazar disse que eles vão continuar a brilhar para sempre,
com o mesmo esplendor que tinham no primeiro dia.
Entretanto, existe uma controvérsia a respeito do Anjo da Morte.
O Midrash diz que o Anjo da Morte (o lado sombrio) também foi criado no primeiro
dia.
Por outro lado, o Zohar diz que a morte foi criada no segundo dia, porque Gênesis
omite as palavras "e Deus viu que era bom" para este dia, apesar de elas serem
mencionadas para todos os outros dias da criação.
O ato de dar a Torá aos seres humanos foi descrito na tradição oral como
extremamente ameaçador para os anjos, pois a Torá fornece informações ocultas e
nomes secretos que dão poder aos seres humanos sobre as dimensões dos anjos e
demônios.
O antagonismo dos anjos ficou evidente no conflito celestial com o qual Moisés se
deparou ao receber a Torá de Deus.
O rabino Eleazar disse:
"Quando Moisés entrou na nuvem no Monte Sinai, foi recebido por um anjo grande
chamado Kamuel, que chefiava outros 12 mil anjos. Ele (Kamuel) correu para se
atracar com Moisés [e, portanto, dominá-lo].
Moisés abriu sua boca, [e falou os] 12 sinais (nomes de Deus) que foram ensinados
a Moisés pelo Sagrado no local da sarça [ardente]. [Daí resultou que] o anjo se
afastou dele até uma distância de 1.200 parasangs". Moisés continuou a andar
dentro da nuvem, e seus olhos brilhavam como brasas. Então, outro anjo, mais
importante do que o primeiro, que tinha o nome de Hadraniel (majestade de Deus),
o recebeu. Este anjo está acima de todos os outros anjos e seres celestiais, a uma
distância de 1.060 miríades de parasangs (40 milhões de quilômetros)." Sua voz
penetra por 200 mil firmamentos, que são cercados por um fogo branco.
Ao ver este anjo, Moisés ficou tão assombrado que não conseguiu dizer nenhum
dos nomes de Deus e correu para se jogar da nuvem. Mas o Sagrado lhe disse:
"Moisés, você conversou comigo sobre certas coisas na sarça [ardente], onde
adquiriu conhecimento dos santos nomes secretos, e então não teve medo.
E agora você tem medo de alguma coisa que Eu domino?"
Moisés se fortaleceu com a voz do Sagrado. Ele abriu sua boca e disse o nome
supremo de Deus, com suas 72 letras. Quando Hadraniel ouviu o santo nome falado
por Moisés, aproximou-se e disse: "Louvado seja o ilustre Moisés."
Tornou-se claro para Hadraniel o que os outros anjos não viram. Portanto, ele se
uniu a Moisés e foram juntos até encontrar um anjo chamado Sandalfon, que está
afastado dos outros anjos pela distância de quinhentos anos.
Este anjo fica por trás da cortina de seu mestre, tecendo uma coroa feita de
pedidos das orações.
Em certa hora, esta coroa se eleva por sua própria vontade e passa pelo Trono da
Glória para se instalar no seu lugar (na cabeça de Deus) e, nesse momento, todas
as legiões celestes estremecem e dizem: "Abençoada seja a glória de Deus no Seu
lugar."
Hadraniel disse a Moisés: "Moisés, não posso ir com você devido ao temor que sinto
de ser queimado pelo fogo cruel de Sandalfon." Moisés foi possuído de um grande
tremor nesse momento. Ele passou correndo por Sandalfon e atravessou o Rigyon,
o riacho de fogo que queima (purifica) os anjos, que mergulham nele a cada manhã
para dele saírem renovados. O riacho fica abaixo do Trono de Glória e é produzido
pelo suor dos santos hayyot (anjos mais elevados), que se afligem devido ao temor
a Deus. Nesse ponto, Moisés encontrou o anjo Gallizur, que é chamado Raziel.
Este anjo também habita atrás da cortina e vê e ouve tudo.
Agora, Moisés chegou no local em que estavam os anjos do terror, que cercam o
Trono e são os anjos mais poderosos. Mas Deus disse a Moisés para segurar o
Trono com força, que então nenhum mal lhe adviria. Dessa forma, Deus trouxe
Moisés para perto e lhe ensinou a Torá durante quarenta dias."

Esta descrição da ida de Moisés às dimensões mais elevadas nos dá uma idéia de
que existem níveis sobre níveis de forças angelicais, cada um mais fantástico do
que o outro, em sua dimensão.
Também sugere que Moisés era capaz de transcender até o anjo mais imponente,
Sandalfon, a fim de se sentar e ser ensinado diretamente por Deus.
Sandalfon é considerado o "irmão" de Metatron, que é o chefe de todos os anjos.
Metatron é associado a Enoque, e Sandalfon a Elias.
Tanto Enoque quanto Elias estão entre os mortais que nunca faleceram!'

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 20

Parte Dois - O Presente – Olam Há-Zeh (Este Mundo)

Demônios
Os demônios estão em toda parte, mas não são mencionados na literatura com a
mesma freqüência que os anjos.
O chefe dos demônios é Satã, que também é chamado Samael e Belzebu, enquanto
o rei dos demônios é chamado Asmodeu.
Asmodeu casou com Agrat e têm dezenas de milhares de outros demônios a seu
serviço.
Assim como existem muitos tipos de anjos, há vários tipos de demônios, que
incluem shedim (diabos), se'irim (demônios peludos, sátiros), mavet (morte), devei
(pestilência) e azazel (o demônio para o qual o bode expiatório é enviado em Yom
Kipur) .
Os demônios são considerados como seres que têm aspectos intermediários entre
humanos e anjos.
Eles possuem "asas" como os anjos e podem se movimentar com rapidez, assumir
qualquer forma, além de ter a habilidade de prever o futuro.
Mas eles comem, bebem, se reproduzem e morrem.
Eles podem ter relações sexuais com humanos, e isso é uma fonte de novos
demônios.
Contudo, os demônios não possuem um corpo de verdade e não têm sombra,
portanto a interação com humanos só ocorre em sonhos ou em outro contato que
não seja físico.
Os humanos dão à luz demônios por meio da imaginação.
Os demônios podem ser dominados pelos humanos.
Certa vez, a rainha dos demônios, Agrat, encontrou o rabino Hanina ben Dosa.
Ela lhe revelou que a única razão por que não lhe causou mal algum foi devido à
imunidade concedida pelo céu por seu vasto conhecimento.
Ao revelar isso, ela cometeu um erro.
Assim que Hanina ben Dosa soube que Agrat não poderia fazer-lhe mal, ele a
enfeitiçou e disse: "Se o céu me leva em conta, ordeno que você nunca mais passe
por áreas povoadas."
Isto, em suma, significava que ela não poderia mais fazer nada.
Ela logo começou a implorar que não fizesse isso com ela, e então ele teve pena e
permitiu que fizesse seu trabalho demoníaco em duas noites da semana: quarta-
feira e sábado.
O Talmud relata um incidente similar entre Agrat e Abaye. (Parece que ela não
aprendeu nada com a experiência anterior.)
Nesse episódio, Abaye não cedeu, mas notamos que os demônios ainda freqüentam
lugares estreitos, aonde pouca gente vai, tais como vielas escuras.
Além do mais, se soubermos captar o poder de um demônio, este pode passar a
nos servir.
O arcanjo Miguel forneceu um anel mágico ao rei Salomão; este anel lhe dava
poderes sobre todos os demônios. O rei Salomão descobriu os nomes dos anjos que
influenciavam os demônios que ele queria controlar. Utilizando o anel mágico, o rei
Salomão conseguiu capturar Asmodeu.
Asmodeu ensinou a Salomão o segredo do shamir. Dizem que se tratava de um
verme que podia partir pedras.
A construção do Templo de Salomão dependia da habilidade de partir pedras sem
usar ferramentas de ferro, eis que o uso de metais tinha sido proibido por Deus.
Assim que o rei Salomão teve o shamir sob seu controle, pôde construir o altar
para Deus. Esta informação deu a ele suficiente domínio sobre os demônios, de
modo que ele os utilizou na construção do Primeiro Templo.
Assim, o Primeiro Templo, o lugar mais sagrado na história da tradição judaica,
tinha uma equipe de construtores demoníacos, o que sugere que os demônios não
são necessariamente maus.
Com isso, prova-se que, quando temos controle sobre forças demoníacas, elas
podem trabalhar para o bem.
Por outro lado, se as forças demoníacas têm poder sobre nós, isso poderá nos levar
a ter vidas infelizes.
Veremos como isso acontece na seqüência desta história.
Em certo momento, Asmodeu enganou o rei.
Quando Salomão reprovou Asmodeu, dizendo que ele não era grande coisa como
demônio, já que fora capturado e acorrentado por um mortal, Asmodeu rebateu
que ele ficaria muito feliz em demonstrar sua grandeza, desde que o rei lhe
emprestasse o anel mágico. Salomão foi suficientemente tolo em emprestar o anel
(entregando seu poder) e Asmodeu, instantaneamente, atirou o rei a 1.600
quilômetros de Jerusalém.
Então, Asmodeu jogou o anel no meio do oceano, a fim de que nunca mais fosse
usado contra ele, e assumiu a aparência de Salomão, fingindo ser o rei.
Salomão vagueou pelo mundo, como um mendigo por três anos, e conseguiu um
emprego como cozinheiro na casa real de Amon.
Ele era um bom cozinheiro, e logo se tornou o chefe dos cozinheiros.
E assim foi que a filha do rei, Naamah, veio a reparar em Salomão.
Ela se apaixonou por ele e o rei não conseguiu influenciá-la para que desistisse de
Salomão. Conseqüentemente, o rei amonita enviou os amantes a um deserto árido,
onde era de se esperar que morressem de fome.
Os amantes, em suas andanças, chegaram a uma cidade à beira-mar.
Mendigando, conseguiram o dinheiro suficiente para comprar um peixe para comer.
Naamah encontrou um anel na barriga do peixe. E, sem a menor dúvida, era o anel
mágico de Salomão, e o casal se viu instantaneamente transportado para
Jerusalém, onde tiraram Asmodeu do trono, ele que tinha fingido ser o rei durante
três anos.

Este relato contém o segredo do uso de poder e é uma lição sobre a elevação de
centelhas para alcançar consciência messiânica.
Um dos temas ocultos da história é que a mãe de Asmodeu, em princípio a mãe dos
demônios, também se chamava Namaah.
Dessa forma, a história relata eventos em círculo, nos quais Naamah, a esposa de
Salomão, faz um tikun, um conserto, para elevar as centelhas de Naamah, mãe dos
demônios.
Nesse processo, Naamah, a esposa de Salomão, se torna uma matriarca na
linhagem do messias, que provém do rei David, pai de Salomão.
Da mesma forma que demônios não são sempre utilizados para produzir resultados
desagradáveis, também não é sempre agradável ter anjos por perto.
É verdade que muitos são desejáveis, assim como os anjos da graça, da cura, da
justiça, do amor, da misericórdia, da lua, das montanhas, do paraíso, da paz, do
louvor, das estrelas, das árvores, da verdade e da água. Porém, existem também
anjos da confusão, da destruição, do medo, do fogo, do granizo, da insônia, dos
répteis, das tempestades, do terror e do trovão.
Estes são considerados anjos, e não demônios, só quando seu propósito é nos
atrair para mais perto de Deus.
Na verdade, existem anjos para cada átomo no universo.
Cada floco de neve tem uma multidão de anjos à sua volta; cada folha de grama
tem um anjo que paira acima dela dizendo: "Cresça, cresça."
Cada característica, cada emoção, cada pensamento e cada fenômeno têm um anjo
correspondente.
Todas as descrições de anjos e demônios têm por finalidade nos ajudara acessar
qualidades que encontramos dentro de nós mesmos.
Quando estamos nos sentindo acarinhados, amados, reconfortados ou mimados,
nossos anjos são descritos como suaves, delicados, refinados, cuidadosos e
atenciosos.
Quando estamos ansiosos, frustrados, preocupados, ou nervosos, nossos anjos
querem se impor, sendo críticos, exigentes, acusadores e implacáveis.
Quando temos aborrecimentos graves e nossas vidas parecem estar se
desintegrando, temos demônios que são cruéis, maus, odiosos e perversos.

Isto não deve ser interpretado para explicar que os místicos acreditam que anjos e
demônios sejam frutos da imaginação.
É justamente o oposto.
Eles são bem reais e se manifestam de infinitas maneiras.
Se o resultado de alguma coisa parece bom, dizemos que houve influência dos
anjos. Entretanto, se alguma coisa afasta alguém de Deus, apesar de que a
motivação inicial tenha sido bem-intencionada, dizemos que houve influência
demoníaca.
É importante entender que uma intenção por trás de uma ação não assegura seus
resultados.
A intenção deve estar em harmonia com a consciência primordial.
Quanto maior a consciência primordial, maior a probabilidade de que alguma coisa
boa resulte. Quanto mais denso o nível de consciência primordial, mesmo que
nossas intenções sejam boas, maior o risco de que as coisas não saiam bem.
Podemos fazer alguma coisa para alguém, com toda a boa vontade, e não perceber
que isso poderá trazer um sofrimento enorme para a vida dessa pessoa.
Podemos perguntar: "Se nossas intenções não asseguram que as coisas vão dar
certo, o que podemos fazer?" A resposta é que devemos nos harmonizar com o
ritmo da criação que está em curso, por meio de práticas contemplativas e
trabalhos espirituais que construam uma consciência primordial, como está descrito
em partes destes textos.
E precisamos nos esforçar para atingir os níveis mais altos de consciência, de forma
tal que nossas ações possam ser inspiradas pelos ingredientes de ponderação e
sabedoria, temperadas por uma grande dose de fé.

O vaivém das forças místicas


0s místicos dizem que a energia flui em ciclos.
Os ciclos do dia estão relacionados com a rotação da Terra; os ciclos mensais, à
Lua; e os ciclos anuais, à posição relativa do Sol e das estrelas.
Luz e escuridão estão conectadas a expansão e contração, bondade amorosa e
restrição.
Os cabalistas aplicam esta estrutura mística cósmica a tudo, inclusive às energias
angelicais e demoníacas.
Na tradição judaica, o dia se inicia e termina na hora do pôr-do-sol.
Os cabalistas naturalmente seguem este preceito do ponto de vista da lei judaica,
mas, por uma perspectiva energética, o ciclo diário cabalista flui entre o zênite do
meio-dia e o nadir da meia-noite.
O Sol começa seu declínio ao meio-dia e isto prossegue até a meia-noite, o que
significa que o poder da bondade amorosa está diminuindo.
Quando o Sol chega ao seu ponto mais baixo, a hora em que a energia da
escuridão está mais forte, os anjos acusadores têm o seu poder máximo.
O cabalista diz que este ponto é o mais escuro da noite, o momento em que a
restrição e o julgamento atingem o máximo de seus poderes.
Se fôssemos abandonados na meia-noite mística da criação, desapareceríamos.
Não poderíamos sobreviver ao julgamento.
Assim, na linguagem poética da Cabala, exatamente nesse instante Deus "entra" no
Jardim do Éden celestial.
Em outras palavras, no momento em que o universo físico está em maior perigo, no
momento mais escuro do dia, a força da expansão se materializa e revitaliza o
centro da criação.
Certamente, os místicos da tradição judaica entendem que meia-noite numa parte
do mundo é diferente em relação a outras partes.
Eles sabem que Deus está, como podemos dizer, continuamente entrando no
jardim.
Pode ser difícil visualizar meia-noite como uma linha que se move, mas, do ponto
de vista de Deus-em-processo, este simbolismo é perfeito.
De onde estamos, a bondade amorosa do Divino traz Sua luz para a nossa meia-
noite, exatamente quando dela necessitamos para a nossa sobrevivência.
Entretanto, objetivamente, percebemos que é sempre meia-noite em algum lugar.
Dessa forma, Deus está sempre entrando no jardim, eternamente levando Sua luz
para a meia-noite de todo mundo, em todos os tempos, num processo contínuo.
Os anjos estão também continuamente "em-processo".
O Zohar diz que os anjos acusadores se deslocam pelo mundo durante as horas
escuras antes da meia-noite.
É claro que esse tempo é relativo ao observador.
Objetivamente, entretanto, poderia ser meia-noite a 1.600 quilômetros a leste
(uma hora de diferença) e, nesse caso, Deus já terá entrado no jardim (lá), o que,
por definição, faz com que os anjos acusadores se escondam.
Este é outro relacionamento interativo.
Energias angelicais e demoníacas não são nem independentes nem
autossuficientes, mas são partes do sistema do ritmo universal.
Quanto mais procurarmos entender esta flutuação cósmica, mais nossos horizontes
se ampliarão e seremos capazes de entender a complexidade do processo inter-
relacional entre o Criador e a criação.
Outro exemplo é a afirmação do Zohar de que todos os seres celestiais entoam
louvores ao Sagrado.
Assim que a noite cai, três legiões de anjos se posicionam em três partes do
universo.
Por sobre estas três legiões de anjos, existe um líder chamado um “hayyah”, uma
força angelical, que dizem ser a base do Trono divino.
Os cânticos da noite continuam até o romper da aurora.
Então, os humanos continuam os louvores três vezes ao dia com suas orações.
Conseqüentemente, louvores são oferecidos seis vezes em 24 horas, três vezes
pelos humanos e três vezes pelos anjos durante a noite.
Os cabalistas têm um bom conhecimento do mundo, então não terão muito
trabalho para compreender que, quando estou oferecendo louvores em minhas
orações matutinas, as legiões angelicais, que não estão muito longe, ainda estão
ocupadas com seus louvores noturnos.
Assim, a noção de que louvores são feitos seis vezes por dia só se aplica ao próprio
lugar onde estamos.
De um ponto de vista objetivo, entretanto, louvores e orações continuam dia e
noite, estendendo-se ao longo do tempo enquanto a Terra gira.
Este movimento se parece com um caleidoscópio abrindo-se incessantemente, ou
também com uma flor constantemente desabrochando, e isto é uma imagem
maravilhosa que podemos contemplar.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 21

Parte Dois - O Presente – Olam Há-Zeh (Este Mundo)

Invocando Anjos para a cura


Há pouco tempo, ouvi falar que o filho de uma amiga querida fora vítima de um
acidente estranho.
Ele foi atingido na base da cabeça por uma bola de golfe.
Sua recuperação não estava indo bem, e um coágulo sangüíneo no cérebro estava
fazendo uma pressão que poderia eventualmente deixá-lo paralítico para sempre ou
então ser a causa de sua morte.
Quando falei com sua mãe pela primeira vez, o rapaz estava no CTI, num estado
semicomatoso há dez dias.
Por alguma razão, ele não melhorava e seu prognóstico não era bom.
Todos queriam evitar a opção de uma cirurgia imediata de alto risco, que poderia
acarretar uma lesão cerebral.
No decorrer de nossa conversa, a mãe do rapaz me pediu uma oração meditativa e,
então, sugeri a meditação do arcanjo.
Nessa meditação, nós nos envolvemos, ou envolvemos alguém que amamos, com a
energia dos anjos, com o objetivo de proteger e curar.
Logo depois de nossa conversa, seu filho teve de ser colocado num coma induzido
por remédios, para ficar tranquilo, sem sentir dor, na esperança de que a inchação
pudesse diminuir.
Minha amiga começou a fazer freqüentes meditações dirigidas e orações com seu
filho, apesar do fato de ele estar em coma.
A mente subconsciente pode absorver orientação meditativa e, além do mais, a
alma nunca dorme.
Ela se manteve nessa prática com firmeza de propósito.
De fato, quando ele saiu do coma, estava repetindo as palavras da meditação.
A partir daí, antes de uma decisão que envolvesse um importante procedimento
invasivo, o rapaz melhorou.
Assim, a pressão se estabilizou horas antes de uma operação para colocar uma
válvula permanente, a fim de drenar fluidos do cérebro.
Graças à medicina moderna, o rapaz está vivo e bem de saúde.
Os médicos e enfermeiras merecem crédito pelo milagre.
Sua mãe, seu pai e eu acreditamos com firmeza que os anjos tiveram muito a ver
com isso também.

Meditação do Arcanjo
Toda noite, antes de dormir, as orações da tradição judaica incluem a seguinte
invocação:
"Possa Miguel ficar à minha direita, Gabriel à esquerda, Uriel à minha frente, Rafael
atrás de mim e, sobre minha cabeça, a Shechiná — a Presença Divina."
Esta é uma das meditações favoritas de minha congregação; funciona bem com
adultos e crianças.
Como meditação, pode ser utilizada para desenvolver um senso de proteção, bem-
estar, cura e segurança.
É um dos poucos exercícios meditativos recomendados para a hora de dormir.
Quando chamamos os anjos para ficar conosco, acessamos uma infinita fonte de
boa vontade.
É como se nos ligássemos ao núcleo magnético da Terra para nos mantermos
centrados.
Os arcanjos representam o centro divino do universo; eles retiram seu alimento de
Seu suprimento infinito.
Os únicos impedimentos à conexão com essa energia são a dúvida e o cinismo.
Se pudermos reconhecê-los, assim que brotarem em nossas mentes, e pudermos
achar escaninhos apropriados para guardá-los até que possam ser úteis,
poderemos nos beneficiar instantaneamente do sentimento produzido pela presença
dos anjos.
1. Tente encontrar um lugar silencioso, onde você não seja perturbado por vinte a
trinta minutos, como, por exemplo, à noite em sua cama, antes de adormecer.
Feche os olhos, relaxe o corpo e respire normalmente. Permita que sua atenção se
concentre na experiência de seu corpo e nos movimentos de seu peito e sua barriga
provocados pela respiração.
2. Imagine que você pode sentir uma presença do lado direito do seu corpo e do
lado direito do seu rosto. Você pode estar sentindo uma pressão sutil, um
formigamento, uma vibração, calor, frio ou qualquer outra sensação.
Se você não conseguir sentir nada, simplesmente pense que alguma coisa está
perto de você, quase lhe tocando, do seu lado direito.
3. Dê a esta vivência do lado direito o nome de Miguel. O arcanjo Miguel é muitas
vezes visto como o mensageiro de Deus. O que quer que isso signifique para você,
faça de conta que o mensageiro de Deus está inteiramente presente do seu lado
direito. Permaneça nesta experiência por algum tempo.
4. Quando você estiver pronto, imagine outra presença no seu lado esquerdo.
Sinta a pressão, e tudo o mais que você sentiu no lado direito. Este é o arcanjo
Gabriel, que é conhecido por representar a força de Deus.
Você pode vivenciar os dois lados simultaneamente. O mensageiro de Deus à sua
direita e a força de Deus à sua esquerda.
Fique com esta vivência por algum tempo.
5. Permita-se agora sentir alguma coisa atrás de si, em algum lugar ao longo de
suas costas, especialmente servindo de apoio enquanto você estiver sentado ou
deitado. Imagine que isto é parte do que está lhe sustentando.
Este é o arcanjo Rafael, geralmente conhecido como o poder de cura de Deus.
Agora, você pode sentir os três simultaneamente: Miguel, o mensageiro, à direita;
Gabriel, a força, do lado esquerdo; Rafael, o que cura, sustentando você, por trás.
6. Em seguida, ainda com seus olhos fechados, imagine que uma luz está brilhando
à sua frente, diante do seu rosto. Permita que esta luz seja tão brilhante quanto
possível. Este é o arcanjo Uriel, a luz de Deus.
Agora, à sua volta, você tem um mensageiro, a força, a cura, e a luz.
7. Finalmente, imagine uma enorme e benevolente nuvem de luz pairando sobre
seu corpo. Esta é a Shechiná, a presença feminina de Deus.
Permita que a luz da Shechiná desça lentamente, envolvendo você com amor e
proteção afetuosa, acalentando-o da forma mais agradável e tranqüila que seu
estado mental já vivenciou.
Com os anjos à sua volta, você também está nos braços da bondade infinita e em
segurança absoluta.
8. Se você estiver deitado em sua cama, esta é uma maneira maravilhosa de
adormecer. Se você estiver sentado, fique o tempo que quiser neste estado mental.
Entretanto, quando você estiver pronto para encerrar a meditação, não se levante
de repente.
Seria muito melhor você reverter o processo, lentamente permitindo que a
Shechiná se eleve de novo, pairando sobre sua cabeça. Depois, deixe os anjos
irem, um a um, certificando-se de que não se afastem muito de você, mas que lhe
dêem liberdade de movimentos.
Mesmo que você tenha saído do estado meditativo, provavelmente sentirá um
resíduo dessa vivência, quando começar a se movimentar.
Você pode praticar esta meditação quantas vezes quiser.
Não há a menor possibilidade de sobrecarga de energia angelical; ela é sempre
benéfica.
Esta é uma ótima meditação a ser compartilhada com crianças.
A maioria das pessoas doentes alcança benefícios enormes com esta meditação
dirigida; você pode ajudá-las em suas casas ou no hospital.
Já fiz isso até pelo telefone.
Contudo, certifique-se de que a pessoa que está meditando não será perturbada
por pelo menos vinte minutos, e o que é mais importante, você deve ter praticado
esta meditação muitas vezes, antes de oferecê-la a outras pessoas.

Os Anjos e a Escada de Jacó


Várias partes da Torá referem-se a anjos e uma das mais conhecidas é a porção
que trata de Jacó.
Em certa passagem da Torá, Jacó sonha com uma escada que, da Terra, alcança o
céu.
Anjos sobem e descem a escada, e Deus está no alto, falando com Jacó,
prometendo dar-lhe a terra que está à sua volta.
Mais tarde, Jacó luta com um anjo, e o derrota.
Depois disso, seu nome é trocado para Israel.
Todos os comentários bíblicos tentam resolver as dificuldades encontradas no texto.
Nesse caso, o problema que preocupa os comentaristas é por que a Torá afirma
que os anjos primeiro sobem a escada e depois descem.
Logicamente, se assumimos que os anjos saem de algum lugar que não é a Terra,
o texto deveria dizer que os anjos descem primeiro para depois subir.
Portanto, esta colocação pede um esclarecimento.
Neste ponto, somos confrontados com algumas perguntas óbvias: já que os anjos
não andam — eles se movimentam de outra forma —, para que precisam de
escadas?
Além disso, por que os imaginamos com asas?
Está escrito no Midrash que alguns anjos têm seis asas e outros têm 12.
Diz-se que os demônios têm seis asas.
E diz-se que a Shechiná, a divina presença feminina, também tem asas.
Por que é assim?
Nenhum desses seres precisa de asas para ir de um lugar a outro.
O que é que as asas representam?
Embora na Torá as asas sejam utilizadas, literalmente, para voar, o significado
oculto da palavra "asa" é "uma cobertura; sob a influência de alguma coisa".
No Salmo 36:8, temos: "Quão preciosa é Tua benevolência, oh Deus! Os filhos do
homem, onde Tuas asas se refugiam."
Quando estamos sob as asas da sombra a Shechiná, estamos circundados por luz e
bondade amorosa.
Quando estamos sob as asas de um demônio, estamos cercados pela escuridão.
As asas dos anjos nos rodeiam com sabedoria angelical.
Diz-se que os anjos recebem uma tarefa para executar, somente uma tarefa de
cada vez, geralmente a entrega de uma mensagem.
Por exemplo, aprendemos que cada ser vivo tem um anjo da guarda momentâneo,
que lhe dá uma mensagem essencial, que é: Viva!
No momento seguinte, outro anjo aparece com uma mensagem idêntica.
O que aconteceu com a primeira energia angelical depois que entregou sua
mensagem?
Não tem mais nada a fazer.
Sua finalidade era desempenhar este ato único.
Veja: uma vez que a mensagem tenha sido entregue, o anjo já não tem asas, se é
que podemos falar assim.
Ele desaparece.
Anjos e demônios são como esferas de energia espiritual num líquido efervescente,
que está em constante ebulição. Quando uma bolha sobe à superfície, ela
desaparece.
A bolha é definida pelo líquido, e não por ela mesma.
Devemos ter cuidado quando falamos sobre esferas de energia porque temos a
tendência de pensar nelas como tendo contornos, mas os anjos não têm limites
físicos.
Assim, devemos tentar imaginar os anjos como bolhas efêmeras que existem em
toda parte, muitas vezes sobrepondo-se umas às outras, sem estar cercadas por
um líquido, nem apresentando dimensão alguma.
O Talmud nos fornece uma maneira de exercitar nossa imaginação a respeito da
energia angelical.
Diz que a largura da escada de Jacó era de oito mil parasangs, equivalente a 32 mil
quilômetros.
Por quê?
Devido à maneira como está escrito no trecho que descreve anjos subindo e
descendo, parece que dois estão subindo e dois estão descendo, ao mesmo tempo.
Utilizando a lógica talmúdica, a escada tinha de ser larga o suficiente para permitir
quatro anjos lado a lado! O Talmud continua, citando Daniel 10:6, onde se diz que
o anjo que Daniel viu tinha um corpo como Tarshish.
Apesar de algumas pessoas traduzirem Tarshish como uma pedra preciosa, o
significado secreto é que se trata do nome de um mar que tem dois mil parasangs
de largura.
Assim, o Talmud conclui que cada anjo tem dois mil parasangs de largura e quatro
lado a lado, o que significa que a escada de Jacó tinha oito mil parasangs de
largura. Isto, certamente, é mais largo do que a Terra.
Um ensinamento semelhante pode ser encontrado no Midrash Raba, que
claramente diz que o tamanho de um anjo é de um terço do mundo.
Neste ensinamento, quatro anjos, lado a lado, teriam a dimensão de 1.1/3 do
mundo.
Em qualquer uma das medidas, a escada de Jacó seria consideravelmente maior do
que o mundo.
Se é assim, sobre o que é que a escada se apóia?
Obviamente este tipo de escada não pode ser abarcado por nossa imaginação e
nem possui qualquer lógica.
Na verdade, não se trata de escada alguma, mas sim do símbolo de uma
consciência mais elevada.
O Zohar, que é bem claro sobre isso, diz:
"A escada de Jacó simbolicamente permitiu que ele visse todos os níveis de
consciência como um só, toda consciência primordial unida num todo. Cada lado da
escada representa uma dimensão: Abraão à direita (chessed/expansão) e Isaac à
esquerda (gevurá/contração). Jacó, que está no meio (tiferet/beleza), é o apogeu
do equilíbrio e da harmonia; estes atributos são necessários para que tenha a
capacidade de se manter no degrau mais alto, acima dos dois lados.
Ele (Jacó) é visto como perfeição, integridade, o potencial para a plenitude da
consciência em sua soma, e não em suas diferentes partes.
A escada, como um todo, forma uma carruagem sagrada (o veículo que leva à
consciência primordial total).
Cada degrau da escada representa um nível de consciência. Jacó é visto na Cabala
como o apogeu da perfeição humana, maior do que qualquer outro personagem
bíblico. Ele se mantém no degrau superior, o potencial mais alto de realização,
sustentado em cada lado pelo pilar da bondade amorosa e pelo pilar da justiça.
Lembramos que, na terminologia cabalística, justiça é comparável ao que outras
tradições chamam de carma.
Em outras palavras, a justiça cósmica é a lei espiritual em que cada ação, palavra
ou pensamento reverbera por todo o universo.
Vemos aqui que os anjos são concentrações de influência cósmica.
Eles não têm propriamente dimensões, mas representam forças que elevam a
consciência.
A escada simboliza a jornada da consciência mais elevada, o que está implícito no
texto que diz que os anjos sobem a escada antes de descê-la.
Jacó "luta" a noite inteira com um anjo e, depois dessa mudança de consciência,
seu nome é trocado para Israel.
A palavra "Israel" é composta de duas palavras, em hebraico: yashar e El.
Yashar significa "andar com retidão"; a palavra El é um dos nomes principais de
Deus. Assim, Israel pode ser interpretado como sendo "aquele que anseia ir a Deus
diretamente".
Está implícito na criação que cada partícula de matéria — assim como cada ser —
tem dentro de si um aspecto de Israel, um anseio de voltar à sua fonte.
Esta idéia é reforçada pelo seguinte ensinamento: o nome Israel não pode ser
utilizado para nomear anjos, já que eles estão eternamente conectados a Deus.
O Midrash nos ensina que, quando os anjos perceberam que estavam louvando o
Deus de Israel, tiveram curiosidade de saber quem é que representa Israel.
Quando Adão nasceu, eles perguntaram:
"É este ser para quem você foi proclamado Deus?' E Deus respondeu: 'Não, ele é
um ladrão, ele roubou o fruto proibido.' Noé? 'Não, ele bebe demais.' (Noé ficou
bêbado depois do dilúvio.)
Abraão? 'Não, seu pai cultuava ídolos.' Isaac? 'Não, ele ama seu filho Esaú, que é
indigno.' Jacó? Sim, é ele."
Portanto, Jacó é o ideal, a força que está dentro de cada um de nós, que está
sempre nos atraindo para Deus.
Nisso, somos diferentes dos seres celestiais.
Os anjos não precisam disso porque nada os está levando para outra direção.
Os anjos estão totalmente envoltos em Deus, eles não têm livre-arbítrio.
E isso também vale para os demônios.
Jacó representa a parte mais elevada da humanidade.
Nossos outros componentes são afastados e atraídos pelas forças angelicais e
demoníacas.
Jacó luta e ganha.
Este é um dos mais importantes ensinamentos espirituais da Torá.
O que ele diz, em sua essência, é que, assim que pudermos distinguir, com clareza,
a parte dentro de nós que está conectada com Deus, nada poderá nos derrotar.

Prática do Anjo da Guarda


1. Procure um lugar tranquilo, onde você não será perturbado por no mínimo trinta
minutos. Sente-se confortavelmente e se concentre na experiência deste momento,
simplesmente estando presente.
É bom colocar um timer que toque o alarme daí a trinta minutos.
Ao final dessa meditação, você pode precisar se reorientar.
2. Imagine que seu anjo da guarda esteja bem perto de você.
Ele pode ter o aspecto que você quiser. Liberte sua imaginação.
Seu anjo da guarda pode ou não ter um corpo; pode ter uma forma ou ser um
pensamento; pode falar, fazer-se entender por telepatia ou usar um meio de
comunicação que não seja intelectual, mas que você irá compreender.
Quando você sentir alguma coisa perto de si, observe o que está sentindo e
descreva para si mesmo como lhe parece.
3. Tente se comunicar com este anjo da guarda.
Se você estiver tendo dificuldade com este exercício, pode fazer de conta que está
conseguindo, e examine qualquer pensamento que surja em sua mente.
Fingir não tem importância neste exercício; podemos sempre aprender com as
centelhas ocultas em cada pensamento.
Portanto, independentemente de como o anjo da guarda tenha escolhido sua forma
de comunicação, procure descobrir o seguinte:
a. Quando ele entrou em sua vida?
b. O que ele está fazendo por você agora?
c. Com que freqüência ele fica com você?
d. Como ele nasceu?
e. De que forma é alimentado?
f. De que maneira ele toma decisões?
g. O que ele poderá fazer por você no futuro?
4. Agora, diga a ele:
a. O que você pode me dizer sobre a morte?
b. Descreva o inferno para mim.
c. Descreva o céu.
d. Você vai ficar comigo depois de minha morte?
e. Será que eu verei parentes ou amigos que já morreram?

5. Por fim, diga a ele:


"Por favor, dê-me, agora mesmo, uma vivência, por alguns momentos, das
dimensões celestes após a vida. Só por um período curto, deixe-me vivenciar o
céu, meus entes queridos que morreram, as forças angelicais ou o Trono de Deus.
Mostre-me tudo isso."
Permita-se relaxar completamente e ser levado às alturas das dimensões
superiores. (Você será capaz de relaxar mais se tiver lembrado de ajustar um timer
para tocar após trinta minutos.)
6. Quando você tiver voltado da viagem de alma, faça a reconexão com seu anjo da
guarda e enfatize que você quer ter outras conversas no futuro.
Veja se ele aceita isso.
Então, volte para a experiência de sentir seu corpo e, depois de algumas
respirações profundas, abra seus olhos.
Quando somos capazes de estabelecer um relacionamento com uma força angélica
pessoal, conseguimos ter acesso a domínios angelicais, que são realidades que
transcendem nossa própria realidade.
Assim que aprendemos a entrar neste estado mental, lentamente alteramos nosso
senso de tempo e de identidade individual.
Por exemplo, nossa vivência explorando domínios celestiais — especialmente em
contato com nossos entes queridos que já morreram — rapidamente abre novas
possibilidades para o significado da vida eterna.
Empregando técnicas como estas visualizações, nossa perspectiva normal, usual,
da realidade pode ser alterada de maneira fantástica.
Podemos ficar mais sintonizados com aspectos sutis da criação.
Algumas pessoas vivenciam isso invocando criaturas invisíveis como fadas, gnomos
ou elfos.
Outros se tornam sensíveis às mensagens sutis da natureza que chamam nossa
atenção para algo mais do que está à vista.
Ainda outros entram em sintonia com as nuances que aparecem na vida diária e
que podem revelar significados ocultos em acontecimentos que, para outros,
seriam considerados banais.
Estes são fenômenos místicos.
Nossa consciência deles pode ser alimentada por qualquer prática espiritual que nos
abra para as possibilidades de experiências que transcendem a mente.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 22

Parte Dois - O Presente – Olam Há-Zeh (Este Mundo)

O Bem e o Mal
Reb Zalman Schachter-Shalomi chama a si mesmo de "o Último dos Moicanos".
Agora, que Shlomo se foi, Zalman é a última ponte entre a tradição da Europa de
antes da Segunda Guerra Mundial e o Judaísmo moderno pós-Holocausto, que
optou em olhar para o futuro tanto quanto para o passado.
Reb Zalman é algumas vezes chamado de rebbe cibemético.
Ele lida com computadores com muita desenvoltura, e seu planejamento futuro
muitas vezes inclui tecnologias que ainda não foram desenvolvidas.
Ainda assim, ele é um rebbe dos velhos tempos, conhecedor de muitas histórias
hassídicas e pequenas fábulas que aquecem o coração.
Ele leciona em muitas línguas, e seu inglês é multidimensional.
Seus insights, lúcidos e incomuns, invariavelmente estimulam e inspiram as
pessoas.
Lembro de uma história particularmente comovente, que me deu uma nova
compreensão sobre os difíceis e complexos questionamentos que dizem respeito ao
tema do bem e do mal.
"Meus queridos amigos", ele disse, "há pouco tempo me perguntaram sobre a
questão do mal. Existe mal no mundo? Se isso é verdade, como isso é possível se
Deus é todo-poderoso e bom? Como muitos de vocês sabem, esta pergunta tem
sido controvertida por milhares de anos. Então, deixe-me contar-lhes uma pequena
história".
Zalman fechou os olhos e começou a se balançar para trás e para frente.
Depois que ficou idoso, resolveu tomar a si o papel de um zeyde espiritual, um avô,
para dezenas de rabinos e milhares de alunos.
Acariciando sua barba, ele contou esta história.
"Quando o Baal Shem Tov tinha só cinco anos, seu pai Eliezer ficou gravemente
doente. Em seu último dia de vida, o pai do pequeno Israel chamou o menino e
disse: 'Meu filho, lembre-se que o inimigo estará sempre com você, mas, não
importa o que aconteça, a alma que está em você é pura e íntegra. O inimigo não
pode entrar nela, nem manchá-la; sua alma pertence a Deus. Não tema homem
algum, e não tenha medo do inimigo, pois Deus está sempre com você.'
Depois disso, Eliezer, o pai do Baal Shem Tov, morreu.
A mãe de Israel morrera logo depois de seu nascimento, quando ele foi
circuncidado.
Assim, Eliezer era agora órfão, e foi criado pelo povo da aldeia.
Ele não era grande coisa como estudante, e olhava o tempo todo para fora da
janela da sala de aula.
Na realidade, ele quase nunca estava na sala de aula, estava sempre perambulando
pelos bosques, comendo raízes e frutinhas e cantando com os passarinhos.
Sua vida ao ar livre foi sua principal escola. Ele ia atrás das formigas, dormia na
relva, falava com os animais e, acima de tudo, ouvia com extrema atenção.
Ele ouvia o vento, os estalos dos galhos, as folhas se agitando. Em seu silêncio, ele
podia ouvir coisas que os outros só poderiam imaginar: aranhas tecendo, besouros
respirando, plantas crescendo.
Foi assim que ele aprendeu a linguagem da natureza.
Aos dez anos, Israel tornou-se ajudante do diretor da escola na aldeia de
Horodenka.
Todas as manhãs, ele tinha de levar as crianças menores para a escola e, à tarde,
levá-las de volta para casa.
Ele tinha muito jeito com as crianças pequenas, e logo elas ficaram encantadas com
ele.
Muitas vezes, as crianças chegavam à escola com atraso e também chegavam em
casa mais tarde, mas os pais não se importavam porque as crianças pareciam
muito alegres; seus rostos ficavam vermelhos de tanto rir e estavam sempre
cantando.
Os adultos estavam satisfeitos com o fato de que seus filhos estivessem tão felizes.
Só as crianças sabiam que Israel as levava, tanto na ida como na volta da escola,
por caminhos que davam muitas voltas.
Em vez de ir pela rua ou pela estrada, como a maioria faria, ele cortava caminho
pelos campos e andava pela floresta.
Eles saudavam os esquilos e assobiavam com os passarinhos.
Principalmente, cantavam louvores a Deus, que Israel lhes ensinava.
As crianças andavam pelos bosques com o jovem Israel, o filho de Eliezer, e
entoando melodias maravilhosas e eram levadas ao auge da alegria!
Realmente era o auge da alegria.
Suas canções eram tão repletas de amor inocente que elas penetraram através das
barreiras que cercam as dimensões celestes.
Logo estas canções estavam preenchendo os palácios do Divino, e começou a se
espalhar que a era messiânica havia chegado.
Quando Satã, o Inimigo, ouviu isto, compareceu instantaneamente às cortes
celestiais e, com uma fúria que causou um estrondo de trovões, gritou: 'Alguém no
mundo está se intrometendo e isto deve ser impedido.'
O profeta Elias, que tinha a tarefa de anunciar a era messiânica, veio à frente e
disse: 'São só crianças.' Mas, para falar a verdade, até Elias não tinha certeza.
Nunca o mundo tinha estado tão unido.
Talvez a alegria inocente das crianças realmente estivesse anunciando a chegada
da era messiânica.
Satã olhou Elias com cara feia e exigiu de Deus, numa voz retumbante (Zalman
berrava): Deixe-me desafiar estas crianças!' Deus concordou (Zalman falou
docemente): 'Vá, desafie.'
Desse modo, Satã foi para a Terra e começou a procurar alguma coisa ou alguém
que pudesse fazer seu trabalho.
Como todos sabem, o Inimigo pode incitar as coisas, mas ações na vida real têm de
ser praticadas por mortais.
Satã verificou, no mundo dos insetos, um que pudesse levar seu veneno para a
corrente sangüínea do menino chamado Israel.
Nenhum dos insetos aceitou esta tarefa.
Também verificou o mundo animal para encontrar um que atacasse Israel.
Como o menino conhecia a linguagem da natureza, todos os animais se recusaram.
Não havia um ser vivo sequer que quisesse cooperar com o Inimigo para fazer mal
ao menino. Por fim, Satã encontrou um velho que fazia carvão.
Ele era um tipo extremamente raro, pois havia nascido sem alma.
Seu corpo funcionava como um corpo normal.
Mas ele não tinha qualquer tipo de sentimentos. Ele não conhecia a diferença entre
o bem e o mal.
Ele não podia estar junto a outros seres humanos. De fato, ao nascer, sua mãe o
tinha abandonado na floresta, pois ela instintivamente sabia que o filho era mais
animal do que humano.
Ele foi amamentado por uma ursa e aprendeu a sobreviver comendo formigas e
larvas de insetos.
Mas ele tinha uma inteligência superior aos animais e costumava espiar as pessoas
que acampavam na floresta. Foi assim que conheceu o fogo, e daí aprendeu a fazer
carvão. Ele já tinha sido visto em muitas ocasiões, mas tinha uma aparência tão
bizarra e emitia sons tão estranhos que as pessoas evitavam ter contato com ele.
Apesar disso, tinham pena dele.
As pessoas que queriam carvão pegavam o que precisavam e deixavam alimentos
para ele. Ele sempre se escondia, quando as pessoas vinham para levar sua lenha
queimada.
Desse modo, o carvoeiro nunca teve contato com ser humano algum durante toda a
sua vida.
Esta era a criatura perfeita para o propósito do Inimigo, e ele não poderia dizer não
aos seus desígnios maléficos.
Já antes desta época, Satã tinha enviado poder demoníaco que seria exercido
através do corpo do carvoeiro.
Em noites de Lua cheia, o patético brutamontes ficava com o corpo todo coberto de
pelos. E, então, de quatro, ele uivava para a Lua.
As pessoas falavam de um estranho lobisomem que vivia na floresta, mas nunca
tiveram coragem de procurar saber a verdade.
Satã, entretanto, dessa vez, tinha um plano muito mais insidioso do que deixar um
lobisomem à solta. Quando ele encontrou o carvoeiro dormindo, retirou o coração
dele. Então, Satã tirou um pedaço de seu próprio coração, o coração do mal, o
núcleo do vazio mais escuro, e colocou este coração negro no peito vazio da
criatura. Na manhã seguinte, Israel conduzia as crianças, que estavam cantando,
pelos campos, em direção à linha de árvores que demarcavam a floresta.
Assim que se aproximaram das árvores, de repente, uma grande criatura sombria
saiu da floresta escura, rangendo os dentes, rosnando e cuspindo.
Seus olhos vermelhos cintilavam; suas narinas emitiam penachos de uma névoa
alaranjada que subia em espiral no ar das primeiras horas da manhã.
De pé, sobre suas patas traseiras, ele era tão alto quanto uma árvore, mais de seis
metros de altura.
Quando abria seus braços cabeludos, poderia com eles agarrar uma parelha de
cavalos. Mas o que era mais assustador eram seus gemidos quando uivava, latia e
gritava.
As crianças ou desmaiaram ou saíram correndo
Elas correram em todas as direções, exceto as que estavam no chão, amontoadas
atrás do jovem Israel.
Este foi o único a se manter firme, enfrentando o monstro, sem se mexer.
Pouco depois, o imenso lobisomem voltou para a floresta, e tudo ficou tranqüilo de
novo.
Cada criança caída que Israel reanimava gritava ao acordar e corria diretamente
para casa. Logo Israel estava parado, sozinho na beira da floresta.
Os pais da aldeia ficaram zangados com Israel, por haver levado as crianças pela
floresta. Todo mundo sabia que um lobisomem vivia lá, embora achassem que as
crianças estavam exagerando.
Ainda assim, tinha sido uma tolice tê-las levado para a floresta.
Mal sabiam eles que as crianças não estavam exagerando.
Israel disse aos adultos que não deveriam se preocupar. Realmente ninguém havia
se machucado. As crianças somente tinham ficado assustadas, isso era tudo.
Ele assegurou que, no dia seguinte, elas venceriam seus medos, e isto seria bom.
Pouco depois, os pais concordaram com Israel e disseram que ele poderia levar as
crianças no dia seguinte.
Na manhã seguinte, as crianças se aconchegaram umas às outras, quando se
aproximaram das árvores que demarcavam o início da floresta. E, como era de se
esperar, no mesmo lugar do dia anterior, de novo a criatura hedionda apareceu,
urrando e uivando, no limite da linha de árvores.
Israel disse às crianças para ficarem paradas ou se deitarem no chão e, se fosse
preciso, que cobrissem seus rostos. Ele iria lidar com a criatura."
Reb Zalman agora ficou muito quieto. Seus olhos estavam fechados, e seu balançar
se tornou mais sutil do que antes. Era como se ele mesmo estivesse na frente da
criatura. Nós éramos as crianças; ele era o guerreiro enfrentando o desconhecido.
Estávamos esperando. Ninguém se mexia. Lentamente, ele recomeçou.
"Israel avançou, colocando-se entre o lobisomem e as crianças. Ao se aproximar do
monstro, ele parecia cada vez maior, até que se transformou numa nuvem negra
que o envolveu. Para falar a verdade, ele estava com muito medo, mas as palavras
de seu pai, ao morrer, estavam ecoando em sua mente: 'Não tema o Inimigo, pois
Deus está sempre com você.' Ele continuou a andar. O lobisomem não se mexeu.
Estava cada vez mais perto e ele continuou a andar na direção dele. E, então, a
nuvem negra desceu e Israel se achou dentro do demônio. Nas sombras turvas, ele
viu seu coração liso e negro — o coração da escuridão.
Ele estendeu suas mãos, pegou este coração e deu um passo para trás. E uma vez
mais estava fora do corpo da criatura. O coração se retorcia e pulsava em suas
mãos. Era escorregadio e repulsivo, mas Israel o segurava com força.
Nesse momento, o jovem Israel tinha em seu poder a oportunidade de destruir o
coração do mal. Se ele fizesse isso, o mundo nunca mais seria o mesmo.
Nesse momento, ele reparou uma gota de sangue escorrendo por um lado do
coração, e sua alma se comoveu profundamente. Ele podia ver que este coração
estava atormentado; estava em agonia. Ele também sofria a enorme dor da
separação, como qualquer outro ser no mundo.
Pois mesmo o coração do mal tem dentro de si uma centelha do Divino, e também
anseia voltar para a sua fonte. Assim, a compaixão do jovem Israel se fez presente
e sua única escolha possível foi liberar o coração. Ele colocou o coração no chão.
Nesse momento, a terra se abriu e engoliu o coração, levando-o para as
profundezas.
No dia seguinte, os aldeões encontraram o corpo do carvoeiro.
Conta-se que ele tinha um semblante de paz em seu rosto atormentado.
Também se diz que as crianças nunca mais foram felizes como tinham sido antes,
porque o coração da escuridão continuou com sua obra.
O medo que ele havia deixado para trás estava agora dentro das crianças,
influenciando suas ações, sentimentos e pensamentos.
Sem dúvida, agora elas se pareciam mais com seus pais do que com as crianças
inocentes que tinham sido."
Ficamos sentados em silêncio por alguns minutos, refletindo sobre o que faríamos
se tivéssemos a oportunidade de destruir o coração do mal.
Que tipo de mundo seria?
Reb Zalman se balançava de lado a lado.
Então, disse: "Vocês vêem, meus amigos, o que parecia a princípio ser uma história
triste — talvez fosse melhor que Israel tivesse destruído o coração —, ainda assim,
é uma história de grande otimismo. Ela nos ensina uma grande lição. A lição é que
até o coração de Satã tem uma centelha divina; até o coração do mal anseia por
ser redimido.
Isso é importante, pois aprendemos que nosso trabalho não é montar um campo de
batalha para erradicar o mal, mas sim procurar por sua centelha de santidade.
Nossa tarefa não é destruir, mas construir; não é odiar, mas achar um lugar de
complacência; não é polarizar, mas encontrar os pontos em comum a fim de
trabalhar em conjunto.
Queridos amigos, aprendam esta lição, ela lhes será muito útil."

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 23

Parte Dois - O Presente – Olam Há-Zeh (Este Mundo)

A perspectiva mística do bem e do mal


O universo pode ser visto como um ímã metafisico: em um de seus pólos, está o
que denominamos bem e, em outro, o que denominamos mal.
O bem é representado por Deus e o mal por Satã.
Quanto mais nos envolvemos com certas atividades, mais nos aproximamos de
Deus. O contrário, obviamente, também é verdade.
É importante ter em mente que estamos falando sobre Deus, e não sobre Ein Sof.
Ein Sof está além do bem e do mal; não devemos atribuir "bondade" a Ele.
Se o fizéssemos, estaríamos excluindo o mal, e isto O diminuiria — o que não pode
de maneira alguma acontecer.
Obviamente, seria tolice chamá-Lo de mal ou de bem.
Dito de maneira simples, Ein Sof a tudo abarca, inclusive a totalidade do bem e do
mal.
Em nossa realidade, nos termos mais simples, dizemos que o bem é tudo o que nos
aproxima de Deus e o mal é tudo o que nos afasta d'Ele.
Quando uma limalha de ferro cai sobre uma superfície com um ímã por baixo,
algumas variáveis determinam se ela será atraída para o lado positivo ou para o
lado negativo do ímã.
Quão próximo ela está de cada polaridade?
Quão forte é o ímã?
Quanta fricção (resistência) a superfície oferece?
Qual é o contorno e a textura da limalha de ferro?
Poderíamos elaborar perguntas semelhantes sobre nós mesmos.
Quão próximos nos sentimos de Deus?
Quão forte é a influência da consciência de Deus em nossas vidas?
Quão fácil é o acesso à consciência da presença de Deus?
Quanto tempo dedicamos a pensar sobre os significados mais profundos da vida?
Até que ponto estamos condicionados por um comportamento pautado por hábitos
que tornam nossa vida rotineira e inconsciente?
Quando respondermos a estas perguntas, perceberemos quão conectados estamos
ao ímã da bondade.

Perceba que, até o momento em que ela é magnetizada, a limalha de ferro, em si,
não é nem positiva nem negativa.
De acordo com nossa natureza, não somos nem bons nem maus.
Simplesmente somos o resultado das influências acumuladas em nossas vidas,
adicionadas à variável mais importante: nosso livre-arbítrio.
Podemos nos afastar ou nos aproximar das coisas, conforme nossas escolhas.
Estas escolhas, é claro, irão influenciar a direção para onde estamos indo.
Nada é estático, pois as forças do universo estão sempre em movimento, num
"cabo de guerra".
A consciência mais elevada, a luz do Divino, é uma poderosa fonte de atração.
No entanto, ela é contrabalançada por uma influente força oposta.
Alguns denominam esta força oposta de "impulso mau" (yetzer hará).
Nos seres humanos, o impulso mau dispõe de um vasto arsenal, que inclui a
volúpia, a cobiça, o desejo de obter status, fama, fortuna, popularidade, bens,
inteligência, talento e poder.
Nenhuma dessas características é inerentemente má, mas cada uma delas tem um
potencial de sedução capaz de nos atrair cada vez mais profundamente na direção
de nossas estruturas egóicas e nos afastar cada vez mais de nossa conexão com o
Divino.
A constante tensão entre forças opostas é uma lei universal.
No magnetismo, elas oscilam entre o positivo e o negativo; no espaço, em cima e
embaixo, à esquerda e à direita, para trás e para frente.
No Oriente, este princípio é descrito como yin e yang.
Na Cabala, ele é chamado de gevurot (poderes restritivos) e chasídim (poderes
expansivos).
A tensão dinâmica entre gevurot e chasidim surge continuamente nos grandes
temas bíblicos: Adão e Eva, Caim e Abel, Abraão e seu sobrinho Lot, Sara e Agar,
Ismael e Isaac, Lot e suas filhas, Esaú e Jacó, José e seus irmãos, e assim por
diante.
Em cada momento, o cabalista percebe a relação universal representada por um
aspecto mais restritivo e outro mais expansivo.
Este "cabo-de-guerra" cósmico está ligado à própria natureza da criação e o
princípio sobre o qual o bem e o mal estão alicerçados.

Purim: Não há diferença entre o bem e o mal


Purim é um dia sagrado originário do Livro de Ester que comemora o milagre da
sobrevivência dos judeus, quando o pérfido Haman tentou cometer genocídio.
Em círculos religiosos, Haman é muitas vezes igualado a Hitler, e alguns mestres
místicos sugerem que podem ser encontrados paralelos do Terceiro Reich no Livro
de Ester.
Purirn é visto pelos cabalistas como um dia sagrado do mais alto significado; ainda
assim, é o dia de celebração mais oculto, porque a proximidade de Deus não é tão
óbvia neste dia.
Em Pessach, por exemplo, Deus está muito presente, fazendo milagres para levar
os israelitas à sua nova terra.
Em Rosh Hashaná e Yom Kipur, a idéia de estar sendo julgado para o próximo ano
faz com que a presença do Divino se torne quase palpável.
Assim também Shavuot, Deus no Monte Sinai, dando a Torá; e Sucot, quando a
proteção de Deus é o tema principal.
Porém, é de conhecimento geral que Deus nunca é mencionado no Livro de Ester.
A celebração de Purim é festiva e pitoresca.
Muitas pessoas se fantasiam; o absurdo é o tema do dia.
Quanto mais ridícula for uma declaração, mais ela estará no espírito de Purim.
Os maiores jornais de Israel, nesse dia, exibem manchetes tais como "O Knesset
(Parlamento de Israel) vai à falência" ou "Os impostos foram abolidos" ou ainda "O
Leviatã foi visto no Mar Morto".
Nas sinagogas, em toda parte, as rezas são cantadas com melodias estranhas, e o
Livro de Ester é lido com inflexões e insinuações que são muitas vezes
descontroladas.
Em Jerusalém, durante Purim, eu geralmente ia de uma congregação a outra, para
usufruir o gosto de ouvir pessoas lendo o texto de maneiras diferentes.
Alguns dos rabinos mais serenos vão de Dr. Jekyll a Mr. Hyde nesse dia.
Num dos meus shuls (sinagoga) favoritos, um lustre grande foi arrancado do teto
por um professor de Cabala, altamente respeitado, que resolveu se balançar nele
no meio da leitura da meguilá.
Purim e Simchat Torá, a festa que vem logo depois de Sucot, quando o ciclo de
leituras da Torá se reinicia, são algumas das raras ocasiões em que pessoas
embriagadas são vistas nas ruas de Jerusalém.
As festividades de Purim vêm do ensinamento tradicional que diz que devemos
alcançar um estado mental em que não vejamos mais a diferença entre o herói da
história, Mordechai, e o arquivilão, Haman.
A raiz da idéia de ficar embriagado em Purim vem da declaração talmúdica feita por
Rava, que diz que é uma "obrigação" nos saciarmos com o condimento de Purim
(Rava nunca menciona vinho ou álcool), para que não possamos mais saber a
diferença entre as palavras "amaldiçoado seja Haman" da afirmação "abençoado
seja Mordechai".
Os cabalistas chamam a atenção para o fato de que as palavras hebraicas para
"abençoado seja Mordechai (baruch Mordechai)" têm o valor de 502 em gematria,
que é igual ao valor das palavras em hebraico para "amaldiçoado seja Haman
(arrur Haman)".
Assim, para os místicos da tradição judaica, as próprias palavras indicam que o
arquétipo do bem, representado por Mordechai, e o do mal, representado por
Haman, sugerem um relacionamento implícito, pois eles têm o mesmo valor
numérico.
Este conceito místico também aparece nas palavras em hebraico do exemplo a
seguir: a serpente (nahash), que representa o mal personificado no Jardim do
Éden, e a palavra para messias (meshiach) também têm gematria idêntica.
O ensinamento de Rava diz que devemos mergulhar nos doces condimentos da
sabedoria profunda, até atingir uma profunda compreensão da natureza do bem e
do mal.
Quando alcançamos um ponto transcendental em que o bem e o mal se
sobrepõem, na medida em que podemos perceber como cada um deles pode se
transformar no seu oposto, a intensidade da experiência pode ser tão grande que
perdemos o senso de identidade pessoal.
Se conseguirmos isso, podemos entrar num mundo chamado devekut, integrarmo-
nos completamente com Deus, sermos um com Deus.
Porém, o processo de entender o relacionamento do bem e do mal é paradoxal e
não é tão facilmente alcançado quanto parece.
A mensagem essencial de Rava é de que o bem e o mal não são, de modo algum,
uma dicotomia, tampouco uma rachadura entre forças opostas, mas um universo
fechado no qual o tempo e o espaço são curvos.
Uma faixa de Mobíus nos dá um exemplo gráfico.
Se pegarmos uma faixa de papel e, antes de colarmos as duas pontas, torcermos
uma das pontas para o lado oposto, temos uma faixa de mobius.
Agora, se pegarmos a faixa e começarmos a desenhar uma linha, terminaremos
com a linha em ambos os lados da faixa, sem nunca ter levantado e lápis do papel.
Os dois lados, geometricamente, são, na realidade, um só.
Com isso, não quero dizer que o bem seja realmente o mal, e que o mal seja bom.
Nada disso.
Em outras palavras, podemos dizer que cada um tem a centelha do outro e, se
levados ao limite extremo, esta centelha pode ser deflagrada.
As complexidades da questão do mal nos levam aos limites da razão.
Nesses limites, devemos ir além da mente e recorrer a recursos que ultrapassam o
intelecto.
Fazemos isso por meio de exercícios contemplativos, meditação, visualização,
estudo e devoção intensa.
No decorrer desse processo, passamos a um novo estado mental.
Só com uma perspectiva revitalizada podemos obter um insight sobre a questão do
bem e do mal.
Diz-se, então, que, quando uma quantidade suficiente de pessoas alcançar esta
compreensão sobre a natureza do mal, estaremos entrando numa nova era de
consciência.
Na verdade, os místicos dizem que Yom Kipur, o dia mais sagrado do ano, é
realmente parecido com Purim, e que o próprio Purim representa como serão as
coisas na era da consciência messiânica.'

Será que o mal é necessário?


No paradigma tradicional, o "bem" significa fazer as coisas da maneira que Deus
quer que sejam feitas, e o "mal" seria fazer as coisas de outra maneira.
Nessa perspectiva, o mal é considerado um veneno.
É algo que deveria ser destruído.
Nossa tarefa é evitá-lo a todo custo e, se fosse por nós encontrado, deveríamos
exterminá-lo.
O ensinamento místico do Baal Shem Tov, entretanto, nos apresenta um novo
paradigma.
Ele diz que o mal tem uma natureza divina dentro de si.
Conforme está no Zohar: "Não existe esfera do Outro Lado (o mal) completamente
desprovida da luz do lado da santidade."
Em vez de destruí-lo, nossa obrigação é elevá-lo.
Isso acrescenta uma complexidade considerável à lei, pois onde a tradição quer que
as coisas sejam bem definidas, pretas ou brancas, sem meio-termo, os místicos
dizem que há uma infinidade de tonalidades, e cada uma pode ser elevada a novas
alturas.
A Cabala nos ensina que, na realidade, o mal, como nós o conhecemos, nunca pode
ser erradicado, mesmo que assim o quiséssemos, porque ele preenche uma
importante função na criação.
Sem alguma coisa que nos afaste do Divino, estaríamos integralmente sob o
domínio da presença divina, perderíamos nosso livre-arbítrio, e a criação não
existiria da maneira como é agora.
O paradigma anterior considera o bem e o mal como uma simples dicotomia: Deus
está em uma direção, e Satã está em outra.
O novo paradigma sugere que Deus está em todas as direções, representado pela
luz, e Satã também está em toda parte, representado por véus.
Por esse ponto de vista, o mal é definido como uma força que diminui a luz.
Em uma perspectiva mais antiga, certas coisas podem ser intrinsecamente más.
Por exemplo, o dinheiro é a origem de todos os males; uma semente ruim pode
aparecer e isso trará más conseqüências; uma pessoa pode ser completamente
má; uma serpente é má.
A visão nova diz que o mal não é uma coisa; muito pelo contrário, ele está
relacionado à consciência primordial.
O dinheiro pode ser bom ou mau, dependendo do que vamos fazer com ele.
Uma semente ruim pode produzir uma fruta contaminada, mas ela também pode
ser transformada em alguma coisa útil.
O mofo deve ser retirado porque é prejudicial, mas certas espécies se convertem
em penicilina.
Uma pessoa pode ser má e até ser um assassino em potencial, entretanto pode
existir uma maneira pela qual uma qualidade diferente vai se manifestar que pode
vir a beneficiar a humanidade.
Uma cobra venenosa pode nos atacar, porém podemos retirar seu veneno e usá-lo
como remédio.
Temos a tendência de nos aferrar às velhas maneiras de ver as coisas.
Parece mais fácil definir com clareza o bem e o mal, e saber exatamente como lidar
com eles. Mas não é bem assim, pois questões complexas não levam a soluções
fáceis.
E a questão do bem e do mal é uma das mais difíceis de todas.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 24

Parte Três - Consciência Primordial Mais Elevada - Ma’asey Merkavah


(A Obra da Carruagem)

A Carruagem Mística
Reb Nachman, de Bratslav, contava a história de um rei que descobriu que seu
estoque inteiro de cereais fora contaminado por um fungo estranho.
Os cereais tinham a mesma a aparência e o mesmo gosto dos cereais normais.
Não havia nada que sugerisse que algo estivesse errado, exceto por um pequeno
problema.
Qualquer pessoa que comesse desses cereais perderia completamente o contato
com a verdadeira realidade, em outras palavras, ficaria alienada.
O rei e seu conselheiro eram os únicos que conheciam o problema.
Eles examinaram quais eram suas opções.
Seu estoque de cereais não contaminados estava se esgotando rapidamente e não
tinham alternativas para alimentar o povo.
Em dois dias, eles teriam de abrir o silo contaminado ou então todo o povo do reino
morreria de fome.
Um novo suprimento de cereais não estaria disponível por quase um ano, e não
havia garantia de que este estivesse livre de contaminação.
A princípio, pensaram em dar os cereais para o povo, e eles mesmos não
comeriam, assim pelo menos duas pessoas não perderiam a sanidade mental.
Contudo, o rei percebeu que ele não teria condições de governar as massas se não
soubesse o que o povo estaria pensando.
Portanto, sugeriu que ele iria comer dos cereais, mas seu conselheiro deveria ficar
mentalmente são.
Então, o conselheiro percebeu que seria impossível dar conselhos ao rei se ele
estivesse vendo a verdadeira realidade e o rei, não.
Eles entenderam que, a fim de governar um reino de pessoas que tinham uma
realidade diferente, ambos deveriam comer o cereal contaminado, assim poderiam
ver tudo da mesma forma que o resto do povo.
A única esperança para o futuro do povo seria a possibilidade de alguém ser capaz
de perceber que o mundo que eles estavam vivenciando não era a verdadeira
realidade.
Foi então que o rei e seu conselheiro decretaram que, sob as penas da lei, todos
deveriam colocar uma marca em suas testas, e todas as manhãs, quando vissem
esta marca no espelho, deveriam se perguntar: "O que significa esta marca?"
Tinham esperança de que o povo tivesse curiosidade de saber por que todo mundo
tinha a obrigação de se fazer esta pergunta e, finalmente, em algum momento no
futuro, esta marca levaria a nação a perceber que sua realidade era ilusória.

Nesse ponto, a história termina.


Nunca vamos descobrir o que aconteceu, porque, na verdade, ainda estamos
vivendo a história.
Temos no nosso interior uma marca misteriosa, que faz com que sempre nos
façamos este tipo de pergunta: "Isto é real?" ou "A vida é assim mesmo?"
A história do Reb Nachman é uma metáfora espiritual maravilhosa.
Na pista de alta velocidade, por onde a vida moderna trafega, nossas prioridades
naturais, para alcançar sabedoria e nos conectar com a verdade desta existência,
foram corroídas pelas exigências do mundo externo.
O nervosismo e a opressão, que acompanham nossa necessidade constante para
ter mais tempo, alimentaram uma doença de proporções epidêmicas que vem nos
afligindo a partir da segunda metade do século XX.
Não são muitas as pessoas que já perceberam a seriedade desta calamidade.
Eu costumava chamá-la de "demônio do tempo", mas, hoje em dia, dou a este
problema o nome de síndrome da deficiência de tempo, e o mundo está
contaminado por ela.
Um dos sintomas principais desta síndrome é um senso distorcido de prioridade.
Quando temos a situação em que o trabalho compete com relacionamentos
pessoais, e estes relacionamentos ficam em segundo plano, estamos diante de um
sintoma desta doença.
Dezenas de milhões de casamentos e relações familiares sofrem por causa da
grande quantidade de pessoas que confundem suas prioridades.
Outro sintoma vem a ser a dependência que temos de um alívio rápido.
As indústrias farmacêuticas enriqueceram porque buscamos alívio imediato para
dores físicas e mentes depressivas.
É muito mais simples tomar um analgésico do que tratar o estresse que causou a
doença.
Talvez o sintoma predominante da síndrome da deficiência de tempo seja um
sentimento de ansiedade e falta de propósito.
Certa vez, uma senhora me disse que ela tinha a impressão de estar se afogando
num mar de obrigações e responsabilidades. Havia muito para fazer e bem pouco
tempo disponível.
Ela se sentia como se estivesse sendo estrangulada, perdendo os sentidos,
perdendo a sensibilidade, e estava aterrorizada.
Como mãe de família, ela era motorista, cozinheira, faxineira, contadora, lavadeira
e escrava; raramente tinha tempo de olhar para dentro de si, sentir seu self e a
vida perdera muito do seu significado.
Apesar de ter uma linda casa, três filhos e um marido que proporcionava um ótimo
sustento à sua família, ela não sentia nenhuma alegria.
Para quem olhava de fora, sua vida parecia uma maravilha.
Do seu próprio ponto de vista, era pior do que um pesadelo. Ela não podia apontar
para nada em especial. Amava e confiava no seu marido.
O que acontecia era que ela simplesmente não tinha tempo para se cuidar,
alimentar sua alma e estava morrendo de desnutrição espiritual.
A doença da falta de tempo é uma enfermidade que tem como conseqüência a
autodestruição.
Quando a alma está morrendo de inanição, o corpo começa a exibir sinais de
doença.
Ficamos irritados com mais facilidade, e temos a tendência de tomar parte em
atividades que entorpecem a mente.
Tomamos mais cafeína para ficar acordados e tomamos mais tranqüilizantes para
poder dormir. Estamos sempre pensando em como aproveitar melhor o tempo, e
tentamos fazer três ou quatro coisas ao mesmo tempo.
Este esforço para sempre ser "eficiente" tem seu preço: às vezes, temos de
arrumar uma doença para ter uma folga que nos permita ficar um pouco em nossa
própria companhia.
Apesar de nossa expectativa de vida estar aumentando, a pergunta correta seria se
a qualidade de nossas vidas está melhorando.
Será que nossa prosperidade nos garante conexões mais profundas com o
significado da vida?
Será que temos um relacionamento mais relevante com nossas famílias?
Estamos mais integrados com a natureza?
Será que estamos verdadeiramente mais felizes?

Algumas pessoas diriam que o grão contaminado que temos ingerido por tanto
tempo é chamado de desejo.
Somos consumistas; queremos mais de tudo, mais status, mais fama, mais fortuna
e mais propriedades.
Nunca estamos satisfeitos com o que temos.
Outros diriam que é o poder.
Queremos controlar tudo, estar numa posição de superioridade, ter influência sobre
os outros. Qualquer que seja o nome que lhe damos, a maioria vai concordar que
este é mais um alimento para o ego do que para a alma; ele é o alimento que
mantém a sensação de estarmos separados.
Quanto mais nos sentimos separados, mais somos levados por desejo, poder e
outras motivações para nos diferenciar do resto da humanidade.
Nessa contínua busca pela diferenciação, nossas prioridades se deslocam rumo ao
encontro dos requisitos de uma realidade dominada pelo mundo materialista.
E assim abrimos mão do tempo — o tempo para sentar tranqüilamente na beira de
um lago para refletir ou o tempo para nos absorver em atividades que têm um
significado profundo.
Ficamos nervosos quando não temos nada para fazer, e tentamos preencher cada
momento vago com alguma atividade.
Nossos desejos nos empurram para frente, enquanto nossas almas famintas e
esquecidas suplicam para que possamos parar, refletir e trazer qualidade para
nossas vidas.
Somos recipientes humanos que contêm a luz da consciência primordial, desde que
sejamos capazes de retê-la.
Cada atividade perniciosa, seja para nós ou para os outros, cria novos pontos de
vazamentos em nossos recipientes.
A maioria das pessoas tem recipientes com tantos furos que eles só contêm uma
pequena fração de seu potencial de luz da consciência primordial.
Mesmo assim, apesar de ser só uma fração de nosso potencial, a luz que cada um
de nós tem em seu interior é a fonte de nosso desejo por uma conexão com o
Divino.
Esta luz não tem um nome.
Um cientista não saberia localizá-la.
Mas a busca pela verdade é uma parte essencial do nosso modo de ser.
Na história de Reb Nachman, este anseio é o sinal em nossas testas, o sinal da
sanidade mental.
Um dos segredos mais importantes dos ensinamentos místicos está oculto em
nosso desejo de nos conectar com o Divino.
Enquanto a natureza intrínseca do anseio é obter algo, chegar a algum lugar, ou
realizar um objetivo, ao final vamos descobrir que não há nada para ser obtido e
nenhum lugar para ir.
O próprio anseio guarda um segredo; sua existência é mais uma resposta do que
uma pergunta.
Nossa ilusão é acreditar que este anseio é meu ou seu; a lição, no entanto, é que
ele é uma maneira importante de vivenciar a presença de Deus.
De fato, seria mais exato dizer que isso é Deus-em-processo, almejando, por meio
de cada alma, que a verdade de criar-em-processo seja alcançada.
Em linguagem moderna, poderíamos dizer que o meio é a mensagem.
Nossa sanidade mental, a exemplo de nossa conexão com a verdadeira realidade,
está dentro do próprio anseio.
Mas o impulso para estar com o Divino não é suficiente.
Há muito tempo, os místicos da tradição judaica aprenderam que precisamos nos
envolver em atividades que consertem nossos recipientes quebrados, selando aos
poucos as rachaduras, uma a uma, de forma que nossas luzes internas se tornem
cada vez mais brilhantes.
Quando conseguirmos minimizar nossos atos prejudiciais e nos direcionar para
ações, palavras e pensamentos que elevem centelhas sagradas, poderemos obter
insights poderosos sobre a natureza de nosso relacionamento com Deus.
Podemos ler sobre possibilidades para o futuro, podemos falar sobre grandes
mestres, podemos pensar sobre maravilhosos ensinamentos de sabedoria.
Se, no entanto, não começarmos a pensar em aceitar a responsabilidade de trazer
uma nova consciência para a humanidade, ela vai continuar a nos escapar.
Cabe a nós trabalhar, agora mesmo, e da melhor forma possível, na direção de
uma consciência primordial mais elevada.
O processo para estabelecer como alta prioridade a elevação de nossa própria
consciência, assim como a do mundo todo, é chamado de "trabalho da carruagem".

A carruagem mística, no Judaísmo, é o veículo para uma consciência primordial


mais elevada.
Estes próximos textos estão delineados para serem uma carruagem moderna para
este milênio.
São compostos de histórias e exercícios espirituais que podem nos transformar.
Muitas das práticas espirituais descritas aqui são peculiares ao Judaísmo.
Elas são o veículo por meio do qual poderemos reconhecer inteiramente as
limitações de nosso atual nível de consciência primordial e encontrar modos de
recuperar uma visão mais clara da realidade.
A carruagem mística é a chave para alcançar uma consciência mundial, que está
muito além do nível no qual vivemos nestes dias.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 25

Parte Três - Consciência Primordial Mais Elevada - Ma’asey Merkavah


(A Obra da Carruagem) – Parte 2

Veículo para Consciência Primordial Mais Elevada


Na Antigüidade, antes que a palavra "Cabala" fosse conhecida, os praticantes
místicos da tradição judaica eram chamados de yoredei merkavá, os que descem
na carruagem.
Eles tinham também outros nomes: mestres do mistério, filhos do palácio do rei,
aqueles que conhecem a sabedoria, os que compreendem, aqueles que entraram e
saíram em paz, aqueles que fazem a colheita nos campos, e assim por diante.
Estes místicos estavam absorvidos em ensinamentos que eram conhecidos
coletivamente como ma'asey merkavá, o trabalho da carruagem.
Os ensinamentos eram segredos muito bem guardados, e uma aura de grande
reverência envolvia o misticismo da merkavá.
Como medida adicional para preservar os segredos ocultos, os místicos procuraram
espalhar que quem se envolvesse com estes segredos poderia ser levado a doenças
sérias e até a morte.
Dessa forma, estava lançado um feitiço sobre o misticismo judaico, apoiado por
declarações tais como a sentença do Talmud, que diz: "O trabalho da carruagem
não pode ser ensinado a ninguém, a não ser que esta pessoa seja um sábio."
O Talmud contém uma história famosa sobre quatro sábios que "entraram no
Pardes" (jardim/pomar).
Nesse contexto, o Pardes não era um jardim ou pomar comum, mas uma dimensão
de consciência expandida, que alguns chamam de Paraíso.
A experiência que estes quatro sábios tiveram foi tão avassaladora que um deles
morreu, outro ficou louco, outro se tornou um herege, e somente um, o rabino
Akiva, sobreviveu incólume.
Esta história, que tem integrado o folclore judaico nestes últimos 1.500 anos, é
típica da atitude geral do Judaísmo para com a busca perigosa da sabedoria
mística.
Foi só na segunda metade do século XX que a enorme riqueza do misticismo
judaico se tornou mais acessível ao público em geral.
Em sua essência, os ensinamentos da carruagem têm a ver com métodos
meditativos específicos que eram utilizados para ascender às dimensões espirituais
mais elevadas.
Muitos desses métodos nunca foram escritos.
Alguns, entretanto, estão descritos nos textos do Hechalot (aposentos do palácio).
Esses textos referem-se às práticas que, aparentemente, eram realizadas há mais
de dois mil anos.
Os textos descrevem, em detalhes, a estrutura de outras realidades.
Nomeiam os guardiães angelicais dos muitos portais a serem atravessados e
fornecem as próprias fórmulas de conjurações mágicas, especialmente variações
dos nomes de Deus, usadas para alterar a consciência.
O pai da Cabala do Êxtase, Abraão Abuláfia (século XIII), é conhecido por seus
métodos contemplativos para alcançar estados transcendentais, de modo a onter
uma consciência mais elevada e se aproximar de Deus.
A técnica de Abuláfia consistia em sentar em um aposento silencioso e escuro
concentrando-se na contemplação de letras do alfabeto hebraico, e mentalmente
fazer permutações, combinando várias palavras e frases.
A concentração intensa exigida para dominar essa técnica leva a estados elevados
de êxtase.
Técnicas assim, que alteram os estados de consciência, cabem na classificação
geral de "obras da carruagem", sendo que a carruagem é o meio pelo qual as
camadas de consciência primordial são atravessadas.
Estes métodos foram quase que esquecidos pela corrente predominante do
Judaísmo moderno.
De fato, hoje em dia, muitos professores judeus acham que práticas contemplativas
não são admissíveis no mundo judaico.
A ênfase do Judaísmo do século XX tem sido estudar a Torá. obedecer aos
requisitos da lei judaica e celebrar os dias sagrados.
Ainda assim, uma corrente esclarecida dentro do meio judaico sempre enfatizou
práticas contemplativas, assim como objetivos para atingir estados mentais
considerados como proféticos, que remetem a textos que estão incluídos na Bíblia.
Ezequiel é considerado na Cabala como o protótipo da visão profética.
Apesar de a palavra "carruagem" não aparecer na profecia de Ezequiel, ele
descreve "criaturas vivas" (hayot), sobre as quais diz:
"Seu aspecto e sua obra eram como se houvesse uma roda no meio de outra roda.
Para onde o espírito (ruach) queria ir, eles (hayot) iam; para onde o espírito tinha
de ir; e as rodas se elevavam defronte deles, porque o espírito do ser vivente
estava nas rodas."
Mais tarde, Ezequiel diz que as criaturas vivas que ele viu eram querubins
(keruvim), e ele usa a mesma linguagem descritiva anterior:
"Quando os querubins se moviam, as rodas se moviam com eles."'
As letras da raiz da palavra querubim, em hebraico (krv), são idênticas às da
carruagem (rkv).

No Sagrado do Sacratíssimo do Templo (local mais sagrado do Templo de Salomão,


em Jerusalém, onde somente o sumo sacerdote tinha permissão de entrar e rezar
em Yom Kipur), a arca estava recoberta com ouro.
Dois querubins dourados, com suas asas abertas, um de frente para o outro,
estavam esculpidos sobre a arca.
As asas simbolizavam um limite dentro do qual a Presença Divina residia, quando
ela se comunicava com os mortais.
Na Torá, Deus diz: "E no tempo marcado estarei ali, e falarei contigo de cima da
cobertura [da arca], de entre os dois querubins que estão sobre a arca do
Testemunho ."
Os querubins místicos que estão sobre a arca são vistos pelos cabalistas como
sendo a fonte de toda a profecia.
Eles representam o arquétipo da carruagem e, dentro de suas asas, encerram os
segredos de cada experiência que remove os véus que encobrem nossa consciência
primordial.
Os místicos ensinam que, assim que percebermos completamente a verdadeira
dimensão da luz inerente da consciência que reside dentro de cada um de nós,
atingiremos a consciência messiânica, uma nova maneira de vivenciar a realidade,
inteiramente diferente da realidade que conhecemos.
A consciência messiânica é o próximo degrau no desenvolvimento humano.
Da mesma forma que sabemos que houve alguma mudança de paradigma, da
consciência animal para a consciência pré-histórica humana, e que a consciência
humana passou por estágios, medidos de várias maneiras, tais como o social, o
desenvolvimento tecnológico ou a inteligência básica, os místicos da tradição
judaica dizem que ainda teremos uma mudança de paradigma importante para um
nível inteiramente novo de consciência primordial.
Nesse estágio avançado, dor e sofrimento, da maneira como os conhecemos, vão
desaparecer, não haverá mais guerras, nossos relacionamentos com os outros vão
se alterar de forma marcante, o leão vai deitar com o cordeiro, se assim podemos
dizer, e a vida vai ser completamente diferente de tudo o que podemos imaginar.
Isto é a consciência messiânica.

Hoje em dia, muitas das práticas que os místicos antigos usavam no trabalho da
carruagem estão esquecidas. Muitas atividades também, pois elas só eram
relevantes naqueles tempos.
Métodos tais como viver com grande austeridade, ser eremita, recitar os nomes
secretos de Deus e ser meticuloso com certos comportamentos podem não
funcionar com as pessoas dos nossos dias, mesmo se tivéssemos os conhecimentos
específicos.
Mas muitos ensinamentos de sabedoria foram transmitidos, em detalhes
consideráveis, na literatura do Talmud e do Midrash.
Todos eles foram projetados para nos dar acesso à nossa luz interior.
Estas são as carruagens para os nossos dias e talvez, o que é mais importante, os
místicos prometem que elas vão nos levar a um mundo novo.

Métodos para atingir uma Consciência Primordial Mais Elevada


Existem três métodos tradicionais para atingir uma consciência expandida.
Muitos deles são fáceis de descrever, mas difíceis de dominar.

A primeira abordagem é o envolvimento profundo em atividades e estudos que têm


conteúdo estimulante e significado.
Num contexto judaico, isto significa examinar nosso próprio comportamento,
desenvolver um ritmo regular para o estudo de trabalhos que tenham significado,
prestar mais atenção à nossa vida espiritual, dedicar um dia por semana à prática
espiritual e assim por diante.
Esta abordagem, comum a muitas tradições espirituais, se baseia no princípio da
adaptação.
Nós nos adaptamos ao nosso ambiente, aos alimentos que comemos, às palavras
que lemos e aos exercícios que fazemos.
A segunda abordagem para elevar a consciência primordial inclui a primeira. mas a
direção é muito mais interna.
O objetivo principal dessa estratégia é obter insight por meio de isolamento,
contemplação e introspecção.
Apesar de não percebermos no Judaísmo moderno nada que dê apoio a uma pessoa
que queira se distanciar do mundo agitado para fazer um retiro, entre os místicos
da tradição judaica a prática de isolamento e meditação profunda era rotineira.
A terceira abordagem é o que chamo de prática de kavaná.
Normalmente, a tradução de kavaná é "intenção".
Examinada no contexto de oração ou observância da lei judaica, os sábios
perguntavam se existe mais mérito em executar um dever religioso quando nossas
intenções são claras ou se o desempenho da ação em si é mais importante do que
aquilo que se passa na mente da pessoa.
Obviamente, a situação ideal é quando tanto a mente quanto o coração estão
conectados com o que estamos fazendo.
Mas o que acontece quando não estão?
Os sábios estão divididos sobre este assunto e, como em muitos outros aspectos da
erudição talmúdica, cada um dos lados é capaz de apresentar uma causa
conclusiva.
Mas esta idéia pode ir um pouco além.
Kavaná pode ser aplicada a tudo em nossas vidas.
Kavaná vem da raiz "kavan" , que significa direcionar, mirar ou sintonizar.
Como já vimos, o misticismo da tradição judaica está baseado na idéia de que cada
aspecto da criação se inter-relaciona com todos os outros, o que resulta no preceito
de que cada pensamento, palavra ou ação reverbera por toda a criação.
Além do mais, não importa se é uma obrigação religiosa, ou não, cada
acontecimento que surge tem o potencial de elevar as centelhas sagradas.
Nesse contexto, kavaná sugere uma contínua consciência primordial sobre as
implicações de tudo o que fazemos.
Por esse motivo, kavaná tem uma importância crucial para os místicos da tradição
judaica.
Realmente, os cabalistas são muitas vezes chamados de mekavanim, que significa
"aqueles que sempre têm intenção", ou melhor, "aqueles que estão sempre
sintonizados".
O cabalista quer sua consciência primordial focalizada em cada momento.
Podemos utilizar uma prática especial para desenvolver esta consciência primordial,
assim como fizemos em texto anterior.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 26

Parte Três - Consciência Primordial Mais Elevada - Ma’asey Merkavah


(A Obra da Carruagem)

O Caminho da Consciência Primordial


Aqui temos um exercício simples.
Pare de ler por cinco minutos e não faça nada a não ser inspirar e expirar.
Só isso.
Não pense em nada.
Não use os dedos para contar, não use seu bloco de papel.
Simplesmente feche os olhos e preste atenção à sua respiração.
Por quanto tempo você pode manter esta plena atenção sem pensar em nada?
"Pensar" significa transferir sua atenção para qualquer coisa que apareça, que não
seja a simples experiência do aqui e agora.
Um som é só uma vibração; se nós o identificarmos de algum modo, como um
"pássaro", um "avião" ou qualquer outra coisa, aí temos um pensamento.
Se refletirmos sobre alguma coisa que aconteceu, ou se fizermos planos sobre algo
a acontecer, isto é um pensamento.
Às vezes, queremos uma quantidade maior de alguma coisa, ou que algo
desapareça da nossa frente, isso também é pensamento.
Você é capaz de observar sua respiração por cinco minutos sem ter um
pensamento sequer?

A maioria das pessoas descobre que não consegue parar de pensar, nem por um
minuto.
Não estamos no comando de nossas próprias mentes!
Isso pode ser uma experiência depressiva para algumas pessoas.
Pensamentos vão e vêm ao seu bel-prazer, e parece que não há nada que podemos
fazer a esse respeito.
Dessa maneira, no decorrer do dia, a mente nos leva a lugares que não têm relação
alguma com o lugar onde estamos ou com o que estamos fazendo.
A mente nos leva rapidamente e para muito longe, entramos em nossos próprios
universos e representamos nossas próprias histórias várias vezes durante o dia.
Perdemos todo o sentido de tempo e espaço; perdemos toda a consciência
primordial do que está acontecendo à nossa volta.
Esta experiência não é uma aberração que ocorre algumas vezes por semana ou
em momentos ocasionais durante o dia.
Acontece constantemente, centenas ou milhares de vezes a cada hora!
É como se a mente piscasse.
Você percebe quantas vezes você pisca com seus olhos em cada minuto?
Não pensamos sobre o ato de piscar porque ele é automático.
Não percebemos os números de "viagens" que nossas mentes fazem porque nos
acostumamos com elas.
Na verdade, acreditamos que esta é a condição normal da mente.

Infelizmente, esta idéia está completamente errada.


Nas tradições espirituais que existem no mundo, as práticas contemplativas mais
elementares foram concebidas para ajudar o aluno a perceber o quanto sua mente
está fora de controle.
Práticas tais como meditação sentada, mantras, mudras, meditação caminhando,
exercícios como tai chi chuan, controle da respiração, silêncio, oração e outros,
todos rapidamente revelam o estado caótico da mente.
Qualquer meditador descobre isso logo na primeira sessão.
Qualquer pessoa que tem a intenção de rezar logo percebe que sua mente
simplesmente não consegue manter-se concentrada por muito tempo.
Sempre que dou aula para um novo grupo de pessoas que querem aprender a
meditar, uma pergunta freqüente surge logo na primeira ou na segunda sessão:
"Minha mente é muito ativa, como posso freá-la?"
Esta pergunta resulta de uma compreensão equivocada sobre meditação e sobre
seu propósito.
Pessoas que não têm experiência pensam que, com uma certa prática, poderemos
parar a atividade de nossas mentes.
Lamentavelmente, essa idéia errônea é exacerbada por alguns professores e
escolas de meditação que prometem que seu método irá conduzirá à felicidade
absoluta e ao controle total de nossos pensamentos.
Isso é tolice.

Os alunos do Baal Shem Tov ouviram falar que um grande professor viria para a
cidade deles, e pediram licença a seu mestre para ter aula com esta pessoa.
O mestre deu seu consentimento.
Então, eles perguntaram a ele: "Como saberemos se ele é realmente um grande
professor?" O Baal Shem Tov respondeu: "Peçam-lhe que ensine como evitar que
pensamentos ímpios perturbem suas orações e seus estudos."
E o mestre continuou: "Se este professor der um parecer a este respeito, vocês
saberão que ele não serve. Cada um tem a tarefa de lutar, o tempo todo, até a sua
morte, contra pensamentos irrelevantes e, de tempos em tempos, elevá-los para
que fiquem em harmonia com a natureza da criação."

Utilizamos práticas contemplativas no Judaísmo para elevar as centelhas de tudo o


que empreendemos.
O objetivo não é alcançar um estado em que nenhum pensamento surja, mas lidar,
com rapidez e propriedade, com qualquer coisa que apareça, seja uma situação em
que outras pessoas estejam envolvidas, ou pensamentos em nossas mentes.
À medida que praticamos isso, nos tornamos, realmente, mais harmonizados,
calmos e no controle da situação.
Mas só conseguiremos eliminar completamente os pensamentos perturbadores
quando deixarmos esses corpos.

O processo de aprendizagem para lidar de forma apropriada com nossos


pensamentos, assim como com qualquer outra coisa que apareça, é o primeiro
passo para qualquer um dos trabalhos contemplativos.
É o exercício adequado para a plena atenção.
No Judaísmo, isso está relacionado com o modo como levamos nossas vidas.
Há muitas maneiras de atrair um grau mais elevado de kavaná para nossas vidas.
Um dos mais interessantes é passar um dia por semana tentando fazer tudo ao
contrário do que fazemos habitualmente.
Se você geralmente acorda às sete da manhã, tente levantar às seis ou seis e
meia; faça algo diferente com esse tempo extra.
Se você faz tudo com a mão direita, tente fazer as coisas com a esquerda: pentear
seu cabelo, escovar os dentes.
Se você calça o sapato direito primeiro, então calce primeiro o esquerdo.
Veja quantas coisas você pode inverter durante o dia, sem colocar sua segurança
ou seu trabalho em perigo, e sem fazer mal aos outros.
Boa parte de nossa perda de atenção plena se deve à rotina de nossas vidas.
Quando nos forçamos a mudar de hábitos, uma vez por semana, ficamos cientes de
pequenas coisas que não tínhamos percebido antes.
Esta nova percepção é a chave para desenvolver habilidades no caminho da
consciência primordial.
Quanto mais percebemos detalhes triviais, mais adquirimos consciência primordial.
Normalmente, durante o dia, só passamos uma pequena fração de tempo
realmente atentos, talvez menos de um por cento.
Fazendo o simples exercício descrito acima, e os outros que se seguem, podemos
duplicar, triplicar ou mesmo ampliar muito nosso grau de consciência primordial.
Ainda será por uma percentagem mínima do dia, mas a recompensa é enorme.
A vida se torna mais brilhante, as cores mais vivas, os acontecimentos mais
interessantes, as situações mais marcantes, e nosso próprio senso de propósito fica
mais aguçado. Além do mais, se nos aplicarmos em nos tornar mais sensíveis a
cada momento, um alto grau de mochin de gadlut, consciência expandida, pode ser
alcançado e, dessa forma, poderemos alcançar um novo patamar no processo de
iluminação.
O objetivo dos exercícios a seguir é aprendermos a trazer uma consciência mais
elevada para tudo o que encontramos e, assim, expandir nossa consciência.
Pode ser relativamente fácil fazer isso quando coisas maravilhosas estão nos
acontecendo; entretanto, devemos agir da mesma forma, em qualquer momento
da vida.
Quando somos capazes de vivenciar a presença de Deus-em-processo durante
acontecimentos difíceis, e até em nossos pensamentos perturbadores, começamos
a apreender as centelhas sagradas que estão dentro desses acontecimentos ou
pensamentos, e elevar estas centelhas de volta para a sua fonte.
Aqui temos duas práticas específicas para elevar a consciência primordial.
Qualquer uma pode ser feita diariamente em apenas vinte minutos e, em algumas
semanas, o praticante irá notar mudanças em sua consciência primordial.
A primeira se baseia nas bênçãos matinais da tradição judaica.

Praticando Kavaná: Parte 1


1. Procure sentar-se, bem quieto, e perceba a experiência de seu corpo, a sensação
provocada pelos movimentos do peito enquanto você respira_
Cada vez que você perceber que está pensando em outras coisas, pare o que
estiver fazendo, respire profundamente por duas vezes e volte a vivenciar seu
corpo.
Quando achar que está centrado, continue com o exercício.
2. Permita-se apreciar estar aqui e agora, dizendo para si mesmo coisas como:
Estou ciente. Sou livre para fazer escolhas na vida. Sou uma pessoa inteira e estou
agradecido por estar vivo.
Perceba seu senso de plenitude e como seu sentimento de gratidão se manifesta.
3. Agora, focalize em sua mente, o que ela faz para você, como ela funciona e
perceba seu potencial. Sussurre para si mesmo algo como: Estou grato por ter
habilidade de ver as coisas, compreender, perceber a diferença entre luz e
escuridão, entre verdade e mentira.
Minha mente funciona, e estou grato por ter insights.
Perceba sua mente e sinta-se grato por sua habilidade.
4. Agora, focalize seu corpo.
Muitos de nós têm uma imagem feia do próprio corpo.
Agora não é hora para criticar seu corpo, mas de ter uma imagem positiva.
Pense em seu corpo como um todo; esteja ciente de sua força.
Examine as partes que estão funcionando bem.
Existem mil partes que estão funcionando bem, e talvez umas poucas que não
estão.
Agradeça às partes que estão funcionando bem.
5. Levante-se e ande pelo quarto. Perceba o maior número possível de movimentos
durante o processo de caminhar.
O que você sente quando levanta e movimenta seu corpo?
Preste atenção em seus calcanhares, joelhos, quadris, coxas, e na sensação da
roupa sobre a pele.
Repare como ombros, braços, costas, pescoço e cabeça se movem enquanto você
anda. Ande tão devagar quanto queira.
Neste momento, agradeça por ter a capacidade de se movimentar e sentir o
movimento.
Agradeça a cada parte de seu corpo por fazer seu trabalho enquanto você está
andando.
6. Volte para a cadeira e sente-se de novo.
Mantenha os olhos abertos e olhe para a frente sem mover os olhos ou a cabeça.
Quantas coisas você tem ciência de estar vendo, sem se mexer?
Repare que você está tentando identificar e nomear as coisas que vê.
Tente somente perceber formas, cores, sombras e movimento, sem dar nomes.
Perceba os sons à sua volta. Tente não se deter em um som específico, mas esteja
ciente de cada novo som a cada momento.
Agradeça pela habilidade de perceber tantas coisas e pela vida ser tão plena.
7. Agora, simplesmente, permaneça sentado tranqüilamente e perceba tudo o que
está acontecendo em cada momento, da melhor forma que puder.
Você vai descobrir que, quando a mente está ativa, você não será capaz de
permanecer tão alerta.
Sempre que você perceber que a mente está pensando, tirando você da consciência
de seu corpo, retome lentamente para a vivência do corpo.
Com o tempo, você será capaz de observar seus pensamentos, sem ser atropelado
por eles.
Uma vez mais, agradeça pela dádiva maravilhosa que é a consciência primordial e
pela riqueza da vida em cada um de seus momentos.
Compre um relógio barato que tenha um timer, se é que você já não tem um.
Ajuste o timer para tocar aproximadamente, mas não exatamente, a cada hora.
Durante o dia, cada vez que o timer tocar, pare o que você estiver fazendo, assim
que puder, e, por dez a vinte segundos, examine seu corpo; esteja ciente do que
está acontecendo em seu próprio corpo e ao seu redor.
Você pode fazer isso, mesmo que esteja ocupado com outra atividade.
Repare simplesmente onde você está, como está se sentindo, o que está
acontecendo em diferentes partes de seu tempo, que sons está ouvindo e qual é
sua experiência visual em geral.
Cada vez que você fizer isso, agradeça pela plenitude do momento e pela
abundância da vida à sua volta.
De tanto em tanto, altere os horários por alguns minutos, para que esta meditação
nunca se torne uma rotina.
Logo, você se tornará consciente das coisas espontaneamente, sem precisar do
timer, e sua perspectiva vai começar a mudar.
Em poucas semanas, você começará a notar a diferença e vai se sentir muito mais
presente em seu corpo.
Estar presente traz uma dimensão inteiramente nova à vida.

Praticando Kavaná: Parte 2


1. Sente-se com os olhos abertos, tentando ficar bem quieto, permita-se pensar
sobre um movimento físico simples, como virar a página de um livro, abaixar-se
para pegar alguma coisa, ou o ato de se coçar, mas não se mova.
Simplesmente note o que você quer fazer, mas não o faça.
2. Perceba a tensão entre querer fazer e resistir em fazer.
Em algum momento você fará alguma coisa, mas não faça nada ainda.
Sua tarefa mental é observar exatamente o que deve acontecer para que sua
vontade supere sua resistência para não se mover.
Eventualmente, você se permitirá pegar o livro ou virar a página.
Enquanto você está esperando, que pensamentos passam por sua mente?
O que é preciso fazer para seu corpo se mexer?
3. No momento preciso em que você começa a mover a mão, você é capaz de
observar sua própria vontade levando você a fazer um determinado movimento?
4. Agora, imagine que cada aspecto da existência esteja conectado a uma fonte de
energia. Se uma conexão determinada for cortada, este pedaço da existência vai se
extinguir instantaneamente. Nada pode existir sem estar conectado à sua fonte.
Agora, imaginando a presença da fonte da vida, que impulsiona todos os
movimentos, repita os passos 1 a 3 acima.
5. Quando você estiver pronto, reflita sobre tudo que está à sua volta, sob a
perspectiva de que a fonte da criação está sempre presente.
Esta fonte dá vida a cada movimento e acompanha cada ação, palavra ou
pensamento.
Vivencie isto como sendo a presença do Divino.
6. Ajuste o timer de seu relógio para tocar a cada duas horas, aproximadamente.
Cada vez que ele tocar, reflita sobre a presença do Divino o quanto você puder.
Isto vai se tornar automático.
Um dos aspectos mais importantes do processo de iluminação é fazer com que a
presença do Divino preencha tantos momentos de sua vida quanto isso for possível.
Da mesma forma que no exercício anterior, em algumas semanas você começará a
notar a diferença.

O primeiro exercício, estar consciente de cada estímulo físico que surge a cada
momento, é fácil de descrever mas difícil de dominar.
Nos primeiros estágios, conseguimos progredir rapidamente.
Mas, na maioria das vezes, achamos difícil manter a concentração necessária, e
voltamos aos nossos velhos padrões.
Na realidade, esta meditação, que parece tão simples, é um método avançado que
tem equivalentes em um grande número de tradições.
No Zen-budismo, este método é chamado shikan-taza, o estado mental de um
samurai extremamente capacitado, cuja vida depende de sua consciência
primordial aguçada.
No Budismo tibetano, ele é chamado Dzogchen ou Mahamudra, considerada a mais
clara disciplina sobre a prática de técnicas para o desenvolvimento da consciência
primordial.
O segundo exercício, sustentar a sensação da contínua presença espiritual do
Divino, também é difícil de ser mantido.
Todavia, isto aumenta o senso de proximidade da fonte da vida em tudo que
aparece, e então lentamente dissolvem-se as barreiras de nossa própria identidade,
que nos mantêm na ilusão de que somos separados.
Assim que temos a percepção completa do quanto estamos integrados no espectro
da consciência primordial— isto é, que somos parte dela—, nossa perspectiva de
vida muda de forma marcante.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 27

Parte Três - Consciência Primordial Mais Elevada - Ma’asey Merkavah


(A Obra da Carruagem)

Consertando a Alma, Consertando o Mundo


O corpo é composto por diferentes órgãos e milhões de células.
Cada célula é como uma forma que contém uma centelha de alma.
Portanto, o corpo é uma forma física para milhões de centelhas de alma.
A quem "pertence" a forma física? Este é meu corpo? Aquele é o seu corpo? E, se
for o meu, onde é que estou? Onde é que o "eu" a quem ele pertence mora?

Quando prosseguimos nesta investigação de onde, quem, o que, por que e como,
em relação a "quem somos", deparamo-nos com uma série de espelhos que
retrocedem até o infinito.
Nós não somos nossos nomes.
Não somos nossos endereços nem nossos números de telefone.
Não somos nossas identidades.
Não somos bem a pessoa que observamos enquanto escovamos os dentes.
Somos algo mais do que o acúmulo das experiências que tivemos desde o nosso
nascimento.
Na verdade, ao continuar com esta investigação, chegaremos finalmente à
conclusão de que este corpo é o zelador da fonte que lhe dá luz.
Nosso corpo não é nossa essência; é simplesmente matéria física.
Alma é o nome que damos ao conjunto de centelhas que dão vida a esta matéria
física.
Todavia, o corpo não é o "dono" da alma; a alma não pertence ao corpo, já que a
alma é apenas a força vital que dá existência à matéria física.
Assim como cada centelha da alma de cada célula viva de nossos corpos compõe o
que chamamos nossa alma, também todas as almas viventes no mundo,
cumulativamente, compõem parte da alma universal.
Realmente, o misticismo da tradição judaica nos ensina que a alma que nos dá
vitalidade está conectada a uma alma universal sobre a qual está apoiada.
Um dos conceitos mais importantes da Cabala nos ensina que qualquer coisa que
aconteça onde quer que seja no universo reverbera por toda a criação.
Dessa forma, nossas vidas são influenciadas pelo que está acontecendo em toda
parte; além do mais, qualquer coisa que fizermos em nossas vidas vai influenciar
tudo no universo. Talvez isso pareça um pouco pretensioso.
Vemo-nos muitas vezes como particulas de poeira inconseqüentes, num universo
no qual as distâncias são medidas em anos-luz e o número de estrelas conhecidas
excede os limites de nossa imaginação.
Este senso de limitação individual é o resultado natural de nosso processo de
pensamento linear. Como vimos anteriormente, a abordagem cabalística é, no
entanto, que consciência primordial é uma seqüência holística.
Uma vez que assumimos um sistema de referência holística, no qual todas as
partes são completas e são réplicas do todo, então tudo no universo é, por
definição, integralmente conectado.
Enquanto formas inferiores de consciência limitam o modo pelo qual suas vidas vão
se desenrolar, a consciência humana alcança um nível totalmente novo: pode
conversar intimamente com a sua fonte, e tem a qualidade do livre-arbítrio.
Podemos analisar e contemplar os significados da vida e podemos nos movimentar
livremente na direção que escolhermos.
Dessa forma, podemos nos envolver em atividades que têm o potencial de elevar
nossa consciência e a consciência dos que estão à nossa volta.
Cada vez que fazemos algo que eleva a consciência, elevamos centelhas sagradas a
novos níveis.
Chamamos a isso tikun ha-nefesh, conserto da alma, e tikun ha-olam, conserto do
mundo, trazendo-o para mais perto de sua fonte.
Embora inicialmente as idéias de conserto da alma e conserto do mundo pudessem
parecer ações diferentes, na realidade elas não podem ser separadas; não podemos
elevar centelhas que estão em nós sem elevar as centelhas do mundo, e vice-
versa.
E o que é ainda mais importante, de acordo com a Cabala, o processo de expandir
a consciência primordial em nós, assim como a do mundo, vem a ser a razão
fundamental de nossa existência.
De fato, quando não nos esforçamos em elevar nossa própria consciência, e a
consciência do mundo, abdicamos de nossa humanidade.
Podemos nos ajudar e também ajudar os outros de várias maneiras.
O Talmud diz: "Estes são os preceitos cujos frutos uma pessoa pode usufruir neste
mundo, porém seus princípios continuarão intactos para ele ou para ela, no mundo
vindouro. Eles são: honrar mãe e pai, atos de bondade amorosa, chegar cedo à
casa de estudos, ser hospitaleiro com as pessoas que vêm à sua casa, visitar os
enfermos, proporcionar um dote para noivas pobres, acompanhar os enterros,
aprofun-dar-se nas orações, levar a paz aos seus semelhantes... "
Vale lembrar que os ensinamentos místicos da tradição judaica descrevem centenas
de outras práticas espirituais para consertar almas e levantar as centelhas
sagradas.
Na vida moderna, aprendemos a cultivar a negatividade e os programas
jornalísticos são um exemplo perfeito disso.
Porém, os sábios nos ensinaram que a negatividade nos separa da humanidade e
de Deus, fazendo com que nossos corações fiquem psicologicamente cobertos por
uma membrana espessa.
É extremamente aconselhável evitar pensamentos negativos e também evitar falar
coisas negativas sobre outras pessoas.
Ao contrário, a idéia é cultivar estados mentais positivos, e podemos fazer isso de
muitas maneiras: procurar diariamente ter um momento de vida com qualidade,
para contemplação, meditação e oração; ter capacidade para viver afastando-se do
mal, direta ou indiretamente, a qualquer forma de vida; ser moderado com nossas
próprias necessidades, respeitar as necessidades dos outros e estar satisfeito com a
nossa situação na vida; deixar o orgulho e a inveja para trás.
Certamente, estas idéias não são novas.
Como pensamentos, são nobres.
Como ações, transformadoras.
Quando agimos segundo essas idéias, não só tornamos nossas vidas mais
harmoniosas, como também o mundo fica cada vez mais próximo da consciência
messiânica.
O lado místico do Judaísmo sempre esteve focalizado no desenvolvimento de
práticas espirituais que nos conduzem a estados de expansão cada vez maiores de
consciência primordial.
Ampliação da consciência primordial inclui ter mais cuidado com tudo o que existe:
pessoas, animais, plantas e toda a natureza. Junto com a expansão da consciência
primordial, surge uma nova forma de amor e compaixão por todos os seres.
Por definição, maior consciência primordial pressupõe menor identidade com o self,
já que o senso de self vai se dissolvendo à medida que nos fundimos à vasta
interconexão com toda a criação.
Nos tempos bíblicos, o objetivo do uso das técnicas para desenvolvimento da
consciência primordial era a profecia.
Nos tempos do Talmud, a meta era obter acesso à carruagem mística, para poder
habitar as dimensões mais elevadas de consciência.
Nos tempos hassídicos, o alvo era anular o senso de self para poder fundir-se com
Deus.
Em nossos tempos, o objetivo de elevar centelhas sagradas não é nada mais do
que a obtenção de consciência messiânica para toda a humanidade.
Nesse contexto, o indivíduo não pode ser separado do todo; a iluminação coletiva
da humanidade é evidentemente tão relevante quanto qualquer foco na realização
individual. Dessa forma, as práticas que vamos examinar não somente realçam o
desenvolvimento pessoal, como levam a totalidade da criação cada vez mais perto
do objetivo de crescimento da consciência primordial.

O Ideal Messiânico
Embora o ideal messiânico nunca fosse mencionado na Torá, ele foi discutido sob
inúmeros aspectos pelos sábios do Talmud.
Diziam que sete coisas foram criadas antes do mundo: a Torá, o arrependimento, o
Jardim do Éden, Gehinom (inferno), o Trono da Glória, o Templo e o nome do
messias, sugerindo que esses sete princípios são os pilares dos quais a criação do
mundo depende.
Implícita no debate está a idéia de que estes sete princípios foram criados antes da
própria criação e consistem em realidades não limitadas nem pelo tempo nem pelo
espaço.
Os sábios do Talmud acreditavam que o messias simbolizava a extinção do mal.
As discussões do Talmud estavam quase sempre centradas no tema de como serão
os tempos messiânicos.
No entanto, um sábio, o rabino Zera, implorava a todos que ficavam fazendo
suposições sobre a vinda da consciência messiânica, dizendo: "Suplico a vocês não
adiá-la [perdendo seu tempo e ficando confusos com conjecturas], pois foi ensinado
que três coisas vêm quando menos se espera: o messias, achar uma coisa perdida
e um escorpião."
De acordo com o rabino Zera, enquanto estivermos antecipando a vinda de
messias, nossas esperanças e expectativas terão um efeito oposto.
O que o rabino Zera queria dizer era que temos de estar presentes no aqui e agora
a fim de alcançar o nível de consciência primordial necessária para atingir a
consciência messiânica.
Devido à sua natureza, a antecipação nos tira do momento presente.
Na realidade, existem dois messias na Cabala: um descendente da linhagem de
José e outro da linhagem de David.
Como acontece com todos os conceitos místicos, há predições muito divergentes a
respeito de como esses messias vão se manifestar, por quanto tempo vão viver e
como será a vida quando eles estiverem aqui.
Abraão Abuláfia considerava que o messias representava o intelecto humano
desenvolvido à sua capacidade mais elevada.
O rabino Levi ben Abraão, contemporâneo de Abuláfia, comparou o messias da
linhagem de José como intelecto prático, e o messias da linhagem de David com o
intelecto especulativo.
A abordagem luriânica é que o messias vem por meio da preparação contínua dos
humanos que estão constantemente elevando centelhas sagradas para que o
mundo finalmente atinja uma consciência superior. Nessa época, o aparecimento de
um ser que incorpore todas as características de um messias será o resultado dessa
nova consciência primordial, e não seu arauto.
A descrição de Lúria é o contexto no qual a consciência messiânica tem sido
apresentada nestes textos.
O modelo antigo do messias sugere duas formas diferentes para a vinda do
salvador: o mundo estará pronto para a sua chegada ou o mundo estará tão
corrompido que se verá à beira de um colapso total.
Em qualquer um dos exemplos, o messias é a esperança no futuro.
Estes ensinamentos sugerem que o messias é um salvador.
Este salvador tem uma presença da qual emana paz, que se irradiará para tudo e
para todos.
Uma meditação simples pode nos dar o insight de como poderia ser esta
experiência.
Talvez você queira experimentar isso: pare por alguns minutos e imagine o que
aconteceria se o messias adentrasse o aposento onde você se encontra.
Reflita sobre alguma coisa que aconteceu nos últimos dias, e imagine como este
evento poderia ter-se desenrolado se o messias estivesse presente.
Como é que você teria agido? Como os outros teriam agido? O que você teria
sentido?
Feche os olhos por alguns momentos e pense sobre isso.

Quando imaginamos a presença do messias, pensamos geralmente sobre


características tais como: mais bondade amorosa, muita gentileza, calma pura, paz
extraordinária, profunda compreensão, atenção e cuidado infinitos, enorme
compaixão e assim por diante.
A presença do messias é como um sonho oculto em todos os nossos corações.
A pergunta que precisamos nos fazer, no entanto, é a seguinte: "O que estamos
esperando?"
O novo paradigma sugere que, enquanto esperamos que alguma coisa aconteça,
estamos desequilibrados, "inclinando-nos, o tempo todo, na direção do futuro".
Sempre que insistimos em pensar no futuro, deixamos de perceber o que está
acontecendo agora, neste momento.
Conforme o rabino Zera ressaltou, sempre que fazemos conjecturas a respeito da
vinda do messias, deixamos de dar atenção ao elemento essencial que é necessário
para a consciência messiânica: estar inteiramente presente no aqui e agora.
Não é difícil tropeçar na armadilha que é perder o que está acontecendo, enquanto
planejamos o futuro.
Em sua velhice, meus queridos pais, que Deus os tenha, fizeram algumas viagens a
países estrangeiros e a lugares com os quais sempre sonharam.
Enquanto viajavam, estavam sempre com medo de perder a hora das conexões,
preocupados com as reservas dos hotéis e os restaurantes onde iriam comer,
estavam, constantemente, preparando-se para o que iria acontecer.
Eles estavam prontos bem antes da hora marcada para a saída e, muitas vezes,
não dormiam na noite anterior por recearem não ouvir o despertador.
Eles se orgulhavam em nunca terem perdido um trem ou um avião, mas,
certamente, eles muitas vezes não conseguiam apreciar o lugar onde estavam.
Depois da viagem, só as fotos traziam de volta a experiência vivida e, mesmo
assim, muitas vezes discordavam sobre os lugares onde as fotos haviam sido
tiradas.
Nós todos fazemos isso, de uma forma ou de outra.
Pensamos: "Quando eu me aposentar, vou ter uma qualidade de vida melhor";
"Quando as crianças crescerem e saírem de casa, terei mais tempo para realmente
desfrutar da vida"; "Quando terminar esta tarefa, vou me sentir muito melhor".
Estamos nos inclinando para o futuro, plenos de esperança.
Estas expectativas para o futuro nos tornam menos sensíveis para o que está
acontecendo agora.
Fechamo-nos, tentando evitar os desconfortos do momento presente,
contemplando o que esperamos ser um futuro melhor.
Mas a verdade é que, embora cada transtorno que nos ocorra sempre acabe um
dia, um novo transtorno, com certeza, surgirá.
Conseqüentemente, se não dermos atenção a esse fato, muitos de nós passaremos
nossas vidas embotados e negativos, esperando que os problemas e dificuldades da
vida acabem.
O ato de esperar é como uma derrota que infligimos a nós mesmos.
Temos tudo o que precisamos.
Muitas vezes, essa percepção está oculta por trás de véus, mas, à medida que os
tiramos, por meio de técnicas para o desenvolvimento da consciência primordial e
de ações que nos aperfeiçoam, e que também aperfeiçoam o mundo, descobrimos
que tudo o que sempre quisemos está aqui mesmo.
Consciência messiânica não é algo que está no futuro; é nossa natureza intrínseca.
É nosso direito básico, disponível para todos nós, aqui e agora.
Embora obscurecida durante milênios por nuvens de ignorância, sua luz continua a
brilhar nas centelhas divinas que estão no centro de nosso ser.
Apesar do fato de que este ideal parece inatingível, a Cabala nos ensina que tudo o
que precisamos fazer é criar um lugar dentro de nós mesmos para uma consciência
mais elevada e, imediatamente, estaremos repletos de uma nova luminescência.
Como o Sagrado afirma:
"Ofereça-Me uma abertura que não seja maior do que o buraco de uma agulha, e
Eu vou alargá-la para que carroças e carruagens possam passar por ela."

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 28

Parte Três - Consciência Primordial Mais Elevada - Ma’asey Merkavah


(A Obra da Carruagem)

O Caminho do Tzadik (Iluminação Judaica) – Parte 1


Ao orientar estudantes no caminho supremo da consciência primordial, o Talmud
diz, em honra ao rabino Phinehas ben Jair: "O estudo conduz à precisão, a precisão
conduz à vigilância, a vigilância conduz ao asseio, o asseio conduz à moderação, a
moderação conduz à pureza, a pureza conduz à virtude, a virtude conduz à
humildade, a humildade conduz ao medo do pecado, o medo do pecado conduz à
santidade, a santidade conduz ao espírito sagrado (profecia), e o espírito sagrado
conduz à vida etema."
Cada um desses 12 passos representa um processo espiritual por si só, que con-
tém muitos elementos de práticas.
Um cabalista muito conhecido do século XVIII, Moisés Chayim Luzzatto, escreveu
um livro inteiro somente sobre este assunto.
Ele descreve, em essência e em detalhes, o que pode ser denominado de caminho
judaico da iluminação.
Um modelo de iluminação semelhante poderia ser descrito em nossa linguagem
moderna, acrescentando elementos contemplativos aos ensinamentos judaicos
tradicionais: o aprendizado conduz ao respeito, o respeito conduz à generosidade, a
generosidade conduz a atos de bondade amorosa, os atos de bondade amorosa
conduzem à moderação no estilo de vida, a moderação no estilo de vida conduz à
pureza de pensamentos, a pureza de pensamentos conduz à alegria, a alegria
conduz ao desprendimento, o desprendimento conduz à reverência, a reverência
conduz à equanimidade, a equanimidade conduz a estados mentais extraordinários,
e estados mentais extraordinários conduzem à vida eterna (consciência de Deus).
Adotando este modelo, associei 12 caminhos judaicos de consciência primordial
mais elevada a exercícios espirituais, meditações e contos hassídicos.
Dessa forma, podemos ver não somente o aspecto da escada, mas também
aprender a subir seus degraus.
Qualquer um que queira explorar o caminho judaico da iluminação será capaz de
desenvolver um programa pessoal de práticas específicas.

1. O Caminho do Aprendizado
O estudo (Talmud Torá) é o primeiro degrau nesta escada — a base a partir da qual
começa a ascensão.
A idéia essencial dessa prática fundamental é reestruturar nossas prioridades.
Nesse contexto, o estudo significa dedicar parte do nosso tempo à busca da
sabedoria espiritual.
A maneira como levamos nossa consciência do dia-a-dia até o estudo de textos
espirituais tem uma repercussão direta sobre nossa visão do mundo.
Se nos empenharmos neste estudo, por somente 30 a 45 minutos por dia, logo
teremos resultados.
Quando utilizado mais amplamente, o caminho do aprendizado pode ser um
processo meditativo.
Da mesma forma que músicos, atletas e outros que praticam suas aptidões
especiais muitas horas por dia, vivenciando estados alterados de consciência, assim
também, após passar horas em estudos ligados à espiritualidade, poderemos ter
uma nova perspectiva do que está à nossa volta.
Quando nos concentramos, dia após dia, numa determinada atividade, isso afeta
nossa visão do mundo.
Se o que estivermos fazendo encontra-se num nível espiritual evoluído, isto nos
ajudará; se não for assim, teremos uma perspectiva distorcida das coisas.
Assim, de uma maneira geral, podemos dizer que o caminho do aprendizado é o
processo pelo qual refinamos nossa consciência primordial, dedicando, a cada dia,
um período para o estudo de textos inspiradores.
Quando lemos livros de conteúdo espiritual, nossos corações se sensibilizam.
O caminho dessa prática, no entanto, requer mais do que a leitura de um livro ou
outro. Na verdade, o ideal é que nos habituemos ao estudo diário e, em
conseqüência disso, passemos a acrescentar continuamente um conteúdo espiritual
e místico às nossas vidas.
Tendo esta base, podemos prosseguir para outras práticas mais abrangentes.

2. O Caminho do Respeito
O próximo nível é desenvolver a qualidade da precisão (zehirut), que vem ao
entendermos que não existem ações, palavras ou pensamentos fortuitos.
Por conseguinte, devemos prestar muita atenção a tudo o que fazemos.
Sermos precisos significa que temos uma base subjacente com a qual
reconhecemos a diferença entre atos benéficos e os que podem ser prejudiciais.
Esta habilidade para perceber diferenças toma por base estudo e observação
cuidadosos.
Diz-se que três coisas nos tiram a capacidade para desenvolver precisão em nossas
vidas: envolvimento excessivo com coisas mundanas, frivolidade em demasia e
uma vida social muito agitada, com pessoas que habitam níveis inferiores de
consciência.
Uma das melhores práticas espirituais para cultivar a precisão é procurar ter
cuidado extremo quando falamos.
Antes de detalhar isso, vamos desfrutar deste maravilhoso conto hassídico, que
enfatiza essa idéia.

Yossele, o Avarento Sagrado


Certa vez, um mendigo, chamado Kopel, chegou a uma cidade que ele não
conhecia e foi direto para o melhor bairro, a fim de conseguir dinheiro.
Ele viu uma casa grande e bonita, e tocou a campainha.
O dono da casa, Yossele, o convidou a entrar.
Eles ficaram na sala, por algum tempo, tomando chá, comendo bolo e falando
sobre várias coisas.
Por fim, Yossele perguntou a Kopel, o mendigo, o que ele queria.
Ora, Kopel respondeu, precisava de algum dinheiro, um lugar para ficar e comida.
Bem, Yossele mudou da água para o vinho.
Seu rosto ficou vermelho de raiva. Gritou palavrões e jogou Kopel na rua, com a
recomendação de nunca mais voltar.
Kopel sacudiu a poeira da roupa e foi procurar o líder espiritual da cidade, o rabino
Kalman.
O bom rabino aconselhou Kopel sobre os lugares onde poderia ou não ir.
Mas uma coisa ele jamais deveria fazer: tentar conseguir alguma coisa do avarento
da cidade, que morava numa casa grande no bairro rico e que se chamava Yossele.
"Já o encontrei", disse Kopel. "Então, como foi?", perguntou o rabino. "O senhor
estava certo. No início, ele até foi gentil. Mas, quando pedi dinheiro, fui expulso de
maneira indigna."
"É sempre assim com ele", disse Kalman. "Ele parece amável, mas, oy vey, que
sujeito difícil!"
Então, Kopel, o mendigo, seguiu o conselho do rabino e encontrou um lugar para
morar.
Alguma coisa ele deve ter feito corretamente, pois, na sexta-feira seguinte, quando
acordou, achou um envelope debaixo da porta, com a quantia exata para comprar
comida para o Shabat e passar o resto da semana.
Na manhã da sexta-feira seguinte, aconteceu a mesma coisa de novo.
E continuou assim por muitos meses.
Um amigo anônimo colocava dinheiro debaixo da porta toda sexta-feira de manhã.
Dessa forma, tudo corria bem para Kopel, o mendigo.
Certo dia, o rabino Kalman ouviu falar que Yossele, o avarento, estava muito
doente e era bem provável que fosse morrer.
O bom rabino foi visitar Yossele.
Ele conversou com o homem que estava morrendo e disse: "Yossele, sua vida pode
se acabar logo, mas você ainda tem tempo de fazer reparações. O povo da cidade
está com raiva de você e você não tem um único amigo. Nem mesmo alguém para
fazer seu enterro. Por que você não faz alguma coisa?"
Yossele virou a cabeça e olhou diretamente nos olhos do rabino.
"O que você acha que devo fazer?", ele perguntou. O rabino Kalman hesitou por
algum tempo e, por fim, gaguejou, temeroso: "Talvez você deva pensar... bem...,
fazer alguma tzedaká (caridade)."
O rabino acrescentou, meio sem jeito: "Como todos nós sabemos, tzedaká abre os
portões do céu. Na realidade...", mas ele não continuou porque Yossele tinha
fechado os olhos e virado sua cabeça.
Enquanto o rabino Kalman estava saindo, ele pensava com tristeza: Uma vez
avarento, sempre avarento.
Yossele morreu.
Como ele não tinha amigos, e não encontraram dinheiro algum em sua casa, foi
enterrado como indigente.
Só uma cova, e nem puseram uma lápide.
Na sexta-feira seguinte, Kopel, o mendigo, ficou surpreso ao descobrir que não
havia envelope algum debaixo de sua porta.
Nada.
Ele se sentiu mal. Seria Shabat em algumas horas, e ele não tinha dinheiro.
Ele tinha se acomodado nestes últimos meses, e quase esquecido a arte da
mendicância.
O que poderia fazer?
Kopel correu até a casa do rabino Kalman.
Quando chegou lá, encontrou um tumulto!
Todos os mendigos da cidade estavam na sala.
Cada um deles contava a mesma história.
A doação anônima que todos recebiam na sexta-feira de manhã não tinha sido
feita. Depois de algum tempo, em dúvida, chegaram à conclusão de que a única
pessoa da cidade que poderia ter sido o doador anônimo era Yossele, o avarento.
Decidiram juntar seus parcos recursos e dar a Yossele um enterro adequado, que
foi realizado no domingo seguinte.
O rabino Kalman celebrou a cerimônia.
Ao final, ele se sentiu mal e se deitou na grama.
Caiu em um sono profundo e sonhou.
Nesse sonho, ele viu Yossele.
O rabino Kalman pediu muitas desculpas por ter deixado que ele fosse enterrado
como indigente e ainda mais por ter tido pensamentos depreciativos.
"Não se preocupe comigo", disse Yossele, "Eu estava muito bem acompanhado em
meu enterro. Para você ver, Abraão veio, e Moisés também. E assim fizeram David,
Isaac e Jacó. Todos vieram. Foi um enterro bonito."
"Então, o que podemos fazer por você, Yossele?", perguntou o rabino. "Estamos
todos muito envergonhados." Yossele respondeu: "Na verdade, não há nada o que
fazer. O céu tem de tudo." Ele continuou, com certa tristeza: "No entanto, devo
dizer que tem alguma coisa de que sinto falta. Aqui não posso ajudar ninguém;
afinal, é o céu. Mas não tenho mais aquela emoção que costumava ter nas
madrugadas de sexta-feira, antes do nascer do sol, quando eu distribuía aqueles
envelopes. Isto para mim acabou. Só quero que você saiba que há coisas até mais
importantes do que o céu!"
Não muito tempo depois que ele foi enterrado, o povo da cidade colocou uma lápide
em seu túmulo, com os seguintes dizeres: "Aqui jaz Yossele, o Avarento Sagrado."
Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 29

Parte Três - Consciência Primordial Mais Elevada - Ma’asey Merkavah


(A Obra da Carruagem)

O Caminho do Tzadik (Iluminação Judaica) – Parte 2

2. O Caminho do Respeito (continuação)


O caminho do respeito nos ensina que nunca estamos na posição de julgar os
outros.
Yossele tinha seu próprio jeito para fazer as coisas.
Ele preferia o anonimato, e a única maneira que ele conhecia para fazer isso era
fingir estar com raiva quando alguém lhe pedia dinheiro.
Portanto, a cidade inteira ficou contra ele.
Até o rabino tinha dúvidas.
Pelas costas, falavam coisas duras sobre ele, e fizeram com que ficasse isolado.
Se todo mundo tivesse sabido a verdade, teria sido diferente.
Muitas histórias hassídicas têm temas parecidos, em que alguém que é rejeitado
pela sociedade no fundo é uma alma luminosa.
As pessoas que estão à sua volta geralmente dizem ou fazem coisas
desrespeitosas.
Elas só descobrem tarde demais que perderam a oportunidade de aprender os
segredos do universo.
No entanto, mais importante do que a oportunidade perdida é o peso da sensação
de escuridão que fica nas pessoas que tiveram pensamentos negativos a respeito
dos outros.
Quando fofocamos sobre alguém, podemos pensar que estamos nos divertindo à
custa dessa pessoa, mas geralmente temos uma sensação peculiar de mal-estar, e
esperamos que não haja ninguém por perto prestando atenção à conversa.
Na realidade, quando um amigo descobre casualmente que fizemos fofoca a seu
respeito, ficamos muito envergonhados.
A fofoca é sutil e perigosa.
Uma palavra mal empregada pode destruir a reputação de uma pessoa em alguns
segundos; pode arruinar uma vida.
Algo que falamos descuidadamente pode envenenar um relacionamento para
sempre.
A maior parte das fofocas não tem finalidade alguma.
Passamos o tempo falando sobre os outros, sem intenção de sermos maldosos.
É a maneira pela qual transmitimos informações.

Mas o ensinamento de lashon hará, "língua maldosa" (fala depreciativa ou


prejudicial), sugere que quase tudo o que dizemos sobre uma terceira pessoa tem a
capacidade de ferir esta pessoa em um nível sutil, assim como a nós mesmos.
Quase todas as empresas, organizações e até comunidades espirituais têm suas
redes de fofocas.
Passamos um tempo enorme falando dos outros.
Várias vezes.
Pessoas chorosas me procuraram, dizendo: "Ela disse que ele falou que ela disse...
isto e aquilo sobre a minha pessoa."
Claro está que, se interpelarmos a fonte original, a pessoa acusada vai,
invariavelmente, dizer: "Eu nunca disse tal coisa!"
A fala depreciativa é tão comum que geralmente nem percebemos o que fizemos.
nem depois de o fato ter ocorrido.
Estamos tão acostumados às fofocas sem finalidade em nossas conversas que nem
percebemos as conseqüências em nós e nos outros.
Na prática espiritual de prestar atenção ao uso da linguagem, tomamos cuidado
com o que falamos, e especialmente o que falamos sobre os outros.
O ideal é minimizar, ou melhor, eliminar tudo o que falamos negativamente sobre
as pessoas, não importa se as conhecemos ou não.
Qualquer tentativa de praticar uma censura sobre o que falamos vem a ser um
procedimento interessante.
Certa vez, um professor disse que, quando tentou excluir referências a outras
pessoas de sua conversa habitual, descobriu que noventa por cento do que falava
em seu dia-a-dia estava ligado, de uma forma ou de outra, à fofoca.
Em outras palavras, ele notou que, na maioria das vezes, o assunto da conversa
levava geralmente a uma fofoca sobre alguém.
Mesmo se para você esta relação é apenas de cinco para dez, isto significa que
metade das coisas sobre as quais você fala vai em breve se transformar em
material sobre a vida dos outros.
Falar sobre os outros de maneira imprópria reverte o processo de elevar as
centelhas: caso não as elevemos, nós as estaremos rebaixando; encapsulamos as
centelhas sagradas em cascas de informações erradas, distorções, invenções
maldosas, assim como em simples mal-entendidos.
Todo mundo que conheço, incluindo eu mesmo, é culpado disso.
Todos nós falamos sobre os outros, e também somos, em uma ou outra ocasião, o
objeto do assunto de conversas prejudiciais quando os outros falam de nós.

A seguir, temos um exercício espiritual para consertar nossas próprias almas e, ao


mesmo tempo, consertar o mundo.
Aqueles que forem capazes de colocá-lo em prática ficarão surpreendidos ao
descobrir o quanto ele se aplica às nossas vidas diárias.

Praticando o Respeito
1. A partir de agora, cada vez que você terminar de falar com alguém, procure
parar por um ou dois minutos e reflita sobre o assunto da conversa.
Tente lembrar se algumas pessoas foram mencionadas durante a conversa.
O que foi dito sobre elas? O que você sente em relação a cada uma dessas
pessoas? Foi você quem mencionou uma determinada pessoa na conversa, ou
quem fez isso foi outra pessoa?
Simplesmente, observe o que aconteceu e, se você tiver tempo, faça umas
anotações, para poder se lembrar.
2. Após refletir sobre o passo 1 por algum tempo, você ficará mais sensibilizado
sobre este assunto. Observe como a presença de uma pessoa é jogada na
conversa.
Acontece sem mais nem menos? Existe geralmente uma associação que faz com
que isso aconteça? Como é que a energia da conversa se modifica depois que o
nome da pessoa é mencionado?
Repare se você se sente completamente à vontade ou se existe uma tensão quando
fala sobre os outros.
Faça mais anotações, quando você tiver tempo.
3. Em poucas semanas, você estará preparado para fazer uma saudável
autocensura.
Durante uma conversa, quando você sentir vontade de mencionar o nome de
alguém, procure conter-se.
A princípio, isso lhe causará certa estranheza.
Experimente fazer isso. Em algumas ocasiões, você vai acabar mencionando o
nome de qualquer maneira.
Repare o que acontece com a conversa, no nível mais sutil que você puder
observar. Sempre que possível, procure conter-se nesse aspecto.
4. Em mais algumas semanas, você vai obter algum sucesso neste processo.
Agora, o processo vai se tornar mais dificil.
Você irá reparar quando os outros mencionarem outras pessoas em conversas.
Procure levar a conversa, delicadamente, numa nova direção, sem, contudo,
ofender os outros participantes.
Se você conseguir fazer isso, saia rapidamente do assunto ou tente não mencionar
esta pessoa novamente. Isto não é fácil e requer prática.
Se o método sutil não funcionar, diga, sem rodeios, mas de forma educada: "Se
você não se incomodar, prefiro não falar sobre esta pessoa agora. Vamos falar
sobre outro assunto."
O hábito de fofocar moderadamente está arraigado em todos nós.
Assim que conseguimos minimizar ou eliminar a fofoca, descobrimos que nossas
formas de comunicação ficam mais leves.
Falamos menos e incluímos mais conteúdo.
No entanto, quando transformamos alguém em alvo de fofoca, com o intuito de
"fritá-lo", não podemos evitar ficarmos sujos de fuligem.
Todo mundo se contamina com a sujeira da fofoca — as pessoas sobre quem
estamos falando, todos que estão ouvindo e a pessoa que está espalhando a fofoca.
Afeta a maneira pela qual pensamos nessa pessoa e como iremos nos relacionar
com ela a partir de agora.
Embora possamos ter uma sensação de euforia momentânea, geralmente
acabamos com um aperto no coração, porque sabemos que uma alma está sendo
prejudicada por esse tipo de conversa.
Portanto, sermos mais habilidosos nesta área pode trazer muitos benefícios para o
mundo.
Diz-se que aprender a ter domínio sobre a maneira de falar é um dos caminhos
mais engrandecedores para o desenvolvimento espiritual que temos à disposição.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 30

Parte Três - Consciência Primordial Mais Elevada - Ma’asey Merkavah


(A Obra da Carruagem)

O Caminho do Tzadik (Iluminação Judaica) – Parte 3

3. O Caminho da Generosidade
Depois de desenvolver habilidades em termos de precisão, vamos nos voltar para a
qualidade que os antigos chamavam de vigilância (zrizut).
Algumas vezes, isto pode ser traduzido como zelo, mas está relacionado às
características de uma atenção plena e um interesse proativo.
Por exemplo, podemos prestar um serviço para alguém com indiferença ou agir
plenos de motivação e boa vontade.
Ao contemplarmos os efeitos de nossas boas ações no desenrolar constante da
criação, percebendo que somos parceiros neste processo, desenvolvemos, assim, a
qualidade do interesse proativo.
Por outro lado, quando temos aversão a qualquer tarefa, optando por nosso
conforto pessoal, perdemos esse senso de interesse.
Uma das formas mais claras do interesse proativo é a generosidade.
O cuidado com os outros está implícito na generosidade. Cada vez que abdicamos
de alguma de nossas posses, libertamo-nos um pouco mais da confusão que
envolve nossa autoimagem, que nos dá a sensação de estarmos separados do resto
do mundo, e até alienados.
A doação de tzedaká (caridade) é considerada pelo Talmud como um dos atos mais
importantes para elevar centelhas.
Está escrito com muita clareza:
"Dez coisas intensas foram criadas no mundo.
A pedra é dura, mas o ferro a quebra. O fe-ro é duro, mas o fogo o amolece.
O fogo produz calor, mas a água o extingue. A água é forte, mas as nuvens a
levam. As nuvens são fortes, mas o vento as espalha. O vento é forte, mas o corpo
o respira. O corpo é forte, mas o medo o derrota. O medo é forte, mas o vinho o
expulsa. O vinho é forte, mas o sono o dissipa. A morte é mais forte do que tudo, e
a tzedaká nos salva da morte, como está escrito: "Tzedaká livra da morte"
(Provérbios 10:2).

A idéia de que a tzedaká nos salva da morte é tratada de forma literal assim como
figurativa. De forma literal, quando alguém está com uma doença séria, a família
procura dar dinheiro, até o máximo de sua capacidade, para quem precisa.
Isto está fundamentado no conceito que aprendemos antes, de que quatro coisas
podem transformar o destino: caridade, oração, mudança de atitude e troca de
nome.
Figurativamente, o poder da tzedaká para sobrepujar a morte vem da concepção
mística de que, num tempo vindouro, nossa relação com a morte será de uma
maneira completamente diferente.
A tzedaká, que pode ser entendida como justiça, pela qual a Vontade Divina se
manifesta em seu sentido mais verdadeiro, requer desprendimento.
E o desprendimento leva a uma preocupação menor com a morte, devido à
percepção de que alguma coisa, além do corpo, está interconectada com toda a
criação.
Dessa forma, a doação desprendida, tzedaká, por definição, sobrepõe-se à morte.

Tzedaká e o Shnorrer
Quando morava em Jerusalém, eu ia com freqüência ao Muro Ocidental, para as
orações da manhã. Levava comigo os artefatos rituais necessários, o talit e os
tefilin, e sempre tinha muitas moedas nos bolsos.
O Muro Ocidental é como um ímã que atrai uma grande variedade de shnorrers,
pessoas que pedem esmola a todos os que estão por perto.
Os turistas ficam às vezes irritados com os shnorrers, porque eles parecem não ter
limite algum. Você pode estar em pé, de frente para o Muro, de olhos fechados, no
meio de sua oração, quando sente um puxão insistente no cotovelo, o que sinaliza
a chegada de mais um shnorrer.
Algumas vezes, o shnorrer vai dar uma olhada na página que está à vista em seu
livro de orações, a fim de verificar se você está, ou não, na parte da oração
chamada Amidá, a oração central, a qual requer uma concentração silenciosa.
Mas isso não é uma regra: já fui interrompido inúmeras vezes durante orações
silenciosas.
Minha maneira de agir era rapidamente tirar uma moeda do bolso, passá-la
adiante, muitas vezes sem mesmo virar a cabeça para ver o rosto da pessoa que
estava recebendo a tzedaká. Dessa forma, eu estava cumprindo minha obrigação,
com um mínimo de distração.
Muitos da velha guarda fazem o mesmo.
Em várias oportunidades, assisti a cenas protagonizadas por shnorrers
excepcionais.
Certo dia, logo após ter ficado sem moedas, um pouco antes do final de minhas
orações, um shnorrer que estava no Muro todas as manhãs se aproximou e
estendeu sua mão.
Perguntei se ele teria troco para uma nota de cinqüenta sheckels.
Ele começou a procurar nos bolsos e tirou um maço de notas — nitidamente ali
havia centenas de sheckels.
Eu ri, imaginando que um turista pensaria que este shnorrer era um vigarista.
Que ousadia! Que chutzpá!
O turista pensaria que este cara morava numa mansão, e provavelmente tinha
milhões escondidos no colchão.
Mas a verdade era que este shnorrer angariava fundos para muitas famílias
Eu sabia que ele morava num pequeno quarto e que a maioria das pessoas
próximas — especialmente as famílias que ele mantinha — o tinha como a pessoa
mais virtuosa que conheciam.
Um turista comentou comigo que ele estava aborrecido porque achava que a
maioria dos shnorrers era arrogante e hipócrita.
Alguns shnorrers até lhe davam a sensação de que estavam lhe fazendo um favor.
Este turista é um exemplo dessas pessoas que acham que, quando uma pessoa
pede esmola, deve ser submissa e demonstrar gratidão pelo que está recebendo.
Mas o Talmud ensina: "Aquele que é o causador das boas ações de outra pessoa é
mais merecedor do que quem pratica a boa ação", e não há razão para que alguém
que esteja pedindo esmola se sinta inferiorizado em relação ao seu benfeitor.
O Zohar apresenta esta questão de maneira mais enfática ainda, dizendo:
"Quando o Sagrado ama alguém, Ele envia um presente para esta pessoa, na forma
de um pobre, a fim de que esta pessoa amada possa praticar uma boa ação
fazendo caridade. Por meio desse mérito, a pessoa caridosa vai puxar para si um
fio de graça, que provém da fonte universal de bondade amorosa, a qual vai
enovelar-se sobre sua cabeça e deixar uma marca em sua testa. Assim, quando o
castigo cair sobre o mundo, o anjo destruidor vai reconhecer a marca e deixará
esta pessoa em paz."
Sob essa perspectiva, se estivermos numa posição que nos permita ser doadores,
devemos ser gratos sempre que tivermos oportunidade de fazer caridade.
Assim como o mendigo mencionado acima, os próprios shnorrers são doadores
contumazes.
Lembro que, certa vez, dois deles entraram na sala de estudos de uma yeshivá
durante as orações da tarde, um pouco antes dos Grandes Dias Sagrados.
Esta é uma época em que as doações aumentam, quando as pessoas procuram
acumular mérito espiritual, preparando-se para o dia do julgamento celeste que
está por vir. Reconheci um dos mendigos.
Ele sempre me pareceu um pouco maluco, ainda mais porque tinha os olhos muito
estrábicos. Este olhar estrábico era até simpático, e reparei que as pessoas eram
amáveis com ele. Quase todo mundo lhe deu dinheiro. Sua abordagem era ingênua,
tímida e, por causa de seu olhar estranho, parecia que olhava, ao mesmo tempo,
para seu rosto e para sua nuca.
O outro mendigo tinha o aspecto sombrio, estava descabelado e parecia deprimido.
Ele andava em volta da sala, arrastando os pés, sua mão meio aberta tremia,
dificultando a colocação da moeda. Ele não tinha o mesmo sucesso para angariar
dinheiro, como seu colega.
De fato, quando os dois terminaram de dar a volta na sala de estudos, o que
parecia maluco tinha a mão cheia de moedas, enquanto o que tinha o aspecto
sombrio tinha só uma pequena quantia em seu punho fechado.
Nesse momento, o shnorrer maluco foi até onde estava seu amigo, olhou para a
quantia irrisória que ele recebera e lhe deu, como se fosse um dízimo, uma parte
do dinheiro que tinha conseguido.
Na verdade, eles poderiam nem ser amigos.
Já os tinha visto separados e esta foi a única vez que os vi juntos. Entretanto, este
foi um dos mais comoventes atos de pura caridade que vi.
Algum tempo depois, comecei a me animar com a possibilidade de fazer tzedaká,
sempre que era possível e, especialmente, durante as orações. Percebi que o ato de
dar era muitas vezes uma vivência espiritual mais profunda do que a própria
oração. Comecei a perceber o que se passava em minha mente, quando se dava a
interrupção, como se Deus estivesse falando comigo por intermédio do shnorrer.
Percebi também que a interrupção modificava o ritmo de meu processo mental.
Inicialmente, eu ficava irritado quando era interrompido, o que, mais tarde, entendi
como sendo um reflexo de minha sensação de separação e uma ilusão de controle.
Em outras palavras, quando eu ficava irritado, tinha a sensação de que “um outro"
tinha invadido meu mundo e perturbado "minha" consciência.
Eu vivenciava este sentimento como um aperto no coração e na mente.
Pouco depois, tendo decidido praticar a doação indiscriminada, eu procurava não
passar por nenhum mendigo sem lhe dar uma moeda e minha mente se tornou
menos contraída e meu coração, muito mais aberto. Esta experiência transformou o
modo pelo qual me percebo como indivíduo, como lido com meus bens materiais e
como vivencio o papel de ser um veículo por meio do qual a Divina Providência
atua.

Doação Desinteressada
O filósofo da tradição judaica Maimônides descreveu várias maneiras de fazer
caridade, ensinando que é melhor ficar anônimo.
Ele observou que uma das formas mais elevadas de caridade é ajudar uma pessoa
a ser auto suficiente, em vez de ser dependente da boa vontade dos outros.
Reb Nachman, de Bratslav disse: "A caridade tem o poder de alargar os portões de
entrada para o Sagrado. Quando alguém quer iniciar um determinado caminho
espiritual, a primeira coisa a fazer é uma abertura para este novo caminho. É por
isso que todos os começos são dificeis. Mas fazer caridade amplia o portal de
acesso.”
Certa vez, pediram a Choygam Trungpa Rinpoche (um mestre tibetano que, até
1987, quando faleceu, influenciou milhares de pessoas na América do Norte) para
descrever qual seria a qualidade mais importante para se atingir a iluminação.
Ele respondeu com uma só palavra: generosidade. No mundo budista, isto é
chamado de dana, doação desinteressada.
No Judaísmo, isto é chamado tzedaká.
A doação de tzedaká é importante em muitos níveis.
No plano físico, equilibra os recursos do mundo; no nível emocional, vem a ser um
dos melhores métodos para abrir o coração; no mundo intelectual, dissolve as
abstrações ideológicas, bem como as fronteiras entre as diferentes linhas de
pensamento. Mas a conseqüência mais marcante da doação constante de tzedaká é
a desintegração sutil dos limites que definem o "eu" como algo que está separado
dos outros.
A princípio, fazer caridade é claramente vivenciado como um fenômeno sujeito-
objeto.
Eu estou doando para você.
Pouco depois, no entanto, o beneficio de dar se iguala ao beneficio de receber, e
todo o conjunto fica harmonizado.
Algumas pessoas se nutrem da oportunidade de dar; outras, do ensejo de receber.
A idéia de tzedaká acrescenta uma dimensão importante à abordagem usual da
caridade.
Tzedaká, que também significa justiça, sugere que há mais coisas em jogo do que
simplesmente uma pessoa ajudando outra.
Os sábios perguntavam se era melhor dar com todo o seu coração, ou por
obrigação. Imagine uma situação em que uma pessoa que acabou de fechar um
negócio esteja andando numa rua. Esta pessoa teve um bom lucro e tem a
obrigação de separar dez por cento para tzedaká.
Esta pessoa encontra um mendigo imundo, desagradável, ingrato e lhe dá o
correspondente ao dízimo. O mendigo olha o dinheiro com desprezo, cospe e vai
embora. Outra pessoa, uma mulher, que já cumpriu com suas obrigações de
tzedaká para a semana, está caminhando pela rua. Ela vê uma mendiga com uma
criança no colo. Isto toca seu coração. Ela tira algumas notas de pequeno valor de
sua bolsa e dá para a mendiga, que fica muito agradecida e dá um belo sorriso,
enquanto guarda o dinheiro.
Qual das duas é a melhor forma de tzedaká?
Embora possamos pensar que dar de coração é a expressão mais profunda da
doação autêntica, os sábios ensinaram que aquele que deu por obrigação estava,
na realidade, praticando a forma mais elevada de tzedaká.
Por quê?
O motivo é que ele não se envolveu pessoalmente.
Ele estava simplesmente agindo como um canal para a tzedaká.
Ele entendeu que posse e propriedade são coisas transitórias nesse estado efêmero
que chamamos de vida.
Os atos de dar e receber seguem leis da natureza e do destino.
Dar uma parte de nossa riqueza, quando temos esta disponibilidade, é uma lei
natural para manter o equilíbrio no universo.
Por outro lado, a mulher sentiu que ela mesma estava fazendo uma coisa boa.
Ela ficou pessoalmente satisfeita em ajudar uma mendiga necessitada.
Ela já tinha cumprido suas obrigações; isto era uma coisa a mais.
E, assim, o que ela fez perdeu um pouco do brilho: um toque de seu ego pessoal
junto com a vontade de Deus. Obviamente, não havia nada errado com o que ela
tinha feito. Na verdade, foi uma ação maravilhosa e meritória. Seria 9,9 numa
escala de 10.
Todo mundo deve ser estimulado a dar de coração.
Este exemplo simplesmente demonstra que a noção de tzedaká, justiça, contém a
idéia que somos os veículos por meio dos quais a Vontade Divina se expressa.
A justiça é mais pura quando recorremos à vontade de Deus do que quando a
nossa própria vontade é a força motivadora.
O Talmud aconselha: "Se uma pessoa está ansiosa para fazer caridade, o Sagrado
vai fornecer-lhe o dinheiro necessário."
Esta idéia inverte completamente nosso mecanismo básico de sobrevivência, que
diz: "Cuido de mim primeiro."
Sugere que, se alguém estiver realmente mais preocupado em ajudar os outros do
que a si próprio, os meios para que isso aconteça serão encontrados.

Praticando a Generosidade
1. Pegue uma nota de 1 real, dobre-a algumas vezes, prenda-a com um clipe e
deixe-a à mão em seu bolso ou sua bolsa. Na próxima vez que você vir alguém
pedindo caridade, não importa seu aspecto físico, dê-lhe esta nota. Procure, a cada
dia, ter um real em seu bolso para dá-lo.
2. Faça um cheque de valor modesto, sem preencher o nome do portador. Deixe
este cheque na porta da geladeira com um ímã, de modo a tê-lo sempre à vista.
Quando você receber uma carta ou vir um anúncio pedindo uma doação, preencha
o nome e envie este cheque. Tente fazer isso pelo menos uma vez por mês.
3. Calcule sua renda líquida. Determine qual é o percentual que você está disposto
a doar. Faça com que este percentual seja baixo, de modo que você possa
realmente manter seu compromisso.
(Algumas tradições, incluindo o Judaísmo, sugerem dez por cento. Mas, para
muitas pessoas, nos dias de hoje, isto vem a ser um encargo muito pesado. Até um
por cento é suficiente para esta prática. O importante é tomar a decisão e fazer o
que foi decidido!)
4. Sempre que você apostar na loteria ou fechar um ótimo negócio, comprometa-se
a dar pelo menos dez por cento do dinheiro para a caridade. Se você ganhou, faça
uma doação em um ou dois dias, no máximo. Não demore.
5. Quando você conhece alguém que está realmente necessitado, mas tem
vergonha de pedir ajuda, encontre um meio de fazer uma boa doação anônima.
Você pode mandar entregar um envelope com dinheiro por meio de um
mensageiro, ou pode providenciar um cheque administrativo, sem o seu nome, e
enviá-lo sem colocar o remetente. Assim que você concluir sua ação, não pense
mais nisso. Não conte nunca o que você fez, nem à pessoa beneficiada, nem a mais
ninguém. Nunca.
6. Cada vez que você receber seu contracheque, ou qualquer outro dinheiro, reflita
sempre sobre as circunstâncias que fizeram com que este dinheiro viesse parar em
suas mãos: sua saúde física e mental, o apoio de sua família, sua formação e
treinamento, seus relacionamentos de negócios, a economia, o tempo e o que é
mais importante: a presença ou ausência de acontecimentos provenientes de Deus.
Esta reflexão e contemplação são partes vitais do que precisamos para entender o
que posse e direito de propriedade são afinal, e como nossa riqueza pessoal é
frágil.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 31

Parte Três - Consciência Primordial Mais Elevada - Ma’asey Merkavah


(A Obra da Carruagem)

O Caminho do Tzadik (Iluminação Judaica) – Parte 4

4 O Caminho da Bondade Amorosa


O caminho da generosidade foi imensamente respeitado pelos sábios.
Entretanto, o Talmud diz: "Nossos rabinos ensinaram que a bondade amorosa
(gemulit chessed) é superior à generosidade de três modos:
1) A caridade só pode ser feita apenas com nossas posses, ao passo que a bondade
amorosa pode ser feita com nossas posses e/ou com nosso trabalho filantrópico.
2) A caridade só pode ser dada aos pobres, enquanto a bondade amorosa pode ser
dada tanto aos ricos quanto aos pobres.
3) A caridade só pode ser dada aos que estão vivos, enquanto a bondade amorosa
pode ser dada tanto aos vivos quanto aos mortos.”

Os atos de bondade amorosa são muito mais sutis do que os de caridade; eles
exigem um desprendimento que vai além das coisas materiais.
Este desprendimento pode ser muito fácil e natural.
Quando vemos uma pessoa tropeçar e cair na rua, especialmente quando é uma
criança ou um velho, corremos logo para ajudar, sem hesitar nem por um
momento.
Mas o desprendimento também pode vir acompanhado de muita resistência.
Nossos pais idosos nos ligam pela enésima vez para pedir um favor.
Nós estamos ocupados.
Temos de cuidar de nossas próprias vidas.
Ressentimo-nos por precisarmos cuidar deles. Ainda assim, mamãe precisa de
ajuda, ela se sacrificou muitas vezes por mim e quem mais pode fazer alguma coisa
por ela? Então, cedemos e encaixamos mais esta incumbência em nossas vidas.
Em muitos aspectos, a caridade é mais simples, mais clara e mais fácil do que a
bondade amorosa.
Assim que fizermos a caridade, acaba, não se pensa mais no assunto.
No entanto, os atos de bondade amorosa nunca têm fim.
Tendo em vista a capacidade que todos nós temos de infligir dor em nossos
semelhantes, nosso mundo tem uma necessidade quase inesgotável de bondade
amorosa.
Nosso status social pouco importa.
Tanto os ricos quanto os pobres anseiam por um toque amoroso.
Quem não responde a um sorriso franco e generoso?
Que alma não se comove quando recebe um pequeno presente, nem que ele seja
de pouco valor?
A propósito, os atos de bondade amorosa não estão restritos aos seres humanos.
Nosso tratamento bondoso para com os animais está na categoria de "dor dos seres
vivos" (tza'ar ba'alei chayyim).
É um decreto do Talmud que devemos dar atenção especial aos animais
domésticos, para evitar que tenham sofrimento indevido.
Os animais devem ser alimentados antes de nós e precisamos aliviar a dor de um
animal, mesmo que isso signifique quebrar as leis do Shabat.
Só podemos comprar um animal se tivermos meios de cuidar dele.
Também é proibido fazer um animal sofrer ou provocar um ferimento que possa
deixar marcas.
De maneira geral, a caça é desaprovada, porque as leis da kashrut não permitem
consumir carne de um animal treif (machucado), o que sempre acontece quando
um animal é morto por um caçador.
O que significa fazer atos de bondade para os mortos?
O comentário do Talmud diz que prestar homenagens num enterro, levar uma
pessoa ao seu túmulo e fazer orações abençoando os mortos são atos que
levantam as centelhas da alma do falecido em outras dimensões.
Além do mais, como veremos nos textos sobre a morte, podemos ajudar a alma de
um falecido com técnicas de meditação cabalística.
Os atos de bondade amorosa não precisam ser visíveis.
Uma pessoa pode nem perceber que fez alguma coisa.
Podemos ajudar alguém indiretamente, agindo como um intermediário; podemos
mencionar informalmente a alguém algo que pode ajudar uma pessoa que
conhecemos.
Podemos rezar pela pessoa no silêncio de nossos próprios corações.
Quando nos concentramos com a mente e o coração na Fonte das Fontes, bênçãos
são retiradas das profundezas do 'reservatório' da Fonte da Vida, a corrente que
vem do Éden.
A oração consegue trazer para baixo a bênção que está em cima.
A abordagem mística para cada ato de bondade amorosa é que esta é a força que
mantém coesa a estrutura do mundo.
Diz-se: "Algumas vezes, acontece que o mundo está exatamente equilibrado entre
as pessoas cujas boas ações trazem a vida e aquelas cujas más ações trazem a
morte. Nesse momento, uma única pessoa justa pode romper este equilíbrio e
salvar o mundo. Mas, caso este equilíbrio seja rompido por uma pessoa má, o
mundo seria destruído."
O Zohar dá um passo além e afirma que "uma pessoa deve sempre pensar que o
destino do mundo inteiro depende de suas ações."
Dentro do processo talmúdico, estamos sempre nos questionando, examinando o
sentido mais profundo de tudo.
Isso significa que nossas ações são tão importantes?
Não é dito em Eclesiastes, "Tudo é futilidade! Que proveito tira o homem de todo o
trabalho com que se cansa debaixo do Sol?...A obra que se faz debaixo do Sol me
era penosa; sim, tudo é vaidade e desejo vão?"
Se isso é assim, o que nossos pequenos atos de bondade amorosa realizam afinal?
Em resposta, o Zohar diz que "neste caso, futilidade se refere às ações dos seres
humanos que são feitas sob o Sol".
No entanto, justiça e bondade amorosa são ações praticadas "acima do Sol".
Estas ações funcionam neste mundo, mas ao mesmo tempo o transcendem.
Sob a perspectiva deste mundo, parece que a história se repete.
Mas, sob a perspectiva transcendente, somos impelidos, inexoravelmente, para
níveis mais elevados de consciência primordial:
"O propósito do homem é deslocar-se na direção de uma consciência mais elevada,
e não na direção de uma consciência inferior. Por conseguinte, é louvável quando
os seres humanos se amam e afastam a animosidade que poderiam sentir pelos
outros, a fim de não enfraquecer a consciência mais elevada."
Nossos atos de bondade amorosa não apenas fazem diferença, como são os meios
pelos quais podemos agregar o mundo no sentido de uma nova era de
relacionamento entre as pessoas.
Muitas práticas na tradição judaica são descritas em tempos e quantidade
determinados.
Entretanto, a bondade amorosa é uma prática para a qual não há medida fixa.
Podemos praticar estes atos da manhã até a noite, durante a semana toda.
Podemos estabelecer a bondade amorosa em nossas almas como uma prática que
estará sempre presente por toda a nossa vida.
O caminho da bondade amorosa conduz diretamente às dimensões mais elevadas.
Este caminho está iluminado por incontáveis bilhões de centelhas que.
continuamente, vão sendo liberadas de suas cascas, enquanto, no decorrer de cada
dia do processo, ampliamos o campo de ação de nossos corações, assim como
daqueles à nossa volta.
Praticando a Bondade Amorosa
1. Compre um caderno grande para fazer um diário; este será seu livro de registro
de bondade amorosa.
2. Separe uns 30 minutos anotando cada ato de bondade amorosa que você lembra
ter praticado. Deixe uns cinco centímetros abaixo de cada item relacionado. Cada
um deles se tornará uma categoria.
3. Duas ou três vezes por semana, ou com mais freqüência, se você quiser, repasse
atos específicos de bondade amorosa que você praticou, em suas respectivas
categorias. Se você praticou coisas novas, que não estão em sua lista, deve
registrá-las como categorias novas.
4. Depois de algum tempo, você terá uma longa lista de atos de bondade amorosa:
alguns só com poucas marcas e outros com muitas marcas associadas a eles.
5. Dê início a uma nova parte nas últimas páginas do caderno, intitulada
"Oportunidades Perdidas" de praticar atos de bondade amorosa.
Faça uma lista delas.
A finalidade deste exercício não é sentir-se culpado pelas oportunidades perdidas,
mas ficar ciente das possibilidades que apareceram e se foram. Essa percepção
propriamente dita pode ser um ato amoroso se for convertido em oração.
É melhor observar que você deixou de fazer alguma coisa do que ser
completamente desinteressado.
6. Não comente com ninguém sobre este diário, ou o que está escrito nele, exceto
talvez com seu guia espiritual. Este diário é para seu uso pessoal; o trabalho que
você faz nesta área é entre você e Deus.
A finalidade deste exercício é elevar a consciência primordial.
Não devemos nos sentir orgulhosos das categorias que têm muitos registros, nem
lamentar as ações que não foram percebidas.
O que queremos é estar atentos às necessidades do mundo à nossa volta e às
possibilidades de oferecermos um pouco de nós mesmos.
Para isso, não existe uma medida para o sucesso ou o fracasso.
Estamos simplesmente trabalhando para elevar nossa própria consciência, assim
como uma centelha de cada vez.

Outras Práticas de Bondade Amorosa


1. Se uma história, a respeito de alguém, que você leu no jornal ou à qual assistiu
na televisão, tocou seu coração, escreva uma curta mensagem para esta pessoa,
recorrendo ao jornal ou à estação de televisão. É maravilhoso receber cartas de
pessoas desconhecidas.
2. Se você lembra de alguém com quem possa ter agido mal no passado, escreva
uma carta sincera para esta pessoa. Você não precisa enviar a carta se não quiser,
mas é importante escrever. Claro está que você também pode enviá-la.
3. Pense em alguém que esteja doente, física ou mentalmente.
Concentre seus pensamentos e orações nesta pessoa, imaginando-a
completamente saudável. Tenha pensamentos positivos e envie anjos de cura para
essa pessoa. Para ser bem-sucedida, a pessoa não precisa saber que você está
fazendo isso. Aja assim todos os dias e com quantas pessoas quiser.
4. Procure uma cozinha comunitária, uma obra de caridade ou qualquer outro
serviço organizado desse tipo e contribua com alimentos, roupas, qualquer coisa
que você puder.
Trabalhe como voluntário em um bazar de caridade, em um lar para idosos, em um
hospital, em um orfanato etc. Mesmo que sejam só algumas horas por mês, é
maravilhoso.
5. Procure encontrar um jeito de convidar pessoas necessitadas para comer em sua
casa, uma vez por mês. Talvez eles precisem que você providencie também um
transporte para chegarem à sua casa.
É trabalhoso, mas incrivelmente reconfortante.
A essa altura, você já pode perceber do que estou falando.
As oportunidadl são ilimitadas.
Coninua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 32

Parte Três - Consciência Primordial Mais Elevada - Ma’asey Merkavah


(A Obra da Carruagem)

O Caminho do Tzadik (Iluminação Judaica) – Parte 5

5 . O Caminho da Moderação
Diz-se que a chave para níveis mais elevados de desenvolvimento espiritual é a
contenção (haprishut).
A perfeita habilidade consiste, de maneira geral, na capacidade de se refrear,
concentrar-se na tarefa que estiver fazendo, sem se distrair, ter um senso claro de
suas prioridades, em meio às tentações.
A pessoa que dominou um determinado campo de atividade é geralmente alguém
que dedicou muito tempo ao desenvolvimento de certas habilidades.
Algumas vezes, esta capacidade vem por meio de um talento pessoal, mas
normalmente é o resultado de um esforço sincero.
O rabino Bachya ibn Paquda, do século XI, autor do texto clássico de espiritualidade
judaica, Deveres do Coração, disse que muitas interpretações das práticas de
contenção e moderação recomendam uma abstinência extremada e renúncia.
Em sua opinião, no entanto, uma atitude mais adequada seria aquela na qual nós
simplesmente iríamos satisfazer às nossas necessidades essenciais, sem fazer uso
de nada em excesso.
O Judaísmo nunca estimulou o ascetismo.
No século XI, era comum que aspirantes à espiritualidade renunciassem à vida
mundana. Eles viviam como eremitas sobre rochedos e em cavernas, andrajosos,
completamente afastados de qualquer contato social.
O rabino Paquda não aprovava essas manifestações de devoção extremada.
A visão corrente era que esse ascetismo excessivo representava, ironicamente,
uma satisfação dos próprios desejos, acompanhado de um apego considerável ao
ego.
Além do mais, as dádivas que o mundo nos oferece têm centelhas divinas, e não
devem ser desprezadas.
De preferência, o alvo seria empreender, de bom grado, alguma forma de
abstinência, porém fazer isso com consciência.
A moderação nos dá oportunidade de vivenciar todas as partes dessa criação, em
quantidades modestas. Paquda disse que haprishut inclui as qualidades de justiça,
simplicidade, humildade, contenção, firmeza, consideração, comedimento,
paciência e resignação, entre outras.
O caminho da moderação pode ser aplicado a tudo o que fazemos: à qualidade e à
quantidade de comida que comemos; à escolha de mídia que absorvemos; ao
tempo que passamos trabalhando, em festas, relacionando-nos com outras pessoas
ou nos entretendo; ao dinheiro que gastamos em roupas, mobília, brinquedos e
carros. Sem dúvida, a moderação também se aplica às nossas aspirações
espirituais. Apego excessivo a qualquer aspecto de nossas vidas muitas vezes
produzirá resultados desfavoráveis como orgulho, arrogância, presunção, ou
qualquer outro comportamento egoísta.
Além disso, se não desenvolvermos o dom da moderação, continuamos presos aos
nossos desejos, sempre querendo aquilo que não temos, nunca satisfeitos, nunca
em harmonia.
O desejo tem um apetite insaciável: quanto mais temos, mais queremos.
Existem fronteiras naturais que nos mantêm controlados, de alguma forma.
O dia só tem 24 horas, nossos cartões de crédito têm limites, só podemos encher
nossos estômagos até um certo ponto e nossos corpos precisam descansar.
Até dá para sobreviver.
Com base apenas nesses reguladores naturais.
Todavia, o ensinamento da moderação recomenda que, se quisermos alcançar paz
de espírito em nossas vidas, precisamos aprender a nos resguardar da torrente de
abundância, para não sermos arrastados por ela.
Isto não significa que devamos evitar as doçuras da vida (que o céu não permita
isso). Na realidade, devemos aprender a ficar satisfeitos consumindo menos dessas
doçuras.
A moderação é a chave para esta conquista.
Nossa aproximação deve ser lenta. Não será difícil, se fizermos isso com
delicadeza. Não podemos nos forçar a ter um modo de vida moderada porque força
e moderação são termos contraditórios. Devemos, de preferência, adotar a
moderação de forma gradual, e então o excesso de bagagem de nossas vidas irá
desaparecer lentamente.

Praticando a Moderação
1. Avalie os seguintes aspectos de sua vida numa escala subjetiva: demais, muito
pouco, quase na medida certa.
a. Trabalho...
b. Eu me alimento...
c. Assisto à televisão...
d. Leio revistas...
e. Eu me divirto...
f. Passo o tempo com a família...
g. Trabalho minha vida interior...
h. Faço exercícios espirituais...
i. Leio livros inspiracionais...
2. Acrescente à lista qualquer outra coisa que lhe vier à cabeça, que represente
uma qualidade que você ache que tem demais ou de menos em sua vida.
3. Olhe para a sua lista e determine o que você acha que está em excesso. Calcule,
para cada um dos itens, a quantidade que você consome a cada dia (por exemplo,
quatro horas de televisão ou três refeições completas por dia, mais lanches e
sobremesas extras após o jantar).
4. Agora, assumindo que você tenha de diminuir a quantidade de um só item de
sua lista em 25%, qual deles seria?
5. Imagine como você faria para cortar 25% de algum aspecto (tal como "A cada
dia, vou passar menos uma hora em frente à televisão"; "Vou cortar uma
percentagem de meus lanches e sobremesas"...).
6. Veja se você pode realmente fazer isso durante uma semana. Se conseguir, faça
isso durante um mês. Se conseguir, pode se gratificar acrescentando à sua vida
alguma coisa que, em sua lista, está como "muito pouco". De outra maneira,
continue a tentar, ou então escolha outro item em sua lista.
7. Cada vez que você tiver sucesso, dê-se um prêmio aumentando o tempo dos
itens que tem a designação "muito pouco".
Continue a trabalhar com sua lista, até que não exista mais nada que diga
"demais".

Outras Práticas de Moderação


1. Escolha algo que você queira aprender, que possa ser iniciado logo, sem muita
preparação, e sem gastar muito dinheiro. Sugestões: adquirir habilidade em um
instrumento musical, escrever prosa ou poesia, estudar uma língua estrangeira,
pintar com aquarelas, escultura em argila, a leitura sistemática de uma
enciclopédia inteira (recomendo enfaticamente às pessoas interessadas em
Judaísmo que leiam a Encyclopedia Judaica), fazer bolos e tortas especiais para
fora etc.
2. Escolha a melhor hora do dia para que você possa dedicar 30 a 45 minutos ao
desenvolvimento desta prática. Você deverá dedicar-se inteiramente, sem
interrupção, pelo menos cinco dias por semana.
3. Faça com que esta hora seja sagrada. Diga ao resto da família que você não
pode ser perturbado (exceto em caso de emergência). Não atenda ao telefone
(instale uma secretária eletrônica). Se você gosta de música, use fones de ouvido
para afastar todos os ruídos que poderiam distraí-lo. Permita-se dedicar-se
integralmente à sua prática, na hora determinada, a cada dia.
4. Continue. A chave para isso é uma autodisciplina delicada. Você vai amar esta
hora em sua própria companhia e, depois de certo tempo, terá adquirido habilidade
no que estiver fazendo. Porém, a habilidade não é o objetivo. O que é mais
importante é o tempo que você se deu. É onde você conquista autoconfiança, e a
autoconfiança vem acompanhada de mais paz de espírito. Esta prática nos ensina a
desenvolver habilidade, um passo de cada vez.
O caminho da moderação é um dos elementos principais numa prática mais
abrangente, que, por sua vez, conduz a um nível mais elevado da iluminação no
Judaísmo.
Quanto mais praticarmos a moderação, mais seremos capazes de estabelecer
corretamente a prioridade de nossas vidas no sentido de uma profundidade maior
em nossa prática espiritual.
A moderação nos dá uma visão mais clara de quem somos e do que precisamos
para sobreviver. Quando a praticamos, alterando o patamar para o qual fomos
impulsionados por um incessante desejar, logo percebemos que estamos rodeados
por milhares de carruagens que podem nos levar a dimensões mais elevadas —
milhares de novas oportunidades para nos conectarmos com Deus. Cada interação
na vida é uma nova oportunidade de tomar as rédeas dessas carruagens. Temos
muito mais escolhas sobre nossos destinos do que muita gente se dá conta.
É uma questão de reavaliar nossas prioridades, diminuir o ritmo, refletir, simplificar
e prestar atenção.

6. O Caminho da Pureza
O objetivo da pureza, no contexto do exercício espiritual, é minimizar ou eliminar
pensamentos que causem conflitos internos.
Procuramos esclarecer a diferença entre nossa própria vontade de fazer alguma
coisa e a vontade de Deus.
Pureza é um nível de apego a Deus, em que os pensamentos têm uma qualidade
não egóica.
Quando nos aproximamos mais da presença divina, colocando Deus sempre à nossa
frente, estaremos habilitados a "praticar atos dedicados ao criador e falar sobre ele
com base em seus próprios méritos". Adentrar a esfera da pureza é algo que
atingimos por meio da contemplação.
Observamos atentamente de que forma o mundo funciona e, com isso, ganhamos
sabedoria. Vivenciamos a natureza transitória das coisas: as fortunas que
aumentam e diminuem, os bons tempos que vêm e passam e o quanto a vida é
efêmera.
Assim, obtemos uma percepção maior de nossas próprias limitações e podemos
acompanhar melhor a maneira como as coisas acontecem.
Diz-se que podemos ser desviados do desenvolvimento da pureza pela busca de
prazer, fama, honra ou status.
Cada um desses fatores é temporariamente gratificante para o ego, mas acabamos
descobrindo que eles levam a uma busca insaciável e desanimadora.
Nestes textos, já vimos o conceito que diz que o nível mais elevado da alma é
sempre puro. Podemos utilizar esta idéia em uma prática meditativa para
aprofundar a percepção de nossa parte interior que está sempre conectada a Deus.
Assim que conseguirmos entender bem as implicações desse ensinamento,
mudaremos para sempre a maneira como nos relacionamos com os outros.

Praticando a Pureza: Tehora He (A Alma é Pura)


1. Sentado, com seus olhos fechados, imagine que você tem uma visão de raios-X
e que pode penetrar em você, como se fosse feito de matéria translúcida.
Você pode ver muitas pequenas partes interconectadas dentro de seu corpo.
2. Observando com muita atenção, imagine que um ser sutil esteja iluminado desde
o seu interior. A luz que permite que você veja vem de algum lugar lá no fundo e
preenche o corpo com seu brilho.
3. Imagine seu corpo há muitos anos, quando você era mais jovem. Perceba que,
mesmo que a imagem de seu corpo possa ter se transformado, a luz que o ilumina
continua a mesma.
É simplesmente luz; não muda.
4. Procure imaginar-se daqui a muitos anos. O corpo vai mudar de novo, mas a luz
continuará igual.
5. Agora, imagine uma pessoa amada. Repare como seu corpo é completamente
diferente do seu, mas a luz que o ilumina é da mesma qualidade da sua.
Luz é luz.
6. Pratique esse exercício com pessoas que você conhece e ama, e também com
pessoas com quem você pode não se dar tão bem.
De novo, a luz será a mesma que a sua.
Você irá descobrir que a realidade de compartilhar a mesma luz vai influenciar o
que você sente a respeito dessas pessoas.
7. Pratique este exercício muitas vezes, até que você tenha a imagem bem clara
dentro de si mesmo. Então, quando estiver em um lugar público, numa rua, por
exemplo, permita-se imaginar que cada pessoa que você vê está iluminada pela luz
que vem de dentro. Como descrevemos anteriormente, você pode dizer para si
mesmo, em silêncio: "Tehora he" (Ela — a alma que está dentro — é pura).
Você vai se descobrir sentindo uma afinidade pelos estranhos.
Esse é o propósito desta prática: lembrar que estamos todos conectados à mesma
fonte e, portanto, estamos conectados uns com os outros.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 33

Parte Três - Consciência Primordial Mais Elevada - Ma’asey Merkavah


(A Obra da Carruagem)

O Caminho do Tzadik (Iluminação Judaica) – Parte 6

7. O Caminho da Alegria
Reb Nachman, de Bratslav, o bisneto do Baal Shem Tov, era famoso por seus
ensinamentos sobre a alegria.
A alegria é o tema principal de suas histórias.
Ele disse que as raízes da depressão são "cascas (klipot) que estão em guerra com
tudo o que é sagrado".
Sempre que a depressão se instala, a Presença Divina (Shechiná) vai para o exílio.
Portanto, "o poder das forças de tudo o que é sagrado e a destruição das cascas
que aprisionam as centelhas sagradas dependem da alegria".
De acordo com Reb Nachman, o valor da alegria está em sua habilidade de
combater o poder destrutivo de nossa imaginação.
"A faculdade que os seres humanos têm de produzir imagens na mente é a origem
de todas as tentações. Quando ela se torna dominante, o resultado é a depressão...
a memória falha e nosso esquecimento acerca de qual é o nosso propósito na vida.
Temos de nos resguardar e ter como meta estar sempre feliz, a fim de romper o
poder da imaginação."
Os cabalistas usam a imaginação para alcançar as dimensões mais elevadas.
Porém, se ela não for controlada, de acordo com Reb Nachman, a imaginação pode
ser a origem de nosso senso de alienação e separação de Deus.
Reb Nachman disse: "Você pode cair no poço mais fundo, que o céu não permita,
mas não importa o quão profundo você tenha caído, ainda assim não é apropriado
perder a esperança.
A capacidade de retornar a Deus (teshuvá) está acima de tudo e, então, não há
lugar para o desespero.
Até os pecados podem ser transformados em virtudes; até nossas fraquezas e
defeitos podem se voltar em direção a Deus.
O mais importante é nunca desistir, continuar a implorar e rezar.
Para enfatizar este ensinamento, Reb Nachman contou uma história.
Era uma vez um lavrador chamado Moishe que morava na Ucrânia no século XIX.
Moishe era conhecido como "Moishe Simcha" (Moishe alegre), devido ao fato de
que raramente era visto sem seu belo sorriso.
Ele tinha uma alma feliz e parecia satisfeito com o mundo.
A vida de Moishe como lavrador não era fácil, mas, apesar de tudo, ele estava
sempre de bom humor.
Ele tinha consciência de que podia escolher entre rir e sorrir ou franzir o cenho e
gemer.
Ele sabia que qualquer que fosse sua escolha, o mundo não se modificaria por
causa disso.
Então, ele resolveu usufruir da melhor forma possível o que lhe era destinado nesta
vida.
Certo dia, Moishe estava arando sua terra quando uma pedra estranha surgiu no
solo. Ele pegou a pedra e viu logo que ela tinha valor.
A luz que brilhava em seu centro era ofuscante, como se fosse o próprio Sol.
Moishe levou a pedra para a cidade, a fim de mostrá-la ao seu cunhado, Shabtai, o
joalheiro.
Quando Shabtai viu a pedra, grande como um punho fechado. ele quase engasgou
com o arenque que estava comendo. "Onde você conseguiu uma pedra assim?", ele
perguntou assombrado. Moishe balançou a cabeça e, silenciosamente, apontou para
cima, indicando que "Só Deus sabe".
Moishe perguntou calmamente: "Quanto você acha que ela vale?"
Shabtai sorriu e também apontou para cima, imitando o gesto que acabara de ver.
Então, disse: "Você vai ter de levar esta pedra para ser examinada por joalheiros
em Amsterdã, porque lá é o único lugar onde há pessoas capazes de pagar por uma
pedra preciosa tão grande."
Amsterdã! Como é que Moishe poderia ir para Amsterdã? Ele não tinha dinheiro.
Seria muito perigoso ir por terra. O melhor caminho seria sair de Odessa de navio,
atravessar o mar Negro até o Mediterrâneo, passar por Gibraltar, e ir para o Norte
até a Holanda. Mas ele não tinha como pagar a passagem. Shabtai concordou em
ajudar. Ele entrou em contato com um capitão, um sujeito suspeito que fazia
contrabando. Ele concordou em levar Moishe e só receber o pagamento na
chegada.
O pagamento, naturalmente, era dez vezes o preço normal.
Mas quem se importava? Moishe conseguiria seu transporte.
O negócio foi fechado e Moishe embarcou.
Ele tinha sua própria cabine e um camareiro para servi-lo.
O capitão era rude, tinha uma barba negra e um tapa-olho; parecia ser realmente
um pirata, como diziam. Ele passava o dia com Moishe, fazendo brincadeiras sobre
as pessoas que ele jogara ao mar, o que ele afirmava ter feito sempre que lhe dava
vontade. Ele relatou cada detalhe medonho, tentando intimidar Moishe, mas este
tinha uma alma alegre. Ele fazia de conta que o capitão estava brincando, e ria até
as lágrimas.
Dessa forma, eles se davam maravilhosamente bem.
Enquanto o capitão pudesse rir com ele, Moishe achava que estava seguro.
Relativamente.
Todos os dias, na hora do almoço, Moishe tirava a pedra de seu esconderijo para
admirar seu brilho interno. Ele ficava sentado, fascinado por ela. Ele não pensava
tanto sobre a quantia que conseguiria com a pedra; ele estava mais interessado em
sua beleza intrínseca. Era uma pedra magnífica e, com o passar do tempo,
começou a amá-la.
Quando faltavam duas semanas para desembarcar na Holanda, uma coisa horrível
aconteceu. Moishe adormeceu na mesa, na hora do almoço. Ele ainda dormia
quando o camareiro tirava a mesa. E ainda estava dormindo quando o camareiro
fez sua limpeza diária, jogando ao mar tudo o que tinha ficado em cima da mesa,
excetuando a xícara, o prato e os talheres.
Todos os restos de comida, migalhas de pão e, naquele dia, um pedaço de vidro,
velho e sujo, que devia estar rolando no porão do navio — tudo foi jogado ao mar,
de uma só vez.
Quando Moishe acordou, seu estômago logo deu um nó.
A pedra não estava mais lá. E ele sabia que tinha desaparecido para sempre.
E se o capitão descobrisse que Moishe não poderia pagar sua passagem, ele
também desapareceria para sempre.
Apesar disso, quando o capitão apareceu à tarde, Moishe estava jovial como
sempre. Eles falaram bobagens e riram como em qualquer outro dia.
Moishe nunca havia falado da pedra com o capitão, com medo de que ele quisesse
roubá-la.
Agora que ela estava perdida, Moishe tinha ainda mais razões para não contar
nada.
Nas duas semanas seguintes, os dois estavam sempre juntos, todos os dias,
brincando como velhos amigos.
No dia antes da chegada, o capitão chegou perto de Moishe e lhe pediu um favor.
Ele disse que sua reputação não era das melhores naquele lugar.
Então, o capitão perguntou a Moishe se ele aceitaria colocar toda a carga do navio
em seu nome. Isto diminuiria as suspeitas dos funcionários da alfândega.
Se Moishe fizesse isso, o capitão lhe pagaria muito bem.
Claro está que Moishe concordou. O que ele tinha a perder?
Até mesmo ser a-panhado por fazer contrabando era melhor do que ser jogado ao
mar. Então, os contratos foram pré-datados e assinados.
No papel, Moishe era dono de toda a carga, que valia muito dinheiro.
Naquela noite, houve um vento estranho. Sacudiu o madeiramento e uivava de um
jeito que penetrava até a medula.
Os marinheiros diziam que este vento era como um grito que vinha de um mundo
que está além do nosso.
Na manhã seguinte, o capitão não apareceu no convés.
De fato, quando foram procurá-lo, os marinheiros descobriram que o capitão tinha
morrido durante a noite.
Assim que o navio atracou, Moishe se tornou instantaneamente um homem rico.
Pagou a cada marinheiro com o triplo do salário e ainda continuou extremamente
rico.
Todo mundo ficou feliz.
Quando Moishe voltou para casa, seus vizinhos viram que ele estava mais feliz do
que nunca. Além do mais, como ele distribuía dinheiro em grande quantidade, sua
alegria tornou-se contagiosa.
Na verdade, daquela época em diante, todos os que conheciam Moishe sorriam
sempre que seu nome era mencionado.
Até mesmo nos dias de hoje, quando as pessoas ouvem a história de Moishe
Simcha, às vezes parecem sorrir, sem razão aparente, assim como você está
fazendo agora.

Reb Nachman ensinou que a alegria e o riso de Moishe mudaram o mundo à sua
volta.
Na realidade, a sobrevivência de Moishe dependia de seu semblante alegre.
Ele era, na verdade, um mensageiro da alegria.
A pedra que ele tinha achado era só um meio para colocá-lo a bordo do navio_
Nunca sabemos o que vai acontecer.
Tudo o que podemos fazer é conservar nossa alegria para o que der e vier.

O movimento hassídico foi estabelecido com a premissa de "servir a Deus com


alegria".
De fato, os primeiros hassidim ficavam tão extasiados durante suas orações que
eram ridicularizados por seus opositores, devido às suas danças febris e aos seus
movimentos acrobáticos.
Porém, este relacionamento alegre com Deus não podia ser reprimido, e o
hassidismo se espalhou pela Europa.
Entusiasmo e alegria são sentimentos contagiosos.
Nós nos sentimos bem, nossas tensões se dissipam, nossas mentes críticas são
acalmadas e ganhamos um novo senso de equilíbrio.
A maioria de nós vivencia a alegria espontaneamente, e assume que ela surge por
si só. Mas a alegria pode ser convidada a entrar, como se fosse uma visita, e pode
ser cultivada para que fique conosco por um longo período.

Praticando a Alegria
Reb Nachman disse que a alegria é o caminho para o nosso verdadeiro destino.
Sem dúvida, alegria e entusiasmo são, de várias maneiras, aspectos importantes
do caminho espiritual.
O aspecto maravilhoso dessa prática é que nos sentimos nutridos e geralmente isso
nos ajuda a ver as coisas sob uma perspectiva diferente.
Aqui estão dez exercícios para comover o coração e encher a alma de alegria; eles
podem transformar seu dia.
1. Música: Se você ainda não tem, compre um minigravador e fones de ouvido
confortáveis.
Procure músicas que toquem a sua alma. Ouça estas músicas repetidas vezes,
enquanto estiver ocupado com atividades rotineiras. Toque bastante: elas estarão
em sua mente até mesmo quando o aparelho estiver desligado.
Cante também! No chuveiro, no carro, espontaneamente, sempre que você quiser.
2. Dança: Escolha um lugar em sua casa onde você não seja interrompido ou
observado. Mexa na mobília para arrumar um espaço livre para dançar. Toque
melodias que você gosta muito e movimente seu corpo, do jeito que você quiser,
por uns 20 minutos. Esta dança é só para você. Se com isso você não se sentir
maravilhosamente bem, escolha outras músicas da próxima vez.
3. Natureza: Comprometa-se a passar pelo menos um dia na semana, por duas
horas, num lugar ao ar livre, que tenha a menor quantidade possível de gente.
Vá à praia ou para as montanhas, floresta, deserto, enfim qualquer lugar que tenha
belezas naturais.
Enquanto você estiver lá, procure não pensar a seu respeito.
De preferência, aja como se você fosse seu próprio guia de turismo que ama a
natureza, e diz o tempo todo coisas como: "Olhe para aquela formiga"; "Ouça o
vento"; "Sinta o perfume desta flor"; "Toque o tronco daquela árvore"; "Veja como
o Sol cintila na água"; "Fique muito quieto e ouça".
Procure não pensar sobre a sua vida durante essas duas horas. Você pode levar um
bloco de anotações e, quando se distrair e surgir um pensamento, é só anotar suas
preocupações, a fim de cuidar delas ao final das duas horas.
4. Seletividade: Escolhemos nossa comida com cuidado. Sabemos o que nos faz
mal, e geralmente tentamos evitar esses alimentos. Deveríamos fazer isso também
com o que escolhemos para alimentar nossas mentes.
Durante um mês, procure ser seletivo na escolha dos programas que você
freqüenta, com a qualidade das músicas que você ouve no rádio, com as revistas
que você lê e com os filmes a que você assiste. Você pode optar por assistir a
menos programas excitantes, que, muitas vezes, incluem cenas de violência, raiva
e confusão generalizada.
Esse tipo de conteúdo pode até nos entreter, mas não nos trará alegria.
Na verdade, produz um efeito contrário.
Procure agir assim por um mês, escolhendo uma das opções a seguir.
5. Livros: Consiga um momento a sós consigo mesmo e vá até uma livraria ou
biblioteca, e folheie livros ao acaso. Deixe-se levar por seus caprichos.
Encontre um local para sentar e leia partes de um livro ou de uma revista que
tenha atraído sua atenção. A idéia é descobrir novas áreas de interesse ou
simplesmente ter um entretenimento leve, sem qualquer objetivo em mente.
6. Lazer: Arrume uma hora livre e vá a um parque ou a uma praça.
Suba no balanço. Deite-se na grama. Abrace uma árvore. Converse com uma
criança que você não conhece. Procure ficar na companhia de sua criança interna,
sem pensar em assuntos adultos. Como no item 3, veja se você pode passar uma
hora sem pensar em si mesmo.
7. Museu: Passe uma manhã ou uma tarde visitando um museu, sem compromisso.
Reflita sobre o trabalho dos artistas. Solte sua fantasia. De novo, procure não
pensar sobre seu passado ou futuro durante essa hora.
8. Sonhos: Pegue folhetos de viagens, procure obter vídeos sobre a natureza ou
sobre terras distantes, e fique imaginando viagens pelo mundo afora. Escolha um
lugar para onde você realmente gostaria de ir. Pesquise e estude em livros e
revistas tudo o que você encontrar sobre este lugar. Planeje a viagem, mesmo que
seja para daqui a muitos anos.
9. Fique de molho: Encha a banheira com água quente. Tome um banho de
espuma, se você quiser. Fique no banho por pelo menos meia hora, tentando
deixar a mente bem livre. Se você começar a pensar em seus problemas, trate de
imaginar coisas maravilhosas, e flutue.
10. Agradecimentos: Diga palavras de agradecimento a Deus. Reflita sobre suas
qualidades físicas: visão, audição, as habilidades para falar, ficar em pé, andar,
tocar, sentir cheiro, sentir gosto etc. e agradeça por cada uma delas.
Reflita sobre seu lar, comida, segurança, cozinha, banheiro, e agradeça.
Para qualquer coisa que lhe venha à mente, encontre um motivo pelo qual você se
sinta agradecido. Procure adquirir o hábito do agradecimento (em vez do hábito de
estar sempre reclamando).
À noite, quando você for dormir, procure lembrar tudo de bom que aconteceu
durante o dia, e agradeça. Você pode até descobrir que a lista é tão longa que você
vai adormecer antes de terminar.

Perceba que todas as sugestões descritas acima requerem que você passe um
tempo em sua própria companhia. Certamente, existem muitas práticas de alegria
que demandam atitudes gregárias.
Tire proveito delas também. Mas esteja certo: nossa alegria, em última instância,
não depende dos outros, depende sim do nosso relacionamento individual com a
vida.
Obviamente, existem centenas de atividades que aliviam o coração e alimentam a
alma.
Como já foi dito, você não deve esperar que a alegria chegue por si mesma; você
pode convidá-la a entrar pela porta da frente neste exato momento.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 34

Parte Três - Consciência Primordial Mais Elevada - Ma’asey Merkavah


(A Obra da Carruagem)

O Caminho do Tzadik (Iluminação Judaica) – Parte 7

8. O Caminho do Desprendimento
Nos ensinamentos místicos judaicos, humildade (anavá) quer dizer
desprendimento.
A idéia de desprendimento está ligada diretamente a abrir mão das amarras da
identidade do self, que incluem nossas idéias e crenças sobre quem somos, nossas
preferências, nossos desejos e nossas expectativas e aspirações.
As práticas descritas na literatura cabalistica para atingir este estado são
bitul ha-yesh (anulação do "que existe") e meserit nefesh (entrega da alma vital).
Humildade não significa docilidade.
Moisés é descrito na Torá como o mais humilde de todos, mas ele sabia ser bem
combativo com os israelitas e, ainda mais, discutiu com Deus em várias ocasiões.
A humildade significa ser transparente, ter confiança e saber aceitar sem orgulho,
egoísmo ou ambição.
Fortalecemos nosso senso de humildade adquirindo o hábito de sempre escolher a
posição de menor importância dentro de um grupo de pessoas.
Escolhemos o assento mais duro, no final da mesa; na multidão, andamos nas
últimas fileiras; vestimos as roupas mais simples; servimo-nos das menores
porções de comida.
A idéia é diminuir nosso senso de importância, mas é relevante notar que, mesmo
aqui, também devemos aplicar a regra da moderação.
Assim, não devemos sempre buscar a posição mais subordinada. Em nossa cultura,
demonstrações aparentes do desejo de diminuir a própria importância estão
geralmente na contramão dos princípios que têm por base um forte individualismo.
A autoafirmação é muito importante nos dias de hoje; é importante sermos
ouvidos.
Por outro lado, algumas pessoas vão para o outro extremo, negando a si mesmas
qualquer gratificação, o que beira o ascetismo, o que é igualmente doentio; elas
têm orgulho do seu martírio.
Raras, na verdade, são as pessoas que atingiram o equilíbrio entre estes pólos: de
um lado, temos as que não lutam para alcançar alguma coisa, que não são
convencidas, nem se importam com status e, do outro, as que não estão cheias de
si na glorificação da abstinência, pureza e falsa modéstia.
Dessa forma, a posição na qual nos encontramos não tem tanta importância quanto
o que sentimos a esse respeito.
Embora possamos tentar anular nosso sentido de importância, seria muito mais
relevante avaliar o quanto estamos preocupados com nossa posição.
Esta preocupação reflete o quanto somos autocentrados, e é inversamente
proporcional à nossa medida de humildade.
É sabido que, se estamos numa posição na qual temos autoridade, fortuna, sucesso
ou fama, coisas que atraem bajulação e admiração, é importante nos cercarmos de
amigos e mestres que, de boa vontade, dão conselhos ou até repreensões, se
necessário, para que possamos permanecer com os pés no chão e centrados no
caminho.

Consciência de Biná: Estar Aqui e Agora


Uma das melhores formas para se desenvolver no caminho do desprendimento é
por intermédio de uma prática meditativa que nos conduz ao que é chamado na
Cabala de consciência de Biná.
Quando conseguimos dominar esta prática, ela evolui para o próximo nível, a
consciência de Chochmá, o estado meditativo mais elevado que podemos alcançar.
Chochmá e Biná estão no topo da Árvore da Vida, exceto por keter, que está mais
acima, na coroa. Mas, como keter é efêmera, pois nada pode ser dito a seu
respeito, chochmá e biná representam os aspectos da criação mais próximos da
Fonte Divina que podemos vivenciar.
Chochmá representa o elemento no qual a primeira centelha de um pensamento é
iniciada. Biná representa o elemento no qual o pensamento está realmente
formado.
Chochmá é mais "elevada" do que biná, e é mais nebulosa.
De maneira simples, podemos diferenciar a consciência de biná da consciência
comum. Não possui identidade pessoal; não tem o senso de eu/mim.
Pensar sem o senso da percepção do ego é difícil, mas, com a prática, podemos
vivenciar a qualidade não contaminada da consciência de biná.
Uma das maneiras pelas quais podemos determinar a presença do ego é
examinando nosso relacionamento com o tempo.
Sempre que os pensamentos residem no passado ou se preparam para o futuro,
podemos estar certos de que o ego está por perto.
A experiência de estar na consciência de biná é completamente sensual.
Não passamos o tempo examinando o passado nem fazendo planos para o futuro.
Só existe a experiência de cada momento, à medida que ele vai surgindo.
Neste estado mental, cada som é maravilhoso, cada impressão visual é inigualável,
cada aroma é cativante.
Assim que nos libertamos da sensação de importância, alcançamos um estado que
pode ser definido como de êxtase.
Simplesmente, é delicioso viver sem ter de lembrar quem somos.
A melhor maneira para perceber nossos próprios processos mentais é por meio de
práticas contemplativas tradicionais.
Uma técnica básica é focalizar nossa respiração.
Sente-se confortavelmente, com as costas retas, de modo que você possa ficar
quieto por 30 a 40 minutos.
Preste atenção em seu corpo, observe a sensação provocada pelos movimentos de
seu peito enquanto você respira ou em qualquer outra experiência que for surgindo
em seu corpo: pode ser uma coceira, uma dor ou outra sensação física.
Procure não pensar sobre essas coisas, apenas perceba, à medida que vão
acontecendo.
Muitas pessoas têm uma idéia equivocada de que práticas de meditação simples,
tais como esta, pertencem às tradições orientais.
No entanto, o ato de sentar-se quieto e observar a experiência vivenciada no corpo
é uma prática de meditação genérica, descrita por místicos das mais variadas
tradições, inclusive no Judaísmo.
É tão natural que as crianças fazem isso sem perceber que estão meditando.
Invariavelmente, o objetivo é soltar nosso processo mental e estar presente com o
que está acontecendo a cada momento.
Apesar de parecer simples, não é uma prática fácil.
A mente é muito ativa.
Cada vez que reconhecemos que estamos pensando, procuramos, de maneira
suave, trazer nossa atenção de volta para o corpo.
É como se nos auto impingíssemos derrotas ao ficarmos frustrados e furiosos com a
agitação de nossas mentes, já que a atividade mental raramente cessa.
A raiva vem a ser o oposto do que estamos tentando alcançar.
Nosso objetivo é perceber os pensamentos, e não ficar presos neles.
Simplesmente trazemos nossa atenção de volta para o corpo, cada vez que
percebemos que pensamentos estão nos distraindo, e focalizamos na respiração ou
em qualquer outra sensação fisica que esteja ocorrendo no momento.
De fato, o próprio ato de perceber um pensamento é um momento de consciência
primordial, o qual deve nos deixar satisfeitos com nosso sucesso, em vez de nos
deixar frustrados.
A mente é extremamente ativa.
Mais de 99% do nosso processo de pensamento faz parte da normalidade; talvez
até 99,9%.
Apesar disso, temos a possibilidade de realçar nossa consciência de biná.
Se formos capazes de observar nossas próprias mentes com bastante atenção,
poderemos reconhecer a presença do Agora na base de cada pensamento.
É a semente e, à sua volta, os pensamentos rapidamente se reúnem.
A mente, no entanto, é tão rápida que a consciência de bíná fica encoberta e logo
se converte ao modo usual de pensar.
Quando somos capazes de nos aquietar e perceber o funcionamento de nossas
mentes, começamos a vivenciar a diferença entre a sensação da consciência de
biná e todas as outras sensações que surgem no modo de pensar usual.
Os estados mentais comuns têm uma ampla gama de emoções, mas têm
geralmente um sentimento claro de envolvimento pessoal com o mundo.
Esta identificação vem com uma qualidade insidiosa de separação: eu e você, eu e
o mundo, eu e tudo o que não sou eu.
Esta sensação de separação perturba nossa relação com o mundo.
Na consciência de bíná, por outro lado, sentimo-nos atentos, inteligentes,
luminosos, expansivos, inclusivos, suaves e transparentes.
Integramo-nos com tudo o que está acontecendo à nossa volta, sentindo-nos
conectados, inteiros e relaxados. Quanto mais reconhecermos as qualidades da
consciência de bíná, maior será nossa capacidade de permanecer nela antes que o
ego a subjugue.
A experiência de uma consciência de biná ampliada é tão diferente da consciência
comum que ela é vista como um estágio mais elevado de iluminação.
Este é o primeiro objetivo de uma prática meditativa intensa.
Quando nos tomamos mais experientes em nossa prática meditativa da consciência
de biná, alcançamos o domínio maior sobre nossas reações emocionais, obtendo
para as nossas vidas uma nova sensação de calma e um sentido maior de
equanimidade.
Somos capazes de ver as coisas com mais clareza, adquirimos um senso mais
apurado e conseguimos fazer uma avaliação mais equilibrada do desenrolar dos
acontecimentos.
A consciência de biná nos permite uma experiência de lucidez contínua que
influencia nossas vidas de maneira marcante.

Consciência de Chochmá: A Experiência do Nada


O próximo nível de consciência é a consciência de chochmá, que é muito mais sutil
do que biná.
Precisamos passar muito tempo trabalhando com a consciência de biná para poder
alcançar o nível de chochmá.
É o que os antigos cabalistas chamavam de ayin, Nada.
Na verdade, como já vimos antes, o Nada é "algo" que podemos realmente
vivenciar.
Muitas pessoas confundem a experiência mental do entorpecimento, da ausência de
pensamentos ou do sono com o Nada.
Por exemplo, quando meditam, as pessoas às vezes acham que estão indo bem na
prática quando nada acontece.
Não sentem nada, não sabem nada.
Nesse caso, parece que estão dormindo sentadas. A consciência de chochmá é
completamente diferente.
É a vivência da consciência primordial.
Nenhum pensamento, em si, pertence à pessoa.
Mas tudo que está acontecendo no momento é "percebido" não com a mente
cognitiva, mas como uma informação sensorial.
Não há "ninguém" aqui para perceber, nenhuma identificação com o próprio ser,
ninguém para reagir; trata-se simplesmente de observação.
A consciência de chochmá não pertence a você ou a mim; pertence ao universo da
consciência primordial.
Quando penetramos neste universo, tornamo-nos invisíveis.
O corpo não para de funcionar — continua a respirar; até continua a pensar.
Mas nada disso é relevante quando penetramos na consciência de chochmá.
Embora possamos utilizar conscientemente técnicas de meditação para vivenciar a
consciência de biná, a consciência de chochmá só vem por intermédio da graça.
Não podemos forçá-la, mas podemos convidá-la a vir.
Fazemos este convite quando estamos plenamente atentos à nossa prática de
consciência de biná.
Quanto mais dominarmos a experiência de estarmos continuamente no momento
presente, maiores serão nossas chances de vivenciar a consciência de chochmá.
Este estado da mente é a maneira judaica de expressar um grau de iluminação.
Muitos acreditam que se trate de um pré-requisito para alcançar devekut, integrar-
se completamente com Deus, que é o objetivo de quase todas as práticas
contemplativas no Judaísmo.
Quando trabalhamos com esta prática, ela sempre nos levará à sensação de que
Deus está por perto.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 35

Parte Três - Consciência Primordial Mais Elevada - Ma’asey Merkavah


(A Obra da Carruagem)

O Caminho do Tzadik (Iluminação Judaica) – Parte 8

9. O Caminho da Reverência
A sensação de reverência surge da verdadeira compreensão da relação entre Deus-
em-processo e criar-em-processo.
O papel que cada um de nós desempenha nessa dinâmica não é estático.
O senso de responsabilidade por cada um de nossos atos, palavras e pensamentos
pode ser tão acentuado que trememos quando consideramos seu potencial.
Nos Salmos, há um versículo que diz "A reverência ao Senhor é princípio da
sabedoria".
Os sábios disseram: "Feliz é a pessoa que sempre teme”, ou seja, é a pessoa que
sempre reverencia o Divino.
A verdadeira sabedoria vem da compreensão de que o universo se equilibra em
nossas ações, ações estas que são de cada um e de todos nós.
Nossa compreensão da importância deste fato místico nos leva a uma conclusão
impressionante: cada um de nós é responsável pela maneira como o universo vai
se revelar.
A Cabala diz que, assim que dermos o devido valor ao fato de que a Presença
Divina está em toda parte, conseguiremos entender que nada é pequeno demais
para ser excluído dela.
Nenhum gesto é sem conseqüência; tudo tem um sentido — uma folha que cai, o
chilrear de um pássaro, a forma de uma nuvem.
Se isso é verdade, mal conseguimos imaginar as implicações das coisas que
fazemos. É assim que cultivamos a reverência.

A Sós com Deus


O Judaísmo moderno dá muita ênfase à participação dentro da comunidade.
De fato, muitos rabinos, assim como estudiosos judeus, acreditam que a prática
individual da espiritualidade não é considerada ética pela tradição.
Precisamos de dez pessoas para formar um minian para rezar, os dias sagrados são
celebrados coletivamente e a comunidade é uma importante rede de suporte para a
manutenção de muitas leis que dizem respeito ao Shabat e a ser kosher.
É quase impossível manter uma prática judaica observante sem uma comunidade.
Todavia, os místicos da tradição judaica sempre foram atraídos por práticas de
introspecção, contemplação e isolamento (hitbodedut).
Eles assinalam que o episódio da revelação da Torá ocorreu quando Moisés estava
sozinho na montanha por quarenta dias.
Além disso, muitos profetas como Elias e Eliseu praticavam o isolamento.
O Talmud cita Simão, filho de Raban Gamaliel, que diz: "Fui criado no meio de
sábios e não encontrei nada melhor do que o silêncio."
No Zohar, o rabino Eleazar diz: "Em razão do silêncio em que me mantive, construí
o santuário que está em cima e o santuário que está embaixo."
Os santuários acima e abaixo são os lugares onde temos uma comunhão íntima
com Deus.
Abraão Abuláfia (século XIII) disse: "Escolha uma casa isolada, onde ninguém
ouvirá sua voz. Sente-se lá no seu canto e não revele seu segredo à vivalma."
Podemos citar dezenas de exemplos de mestres judeus, bem conhecidos, que
fizeram longos retiros solitários: Isaac Lúria, o Baal Shem Tov, Chaim Vital, o
Kotzer Rebbe, José Karo e Reb Nachman, de Bratslav.
Para o cabalista, uma das diretrizes ocultas a respeito do silêncio vem da visão
profética de Ezequiel, que diz, "um vento tempestuoso vinha do Norte... no meio
dele, havia uma coisa cor-de-âmbar (chashmal) que saía do meio do fogo".
O Talmud diz que devemos dividir a palavra "chashmal" em duas partes: chash,
que quer dizer "silencioso", e mal, que significa "falar"
Este é o "silêncio que fala", que contém os mistérios da criação.
Vemos isso de novo, em uma outra passagem famosa, quando Elias, o profeta, se
retirou, solitário, por quarenta dias, e depois foi guiado a uma montanha.
Lá, um vento forte apareceu, mas a resposta não estava no vento.
Depois, ocorreu um terremoto, mas a resposta também não estava nele.
Em seguida, um fogo, mas nada havia lá.
Finalmente, "uma voz tranqüila e pequena" emergiu, revelando a Elias a verdade
oculta.
Silêncio, para o praticante contemplativo, significa silêncio interno.
Uma pessoa poderia estar de pé numa esquina movimentada na hora do rush, no
meio de uma barulheira fantástica, e estar mergulhada em um estado de total
silêncio interno. Por outro lado, uma pessoa pode estar isolada numa cabana no
meio da floresta e não ter silêncio interno algum.
Silêncio interno significa ter a habilidade de perceber o pensamento mais sutil que
pode surgir na mente.
Normalmente, temos consciência de nosso processo de pensamento.
Pensamentos são como caminhões barulhentos ecoando em nossa mente.
Eles nos capturam e nos subjugam com a sua força. Por vezes, somos capazes de
acalmar nossas mentes e, então, nossos pensamentos se tornam mais suaves.
Nós nos deitamos na praia e percorremos as areias do tempo.
Os pensamentos brotam, as imagens se sucedem e nos sentimos confortados pela
abrangência de nossa experiência de vida.
Mas tudo isso provém ainda de instrumentos isolados em uma sala de concertos
silenciosa, instrumentos ainda nítidos claramente distintos e incisivos.
Podemos ainda não estar totalmente concentrados, pois não percebemos o guincho
de um camundongo debaixo dos assentos da terceira fila do balcão.
Aquele movimento sutil de um camundongo escondido, pequeno e elusivo é o que
queremos observar.
O quanto os compartimentos internos de nossa mente devem estar calmos e
silenciosos!
Este é o silêncio interno que o místico contemplativo busca.
Aqui uma nova realidade toma forma, muito mais conectada com as dimensões da
consciência primordial mais elevada do que aquela que está disponível para nós em
nossos "barulhentos pátios de recreio mentais".
Aqui, a pequena voz tranqüila de Deus pode ser ouvida.
Hitbodedut é a forma reflexiva do verbo "boded" , que significa "isolado".
Assim, hitbodedut significa "isolar-se intencionalmente".
Uma pessoa pode se isolar fisicamente, indo para um lugar onde terá certeza de
estar sozinha, ou pode retirar-se para o centro do seu ser, mesmo estando no meio
de uma sala com muitas pessoas.
Nada disso é fácil de fazer neste nosso mundo tão agitado.
Os hassids (estudantes) de Bratslav, seguidores de Reb Nachman, praticam
hitbodedut de forma ativa, como um aspecto predominante de seus exercícios
espirituais. Geralmente, vão para um bosque, no meio da noite, onde se separam,
de modo que cada um deles fica sozinho na escuridão.
Então, eles falam com Deus, diretamente, em sua própria linguagem.
Dizem qualquer coisa que lhes venha à mente, qualquer coisa.
Certa vez, fui exercitar esta prática com um grupo pequeno.
Assim que nos separamos, e eu me vi sozinho, fiquei muito amedrontado.
Um bosque, no meio da noite, é um lugar que me dá medo. Estou sempre
imaginando a presença de ursos. Cada sombra é uma criatura com garras e dentes
afiados, cada barulhinho é uma cobra rastejando.
Eu estava parado quieto, tremendo de medo, aterrorizado. Foi então que ouvi, à
distância, um de meus conterrâneos falando alto, numa voz soluçante: "Deus, onde
Você está? O que é Você? Por que Você está demorando tanto? Por que não posso
sentir Sua presença? Nem sei com quem estou falando. Por que Você torna isso tão
terrivelmente dificil?"
E então ele começou a chorar convulsivamente.
De alguma forma, fiquei mais calmo com aquele apelo triste. Tive vontade de
chorar. E chorei. Chorei muito. E então comecei a fazer meu próprio apelo.
Não com uma voz tão alta quanto a de meu amigo, pois ficaria envergonhado.
Além disso, Deus — se é que existe tal forma — é capaz de ouvir o que estou
sussurrando, até mesmo o que está em minha mente.
Mas tínhamos sido orientados a articular as palavras.
Não podíamos simplesmente pensar; tínhamos de falar.
A fala era uma parte importante da experiência. Dizer as palavras em voz alta, ou
até mesmo num sussurro, acrescenta uma qualidade emocional e uma coerência
que os pensamentos nunca podem atingir.
Disse: "Preciso de ajuda para fazer isso. Não sei o que estou fazendo aqui. Estou
com medo. Preciso de ajuda." E repeti "Preciso de ajuda" como se fosse um
mantra, por algum tempo. Fiquei mais calmo. Recomecei a falar: "Preciso de ajuda,
preciso de ajuda" e fiquei repetindo isso por meia hora, talvez até mais.
Finalmente, caí em lágrimas e percebi que estava dizendo "Muito obrigado, muito
obrigado" para ninguém e por nenhum motivo aparente.
Com quem eu estava falando? O que estava acontecendo? Não tinha a menor idéia,
mas, por alguma razão, eu estava me sentindo melhor.
Meu medo havia sumido. O bosque tornou-se acolhedor.
Já não parecia perigoso porque, por alguma razão, eu não me sentia mais sozinho.

A Aspiração de Fundir-se com Deus


Há alguns anos, liderei um workshop na Fundação Lama, nas montanhas do
deserto do Novo México, perto de Taos.
Era um retiro eclético, com quatro professores: um budista, um sufi, um cristão e
um judeu.
Na época, achei engraçado que três dos quatro professores tivessem nascido em
famílias judaicas. E a metade dos participantes também era de judeus.
Isto é comum em palestras sobre espiritualidade, mesmo nos dias de hoje.
Durante as manhãs, conduzi práticas contemplativas judaicas, que sempre incluíam
entoar a oração principal: Shemá Israel, Adonai Elohenu, Adonai Ehad (Escuta
Israel, o Senhor é Nosso Deus, o Senhor é Um).
Explico o significado da oração da seguinte maneira: Ouça com atenção (Shemá)
aquela parte dentro de nós que aspira a ir diretamente para Deus (Israel — Iashar
El), a fonte das fontes, transcendente e incognoscível (Adonai) e o Deus com O
qual somos capazes de nos relacionar em Sua imanência, em tudo o que
vivenciamos ao nosso redor (Elohenu), tanto o transcendente (Adonai) quanto o
imanente, na realidade são um paradoxo, pois são um e o mesmo (Ehad).

O retiro foi de um mês e, perto do final, o grupo todo resolveu fazer uma
caminhada no monte Lama até um platô mais elevado.
A trilha é longa, cheia de curvas e bastante íngreme.
À noite, ela é dificil de seguir, mesmo com boas lanternas.
Uma das mulheres, que tinha estado em meu grupo de orações da manhã, era de
fé cristã e estava interessada no misticismo da tradição judaica.
Num dado momento, por volta da meia-noite, ela resolveu descer do platô, sozinha
e sem lanterna. Ela logo se perdeu. Mas havia um outro problema — um problema
muito sério. Ela sofria de um processo alérgico que aparecia sempre que ficava
nervosa. Ela ficava ruborizada e manchas bem vermelhas brotavam em seu corpo
todo. Se ela ficasse realmente assustada, uma urticária iria se manifestar tanto
externa como internamente. Seu esôfago poderia se fechar e ela iria sufocar.
Perdida no monte Lama, esta mulher teve um sério ataque de pânico.
Ela ficou com falta de ar, seu corpo ficou como se tivesse parado de funcionar.
Ela não podia subir nem descer, e não podia ficar onde estava.
A morte rondava por perto.
Então, sem qualquer razão aparente, ela começou a entoar o Shemá.
Ela me contou depois que brotou de dentro dela, e que sabia que era sua única
chance de sobrevivência. Ela entoou as palavras do Shemá repetidamente, e suas
vias respiratórias se abriram, quando recomeçou a respirar normalmente.
Assim que o pânico se dissipou, ela percebeu que podia ver a trilha, quase como se
fosse fosforescente.
Ela simplesmente desceu, calma e feliz, entoando o Shemá pelo caminho.
As palavras do Shemá são maravilhosas, especialmente quando compreendidas em
seu contexto místico.
Elas nos conectam, tanto judeus como não-judeus, com uma essência interna
comum a todos, que anseia ser "uma" com a fonte da criação.
Em seu canto, ela se fundiu com a parte de si mesma que desejava estar com
Deus.
Quando ela se tornou capaz de falar diretamente com o Desconhecido, sua
realidade se transformou.
Os místicos diriam que era Deus chamando por Ele mesmo por meio dela.

Praticando a Reverência: Parte 1


1. Encontre um lugar em sua casa, onde você possa ficar sozinho, e onde ninguém
o perturbe por meia hora.
2. Leve com você um livro de bom conteúdo que, ao ser aberto em qualquer
página, seja possível encontrar algo significativo, em poucas linhas.
Muitos livros são bons para esta finalidade: os Salmos, a Bíblia, poesias,
autobiografias espirituais, guias de meditação, livros sobre pessoas virtuosas, livros
de oração etc.
3. Passe os primeiros 10 minutos "aquecendo" seu coração, sentado bem quieto,
com os olhos fechados, quem sabe cantarolando uma melodia suave.
4. Passe os próximos 10 minutos imaginando que você é capaz de se comunicar
com Deus, seja lá o que isso signifique para você. Fale o que quer que esteja em
sua mente. Não importa o assunto. Simplesmente continue a falar sem parar por
10 minutos. Se você se sentir desconfortável em fazer isso, fale sobre o que você
está sentindo. Se você se sentir confuso, fale sobre isso. Fale sobre qualquer coisa:
raiva, frustração, amor, qualquer coisa.
5. Durante os últimos 10 minutos, abra o livro que você está segurando, em
qualquer página, de forma aleatória. Leia algumas linhas, não mais do que um
parágrafo, e depois feche o livro. Continue sentado e quieto.
6. Pratique este exercício uma vez por semana, por pelo menos dez semanas.
Após cada sessão de meia hora, escreva imediatamente sua experiência em seu
diário. Quando chegar ao final das dez sessões, leia de novo o diário todo.
Se você não sentiu uma conexão especial pelo menos uma vez, esta prática não
atingiu seu objetivo dessa vez. Se você sentiu alguma coisa, uma ou várias vezes,
continue com esta prática até sentir que está ganhando intimidade com sua voz
interna. Daí em diante, você pode continuar esta prática de maneira aleatória,
porque agora você vai ter um pronto acesso à sua voz interna.

Praticando a Reverência: Parte 2


1. Programe um mínimo de três dias para um retiro individual. Poderia até ser mais
longo, mas três dias são suficientes para começar esta prática. (Se há crianças em
casa, você vai ter de conseguir alguém que tome conta delas, ou arrumar um
espaço separado para você dentro de casa.)
2. Tanto faz se você mora sozinho ou com outra pessoa, o importante é determinar
um espaço "sagrado" onde você não poderá ser perturbado durante o tempo que
durar seu retiro.
3. Durma e coma em seu espaço sagrado. Desligue o telefone; não atenda à porta;
não cheque recados em sua secretária eletrônica. Em outras palavras, respeite
realmente este tempo que você está se dando — à sua alma — durante esse retiro.
4. Durante o retiro, minimize seu lado "fazer" e maximize seu lado "ser".
Atividades recomendadas incluem prestar atenção à sua respiração, contemplar,
cantar, praticar hatha ioga, rezar, perceber seus pensamentos, fitar a chama de
uma vela, comer coisas leves, não fazer absolutamente nada ou qualquer outro
empreendimento (ou não-empreendimento) que possa marcar sua presença.
Atividades não-recomendadas são: leituras corriqueiras, escrever textos longos,
assistir à televisão, ouvir rádio, ouvir música, estudar, usar o computador, ingerir
alimentos pesados, praticar algum esporte, enfim qualquer outra atividade que
implique distrair-se.
5. A intenção deste exercício não é simplesmente passar o tempo, mas
percebermos o que acontece com nossas mentes quando não há nada para nos
distrair.
Após um período inicial de tédio, ansiedade, desconforto e frustração, nos elevamos
a um outro nível. Esta prática é um desafio.
6. Mantenha um diário bem simples, limitando-se a escrever durante um período
curto, num horário prefixado.

Praticando a Reverência: Parte 3


1. Toda vez que você estiver sentindo-se bem ou grato por alguma coisa, na
primeira oportunidade que tiver, faça, em voz baixa, uma declaração pessoal de
agradecimento ao universo.
2. Toda vez que você estiver sentindo-se alienado, negativo, zangado, triste,
amargurado, frustrado, desiludido ou, de maneira geral, mal-humorado, sempre
peça auxílio.
Na primeira oportunidade, sussurre para o universo algo como: "Estou me sentindo
muito triste e preciso de ajuda para poder sentir-me melhor. Por favor, ajude-me."
3. Toda vez que você achar que falta alguma coisa em sua vida — você precisa de
mais tempo, mais dinheiro, mais roupas, mais apoio —, na primeira oportunidade
sussurre algo como: "Preciso de mais dinheiro, por isso estou pedindo ajuda — ou
para ter mais dinheiro, ou para me conformar com o que tenho."
Quando você faz isso, o objetivo não é preencher o que falta, mas sim sentir-se
bem com o que é.
4. Toda vez que você sentir vontade de falar espontaneamente com o universo,
seja qual for a razão, procure uma oportunidade para fazer isso.
Obviamente, a intenção é desenvolver um relacionamento. Ocasionalmente, todos
nós temos a sensação de estar, de alguma forma, sozinhos.
O objetivo desta prática é preencher esta sensação de solidão oferecendo uma
companhia para a alma.
Isto pode nos fortalecer no sentido de nos capacitar a lidar com os problemas em
curso.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 36

Parte Três - Consciência Primordial Mais Elevada - Ma’asey Merkavah


(A Obra da Carruagem)

O Caminho do Tzadik (Iluminação Judaica) – Parte 9

10. O Caminho da Equanimidade


Uma história de sabedoria judaica relata o caso de um aluno bem adiantado no
estudo do misticismo da tradição judaica que viajou para uma instituição secreta
que abrigava os seres mais iluminados da época.
Este estudante queria desesperadamente ser admitido na instituição, a fim de
crescer em sabedoria.
Porém, ele tinha de fazer uma prova para ser aceito por estas pessoas eruditas,
que eram chamadas Mestres da Concentração.
Um dos anciãos disse ao jovem: "Meu filho, você está no caminho certo, e seu
objetivo é admirável. No entanto, para entrar em nossa comunidade, você precisa
ter alcançado um certo nível de equanimidade (hishtavut). Você pode afirmar para
nós que alcançou a equanimidade?"
O rapaz, que não esperava uma pergunta daquela, pediu ao ancião: "Mestre, por
favor, explique o que o senhor quer dizer com equanimidade."
O velho disse: "Meu filho, se você conhece uma pessoa que lhe dá o devido
respeito e o elogia e outra que lhe despreza e insulta, estas pessoas são iguais para
você?"
O jovem ficou quieto por um tempo, examinando cuidadosamente seus
sentimentos. E então respondeu: "Mestre, certamente fico contente e satisfeito com
a pessoa que me respeita e fico triste com a pessoa que me insulta. No entanto,
posso dizer, com toda a honestidade, que não tenho nenhuma vontade de me
vingar, nem guardo rancor. Portanto, creio que alcancei a equanimidade."
O ancião balançou a cabeça. "Não, meu filho, em nossa opinião, você não adquiriu
equanimidade. O fato de sua alma vivenciar a dor de um insulto significa que você
não será capaz de ligar inteiramente seus pensamentos a Deus. Nosso nível de
concentração requer que você não vacile, nem por um momento. Portanto, vá em
paz até que você se torne verdadeiramente equânime, de forma tal que seja capaz
de se concentrar."

As condições para a entrada nesta academia mística parecem ser bastante


rigorosas.
Será que não basta sermos capazes de superar nossos pensamentos
perturbadores?
Será que podemos realmente atingir um estado mental no qual estes pensamentos
nem cheguem a brotar?
Os sábios da tradição judaica dizem que sim, assim como também os mestres mais
importantes da maioria das tradições espirituais.
O estado mental que precisamos alcançar é chamado ayin, o Nada.
É necessário sermos nada aos nossos próprios olhos e, por conseguinte, não
reativos.
Como vimos há pouco, podemos atingir o nível de ayin por meio da prática
contemplativa de bitul ha-yesh, o caminho do desprendimento.
Assim, o desprendimento é uma precondição para a equanimidade.
No estado de ayin, descobrimos uma relação inteiramente diferente com questões
tais como: Quem sou eu? O que sou eu? Onde estou? Sou um nome? Sou alguém
integrado à minha família? Sou alguém identificado por endereço, carteira de
identidade, CPF ou telefone de contato?
Pela perspectiva do desprendimento, percebemos que, apesar de sermos
identificados e associados a símbolos objetivos, nossas almas essenciais são bem
diferentes; elas transcendem nomes, números, medidas ou qualquer outra forma
usual de identificação.
Quem sou eu? Não sou ninguém.
Não existe um "eu". Só existe aquilo que torna possível que se faça a pergunta.
Quem está perguntando?
Deus-em-processo está perguntando por meio deste corpo, desta mente.
Quem está pensando?
Quem está lendo estas palavras?
Como uma criança que sem parar pergunta "por quê?", nós utilizamos esta prática
para sobrepor nossas perguntas em relação a "quem" às possíveis respostas.
E, da mesma forma que chegamos a uma conclusão enigmática quando estamos
lidando com a criança que pergunta, e dizemos por fim, "Só Deus sabe por quê!",
também ficamos perturbados com nossas perguntas sobre "quem", pois elas nunca
têm solução.
No entanto, elas conduzem ao insight, e este insight é a chave para um estado
mental avançado, que, por sua vez, conduz ao desprendimento.
Não se trata de auto-aniquilação — não cessamos de existir quando agimos assim.
Pelo contrário, é a percepção da natureza sempre presente da consciência divina.
Quando um praticante judeu consegue alcançar um nível de percepção no qual
entra na dimensão do desprendimento, isto o leva à realização de que a presença
de Deus está em toda parte, inclusive em sua própria consciência.
No século XVIII, o Magid de Koznitz, o rabino Israel Haupstein, disse: "Há duas
classes de lideres espirituais. Um é aquele grande líder que está constantemente
fazendo o que é a vontade de Deus, mas que entende que quem está atuando é ele
mesmo. Esta pessoa não tem o poder de trazer tudo de volta para as suas raízes
(isto é, redimir todas as centelhas sagradas) ou fazer com que os outros entendam
que tudo provém da vontade de Deus. O motivo para isso reside no fato de que
este líder espiritual não entende bem que sua própria devoção vem, em última
instância, de Deus [porque eles têm um senso muito acentuado de si mesmos]."
"Na outra classe de líderes espirituais, temos os que acham que não são nada aos
seus próprios olhos (são desprendidos). Eles entendem que o poder de Deus é tudo
e que sem ele absolutamente nada existe. Estes líderes podem trazer todos os
atributos e pensamentos de volta às suas origens. Este líder espiritual pode
aparentar ser destituído de ego (ser desprendido), mas a luz e toda santa influência
irradiam-se para o mundo."
Aqui está contido o segredo místico: as centelhas sagradas são elevadas sempre
que percebemos por inteiro que não somos nada; somos apenas veículos para a
expressão da Vontade Divina.
Paradoxalmente, este mesmo veículo tem seu próprio livre-arbítrio.
Quando os portadores (você e eu) deste livre-arbítrio acreditam que somos
identidades separadas, ficamos limitados e nos soltamos da fonte da vida, portanto
as centelhas não podem retornar à sua origem.
Quando entendemos que uma força central nos deu poder, então nosso livre-
arbítrio é utilizado em proveito dessa força central e as centelhas sagradas
retornam à sua origem.
Como disse o rabino Isaac de Berdichev: "A cada instante, todos os universos
recebem sua existência e seu sustento de Deus. No entanto, são os seres humanos
que motivam este sustento e o levam a todos os mundos. Quando uma pessoa
anula completamente o senso do 'eu' e, por meio disso, liga seu Pensamento ao
Nada, um novo sustento flui para todos os universos. Este é um sustento espiritual
que não existia antes. A pessoa deve estar tão temente a Deus que o ego é
totalmente anulado. Só então este sustento fluirá para todos os universos, repleto
de tudo o que é bom."
A fusão de nosso livre-arbítrio com a Vontade do Divino faz com que um novo
"sustento" flua no universo.
Isto significa que tal combinação eleva centelhas e produz um novo nível de
consciência em todos os universos dessa criação.
Este é o produto obtido pela ligação do Pensamento, a mente, ao Nada, o centro da
criação.
Assim praticamos o caminho da equanimidade, que implica alcançar o estado
mental do desprendimento, atingindo muito mais do que nossa iluminação pessoal.
É considerado o caminho da verdadeira sabedoria, e é o processo pelo qual uma
nova consciência é elevada por meio dos universos.

Praticando Equanimidade: Parte 1


1. Sente-se quieto, permita-se refletir tentando se lembrar de quantas vezes, no
último ano, você sentiu raiva, e por que motivo isso aconteceu.
2. Agora, procure recordar quantas vezes você sentiu raiva durante toda a sua
vida. De quantos detalhes você pode lembrar?
3. Você vai notar que, por mais que tente, só será capaz de lembrar uma
quantidade relativamente pequena de situações; e, assim mesmo, muitos detalhes
terão desaparecido.
Repare que mais de 90% (pode até chegar a 99%) dos momentos de raiva foram
completamente esquecidos. Reflita sobre isso por alguns minutos.
4. Agora, procure lembrar todos os momentos de muita alegria que você teve em
sua vida. Tente lembrar de todos os detalhes, da melhor forma possível.
5. Naturalmente, você terá reparado que mais de 90% das experiências alegres
estão também completamente esquecidas. É verdade que, ocasionalmente, algo vai
acontecer em nossas vidas que nos fará lembrar um momento em que ficamos com
raiva, tristes ou alegres, mas a intenção deste exercício é nos darmos conta de que
estas experiências com forte carga emocional duram pouco e, na maioria das
vezes, são logo esquecidas.
Novamente, reflita sobre isso por alguns minutos.
6. Isto é tudo que temos para praticar. Quanto mais refletimos sobre a natureza
efêmera de nossas emoções, percebemos com mais clareza que, na próxima vez
que formos pegos respondendo a uma situação de modo emocional, esta
certamente passará e será esquecida, mesmo que não tenha sido este o nosso
sentimento no momento que aconteceu.

Praticando Equanimidade: Parte 2


1. Sente-se quieto, permita-se refletir tentando se lembrar de um acontecimento
recente no qual você tenha tido um forte envolvimento emocional.
2. Imagine-se observando este evento a partir do nível da alma. Assuma que você
pode ver claramente as implicações cósmicas do evento e pode avaliar o que
aconteceu sob o ponto de vista universal.
Note que a alma tem um ponto de vista altamente objetivo.
3. Busque outro evento memorável e reflita a respeito dele sob a perspectiva da
alma, contemplando todas as variáveis que tiveram de ser reunidas para que este
evento pudesse ocorrer.
Pense como ele vai afetar tanto o futuro próximo como o futuro distante.
4. Repita o passo 3 para o maior número de eventos com carga emocional que você
possa lembrar, não importa se negativos e desagradáveis ou positivos e alegres.
A cada repetição, você perceberá que uma visão ampliada dos fatos repercute na
intensidade das emoções.
5. À medida que você fortalece seu observador interno, deve utilizar este processo
para todos os eventos de sua vida. Faça este exercício regularmente, talvez uma
vez por semana, refletindo sobre seus relacionamentos sob a perspectiva de sua
alma. Com o tempo, esta prática criará um reservatório de compreensão que o
ajudará a modificar o fluxo de sua vida.
Uma perturbação numa poça de água rasa causa uma grande turbulência; a mesma
perturbação num reservatório de água profundo provoca apenas pequenas
ondulações.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 37

Parte Três - Consciência Primordial Mais Elevada - Ma’asey Merkavah


(A Obra da Carruagem)

O Caminho do Tzadik (Iluminação Judaica) – Parte 10

11. O Caminho dos Estados Mentais Extraordinários


Os místicos da tradição judaica muitas vezes empreendem viagens com suas almas
para outras dimensões. De algum modo, isto é um treinamento para a morte.
Quanto mais vivenciamos estas "excursões", passamos a nos sentir melhor em
relação ao que irá acontecer após a morte.
Em muitas tradições, é ensinado que a parte de nós que se julga autossuficiente
deve morrer para nos permitir o ingresso nos estados de consciência primordial
mais elevada.
No misticismo da tradição judaica, consciência primordial mais elevada sempre
esteve conectada com o estado mental de profecia.
Isto é chamado de ruach ha-kadesh, o espírito sagrado, a fonte da profecia, que é
a origem da inspiração divina.
Apesar do pouco que se sabe sobre as práticas dos antigos profetas, existem
muitas descrições, no misticismo judaico, de várias técnicas para desenvolver ruach
ha-kadesh.
Entre elas, podemos citar o ato de rezar por um tempo longo, fazer um retiro
solitário, praticar continuamente atos de bondade amorosa, absorver-se na
contemplação do Divino, repetir os nomes sagrados de Deus e outras.
Uma vez que alcançarmos este estado mais elevado de consciência primordial,
estaremos prontos para o objetivo final de devekut, que é a fusão com o Divino.
Obviamente, tal prática contemplativa, nesse estágio avançado, requer uma
disciplina considerável no dia-a-dia.
Por mais de mil anos, os cabalistas têm utilizado a visualização a fim de alcançar as
dimensões mais elevadas.
A teoria mística de "O que ocorre acima repercute embaixo" se baseia no ponto de
vista holístico de que tudo está conectado.
Enquanto, em muitas tradições, os praticantes esperam por visões de outras
realidades, os cabalistas usam ativamente a imaginação para adentrar estas
dimensões.
Partem do princípio de que, se algo pode ser imaginado, é como se estivesse sendo
realizado.

A visualização a seguir pode apresentar dificuldades para alguns leitores.


Pode ser realizada em estágios ou de uma só vez.
De qualquer maneira, deve ser repetida por pelo menos uma seis vezes, ou até que
as imagens estejam claramente implantadas.
Esta meditação pode ser feita sem o auxílio de ninguém, mas ela é mais eficaz
quando uma pessoa lê para a outra.
Se estiver só, seria bom o meditador gravar a visualização e, em seguida, ouvir a
fita, ligando e desligando o gravador, a fim de ter mais flexibilidade.
O meditador deve sempre ajustar a visualização ao seu ritmo, mesmo quando
estiver sendo guiado.
Sempre que você terminar a visualização, rapidamente reverta a ordem dos
estágios e volte para o início do passo 1.
Esta visualização sempre deve começar e terminar com as instruções iniciais:
observar sua respiração e os movimentos de seu corpo.
Isto é muito importante.
Enquanto você estiver fazendo esta visualização, assegure-se de não ser
perturbado.
Ponha um aviso na porta. Tire o telefone do gancho.
Nunca deixe uma pessoa sozinha no meio de uma visualização, nem pressione
alguém para ir além do ponto que você deseja atingir.
Quando estiver guiando uma pessoa inexperiente no trabalho de visualização. você
deve ler a seguinte recomendação:
Quando estivermos fazendo visualizações, não devemos ter expectativas quanto ao
que vai acontecer.
Algumas pessoas veem imagens como se houvesse uma tela de vídeo dentro de
suas cabeças; outras têm sensações sonoras muito fortes; outras, ainda, veem
imagens vagas, sombras, impressões mal definidas; e há ainda aqueles que
"visualizam" simplesmente pensando.
Não existe maneira certa de fazer isso, contanto que você consiga se manter no
processo.

Meditação do Trono de Deus

Estágio Um: A Gruta de Machpelá


1a - "Feche seus olhos e respire profundamente. Relaxe e observe a sensação
provocada pelo movimento de seu peito enquanto você respira."
(Leitor: espere um minuto.)
"Agora, imagine-se em um campo em que, de um lado, existe uma grande
quantidade de pedras; você pode ver que, no meio dessas pedras, há uma abertura
que leva a uma caverna. Um guarda está parado na entrada da caverna.
Você vai se aproximar do guarda, e ele vai lhe fazer uma pergunta, vai lhe pedir
uma senha, ou qualquer outra coisa que você precise fazer para poder entrar.
Diga-me se você é capaz de entrar na caverna."
(Espere em silêncio. Não dê sinal de impaciência. O ato de entrar na caverna pode
levar menos de um minuto ou demorar um tempo significativo.
Se a pessoa não consegue entrar na caverna, ou então vai embora, por qualquer
outro motivo, Pare Neste Ponto e procure fazer este exercício novamente em um
outro dia.)
1b - (Se a pessoa sinaliza que está dentro da caverna, pergunte:)
"Por favor, descreva, com o maior número de detalhes possível, o que você vê,
sente ou vivencia nessa caverna."
(Depois de ouvir uma descrição detalhada do que está na caverna, pergunte:)
"Você gostaria de continuar agora ou basta por hoje?"
(Se a pessoa quiser seguir em frente, vá para o passo 2. Se for o bastante por
hoje, diga:)
"Por favor, volte para a entrada, passe pelo guarda e você estará novamente no
campo, onde começamos. Observe a sensação provocada pelo movimento de seu
peito enquanto você respira."
(Espere 30 segundos.)
"Agora, respire profundamente, umas duas vezes, e abra os olhos."

Estágio Dois: O Jardim do Éden


2a - (Comece com o estágio 1 e depois continue:)
"Agora que você está dentro da caverna, olhe ao seu redor até que você veja um
lugar especial onde possa se sentar. Quando você o tiver encontrado, por favor,
descreva este lugar para mim."
(Espere em silêncio até que a pessoa descreva o lugar que escolheu para sentar.
Não aprove nem desaprove nada do que a pessoa disser. Se a pessoa está tendo
dificuldade em achar um lugar para sentar, você pode encorajá-la a continuar
procurando. Se ela continuar a ter dificuldade, pare neste ponto, volte ao começo e
termine a visualização.)
(Assim que encontrar o lugar para sentar:)
"Sente-se neste lugar. Ele é mágico. Imagine que você está de olhos fechados
enquanto está sentado na caverna. Você vai ser transportado a um novo lugar.
Você está do lado de fora de um vasto jardim cercado por uma grade alta que tem
um portão. Dois anjos guardam o portão.
Descreva para mim o que você está vendo e o que sente por estar ali."
(Ouça a descrição completa.)
"Agora você vai ser posto à prova pelos anjos, que vão lhe fazer uma pergunta,
pedir uma senha ou qualquer outra coisa necessária para poder entrar.
Veja o que acontece, se você consegue entrar."
(Espere em silêncio. Se a pessoa não consegue entrar no jardim ou se vai embora,
por qualquer outro motivo, pare neste ponto.
Assegure-se de que você está revertendo as visualizações corretamente, volte para
a caverna e saia para o campo.)
2b - (Se a pessoa indica que transpôs o portão, diga:)
"Você entrou no Jardim do Éden. Por favor, ande de um lado para o outro,
perambule o quanto você tiver vontade e descreva, em detalhes, tudo o que você
está vendo, sentindo ou vivenciando neste jardim"
(Depois de ouvir uma descrição detalhada do jardim, pergunte:)
"Você gostaria de continuar ou chega por hoje?"
(Se a pessoa quiser continuar, vá para o passo 3. Se não for o caso, volte para a
caverna e depois para o campo.)

Estágio Três: Os Anjos Entregam uma Roupa que Forma um Corpo


3 - (Faça tudo até o passo 2 e depois continue:)
"Agora que você está no Jardim do Éden, quatro anjos vão se aproximar de você.
Eles vão lhe trazer uma roupa que vai lhe dar um novo corpo.
Descreva para mim como estes anjos se parecem. Descreva como é que você se
parece depois de vestir esta roupa que lhe dá um corpo novo."
(Espere até que a pessoa tenha terminado a sua descrição.)
(Após ouvir a descrição do corpo novo, pergunte:)
"Você gostaria de continuar ou é o suficiente por hoje?"
(Se a pessoa tiver vontade de continuar, vá para o passo 4. Se este não for o caso,
volte para a caverna e depois para o campo.)

Estágio Quatro: Os Portões da Justiça


4 - (Faça tudo até o passo 3. Então, continue:)
"Repare que de um lado há uma coluna de luz, constituída de três cores.
Um guarda está de pé na frente dela. Você vai ser posto à prova com uma
pergunta, uma senha ou qualquer outra coisa que você deva fazer para poder
entrar na coluna de luz. Veja o que acontece. Diga-me se lhe deram permissão
para entrar na coluna de luz, mas não entre ainda."
(Espere.)
(Se a pessoa não recebeu permissão, volte para o campo pela caverna. Se a pessoa
recebeu permissão:)
"Quando você entrar na coluna de luz, ela vai transportá-lo para um lugar chamado
os Portões da Justiça. Diga-me o que você vê e o que sente quando você chegar
lá."
(Espere.)

Estágio Cinco: A Existência de Deus


5. (Faça tudo até o passo 4, depois continue:)
"Olhe à sua volta e você verá que há um lugar especial com portões que têm
guardas. Estes são os Portões da Justiça.
Você terá de responder a uma pergunta difícil, uma charada, ou terá de
empreender uma tarefa complexa, a fim de passar pelo guardião.
Isto será um desafio. Veja o que acontece e diga-me se ele o deixou passar."
(Espere.)
(Se a pessoa não conseguir passar, volte para o campo, pelo jardim e pela caverna.
Se a pessoa conseguiu permissão para passar pelo portão:)
"Quando você passar pelo guarda, será transportado para uma nova dimensão
celestial, onde vivem muitos anjos. Isso é chamado a Existência de Deus. Quando
você chegar lá, descreva sua experiência, como se sente e o que você vê."
(Espere.)
"Você gostaria de continuar?" (Se a resposta for Sim, vá para o próximo estágio,
passo 6. Se for Não, retorne na direção da caverna e para o campo, onde você
começou, terminando a meditação.)

Estágio Seis: A Dimensão Interna de Deus


6. (Faça tudo até o passo 5, e então continue:)
"Só vamos fazer mais um nível. Um anjo especial vai se aproximar de você. Este
anjo vai lhe fazer uma pergunta difícil, uma charada, um teste ou alguma tarefa
que ele quer que você faça. Isso não vai ser fácil. Veja o que vai acontecer e diga-
me se o anjo quer levá-lo para a próxima dimensão."
(Espere.)
(Se a pessoa não passar no teste, volte para o campo, via Portões da Justiça,
jardim e caverna.
Lembre-se de nunca perguntar sobre o teste ou a charada, a não ser que a pessoa
queira compartilhar isso com você. Se a pessoa passou pelo teste:)
"Este anjo vai transportá-lo agora para o lugar mais alto que existe, onde você
estará totalmente na presença do Divino. Este estágio é chamado a Dimensão
Interna de Deus. Quando você chegar lá, descreva sua experiência, como se sente
e o que vê."
(Espere o quanto puder. Quando a pessoa tiver terminado, lembre-se de voltar
para o campo, de maneira rápida e suave, passando por todos os estágios, na
direção inversa.)

Este lugar de meditação é maravilhoso e tranqüilo.


Às vezes, é dificil voltar.
Permaneça o tempo que puder, mas, em certo momento, da maneira mais suave
possível, volte.
De outra forma, o choque de voltar abruptamente pode ser bastante traumático.
Esta meditação guiada se baseia na jornada que o nível mais elevado de alma
(neshama) empreende após a morte, conforme está descrita detalhadamente no
Zohar.
De acordo com os místicos da tradição judaica, se uma alma é merecedora — bem
adiantada no processo de redenção de centelhas—, ela pode se unir a Deus.
Obviamente, essas visualizações vão muito além das fronteiras do intelecto, porém
a vivência dessa experiência tem uma importância profunda para o que se busca,
que é atingir devekut, a fusão com o Divino.
De fato, nesta descrição, a alma pode elevar-se ao nível da Dimensão Interna de
Deus — que vem a ser um estado de exaltação de união com o Divino.
Depois de a alma ter usufruído o deleite celestial deste domínio sublime, ela pode
continuar sua ascensão, de acordo com o Zohar.
No entanto, a descrição termina neste ponto, sugerindo que uma ascensão mais
elevada é inteiramente envolta em mistério.
Esta visualização é extraordinariamente poderosa.
Ela transforma nossa relação com a morte e nos ajuda a antecipar novas
oportunidades além desta vida.
Quando residimos numa consciência primordial mais elevada, ficamos mais
familiarizados com o estado mental extraordinário de ruach ha-kadesh.
A palavra "kadosh" (santo ou sagrado) é um sinônimo para Deus, como na frase
"Ha-kadosh Baruch Hu", que pode ser traduzido como "O Sagrado, Abençoado
seja".
Algumas pessoas traduzem o espírito sagrado como o "sopro de Deus".
Num versículo conhecido da Torá, Deus diz: "Vou preenchê-lo com o sopro de Deus
(ruach Elohim), com sabedoria (chochmá), compreensão (biná) e conhecimento
(daat).
Este nível — assim como o próximo — representa o auge da prática espiritual no
modelo judaico de iluminação.
Até aqui, os aspirantes à iluminação fizeram esforços conscientes para direcionar
seu próprio crescimento espiritual, mas ruach ha-kodesh e techiat ha-meitim (vida
eterna) só vêm por meio da graça.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 38

Parte Três - Consciência Primordial Mais Elevada - Ma’asey Merkavah


(A Obra da Carruagem)

O Caminho do Tzadik (Iluminação Judaica) – Parte Final

12. O Caminho da Vida Eterna (A Consciência de Deus)


O estágio final do processo de iluminação judaica poderia ser traduzido literalmente
como "reanimar os mortos".
O Judaísmo crê que a morte é uma ilusão e que a vida eterna é o destino de todos
no mundo vindouro.
A crença judaica essencial na ressurreição propõe que todos, exceto os piores seres
humanos, serão revitalizados num paradigma inteiramente novo, quando nosso
nível de consciência primordial tiver atingido um novo patamar.
O ensinamento deste estágio, que conclui o caminho do tzadik, é que não é preciso
esperar pelo futuro para alcançar o nível de consciência primordial da vida eterna.
Ele está disponível para todos nós, aqui e agora.
Veremos mais adiante que a morte pode ser enganada; pelo menos 11 pessoas
entraram nas dimensões celestiais sem morrer.
De fato, histórias sobre transições de grandes sábios, em muitas tradições,
sugerem que algumas pessoas não morrem, mas se vão conscientemente para um
outro nível de consciência primordial.
Devemos enfatizar a palavra "conscientemente".
Quando morremos, todos nós passamos a um outro nível de consciência primordial.
Porém, quase todos nós fazemos isso de maneira inconsciente.
Assim, a alma de nível inferior deve passar por uma purificação, e a grande maioria
das pessoas é reencarnada com a finalidade de elevar mais centelhas.
Ainda assim, há pessoas que fazem sua transição de modo consciente e atingem
um nível de realidade, que na Cabala é chamada tzadik.
Eles alcançaram a vida eterna.
Nós podemos realizar isso passando por muitas vidas ou, quando temos o
compromisso da prática espiritual, podemos fazer isso nesta vida.
No misticismo judaico, o nível de consciência primordial chamado tzadik é
atemporal, sem limite de espaço, e transcende a dualidade.
Nessa dimensão, não há fronteiras definidas entre o eu e o outro, pois toda criação
está interconectada e é interdependente.
Não há sujeito nem objeto, pois cada um surge simultaneamente com o outro, e
não podem existir separadamente.
Sem passado ou futuro, não há nascimento nem morte; há simplesmente um
desenrolar contínuo do momento presente.
E aqui reside a verdade definitiva da existência: Deus-em-processo e criação-em-
processo são um desenrolar contínuo, sem fim.
Cada um de nós tem um aspecto do tzadik eterno dentro de si.
Esta é a porção que mantém nosso mundo coeso, assim como o mundo ao nosso
redor.
Quanto mais aprofundarmos nossa prática espiritual, mais próximos estaremos de
nos tornarmos o tzadik mais elevado, aquele que transcende inteiramente este
mundo.
Mesmo os que estão neste nível são requisitados para ajudar a manter o universo
equilibrado, sempre que for necessário.
Embora o tzadik esteja num estado mental elevado, podemos vislumbrar esta
consciência primordial com um exercício excelente chamado "Por meio dos Olhos de
Deus".
Este exercício nos permite visualizar a realidade a partir do ponto de vista de Deus,
se assim podemos dizer.
Nessa fase do desenvolvimento espiritual, sem qualquer resquício de auto-ilusão,
vemos as coisas de maneira inteiramente nova, observando véus dentro de véus,
realidades dentro de realidades.

Por Meio dos Olhos de Deus


A compreensão essencial da consciência messiânica reside em entender a natureza
do processo como um fenômeno em andamento.
Deus é Deus-em-processo, criação é criação-em-processo, você e eu estamos no
processo, no desenrolar contínuo de uma dança com o Divino.
Esta percepção, em si mesma, é suficiente para elevar nossa consciência ao seu
potencial mais alto.
Não é uma coisa que nos espera no futuro.
É simplesmente uma questão de perceber a consciência que está em nós, neste
exato momento.
Neste exercício final, aprendemos a vivenciar o processo enquanto ele está em
andamento.
Esta prática vai alterar a consciência e, em pouco tempo, poderá transformar nossa
maneira de encarar a vida.

1. Procure um lugar onde você não será perturbado por uns 20 a 30 minutos.
Sente-se quieto, bem confortável, respirando normalmente.
2. Imagine-se numa praia vazia e protegida, num dia quente e ensolarado.
Você está sentado ou deitado na areia, totalmente relaxado.
Você pode abandonar todos os seus receios e preocupações, enquanto estiver nesta
praia.
Você está sozinho aqui e completamente em segurança.
Olhe em volta e descreva para si mesmo o que está vendo.
Observe como você está se sentindo.
3. De um lado da praia, há uma casa vazia que tem pelo menos três quartos.
Vá até a casa, mas não entre ainda. Descreva para si mesmo o aspecto dessa casa
vazia.
4. Entre pela porta da frente da casa. O primeiro aposento no qual você vai entrar
terá um espelho de piso a teto, onde você pode se ver de corpo inteiro.
Fique na frente do espelho e olhe.
Você pode se ver em todos os detalhes.
Procure perceber o máximo que puder sua aparência neste espelho.
Como é que você está se sentindo enquanto se olha no espelho?
5. Depois de alguns minutos se olhando no espelho, entre no quarto ao lado.
Ali também há um espelho. Mas este é um espelho mágico, que permite que você
tenha uma visão de Deus.
Deixe sua imaginação fluir e faça de conta que isto é uma janela para o céu.
Por essa janela, você pode ver Deus.
Permita-se passar alguns minutos imerso nesta experiência de visualizar Deus.
6. Agora, você vai entrar no terceiro quarto. Ali também há um espelho de piso a
teto. Quando você ficar na frente desse espelho, vai vivenciar uma combinação da
experiência dos dois quartos anteriores.
Olhe-se no espelho e vivencie, ao mesmo tempo, a presença do Divino.
Em outras palavras, neste espelho você vai se ver como Deus o vê.
Olhe para você através dos olhos de Deus, se assim podemos dizer, e observe
como você parece do ponto de vista do Divino.
7. Enquanto você se vê através dos olhos de Deus, perceba como é que você se
sente. Observe.
Observe o quão diferente você pode estar sentindo em relação à sua experiência
com o primeiro espelho.
8. Quando você se sentir pronto, saia da casa do mesmo jeito que entrou. Volte
para o mesmo lugar na praia, onde este exercício começou, e sente-se ou deite-se
na areia: sinta-se livre, relaxado, totalmente em paz.
Continue ali por alguns minutos.
Quando você quiser, respire profundamente algumas vezes, e abra os olhos.
S
e de alguma forma tivermos a capacidade de nos desfazer do nosso crítico interno,
perceberemos instantaneamente um novo relacionamento com a vida.
Aos olhos de Deus, somos perfeitos.
A cada momento, enquanto Deus-em-processo se revela, nós recomeçamos.
Cada momento é uma oportunidade para sermos plenamente quem somos ou
mesmo quem pensamos ser.
Está sempre disponível para nós.
"Deus-em-processo" está aqui.
Nós estamos aqui.
É isso aí.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 39

Parte Quatro - Além desta Vida – Olam Há-Bah (O Mundo Vindouro)

Recompensa, Castigo e Divina Providência


Numa manhã de terça-feira, o Baal Shem Tov reuniu alguns de seus estudantes,
atrelou os cavalos e seguiram para local desconhecido.
Os estudantes sempre aguardavam ansiosamente por essas viagens misteriosas e
as aventuras que as acompanhavam.
Geralmente, o mestre usava seus poderes mágicos para percorrer grandes
distâncias em algumas horas.
No entanto, daquela vez a viagem parecia interminável, já durava vários dias e eles
se perguntavam se terminaria um dia.
Alguns dos estudantes começaram a achar que isso não tinha interesse algum; na
verdade, tudo era extremamente cansativo.
Na tarde de sexta-feira, mais ou menos uma hora antes do pôr-do-sol, eles se
encontravam numa floresta densa.
Se fosse qualquer outro pôr-do-sol, eles teriam ficado irritados, mas o Shabat, o
dia sagrado de descanso, começaria logo após este pôr-do-sol. Que espécie de
Shabat seria aquele, no meio da floresta?
Sem vinho, sem chalá, (Pão tradicional, na forma de trança, servido no Shabat.)
sem nada para comer?
Era um desastre.
De repente, viram uma clareira, onde havia uma cabana e um pequeno estábulo.
Quando a carruagem parou na porta da cabana, os estudantes saltaram e bateram
à porta. Depois de algum tempo de espera, a porta foi aberta por um homem
corpulento e mal-encarado, com a barba por fazer, vestindo uma camiseta.
Ele falou grunhindo e mostrando seus dentes amarelados e quebrados: "O que é
que vocês querem?"
"Prezado senhor", eles responderam, "estamos viajando com nosso mestre e, daqui
a pouco, será Shabat. Não temos onde ficar. O senhor se importaria se nos
juntássemos à sua família para o Shabat?"
"Se eu me importaria?", ele como que cuspiu estas palavras: "Certamente vou me
importar! Conheço seu tipo de gente. Vocês vão querer cantar, dançar e contar
histórias durante o Shabat inteiro. Em minha casa, não!"
E ele bateu a porta na cara deles.
E, agora, o que fazer?
Não havia outro lugar para ir.
Então, bateram à porta de novo, tremendo de medo, quando o brutamontes,
furioso, a abriu. Dessa vez, seu rosto estava vermelho, seus olhos flamejavam e
seus lábios espumavam. Eles disseram: "Prezado senhor, por favor, não temos
outro lugar para ir. Vamos dormir no estábulo. Não vamos comer muito. Mas, por
favor, deixe-nos ficar."
"Só com uma condição", ele respondeu. "Que vocês façam tudo do meu jeito. Sem
cantoria, sem dança, sem contar histórias. Do meu jeito ou, então, de jeito
nenhum."
Eles concordaram, espantados com a situação na qual se viam, por causa do seu
mestre.
O espaço dentro da casa era imundo. Insetos mortos espalhados pelo chão e, em
cada canto, havia teias de aranha.
Sentaram à mesa.
O Baal Shem Tov parecia estar em contemplação profunda, alisando sua longa
barba com os dedos. Os estudantes, entretanto, estavam visivelmente perturbados.
O que poderia ser pior do que passar um Shabat num lugar tão deprimente quanto
aquele?
Além do mais, o que poderia ser pior do que um Shabat que não poderia ser
celebrado com cantos e danças?
Bem, na realidade, tudo ficou pior.
O anfitrião, se é que ele podia ser chamado assim, trouxe só um pouquinho de
vinho para a bênção do kidush, e babou na taça antes de passá-la para os outros.
O pão era velho e cada uma das pessoas à mesa só recebeu um pedacinho.
E, ainda mais, acredite se quiser, ele espirrou na terrina de sopa, antes de servir
uma quantidade ínfima a cada um.
A refeição foi medonha, sob qualquer aspecto.
Dormiram naquela noite no estábulo.
Na manhã seguinte, sentaram-se à mesa para a segunda refeição do Shabat, e foi
ainda pior do que a primeira. Ele serviu restos frios, mais pão velho, uma gota de
vinho e a sopa, que era um pouco de água morna e gordurosa com um pedaço de
aipo boiando.
A terceira refeição, antes do pôr-do-sol, não foi melhor.
Os estudantes estavam impacientes, queriam que a noite chegasse logo, a fim de
subir na carruagem para voltar para casa.
Visto de qualquer ângulo, tinha sido o pior Shabat de cada um deles; e certamente
tinha sido a pior experiência que tiveram desde que estavam com seu mestre.
Alguns até se atreveram a sussurrar que ele tinha perdido seu poder e que iriam
procurar outro rebbe.
Enquanto tudo isso acontecia, o Baal Shem Tov acariciava sua barba e contemplava
calmamente o desenrolar dos acontecimentos.
Ele parecia estar inteiramente impassível.
Era evidente que não era aquela pessoa alegre, como sempre era no Shabat,
quando costumava contar histórias maravilhosas, entoar nigunim (melodias)
incríveis e dançar em volta da mesa.
Porém, ele não discutiu com o velho mal-humorado, nem usou sua mágica para
conquistar o homem. Ele apenas estava sentado e parecia esperar.
A noite finalmente chegou.
Os jovens se apressaram a pegar suas coisas. Mas o velho, de forma rude,
perguntou: "Aonde vocês pensam que vão?" Um dos estudantes respondeu:
"Senhor, agradecemos por sua amável hospitalidade, e vamos agora seguir nosso
caminho."
O homenzarrão fuzilou os estudantes com os olhos.
"Agradecer não é o bastante. Espero ser pago pelas refeições e pelo alojamento.
Sei que vocês não têm dinheiro e, de qualquer maneira, não quero dinheiro.
Há muito trabalho para ser feito por aqui."
Os estudantes ficaram perplexos.
Pagamento por uma refeição de Shabat? Em outras ocasiões, tinham comido do
bom e do melhor, em companhia de pessoas ilustres, e ninguém jamais sugeriu
pagamento.
Contudo, quando perguntaram ao mestre se o anfitrião podia pedir pagamento, o
Baal Shem Tov virou os olhos para cima e deu de ombros, como que indicando que
o homem tinha direito a pedir uma compensação.
Poderia ainda piorar? Pois no dia seguinte estavam limpando o estábulo, movendo
o feno, espalhando esterco, construindo um novo galpão e consertando o telhado.
Na verdade, a refeição do Shabat tinha sido bem cara.
Como se a humilhação não fosse suficiente, ao final de cada dia, o velho avarento
dizia que eles ainda teriam de trabalhar no dia seguinte.
Lá pelo meio da semana, eles se perguntavam se algum dia seria possível sair dali.
Desde o início, o Baal Shem Tov trabalhou junto com seus estudantes, quase sem
falar, mas sem se queixar. Ele tinha um olhar distante, como um marinheiro que
procura avistar, dentro de um nevoeiro espesso, um farol que o levaria de volta
para casa.
Com o passar dos dias, ele foi ficando cada vez mais contemplativo e, muitas
vezes, fechava os olhos para explorar dimensões internas. Quando chegou a
quinta-feira, os estudantes tinham a intuição desagradável de que passariam outro
Shabat naquele lugar horrível.
De fato, na quinta-feira à noite, o monstro disse que mais um dia seria necessário
para cumprir suas obrigações.
Durante o dia, na sexta-feira, eles estavam bem desolados mas resignados com o
destino.
Estavam angustiados, pensando na possibilidade de terem de pagar pelo Shabat
que se aproximava, trabalhando toda a semana seguinte, presos a um ciclo sem
fim.
Não tinham como escapar.

Um Novo Shabat
No final da tarde, terminaram seu trabalho e se prepararam para o Shabat da
melhor forma possível. O velho disse a eles que havia um riacho, não muito longe
dali, onde poderiam tomar banho.
Era a primeira vez em toda aquela semana que ele tinha um gesto amável.
Eles correram para o riacho, e veja só!
Na verdade, era um lugar muito bonito.
Uma fonte de água quente borbulhava ali perto e, então, aproveitaram para ficar
de molho por algum tempo, a fim de aliviar seus ossos doloridos.
O próprio riacho era fundo o bastante, para que cada um deles pudesse submergir
nas águas correntes para se purificar.
Que coisa boa! Pena que eles tinham de voltar para aquela casa horrível para mais
um jantar de Shabat deprimente.
Com a chegada do crepúsculo, voltaram com relutância para a cabana.
Quando entraram, não podiam acreditar no que seus olhos viam.
Tudo estava transformado.
A casa estava toda iluminada, as paredes brilhavam, o assoalho tinha sido muito
bem lustrado.
A mesa estava posta com uma toalha de um branco imaculado, bonitos pratos,
talheres dourados e lindas taças de vinho.
A mulher do velho, que eles nunca tinham visto antes — talvez ela tivesse passado
algum tempo fora — estava vestida com um conjunto branco deslumbrante.
Ela acendeu velas por todo o aposento, a fim de receber o Shabat com alegria; e
que Shabat magnífico!
Uma chalá fresquinha, vinho servido sem cessar, gefilte fish perfeito, grande
quantidade de galinha assada; comida que não acabava mais.
Mas o mais incrível era o velho.
Ele era outra pessoa. Ele estava usando uma linda veste e uma kipá bordada.
Seu rosto estava radiante, com um brilho rosado de satisfação e felicidade.
E o que era mais espantoso, ele cantava e contava histórias maravilhosas.
Ele sabia e conhecia muitas coisas.
Num determinado momento, a mulher do velho aproximou-se do Baal Shem Tov e
lhe perguntou: "Mestre, o senhor me reconhece?"
Ele olhou para ela, bem de perto, e então disse: "Meu Deus, você é Rivka. Minha
querida, eu a vi pela última vez há mais de trinta anos. Você deveria ter uns vinte
anos quando deixou nossa casa."
"Dezoito", ela disse. "O senhor lembra do último Shabat que passei com sua
família?" O nevoeiro que encobria esses fatos começou a se dissipar.
Rivka fora empregada na casa do Baal Shem Tov.
Ele lembrava que tinha havido alguns problemas.
Sua mulher não gostava muito do serviço dela. Mas ele não conseguia se lembrar
dos detalhes.
Rivka continuou: "Eu me lembro muito bem daquele último Shabat. O senhor tinha
muitos convidados. Eu havia preparado uma grande quantidade de sopa que foi
colocada na maior terrina que vocês tinham. Estava levando a terrina, que era
muito pesada, para a sala. Sempre fui um pouco desajeitada, as coisas sempre
pareciam passar por entre meus dedos. Procurei ter cuidado. Mas..."
Então, o Baal Shem Tov lembrou de tudo.
Ele podia ver Rivka vindo da cozinha carregando a terrina.
De repente, sem motivo aparente, a terrina se espatifou no chão. A sopa se
espalhou por toda parte. Sua mulher ficou muito zangada com Rivka e ela foi tão
recriminada que se pôs a chorar.
Foi um desastre. Ele se lem-brava muito bem.
Rivka disse: "Mestre, fiquei mortificada. Compreendi que o erro tinha sido meu.
Resolvi procurar um trabalho diferente, para que esse tipo de coisa não
acontecesse de novo. Deixei sua casa e arrumei outro emprego. Depois que saí,
tive um sonho. Em meu sonho, o senhor estava sendo julgado.
Anjos o acusavam de um delito terrível. O senhor imagina o que era isso?"
O nevoeiro se dissipou mais ainda, e o Baal Shem Tov podia ver uma luz fraca que
provinha como de um farol que estava ali para iluminar sua alma.
Calado, ele esperava. Rivka continuou: "Os anjos o acusavam de ter permitido que
eu fosse humilhada em público. O senhor nada fez para aliviar a situação. E, por
causa disso, os anjos achavam que merecia morrer! Houve um longo debate no
céu. Eu vi tudo em meu sonho. O senhor tinha muitos defensores. Cada oração que
o senhor fez e cada pessoa que o senhor ajudou estavam representadas por um
anjo defensor. A discussão celeste continuou por mais algum tempo e, finalmente,
foi decidido que poderia continuar a viver. Mas teria de pagar uma penalidade
pesada; eles especificaram que o senhor teria um Shabat completamente
arruinado."
O farol agora lançava uma luz forte. Por fim, após aquela semana de reflexão, ele
entendeu tudo. Ele percebeu que aquele homem grosseiro estava desempenhando
um papel, mas ele não tinha conseguido resolver a charada até aquele momento.
Este homem, o marido de Rivka, era um lamed-vav tzadik.
Tudo o que fazia na vida era assegurar que o mundo continuaria a girar
tranqüilamente.
Ele executava as ordens que recebia do céu, mesmo que com isso alguém pudesse
passar por uma experiência terrível.
O Baal Shem Tov olhou para o tzadik, que estava sentado à sua frente, e este
retribuiu o olhar.
Cada um desses sábios estava sorrindo de orelha a orelha.
Os estudantes olhavam para um e para outro, sem entender muito bem o que
estava acontecendo, mas muito contentes, enquanto a luz preenchia o aposento.
Este foi um Shabat muito melhor do qualquer outro que já haviam vivenciado.
Eles foram levados a dimensões indescritíveis, deslocando-se de um patamar
celeste para outro, até que alcançaram o momento mais extraordinário — um
gostinho, só um gostinho — do sétimo céu.
Somente este instante era mais do que o pagamento pela semana que tinham
passado.
Na verdade, não tinha preço.
Daquele dia em diante, nunca mais pronunciaram uma palavra de reclamação.
Quando voltaram para casa, na semana seguinte, e compartilharam esta
experiência com os outros, eles sentiram orgulho por ter estado entre aqueles que
passaram um Shabat arruinado com o Baal Shem Tov, um dia sagrado que foi
trocado por sua vida.

O Valor do Shabat
Muitos ensinamentos de sabedoria estão inseridos na história do lamed-vav tzadik.
Embora nós tenhamos chegado a este mundo com o destino já traçado, podemos
gerar um novo destino enquanto estamos aqui.
Uma simples ação pode ter conseqüências terríveis, principalmente se estamos
num alto patamar de consciência primordial, e deveríamos saber como agir de
maneira adequada.
Tudo o que fazemos cria um anjo, que pode ser acusador ou defensor. Isso significa
que nossas ações, fala e pensamentos criam reverberações que, em última análise,
podem trabalhar a nosso favor ou funcionar como obstáculos.
Quando a adversidade bate à nossa porta, não adianta nos queixarmos.
O mestre permaneceu calmo, embora pensativo, procurando a resposta.
Por outro lado, os estudantes precisavam aprender mais sobre fé.
No entanto, ao final, foram recompensados por seu trabalho.
Um lamed-vav tzadik pode se esconder por trás de muitos disfarces.
A pessoa que está nos fazendo passar por atribulações pode estar, na realidade,
salvando nossa vida.
Nunca poderemos saber se o que está acontecendo é para o nosso bem, por isso é
importante dar a tudo e a todos o beneficio da dúvida.
Nesta história, um Shabat arruinado foi trocado por muitos anos de vida do Baal
Shem Tov.
O significado do Shabat é "descansar" de nossa consciência mundana e nos permitir
fazer uma pausa semanal para reflexões espirituais.
Esta reflexão nos ajuda a ficar mais sintonizados e atentos ao ajuste de nossas
decisões diárias, sempre que isso se fizer necessário, a fim de melhorar nossa
qualidade de vida.
Se não fizermos esta pausa regularmente, a vida poderá se transformar numa
tarefa monótona e interminável, como aquela semana que se seguiu ao Shabat
arruinado desta história, e nos tornarmos incapazes de perceber a própria essência
do Shabat.
Dessa forma, a vida pode não ter mais significado.
Então, recebemos o ensinamento que o Shabat é quase tão importante quanto a
própria vida.
Um dos aspectos mais interessantes desta história é o fato de que um delito teve
um "castigo" negociável, e que só depois de muitos anos este castigo foi
implementado.

A seguir, há um ensinamento cabalístico sobre a natureza da criação, que é


revelado numa história sobre o treinamento dos anjos.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 40

Parte Quatro - Além desta Vida – Olam Há-Bah (O Mundo Vindouro)

A Mais Esplêndida Qualidade Humana


Aprendemos que, durante os dias de Rosh Hashaná e Yom Kipur, existem anjos
acusadores e anjos defensores.
Se os anjos defensores não fizerem seu trabalho direito, o mundo não poderá
continuar a existir.
Por isso, Deus prepara todos os anjos defensores, dando-lhes tarefas que
aprofundem sua compreensão.
Numa determinada ocasião, Deus disse a um anjo: "Quero que você encontre a
qualidade mais esplêndida que existe na experiência humana e volte para me
contar qual é."
O anjo procurou pelo mundo.
Ele viu muitas coisas.
Mas o que mais o impressionou foi um evento no qual um homem parecia estar
confuso e estava parado bem no meio de uma rua movimentada.
Um outro homem que estava ali, na calçada, viu que um caminhão enorme estava
se aproximando em grande velocidade e que não teria tempo de parar antes de
atropelar o homem que parecia aturdido. Então, o homem que estava vendo a cena
correu para o meio da rua e alcançou o outro a tempo de empurrá-lo para longe da
passagem do caminhão. Lamentavelmente, ele não pôde salvar-se e foi atropelado
e morto pelo caminhão.
O anjo recolheu uma gota de seu sangue e levou para Deus, dizendo:
"Creio que isso é a coisa mais esplêndida na experiência humana: a disposição de
sacrificar a própria vida pela vida de seu semelhante."
Deus respondeu ao anjo:
"Você encontrou uma experiência admirável, mas não é a mais esplêndida. Volte e
encontre-a."
O anjo voltou para a Terra e retomou sua busca.
Examinou o mundo e, dessa vez, o anjo foi atraído pela experiência de uma mulher
dando à luz.
A mulher estava gemendo e se retorcendo de dor, até que o bebê nasceu.
Assim que ela viu a criança, sua dor desapareceu e uma morna sensação de êxtase
a encheu de amor.
O anjo estendeu a mão, colheu uma gota de suor da parturiente e voltou, dizendo
para Deus: "Creio que isso pode ser a coisa mais esplêndida na experiência
humana: trazer uma vida ao mundo."
Novamente, Deus disse ao anjo: "De fato, esta é uma experiência excelente, mas
não é a mais esplêndida. Tente mais uma vez."
Então, o anjo voltou mais uma vez, a fim de encontrar a experiência humana mais
esplêndida. Ele procurou com muito cuidado e, sendo um anjo, podia ver milhares
de eventos ao mesmo tempo.
De repente, algo chamou sua atenção.
Um homem estava correndo por um bosque, e via-se claramente que ele estava
possuído por sentimentos violentos.
O anjo rapidamente passou a vida deste homem em revista e ficou sabendo que ele
acabara de sair da prisão, onde cumprira anos de cadeia por um crime cometido
por outra pessoa. Agora, furioso, ele ia procurar se vingar.
O anjo o seguiu pelo bosque e viu quando ele se aproximou de uma cabana.
O culpado morava lá. Ele é que deveria ter cumprido a pena.
Quando o homem que estava correndo chegou perto da casa, viu que uma janela
estava iluminada. Parado ao lado da janela, ainda com a intenção de vingar-se, ele
olhou para dentro e viu sua futura vítima.
O homem e sua mulher — com quem se casara um ano antes — tinham acabado de
voltar do hospital com sua filha recém-nascida.
Eles estavam muito felizes...
O homem, que estava furioso, olhava pela janela, observando cuidadosamente e,
aos poucos, seu coração foi se partindo em pedaços.
Ele começou a chorar, retornou para o bosque e nunca mais voltou.
O anjo recolheu uma de suas lágrimas, voltou a Deus, dizendo:
"Creio que isso é a coisa mais esplêndida na experiência humana — o perdão: a
habilidade de transcender a raiva, o ódio e o desejo de vingança."
Deus felicitou o anjo, dizendo: "Certamente, a capacidade de perdoar é o dom mais
esplêndido da experiência humana. Muitas outras coisas também são importantes,
mas esta característica é uma que distingue o potencial humano.
Sendo um anjo defensor, é imperativo que você entenda o perdão; é só por este
motivo que minha criação continua. Na ausência do perdão, tudo desapareceria
num clarão instantâneo."

O ponto de vista místico da tradição judaica é que a criação tem como base atos de
compaixão e de bondade amorosa.
Para o cabalista, o perdão não significa que devemos abraçar alguém que cometeu
um ato condenável contra a humanidade.
Pelo contrário, o perdão está focalizado em quanto nos apegamos à nossa raiva ou
aos nossos sentimentos negativos.
Se a criação tivesse por base um simples sistema de recompensa e castigo, no qual
o castigo fosse um resultado imediato de nossas ações, não poderíamos sobreviver
por muito tempo.
Fazemos, dizemos e pensamos coisas que certamente nos deixariam perplexos se
tivéssemos de pagar de imediato por um comportamento inadequado.
A própria noção de que existe um intervalo de tempo entre uma ação e o "castigo"
resultante indica que o universo está disposto a esperar, se assim podemos dizer,
por algo que possa mediar o castigo em potencial.

Recompensa e Castigo
A abordagem tradicional do conceito de recompensa e castigo é que a mão da
providência está presente em tudo, como um pagamento por ações passadas.
Boas ações recebem bons pagamentos; ações que não são boas podem custar um
preço alto.
Tradicionalmente, aprendemos, por meio de revelações e profecias, sobre o que
devemos fazer e, então, teremos de viver nossas vidas de acordo com isso.
Teoricamente, esta idéia até parece lógica.
Mas, na realidade, vemos que não funciona assim.
Descobrimos, por intermédio da experiência, que pessoas que vivem fazendo o
bem, com retidão e honestidade, muitas vezes sofrem bastante, enquanto outras,
que não têm essas qualidades, parecem ter tudo o que precisam.
Isto dá lugar a uma pergunta fundamental: Por que coisas ruins acontecem às
pessoas boas?
Os rabinos antigos ficavam muito intrigados com esta pergunta.
O Talmud conta a história de um pai que mandou seu filho para o telhado da casa a
fim de pegar alguns passarinhos. O filho subiu, como fora ordenado, e seguiu os
preceitos da lei, mandando a mãe-pássaro embora do ninho, antes de pegar os
filhotes.
Enquanto estava descendo do telhado, o filho caiu da escada e morreu.
Duas leis judaicas específicas, na Torá, dizem que pessoas que desempenham
certos mandamentos terão uma vida longa.
A primeira dessas leis é a que devemos obedecer a nossos pais; a outra é a que
devemos mandar embora a mãe-pássaro, antes de pegar os filhotes.
Neste exemplo, o menino cumpriu as duas leis, mas foi vítima de morte prematura.
Os rabinos se perguntavam se havia fatores atenuantes.
Talvez o menino, ou mesmo seu pai, estivesse pensando em algo "pecaminoso"
enquanto ele descia do telhado.
Mas tinha sido decidido que a missão de praticar boas ações deveria proteger a
pessoa de pensamentos desse tipo.
Além do mais, quando alguém está ocupado com o desempenho de uma boa ação,
diz-se que nenhum mal poderá atingi-lo.
Esta situação angustiava os rabinos.
Eles simplesmente não sabiam como lidar com ela.
Na verdade, conta-se que um dos maiores sábios, Elisha ben Abuyah, se afastou de
suas crenças religiosas e parou de praticar sua fé por causa de um incidente
semelhante, quando testemunhou a morte de alguém que estava praticando uma
boa ação.
Alguns dos rabinos tentaram resolver o problema, dizendo que há vida neste
mundo e também vida no mundo vindouro. Eles sugeriram que, quando a lei
descreve o prolongamento da vida devido ao desempenho de boas ações, ela
estava se referindo à vida no mundo vindouro, pois a extensão de nossa vida neste
mundo nunca foi assegurada.
No entanto, esta explicação contradiz outras máximas rabínicas baseadas no
princípio de que pagamos por tudo que é feito neste mundo, pois existe um
conceito espiritual de causa e feito que busca justificar situações contraditórias
(midá kenegued midá).
Há muitos exemplos nessa linha de pensamento.
O Talmud diz que a fome aparece porque dízimos não foram dados, a pestilência
provém do desempenho de pecados mortais, a guerra vem da deturpação de
julgamento, males provocados por animais selvagens provêm de blasfêmias, o
exílio tem sua origem na idolatria ou no incesto e o derramamento de sangue vem
do fato de que a terra não descansou no sétimo ano.
Vemos por todo o Talmud descrições de castigos infligidos neste mundo, em
retribuição a delitos cometidos.
Mas essas explicações ainda não são satisfatórias.
Basta olhar em volta para ver o sofrimento e a angústia de pessoas maravilhosas,
ou a vida boa dos tiranos e ladrões.
No Talmud, ainda encontramos outra abordagem para a questão da recompensa e
do castigo.
Nessa abordagem, vemos que as boas ações são sua própria recompensa, e as más
ações são seu próprio castigo.
Cada boa ação conduz a uma outra; isto leva a uma vida agradável.
Por outro lado, cada delito leva a outro, e disso resulta uma vida confusa e difícil.
O conselho que se dá é: "Não seja como o empregado que serve seu patrão, com a
expectativa de receber uma recompensa, o que se deve fazer realmente é servir
sem esperar nada."
De acordo com este ponto de vista, nem recompensa e nem castigo deveriam fazer
parte de nossas considerações, tanto neste mundo quanto no mundo vindouro.
Simplesmente estarmos presentes neste momento é tudo o que realmente
podemos fazer.
Este conceito do Talmud é a rejeição à crença da medida por medida; ela diz que
Deus é clemente e pleno de bondade amorosa.
Mesmo se 999 anjos acusadores declararem a culpa de uma pessoa, e só um disser
que esta pessoa é inocente, ou merece perdão, a misericórdia vai prevalecer.
Nessa mesma linha, o Zohar pergunta: "Como é possível que tantos pecadores e
transgressores estejam vivos e ativos?"
Se o castigo fosse imediato, como alguns dizem, estas pessoas não poderiam
continuar vivas.
No entanto, diz-se que, se há possibilidade de algum pecador tornar-se virtuoso,
esta pessoa será julgada favoravelmente.
Além do mais, se esta mesma pessoa for destinada a trazer ao mundo uma criança
virtuosa, então o julgamento será sempre clemente.
Assim vemos que a idéia de recompensa e castigo passa por toda a gama de
conceitos, desde uma recompensa ou um castigo garantidos, tanto neste mundo
como no mundo vindouro, até o ato de viver cada momento em sua plenitude,
confiando na natureza misericordiosa e clemente do universo.
Nenhuma dessas idéias é, no entanto, completamente satisfatória.
Por um lado, tudo isso nos dá a impressão de que estamos sendo julgados o tempo
todo e, por outro, parece não haver correlação entre nossas ações e as
recompensas por uma vida correta.

Divina Providência
A abordagem mística à questão complexa da providência divina nos dá uma
perspectiva completamente diferente dos conceitos de recompensa e castigo.
O pecado original é descrito na Torá como o ato de comer a fruta da Árvore do
Conhecimento, como se Deus não quisesse que isso acontecesse.
Poderíamos perguntar:
Comeram por acaso?
Adão e Eva estavam programados para comer a fruta proibida?
Estava preordenado que eles comeriam?
E se aconteceu de uma dessas maneiras, onde o castigo se encaixa?
Parece que fizeram o que tinha de ser feito; foi a providência divina.
Se foi assim, de que forma a providência divina funciona?

Essa pergunta perseguiu místicos e pensadores metafísicos por dois mil anos.
É extremamente difícil formular, enquanto permanecermos amarrados ao velho
paradigma que contempla Deus como um substantivo.
No entanto, quando nos deslocamos para o conceito de Deus como um verbo, uma
ação, e que o processo da criação é relacional, temos um novo insight, porque a
criação-em-processo não pode se desenrolar sem Deus-em-processo, e vice-versa.
É como acontece quando temos duas engrenagens girando em conjunto: se uma
delas for retirada, a outra vai parar imediatamente.
Dessa forma, Deus-em-processo e criação-em-processo têm uma relação simbiótica
que se revela enquanto cada momento se desenrola.
A divina providência é o papel que Deus-em-processo desempenha nessa relação.
Deus-em-processo faz com que todas as variáveis do universo se tornem
relevantes a cada momento.
Isto significa que, enquanto eu estiver no processo, ou você, ou qualquer outra
pessoa, ou qualquer coisa, o universo, por sua vez, estará relacionado a este
processo.
A este relacionamento, damos o nome de divina providência.
Alguns exemplos vão ajudar a esclarecer o que Deus-em-processo significa nesse
contexto.
Uma pessoa que está aprendendo a desenhar descobre que há uma relação entre o
objeto que está sendo desenhado e o espaço que fica à volta, que é chamado de
espaço negativo. Por exemplo, em vez de fazer o contorno de uma flor, podemos
aprender a desenhar a forma do espaço em volta da flor.
Quando desenhamos assim, ainda obtemos a flor, mas o desenho foi feito
focalizando no espaço que "não é flor".
Dessa forma, desenhando tudo o que está em volta de um objeto, acabamos
desenhando o próprio objeto.
Poderíamos também olhar para a flor pela perspectiva de tudo que faz com que ela
seja o que é: a terra, a água, nutrientes, sementes, calor, luz e ar.
Assim, podemos nos relacionar com uma flor pelo ponto vista do que permite que
ela exista neste momento. Se ela estivesse cercada pelo vácuo, em vez da pressão
do ar presente, a flor murcharia imediatamente e morreria.
Se ela fosse transportada para um lugar diferente, ficaria muito traumatizada.
Sob uma perspectiva mística, poderíamos dizer que, se sua energia angelical fosse
retirada, ela não sobreviveria.
O espaço que está em volta é o que define uma determinada coisa.
Eu sou David-em-processo, mas sou definido por tudo que está à minha volta.
Alguns dizem que somos o que comemos.
Mas isso é um ponto de vista muito limitado.
De preferência, somos o que vemos, o que ouvimos, o que tocamos e o que
provamos; somos todas as nossas experiências acumuladas, e estamos no processo
fornecendo um fluxo contínuo de dados experimentais.
Se a experiência muda, nós também mudamos.
Em cada momento de nossa existência, nós nos relacionamos com aquilo que
define quem somos.
O que David-em-processo traz para cada momento é a compilação de minha vida —
uma coleção de eventos — somada a uma ferramenta, uma "chave inglesa"
denominada livre-arbítrio.
Na maior parte do tempo, as engrenagens do relacionamento contínuo entre Deus-
em-processo e David-em-processo giram de modo bastante previsível. Mas uma
chave inglesa pode ser inserida nas engrenagens, afetando minha direção e, em
última instância, a direção do universo.
O que a divina providência traz para cada momento é o acúmulo de tudo o que
ocorreu no universo até aquele momento.
No Jardim do Éden, o sistema ainda é completamente puro, porque não há história
anterior. É o início de uma nova consciência.
Nesse contexto, a divina providência focalizava um evento só.
Deus-em-processo diz que Adão e Eva não devem comer da árvore porque isso iria
causar-lhes a morte. Isto é precisamente o que a Árvore do Conhecimento fez.
Evidentemente, o jardim poderia ter sido estruturado de forma a evitar que Adão e
Eva provassem o fruto da Árvore do Conhecimento.
A morte não é um castigo; é a realidade de uma criação que tem dualidade.
Dualidade requer separação.
Apesar disso, a verdade definitiva do Divino é a Unidade.
Parte do processo de separação que se funde de novo com a Unidade é o que
chamamos de morte.
Então, podemos dizer que recompensa e castigo, em nossa realidade, são
processos contínuos do desenrolar do relacionamento entre Deus-em-processo e
criação-em-processo.
Deus-em-processo fica o tempo todo nos dando dicas:
"Tome cuidado, se você comer muito chocolate, vai se arrepender"; "Se você dividir
o átomo, isso vai ter um custo muito alto"; "Se a tecnologia tornar-se avançada
demais, a natureza da mente humana mudará para sempre"; "Se você vive sempre
ocupado, poderá perder o contato com sua alma".
Deus-em-processo, consistentemente, nos informa que nossas vidas estão
equilibradas sobre as nossas decisões.
Nossas ações, palavras e pensamentos do dia-a-dia estão sempre afetando nossa
sensação de harmonia com o universo.
Quando estamos mais harmonizados, podemos dizer que estamos sendo mais
recompensados. Mas nossa harmonia não é simplesmente função de nossas ações
individuais, pois, da mesma forma que os seres humanos trazem o livre-arbítrio
para cada momento, Deus-em-processo traz a divina providência.
Tendo em vista que a divina providência inclui cada reverberação que foi enviada
para o universo por cada pessoa que já viveu e por cada acontecimento, nunca
poderemos protestar contra ela.
Sob tal perspectiva, recompensa e castigos não estão relacionados somente a
decisões individuais; são os produtos da história coletiva da criação.
Não somente os indivíduos são afetados, mas o processo da criação-em-processo
como um todo.
Isto é um ensinamento fundamental no Judaísmo.
Nossos atos conscientes e nossas boas ações não estão somente no nível
individual, mas servem para o mundo inteiro.
Nosso alvo é fazer com que toda a criação fique mais harmoniosa.
É por esse motivo que todas as orações dos Grandes Dias Sagrados estão
estruturadas no plural. Nossos esforços são dirigidos à comunidade de todos os
seres humanos.
No Talmud, encontramos a história de uma cabra selvagem que entra em trabalho
de parto no momento em que está sobre o pico de uma montanha.
Nessa situação, o filhote, ao nascer, pode se machucar seriamente ou mesmo
morrer. Deus-em-processo prepara uma águia para aparar o filhote nas suas asas,
no momento do nascimento, e, dessa forma, o filhote é salvo. Deus-em-processo
observa que, "se a águia aparecesse um segundo antes ou um segundo depois, o
filhote teria morrido". Isto é um exemplo maravilhoso da "espontaneidade" da
divina providência."
Mas devemos perguntar o que trouxe a divina providência ao lugar no qual o filhote
poderia ser salvo?
E a resposta é que isso só pode acontecer quando existe uma determinada
harmonia no universo.
Com muita freqüência, ficamos sabendo de situações em que a divina providência
não intervém para salvar uma vida.
Baleias encalham na praia, pássaros batem em janelas, cavalos quebram as
pernas, "acidentes" acontecem naturalmente em toda parte.
Hoje, sabemos que a natureza muitas vezes fornece uma enorme quantidade de
embriões no processo de reprodução, para assegurar que pelo menos uns poucos
sobrevivam.
O cientista tem a tendência de focalizar os milhões que não sobrevivem, como
prova da aleatoriedade do processo; já o místico irá focalizar os poucos que
sobrevivem, como prova da divina providência.
O alvo não é evitar todos os danos acidentais ou mesmo a própria morte, mas fazer
com que uma consciência mais elevada possa manter um equilíbrio harmonioso no
universo.
Não sabemos qual é o filhote recém-nascido que precisa ser salvo.
Nem podemos entender com clareza o que seja a morte, em qualquer nível.
Mas temos uma sabedoria mais profunda que nos guia e nos informa. É neste
conhecimento interno que devemos confiar.
A cada momento, a criação-em-processo evolui juntamente com Deus-em-proceso;
os seres humanos adicionam o ingrediente do livre-arbítrio, e Deus-em-processo
fornece a tigela, chamada divina providência, para fazer a mistura.
Este sistema é fundamentalmente causal, mas, ainda assim, ele é espontâneo e
imprevisível, pois uma incógnita variável sempre pode ser inserida entre a causa e
o efeito, por intermédio do livre-arbítrio ou da divina providência.
O ensinamento de que Deus é um verbo, uma ação, e de que a criação é um
processo em andamento traz uma nova vitalidade a cada momento e abre para nós
um leque de infinitas possibilidades. Quando entendemos de que maneira o
processo funciona, com o desenrolar simultâneo de Deus-em-processo e da
criação-em-processo, ganhamos um profundo insight da arquitetura mística do
universo.
A abordagem do misticismo da tradição judaica, no que diz respeito à divina
providência e ao destino, tem um aspecto duplo.
Em primeiro lugar, procuramos fazer todo o possível para viver, para nos
consertarmos e para mudar o mundo para melhor.
Cada respiração é uma nova oportunidade para confrontar o destino e nos
aproximar de uma nova realidade.
Em segundo lugar, nos damos conta de que a vida, da forma que a conhecemos, é
destinada a terminar na morte.
Por isso, praticamos a equanimidade.
Aprendemos a equilibrar os altos e baixos, e desenvolvemos um centro de paz
interna que irá nos sustentar durante os tempos difíceis.
A vida não é uma proposta de escolha entre duas alternativas; ela sempre inclui a
natureza da conjunção “e”.
Há momentos para uma determinada abordagem e outros para uma abordagem
oposta.
Algumas vezes, lutamos para transformar o destino; outras vezes, simplesmente
aceitamos o destino de bom grado.
Em qualquer um dos casos, devemos ter o maior cuidado com qualquer um que nos
sugira que tem respostas a questões que nos têm acompanhado há milhares de
anos. Um grande mestre disse uma vez: "Na realidade, assim como a conhecemos,
muitas perguntas servem para ser feitas — nunca para ser respondidas."

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 41

Parte Quatro - Além desta Vida – Olam Há-Bah (O Mundo Vindouro)

O Ato de Morrer e o Medo – Parte 1


Algumas pessoas dizem que esperar a morte é muito pior do que a morte em si.
As casas de repouso estão repletas de pessoas que aguardam, angustiadas, a visita
da morte.
Isto pode levar anos.
O medo permeia o dia-a-dia, o tempo todo.
O medo se acentua quando cadeiras vazias são inevitavelmente notadas na sala de
jantar.
De vez em quando, uma pessoa desaparece, levando terror ao coração dos outros
internos.
Quando será minha cadeira?
O que vai acontecer?
Será que vai doer?
Aonde irei?
Será que vou saber quem sou?
Será que voltarei algum dia?

Meu Pai
Enquanto estava escrevendo este livro, meu pai, Sampson D. Cooper, com 92 anos
de idade, fez sua última jornada.
Ele estava vivendo numa casa de repouso e, há muitos anos, estava confinado a
uma cadeira de rodas.
Ele se sentia preso num corpo que se recusava a funcionar do jeito que ele queria.
Sua capacidade intelectual diminuiu marcadamente perto do final de sua vida, e ele
ficava cada vez mais desanimado quando palavras e frases completas
desapareciam num buraco negro que, lentamente, vinha consumindo sua mente.
Durante alguns anos, eu costumava receber recados semanais, avisando que meu
pai tinha sido encontrado no chão, perto de sua cadeira de rodas.
Às vezes, ele escorregava enquanto saía da cama ou do vaso sanitário. Creio que
algumas vezes ele simplesmente se deitava no chão para dormir, porque o esforço
de dar os passos necessários para voltar à sua cama era muito cansativo.
Como era uma pessoa muito independente, ele não podia tolerar ser amarrado na
cadeira. Por sorte, ele nunca se machucou seriamente nesses incidentes, a não ser
por um ou outro hematoma.
Uma noite, no entanto, fomos avisados de que papai fora encontrado desacordado.
Fomos rapidamente para a casa de repouso.
Quando chegamos, seus olhos estavam abertos, mas ele não conseguia falar.
A situação não era boa. Ficamos com ele até tarde da noite e eu voltei cedo na
manhã seguinte. Como ele não era capaz de comer ou beber, o médico sabia que
ele não poderia durar mais do que um a dois dias.
Então, fiquei ao lado dele, falando, cantando e também às vezes em silêncio.
Shoshana, minha esposa, chegou por volta do meio-dia.
Ficamos a tarde toda umedecendo seus lábios e sua boca, tentando amenizar seu
sofrimento.
Meditávamos, na maior parte do tempo.
Minha mãe morrera nove anos antes, na festa de Tu b'Shvat, a Festa das Árvores,
na época em que morávamos em Jerusalém.
No longo vôo de Israel para a Califórnia, onde ela tinha vivido e onde seria
enterrada, lembro que olhava pela janela e via a vastidão das nuvens, sentindo a
presença dela em toda parte.
Sua alma permeava tudo.
Era uma sensação maravilhosa.
Lembro-me de imaginar se a morte era realmente tão expansiva.
Ao final daquela tarde com meu pai, reparei uma mudança em sua respiração.
Durante todo aquele dia, ele vinha sempre afastando nossas mãos, não querendo
ser tocado.
Nós respeitamos isso, e o deixamos em paz.
Mas agora alguma coisa havia mudado.
Ele estendeu sua mão a fim de pegar a minha.
Seus olhos estavam bem abertos, mas ele ainda não conseguia falar. Quando me
aproximei o suficiente para poder sussurrar algo, ele passou a emanar uma luz de
força vital, que se espalhou pelo quarto.
Senti-me levado a uma dimensão completamente diferente, estava bem consciente,
e tinha a sensação, mais forte do que nunca, da presença de minha mãe.
Minha cabeça estava a uns cinco centímetros da cabeça de meu pai.
Eu sabia que ele também podia sentir sua presença.
Ele estava muito quieto, olhando para frente, segurando minha mão com força.
Comecei, inexplicavelmente, a dizer:
"Está tudo bem, está tudo bem."
Papai não era religioso. Nos últimos 15 a 20 anos, ele estava sempre irritado com
quase tudo. Minha mãe havia desistido...
Mas ela me tinha feito prometer que eu olharia por ele no seu final de vida.
Isso não foi fácil. Ele podia ser bem desagradável.
Mesmo assim, quando voltamos de Israel, ele mudou-se da Califórnia para o
Colorado para podermos passar temporadas juntos.
Agora, no entanto, não havia mais qualquer traço daquela raiva que eu conhecia
tão bem.
A última meia hora de sua vida foi calma, conectada e de uma força extraordinária.
Sua respiração foi ficando mais fraca, eu continuei a sussurrar, e a presença de
minha mãe foi ficando mais forte.
Numa certa hora, senti a profunda gratidão dela, e dele também, por ajudá-lo a
fazer a passagem, principalmente pelo que estava acontecendo naquele momento.
Então, senti a presença de minha mãe sinalizando que, daquele momento em
diante, era ela quem tomaria conta porque ele estava prestes a ir para um lugar
que estava além dos meus limites.
Ele só fechou os olhos na hora do último tremor, quando sua respiração cessou.
Nesse último momento, comecei a dizer o kadish.
Onde quer que esteja, ele me ouviu.
Uma lágrima se formou no canto de um de seus olhos. Fiquei estupefato.
E, então, ele já não estava mais aqui.
Todos aqueles anos em que ficamos afastados foram completamente apagados
durante aquela meia hora final
Palavras não foram necessárias.
A força vital que se espalhou pelo quarto, e para além dele, era tudo o que
precisava ser comunicado.
Na verdade, continua comigo agora, enquanto escrevo estas palavras.

Acompanhando aqueles que estão no fim da vida


Acompanhar pessoas que estão à beira da morte significa lidar com o medo: nosso
próprio, o daqueles à nossa volta e o da pessoa que está morrendo.
Embora o medo da morte tenha aspectos diversos e abrangentes, ele pode ser
dividido em três categorias principais: medo diante de um eventual fracasso
pessoal nesta vida, medo de sentir dor durante o processo da morte e medo do
desconhecido, após a morte.
Quando estamos em paz com nossas próprias preocupações sobre a morte, então
temos mais capacidade de lidar com os outros.
Muitas práticas no Judaísmo nos ajudam a desenvolver habilidades para este tipo
de assistência.
A seguir, veremos exercícios que podem aos poucos nos ajudar a aliviar nossos
medos.
Estamos acostumados à sensação de que não fizemos as coisas direito; temos a
impressão de ter estragado trabalhos e relacionamentos, e ainda mais, achamos
que deixamos rastros, e como gostaríamos que eles pudessem desaparecer!
Temos esperança de que o tempo irá curar estas feridas, mas, quando estamos
próximos da morte, velhas aflições tomam proporções imensas em nosso universo
de arrependimentos.
Como seria bom se pudéssemos fazer tudo de novo, se tivéssemos tempo para
consertar as coisas.
Pessoas que estão morrendo se preocupam com promessas quebradas,
responsabilidades que foram evitadas e os objetivos que tiveram durante a sua vida
e que não foram alcançados
Elas se preocupam também com encargos que deixaram para trás e que outros
terão de assumir.
Elas estão desoladas por estar abandonando pessoas que delas dependiam,
pessoas de quem elas cuidaram, amaram e mantiveram.
E também estão preocupadas com as pessoas que as serviram e amaram mas que
nunca foram devidamente apreciadas.
Enquanto as pessoas só tiverem sua atenção focalizada na parte vazia do copo, a
lista de preocupações estará sempre aumentando.
Muitas vezes, a pessoa que está morrendo tem sua cabeça e seu coração tão cheios
de sensações de fracasso pessoal e oportunidades perdidas que se vê mergulhada
num mar de remorsos, que faz com que tanto a pessoa quanto os que estão à sua
volta deixem de prestar atenção a algumas questões importantes: o perdão, a
sinceridade, o reconhecimento e a expressão do amor incondicional.
Profissionais de saúde que lidam com pacientes em fase terminal chamam a
atenção para o fato de que a qualidade mais importante que uma pessoa que cuida
de alguém que está morrendo deve ter é a disposição de estar presente: ser capaz
de ouvir, dar apoio e não ser invasivo.
No entanto, quando fazemos isso, algumas vezes não temos a oportunidade de
estar no mesmo plano que a pessoa que está morrendo.
Não pude fazer isso com meu pai; ele estava em algum outro lugar no último dia.
E minha mãe se foi de repente, então não tive esta oportunidade.
Contudo, já tenho estado em muitas situações nas quais as pessoas conseguem
largar os velhos modelos e fazer novas conexões que produzem uma cura para
todos os que estão envolvidos no processo.
Se isso vai ou não acontecer, depende de um amplo conjunto de variáveis.
Não deve ser a meta.
Simplesmente, muitas pessoas não estão preparadas para ficar mais vulneráveis ou
se arriscar nesse ambiente tão estressante que geralmente acompanha o processo
da morte.
No entanto, para os que têm vontade de explorar questões mais profundas, aqui se
encontram algumas práticas a serem adotadas juntamente com alguém que está
morrendo.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 42

Parte Quatro - Além desta Vida – Olam Há-Bah (O Mundo Vindouro)

O Ato de Morrer e o Medo – Parte 2

Medo do Fracasso
1. Oferecendo confissão e pedindo perdão
No Judaísmo, esta prática é muitas vezes associada aos Grandes Dias Sagrados:
Rosh Hashaná e Yom Kipur.
Nessa hora, costumamos nos comunicar com o Divino, confessando coisas que
lamentamos ter feito, dito ou até pensado.
Em qualquer época do ano, no entanto, podemos adotar a prática espiritual de
confessar nossos arrependimentos para outra pessoa, ou então ouvir a confissão de
outra pessoa, especialmente de alguém que está morrendo.
É óbvio que isso não é fácil de fazer e deve ser realizado com muita habilidade e
sensibilidade.
As pessoas costumam ser reticentes na hora de revelar coisas sobre as quais
sentem culpa.
Muitos gostariam de levar estes segredos para o túmulo, e têm todo o direito de
fazer isso.
O sucesso dessa prática não é medido pela quantidade ou pela intensidade da
informação divulgada.
Na realidade, o sucesso é medido pela qualidade do acolhimento proporcionado, em
que a pessoa pode resolver se quer falar sobre seus remorsos.
Certamente, também deve ser considerado prudente não falar sobre questões
delicadas — nessa situação, nunca se deve pressionar.
Esta prática só requer duas pessoas.
Começamos sentados em silêncio, procurando lembrar do maior número possível
de eventos, em que fizemos, dissemos ou pensamos coisas das quais estamos
arrependidos. Às vezes, basta o fato de estarmos sentados tranqüilamente, pois,
em termos místicos, as almas se comunicam em diferentes planos de realidade em
que não precisam de expressão verbal.
Isso vai além de um olhar ou de um gesto.
Na verdade, mesmo quando a pessoa está em coma, a alma pode se conectar de
uma forma que desconhecemos.
Nesse processo, no entanto, é muito bom ficar dizendo em voz alta o que se passa
em nossos corações.
A finalidade deste exercício é estar pronto para admitir erros e pedir perdão.
Quando somos capazes de fazer isso, o processo torna-se profundamente
comovente.
Muitas vezes, abre uma oportunidade para uma nova compreensão entre pessoas,
e é muito recomendado para curar velhas feridas.
Ou uma das pessoas fala, ou as duas.
2. Anulação das promessas
Este é um outro exercício espiritual que é feito normalmente durante os Grandes
Dias Sagrados, mas também pode ser praticado em qualquer época do ano.
Como já dito, as pessoas que estão morrendo muitas vezes acham que têm
assuntos que não foram resolvidos.
Desobrigá-las dessas preocupações pode muito bem ser um meio de liberação.
Primeiro, numa hora apropriada, perguntamos à pessoa: "Você acha que fez
promessas ou assumiu compromissos que ainda não tiveram solução?"
Se a pessoa disser que sim, tentamos encontrar uma maneira satisfatória para
liberar a pessoa desse compromisso.
Se for uma promessa que a pessoa tenha feito a você, é possível dizer-lhe algo
como: "De todo coração, libero você da promessa ou de qualquer outro
compromisso que possa ter assumido."
Se for um compromisso com outra pessoa, tente encontrar um meio de liberá-la.
Você pode trazer outras pessoas que estão envolvidos. Você deve usar o bom
senso. Você pode tomar a si algumas coisas, mas você nunca deve assumir uma
obrigação, devido a um sentimento de culpa.
Você pode convidar anjos para ajudar, rezar ou então chame por Deus.
O próprio fato de estarmos falando sobre essas questões proporciona a sensação de
liberdade que traz muita paz de espírito e claridade.
Nos dias ou horas finais de uma pessoa, muita coisa pode ser realizada para ajudá-
la em seu processo de passagem.
3. Tashlich
A anulação das promessas é uma das muitas práticas de purificação.
Outra é o tashlich (o ato de se desfazer), que é feito uma vez por ano, na tarde do
primeiro dia de Rosh Hashaná.
Geralmente, fazemos orações perto da água (mar, rio, lago etc.), onde jogamos
migalhas de pão, que representam resíduos de traços característicos, hábitos ou
lembranças que gostaríamos de descartar.
O que se segue é uma variante disso.
Se a pessoa que está morrendo ainda puder escrever ou então se ela aceitar que
você escreva para ela, anote respostas para os itens abaixo em um pedaço de
papel:
a. Coisas que fiz em minha vida e que me arrependo;
b. Qualquer coisa que tenha dito para fazer mal a alguém;
c. Acontecimentos que, se eu pudesse voltar atrás, teria agido de maneira
diferente;
d. Coisas que gostaria de ter dito a alguém;
e. Promessas que fiz e que não cumpri;
f. Esperanças e sonhos que nunca se realizaram.
Qualquer outro item pode ser acrescentado a esta lista. Cada pedaço de papel deve
ser amassado e queimado, com cuidado, lentamente, contemplando a queima, até
que tudo tenha virado cinza.
No hospital, ou em outro lugar onde acender fogo não seja permitido, ou não seja
adequado, os pedaços de papel podem ser cortados em pedacinhos e destruídos de
algum modo.
4. História familiar
Se a pessoa que está morrendo é um dos pais, um dos avós ou um parente idoso,
uma prática excelente é tentar registrar o maior número de fatos sobre a história
da família que a pessoa estiver disposta a dar.
Quem fez o que e quando?
Quais são alguns dos segredos de família pouco mencionados?
Procure juntar a maior quantidade de detalhes possível.
Explorar o passado, em profundidade, é uma forma maravilhosa de cura.
Permite que as pessoas possam refletir sobre o significado de suas vidas, os
impactos que sofreram e a continuidade que eles geraram.
Embora estas reflexões possam reabrir velhas feridas, na maioria das vezes elas
são estimulantes e satisfazem à alma. Este procedimento é muito recomendado.
5. Exercícios de meditação
Muitos dos exercícios de meditação sugeridos nestes textos são recomendados para
lidar com o medo do fracasso, especialmente: Reverência, Equanimidade, A alma é
pura, Alegria, A meditação do Arcanjo, A prática do Anjo da Guarda, e Por meio dos
olhos de Deus.

Medo da Dor
Nos dias de hoje, a maioria dos médicos costuma prescrever medicação adequada
para lidar com qualquer dor que apareça durante o período terminal.
Cada um tem um nível de tolerância diferente para a dor e, basicamente, só o
próprio paciente pode determinar seu nível de conforto.
Uma vez que os remédios necessários tenham sido providenciados, existem ainda
algumas ações complementares para lidar com a dor.
Uma delas é a meditação.
A meditação orientada é de grande valor para as pessoas que não têm experiência
com meditação.
O segredo para ser um guia competente é saber participar da meditação enquanto
você a dirige.
Não fique só lendo as palavras.
Isto não funciona.
Você deve entrar no espírito da meditação.
Seu próprio estado mental vai influenciar seu ritmo, a modulação de sua voz, a
sensibilidade às necessidades do outro e como lidar com o conteúdo da
visualização.
A seguir, dou exemplos de meditações orientadas que podem ajudar bastante
alguém no processo de passagem.
1. Inspiração
Uma das principais técnicas judaicas de meditação consiste na leitura em voz alta
de orações e textos inspiradores. Salmos, o Cântico dos Cânticos, o Shemá ou
outras orações; quaisquer outros textos religiosos podem ter um significado mais
amplo quando lidos de forma pausada e trabalhados como material de
contemplação.
Muitas pessoas têm fortes sentimentos negativos a respeito da literatura bíblica.
Isto, muitas vezes, se relaciona mais à linguagem do que ao assunto.
Procure trabalhar com um material em que a linguagem esteja bem próxima à
nossa, do dia-a-dia.
Se você não conseguir encontrar uma leitura adequada nas escrituras, use poesia,
ou algo belo de uma outra cultura, que tenha tocado seu coração.
Se você for usar leituras inspiradoras, passe os olhos no material, um pouco antes,
para se assegurar de que é adequado.
O material a ser lido deve servir como fonte de inspiração, o conteúdo não
interessa tanto.
Leia uma linha, e fique em silêncio por um a dois minutos.
O objetivo não é "chegar a algum lugar", mas fazer com que o silêncio seja
inspirador.
Este processo tem grande valor.
2a. Falar com Deus
Fale com Deus, por uns 10 a 15 minutos, em suas próprias palavras.
Cada um dos participantes deve poder encontrar um espaço onde ficar sozinho, a
fim de falar sussurrando e ter certo grau de privacidade.
Tente um dos assuntos a seguir, ou qualquer outro que lhe pareça apropriado.
a. O que fiz certo em minha vida
b. O que eu poderia ter feito melhor
c. O que preciso neste momento
d. Minha oração para os outros
e. Como lidar com minha dor e com a ansiedade
f. Como abrir meu coração e aceitar os acontecimentos
2b Reflexo de Deus
Repita este procedimento de falar com Deus, mas, dessa vez, fale com seu
parceiro, como se ele fosse o veículo por meio do qual Deus está ouvindo.
Um fala e o outro ouve. Após cinco/dez minutos, alternem o processo.
Rezem um para o outro; você deve fazer com que seu coração se conecte
intimamente com o de seu parceiro.
3. Cantando juntos
Cantem, ou entoem juntos algumas melodias sagradas, nomes de Deus, linhas da
liturgia, melodias sem palavras ou qualquer outra coisa que faça vocês elevarem
suas vozes num canto. O ato de cantar junto tem um for-te poder curativo. 4.
Natureza Se você puder sair para andar, estar na natureza ou sentar-se perto do
mar, numa montanha, no deserto, perto de um riacho ou em qualquer outro lugar
diferente e cheio de vida, procure fazer isso. É só sentar em silêncio e ouvir. (Se a
pessoa que está morrendo não puder fazer isso, é muito bom que a pessoa que
está cuidando dela faça.)
5. Outras meditações
Outras meditações destes textos que são úteis quando estamos lidando com o
medo da dor são: Equanimidade, Meditação do Arcanjo e Prática do Anjo da
Guarda.

Medo do Desconhecido
Tanto na literatura hassídica e cabalística como no Talmud e no Zohar,
encontramos descrições de dimensões da realidade que transcendem a mente.
Como essas dimensões não são racionais e dificilmente podem ser descritas, a
melhor maneira de vivenciar estas dimensões é por meio de uma visualização
orientada, que permite ao meditador uma ampla liberdade na formação de suas
imagens internas. Quando utilizamos nossa imaginação no contexto da meditação,
com a finalidade de explorar outras dimensões, poderemos obter o efeito de aliviar
suavemente o medo do desconhecido.
De fato, quando, em nossa imaginação, penetramos nos domínios celestes, muitas
vezes nos sentimos reconfortados.
É como se nossas almas tivessem lembranças que estão muito além do limite de
nossas mentes.
Meditações guiadas, tais como a Prática do Anjo da Guarda , a Meditação do
Arcanjo e a Meditação do Trono de Deus, são muito úteis neste processo.
Quando estamos lidando com pessoas que demonstram ter muito medo da morte,
eu geralmente as conduzo ao longo de uma série de meditações orientadas tais
como estas.
Viajamos juntos, num percurso criativo interno, para realidades que imaginamos
como poderiam ser após a morte.
Nossa imaginação tem um maravilhoso acesso a outras dimensões de realidade.
Não devemos nos importar se estamos inventando coisas, mas, como já falamos
sobre isso antes, se podemos imaginar algo, então algum aspecto disso existe —
"O que ocorre acima repercute embaixo". Assim, podemos explorar o outro lado da
morte.
As visualizações guiadas não devem sugerir formas concretas.
O melhor a fazer é estabelecer intenções e encorajar a pessoa que está vivenciando
as visualizações a explorar, com muita liberdade, as imagens que estão em sua
própria mente.
Quem está conduzindo a visualização é simplesmente um facilitador quando a
pessoa precisa de ajuda para romper as limitações que ela mesma se impôs.
Assim que isso é realizado, um mundo interno, inteiramente novo, se abre para a
pessoa que está visualizando.
Isto pode ser realizado em uma só sessão prolongada, por umas duas horas, ou em
algumas sessões durante o período de uma semana.
Geralmente, é uma experiência muito rica e leva a uma perspectiva diferente do
que é a vida após a morte.
Mesmo com todas essas práticas disponíveis, o medo da morte ainda é um
obstáculo terrível para muitas pessoas.
Como veremos a seguir, os grandes sábios do Judaísmo muitas vezes pediram
ajuda para poder lidar com o medo da morte.
Eles, em geral, concordavam com o fato de que o ato de morrer era uma
experiência muito mais fácil do que lidar com o processo da morte, em que o medo
desempenha um papel dominante.
Não existem respostas simples para este desafio.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 43

Parte Quatro - Além desta Vida – Olam Há-Bah (O Mundo Vindouro)

O Ato de Morrer e o Medo – Parte Final

A Passagem da Alma após a Morte


Um ritual judaico tradicional, durante as últimas horas de vida de uma pessoa,
envolve acender uma vela em seu quarto; esta vela simboliza o brilho trêmulo da
alma humana.
Acatamos a última vontade da pessoa que está morrendo e ela é delicadamente
incentivada a confessar e pedir redenção.
A confissão pode ser algo simplesmente como "Que minha morte possa ser uma
redenção".
Muitas vezes, a pessoa recita o Shemá, quando se prepara para a morte.
O Talmud afirma que estar com alguém no momento de sua morte é um ato
notável de bondade amorosa e é reconfortante para uma alma que está na
passagem ter a ajuda de uma alma que está em paz.
Na tradição judaica, dizemos que a pessoa está morta quando sua respiração cessa
e não se sente mais seu pulso.
Tradicionalmente, uma pena é colocada transversalmente sobre os lábios, e
observamos, por oito minutos, se há algum sinal de movimento na pena.
Os olhos são fechados com delicadeza e os braços e as mãos são estendidos ao
longo do corpo.
Qualquer água encontrada por perto é jogada fora.
O corpo nunca é deixado sozinho, pois sua alma vital está temporariamente
desorientada.
Durante o período entre a morte e o enterro, tradicionalmente 24 horas, ou menos,
salmos são lidos o tempo todo, a fim de facilitar a passagem.
Nas comunidades religiosas, o corpo é preparado para o enterro pela Chevra
Kadisha (Sociedade Sagrada).
Nesse procedimento, chamado tahará (purificação), o corpo é lavado com água
morna, enquanto pessoas desta sociedade recitam versículos bíblicos e salmos.
Isto é feito para honrar a pessoa que faleceu e também para fazer a cura da alma
em transição.
Tahará é uma experiência extremamente poderosa para quem realiza o ritual e
profundamente significativa para a família e os amigos.
Ao término da preparação do corpo, uma grande quantidade de água — no mínimo
uns vinte litros —é jogada sobre o corpo, que é mantido em pé.
Isto representa a purificação final na preparação para o enterro.
Depois disso, o corpo é enxugado e colocado numa mortalha.
Muitos rituais tradicionais foram eliminados pelos judeus não-ortodoxos.
Acredito que isso seja um erro.
Certa vez, fui chamado por um homem que iria passar por uma cirurgia muito
grave. Ele estava preocupado com a morte.
Ele queria ter primeiro ritos de passagem budista-tibetanos e depois um enterro
judaico. Perguntei o porquê disso e ele respondeu que, assim, seu corpo estaria
sendo acompanhado constantemente, e que orações seriam feitas para ajudar sua
passagem. Eu lhe disse que no Judaísmo há um ritual similar, só que com orações
diferentes, mas o processo é o mesmo.
Ele ficou muito espantado em ouvir isso; a maioria dos judeus desconhece
completamente a tradição, e não imagina como ela é rica.
Seria muito bom para os judeus não-ortodoxos rever este aspecto específico da
tradição e procurar seriamente prestar mais atenção a honrar o mistério da morte.
À medida que aprendemos mais sobre a abordagem que o misticismo judaico faz
para o ato de morrer, as viagens da alma, a elevação das centelhas e da
consciência do mundo para um nível mais elevado, precisamos ficar mais atentos à
importância de alguns de nossos antigos rituais.
Os costumes judaicos praticados após o enterro são de uma maneira geral bem
conhecidos.
Nos primeiros sete dias, os membros da família mais próximos à pessoa falecida
"sentam shiva" (shiva significa sete), o que tradicionalmente consiste em sentar em
bancos baixos ou almofadas (para ficar perto do chão), manter uma vela acesa
durante a semana toda, não usar calçados de couro, cobrir ou virar os espelhos da
casa contra a parede e ter um minian (dez adultos) em casa, três vezes ao dia,
para as orações da manhã, da tarde e após o pôr-do-sol, a fim de que o kadish
(oração para os mortos) seja recitado.
Este procedimento, com seus rituais, tem um bom efeito terapêutico para a família
Ele congrega a comunidade, fortalecendo os laços familiares e dando uma estrutura
de apoio nessa fase difícil.
Também nos dá um senso de conectividade com a tradição, porque sabemos que
estas práticas vêm sendo feitas há milhares de anos.
Muitos dos que normalmente não cumprem as práticas judaicas tradicionais
reconhecem que "sentar shiva" tem um grande valor e um profundo significado.
O período de luto continua por trinta dias (shloshim), durante os quais as pessoas
enlutadas não devem cortar o cabelo, vestir roupas bem-passadas, casar-se, ir a
festas ou fazer viagens de negócios.
O kadish é recitado todos os dias na hora das orações (tradicionalmente três vezes
ao dia), por 11 meses, em memória do pai, da mãe, de um filho ou de um cônjuge.
A maioria dos rituais do luto foi idealizada para ajudar as pessoas que estão
passando por esta dor.
No nível místico, estes rituais também ajudam a alma durante a sua passagem.
Isto é especialmente certo no caso das orações que são enviadas para auxiliar uma
alma que precisa de redenção.
Mais adiante, veremos que o poder da oração por aqueles que morreram é uma
parte importante no processo de redenção.
Se somos, ou não, atraídos pelos procedimentos tradicionais do luto, uma coisa não
podemos deixar de fazer: pensar sobre a perda da pessoa amada.
Podemos ser um esteio importante para a alma que se foi simplesmente enviando
para ela nosso amor e nosso apoio.
Quando somos capazes de sentir que estamos fazendo algo, isso nos ajuda durante
o período de luto, e os místicos afirmam que realmente ajuda a alma.

Redenção da Nefesh
Como já mencionamos anteriormente, existem cinco níveis de alma.
Os níveis mais elevados, neshama, chayá e yehidá, funcionam de um modo
que não pode ser diretamente afetado pelo que uma pessoa faz para a sua
consciência.
No entanto, são indiretamente afetados pela condição de nefesh e ruach.
Após a morte, os níveis mais elevados da alma vão retornar às "regiões" de onde
vieram, mas eles devem esperar pela redenção de nefesh antes de seu descanso
final em suas condições naturais.
Se nefesh não for redimido, ruach não pode ser "coroado" na parte inferior do
Jardim do Éden.
Se ele não puder ser coroado, os níveis mais elevados da alma não poderão
alcançar o centro da consciência primordial.
Dessa forma, todos os níveis são "punidos", tendo de esperar a redenção do nível
mais baixo da alma, nefesh.
Diz-se que a nefesh vagueia entre o túmulo e a casa onde o falecido morava, nos
primeiros sete dias após a morte, procurando pelo corpo que tinha em vida.
Depois, a nefesh é purificada no Gehinom, e então ela vagueia pelo mundo até
conseguir uma vestimenta (significando um nível de consciência primordial).
Este processo de purificação leva 12 meses.
Assim que ela tem sua vestimenta, consegue entrar na parte inferior do Jardim do
Éden, onde se junta à ruach.
Ruach então é coroado, a neshama se une com o Trono, e tudo está em ordem.
Numa parte notável do Zohar, há o resumo do processo de purificação de nefesh
durante os 12 meses que se seguem à morte, sugerindo um cenário
completamente diferente de tudo o que a maioria de nós aprendeu antes.
O sistema místico judaico propõe que o processo de tikun olam (conserto do
universo) continue mesmo após a morte.
O leitor deve ter em mente que a linguagem da Cabala é poética, as imagens são
metáforas e a intenção é estimular a alma, e não a mente.
Sob essa perspectiva, permita-se entrar nesses ensinamentos místicos como se
estivesse entrando no jardim das delícias.
Assim que uma nefesh não tem mais um corpo, ela perde seu livre-arbítrio, o qual
está associado somente às pessoas vivas.
Por conseguinte, ela não pode mais se redimir e precisa da orientação e da ajuda
de um ser vivo que tenha livre-arbítrio.
Nesse contexto, há muitas maneiras pelas quais uma nefesh pode ser redimida.

Ajuda Prestada por um Tzadik


Em primeiro lugar, existem tzadikim (seres iluminados) que residem em outras
dimensões.
Estes seres iluminados vêm ao mundo quando os pratos da balança do bem e do
mal se inclinam perigosamente para o lado do mal.
Quando isso ocorre, o tzadik tem a incumbência de preservar o mundo, para que
este fique em ordem. Quando existe um tzadik no mundo, as almas não-redimidas
— almas que vagueiam —, principalmente as que estão no período dos primeiros
12 meses após a morte, são utilizadas por esse ser iluminado como "operárias" que
vão manter o mundo funcionando em ordem.
Elas agem como os anjos, porque desempenham tarefas em realidades diferentes
daquelas que vivenciamos normalmente.
Enquanto servem aos seres iluminados, as almas elevam centelhas e são redimidas
pelo mérito do trabalho que exercem a serviço do tzadik.

Oração
Se não há um tzadik vivo neste mundo, o rolo de pergaminho da Torá irá defender
estas almas.
Em outras palavras, podemos dizer que todas as orações deste mundo são
lembradas para manter iluminadas as almas não-redimidas.
Dessa forma, a família e os amigos que rezam por alguém que faleceu
recentemente podem ter uma grande importância para a redenção dessa alma.
Vale acrescentar que nós, que temos livre-arbítrio, podemos realizar coisas que
estão além da capacidade de uma alma que se encontra nas dimensões da morte.

O Mérito dos Antepassados


A seguir, o nível de ruach da alma é retirado do Jardim do Éden para ajudar a
iluminar e, dessa forma, soerguer o nível de nefesh da alma.
Durante este processo, três vezes ao dia, uma ruach vai para a Gruta de Machpelá,
isto é, onde os túmulos de Abraão, Sara, Isaac, Rebeca, Jacó e Lea estão.
Sua presença estimula seus ossos, da mesma forma que a presença de um
tataraneto aquece o ânimo de um tataravô.
Este "aquecimento" atrai um orvalho celeste, que é a essência por meio da qual a
vida se expressa.
Assim que o orvalho é estimulado, ele desce do céu, nível a nível, até que alcança a
parte inferior do Jardim do Éden.
Aqui, o orvalho celeste se banha e se perfuma com especiarias.
Então, o orvalho aromático entra na Gruta de Machpelá e a fragrância do Jardim do
Éden levanta o ânimo dos patriarcas e matriarcas.
Pelo mérito deles, o mundo é curado e as almas que estão nas dimensões da morte
são redimidas.

Compaixão do Divino
Se nenhum desses processos acima descritos acontece, e o mundo fica em perigo
porque os patriarcas e as matriarcas estão adormecidos (não estão protegendo o
mundo), então nefesh informa ruach, ruach informa a neshama, que, por sua vez,
informa o Sagrado, e o Sagrado senta no Trono da Misericórdia.
Isto desperta a emanação de um rio de orvalho que provém do Sagrado Antigo (Ein
Sof).
Este rio corre para a "Cabeça do Rei" (os ramos superiores da Árvore da Vida:
chochmá, biná e daat), que faz com que os ramos inferiores, os espíritos dos
patriarcas e matriarcas (chessed, gevurá e tiferet) sejam abençoados.
Em virtude disso, tudo no mundo é abençoado, o que ajuda todas as almas não-
redimidas.

A diferença que existe entre a abordagem cabalística da redenção das almas e as


descrições encontradas em outras obras da literatura judaica é tão pronunciada que
devemos fazer uma pausa para refletir.
Aqui vemos o tratamento da alma sob uma luz completamente diferente: sua
redenção é praticamente assegurada.
Quer servindo ao tzadik, quer pelo mérito da oração, pelo mérito dos patriarcas e
matriarcas, ou como último recurso, pela emanação da própria Fonte, o cenário
após a morte é repleto de bondade amorosa e misericórdia.
Comparado ao conceito de recompensa e castigo, que aparece em outras obras da
literatura judaica, a idéia de misericórdia neste caso não é só pessoal, per si, mas
vem a ser a quintessência do projeto universal.
Embora nefesh carregue todo o peso da vida, o impulso do universo é elevar todos
os níveis de consciência.
Nefesh será alçada por este ímpeto a um nível onde poderá se investir numa
consciência mais elevada, e juntar-se com ruach no Jardim do Éden.
Quando isto é realizado, a neshama alcança seu potencial mais elevado.
Como foi dito anteriormente, os níveis da alma estão conectados, como se
estivessem na corda de um violino.
Esta corda não vai soar bem se houver alguma coisa que a impeça.
Dessa forma, o processo da redenção dos níveis inferiores da alma liberta os níveis
superiores, e a corda de nosso violino é completamente liberada para se juntar à
sinfonia cósmica, numa afinação perfeita.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 44

Parte Quatro - Além desta Vida – Olam Há-Bah (O Mundo Vindouro)

Reencarnação – Parte 1
A morte de crianças nos deixa perplexos, pois é cruel e parece sem sentido.
Como lidamos com isso?
Visões de outros mundos não aliviam a dor dos pais que estão com o coração
partido devido à perda de um filho, especialmente uma criança muito nova, que
não teve a oportunidade de experimentar a vida.
Nossos amigos Yakov e Minam nos convidaram para sermos os padrinhos de seu
primeiro filho, Hanoch.
Na hora de sua circuncisão, alguma coisa chamou minha atenção.
Normalmente, a rápida cirurgia resulta numa quantidade moderada de sangue.
O bebê chora por alguns segundos, até que um pedaço de algodão molhado em
vinho é colocado entre seus lábios. Mas Hanoch sangrou muito pouco e quase não
chorou.
Era como se ele soubesse algo que as outras pessoas presentes deixaram de ver.
Nesse mesmo dia, sua mãe, Minam, ficou muito doente.
Pensamos que era algum problema pós-parto, mas, um ano mais tarde, foi
descoberto que Miriam tinha Aids.
Isto aconteceu antes que a população em geral tivesse mais informação sobre esta
doença.
Ela trabalhara na área médica e, de alguma forma, teve contato com sangue
contaminado, provavelmente por meio de uma agulha, antes do início do uso de
procedimentos cuidadosos específicos, comuns nos dias de hoje.
Miriam faleceu seis meses depois disso e constatou-se que Hanoch também era
soropositivo.
Ele pode ter sido a primeira criança de Israel a ter essa doença.
Ele morreu quando tinha oito anos.
O envolvimento com uma doença grave ou com a morte de uma criança põe à
prova a fé de uma pessoa, bem no âmago do seu ser.
Se a vida tem algum propósito, qual é o significado da morte de uma criança?
Além do mais, uma vez que vivenciamos a tristeza de uma perda pessoal tão séria,
começamos a pensar em todo o sofrimento do mundo.
Por que há tanta fome, tantas mortes absurdas, tanta crueldade?
Por que houve tantas guerras durante toda a história do mundo, e as pragas,
doenças, tirania, pobreza, torturas e assassinatos?
Que espécie de Deus supervisiona tudo isso?

É lógico que ninguém jamais respondeu adequadamente a essas perguntas.


No entanto, tradições espirituais tentaram oferecer cosmologias que suscitassem
insights a respeito de destino, carma, reencarnação e viagens da alma.
Os ensinamentos do misticismo da tradição judaica começam com a premissa de
que a vida e a morte, como nós as conhecemos, são reflexos de outras realidades.
O que nós enxergamos como começos e fins são simplesmente segmentos de algo
que não tem fronteiras.
Os ensinamentos sobre reencarnação são de grande ajuda, quando não sabemos
onde nos apoiar na hora trágica da morte.
Se for a morte de uma criança pequena, ou de um jovem adulto, na flor da idade,
podemos às vezes encontrar consolo buscando entender que eles terminaram sua
missão e, então, tinham de seguir adiante.
Realmente, existe um aforismo que diz: "Os bons morrem cedo a fim de que não
corram o risco de ser corrompidos, e os maus vivem uma vida longa, para terem
mais chance de se arrepender."

Velhas Dívidas
Certa vez, um homem chamado Baruch foi procurar o Baal Shem Tov com uma
longa lista de queixas.
Na realidade, a vida não era boa para ele.
Ele não conseguiu ter uma boa escolaridade porque, desde muito cedo, teve de
ajudar a manter sua família.
Ele não tinha sorte com as mulheres.
Ele não conseguia manter um emprego por muito tempo.
As pessoas não o tratavam bem e ele estava sempre em dificuldades.
O que havia acontecido?
O que ele tinha feito para merecer tal destino?
E o que poderia fazer para transformá-lo?
O Baal Shem Tov ouviu tudo cuidadosamente, alisou sua barba e, então, disse:
"Baruch, quero que você vá para a cidade cujo nome vou escrever neste pedaço de
papel. Lá chegando, você vai procurar Yishai ben Shabbtai. Procure até encontrar,
porque, assim que isso acontecer, você entenderá tudo."
Baruch foi imediatamente para aquela cidade.
Ele foi em busca de Yishai ben Shabbtai em cada shul, perguntou aos açougueiros,
aos comerciantes, ao coletor de impostos da cidade.
Ninguém jamais tinha ouvido falar nessa pessoa.
Baruch procurou durante semanas.
Ele não podia acreditar que o santo Baal Shem Tov o tivesse enviado numa procura
inútil.
Já exausto, finalmente acabou chegando ao cemitério da cidade, onde encontrou
um coveiro velho e enrugado. Baruch lhe contou sua história.
O coveiro olhou para ele por debaixo de suas sobrancelhas hirsutas e perguntou:
"Você disse Yishai ben Shabbtai?"
Baruch fez que sim com a cabeça, e o velho deu uma risadinha.
"Incrível", ele disse. "Ele foi enterrado na primeira sepultura que eu cavei,
cinqüenta anos atrás, e, desde então, ninguém jamais perguntou por ele.
Vou lhe contar, ele foi o homem mais avarento, malvado e cruel que já existiu."
O velho coveiro levou Baruch para o outro lado do cemitério, onde uma pedra
pequena assinalava o túmulo de Yishai ben Shabbtai.
O coveiro disse: "Aqui está ele, mas devo dizer-lhe que ele nunca o teria ajudado;
ele teria cuspido em sua cara, da mesma forma que ele fazia com todos os outros."
Baruch não entendeu nada.
Retornou ao Baal Shem Tov e contou a história de sua busca.
"Por que o senhor me mandou procurar alguém que morreu antes de meu
nascimento?", perguntou. O Baal Shem Tov olhou profundamente em seus olhos e
disse: "Baruch, olhe para dentro de si, pois você tem as centelhas renascidas da
alma de Yishai ben Shabbtai, e esta é a resposta às suas perguntas. Cada problema
que você enfrenta eleva mais uma das centelhas que ele fez cair."

Guilgul: Reencarnação
Assim como todos os outros mistérios que cercam a morte, a questão da
reencarnação tem sido motivo de muita controvérsia entre as pessoas que
pertencem à corrente predominante do Judaísmo.
Até mesmo nos dias de hoje, quando relato contos hassídicos que contêm a idéia
da transmigração das almas, pessoas presentes muitas vezes me procuram para
dizer: "Não sabia que o Judaísmo acredita na doutrina da reencarnação."
Na verdade, muitos textos judaicos debatem esse tema.
Além do mais, "contrastando com a evidente oposição da filosofia judaica, a
metempsicose (reencarnação) é plenamente aceita na Cabala".
O Bahir (século XII), um dos primeiros livros de Cabala, se refere à reencarnação e,
no século XVI, Chaim Vital escreveu vários livros sobre o assunto.
O trabalho mais compreensível que temos à disposição hoje em dia é o excelente
livro Jewish Views of the Afterlife, escrito por Simcha Paull Raphael (Aronson,
1994).
Os primeiros estudiosos que se ocuparam dessa questão geralmente consideravam
a reencarnação como um castigo.
Mais tarde, a abordagem judaica da reencarnação foi influenciada pela Cabala
luriânica, que sugere que centelhas de almas-raízes podem ser recolhidas e
direcionadas para as almas individuais.
Como já visto, uma das doutrinas principais de Lúria sugere que a tarefa da
humanidade é redimir as centelhas caídas da humanidade primitiva.
Cada alma-raiz, portanto, deve elevar os 613 membros que representam Adão e
Eva. Isto é denominado Shi'ur Komá, que significa "medida do corpo".
O Shi'ur Komá é uma medida metafísica, apesar do equívoco de ser uma tentativa
literal de medir o corpo de Deus.
Realmente, esta doutrina era uma das partes mais secretas dos primeiros
ensinamentos cabalísticos, pois utilizava metáforas que seriam certamente mal-
entendidas por leitores não iniciados.
Por exemplo, as dimensões físicas de Deus são estimadas em 236 mil parasangs,
aproximadamente 960 mil quilômetros. Naturalmente, isso afrontou os leitores
racionais, mas, na verdade, era uma referência a uma interpretação tipicamente
cabalística de um verso dos Salmos.
[O número 236 vem de Salmos 147:5: "Grande é o Divino e abundante em força."
As palavras "e abundante em força" (v'rav koach) em gematria somam 236.
Dessa forma, a frase poderia ser lida da seguinte forma: "A grandeza (altura) do
Divino é 236."]
Na realidade, o verdadeiro ensinamento do Shi'ur Komá é bastante profundo.
Continuando com o conceito descrito na abertura destes textos, de que a criação foi
o resultado do Rompimento dos Recipientes, podemos perceber que todas as
centelhas caídas, coletivamente, representam o corpo de Deus, se é que podemos
falar assim.
Se estas centelhas fossem reunidas, elas se fundiriam na luz de Deus.
Dessa forma, toda a criação é o corpo metafórico de Deus, e cada pessoa que está
na criação incorpora o potencial de devolver as centelhas divinas ao seu ponto de
origem.
Os místicos da tradição judaica afirmam: "A forma dos seres humanos corresponde
à forma mística da Divindade... Tudo no corpo humano, cada um dos 248 membros
e 365 tendões, corresponde a uma luz celestial, enquanto são organizados no
formato primordial da mais elevada manifestação de Deus. A tarefa humana é levar
nossa verdadeira forma à sua perfeição espiritual, a fim de desenvolver a imagem
divina dentro de nós. Isto é feito cumprindo os 248 mandamentos positivos e os
365 mandamentos negativos da Torá, cada um dos quais está conectado a um dos
órgãos do corpo humano, e conseqüentemente, a uma daquelas luzes celestiais."
Na realidade, há milhares de leis no âmbito da observância judaica.
Foram feitas tentativas para separar 613 da Torá (248 mais 365), mas existem
muitas variações nestas listagens, que muitas vezes incluem um percentual
significativo de leis que só se aplicam às atividades dos sacerdotes no Templo.
Visto por uma perspectiva mística, o número 613 representa categorias
arquetípicas dentro das quais as leis podem ser organizadas.
Isto é uma metáfora para o projeto do universo, e está equacionada
hipoteticamente com o "corpo de Deus", se é que podemos falar assim.
A linguagem do Zohar diz que são os 613 órgãos que produzem insights em nossas
almas.
Em palavras simples, o significado desse ensinamento é que tudo o que fazemos na
vida é como se fosse uma chave que nos permite dar uma olhada numa parte da
alma; e algumas das coisas que fazemos nos permitem que esta olhada seja mais
profunda do que outras.
No entanto, a única maneira que temos para nos conectar com nossa alma é por
meio de insights.
Nossa bondade, assim como nossa raiva, nossa compaixão, assim como nosso
medo, são mestres maravilhosos, se conseguirmos ver as centelhas ocultas que
estão neles.
O segredo é aprender a observar cuidadosamente, como e quando características
pessoais importantes se revelam em nossas vidas.
Adquirimos insight quando nos tornamos capazes de notar como essas
características nos afetam e afetam as pessoas que nos rodeiam.
A partir de insights, abrimos novos portais.
Descobrimos que todas as peculiaridades de nossas personalidades, hábitos,
comportamentos, condicionamentos e características individuais formam um
padrão, algo como o estampado de uma cortina.
Iluminamos este padrão e, como um observador, perceberemos aspectos de nossa
própria alma.
Fazendo um exame minucioso, o padrão vai nos revelar o que é a alma e o que ela
precisa fazer.
Por meio desse processo, de acordo com a Cabala, a fonte da vida se faz conhecer.
Sob essa perspectiva, a reencarnação tem um vasto potencial.
Não é tanto um castigo pelos pecados, mas, na verdade, uma oportunidade a mais
para elevar qualquer uma das centelhas que ainda não foram redimidas em uma
alma-raiz.
Como diz o Tikunei Zohar: "Enquanto ainda existir um único órgão onde o Sagrado,
Abençoado Seja, não resida, esta pessoa será trazida de volta a este mundo, por
meio da reencarnação, para que se aperfeiçoe em todas as suas partes, de modo
que todas elas fiquem perfeitas na imagem do Sagrado Abençoado."

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 45

Parte Quatro - Além desta Vida – Olam Há-Bah (O Mundo Vindouro)

Reencarnação – Parte Final

Meditação para a Cura dos Mortos


Por alguns milhares de anos, as pessoas usaram os sonhos como forma de se
comunicar com os mortos.
Empenhando-se ativamente em alcançar estados alterados de consciência que
simulassem a experiência de sonhar, os cabalistas eram capazes de penetrar em
dimensões desconhecidas.
Este processo é baseado no princípio cabalístico de que nossas imaginações estão
conectadas a realidades mais elevadas.
Podemos utilizar esse mesmo procedimento que os sábios usavam para nos
conectar com nossos entes queridos que já morreram.
Podemos estar com qualquer um deles — não precisa ser o pai ou a mãe ou mesmo
um parente.
É necessário, contudo, que seja uma pessoa que tenhamos conhecido bem, quando
em vida.
Recomenda-se especialmente que esta prática seja feita em Yom Kipur, durante o
serviço de Izkor (lembrança), quando trazemos à mente a lembrança de nossos
pais.
Inicialmente, algumas pessoas têm dúvidas sobre o exercício a ser apresentado,
são inibidas por um censor interno que diz que estamos inventando este contato,
por meio de nossa imaginação.
Afinal, temos crenças fortemente condicionadas a respeito da morte.
Se a voz do censor for muito forte, dê razão a ela.
Não obstante, permita-se "fingir" como se estivesse acontecendo mesmo.
Não inicie esta prática com alguém que tenha sido violento com você, ou que lhe
tenha tratado com brutalidade.
Daqui a algum tempo, você pode até querer trabalhar com uma pessoa assim, mas,
para começar, é melhor que seja com alguém a respeito de quem você tenha
sentimentos agradáveis ou neutros.
1. Procure um lugar tranqüilo, onde você não será perturbado nos próximos trinta
minutos. Sente-se numa posição confortável, feche os olhos e preste atenção às
sensações de seu corpo.
2. Após alguns minutos de relaxamento, deixe que imagens de entes queridos, já
falecidos, venham à sua mente. Perceba como você se sente, enquanto estas
imagens vão surgindo.
3. Escolha uma só imagem para trabalhar. Deixe que a imagem dessa pessoa
repouse em sua mente. Procure comunicar-se com ela por telepatia, ou mesmo
utilizando uma voz imaginária de dentro de sua mente.
Pergunte o que quiser à imagem. Por exemplo, você pode perguntar:
a. Como é o lugar onde você está?
b. O que aconteceu logo após a sua morte?
c. Quem mais está com você aí?
d. Você esteve nos sonhos de alguma pessoa viva?
4. Agora, diga para a imagem: "Conte para mim tudo o que você acha que fez
corretamente, durante a sua vida. Quais são as coisas das quais você se orgulha de
ter feito?"
(Deixe-a falar com você.)
5. E: "Quais são as coisas, durante a sua vida, que você acha que não fez tão bem?
Quais são as coisas que você mais se arrepende de ter feito?"
(Deixe a imagem responder. Você poderá ficar triste neste momento. Procure ficar
conectado, da melhor forma que puder.)
6. Depois: "Se você pudesse escolher uma das coisas das quais você mais se
arrepende, qual seria? Caso você pudesse viver novamente, o que, de mais
importante, você mudaria?"
7. Agora, deixe a imagem ir se desfazendo aos poucos.
Tente lembrar de uma situação que tenha realmente ocorrido com esta pessoa,
quando ela estava viva.
Traga este acontecimento para a sua imaginação como se seu ente querido
estivesse vivo de novo.
Sua tarefa é lembrar esse acontecimento como se ele tivesse ocorrido de modo
diferente, afim de que a pessoa não se sentisse arrependida.
Veja o acontecimento novamente, em sua forma mais perfeita.
Permita-se rever várias vezes esta forma nova por alguns minutos.
8. Solte-se, deixe este acontecimento ir e convide a imagem de volta à sua mente.
Perceba como você se sente. Pergunte a ela: "É dessa forma que você gostaria de
ser lembrada?" Se disser que sim, concorde em fortalecer essas lembranças.
Se disser que não, procure saber o que ela gostaria, e tente dessa maneira na
próxima vez.
9. Prometa voltar e pergunte se ela também voltará. Se tudo correr bem, a imagem
concordará em voltar. Dê até logo e, se puder, dê-lhe um abraço.
Respire profundamente umas duas vezes, e abra os olhos.

Assim que você tiver conseguido identificar uma qualidade característica, com a
qual possa trabalhar em prol da pessoa que morreu, procure meditar regularmente
sobre essa pessoa, imaginando situações nas quais ela agiria de outra forma, se
tivesse a chance de fazer tudo de novo.
Logo, os sentimentos que você tem a respeito dessa pessoa vão começar a mudar,
tornando-se mais ternos, e isso cura e ajuda a redimir os mortos.
Obviamente, a chave para esta prática é uma nova formatação de nossas
lembranças.
Se queremos nos agarrar às velhas e dolorosas lembranças, porque "é assim que
aconteceu", continuamos paralisados, sem sair do lugar, e isso acontece também
com aquela pessoa com quem estamos trabalhando.
Se pudermos usar nossas imaginações para recriar nossas lembranças,
começaremos a nos libertar e, dessa forma, libertaremos centelhas para as almas
dos mortos.
Esta prática é muito positiva.
Trata-se de uma prática de perdão e regeneração.
Todos nós entramos nesta vida com uma alma pura.
Estamos irremediavelmente unidos ao nosso destino, ao trabalho que temos de
fazer e às nossas forças e fraquezas intrínsecas.
Muitas vezes, fazemos confusão, em algum nível.
Da mesma forma que esperamos ser perdoados, precisamos encontrar um modo de
perdoar os outros.
A cada vez que conseguimos fazer isso, o universo é elevado mais um ponto na
escala de sua consciência.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 46

Parte Quatro - Além desta Vida – Olam Há-Bah (O Mundo Vindouro)

O Ato de Morrer e a Morte – Parte 1

Reb Shlomo Carlebach contava histórias hassídicas maravilhosas.


Ele geralmente começava mais ou menos desta forma:
"Queridos irmãozinhos, queridas irmãzinhas, ouçam com atenção, enquanto conto
para vocês a mais sagrada das sagradas... a mais profunda das histórias profundas,
mamash (realmente!) a mais profunda das profundezas."
Ele virava seus olhos e suas pálpebras tremiam enquanto ele entrava em
dimensões celestes.
Num Shabat de um fim de semana de inverno, no final dos anos 80, Shoshana e eu
visitamos o Moshav Modi'im, entre Jerusalém e Tel-Aviv, onde muitos seguidores de
Reb Shlomo moravam.
Sabíamos que o rebbe estaria lá naquele fim de semana e queríamos passar um
Shabat inteiro em sua companhia.
Ao final do serviço religioso de sexta-feira à noite, que consistia de cerca de
noventa minutos de um serviço bastante animado, todos os participantes se
dirigiram para o salão de jantar, onde uma refeição tradicional de Shabat foi
servida. Perto de duzentas pessoas estavam sentadas em volta de mesas
compridas e, de vez em quando, alguém no salão, espontaneamente, começava a
cantar um novo nigun.
Logo, as pessoas batiam nas mesas, e os talheres e os pratos faziam um barulho
que acompanhava o ritmo da cantoria. Ao final do nigun, tínhamos alguns minutos
para comer mais um pedacinho de galinha e de kugel, e então outro nigun
começava.
Enquanto serviam a sobremesa, Reb Shlomo contou uma de suas histórias.
Nessa noite especial, ele nos deu um ensinamento sobre a oração dos enlutados, o
kadish.
O kadish é uma das preces mais conhecidas da liturgia judaica e suas palavras de
abertura são bem familiares.
Esta prece é entoada em funerais, em recordação do Holocausto, no iurtzait
(aniversário de falecimento), e em outras ocasiões tristes: "Itkadal ve-Itkadash
Shemé Rabá..." (Que o Seu grande Nome seja exaltado e santificado...).
Quando algum parente próximo morre, rezamos diariamente o kadish dos
enlutados por 11 meses, com base na crença de que a alma leva 12 meses para
passar de um nível a outro.
O kadish é considerado um meio para ajudar o ente querido a fazer sua transição
para dimensões mais elevadas.
O décimo segundo mês é omitido, pois se supõe que o falecido já tenha adquirido
suficiente mérito para fazer a transição por iniciativa própria.
Rezar o kadish no último mês poderia significar que a pessoa falecida não era
suficientemente virtuosa, e isso não seria apropriado.
Reb Shlomo começou: "Amigos muito queridos, vocês sabiam que, nos velhos
tempos, se alguém estivesse com o aluguel em atraso, o proprietário tinha o direito
de fazer justiça com as próprias mãos?
Ele podia retirar a mobília toda e vendê-la; ele podia colocar os devedores na
cadeia; ele até podia, que Deus não permita, tirar as pessoas de casa e vendê-las
como escravos.
O fato que vou relatar aconteceu há 150 anos, na casa de um pobre shleper, que
era casado com Feigale, e que devia muitos meses de aluguel.
Certo dia, depois que Feigale tinha saído para ir ao mercado, o proprietário
apareceu com a polícia e levou embora o marido e as oito crianças.
Quando Feigale voltou do mercado, os vizinhos lhe contaram o que tinha
acontecido.
Então, a santa mulher foi procurar o proprietário a fim de saber o paradeiro de seu
marido e seus filhos. O homem disse que ele tinha a intenção de vendê-los como
escravos, para conseguir o dinheiro dos aluguéis atrasados.
Ela suplicou; ela implorou. Ele pensou sobre o assunto e percebeu que talvez
pudesse obter até o dobro do que conseguiria no mercado de escravos.
Seria uma soma exorbitante, mas ele não tinha nada a perder.
Assim, ele finalmente concordou em resgatá-los.
Ele pediu cem rublos pelos aluguéis atrasados e 9.700 rublos por seu trabalho.
Ele disse à mulher que o dinheiro extra serviria para subornar a polícia e as outras
autoridades, a fim de libertar seu marido e seus oito filhos.
A mulher olhou fixamente para o proprietário, mal acreditando no que tinha
acabado de ouvir.
Dez mil rublos! Já seria muito difícil arrumar cem rublos.
Mas dez mil rublos era uma fortuna além de qualquer possibilidade. Ela saiu da
casa do proprietário andando vagarosamente pelo caminho de terra que levava à
sua própria casa.
O que ela poderia fazer? Ela botou as mãos nos bolsos e encontrou três rublos.
Isto era tudo o que ela tinha. Três rublos. Não havia nada mais para vender.
Tudo já tinha sido tirado da casa a fim de dar de comer às crianças.
Parecia que tudo estava perdido."
Nesta parte da história, Shlomo fechou os olhos e balançou sua cadeira.
"E agora, meus amigos muito queridos, ouçam com atenção", ele disse,
cantarolando, "vou lhes contar o que aconteceu com essa santa mulher. Ouçam
com atenção, mas não ouçam com seus ouvidos. Ouçam com seu coração — lá no
fundo, bem lá no centro de seu coração. Na mais profunda das profundidades,
ouçam, ouçam...
A mulher estava andando e, de repente, um pensamento lhe veio à cabeça.
O pensamento disse a ela: `Feigale, quando seu marido falecer, quem vai rezar o
ka-dish por ele? Quem vai saber quando ele morreu?'
Este pensamento aterrorizou Feigale. Ela encontrou um pobre judeu no caminho,
deu-lhe um rublo e lhe disse: 'Por favor, diga o kadish dos enlutados por meu
marido.'
Ela deu o nome de seu marido ao mendigo e foi embora.
Enquanto estava andando..." Shlomo começou a cantarolar de novo.
Sempre que ele fazia isso, alguma coisa extraordinária, alguma coisa
profundamente mística, estava a ponto de acontecer na história que ele estava
contando.
Então, chegamos mais para frente, para ouvir com mais atenção ainda.
"Enquanto estava andando", ele repetiu, "outro pensamento veio à sua mente e ele
disse: `Feigale, e o que acontece com as outras pessoas que morrem e que
ninguém diz kadish por elas?"
Agora, Shlomo começou a cantar um pequeno nigun, repetindo a pergunta até que
todas as almas presentes naquele salão abarrotado também estavam cantarolando
junto: "E o que acontece com as outras pessoas que morrem e que ninguém diz
kadish por elas?"
Logo estávamos todos completamente hipnotizados pelo poder desse mantra.
Enquanto Shlomo cantava, podia perceber que havia um clima diferente no salão;
estávamos todos pensando em nossos próprios pais e avós, ou também em outros
parentes, que passaram para outras dimensões, sem que kadish algum tivesse sido
dito por eles. Além disso, quantos estranhos morreram sem família, e ninguém lhes
mandou orações? Pensei nas pessoas que morreram no Holocausto, famílias
inteiras que pereceram sem deixar ninguém para trás que pudesse dizer kadish.
Reb Shlomo poderia ter finalizado sua história neste ponto, tendo em vista as
lágrimas que já tinham começado a correr.
Mas ele continuou. "Então, esta santa Feigale correu de volta para o mendigo, a
quem ela tinha pedido para dizer kadish por seu marido, e deu-lhe mais um rublo,
dizendo: 'Caro senhor, diga kadish por todas as almas por quem jamais nada foi
dito. Por favor, diga kadish a fim de ajudar sua passagem pelas dimensões
celestes.'
Feigale saiu de perto do mendigo, profundamente comovida.
Mas, assim que começou a se afastar, ainda outro pensamento lhe veio à mente.
Ela voltou para o lugar onde o pobre yid estava sentado, com os dois rublos em sua
mão, e ela lhe deu o terceiro, o último rublo que tinha, a última coisa que possuía,
dizendo: 'Caro senhor, quando disser kadish por todas essas almas perdidas, ponha
realmente, mas realmente mesmo, todo o seu coração em suas orações; não
retenha nada, de forma alguma.'
Nas horas que se seguiram, Feigale permaneceu sentada no meio de um campo,
não muito longe do mendigo.
Quando o Sol se pôs, ela ouviu o mendigo rezando.
Oy, assim ele rezava. Ele rezava com o coração partido, pedindo ajuda com todas
as suas forças e com toda a sua dor.
Ela sentiu seu rosto encharcado pelas lágrimas, enquanto era levada para
dimensões celestiais numa carruagem feita de chamas.
As orações do mendigo romperam os portões celestiais e soltaram um rio de almas
que esperavam há muito pelo resgate.
E o mendigo terminou suas orações.
Amigos, que visão ela teve!
Ela então começou a andar na direção de sua casa, e seus passos, de alguma
forma, pareciam mais leves. Enquanto estava em seu caminho, uma linda
carruagem puxada por quatro cavalos apareceu. Isto era pouco comum; ela nunca
vira uma carruagem assim antes.
A carruagem parou perto dela e um homem bem-vestido, que estava dentro,
perguntou-lhe o caminho. E então o estranho fez uma coisa ainda menos comum
ofereceu uma carona a Feigale.
Ela ficou sem saber o que fazer. Ela nunca tinha estado numa carruagem igual
àquela.
A princípio, disse que não, mas ele insistiu. Como ela sentiu que o homem era
sincero, acabou aceitando.
Afinal, tinha sido um dia muito longo.
E logo os dois começaram a conversar. O estranho lhe fez muitas perguntas.
Aos poucos, conseguiu saber toda a história sobre seu marido, seus filhos, o
proprietário e os dez mil rublos. Enquanto ajudava Feigale a saltar da carruagem,
ele fez uma coisa incrível: tirou do bolso seu talão de cheques e preencheu um
cheque com a soma de dez mil rublos.
Ela ficou espantada. Dez mil rublos.
No dia seguinte, ela correu para o banco. Quando ela entregou o cheque ao
funcionário da caixa, ele olhou para ela de modo estranho e lhe disse para esperar
um pouco. Ela ficou em pânico. Será que o cheque era de verdade?
Quem sabe o estranho tinha feito uma brincadeira cruel, e não tinha dinheiro algum
no banco. Ela ficou esperando, cada vez mais nervosa, enquanto o tempo passava.
O funcionário voltou com seu supervisor, que olhou Feigale, de baixo para cima.
Então, o supervisor pegou a pobre mulher pelo braço e disse que fosse ao escritório
do presidente do banco.
Era um escritório grande, e o homem que estava sentado atrás da escrivaninha
olhou para ela com uma expressão zangada.
'Como foi que você obteve este cheque?', ele perguntou.
Ela lhe contou a história do encontro com um estranho numa carruagem; e contou
também a história de seu marido e seus filhos.
O homem sentado à escrivaninha apontou para dezenas de retratos pendurados
nas paredes da sala e perguntou: 'Você reconhece algum desses retratos?'
Feigale olhou e, na mesma hora, reconheceu num retrato grande, por trás da
escrivaninha, o homem que tinha estado na carruagem.
Assim que eia disse isso o presidente empalideceu.
A verdade é que o cheque que ele tinha em suas mãos estava assinado por seu pai.
E o retrato que estava atrás dele era do seu pai.
Seu pai falecera havia cinco anos, e o presidente do banco, seu filho único, nunca
tinha dito kadish por seu pai."
Finalizando que havia terminado de contar a história, Shlomo começou a cantar
uma série de nigunim.
Olhei em volta, e vi um dilúvio de lágrimas.
Quantos kadishes que não foram rezados estavam representados neste salão?

Os Ensinamentos da Morte
A morte fascina os que estão vivos.
Queremos saber tudo o que pudermos sobre ela.
Não queremos acreditar que a morte seja o fim, então exploramos ensinamentos
de sabedoria que têm alguns milhares de anos a fim de encontrar uma pista.
Quase todas as tradições sugerem que a morte não é o fim, mas sim uma
transição.
É curioso o fato de que todos os ensinamentos de sabedoria do mundo concordem
neste ponto.
Apesar de existir uma ampla variedade de interpretações sobre o que acontece,
como acontece, ou onde acontece, o que pode ser apurado de tudo isso é que a
morte é um portal para outras realidades.
Não sabemos que parte de nós a morte leva, ou mesmo se poderíamos nos
identificar com o que é levado.
Não podemos afirmar que existe algo para ser esperado ansiosamente.
Entretanto, tradições místicas em toda a história da humanidade sempre pregaram
que a realidade que vivenciamos representa como que uma gota num vasto mar de
possibilidades.
No Talmud, o rabino Jacó afirma: "Este mundo é como a sala de entrada antes do
mundo vindouro. Prepare-se nesta sala a fim de poder entrar no salão de festas."
A pergunta que surge é: Como o rabino Jacó tinha conhecimento do mundo
vindouro?
De onde os budistas tiram suas informações sobre o bardo, ou os hindus sobre os
mundos astrais?
Como os índios americanos têm conhecimento sobre o poder da cura, ou os
aborígines sobre seus deuses-espíritos?
Por que os antigos egípcios dedicavam tanto tempo de suas vidas à morte?
Será que esta conspiração internacional e multicultural que vem sendo perpetrada
na consciência da humanidade tem a finalidade de nos iludir, para pensarmos que
não levamos vidas sem propósito?
Será que queremos tanto acreditar nestas idéias que nos agarramos a qualquer
coisa na hora do desespero?
Talvez.
Talvez exista uma mensagem universal inserida em nosso código genético que é
ativada quando a consciência humana alcança certos níveis.
Pessoas que puderam vivenciar estes níveis nos falam sobre a existência de um
oceano de fragrância mística.
Seu perfume tem um aroma especial que ativa a alma.
O sussurro da experiência mística é rapidamente reconhecido.
A linguagem é suave, dócil, abrangente e saturada de amor.
E é isso que vários místicos disseram:

"De repente, meu corpo fisico perdeu sua densidade, passando por uma
metamorfose, atingindo uma textura astral. Tive a sensação de estar flutuando...
Olhei para meus braços, movimentei-os para frente e para trás, mas não sentia seu
peso. Uma alegria extasiante me inundou... Aprofundei a compreensão de que a
essência de todos os objetos é luz."
"Eu me sentia.., indissoluvelmente um com toda a natureza. Na profundidade da
alma, debaixo da dor, debaixo de todas as distrações da vida, num vasto e
grandioso silêncio, um oceano infinito de calma que nada pode perturbar."

"Eu estava arrebatado em êxtase, fora de mim, e todos os meus sentidos estavam
dotados de compreensão."

"Que tipo de conversa é essa? Como é possível que o amante morra? Seria
realmente absurdo — morrer nas águas da vida!"

"Um forte tremor tomou conta de mim, e eu perdi as forças; meu cabelo ficou
arrepiado... e veja, algo que se parece com uma fala brotou do meu coração e
chegou aos meus lábios.., então disse: 'Isto é realmente o espírito da sabedoria.'"

"Quando um mestre muito conhecido estava quase para morrer, sentou na posição
de lótus e bradou aos que estavam ao seu redor: 'Não se deixem enganar! Olhem
de frente [para o que vai acontecer]. O que é isso?' Ele repetiu isso, a fim de que
todos prestassem muita atenção, e então, calmamente morreu."

Será que precisamos dizer quais dessas citações extáticas são atribuídas a
muçulmanos, cristãos, hindus ou judeus?
Na realidade, místicos de todas estas tradições estão representados anteriormente,
mas que diferença faz?
O que devemos considerar é a semelhança das experiências; uma realidade sem
morte é uma experiência vital em todas as tradições.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 47

Parte Quatro - Além desta Vida – Olam Há-Bah (O Mundo Vindouro)

O Ato de Morrer e a Morte - Parte 2

Experiências de quase-morte

O Zohar conta que o rabino Jessé foi visitar um vizinho pobre que estava doente.
Enquanto o rabino estava sentado ao lado da cama do homem, ouviu uma voz
celestial que dizia: "Roda, roda [do destino], uma alma está para chegar à minha
presença antes da hora marcada. Ai dos vizinhos nessa cidade que nada fizeram
para ajudá-lo."
O rabino Jessé se deu conta de que esta voz celestial estava avisando que a cidade
toda pagaria um alto preço se seu vizinho morresse sem que alguém se
importasse. Ele rapidamente obteve uma erva especial, uma poção mística, pois
sabia que tinha de interceder no destino daquele homem.
A erva fez o homem suar tanto que se recuperou milagrosamente.
Mais tarde, o homem que conseguiu recuperar sua saúde disse ao seu salvador:
"Rabino! Minha alma já tinha saído do meu corpo e eu tinha sido levado até o trono
do Rei. Eu teria ficado lá para sempre, mas Deus queria que o senhor tivesse o
mérito de ter-me restabelecido."
[Por que o rabino Jessé teve de ouvir uma voz celeste antes de curar o homem que
estava morrendo? Por que não curá-lo sem a voz celeste?
O relato dá a entender que ele usou uma mágica, uma erva "especial", para salvar
a vida daquele homem. Esta espécie de mágica não era utilizada
indiscriminadamente pelos cabalistas.
Já vimos que é possível alterar o destino, mas, algumas vezes, devemos nos
resignar com nosso destino.
Nesse caso, é muito difícil chegar a uma decisão.
O que esta história mostra é que o rabino Jessé foi alertado que este caso
específico precisava de uma intervenção.
As palavras-chave na história eram "antes da hora marcada".
O rabino Jessé poderia agir assim que foi alertado do fato.
Ele teve a oportunidade não somente de salvar a vida do homem, mas também de
reverter o destino dos outros que moravam naquela cidade.
O modo pelo qual "mexemos" com o destino é inevitavelmente uma fonte de
profundo questionamento.]

Hoje em dia, a medicina moderna tem suas próprias poções mágicas, trazendo de
volta pessoas às portas da morte, de uma forma nunca ocorrida antes na história.
Muitos voltaram de uma zona crepuscular de outras realidades para relatar suas
visões.
Eles falam na linguagem dos místicos, com reverência, transformados e repletos de
amor.
Por muitos anos, pesquisadores que estudam a morte têm registrado experiências
fora do corpo e de quase-morte.
Muitas são singulares, mas as semelhanças entre elas são marcantes.
Freqüentemente, há descrições de luzes fortes, uma sensação de conforto e de
entrega.
As pessoas também vêem parentes já falecidos e, na maioria das vezes, sentem
um alívio enorme pelo fato de já não terem mais de carregar o peso da vida.
No entanto, é importante deixar claro que nem sempre as experiências de morte
são maravilhosas.
Na verdade, algumas são excessivamente difíceis.
Muitas pessoas morrem com dores físicas e muito sofrimento, assim como em
extremo desespero e angústia.
Apesar dos relatos místicos sobre as coisas maravilhosas que existem, assim que
alcançamos o outro lado, ainda assim temos de passar pelo processo da morte.
O Talmud afirma que há 903 tipos de morte, desde a mais fácil, descrita como um
beijo, até a mais difícil, que se parece com o ato de tirar um espinho alojado num
chumaço de lã pelo lado contrário.
[O número 903 é deduzido pela gematria da palavra "toza'ot", no Salmo 68:21:
"A Deus, o Senhor, pertencem as saídas (toza'ot) para a morte."]
Como podemos bem imaginar, os sábios judeus debateram muito sobre a morte.
As palavras "morto", "morte" e ‘`morrendo" são mencionadas mais de cinco mil
vezes no Talmud.

O Anjo da Morte
O Anjo da Morte é um mensageiro de Deus.
Ele tem sido associado ao anjo das trevas Samael, que representa Satã, mas age
unicamente sob as ordens ou com a aprovação de Deus.
Muitas histórias descrevem a batalha entre o Anjo da Morte e os seres humanos.
Algumas vezes, este anjo recorre a ardis, pois ele não é tão poderoso assim.
Realmente, em certas ocasiões, a Morte é derrotada.
Certa vez, o Rei David perguntou a Deus quando morreria.
Deus respondeu que pessoa alguma jamais saberia o dia de sua morte.
[Os rabinos ensinam que há sete coisas ocultas para nós: o dia da morte, o dia em
que os aborrecimentos terminam, a amplitude do julgamento, o que está no
coração de nosso vizinho, de onde nossos recursos financeiros virão e quando o mal
será eliminado]
Mas, devido ao seu mérito, David ficou sabendo que morreria num Shabat, aos
setenta anos. Então, David começou a dedicar o Shabat exclusivamente ao estudo
da Torá, porque está dito que o Anjo da Morte não tem poder algum sobre uma
pessoa que está cumprindo um mandamento.
Em um certo Shabat, que era também o dia sagrado de Shavuot, David ouviu um
som estranho e maravilhoso vindo do jardim.
Ele foi ver quem estava fazendo este ruído, mas a escada que levava ao jardim
desmoronou, e ele morreu em decorrência da queda.
O Anjo da Morte havia provocado aquele som sedutor, e David esquecera que a
Morte estava por perto.
O Anjo da Morte tem muitas cartas na manga.
Por outro lado, quando o sábio rabino Josué ben Levi estava para morrer, foi
ordenado ao Anjo da Morte realizar um de seus desejos.
O sábio pediu à Morte para lhe mostrar como era o lugar para onde estava indo, e
o anjo concordou em fazê-lo. Porém, antes de partir, o rabino Josué disse:
"Dê-me sua faca [a que você usa para matar as pessoas], para que eu não tenha
medo no caminho." E foi assim que o rabino Josué conseguiu que o Anjo da Morte
lhe passasse o instrumento da morte.
Quando chegaram ao Paraíso, o rabino Josué pulou o muro, entrando, portanto,
sem antes morrer. O Anjo da Morte agarrou uma ponta de sua roupa, mas o rabino
Josué jurou que ele não voltaria à sua vida terrena (só para aguardar a morte).
O Sagrado teve de intervir, dizendo que seu juramento de voltar à vida só seria
válido se, em sua vida inteira, ele nunca tivesse feito um juramento que tivesse
sido anulado. Isto, decerto, era quase impossível, porque nós estamos sempre
fazendo juramentos informais, como prometer a nós mesmos que vamos fazer algo
que nunca fazemos ou, por outro lado, jurando que nunca mais vamos fazer uma
determinada coisa e, logo em seguida, fazemos tudo de novo.
É por esse motivo que os judeus recitam a oração de Kol Nidrei por ocasião de Yom
Kipur, a fim de que promessas feitas sem intenção e juramentos não-cumpridos
não exerçam influências negativas na vida de uma pessoa.
Mas, durante sua vida, o rabino Josué nunca disse ou pensou alguma coisa que não
tivesse sido cumprido.
Portanto, seu voto de não voltar à vida foi honrado. O Anjo da Morte suplicou:
"Você deve devolver minha faca!", pois sem a faca ninguém nunca mais iria morrer.
O rabino Josué recusou-se a devolver o instrumento da morte.
Tratava-se de um impasse, e o universo inteiro prendeu a respiração.
Por fim, uma bat kol (uma voz celestial) ressoou: "Devolva a faca, pois as criaturas
mortais necessitam disso!" Assim, a Morte foi restabelecida. Como ficaria o
universo se os "mortais" deixassem de morrer.
Subseqüentemente, o Anjo da Morte nunca mais foi induzido a ceder sua faca,
apesar de que outro sábio tentou a mesma manobra.
Desse modo, o rabino Josué enganou a Morte e entrou no Paraíso sem morrer.
Diz-se que outras dez pessoas também entraram "vivas" no Paraíso, sendo que as
mais conhecidas são Elias, o profeta; Hanoch, pai de Matusalém; Será, filha de
Asher; e Bitiá, a filha do Faraó (que recebeu esta recompensa por ter salvado
Moisés).
[Ao todo, 11 são enumerados: os cinco que foram mencionados no texto acima e
mais: Hiram, o rei de Tiro; Eliezer, o servo de Abraão; Jabez; Ebedmelech, o
etíope; Honadah, o rechabita, o escravo do rabino Jadá ha-Nasi.]

A Cabala acrescenta outra dimensão à morte, sugerindo que ela não é monolitica,
pois tem vários níveis.
Diz-se que o Anjo da Morte é protegido e "montado" pela Sombra da Morte.
Embora tenham energias diferentes, são parceiros inseparáveis.
Além do mais, eles têm entradas diferentes para o reino da morte, pois há "portões
da morte" e "portões da sombra da morte".
Na verdade, está dito que há inúmeras passagens misteriosas para a morte,
"escondidas da humanidade, que não as conhece".
A morte é assim, muito mais complexa do que simplesmente uma dimensão dos
que não estão vivos.
O próprio processo da morte, a transição, o período logo após a morte e o primeiro
ano que se segue à morte de uma pessoa, cada uma dessas etapas possui
qualidades únicas.
Nesse caminho, os seres vivos podem servir, dar apoio e pleitear a causa dos que
estão morrendo ou daqueles que já entraram nas dimensões da morte.
Muitas pessoas se sentem impotentes perante a morte, mas a verdade é que,
podendo entender as muitas facetas da morte e do ato de morrer, começamos a
perceber que há muita coisa que podemos fazer.

A morte dos sábios


O Talmud registra muitos relatos sobre sábios, que voltam em sonhos para
descrever suas experiências de morte.
Num desses relatos, Rava estava cuidando de seu amigo rabino Nachman, que
estava morrendo.
Nachman pediu a Rava para intervir junto ao Anjo da Morte, para que usasse sua
influência a fim de que a Morte não o atormentasse. Rava ficou surpreso e
perguntou a Nachman por que ele não fazia este pedido pessoalmente, já que era
bastante conceituado e tinha grandes méritos.
Nachman respondeu que, assim que o Anjo da Morte recebe instrução de terminar
com a vida de alguém, esta pessoa já não exerce mais qualquer tipo de influência.
E a história continua.
Rava pediu a Nachman para que, em um sonho, ele voltasse após sua morte, a fim
de descrever como tinha sido.
E, de fato, Nachman voltou em um sonho.
"Você sentiu alguma dor?", Rava perguntou.
Nachman respondeu: "A morte é algo semelhante a tirar um fio de cabelo que cai
no leite."
Entretanto, acrescentou: "Se o Sagrado me pedisse para voltar ao mundo,
preferiria não fazê-lo, pois o medo da morte é muito grande."
Apesar de seu nível de consciência primordial avançado, Nachman ainda estava
profundamente assustado com a possibilidade de uma morte dolorosa.

Esta história ensina muitas coisas.


As pessoas que têm mérito podem influenciar o Anjo da Morte, a não ser quando
eles mesmos estão à morte.
Esta influência pode ser exercida a fim de aliviar o sofrimento daqueles que estão
no processo da morte, e isso é normalmente realizado por meio da oração, que é a
ferramenta principal utilizada para atingir os anjos e a Morte.
Além do mais, a história nos informa como realmente os sábios judeus se
comunicavam com outras dimensões.
Nachman, quando já estava do outro lado, contou a Rava que a experiência de
morrer tinha sido bastante fácil.
Contudo, o medo da morte excede em muito a experiência, tanto assim que
Nachman não gostaria de voltar, para não ter de passar de novo por isso, embora a
própria experiência da morte tenha sido, para ele, tão simples quanto retirar um fio
de cabelo que caiu no leite.
Em outra história talmúdica, quando o próprio Rava estava para morrer, foi
assistido por seu irmão, rabino Seorim.
Como na história anterior, Rava pediu ao seu irmão para dizer ao Anjo da Morte
que não o atormentasse.
Seu irmão perguntou-lhe: "Vocês não são amigos íntimos?"
A resposta de Rava foi: "Desde que meu mazal (sorte/destino) lhe foi entregue, ele
não irá prestar atenção aos meus pedidos."
Também nessa história, o rabino Seorim pediu ao seu irmão para voltar em um
sonho, após sua morte, a fim de descrever como era o ato de morrer.
Rava assim o fez. Quando lhe foi perguntado se havia sofrido, ele respondeu:
"Como se fosse a aplicação de uma ventosa."
O uso de ventosas é uma técnica antiga, na qual pequenos recipientes de vidro.
com uma abertura circular, são aquecidos e aplicados sobre a pele de uma pessoa.
Quando o recipiente esfria, forma-se um vácuo em seu interior e a pele é puxada
por sucção.
Aparentemente, o processo retira toxinas do corpo, através da pele.
Os chineses utilizam este método até hoje, e eu mesmo já passei por esta
experiência.
A sensação é estranha, mas não é desagradável.
Na realidade, a retirada de um curativo pode ser mais dolorosa.
Assim, os sábios informam com clareza que a experiência da morte é, de modo
geral, perfeitamente tolerável, mas o potencial de nos atormentarmos durante o
processo da morte é ilimitado.
O Anjo da Morte faz o que bem entende na hora de nos levar para o outro lado,
sem se importar com a nossa posição na vida, nem com as inúmeras boas ações
que praticamos e nem com a vida virtuosa que levamos.
Ainda assim, se alguém tem um "advogado" que possa interceder a seu favor, o ato
de morrer pode ser muito mais suave.
Esta informação é importante para qualquer um que esteja na posição de poder
ajudar uma pessoa que está passando por essa transição.
Aparentemente, os sábios também pediram a outros para voltar após a morte, a
fim de descrever não só a própria morte, mas também para saber o que acontece
nas dimensões da morte.
Como já falamos anteriormente, os sonhos são geralmente os veículos para esta
transmissão entre realidades diferentes.
Quase todos sonham com parentes próximos que já faleceram.
Estes sonhos são, com freqüência, bastante vívidos.
Algumas vezes, ocorrem logo após a morte, e outras, reaparecem por meses ou
anos.
Os sábios se aperfeiçoaram no trabalho com sonhos.
Nós podemos fazer o mesmo. Quando alcançarmos habilidade neste processo,
poderemos nos comunicar exatamente da mesma forma como essas histórias
descrevem.
Podemos perguntar às imagens do sonho:
"Como foi a morte para você?" ou "Como é o lugar onde você está?"

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 48

Parte Quatro - Além desta Vida – Olam Há-Bah (O Mundo Vindouro)

O Ato de Morrer e a Morte - Parte 3

O sono é um sessenta avos da morte


A alma paira acima de nós enquanto estamos acordados.
No entanto, quando estamos dormindo, um aspecto da alma viaja para dimensões
mais elevadas.
Às vezes, um anjo revela futuros eventos para esta alma viajante, mas pode
acontecer que ela não mereça esta revelação, e então a alma "cai nas mãos do
Outro Lado (o mal), que mente para ela sobre o futuro".
A esta pessoa não merecedora é mostrado um sonho feliz, porém falso, para tirá-
lo, mais ainda, do caminho da verdade.
O Talmud nos ensina que o sono é um sessenta avos da morte.
A cada noite, nossas almas entram num teatro mágico, no qual se desenrola um
drama intenso.
Elas se movimentam por outras dimensões da realidade, sendo constantemente
desafiadas por muitas entidades espirituais.
Se a alma está sobrecarregada de coisas confusas e ruins que vêm de seu corpo na
Terra, estará muito pesada e vulnerável às seduções das forças corruptoras.
Dependendo da bagagem que carrega, a alma pode receber uma visão falsa ou
verdadeira das outras realidades.
Como o Zohar afirma: "A alma de uma pessoa dá seu testemunho à noite sobre o
que fez durante o dia."
No entanto, apesar do testemunho de nossa alma, o julgamento é sempre
indulgente.
Se não fosse assim, excetuando as pessoas muito virtuosas, nós apenas teríamos
sonhos falsos.
"Se entenderam que a alma merece continuar em seu estado atual, então lhe é
permitido que retorne a este mundo. Nesse julgamento, as boas e as más ações
não são pesadas do mesmo modo. Não são levadas em conta as ações danosas que
uma pessoa pode vir a cometer no futuro. Mas, com respeito às boas ações, são
levadas em consideração não somente aquelas desempenhadas no passado, mas
também as que serão praticadas no futuro."
Portanto, um dos pratos da balança que pesa nossas ações se inclina a nosso favor.
Tudo o que ocorreu de "bom" no passado, no presente e vai ocorrer no futuro é
colocado num dos pratos e tudo o que "não é bom", apenas referente ao passado e
ao presente, é colocado no outro prato.
Como o nosso potencial de fazer boas ações no futuro é enorme, o prato
certamente se inclinará a nosso favor.
A Cabala sugere que os sonhos não são simplesmente mensagens para a psique;
eles são essencialmente proféticos.
Se soubermos como interpretar os sonhos, eles irão nos informar o que vai
acontecer.
Portanto, "uma pessoa não deve contar seu sonho [indiscriminadamente] a um
amigo, a fim de que a pessoa que ouve não seja a causa de uma demora em sua
realização".
Isso significa que devemos ter cuidado em só compartilhar nossos sonhos com
pessoas que são objetivas e abertas.
Um sonho é como um embrião frágil que deve ser manuseado com carinho.
Se compreendermos seu potencial, e soubermos cultivá-lo, ele poderá atingir sua
plenitude.
Tanto a capacidade para a profecia quanto a capacidade para ver outras dimensões
de realidade são qualidades latentes que cada um de nós possui.
"Quando uma pessoa adormece, a alma se eleva de acordo com seu nível.
O Sagrado ensina à neshama com sinais de eventos futuros que irão ocorrer no
mundo. Há vários graus diferentes de sonhos que ensinam segredos.
O mais baixo é o próprio sonho, o seguinte é o grau das visões e o mais alto é o
grau da profecia_
O rabino Hiyah perguntou: "Diz-se que um sonho que não foi interpretado é como
uma mensagem que não foi decifrada. Será que isso significa que o sonho se
realiza sem que a pessoa que sonhou se dê conta, ou que o sonho não se
realizará?"
O rabino Simeon respondeu: "O sonho se realiza sem que o sonhador perceba.
Pois nada acontece no mundo sem que seja previamente anunciado no céu, de
onde é difundido para o mundo. Quando havia profetas no mundo, eles é que
anunciavam o que iria ocorrer e quando já não havia mais profetas, os sábios
assumiram o papel. Depois dos sábios, as revelações se davam em sonhos e, se
não houvesse sonhos, os pássaros do céu iriam anunciá-las."
Reconhecendo, ou não, vivenciamos coisas que já tinham sido antecipadas em
nossos sonhos.
Isso pode explicar algumas de nossas experiências de déjà-vu, nossa ansiedade
imprevisível quando sentimos que algo está para acontecer, quando "sabemos"
quem está nos ligando quando o telefone toca; nosso destino, quando
reconhecemos que um estranho é importante em nossas vidas, ou uma sensação
misteriosa de bem-estar em algumas situações e de mal-estar em outras.
Temos inúmeros sonhos que sussurram, em nossas mentes conscientes e sub-
conscientes, mensagens do Desconhecido, segredos compartilhados com anjos.
[A Torá e o Talmud descrevem muitos tipos de sonhos. Quase todos dão ao
sonhador acesso a outras dimensões da realidade.
O famoso sonho de Jacó com a escada revela seu estado mental, a maneira como
ele estava numa fase de transformação.
A habilidade que José tinha de interpretar os sonhos do Faraó mostra como os
sonhos são proféticos (Gênesis 41:25-27).
A habilidade de Daniel em descrever um sonho que Nabucodonosor não conseguia
lembrar sugere que um sonho pode ir muito além do indivíduo que o sonhou e pode
estar conectado com uma realidade cósmica que pode afetar o destino do mundo
inteiro (Daniel 2:31-45).]
Quando compreendemos a linguagem dos sonhos, somos admitidos em um mundo
interno que guarda os mistérios do universo.

Viagens da alma durante a noite


O Baal Shem Tov estava sentado em uma mesa grande, cercado por seus
discípulos.
Um desses seguidores era Nachman, de Horodenka, o avô de Reb Nachman, de
Bratslav. O Baal Shem Tov falava sobre assuntos os mais variados, e assim a noite
foi passando.
Num dado momento, já bem tarde, ele fez uma pausa, refletiu um pouco e, de
repente, disse: "Chegou a hora de revelar para vocês, meus seguidores fiéis, os
profundos segredos do banho de imersão: a mikvá."
Ele começou a lhes contar o significado da purificação em águas vivas, e falou dos
quatro rios místicos que emanam do Jardim do Éden.
Ele discorreu sobre as raízes de almas conectadas a oceanos universais.
Enquanto falava, seu rosto foi ficando iluminado, até que todo o espaço se encheu
de luz. Então, num momento de êxtase, o mestre jogou sua cabeça para trás e
embarcou num devaneio, em um silêncio reluzente.
Os discípulos ficaram praticamente paralisados, vibrando de alegria e reverência.
Eles olhavam fixamente para seu mestre, que estava imóvel.
Eles já o tinham visto em estados alterados, mas nunca como aquele.
Os seguidores esperavam, mas nada acontecia; o Baal Shem Tov continuava a
brilhar intensamente, seu rosto estava virado para cima e ele movia sua cabeça,
lentamente, de um lado para o outro.
O tempo foi passando.
Alguns seguidores fecharam os olhos.
Já era bem tarde da noite.
Nachman, de Horodenka, estava tão cansado que colocou sua cabeça na mesa e
adormeceu.
Nachman teve um sonho.
Ele estava numa cidade. Todos estavam andando na mesma direção.
Estavam indo para um prédio enorme.
Nachman foi atrás.
Dentro do prédio, havia uma multidão num salão muito grande.
Todos estavam calados, ouvindo um eminente professor que estava falando no
outro lado do salão.
O professor estava falando sobre a mikvá.
Ele continuou por muito tempo e, pouco depois,
Nachman percebeu que esses ensinamentos eram diferentes dos transmitidos pelo
aclamado Ari, o rabino Isaac Lúria, nos quais tantos ensinamentos místicos se
fundamentam. E, na verdade, em certa hora, o próprio professor disse,
abertamente, que nesta questão ele se opunha aos ensinamentos do Ari.
De repente, alguém apareceu na porta e entrou.
A multidão sentiu uma vibração.
Uma figura de magnetismo excepcional atravessou a multidão.
Era o próprio Ari, o eminente Isaac Lúria tinha entrado no salão.
Lentamente, ele caminhou até o púlpito, e a multidão que o seguia acabou
carregando Nachman para a parte da frente do salão.
Quando chegou perto do púlpito, Nachman ficou chocado.
Ele viu que quem estava lá era seu mestre, o santo Baal Shem Tov, e era ele que
vinha falando
Agora, seu mestre estava diante de Isaac Lúria, que falecera quase duzentos anos
atrás. Um debate sem precedentes teve início.
Cada um dos mestres citou o Zohar.
Cada um deu sua própria interpretação.
Palavras voavam como fogo.
Eles citaram a Torá, o Talmud, o Midrash, cada um defendendo sua causa, em
discussões cada vez mais acaloradas.
Por fim, seus argumentos acabaram, e os céus foram chamados a decidir.
As pessoas que se encontravam no salão ficaram praticamente paralisadas.
Ninguém se mexia.
Então, os céus estremeceram e o Ari levantou suas mãos e baixou a cabeça.
Ele disse calmamente que a decisão tinha sido tomada em favor de Baal Shem Tov.
Nesse momento, Nachman acordou de seu sonho.
Ele percebeu que estava sentado à mesa com seus colegas.
Outros seguidores também estavam acordando, e o mestre estava voltando a si.
Ninguém disse nada, enquanto todos iam despertando.
Então, o mestre, o santo Baal Shem Tov, olhou bem firme para Nachman.
As primeiras palavras que disse foram:
"E foi você quem escolhi para me acompanhar e ser minha testemunha."

Mantendo a vida
Os sonhos nos conectam a outras dimensões, mas podemos ter visões, que são
como sonhos, quando estamos plenamente acordados.
Shoshana trabalhou, em meio período, como instrutora de enfermagem, no
Hospital Hadassa, em Jerusalém.
Ela trabalhou muito com pacientes terminais nas seções de geriatria e de oncologia.
Um de seus pacientes no Hospital Hadassa era um homem bem idoso, o rabino Avi,
que nitidamente estava num estágio terminal de sua doença.
Seu corpo estava coberto de escaras, seus curativos tinham de ser trocados várias
vezes ao dia. Ele estava num quarto com outras três pessoas que estavam muito
mal e que, muitas vezes, gritavam de dor.
O velho professor estava sempre lendo ou rezando, a não ser quando recebia
visitas de seus alunos, o que acontecia com freqüência.
Ele tinha uma pilha de livros à sua cabeceira.
Seus seguidores o tratavam como se fosse um santo, e Shoshana sabia que ele era
um professor muito importante.
O rabino Avi não demonstrava sentir dor quando da troca dos curativos.
Na verdade, ele continuava lendo.
Sempre que os outros pacientes gritavam por ajuda, e várias enfermeiras e
médicos acorriam ao quarto, ele continuava a ler.
Mesmo na hora de uma emergência, quando alguém morria, ele continuava
concentrado em seus livros.
Certo dia, Shoshana voltou para casa depois do trabalho e relatou um incidente
estranho.
A saúde do rabino Avi estava se deteriorando e suas feridas estavam piores.
Shoshana me disse:
"Parece que ele está se agarrando à vida, além de todos os limites normais.
Enquanto eu estava trabalhando junto à sua cama, querendo saber o que estava
acontecendo, silenciosamente enviei-lhe uma mensagem por pensamento.
Eu lhe disse: 'O senhor não precisa se agarrar à vida. O senhor pode se soltar
quando quiser.'
Já tinha feito isso com outras pessoas, mas esta foi a primeira vez que alguém
gritou para mim, por telepatia.
Fiquei chocada. Minha mente se encheu de uma voz forte que disse:
'Afaste-se! Você não tem idéia do que está acontecendo aqui!'
Bem neste momento, olhei para o rabino Avi, e ele estava me encarando, com um
olhar penetrante, por detrás de seu livro.
Ele raramente olhava para as pessoas, então devo admitir que fiquei toda
arrepiada."
Esta experiência tocou Shoshana profundamente, e também mudou a maneira
como ela passou a tratar os pacientes terminais.
O Judaísmo honra a vida acima de todas as coisas sagradas.
Qualquer lei que esteja nos livros pode ser transgredida se uma vida estiver em
perigo.
No Judaísmo, tentamos manter o último sinal de vida porque cada alento é visto
como uma oportunidade para elevar outra centelha.
Nunca é tarde para alguém se redimir, enquanto ainda estiver vivo.
A morte é vista tanto como amiga quanto como inimiga.
É nossa amiga no sentido de que, estando do outro lado, assim como estava o
sábio Nachman, não temos interesse algum em voltar para esta vida.
A vida é difícil.
De fato, o Talmud descreve um debate famoso entre a casa de Hillel, que defendia
a posição que é melhor ter nascido do que não ter vivido de maneira alguma, e a
casa de Shamai, que dizia ser melhor nem ter nascido.
O debate continuou por dois anos e meio.
O resultado foi que teria sido melhor que não tivéssemos sido criados, mas, já que
estamos aqui, vamos tirar o máximo proveito disso.
Nesse sentido, a morte é nossa amiga.
Para os que estão vivos, no entanto, a morte representa o inimigo, pois rouba
nosso livre-arbítrio. Após a morte, já não temos o potencial de ser coparceiros da
criação.
Unicamente os que estão vivos podem elevar centelhas, somente os que estão
vivos podem interagir com Deus-em-processo.
Nas dimensões da morte, contamos com o mérito que adquirimos durante nossa
vida ou então com o amparo dos seres vivos que nos mantêm em suas lembranças
e orações, pois já não agimos por nossa conta.
Dessa forma, a abordagem judaica tradicional é não ir "docilmente para a escuridão
da noite".
Nós não desistimos com tanta facilidade.
Fazemos tudo o que está ao nosso alcance para manter a vida.
Obviamente, o caso muda de figura quando a vida perde qualidade, de tal forma
que não podemos mais elevar nossas próprias centelhas.
Então, a morte volta a ser nossa amiga, pois a vida tem pouco valor sem o livre-
arbítrio.
Sob o ponto de vista místico, trinta dias antes do falecimento de uma pessoa, uma
proclamação é feita no céu, e até mesmo pássaros celestes anunciam a morte
dessa pessoa.
Durante esses últimos trinta dias, sua neshama sai a cada noite e ascende ao outro
mundo, a fim de ver o seu lugar.
Isso é diferente das viagens normais da alma, que são muitas vezes relatadas em
sonhos.
Nesse caso, pelo fato de a alma estar agora sob as asas do Anjo da Morte, a pessoa
não tem mais a mesma consciência nem o mesmo controle que tinha sobre a alma
anteriormente.
E afirma-se ainda que a sombra da pessoa que vai morrer fica mais indefinida
durante os últimos trinta dias.
O místico entende isso como uma metáfora.
A luz que enfraquece não é a do Sol, a sombra do Sol não desaparece.
O que acontece é que a luz vital que está conectada à fonte da vida começa a
diminuir.
Hoje em dia, chamamos a sombra de nossa luz vital de aura, a qual começa a
diminuir trinta dias antes da morte.
Algumas pessoas conseguem ver isso.
O Zohar relata a história do rabino Isaac, que percebeu que estava para morrer.
Com muita tristeza, foi visitar seu amigo mais querido, o rabino Judá, e lhe contou
que havia percebido que sua alma partia todas as noites, mas sem esclarecer seus
sonhos.
Ele também podia ver que sua sombra (aura) ficara esmaecida.
Numa cena comovente, Judá afirmou que ele atenderia a qualquer pedido que Isaac
fizesse para depois de sua morte. Em troca, Judá pediu a Isaac para reservar um
lugar ao seu lado, no mundo vindouro, a fim de que pudessem novamente estar
juntos.
Chorando, Isaac implorou a Judá para que lhe fizesse companhia até que a morte o
levasse.
O drama agora se tornou mais intenso.
Foram juntos visitar o rabino Shimon bar Iochai.
Assim que entraram, o rabino Shimon notou o Anjo da Morte dançando à frente do
rabino Isaac. O rabino Shimon, o maior dos místicos, forçou o Anjo da Morte a sair
de sua casa.
Olhando para Isaac, o rabino Shimon viu que só lhe restavam umas poucas horas
de vida. O rabino Shimon perguntou ao amigo que ia morrer: "Você viu a imagem
de seu pai hoje?"
É fato conhecido que nossos parentes vêm a nós, na hora de nossa partida deste
mundo, a fim de acompanhar a alma para outras dimensões.
O rabino Isaac respondeu que ainda não tinha visto nenhum de seus parentes.
Então, o rabino Shimon rezou em voz alta, pedindo que o Sagrado adiasse a
execução da sentença.
Em seguida, chamou seu filho para amparar o rabino Isaac, pois ele viu que este
estava muito amedrontado.
A história agora vai para outra dimensão da realidade.
O rabino Isaac caiu num sono profundo e, então, viu seu pai.
Ele perguntou como era o lugar para onde estava indo, e seu pai descreveu o
aposento que fora preparado para ele. Depois, o pai disse ao seu filho: "Estávamos
a ponto de partir [a fim de trazê-lo para cá] quando uma voz soou [no céu],
dizendo: 'Tenha orgulho do rabino Shimon, pois foi ele quem fez o pedido [para que
o rabino Isaac pudesse viver] e este pedido foi concedido.'"
Embora o decreto de morte tivesse sido emitido para o rabino Isaac, ele foi
alterado.
Mesmo quando uma pessoa tem conhecimento de sua morte iminente, nunca é
tarde para que alguém possa intervir.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 49

Parte Quatro - Além desta Vida – Olam Há-Bah (O Mundo Vindouro)

O Ato de Morrer e a Morte - Parte Final

L'Chaim: À Vida
Uma história maravilhosa contada por Reb Zalman fala de um estudante chamado
Iehuda que fez uma longa viagem para passar um Shabat com o famoso Vidente de
Lublin.
Iehuda chegou na manhã de sexta-feira e foi logo ver o rebbe.
Como todos sabem, o Vidente podia ver o futuro.
Assim que Iehuda entrou, o rebbe lhe disse para não ficar para o Shabat.
Iehuda ficou chocado.
"Mas rebbe, vim de muito longe. Será que não haveria um modo de eu poder
passar o Shabat com o senhor?"
O rebbe olhou para ele com os olhos tristes.
"Para falar a verdade, meu jovem amigo, estou vendo que a morte está ao seu
redor, e parece que você está destinado a morrer neste Shabat. Acho que seria
melhor você ir para uma pequena aldeia e morrer lá."
Reb Zalman perguntou: "Vocês podem imaginar como Iehuda se sentiu?
O Vidente de Lublin lhe disse que ele tinha mais um dia para viver.
Seu coração estava despedaçado. Lentamente, ele pegou sua maleta e saiu da
cidade."
Na estrada, Iehuda encontrou uma carroça cheia de estudantes.
Eles estavam cantando em voz alta e se divertiam muito.
A carroça parou quando o viram saindo da cidade.
"Amigo", eles gritaram, "você está andando na direção errada. O Vidente de Lublin
está nesta direção. Venha conosco".
Iehuda virou-se lentamente e disse com tristeza: "Não posso ir. O Vidente me
mandou embora."
"Mas por quê?", perguntaram, cercando-o.
"Isto é espantoso. O Vidente nunca mandou ninguém embora."
Iehuda contou-lhes que o rebbe dissera que ele iria morrer, e que procurasse uma
pequena aldeia.
Os estudantes disseram logo: "Bobagem. Você não deve partir. Por que você deve
morrer sozinho, num lugar onde não conhece ninguém? Quem sabe o rebbe estava
preocupado com o fato de que isso pudesse estragar nosso Shabat? Mas não
estragará. Venha. Se você deve morrer, que isso aconteça à mesa do rebe.
Assim, se você se sentir mal e precisar de ajuda, estaremos lá para ampará-lo.
Venha, amigo, e não se preocupe com coisa alguma."
Dessa forma, Iehuda juntou-se ao grupo alegre que cantava e subiu na carroça.
Prosseguiram na direção de Lublin, e um dos alunos disse a Iehuda: "Amigo, se é
que você tem algum dinheiro e já que vai morrer, poderíamos comprar um pequeno
barril de aguardente, a fim de nos aquecermos."
Ele, na verdade, tinha dinheiro.
Pararam na primeira taverna que encontraram e compraram uma boa quantidade
de aguardente.
Cada vez que alguém erguia seu copo, ele se virava para seu benfeitor, Iehuda, e
bradava: "L'chaim, l’chaim, que você viva uma vida longa, com saúde."
E essas bênçãos soaram, uma após a outra.
O rosto do Iehuda foi ficando rosado.
Ele esqueceu o que o vidente de Lublin lhe dissera.
Na realidade, todo mundo estava se divertindo tanto que ninguém estava pensando
no dia seguinte.
E, dessa forma, após cada rodada, bênçãos eram derramadas sobre ele.
Eles chegaram à casa do Vidente bem animados.
Quando Iehuda foi novamente cumprimentar o rebbe, o ilustre Vidente de Lublin
olhou para ele com assombro. As espessas sobrancelhas do rebbe se arquearam e
ele disse: "Meu jovem amigo, isto é maravilhoso. O Anjo da Morte se foi. O que um
rebbe não pode fazer por seus seguidores, seus seguidores podem fazer para um
deles, com suas bênçãos de l’chaim."
"Como vocês podem ver", disse reb Zalman, "um rebbe pode ter um mérito
enorme, e muitas coisas extraordinárias podem ser feitas em honra ao seu nome.
Mas, quando um grupo de pessoas se reúne a fim de enviar bênçãos para alguém,
a força dessa intenção pode ser bem maior do que a de um rebbe.
Que todos nós sejamos abençoados com bons amigos e pessoas queridas que nos
defendam e nos louvem nas dimensões celestes."

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte 50

Parte Quatro - Além desta Vida – Olam Há-Bah (O Mundo Vindouro)

O Céu, o Inferno e a Ressurreição.

Muitas histórias descrevem a diferença entre o céu e o inferno.


Numa delas, uma pessoa que morreu é recebida pelo guardião celeste.
"Como é o inferno?", pergunta a pessoa que acabou de morrer.
Ela é levada para um salão onde há uma mesa muito grande, rodeada de pessoas
sentadas. A mesa está posta com os mais deliciosos manjares e as mais finas
bebidas.
Mas as pessoas estão sempre irritadas e infelizes, morrendo de fome e de sede
porque seus braços estão encaixados em tubos de metal, que não podem ser
retirados, e, por mais que se esforcem, não podem dobrar seus braços para levar
suas mãos à boca.
O céu é uma sala que fica ao lado.
Também tem uma mesa repleta de comida, e as pessoas que estão nessa sala
também têm os braços encaixados em tubos de metal.
Mas elas são felizes e calmas porque descobriram como um pode alimentar o outro.
Em outra história, uma pessoa morre e acorda num lindo jardim.
O guardião desse jardim é bastante solícito e dá à esta pessoa tudo o que ela pede.
Ela quer uma linda casa e a casa de seus sonhos aparece instantaneamente.
Ela quer um cônjuge perfeito, e o cônjuge ideal se materializa.
A cada dia, ela pede uma coisa nova e, a cada dia, seu desejo é realizado.
E isso continua por muitos meses.
Seus pedidos se tornam cada vez mais extravagantes.
Ela consegue tudo o que quer. Nada lhe falta. Ela já não sabe o que pedir.
Dias se passam sem um só pedido, e depois meses. Ela fica entediada.
Não há nada para aguardar com interesse, nenhum desafio.
Tudo fica sem graça.
Finalmente, um dia, ela diz para o guardião do jardim:
"Estive pensando, será que daria para ver o que há do outro lado?"
O guardião do jardim retruca: "O outro lado, o que você quer dizer com isso?"
"O que quero dizer é que eu gostaria, se fosse possível, de ver como é estar no
inferno."
"Oh", diz o guardião do jardim, "mas onde você acha que tem estado este tempo
todo?"

O céu e o inferno não são obrigatoriamente o que nós pensamos que sejam.
A mesma experiência pode representar o céu ou o inferno, dependendo do nosso
ponto de vista.
E isso vale para o conceito de ressurreição, a vida após a morte.
Se nós vemos isso como algo fora do nosso alcance num futuro distante, é como se
nossas mentes estivessem usando aqueles tubos de metal.
Estamos separados dessas idéias e, assim, não podemos dobrar nossos
pensamentos a fim de alimentar nossas almas.
Entretanto, se vemos o relacionamento que está em andamento entre Deus-em-
processo e criação-em-processo, estaremos plenamente conectados com o
entendimento de que a ressurreição é um processo contínuo que está acontecendo
agora mesmo.

Gehinom
Reb Nachman, de Bratslav, afirmou: "Todo mundo diz que há uma dimensão de
realidade que se chama 'Este Mundo' (Olam ha-zê), e outro chamado 'O Mundo
Vindouro' (Olam ha-bá). Talvez exista [na verdade] uma realidade chamada 'Este
Mundo' em algum [outro] lugar, mas, tendo em vista o sofrimento constante que
vemos ao nosso redor, parece que estamos atualmente vivendo no Gehinom
(inferno) "
No Judaísmo, o mundo subterrâneo é geralmente denominado Gehinom, que vem
do nome de um vale que fica ao sul de Jerusalém, o Vale de Ben-Hinom (Gei
Hinom), onde tribos idólatras sacrificavam crianças a seu deus Moloch.
Era conhecido como um lugar de torturas.
O profeta Jeremias afirmou que seria denominado para sempre como o Vale da
Matança. Por causa dessas referências, ficou conhecido como um lugar de
retaliação, onde os castigos eram aplicados.
O mundo subterrâneo é conhecido por uma variedade de outros nomes.
Sheol, o túmulo, o pó, Abadon, o silêncio, as profundezas do abismo, a terra da
escuridão.
[Sheol vem de Gênesis 37:35, quando Jacó estava lamentando a perda de seu filho
José e disse que iria para Sheol - "E o chorou seu pai."
Em Números 16:33, Côrach e os outros rebeldes são engolidos pela terra e
arrastados "vivos" para Sheol.
Sheol significa "questionar" sugerindo que é um lugar onde nossas perguntas nunca
são respondidas, representado por uma mãe ou um pai que perde um filho.
Também poderia ser o lugar aonde chegamos quando nos afastamos da fé em um
contínuo questionamento, tal como aconteceu com Côrach.]
Há pontos de vista muito divergentes sobre o que acontece no mundo subterrâneo,
mas todos concordam que são horripilantes: sofrimento eterno provocado pelo
fogo, por congelamento, por enforcamento, por asfixia, por evisceração ou por
qualquer outra coisa que pudesse mutilar ou incapacitar e que uma mente fértil
fosse capaz de conjurar.
A cada Rosh Hashaná, que é o Dia do Julgamento, as almas são divididas em três
grupos: as que são completamente íntegras, as que são completamente más e as
que são intermediárias.
A casa de Shamai afirmava que os que são íntegros iriam diretamente para o
Paraíso, os maus estavam condenados ao Gehinom para sempre e os
intermediários seriam castigados e depois liberados.
A casa de Hilel discordava.
Afirmavam que Deus era sempre misericordioso e, portanto, os maus não seriam
castigados para sempre.
De acordo com esse ponto de vista, a maioria das almas passa no máximo 12
meses para a purificação e depois é liberada.
Somente alguns delitos, tais como não acreditar na natureza eterna da alma,
escarnecer a Torá ou acusar uma pessoa inocente, podem resultar numa longa
permanência no mundo subterrâneo, além dos 12 meses, mas, mesmo assim, o
inferno não é por toda a eternidade.
[O verdadeiro "crime" é não acreditar no potencial para a ressurreição em algum
momento no futuro. No entanto, mais adiante neste texto, veremos que há uma
grande discordância quanto ao significado de ressurreição.]
A casa de Hilel afirmava: "Gehinom será destruído [na era messiânica], mas
[aqueles condenados a um tempo longo no inferno] não serão destruídos."
[A casa de Hillel afirma que "Deus tem graça em abundância e [assim] inclina [o
prato da balança da justiça] para a graça".
O Talmud dá seguimento ao debate para resolver o que isso significa.
Será que a iniqüidade é perdoada de um lado ou a bondade amorosa é
acrescentada do outro lado?
Há crimes em que a alma é destruída antes dos tempos messiânicos, ou todas as
almas são redimidas? Estas questões são insolúveis.]
Em outras palavras, eles vão ultrapassar o tempo de duração do Gehinom
Na verdade, o Talmud afirma categoricamente: "Não há Gehinom no mundo
vindouro."
Os sábios antigos sugeriam que o tamanho de Gehinom era enorme se comparado
com este mundo.
Eles afirmavam: "O Egito é a sexagésima parte da Etiópia; a Etiópia é a sexagésima
parte do mundo [conhecido]; o mundo é a sexagésima parte do Jardim [do Éden];
o jardim é a sexagésima parte do Éden; Éden é a sexagésima parte de Gehinom.
Portanto, o mundo inteiro é como se fosse a [pequena] tampa de um pote,
comparado com Gehinom."
O inferno é 3.600 vezes maior do que o Jardim do Éden, e 196 mil vezes maior do
que a Terra.
Não é de admirar que nossas vidas pareçam passar tanto tempo em Gehinom.
A partir dessas afirmações, adquirimos uma perspectiva na visão rabínica do
mundo vindouro.
Se as enormes dimensões de Gehinom fossem eliminadas, um mundo sem
sofrimento surgiria, e este mundo seria como o Paraíso.
Embora haja diferenças de opinião sobre o que representa o mundo vindouro, ele é
geralmente visto como o tempo de consciência messiânica.
[Alguns sábios afirmam que há três eras distintas: os dias do messias, a
ressurreição das almas e, por fim, o mundo vindouro. Outros afirmam que o mundo
vindouro precede a ressurreição. Estes cenários diferentes foram projetados para
acomodar afirmações aparentemente contraditórias, mas todas caem na mesma
armadilha do pensamento linear, como se o tempo continuasse na nova realidade
da mesma forma que o conhecemos nesta realidade.]
Dando seqüência à idéia de que não haverá Gehinom nessa época, o conceito de
retaliação divina teria uma forma diferente.
Então, diz-se que o Sagrado "retiraria o Sol de sua proteção, e os justos seriam
curados e os maus, julgados".
O conceito do Sol ser retirado de sua proteção significa que uma luz muito mais
brilhante do que a do Sol estará disponível.
Isto seria Or Ein Sof, a luz infinita da consciência primordial que ilumina todos os
cantos do universo e toda a sabedoria da criação.

Paraíso
O Paraíso é geralmente associado ao Jardim do Éden que é representado em dois
níveis no misticismo judaico.
O jardim inferior é o paraíso sobre a Terra, enquanto o jardim superior está
relacionado com o céu.
As descrições raramente fazem diferença entre os jardins terrestres e celestiais.
Sendo a abordagem mística para toda a criação que tudo o que está embaixo é
refletido acima pode não haver uma diferença nítida entre ambos.
O jardim é descrito em termos sedutores, pleno de especiarias, árvores, anjos,
perfumes, metais preciosos e jóias.
Naturalmente, todos os seres justos residem ali: grandes sábios, as matriarcas e os
patriarcas, os personagens bíblicos, estudiosos de todas as épocas e o messias.
Deus está sentado no centro de tudo isso, e ensina a Torá.
O Paraíso é visualizado como estando do lado direito de Deus (bondade amorosa),
enquanto Gehinom está à esquerda (justiça).
O Midrash pergunta qual é a distância entre os dois.
O rabino Yohanan responde que é da largura de uma parede; o rabino Hanina diz
que é da largura de uma mão; mas a maioria dos rabinos geralmente concorda que
o Paraíso e Gehinom estão lado a lado, separados por uma fronteira.
Onde se localiza a fronteira?
É precisamente onde estamos a cada momento.
Paraíso e Gehinom se encontram no centro do nosso ser.
Podemos refletir sobre o passado utilizando uma das duas perspectivas, e nosso
futuro depende do lado para o qual nos viramos, na hora em que fazemos nossas
escolhas.
Estamos sempre a uma distância igual à largura de um fio de cabelo tanto do
paraíso quanto do inferno.
Tendo em vista o mundo vindouro, os místicos vão um passo além.
Eles afirmam que a Torá, que representa a mente de Deus, se assim podemos
falar, foi revelada como se fosse um aperto de mão — fogo negro sobre fogo
branco.
Quando duas mãos se apertam, o limite de cada uma fica indistinto, e devemos
olhar bem de perto para poder determinar qual é uma e qual é a outra.
No mundo, como o conhecemos, parece que somos capazes de diferenciar entre os
opostos, a esquerda e a direita, o bem e o mal.
O limite entre os opostos é definido por ambos os lados, simultaneamente.
No mundo vindouro, no entanto, nossa percepção vai mudar de forma marcante, e
o aperto de mão se tornará plenamente integrado.
Assim, da mesma forma que o Jardim do Éden é o ponto inicial da consciência
humana, ele é também nosso destino.
A vida eterna é um princípio fundamental da fé judaica.
Ela é a vida no jardim, mas não como a conhecemos, porque os opostos vão se
mesclar, o mal não vai mais existir, e o sofrimento vai desaparecer.

Ressurreição
A ressurreição é um dos 13 princípios de fé propostos por Maimônides, e é a
segunda bênção da Amidá nas orações diárias.
["Abençoado seja Hashem, que dá vida aos mortos."]
Diz-se que, se uma pessoa não acredita na idéia da ressurreição, ela não receberá
sua porção no mundo vindouro.
A idéia da ressurreição é diferente da reencarnação.
A reencarnação é um constante renascer a fim de redimir as centelhas caídas, no
processo de aperfeiçoamento da criação.
A ressurreição é a introdução formal de uma nova era, a transformação numa
consciência, previamente desconhecida, na qual a realidade sofre uma mudança
profunda.
Embora a ressurreição seja um princípio de fé no Judaísmo, encontramos uma
variedade de pontos de vista conflitantes sobre seu significado.
Só há concordância plena num único tema: a fonte da vida não pode ser frustrada
pela morte.
No entanto, quando ocorrer a ressurreição, o que vai acontecer e quem será
ressuscitado?
Tudo isso é motivo de controvérsia.
Por esse motivo, não é surpreendente que os movimentos judaicos da Reforma e
do Reconstrucionismo tenham resolvido o problema descartando as noções de
Gehinom e ressurreição.
A Cabala, no entanto, segue uma linha de pensamento diferente.
Se a raiz de todas as almas é Adam ha-Rishon (a consciência primordial humana
inicial), a ressurreição representa o auge da retificação das centelhas sagradas que
caíram e foram devolvidas à sua fonte original.
[As letras do nome Adam (alef, dalet e mem) são vistas como a representação dos
três estágios do processo das "centelhas da alma" (nitzotzot ha-neshamot).
Primeiro estágio: Adam (alef), quando as centelhas caíram.
Segundo estágio: David (dalet), o processo da redenção das centelhas (o período
no qual vivemos).
Terceiro estágio: Messias (mem), a retificação completa das centelhas caídas - o
mundo vindouro.]

O Zohar relata: "O rabino Aba disse, 'todos vão renascer do mundo dos mortos.
Deus é a fonte da misericórdia. Tendo em vista que as pessoas deste mundo
sofrem, elas não sofrerão no mundo vindouro'."
O Zohar também diz: "Após a ressurreição dos mortos, o mundo estará
inteiramente renovado, e não haverá mais morte. "
A vida após a ressurreição não será igual a nada do que nossa imaginação é capaz
de conceber.
Ainda assim, a descrição que está no Zohar é interessante.
Em nossa realidade atual, o corpo é considerado como uma vestimenta ou uma
casca (klipá) para a alma, que é vista como uma centelha.
No mundo vindouro, o corpo já não será uma casca para a centelha; ele se tornará
a chama daquela centelha, intensificando-a, em vez de limitá-la.
O corpo ficará parecido com aquele que vemos atualmente em nossos espelhos,
porém estará inteiramente iluminado, com o mesmo brilho intenso que Moisés tinha
ao descer do Monte Sinai, resplandecente a ponto de ter de cobrir seu rosto com
um véu.
Assim, o Zohar afirma: "Parece que haverá uma nova criação a partir do único osso
que permanece intacto (o osso luz), que nunca se deteriora, e do qual o corpo
inteiro vai ressurgir. ... Então, Deus vai fazer com que exatamente o mesmo corpo
e a mesma alma retornem ao mundo.., e o orvalho vai descer sobre eles... o
orvalho das luzes; luz celeste por meio das quais o Todo-Poderoso vai emanar vida
sobre o mundo."
O osso luz é um osso misterioso que fica na base da coluna.
O Midrash diz que ele não pode ser dissolvido na água, queimado no fogo, triturado
num moinho ou ainda partido por um martelo.
De fato, quando alguém tenta despedaçar um osso luz, ele fica intacto enquanto o
martelo e a bigorna racham.
Obviamente, não existe nada no corpo físico que seja indestrutível.
Pelo contrário, os místicos sugerem que cada ser tem um atributo mantenedor que
contém todos os seus códigos.
Esta essência mística poderá ser clonada em qualquer tempo no futuro.
Poderíamos descrever isso como um anjo ou uma bolha eterna de energia que
retém o protótipo de um determinado ser.
É a partir dessa bolha de energia que um novo corpo é por fim ressuscitado.
Gostaria de acrescentar que um dos principais motivos para a tradição rabínica não
permitir a cremação é a preocupação com o osso luz, que poderia se perder
durante o processo.
Entretanto, como vimos no Midrash, o osso luz não pode ser queimado no fogo.
Isto é uma questão que preocupa muito os judeus modernos, cujos pais pediram
para ser cremados, assim como meus pais o foram.
Reb Zalman chama a atenção para os milhões de pessoas que foram
involuntariamente cremadas no Holocausto, mas não nos atrevemos a dizer que a
elas será negada a ressurreição.
Tendo em vista esta realidade, é necessário que as leis judaicas a respeito da
cremação sejam sistematizadas com maior sensibilidade.

Continua
A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Parte Final

Parte Quatro - Além desta Vida – Olam Há-Bah (O Mundo Vindouro)

A Morte Nunca Existiu


Um cabalista moderno, ao se pronunciar sobre a ressurreição, disse:
"Este é o único nível de consciência que está completamente além da experiência
humana: estar continuamente morrendo no 'beijo' [de Deus] e sendo ressuscitado.
Nesse estágio final da criação, toda a realidade estará unida novamente com Deus,
não somente as centelhas, mas também as cascas (corpos) da realidade física.
Tendo morrido — o ego natural, não-retificado, estando finalmente 'morto' —, a
alma vai ter uma experiência de vida que será como uma eterna pulsação ou
oscilação de morrer e viver em Deus."
Este ponto de vista fornece um resumo perfeito da evolução sob a perspectiva
cabalística.
A ressurreição representa um novo nível de consciência, além dos limites da
experiência humana.
Nela, os seres humanos não sentirão a barreira da separação do ego, mas estarão
unidos na totalidade do universo.
Nessa dimensão, não vivemos e morremos, como entidades desconectadas, mas
nos expandimos e contraímos como uma extensão de Deus, cada um de nós
representando o ritmo eterno da pulsação do Divino.
O Zohar pergunta: "Será que um pecador já não está morto, mesmo estando vivo?"
Nesse contexto, "pecador" significa alguém que se distanciou de Deus, o que,
decerto, inclui todo mundo, com exceção de uns poucos seres justos.
Assim, fazendo uma releitura da pergunta:
"Será que não estamos todos mortos, apesar de pensarmos estar vivos?"
Nesse contexto, o que significa estar vivo?
Significa estar plenamente consciente da presença de Deus-em-processo e valorizar
nosso papel no contínuo desenrolar da criação.
Salomão ibn Gabirol, poeta e filósofo judeu do século XI, desenvolveu um sisema
contemplativo que conduz à liberação da morte. Esta abordagem foi desenvolvida
em sua obra filosófica principal: Mekor Haim (a Fonte da Vida).
O primeiro passo é contemplar Deus e levar uma vida ética, de tal forma que a
alma pode se unir à sua fonte.
A partir daí, a alma vai se elevar em contemplação até alcançar o nível da "primeira
matéria universal", o nível dos arquétipos.
Em seguida, nossa contemplação nos leva ao reconhecimento da Vontade de Deus,
que conduz à origem: a Fonte da Vida.
Quando nos conectamos completamente com o Divino por meio da contemplação,
nossa comunhão com Deus nos libera da morte.
Devido ao fato de que a ressurreição está numa dimensão atemporal, ela penetra
em qualquer realidade limitada pelo tempo e pelo espaço.
Em outras palavras, a ressurreição não é uma coisa pela qual tenhamos de esperar,
pois ela está sempre aqui.
Nosso desafio é passarmos da consciência do ego para a consciência de Deus.
A criação-em-processo é a pulsação de Deus-em-processo.
Não importa o quanto nos afastamos do Divino, ainda somos parte Dele.
Este é o segredo da ressurreição e a razão pela qual os sábios estavam tão
preocupados em transmiti-la para nós.
Apesar das limitações da linguagem e dos conceitos, o princípio subjacente de que
vivemos constantemente na presença do Divino assegura a certeza da ressurreição.
A cada momento, recebemos suporte na vida e, da forma como a conhecemos, é
como se estivéssemos renascendo dos mortos.
Nossa vida inteira é uma experiência constante de ressurreição e seria bom se
pudéssemos percebê-la assim.
Abraão Isaac Kook, um dos mais importantes cabalistas do século passado,
acreditava que a morte era imaginária.
Nossa visão da morte é distorcida por nossa percepção confusa da realidade.
Chegará o dia em que vamos conseguir entender o pleno significado das palavras
hebraicas "Lo hayá mavet me-olam", ou seja, "A morte nunca existiu".

Epílogo

A moeda enferrujada
Uma situação desesperadora ocorreu há duzentos anos, na cidade de São
Petersburgo: era necessário juntar dez mil rublos para o resgate de um jovem que
estava para se casar.
Isto não era incomum naqueles dias, quando a polícia, militares, ou qualquer outra
autoridade corrupta, prendia ou seqüestrava judeus a fim de pedir resgate, pois
sabiam que a lei judaica exigia que a comunidade fizesse qualquer coisa, até
mesmo vender um precioso rolo da Torá, para salvar a vida de um judeu.
Três estudantes do Talmud que moravam naquela área sabiam que o único lugar
onde poderiam conseguir tal quantia seria na casa de um homem abastado,
chamado Ze'ev.
Não sei se vocês sabem, mas ze'ev em hebraico quer dizer lobo, e este homem
tinha um nome adequado.
Ele era ávido por dinheiro e faria qualquer coisa para conseguir aumentar sua
fortuna.
Ele também sabia ser mau, mandando embora as pessoas que vinham pedir
doações. Ele nunca contribuía.
Estes três estudantes rabínicos estavam destinados a ser rebbes famosos.
O mais novo dos três seria mais tarde conhecido como o Alter Rebbe, Shneur
Zalman, de Liadi.
Ele era o líder dos três porque estava certo de que teriam sucesso com Ze'ev.
Os outros dois eram Reb Levi Isaac, de Berdichev, e Reb Mendel, de Vitebsk.
Estes, muito mais céticos, duvidavam que pudessem conseguir algum dinheiro com
Ze'ev e estavam preocupados com o desperdício de tempo, que, para eles, era
precioso.
Mas eles queriam acompanhar Shneur Zalman, a fim de lhe dar proteção.
Este concordou, contanto que eles nada dissessem durante a coleta de fundos,
independentemente do que pudesse acontecer.

Ze'ev ficou espantado e, de alguma forma, sentiu-se honrado ao ver uma


delegação de três rabinos à sua porta.
Ele também estava desconfiado, mas, assim mesmo, convidou-os a entrar.
Tomaram chá e conversaram um pouco sobre o tempo.
Finalmente, chegou a hora de Shneur Zalman contar a história.
Ele falou do rapaz em questão, que era órfão e estava com casamento marcado
para daí a uma semana.
O rapaz fora preso por causa de urna acusação forjada e não seria libertado sem o
pagamento de um resgate de dez mil rublos.
Enquanto Shneur Zalman falava, Levi Isaac e Mendel observaram que os olhos de
Ze'ev se enchiam de lágrimas.
Ao final, Ze'ev disse: "Que história triste! Fiquei comovido e, portanto, gostaria de
ajudar."
Levi Isaac e Mendel ficaram surpresos.
Como Shneur Zalrnan conseguira?
Mas logo o encanto desvaneceu-se, pois Ze'ev botou a mão no bolso e tirou uma
moeda, enferrujada e suja, de um kopek —cerca de um centavo—, que devia estar
em seu bolso pelos últimos dez anos.
Ele deu essa quantia irrisória a Shneur Zalman, como se fosse uma contribuição
importante.
Os dois estudantes mais velhos ficaram chocados com tal mesquinharia, mas, corno
tinham prometido não dizer nada, ficaram quietos.
Afinal, era um projeto de Shneur Zalman.
E o que fez Shneur Zalman?
Começou a elogiar, de modo excessivo, aquela contribuição maravilhosa:
"O senhor nem imagina o que isso significa para nós. Estamos muito gratos por sua
generosidade. Quero abençoá-lo, assim como à sua mulher e aos seus filhos.
Desejo que seus negócios tenham sucesso, que tenha sempre boa saúde, seja
agraciado com o amor..."
E assim foi dizendo uma grande quantidade de bênçãos.
Por fim, assim que Shneur Zalman terminou de abençoar, os três rabinos se
levantaram para sair.
Ze'ev abriu a porta.
Enquanto estavam deixando sua casa, Ze'ev disse: "Vocês me comoveram
profundamente com essa história. Sinto que devo dar mais dinheiro."
Ele botou a mão no bolso e novamente tirou um kopek sujo.
Reb Levi Isaac e Reb Mendel ficaram furiosos, mas nada disseram, pois assim
tinham prometido.
Reb Shneur Zalman, por outro lado, iniciou uma nova rodada de louvores e bênçãos
que durou mais de dez minutos.
Finalmente, os três estavam na rua, afastando-se da casa.
Levi Isaac disse ao seu amigo: "Você está doido? Acabamos de perder uma hora
por causa de dois kopeks miseráveis!"
"Silêncio!", sussurrou Shneur Zalman.
E, como Shneur Zalman previra, quando estavam a poucos metros da casa, a porta
da frente se abriu e Ze'ev os chamou: "Mestres, voltem!"
Eles voltaram até a porta.
Com muito espalhafato, Ze'ev orgulhosamente lhes deu uma moeda de um rublo.
"Quero fazer uma doação importante."
E, decerto, Shneur Zalman passou outros cinco minutos fazendo novos elogios e
bênçãos.
Começaram a se afastar. Mendel disse: "Pelos meus cálculos, passamos mais de
uma hora para conseguir um rublo. Dessa forma, vamos precisar de dez mil horas.
Talvez consigamos tirar o rapaz da cadeia dentro de quatro a cinco anos."
"Silêncio!", sussurrou o futuro Alter Rebe.
Novamente a porta da frente se abriu e Ze'ev os chamou.
Eles voltaram, mas dessa vez ele lhes deu dez rublos.
Alguns minutos mais tarde, foram cem rublos. Depois quinhentos; depois mil. Por
fim, após dezenas de idas e voltas, ele assinou um cheque com a quantia que
faltava para completar o total de dez mil rublos.
Os dois céticos estavam muito espantados.
Tinham levado algumas horas, mas agora tinham a soma completa.
Enquanto se afastavam da casa de Ze'ev, perguntaram, muito agitados:
"Como você conseguiu isso? Como sabia que ele iria dar tanto?"
Reb Shneur Zalman disse: "Quando nossos corações estão cobertos por uma
couraça espessa, esta barreira não só impede que algumas coisas entrem, mas
também impede que saiam. É impossível retirar essa couraça de uma vez. Então,
devemos encontrar um modo de abrir uma fresta minúscula. Depois disso, cada
pequena abertura de generosidade abre caminho para outra."

Essa idéia de lentamente romper nossas barreiras é o segredo de qualquer sucesso:


funciona para a caridade, para o aprendizado e para o amor.
Cada vez que fazemos uma boa ação, abrimos caminho para fazer muito mais.
Não importa o que você queira alcançar, é possível começar com algo que pareça
muito simples, até mesmo com uma moeda suja.
Permita-se evoluir lentamente, aumentando a fresta.
Ao final, você será capaz de passar através dela com facilidade.
A história da moeda enferrujada é uma metáfora para se atingir a consciência
messiânica.
Temos muitos ensinamentos de sabedoria sobre o potencial da consciência
humana, mas a não ser que os coloquemos em prática, eles continuarão na
dimensão das idéias, conjecturas e abstrações.
Para alcançar a nova realidade da consciência messiânica, precisamos encontrar um
modo de abrir uma fresta em nossas próprias barreiras para que a luz da
consciência primordial possa entrar com seu brilho.
Essa história nos mostra que podemos revelar a luz da consciência primordial mais
elevada abrindo-nos para ela, com um passo de cada vez.
Assim que abrimos uma fresta, a barreira pode se romper com rapidez.
Consciência primordial mais elevada é um imenso reservatório.
Tudo o que precisamos fazer é remover os obstáculos que vedam as frestas da
barreira de nossa identidade.
Se tivermos coragem para fazer isso, seremos inundados de luz.
Que cada um seja abençoado para realizar a consciência messiânica que está
dentro de si; que possamos obter força e insight para abrir nossos olhos; que
nossas vidas possam ser preenchidas com a verdade contínua, na qual estamos
repletos de amor, zelo e bondade.
Que possamos atuar no mundo a partir desse nível de consciência primordial.
E dizermos "Amém!"

Por: David A. Cooper


A Cabala e a Prática do Misticismo Judaico – Notas Importantes

- Moshe Idel, um dos principais conhecedores modernos da Cabala, chama a


atenção para o fato de que "certos cabalistas viam a inspiração divina como uma
condição essencial para se aprofundar nos segredos sublimes... [e eles também
acreditavam] que estados alterados de consciência eram um pré-requisito para
uma compreensão mais profunda do texto sagrado...
É preciso voltar, ou pelo menos tentar voltar, ao nível de consciência que
caracterizava a pessoa que [originalmente] recebeu a inspiração ou revelação".

- O rabino Adin Steinsaltz mostra que Hillel sugere sete princípios, o rabino
Yishmael sugere 13, o rabino Eliezer ben Jose Ha-Gelili sugere 32 e o Malbim (R.
Meir Loeb ben Yehiel Michal) compilou uma lista de 613 princípios, o que não era
exaustivo.

-. Mamash era uma das palavras favoritas de Shlomo, usada para dar ênfase.
Em português, poderia ser "realmente", como na frase: "Ele era mamash uma
pessoa corpulenta."

- Uma mikvá é um tipo de piscina de "águas vivas" — que está conectada a uma
fonte de água natural —, utilizada para a purificação espiritual, onde a pessoa deve
submergir seu corpo por completo.
Os homens religiosos usam a mikvá antes do Shabat e dos dias sagra-dos.
As mulheres religiosas usam a mikvá após a menstruação, ao se prepararem para
ter relações sexuais.

- As letras hebraicas para a palavra "abismo" (tohum: tav-hey-vav-mem) podem


ser arrumadas de forma diferente para significar "morte" (ha-mevet: hey-mem-
vav-tav).

- A palavra "bohu" pode ser dividida em duas palavras: bo e hu, o que significa
"Está dentro dele".

- O Ari ensina que há 288 centelhas caídas. Esta idéia provém da segunda linha de
Gênesis (1:2) "e o espírito de Deus se movia (merachephet) sobre a face das
águas". Soletramos merachephet mem-resh-peh-het-tav.
A primeira e a última letra formam a palavra met (morte); as letras restantes —
resh, peh e het— somam 288.
Isso também é o valor numérico da palavra "ibur", que significa gestação.
Assim, tanto a morte como o renascimento estão representados na abertura de
Gênesis.
É sugestivo que 288 seja o produto de 72 multiplicados por quatro, representando,
assim, o número de letras do nome mais oculto de Deus (72), repetido uma vez em
cada um dos quatro mundos.

- Quando analisamos a letra hebraica gimel, vemos que ela é composta das letras
gimel, mem e lamed. A palavra golem usa as mesmas letras. É a palavra usada
para denominar o ser monstruoso que se diz ter sido criado pelos antigos
cabalistas, utilizando fórmulas mágicas com os vários nomes de Deus.
O valor numérico de golem ou gimel é o mesmo de chochma, que é geralmente
definida como sabedoria.
A letra gimel é igual a 3, mem é igual a 40, larned é igual a 30. Total: 73.
Chochma é composta das letras het (8), kaf (20), mem (40) e hey (5). Total: 73.
Os cabalistas dizem que chochma é um tipo de sabedoria pura que reside na
dimensão da matéria sem forma definida.
Chochma pode ser dividida em duas palavras: koach e ma.
Isto significa "o poder de "que" ou "no qual" um código para matéria tem forma
definida, que é o significado essencial de golem, e, com isso, fechamos o círculo.
O Talmud, numa seção que lida com muitos temas de demonologia, afirma que o
rabino Hanina e o rabino Oshaia foram capazes de criar um bezerro pequeno (um
golem) por meio do estudo de mistérios revelados no texto cabalístico Sefer
Yetzirá. Diz-se que estes sábios rabínicos comeram o bezerro.
O Talmud também afirma que Rabá (século IV) criou um "homem".
Rabá enviou a criatura para seu parceiro de estudos Zera e, quando este lhe dirigiu
a palavra, percebeu que ele não era humano; então, com uma palavra, o fez
retomar ao pó.
Zera foi, na história judaica, um dos grandes estudiosos contemplativos do Talmud.
Diz-se que ele "jejuou" centenas de vezes, o que entendo que deve significar que
ele se retirava no silêncio e na solidão, de maneira sistemática.
Ele se punha à prova, colocando seus pés num forno quente, para observar se seus
poderes de concentração eram bem fortes. Mas os rabinos que viviam à sua volta
eram invejosos e, certo dia, fizeram algo para distraí-lo. Por esse motivo, suas
pernas ficaram um pouco queimadas. Como ele era baixo, recebeu o apelido de
"Baixinho com as pernas chamuscadas".
Dentro desses ensinamentos estranhos, reside a chave para um entendimento
profundo.
Em hebraico, a frase "Rabá criou um homem" é "Rabah bara gabra" .
As palavras são semelhantes àquelas utilizadas no conhecido encantamento
abracadabra, que significa "Vou criar enquanto falo".
Kaplan mostra em uma nota à parte que a palavra abrakadabra contém a palavra
bara, criar, e as letras restantes somam 26, que é o valor do tetragrama (Y-H-V-
H). Isso tudo é mágico.
Os cabalistas, tradicionalmente, encobriam os ensinamentos secretos, a fim de se
assegurar que outras pessoas não os usariam de forma inadequada.
Na frase "Rabah bara gabra" , existem as mesmas três letras: bet, resh e alef; que
nessa ordem significam "criar". Mas a última palavra da frase (gabra) tem uma
letra adicional: gimel.
Poderíamos ler esta frase da seguinte maneira: "Rabá criou um gimel-criação", e o
significado disso é que "Rabá descobriu o poder criativo do princípio da
fragmentação, o ingrediente essencial da fisicalidade, a força satânica".

- Durante os dias sagrados de Sucot, um dos rituais principais é segurar um etrog,


urna folha de palma não-aberta, um ramo de murta e um ramo de salgueiro, e
balançá-los nas seis direções. Isto é considerado pelos cabalistas como um modo
de realizar um tikun, consertar a separação causada pelo universo físico.
A folha de palma representa um vav, o número seis, e o etrog (um fruto cítrico,
parecido com um limão grande) representa a Árvore do Conhecimento no seu mais
"lindo" estado de unidade e não-diferenciação — quando ela está unida à Árvore da
Vida. Durante o ritual de balançar as quatro espécies, as seis direções são
misticamente atraídas para o etrog, que representa o coração da pessoa que está
executando este ritual.
A intenção desse ritual é eliminar a ilusão de separação e retomar à unidade do
jardim simbólico.

- “O nível da matéria [mundo], debaixo do nível da forma, é chamado Satã.


A matéria significa aquilo que subjaz à geração e à corrupção e que está em
constante mutação — enquanto as formas das espécies não se deterioram" [Moshe
Idel].

- Deuteronômio 20:19. Esta seção da Torá diz que, quando uma cidade é sitiada, é
proibido destruir as árvores que ficam ao seu redor. Nesse contexto, ela faz uma
pergunta retórica: "Acaso a árvore é um homem, para que seja sitiada por ti?"
A estrutura da língua hebraica permite que essa frase seja uma pergunta ou uma
afirmação. Como afirmação, ela inverte completamente o significado de "Homem é
uma árvore do campo...", que é a maneira pela qual o rabino Eliezer escolheu lê-la.

- Um exemplo do método atbash foi descrito por Levi Yitzhak, de Berdichev. Ele
mostra que há um aspecto de Deus que está oculto, e outro que é revelado.
Ambos esses aspectos podem ser descobertos na palavra "mitzvá" (mem-tzadi-vav-
hey). Uma mitzvá é o desempenho de uma obrigação religiosa; também pode
significar um ato meritório. Levi Yitzhak afirma que, quando fazemos uma mitzvá,
conectamo-nos com Deus que está oculto e com Deus que é revelado.
As duas primeiras letras de mitzvá (mem, tzadt) representam Deus que está
oculto. Oculto no sentido de que, utilizando o código atabash, mem tem o mesmo
valor que yud, e tzadi tem o mesmo valor de hey. Estas são as primeiras duas
letras do tetragrama yud-hey-vav-hey.
Como podemos ver, as últimas duas letras do tetragrama são também as duas
últimas letras da palavra mitzvá, mostrando o aspecto revelado de Deus.

- A Ohr Ein Sof é descrita como o veículo da iluminação interna que dava insight
profético ao Rei David e especialmente a Moisés. Esta foi a razão pela qual Moisés
brilhava tanto quando desceu do Monte Sinai e, por isso, teve de cobrir seu rosto
com um véu (Zohar I:31b).

- Adam ha-Rishon era andrógeno, sendo a um tempo macho e fêmea, e não um


hermafrodita (bissexual, ou aquele que tem genitais masculinos e femininos).
Esta afirmação foi contestada no mesmo midrash: "Mas não está escrito que Deus
tirou uma das costelas (tzela) de Adão?" E a resposta foi: "A palavra `tzela significa
lado, como está em Êxodo 26:20: 'E do segundo lado do tabernáculo."
Adam ha-Rishon era considerado tão "bonito" que nada (ninguém) podia olhar para
ele. Após o "pecado", a beleza diminuiu e sua altura foi reduzida para (somente)
100 cúbitos (em torno de 45 metros).
A beleza de Adam ha-Rishon está relacionada à fé profunda, significando pureza
total.
Jacó, que representa a essência da beleza, é comparado a Adam ha-Rishon nesse
aspecto.

- "A Árvore tinha uma altura de 500 parasangs e sua circunferência era de 60 mil
parasangs" (Zohar II:2a). Um parasang mede aproximadamente 4 quilômetros.

- Se uma pessoa andasse só 9,6 quilômetros em um dia, seriam 64 quilômetros em


uma semana, 3.200 em um ano e quase dois milhões em 500 anos.

- "Milhares de miríades de milhões..." Um mil de uma miríade de um milhão


equivale a dez trilhões. Esta referência é muito mais do que isso.

- O Zohar faz uma diferença clara entre a criação "potencial" e "essencial".


"Todas as coisas foram 'criadas' em potencial por meio da utilização do nome
Elohim [na primeira seção do Gênesis], mas aquilo que foi criado em potencial
realmente não tomou forma até que o nome completo, Y-H-V-H/ Elohim foi
utilizado. A criação saiu, então, do potencial e recebeu sua substância essencial [no
segundo capítulo de Gênesis]".

- O verbo é traduzido como nisha (nun-shin-alef). Podemos trocar a letra shin pela
letra hebraica sin, lendo então a palavra como nissá, o que muda seu significado de
forma marcante. Como a Torá está escrita somente com consoantes, sem vogais ou
sinais diacríticos, este método de reler uma palavra é muito usado pelos sábios
religiosos do Talmud. Poderíamos discordar dessa leitura, mas não do método
utilizado para deduzi-lo.
- Serpente é a palavra "nahash": nun (50)-het (8)-shin (300). Total: 358.
A palavra "messias" é mashiach: mem (40)-shin (300)-yud (10)-het (8). Total:
358.

- Tradicionalmente, Rosh Hashaná designa um dos quatro diferentes dias de "Ano-


Novo", que aparecem no calendário hebraico: o primeiro dia do mês de Nissan (na
primavera do hemisfério norte), o primeiro dia de Elul (um mês antes de Rosh
Hashaná), o décimo quinto dia de Shevat (em janeiro ou fevereiro) e o primeiro dia
de Tishri (Rosh Hashaná). Cada um desses dias representa um ponto de referência
para determinar o princípio do ano com diferentes finalidades: para dar o dízimo,
verificar a extensão de obrigações contratuais, saber quando era permitido comer
certas frutas, e assim por diante.

- Os outros dias de julgamento no calendário hebraico são: 1) Pessach, quando a


colheita dos grãos é determinada para o próximo ano; 2) Shavuot, para a colheita
das frutas; e 3) Sucot, para a precipitação pluviométrica anual, assim incluindo
todos os alimentos vegetais e os animais domésticos.

- O julgamento é pronunciado primeiro em Rosh Hashaná, mas não é sancionado


até Yom Kipur. Os místicos afirmam que todo mundo tem uma última chance de
mudar este julgamento em Shemin Atzeret, no final de Sucot.

- O Talmud possui muitas referências aos tempos da "pré-criação".


Por exemplo, em uma parte em que se descreve a subida de Moisés aos céus para
receber a Torá, Moisés sofreu oposição dos anjos, que diziam: "Soberano do
universo! Como o Senhor pôde dar para [uma criatura de] carne e osso o tesouro
secreto (a Torá), que ficou oculto por 974 gerações, antes de o mundo ser criado?"

- As sete letras são bet, gimel, dalet, kaf, peh, resh e tav.

- Esta é uma doutrina muito esotérica, que descreve mundos dentro de mundos
dentro de mundos. Por exemplo, no mundo de Beriá há sete aposentos, que são
também mundos, e que recebem os nomes de Santuário, Desejo, Amor, Mérito,
Resplendor, Essência Celestial, Alvenaria de Safira.
Muitos sentimentos que vivenciamos, tais como, medo, raiva, ódio, ciúme etc., são
considerados mundos em si mesmos, realidades separadas.
Baseado nisso, o Baal Shem Tov ensina que não importa o que estejamos
vivenciando, este é um mundo que contém uma centelha divina que pode ser
liberada por uma consciência mais elevada.

- A perspectiva budista é que cada momento tem incontáveis começos. A ciência


moderna sugere que cada momento subjetivo de nossa realidade é composto de
milhões de conexões sinápticas na mente.
O Judaísmo místico afirma que a continuidade do tempo é função de um fluxo
ininterrupto de força criativa, sem passado, futuro, começo ou fim, da maneira
como os conhecemos.

- Steven Hawking, o notável cientista, afirmou: "O princípio da incerteza tem


implicações profundas na maneira como vemos o mundo. Mesmo passados
cinqüenta anos, ele ainda não foi devidamente valorizado pelos filósofos...
O princípio da incerteza assinala um fim para... um modelo que seria
completamente determinante; certamente não podemos predizer eventos futuros
com exatidão se não pudermos avaliar o presente estado do universo com precisão.

- Reb Levi Yitzak continuou dizendo que, se não temos esta compreensão, estamos
presos no tempo e no espaço. Mas, se formos capazes de nos conectar com o
imediatismo da criação em andamento, temos o potencial de poder entrar num
estado contemplativo avançado, chamado ayin (Nada).
Este é o mesmo ayin tratado por Isaac, o Cego, um nível de interconexão de tudo,
em que não há separação nem limites de tempo. Isto é o domínio da consciência
primordial mística e é um dos pontos fundamentais da prática mística no Judaísmo.

- Isto se baseia no texto em hebraico: Bereshit bara Elohim et ha-shamaim v'et ha-
aretz. A palavra bara (criou) tem um pronome implícito.
Normalmente, os tradutores presumem que Elohim é o sujeito de bara (Deus
criou); mas também poderia ser interpretado como "Ele criou", em que Elohim se
torna o objeto, em vez de ser o sujeito da oração. Se fosse um objeto direto,
deveria haver o artigo et, mas, como objeto indireto, representando algo no plural,
nessa estrutura não pede um artigo.
O Zohar diz: "Por meio de um começo, [Ele] criou Elohim" (Zohar I:15a).

- No misticismo judaico, o potencial para o Começo deve vir de uma criação


chamada Nada. Dessa forma, a força criativa deve preceder o nada, que precede o
ato de começar, que, por sua vez, precede os nomes de Deus na história da
criação.
A primeira linha da história da criação pode ser representada em termos
matemáticos como uma progressão natural.
Nada precede o zero. Zero representa o começo, Deus é um, céu e terra são dois,
e, como veremos, o espaço é três.
Assim, Ein Sof precede e deve primeiro criar o Nada antes dos nomes de Deus.

- É claro que a idéia de consciência primordial não é a mesma coisa que o


pensamento. A consciência primordial é uma realidade que interpenetra tudo;
assim, há consciência primordial no Nada.
Alguns místicos identificam a consciência primordial como o meio unificador central
da criação, e então a consciência primordial seria outra definição para o Divino.

- Na realidade, só há nove menções a va-omer Elohim na abertura de Gênesis, com


a décima sendo subentendida na linha de abertura bara Elohim.
Os cabalistas interpretam isso como "e Ele criou Deus", mas também pode ser lido
como "e Deus criou". De qualquer maneira, houve uma atividade criativa inferindo
outra emanação — e então há um total de dez. Há outras interpretações a respeito
das dez afirmações.

- Uma sefirá adicional muitas vezes aparece na árvore entre biná e chessed.
É chamada daat (conhecimento). É utilizada para equilibrar a árvore para aqueles
que consideram keter, no alto, um aspecto que é tão efêmero que, na realidade,
transcende a própria árvore. Dessa forma, só existem dez sefirot, mesmo que as
ilustrações freqüentemente mostrem 11 círculos, com daat exibido em linhas
pontilhadas, a fim de indicar sua natureza transitória.

- O movimento musar foi estabelecido para que as pessoas adquirissem princípios


firmes de moral e ética.
Foi fundado por Israel Salanter há cerca de 150 anos, devido à preocupação com o
fato de que a ética, os valores e a moralidade da comunidade judaica estivessem
em declínio.
A intenção do movimento era encorajar estudantes a ler textos que lidavam com os
princípios de uma vida moral e ética, e aderir às práticas que fixariam estes ensina-
mentos.

- O quinto dia é hod de chessed: o aspecto receptivo e de aceitação de minha


generosidade. Será que sou calculista, enquanto generoso, ou sou algumas vezes
inteiramente espontâneo?
Será que questiono o que a pessoa que recebeu a doação vai fazer com aquilo que
dei?
Será que julgo as pessoas que recebem por seu aspecto, como se apresentam?
Até onde posso separar a imagem que faço de mim de minha generosidade?
O sexto dia é yessod de chessed: a harmonia de minha generosidade.
Será que sinto o equilíbrio do universo em minha generosidade?
Será que percebo que estou sendo nutrido pela pessoa que recebe minha doação,
da mesma forma que o estou nutrindo?
Será que, ao dar uma dádiva anônima, tenho o sentimento de estar completo?
Será que presto atenção ao ato de dar uma certa percentagem de meus
rendimentos como uma maneira de manter a harmonia?
O sétimo dia é malkut de chessed: a realidade fisica de minha generosidade.
Chamo isso de característica da entrega.
Olhando ao meu redor, será que tenho exatamente o que penso que preciso, muito
mais ou muito menos?
Será que posso fazer alguma coisa a esse respeito?
Será que vejo uma condição em que possa fazer algo especial que venha a mudar a
vida de alguém?
Será que posso adotar certos exercícios para melhorar minha relação com a
generosidade?
Será que sou realmente capaz de me sujeitar a fazer uma mudança em minha
própria pessoa?
Então, começaríamos a segunda semana: gevurá.
O primeiro dia seria chessed de gevurá.
Qual é o aspecto generoso de minha restrição?
O segundo dia é gevurá de gevurá: O que é o centro rígido de minha restrição?
O terceiro dia é tiferet de gevurá: Qual é a natureza compassiva de minha
restrição?
E assim por diante.

- Os cinco mundos são deduzidos de uma frase em Isaías (43: 7) que diz: "A todos
os que são chamados pelo meu nome e os que criei para a minha glória, formei-os
e também os fiz."
"Meu nome" representa o universo chamado adam kadmon; "minha glória"
representa o universo de atzilut. Os outros três provêm das próprias palavras
utilizadas no versículo: "criei" é beriá, "formei" é yetzirá, e "fiz" é assiá.

- Provérbios 20:27. Veja Zohar II:99b, que assinala que lâmpada (ner) é soletrada
nun-resh. O nun representa neshama, enquanto o resh representa ruach. Ner
também significa vela. A relação que existe entre ner e alma é o motivo esotérico
de que uma vela é utilizada na procura do hametz no dia anterior a Pessach.

- Devekut está para o Judaísmo assim como nirvana, satori e outros estados
elevados de consciência primordial estão para outras tradições.

- O Baal Shem Tov era conhecido por ter três poderes sobrenaturais: ele podia
enxergar o passado e o futuro; ele sabia o que estava acontecendo em diferentes
partes do mundo, em qualquer momento específico; e podia compactar o espaço de
uma maneira que o permitia viajar centenas de quilômetros, numa carruagem
puxada por cavalos, em poucas horas.
Cada um desses fatos está conectado ao princípio cabalístico essencial de que a
criação tem sua base sobre níveis de consciência.
Como todos sabem, nossa imaginação é quase que sem limites.
Nossos sonhos, em um instante, nos conduzem a domínios estranhos e longínquos.
Nesse sentido, não há restrição espacial sobre a consciência.
Na verdade, todos nós vivenciamos o encurtamento do caminho; simplesmente não
o reconhecemos.
Por exemplo, quando um amigo querido ou um membro da família está em
dificuldades, precisa de ajuda, está doente, pode estar morrendo, ou acabou de
morrer, muitas pessoas vivenciam uma voz interna e misteriosa que lhes diz que
alguma coisa está acontecendo. Isto ocorre espontaneamente, e a grandes
distâncias.
Muitas vezes, sabemos que o pai ou a mãe faleceu antes de receber a notícia ou
então achamos que o toque do telefone é ameaçador.
Algumas pessoas vivenciam isso uma só vez na vida; outras recebem mensagens
em intervalos regulares.
Todos esses são exemplos de encurtamento do caminho.
O espaço desaparece; é como se duas pessoas estivessem juntas num mesmo
momento, apesar de, fisicamente, estarem a milhares de quilômetros de distância.
Este fenômeno continua sendo um mistério para a ciência.
O conceito de kefitzat ha-derech, o encurtamento do caminho, é antigo.
Três acontecimentos bíblicos diferentes são explicados por ele.
O Talmud afirma: "A terra diminuiu para três personagens [bíblicos]: Eliezer, o
empregado de Abraão; nosso pai Jacó; e Avishai, o filho de Zeruiah" (Sanhedrin
95a).

- É natural ter a tendência de perguntar sobre pessoas extremamente ruins, os


Hitlers da história, ou modernos assassinos que matam várias pessoas. Como
poderiam ter almas puras?
São questionamentos profundos sobre o bem e o mal, alguns dos quais serão feitos
mais adiante nestes textos. Mas, lá no fundo, devemos nos perguntar: Será que
Hitler poderia ter existido desvinculado da fonte da criação?
Questões como esta transcendem a razão e só podemos lidar com elas de forma
mística, por meio da fé. Mas a maioria das pessoas não é como Hitler, e não
devemos permitir que nosso medo dos Hitlers deste mundo nos mantenha
alienados e paranóicos.
Na verdade, a batalha entre o bem e o mal é vencida ou perdida por nossa decisão
de abraçar o bem apesar da presença do mal, que, em razão de sua natureza,
tenta nos manter separados do Divino.

- A homossexualidade é um assunto extremamente espinhoso para o Judaísmo de


tendência majoritária. Não existe proibição com respeito a relacionamentos
lésbicos, mas a homossexualidade está proscrita, de maneira clara, na Torá.
Esforços significativos têm sido feitos pela comunidade do Jewish Renewal para
retomar esta questão e encontrar novos caminhos para interpretar as leis.
Pessoas interessadas neste processo devem entrar em contato com a organização
afiliada ao Jewish Renewal

- O valor numérico da letra hebraica lamed é 30, e vav é 6; dessa forma, lamed-
vav é uma forma de dizer o número 36. Um tzadik é uma pessoa direita, justa, de
quem muitas vezes se diz que é um santo.
A tradição afirma que 36 pessoas santas (lamed-vav tzadikim) estão ocultas no
mundo, em qualquer época, para fazer o trabalho que Deus acha que deve ser
feito.

- Um Midrash mais explícito traz uma prova deste dado incidente. Um versículo diz
que, ao tempo da divisão do mar, "e voltou o mar ao romper da manhã, à sua força
(le-etano)" (Êxodo 14:27). A palavra hebraica para "à sua força", le-etano, tem o
mesmo som que a palavra "le-hitano", que significa "como [anteriormente]
estipulado".
Assim, poderíamos ler esta frase "o mar voltou como estava estipulado [ao seu
estado precondicionado]". Soletramos le-etano: lamed-alef-iud-tav-nun-vav; e
soletramos le-hitano como la-med-hey-tav-nun-vav.
A diferença ambas é que uma tem um iud ie a outra tem um hey— o alef é
silencioso.
Para o cabalista, a substituição do iud pelo hey sinaliza intervenção divina, pois
estas são as primeiras letras do tetragrama.

- Em gramática bíblica, o tempo do verbo é muitas vezes revertido quando "e"


precede um verbo.
Isto é chamado de "vav consecutivo", e é o motivo pelo qual normalmente lemos
esta frase "e foi luz". Mas, se não seguirmos estas regras gramaticais — o que é
aceitável quando as regras hermenêuticas são aplicadas —, o tempo do verbo não
muda na frase.

- Na sarça ardente (Êxodo 3:14), Moisés aprendeu um dos nomes de Deus: Ehiê
Asher Ehiê (Serei o que Serei).
A palavra "Ehiê" (Serei) é escrita com alef-hey-iud-hey; que é uma variação do
nome de Deus com quatro letras yud-hey-vav-hey.
Qualquer nome com quatro letras no qual uma das letras seja repetida pode ser
permutado em 12 combinações: 1232, 1322, 1223, 3231, 3321, 3221, 2132, 2312,
2123, 2321, 2213 e 2231.
A pronúncia dessas 12 combinações é a chave cabalística para passar pelo portão
guardado pelo anjo Kamuel (o despertar de Deus).

- Há dez hierarquias de anjos que correspondem às dez emanações da criação.


São: malachim, erelim, serafim, hayot (seres vivos), ofanim, chamshalim, elím,
elohím, bene elohim (filhos de elohim) e ishim ("humanos" celestes) (Zohar II:
43a).

- A construção do altar não podia ser feita com ferramentas de metal.


"E quando o altar de pedras Me fizeres, não o edificarás de pedras lavradas, porque
a tua ferramenta levantaria sobre ele e assim o profanarias" (Êxodo 20: 25).

- Um parasang é igual a cerca de 3,5 quilômetros.

- Baruch Mordecai é bet (2)-resh (200)-vav (6)-kaf (20)-mem (40)-resh (200)-


dalet (4)-kaf (20)- e iud (10). Total: 502.
Arrur Haman é alef (1)-resh (200)-vau (6)-resh (200)-hey (5), mem (40)-nun (50).
Total: 502.

- A realidade como a conhecemos vai mudar na era da consciência messiânica e,


nessa ocasião, o mal será transformado em outra coisa.

- Observe o jogo de palavras no versículo seguinte: "E Ele montou (rakav) em um


querubim (karuv) e voou. Elevou-Se sobre as asas do vento" (Salmos 18:11).

- O Zohar afirma que há diferentes níveis de experiências positivas ou negativas.


Quaisquer ações que uma pessoa fizer na dimensão positiva vão atrair uma
influência positiva.
Ocorre exatamente o oposto quando ações negativas são executadas, pois vão
atrair influências negativas. Cada lado vai puxar com mais força; isso significa que
deveremos ter muito cuidado com cada uma das escolhas que fizermos
(ZoharI:195b).
Um modo de interpretar isso em linguagem contemporânea é que há níveis de
consciência mais elevada e níveis de consciência menos elevada. Uma pessoa que
foi atraída para uma consciência mais elevada recebe um reforço positivo e tende a
residir nessas dimensões mais elevadas.
Uma pessoa que é atraída por atos de consciência menos elevada fica acostumada
a este comportamento e gera forças negativas, que, no final das contas, voltam
para ser solucionadas.

- Um holograma utiliza um raio laser para gravar a difração de uma imagem numa
chapa fotográfica; depois, podemos projetar uma imagem em três dimensões,
emitindo um raio laser através dessa placa.
O aspecto surpreendente do holograma é que, se a chapa fotográfica for quebrada
em pedaços, um raio laser emitido através de qualquer um dos pedaços irá sempre
projetar a imagem completa.

- Estes 12 passos podem ser comparados ao caminho budista do boddhi-sattva.


Compartilham qualidades similares, mas as ênfases são diferentes.
O caminho do boddhisattva inclui dana (doação desinteressada), sila (moralidade),
kshanti (paciência), virya (interesse), dhyana (meditação) e prajna (sabedoria ou
conhecimento supremo).
Dana se conecta com hasiduth (caridade, atos de bondade); sila com zhiruth
(precisão), n'kiuth (asseio) e tahara (pureza); kshanti com anavah (modéstia,
desapego); virya com zrizuth (vigilância); dhyana com prishut
(moderação/separação) e praja com talmud torá (sabedoria).

- A palavra "shnorrer" é algumas vezes usada de forma pejorativa (mendigo, vadio,


avarento, vagabundo).
Não tenho a intenção de fazer isso. Utilizo propositalmente a palavra "shnorrer"
com mais freqüência do que a palavra mendigo para mostrar que há uma qualidade
diferente no processo descrito.
Conforme assinalo nesta parte, o conceito de tzedaká é bem diferente do de dar
esmolas, e a pessoa que é "shnorrer" é vista como uma alma digna, a quem Deus
deu esta tarefa importante para a sua vida, como foi demonstrado.

- A respeito do versículo: "A justiça exalta os povos, mas o pecado é a vergonha


das nações" (Provérbios 14:34). Aqui a interpretação usual é de que dar tzedaká
com pureza de intenção, sem restrições, é um ato muito superior ao de dar por
algum motivo oculto ou especial. Na mesma parte do Talmud, chegam à conclusão
de que a melhor maneira de dar é depositando o dinheiro numa caixa de caridade,
de forma que nem a pessoa que recebe nem o doador se conheçam.
Anonimato é importante, pois assim o doador pode continuar desapegado (e a
pessoa que recebe também fica livre da dependência psicológica).

- A ajuda aos outros não deve ser feita à custa do nosso empobrecimento,
tornando-nos, assim, uma carga para a sociedade.
O ensinamento de estar "ansioso" por fazer caridade tem mais a ver com o nosso
estado mental. Não deve ser interpretado como uma sugestão que devemos dar
tudo o que possuímos com a expectativa de que seremos recompensados.

- Israel é um código para aquela essência da vida que anseia estar com o Criador.
A palavra "Israel" é composta de duas palavras: iashar e El. Iashar significa "andar
no caminho reto", e El é um dos nomes de Deus.
A parte que está dentro de cada ser que anseia juntar-se diretamente a Deus é
denominada Israel. Cada um sabe qual é sua parte que deseja estar com Deus.
Este é o significado místico da nação de Israel; não é um local geográfico, pois se
estende por todo o universo.

- O Magid de Mezritch, Dov Baer Friedman, um dos mais importantes seguidores do


Baal Shem Tov, afirmou: "O objetivo desejado é de que a oração deve ser
precedida pelo despojamento da corporalidade. Os seres humanos são finitos e têm
limites, mas eles podem fazer com que fiquem [como] o Nada, sem limites.
As pessoas podem fazer isso ao dirigir todos os seus esforços somente para Deus,
não para outras coisas ou mesmo para si. Isso é impossível, a não ser que se
transformem em nada."

- Êxodo 31:3. Isto se refere a Betzalel, que foi o artista/construtor do primeiro


mishkan, a Arca do Testemunho, que, para os cabalistas, é o arquétipo do projeto
cósmico, representando a santidade.

- Entre esses, um dos mais famosos é o professor indiano Ramana Maharshi, que
saiu de seu corpo em 1950. Quando seus alunos, que estavam cuidando dele
durante seus momentos finais, pediram ansiosamente: "Mestre, por favor, não nos
deixe", sua resposta foi: "Para onde poderia ir?"

- Neste exemplo, poderíamos dizer que a Divina Providência faz tudo: influencia a
mãe-cabra a subir na montanha, entrar em trabalho de parto e dar à luz num
determinado momento. Do ponto de vista do livre-arbítrio, a cabra é atraída ao pico
da montanha por seu instinto. Nenhuma dessas idéias está correta.
Ao contrário, o processo relacional é contínuo: os dois aspectos se desenrolam ao
mesmo tempo, e cada momento parece ser uma interação espontânea.
Também algumas pessoas poderiam observar que é curioso os sábios usarem uma
águia para simbolizar este ato, quando um pombo ou outro pássaro benevolente
teria sido adequado. Não podemos deixar de visualizar o que uma águia faria com
um cabrito recém-nascido. Águias são geralmente vistas sob um aspecto místico,
como salvadoras, mas elas podem ser predadoras também. A Divina Providência
salva vidas, mas também as tira.

- O Zohar ensina que, quando a morte é iminente, uma pessoa pode rever sua vida
sob uma nova perspectiva, e então fatos que ocorreram podem ser vistos de uma
forma nunca vista antes. Zohar I:79a.

- O tzadik é, na realidade, um universo inteiro de consciência primordial, de onde


cada tzadik provém. De acordo com a Cabala luriânica, quando as centelhas caíram
e foram envolvidas pelas cascas durante o Rompimento dos Recipientes, algumas
centelhas não caíram e continuaram em pureza adâmica.
Estas centelhas são a fonte para o universo do tzadik. Este tzadik é chamado
"aquele que é o verdadeiro suporte do mundo" (Zohar I: 82a) .

Por: David A. Cooper

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