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Poemas

para não perder


de Golondrina Ferreira

2ª edição em março/2020
Desenhos de Maicon Antonio
Capa: arte de Maicon Antonio sobre
obra “Solidariedade” de Kathe Köllwitz

edicoestrunca.wixsite.com/trunca
SEGUNDA ................................... 03
Entrando na linha....................... 04
Diálogo de início de turno ......... 06
Contrato ..................................... 07
Patrícia ....................................... 08
Diálogo de fim de turno ............. 10

TERÇA......................................... 13
Produtividade ............................ 15
Uma ovelha ................................ 16
Informe ...................................... 17
Doente ....................................... 22
Robson ....................................... 24
Primeiro de maio ....................... 25
A poesia insiste .......................... 26

QUARTA ..................................... 31
Acidente ..................................... 32
Atestado..................................... 33
Teu primeiro poema...................34
Panfletagem I ............................. 35
Andriele...................................... 36
Cinza ........................................... 38
QUINTA ..................................... 41
Brete .......................................... 42
Mirando ..................................... 43
Pequenos................................... 44
Não ............................................ 47
Eliziane ...................................... 49
Aos que oscilam ........................ 52
Gratidão..................................... 53

SEXTA ........................................ 57
Constância ................................. 58
Panfletagem II ........................... 59
Protesto ..................................... 60
Rotatividade...............................61
Carlinhos ................................... 62
Necessidades ............................. 63
Muito tempo não é sempre ...... 65

SÁBADO .................................... 69
Conformes..................................70
Todos Nós.................................. 72
Simplesmente indispensáveis ... 73
Marisa.........................................74
Pés rotos.................................... 76
Aos que desanimam .................. 78
DOMINGO.................................. 83
Limite ......................................... 85
Cunha ......................................... 86
Vila da Paz .................................. 88
Nossa laia ................................... 93
Potência ..................................... 95
Desigual...................................... 97
Poeminha bagaceiro .................. 98
Multiplicar ............................... 100
Acordando sonhado................ 101
Pulsando ................................. 102
Como queríamos que fosse .... 103
Quase perfeito ........................ 104
Das sete cores ......................... 105
Ranchinho ............................... 107
Despedida ............................... 108
Húmus ..................................... 109
Arejar ...................................... 110
Imbituba.................................. 112

SEGUNDA................................ 115
Novos velhos tempos...............117
Necessário............................... 122
PREFÁCIO

Tudo, exatamente tudo que você


pode observar, agora, ao seu redor -
inclusive este livro em suas mãos - e
toda a riqueza acumulada nestes
últimos séculos, foi produzida em
fábricas. É ali, em seu ventre de
engrenagens tão convenientemente
desconhecido, que podemos
encontrar esse triste Sísifo, esgotado,
que entre rangidos, vapores, dores e
apitos, repete o mesmo e eterno
movimento: o operário, o real
produtor de tudo.

É nas fábricas que se dá uma das


maiores e mais degradantes
explorações massivas de humanos
que já conhecemos. Segundo a OIT,
por dia morrem 6.300 trabalhadores
como resultado de acidentes de
trabalho ou doenças relacionadas. A
fábrica não foi projetada para
trabalhadores, “o ar condicionado / é
ajustado para as máquinas”, onde é
preciso “falar escondido, / comer
disfarçado, /mijar com tempo
contado”; ser como um humano, ali,
é algo que se faz em clandestinidade
(“Teu cheiro em mim é um segredo, /
escondido sob o uniforme”).
Apesar disso e, exatamente por isso,
os trabalhadores resistem, e se
apaixonam, e conversam, e se
solidarizam, e se enraivecem, e
explodem... E, diante de tamanha
contradição entre tanta riqueza
produzida em meio a tantas misérias,
não é de se espantar que brotem,
dali, as lutas mais intensas de nossa
história. Mas é, sim, de se espantar,
que do encontro bruto e tenso entre
trabalhadora e patrão, entre metal e
carne, graxa e sangue, nasça um
canto torto, roto, mas belo, canto
nosso, necessário, desses pra não
perder.

Esse é o canto de Golondrina


Ferreira, fruto do acúmulo de todas
essas riquezas, belezas, saberes
produzidos por nossa classe, mas
também de seus sofrimentos e lutas,
tudo filtrado por esse seu coração tão
rebelde e sonhador, que rejeita ser
apenas mais uma peça presa ao
mesmo dia, que se repete.

Quem a conhece, sabe que seu peito


carrega ramadas permanentes de
flores. Impossível não se contagiar
por seu ânimo vibrante, por seu olhar
cheio de horizontes. A poesia dela é
sua expressão genuína, é sua
vingança íntima (e agora, nossa,
coletiva) ao bater do ponto.
Acompanhei muitas destas poesias
nascendo entre turnos, andorinhas
escapando dessa “boca de catracas”,
áudios que me enviava cantando ao
ritmo das máquinas. Quanto mais a
gerência, esses “serviçais de luxo”, a
conduzem à falta de sentido da
produtividade (que só é produtiva
pra eles), mais ela busca -
desesperada – a vida, a paixão, a
beleza das coisas coletivas. Lembro
de receber uma das primeiras
versões das suas poesias, com um
título que me parecia mais do arquivo
do que do livro, daqueles nomes que
se dá no juntado que se faz de coisas
que nos tocam e guardamos,
“Poemas para não perder”... Com o
tempo, fui percebendo como esses
poemas não podem realmente ser
perdidos, correndo o risco de nos
perdermos, sem eles.

O que você encontrará aqui é


precioso, raro, porque nos leva pra
dentro do coração da classe, na
fábrica, onde a poesia quase nunca
esteve, e nos permite ver de perto
Carlinhos, Marisas, Robsons,
Patrícias, e nos transver neles, na
fábrica que funciona em nós; é
precioso, mas comum, “comum
como queríamos que fosse”, nos fala
do dia a dia, do convívio na vila, das
dores compartidas, dos humildes
cafés, desses domingos repletos de
tesão, e dessas belezas que só
trabalhadores juntos podem
produzir, como greves; e é
necessário, pois é revolta contra esse
mesmo cotidiano, desejo de não
voltar mais - ao menos não dessa
forma coisificada - às máquinas, à
fábrica. Esse é o canto operário de
Golondrina, poesia que mais-vale,
produzida nas anti-horas de trabalho,
roubando horas ao patrão. Canto
entoado em um período de poucos
ouvidos, de descenso das lutas
operárias, mas, por isso mesmo, tão
vital: entre-canto que “conecta
gerações / sabe de onde viemos / e
lança seus versos até os que virão.”

Que sua segunda-feira nunca mais


seja a mesma!

Jeff Vasques
(poeta, palhaço e
militante da vida)
APRESENTAÇÃO

"yo no canto por cantar,


ni por tener buena voz.
canto porque la guitarra
tiene sentido y razón..."
Victor Jara

Com licença, vou entrando nesse


terreno cheio de gente boa e nossa, o
da poesia. Agradecendo a quem veio
antes e teve a coragem de tomar
partido, de cantar o que tinha de ser
dito. Vocês sempre me
desinquietaram e impulsionaram,
poetas de hoje e de outros tempos,
poetas vivos! Os que nunca estiveram
nos holofotes, nem nunca agradaram
a quem tinha o que perder. Os cantos
sobre a vida e luta dos trabalhadores
sempre estiveram nas mochilas, nos
cursos, saraus, nas marchas, greves,
reuniões, nas prisões onde estiveram
os nossos. Eu chego pra tomar meu
lugar nessa trincheira da poesia.

Assumo a dureza e a tortura desses


versos e as credito e ofereço à
sociedade do capital, que não nos
ensina nem permite muitas sutilezas,
e vai podando sistematicamente
nossa capacidade de abstração,
criatividade, sensibilidade, crítica...
produção de beleza. Com a que me
sobrou, foram feitos esses versos,
papelitos nos bolsos escondidos das
calças e dos jalecos, para não perder.

A beleza e a força eu agradeço e


dedico a todos que as produziram
indiretamente: à militância que vem
sobrevivendo às últimas décadas de
descenso e nos formando sem parar,
os que não aceitaram o caminho fácil
da cooptação nem o difícil de brigar
dentro dela, e se meteram nesse
inferno, onde o grito custa a sair, mas
quando acontecer vai fazer mais
barulho. Aos intelectuais de dentro e
fora das organizações, que sempre
nos abriram livros e mapas,
sobretudo os que se dispuseram a
botar o pé no barro e a mão na
massa, nadando contra a maré. A
quem ousou não se entregar aos
convites de conciliação e soube
recomeçar, malhando o ferro frio da
classe adormecida.

O que ele ainda pode ser, eu ofereço


aos personagens desse livro, os
operários da minha fábrica, do meu
país, e a tantos outros em Xangai,
Singapura, Chicago, Buenos Aires,
Berlim... Aos peões que como eu
sentem tudo isso ou muito mais, e
não transformam em poesia, ou
fazem e se perde por aí, não
encontrando uma Trunca no caminho
que a reúna e publique. A todos que
reagiram e se levantaram, aos que
estão fazendo isso hoje mesmo,
mostrando que o que parece
impossível pode acontecer.

Que esse livro seja capaz (se não


hoje, que não demore) de chegar em
quem o produziu e para quem foi
produzido, que possa aliviar seus
músculos cansados, abrir seus olhos,
estufar seu peito, cerrar os dentes e
punhos, quem sabe abrir um riso...
Que ajude a provocar e organizar a
raiva e a dor para enfim acabar com
suas causas.

A tarefa é grande, os poemas são


pequenos... Mas nós podemos ir
além.

Golondrina Ferreira
SEGUNDA
SEGUNDA

As máquinas, mortas.
Nós, vivos.
Logo se inverte a coisa.

A fábrica tem fome,


passou um dia inteiro
de barriga vazia.

Então abre suas bocas de catraca


e nos seus dentes vamos passando
um a um.

Dá o sinal:
nos mastiga

e joga o bagaço fora


no fim da jornada.

3
ENTRANDO NA LINHA

Não era isso que você queria


quando procurou emprego?
As condições já não estavam
no contrato?

Que parte faltou entender


de que o ar condicionado
é ajustado para as máquinas
e não pra você?

Que parte você não entendeu


de que lá fora é pior,
que para o teu posto
tem pelo menos mais dezoito na
[fila?

Você ainda não se deu conta


que greve é coisa de vagabundo
e organização, de terrorista?

Todas as semanas você consegue,


por que hoje não?
Todos os outros conseguem,
por que você não?

Viu, é simples:
abaixe a cabeça
respire contido

4
feche as pernas
feche a cara
feche a boca
pinte as unhas.

Não responda
nem questione
de preferência
não pense
mais que o estritamente
necessário.

Isso, muito bem.


Gostei de ver.

Quem olha nem imagina


que você sabe sorrir
e desobedecer.

5
DIÁLOGO DE INÍCIO DE TURNO

Falta muito pras seis horas?


Falta muito
pra primavera?!

6
CONTRATO

Limpos
quietos
fechados
pontuais

duros
novos
precisos
infalíveis

sóbrios
móveis
azeitados
idênticos

perfeitamente substituíveis.

Cada novato
é uma peça
de reposição.

7
PATRÍCIA

Os olhos estalados avermelham e


lacrimejam, pedem fechar, mas não
podem, não podem, hão de ficar
atentos e abertos, vendo tudo,
vendo os menores sinais, mas eles
tremem por conta própria e não
podem, nem tremer nem fechar não
podem, ainda que para isso seja
preciso enrugar a testa e curvar as
costas, agora sim parados os olhos,
abertos e atentos, olhando a mão,
mas a mão não, ela não pode parar
nem por um segundo, segurando e
movendo sem cair nem parar, firme
e ligeira a mão, firme e certeira, nem
que para isso seja preciso tensionar
o antebraço e arder em fogo o
tendão que queima até aquele
ponto onde segura os olhos bem
abertos e atentos, todos em função,
olhos abertos e mãos sem parar
olhos atentos e mãos sem cair, mãos
sem parar e olhos sem fechar, ainda
que pra isso já não haja nem pernas
nem pés, respiração não haja, nem
pensamentos, sonhos? Somente
olhos e mãos e os tendões entre
eles, sem parar, sem fechar, sem

8
cair, queimando pra dentro de si e
acumulando nós indissolúveis, sem
nós... Sem nós todos.

9
DIÁLOGO DE FIM DE TURNO

Já era? - pergunta o Alemão.


Antes fosse, Alemão,
antes fosse.

10
TERÇA

11
12
TERÇA

Liga
ajusta
alimenta
retira as peças prontas
alimenta mais
retira mais
ajusta
troca
retira
alimenta
regula
já acabou de novo
alimenta
agora ao mesmo tempo
limpa
alimenta
regula
retira mais e mais peças
manda pra frente
começa de novo.

Será que não podíamos


parar um pouco
para ver as estrelas
ou escrever um poema de amor?

13
Tá bem, tá bem...
para ir ao banheiro
ou comentar um jogo de futebol?

Já chega, gente,
já é suficiente,
três vezes suficiente,
diga-se de passagem.
Vamos desfrutar um pouco
do que fizemos
(os que fizeram)
e depois nos juntamos
para fazer mais
(quando preciso).

Estou cansada.
Os que não cansam de me advertir
apenas nisso têm razão:
deliro.

14
PRODUTIVIDADE

Mais um
Mais um
Mais um
Não dá...
Mais um
Mais um
Não dá...
Mais um
Não dá tempo...
Mais um
Mais um
Mais um
Mais um
Não dá tempo de pensar!

15
UMA OVELHA

Cara de bicho assustado.


No entanto, ataca.

Não é uma ave de rapina,


não tem a sua astúcia.
Não é um lobo,
não comanda a matilha.
Para uma onça ou leão,
faltam garras, caninos...

É uma ovelha.

Uma ovelha
é medrosa.
Uma ovelha
obedece.
Uma ovelha
tem raciocínio curto.

Ela aprendeu a morder


e esse sangue
é do seu ataque.

16
INFORME

Será possível que precisemos


escrever
para que nossos compatriotas
[entendam
que aqui não é a China,
mas pode ser pior?

Será preciso contar, ainda que


[pareça natural,
que se trabalha seis dias por
[semana,
alguns trabalham seis noites
e outros trabalham uma semana
de dia e outra de noite?

Será preciso dizer, mesmo que doa,


que o material corta a luva e os
[dedos,
mas é preciso aguentar,
pois uma luva mais forte
sai muito cara pra empresa?

Precisaremos falar, ainda que


[incomode,
Que os salários aqui são de mil reais
por mês,
os aluguéis de quinhentos,
e as pessoas têm de um a três filhos?

17
Terá que ser dito, ainda que não se
[entenda,
que operamos nove máquinas
ao mesmo tempo
e uma tela de 52 polegadas
pisca em vermelho
à vista de todo o prédio
quando alguma delas não produziu
o suficiente?

Teremos que repetir, ainda que dê


[raiva,
que nossos bebês com três meses
tenham que desmamar,
porque com quatro meses
voltaremos a trabalhar?

Haveremos de relatar, ainda que


[canse,
que as luzes são muito fortes
para não dormirmos,
que é proibido conversar
assim como comer, olhar o celular
ou sair do seu posto de trabalho?

Ainda faltará dizer


que passamos oito horas olhando
pecinhas minúsculas fazendo

18
o mesmo movimento com as mãos,
dentro de um cubículo de lata
de um metro quadrado
para evitar distrações?

Vai ter que ser dito, ainda que


[nojento,
que o banheiro também é usado
para dormir e comer,
pois não há lugar próprio para isso
e dentro da fábrica é proibido
mesmo no horário de pausa?

Teremos que dizer, ainda que


[agonie,
que cheiramos álcool acetona
respiramos pó de alumínio zinco
estanho
às vezes ficamos tontas, mas saímos
dar uma volta
e retornamos ao trabalho?

Será preciso mesmo escrever,


ainda que atordoe,
que o barulho é de cem decibéis
quando o permitido é oitenta,
mas não se paga insalubridade

19
pois o protetor de ouvido
abafa um pouco o som?

Será preciso dizer, ainda que


[assuste,
que quem se acidenta é culpado
e demitido,
por isso escondemos os cortes
fazemos os próprios curativos
e não contamos pra ninguém?

Mas se faz falta dizer, será dito,


mesmo com fome,
que as pausas são de uma hora
a comida é ruim e cara
não há lugar para descanso
e muitos não param nem esse tempo
para conseguir bater a meta.

Teremos enfim que gritar, ainda que


[nos dê vergonha,
que a cada falta nos descontam 20%
[do salário
mesmo que seja por doença
e por isso não faltamos
nem mesmo quando adoecemos?

20
Diremos, se é necessário, mesmo
[sendo alarmante,
que depois do trabalho, transporte e
do sono recomendado
sobram três horas de vida útil,
de modo que às vezes não vemos
os filhos
e às vezes não dormirmos.

Agora que já não se pode mais


voltar atrás na leitura desse poema
é você quem nos diz,
a essa altura do relato,
e de posse de todas essas
informações...

O que é mesmo que você vai fazer?

21
DOENTE

Eu não tenho pro remédio,


não me pagaram o atestado,
faz três dias
que cortaram a luz.

Mas eu tenho fé,


não desanimo,
sei que é o jeito,
pior que tá não vai ficar.

Mas eu sempre digo:


desistir é pior,
eu encaro numa boa,
vou levando...

Mas eu acredito,
se fizer um curso,
se trocar de emprego,
se pedir as contas...

Minha mãe já dizia:


na guerra é pior, filha,
aceita
que dói menos.

22
Eu ainda lembro
que já foi pior,
a gente ia de chinelinho pra escola
e agora...

Tem uma tevê de plasma


que não vai terminar de pagar.

Vai ter que vender,


mas igual não importa...

Pois faz três dias


que cortaram a luz.

23
ROBSON

Os senhores e patrões
não teriam nos dominado tão bem,
nem por tanto tempo,
se não contassem
com nossos próprios auxiliares.

Contramestres,
líderes,
capitães do mato.

Eles não escolhem qualquer um:


tem que ser referência,
tem que formar opinião,
tem que nos conhecer bem,
tem que nos fazer falta.

Eles acertaram em te escolher;


você ainda está por errar.

Você será uma arma potente


independente do lado
em que decidir lutar:
o nosso
ou o deles.

24
PRIMEIRO DE MAIO

Sem
novidades,
sem
boas notícias.

O mesmo porrete
nas mesmas
mãos...

Nós mal ganimos.

25
A POESIA INSISTE

...Como?
Isso mesmo. Não pode
escrever poesia
nos bolsos,
assim como não pode
andar, falar, parar.
É justo, é necessário,
é pela sua segurança,
é o certo e vocês já foram
advertidos.

Ah claro, sim
senhor,
me desculpe,
não seja por isso,
não se preocupe.

Eu vou escrever
com marretas
no teto,
com graxa
nas paredes,
com a trincha
no chão.

26
Proíbam e eu escreverei
com as unhas
na lataria das máquinas,
com chaves
riscando os robôs.

Impeçam e será com pincel


nos muros,
com facas nos troncos,
com ar comprimido
na noite.

Demitam-me
e escreverei
com um arado na terra,
com a foice
nas plantações.

Prendam-me
e ela estará
nas paredes dos calabouços,
com gotas
de sangue no chão.

27
Com formões
nas cabeças mais duras,
com uma bala
nos vossos peitos.

Cortem meus dedos


e eu escreverei
com os olhos
no horizonte...
com a língua
em alguma boca...
com os pés na areia...
escreverei
com o nariz no céu.

28
QUARTA

29
30
QUARTA

Vem, deixemos as máquinas,


essas metas,
essas peças...
Vamos pra rua
que eu te encho de estrelas
e de madrugada.

Avisem os supervisores
- mais por tesão que por pauta -
paramos a produção!

31
ACIDENTE

Parem as máquinas!
Uma flor nasceu
no meu peito,
forçou a superfície,
rompeu-a,
apontou o botão.
Abriu
cada pétala
e se balançou,
desengonçada.

E, agora,
como faço
com essa ramada
saindo do jaleco,
da roupa,
do sorriso...
Será que todo mundo vai ver?

Saio cambaleando pra rua,


retomar o fôlego
e a postura,
quando a lua cheia aponta
por trás das nuvens.

Não há mais remédio:


tudo indica que me apaixonei.

32
ATESTADO

Atesto para os devidos fins


que a paciente não se encontra
em condições para o trabalho

avisem os chefes
suspendam as metas
reportem aos gerentes de RH

ela se encontra
afoita
eufórica
tremendamente apaixonada

devendo permanecer afastada de


suas atividades
até que o modo de produzir a vida
não seja o de matar
o amor.

33
TEU PRIMEIRO POEMA

Teu cheiro em mim é um segredo,


escondido sob o uniforme.

Teu cheiro em mim é um alento,


que ajuda a enfrentar a jornada.

Teu cheiro em mim é amuleto,


envolve, protege, provoca.

Teu cheiro em mim é um presságio,


de que sem ele não vou demorar.

Teu cheiro é afinal uma conquista,


de quem foi noite adentro te buscar.

34
PANFLETAGEM I

Durmam, camaradas,
descansem
que o trabalho de vocês é árduo
e recomeça logo mais.

Assim, revezamos os turnos


para produzir a riqueza do patrão
e, assim, revezamos as tarefas
para destruí-lo.

Organizar no descenso é ingrato:


mais luta, menos vitória.
A tarefa é silenciosa, subterrânea,
sem glórias.

Ela é imprescindível.

Descansem, camaradas,
durmam, que logo é hora de
[despertar
a nossa classe.

35
ANDRIELE

Eu vinha te falar de coisas simples:


o pão
a chuva
o salário...

Um plano ou outro
dos alcançáveis,
um causo ou outro
dos inquestionáveis,
uma ou outra provocação...
fosse mais ousada, te assustava,
fosse mais sutil, nem se notava.

Foi preciso que a vida se agitasse,


se agitassem vizinhos, primos,
colegas, o motorista, o açougueiro...
Quem agitou primeiro? Não importa.

Mas a boca foi secando


e essa conversinha mole
já não matava nossa sede.

Quando a zona de conforto


se apresenta
desconfortável,

36
é tempo de ir,
de apertar o passo,
de cerrar os punhos,
de fazer o pão,
enfrentar a chuva.
lutar pelo salário.

37
CINZA

Não tem cobertor que aqueça


a falta de cor desse outubro.

Tão rubro,
quente era aquele
de Petrogrado a 30 graus
negativos.

Nesse frio tropical, só nos resta


puxar o cobertor do futuro
e acordar descansados
para tecê-lo.

38
QUINTA

39
40
QUINTA

O que ela faz com a cabeça inclinada


encostada assim na máquina?
Sente seu ritmo,
a vibração da sua superfície,
o fluxo de óleo e graxa
correndo por suas internas conexões
o pulso das injeções de ar
comprimido,
a potência de sua corrente elétrica,
sente seu motor.

Se entrega
à sua potência e regularidade,
se submete
às suas exigências e seu tempo,
coloca a seu serviço
seu próprio cérebro, músculos,
nervos,
assim, aparentemente,
inofensivos.

41
BRETE

Não adianta ir embora


se até do outro lado do mundo
gente de outras cores
e línguas
leva seu próprio couro
ao matadouro
como a gente.

De nada serve dormir


se vai ter alguém acordando
pra assumir seu turno,
alguém
com quatro horas de sono,
três filhos,
dois meses de atraso
no aluguel.

Pra que um aumento de salário


se quando ele chegar
as contas
já subiram muito mais
e ele vai ser aumentadamente
insuficiente?

Ou mudamos tudo,
ou teremos mudado muito pouco.

42
MIRANDO

Raiva represada no meu peito


quer explodir pelos poros
em mil facas
certeiras
cravadas em algum lugar
infalível
no peito dos proprietários.

Porque nos obrigam


a falar escondido,
comer disfarçado,
mijar com tempo contado
e até pensar em segredo.

Engolir o sorriso,
as ideias,
a energia vital.

Conter,
cortar,
adiar
para o próximo carnaval.

43
PEQUENOS

Vocês entram aqui no meio


do barulho e da poeira
como quem já vai sair...
Daí sua expressão leve
e seu andar afetado.

Vocês vestem roupas limpas,


do rosa brilhante ao azul,
vocês têm colarinhos
e eles também estão limpos.

Vocês cheiram a perfume importado


original e sem prestações.

Suas mãos não têm calos,


nem fiapos, roxos, cortes,
seus calcanhares não são rachados,
nunca passaram o dia em botas
com os pés molhados.

Vocês olham por cima de nós


e, quando não precisam,
não nos veem.

Vocês falam alto,


olham nos olhos,
cumprimentam firme,

44
caminham de cabeça erguida
e postura correta.

Comem bem,
comem o que quiserem.

Vocês compram seus sanduíches,


seus amores,
seus bolos de aniversário,
seus animais de estimação
(mais caros que nossos salários do
[mês).

Vocês fazem mais viagens no ano


que nós faremos na vida.

Não pensam antes de comprar


um remédio,
um carro,
um cobertor.

Vocês, desde muito pequenos,


tiveram o que necessitavam
antes de pedir

e, desde muito cedo,


alguém que dissesse

45
o quanto eram importantes
e que seriam alguém na vida.

E foram.

Capachos dos nossos inimigos,


serviçais de luxo.

Vocês acham que sabem quais são


nossos problemas,
querem falar sobre eles,
prometem nos defender.

Vocês querem que acreditemos


que seus interesses
são os nossos.

Mas nós não temos


nenhum interesse em vocês.

Vocês não são dos nossos,


nem dos deles.

Vocês não valem as melhores de


nossas balas.

46
NÃO

Não vai virar poesia.


Quero minha raiva
aqui dentro
pra quando eu precisar.

Quando vierem
com meios-termos,
veja bem,
tem que entender...

Quando quiserem
que a gente aceite,
pois o conflito
não interessa a ninguém...

Quando disserem
que de repente,
que é o jeito,
que vamos lá...

Quero essa raiva bem viva,


farta de cada não,
cada turno,
cada dor,
cada sono...

47
pra mandar os conciliadores
à merda,
pra juntar com os meus
nossas raivas
e devolvê-las no peito
desses grandissíssimos filhos da
[puta.

48
ELIZIANE

As mãos fortes,
a pele preta,
as pernas grossas,
o olhar consternado.

O passo firme
e lento:
enquanto as mais moças correm,
ela produz mais que qualquer um.

Sai dessas oito horas de pé


(não há cadeiras)
e vai pra outro serviço
fazer a comida,
servir o buffet.

Quando vocês nos olham


e parece que somos fortes,
forte é ela.

Em casa são três crianças


e o marido,
os quatro precisam de roupas
[limpas,
comida,
café.

49
Quando vocês olharem a si próprios
e acharem que são fortes,
forte é ela.

Forte como um tronco,


uma pedra,
forte como um paredão.

A quem serve essa força,


minha irmã
- quem sabe amanhã,
camarada -
aos filhos,
ao marido,
ao pastor,
ao patrão?

Essa força em si
ensimesmada,
quem sabe, amanhã,
ampliada...

Para além dos muros


das fábricas e restaurantes,
das casas e igrejas,
quem sabe, amanhã,
somada a outras fortes como tu,

50
quem sabe, amanhã,
transformada.

De força para suportar,


força para manter,
força de acostumar,

em força de romper,
força de inverter,
força de derrubar,

não força de pedra, tronco,


paredão...
Força de cachoeira, rio,
de furacão.

Quando olharmos pra ela


e nos parecer que ela é forte,
forte ela ainda pode ser!

51
AOS QUE OSCILAM

Somos poucos,
por isso você
faz falta quando se vai,
é bem-vindo quando retorna.

Somos frágeis, por isso


ouvimos suas críticas
e procuramos melhorar,
pois em parte delas você tem razão.

Somos alegres quando você faz bem,


como quem não
desaprendesse.

Somos preocupados
quando você faz mal
em nosso nome.

Se pudermos, nós também,


fazer uma crítica ou sugestão,
diríamos:
toma teu lugar na trincheira,
em que caibas e que não te sobre,
arma-te com o que melhor possas
[manejar
e lute como um dos nossos,
porque os ataques de lá
não oscilam.

52
GRATIDÃO

deveríamos agradecer, vocês dizem.

pois temos trabalho


que nos quebra e adoece,
enquanto são tantos que ficam na
[fila

agradecer por termos o que comer


ainda que caro
pouco
e de péssima qualidade
enquanto tantos passam fome

os filhos na escola
sem merenda
e faltando professor

agradecer os dias de folga


tão raros
em que descansamos

o vinho barato com que


nos emborrachamos

53
senhores!

nós construímos tudo


absolutamente cada produto
que vocês usam ou habitam

nossos antepassados arrastaram


as pedras das vossas pirâmides
nossos filhos
estão programando vossos
computadores

montando os carros
extraindo o petróleo
estão nas minas
ou barragens
em que vocês nem chegam perto

mas antes que os mais bondosos


entre vocês se apressem:
- não queremos a sua gratidão,
senhores.
queremos o seu
fim.

54
SEXTA

55
56
SEXTA

Faz de conta
que amanhã
você tem folga.

Finge
domingo
que está feliz.

57
CONSTÂNCIA

Há dias que sucedem


por pura teimosia:
o salário é baixo
o pão é pouco
o local é insalubre...
Viver
é tecnicamente inviável.

Mas o dia insiste:


anoitece
amanhece
pare crianças
emancipa adultos
levanta rebeldes
e enamora casais.

58
PANFLETAGEM II

É grande
a pequena tarefa de hoje:
é singela,
é restrita,
é silenciosa,
é germinal.

É grande
a pequena tarefa de hoje:
é precisa,
é convicta,
é constante,
é fundamental.

É grande
a pequena tarefa de hoje,
porque prepara as maiores
de amanhã.

59
PROTESTO

quando botam outro pra rua,


as máquinas fazem ainda mais
barulho
e os peões,
ainda mais silêncio.

60
ROTATIVIDADE

é outra
entre o jaleco e a touca
do outro lado do corredor

você já foi embora


e nem soube
tudo que poderíamos ter feito.

61
CARLINHOS

ele não queria se envolver


pra não ser demitido

dependo do trabalho
ele disse

todos dependemos do trabalho


dissemos

mesmo assim ele não se envolveu


mesmo assim ele foi demitido

então não tinha ninguém


com quem estivesse envolvido
para lutar com ele

e não tinha ao menos o consolo


de que afinal foi demitido

porque se envolveu.

62
NECESSIDADES

Eles precisam nos ameaçar


cobrar
punir

Eles precisam nos humilhar


vigiar
demitir

Precisam nos recontratar


pressionar
confundir

Eles precisam nos tensionar


amansar
dividir

Eles precisam nos amedrontar


apertar
iludir

Precisam nos manipular


moldar
mentir

Eles precisam da gente


com fome
com dívidas

63
Eles precisam que a gente
tenha modos
respeito
juízo
tenha paciência...

Eles não vivem sem nós


mas nós
viveríamos muito melhor
sem eles.

Eles precisam
de nós.
Nós precisamos acabar com eles.

64
MUITO TEMPO NÃO É SEMPRE

Ninguém é forte o tempo inteiro


nem o cedro
nem a pedra
que é forte
mas pode mesmo uma pedra se
[lascar.

Ninguém é forte o tempo inteiro


nem o muro
nem a ponte
que é forte
mas pontes enormes também
podem quebrar.

Ninguém é forte o tempo inteiro


nem eles.

Nem mesmo eles.

65
66
SÁBADO

67
68
SÁBADO

Com os jalecos aparecendo pra fora


das pequenas bolsas
e a roupa mais aprumada do sábado,
com as pernas cansadas,
vão tomar um café
uma vez por mês
no dia de receber.

Sem saber onde pôr as mãos,


escolhem uma mesa invisível
para os homens e mulheres de
negócios que passam comprando
seus croissants e cappuccinos,
para viagem, por favor.

Um farroupilha e um café com leite,


pra mim também,
pra mim também,
e vão afrouxando o corpo,
a memória,
e vão lembrando que têm histórias
pra contar,
e vão soltando o riso e a prosa,
como se eles nunca tivessem sido
proibidos.

69
CONFORMES

a gente acorda cedo


mas tem onde dormir

a gente ganha pouco


mas tem lugar que é pior

a gente mora longe


mas ainda tem onde morar

a gente trabalha sábado


mas pelo menos tá trabalhando

a gente come mal


mas pelo menos tem comida

a gente ganha um café


frio, fraco e fervido...
mas putaqueospariu,
será possível que não temos direito
a beber um café decente?!

será que teremos de tomar


todas as lavouras e fábricas de café
para poder beber o bom café
que nós mesmos produzimos?

70
será que haveremos de tomar
as plantações, os restaurantes,
tomar toda comida que plantamos e
[cozinhamos
para enfim comer um bom prato
[dela?

tomar de volta as casas que


[construímos
tomar as camas e travesseiros
tomar nosso tempo de volta
para poder dormir e morar bem?

quando mudam as pequenas coisas,


melhoram as migalhas;
quando mudam as grandes,
as migalhas acabam,
porque acabam os pedintes
e os doadores.

71
TODOS NÓS

Cada um arrastando sua miséria


segurando seu choro
engolindo seu café

cada um matutando seus problemas


escondendo seus cortes
esperando o fim do mês

cada um abaixando sua cabeça


repetindo os mesmos gestos
se esforçando pra acabar

cada um esquecendo o que sonhava


respondendo o necessário
garantindo o amanhã

cada um contando suas moedas


escolhendo suas contas
aguentando até onde der

cada um adiando seus desejos


encontrando algum escape
ansiando domingo chegar

cada um com seus problemas


individuais.

72
SIMPLESMENTE INDISPENSÁVEIS

Vocês disseram
que nosso serviço
é só apertar botão.
Vocês chamaram
uma reunião
pra nos lembrar disso,
intrigados sobre por que
não produzíamos mais
sendo tão simples nosso trabalho.

Sim, nós apertamos botões


dez, vinte, trinta botões,
cinquenta por minuto
e, se ninguém o fizer,
as máquinas ficam paradas
e vocês não vão se agradar,
tampouco virão apertá-los.

Suas máquinas paradas


por dez minutos
são milhares
em prejuízo,
embora nosso salário
por dez minutos
não valha doze centavos.

Essa conta vocês não fazem.

Que valiosos apertos de botão.

73
MARISA

Espera, filha,
que a mãe já volta,
eu vou ver se soltam
a gente antes das dez.

Aguenta, filha,
se a dor veio agora,
amanhã tem folga
e vamos pro hospital.

Perdoa, filha,
se eu não vi teus cortes,
que a falta de sorte
não deixa eu parar.

Não briga, filha,


se eu não compro fruta,
pois é só labuta,
o dinheiro não dá.

Entende, filha,
se tá ruim na escola
e a mãe não dá bola,
não pode ajudar.

74
Não chora, filha,
que a mãe vai pra luta
pra essa vida bruta
um dia melhorar.

75
PÉS ROTOS

"...machucado nos pés


é sinal de mal caminho"

Olho meus pés


e os vejo rotos de andar.
Calos e cortes, barro e poeira,
marcas desse estradar.

Só se machuca quem anda,


eu respondo.
Só segue caminhando
quem sabe onde quer chegar.

Não troco as pedras da estrada


pelo mofo dos carpetes,
não troco
nenhum dos meus calos
pela paz de pés inertes.

Não troco dores e cortes


pelo conforto cúmplice
de pés intactos.

Se o tempo
é de duro caminhar,
quem não se machuca
é porque está parado.

76
E andando
não há de faltar
um camarada
em quem se possa apoiar
para firmar o passo.

Ao cobrir seus ombros


com meu braço,
posso ver seus pés:
também estão rotos.

O caminho endurece nossos pés.


Os pés rotos amaciam o caminho.
Tiram pedras, abrem brechas,
pisam pastos,
tornam menos bruto o trecho
para os passos que virão.

77
AOS QUE DESANIMAM

Gostaria de te acordar com beijos


e boas notícias
- o sol saiu,
os pássaros comemoram,
as crianças brincam no pátio,
vem visita de longe,
ninguém mais vende seu trabalho,
ninguém manda sem trabalhar.

Mas o inimigo ainda é soberano,


está por todos os lados
e dentro de nós.
Nos submete
e inverte todas as coisas:

nosso suor vira o seu produto,


uma pequena parte vira o nosso
[preço
e não conseguir ficar rico
vira um fracasso individual.

Cultura vira ideologia,


cooperação vira concorrência,
nosso amor vira controle,
sexo vira violência.

O que era tempo vira trabalho,


o que era nosso vira alheio,

78
o que era história vira
esquecimento.

Gostaria de te acordar com carícias


e boas notícias,
mas ainda há muito pra ser feito.

Estamos cansados, você diz,


foram tantas derrotas...
somos poucos e estamos
pior do que antes,
o inimigo matou
os que não pôde cooptar.

Gostaria de te consolar com um


[abraço
e boas notícias,
mas você tem razão
- somos poucos e estamos cansados,
no entanto ninguém,
senão nós,
poderá fazê-lo.

Nós, com todos os nossos defeitos,


com nosso cansaço,
com as marcas da derrota,
com nossos mortos por vingar.

79
Com toda a escuridão
por cima dos ombros
nos curvando,
com a potência de derrubar toda ela
ao levantar.

80
DOMINGO

81
82
DOMINGO

Uma e outra batida do cartão


disparam o cronômetro do tempo
livre, tempo de viver,

nele devem caber todos anseios,


desejos,
vontades,
tudo que é seu, de fato.

Enfim, tempo para ti:


junta o trapo que sobrou
e sorria!
Se não conseguir assim,
naturalmente,
beba, chape o coco,
sorria,
tire fotos, publique.

Concilie o trabalho doméstico


acumulado,
o carinho adiado,
a conversa pela metade,
o encontro aquele,
a visita,
o passeio...

83
cante
dance
brinque
relaxe
sorria!

Saia de si e se espalhe no mundo,


estique os horizontes do mundo,
mas cuidado:
já vai dar o sinal,
não se esqueça
de esconder o hálito e o sorriso,
o bronze e a canseira nas pernas,
vestir a carranca e as botas
para, em tempo hábil,
estar a postos
e bater o ponto sem atrasos.

84
LIMITE

Até o vento descansa:


sobe nas árvores mais altas
estende uma rede de fios de aranha
dorme seu sono de vento
e sonha com as tempestades...

85
CUNHA

Uma brecha no tempo


no trabalho
nas tarefas
pra percorrer teu corpo
descobrir os caminhos das carícias
e as histórias das tuas cicatrizes.

Uma brecha no mapa


nas distâncias
nos meios de transporte
para estar perto de ti
o ouvido ao alcance do sussurro
o carinho ao alcance da mão.

Uma brecha nas notícias


nas mensagens
nos informes
para saber de ti
e tua visão do mundo
não com pretensão enciclopédica
mas com a natural curiosidade
de quem percorre as ruas de uma
cidade nova.

uma brecha nos barulhos


nas máquinas
nos caças
para ouvir teu canto

86
seu roçar de folhas no vento
íntimo e certeiro como quem conta
um segredo.

Uma brecha na razão


nas metas
nos prazos
na matemática
pra brincar contigo
inventar histórias e explicações
fantásticas
para mudar as plantas e observá-las
crescerem.

Uma brecha nas imagens


na cegueira
na falta de horizonte
pra poder ver teus olhos
que sorriem
desafiando o tempo, o espaço
e outras bobagens.

87
VILA DA PAZ

Vila da Paz
e da guerra velada
da estrada
por asfaltar.

Vila
tem mais cachorro
que gente
tem gente
que de repente
não se vê mais.

Vila que desobstrui


bueiros
depois da enchente
e se empresta lençóis.

Vila que pede um cigarro


que puxa uma prosa
que passa um café.

Vila que escuta todos conflitos


que passam
dentro e fora das casas,
mas não sabe de nenhum.

88
Vila impassível, bom dia?
Bom dia. Tudo bem?
Tuuudo bem.

Vila do pôr do sol


que não se vê, mas se sente
pressente
por trás do muro
da invasão.

Vila do beco escuro


e de sempre um valão
por tapar.

Vila que não termina:


despeja,
aumenta. Regulariza,
dissemina.

Vila dos gritos de gol


dos domingos em casa
reforma
e Faustão.

Vila das roupas estendidas


esperando um tempo
melhor pra secar.

89
Vila das residências
sem comprovante
da criançada
descalça
dos papelões.

Vila dos jardins


espremidos
das manicures
igrejas
dos sacolés.

Vila dos operários


de passo apressado
dos aposentados
no portão.

Vila dos cães e cavalos


vila dos gatos
pelos telhados
em confusão.

Vila que não precisa polícia


vila que sabe o que é
chinelo
e o que é ladrão.

90
Vila dos barracos
dos mercadinhos
sobrados
das construções.

Vila tem sempre alguém


que mataram
alguém
que vem e que foi.

Vila da cerveja barata


das trocas de garrafa
e a promessa
de devolver.

Vila dos chás de fralda


dos batizados em casa
da mesa inocente
e da festa pagã.

Vila do churrasco
no contra-cheque
do ossinho
no fim do mês.

Vila dos vinte pila


o carreto
dos trinta

91
a cinquentinha
e cem
o que o senhor quiser.

Vila do caminhão
da verdura
do sabão
do carro do ovo
do carro do gás.

Vila do futebol
na rua
dos carros lentos
dos guris na correria
vila das mães.

Vila que sonha em ser bairro


que sonha
em se chamar progresso
que sonha
já nem se lembra
se sonha
em sair dali.

92
NOSSA LAIA

São todas mães


nessa anti-família,
são todas filhas.

São tias,
quando cozinham alho e limão
para a gripe.

Quando acolhem um choro


no ombro,
são irmãs.

Quando passeiam, namoram,


tão meninas...
são primas.

Quando olham umas às outras


e aprendem, e se inspiram...
sobrinhas.

São avós,
quando contam histórias;

são noivas,
quando sonham futuro;

quando desobedecem,
são netas;

93
quando cúmplices
nas desobediências,
são comadres.

Sem contratos nem certidões,


essa união é estável,
porque sem pretensão
de eternidade;

é fiel,
porque sem a mentira
de exclusividade;

e é feliz,
porque se sente assim,
não porque seja
obrigada.

94
POTÊNCIA

Sentada na janela
da tua casa, entre os gatos
e como um deles,
observo a multidão da metrópole.

O olhar preso
como quem vê, do redor,
uma fogueira
ou então, do barranco,
observa um rio.

Incompreensível parece
seu movimento:
magnético,
encantador,
irrepetível,
inócuo...

Quem são esses homens-labareda


que estão apressados,
esgotados,
solitários,
opacos.

95
Que enchem os olhos de
mercadorias,
o fígado de cachaça,
a cabeça de fluoxetina,
os bolsos de contas a pagar?

Quem são essas


mulheres-labareda
que perderam sua história,
suas terras,
ferramentas,
suas casas e sonhos,
a noção de si e das suas,
a noção de que isso
pode mudar?

Ah, metrópole obscura...


só tem sentido
acesa!
Quando as labaredas se sabem
fogueira...

e incendeiam.

96
DESIGUAL

Corta o céu,
um caça em alta velocidade.
Na rua de chão,
se arrasta uma carroça
puxada a cavalo.
E ainda dizem
que meu país é atrasado.
E ainda dizem
que meu país é moderno.

97
POEMINHA BAGACEIRO

livre
te encontro na rua
lavo-te
a beijos de amor

leve
te retiro armaduras
lavro-te as costas
sem dor

canto
tua boca nua
na ponta da língua
ergo-te
em flor

louco
te faço primeiro
leito
te deixo deitar

levo-te
dentro do peito
de leve,
te toco a voar

98
as vias
abertas
teu perfume
nos dedos
no meio das pernas
no ar

99
MULTIPLICAR

pra que eu vou querer te ter inteiro


se as partes pelas quais
me apaixonei
não fui eu quem te deu
foi o mundo inteiro...
e perdemos nós dois
se tu as perder

100
ACORDANDO SONHADO

eu quero
entrar no teu sonho
te chamar pra longe
ir pra cachoeira
tocar violão

eu quero
namorar contigo
e andar na roça
ir fazendo graça
escrever uma canção

depois
chegar no teu ouvido
e chamar teu nome
pegar tua mão

e então bem acordados


ir fazer de novo
o que a gente sonhou

101
PULSANDO

esfriar o corpo
na água da cachoeira
esquentar o peito
nas cordas do violão

tensionar os músculos
nadando contra a corrente
relaxar nas pedras
tomando o sol do verão

silenciar as vozes
para ouvir melhor a mata
e gritar tambores
nos versos de uma canção

esticar o olhar
para ver o horizonte
recolhê-lo
a tempo de olhar pra dentro

nos juntarmos
pra fazer essa alegria
separar-nos
espalhando-a por aí!

102
COMO QUERÍAMOS QUE FOSSE

é grande como bola de neve


leve como bater de asa
casa como universo infinito
bonito como ter coragem
viagem pra longe ou no mesmo lugar

é um cantar que impulsiona a gente


quente como um toque escondido
divertido como criança em passeio
cheio como as ruas de verão
são como um banho de mar

é o chegar eterno do cigano


plano quando dá certo
firme como o que já aprendemos
sereno como prosa de amigo
abrigo como um colo gostoso
teimoso como o que enfrenta um
[gigante

é instigante como o nosso futuro


seguro como nada está parado
ousado como um vento revolto
louco como enganar a morte
forte como todos nós em um

é comum...
como queríamos que fosse!

103
QUASE PERFEITO

Sim, eu já sei que, daqui pra frente,


nossos olhos terão de se reconhecer
noutros olhares,
nossos beijos serão de outras bocas,
nosso cheiro será o cheiro da
memória.

Também sei que enquanto


[estivermos
sob a mesma bandeira,
não há Atlântico que nos separe
e que com a classe somos um só.

Eu já assimilei isso perfeitamente.


Meu coração é que insiste.

104
DAS SETE CORES

As palavras foram inventadas para o


cotidiano:
casa, fruta, roupa.
As cores foram nomeadas no
[cotidiano:
para pintar a casa, identificar a fruta,
escolher a roupa.
Mesmo os sentimentos foram
nomeados
para responder a questões práticas:
sono, fome, frio...
Ainda os mais excepcionais:
amor, solidariedade...
Surgiram para explicar questões
mais ou menos cotidianas.

Por isso, ao olhar algo novo,


tão novo,
(que não nos é permitido ver
na luta pela sobrevivência
cotidiana)
nos faltam palavras
para nomear o incrível.

Novos afazeres, novas formas de


fazer as coisas, novos sentimentos...
novas cores?

105
Esse monte, por exemplo,
sem relógios nem obrigações
(sem contratos nem patrões)
é de um azul-nostalgia
amarelo-ímpeto
verde-infinito
marrom-história
roxo-carícia
branco-síntese
vermelho-futuro!

106
RANCHINHO

Sim, aqui vivo só eu,


mas não sozinha...
Ainda estão os rastros
dos que recém se foram
e já se vê a luz
dos que estão a caminho.
Me empurra a multidão
dos nossos mortos
e me puxa o tanto
que temos por mudar.

107
DESPEDIDA

Não podendo ir junto,


não deixo de estar aí contigo
numa virada de vento,
num ponteio, num cheiro,
num rabo de nuvem,
num pássaro que se demore.

Mas, sobretudo,
nos olhares de nossa gente
eu te farei companhia,
do tiozinho da velha dos moços...
Ah, como estarei no das crianças!

Te olharei pelos olhos


da nossa classe
e assim nunca estarás só
(antes bem acompanhado),
para que nas condições mais
[adversas
não te afastes de mim,
nem dela.

108
HÚMUS

Meu coração é um farrapo.


Pedra
na ribanceira.

Já é qualquer coisa:
Terra,
Poeira,
Nada,
é o que restou.

Proporcional à subida
é a queda,
e isso não consola.

Nem consola a ideia


de que haja um consolo futuro,
azar o dele.

Mas deve haver,


por sorte.

Pois não consta


que pedras ou corações
desapareçam.

Antes se transformam,
os dois,
em terra fértil.

109
AREJAR

as palavras
como a gente
muito tempo paradas
atrofiam

umedecem
mofam
colam-se entre si
são comidas de traças

cada tanto é preciso


soprar a poeira
desentocá-las
e as jogar pra cima

rolar na grama
andar de balanço
mergulhar no rio
secar no sol
e voar no ar

aquecer no fogo
e correr ao vento
encher o peito
se matar de rir

110
se reconhecer
se estranhar
voltar a se organizar

as palavras
já são outras

nós também

111
IMBITUBA

Mar que se desdobra em ondas,


cíclico,
ou que bate e rompe as pedras,
convicto.
Que na margem lambe a areia,
sereno.
Céu que sem nenhuma nuvem,
pleno,
que sobre nós nu se estende,
obsceno.
Sol que prepara seu pôr
multicor.

Nada disso era extraordinário,


ainda que fosse,
nem mesmo tu, se estivesses
e serias,
pois havia algo mais inédito
no horizonte.

Eram os navios parados,


seis deles ,
certa distância entre si
e do porto,
mais parados que navios
parados,
mais parados pois navios
que esperam.

112
Mais parados que os que esperam,
tensos,
pois no porto não há quem
se dobre.

Pagam mal aos que trabalham


no porto,
o que já faz muito tempo
e piora.

Mas agora nos navios


Isso aparece
e ninguém pode negar
que está mal.

Mesmo um trabalhador
que carrega
move-se menos que um outro
que para
(pois quando ele para
se movem
coisas que antes estavam
paradas).

Move-se um trabalhador
que, parado,
mostra seu desgosto de
toneladas.

113
Se saísse um arco-íris
inesperado,
aparecesse a baleia
franca,
pousasse uma revoada
de andorinhas,
aqueles homens ainda seriam
a maior
beleza
do cenário.

Meus irmãos de água e sol,


suor salgado,
a quem de longe eu saudei
sorrindo,
com um sorriso que era
o deles,
desde minha retaguarda
metálica
(terra firme que prepara
vulcões).

O sol enfim se pôs


e foi vermelho.

114
SEGUNDA...

115
116
NOVOS VELHOS TEMPOS

os lobos ameaçam voltar pra rua


sem as carapaças
de cordeiro
estão com medo de quê?

acaso não foram suficientes


os anos de mordaça
participativa
chicote eletrônico
acesso ao consumo
de segunda classe
e às dívidas?

vocês sabem do que somos capazes


quando às vezes nós mesmos
esquecemos

***

são tão perversos os lobos


quanto os cordeiros
são faces da mesma moeda
funcionários
do mesmo patrão

eles usam as armas


apenas quando necessário

117
eles usam as armas
sempre que necessário

o que muda é se vamos sangrar


de emboscada numa esquina
ou morrer um pouco por dia
no sufoco das catracas

se vamos perder os dedos


na tortura
ou nos acidentes de trabalho

se vamos ser mortos


nas avenidas
ou nos becos escuros da periferia

se vamos ser ameaçadas e


estupradas
nas ruas
ou na sutileza dos lares

o que sim, faz muita diferença,


mas que, em última instância,
nos mata, nos mutila, nos estupra.

***

118
juntemo-nos, vítimas da barbárie
os que estão surpresos com ela
os que já acham que ela é natural

não se trata de escolher


o terreno pra lutar
(nunca pudemos)

e quando o cerco aperta


não nos resta
senão ficar em pé

ainda que seja


por teimosia
por não ter pra onde correr

só nos resta
encher o peito
segurar as mãos
abrir bem os olhos
e atender às novas exigências:

será preciso voltar


a usar metáforas
voltar a compor

119
voltar
a pintar muros
a saber se defender

vamos precisar
voltar a conspirar
comunicar sem alarde

tecer outras redes


a olhar as portas
e retrovisores

a se esconder nas casas


de amigos
e abrir as nossas

atentar às armadilhas
aos cordeiros que contra os lobos
vão querer nos jantar

será preciso aprender a cuidar


sem temer
preparar
sem parar
e juntar
sem ceder

***

120
não será a primeira, camaradas.
mas pode ser a última.

121
NECESSÁRIO

Um poema que atravesse


as tempestades
e as calmarias,
que resultam às vezes ainda mais
violentas.

Um poema que sustente


quando o terreno é instável,
tracione o passo
e segure as mãos.

Um poema que ajude


a resistir à seca
pois lembra:
depois delas, sempre choveu.

Um poema que empurre


[os cansados,
aglutine os dispersos
e acalme os mais afoitos.

Um poema que avise


aonde queremos chegar
e saiba,
nem por isso estamos mais
[perto.

122
Um poema que lembre
que já fomos capazes
e também parecia impossível
quando fizemos.

Um poema que levante os olhares


no horizonte
pois talvez nossos mais próximos
estejam hoje mais longe que nunca.

Um poema que conecte gerações


que saiba ainda de onde viemos
e lance seus versos até os que virão.

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