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Tema: «As barreiras arquitectónicas nas escolas, intervenção na resolução de

problemas»

Disciplina: NEE físico motoras

Docente: Mestre
Discentes:

- Isabel Sofia Lopes Caetano Vieira


Turma distal
- Carla Manuela de Sousa Freitas
Especialização em ensino especial na área cognitivo motora

Aveiro, 23 de Abril de 2008

Índice

Introdução

Capitulo I – Realidade do cidadão deficiente em Portugal


1. Acessibilidade e Mobilidade em Portugal – suporte legal
2. Vive(ndo) cada dia…

Capitulo 2 – A vida real nas escolas


1. A escola (des) atenta
2. Papel do professor na promoção de consciências cívicas
3. Futuro esperado…sonho alcançado

Conclusão
Bibliografia

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Introdução

«O modo como uma sociedade encara a deficiência e os


cidadãos com deficiência traduz o grau de civismo e de
humanismo dessa mesma sociedade.»
Professor Torrado da Silva
( In Cadernos de Educação de Infância

Ter uma criança com NEE não é fácil para as famílias e para as escolas,
nem mesmo para a sociedade. E se não é fácil em nenhum país, muito mais
difícil se torna em Portugal, já que infelizmente a atitude do nosso Estado e da
nossa sociedade perante os cidadãos portadores de uma deficiência deixa
ainda muito a desejar. Por estas razões, se não aumentarmos
substancialmente o nosso esforço colectivo, «se não melhorarmos as nossas
atitudes e se não forem previstos recursos humanos, técnicos e orçamentais,
as deficiências desaguarão, inevitavelmente, em handicaps, ou seja, as “falhas”
físicas ou psicológicas acabarão por resultar em “insucessos” e obstáculos
sociais. O que é de uma injustiça gritante e inaceitável», tal como defende o
professor Torrado da Silva.
Portugal foi, durante décadas, um País onde a diferença era mal
tolerada. Os cidadãos com deficiência eram diferentes. São diferentes. Como
todos somos, felizmente, diferentes uns dos outros. E como, aliás, todos temos
algum tipo de deficiência, seja relacional, seja orgânica ou de outra área
qualquer. Ponham o Figo a tocar piano ou a Mário Laginha a fazer salto em
comprimento e poder-se-á ver como cada um é bom numas coisas e fraco
noutras.
Talvez por este pouco uso da tolerância, os hábitos culturais e a
tradição,
associadas a sucessivos governos muito pouco motivados para as questões
sociais, levaram a que os cidadãos com deficiência fossem durante muito
tempo considerados como "cidadãos de segunda" e que os seus direitos só
muito tarde viessem a ser reconhecidos e implementados.
Hoje, as coisas não mudaram muito, quando vemos todos os dias as
dificuldades de cidadãos se deslocando nas ruas entulhadas de gente que

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pouco ou nada se incomodam em estacionar os seus carros nos passeios;
quando vimos rampas excessivamente inclinadas, …quando nem sequer
olhamos para o outro, estando apenas preocupados com o ritmo acelerado das
nossas vidas!
Neste sentido, acreditamos que a escola, tem de ser um marco nesta
urgente viragem de mentalidades! Cada professor na sua condição de ser
humano atento, crítico e participativo na sociedade, tem de incluir em cada
palavra da sua docência formas de consciência social e cívica em cada aluno.

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Capitulo I – Realidade legislativa em Portugal

1. Acessibilidade e Mobilidade em Portugal – suporte legal

Estamos no século XXI e são inúmeras as questões que ainda


colocamos acerca da aplicação da legislação existente, que proteja os
cidadãos com mobilidade reduzida ou com algum tipo de deficiência.

«Somos o pais da União Europeia, que mais leis temos em favor dos cidadãos com deficiência,
mas cuja aplicação prática, ou não é cumprida ou não é sequer regulamentada. Ou seja, tem
aplicação próxima de nula» (Revista ASSOCIAÇÃO, Setembro 07)

Continuamos a ver todos os dias a construção de edifícios com


barreiras arquitectónicas, continuamos a ver passeios altos que impossibilitam
a passagem, por exemplo, de uma cadeira de rodas, continuamos de olhos
fechados e de costas voltadas para uma realidade que é nossa e não do outro,
porque somos todos potenciais deficientes!
Questionamo-nos se um cidadão invisual ou que faça uso de uma
cadeira de rodas pode usufruir de uma qualidade de vida merecedora. Para
alem da acessibilidade aos próprios empregos ser muitas vezes inexistente,
como é que vão ao cinema, teatro, passear? Se a cada passo há um obstáculo,
há um entrave para viver a verdadeira vida! Deste modo, podemos referir que
«A supressão de barreiras urbanísticas e arquitectónicas reveste-se de grande
importância no processo de total integração social das pessoas com mobilidade
reduzida, permanente ou temporária, e na melhoria da qualidade de vida de
todos os cidadãos em geral (…)» (Decreto-Lei nº123/97 de 22 de Maio:
finalidades)
Neste sentido, é, profundamente necessário que as leis sejam aplicadas,
compreendidas e fiscalizadas não só por políticos, engenheiros, arquitectos,
mas também por professores, alunos, …, ou melhor por cada um de nós.

«Essas barreiras promovem a exclusão social, acentuam preconceitos e favorecem práticas


discriminatórias, prejudicando, nomeadamente, as pessoas com deficiência e os mais idosos»
(Plano Nacional de Promoção da Acessibilidade, p: 366)

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Debruçando um olhar atento para alguns exemplares de legislação
portuguesa em prol da defesa da mobilidade e acessibilidade dos deficientes
ficamos com um sorriso no rosto. Todavia quando essa reflexão recai para a
vida real, o nosso sorriso esvai-se e acaba por levar a conclusões pouco ou
nada satisfatórias.
Começando pela nossa Constituição, todos os cidadãos são iguais aos
olhos da lei, não havendo, portanto, cidadãos de primeira e de segunda. Deste
modo, no nosso quadro jurídico, torna-se imprescindível referir que o artigo
71/2 da mesma impõe ao Estado a obrigação de tornar efectiva a realização
dos direitos dos cidadãos com deficiência. Assim sendo, «Os estados devem
reconhecer a importância global das possibilidades de acesso dentro do
processo de conseguir a igualdade de oportunidades em todas as esferas da
sociedade. Para as pessoas com deficiência de qualquer índole, os Estados
devem: (a) estabelecer programas de acção para que o meio físico seja
acessível, e (b)adoptar medidas para garantir o acesso à informação e à
comunidade» (Regra 5 das Regras Gerais sobre a Igualdade de
Oportunidades para Pessoas com Deficiência das Nações Unidas)
Na Declaração de Direitos das Pessoas Deficientes podemos ler no
ponto 3 que «as pessoas com deficiência têm o direito inalienável ao respeito
pela sua dignidade humana. As pessoas com deficiência, qualquer que seja a
origem, natureza e gravidade de suas deficiências, têm os mesmos direitos
fundamentais que seus concidadãos da mesma idade, o que implica, antes de
tudo, o direito de desfrutar de uma vida decente, tão normal e plena quanto
possível». Os mesmo direitos que os seus concidadãos? Será aplicado na
realidade? Concerteza que não!
No que respeita à acessibilidade e mobilidade do cidadão deficiente
também existem documentos que defendem a sua importância. Assim sendo,
«a promoção da acessibilidade constitui um elemento fundamental na
qualidade de vida das pessoas, sendo um meio imprescindível para o exercício
dos direitos que são conferidos a qualquer membro de uma sociedade
democrática, contribuindo decisivamente para um maior reforço dos laços
sociais, para uma maior participação cívica de todos aqueles que a integram e,
consequentemente, par um crescente aprofundamento da solidariedade no
Estado social de direito» (Decreto-Lei nº 163/2006 de 8 de Agosto)

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Também podemos evidenciar o Artigo 1º do Decreto- Lei 123/97 de 22
de Maio quando refere que «são aprovadas as normas técnicas destinadas a
permitir a acessibilidade das pessoas com mobilidade condicionada,
nomeadamente através da supressão das barreiras urbanísticas e
arquitectónicas nos edifícios públicos, equipamentos colectivos e via pública»
A realidade é que estas legislações muitas vezes não passam do papel,
estando longe de ser atingida. O próprio Estado dá um péssimo exemplo
quando, verificamos que os próprios Tribunais, Câmaras Municipais, Juntas de
Freguesia, conservatórias, etc, impossibilitam o acesso a cidadãos com
deficiência.
A legislação não deve ser flutuante, mas sim seguidas à risca. Temos
esse dever para com o outro e para com nos próprios, é essa, concerteza, a
nossa contribuição e dever cívico enquanto cidadãos

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2. Vive(ndo) cada dia…

«Milhões de pessoas confundem o verdadeiro significado da palavra


«diferente» e não hesitam em ligarem à palavra «deficiente», mas geralmente,
não o fazem correctamente, como as pessoas deficientes merecem. Muitas
vezes, na opinião do senso comum, deficiente é ser coitadinho, incapaz,
invalido, alijado, impotente, anjinho, e tantas outras palavras que ferem e
revoltam quem é tratado com tais adjectivos! Esses, desistiram há muito da
vida, talvez porque também concordarem, em parte, com os tais milhões, e
deixam-se estar na caminha a ver novelas, e a comerem o pãozinho que a
pensão miserável dá para comprar, é mais fácil para todos. Quantas casas
portuguesas alojam uma pessoa assim? Muitas, seguramente»
Manuel Francisco Costa, portador de paralisia cerebral

Talvez poucos de nós tem a facilidade de nos colocarmos no papel do


outro, nós os ditos «normais» da sociedade conseguimos alterar esse rótulo
tão estupidamente que ainda hoje fechamos os olhos para uma realidade que
está mesmo à nossa frente. Não podemos esquecer, portanto, que «Segundo
cálculos da organização Mundial de Saúde, em Portugal, o número de
cidadãos com deficiência ultrapassa um milhão. Um milhão de cidadãos cujos
direitos humanos não são assegurados, tal como é reconhecido pelas Nações
Unidas e pela própria Comissão Europeia.» (Doc. APD, 2003). Neste sentido
cerca de nove por cento dos cidadãos portugueses luta diariamente contra uma
sociedade que os ignora, luta para aceder a edifícios e transportes públicos,
desistindo, muitas vezes do lazer, como ir a um cinema, teatro, desporto, já
para não referir o trabalho.
Não pode admirar que face às dificuldades da vida diária muitos deles se
transformem em coitadinhos como refere Manuel Francisco Costa, desistem de
coisas rotineiras, desistem muitas vezes de si próprios. Deste modo, as
barreiras arquitectónicas impedem esse milhão de cidadãos de se deslocarem
para onde desejam, impedindo-os da sua independência e autonomia.
Piso irregular, entradas estreitas, passeios altos, inexistência de rampas
ou muito inclinadas, escadarias, balcões altos, elevadores com botões
inacessíveis, Multibancos altos, automobilistas que estacionam nos passeios,

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autocarros, táxis, comboios inacessíveis sem meios para o transporte de
cadeira de rodas, …fazem parte do dia a dia do cidadão deficiente. De maneira
nenhuma podemos esquecer que a acessibilidade constitui um direito universal
imprescindível para o verdadeiro entendimento da cidadania. Entendendo,
portanto que um espaço acessível é aquele que pode ser utilizado em sua
plenitude por todos, diga-se TODOS!
Boaventura de Souza Santos, sociólogo refere que «Temos o direito de
ser iguais sempre que as diferenças nos inferiorizem; temos o direito de
ser diferentes sempre que a igualdade nos descaracterize» Acima de tudo
somos todos seres humanos que pretendemos alcançar a felicidade. Agora,
basta cada um de nós pensar se a felicidade dos cidadãos deficientes está ao
nosso alcance e se em pequenos gestos podemos/devemos dar a mão e fazer
alguma coisa pela sociedade egoísta, intolerante e esquecida em que vivemos.
Temos de uma vez por todas derrubar todas as barreiras que
acompanham a vida destes cidadãos. São cidadãos com sentido cívico, critico,
de inter-ajuda, que os cidadãos com deficiência precisam. Tanto um familiar,
um amigo, um aluno ou mesmo um desconhecido necessita de uma
contribuição verdadeira da sociedade para melhorar a sua qualidade de vida,
com vista à sua plena integração na sociedade, tanto a nível pessoal, escolar,
laboral, acessibilidades na rua, nas entidades públicas, transportes e até
mesmo na sua própria casa. Deste modo a acessibilidade deve ser um direito
comum, tanto do cidadão deficiente como do cidadão em geral desde a sua
infância até à velhice.

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Capitulo 2 – A vida real nas escolas

«Nas sociedades de hoje qualquer cidadão comum aspira a que lhe


sejam reconhecidas, pelo menos, três direitos fundamentais: LIBERDADE,
IGUALDADE, FRATERNIDADE; os cidadãos deficientes (…) paralelamente a
estes direitos fundamentais, e sobretudo no que toca à sua vida escolar,
exigem três outras condições: MOTIVAÇÃO, PERSISTÊNCIA,
CMPREENSÃO.» (MACHÁS e tal, p:7)

«Uma Escola, ou qualquer outro edifício, só será, na verdade, Edifício


Público, se oferecer, a TODOS, iguais condições de acesso, funcionalidade e
conforto, em resumo, se estiver, sem descriminações, ao serviço da
comunidade» (MACHÁS e tal, p:11)

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Conclusão

Ao longo da realização do presente trabalho fomo-nos apercebendo que


cada um de nós tem de ter, obrigatoriamente, um papel na mudança de
mentalidades, de politicas, de pedagogias face a uma realidade: as barreiras
arquitectónicas que existem na nossa sociedade.
Com dificuldade verificamos que existem inúmeras legislações, artigos,
leis que pretendem defender o cidadão portador de deficiência. Dificuldade,
visto que quando a aplicamos aos nossos dias acabam por ser inaplicadas.
Portanto, parece que vivemos num pais onde o que está escrito é importante
mas pouca ou nenhuma importância se dá à sua aplicabilidade.
Ainda nos dias de hoje um milhão de cidadãos deficientes vive todos os
dias dificuldades de acessibilidade, de emprego, de educação, de exclusão
social, de esquecimento… vive à margem de um futuro risonho, vive à margem
de um futuro que à nascença lhe foi dado por direito!
Como docentes temos um papel primordial na implementação de
consciências cívicas, pessoais e sociais face à diferença. Somos nós que
TEMOS de incutir valores de responsabilização, de reflexão, de intervenção
social e pessoal face às pessoas deficientes. A escola tem, deste modo, de ter,
forçosamente um papel mais abrangente do que o programas e currículos
obrigatórios, ela tem a importante função de promover competências sociais,
pessoais, em busca da verdadeira escola para todos.
Cabe, por fim, a cada um nós, obter uma plena consciência da diferença,
não podemos, portanto, continuar a viver de olhos fechados, virados somente
para as nossas vidas. Temos de dar a oportunidade a estes cidadãos que
apesar de acompanhadas por uma cadeira de rodas ou cegos olhem para a
vida com vontade de a viver sem «tropeçarem» em cada esquina!

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Bibliografia

• Associação portuguesa de deficientes – educação inclusiva,


educação de qualidade para todos

• Associação portuguesa de deficientes – Acessibilidade e


Mobilidade

• Convenção sobre os Direitos Humanos da ONU

• Convenção sobre os direitos da pessoa com deficiência

• Constituição da Republica Portuguesa de 2 de Abril de 1975

• Declaração de Direitos das Pessoas Deficientes

• Decreto-Lei nº. 163/2006 de 8 de Agosto

• Decreto-Lei nº. 123/97 de 22 de Maio

• MACHÁS, Estella; Beja, Filomena; SALDANA, Isabel; SERRA,


Júlia, O deficiente na escola, não às barreiras. MINISTÉRIO DA
HABITAÇÃO E OBRAS PÚBLICAS, DIRECÇÃO GERAL DAS
CONSTRUÇÕES ESCOLARES, CENTRO DE
DOCUMENTAÇÃO E INFORMAÇÃO

• Lei nº. 46/2006 de 28 de Agosto

• Lei Anti-discriminatória nacional

• Plano Nacional de promoção da Acessibilidade


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