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UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ – UECE

CURSO DE CIÊNCIAS SOCIAIS


RELIGIÃO E SOCIEDADE
PROFESSOR: EMANUEL FREITAS DA SILVA

Antônia Mariana de Andrade Ramos; Iraneide Sabóia de Sena; Maria Latércia


Antunes de Azevedo; Roseane Carvalho de Souza; Vitória Stephani de Oliveira Costa
Teixeira.

ATIVIDADE DE OBSERVAÇÃO - EVANGELICALISMO

FORTALEZA - CEARÁ
2020
1.INTRODUÇÃO

Nosso grupo ficou responsável por visitar a Igreja do Senhor Jesus Santuário do Espírito
Santo, localizada na Avenida Washington Soares, 7600, no bairro Messejana. Devido a
distância e os horários do culto, ocorreram três visitas, ocorridas no dia 12, 14 e 15 de março
de 2020. O culto ocorre todos os dias da semana, as 19 horas, horário indicado tanto pelo
Google, como pela página do Facebook que leva o mesmo nome. É interessante que em
nossa pesquisa, não encontramos a história da Igreja, mas seu surgimento está atrelado a
figura do Apóstolo Luiz Henrique, também pastor e deputado estadual. Tanto em seu perfil
na assembleia legislativa como na rede social, descobrimos que a fundação da Igreja ocorreu
há mais de doze anos, e ela faz parte da missão de vida do pastor Luiz Henrique, que a partir
de sua saída da dependência química, passou a resgatar pessoas nessas condições de vida.

Apóstolo Luiz Henrique - Imagem retirada da Internet

2.DESCRIÇÃO

Descrição geográfica e de acesso


O templo é localizado numa avenida de grande fluxo de veículos, e é acessível tanto para
pessoas que se transportam por meios próprios (carro particular, ônibus e vans fretados)
quanto para quem utiliza transporte público, pois há pontos de ônibus nas proximidades, que
levam para diferentes pontos da cidade.
Arquivo Pessoal – Maria Latércia
A apresentação da igreja é, para quem vê em primeira impressão, organizada e arejada. A
entrada divide o espaço público do privado com um grande portão, pintado com o nome da
igreja e ao lado, na lateral esquerda, um painel com os horários dos encontros principais. É ao
todo um local bem arejado, com uma portaria bem arrumada para apoio do funcionário que
trabalha lá. Entrei com meu veículo próprio sem ser identificada antes. Ao sair do carro, o
porteiro já me esperava, de dentro da guarita, pois presumia que eu iria pedir informações. Há
uma guarita e um funcionário (porteiro) que pode auxiliar no caminho ao acesso direto a
estrutura do templo. O piso é de calçamento e sinalizado e bem organizado (inclusive com
plaquinhas de vaga de estacionamento exclusiva para os pastores, com os respectivos nomes).
Há muitas vagas de carros de passeio na frente e lateral da igreja, porém todos sem cobertas.
Ao adentrar o local pelo portão principal, há uma cantina do lado esquerdo, bem organizada e
com opções de lanches, com assentos e mesas. Ainda do lado direito, uma entrada lateral e
algumas salas, que segundo o porteiro, que me encaminhou para conhecer o recinto, e
explicou que as salas são grupos de oração, que funcionam em diferentes dias. No dia de
hoje, um sábado pela manhã, deveria normalmente funcionar um grupo pequeno, na primeira
sala, com mulheres, para estudarem a palavra de Deus. No entanto, talvez por motivos
excepcionais, o grupo ainda não estava. Escolhi este horário e o dia da semana específico por
obedecer a uma publicação oficial na internet, onde acontece um evento de 6h às 8h. O
porteiro me falou que o melhor momento para conhecer a igreja pela primeira vez seria aos
domingos, pela manhã ou à noite, pois o fluxo de pessoas é maior, e há mais a presença de
pessoas, que deixam o evento acalorado.
O porteiro, único presente a me receber e me apresentar as dependências da igreja que foram
possíveis, não esboçou nenhuma instigação sobre o que eu estava pretendendo naquela hora e
sem movimentação na igreja, foi educado e gentil, acolhedor e muito receptivo, respondendo
aos meus questionamentos. O mesmo também não demonstrou nenhuma preferência a um ou
outro pastor, apenas evidenciando que são muitas pessoas que frequentam, e que a maioria
dos que procuram a igreja é para se afiliarem e sentir que pertencem a alguma religião que
possa acolher.
Arquivo Pessoal – Maria Latércia
Percebi que se trata de um grupo bem organizado e com propósitos de manter o local bem
preparado para o acesso e frequência das pessoas. Enquanto estava lá, vi um veículo partícula
chegar e adentrar a uma das salas laterais do local, mas não se disponibilizou a ter a
curiosidade de se interessar pelo que eu estava investigando. Todo o percurso feito por mim
para conhecer as dependências do local foram acompanhadas pelo porteiro, que foi muito
solícito em me apresentar o local e descrever como funcionavam as salas, os cultos de grande
porte, de como eu poderia ter acesso mais facilitado para entrar. Como o horário não foi
propicio para que eu pudesse ter a oportunidade de conversar com mais alguém, fiquei
limitada pelas opiniões e aparência do funcionário da portaria, para me dar os
esclarecimentos necessários. No entanto, marquei de fazer outra visita, no dia seguinte, num
horário mais conveniente de maior presença de fiéis e da organização em si. Infelizmente,
não foi possível ser realizada segunda visita com a frequência mais intensa dos participantes
dos cultos de maior porte, por questões de logística e, posteriormente, pelo momento
infortúnio que estamos vivenciando atualmente.
 Chegada
No dia 12 de março, cheguei ao local as 19:10, apreensiva por estar atrasada. No caminho até
a entrada da igreja, existe um grande estacionamento, onde haviam alguns carros. De frente
para ele existem uma loja, e uma cantina. Existem indicações também que a rádio, 102,03,
Rádio JESUS FM, é localizada no mesmo endereço. No caminho até a porta principal, existe
pouca iluminação e a sensação que senti foi de insegurança, ainda que tenha visto um
segurança. Minha apreensão se dava também ao fato de nunca ter ido a um culto, então não
sabia o que esperar. Ao chegar na porta, haviam mulheres conversando, parte delas, com uma
túnica, cor marsala, nenhuma delas me recepcionou. Dessa forma, entrei e me sentei do lado
direito, da Igreja.
A grandiosidade do altar impressiona, no meio existe um púlpito, onde provavelmente se
posiciona quem irá presidir o culto. Atrás do púlpito, existe o nome da igreja, em letras
douradas e maiúsculas. Ainda no altar, de ambos os lados existem cadeiras, e elas estão
posicionadas de lado, para visualizar o culto. Do lado direito, além dessas cadeiras, existe o
espaço reservado a banda. É interessante perceber as estruturas das cadeiras, material e local
que elas são diferentes das demais. E pela localização privilegiada devem ser destinadas a
personagens importantes para a igreja.

Arquivo Pessoal – Vitória Oliveira


O salão destinado ao fieis também é grandioso, perto do altar e antes das colunas, existem
três agrupamentos com cadeiras, e a maioria dos visitantes quando chega se destina para lá. E
depois das colunas existem mais cadeiras e mostram a dimensão e potência da igreja em
números. A partir de 19:40, a música instrumental que tocava desde minha chegada foi
substituída por louvores cantados por uma participante da igreja, a mulher estava vestida com
a túnica e o cabelo preso em formato de coque. Em sua maioria, as mulheres que estevam
com este traje, também estavam com os cabelos no mesmo formato, nos pés, sapatos pretos.
Neste momento, o telão posicionado do lado direito da igreja, em frente ao, passou a
transmitir o que acontecia no altar. Algumas fileiras atrás de mim também havia um telão, e
ao lado esquerdo da igreja, próximo a banda e as cadeiras no altar. Além do telão, existem
uma câmera suspensa também ao lado esquerdo e um cameraman que circula por toda a
igreja. No momento em que os louvores deram início, os telões passaram a transmitir o que
acontecia no palco, principalmente, mas também surgiam cenas de fieis, cantando
euforicamente, emocionados, envolvidos com o momento que precedia ao culto. Ao mesmo
tempo, na porta, acontecia o movimento de recepcionar fieis que chegavam, nesta espécie de
corredor, as mulheres de túnica, servas da igreja e homens (que também pareciam ser servos),
vestidos de paletó, abraçavam, davam as mãos e sorriam a quem chegasse.
O momento durou até as 20:19, quando as portas foram fechadas e todos que estavam
recepcionando, distribuíram-se ao redor da igreja, e em colunas também, com as mãos altas e
os homens em frente ao altar. Então, a figura do pastor surge, e dá-se “inicio” ao culto.
 Culto
A impressão que tive é que o pastor surgiu do “nada” no púlpito, porém com sua entrada, a
mulher que cantava saiu em direção a uma das portas que existem no palco/púlpito, então
talvez exista um espaço semelhante a sacristia, onde acontece a organização e verificação de
alguns passos pontuais do ritual que vai ocorrer. Ao chegar, ele cumprimenta quem está no
púlpito, mas não se direciona aos públicos de fieis. E logo, tira o blazer, desce a escada e
começa a percorrer a Igreja, pegando na cabeça dos presentes ali, ao mesmo tempo que falava
em línguas, no momento uma aflição tomou conta de mim, por não querer participar desse
ritual, que era estranho e não era significativo. Minha reação logo passou, pois percebi que a
prática fazia parte do ritual, tanto por não haver estranhamento dos demais, como por haver
certa coordenação, isto ficou evidente para mim quando percebi que além do pastor, havia
auxiliares que se localizavam e moviam junto ao pastor, para “aparar” quem recebia as
orações/bençãos. O cameraman acompanhava tudo, e nos painéis as cenas eram transmitidas.
Após esse momento, que teve duração aproximadamente de 10 minutos, o pastor sobe ao
púlpito novamente, o blazer é vestido nele, ele toma água, enxuga a testa, recompõem-se da
situação e da continuidade ao culto. Antes da pregação, temos as doações para o dízimo, é
interessante como o corpo da igreja circula neste momento. Existem duas formas de
contribuir, um envelope pode ser entregue para que sua oferta seja feita, ou você pode passar
o cartão de crédito ou débito, pois pasmem, existe um membro que percorre os corredores da
igreja com uma maquininha. O traje dele é formal, porém ele é o único homem que pertence
a instituição que não está de blazer, e sim com um colete verde, que tinha uma única palavra
“semear”, em letras maiúsculas e brancas. Este fato chamou minha atenção, porque em todas
as experiências com o sagrado que tive, em nenhuma delas a relação com o dinheiro é tão
aberta e naturalizada, até eu mesma, que estava como visitante senti certo remorso por não ter
levado nenhuma contribuição, e os olhares observadores também colaboraram.
Arquivo Pessoal – Vitória Oliveira
Em particular, depois das ofertas, e de tudo que havia observado acreditei que nada mais
poderia mexer comigo, ou até mesmo deixar-me boquiaberta, mas breve engano meu.
Haveria algo bem mais marcante. A partir da benção das ofertas, que são levadas para o
compartimento atrás do púlpito. Dando continuidade, o pastor indicou o versículo da bíblia e
fez sua leitura, minha desatenção fez com que eu não anotasse, mas as reflexões feitas a partir
do versículo, são situações cotidianas comuns, que podem acontecer com qualquer pessoa,
parte da reflexão foi para pedir bençãos para os fiéis, que Deus ajudasse a quem precisava,
ele pediu emprego para os irmãos, pediu a restauração de casamentos, pediu saúde para os
enfermos, falou novamente em línguas, entre os pedidos, mas em nenhum momento foi
falado do novo vírus, coronavírus. Estou citando este fato, pois as recomendações mundiais
já eram de evitar aglomerações, manter distância de outras pessoas, no mínimo de 2 metros,
evitar circular se não for necessário, tomar medidas de higiene, entre outras.
Porém, o ponto alto do culto foi quando as luzes faltaram ou foram desligadas, não sei ao
certo, e o pastor começou a falar em línguas e apenas os telões, o microfone, as câmeras e
uma luz amarela continuaram acesas e foi um momento “arrebatador” pois uma energia
tomou conta do lugar. Apenas a silhueta do pastor aparecia no palco/púlpito, o que formou
uma cena muito bonita, havia gritos, aleluias e glórias foram dados. E em certo momento, um
grito, ecoou, e senti uma mistura de sentimentos, algo foi dito, mas não foi possível,
compreender o que havia sido. Dentre todas as experiências vivenciadas no culto, esse
momento, em particular, foi muito intenso e significativo.
Antes das benções finais, é realizado outro momento de ofertas, junto com os avisos que são
dados. Mas a maior parte dos avisos é sobre rifas, e outros eventos que arrecadaram dinheiro
serão realizados em prol da igreja. Sua duração é bem mais curta que a primeira oferta, e
observei que algumas pessoas, realizam a doação nos dois momentos. Enquanto isto
acontece, uma música toca ao fundo e logo para que os últimos ritos aconteçam.
O pastor pede para que as pessoas que se encontram com dificuldades no casamento venham
para a frente do palco, que ele vai orar especialmente pelos que se encontram nesta situação.
Ele intercede para que Deus desfaça todos os “trabalhos”, “oferendas”, pede que Deus afaste
a pomba gira, o Diabo, que esses meios que afastam os casais, causam brigas,
desentendimentos, sejam rompidos e estas pessoas libertas, para que vivam plenamente seus
matrimônios. Esse momento envolveu emoções afloradas, algumas mulheres choravam, pois
pareciam estar passando por este momento, e em sua maioria, foram mulheres que se
direcionaram para receber a benção, havia apenas dois homens.
Depois disso, o pastor abençoa a todos e o culto termina.
 Final
As portas, foram abertas instantes antes, e as pessoas se aglomeram para ir embora, pois
durante todo o culto choveu de maneira intensa e coincidentemente ou não, ao término havia
parado de chover, as pessoas esvaziaram o espaço de modo rápido, muitas indicando que iam
utilizar o transporte coletivo, inclusive o cameraman também parecia apressado. Antes de
sair, percebi que as mulheres que no início se posicionaram em portas e paredes com as mãos
levantadas, ao final se viram e ajoelham-se, isto parece fazer parte do ritual.
Algumas considerações são importantes destacar. Não foi possível realizar nenhuma
entrevista, ninguém dá “congregação” se direcionou a mim, nem nenhum irmão ou irmã.
Apesar disto, foi muito interessante ir a campo, ainda que em alguns momentos tenha sido
desconfortável. Algumas práticas faziam parte do meu imaginário, mas não tinha o
conhecimento se elas ocorriam verdadeiramente, mas falar em línguas, os momentos de
“libertação” que podem ser acompanhados de desmaios, a citação a figuras de matriz
africana, ao próprio Diabo foram surpresas. Também não fazia ideia de que eles gritavam a
qualquer momento, eu nunca havia escutado tantos aleluias e glórias.
Arquivo Pessoal – Vitória Oliveira
 Chegada
Eram 7:00hrs da manhã de um domingo, aos 15 de março de 2020, dia nublado e com fortes
chuvas, quando atravessei a cidade de Fortaleza para chegar ao local de análise desta
pesquisa. Através do sistema de transporte coletivo de Fortaleza peguei no Terminal do
Siqueira a linha 051, o conhecido “Circular”, um ônibus que passa pelos mais variados
pontos da cidade. De fato, o trajeto que o ônibus faz do referido terminal de interação até o
outro, o de Messejana, é um trajeto que expõe as vicissitudes das desigualdades fortalezenses.
De uma periferia para outra, existem pontos que podem ser chamados de mais desenvolvidos,
enquanto outros, caracterizam a mais caricata periferia brasileira. Neste dia chuvoso, quando
o ônibus lotado (pleno domingo) já se aproximava da Grande Messejana, passou por diversos
pontos alagados, onde necessitava diminuir a velocidade para enfrentar a força da suja água.
O transporte realizou uma breve baldeação no terminal e seguiu em direção ao à
Avenida Washington Soares. A localização da igreja, contudo, é bem estratégica, pois
segundo o jornal online Tribuna do Ceará (2015), a avenida onde se localiza a igreja fora
avaliada como a detentora do maior número de fluxo de carros no ano de 2014, sendo a
segunda no ano de 2015, segundo levantamento do Detran/AMC.
Contudo, não podemos negar a realidade do bairro em que a igreja se insere, o Curió.
O bairro faz parte da Regional VI, que compreende aos bairros próximos à grande Messejana.
O que poucas pessoas lembram quando pensam no Curió é que ele é um bairro bem
arborizado, tanto é que possui uma Floresta, “na Floresta do Curió, é informado que o espaço
é o “último enclave de mata Atlântica na zona urbana de Fortaleza”. Espaço privilegiado
numa Fortaleza cada vez mais urbanizada” (MAIA, 2012). Infelizmente, uma das marcas que
mais está presente, é a violência, pois como bem narra o jornal O Povo (2017), Curió foi sede
da maior chacina do Estado do Ceará.
Na ocasião, Conforme os autos do processo, em 12 de novembro de
2015, numa ação contínua, que durou aproximadamente 3h30min, um grupo
de policiais militares assassinou outras sete pessoas, feriu gravemente mais
três e praticou três torturas físicas e uma tortura psicológica. Uma
verdadeira barbárie que repercutiu internacionalmente e ficou conhecida
como Chacina da Grande Messejana ou Chacina do Curió.
A chacina repercute as desigualdades que fazem parte da vivência no bairro, a
população que sofre, as mães que choram devido a força repressora que ainda hoje opera nos
bairros onde vemos a presença das populações menos privilegiadas. É nesse contexto que se
insere a Igreja do Senhor Jesus, liderada pelo apóstolo Luis Henrique e sua esposa. Um
contexto que carece por apoio, onde ele entra para oferecer o suporte e auxílio que pode à
população, parecer ausente por parte do Estado.
Após o ônibus entrar na avenida e passar por duas paradas, ao descer e a caminhada
até o local gira em torno dos 100 metros. Contudo, não é difícil reconhecer o local, muito
disso, ocorre devida a ampla estrutura da igreja. Existem grande muros com diversas placas
fazendo propaganda das ações da igreja e futuras reuniões, fora uma larga calçada, ambos
delineiam todo o perímetro, exceto por um recuo que existe para funcionar como entrada e
saída.
Quando lá cheguei, percebi que ainda estava fechado e o sentimento de curiosidade
verteu-se em enorme insegurança devido fato que no dia anterior, uma colega da equipe havia
ido, porém, não haveria culto na ocasião. Observei uma enorme placa que os horários que a
igreja coloca em sua entrada, divergem dos horários que estão publicados na internet, na
plataforma da Google. Constatei que diferente do que eu havia pensado, o culto se iniciaria às
9:30hrs, não às 8:00hrs. Logo, me dirigi até esse espaço, a fim de chegar na guarita da igreja,
ao lado de um alto e largo portão preto, divido em três partes, onde ao centro, em destaque,
vemos o símbolo da arca da aliança.
Na tradição judaico-cristã, vemos diversos relatos na Bíblia Cristã narrando esse signo
enquanto a presença do próprio Deus. Observei a seguinte informação em um dos livros que
compõem o Antigo Testamento “Ali, sobre a tampa, que é o lugar de expiação, entre os
querubins de ouro que estão sobre a arca da aliança, virei ao seu encontro e falarei com você.
Dali eu lhe darei meus mandamentos para o povo de Israel.” (Êxodo 25:22). Vermos essa
arca logo na entrada da igreja, nos dá a sensação de estarmos de volta ao que é narrado no
Antigo Testamento, onde Deus falaria com aqueles que entrassem ali. Suponho que aquela
arca posicionada em um lugar estratégico funciona como um convite para que, aqueles que
quiserem, possam ali ter um contato com o Deus cristão.
Contudo, dos dois lados dessa arca, nos outros portões, está escrito “Jesus”, em uma
cor amarela, com alguns efeitos de destaque e em caixa alta. Abaixo, lemos em letras cursiva
e brancas, sem efeito algum a seguinte frase “Ergue do pó o necessitado e do monte de cinzas
faz ressurgir o abatido, Ele faz assenta-se com príncipes e lhes concede um lugar de honra”
(Salmos 113:07-08). A narrativa que esta passagem bíblica trás, muito nos remete ao conceito
de “heróis” narrado por Joseph Campbell (1949) em sua obra O herói de mil faces. Mas quem
seria esse indivíduo de tamanho privilégio? Seria Jesus, o nome que está acima do versículo?
Observo que a narrativa que se desenvolve sobre Cristo não remete ao exemplo de sentar-se
com príncipes, pelo contrário, na narrativa bíblica, ele fora crucificado por eles. O Jesus dos
cristãos nunca se assentou entre os príncipes.
Novamente me questiono, quem seria esse indivíduo de tamanho privilégio? A
narrativa que essa passagem nos oferece, muito nos remete ao que o líder dessa igreja vem
desenvolvendo. Quem era o líder dessa igreja até a mesma angariar notoriedade do Estado até
o ponto dele mesmo, tornar-se o Deputado Apóstolo Luiz Henrique? Seria o uso dessa frase
um presságio dos desejos do “herói”? Ora, relembrando Joseph Campbell, qual a jornada
desse herói? No site da assembleia legislativa do Estado do Ceará podemos encontrar a
seguinte definição
O ex-viciado agora conhece O Salvador, passa a viver completamente
focado na palavra de Deus, é ungido pastor e depois Apóstolo (que significa
Enviado), e passa a dedicar a sua vida em defesa do Evangelho e ao resgate
de pessoas que viviam como ele às margens da sociedade, desacreditados e
sem expectativas de vida.
Eleito com 31.130 votos o jovem e estreante Deputado Estadual,
chega ao cenário político com muita convicção de que unidos aos
representantes do povo pode contribuir muito para a melhoria da qualidade
de vida do Cearense em diversas frentes de trabalho. No seu coração o
desejo de atrair aliados para as causas nobres, defendendo políticas públicas
em prol da família tradicional, e dos direitos das crianças e dos
adolescentes. Oferecendo assistência aos idosos sem nunca perder o foco na
ressocialização de usuários de drogas.
Como vem a dizer Campbell (1949), “A aventura pode começar como um mero erro
[...] o herói pode estar simplesmente caminhando a esmo, quando algum fenômeno
passageiro atrai seu olhar errante e leva o herói para longe dos caminhos comuns do
homem.”. Quando olhei para a breve biografia exposta na página da Assembleia Legislativa
do Estado do Ceará, e olhei para a narrativa desenvolvida por Campbell para definir como se
desenvolve a jornada dos heróis. Pelo fenômeno de conhecer seu Salvador, Luiz Henrique
deixa de seguir o caminho comum dos homens, para agora, se assentar com príncipes. Ele
mesmo se coloca enquanto herói, como uma figura a ser seguida. Se ele conseguiu lidar com
o vício de drogas, por que outros que fossem à sua igreja também não poderiam?
Logo, o que observo é que a entrada da igreja possui uma composição antigo
testamentária, onde mais à frente, veremos que é uma grande característica da denominação.
Por mais que tenha o nome “Jesus”, seus principais elementos como a figura central em
destaque e o versículo utilizado nos portões, me induziram a crer em algo que fora constatado
durante o restante da observação, a Igreja do Senhor Jesus possui mais traços judaicos, que
cristãos.
Retomando a descrição do espaço físico, quando olhamos na direção da entrada,
podemos ver que no lado direito dos portões, há uma guarita onde fica um homem com cerca
de 35 – 40 anos, negro e alto. Conversei com ele, e o mesmo nos permitiu aguardar o início
das atividades lá dentro. Quando entrei, tive dimensão do tamanho do local, que possui um
amplo uma cantina, o templo onde ocorrem as reuniões, um amplo estacionamento, um
espaço onde ficam banheiros e uma estação de rádio recuada. Ao tentar ir na cantina, para de
lá poder realizar uma observação inicial, o mesmo homem responsável pela guarita informou
que ela não abria pela manhã. Foi então que, enquanto andava pelo amplo espaço do
estacionamento, observei duas cadeiras perto dos banheiros, fora de lá que iniciei a escrever
os relatos que seguem nessa descrição. Considero que esse local era privilegiado, pois de lá
era possível visualizar todo o perímetro, as pessoas que chegavam, quem ia se trocar no
banheiro, a abertura das portas, os carros que estacionavam e demais detalhes.
Iniciando desde a guarita, passando pela cantina, estende-se a cinza. Na cantina existe
um portão branco, que fecha e protege o que há dentro, uma geladeira, um expositor de
alimentos, algumas mesas e cadeiras plásticas. Ao lado esquerdo da cantina, temos o templo
propriamente dito, a cor predominante é um cinza muito claro, contrastado por uma faixa
branca que se estende por toda estrutura. Podemos observar a existência de três grandes
portas de madeira distribuídas ao longo do templo, na qual uma fica na próxima à entrada,
outra bem centrada no meio, de frente ao estacionamento e uma última, bem recuada.
Posicionada acima da porta central, existe uma grande faixa de lona branca, onde podemos
ver novamente a Arca da Aliança, e ler os seguintes dizeres “Igreja do Senhor Jesus –
Santuário do Espírito Santo”.
Todo o muro do pátio é pintado na cor branca, e em sua extensão existem postes de
iluminação, e alguns canteiros para delimitar a forma que os carros devem estacionar, que
pelo que observei, era em ângulo de 90°. Quando por fim chegamos ao espaço dos banheiros,
observamos um espaço cumprido, que se inicia pelo banheiro feminino, seguindo pelo
masculino, até chegar em outras salas de uso dos obreiros da igreja, até chegar na estação de
rádio da igreja, onde vemos diversas antenas de transmissão pertencentes à Jesus FM.
Enquanto estava sentada perto dos banheiros, ora observando, ora escrevendo, percebi
que as mulheres que servem na igreja, chegam com roupas comuns, porém, já um coque
(creio que para facilitar o trabalho). Então elas se dirigem ao banheiro, e então colocam uma
longa túnica bordô, que cobrindo então, seus braços e pernas. Os homens, porém, já chegam
usando um terno na cor preta, com uma camisa social por dentro, e uma gravata da mesma
cor que as vestes das mulheres. É importante que seja salientado que não são todos os
membros da igreja que devem seguir esse padrão de vestimenta, apenas aqueles que pelo que
entendi, compõem o corpo de servos na igreja como obreiros, pois as demais mulheres que
frequentam o local utilizam a mais variada ama de roupas, como saias, calças, vestidos e
macacões. Pelo que eu pude observar, não existe nenhuma restrição de roupa para os
membros da Igreja do Senhor Jesus.
Eram por volta de 8:40hrs quando o salão foi aberto e os presentes começaram
a se dirigir até o local, não obstante, segui o exemplo dos demais e adentrei ao templo. Logo
ao entrar, observei de pronto o altar do templo, um espaço diferenciado do restante da igreja,
onde ocorrem os cânticos, orações e sermões, o primeiro elemento que salta às nossas vistas é
um imponente púlpito preto, com cerca de 01 (um) metro de altura e mais da medida na
largura, com detalhes na cor dourada. O púlpito é desenhado como em três pequenas colunas,
onde na central, vemos talhada a figura da Arca da Aliança, acima da arca está o nome
“Igreja do Senhor Jesus”, vemos um notável painel que vai do teto ao chão do altar, e se
projeta por detrás do elemento já descrito. O painel é revestido no mesmo elemento das
colunas, e possui, em letras de cor dourada o nome da igreja, tendo acima o mesmo signo que
se repete no portão e púlpito.
Lá também observamos diversos outros
elementos que rementem à cultura judaica, como a
existência de duas Menorás. Contudo, diferente da
menorá tradicional, que é acendida com fogo, esta possui
uma iluminação feita por LED. Como podemos ver na
imagem, este elemento caracteriza uma espécie de
candelabro, com 07 (sete) braços, muito característico
dos elementos judaicos. “Assim se passa com o
entendimento da menorá, o candelabro de sete braços. É
este um dos temas recorrentes da literatura judaica e cuja
permanência como objeto de visão (espiritual ou
intelectual) demonstra a crença contínua no seu caráter
Figura 1: Menorá (Acervo Pessoal,
transcendental, ou arquetípico.” (LEITE, 2016). O
Antonia Mariana)
aspecto que urge analisarmos é exatamente a forma como
a Igreja do Senhor Jesus evoca aspectos judaicos a fim de conseguir alcançar através desses,
um conato com o transcendente, pois de acordo com o autor, esse signo na cultura judaica,
sobretudo na Torá, funcionava como um
Desenho de Deus, era acima de tudo uma representação do mundo
sob a forma de um objeto ritual. Possuía relação clara com os eventos do
quarto dia da criação, com a estrutura geral do cosmo, sintetizando suas
dinâmicas e realidades. A menorá também sintetizava realidades históricas e
temporais do mundo, relacionadas igualmente a uma lógica estruturante do
universo criado. A humanidade estava contida, ou referenciada, de forma
espiritual, nos candelabros do templo, que se constituíam, assim, em
representações simbólicas também das sociedades humanas. (Págs. 61 – 62)
Essa prática adotada pela Igreja do Senhor Jesus, muito se assemelha às práticas
adotadas pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), na década de 2010 a 2020, ganhou
notoriedade pela construção do Templo de Salomão, em São Paulo. A construção remete aos
escritos do antigo testamento, onde fora construído um templo para abrigar a arca da Aliança
e demais elementos que fariam parte das riquezas conquistadas pelo povo de Israel. Contudo,
a IURD toma essa postura a fim de se estabelecer e obter notoriedade no cenário religioso,
em um tempo que a e podemos observar que “o processo de secularização ocorre tanto de
fora para dentro quanto de dentro para fora, porém, os capitais simbólicos apropriados do
judaísmo trazem uma possibilidade de resinificar esse mundo e, diante dele, sustentar sua
cosmovisão frente as novas forças da modernidade.” (MAYNARD, 2016. Pág. 120).
Ou seja, ao passo que a Igreja do Senhor Jesus se apropria desses símbolos judaicos,
ele segue os costumes e rumos que igrejas neopentecostais (a exemplo da IURD), já vem
tomando. Então cria-se algo que perpassa a maioria das igrejas que pertencem a essa
categoria dentro do evangelicalismo. Logo, podemos compreender que possuir o símbolo da
Arca da Aliança como destaque no portão, placas, púlpito e painel, bem como a existência da
menorá, simbolizam a tentativa da igreja em se impor e legitimar através de uma narrativa
histórica, a judaica.
Ademais, no altar também existe um espaço onde ficam baterias, baixos, guitarras e os
demais equipamentos sonoros, que são utilizados nos momentos de cântico. Contudo, isso
não foi o que me chamou mais atenção, pois no altar há também uma espécie de camarote
onde ficam as lideranças da igreja. Tanto em uma extremidade como na outra, observamos
esses camarotes, que possuem cadeiras de madeira, estofadas em um tecido de cor bordô. É lá
que sentam algumas mulheres esposas de pregadores, pastores e pessoas que possuem maior
relevância na administração da igreja.
Retomando aos demais aspectos, notei que havia um grupo de homens puxando a
água que fora acumulada no amplo salão devida forte chuva que acometera a cidade naquele
dia, e é evidenciada por falhas na estrutura da igreja. Eles trabalhavam do meio para o fim do
espaço, o que me levou a crer que eles já haviam realizado o processo do início para o meio,
pois este já estava limpo e seco, com as cadeiras de plástico organizadas em 4 longas fileiras.
Um outro grupo, de homens e mulheres que servem na igreja como obreiros, estavam todos
sentados em um amontoado que se formara bem a frente enquanto um certo homem, o que
supus ser líder dos mesmo, os passavas alguns direcionamentos sobre onde eles deveriam
ficar e como deveriam proceder, por fim, realizaram uma oração e a reunião acabou quando
já eram 9:23hrs. Após o fim da reunião, alguns continuaram a frente, outros foram para as
portas.
Em um primeiro momento, me acomodei no meio da igreja, próximo aos profissionais
que estavam realizando a limpeza e à porta central, mas com um passar de tempo, percebi que
naquele dia e horário não haveria lotação e me dirigi mais à frente, para perto da primeira
porta. Porém, há de se ressaltar que tamanho é o espaço da igreja, que o local onde fiquei
ainda estava longe do altar de onde fora dado o sermão e cantados os louvores. Com o fim da
reunião, uma das mulheres veio, com gentileza, pedir para que eu sentasse mais perto, para
que me sentisse mais acolhida. Contudo, permaneci no mesmo local.
Como já mencionei, fiquei próxima à primeira porta, fora exatamente nela onde
ocorrera uma concentração de obreiros. Contei um total de 08 (oito) obreiros, na qual metade
eram do gênero feminino e a outra metade do gênero masculino. Ali eles ficavam
recepcionando os membros que iam chegando ao templo e os cumprimentando com sorrisos,
apertos de mãos e abraços. Em determinado momento, pude observar que uma mulher passou
ali com uma espécie de óleo, ungindo as mãos daqueles obreiros, na ocasião, eles espalhavam
aquele óleo em suas mãos e faziam uma espécie de oração individual.
Nos demais aspectos estruturais do galpão, podemos observar largas colunas cobertas
por uma espécie de revestimento vinílico amadeirado em uma tonalidade bem clara. As
cadeiras que acomodam os fiéis são todas brancas e de plástico, não possuem acomodação
para os braços, caracterizando o tipo mais simples dessa variação de assentos. As longas
fileiras dão um breve intervalo quando perto das portas, e é formado um vão de passagem
com mais de 03 (três) metros, a pós o vão, seguem as fileiras que (considerando os vãos de
entrada) vão de próximo do altar até o final daquele galpão. Contudo, há de aqui ser
destacada uma distinção que ocorre na primeira fileira de cadeiras que fica de frente ao altar,
pois esta é composta por cadeiras de madeira, com estofado na cor bege e é onde sentam-se
as(os) obreiras(os).
O forro da igreja é composto pelo isopor modular e se estende desde o altar até o fim
do templo. O revestimento do piso é composto por um porcelanato claro, tendo um contraste
com algumas faixas de cerâmica preta. As paredes não possuem revestimento especial, sendo
pintadas na cor branca, uma tintura que se estende por todo o galpão, exceto pela parede em
destaque do altar. Fora esses aspectos arquitetônicos, quando olhamos para a estrutura
elétrica, vemos o uso de telões, pelo que observei eram 03 (três), na qual um ficava na
extremidade esquerda do altar a outro na extremidade direita que ficavam virados para o
público, fora estes, havia um que ficava em um ponto centralizado do templo, mas virado
para quem estivesse no altar. Haviam também diversas caixas de som, pintadas em tinta
branca.
Enquanto esses detalhes eram observados, os músicos tocavam alguns acordes a fim
de “dar um clima” ao local. Por fim, já eram cerca de 9:50hrs quando uma jovem franzina,
branca e de cabelos loiros subiu ao altar e iniciou uma oração que funcionara como um ritual
de abertura oficial das atividades daquela manhã, enquanto ela orava, o conjunto musical
continuava a tocar notas, agora mais brandas, combinando com sua oração. Após, as notas
musicais começaram a mudar e dar tônica ao cântico que seria entoado, e a jovem iniciou a
música “Eu Navegarei”, de autoria do compositor Azmaveth Carneiro Silva, natural do Rio
de Janeiro, mas que fora interpretada por diversos outros cantores do segmento gospel.
Contudo, desejo aqui ressaltar uma prática da jovem, na qual ela realizava diversas vezes
enquanto cantava. Nos momentos em que a música falava “Espírito, Espírito”, ela se virava
de costas para o público da igreja, no sentido do painel do altar onde estava o símbolo da
Arca da Aliança, como que em uma espécie de adoração ao símbolo que ali estava posto.
Enquanto a jovem entoava a canção, observei que em seu lugar, um dos homens que
estava no camarote, um alto, branco e forte, com cabelos bem penteados e escovados, de
terno justo e claro, havia solicitado para que um dos homens que ali também estava, para que
ele realizasse uma oração sobre sua cabeça. Enquanto isso, a garota continuava a cantar. Após
a jovem cantar por aproximadamente 5 (cinco) minutos aquela canção, aquele homem que
havia solicitado oração se dirigiu ao púlpito e iniciou uma prece pelo povo, na qual ele
afirmava que a promessa que eles recebem de Deus é que eles tenham alegria e prosperidade,
crentes que Deus estava observando o sacrifício deles naquela manhã de domingo, essa foi a
ênfase de sua oração e algo que veio a demonstrar qual seria a narrativa que ele desenvolveria
a partir dali naquela manhã.
Após esse momento de prece, o homem deu alguns avisos. Falou de um carnê de
R$10,00 denominado “Rota Solidária”, fora uma viagem para Israel (com tudo pago) que há
de haver no ano de 2020, que será sorteada a partir da “Rota Solidária”. Não havia
linearidade no discurso do homem, pois, desse assunto ele ligou à questão da Pandemia de
COVID-19, causada pelo Corona Vírus. A Secretaria de Saúde do Estado do Ceará (Sesa),
veio noticiar em sua plataforma virtual os três casos confirmado da doença quando já eram
23:12hrs, de forma que no horário da reunião, ainda não havia sido noticiada, contudo, já
haviam os casos suspeitos e ainda assim, a postura do homem foi de argumentar que eles não
deveriam se preocupar com isso, evitar noticiários, e se preocupar com a saúde que Deus dá a
eles, em não negar o abraço ao irmão e demais demonstrações de afeto que transmitem a
COVID-19.
Mas hoje Deus vai falar diferente O homem continuou com sua narrativa, e anunciou
que seria realizado o momento de palavra pela oferta. Na ocasião fora lido o texto bíblico que
se encontra no livro de Malaquias 3:6-11
Tragam todos os seus dízimos aos depósitos do templo, para que haja
provisão em minha casa. Se o fizerem”, diz o Senhor dos Exércitos, “abrirei
as janelas do céu para vocês. Derramarei tantas bênçãos que não haverá
espaço para guardá-las! (Nova Versão Transformadora)
O pregador disse que dízimo não é 5% do seu salário, mas os 10%, ou seja, é tudo.
Para dar base ao seu discurso, ele se coloca enquanto um exemplo, afirmando que quando
entendeu o que significava a diferença entre as palavra “dar” e “entregar”, ele pede para que
os fiéis se entreolhe e digam uns aos outros a frase “existe uma diferença entre dar e
entregar”, após ele desenvolve sua ideia, afirmando que
A gente dá igreja, aquilo que é nosso. Eu tenho aqui uma roupa, eu
tenho aqui um relógio, eu vou dar! Mas entregar, a gente entrega aquilo que
não é nosso (nesse momento a igreja da “Glória a Deus). A gente, eu que
posso, devo entregar todos os meus dízimos à casa do Senhor. Amém,
igreja?
No dicionário Aurélio, entretanto, vemos que “dar” vem do latim dare, possuindo 103
(cento e três) significações, dentre elas, conceder, emitir, manifestar, efetuar e outras. Já o
verbo “entregar”, vem do verbo latim intregare, com 12 (doze) possíveis significados, dentre
eles estão passar às mãos ou posse de alguém, trair ou denunciar, dar de bandeja, restituir e
muitos outros. Logo, de acordo com o dicionário a colocação do pregador não está correta,
mas a utilização da palavra fora empregada de uma forma equívoca, causando uma certa
confusão. Uma maneira que ficaria inteligível sua fala, seria o caso de que ele substituísse o
vergo entregar pelo verbo restituir.
O pregador ainda questionou à igreja se é possível que uma janela se abra por fora, e a
partir desse ponto colocou que, para uma porta ser aberta, é necessário que alguém que esteja
dentro abra, esse alguém seria Deus. Foi nesse momento que percebi que os obreiros dava
gritos falando “Glórias”, ou “Aleluias”, a fim de que isso animasse os mais membros, e de
fato, isso ocorria, pois dificilmente quem o falava eram membros, mas sim, obreiros ou
obreiras.
Após esse momento, fora realizada uma oração com fundo musical, na qual o
pregador pedia que Deus pudesse mostrar àqueles membros a importância do ato de ofertar e
dizimar com amor. A oração foi finalizada com o homem utilizando a expressão “em nome
de Jesus, amém”, e o corpo de obreiros e igreja repetiram concordando “amém”. Se iniciaram
palmas e um cântico chamado “Porque ele vive”, os irmãos cantavam, se alegravam e iam à
frente da igreja realizar suas doações. Havia um receptáculo próprio para as ofertas e dízimos
de alguns deles, outros as registravam nas máquinas de cartão de crédito que se encontravam
à frente, em uma pequena mesa. Como temos visto, a Igreja do Senhor Jesus compõe o grupo
das igrejas neopentecostais, e também é adepta da teologia da prosperidade, que é uma
corrente comum à essa tradição denominacional, portanto, é comum que ela possua mais essa
semelhança com igrejas como a Universal do Reino de Deus, Internacional da Graça de Deus,
Mundial do Poder de Deus, e muitas outras do segmento.
Depois, o homem anunciou que naquele domingo o Apóstolo Luiz Henrique não
estaria ali e não informou a razão, também não nos cabe aqui tentar conjecturar a possível
razão. Há de se acrescentar também, que em momento algum seu nome fora informado,
portanto não posso acrescentar mais informações a respeito daquele pregador. Após esse
momento, ele solicitou que todos os irmãos se colocassem de pé para a leitura das escrituras,
a igreja se levantou, ouviu o homem ler, e após, se ajoelharam de costas para o altar e
realizaram uma breve oração. A passagem que na qual ele leu, se encontra no texto bíblico de
Mateus 16:18-19, que narra
Agora eu lhe digo que você é Pedro, e sobre essa pedra edificarei a
minha igreja, e as forças da morte não a conquistarão. Eu lhe darei as
chaves do reino dos céus. O que você ligar na terra será ligado no céu, o
que você desligar na terra terá sido desligado no céu”. (Nova Versão
Transformadora)
Também fora lida outra passagem, agora no livro de Marcos 16:15-20, que diz
Jesus lhes disse: “Vão ao mundo inteiro e anunciem as boas-
novas a todos. Quem crer e for batizado será salvo, mas quem se recusar
será condenado. Os seguintes sinais acompanharão aqueles que crerem:
em meu nome expulsarão demônios, falarão novas línguas, pegarão em
serpentes sem correr perigo, se beberem algo venenoso, não lhes fará mal,
e colocarão as mãos sobre os enfermos e eles serão curados”. Quando o
Senhor Jesus acabou de falar com eles, foi levado para o céu e sentou-se à
direita de Deus. Os discípulos foram a toda parte e anunciavam a
mensagem, e o Senhor cooperava com eles, confirmando-a com muitos
sinais. (Nova Versão Transformadora)
A primeira passagem ocorre após a narrativa do milagre de multiplicação de pães e
peixes, Jesus pergunta a seus discípulos quem era esse homem que aparecia a eles
realizando milagres, e Pedro é quem confessa a verdade, pois teria sido revelada por Deus.
Sobre ele fora edificada a igreja. Já a segunda, implica na disseminação do evangelho, no
papel que cada cristão (aqueles que seguem o caminho de Cristo) deve cumprir nessa terra.
A aplicação que o pregador utilizou foi buscando desenvolver a temática que ele houvera
idealizado para aquele dia, que era “Como a igreja faz a diferença?”, e a partir da
perspectiva lida, ele desenvolveu uma narrativa onde a igreja deve fazer a diferença sem
temer as ameaças externas. Pois dentro dessa perspectiva que ele apontou, nada pode
prevalecer contra a igreja de Cristo, pois ela está alicerçada na pedra.
 Final
Quando a pregação ia se encaminhando para o fim, o pregador destacou a figura do
apóstolo Luis Henrique enquanto um ponto de segurança. O pregador colocou que os fiéis
não precisavam temer, pois, todos os dias seu líder e sua esposa, bispa Valéria, intercediam
pela igreja em jejum e oração, se erguiam enquanto uma liderança a ser seguida pela igreja.
A narrativa exemplar que o homem desenvolveu acerca do casal muito me assemelha a
ideia de liderança carismática weberiana, onde suas características orbitam entre uma
característica natural do líder, onde este possui um dom físico ou espiritual capaz de
arrematar aqueles que o seguem (WEBER, 1999). Como já vimo, líder carismático Luis
Henrique possui uma narrativa de “herói” e todos esses elementos contribuem na
manutenção de sua identidade enquanto pessoa de confiança da igreja, entendendo que
aquele que já passou por toda humilhação, de forma piedosa está com sua esposa, jejuando
pelo corpo que o sustenta.
Após esse momento de reflexão, a reunião se encaminhou para o final, onde fora
realizada uma última oração. Contudo, essa tinha um tom mais atrativo, no sentido de chamar
aquele público para mais próximo da igreja, de compreender a importância de propagar o
evangelho em que creem e legitimarem cada vez mais as prática de igreja aonde quer que
foram. Ele despediu os irmãos, o conjunto musical seguiu tocando uma canção e todos foram
em direção às suas casas. Uns em transportes particulares, outros o transporte público.
4.CONCLUSÃO

No que tange ao evangelicalismo ligado à Igreja do Senhor Jesus, pudemos constatar


elementos variados. A igreja não é homogênea em seus padrões, vide o sincretismo entre
judaísmo com cristianismo. As obreiras usam vestes longas, mas não há restrição de
vestimentas para aqueles que frequentam o templo. Há a diferenciação nos assentos daqueles
que possuem maior destaque na igreja e os que são “apenas membros”, mas constituem a
verdadeira base da denominação.
A igreja possui muitas divergências em sua composição, muitas particularidades que
podem ou não serem vistas em outras denominações e diversos outros ponto que foram aqui
abordados. Nada é muito claro, tudo está nas entrelinhas, na minúcia dos detalhes, rotinas que
nem todos os membros veem, ações bondosas que são escancaradas nas paredes externas,
diversos detalhes que compõem a Igreja do Senhor Jesus.
O padrão litúrgico da igreja varia um pouco entre os dias da semana e domingo. Como
fora observado, na quinta feira ocorreu de uma forma, com as avisos após o momento de
pregação, enquanto no domingo, ele consistiu em um dos primeiros elementos, e outros
aspectos que também estão atrelados a figura que conduziu aquele momento. Enquanto em
um dos momentos vemos o Pastor cativar os presentes com sua performance de falar em
língua e diversos outros elementos, o outro teve uma narrativa não tão carismática, menos
performática.
Logo, observamos que a Igreja do Senhor Jesus, assim como outras denominações
neopentecostais, possui o carisma como elemento significativo para o desenvolvimento dos
acontecimentos no culto e seus símbolos, sem essas figuras que angariam multidões,
dificilmente elas teriam alcançado o espaço que possuem hoje no espaço estadual e nacional.
Fontes:
Todos os textos bíblicos citados o foram da Bíblia Sagrada Versão Bíblia King James.
Niterói: BV Films Editora, 2015.
Bibliografia:

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EDITORA PENSAMENTO LTDA. Disponível em
<https://projetophronesis.files.wordpress.com/2009/08/joseph-campbell-o-heroi-de-mil-
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CEARÁ. Assembleia Legislativa. Apóstolo Luis Henrique. Disponível em


<https://www.al.ce.gov.br/index.php/deputados/nomes-e-historico/93-partidos/427>. Acesso
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LEITE, Edgar. A menorá e a árvore da vida. Dossiê Religiões do Mundo Antigo – Hélade:
Rio de Janeiro. Vol. 2, n° 2, págs. 59-65, outubro de 2016. Disponível em
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MAIA, G.. Curió: O bairro que ainda mantém ares de interior em meio à metrópole. O
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NARLLA, Hayanne. 22 de março de 2015. Saiba quais são as avenidas com maior fluxo em
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O POVO. 10 de novembro de 2017. Dois anos depois, Chacina da Grande Messejana está
longe do desfecho: Expectativa de fontes ligadas ao processo que apura a
responsabilidade sobre as mortes de 11 pessoas, em novembro de 2015, é que o caso leve
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<https://www.opovo.com.br/jornal/cotidiano/2017/11/dois-anos-depois-chacina-da-grande-
messejana-esta-longe-do-desfecho.html>. Acesso em 01 de abril de 2020.
Secretaria de Saúde. 15 de março de 2015. Ceará confirma três casos do novo coronavírus.
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WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Brasília,
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