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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

FACULDADE DE EDUCAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO

Nos desencontros e fronteiras: os trabalhadores sociais das favelas do município do


Rio de Janeiro

Marize Bastos da Cunha

Niterói
Agosto de 2005
Nos desencontros e fronteiras: os trabalhadores sociais das favelas do município do
Rio de Janeiro

Marize Bastos da Cunha

Tese de doutorado apresentada ao Programa de


Pós Graduação em Educação da Universidade
Federal Fluminense, como parte dos requisitos
necessários à obtenção do título de Doutora em
Educação.

Orientador:
Prof. Dr. Gaudêncio Frigotto

Niterói
Agosto de 2005

ii
Nos desencontros e fronteiras: os trabalhadores sociais das favelas do município do
Rio de Janeiro

Marize Bastos da Cunha


Orientador: Gaudêncio Frigotto

Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós Graduação em Educação da


Universidade Federal Fluminense, como parte dos requisitos necessários à obtenção do
título de Doutora em Educação.
Aprovada por:

_____________________________________
Presidente, Prof. Dr. Gaudêncio Frigotto

_____________________________________
Prof. Dr. Eduardo Navarro Stotz

_____________________________________
Prof. Dr. Paulo César Rodrigues Carrano

_____________________________________
Profa Dra. Regina Célia Reyes Novaes

_____________________________________
Prof. Dr. Victor Vincent Valla

_________________________________________
Lia Vargas Tiriba

Niterói
Agosto de 2005

iii
RESUMO

NOS DESENCONTROS E FRONTEIRAS: OS TRABALHADORES SOCIAIS DAS


FAVELAS DO MUNICÍPIO DO RIO DE JANEIRO

Marize Cunha
Orientador: Gaudêncio Frigotto

O estudo enfoca a experiência de um grupo de trabalhadores sociais, moradores de


favelas que desenvolvem ações em suas localidades, ou mesmo em outras, integrados a
programas e projetos governamentais ou não governamentais.

A reflexão dá-se mediada pela busca da compreensão do campo do trabalho social


destes trabalhadores, concebido como um terreno de fronteira. Para tanto, realiza uma
aproximação histórica com os processos subjacentes à configuração histórica deste terreno,
produzido no âmbito do desencontro entre o econômico e o social presente nas sociedades
capitalistas. E recupera ainda alguns elementos fundamentais à gênese da fronteira, onde
atuam os trabalhadores sociais e outros mediadores, oriundos do poder público, de igrejas,
ONG´s, universidades e diversas organizações da sociedade civil.

Na última parte, analisa o processo de trabalho dos agentes sociais estudados,


demarcando algumas de suas características e refletindo sobre suas experiências e
cotidiano de trabalho, seus processos de formação e de legitimação no campo do trabalho
social.

Palavras-chave: trabalho social, campo, favela, Rio de Janeiro

iv
In the disagreement and limits: Social workers acting in the Rio de Janeiro Slums

No desencontro e na fronteira: os trabalhadores sociais das favelas do Rio de Janeiro

Marize Bastos da Cunha


Orientador: Gaudêncio Frigotto

This study is focused on an experience of a social worker group who are slum
(“favela”) residents that develop actions in their localities, or even in others, integrated to
governmental or non-governmental programs and projects.
The reflection happens by the comprehension of those workers’ field of action,
conceived like a boundary area. In some way, this study achieves a historic approximation
to underlying processes in the historic configuration, produced in a field of disagreement
between the economic and social, a current effect in capitalist societies. And also recovers
some fundamental elements of the boundary genesis, where the social workers and other
mediators actuate. Those mediators come from public power, churches, NGOs,
universities and many civilian society organizations.
At last, this study analyses the working process of the social agents covered so far.
It determines some of their characteristics and reflects about their experiences and working
quotidian, their education processes and the legitimization of the social working field.
Keywords: social workers, field, slum, Rio de Janeiro.

v
Agradecimentos

Quando a gente caminha em espiral, são muitos com quem trocamos. E


foram muitos os que, de diversas formas, deixaram coisas aqui, na pesquisa. E também
comigo, que vou levar para sempre.
Para fazer uma aventura desta é preciso sustentação. Gostaria então de
agradecer à CAPES e ao Programa de Pós Graduação da Universidade Fluminense pelo
apoio acadêmico. Especialmente ao pessoal da secretaria do curso, sempre disponível para
atender minhas demandas “apressadas”. E aos professores do curso com quem tive
oportunidade de cursar disciplinas.
Sem duas pessoas, eu não estaria escrevendo estas linhas. Profo Gaudêncio
Frigotto, mais do que orientação acadêmica, orientação no mundo. Com sua sensibilidade,
própria daqueles que apostam na humanização da vida e do trabalho, ele me fez ir em
frente, nos momentos em que a espiral ameaçou virar um círculo. E Mônica Peregrino,
colega de doutoramento e amiga, que fez todo o percurso da espiral ao meu lado,
dialogando com minhas descobertas, leituras incertezas e meus delírios e, sobretudo, me
fazendo descobrir que a amizade é tanto melhor, quando a gente desloca as fronteiras.
Os educadores, trabalhadores sociais com as quais convivi, e ainda convivo,
semente e adubo deste trabalho. Sempre disponíveis, me proporcionaram uma experiência
profissional e, especialmente, uma experiência humana, ajudando-me no deslocamento na
espiral da pesquisa, e na vida.
Valda, artista e educadora, dedicada a ser vida, participou da minha vida, no
momento mais difícil deste percurso.
Os amigos Antônio Veríssimo e Márcia Teixeira Pinto, de mãos dadas
comigo, a cada instante, me fazendo conhecer o valor da agregação, lembrando sempre que
“a primavera, a gente segura nos dentes”.
Patrícia Gouveia da Silva, presença no caminho, desde que ele iniciou-se há
longos anos, quando atravessei fronteiras pela primeira vez. E companheiros da Gestão
Comunitária: Instituto de Investigação e Ação Social, onde pude realizar uma etapa
pesquisa.

vi
Victor Valla, inspiração constante na espiral. E Profa Regina Novaes, uma
interlocução precisa e cuidadosa, que me ajudou no momento de reordenar o rumo do
trabalho.
Alan Pinheiro e Rosely Magalhães de Oliveira, trocas fundamentais no tecer deste
trabalho e para além dele.
Os colegas da turma de doutorado, hoje distantes em função dos traçados de
pesquisa que nos mantém ocupados, com quem pude trocar em sala e fora de sala, num
clima que me fez lembrar os “tempos de escola” e que concorreu para enfrentar o primeiro
ano do curso.
Prof. Edelberto Coura, dando o apoio profissional e incentivo em momentos
definitivos.
Prof. José Sergio Leite Lopes, com quem tive a oportunidade de cursar uma
disciplina no Programa de Pós Graduação do Museu Nacional.
Laura, Márcia, Dylma e Flávio, amigps presentes sempre, em todas as minhas
navegações no mundo. Karina, Ronaldo e Fernando, tornando o caminho mais leve, me
dando fertilidade e potência, apontando que a gente se alarga no mundo quanto mais se
larga nele. E outros tantos amigos, alunos e ex-alunos, que da minha vida fazem parte,
com quem troquei ao longo desta navegação rumo ao desconhecido.
Maria Anita, Maria, Maíra, Regina e Zé, presentes na espiral, e em todas suas
descobertas, me fazendo avançar, vencendo medos e incertezas. Ajudando-me a deslocar a
existência, forma e conteúdo.
Minha família, em toda sua extensão, adultos e crianças, “de sangue” e “de
afinidade”. Família, que me dá sustentação, onde aprendi o valor do calor e do cuidado.
Cuidado que recebi de Alexandre, Isadora e Beatriz. E cuidado, realizado com seriedade
por Natália, que me ajudou na elaboração final do trabalho. E especialmente, meus pais e
minha irmã, sempre ao meu lado em todas as minhas aventuras, possíveis e
imponderáveis.

vii
Primavera nos dentes

Quem tem consciência para ter coragem


Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado


Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade, decepado
Entre os dentes segura a primavera

João Apolinário, João Ricardo


Secos e Molhados

Aos que inventam a “contra mola”,


e acreditam na “ primavera nos dentes”

viii
Sumário

Apresentação 1

Parte I A Espiral

1. Porque é preciso navegar...: um inventário de perguntas, respostas e imaginações 6


2. Os Trabalhadores sociais das favelas do Rio de Janeiro: no desencontro, em 21
fronteira
3. Movendo-se no campo: traçados da pesquisa 32

Parte II O Desencontro, a Fronteira

1. O Desencontro 48
2. A Fronteira 93

Parte III O Trabalho em movimento

1. Trabalhando nas favelas 166


2. Traçados do trabalho social 193
3. O Trabalho em constituição: os percursos do Sementinha 212
4. Testemunhos, os traçados da vida 236
5. Movendo-se na fronteira, traçados do trabalho 267

Conclusão 322

Bibliografia 3

ix
Apresentação

O olho vê, a lembrança revê, a imaginação transvê. É


preciso transver o mundo (Manoel de Barros)

A fala de Joana tem poder! Certa vez, num grupo de discussão, ela disse assim:
“Nós somos uma espiral. Se pararmos, nos morreremos”. Avaliava então seu trabalho, e de
outras tantas educadoras que, como ela, atuam em organizações e projetos sociais nas
favelas do Rio de Janeiro.
Isso me faz recordar José de Souza Martins que, discutindo a dimensão do tempo
nas lutas sociais no campo, avaliou sua experiência de 15 anos acompanhando estes
movimentos, declarando então que sua pesquisa ainda não fechara e que possivelmente se
aposentaria antes de terminar o trabalho. “Há coisas que estou acompanhando desde o
começo, que começaram a acontecer e ainda não acabaram de acontecer”, disse ele (1993).
Joana não pára porque seu trabalho é necessário, e se renova e se amplia a cada dia,
sempre tendo como base os resultados que vai colhendo. O sociólogo, estudioso dos
movimentos no campo, não pára porque ainda não consegue explicar o conjunto do
processo.
Isso me faz pensar que há trabalhos que tomam uma existência. Talvez seja este o
caso desta pesquisa.
A lembrança revê...É um trabalho que vêm de longe. Resulta de várias fontes.
Como é freqüente no ofício de pesquisador, é pedaço de uma travessia maior. É
desdobramento de experiências e encontros acumulados em diferentes espaços acadêmicos
e profissionais que possuem um eixo comum: a sociabilidade das favelas do município do
Rio de Janeiro e sua relação com o poder público e diferentes esferas da sociedade civil 1 .

1 Tais experiências e encontros se remetem a inserções diferenciadas: um trabalho desenvolvido no início


dos anos 90 na Chácara do Céu, favela que faz parte do chamado Complexo do Borel; o mestrado em
Educação na UFF-RJ ( cujo tema de dissertação foi a produção do saber histórico pelos participantes de
alguns movimentos sociais ocorridos em favelas da Leopoldina-subúrbio do Rio de Janeiro); a experiência
nas escolas públicas da rede municipal do Rio de Janeiro, situadas em localidades faveladas; a prática de
Pedaço de caminho numa travessia maior. Acumulando dados que vão trazendo
mais peças ao quebra cabeças do “que começou a acontecer”. Conversas que instigam
minha imaginação. Informações, que vão trazendo novas dimensões ao “conjunto do
processo”. Interrogações sem respostas. Compartilhando desafios. Experimentando
encontros que vão deslocando minha existência profissional e, porque não dizer? Pessoal.
Seguindo em espiral, em função da necessidade de ir mais além. É pedaço de travessia que
parece não ter ponto final.
... Se a gente pára, a gente morre. Mas seguir em espiral não é nada fácil!
O olho vê... Nas favelas da cidade do Rio de Janeiro, acompanho um leque
diversificado de ações e experiências acontecendo. E por trás de várias delas, alguns
personagens: moradores das favelas que trabalham em projetos, públicos ou não
governamentais. São, sobretudo, mulheres, que exercem seu ofício percorrendo seus locais
de moradia, ou outras localidades, atuando num terreno que vem se alargando cada vez
mais: o terreno do trabalho social. Alguns têm muito tempo de estrada. Tempo de ação no
movimento e na organização comunitária. São da era em que eram poucas as iniciativas
sociais de caráter governamental ou não governamental nas favelas. Muitos ingressaram
neste terreno nos últimos dez anos, participando de programas públicos ou de projetos de
ONG´s. Quase todos já atuaram neste terreno de forma voluntária. A maioria retira deste
trabalho social o seu sustento e de sua família.
No diálogo com estes personagens, um acúmulo de perguntas:
“Nós somos gente, que corta os espinhos, que tira as pedras, prá seus pés
caminharem”, disse Valda, a educadora de uma favela carioca num texto poetizando o
trabalho do “agente comunitário”. 2 Quais pedras e quais espinhos?; como cortar os
espinhos e como tirar as pedras?
“Eu adoro a obra social, não tenho recursos e tenho família para sustentar e preciso
ganhar para me sustentar”, afirmou o morador de uma outra favela, a frente da gestão de
um pequeno projeto comunitário. Do outro lado da cidade, uma educadora contava: “na

pesquisa e intervenção social junto a duas ONG´s: o CEPEL (Centro de Estudos e Pesquisas da Leopoldina)
e a Gestão Comunitária: Instituto de investigação e Ação social; o acompanhamento do Programa de
Aumento da Escolaridade (Secretaria Municipal de Trabalho, Viva Rio e Escola Técnica Federal de
Química), atuando como supervisora pedagógica e posteriormente desenvolvendo um trabalho de pesquisa a
respeito da experiência do programa. E ainda os trabalhos de consultoria e avaliação junto a ONG´s que
desenvolvem programas de educação, geração de renda e outros programas sociais junto a favelas da cidade.
2
Poesia Pé na Estrada (dedicada ao agente comunitário) in Pedaços de Mim: Poesias de Valda, Apoio:
Gestão Comunitária: Instituto de Investigação e Ação Social e Women’s front of Norway/Fokus-Norad,
mimeo, 2001.

2
nossa comunidade, a maioria que começa a fazer um trabalho social, se a prefeitura
emprega, esquece da comunidade”. E eu questiono: em quais condições de trabalho é
realizada esta “obra social”?; qual o sentido do social para aqueles que trabalham?; e para
aqueles que são por ele servidos? 3
Em um encontro com gestores de pequenos projetos realizados em diversos favelas
e áreas da periferia de nossa cidade, perguntei o que precisam para desenvolver melhor
seus trabalhos. Diferentes respostas, mas todas falavam de informação. “Trabalhar com
social é muito difícil e a articulação é lenta, tem que gostar muito. Dentro do social tem
que ter acesso ao poder público, a leis e não é fácil. Tem que ter troca, nem que seja de
serviço. O processo é lento”, avaliou uma das gestoras. “Muitas informações são restritas.
Existe um pequeno grupo que detém as informações”, acrescentou um outro. E um outro
tanto de questões me vêm a cabeça: quem detém as informações?; como se dá ao acesso ao
poder público e às informações?; quais os mecanismos que regulam este acesso?; o que
significa a “troca” neste mundo do social?
“Eu acho que na vida hoje, nós temos para trocar, independente de raça, de religião,
de grau de escolaridade...nós temos isso pra trocar”, dizia uma outra educadora, contando
com satisfação sobre a oficina de direitos humanos e AIDS, que desenvolveu junto a um
grupo de profissionais de nível superior de uma universidade pública situada no Rio de
Janeiro. E aí lembro de outra que trabalha em uma creche, que avalia: “valoriza muito mais
fazer um curso de atualização a ter que ficar seis horas ouvindo bobagens de quem não
vive o dia a dia de uma favela, e sendo pressionada a apresentar bons resultados”. E eu me
pergunto: o que é trocado?; como é trocado? em quais condições há troca?, como se dá a
pressão? .
Num grupo de estudos para educadores que atuam em favelas, todos conversam
sobre as dificuldades em levar adiante os encontros e uma educadora observa “qualquer
coisa que a gente faz em grupo para estar discutindo, se atualizando, se capacitando, é com
dificuldade mesmo. Eu ainda não vi nada que foi facilidade. É assim mesmo”. E
acrescenta: “a gente não pode parar; eu já vi vários segmentos, coisas boas acontecendo, e
quando parou quem saiu perdeu foi nós próprios”. E aí, eu questiono: o que é perdido?; o
que vem sendo perdido a cada vez que a troca entre educadores, a atualização e a discussão
é deixada de lado?

3
Tais depoimentos assim como os seguintes foram extraídos de relatórios de campo, resultantes de avaliação
e consultoria a projetos desenvolvidos em favelas por educadores moradores destas localidades.

3
“A creche mudou minha vida. Vi que tinha problemas mas a comunidade também”,
contou a moradora de uma favela da cidade que começou seu trabalho, atuando em uma
creche. Ela repete algo que já ouvi de várias pessoas que trabalham em projetos em seus
locais de moradia e isso me leva a mais uma interrogação: o que leva a ação em projetos
comunitários a mudar a vida de uma pessoa?; qual o significado desta mudança?
“Nós somos uma espiral. Se pararmos, nos morreremos”, me diz a educadora que
me inspirou no início deste capítulo. E eu fico pensando: o que significa “parar” e
“morrer” para quem é “espiral”?; o que significa ser “espiral”?; para onde está indo esta
“espiral”?
São diversas as perguntas.... Nas “viradas” da espiral, há os desafios. Desafios que
têm a ver com a renovação e ampliação de questões, a partir dos resultados colhidos.
Desafios que colocam a necessidade de novos olhares e formas de ação. Desafios que nos
exigem deslocamentos em nosso campo de trabalho e no mundo social.
...Em espiral eu fui e vou, seguindo.
Na parte I, a A Espiral, apresento os desafios e conceitos que se acumularam na
espiral ao longo de vários anos e ajudaram a sedimentar a pesquisa, a proposta deste
trabalho, suas ferramentas de análise e os tortuosos caminhos de abordagem.
Na parte II, O Desencontro e a Fronteira, trago dois capítulos, cada qual voltado
para questões que ajudam na aproximação do tema da pesquisa.
Enfim, a última parte, O Trabalho em Movimento, é composta de um conjunto de
capítulos voltados para a compreensão do trabalho social dos moradores que vivem e
atuam em algumas favelas do Rio de Janeiro.

4
Parte I

A Espiral

5
1. Porque é preciso navegar...: um inventário de perguntas, respostas e
imaginações

Refletir sobre chegadas e partidas é buscar o que nos move. É buscar fios de
memórias, ressignificá-los no presente e reencontrar novas direções. Porque não é preciso
inventar sempre a roda, recorro a experiências e conhecimentos acumulados, e antigos
mapas. Mas porque é preciso dar respostas a novos desafios, do mundo em mudança, parto
em busca de novos roteiros. E aí, começo a navegar no desconhecido.
É disso que aqui vou falar. Do que foi se acumulando na espiral, e ainda hoje
sedimenta esta pesquisa.

1.1. No “inferno”

Eu cheguei à seguinte conclusão: “a terra é do latifundiário, o mar é da marinha, o


céu é da aeronáutica e para os favelados só sobrou o inferno”, foi bem assim que há alguns
anos falou o morador de uma favela da Penha, subúrbio do município do Rio de Janeiro.
Inferno, lugar da sobra. Lugar de padecimento.
Posso dizer que sempre quis saber mais e mais do “inferno”. Conhecer a “sobra”.
Explicar a “sobra”. Os “sobrantes”.
Foi assim que cheguei pela primeira vez numa favela localizada no bairro da
Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro: a Chácara do Céu. Atravessando uma fronteira.
Estranha no lugar. Imagens na cabeça. Buscando conhecimentos que pudessem explicar
estas imagens.
A Marginalidade em Questão: Conflito Social, Condições de Vida e Cotidiano na
Favela (1992) nasceu daí. Da busca incessante de explicações para a existência daquele
lugar, descrito por uma moradora. “Lugar esquecido por Deus”, disse ela. Explicações
que me fizessem entender.
Com base na leitura de autores que se dedicavam então a estudar os processos de
marginalidade e a urbanização nas sociedades da periferia capitalista, bem como as favelas
cariocas, e nas informações que recolhia a respeito da Chácara do Céu, conseguia chegar
às explicações para o surgimento desta favela, e de tantas outras existentes na cidade do

6
Rio de Janeiro 4 . Analisava que foi particularmente a partir dos anos 40, no âmbito da
expansão capitalista de base industrial e urbana - que mostrava suas outras faces, alijando
econômica e socialmente parcelas crescentes da população- - que se deu o crescimento
concentrado e ampliado das favelas no Rio de Janeiro. A Chácara do Céu, tendo se
expandido nos 70, e possuindo quase 75% de moradores com origem migrante, era
expressiva de um processo de favelização desenvolvido no âmbito de um modelo de
acumulação, cuja decolagem foi garantida pelo projeto político implementado durante os
anos da ditadura militar 5 .
Concluía que entre, o momento histórico que marcava o expressivo crescimento do
número de favelas no Rio de Janeiro (anos 40/50) e o período no qual se deu a
consolidação da Chácara do Céu, as favelas, juntamente com outras formas de moradia, se
afirmaram como expressão, e enfrentamento da exclusão no espaço urbano 6 . O entremeio
marcou, então, o reconhecimento do “fenômeno” de favelização como parte de um
processo no qual se inscrevem as contradições urbanas , resultantes da privatização da
esfera pública, e dos limites do Estado no sentido de assegurar as condições de reprodução
da força de trabalho urbana. 7

4
A partir dos anos 70, quando passaram a predominar a perspectivas que rompem com modelos dualistas de
explicação das mudanças históricas e sociais, a favela é “redescoberta”. Alguns estudos, como O Mito da
Marginalidade de Janice Perlman (1977), preocuparam-se em desvendar sua dinâmica interna e suas redes
associativas, bem como seus nexos com os espaço da cidade e com o mundo político. Um outro conjunto de
reflexões concorreu também para esta “redescoberta”, ao procurar explicar o avanço da favela e das áreas
periféricas das metrópoles a partir das contradições do processo de acumulação urbana industrial que se
acelerava, tendo como principal “avalista” o Estado. Criticando-se a perspectiva que a concebia como um
distúrbio de uma urbanização desordenada, a favela passa a ser vista como uma forma de sobrevivência no
âmbito das contradições da dinâmica econômica e social capitalista no espaço urbano. As lutas levadas à
frente pelos moradores destas localidades também vão ser analisadas sob esta perspectiva. Destacam-se aqui
os trabalhos de Lucio Kowarick, Capitalismo e marginalidade urbana na América Latina (1975) e Espoliação
Urbana (1979). E ainda, Contradições Urbanas e Movimentos Sociais (1978) e Cidade Povo e Poder de José
Álvaro Moisés e alli (1982).
5 Na época em que foi realizada a pesquisa, início dos anos 90, nossa equipe de pesquisa constatou
que 70% da população havia então se estabelecido na favela a partir dos anos 70 e que seu
crescimento deveu-se sobretudo ao fluxo de migrantes, vindos especialmente da Paraíba (37%),
interior do Estado do Rio de Janeiro (12,5%), Minas Gerais (11%) e outros estados do Nordeste e
Sudeste (14%)
6
Refiro-me aqui aos chamados loteamentos clandestinos na periferia da área metropolitana que,
embora surgidos anteriormente, expandiram-se de forma expressiva nos anos 60 e 70 no Rio de
Janeiro. E também aos conjuntos habitacionais populares que, a despeito de integrarem-se a
programas públicos, são “reconstruídos’ por seus moradores de forma atender a seu modo de vida.
7
O conceito contradições urbanas nos remete ao conjunto de estudos que, na segunda metade dos
anos 70, apontava a especificidade do padrão monopolista de acumulação do capital desenvolvido
nos países da periferia capitalista, onde o Estado vinha garantir as condições desta acumulação. A
este respeito destacam-se os trabalhos de Moisés (1978) e Oliveira (1978), influenciados pelos
estudo de pesquisadores europeus, entre eles Castells (1983)

7
Descobria ainda que, em todo este processo, a exploração do trabalhador não se
restringiu à relação capital e trabalho propriamente dita, mas abarcou igualmente a esfera
do Estado, o qual teve um papel fundamental no somatório de extorsões que se operaram,
através da inexistência ou precariedade de serviços que se apresentavam como socialmente
necessários à subsistência dos trabalhadores, fenômeno que Lucio Kowarick chamou de
espoliação urbana. (1979). Com isso, o ônus da reprodução da força de trabalho foi
assumido pelos trabalhadores, particularmente no que se refere aos serviços de infra-
estrutura urbana.
Com os dados obtidos através de questionários aplicados junto aos moradores da
localidade, chegava a ensaiar uma configuração econômica e social da favela, constatando
o alto índice de analfabetismo (40,5% da população) e a baixa renda familiar (entre 1 e 2
salários mínimos), expressiva da inserção precária da maioria de seus moradores no
mercado de trabalho. Inspirada em leituras da sociologia e antropologia urbana,
relacionava dados deste perfil econômico e social com os depoimentos colhidos junto aos
moradores, e avaliava que, em seu cotidiano, a sobrevivência dos “sobrantes” era garantida
através de um conjunto de estratégias de sobrevivência: a distribuição na favela segundo
os locais de origem facilitava as redes de solidariedade e permitia o compartilhamento de
bens de consumo e, até mesmo, de serviços de infra-estrutura urbana, como a água; a
recriação de experiências e valores de origem rurais, como a criação de porcos, se dava de
forma a favorecer a existência na cidade, tornando-se parte constitutiva da vida urbana; nas
famílias que contavam com um maior número de pessoas trabalhando fora, as mulheres
contribuíam para renda familiar, garantindo a reprodução dos outros membros e
dedicando-se à economia doméstica, que podia incluir atividades importantes à
subsistência, como criação de alguns animais; a maioria das mulheres dedicava-se a
trabalhos suplementares, como tomar conta de crianças da favela, um arranjo que
contribuía para o orçamento e que, ao mesmo tempo, não implicava sair do espaço de
moradia e o abandono das atividades fundamentais ao cotidiano familiar.8
Tais análises me fizeram dar um passo a mais na espiral de meu trabalho. Não
apenas conseguia explicar o surgimento da favela e algumas de suas características.
Começava a compreender seu modo de vida.

8
Dentre as leituras da sociologia e antropologia urbana, destaco o já mencionado livro de Perlman (1977), e
ainda Cardoso (1978), Caldeira (1984), Durham (1988, 1984 e 1977)..

8
Mas ao dar o passo, defrontei-me com uma “virada” na espiral... Lugar e momento
de desafio. É que houve problemas no meio da feitura deste meu trabalho. Foi quando ao
entrevistar Dona Sebastiana, ela me disse bem assim: Minha vida está boa do jeito que
está. Surpresa, eu não fiquei. Já tinha ouvido antes coisas parecidas, e minha formação
acadêmica me dava uma série de conceitos para explicar aquilo: alienação, falta de
consciência histórica e de classe. Mas fiquei, sim, foi desconfiada! E comecei a imaginar...
a autoridade nos gestos, no tom e mesmo no conteúdo da afirmação de Sebastiana e outros
tantos moradores, confrontada com a evidente precariedade de suas condições de vida,
levava-me a pensar que não a estava entendendo, percebendo alguma coisa em sua fala e
que, portanto, podia haver algo “errado” comigo, com minha formação acadêmica e
profissional. Foi isso que concluí.
E aí percebi que queria mais. Mais do que explicar. Queria avançar na
compreensão. Compreender mais a vida na “sobra”. E também suas relações com aquilo
que não é sobra. Com aquilo que é “domínio” na cidade. E que é “domínio” nas relações
que nela se tecem. Queria compreender as relações da “sobra” com aqueles que vão ao
“inferno” em busca de alguma coisa, com algum interesse, assim como eu estava fazendo.
Ponto de chegada, começo de outra partida! A partida que fez nascer, alguns anos,
depois meu projeto de pesquisa no mestrado, a respeito da memória histórica nas favelas:
Reconstruindo a trama por caminhos, atalhos e pistas.

1.2. Nas tramas do “inferno”

...Foi assim que me aproximei das favelas da Penha, bairro localizado na


Leopoldina, subúrbio do Rio de Janeiro, onde desenvolvi uma nova pesquisa. Trabalhei
movida pela necessidade de me voltar para o conhecimento produzido pelas classes
populares, considerando-o como fundamental na construção de um conhecimento crítico.
Aqui, no âmbito das discussões do grupo de orientação coletiva do mestrado, buscava
ajuda em Martins, que dizia:

Isso passa pela nossa conversão à condição de objeto dele, no sentido de tomar
como premissa o pensamento radical e simples das classes exploradas, meio e
instrumento (ao invés de instrumentalizá-lo) para desvendar o lado oculto das
relações sociais com os olhos dele, revelando-lhe aquilo que ele enxerga mas

9
não vê; completando, com ele, a produção do conhecimento crítico que nasce
da revelação do subalterno como sujeito, na medida em que lhe restituímos a
condição de objetivo e lhe abrimos a possibilidade de resgatar o pleno sentido
de conhecimento alternativo que ele representa e propõe na sua prática.
9
(Martins 1989: 137)

Considerava então que, na construção do conhecimento crítico, o olhar para o outro


abre espaço para a compreensão de nossas concepções, podendo fertilizar nossa prática
profissional e política, em especial no que se refere à relação com os grupos populares.
E assim, procurava seguir em espiral....Desta vez, recuperando a história de três
movimentos ocorridos nas favelas da região e tecendo uma reflexão sobre o saber histórico
popular, investigando a forma como as os agentes participantes destes movimentos
percebiam a sua história, particularmente as lutas das quais participam, e os significados a
elas atribuídos. 10 .
Seguindo as pistas de algumas das lutas ocorridas nestas localidades, procurei
buscar parte de uma memória que parecia perdida na história da cidade, mas que não
escapava àqueles que a vivenciaram enquanto ação. “Acho que nunca, na história disso
aqui, nunca se viu tanta gente, lá naquela Praça, numa Assembléia... Nem a Associação de
Moradores conseguiu botar tanta gente como nós botamos lá”, ouvia P. Penha recordar o
início dos anos 80, um tempo em que eles pareciam estar com “a história nas mãos”. Um
tempo em que dizia Luiza: “o movimento era assim...porque a gente não ia um, a gente
não ia para o Palácio para reunir com o gabinete. Ia cinqüenta e subiam três, subia a
comissão. Então tinha sempre um movimento muito vivo ali, sempre presente” 11 .
Porém, resgatar a história de alguns destes movimentos através dos depoimentos
daqueles que os vivenciaram, buscando recuperar o seu significado histórico, era parte do
trabalho proposto. Na verdade, meu objetivo não era tanto trazer tais lutas para a “História”

9
A experiência no grupo de orientação coletiva em Movimentos sociais, Políticas públicas e Educação,
coordenado pelo prof. Victor Valla, de 1994-95, no Programa de Pós Graduação em Educação da UFF, foi
fundamental em algumas reflexões e conceitos, que hoje sedimentam esta pesquisa. No grupo, trocávamos
experiências de trabalho e novas leituras. As diferentes trajetórias daqueles que participavam do grupo
confluíam numa encruzilhada, em torno de um eixo comum que nos levava às questões que atravessavam o
movimento popular. Aqui, relevávamos os desencontros entre a população e os profissionais que com ela
trabalhavam, em busca de uma perspectiva crítica de nossas práticas e interpretações.
10
Tal pesquisa deu origem à dissertação de mestrado Grotão, Parque Proletário, Vila Cruzeiro e outras
moradas: História e Saber nas favelas da Penha, defendida junto ao Programa de Pós Graduação em
Educação da Universidade Federal Fluminense, e sob a orientação do Prof. Dr. Victor Valla (1995)
11
Tais depoimentos, assim como os seguintes, encontram-se no texto da dissertação acima citada.

10
mas, especialmente, compreender os significados que seus protagonistas lhes atribuíam,
considerando que só assim poderia entender melhor as experiências sociais e práticas
políticas daqueles que vivem no “inferno”. Entender, enfim, porque dizem que a “vida
está boa do jeito que está”, porque fecham ruas, ou porque se silenciam, quando os
militantes políticos acham que eles precisam falar. Porque fazem determinadas opções
políticas que, aos olhos daqueles que estão fora do “inferno”, aparecem sempre como
“alienadas”.
Foi desta forma que fui compreendendo um pouco mais da ‘sobra’, do saber e das
visões de mundo, e também dos movimentos dos “sobrantes”. Dialogando com as
reflexões de Thompson (1981;1987) e de Martins (1989), avaliava que era no âmbito de
sua experiência de subalternidade que os “sobrantes” produziam suas visões a respeito das
lutas por eles vivenciadas 12 . E recuperando fios de memória destes agentes, constatava que
nesta experiência histórica de subalternidade, vinham inscritas práticas e percepções
construídas ao longo do vivenciamento de um processo de exclusão em suas múltiplas
faces: na exclusão no campo e no migrar para a cidade, na exploração no trabalho e na luta
cotidiana na favela, na relação com os mediadores e no confronto com as instituições
públicas.
Analisando, então, estas práticas e percepções, podia perceber que elas eram
atravessadas por mediações que particularizavam a forma como este processo era vivido
pelos sujeitos: fertilizado pela prática sindical, pela atuação político-partidária, pela
experiência de trabalho, pelo acompanhamento do dia-a-dia na favela, pela religiosidade.
Com isso, podia ir compreendendo melhor porque não era todo mundo igual ali no
“inferno”. Porque uma liderança dizia: “eu achava horrível aquela briga dos

12
O conceito de experiência, que já era então bastante recorrente nas análises a respeito dos movimentos
sociais, revelou-se fundamental na pesquisa, indicando um eixo de análise que, sem perder de vista as
determinações mais amplas colocadas pelas relações de produção, contemplava os elementos particulares que
atuam como mediadores na produção cultural das classes populares. Dialogando com ele, foi possível
concluir que a experiência social, ainda que inscrita em processos macro-estruturais determinados pelas
relações de classes, é vivida por sujeitos que tratam desta experiência em sua consciência de maneiras
diferenciadas, de acordo com sua cultura, sua visão de mundo e sua historicidade.
Quanto ao conceito de subalterno, recuperei a interpretação de J.Souza Martins :“o legado da tradição
gramsciana que nos vem por meio desta noção, prefigura a diversidade das situações de subalternidade, a sua
riqueza histórica, cultural e política”(1989). O conceito adequava-se à pesquisa em torno da experiência
histórica dos moradores das favelas, e dos movimentos sociais aí desenvolvidos, porque tinha o mérito de ser
atravessado pela marca da universalidade e da particularidade. Universalidade, porque deve ser
compreendido no âmbito do processo de subalternização, que, produzido pelo desenvolvimento capitalista,
atinge parcelas crescentes da população. Particularidade, porque só pode ser interpretado a partir da forma
historicamente específica através da qual se desenvolvem relações entre os diferentes grupos subalternos e o
capital.

11
companheiros favelados, todos pobrezinhos, brigando um com o outro pelo poder que não
tinha significativo algum” enquanto uma moradora da mesma localidade lembrava que “a
própria comunidade tem noção do que ela quer”. Ia começando a compreender os
caminhos e opções diferenciadas dos “sobrantes”.
Reencontrava ainda uma das principais questões que deram origem à pesquisa:
lançava um novo olhar para a experiência histórica e a visão de mundo dos “sobrantes”.
Chegava à conclusão de que ela vinha marcada pela dor da travessia histórica que se
reatualizava incessantemente, colocando a necessidade de garantir o dia-a-dia, de prover a
vida no presente. Vinha atravessada também pela imprevisibilidade do cotidiano da vida
subalterna, frente ao enfrentamento da sobrevivência. Percebia também que esta mesma
experiência não anulava a possibilidade de projetos. Os “sobrantes” não viviam apenas de
dar respostas às urgências. Alimentavam projetos. Projetos alongados e adiados em meio à
imprevisibilidade do cotidiano e à busca da provisão. Vividos enquanto sonhos, ideais e
expectativas de mudança. Tecidos ao longo da vida, eram redefinidos em função dos
limites aí colocados, encontrando possibilidades de se insinuar em meio às brechas
forjadas pelos sujeitos em seu cotidiano. Assim, era o projeto da casa própria, o “ideal” que
a P. Penha declarava ter dentro dela, e também seu sonho frustrado de ser assistente social
e a busca por outro caminho, de agente de saúde.
Percorrendo as histórias dos movimentos que então pesquisava, concluía que era
em meio às lutas sociais que a experiência de subalternidade ia se explicitando como
coletiva: em seu vivenciamento enquanto injustiça, exploração, desejo e expectativa de
mudança, e no encontro que tornava possível que necessidades e projetos vividos
individualmente fossem percebidos em sua dimensão coletiva. Era como uma moradora
dizia a respeito da ocupação que deu origem à favela onde vivia: “olha, diante de pagar
aluguel, não só sou eu, são muitas pessoas, muitas famílias”.
Descobria que, se examinada, considerando a experiência dos agentes sociais da
ocupação, a favela é bem mais do que resultado das contradições do padrão de
acumulação do capital e do papel que o Estado aí assume. Ela pode ser projeto de vida
tecido em meio à insatisfação vivida como perda e a expectativa de melhoria de vida. Ela
pode ser luta individual e coletiva, travada em meio à precariedade experimentada no dia a
dia. Ela encerra modos de vida e formas culturais, construídos coletivamente, no
enfrentamento da vida no espaço urbano. E ela pode ser conquista, resultante de trabalho

12
comum e de conflitos com outros agentes sociais, particularmente o Estado e o capital
imobiliário.
E assim, eu deslocava o olhar. No lugar de produto das contradições da acumulação
urbano industrial que é garantida pelo Estado, processo tecido historicamente em meio aos
conflitos presentes no mundo urbano, usando uma expressão de Lefebvre, na cidade do
capital. Ao invés de carência, entrava o trabalho, a conquista. Ambos movidos pela
necessidade. Uma necessidade experimentada enquanto condição de vida e dinamizada por
agentes sociais que agem, referenciados em certas determinações sim, mas também
atravessados por expectativas e projetos, e que encontram coletivamente caminhos para
concretizá-los. As possibilidades de os projetos se viabilizarem estariam então menos
associados à intensidade do descontentamento, do que ao encontro que permitia que
insatisfações e projetos vividos particularmente fossem reconhecidos em sua dimensão
coletiva.
Este “encontro” mereceu um olhar atento. Porque não é raro na história das favelas.
Marca mesmo a memória de algumas de suas principais lutas.

(...) no verão, a gente tinha uma informação que a associação de moradores


vendia água, desviava água para os terrenos próprios do Grotão. E aquela
empresa de ônibus Nossa Senhora de Lourdes recebia um subsídio e tal, de
água, de canos clandestinos. (...) A associação levou uma grana para que
deixasse ligar. Era uma água gratuita. A água da comunidade é grátis. Só paga
a manutenção da bomba que faz o sistema de elevatória. Ninguém paga conta
de água no banco, nada disto. Existe aquele convênio. E no verão sempre
faltava água. Aí descobriram que esta água era desviada para os terrenos
próprios da Vila Cascatinha, para que se aumentasse o quadro social e com
isso a associação captava mais recursos. (...) a mulherada se juntou uma vez
para dar uma coça nos manobreiros. Várias donas de casa com vassouras. Foi
em 83. Foram para pegar o seu Zezinho. Foram na casa do seu Zezinho e
depois foram na casa do manobreiro. Foi uma coisa delas. Uma coisa assim

13
que aconteceu rapidamente. Foi um levante das donas de casa, com vassoura na
mão 13 .

Eis aí o “encontro”. Uma situação em que configurou-se o que Thompson chama de


atropelo aos “supostos morais” dos moradores, baseados num histórico e “amplo
consenso” da comunidade, atravessado por um noção legitimizante. (1984, p.65). Controlar
o fornecimento de água, cobrando por isso, podia ser considerado como legítimo, mas o
seu desvio para outros locais a fim de se acumular recursos atropelava o “amplo consenso”
ao qual se refere Thompson. Este atropelo, no âmbito do transtorno causado pela falta
d’água no verão, abriu as possibilidades para ação direta das mulheres.
Depoimentos que traziam relatos de eventos como o citado acima ajudaram-me a
compreender uma das interrogações da pesquisa: a temporalidade inscrita nas lutas
populares, sua dinâmica, seus nexos de ação. Concluí que eventos como este não podiam
ser reduzidos nem ao clímax de um processo acumulativo, nem a um acaso abrupto. Muitas
vezes, eles se colocavam para os sujeitos enquanto oportunidade no meio da estrada, num
percurso que aparentemente parecia “conformado” e, neste sentido, apareciam como um
ponto de ruptura que possibilitava o deslanchar compartilhado de um projeto e a instituição
da luta. Mas eles eram também potencializadores de caminhos que vinham se tecendo e,
por isso, signos de experiências acumuladas, que definiam alternativas e práticas no
encaminhamento deste projeto.
Concluía que necessidade, trabalho e conquista, projetos, modos de vida, encontros
em meio a atropelos, são experiências que, juntas, foram conformando processos de ação, e
não de simples reação. Experiências que desdobraram-se em organização e luta,
consolidando a presença das favelas na paisagem urbana carioca e sua integração na
agenda política do Estado. E colocando em questão muitas das imagens redutoras e
dicotomizadoras veiculadas a seu respeito, inclusive dentro do pensamento acadêmico.
Por fim, ao longo de toda a pesquisa, fui procurando construir uma reflexão sobre
as armadilhas presentes na relação entre aqueles que viviam no “inferno” e diferentes
profissionais mediadores, de forma a problematizar as representações produzidas por estes
últimos acerca do conhecimento e da experiência popular e, por outro lado, me aproximar
criticamente das visões que os “sobrantes” possuíam a respeito dos mediadores.

13 Tal fato ocorreu em Vila Cruzeiro, no bairro da Penha. Sr.Zezinho era o presidente da
Associação de Moradores na época referida.

14
Aqui, foi fundamental um tanto de leituras e o desenvolvimento de uma discussão
sobre a cultura, concebendo-a a partir de sua dimensão processual, contraditória e
conflituosa. Seguindo caminhos trilhados por Geertz (1989), Sahlins (1990), Durham
(1977) e Ginzburg (1987), pensava as produções do mundo simbólico das classes
populares como ação no tempo, atravessadas por tempos históricos distintos e inscritas
num tecido social permeado por lutas e contradições. Dentro desta perspectiva, procurava
ir além das dicotomias que opunham cultura de elite/cultura popular, recuperando a noção
de circularidade trabalhada por Carlo Ginzburg, que aponta as trocas subterrâneas
existentes entre cultura subalterna e a dominante, afastando a concepção de uma autonomia
entre elas e resgatando seu movimento relacional. E acolhia o conceito de hegemonia
cultural sugerido por Thompson, que me permitia explicar a reprodução de determinadas
práticas e valores comuns à sociabilidade capitalista, mas compreender também as
“distintas cenas e dramas diversos” desenhados nas teias das estruturas de dominação e
subordinação (1984)
Tendo como base tal discussão, dialoguei com os depoimentos dos atores dos
movimentos então pesquisados, ensaiando uma leitura a respeito da relação entre
lideranças e moradores das favelas e os profissionais mediadores, procurando desalojar
determinadas interpretações dicotomizadoras. Percorrendo as histórias, relia textos,
imaginando....Estabelecia nexos que indicavam novas possibilidades de análise. Chegava
à noção de mediador na comunidade que me levou a repensar as oposições bem definidas
entre mediadores externos/comunidade e, também, refletir sobre o percurso da liderança à
frente da organização comunitária, enquanto uma possibilidade de ação política no
movimento, que muitas vezes a aproximava dos profissionais mediadores, tornando suas
representações bastante semelhantes. De certa forma, o mediador na comunidade vinha me
sugerir outras alternativas de prática social e política, que não passavam necessariamente
pelos “níveis de consciência política” indicados por mediadores externos mas também
pelas lideranças mais expressivas.
Ao fim da pesquisa, concluía que a atuação do morador mediador na comunidade
particularizava-se pela ação nas margens das esferas de poder instituído na favela, no caso
a associação de moradores. Aproximava-se da liderança pelo conhecimento do jogo
político, acumulado na prática no movimento comunitário, mas dela distinguia-se pela
forma de ação na luta. Diferenciava-se dos demais moradores pela experiência no
movimento e pelo conhecimento das regras do universo político. No entanto, a particular

15
forma de atuação na favela, através da proximidade cotidiana com os moradores, reforçava
os vínculos com sua experiência subalterna. Produzia, pois, sua visão a partir de um outro
lugar que possivelmente lhe dava um horizonte de visibilidade crítica. Daí, ele percebia as
implicações das relações de poder na favela, a atuação dos mediadores externos, e
interpretava a ação e experiência dos demais moradores. Na percepção do mediador na
comunidade, o seu percurso apresentava-se como particular, mas não era colocado em
outro plano. Ele aparecia enquanto possibilidade da trajetória de vida daqueles que viviam
na localidade. Trajetória que ele buscava compartilhar no âmbito da localidade em que
vivia através de sua ação mediadora.
Esta identificação da existência do mediador na comunidade foi uma das questões
que assumiu maior relevo na pesquisa, mas não pude me dedicar a ela. Cheguei ao fim da
pesquisa levando a interrogação comigo. E nos anos seguintes, mantive-a como um
desafio.

1.3. Da existência social que interroga

Porque a gente procura caminhar em espiral, é que as descobertas não se


desfazem. Posso dizer que foi esta percepção da existência do mediador que me levou a
desenhar a pesquisa voltada para os educadores que vivem e atuam em favelas do
município do Rio de Janeiro.
Mais uma vez, a lembrança revê... Meu primeiro encontro, e mesmo diálogo, com
estes educadores deu-se exatamente na época da pesquisa sobre a qual refleti anteriormente
quando, além de desenvolver uma investigação sobre os movimentos populares em favelas
da Penha, atuava no CEPEL (Centro de Estudos e Pesquisas da Leopoldina), onde pude
acompanhar a assessoria que a instituição oferecia às educadoras do Sementinha Serviços
Comunitários, participando inclusive da sistematização da experiência de trabalho do
grupo através da elaboração de uma publicação Guia do Bem Estar: um trabalho de
Esperança. 14
Defrontar-me com o trabalho do Sementinha, dentre outras coisas, me despertou
para o particular lugar ocupado por moradores de favelas que atuam como educadores em

14 O Sementinha Serviços Comunitários é um grupo formado por mulheres que desenvolvem atividades na
área da saúde, em favelas da Penha. O grupo formou-se em meados dos anos 80, a partir de uma proposta de
mobilização comunitária da Pastoral de favelas da Igreja Bom Jesus da Penha. A experiência histórica do
Sementinha e as visões produzidas pelo grupo foi um dos temas da dissertação de mestrado já citada.

16
seus locais de moradia, ou em outras favelas. Até então, minha visão a respeito do universo
dos que viviam na favela era um pouco dicotômica: de um lado, os moradores comuns,
mais ou menos participantes das lutas comunitárias; de outro, as lideranças voltadas
fundamentalmente para estas, mais ou menos vinculadas às associação de moradores. De
repente, descobria que havia pessoas na favela que não se localizavam nem no lugar do
morador comum, nem da liderança propriamente dita. O que percebi imediatamente é que
as mulheres do grupo afastavam-se dos outros moradores pelo fato de que circulavam em
espaços sociais diferenciados, para além dos lugares aonde viviam.
Com isso, posso dizer que o diálogo com o Sementinha me fez relativizar a
paisagem das favelas, interrogando uma visão que polarizava a existência social nestas
localidades não concebendo lugares outros, exceto o de morador comum e liderança
participante do movimento comunitário.
Com o tempo, acompanhando o grupo fui desvendando outras questões. As
mulheres do Sementinha possuíam uma prática de assistência individual aos moradores.
Levavam doentes e idosos aos serviços de saúde, ao banco, e outros locais que eles
necessitavam. E acompanhavam aqueles que estavam internados no hospital, zelando por
eles e, muitas vezes, respondendo ao estado de abandono que estas pessoas se encontravam
em função do mal funcionamento do serviço público ou da negligência/ou falta de
condição das famílias. Era evidente no grupo uma prática de solidariedade, que já havia
identificado na sociabilidade das favelas, onde necessidades que aparecem como
individuais, mas quase sempre são causadas pela falta de acesso aos serviços públicos (de
infra-estrutura urbana ou sociais) e pela desfiliação social, são solucionadas numa esfera
comum 15 .
Sim, as mulheres do Sementinha, como muitas moradoras das favelas, eram
solidárias. Estavam sempre prontas a agir a fim de ajudar quem estava ao lado. No entanto,
o que percebi foi que esta solidariedade era mais do que uma prática social local. Ela foi se
constituindo como forma de trabalho. O que não cheguei a compreender foi o processo que
deslocou esta solidariedade, configurando-a como trabalho. De qualquer forma, ver o

15 O termo desfiliação social, trabalhado por Castel (1998) é usado aqui para referenciar a
multiplicidade de situações de precariedade que atingem os moradores de favela, num processo que
nada tem de estático e que configura um acúmulo de experiências, que vão da vulnerabilidade à
desfiliação. Desta forma, questões que são tratadas de forma substancializada e isoladamente,
como desemprego, alcoolismo, dependência química, perda de laços familiares e da sociabilidade
local, são experiências que fazem parte deste percurso de desfiliação social.

17
Sementinha em ação me fez lançar um outro olhar sobre aquilo que até então via como
elemento constituinte do modo de vida na favela.
Esta questão, assim como a complexidade da dinâmica do movimento popular nas
favelas e a posição aí ocupada por estes educadores das favelas- que passei então a
conceber como mediador na comunidade - se repôs em todas as minhas experiências de
trabalho em favelas nos anos seguintes.
Supervisionando, e, mais tarde, prestando consultoria a um projeto educacional
desenvolvido por uma ONG, pude ter contato com uma diversidade de agentes que atuam
favelas e áreas da periferia da cidade, ampliando desta forma meu campo de observação a
respeito do papel destes educadores e de sua relação com a organização comunitária.
Levantando a avaliação negativa por parte de alguns alunos do projeto em relação às
associações de moradores, questionava então:

(...) é fundamental identificar por onde têm passado os caminhos de


participação da população nas comunidades. Se muitas vezes os moradores não
encontram respostas nas associações, de que forma vêm articulando suas
demandas, veiculando suas necessidades e enfrentando seus problemas? Quais
os espaços que despertam sua confiança e permitem sua atuação? (Cunha
1999)

Na mesma época, novamente na região da Leopoldina, coordenando uma pesquisa


a respeito das iniciativas sociais implementadas nas favelas , e das redes de apoio e
solidariedade tecidas entre elas, pude avançar nas reflexões a respeito das ações dos
educadores em favelas. Percebia então que havia um processo em expansão nestas
localidades e afirmava:

Assim, mesmo contando com dificuldades, crescem os projetos e serviços no


campo social que, além de responder a alguns dos principais problemas das
comunidades, oferecem alternativas de trabalhos a alguns de seus moradores,
fazendo aumentar o número dos chamados trabalhadores sociais. São
principalmente agentes e educadores comunitários que possuem um vínculo
precário, sem nenhuma estabilidade e garantia trabalhista. Atuam, porém, em
vários serviços, levando para seu trabalho aquilo que nenhum curso ou

18
programa de capacitação é capaz de oferecer: sua experiência no trabalho
comunitário e o conhecimento das relações existentes nas comunidades (Cunha
& Valla 1999: 45)

Destacava ainda a tendência de incorporação de tais trabalhadores em vários


programas governamentais, apontando as armadilhas aí presentes, com as quais os
moradores já estavam acostumados a conviver:

o crescimento de disputas dentro das comunidades já que não há espaço para


remunerar todos os trabalhadores sociais; e o reforço político do poder
governamental que anuncia a participação ativa da comunidade em programas,
onde quase sempre quem dá as cartas é ele, e quem trabalha a baixo custo são
os moradores. Trabalha, não apenas executando as ações, mas pensando as
soluções para os problemas e conflitos que surgem no desenvolvimento dos
programas (Cunha & Valla 1999)

Pouco tempo depois, pude perceber o mesmo movimento para além da Leopoldina:
em algumas favelas da Tijuca. Atuando como consultora, e mais tarde como coordenadora
de projetos de uma ONG, verificava a multiplicação dos projetos sociais nas favelas, de
iniciativa governamental ou não. Sustentando as ações destes projetos, havia o trabalho
voluntário ou de vínculo precário de moradores que, em sua maioria, participavam de mais
de um projeto. E que estendiam suas ações, como uma espiral. Acompanhando este
trabalho, eu podia identificar um aspecto que já havia se destacado na experiência junto ao
Sementinha Serviços Comunitários:

O desenvolvimento do trabalho na comunidade exige do educador que ele vá


além de sua área mais específica de atuação, pois em seu dia a dia defronta-se
com problemas que exigem encaminhamentos; assim, segundo os educadores,
eles vão se tornando assistentes sociais, psicólogos etc; é importante destacar
que a credibilidade, confiança e respeito que o educador tem na comunidade

19
está diretamente ligada à sua disponibilidade para responder, e mesmo
simplesmente escutar, os problemas dos moradores. 16

Enfim, destas experiências pude colher algumas questões para desenhar a


pesquisa..: a configuração da solidariedade como forma de trabalho; a diminuição da
credibilidade das associações de moradores das favelas; os caminhos de participação da
população nas comunidades; o crescimento de projetos e serviços no campo social; o
aumento dos trabalhadores sociais; o reforço político do poder governamental através da
incorporação dos trabalhadores sociais em seus programas; a ação em espiral dos
educadores, respondendo a múltiplas demandas nas localidades aonde atuam. E seguir em
espiral.

16
Relatório de Avaliação dos Grupos de discussão, Gestão Comunitária: Instituto de Investigação e Ação
Social, mimeo, 2000.

20
2. Os Trabalhadores sociais das favelas do Rio de Janeiro: no desencontro, em
fronteira

Hoje, sigo procurando estudar o trabalho dos chamados educadores comunitários,


aqueles que moram e atuam em suas localidades, ou mesmo em outras, trabalhando em
programas e projetos sociais governamentais ou não governamentais.
Sigo, desenhando algumas hipóteses.
Considero que este é um trabalho que vem de longe, tributário de relações, práticas
e saberes que se forjaram sob modos de vida que marcaram as favelas em outras eras. De
uma sociabilidade local, aonde encontramos os registros da experiência de viver num
urbano que desafiava os moradores das favelas, acabando por produzir um estoque comum
de informações e referências, necessários à apropriação e sobrevivência na cidade.
Tributários também da experiência comum de morar num espaço desenhado a muitas
mãos, sempre a construir, resultante de projetos aonde trabalho e luta, vida pessoal e
social, se intercruzam num mesmo esforço conjunto. Experiência de quem sabe o que diz o
poeta J. Cabral de Melo Neto, que “um galo sozinho não tece a manhã”. Registros que
evocam ainda a vivência de condições de vida semelhantes que configuram arranjos feitos
na esfera da vizinhança e mesmo local. Arranjos, inscritos em determinadas experiências
históricas e informadas por processos identitários que configuram diferentes papéis sociais.
Este é também um trabalho que foi constituindo-se nas idas e vindas das lutas que
marcaram a história das favelas na cidade. Alimenta-se portanto de toda a complexidade
subjacente a estas lutas, marcada pela disputa de interesses divergentes, por conflitos com
agentes sociais diferenciados, e por caminhos diversos de ação, que incluem as formas de
organização comunitária, a negociação e/ou confronto direto, e a chamada cooptação.
É um trabalho que foi se forjando num terreno mais amplo, habitado por uma
multiplicidade de agentes sociais, posicionados de forma diferenciada no mundo social, e
com interesses divergentes. Mas que possuem em comum o fato de realizar uma prática
social desenvolvida nas favelas, ou em interlocução com elas. Trabalho que foi se
configurando num campo de relações que envolve outros processos de trabalho e de ação
política, o chamado campo de trabalho social nas favelas.
Não deixa de ser também um trabalho que faz ecoar a experiência subjetiva
daqueles que a ele se dedicam, marcada por percursos distintos, pela força de determinados

21
papéis sociais a desempenhar, por inserções em diferentes grupos e organizações
comunitárias ou não, e por deslocamentos operados no mundo social.
É ainda um trabalho que hoje traz um novo signo, integrando um conjunto de
iniciativas que vêm se desenvolvendo dentro de uma lógica, cuja orientação traduz um
novo padrão de relação do poder público e instituições da sociedade civil com as favelas
do município, onde estes diferentes agentes aparecem como parceiros. E expressam novas
formas de ação, produzidas em meio aos desafios presentes na sociabilidade das favelas da
cidade, no início deste novo século. Um trabalho que dialoga com a ineficiência e
precariedade dos serviços públicos, com o desemprego crescente, com as vidas “suspensas
por um fio” de um número crescente de moradores, e com a violência policial e do tráfico
de drogas que marca as relações na favela 17 .
Enfim, é um trabalho que se constitui em meio às continuidades e descontinuidades
históricas que marcam nossa sociedade, e, particularmente, a experiência de vida e as lutas
sociais dos moradores das favelas. Reatualizando o antigo, e carregando o novo, ele
desafia os agentes sociais que o desenvolvem, bem como aqueles que procuram
compreendê-lo. Por estar em constituição, seus ”segredos” vêm sendo construídos e
compartilhados no caminho da “espiral”. Segredos que implicam em experiências,
produzidas num novo cenário, e que possivelmente estão gerando novos conhecimentos
por parte daqueles que trabalham, e desalojando significados já cristalizados na vida destas
pessoas.
Se é um trabalho em constituição, há muito a ser decifrado a seu respeito. Minha
proposta aqui é começar a desvendar a sua trama. Debruçar-me sobre alguns processos que
ajudam a explicar esta constituição e refletir sobre os segredos, experiências e
conhecimentos que vêm sendo aí produzidos. Para, afinal, melhor compreender a trama, e
avançar na “espiral”.

2.1. A trama: ferramentas de análise

A lembrança revê...Já seguia em espiral, atenta à atuação dos educadores em


favelas quando conversei com algumas mulheres, contratadas como “agentes
comunitárias” pela Secretaria Municipal de Habitação. Na ocasião, elas faziam uma oficina

17
“Suspensa por um fio” inspira-se na expressão usada por uma mulher desempregada em seu depoimento
em A Miséria do Mundo.

22
desenvolvida por uma ONG e promovida pela Secretaria. Uma delas me colocou sua
situação, e das outras, da seguinte maneira: “Estamos trabalhando em várias comunidades,
trabalhando com educação, conscientizando; mas quando todas estas comunidades
estiverem saneadas, estiverem transformadas, o que vai ser da gente? Vamos ficar sem
emprego”. 18
Preciso admitir que fiquei meio sem palavras. Como dividir com elas, algo que eu
sequer compreendia muito bem? Recordo que a única resposta que me ocorreu foi algo
como: “vocês podem ficar sem emprego durante algum tempo, mas o trabalho de vocês vai
ser sempre necessário; o trabalho de vocês é fundamental porque sempre vão existir
comunidades que precisam; mesmo que não precisem de saneamento, elas vão precisar de
outras coisas; e as favelas não param de surgir e se expandir”.
Falei, sem expressar exatamente o rumo da minha reflexão: o drama destas
mulheres, chamadas agentes ou educadoras comunitárias, que sobrevivem divididas entre a
dor de se confrontar com vários tipos de privação a cada dia, a satisfação de ver seu
trabalho cumprido e a realidade onde atuam “transformada” – comunidades saneadas, por
exemplo,- e o medo de “sobrarem”, perderem aquilo que lhes garante a sobrevivência
material e que tem um valor simbólico em suas vidas.
Apenas alguns meses depois, com as mudanças empreendidas pelo Prefeito César
Maia recém empossado, aconteceu o que elas temiam: a maioria delas perdeu o emprego.
Não sei exatamente o que aconteceu com as favelas aonde trabalhavam. Se foram mesmo
saneadas. Mas estou certa que sequer foram transformadas, e prescindiram do trabalho das
“agentes”. E também ignoro o destino delas. Sei que algumas conseguiram se reinserir
através de projetos desenvolvidos por ONG´s, e outras foram recontratadas depois de um
longo tempo sem trabalho.
É este drama, experimentado enquanto processo com todas suas conquistas e
perdas, bem como a multiplicidade de questões que lhe atravessam, que me interessa nesta
pesquisa. Pesquisa que procura refletir sobre o trabalho das pessoas que moram e atuam
em suas favelas, ou mesmo em outras. Muitos delas, como as mulheres acima
mencionadas, contratadas por grandes programas sociais do próprio poder público. Outras,
ligadas a organizações não governamentais. Todas possuindo um vínculo precário.

18
Relatório de campo no Morro do Adeus, Oficina História de Comunidades, Secretaria Municipal de
Habitação, Gestão Comunitária: Instituto de Investigação e Ação Social, Caixa Econômica Federal,
Concremat, 2000

23
O olho vê.... Tais pessoas são comumente chamados de agentes ou educadores
comunitários. A diferença não é uma questão semântica. Ela parece indicar formas diversas
de compreender o que eles fazem. Estou optando por não recorrer aos termos “agente”
ou “educador comunitário” exatamente porque desconfio que ambas as noções não
comportam a experiência destes moradores de favelas, bem traduzidas no drama das
mulheres com quem conversei, que eu aqui repito: “Quando todas estas comunidades
estiverem saneadas, estiverem transformadas, o que vai ser da gente? Vamos ficar sem
emprego?”. Ao contrário, os termos aí colocados - o agente, o comunitário, o educador -
evocam experiências e sentidos associados a uma época que já se passou, embora tenha
deixado suas marcas na prática destas pessoas que hoje atuam em suas favelas ou em
outras. Com isso quero dizer que a marca da “militância” e da atuação no movimento
popular ainda orienta a experiência destes moradores que trabalham em projetos sociais
nas favelas, mas não é suficiente para dar conta da ação que eles vêm desenvolvendo, e das
relações nas quais se encontram inseridos. Ao meu ver, ao nos agarrarmos à velhas
referências para analisar o trabalho destes agentes sociais nos arriscamos a perder os novos
significados que este novo processo traz. Isso sem falar no fato de que acabamos por
transformar referências em modelos de ação, e analisamos, e mesmo avaliamos, a prática
destas agentes a partir de tais modelos.
Dar nome ao novo, especialmente o que está em mudança, é um desafio. Mas optei
por usar a noção de “trabalhador social” para nomear estes moradores das favelas que
atuam em projetos sociais. Faço assim exatamente para demarcar seu lugar como pessoas
que sobrevivem através de atividades desenvolvidas no terreno da intervenção social.
Pessoas que, através de suas ações, são criadoras da riqueza social, contribuindo para
sanear as favelas, por exemplo 19 .Pessoas, cuja força de trabalho vêm sendo mercantilizada,
ainda que num jogo com regras particulares. E que são submetidas a processos de
exploração, bem como de apropriação de saberes, mesmo que estes processos se
entercruzem com a dinâmica das lutas na esfera política, e particularmente com os
movimentos sociais.
Há ainda algumas outras razões. Recorro ao termo “trabalhador social” a fim de
indicar o circuito mais amplo no qual estes trabalhadores atuam, que ultrapassa as

19 Estou compreendendo aqui este processo de trabalho como criador de riqueza na


medida em que contribui para a reprodução do trabalhador, inserindo-se desta forma,
indiretamente, na acumulação do capital.

24
fronteiras do local, do chamado “comunitário”. E, particularmente, buscando apontar a
diferença entre o processo de trabalho, tema desta pesquisa, e aquele que marcou as lutas
das favelas e as intervenções sociais aí realizadas ao longo de vários anos.
O olho vê....Deixa os contornos da favela para buscar respostas que ajudem a
decifrar o que lá acontece. No caso, para ir ao encontro de pistas que expliquem o processo
de trabalho dos moradores de favelas.
Penso que as mudanças em curso nas favelas, e particularmente o aumento do
número do que chamo de trabalhadores sociais, devem ser compreendidas a partir das
contradições do mundo social, considerando a forma através das quais elas vêm se
manifestando na entrada do milênio, expressando o “desencontro entre o econômico e o
social nas sociedades capitalistas, este atrasado em relação àquele” (Martins 1997). É
neste desencontro, que se acirra quanto mais o econômico avança em relação ao social, que
vai se configurando o movimento que reserva às forças sociais em conflito, a diferentes
instituições e, mais concretamente, a cada agente, um determinado espaço. Tal espaço se
traduz numa prática e num posicionamento diante dos tão polemizados “problemas
sociais”.
Mais particularmente, o trabalho destes agentes sociais pode ser explicado a partir
de processos mais amplos de mudança que atingem o mundo social, redefinindo as formas
de sociabilidade capitalista, o papel do Estado, e de sua relações com a sociedade civil.
Concretamente, ele aparece como uma das expressões das chamadas políticas de
terceirização desenvolvidas pelo poder público, tendo em vista o enxugamento de seus
custos com o social. Desenvolve-se então, no âmbito de uma dinâmica de inclusão de
“excluídos” no movimento de valorização, por meio de formas indiretas de subordinação
do trabalho ao capital. É mais uma, dentre tantas outras, forma precária de inclusão
econômica.
Considerando as alterações operadas no Estado e em sua relação com a sociedade, a
incorporação de moradores em programas sociais configura-se como uma saída econômica
e política para o poder público, que economiza nos encargos sociais e ainda vai atribuindo
a estes agentes a tarefa de dialogar com os grupos por ele atendidos, despolitizando sua
relação com as favelas, ao inaugurar canais técnicos, cuja legitimidade é dada pela
presença de um profissional destas localidades.
Mas o olho procura ver mais.... Dialoga com a vida nas favelas, de forma a
compreendê-la e a melhor desvendar o movimento de seus agentes. Ou seja, dialoga com

25
este mundo de trabalho em movimento nas favelas, de forma a compreender as
experiências e conhecimentos aí produzidos.
O trabalho destes moradores tem se configurado como alternativa para aqueles que,
historicamente alijados de seus direitos sociais, vêm agora sofrendo mais cruamente o
impacto das mudanças econômicas e sociais em curso, cujas expressões mais violentas
aparecem sob a forma do desemprego e falta de segurança. É através desta alternativa, que
muitos vêm procurando reverter seu esforço em benefício de sua própria favela, ou mesmo
de outras, e sustentar sua inserção econômica e social.
É um trabalho que vai se ampliando porque, ao contrário do que indica a suposição
no questionamento da “agente” da Secretaria de Habitação, as favelas não estão saneadas,
e muito menos transformadas. Neste pedaço do mundo social, o desemprego cresce, a
miséria avança, a precariedade se amplia, a ação do tráfico de drogas delimita o
deslocamento dos moradores e suas ações, e o poder público se limita a procurar manter
sob controle os problemas e conflitos daí advindos, recorrendo a políticas sociais de caráter
pontual, em parceria com ONG´s e instituições locais. Neste pedaço do mundo social,
multiplicam-se as necessidades sociais dos moradores que, não atendidas pelos serviços
públicos, geram demandas junto àquelas pessoas que se tornam pontos de referência, e que,
com seu trabalho social, acumulam credibilidade nas localidades aonde atuam. Com isso,
o trabalho cresce em espiral.
Compreendo que ele cresce dentro de um terreno maior, onde sua ação mediadora
tem se destacado. Terreno que vem se configurando como um lugar do mundo social aonde
estão alojados diferentes agentes sociais, que ocupam posições desiguais neste mundo.
Todos voltados para a intervenção social nas favelas. Em crescente expansão, este terreno
vem se constituindo como espaço fundamental de mediação do político. Nele, defrontam-
se interesses diversos e, muitas vezes, divergentes e em disputa. É um terreno que chamo
de fronteira.
A lembrança revê... Comecei a me dar conta deste terreno, ao longo do percurso
procurando explicar e compreender o que se passa no universo das favelas cariocas. De
início, fui percebendo-o de forma pontual, aqui e acolá, no âmbito dos vínculos de algumas
localidades com algumas estruturas supralocais 20 . Deixar de me debruçar sobre uma ou

20
Recorro aos conceitos de localidade e instituições ou estruturas supralocais usados por Alvito (2001), que,
por sua vez, se inspira em Anthony Leeds (1978). O conceito de localidade comporta redes complexas de
diversos tipos de relações. Já as estruturas supralocais não têm sua formação governada ou relacionada a uma
dada localidade. Neste caso, estão incluídos os partidos políticos, o sistema bancário, o mercado de preços,

26
outra localidade, e passar a acompanhar várias localidades e a organização de diversas
estruturas supralocais, me fez interrogar a configuração particular deste terreno, espalhado
num ponto de encontro entre as favelas da cidade e diferentes estruturas supralocais. Passei
então a me perguntar se não seria ele um lugar de fronteira, um ponto de cruzamento do
global com o local? Da esfera pública e com o não público? Reinterpretando a expressão
cunhada por Bourdieu, não seria um lugar onde “as estruturas sociais estão em ação”
(1997)? Não seria o lugar onde estaria mais visível o movimento e a agregação daquilo que
a análise social procura separar e fixar: o econômico, o social, o político, o cultural?
Observo que não é uma fronteira comum, que anuncia fins e limites, separação de
terrenos distintos. É um terreno de encontro, que configura uma paisagem específica. É
onde a “sobra”, aqueles que vivem no que o morador chamou de “inferno”, está em
conexão com um outro lado que agrega espaços diversos, como as várias instâncias do
poder público, as ONG´s, as igrejas, as universidades etc. Observo que, para alguns que
vivem nas favelas, pode ser lugar de saída. Para outros, que se encontram em estruturas
supralocais, de entrada. Para outros tantos, situados em diferentes posições deste terreno,
lugar de conquista. Para muitos que aí se localizam, de interlocução e pressão, e de tensão.
Para todos, de mediação. Diversas formas de mediação: entre os moradores das favelas que
circulam nesta fronteira, atuando como educadores e lideranças comunitárias, e os
“sobrantes”, que vivem no chamado “inferno”; entre o poder público e o local; entre as
várias instâncias da sociedade civil, estruturas supralocais não governamentais e a esfera
local. É, pois, um lugar de mediações e tensões onde, em movimento, encontram-se
moradores e lideranças das favelas, técnicos do poder público e de ONG´s, líderes
religiosos e políticos, e mesmo o narcotráfico.
Recordo o significado do termo fronteira viva, no velho Aurélio: “tipo de fronteira
resultante de lenta evolução histórica e fixada através de choques ou de lutas armadas;
fronteira de acumulação, fronteira de tensão”. Sim, levanto aqui a idéia de que se trata de
uma fronteira viva. Viva porque histórica, dinâmica e resultante de lutas, experiências e
conflitos que articulam e opõem múltiplas ações e projetos sociais. Uma fronteira que foi
se constituindo ao longo do tempo, através de processos instituídos e instituintes, marcados

sindicatos, associações profissionais e, sobretudo, o Estado, que opera através de várias instituições. Alvito
chama atenção, em seu estudo sobre Acari, que incluem-se aí ainda, as ONG´s, os mass media, a Igreja
Católica e o tráfico internacional de drogas.

27
pela dinâmica de experiências e movimentos desenvolvidos nas favelas, em variadas
épocas.
Penso, pois, que a fronteira possui uma configuração histórica e uma estrutura e
dinâmica particulares. E, embora não apresente um grau de estruturação e autonomia,
aproxima-se de alguns aspectos evocados pelo conceito de campo de Bourdieu. Pode ser
compreendida como espaço atravessado por relações objetivas entre as posições ocupadas
pelos agentes na distribuição de recursos, que são ou podem se tornar operantes na
“concorrência pela apropriação dos bens raros que têm lugar neste universo social”. Neste
espaço, a localização dos agentes segue então princípios diferenciadores, que nos remetem
a “poderes sociais fundamentais” : “o capital econômico, em suas diferentes formas, e o
capital cultural, além do capital simbólico, forma com que se revestem as diferentes
espécies de capital quando percebidas e reconhecidas como legítimas”. (1990: 154).
A fronteira é então aqui concebida como um espaço que forjou-se historicamente,
sendo constituída por relações objetivas entre diferentes atores: técnicos e funcionários das
instituições públicas, lideranças e os agentes comunitários, contratados ou não por
programas governamentais, os próprios moradores das favelas, os profissionais que atuam
em ONG´s e, cada vez mais, pesquisadores. A despeito de muitas vezes circularem em
torno de projetos comuns, tais agentes ocupam posições diferenciadas, na sociedade e,
mais particularmente, na fronteira. Assim, ela está longe de ser um espaço homogêneo e
com relações horizontais. Recuperando a interpretação que Renato Ortiz faz da noção
trabalhada por Bourdieu, lembramos: “ se particulariza pois, como um espaço onde se
manifestam relações de poder, o que implica afirmar que ele se estrutura a partir da
distribuição desigual de um quantum social que determina a posição que um agente
específico ocupa em seu seio”. (Ortiz 1994)
Refletir sobre o trabalho dos trabalhadores sociais, concebendo-o dentro de um
terreno de fronteira, significa buscar um caminho que não reduza tal trabalho a apenas uma
expressão de processos de exclusão ou inclusão precária, ou uma forma de “cooptação”
pelo poder público, e ainda a mais uma forma de “militância comunitária”. Posso dizer
mesmo que faz parte do esforço de exercitar um duplo olhar, ao qual tenho recorrido em
minha travessia em espiral. Um olhar que se volta para processos mais amplos de mudança
do mundo social a fim de explicar o que acontece nas favelas. Mas que, ao mesmo tempo,
busca compreender este “acontecer histórico”, considerando a experiência dos agentes

28
sociais envolvidos no processo, de forma a melhor decifrar o movimento destes agentes.
Um olhar que apreende o mundo social como um espaço histórico e relacional.

2.2. Transvendo...

Vejo....Mergulhado no terreno de fronteira, o trabalho social desenvolvido por


alguns moradores das favelas da cidade, contratados por projetos do poder público ou de
ONG´s, deve ser compreendido como um campo de contradições, onde estão colocados
dois movimentos que se atravessam: aquele que empurra as pessoas para “dentro”, para a
condição subalterna de reprodutores mecânicos do sistema econômico, reprodutores que
não reivindiquem, nem protestem em face das privações, injustiças, carências; e aquele que
gera a interpretação crítica e a ação dos chamados “excluídos”, isto é, sua participação
transformativa no próprio interior da sociedade que exclui. (Martins, 1997)
O movimento “que empurra as pessoas para dentro”, vai delimitando um espaço de
ação no qual os que vivem no “inferno” se movem e atuam. A partir dele, configuram-se
formas de inclusão precária e instável, dentre as quais o trabalho desenvolvido por vários
destes moradores em suas favelas, ou mesmo em outras. É um movimento que vai
delimitando o campo de ação no qual os agentes sociais - e em particular os trabalhadores
sociais- se movem e atuam, buscando formas de enfrentamento de sua sobrevivência, das
necessidades e dramas daqueles a quem precisam responder, e dos desafios colocados às
localidades onde vivem. Neste campo, a noção de condições de vida indica uma realidade
de empobrecimento econômico e social, que vem implicando a precarização das várias
dimensões de vida dos moradores de favela.
O outro movimento que “gera a interpretação crítica e a ação dos chamados
excluídos”, nos sugere determinadas possibilidades de ação neste campo. Menos visível,
ele é um desafio ao pesquisador. Indica pistas a respeito de como os agentes sociais se
movem, e em que medida o fazem de forma diferenciada, a despeito da identidade de suas
condições de vida. Aqui, se coloca a necessidade de operar com um conceito que implique
em um eixo de análise que nos faça compreender as alternativas de sobrevivência destes
agentes e a leitura que eles têm de sua realidade. Levantamos então a idéia de que, apesar
de inseridos em determinadas condições de vida que conformam seu campo de ação, os
moradores das comunidades pobres não respondem reativamente a elas, mas atravessados

29
por sua experiência, que implica uma determinada forma de apropriação da realidade e as
possibilidades de ação sobre ela. 21
Ainda que busque abordar os dois movimentos, a ênfase desta pesquisa recai sobre
o segundo. Seguindo em espiral, o que busco é refletir sobre o processo de trabalho
realizado por moradores das favelas do município do Rio de Janeiro, localizando-o no
terreno de fronteira. Procurando compreender as experiências e os conhecimentos
produzidos por estes trabalhadores sociais, suas relações com outros agentes sociais da
fronteira. Decifrar o significado que eles estão conferindo a seu trabalho. E investigar
como e até que ponto sua experiência ultrapassa a esfera local e pode ser geradora de novas
formas de ação política.
Usando de imaginação.... Situado na fronteira, num ponto de encontro entre o local
e o global, este processo de trabalho encarna de forma significativa algumas das
contradições de nosso mundo social, e pode constitui-se numa chave para decifrar algumas
das principais tensões que o atingem. De certa forma, ele encontra-se em pontos onde as
“estruturas sociais estão em ação”. A este respeito, Bourdieu, referindo-se aos ocupantes
de posições instáveis, como é o caso dos trabalhadores da área social, destaca :

(...) são extraordinários “dispositivos analisadores práticos”: situados em


pontos onde as estruturas sociais “estão em ação” e, por este fato, movidos
pelas contradições destas estruturas, eles são obrigados, para viver ou
sobreviver, a praticar uma forma de auto-análise que, muitas vezes, dá acesso
às contradições objetivas de que são vítimas e às estruturas objetivas que se
exprimem através delas (Bourdieu 1997).

Por isso, o interesse em estudar o trabalho em questão. Recuperando a reflexão do


sociólogo, interrogo: até que ponto os trabalhadores, moradores de favelas, situados em
pontos onde as estruturas sociais estão em ação, possuem um horizonte particular de
vivenciamento das contradições sociais e de sua interpretação crítica?
Esta pesquisa é então mais uma aposta. A aposta no mergulho em um mundo em
movimento que pode nos ajudar a refletir sobre as formas precárias e instáveis de inclusão

21
Recuperamos aqui o já mencionado conceito de experiência do historiador E.P. Thompson, que em sua
obra indica um conjunto de mediações que fundamentais à prática histórica e social, uma vez que atravessam
as ações dos homens referenciando o seu agir sobre uma situação determinada. (1981, 1987)

30
social, a sobrevivência da população pobre da cidade, o significado das políticas sociais
voltadas para esta população e, especialmente, repensar por onde correm os caminhos de
potencialidade crítica nas favelas.

31
3. Movendo-se no campo, traçados da pesquisa

A gente parte ao encontro dos desafios. Esforça-se para pegar os melhores mapas.
Faz os roteiros mais precisos. E começa a navegar, para dar conta do desconhecido. Mas,
tudo vai tomando novas dimensões e contornos. E aí, a gente se lembra de uma velha
observação de Thompson, que levamos na bagagem:

Nas margens do mapa, encontraremos sempre as fronteiras do desconhecido. O


que resta fazer é interrogar os silêncios reais, através do diálogo do
conhecimento. E, à medida que esses silêncios são penetrados, não cosemos
apenas um conceito novo ao pano velho, mas vemos ser necessário reordenar
todo o conjunto de conceitos (E.P.Thompson 1981: 185)

E aí a gente reordena.

Dando direção à pesquisa

Quando dei início a esta pesquisa, a idéia inicial era estudar o trabalhador social,
atingindo um universo mais amplo destes agentes sociais, de forma a caracterizá-lo, e
também seu processo de trabalho. Parecia-me então que antes de empreender qualquer
aventura num campo quase inexplorado, era preciso mapeá-lo, fazendo uma aproximação
que priorizasse a produção de dados a respeito destes trabalhadores e a busca de uma
lógica explicativa para seu processo de trabalho.
Porém, não demorou muito para que eu optasse por uma abordagem que
restringisse o universo de trabalhadores atingidos, mas pudesse conferir mais profundidade
na abordagem. Isso porque concluía que meu objetivo maior não era dar conta de um
amplo e diversificado leque de trabalhadores sociais. Era enfrentar com uma reflexão
teórica os desafios que encontrava no âmbito das experiências que vinha acompanhando
em algumas favelas, dar respostas particularmente às questões que apareciam no trabalho
de formação que vinha desenvolvendo junto a trabalhadores sociais. Sabia então que os

32
agentes sociais com os quais tivera, e tinha, contato, configuravam apenas uma fatia deste
universo de trabalhadores. Mas um pedaço que, como eles gostam de afirmar, constituem
“referência” no terreno do trabalho social.
Estes trabalhadores têm uma base de atuação nas favelas onde trabalham, mas
circulam por vários espaços do mundo social, o que lhes dá um perfil particular. Interessa-
me enfatizar a experiência destes agentes, não porque os conceba como padrão de
trabalhador social, mas porque eles, como já afirmei anteriormente, estão situados em
pontos onde as estruturas sociais “estão em ação” (Bourdieu 1997). Através da sua
experiência de trabalho é possível então ter acesso a algumas das principais contradições
que se inscrevem no campo do trabalho social, e em nossa sociedade de forma geral. Para
além disso, a opção por enfocá-los relaciona-se à perspectiva de abrir um caminho que
concorra para dar visibilidade ao que eles vêm fazendo.
Daqui, surge então um primeiro recorte desta pesquisa. Ela aborda
fundamentalmente a experiência de trabalhadores sociais que tem uma posição específica
no terreno do trabalho social, mantendo canais diferenciados de interlocução com
diferentes agentes sociais: desde aqueles “nascidos e criados” na favela como associações
de moradores e grupos locais; passando pelos que desenvolvem intervenções nas favelas,
mas a organização está situada fora das localidades, como igrejas, algumas ONG´s e
programas de intervenção públicos; até agências governamentais ou não governamentais
que estão em diálogo com estes agentes mas que não desenvolvem atividades nas favelas.
Depois deste primeiro recorte, o segundo momento de definição nesta pesquisa foi
a construção da noção de fronteira. Quando dei início a pesquisa, já concebia a perspectiva
de que havia um “terreno do trabalho social”, que apresentava uma conformação particular.
Também acolhia a idéia de me aproximar do conceito de campo de Bourdieu, para
compreendê-lo, avaliando que ele respondia o que vislumbrava neste terreno, ou seja,
diferentes agentes sociais em disputa, e tecendo alianças. Porém, ainda estava incerta
quanto à possibilidade de abordar o trabalhador social, considerando sua inserção dentro
do que então chamava “terreno”. A definição deste caminho só me veio quando passei por
uma situação que reforçou minha perspectiva: conversando com alguns trabalhadores
sociais, percebi os impasses que experimentavam, procurando entender os encontros e
desencontros entre diferentes agentes sociais no âmbito de um movimento do qual eles
faziam parte; o principal desafio era compreender as razões de determinadas alianças, e de
outras tantas disputas, opondo agentes que deveriam estar do mesmo lado da “linha”;

33
recorri então ao conceito de Bourdieu, usando a metáfora do terreno e de vários tipos de
vegetação nele presentes, algumas crescendo e fazem sombras em outras; de alguma
forma, a metáfora funcionou, pois a conversa ampliou-se, com um leque variado de
“pontes” entre o que eu tinha falado e aquilo que buscávamos entender.
A experiência foi tão interessante para ambas partes que, depois daquilo, eu passei
a fazer uso da idéia para conversar com vários outros trabalhadores sociais e técnicos com
os quais estava em diálogo, e os trabalhadores, por um bom tempo, referiam-se à Bourdieu.
Era uma “virada” da espiral. Pensando o terreno como fronteira, passei a querer
me aprofundar mais no tema. Mas aí reside o problema: quando a gente caminha em
espiral, o desafio maior são as viradas. São momentos em que, dependendo do passo que se
dá, você segue em espiral ou acaba é caminhando em círculos, correndo o risco de parar.
De certa forma, foi o que ocorreu num momento do percurso desta pesquisa, quando me
estacionei “apaixonadamente” na virada. Cheguei a me deixar seduzir pela perspectiva de
mergulhar no complexo terreno de fronteira. Ir lá atrás, dialogar com a história, recuperar
as muitas tramas que teceram este terreno. Pensando em, depois, aterrisar no presente e
dialogar com a sociologia de Bourdieu e avançar em sua abordagem teórica metodológica,
indo ao encontro de seus “espaços de ponto de vista” (1997). Para então decifrar a
fronteira através dos “espaços de ponto de vista”.
No entanto, de alguma forma a lembrança das palavras de Joana, citadas no início
do texto, me alertaram: “se pararmos, nós morreremos”. Os diálogos com o Profo
Gaudêncio Frigotto, orientador, e Monica Peregrino, amiga de doutoramento, e de projetos
de trabalho, também foram fundamentais. Avaliei que mergulhando na fronteira eu corria
o risco de morrer, me afastando do meu interesse maior: analisar o processo de trabalho
dos trabalhadores sociais, com todos as perdas e conquistas que este processo vem
implicando; refletir sobre suas relações com outros agentes sociais e particularmente seu
papel dentro da correlação de forças na fronteira; buscar o sentido de suas ações,
procurando decifrar para onde a espiral está indo.
Neste momento me dei conta, especialmente, que a fronteira se coloca como uma
questão fundamental, mas como o espaço onde estes agentes estão localizados. De certa
forma, como ocorreu com o conceito de campo de Bourdieu, a fronteira aqui se colocou
como uma forma de dar direção à pesquisa, indicando o recorte metodológico que usei
para enfrentar o tema trabalhado, um recorte que permite pensar o processo de trabalho dos
agentes sociais em questão dentro de um espaço de mediação, que não o reduza aos

34
processos de inclusão precária, nem às tramas locais da favela. Como já afirmei antes, um
recorte que torne possível conceber a particularidade do que vêm fazendo estes agentes,
indo na contramão de uma perspectiva que os amarre aos processos de exclusão ou
inclusão precária, ou a uma espécie de “cooptação” pelo poder público, ou então, numa
dimensão heróica, a mais uma forma de “militância comunitária”.
Tendo delimitado meu interesse na fronteira, defrontei-me então com minha última
e, talvez, mais difícil virada. Uma virada que colocou em questão duas velhas perguntas de
um pesquisador: para quê e como pesquisar quando se trabalha com o humano?
Ela relacionou-se fundamentalmente com a perspectiva de trabalhar com os
“espaços de ponto de vista”, indicado por Bourdieu. Ou seja, desvendar a experiência de
trabalho dos trabalhadores sociais, seus “segredos” e os sentidos que estão atribuindo a
suas ações e relações, considerando aqui os distintos pontos de vistas dos trabalhadores
sociais. A imagem de uma colcha de retalhos, sugerida por Valda, uma das trabalhadoras
que acompanhei, me pareceu então sugestiva.

Uma colcha de retalhos


bonitos e bem escolhidos,
assim se faz a lembrança dos sonhos
que se sonhou.
A vida traça os caminhos
por onde andam os mortais,
cada um no seu destino,
que nem sempre é igual

Ao falar da poesia Colcha de Retalhos, que ela apresentara por ocasião de um


evento que participara em Belo Horizonte, Valda destacara o fato de que a colcha era
preferível à rede, porque é feita de retalhos que não são iguais. “A colcha de retalhos é a
união de pedaços diferentes”, disse ela. A idéia da colcha de retalhos, não me era estranha.
Há alguns anos, inspirada pelo nome e a idéia de um filme que havia assistido, havia
recorrido ao termo, junto com Ruth Barros, uma educadora que acompanho o trabalho, a
fim de elaborar um projeto voltado para mulheres de favelas e suas memórias.
Pensei então na perspectiva de construir uma abordagem que conhecesse e
interpretasse o processo de trabalho em questão considerando os traçados de trabalho dos
trabalhadores sociais, em suas diferenças de “retalhos”, mas também levantando “o fio que
une os retalhos”.

35
O impasse foi se constituindo, conforme ia percebendo as implicações da tarefa em
termos das relações que mantinha com vários trabalhadores sociais, e das relações entre
eles. Isso porque os distintos pontos de vista são também pontos de conflito, implicam em
distintos lugares assumidos na fronteira, em momentos que assumem particular
significado para estes trabalhadores. Ainda que a reflexão sobre estas distinções fosse
importante na pesquisa, acabei por não enfatizá-las, abrindo mão então da abordagem a
partir dos diferentes espaços de “ponto de vista”. De certa forma, mais do que uma virada
teórico-metodológica, foi uma virada profissional, no caso de educadora que investe na
pesquisa como forma de melhor enfrentar os desafios da educação. Neste momento, o
desafio maior é, sem dúvida, apostar na visibilidade destes agentes sociais, cujo trabalho
assume ares, ora de militância política, ora de vocação ou missionarismo. Se este é um
trabalho quase desconhecido enquanto trabalho, trata-se, sobretudo, de começar a
desvendá-lo.

As formas de abordagem e a elaboração

Considerando os recortes acima levantados, no processo de pesquisa defrontei-me


fundamentalmente com dois caminhos.
Um deles, consistiu na revisão bibliográfica que me possibilitou um
aprofundamento em minhas ferramentas de análise: o desencontro e a fronteira. Como a
história é minha “cachaça”, acabei optando por um eixo de reflexão que permitiu uma
aproximação histórica com estas ferramentas.
Em relação ao desencontro, procurei levantar os elementos fundamentais que
permitiram a tessitura histórica do desencontro em nossa sociedade, e identificar a
particularidade que ele assume em nossos tempos atuais, ou seja, a intenção era ir ao
encontro do que permanece e do que vem mudando no âmbito deste movimento que faz o
econômico avançar em relação ao social.
Quanto à fronteira, a perspectiva era também recorrer a um eixo histórico. Mas
aqui o fiz movida ainda por outras razões. A necessidade de buscar os registros históricos
que se instauraram neste terreno desde sua emergência e nos primeiros momentos de sua
constituição, e permaneceram na fronteira sob a forma de representações que alimentam as
ações dos agentes sociais que hoje nela se encontram. Aqui enfrentei algumas dificuldades.
Isso porque recuperar relativos à história da fronteira me levou ao encontro da história das

36
intervenções governamentais nas favelas. Para não me deixar aprisionar por uma
perspectiva que conceba historicamente a fronteira, a partir apenas da ação do Estado,
precisei recorrer a outras fontes. E aqui precisei unir pedaços, análises e informações
levantadas na bibliografia sobre a intervenção social nas favelas e dados resultantes de
trabalhos relativos à memórias das favelas, que vêm sendo desenvolvidos nos últimos anos.
Aproximação histórica com a fronteira, história das intervenções governamentais, e
memória das favelas são questões que apresentam diferenças substanciais, mas que correm
o risco de serem misturadas. Procurei enfrentar o risco, tecendo a aproximação histórica a
partir da reunião de fragmentos, tendo sempre como eixo a busca de registros que ainda
alimentam hoje este pedaço do mundo social.
O outro caminho refere-se ao trabalho empreendido em campo, de forma a
enfrentar o tema central da pesquisa, o processo de trabalho dos trabalhadores sociais.
Como não é preciso inventar a roda, procurei, num primeiro momento,
potencializar todas as experiências que já havia realizado, e que diziam respeito ao tema.
Revi textos, levantamentos e dados de pesquisas e trabalhos realizados juntos a
trabalhadores sociais em favela, reencontrando inclusive o material que havia coletado
junto ao Sementinha Serviços Comunitários, grupo ao qual já me referi anteriormente.
Todo este material foi reaproveitado no sentido de mapear algumas questões
iniciais de pesquisa e, posteriormente, no momento de análise, recorri a alguns deles a fim
de redimensionar algumas reflexões.
Mas como já afirmei, optei por desenvolver a pesquisa fundamentalmente junto aos
trabalhadores sociais que já vinha acompanhando, recorrendo a grupos focais, entrevistas
longas individuais e, sobretudo procurando observá-los em ação.
Os grupos focais foram realizados junto a trabalhadores sociais de um grupo que
venho acompanhando há vários anos. Sobre alguns destes agentes, falo em um dos
capítulos da terceira parte. Os roteiros foram preparados considerando a necessidade de
apreender os participantes em relação, mas em alguns momentos acabei por abrir mão do
que havia “roteirizado” pois a dinâmica do grupo em relação, trazendo temas inesperados,
se revelou mais interessante, e potente, do que meus roteiros. Isso me pareceu um sinal de
que havia ainda muito a conhecer sobre os trabalhadores sociais e que precisava seguir os
indícios por eles trazidos.
As dificuldades de realização das entrevistas foram maiores do que eu previa:
compatibilização de horários já que a agenda dos trabalhadores sociais que acompanhava é

37
sempre muito cheia; imprevistos que nos levavam a desmarcar as entrevistas; e dificuldade
de criar um ambiente favorável a entrevista longa pois, na maior parte das vezes, precisava
acessá-los em suas “bases” de trabalho, o que concorria para interrupções freqüentes.
Agrega-se a isso, problemas técnicos, próprios da era da informática e de uma
pesquisadora pouco previdente, que me fizeram perder duas entrevistas para o “buraco
negro” do Windows e outra para o chiado do gravador.
Em função de minha inserção em projetos dos quais eles participam, ao longo dos
quatro anos, pude acompanhar ainda a experiência de vida e trabalho de alguns destes
trabalhadores sociais. A proximidade entre pesquisador e pesquisado revelou-se um
desafio, muitas vezes experimentado como impasse para mim, como já afirmei pouco
acima ao referir-me a minha desistência de trabalhar com “espaços de ponto de vista”. Por
outro lado, tive a oportunidade de vê-los o tempo todo em relação com os moradores das
favelas onde trabalham, com outros trabalhadores sociais, com agentes de grupos e
instituições locais, e de instituições supralocais. Penso que este foi um caminho
enriquecedor que concorreu para eu ir construindo uma visão mais ampla do que eles vêm
fazendo, pois não precisei me orientar apenas pelos depoimentos que eles me davam.
Neste caminho de segui-los, pude vê-los construindo iniciativas, projetos nas
localidades onde vivem, ou buscando atingir várias favelas. Revelava-se então sob meu
olhar várias dimensões do trabalho destes agentes: os via procurando redigir projetos, fazer
relatórios, discutir impasses dentro dos grupos que levavam a frente às iniciativas, atuar
como gestores, enfim, um número variado de papéis.
Outras passagens ricas do percurso relacionam-se ao acompanhamento de
experiências de formação destes agentes. Destaco duas destas passagens. A primeira, o
curso oferecido a trabalhadores sociais que desenvolvem um projeto de memória das
favelas, mas do qual participaram outros trabalhadores que tinham interesse pelo tema. No
curso, pude não apenas presenciar discussões destes agentes a respeito de temas
fundamentais à pesquisa, tais como sua relação com os moradores das localidades onde
vivem e a ação do poder público nas favelas, mas também perceber como eles se
apropriam de conceitos e noções construídos pelo pensamento acadêmico, trazendo-os para
sua realidade. Reforcei, ainda, algo que já havia percebido: a fome de novos saberes por
parte destes trabalhadores.
O outro momento desenvolveu-se ao longo de um grupo de estudos que realizei
junto a alguns trabalhadores sociais, respondendo a demanda de alguns deles. O grupo foi

38
realizado ao longo de quatro meses, e a proposta inicial era contemplar num primeiro
momento três temas: as favelas no espaço da cidade; ações sociais e políticas públicas nas
favelas: conflito social e intervenção nas áreas populares; movimento e organização
comunitária: resistência, experiências coletivas nas favelas e ação política. A experiência
defrontou-se com um impasse vivido pelos trabalhadores sociais, que Rosa, uma das
participantes, bem resume aqui, ao refletir em um dos encontros, quando discutíamos a
possibilidade de interromper o grupo de estudos:

Qualquer segmento, qualquer coisa que a gente pára o grupo, para estar
discutindo, se atualizando, se capacitando é com dificuldade mesmo. Eu ainda
não vi nada que foi facilidade. É assim mesmo.

E uma coisa que eu vejo, mesmo com dificuldade, nem todos podem vir, tem
dias que não pode vir, a gente não pode parar; eu já vi vários segmentos, coisas
boas acontecendo, principalmente aqui na região, e quando parou quem saiu
perdeu fomos nós próprios.

Qualquer lugar que reúna um grupo para discutir um assunto que vai ser
melhor pra gente, tem que toda dificuldade continuar. Vai ter dia aqui vai ter
dois. Vai ter dias que está três. Vai ter dias que vai estar todo mundo. Eu acho
que aqui tem poucas pessoas. Podia ter mais pessoas.

A agenda sempre cheia dos trabalhadores, que levava a uma freqüência irregular
por parte de cada um, e minha necessidade de potencializar mais meu tempo a fim de
avançar na pesquisa, acabou conduzir à decisão de suspender o grupo.
Por fim, pude viver uma das experiências mais marcantes dos traçados da pesquisa,
num momento em que encontrava-me particularmente desanimada com ela, e com minha
vida profissional, de forma geral. No ano de 2003, em função de um projeto ao qual todos
nós estávamos integrados, acompanhei alguns destes trabalhadores, ao Fórum Social
Brasileiro, realizado em Belo Horizonte. De certa forma, a experiência não contribuiu tanto
para coleta de dados. Concorreu sobretudo, para uma renovação de forças que, se perdidas,
não me trariam até aqui. Vê-los em movimento num espaço de múltiplas faces e registros,

39
apresentando seus trabalhos, interlocutando com agentes sociais diferenciados, circulando
entre tendas, palestras, táxis, igrejas, mesas de restaurante e corredores de hotel, me fez
atentar para o fato de que eles definitivamente haviam ultrapassado fronteiras, e que se
localizam num espaço bem particular da fronteira. E que o desencontro assumia um
sentido diferente em suas vidas. Eles não eram presas do desencontro, eles o enfrentavam,
com as armas que dispunham e com outras, que buscavam encontrar.
É preciso escolher as armas para enfrentar o desencontro. Muitas vezes, não saber
escolhê-las é abrir caminho para fazer crescer a prisão. Este, aliás, foi um dos motivos por
ter me esforçado para ser cuidadosa no momento da redação do trabalho. A meu impasse
principal era como trabalhar dados que ouvi de cada um, de todos em conversas, e das
informações que eram fornecidas, às vezes, num bate papo que eles sabiam que não iria
transpor muros? Como não expor os trabalhadores sociais, e outros agentes sociais? Dar
visibilidade ao processo que eles experimentam, e autoria a suas falas, me parecia uma
questão fundamental. E sei também que para eles tanto a visibilidade quanto a autoria é
uma dimensão importante do que fazem. Além disso, todos desenvolvem atividades em
espaços coletivos, lutam pela abertura do espaço de debate público, pela visibilidade de
informações. Porém, há a espinhosa questão da inserção precária nos projetos. E o
fantasma da demissão pairando sob a cabeça de alguns deles, sem que precisem fazer
qualquer esforço para serem dispensados.
Com isso, optei, em várias passagens, por não identificar muitos depoimentos que
foram dados pelos trabalhadores sociais do grupo com o qual trabalhei, e por outros,
também de outras regiões do município com os quais tinha contato ou que passei a
conhecer ao longo da pesquisa. Enquanto ia redigindo, pensava que todo este anonimato
dava um tom meio “impressionista” àquilo que foi cuidadosamente trabalhado. E pensava,
alertada por minha amiga Mônica Peregrino, o quanto era revoltante que suas reflexões não
pudessem ter autoria. A invisibilidade que muitos deles têm dentro dos programas nos
quais atuam - bem traduzida no fato de que os sites dos programas não possuem um link
que se refira as suas ações e sequer dizem quantos agentes cada programa possui -, se
reflete aqui, a despeito do esforço de torná-los visíveis.
Por fim, gostaria de destacar que o trabalho, particularmente a última parte, tem um
tom de ensaio. Por algumas razões. Primeiro, considerando o fato de que busquei um tema
pouco explorado, com o objetivo de indicar algumas questões e abrir um caminho para que
eu, e outros tantos, possam posteriormente adentrar por este caminho. Mais

40
particularmente, levantar uma discussão a respeito do fazer destes trabalhadores sociais,
do que está aí se constituindo. Segundo, as reflexões foram realizadas, com as armas que
eu dispunha, desenvolvendo a pesquisa no âmbito de experiências educativas e de
avaliação de projetos junto a grupos particulares de trabalhadores sociais, o que lhe confere
um certo limite de abrangência, pelo menos relativo ao perfil dos trabalhadores sociais e
suas representações. As visões e experiências trazidas por mim não podem ser
generalizadas, sem deixar de considerar o fato de que os pesquisados configuram uma fatia
particular deste universo de trabalhadores sociais. A maioria dos agentes que “falam” neste
trabalho ocupam uma posição diferencial na fronteira , não apenas porque estão em
intercâmbio com estruturas supralocais e circulam por outros espaços. Penso que,
atualmente, todos que trabalham neste ofício o fazem. Porém, o fazem de forma pontual,
setorizada, tal como funcionam os projetos nos quais trabalham. A questão é que os
trabalhadores sociais “aqui presentes” tecem intercâmbios e circulam de forma sistemática,
ultrapassando fronteiras, unindo elos e criando experiências. E aí que buscam o substrato
de seu trabalho, redimensionando-o.

Desafios no campo

Por várias razões este foi um trabalho que exigiu a recorrente repetição: é espiral...,
não se volta ao ponto de partida! Falar de cada uma destas razões implicaria vários ensaios.
Acadêmico, profissional, social, político, existencial... Falo do que aqui cabe, e que
implicou numa constante reelaboração dos caminhos de abordagem.
A pesquisa desenvolveu-se num momento da história do país, e também do Estado
do Rio de Janeiro e da cidade, particularmente frustrante para quem vive de apostar em
utopias e na humanização da vida. Num momento assim, não é difícil deslizar para o
pessimismo, quem sabe o fatalismo, e acabar por mergulhar no imobilismo que esteve
além de nossa imaginação há algumas décadas. Mas há algo que a história nos lembra, isso
não é pior do que afundar nas ilusões de uma promessa que não se cumpriu. Francisco de
Oliveira, ao recuperar Gramsci, nos lembra uma velha lição: “ Gramsci, aconselhava a, nas
crises, afiar, o ‘pessimismo da razão’, para ajudar ao ‘otimismo da vontade’, que só pode
surgir da práxis das classes dominadas para responderem e derrotarem esse Holocausto
sem (?) câmaras de gás”. (1998: 221) Procurei seguir a velha lição, “afiar”, “ajudar”.... nos

41
momentos em que as imagens da “crise” assumiam proporções meio fantasmagóricas em
meu horizonte.
A lembrança revê....uma destas imagens surgiu tão logo elaborei o projeto de
pesquisa. Recupera uma história já aqui relatada. Enquanto me iniciava na aventura de
doutorar-me, chegava aos meus ouvidos a notícia de que os agentes comunitários
contratadas pela Secretaria de Habitação do Município do Rio de Janeiro, alguns dos quais
eu já havia feito contato, haviam sido demitidos. Aconteceu o que eles temiam, concluí. Os
“objetos” da pesquisa estão sendo extintos, concluí também! O fato que, para eles e outras
pessoas, virou drama pessoal, para mim virou problema de pesquisa. Isso dá o que pensar!
Precisei experimentar o duplo caminho de interpretar a situação enquanto educadora que
acompanha o dia a dia dos trabalhadores sociais em algumas favelas, e com eles dialoga, e
como pesquisadora, que se dedica a investigar todo o processo.
Imagens como esta, dando o que pensar, se repetiram ao longo de todo o caminho.
Freqüentemente, deparei-me com experiências meio dramáticas destas pessoas que
trabalham percorrendo as favelas, e acompanham cotidianamente vidas suspensas por um
fio, defrontando-se com a falta de resposta aos problemas que encontram, e vez por outra
são quase que esmagadas pelo “trator” de uma medida do poder público, ou uma ação da
polícia e do tráfico de drogas.
Acompanhei algumas pessoas sentirem o peso desta espécie de “esmagamento”,
com seus corpos falando, principalmente através da hipertensão e problemas de coluna.
Em várias ocasiões, fui encontrá-las disposta a entrevistá-las ou acompanhar um trabalho
por elas realizado, mas tudo que podia fazer era ouvi-las. Minha agenda de pesquisa era
também “esmagada”.
Possivelmente este foi um dos principais desafios metodológicos que precisei
enfrentar, integrante de um campo maior de questões, comuns ao desenvolvimento de
pesquisas junto a “objetos” que também são sujeitos. Desafio que se torna ainda mais
complexo quando tais sujeitos passam a viver por um fio, trabalhando junto a pessoas que
se encontram com as vidas suspensas, pelo mesmo fio que esgarçando-se cada vez mais,
mais separa do que une. Desafio que se torna particularmente inquietante quando tudo isso
diz respeito ao nosso campo de ação profissional como educadora, e nos cabe também dar
respostas.
Pesquisar no campo de ação profissional....este foi o outro grande desafio deste
trabalho. Primeiro, difícil conciliar o tempo de ação do trabalho como educadora em

42
ONG´s com o tempo de ação como pesquisadora. Os impasses cotidianos das atividades
em ONG´s, e, especialmente, o fato destes impasses envolverem o trabalho de um conjunto
de pessoas, vão nos tragando. A urgência nos precipita a todo instante, tornando o tempo
de ação, tempo de decisão. Decisão é precisão, ainda que depois seja necessário ajustar o
impreciso.
Com a pesquisa, sabemos, acontece o inverso. Cada desafio exige a elaboração,
investigando cada beco, em busca de respostas. O tempo de ação é tempo de mastigação,
de um certo saboreamento das coisas que vamos encontrando pelo caminho: pistas,
respostas, mais perguntas...Com isso é difícil o tempo lento de pesquisa não acabar
subordinando-se ao ritmo das precipitações requeridas no outro ofício.
Hoje, perguntando-me como lidei com isso, digo que não foi possível dar uma
resposta a esta contradição, de divisão do trabalho. Por vezes, simplesmente deixei-me
levar, pelo tempo, digamos, imperioso das atividades em projetos das ONG´s. Outras
vezes, procurei compatibilizar meus vários tempos, minhas várias faces, abrindo mão, ora
de um papel, ora de outro, o que me fez ter a sensação de que me tornava um ambiente
Windows, com várias janelas, a serem abertas e fechadas. É claro que isso, em diversos
momentos, me levou a travar e experimentar o recorrente risco de pifar. “Não sois
máquinas, homens és que sois”, já dizia Chaplin em seu Último Discurso de O Grande
Ditador. E tampouco meus ofícios eram janelas a serem abertas e fechadas com um
simples toque de mouse, pensava eu, sabendo que a resposta “objetiva” não era
necessariamente aquela que me daria maior objetividade no desafio enfrentado.
Estes desafios metodológicos, surgidos a cada instante do trabalho, absorveram boa
parte de minhas reflexões ao longo da pesquisa. Investigando o trabalho do outro, passei a
revisitar o meu, refletindo sobre as tramas deste ofício que é ser educadora e procurar
produzir conhecimento na encruzilhada de muitos saberes e experiências, meus e de outros.
Saberes e experiências produzidos em espaços diferenciados, desiguais, sob lógicas
diversas. Muitas vezes contrapostos e privados da possibilidade de se encontrarem.
Em várias ocasiões, em tal reflexão, busquei inspiração nas próprias pessoas que
pesquisava, trabalhadores sociais que tentam equilibrar seu tempo exercendo várias
atividades, encarnando uma multiplicidade de papéis. Com eles aprendi que não é possível
dar respostas a uma contradição, que exige muito mais do que o esforço de cada um. Mas
que é possível enfrentar o conflito, traficando conhecimentos e experiências de um ofício
para outro, de forma potencializá-los. E assim, me esforcei para ser um pouco pesquisadora

43
quando estava em ação, em meu outro ofício. E para abrigar um tanto do ritmo das
precipitações, requerido nas várias atividades junto a projetos sociais nas favelas do Rio de
Janeiro, quando desenvolvia a pesquisa.
Enfim, de algum modo precisei reinventar todo o meu trabalho, como educadora e
pesquisadora. E, com isso, acabei por repensar a pesquisa, no campo onde atuo, junto a
grupos populares. Reforcei minha antiga percepção da pesquisa como produção
compartilhada de conhecimento, fundamental ao campo educativo.
Nesta pesquisa, mais do que nunca descobri o sentido do inacabado e do
imponderável quando se trata de desvendar segredos do humano e do social. O movimento
não está apenas inscrito no histórico-social, ele se coloca o tempo todo na relação do
pesquisador-pesquisado. Em alguns momentos, foi colocando meu roteiro de pesquisa de
lado, e deixando me surpreender pelo movimento dos entrevistados, ou dos participantes
de grupos focais, que pude ter acesso ao inesperado, que acabou se revelando fundamental
na compreensão do processo de trabalho dos agentes sociais enfocados. Foi assim que
descobri o quanto o rememorar em conjunto cumpre um papel fundamental no trabalho
destes agentes. Foi assim que pude identificar o leque de referências que acumulam, e
exploram, de forma a dar visibilidade e afirmar sua posição na fronteira.
Aprendi que, na entrevista, a pesquisa encontra uma dimensão de intervenção que
não pode ser ignorada. Reforçava então uma idéia que eu e Rosely de Oliveira, então
colega de trabalho, já havíamos discutido e que eu havia levantado por ocasião de uma
pesquisa desenvolvida no CEPEL, inspirada por uma reflexão de Bourdieu 22 :

(...) certos pesquisados, sobretudo entre os mais carentes, parecem aproveitar


essa situação como uma ocasião excepcional que lhes é oferecida para
testemunhar, se fazer ouvir, levar sua experiência da vida privada para a esfera
pública; uma ocasião também de se explicar, no sentido mais completo do
termo, isto é, de construir seu próprio ponto de vista sobre eles mesmos e sobre
o mundo, e manifestar o ponto, no interior desse mundo, a partir do qual eles se
vêem a si mesmos e o mundo, e se tornam compreensíveis, justificados, e para
eles mesmos em primeiro lugar (1997: 704)

22 A pesquisa em questão, já referida voltava-se para o levantamento das iniciativas sociais da região da
Leopoldina, mas existia então um eixo da pesquisa que procurava analisar mais particularmente as ações
promovidas por instituições e grupos religiosos. Na época, a leitura de Bordieu, me inspirou a refletir sobre a
importância do testemunho no ritual das igrejas evangélicas.

44
O autor lembrava então que, longe de serem “instrumentos nas mãos do
pesquisador”, os pesquisados “conduzem de alguma maneira a entrevista e a densidade e a
intensidade de seu discurso”.
Foi no exercício da investigação junto às trabalhadores sociais que dei contorno à
idéia de que o papel mediador do pesquisador na entrevista podia abrir espaço para que
nela se configurasse uma ação do pesquisado, que trazia desdobramentos para ele. Foi
colhendo depoimentos junto aos trabalhadores sociais, os levando a rememorar suas
vidas, que os vi elaborar reflexões a respeito de seu trabalho e os conflitos que ele
envolve, e mesmo repensar sua posição no campo da fronteira. Depois, acompanhando
suas ações e, especialmente, participação em encontros com outros agentes sociais, pude
perceber que agiam movidos por um novo olhar.
A condução do pesquisado em relação à entrevista não se esgota no ato desta
última. Vai além. A este respeito, achei interessante também o fato de que um dos
trabalhadores sociais, cujas atividades eu acompanhei, me pediu a cópia do depoimento
que ele me deu a respeito de seu percurso.
O mesmo trabalhador, me indicou algo que já havia percebido em outras ocasiões.
Conversando com ele a respeito das análises que vinha fazendo, e colocando minha visão
de que eles eram uma fatia do universo de trabalhadores sociais, ele observou: a maioria
dos agentes não sabe o capital simbólico que acumula. A apropriação que fazia do
conceito, sobre o qual eu falara quando encontrara alguns deles, me mostrou novamente a
forma como eles buscam armas para se mover na fronteira e afirmar suas posições.
Indicou-me também a importância de dividir a trajetória da pesquisa com eles, e o
significado que eles davam ao fato.
Penso em tudo que foi dito acima como sinais de deslocamento na relação entre
pesquisador e pesquisado. Sinais que nos fazem refletir sobre antigas questões, como a
delicada questão do uso dos depoimentos do entrevistado, e novos caminhos, que indicam
a complexidade inscrita no ato da entrevista, em outros instrumentos, e em seus
desdobramentos.
Enfim, tive a certeza de que, muitas vezes, é no meio do caminho que encontramos
algumas respostas que buscamos, fundamentais a pesquisa. Em alguns momentos, foi me
subordinando ao ritmo das precipitações, exercendo o papel de educadora, que descobri
algumas pistas para este trabalho. Foi mediando impasses, e mesmo conflitos, entre
educadoras com as quais trabalhava, que me defrontei com as diferenças entre elas, e do

45
trabalho que desenvolviam, revendo a imagem homogeneizadora que até então eu
cultivava a respeito da questão. Em outros momentos, foi abrindo mão de minha agenda de
investigação que avancei na compreensão da experiência de trabalho dos agentes sociais
pesquisados. Com freqüência, nestes momentos, pude ouvir das pessoas que desistia de
entrevistar, o que sequer passava pelo meu horizonte de inquietação. Foi assim que
descobri algumas das dores, subjetivas e físicas, produzidas pelo trabalho destas pessoas.
Dores que não encontram-se no campo das dificuldades ou obstáculos ao trabalho, sobre as
quais todos os educadores falam. São subterrâneas, vindo à tona em momentos que
envolvem situações de conflitos, injustiças, que pude acompanhar. Alguns dos
depoimentos que ouvi nestas ocasiões ampliaram minha compreensão a respeito do
trabalho que estas pessoas exercem. Mas, não raramente, eles não puderam ser
incorporados à pesquisa, sob a forma de “dados”. Desabafos quase sempre se recusam a ser
processados como “dados”.

46
Parte II

O Desencontro

A Fronteira

47
1. O Desencontro

(...) Deus arrependeu-se dos males que havia feito e


permitido, a um ponto tal que, num arrebato de contrição,
quis mudar seu nome para um outro mais humano. Falando
à multidão, anunciou: “A partir de hoje chamar-me-eis
Justiça. E a multidão respondeu-lhe: “Justiça, já nós a
temos, e não nos atende”. Disse Deus: “Sendo assim,
tomarei o nome de Direito”. E a multidão tornou a
responder-lhe: “Direito, já nos o temos, e não nos conhece”.
E Deus: “Nesse caso, ficarei com o nome de Caridade, que é
um nome bonito”. Disse a multidão: “Não necessitamos
caridade, o que queremos é uma justiça que se cumpra e um
direito que nos respeite”. Então, Deus compreendeu que
nunca tivera, verdadeiramente, no mundo que julgara seu, o
lugar de majestade que havia imaginado, que tudo fora,
afinal, uma ilusão, que também ele havia sido vítima de
enganos, como aqueles de que se estavam se queixando as
mulheres, os homens e as crianças e, humilhado, retirou-se
para a eternidade. A penúltima imagem que ainda viu foi a
de espingardas apontadas à multidão, o penúltimo som que
ainda ouviu foi do dos disparos, mas na última imagem já
havia corpos caídos sangrando, e o último som estava cheio
de gritos de lágrimas. (José Saramago- Prefácio ao livro
Terra)
Momento de ir buscar alguns elementos que nos ajudem a explicar o campo de ação
dos agentes sociais dos quais tratamos. E desenvolver uma interpretação dos
deslocamentos aí produzidos: aquele que se configura no sentido de empurrá-los para a
“condição subalterna de reprodutores mecânicos do sistema econômico”, e outro que vai
delineando a ação e a interpretação crítica dos chamados excluídos. Fazemos isso,
primeiro, identificando alguns processos que atravessam historicamente este campo de
ação. Depois, buscamos nos aproximar das suas contradições, nas formas de concretas de

48
vida e trabalho, tal como elas vêm se manifestando na realidade de algumas favelas do
município do Rio de Janeiro.
Começo lembrando Valda que disse bem assim “ o caráter da pobreza mudou.
Estamos cada vez mais pobres... (...) A maior pobreza é a falta de política social. O poder
público ensinou a todos sermos individualistas”. Disse-me ainda que foram erguidos
muros e portões de ferro em várias casas nas favelas. E afirmou que a maioria “não vê
aquela gente que está fazendo sua casa na rua”. Ela mora em numa das maiores favelas da
Tijuca, bairro zona norte do Rio de Janeiro e há longos anos atua em projetos voltados para
a prevenção de DST´s/AIDS na favela aonde mora, e em várias outros locais, inclusive no
chamado asfalto. Localiza-se num terreno que chamo de fronteira Daí, ela acompanha as
mudanças que acontecem nestas localidades e nas vidas de seus moradores. Daí, faz a
crítica às políticas sociais voltadas para este pedaço do espaço urbano.
Martins afirma que é preciso estar atento ao fato de que, mudando o nome de
pobreza para exclusão, podemos estar apenas escamoteando o fato de que a pobreza hoje,
mais do que mudar de nome, mudou de forma, de âmbito e de conseqüências. Estamos
longe do tempo em que pobre era quem não tinha apenas o que comer. (Martins 1997:18).
Ele fala da pobreza hoje e questiona a noção de exclusão. Ele atua também no terreno de
fronteira, em diálogo crítico com educadores populares, agentes de pastoral e animadores
de movimentos populares. Daí, ele acompanha o que chama de nova desigualdade e
procura interpretá-la. Daí, problematiza “a conceituação rotuladora que veste a realidade
fluida e conflitiva com a camisa de força dos enquadramentos preconcebidos para tentar
dar sentido ao que parece dele privado, a realidade pura dos pobres” (1997:7).
Recordo os dois ao seguir a primeira pista que aparece em meu horizonte de
pesquisa, ao refletir sobre o que vem acontecendo hoje, em nossa sociedade, e em
particular, nas favelas do Rio de Janeiro. Acumulamos pobrezas, antigas e novas...
Vejo que o trabalho dos moradores das favelas é um trabalho que confronta-se com
antigas e novas pobrezas. Eles sobrevivem em meio a elas. A velha conhecida pobreza
material, que se amplia no espaço, aumentando a precariedade das condições de vida da
população. Aquela que aponta a degradação dos serviços públicos e os limites, ou a falta
de políticas sociais, como bem disse Valda. Uma outra, que cresce junto com a violência,
e que, como lembra Kowarick, delimita os direitos civis, influenciando o cotidiano das
pessoas e afetando o cerne da cidadania civil. (1999: 140).

49
Estamos, pois diante de uma pobreza que evoca o enigma de uma sociedade que
não consegue traduzir direitos proclamados em parâmetros igualitários de ação (Telles
1999 :82). Uma pobreza que parece “se constituir num ponto cego que desafia teorias e
modelos conhecidos de explicação”:

Ponto cego instaurado no centro mesmo de um Brasil moderno, a pobreza


contemporânea arma um novo campo de questões ao transbordar dos lugares
nos quais esteve configurada “desde sempre”: nas franjas do mercado de
trabalho, no submundo da economia informal, nos confins do mundo rural,
num Nordeste de pesada tradição oligárquica, em tudo o mais, enfim, que
fornecia (e ainda fornece) as evidências da lógica excludente própria das
circunstâncias históricas que presidiram a entrada do país no mundo capitalista.
De fato, ao lado da persistência de uma pobreza de raízes seculares, a face
moderna da pobreza aparece registrada no empobrecimento dos trabalhadores
urbanos integrados nos centros dinâmicos da economia do país. (Telles 1999
:83)

A pobreza em suas várias faces é um tema inquietante, no sentido que mobiliza a


todos que procuram interpretar as mudanças no país e dialogam com as alternativas aí
colocadas. É especialmente um tema polêmico que envolve visões diferenciadas e
divergentes.
Para decifrar o “ponto cego” que nos desafia, muitos têm recorrido ao termo
“exclusão”. É ele o termo mais amplamente usado na atualidade para caracterizar os
processos que experimentamos nos anos recentes. Na última década, possivelmente foi
uma das palavras que mais marcaram as imagens produzidas e difundidas a respeito da
sociedade brasileira, e de outras do mundo capitalista. Há quem aposte em sua força
denunciadora . Quem a adote como um conceito de fundo, em torno do qual se organiza
uma parte do saber das ciências sociais, mas que aponte os cuidados que seu uso inspira. E
há quem a descarte, ressaltando o fato de ela referir-se a estados e não a processos, e sugira
ainda seus riscos despontencializadores. 23.

23 No primeiro caso, por exemplo, Aldaíza Sposati que lembra que a exclusão não é um fenômeno novo mas que possui uma forte presença no fim do

século XX, por razões outras, que não passam pela economia. Ela assume o caráter de um conceito/denúncia, da ruptura da noção de responsabilidade
social e pública construída a partir da Segunda Guerra e a quebra da universalidade da cidadania conquistada no Primeiro Mundo (1999). No segundo

50
A discussão teórica e metodológica em torno do tema é bastante rica 24 . E, como
lembra Virgínia Fontes, embora apareça como questão nova, própria da crise
contemporânea, o tema da exclusão contém uma história atrás de si e pode recobrir
fenômenos profundamente diversos (1997: 37)
Não é meu objetivo debruçar-me sobre a discussão teórica e metodológica acerca
do tema, e os conceitos e noções vizinhas. Dando atenção a Bourdieu, que nos diz que “a
linguagem exprime mais facilmente as coisas do que as relações, mais os estados do que os
processos” (1994), preferi seguir um caminho que me permita uma maior aproximação da
dinâmica histórica, que não exprima tanto estados, como processos. Daí, vou ao encontro
da historicidade dos processos subjacentes aos problemas que estão abrigados sob a noção
de exclusão, e que constituem o campo de ação dos que localizam-se na fronteira. 25

1.1. Raízes de um desencontro

Se compreendida como tema que indica um conjunto de contradições, experiências


e conflitos sociais presentes no mundo contemporâneo, a exclusão possui vida longa.
Muito do que temos visto por aqui, e que o pensamento europeu e mesmo norte-americano
começa a se familiarizar, sugere um dilema que atravessa a história das sociedades
capitalistas, marcadas pelo desencontro entre o econômico e o social, este atrasado em
relação a aquele. “O econômico anuncia possibilidades que a sociedade não realiza ou
realiza com atraso”, afirma José de Souza Martins, ao fazer uma leitura da obra de
Lefebvre (1996).

grupo, situamos o francês Serge Paugam que destaca o fato de a exclusão ser usada para designar realidades diferentes e ambíguas, levando, então, à
necessidade de agregar a ela outros conceitos, como o da desqualificação social, a partir do qual se pode examinar um feixe de dimensões que estão em
jogo quando se discute exclusão: trajetória, identidade e território(1999). No último caso, é possível situar Castel e José de Souza Martins. O primeiro
lembra que o uso da noção de exclusão leva ao risco de não se recuperarem trajetórias que permitem compreender rupturas em relação a
posicionamentos anteriores, caindo-se, então, na “armadilha” de “delimitar zonas de intervenção que podem dar lugar às atividades de reparação”
(1997). O segundo alerta para o fato de a “exclusão” estar se tornando uma coisa fixa e irremediável, que paira sobre nós
como uma fatalidade e adverte, sobretudo, que ao discutir exclusão se deixa “de discutir as formas pobres, insuficientes e, às vezes, até
indecentes de inclusão”(1997).
24
Para além das referências acima citadas, o livro de Sarah Escorel - Vidas ao Léu: Trajetórias de Exclusão
Social (1999) traz uma enriquecedora revisão e discussão a respeito da exclusão social, abordando também
outras categorias ligadas ao mesmo campo temático, como pobreza, underclass e marginalidade, e
veiculando as visões dos principais autores.
25
Parte das reflexões colocadas aqui resultam das discussões e do trabalho elaborado na disciplina Teoria e
Educação I do Programa de Pós Graduação em Educação da UFF/Niterói, em 2001 e deram origem ao
trabalho Movendo-se no desencontro: uma leitura sobre o campo de ação das classes populares em tempos
capitalistas , apresentado na Reunião Anual da ANPED, 2002.

51
Nos tempos de glória dos grandes centros capitalistas, o pensador francês já
apontava a subsistência da escassez e da antiga pobreza, e analisava a nova pobreza que se
instaurava nas sociedades de abundância. Uma reflexão que indicava o movimento
contraditório do capitalismo - que anuncia o reino da liberdade, com o avanço ilimitado
das possibilidades humanas na libertação de suas carências - mas que reproduz antigas
privações, criando ainda novas necessidades.

Essa imagem paradoxal sempre foi constitutiva do capitalismo. As imensas


conquistas em termos de capacidade produtiva e de meios econômicos e
tecnológicos jamais estiveram disponíveis, politicamente, para a generalização
de um possível bem-estar planetário. Adam Przeworski, aliás, interrogou-se
sobre a questão, buscando responder a uma pergunta de sua filha: por que, com
tantos meios técnicos, não se consegue eliminar a fome do planeta? Sua
conclusão extremamente pessimista indica os limites da intervenção política –
isto é, da democracia – nos processos econômicos. (Fontes 1997 : 43)

Podemos localizar, a partir desta imagem desencontrada e paradoxal, a exclusão


como um tema que indica processos e um conjunto dramas e conflitos sociais de um
mundo que anuncia, em seus meios e em suas conquistas, o reino da abundância, mas que
reproduz historicamente a escassez e todo tipo de privações.
“O problema da exclusão nasce com a sociedade capitalista”, afirma Martins. O
capitalismo traz como regra estruturante o desenraízamento e a exclusão. “ A sociedade
capitalista desenraíza, exclui, para incluir, incluir de outro modo, segundo suas próprias
regras, segundo sua própria lógica. O problema está justamente nesta inclusão”, adverte o
mesmo autor (1997 :32). Vale lembrar aqui a análise de Etienne Balibar, trazida por
Fontes (1997: 39):

ninguém pode ser excluído do mercado, simplesmente porque ninguém pode


dele sair, posto que o mercado é uma forma ou uma ‘formação social’ que não
comporta exterioridade. Dito de outra forma, quando alguém é expulso do
mercado, na realidade, funcionalmente ou não, ele é mantido em suas margens,
e suas margens estão sempre ainda em seu interior. Não seria o mercado essa
estrutura ou instituição social paradoxal, talvez sem precedentes na história,

52
que inclui sempre suas próprias ‘margens’ (e portanto seus próprios
‘marginais’) e que, finalmente, somente conhece exclusão interna? 26

A reinclusão no processo de mercantilização sob a lógica do capital se dá de forma


precária, num movimento através do qual a sociedade repõe antigas privações e produz
novas desigualdades. Diferentes formas de produção encontram-se entrelaçadas sob a
lógica da reprodução do capital, que forja o “moderno” mas recria também o “arcaico”,
dando-lhe lugar no processo de valorização. Ganha particular sentido aqui, a existência de
uma massa de trabalhadores submetidos a formas não capitalistas de produção. Se o
capitalismo se desenvolve, criando excedentes populacionais úteis, excluídos do processo
de trabalho e dos frutos da produção social, estes mesmos excedentes são incluídos no
processo de valorização, por meio de formas indiretas de subordinação ao capital. É
através deste movimento que o capitalismo reproduz-se, articulando tempos históricos
distintos, "uma recriação contínua de relações sociais arcaicas juntamente com a
progressiva criação de relações sociais cada vez mais modernas" (Martins 1989 :100).
Assim sendo, o "arcaico" é uma dimensão reatualizada e integrada ao capitalismo, tanto
quanto o "moderno", e não um resíduo, passível de ser eliminado com o avanço do
moderno. Como lembra Virgínia Fontes:

Independentemente da forma pela qual as populações passariam a conectar-se


ao mercado de trabalho- assalariamento, artesanato, serviços diversos,
empregos domésticos, informalidade ou ocupações extralegais (tráficos,
contrabandos) – passavam a fazer parte integralmente da generalização das
relações mercantis de cunho capitalista. (1997)

Mais do que apontar, então, um conjunto dramas e conflitos sociais do mundo


contemporâneo e um futuro de apartação social, a temática da exclusão nos coloca também
diante percursos e experiências sociais produzidas historicamente no seio da sociedade
capitalista e que são constitutivas de sua dinâmica. Desta forma, os dois mundos – aquele
que anuncia a libertação das carências, com base no avanço dos meios econômicos e da
26
Balibar, Etienne, “Exclusion ou lutte des classes?” In: Les frontières de la démocratie, Paris, La
Découverte, 1992 apud Fontes, Virgina. “ Capitalismo, Exclusões e Inclusão Forçada” In: Tempo, vol.2, n03,
Universidade Federal Fluminense/Departamento de História, Rio de Janeiro: Relume Dumará, junho de
1997. Os grifos são do autor francês.

53
capacidade produtiva, e o outro que aprisiona homens e mulheres, reproduzindo e criando
todo o tipo de privações em escala ampliada – não encontram-se separados. São faces da
mesma moeda, integradas sob a lógica do capitalismo, onde as forças produtivas se
desenvolvem mais rápido do que as relações sociais, onde a produção é social, mas a
apropriação dos resultados da produção é privada, como Marx já destacava no século XIX.
Uma contradição que, nos lembra José de Souza Martins, “anuncia o descompasso
histórico entre o progresso material e o progresso social” (1996).
Este descompasso evoca então o movimento de expropriação e exclusão do
trabalhador com sua inclusão posterior. Como avalia Virgínia Fontes, uma inclusão não
idílica, não resultante do desejo individual de cada trabalhador, ou inclusão forçada no
processo de mercantilização da vida social, que assegura a sobrevivência do próprio
sistema ao submeter e disciplinar a força de trabalho à sua existência (1997). Ou inclusão
de forma subordinada e precária, como sugere Martins (1997).
O descompasso, ainda, no âmbito do mesmo movimento histórico de
desenvolvimento do capitalismo, comporta realidades sociais desencontradas, mergulhadas
em tempos históricos distintos. Hobsbawm, fazendo um balanço do estado do mundo um
século depois da era das revoluções e percorrendo os processos que marcaram a segunda
metade do século XIX, nos chama atenção para o fato de que o mundo caminhava para
uma divisão. Em fins do século XIX, a despeito das disparidades entre as regiões ricas e
pobres, as diferenças entre elas eram, pelos padrões modernos, espantosamente mínimas e
não pareciam insuperáveis: “de, digamos, 1 a 1,8”, sendo que o produto nacional bruto per
capita nos países depois conhecidos como desenvolvidos era basicamente o mesmo que
nas outras regiões. Em 1880, usando-se os mesmo cálculos, a renda per capita dos
primeiros era cerca do dobro dos países mais pobres e em 1913, se tornaria mais do que o
triplo, aumentando, a partir daí, numa escala crescente. No entanto, sobreposta à imagem
de um globo dividido, com dois universos separados por um abismo, encontramos também
um mundo “genuinamente global”, cada vez mais estreitamente “ligado pelos laços de
deslocamento de bens e pessoas, de capital e comunicações, de produtos materiais e idéias”
(1988: 31).
Tal sobreposição de imagens, que evoca o desencontro de realidades num mundo
unido pelos laços aos quais Hobsbawm se refere, só pode ser compreendida a partir do
movimento histórico que destacamos e que marca a expansão planetária do capitalismo. A
este respeito, é a partir da chamada segunda revolução industrial, do processo de

54
concentração econômica e da consolidação de uma economia global única, sustentada
politicamente com a formação dos impérios das grandes potências, que este movimento
adquire maior visibilidade. Torna-se claro aqui a dinâmica através do qual o capital se
reproduz e universaliza-se, desarticulando ou subordinando outras formas de produção
social e recriando desigualdades em escala ampliada.
O descompasso histórico entre o progresso material e o progresso social nos leva
então ao movimento de expropriação e exclusão do trabalhador com sua inclusão posterior,
de forma subordinada e precária. E nos evoca ainda expansão planetária do capitalismo,
produzindo e recriando realidades sociais desencontradas, mergulhadas em tempos
históricos distintos. Mas, sobretudo, ele nos coloca diante dos conflitos desenrolados ao
longo deste processo. Esta é uma história que precisa “ser penteada a contrapelo”, como
falou Walter Benjamim, na contramão dos feitos da burguesia em suas várias eras: desde
aquelas que marcaram as revoluções de fins do século XVIII, até hoje.
Sabemos que, ainda que um tanto desta história seja apagada ou, pelo menos, fique
na penumbra, os trabalhadores não assistiram sentados, recuperando a expressão de Marx,
às “orgias do capital”. O processo não se constituiu sem lutas, muitas das quais ficaram
registradas nas obras de seus contemporâneos e daqueles que a resgataram. Edward
Thompson, por exemplo, chamou atenção para muitos delas, mostrando como a classe
trabalhadora na Inglaterra esteve presente em seu próprio “fazer-se” e não foi “gerada
espontaneamente pelo sistema fabril” (1987). Resistiu ao processo, muitas vezes
revigorando aquilo que ele chamou de economia moral da multidão, no confronto que
traduzia o conflito com a nova economia capitalista de mercado (1984).
Com efeito, a aposta burguesa, o “projeto de formar homens previsíveis chocou-se
com a experiência e concepção de vida operária” (Bresciani 1985: 86). Se nos primórdios
do capitalismo, os trabalhadores têm suas ações e práticas permeadas por pressuposto de
uma tradição popular antiga, posteriormente, com o avanço do capitalismo, eles vão
redefinindo suas práticas, dando respostas originais aos novos problemas que lhes eram
colocados cotidianamente. Tais respostas traduziram-se nas sociedades radicais de
orientação cartista, owenista ou mesmo religiosa, que propunham e buscavam a difusão do
saber técnico entre os trabalhadores, chegando a ameaçar o movimento burguês dos
Institutos de Mecânica, cujo projeto era compatibilizar o trabalhador com o novo modelo
de fabricação e controlar os efeitos da introdução da máquina e dos movimentos rotineiros

55
ao processo de trabalho fragmentado, evitando inclusive a sistemática quebra de máquinas
(Bresciani 1985).
Ao longo do século XIX e início do XX, em desencontro com o capital, os
movimentos não só se multiplicaram como se fortaleceram, desencadeando, mesmo, uma
contra-revolução a partir da segunda metade do século XIX. E ainda está próxima de nossa
memória as lutas que marcaram o século XX, no âmbito da afirmação do ideário e da
experiência socialista. A forma com que estes movimentos e sua organização foram
respondidos - seja pela repressão, seja pelo refinamento dos mecanismos de
disciplinarização e controle dos trabalhadores nas fábricas e nas ruas e dos compromissos
políticos tecidos – nos fala do seu próprio vigor e de sua intervenção no processo,
redefinindo as regras do jogo. “A contrapelo”, podemos mesmo interrogar aquilo que é
considerado conquista burguesa para redescobrir outras histórias:

Taylorismo e fordismo, por exemplo, categorias importantes na economia


política e na sociologia do trabalho, não são decorrentes de novos processos
produtivos. Ao contrário, são formas implementadas para diminuir a
porosidade do trabalho, expressas na resistência ao trabalho por parte dos
trabalhadores. Num caso e noutro, a própria transformação do trabalhador em
extensão da máquina, para roubar-lhe a autonomia através do posto fixo de
trabalho na linha de montagem. (Oliveira 2000)

O fato pareceu virar reminiscência; porém, muito do longo percurso dos avanços e
recuos da construção do chamado Estado de Bem Estar Social passou pelas mãos dos
trabalhadores. E nos vários cantos do mundo, todos os caminhos da construção
democrática foram abertos por eles, levando as disputas para fora dos espaços de trabalho e
da cidade, interrogando aquele que se anunciava como árbitro do conflito, o Estado. Desta
forma, o que era possível foi se tornando direito.
As possibilidades históricas da construção da democracia estiveram, então,
associadas às lutas sociais e políticas daqueles que, sem ver os frutos do progresso,
questionaram as promessas de abundância e de diferentes formas brigaram pelo fim de
suas privações. Exprimindo e publicizando o conflito, estas lutas implicaram na
constituição de uma esfera pública e na conquista de direitos políticos e sociais.

56
A estruturação da esfera pública, mesmo nos limites do Estado classista, nega à
burguesia, a propriedade do Estado e sua dominação exclusiva. Ela permite,
dentro dos limites das “incertezas previsíveis”, avanços sobre terrenos antes
santuários sagrados de outras classes ou interesses, à condição de que isto se
passe através de uma re-estruturação da própria esfera pública, nunca de sua
destruição. Representa, de um ponto de vista mais alto e mais abstrato, o fato
de que agora “os homens fazem a história e sabem por que a fazem” ( Oliveira
1998:39 )

É claro que o caminho se fez com avanços e recuos. E aqui, chegamos também aos
desencontros presentes na construção histórica da democracia e na configuração dos
Estados do Bem Estar. Novamente Lefebvre, nos recorda algo que, em tempos de
abundância , pareceu ter sido esquecido.

O compromisso democrático não suprime a luta de classes, pelo contrário, exprime-a . Historicamente, não poderia ser

de outro modo, uma vez que a burguesia, na sua luta contra o feudalismo, teve de apelar para o povo e, por outro lado,

devido a sua própria ideologia, foi obrigada a administrar a liberdade de opinião, de expressão, de pensamento e até de

organização. A ação popular apenas a encostou à parede, compelindo-a a não relegar as suas teorias para a ideologia

pura; esta ação, em suma, voltou contra a burguesia – legitimamente segundo Marx – as idéias lançadas por ela mesma

no tempo de sua ascensão política e da sua própria revolução.

A história da democracia mostra este duplo aspecto da democracia e só por seu intermédio se explica. As instituições

democrática em todos os países, e na história de cada país, refletiram a forma momentânea do compromisso, isto é, a
s
relação momentânea das forças atuantes no interior da nação (e também no plano internacional) Lefevbre 1974
( :
112).

No entanto, mais do que nunca sabemos, a democracia desenvolvida nos limites do


Estado burguês não significou a supressão do descompasso histórico entre o progresso
econômico e o progresso social, chegando apenas a diminuí-lo e mantê-lo sob controle.
Temos claro aquilo que foi avanço na construção democrática. A pergunta que nos
fazemos é quais seus limites.

57
Os limites não passaram desapercebidos por muitos daqueles que viviam os anos
dourados na sociedade norte-americana e de alguns países da Europa, e sua percepção
aparece em obras que iam interrogando o presente das democracias modernas, seus
processos culturais, a sociabilidade capitalista, os mecanismos de controle em sua
instituições e a organização do Estado. Localiza-se em pensadores de escolas tão diversas,
como o já citado Lefbvre, Adorno e Horkheimer, Sartre, Foucault, Bourdieu e Althusser,
dentre outros. E encontra-se nos diversos movimentos que marcaram os anos 60 na Europa
e EUA, tensionando as desigualdades, os mecanismos das instituições sociais democráticas
existentes, suas formas de ação e sua não convivência com as diferenças, e que abriram
espaço para toda uma área de estudos voltados para as chamadas minorias 27
Castel destaca o efeito despolitizador do Estado democrático e nos ajuda a pensar a
questão (1998). Discutindo as características que marcam o movimento do Estado Social
rumo à social-democracia, lembra seu caráter inacabado, a ambigüidade de alguns de seus
efeitos e o caráter contraditório de alguns outros. Em relação ao primeiro aspecto, chama
atenção que a maior parte das realizações da época marcam “etapas intermediárias num
processo ininterrupto” e que, mesmo sem o saber, os assalariados “já estavam virtualmente
vulneráveis” uma vez que seu destino “estava concretamente ligado à busca de um
progresso do qual não controlavam nenhum dos parâmetros”. Desta forma, o autor percebe
que “os avanços no direito do trabalho não significam que se pratica democracia na
empresa ou que a empresa se tornou ‘ cidadã’ . A ampliação das proteções sociais teve
ainda alguns “efeitos perversos”, como a gestão tecnocrática e a despolitização da
sociedade, denunciados pelos movimentos sociais dos anos 60 e 70. Por fim, e aqui Castel
localiza a contradição mais profunda, o “Estado social dos anos de crescimento” produz
“efeitos individualizantes duvidosos” , ao enquadrar os cidadãos em categorias jurídico-
administrativas e cortá-los de seu pertencimento concreto a coletivos.

Estabelecendo regulações gerais e fundando direitos objetivos, o Estado social


também aprofunda a distância em relação aos grupos de pertencimento que, em
último caso, não têm mais razão de ser para garantir as proteções. Por exemplo,
o seguro obrigatório é realmente a mobilização de uma certa solidariedade, e

27 Recordamos aqui não apenas aqueles movimentos que traziam a questão da discriminação das minorias e afirmavam sua identidade, como o movimento negro e de
mulheres mas ainda movimentos que interrogavam os limites da democracia dos Estados Democráticos, quando seus interesses ultrapassavam as fronteiras, como foi o
caso da mobilização contra a Guerra do Vietnã. Sabemos que tal mobilização esteve muito associada ao impacto da sociedade norte-americana diante de “seus mortos”
e da guerra perdida. Porém, não deixou de demonstrar as fraturas da sociedade, os limites do paraíso e “sua porta de saída
.

58
endossa o pertencimento a um coletivo. Mas pelo modo como foi
instrumentalizada, essa forma de “fazer sociedade” não exige senão
investimentos pessoais muito limitados e uma responsabilização mínima (...) A
intervenção do Estado permite aos indivíduos esconjurarem os riscos de
anomia que, como Durkheim havia visto, existem no desenvolvimento das
sociedades industriais. Porém, para fazer isso, têm como interlocutor principal-
e em caso extremo único- o Estado e seus aparelhos. A vulnerabilidade do
indivíduo, que foi afastada, encontra-se então reconduzida a outro plano.
(CASTEL, 1998, P.508)

Boaventura de Sousa Santos, analisando o processo de contratualização social,


política e cultural que marcou o desenvolvimento do Estado Moderno e seu “grau máximo
de legitimidade” no Estado-providência, chama atenção para o fato de que a “socialização
da economia” foi obtida à custa de uma dupla dessocialização, “a da natureza e dos grupos
sociais aos quais o trabalho não deu acesso à cidadania”28 .

Sendo uma solidariedade entre iguais, a solidariedade entre os trabalhadores


não teve de se aplicar ao que extravasava o círculo da igualdade. Por isso, as
organizações operárias nunca se deram conta, em alguns casos até hoje, que o
local de trabalho e de produção é freqüentemente cenário de crimes ecológicos,
de graves discriminações sexuais e raciais (1999: 39)

Agregada a este fato, Boaventura aponta ainda a questão já destacada por Castel,
nos ajudando a avançar. A politização e publicização do Estado veio acompanhada de uma
despolitização e privatização de toda a esfera não estatal. Com isso, “a democracia pode se
expandir na medida em que seu espaço se restringiu ao Estado e à política que ele passou a
sintetizar” (39).
A democracia representativa - que experimentou avanços e recuos ao longo da
primeira metade do século passado e consolidou-se no pós Segunda Guerra, espalhando ao
mundo suas promessas - foi então procurando forjar os limites do compromisso,
localizando-o dentro do próprio Estado. Ao fazê-lo, delimitou também a linha do horizonte

28 O autor concebe a socialização da economia como o longo movimento de reconhecimento de que a economia capitalista não era apenas por capital,

fatores de produção e mercado, mas também por trabalhadores, classes e pessoas com necessidades básicas e interesses.

59
no que se refere a suas possibilidades de respostas ao descompasso. De certa forma, ainda
que o compromisso dependesse das correlação de forças sociais, como nos lembrou
Lefebvre, em seu movimento de construção , a democracia veio acompanhada daquilo que
a negava, ou seja, de processos e mecanismos que canalizavam o conflito para dentro do
Estado e produziam o usuário e o consumidor, esvaziando o lugar tão duramente
construído do cidadão. Se assim for, e incorporando a formulação de Boaventura, a
travessia das portas do Estado e a tomada de outros espaços, levando o conflito para aí,
como aconteceu em fins dos anos 60 e 70, foi o limite da democracia.
Com efeito, todos os processos contraditórios que fomos levantando aqui estão,
como viemos afirmando, na raiz do descompasso histórico do econômico e social das
sociedades capitalistas. Porém, assumiram especial relevância nas regiões do mundo que,
mesmo cada vez mais integradas aos circuitos globais, localizaram-se aí num espaço
crescentemente subordinado, como a avaliação de Hobsbawn sugeriu 29 . Sociedades que
foram marcadas por experiências históricas que trouxeram particulares formas de aliança
entre os núcleos centrais da economia mundial e os grupos alojados nas estruturas de
dominação interna. E onde a maioria da população sequer conheceu os anos dourados.
Não é a toa que estas sociedades, incluindo a nossa, já possuem longa familiaridade
com processos que desafiam o pensamento sociológico europeu, e também norte-
americano, num momento em que as paisagens dos países que conheceram as promessas
da abundância tornam-se cinzentas, trazendo à cena dramas e conflitos sociais,
relacionados ao desemprego e à miséria, que até então eram vistos como residuais. O leque
de problemas que o tema da exclusão evoca já são velhos conhecidos daqueles que vivem
nos cantos periféricos do planeta.

1.2. Um parêntese...

Chegando ao Brasil... Faço um aparte porque a lembrança revê. Pensar o


desencontro aqui é uma tarefa que me coloca de antemão diante de uma espécie de trauma,
digamos, histórico. Isso porque me faz recordar os velhos tempos de graduação em
29 Espaço subordinado mais fundamental, como podemos perceber através de toda a literatura que desde o próprio Marx, destaca a importância destas regiões na
,
formação, consolidação e reprodução do capitalismo. Uma importância que, sabemos, relaciona-se a seu papel econômico enquanto reservatório de mão de obra e
riquezas, fornecedora de matérias primas e produtos primários, espaço para investimentos do capital e para o deslocamento da mão de obra sobrante nos países centrais.
Mas que articula-se ainda ao papel político e ideológico que assumiram na configuração do mundo moderno e contemporâneo e nas disputas que, desde a Grande
Expansão Marítima, envolveram as chamadas grandes potências.

60
história, quando sentia uma enorme dificuldade diante de todas as disciplinas de História
do Brasil. O que acontecia era que quando estudava os processos que marcavam as
sociedades do então chamado Primeiro Mundo, tinha a sensação que tudo parecia se
encaixar. Parecia mais fácil dar explicações para o acontecer histórico destes países. Em
relação ao Brasil, bem como as sociedades latino-americanas, chegava a algumas
explicações, mas havia sempre uma vírgula. E depois desta vírgula, a tal especificidade da
formação social brasileira que me indicava um leque de dúvidas, incertezas e perguntas.
Aos poucos, fui compreendendo que aquilo que pensava ser minha dificuldade era
uma experiência que foi se constituindo no campo do pensamento social no Brasil. E foi
constituindo-se na medida em que aqueles que buscavam interpretar o país defrontavam-se
com dilemas que atingiam nossa sociedade, e que não estavam no “mapa” do “primeiro
mundo”. Ou seja, dúvidas, incertezas e perguntas eram registros que traduziam o
questionamento dos modelos clássicos de interpretação do desenvolvimento do
capitalismo, e do Estado burguês no mundo contemporâneo, e sua inadequação quando se
tratava de explicar e compreender a nossa realidade.
Hoje, percebo que a imprecisão surgida na discussão a respeito da experiência
histórica brasileira foi forjando um caminho fecundo de interpretação de nossa sociedade,
seus dilemas, mudanças históricas, e particularmente dos processos de exclusão por ela
experimentados. Neste caminho, destacaram-se leituras diferenciadas, produzidas em
distintos campos de reflexão, com filiações teóricas divergentes. Mas que foram trazendo
pistas que hoje se acumulam em nossa bagagem, sinalizando questões que não podem
deixar de ser consideradas ao refletirmos sobre o desencontro no Brasil. De certa forma,
Francisco de Oliveira resume um pouco caminho quando fala:

A formação da sociedade brasileira, se a reconstituirmos pela interpretação de


seus intelectuais “demiúrgicos”, a partir de Gilberto Freyre, Caio Prado Jr.,
Sergio Buarque de Hollanda, Machado de Assis, Celso Furtado e Florestan
Fernandes, é um processo complexo de violência, proibição da fala, mais
modernamente privatização do público, interpretado por alguns com a
categoria de patrimonialismo, revolução pelo alto, e incompatibilidade radical

61
entre dominação burguesa e democracia; em resumo, de anulação da política,
do dissenso, do desentendimento, na interpretação de Rancière (2000b: 59) 30 .

A avaliação do autor nos aponta registros da experiência de nossa sociedade que


contribuem para a compreensão do desencontro no Brasil. Registros indicados nas obras
dos intelectuais por ele citados e por outros que vêm se dedicando a interpretar as recentes
mudanças mais amplas de nossa sociedade, dentre eles o próprio Oliveira(1998, ) e Martins
(1997, 2002).
Temos claro então, que uma reflexão sobre o desencontro no Brasil exige que se
recupere determinadas experiências históricas de nossa formação social. Sposati nos indica
algumas delas quando discute exclusão social:

Trazer o tema da exclusão social para o Brasil significa demarcar que a análise
se dará em uma sociedade colonizada, que já partiu do conceito discriminador
entre colonizador e colonizado. Ser trazido para a colônia era um castigo de
degradação para alguns portugueses. Tratava-se, portanto, de um território de
segregação – e exploração de riquezas, é claro, para os comerciantes e
exploradores.

Mais ainda: trazer o tema para o Brasil é somar a essa cultura o processo de
escravidão que seqüestrou a condição humana à elite e fez de negros e índios
objetos de demonstração de riqueza (1999: 130).

A experiência do escravismo brasileiro forjou formas de sociabilidade e dominação


que não foram desarticuladas com a expansão do capitalismo no país e a constituição do
Estado burguês o que, de diferentes formas é analisado nos autores acima mencionados por
Francisco de Oliveira. Com isso, o que queremos destacar é que os processos de exclusão
no Brasil, ainda que se configurando a partir da formação do capitalismo, delinearam-se

30
A interpretação de Rancière refere-se à sua concepção de política, como a reivindicação da parcela dos que
não têm parcela, desentendimento em relação a como se reparte o todo. Francisco de Oliveira inspira-se em
Jacques Rancière para analisar o Estado do Bem Estar Social e suas contradições, bem como os processos
políticos no Brasil. A obra em questão, de Rancière, é O Desentendimento, São Paulo: Editora 34, 1996.

62
num solo histórico cuja tessitura encontrava-se marcada pela sociabilidade e cultura
produzidas pela escravidão, bem como pelos conflitos e lutas aí produzidos.
Podemos identificar tal movimento nas mudanças ocorridas nas últimas décadas do
século XIX, quando se dão a crise do escravismo, o estabelecimento de novas formas de
exploração do trabalho e a redefinição das estruturas de dominação política. Mesmo com a
escravidão mostrando sinais evidentes de desagregação, a noção de pobreza, por exemplo,
continuava a mover-se dentro dos parâmetros do sistema agrário escravista-mercantil pois
“ser pobre significava, entre outras coisas, não ter escravos” (Fragoso 1990: 148). A força
destes parâmetros do sistema escravista se traduz também nas idas e vindas do chamado
processo de “abolição progressiva”, onde destaca-se a constituição das modalidades de
trabalho livre, ainda presas a uma cultura produzida pela sociedade escravista. 31
Kowarick, analisando a formação do mercado de trabalho livre no Brasil, ressalta
que os homens livres resistiam a formas de trabalho sistemáticas que eram vistas como
alternativas degradadas de existência. O trabalho regular na fazenda era tomado como
aceitação da condição servil e preterido pela sobrevivência autônoma.

Nessa situação em que todas as atividades se baseiam no trabalho compulsório,


em que agregados ou camaradas são freqüentemente tratados como escravos e
pequenos proprietários ou posseiros são sumariamente expropriados ou
expulsos, restam poucas alternativas para o crescente contingente de livres e
libertos que, historicamente, iria se avolumando às margens de uma sociedade
altamente dicotomizada e excludente. (1987: 68)

A autor avalia ainda que a ideologia da “vadiagem” veiculando a imagem da


preguiça e indolência deste trabalhador, e sua inaptidão para o trabalho, foi um fator
reiterado pela elite senhorial da cafeicultura paulista, a fim, de inicialmente, reproduzir a
escravidão, e depois criar oferta abundante de mão obra imigrante. E conclui: “para tanto,

31
Os contratos de locação de trabalho, que marcam as primeiras experiências com a mão de obra imigrante,
tinham como pressuposto fixar a mão-de-obra na propriedade cafeeira e impedir seu acesso à propriedade da
terra, e demonstram que tais modalidades de trabalho “livre” não passavam de um regime disfarçado de
escravidão branca. (Gorender 1980; Kowarick, 1987). Alguns autores destacam que os brasileiros livres
pobres representaram um papel marginal no então pólo dominante da economia (particularmente, nas áreas
em expansão do café em São Paulo) e abordam a rejeição da classe senhorial à utilização da mão livre
nacional em substituição à mão de obra escrava já que havia então grande dificuldade de se mobilizar o
trabalhador livre brasileiro, transformando-o em força de trabalho para a lavoura (Conrad 1978; Kowarick,
1987

63
era necessário depreciar os nacionais, isto é, retirar-lhes as possibilidades de trabalho
recriando as condições materiais de sua marginalização e atribuindo-lhes as pechas de
indolentes e indisciplinados” (1987: 112).
Com a abolição da escravatura, quando todos tornaram-se formalmente livres, a
marginalização do trabalhador nacional permaneceu. Onde não houve a utilização do
imigrante, ele foi incorporado às tarefas produtivas, mas para onde acorreram imigrantes,
especialmente as áreas mais dinâmicas da cafeicultura paulista, ele continuou relegado a
uma posição marginal:

Serviu de reserva de trabalho para as atividades mais degradadas e mal


remuneradas, e reproduziu sua necessidade de trabalhar na medida em que
conseguia viver sem se submeter a um trabalho continuado, ainda fortemente
marcado pelas barbaridades do cativeiro (Kowarick 1987 :116)

As formas de trabalho que substituíram a cativa, que já existiam antes mesmo da


Abolição, caracterizaram-se por um baixo nível de monetarização e o uso gratuito do
trabalho familiar, o que permitia aos donos de terras a redução de seus custos e uma maior
resistência frente às flutuações no mercado internacional. O fato garantia a “reiteração de
elementos da estrutura econômico-social preexistente à abolição, como por exemplo, a
hierarquia social, com o seu elevado grau de diferenciação e concentração de riquezas”
(Fragoso 1990: 159).
Sabemos ainda que a abolição não trouxe mudanças significativas para a inserção
social dos negros. Chalhoub lembra que o negro passou de escravo a trabalhador livre, sem
mudar, contudo, sua posição relativa na estrutura social. Analisando os dados referentes à
estrutura ocupacional da cidade do Rio de Janeiro em 1890, destaca que 48% dos não
brancos economicamente ativos empregavam-se em serviços domésticos, 17% na
indústria, 16% não tinham profissão declarada e o restante encontrava-se em atividades
extrativas, de criação e agrícola (1986: 51).
Se nos voltarmos para as modificações que se processavam no campo político,
verificamos que a República não implicou em transformações no que se refere à estrutura
de dominação no país. O sistema federalista então implantado proporcionou um maior
acesso dos interesses regionais e de classe ao centro do poder. Porém, como sabemos, não
desdobrou-se numa democratização política. Carvalho mostra como a República fez muito

64
pouco em termos de expansão de direitos civis e políticos. Algumas mudanças ocorridas
apontavam para uma desconcentração de poder, mas, como não vinham acompanhadas de
uma expansão significativa da cidadania política, resultaram em entregar o governo mais
diretamente nas mãos dos setores dominantes, tanto rurais quanto urbanos (1987: 45).
Como lembra Fragoso:

As classes subalternas continuavam destituídas de parte substancial de seus


direitos de cidadania. No campo, esta situação se traduziria no fortalecimento
do mandonismo local (coronelismo), o que só reforçava os aspectos não
econômicos presentes nas novas relações de produção (1990: 151)

Com as reflexões acima queremos lembrar que a constituição do desencontro do


Brasil se dá dentro de determinados marcos que antecedem o desenvolvimento do
capitalismo no país. Marcos que não são “heranças aprisionadoras”. Não estamos falando
aqui de uma sociedade cujos males foram determinados pelo fato de ter sido ela colonizada
e escravista. Estamos falando de registros que se reatualizaram no tempo, assumindo
novos significados, ao serem incorporados à tessitura de formas posteriores de dominação
interna e de inserção do país no movimento de internacionalização do capital. Afinal,
recuperando uma avaliação de Martins:

Quando a riqueza se modernizou ao longo do século XIX e, sobretudo, nas


décadas finais daquele século, não se modernizou por ações e medidas que
revolucionassem o relacionamento entre riqueza e o poder, como acontecera na
história da burguesia dos países mais representativos do desenvolvimento
capitalista. Ao contrário, na sociedade brasileira, a modernização se dá no
marco da tradição, o progresso ocorre no marco da ordem. Portanto, as
transformações sociais e políticas são lentas, não se baseiam em acentuadas e
súbitas rupturas sociais, culturais, econômicas e institucionais. O novo surge
sempre como um desdobramento do velho(...) (1994: 30) 32

32
Grifos do autor.

65
Modernização no marco da tradição, no marco da ordem...Tais idéias nos parecem
fundamentais ao entendimento da mudança histórica no Brasil, e em particular na
configuração do que viemos chamando de desencontro. Apresentam-se nos autores citados
por Francisco de Oliveira através de conceitos, noções e concepções que, de diferentes
formas, convergem, indicando a forma através da quais a mudança se opera em nosso país,
sempre sem grandes rupturas, e repondo um tecido social marcado pela concentração de
poder e riqueza e por uma estrutura social fortemente hierarquizada. Mas o que queremos
aqui destacar também é o que se encontra por detrás destas transformações lentas,
recorrendo aqui ao termo usado por Martins. A este respeito, nos parece válido recordar a
proposta de Walter Benjamim, que sugeria que o historiador trabalhasse como o físico na
desintegração do átomo, com o fim de liberar as enormes forças que ficaram presas na
explicação linear da história que teria sido “o narcótico mais poderoso do nosso século” 33 .
Um trabalho que envolve, usando um termo do mesmo autor, “pentear a história a
contrapelo”.
De certa forma, é uma perspectiva que aparece na já citada análise de Francisco de
Oliveira que avalia que a formação da sociedade brasileira é um processo complexo de
“anulação da política, do dissenso, do desentendimento”. Assim, o movimento que vai
tecendo a “modernização no marco da tradição”, é também um movimento de “destituição
da fala”, de “anulação da política”, do “desentendimento”, da anulação “da reivindicação
da parcela dos que não tem parcela”, da reiterada negação do conflito.
O que estamos aqui dizendo pode ser percebido no já referido processo que marcou
a crise do escravismo e a redefinição das estruturas de dominação em fins do século XIX e
início do XX.
Abordando o processo de abolição da escravidão na corte, Chalhoub nos mostra as
lutas e o significado deste processo histórico para a massa enorme de negros, que
“procurou cavar seu caminho em direção à liberdade explorando as vias mais
institucionalizadas da escravidão (...) O fato de muitos escravos terem seguido este
caminho não significa que eles tenham simplesmente 'espelhado' ou 'refletido' as
representações de seus 'outros' sociais" (1990: 252). Concebe, portanto, as percepções e
lutas dos negros como forças instituintes do político. Aliás, é este também o sentido da

33
Citado por Fontana (1998: 276), sendo que a fonte do autor é Walter Benjamin, Paris,
capitale du XIXe siècle. Le Livre des passages I, Editions du Cerf, 1989, p.480.

66
"cidade negra", “cidade arredia e alternativa”, instituída por escravos, libertos e negros
livres pobres ao longo de sua luta contra a escravidão na corte:

é o engendramento de um tecido de significados que politiza o cotidiano dos


sujeitos históricos num sentido específico - isto é, no sentido da transformação
de eventos aparentemente corriqueiros no cotidiano das relações sociais da
escravidão em acontecimentos políticos que fazem desmoronar os pilares da
instituição do trabalho forçado (186).

O autor lembra, que na cidade negra, os cortiços tinham especial significado, já que
eram nestas habitações coletivas que muitos negros livres, libertos e mesmo escravos
moravam, ou viviam com suas amásias, e iam encontrar auxílios e solidariedades para
realizar o sonho da compra da alforria (1986). Por isso, a demolição do famoso cortiço
carioca, o Cabeça de Porco, foi também um ataque à cidade negra. Com esta demolição, e
de outros cortiços, os republicanos atacavam a memória histórica da busca da liberdade,
desmontavam cenários, esvaziavam significados penosamente construídos na longa luta da
cidade contra a escravidão (Chalhoub, 1996).
A “instituição da política” e o mesmo “ataque” se coloca em outros tantas
experiências de luta que foram destituídas de fala, e cujos indícios tem sido recuperados
por aqueles que escavam as “forças que ficaram presas na explicação linear da história”.
Experiências de lutas populares nas cidades, como a revolta da Vacina, ou no campo, como
Canudos e Contestado. Ou que marcaram os movimentos dos operários do início do século
passado por melhores condições de trabalho. Em todos estes movimentos, o que vemos é o
combate à “política”, ao “desentendimento”, da “reivindicação da parcela dos que não tem
parcela”.

67
1.3. O desencontro no Brasil

Em nosso país, o tom sombrio do desencontro entre o econômico e social encontra


suas raízes no processo através do qual o capitalismo se desenvolve, num modelo
concentracionista, cujas possibilidades históricas localizam-se aqui. Ainda que integrada
ao mundo global, a acumulação urbano-industrial busca alimento na particular experiência
histórica da sociedade brasileira e na composição de forças sociais que integravam as
estruturas de dominação que vão se constituindo no período que se segue ao fim da
República Oligárquica. Combatendo as teses cepalinas, Oliveira analisa o processo,
destacando o fato de que a crise dos anos 30, em todo o sistema capitalista “criou o vazio”
mas não a alternativa de rearticulação da reprodução de capital.

(...) a expansão do capitalismo no Brasil repousará essencialmente na dialética


das forças sociais em pugna; serão as possibilidades de mudança no modo de
acumulação, nas estruturas de poder e no estilo de dominação, as determinantes
do processo. No limite, a possibilidade significará estagnação e reversão à
economia primário-exportadora. Entre estas duas tensões, emerge a revolução
burguesa no Brasil. O populismo será sua forma política, e essa é umas
especificidades particulares da expansão do sistema. (Oliveira 1981: 39).

A avaliação trazida por Francisco de Oliveira nos sugere alguns caminhos para
pensar o desencontro entre o econômico e o social no Brasil. Começamos por aquilo que,
habitualmente, é anunciado como início de tudo: a determinação trazida, ao modelo de
acumulação adotado e sua dinâmica, pelo papel subordinado do país no sistema mundial.
É importante destacar que a industrialização tardia, potencializou a acumulação
que dispunha, ao nível do sistema mundial, de uma imensa reserva de “trabalho morto” que
sob a forma de tecnologia era transferida para os países em processo de industrialização.
Não era preciso então esperar que o preço da força de trabalho se tornasse alto para induzir
as transformações tecnológicas que economizam trabalho (Oliveira 1981). Um processo
que, como sabemos, só reforçou o descompasso entre o econômico e o social já que
favoreceu a produtividade da inversão de capital e sua concentração, provocando, em

68
contrapartida, a compressão dos salários no setor industrial e expulsão crescente da mão de
obra, com seu alojamento precário no setor de serviços.
Mas talvez seja necessário pensar tal determinação com reservas. Se considerarmos
as colocações do autor, podemos conceber o posicionamento do país enquanto campo de
ação dentro do qual os agentes sociais se movem. A hegemonia dos países centrais dentro
do sistema capitalista implicava limites. Mas estes vão ser “contabilizados” e mesmo
explorados no modelo através do qual se articula o modelo de acumulação. Por isso, cabe
perguntar até que ponto tais limites determinavam as possibilidades de ação? Não nos
parece que esta seja uma questão que faça parte da história do passado pois, a despeito das
significativas mudanças pelo qual o mundo capitalista passou a partir de então, a resposta à
pergunta pode nos ajudar a clarificar aspectos de nossa experiência atual, quando então
costuma-se atribuir todos os nossos males a um modelo econômico imposto pela
globalização, deixando de lado as contradições que vem implicando na composição de
forças dominantes internas e seu interesse neste novo modelo 34 .
Se consideramos a análise, acima, do autor, as possibilidades históricas da
mudança de eixo da economia brasileira, com o avanço da acumulação urbano-industrial
estiveram aqui, na composição de forças sociais, traduzidas no populismo que, como o
autor nos lembrou, foi a forma política através da qual a burguesia no Brasil chegou ao
poder, configurando uma teia de compromissos. Com aqueles que haviam perdido sua
hegemonia, mas que ainda constituíam-se na principal fonte de divisas necessárias ao novo
modo de acumulação: as classes proprietárias rurais. E com os trabalhadores urbanos, que
pressionavam por mudanças e ainda chegavam às cidades, nos processos migratórios,
acenando com as possibilidades de explosão social. E que também iam se constituindo
num apoio fundamental na aliança contra as classes proprietárias rurais 35 .
Sabemos que o longo caminho que marca a construção das estruturas que
sustentavam a teia de compromissos apresentou diferenciações. No Estado Novo, envolveu
uma complexa montagem que “inscreveu as relações sociais na ossatura do Estado” e

34 A referência de alguns daqueles que pensavam o Brasil era o padrão de desenvolvimento dos países centrais, o que os impedia de perceber a especificidade do
modelo de acumulação aqui, atribuindo sua dinâmica a determinações vindas substancialmente de fora, desde a época dos tempos coloniais. Toda a discussão de
Francisco de Oliveira no trabalho que usamos como referência, A Economia Brasileira: crítica à razão dualista, publicado pela primeira vez em 1972, se deu em
contraposição a tal visão, particularmente das teses do CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina). O autor também chega a indicar os limites da teoria da
dependência, mesmo reconhecendo sua formulação correta, afirmando que “ela não dá o devido peso à possibilidade teórica e empírica que se expanda o capitalismo em
países como o Brasil ainda quando seja desfavorável a divisão internacional do trabalho do sistema capitalista como um todo” (
1981: 13).
35 Francisco de Oliveira chama atenção para o fato de que a aliança da burguesia com os trabalhadores não é apenas uma derivação “da pressão das

massas” mas uma necessidade de a primeira evitar que a economia, após a Guerra e com o boom dos preços do café e de outros produtos agropecuários,
se revertesse e obstaculizasse a mudança do eixo da acumulação (1981, p.40)

69
desmantelou as formas tradicionais de ação política: houve aqui a criação de mecanismos
diretos de interlocução com o poder, construindo-se toda a estrutura corporativista, e a
montagem de interventorias/departamentos que interligavam os estados ao poder federal,
enfraquecendo as antigas situações locais e dando ao último maior autonomia (Mendonça
1990).
Após a “Era Vargas”, a domesticação do político reatualizou-se e, a despeito do
vigor dos partidos, a forma predominante de relação com o poder ainda passava por canais
de mediação diretos, num movimento que pressupunha amplas articulações e mobilizações
de massa em torno de temas nacionais e que vinha acompanhado da relação de favor, tutela
e clientela e onde o direito aparece com favor e privilégio.
De acordo com Francisco de Oliveira, o movimento que anulou e transformou as
organizações dos trabalhadores - sociedades de ajudas mútua e sindicatos, de várias
tendências- em Institutos de Previdência e nos sindicatos tutelados , foi uma “operação de
silêncio, de roubo da fala”. Uma operação que “se sintetiza na busca da ‘harmonia social’”,
e “é bem o signo da anulação da política” (2000: 61).
Vera Telles examinando o que chama “paradoxo da sociedade brasileira” – “que
desfez as regras da República oligárquica, que desencadeou um vigoroso processo de
modernização econômica, social e institucional, mas repôs a incivilidade nas relações
sociais” – destaca que no pós 30, a concessão dos direitos trabalhistas e a montagem do
sistema de proteção social tiraram a população do arbítrio do poder patronal para jogá-la
por inteiro sob a tutela estatal. Inspirando-se em Wanderley Guilherme dos Santos, analisa
o particular modelo de cidadania dissociado dos direitos políticos e também das regras de
equivalência jurídica, onde o cidadão como indivíduo não tem identidade e figura próprias:
a verdadeira figura da cidadania é o sindicato, detentor dos direitos e canal através do qual
o trabalhador pode ter acesso aos benefícios sociais garantidos pelo Estado. No âmbito
deste modelo, aqueles que não tem vínculos legais com a corporação encontram-se
mergulhados numa “existência percebida como impermeável à regulação estatal e que, por
isso mesmo, não existem para efeito legal”. Os direitos sociais, garantidos através dos
vínculos profissionais, não universalizam-se e produz-se uma clivagem que transforma em
não cidadãos os que escapam às regras do contrato, os que não tem pertencimento cívico,
“são os pobres, figura clássica da destituição”. A pobreza configura-se aqui como condição
natural, onde homens e mulheres se vêem privados de suas identidades já que
homogeneizados na situação estigmatizadora da carência.

70
(...) nisso que se explicita o aspecto mais desconsertante da sociedade
brasileira, uma sociedade que carrega uma peculiar experiência histórica na
qual a lei, ao invés de garantir e universalizar direitos, destitui indivíduos de
suas prerrogativas de cidadania e produz a fratura entre a figura do trabalhador
e o pobre incivil. Chama sobretudo a atenção uma lei que, ao proclamar
direitos sociais, sacramenta desigualdades, repõe hierarquias pelo viés
corporativo e introduz segmentações que transformam em pré-cidadãos todos
os que não têm a posse da carteira de trabalho (Telles 1999: 92)

A montagem de tal modelo de cidadania, inscrito na teia de compromissos do


Estado, teve papel fundamental na aceleração do processo de acumulação urbano-industrial
e traduz o lugar particular da Estado na configuração desencontro entre o econômico e
social em nosso país. O Estado que atuou diretamente na configuração das novas estruturas
de dominação, na acumulação urbano-industrial e na formação do mercado de trabalho.
O modo de acumulação articulado depois de 1930 e acelerado no pós guerra, trazia
algumas particularidades, a começar pelo processo de mercantilização da força de trabalho
que conta, logo de início, com a participação fundamental do Estado, através da legislação
trabalhista que favorece a conversão de enormes contingentes populacionais em “exército
de reserva”. Com isso, sua intervenção “igualou reduzindo – antes que incrementando – o
preço da força de trabalho” e afastou as possibilidades de que os salários de algumas
categorias operárias especializadas subissem. (Oliveira 1981: 17).
Francisco de Oliveira destaca ainda que o Estado operou na fixação de preços e na
distribuição de ganhos e perdas entre os diversos estratos capitalistas. Na esfera da
produção, subsidiou atividades produtivas e investiu na produção e na infra-estrutura
necessária à acumulação. Enfim, constituiu-se no eixo através do qual foi possível
transferir recursos e ganhos para a empresa industrial e viabilizar o funcionamento do
sistema de forma não automática e livre das regras do mercado (1981).
Este processo que marca a particular ação do Estado, somado a outros elementos,
tem implicações na concentração de renda na economia brasileira. Está mesmo no centro
do descompasso que atravessa nossa sociedade pois se é verdade que o capitalismo é
marcado pelo atraso do social em relação ao econômico, aqui o econômico acelerou-se
“queimando etapas”, mediado pelo Estado.

71
O impacto desta mediação na configuração das cidades que então cresciam não foi
pouco. A “captura” dos recursos públicos, desviados fundamentalmente para fins da
acumulação, com retração de investimentos na infra-estrutura e serviços urbanos, reforçou
a dilapidação da força de trabalho, fazendo crescer o grau de pauperização decorrente da
acumulação desenvolvida sob um padrão concentracionista. A exploração do trabalhador
abarcou então a esfera do Estado, traduzindo a já mencionada espoliação urbana
(Kowarick 1979).
É no âmbito das contradições deste padrão de acumulação do capital, e do lugar que
o Estado aí ocupa, que se pode localizar o surgimento e afirmação no espaço urbano das
favelas e outras formas precarizadas de moradia. É aí também que se inscreve a gênese do
que já chamei aqui de terreno da fronteira, o mundo de iniciativas sociais desenvolvidas
nas favelas cariocas, onde se insere o trabalho social dos moradores destas localidades.
Na verdade, todos os recursos investidos na criação das condições institucionais e
na infra-estrutura de apoio à acumulação urbano-industrial e à transferência de rendas e
subsídios para o setor industrial significaram o repasse de uma grande parcela da riqueza
social produzida e não se fez sem ônus para o conjunto da sociedade brasileira, e em
particular para os trabalhadores, tanto os que encontravam-se na cidade, submetidos ao
salários nivelados por baixo ou engrossando o exército de reserva, quanto aqueles outros
que viviam no campo, onde a legislação trabalhista sequer havia chegado.
E, aqui, ao evocarmos o universo do campo, voltamos ao movimento através do
qual o capital opera recriando o “arcaico” e incorporando-o à sua dinâmica, produzindo o
desencontro de tempos e realidades que foram percebidas como uma verdadeira
ambigüidade e a expressão mais acabada de dois mundos separados, em uma dualidade
que, no Brasil, se tornou famosa ao opor os dois Brasis, o moderno e o arcaico 36 .

36 A imagem dos dois Brasis, refere-se ao livro de Jacques Lambert, Os dois Brasis, de 1960. A visão dominante na época era então que os problemas das sociedades
em modernização eram uma espécie de distúrbio provocado pela presença do arcaico. A questão da marginalidade tem suas raízes neste contexto e era associada à
discussão da modernização. A marginalidade era concebida como fruto de distúrbios do processo de modernização e os grupos marginais como não integrados ao
,
sistema social. Nesta perspectiva, a modernização pela qual passavam determinados países latino-americanos produzia certas desarticulações e rupturas pois
,
desorganizava estruturas sociais preexistentes mas não atingia todos segmentos da sociedade, deixando persistir então o tradicional e o arcaico. Daí surgirem desajustes,
que são assim definidos a partir de um modelo de desenvolvimento, organização e conduta, tido como “moderno” (urbano-industrial) mas que eram, contudo, passíveis
de ser resolvidos com a integração do “arcaico” (campo) pelo “moderno”. Tanto a discussão da marginalidade, assim colocada, quan o a teoria da modernização,
t
tiveram vida longa e grande impacto sobre o debate e as políticas implementadas no combate aos problemas que apareciam no urbano. Eder Sader e Maria Célia Paoli
chamam atenção para o fato de que “a teoria da modernização oferecia, mesmo que criticada, um referencial temático por onde se pensar o impacto do momento
histórico e a atmosfera de transição vivida (...) repensar o papel de cada agente social na produção e na adaptação aos novos tempos que viriam. (...) Ao lado da
percepção histórica de uma transição, os pesquisadores acadêmicos contavam com o referencial modelar dos países de industrialização clássica, com o instrumental
analítico da sociologia industrial americana e, centralmente, com as proposições marxistas sobre a classe operária. Alguns destes autores dialogavam também,
implicitamente, com o imaginário das correntes de militância política da época”. ( ader &
S Paoli 1988: 48)

72
Na verdade, outra particularidade do padrão de acumulação foi a conciliação
existente entre a agricultura e a indústria, e o papel desempenhado por esta última neste
processo. A despeito de o novo padrão implicar no confisco de parte da renda vinda do
setor agrícola, “isso foi compensado até certo ponto pelo fato de que esse crescimento
industrial permitiu às atividades agro-pecuárias manterem seu padrão ‘primitivo’, baseado
numa alta taxa de exploração da força de trabalho” (Oliveira 1981: 23).
O campo, mergulhado numa espécie de penumbra, permanecia prisioneiro de
formas de produção “arcaicas”. Contudo, tais formas de produção, especialmente nas áreas
de fronteira e de ocupação, eram responsáveis pelo rebaixamento dos preços dos produtos
agrícolas que chegavam às cidades, suprindo as necessidades da população que, como
sabemos, sobrevivia com salários comprimidos. E ainda, o “arcaico” contribuía para
rebaixar os custos das matérias-primas para a indústria. Isso sem falar, na já mencionada
transferência de recursos para a indústria (via redistribuição operada pelo Estado) que
provinha principalmente das rendas da exportação.
Desta forma, aquilo que parecia dualidade, tratava-se mesmo de um processo
integrado, através do qual era possível viabilizar a reprodução do capital. Não deixou,
porém, de contribuir para o descompasso histórico entre o progresso material e o social,
alimentando o crescimento industrial e a modernização urbana mas recriando de forma
ampliada a miséria no campo e produzindo, nas cidades, formas de inclusão precária no
processo de trabalho e no espaço urbano.
Esta conexão entre “o arcaico” e “o moderno”, na verdade, marcou também, de
várias formas, a paisagem das metrópoles que se formavam. Estava no centro da
articulação entre a indústria e o chamado setor de serviços que “inchava”, tirando o sono
dos analistas do social e da economia, que esforçavam-se para compreender o motivo do
distúrbio, que afastava o crescimento industrial brasileiro dos outros modelos. Numa
dinâmica semelhante àquela que se operava com a agricultura, o “inchamento” do terciário
favoreceu a acumulação industrial, criando a infra-estrutura urbana e de serviços de forma
acelerada, contribuindo para rebaixar os custos de reprodução da força de trabalho e
incentivando o circuito do capital. Com efeito, segundo a interpretação de Francisco de
Oliveira, o crescimento não-capitalístico do terciário vinha mesmo resolver uma das
contradições do crescimento industrial no país que por um lado, levava à urgente
necessidade de investir na infra-estrutura e serviços nas cidades, mas por outro lado,

73
ressentia-se da falta de recursos para isso, já que aqueles que estavam disponíveis eram
deslocados fundamentalmente para a indústria.

(...) a aparência de “inchação” esconde um mecanismo fundamental da


acumulação: os serviços realizados à base de pura força de trabalho, que é
remunerada a níveis baixíssimos, transferem, permanentemente, para as
atividades econômicas de corte capitalista, uma fração do seu valor, “mais-
valia” em síntese. Não é estranha a simbiose entre a “ moderna” agricultura de
frutas, hortaliças e outros produtos de granja com o comércio ambulante? Qual
o volume de comércio de certos produtos industrializados – o grifo é
proposital – tais como lâminas de barbear, pentes, produtos de limpeza,
instrumentos de corte, e um sem número de pequenos objetos, que é realizado
pelo comércio ambulante das ruas centrais de nossas cidades? Qual é a relação
que existe entre o aumento da força de veículos particulares em circulação e os
serviços de lavagem de automóveis realizados braçalmente? Existe alguma
incompatibilidade entre o volume crescente da produção automobilística e a
multiplicação de pequenas oficinas destinadas à re-produção dos veículos?
Como explicar que todos os tipos de serviços pessoais cresçam mais
exatamente quando a indústria recupera seu dinamismo na recuperação de
empregos e quando todo um processo se cristaliza- conforme os resultados do
censo demográfico – numa distribuição de renda mais desigual? Esses tipos de
serviços, longe de serem excrescências e apenas depósito do “exército
industrial de reserva” são adequados para o processo de acumulação global e
da expansão capitalista, e por seu lado, reforçam a tendência à concentração de
renda (Oliveira 1981: 34) 37 .

A análise do autor fala de um outro lado, que estava fora do horizonte de muitos
analistas que interpretaram as mudanças econômicas e sociais no Brasil contemporâneo e
que parece ainda possuir atualidade, a despeito das mudanças trazidas pelas duas últimas
décadas. O que nos sugere Francisco de Oliveira, para além da já destacada conexão entre
os dois setores e o papel fundamental do terciário na reprodução do capital, é que muitos

37
Grifos do autor

74
daqueles que vagueavam pelos “serviços”, longe de serem marginais, ou não estarem
integrados ao desenvolvimento capitalista, encontravam-se nele incluídos, ainda que de
forma precária. E ainda, sua inclusão precária não relacionava-se à diminuição do ritmo
industrial. Na verdade, o crescimento do setor, e do número de trabalhadores que nele se
localizavam, acompanhava a expansão da indústria e dos empregos oferecidos neste setor.
Desta forma, podemos compreender que o terciário não “inchou” no país apenas em função
da falta de empregos no setor industrial, que incorporando alta tecnologia, não absorvia
grande parte da mão de obra disponível. A equação de movimento do mercado de trabalho
era mediada pelo próprio dinamismo do setor, que tem uma função importante no processo
de acumulação global.
Bem, esta nunca foi uma questão menor no estudo do desenvolvimento do
capitalismo no Brasil e também das tramas que alimentam a sociabilidade capitalista em
nosso país. Possivelmente, menos ainda é hoje, quando o setor de serviços cresceu ainda
mais, abrigando por todo o país um contingente imenso de trabalhadores informais, que
atualmente, por exemplo, representam quase a metade da população ocupada que trabalha
e/ou mora na cidade de São Paulo (Jakobsen, Martins & Dombrowski 2000).
A importância do tema revela-se especialmente no fato de que seu padrão
“arcaico”, vem servindo como referência para definir o trabalho formal, como afirma
Castel (1998) e o próprio Francisco de Oliveira, ao recordar que “ bem observadas,
polivalência e flexibilização, e até mesmo uma autonomia perversa podem ser encontradas
em qualquer trabalhador desempregado que se ocupa de atividades, que variam
semanalmente” (2000). A respeito do tema, Bourdieu também avalia:

A precariedade se inscreve num modo de dominação de tipo novo, fundado na


instituição de uma situação generalizada e permanente de insegurança, visando
obrigar os trabalhadores à submissão, à aceitação da exploração. Apesar de
seus efeitos se assemelharem muito pouco ao capitalismo selvagem nas
origens, esse modo de dominação é absolutamente sem precedentes, motivando
alguém a propor aqui o conceito ao mesmo tempo muito pertinente e muito
expressivo de flexexploração (1998).

Sabemos, porém, que toda esta “epopéia do capital” não tem significado ausência
de protestos e construções que sempre indicaram apostas no presente, e também em tempos

75
melhores. A história do país no século que ficou para trás foi atravessada por lutas
daqueles que questionavam as desigualdades e buscavam o fim de suas privações. Muitas
ainda estão entre nós, na penumbra, talvez. A própria narrativa “oficial”, ao ser
interrogada, se trai ao documentar os dados que nos recordam o tanto de violência e
manobra que foram precisos para que a coesão social não se rompesse, as estruturas de
dominação não explodissem e nosso descompasso histórico se sustentasse. “De 1930 para
cá, em cada três anos média, houve um golpe ou tentativa de golpe no Brasil (...) Uma
exclusão no campo de direitos, a partir da qual se interroga e contesta o outro” (Oliveira
2000 b).
Como o próprio Francisco de Oliveira lembra, “a política é uma invenção das
classes dominadas” (2001). E nada nos revela melhor o fato do que os movimentos que
tomaram conta do país desde a segunda metade da década 70. Tecidos nos subterrâneos do
regime militar e em meio a suas experiências e práticas cotidianas nos espaços de trabalho,
moradia e sociabilidade, tais movimentos emergiram, interrogando nossa sociedade ao
trazer novas formas de ação política e colocar “novos personagens” em cena, para usar a
famosa expressão de Eder Sader (1988). E na travessia de situações de conflito, vividas
enquanto limite do desencontro, deixaram a esfera local para localizar este desencontro
onde ele é reproduzido, na teia mais ampla da sociedade e interpelar aquele que se coloca
como árbitro dos conflitos, o Estado (Cunha1995).
A construção democrática e a criação de uma esfera pública, de disputa e
publicização do conflito, em suas contradições, avançava interrogando o Estado e o
autoritarismo, bem como os velhos mecanismos de poder que atravessam nossa sociedade.
Com isso, “nossa velha e nunca resolvida questão social” ganhou dimensão institucional
evidente. Foi se construindo uma trama social que ia mapeando e explicitando campos
diversificados de conflitos, fazendo circular a linguagem dos direitos, desprivatizando
carências e necessidades, projetando-os no cenário público como questões pertinentes à
vida em sociedade (Telles 1999).
Mas tudo, de repente, pareceu escorregar por nossas mãos, instaurando-se uma
enorme perplexidade. Recorrendo mais uma vez a Vera Telles:

Perplexidade diante de uma década inaugurada com a promessa de redenção


para os dramas da sociedade brasileira e que se encerrou encenando aos olhos
de todos os espetáculo de uma pobreza talvez jamais vista em nossa história

76
republicana, uma pobreza tão imensa que se começa a desconfiar que esse país
já ultrapassou as fronteiras da vida civilizada (1999:82)

1.4. A nova desigualdade, no modo de dominação do tipo novo

Certo! A recriação de antigas pobrezas e produção de novas é parte constitutiva do


desencontro entre o econômico e o social presente nas sociedades capitalistas. O papel
particular assumido pelo Estado, fazendo avançar este desencontro de forma ampliada, é
marca de algumas sociedades, como a nossa. E é em meio a este descompasso que são
criados “os sobrantes”, configuram-se lugares de “sobra”, os “infernos”, para usar as
palavras daquele morador, lá no início. Produzem-se dramas, experiências e conflitos
genericamente abrigados sob o tema da exclusão. E se produzem também formas de
“remendar” o desencontro. Formas de “fazer social”, que vão constituindo o amplo e
heterogêneo terreno da fronteira.
Mas, se por todos os cantos do mundo, a exclusão, compreendida em sua imagem
de desencontro entre o econômico e social, pareceu assumir maior dramaticidade nas
últimas décadas, a questão que ainda se coloca é qual a particularidade deste processo em
nossos dias? De que forma este desencontro tem se desenvolvido na atualidade? Por que
um tom tão dramático, bem traduzido nas palavras de Valda que eu aqui repito: o caráter
da pobreza mudou, estamos cada vez mais pobres.
A busca de uma resposta nos aproxima das novas formas de sociabilidade
capitalista, desenvolvidas no âmbito da reconfiguração do capitalismo a partir dos anos
70. 38 A chamada multipolarização, com o fortalecimento dos blocos econômico, bem como
as mudanças que se processaram no mundo socialista, não só traduziram, mas imprimiram
um reconfiguração de forças, a nível internacional. Articuladas a estes processos, as
mudanças na base produtiva, contribuíram para que se operasse uma nova dinâmica na

38
É nesta época que configura-se um quadro de esgotamento do padrão de acumulação desenvolvido no pós
IIa guerra, cuja dinâmica referenciava-se no fortalecimento do bloco capitalista, através da reconstrução das
economias dos chamados países centrais e do incremento à "modernização" dos periféricos. Um padrão de
acumulação, onde o Estado assumia um lugar central na reprodução do capital e da força de trabalho,
favorecendo a acumulação e incorporando a "questão social", de forma a neutralizá-la. É dentro desta
perspectiva que deve ser entendido o "Welfare State", enquanto redefinição da hegemonia política burguesa,
tecida no âmbito de um conflito de classes, que aponta portanto não só para a necessidade de reprodução da
acumulação do capital mas igualmente para a pressão exercida pelas lutas dos trabalhadores.

77
divisão internacional do trabalho, marcada pela transnacionalização. Aqui, se agrava o
descompasso histórico nos cantos periféricos do planeta, inclusive com sua perda de poder
de barganha política face ao fim da bipolarização. E é também produzida uma nova
pobreza nos chamados países centrais.
Em meio a tudo isso, é que se dá a chamada crise do "Welfare State", que na
perspectiva neo-liberal é entendida naquilo que é tão somente sua expressão - crise fiscal e
déficit público, sendo atribuída ao crescimento da esfera pública no que se refere à
reprodução da força de trabalho. Daí, as proposições neo-liberais de volta do Estado
mínimo, o que significa, de forma geral, por um lado um retrocesso nas conquistas sociais,
e por outro, a apropriação do fundo público apenas pelo capital (Oliveira 1998).
Francisco de Oliveira nos adverte que a principal contradição deste movimento de
internacionalização se dá na medida em que ele aponta para a desterritorialização do
investimento e da renda enquanto o padrão de financiamento da reprodução do capital e da
força de trabalho continua circunscrito a sua territorialidade (1998). Analisando a
tendência moderna do capital, chama atenção da “mudança radical na determinação do
capital variável”, que vai traduzir-se nas formas da terceirização do trabalho precário entre
nós:

O conjunto de trabalhadores é transformando em uma soma indeterminada de


exército da ativa e da reserva, que se intercambiam não no ciclo de negócios
mas diariamente. Daí, termina a variabilidade do capital antes na forma de
adiantamento do capitalista. É quase como se os rendimentos do trabalhador
agora dependessem do lucro dos capitalistas. Disso decorrem todos os novos
ajustamentos no estatuto do trabalhado e do trabalhador, forma própria do
capitalismo globalizado (2003:136)

Tal tendência conforma os processos excludentes, ou de inclusão precária e


ampliada de amplas parcelas da população. Processos que vêm se materializando nas
políticas econômicas atuais, que agem no sentido de incluir as pessoas, “estritamente em
termos daquilo que é racionalmente conveniente e necessário à mais eficiente (e barata
reprodução do capital). E também, ao funcionamento da ordem em favor dos que
dominam” (Martins 1997: 20).

78
Aqui, dá-se em escala violenta, o desencontro entre o social e o econômico, onde o
Estado cumpre um significativo papel, tal como na decolagem do processo de acumulação
urbano-industrial. Viabiliza a continuidade da acumulação dentro dos limites colocados
pela contradição referida por Francisco de Oliveira, operando através de um conjunto de
políticas, como a privatização das atividades estatais, com a desestatização de empresas
públicas e atividades administrativas; a desregulamentação, com a redução da atividade
reguladora do Estado na economia e nas relações de trabalho, em particular; a abertura ao
capital internacional, com a eliminação das reservas do mercado e do protecionismo (Saes
2001). É ainda dentro deste mesmo movimento, que podemos compreender a transferência
de responsabilidade sobre os serviços sociais para a sociedade, de forma geral, e para as
classes populares, em particular (Pinheiro 1996).
Analisando o caso do município de São Paulo, sob a administração de Paulo Maluf,
Jair Pinheiro destaca que tal processo implica a transferência para as camadas populares de
parcela dos custos de reprodução da força de trabalho, indicando as vias desta
transferência:

1) redução do montante despendido pela Prefeitura Municipal de São Paulo


(PMSP) para o fornecimento de algum serviço, que pode se efetivar através de
convênio; 2) criação de mecanismos de captação de recursos junto à
comunidade; 3) redução de custos por intermédio do rebaixamento da
qualidade do atendimento oferecido. (1996)

A realidade não se coloca de forma diferente no município do Rio de Janeiro, onde


o mesmo fenômeno atinge os serviços sociais já oferecidos à população e, de forma mais
geral, orienta as políticas sociais implementadas para atender a alguns dos problemas
fundamentais: educação e saúde, moradia, saneamento, emprego. Aqui, a inclusão precária
da população manifesta-se sob um padrão precário e extorsivo de serviço. Precário porque
insuficiente em termos de atendimento, acesso e qualidade. Extorsivo porque nele a
população é responsabilizada por seu estado de privação e é convocada a arcar com os
custos daquilo que deveria ser lhe oferecido como direito.
Antigas e novas pobrezas são pois, tradução de processos excludentes e de inclusão
precária, que, delineando novas formas de sociabilidade capitalista, atualizam o
descompasso histórico entre o progresso material e o progresso social. Neste quadro, a

79
precariedade se generaliza, se inscrevendo no modo de dominação de tipo novo, ao qual se
referiu Bourdieu.
O impacto destes processos é examinado por Castel (1998). Ele lembra que o
processo de precarização atinge áreas de emprego estabilizadas há muito tempo, sendo um
processo central, comandado pelas novas exigências tecnológico-econômicas da evolução
do capitalismo moderno. E neste sentido, não há uma razão para levantar uma nova
“questão social”. No entanto, o mesmo autor, em seu trabalho, preocupa-se em analisar
alguns aspectos que concorrem para a cristalização desta “questão”:
A desestabilização dos estáveis que atinge segmentos com posições relativamente
asseguradas, como parte da classe operária e assalariados da pequena classe média;
A instalação na precariedade, traduzindo “trajetórias erráticas”, caracterizadas por
uma “mobilidade feita de alternância de atividades e de inatividade, de virações provisórias
marcadas pela incerteza do amanhã”;
Um déficit de lugares ocupáveis na estrutura social, ou seja, posições às quais estão
associados uma utilidade social e um reconhecimento público; são trabalhadores que estão
envelhecendo, jovens que procuram o primeiro emprego, desempregados de longa data que
“passam até a exaustão e sem grande sucesso, por requalificações ou motivações”; ocupam
uma posição de supranumerários.
A realidade francesa é o foco do autor, mas suas indicações inspiram a
compreensão dos processos que atingem o mundo social em nosso país. Ao contrário de
alguns países do núcleo central do capitalismo que assistiram o desenvolvimento do
“Welfare State”, mesmo com todas as contradições que Castel aponta, a sociedade
brasileira, assim como outras sociedades de economia periférica, sequer conseguiu avançar
na trajetória da construção democrática e aí consolidar um campo de direitos sociais.
Como bem lembra Oliveira, somos a “vanguarda do atraso”, que “consiste em chegar aos
limites superiores do capitalismo desenvolvido, sem ter atingido seus patamares mínimos”
(1998: 208)
Isso amplia o horizonte de análise de tais processos, pois nos coloca diante de um
desafio que desloca a questão para além do âmbito da economia, onde aliás, este modo de
dominação mencionado por Bourdieu, nos seduz a permanecer, como que desviando nossa
atenção. O desencontro em curso, além de sugerir processos de “descarte” ou exclusão do
mercado e modalidades várias de inclusão precária, está indicando também um

80
desencontro no campo do político, em especial dos direitos: do próprio trabalho, mas
também sociais e políticos.

Toda vez que os direitos são transformados em “custo Brasil”, que a


estabilidade do funcionalismo, antes um requisito para a construção de um
Estado moderno, é transformada em explicação para a dilapidação financeira
do Estado, que direitos humanos, que incluem julgamentos e tratamentos iguais
para todos os cidadãos, incluindo-se os que cometem crimes, são
transformados em causação da violência e bárbarie, o que está em jogo é a
exclusão. Não no seu sentido mais pobre, de exclusão do mercado e do
emprego mas no seu sentido mais radical: o de que, agora, dominantes e
dominados não partilham o mesmo espaço de significados, o mesmo campo
semântico. Há uma negação - ou sua tentativa – da contestação no mesmo
campo de significados, o que dilui a política e o conflito. É uma forma radical
de administração, tal como a administração de um zoológico. (Oliveira 1998:
203)

O mesmo autor chama atenção para o fato de que as classes dominantes na América
Latina desistiram de integrar a população, seja à produção, seja à cidadania. Não integram,
nem mesmo, como ocorria em outros tempos, por mecanismos reificadores de exclusão,
traduzidos nos vários recortes no mercado de trabalho (negros, mulheres, índios, mestiços,
infância, cortes geracionais). O que se pretende é a segregação, o apartheid, com a criação
de um campo semântico em que os significados dos direitos e conquistas civilizatórias, são
transformados em fatores causais de miséria, pobreza e ausência de cidadania. “As classes
dominantes começaram a extravasar uma subjetividade antipública” que elabora, pela
comunicação mediática, uma ideologia antiestatal. Neste âmbito, é que configura-se as
tendências de metamorfose das democracias em totalitarismos, produzindo-se “a
impossibilidade do dissenso, da alternativa, do seqüestro do discurso e da fala
contestatória, da anulação da política” (1998).
Tudo o que levantamos aqui é coisa que faz pensar! O período em que a idéia de
exclusão passou a ser reforçada no Brasil, o início dos anos 90, foi marcado pelo mergulho
inconstestável do país nos chamados tempos neoliberais, de início, traduzido no Plano
Collor e, pouco depois, materializado com a chegada do Plano Real. Contudo, o mesmo

81
período marcou também o retrocesso político e social da construção democrática. No
entanto, de certa forma, o uso do termo aparece mais associado ao primeiro processo, que
atinge os núcleos dinâmicos da economia do país, espalhando-se por todos os outros
setores, produzindo e reproduzindo desemprego e empobrecimento em escala ampliada e
causando uma fratura na sociedade, ameaçando-a de uma verdadeira apartação social. E
com isso, ao longo dos anos 90 e na entrada deste novo século, a polêmica em torno da
exclusão foi configurando muito mais em torno dos custos econômicos e sociais da
inserção do Brasil na “nova ordem globalizada” do que dos desdobramentos político-
sociais do processo em andamento. Neste ponto, cabe nos interrogar até que ponto tal fato
acaba implicando numa delimitação do debate e atua como uma espécie de cortina de
fumaça, encobrindo uma das principais contradições deste mesmo processo: o crescente
esgarçamento da sociedade brasileira e o esvaziamento do espaço de debate público e dos
projetos de sociedade que então se gestavam, acenando com novas formas de construção
social e do fazer político. Se assim for, é possível nos perguntar ainda, se este movimento
não têm significado uma forma de captura do texto e dos padrões de ação “neo liberal” já
que, como lembra Tomáz Tadeu da Silva, “o discurso liberal acaba por fixar as formas
como podemos pensar a sociedade e, nesse processo, terminar por nos fixar, a nós próprios,
como sujeitos sociais” (1995).
Não nos parece coincidência que aquilo que era inimaginável, ao longo dos anos
80, agora se torne real e que vivamos aprisionados novamente, com os tanques mudando
de cara, assumindo a forma de planos econômicos, desmonte das instituições do Estado e
também de um imaginário aprisionador que nos imobiliza.

O peculiar dos dias que correm é que se trata de uma modernização que
desloca os termos pelos quais o país foi tradicionalmente pensado e alternativas
de futuro formuladas, em meio a uma crise que é também uma crise de
referências e parâmetros estabelecidos. Entre a destruição dos serviços
públicos, a erosão dos direitos do trabalho e a desmontagem de formas
estabelecidas de regulação social, há a desestruturação de referências reais e
simbólicas nas quais, para o bem ou para o mal, durante décadas se projetaram
esperanças de progresso e se organizaram os termos como o próprio país foi
problematizado e pensado em suas possibilidades de futuro (Telles 1999: 153)

82
1.5. ...E movendo-se no desencontro

Se compreendida em sua dimensão contraditória, a temática da exclusão nos evoca


também os conflitos desenrolados ao longo deste processo e a manifestação concreta do
desencontro, traduzida na experiência e nos significados dados pelos “excluídos” às
diversas formas de privação: privação de emprego, privação dos meios para participar do
mercado de consumo, do bem estar, dos direitos, privação de liberdade e da esperança
(Martins 1997:18).
...Então lembro novamente as palavras usadas para dar início ao trabalho. “Eu
cheguei a seguinte conclusão: a terra é do latifundiário, o mar é da marinha, o céu é da
aeronáutica e para os favelados só sobrou o inferno”, disse o morador. Recordo outras,
presentes nas memórias de um senhor, aluno de um projeto de educação de jovens e
adultos desenvolvido em favelas da cidade, que contava sobre a ordem de despejo que
recebera bem no início dos anos 70: “foi um choque tão grande para mim... Este foi o
primeiro despejo de minha vida” 39 .
É impossível não inquietar-se com estas percepções que nos cercam no dia a dia.
Elas não nos sugerem carências, nem tampouco vazios. Prestem atenção: o “só sobrou”, o
“foi o primeiro despejo”... dizem é de “processos”, de processos de perdas e dificuldades
de vida. Denunciam processos de desigualdades e injustiças. E falam do que seus autores
experimentam e de suas visões deste mundo onde temos vivido.
No desenrolar de uma oficina voltada para a história das favelas, os mais jovens
que não conheciam de perto a ocupação da localidade aonde moravam, recolhiam relatos
de moradores antigos e os traziam para nos contar 40 . “Era tudo barro e quando chovia,
piorava, muita gente caía”, dizia um grupo de jovens. “Não tinha luz, nem água. O lampião

39
Depoimento de aluno do PAE (Programa de Aumento de Escolaridade) desenvolvido pelo Viva Rio,
Secretaria Municipal do Trabalho, Viva Rio, Escola Técnica Federal de Química, 1997/1998.
40
Relatório de campo no Morro do Adeus, Oficina História de Comunidades, Secretaria Municipal de
Habitação, Gestão Comunitária: Instituto de Investigação e Ação Social, Caixa Econômica Federal,
Concremat, 2000

83
era de querosene. A água, os moradores pegavam embaixo, na rua. Carregavam os baldes
de água na balança. Quem tinha condições, pagava alguém para levar a água”, outro grupo
relatava. “No começo quem tinha água vendia. Estes moradores, que tinham água,
esticavam a borracha e cobravam por cada caixa”, acrescentava mais outro. E as pessoas
um pouco mais velhas, recordavam a época em que “as meninas trabalhavam nas fábricas
da região” e muitos moradores trabalhavam na construção da Ponte Rio Niterói. Obra
imensa, que se integrou à paisagem da cidade, sem que muita gente soubesse quantos
trabalhadores deixaram trabalho ali.
Precariedade nas condições de vida, diferenças sociais na favela, os elos que ligam
estas localidades à cidade...tudo isso passeava por ali nas memórias dos moradores. São
questões que traduzem o desencontro ao qual venho me referindo. Podem ser
compreendidas dentro do quadro antes esboçado a respeito dos processos excludentes.
Mas há outras dimensões presentes nestes processos...E delas, aqueles que
experimentam tais processos também nos falam: “Não caiu de paraquedas, entendeu?
Houve luta para as casas estarem melhor. Houve luta para se ter água encanada. Houve luta
para se ter uma luz decente. Houve luta aqui.”, diz o participante de uma oficina que
procura recuperar a memória histórica do Morro do Borel . “Ninguém tinha direito de
morar, do direito nós conseguimos através da luta. Nos anos 60, a gente não tinha sossego
pensava que estava muito bem, tranqüilo (...) descia todo mundo para resistir à remoção”,
nos conta outro. “A nossa história, a nossa organização, a gente esquece. Se hoje, nós
estamos aqui, teve um investimento atrás”, avalia a moradora de uma favela carioca, com
uma longa experiência no movimento comunitário e, hoje, à frente de vários projetos
sociais. 41
Por isso, recordo aqui que, no mesmo processo que inclui precariamente amplas
parcelas dos trabalhadores, dá-se também o movimento das reações, a interpretação crítica
da realidade e sua contestação.
Essas reações - porque não se trata estritamente de exclusão - não se dão fora dos
sistemas econômicos e dos sistemas de poder. Elas constituem o imponderável de tais
sistemas, fazem parte deles ainda que os negando; elas ocorrem no interior da realidade
problemática, “dentro” da realidade que produziu os problemas que as causam. (Martins:
1997, P.14).

41
Os dois primeiros depoimentos integram as oficinas do grupo Os Condutores de Memória: um histórico
cultural da Grande Tijuca, desenvolvido pela Agenda Social Rio, e coordenado pela Gestão Comunitária:
Instituto de Investigação e Ação Social e pelo Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas).

84
Seguindo uma pista indicada também por Martins, lembro que aquilo que é
chamado de exclusão, ou os processos de inclusão precária e instável, não pode ser
separado da interpretação que os chamados “excluídos” fazem dela, o que torna a questão
ainda mais complexa, exigindo um deslocamento na “espiral”. Uma aproximação com
aquilo que é manifestação concreta dos processos de inclusão precária e marginal,
traduzida em todas as formas de privação. (Martins:1997).
O que ocorre é que os processos excludentes também parecem caminhar como
numa espiral. Que, no caso, parece sempre descendente. A privação produzindo novas
privações, trazendo uma degradação crescente para aqueles que são atingidos mais
violentamente por este processo, tornando-as vulneráveis. O desemprego prolongado, por
exemplo, produz efeitos sobre a estrutura familiar e a inserção em redes de sociabilidade.
E por aí vai...
Por isso, antes de tudo, é preciso observar esta “espiral descendente” com cuidado,
de forma a não estabelecer relações mecânicas e lineares entre as várias privações. É
avançar num olhar abrangente que permita perceber o movimento desta “espiral”, para
além de seu efeito descendente. Há quem lembre que é preciso escapar das reduções,
compreendendo que a pobreza, além de um estado de privação material, é um modo de
vida, ou “um conjunto complexo de relações e instituições sociais, econômicas, culturais e
políticas criadas para encontrar segurança dentro de uma situação insegura”. No interior
deste complexo de relações, inclusive simbólicas, há pois um movimento que desloca
constantemente o limite da pobreza. “Ou seja, a pobreza nega-se a si mesma, recusa-se,
tanto simbólica, quanto objetivamente” (Araújo:2000).
Isso faz pensar! Faz pensar que os processos excludentes envolvem uma
complexidade, difícil de ser apreendida em todas as suas dimensões, considerando a
experiência daqueles que vivenciam tal processo, os deslocamentos realizados por eles, a
teia de relações onde estão inseridos, bem como as representações que vão sendo aí
reelaboradas e produzidas.
Neste ponto, mais uma vez o conceito de experiência de Thompson parece
fundamental ao articular uma série de dimensões que são vistas em termos de oposição:
estrutura e ação, ser e consciência, economia e cultura.

Os homens e mulheres retornam como sujeitos, dentro deste termo - não como
sujeitos autônomos, 'indivíduos livres', mas como pessoas que experimentam

85
suas situações e relações produtivas determinadas como necessidades,
interesses e antagonismos, e em seguida 'tratam' essa experiência em sua
consciência e sua cultura (as duas outras expressões excluídas pela prática
teórica) das mais complexas maneiras ( sim, 'relativamente autônomas') e em
seguida (muitas vezes, mas nem sempre, através das estruturas de classe
resultantes) agem, por sua vez, sobre sua situação determinada. (1981, p.182)

Dialogando com a reflexão do autor, penso que entre a experiência, determinada


em grande medida pelos processos de inclusão precária e instável, e o experimentar desta
experiência há um conjunto de mediações que não são menos determinantes à prática
histórica e social, uma vez que atravessam as ações daqueles que são vítimas destes
processos, referenciando o seu agir sobre uma situação determinada. Com isso quero dizer
que apesar de inseridos em determinadas “condições de vida” que conformam seu campo
de ação, e que traduzem processos excludentes, os moradores das favelas não respondem
reativamente a elas, mas atravessados por sua experiência histórica, suas representações
sociais e culturais que implicam uma determinada forma de apropriação da realidade e as
possibilidades de ação sobre ela.
A este respeito, uma mediação fundamental na compreensão da experiência da
inclusão precária, e das práticas aí forjadas, é uma análise sobre a forma como os processos
em questão se desdobram nas favelas do município, conectando-se com as experiências
gestadas historicamente nestas localidades.
Sigo, então, ensaiando uma reflexão baseada, sobretudo, na experiência acumulada
ao longo de meu trabalho como pesquisadora, coordenadora e assessora de projetos sociais
em favelas. 42
O que vejo, nas favelas do município do Rio Janeiro, é que os movimentos em
curso, de produção de novas desigualdades e reprodução de antigas, vão atingindo todos,
cerceando cada vez mais o campo de ação dos moradores e trazendo desafios aos que
buscam possibilidades de ação. Os caminhos parecem separar muitos e esgarçar antigas
sociabilidades, fundadas numa história comum de luta pela produção do espaço de vida.

42
Considerando as idas e vindas destas experiências, e o caráter informal de muitas delas, é difícil
demarcar os “lugares” de observação e análise. Porém, grande parte das informações e reflexões
aqui presentes, particularmente as observações referentes às iniciativas sociais nas comunidades
são baseadas na já referida pesquisa Redes Sociais de Solidariedade na Leopoldina, desenvolvida
pelo CEPEL (Centro de Estudos e Pesquisa da Leopoldina). Encontram-se registradas na
publicação Conhecendo a Leopoldina: algumas iniciativas sociais (1999)

86
Diferentes templos religiosos se multiplicam, operando com a reinclusão dos
“descartados”. E com eles vão se configurando cada vez mais as fronteiras que separam o
“Bem” do “Mal”. E assim, temos o evangélico e o macumbeiro, o crente e o católico 43 .
Ao mesmo tempo, o papel das lideranças comunitárias se esvazia da dimensão
política que em outras épocas a caracterizara. Atuando como braço do Estado e(ou) do
narcotráfico, dificilmente é percebida como expressão da vontade coletiva. Desaparece aí
toda sua credibilidade.
No mundo do tráfico, as divisões criam mais do que fronteiras dentre aqueles que
nele estão inseridos ou dele se aproximam. Atuam sobre a vida cotidiana dos moradores,
delimitando seus passos, seu espaço e seu tempo. E mais do que isso, referenciam o
horizonte das novas gerações, produzindo abismos, onde antes havia pelo menos empatia.
O único inimigo visível é o “alemão”, aquele que ocupa outro território. Assim, este
mundo vai detendo cada vez mais controle sobre esferas das relações sociais nestas
localidades.
Este colorido cinzento possivelmente é o tom mais forte da paisagem que se
delineia nestas localidades pobres, mas certamente não é o único. Dentro do mesmo
processo, como outra face da moeda, o desencontro que atinge a todos, recoloca também a
cada instante a ação compartilhada como caminho necessário, levando a formas de
reprodução social que, ainda que precárias e subordinadas, forjam novos laços e espaços,
anunciando possibilidades de ação.
Estas novas formas vão sendo gestadas, reelaborando experiências históricas
passadas e incorporando os novos impasses que se apresentam no campo de ação. Assim,
vão crescendo as iniciativas coletivas, muitas delas produzidas fora da esfera que antes
assumia o desenvolvimento comunitário: as associações de moradores. Grande parte
trazidas por instituições ou grupos religiosos, de diferentes orientações, que vêm
ampliando seu raio de ação, reforçando sua antiga proposta assistencial, mas atuando cada
vez mais no desenvolvimento social. Têm seus projetos bastante valorizados já que os
moradores das favelas sentem-se mais seguros participando de atividades realizadas por
instituições nas quais confiam. Porém, há também um conjunto de grupos ou entidades
leigas que se voltam para as áreas de educação, saúde, cultura e lazer. Freqüentemente,

43
José de Souza Martins chama atenção para o fato de que fundamentalismo pentecostal explica-se
sociologicamente, em grande parte, pela recusa da condenação da pobreza. “ Ele opera com a técnica social
de reinclusão dos desesperados e até de reinclusão preventiva dos condenados ao limbo da sociedade atual”
(1997).

87
aquelas iniciativas que apresentam mais visibilidade, mas nem sempre maior fôlego,
recebem recursos do próprio poder público ou mesmo administram projetos
governamentais, cumprindo um papel que outrora era executado pelo Estado. Mas talvez
não seja exagerado afirmar que todas experimentam uma grande instabilidade no que se
refere aos recursos financeiros e humanos, precisando redobrar seus esforços para manter
suas atividades e serviços.
Tais iniciativas estão se desdobrando em novos caminhos de ação coletiva e
possivelmente criando também outras formas de sociabilidade. Isso porque, são produzidas
no âmbito dos processos de inclusão precária que trazem novas imagens de desigualdade e
pobreza, fazendo crescer os desafios das populações empobrecidas e levando-as à
necessidade de reinventar suas ações coletivas. Nesta nova sociabilidade, antigas
referências, tão caras aos moradores das favelas, estão sendo reelaboradas, abrindo espaços
a práticas diferenciadas e assumindo outros significados. Possivelmente, família e trabalho
estão entre as referências que passam por expressivos processos de mudança.
Vários estudos sobre a dinâmica social das favelas e áreas das periferias
metropolitanas destacaram o papel da família enquanto unidade de produção e consumo,
onde são elaboradas as estratégias de sobrevivência no urbano 44 . No entanto, de fins dos
anos 70/anos 80 para cá, muita coisa mudou na paisagem das favelas e várias destas
mudanças tiveram especial impacto sobre as famílias trabalhadoras. Aumentou o número
de creches, ainda que este serviço esteja aquém das necessidades da população. O
desemprego vem crescendo, agindo de forma direta e violenta nas famílias. Explode não só
com o orçamento e os arranjos domésticos, mas muitas vezes com as relações familiares,
recolocando aí o papel dos homens trabalhadores. Levando também cada vez mais as
mulheres a sair em busca de trabalho. Atuando ainda sobre a vida das crianças e jovens,
fazendo aumentar sua procura precoce por um oportunidade de trabalho, num mercado que
torna-se mais e mais limitado e seletivo. Alcoolismo e dependência química, depressão,
abandono escolar, violência familiar são imagens de problemas, antes presentes nas
famílias trabalhadoras, que têm se acentuado nos últimos anos. Problemas que os serviços
de educação, saúde e assistência social não chegam a responder. Tornando-se crônicos e
exigindo um investimento constante de recursos, eles são relegados à segundo plano e

44
Dentre estas estratégias, impunha-se muitas vezes a não inserção das mulheres no mercado de trabalho,
obedecendo a uma necessidade colocada no âmbito da própria família e aí respondida. A respeito das
reflexões voltadas para a questão da família, destacam-se o trabalho de Eunice Durham (1984; 1988) e
Teresa Pires Caldeira (1984), dentre outros.

88
deixados sob o domínio de iniciativas da sociedade, especialmente aquelas atuantes nas
favelas. 45
E aí cabe perguntar: até que ponto estas iniciativas não vêm ocupando parte do
papel antes assumido pela família trabalhadora na reprodução social de seus membros?
Temos claro que a reprodução nunca se reduziu ao núcleo doméstico e que a família
trabalhadora constitui-se em escala ampliada, agregando parentes e muitas vezes vizinhos.
Porém, possivelmente, mais do que nunca esta reprodução está sendo assegurada também
através de outras esferas. Especialmente nas igrejas e grupos religiosos, onde ela,
redefinida, encontra uma rede de apoio. Ou mesmo através do mundo local do narco-
tráfico, por onde alguns dos membros familiares circulam ou são estreitamente ligados.
Com efeito, a rede do narcotráfico cresce e com ela aumenta o número de pessoas que aí
ingressam. Vivas, representam uma alternativa a mais no orçamento familiar. Mortas ou
mesmo presas, significam uma violenta perda objetiva e subjetiva para as famílias.
Já quando o olhar recai sobre a referência do trabalho na vida das favelas, a
lembrança logo evocada é da época em que ele marcava a identidade daqueles que ali
viviam. Dedicando-se em sua maioria a diferentes atividades do setor de serviços, ou
atuando no mercado informal, estes moradores dificilmente se reconheciam por seu lugar
na produção. Era o espaço de moradia comum e a luta pela sobrevivência no urbano que
reforçava seus vínculos. No entanto, a inserção subordinada destes moradores no
ordenamento de uma sociedade, onde a carteira de trabalho era a identidade do trabalhador,
bem como a localização desigual e a estigmatização das favelas no espaço urbano, deu ao
trabalho um significado especial, que vai além de sua importância na sobrevivência
econômica. Na dinâmica das relações locais e no confronto com poderes supralocais,
especialmente a polícia e autoridades públicas, ele afirma o lugar e a identidade do
trabalhador, aparecendo articulado à honra. (Alvito 1996) 46 .

45
É tendo em vista tais problemas sociais, que Valla discute a necessidade de um duplo caminho no âmbito
das relações Estado e Sociedade Civil: não se abre mão do confronto com o Estado, no sentido de exigir
investimentos em políticas sociais, mas ao mesmo tempo, iniciativas da sociedade civil organizam-se,
respondendo a tais problemas sociais, que elas encontram-se em melhores condições de solucionar. A
organização de tais iniciativas abre caminho a um fortalecimento da sociedade civil e na organização de seus
setores, de forma a demandar maiores investimentos do Estado(1998; 2000).
46
Em seu artigo A Honra de Acari, Marcos Alvito chama atenção para este fato, destacando que a honra não
é igual para todos, depende da posição da pessoa na hierarquia local e da observância, por parte da mesma, de
um comportamento condizente com sua posição em termos de status, idade ou gênero. (Alvito 1996). Assim,
ainda que aparentemente caminhe no sentido historicamente construído pela ideologia burguesa do trabalho,
o valor trabalho aqui se afasta dela, uma vez que tem estreita articulação com as relações de reciprocidade
local, e confere especial significado à honra. A ideologia burguesa do trabalho não incorpora a reciprocidade,
mas se fundamenta na relação indivíduo-sociedade que marca a modernidade, trazendo uma imagem onde,

89
Nos novos tempos, o valor trabalho não deixa de sofrer o impacto das mudanças,
que se desdobram mais especialmente através do avanço do desemprego e da expansão do
narcotráfico. Numa sociedade onde há violenta diminuição de alternativas de emprego, e
mesmo de trabalho no mercado informal, os mecanismos de controle social são
redefinidos, não se apresentando mais diretamente associados à inserção dos pobres na
produção propriamente dita. Confinada na gaveta, sem perspectiva de uso, a carteira de
trabalho perde seu significado especial.
Com a expansão do tráfico, mais do que nunca, as localidade pobres da cidade
aparecem associadas à violência, tornando qualquer pobre suspeito. A confusão de
imagens entre trabalhador e bandido assume maior dimensão, desdobrando-se na dinâmica
das favelas, produzindo novas alternativas e trazendo mudanças às redes de relações locais
e extra locais, com novas práticas e valores se revelando.
Conforme diminui o número daqueles que têm emprego e mesmo trabalho, e o
mundo do narcotráfico se dissemina, muitos circulam neste mundo, por onde asseguram
sua sobrevivência e sua afirmação no espaço local. Mal podem sair de seus locais de
moradia, sem correr o risco de serem mortos, mas acessam os bens de consumo material e
simbólico, não deixando de traduzir a forma através da qual se inserem precariamente no
sistema. Seria o caso de interrogar se não se opera aqui o que Martins denomina de
reinclusão ideológica pois:

(....) a exclusão “ não só produz ela uma reinclusão em relações precárias e


marginais, como produz também uma reinclusão ideológica no imaginário da
sociedade de consumo e nas fantasias pasteurizadas e inócuas do mercado,
qualquer que seja ele, até mesmo o mercado de valores sagrados da tradição ou
da dignidade humana.(....) A nova desigualdade separa materialmente mas
unifica ideologicamente” (1997: 22).

Porém, este não é o único, e tampouco o caminho mais acolhido pela maioria dos
moradores. Torna-se expressiva aqui a multiplicação das igrejas evangélicas, há muito
tempo já existentes nestas áreas, mas nunca tão fortes e numerosas.

no mundo da pobreza (ou das classes perigosas como eram vistos ao longo do século XIX/início do XX),
existem os trabalhadores virtuosos e honestos que diferenciam-se dos vadios, criminosos ou marginais.

90
(...) como não havia ambiguidade, o trabalhador não precisava reforçar sua
identidade de não bandido através do pertencimento a um in-group de
“crentes”, que por definição, encarnam o Bem contra o Mal e vivem de acordo
com normas de comportamento extremamente rígidas, marcando sua diferença
através de vestimentas mais longas, cortes de cabelo etc. (Alvito 1996: 155).

A integração através de grupos religiosos vai se configurando então como


alternativa que traz então ganhos objetivos e subjetivos. Inserido numa igreja ou grupo
religioso, o morador não é mais um desempregado. Pode ser um “trabalhador a serviço de
Jesus” e ainda conta com a possibilidade de ter acesso a algum benefício (serviços de
assistência social ou mesmo uma ajuda de custo).
Os jovens vão ao encontro de projetos que acenam com perspectivas de inserção
social e profissional. São iniciativas voltadas para a complementação ou apoio da
escolarização ou que oferecem cursos e atividades que buscam promover a entrada da
juventude no mundo do trabalho, como educadores, artistas, locutores de programas
radiofônicos etc. Para além das possibilidades entrevistas pelos jovens nestes cursos, sua
participação nestes espaços os desloca do lugar do suspeito , diminuindo a ambigüidade
que cerca sua imagem.
Conforme cresce o número de iniciativas sociais, muitos moradores integram-se
também a programas de desenvolvimento local existentes nas favelas, demarcando seu
espaço como “trabalhador na comunidade”.
Aumenta então o número dos chamados trabalhadores sociais. São principalmente
educadores comunitários que possuem um vínculo precário, sem nenhuma estabilidade e
garantia trabalhista. Muitos participam dos projetos de forma voluntária. Atuam, porém,
em vários serviços, levando para seu trabalho aquilo que nenhum curso ou programa de
capacitação é capaz de oferecer: sua experiência no trabalho comunitário e o conhecimento
das relações existentes nas favelas.
Os traços aqui desenhados expressam algumas das contradições do desencontro
entre o social e o econômico, bem como os deslocamentos produzidos no campo de ação
que ele configura. Traduzem processos de precariedade. Formas precárias e instáveis de
inclusão. E anunciam também os caminhos através dos quais aqueles que são chamados
“excluídos” movem-se no campo de ação. Alguns individuais, outros coletivos. Alguns
configurando o movimento que empurra as pessoas para dentro, como reprodutores

91
mecânicos do sistema. Outros, abrindo espaço à interpretação crítica de um desencontro
que se repõe e forjando busca de alternativas para superá-lo.
É em meio a este desencontro e suas contradições, e aos movimentos de diferentes
agentes sociais que aí se desenrolam, que localizo a fronteira, um terreno de programas e
iniciativas sociais, desenvolvidas nas favelas do município do Rio de Janeiro.

2. A fronteira: uma aproximação histórica

Para se não ser objeto dos problemas que se tomam para


objeto, é preciso fazer a história social da emergência desses
problemas, da sua constituição progressiva, quer dizer, do
trabalho coletivo – freqüentemente realizado na
concorrência e na luta – o qual foi necessário para dar a
conhecer e fazer reconhecer estes problemas como

92
problemas legítimos, confessáveis, publicáveis, públicos,
oficiais: podemos pensar nos problemas da família, do
divórcio, da delinqüência, da droga, do trabalho feminino,
etc. (Bourdieu 1989:37)

Inspiramo-nos em Bourdieu para iniciar destacando que temos aqui um


desafio. Um problema que foi se constituindo historicamente no campo científico: a
armadilha de se tornar objeto daquilo que se quer investigar.
No caso da abordagem do trabalho desenvolvido por aqueles que moram e
atuam nas favelas do Rio de Janeiro, dentro de um pedaço do mundo social que venho
chamando de fronteira, tal armadilha possui especial significado pois trata-se de um
terreno particularmente minado. Minado porque, lugar de debate e combate aos dilemas de
nossa sociedade, ele vem se forjando como palco privilegiado de mediação política, e
espaço onde as imagens e representações do mundo social se disseminam, assumindo
contornos que se projetam como sombras, sem origem definida. Sombras que freqüentam
as agendas políticas, a mídia e, por que não dizer? Nossas imaginações. Sombras que se
destacam como noções naturalizadas, como ocorre com o termo “comunidade”. Emergem
como espaços e grupos com identidades fixas, tais como áreas carentes”, “população
carente”, “crianças em situação de risco social”, “juventude” etc. Apresentam-se como
dicotomias cristalizadas, como por exemplo, aquelas que opõem: “comunidade X asfalto”,
“dentro X fora”. Ou ainda, espalham-se como “grandes problemas sociais” que ocupam as
páginas dos jornais e o horário nobre da TV.
O que há em comum em todas estas imagens e representações é que elas
tomam formas cada vez mais autônomas, descolando-se do mundo histórico social. Com
isso, perde-se a dimensão mais global dos processos subjacentes a sua constituição. E
termina-se por transformar agentes sociais em bandidos, heróis ou vítimas que criam os
problemas, as respostas a tais problemas, ou a eles reagem passivamente.
Mas há ainda uma outra razão para fronteira apresentar-se como um terreno
particularmente minado aqui. Pesquisando e atuando como coordenadora e consultora de
projetos sociais, encontro-me mergulhada neste terreno e, digamos, com todas estas
“sombras” em minha imaginação. Daí, buscar o exercício daquilo que Bourdieu chama
dúvida radical, procurando trilhar um caminho que me permita não ser “objeto dos

93
problemas que tomo como objeto” e por em causa minha prática de pesquisa (1989: 34-
35).
Neste exercício, boa vontade e estar alerta, não bastam! Sabemos. É preciso
mais para enfrentar as “sombras” que freqüentam nossos caminhos. Se bem dialogo com a
reflexão do autor, é necessário por em causa as representações produzidas e acumuladas
sobre o tema com o qual trabalhamos, recorrendo a uma “história social da emergência” de
alguns problemas que ele abriga.
É considerando isso que busco uma aproximação histórica com o terreno
que chamo de fronteira. Ela apresenta-se como uma necessidade metodológica da
pesquisa, fornecendo uma das principais “as armas” para a abordagem do trabalho social e
do mundo em movimento que venho estudando. O objetivo aqui, não é reconstituir a
história da fronteira, mas sim levantar pistas que permitam localizar sua emergência e
alguns traços que se tornaram constitutivos de sua dinâmica, a fim de avançar na
compreensão deste terreno e nas principais representações e imagens aí abrigadas.

2. 1. Tempos remotos, tempos vivos: a favela nas primeiras décadas do século XX

Começo revendo dois episódios. Episódios próximos. Nada remotos. E que


fazem parte da história desta pesquisa. O primeiro, 2001, presenciado por mim, por ocasião
de uma oficina sobre a formação das favelas no Rio de Janeiro, realizada junto a “agentes
comunitárias” da Secretaria Municipal de Habitação, e a moradores da favela, aonde foi
realizado o evento. No encontro, relatei a destruição do Cabeça de Porco, famoso cortiço
carioca. Pude observar então que a narrativa da “operação de guerra” que pôs fim ao
cortiço carioca, em 1892, não surpreendeu a qualquer um dos presentes. Ao contrário, em
meio a sorrisos, entreolhares e comentários, dialogaram abertamente com o relato.
O segundo episódio aconteceu alguns anos depois, quando eu acompanhava,
como observadora, um curso realizado junto a trabalhadoras sociais das favelas do Rio de
Janeiro. Discutia-se então a história das políticas públicas em relação às habitações
populares, e os estereótipos e conteúdos estigmatizantes nelas presentes. Ruth, supervisora
de área da Secretaria Municipal de Habitação e uma das responsáveis por um projeto
voltado para a memória das favelas do Rio de Janeiro afirmou então: “desde o cortiço, há
o estigma ‘gente de mente perigosa’, ‘gente perigosa’, todo mundo tem medo; a favela tem

94
ainda isso, o estigma de gente perigosa’”. Em seguida, para comprovar a força do estigma,
voltou vinte anos no tempo, recordando a época em que trabalhara numa loja da zona sul
da cidade, quando negara o fato de morar na favela: “prá você ver como o estigma é, eu
neguei; eu pensei depois, eu neguei durante um ano” 47 .
Nos dois casos, o que aconteceu foi que as moradoras de favelas cariocas
encontraram na era dos cortiços registros que ainda ecoam em suas vidas e que esclarecem
aspectos da realidade em que vivem. São registros constitutivos de suas experiências, com
as quais elas se defrontam em seu cotidiano. Registros que indicam imagens que foram
construídas historicamente e que não ficaram no passado, já que se repõem a todo instante
nas vidas de pessoas como elas.
“Gente perigosa” traduz bem o que estou aqui afirmando. A expressão,
mencionada por Ruth, faz referência a “classes perigosas”, um termo usado em fins do
século XIX para identificar a população pobre da cidade. A expressão desapareceu, mas a
idéia que ele evoca se reatualiza no cotidiano da cidade, a despeito das conquistas obtidas
pelos movimentos das favelas, muitas das quais colocaram em questão representações
sociais a respeito destas localidades. Ela fez história e escola, como podemos perceber no
próprio imaginário social que nos cerca neste novo milênio.
Por isso, estou eu aqui em busca de tempos remotos. Aquém dos anos 40 do
século passado, quando se dá o início de políticas públicas e iniciativas mais sistemáticas
em relação às favelas, e por isso marco inaugural da intervenção social nestas localidades.
Para aproximar-se do terreno da fronteira, é necessário aqui escavar alguns
registros da época em que a favela aparece no espaço da cidade e, segundo pesquisas
recentes, se torna alvo de preocupação de autoridades públicas. (Zaluar& Alvito 1998;
Valladares 2000). Considero que esta projeção da favela como “problema” alimentou a
retórica estigmatizadora das autoridades, e outros agentes sociais. Foi-se constituindo um
leque de representações que não ficaram para trás e encontram-se inscritas na tessitura da
fronteira.
“Gente perigosa” traduz bem o que estou aqui afirmando. A expressão,
mencionada por Ruth, faz referência a “classes perigosas”, um termo usado em fins do
século XIX para identificar a população pobre da cidade. A expressão desapareceu, mas a
idéia que ele evoca se reatualiza no cotidiano da cidade, a despeito das conquistas obtidas

47 Relatório de observação do Curso ministrado pela Profa Neiva Vieira da Cunha, promovido pela
Agenda Social Rio, 2003.

95
pelos movimentos das favelas, muitas das quais colocaram em questão representações
sociais a respeito destas localidades. Ela fez “história” e “escola”, como podemos perceber
no próprio imaginário social que nos cerca neste novo milênio.
Volto então ao tempo, tempo do uso de “classes perigosas”, fins do século
XIX. Este é um tempo em que o país passa por mudanças econômicas, políticas, sociais e
culturais, que vão repercutir nos espaços urbanos, particularmente na cidade do Rio de
Janeiro, então capital do país. Mudanças que, como vimos, marcam a crise do escravismo e
a Abolição, o estabelecimento de novas formas de exploração do trabalho e ainda, a
implantação da República no Brasil e a redefinição das estruturas de dominação.
É neste momento histórico que é destruído o Cabeça de Porco, cortiço
mencionado por Ruth48 . Destruição que, de acordo com Chalhoub, nos evoca as
intervenções violentas das autoridades no cotidiano da cidade, “tradição que foi
inventada”, “que tem a sua história”. Uma destruição que envolveu uma verdadeira
operação de guerra, da qual participaram várias autoridades públicas, técnicos e
empresários. E que anuncia o fim da era dos cortiços e o início do século das favelas
quando, inaugura-se toda uma forma de conceber a gestão das diferenças sociais na cidade,
que atualmente nos é bastante familiar. Tão familiar que nos acostumamos a pensar que ela
não tem uma história. Ainda, segundo o Chalhoub, nesta forma de conceber as diferenças
sociais na cidade estão colocados alguns aspectos fundamentais:

48 Ainda no início do século XIX, o Rio de Janeiro não era uma cidade
estratificada em termos de classes sociais. Abreu destaca que a falta de meios de
transporte coletivo e as necessidades de defesa faziam com que todos morassem
relativamente próximos uns aos outros, e a elite local diferenciava-se do restante
da população mais pela aparência de duas residências do que pela localização das
mesmas (1988: 35). Além disso, é importante lembrar que no escravismo, a
estratificação social regulada por lei, e a centralidade dos mecanismos de controle
e coerção dentro da unidade produtiva, não projetava a convivência das
desigualdades no espaço urbano como um “problema” . Foram as transformações
na cidade, sob duas lógicas distintas (escravista e capitalista), ao longo do século
XIX, e os conflitos daí advindos que se refletiram no espaço urbano colocando em
questão a velha estrutura marcada pela concentração de usos classes sociais.
(Abreu 1988; Vaz 2002)

96
ƒ o primeiro é a construção da noção de que “classes pobres” e “classes perigosas”- para
usar a terminologia do século XIX – são duas expressões que denotam, que descrevem
basicamente a mesma realidade 49 ;
ƒ o segundo refere-se ao surgimento da idéia de que uma cidade pode ser apenas
“administrada”, isto é, gerida de acordo com critérios unicamente técnicos ou científicos.
(...) (1996)

A associação entre “classes pobres” e “classes perigosas” pode ser


compreendido a partir da já referida crise do escravismo e a implantação das formas de
trabalho livre no Brasil, com a configuração de novos mecanismos de controle social, bem
como a formulação de uma nova noção de trabalho. Primeiro, o ajustamento de
mecanismos jurídicos e policiais de controle social e intervenção nos espaços de produção,
moradia e lazer, que culminam com a reforma das instituições policiais no início do século
XX e a criação da escola de polícia, em 1912. O ajustamento vinha responder ao medo
branco, que se manifestava na imprensa carioca através de um debate sobre o aumento da
criminalidade, e de reivindicações, como o reaparelhamento da polícia, e maior repressão e
controle sobre os espaços da cidade (Neder 1997). O segundo movimento nos leva à
construção de um conceito de trabalho, procurando lhe atribuir uma valoração positiva,
elevando-o a um bem, valor supremo de regulação social e de moralização do indivíduo,
associando-o a noções como “riqueza”, “ordem”, “progresso”, “civilização”. Uma
construção que envolve também a produção de conceitos invertidos, como vadiagem e
ociosidade. Juntos, os dois movimentos buscam a subsunção do trabalho ao capital, tendo

49 De acordo com Sidney Chalhoub a expressão classes perigosas parece ter


surgido na primeira metade do século XIX, quando a escritora inglesa Mary
Carpenter em um estudo sobre criminalidade e “infância culpada” utiliza o termo
para referir-se a pessoas que já haviam passado pela prisão ou que haviam optado
por conseguir seu sustento e de sua família através da prática de furtos e não do
trabalho. O deslizamento do termo, associando-se à classes pobres, certamente faz
parte dos conflitos que marcam a segunda metade do século XIX, na Europa e em
todo mundo, quando então se dá a consolidação do capitalismo e da ordem política
e social burguesa. No Brasil, o termo esteve presente num debate parlamentar
ocorrido na Câmara dos Deputados nos meses que se seguiram à lei da abolição da
escravidão, em maio de 1988, quando então se discutia um projeto de lei sobre a
repressão à ociosidade. A comissão parlamentar encarregada de analisar o projeto,
buscando fundamento em autores franceses, produz uma associação entre classes
perigosas e classes pobres (1996).

97
como o alvo a “mente” ou “espírito” dos homens livres, e a ação direta sobre seus corpos,
através da vigilância policial (Chalhoub 1986).
Dentro destes dois movimentos é que podemos compreender a adoção da
noção de classes perigosas, e sua identificação mecânica com as classes pobres. Em meio
ao processo de mudanças que marca o fim da escravidão, esta identificação permitiu dar
uma resposta à organização das relações de trabalho pois:

Já que não era mais possível manter a produção por meio da propriedade da
própria pessoa do trabalhador, a ‘teoria’ da suspeição generalizada passou a
fundamentar uma estratégia de repressão contínua fora dos limites da unidade
produtiva. Se não era mais viável acorrentar o produtor ao local de trabalho,
ainda restava amputar-lhe a possibilidade de não estar regularmente naquele
lugar. Daí o porquê, em nosso século, de a questão da manutenção da ordem
ser percebida como algo pertencente à esfera do poder público e suas
instituições específicas de controle – polícia, carteira de identidade, carteira de
trabalho etc; na verdade, até 1871, não existia sequer algum registro geral de
trabalhadores. (Chalhoub 1996: 24)

O outro aspecto citado - a noção de que a cidade pode ser gerida apenas de
acordo com critérios técnicos e científicos - nos remete à ideologia do higienismo que
começa a se configurar em meados do século XIX. Fundamentada numa visão dual que
opunha herança “colonial” e “civilização”, o higienismo concebia que as políticas urbanas
deveriam ser guiadas por um conjunto de princípios e técnicas específicas, capazes de levar
o país à civilização.
Num momento em que o país passava por um conjunto de mudanças, cujo
impacto nas cidades desafiava as forças sociais dominantes e autoridades públicas, o
higienismo acabou por enraizar-se na visão de mundo e ação de vários segmentos sociais.
Mas foi apenas nas primeiras administrações republicanas que ele contou com condições
históricas para afirmar seu lugar nas políticas para o urbano 50 .

50 Segundo Chalhoub, “a afirmação da Higiene como a ideologia das


transformações urbanas da virada do século esteve longe de ser um processo linear
e sem conflitos”. Através de uma profunda pesquisa documental, o autor recupera
alianças e confrontos configurados neste processo, destacando os obstáculos

98
A gestão técnica e científica da cidade assumiu maior visibilidade no Rio de
Janeiro, palco central do movimento que proclamou a República, e arena de decisão dos
destinos nacionais, abrigando inúmeras disputas e lutas. Ela constituiu-se mesmo num dos
caminhos da domesticação política daquela que era então capital do país, e onde todos os
acontecimentos, por mais banais que fossem, assumiam grandes proporções, ressoando
pelo país inteiro. Onde diferentes agentes sociais – políticos republicanos e monarquistas,
militares, operários, pequenos proprietários, funcionários públicos – mobilizavam-se e
manifestavam-se, buscando intervir nos rumos da República (1987 :22). 51
Importante destacar que a noção de gestão técnica e científica dialogava
com uma concepção positivista da República que enfatizava, por um lado, a idéia de
progresso pela ciência, e de outro, a “ditadura republicana”, o que reforçava a ação
tecnocrática e autoritária (Carvalho, 1987). Dentro de tal perspectiva, a cidadania não
incluía direitos políticos, apenas os civis e sociais.

Como vetava a ação política, tanto revolucionária quanto parlamentar,


resultava em que os direitos sociais não poderiam ser conquistados pela
pressão dos interessados, mas deveriam ser concedidos paternalisticamente
pelos governantes (Carvalho 1987: 54)

É em meio a uma capital mergulhada em constante efervescência, que se


configurou a convergência de interesses que articularam o nascente Estado Republicano, a
Ciência e o Capital, com a incorporação dos discursos higienistas contra as habitações
populares tanto pelas autoridades públicas, quanto pelos empresários. As primeiras,

impostos à sua difusão pelos mecanismos institucionais da monarquia. As medidas


que propunham, o fechamento de cortiços e estalagens, esbarravam no pacto
liberal de defesa à propriedade privada (Chalhoub 1996: 36)
51 José Murilo de Carvalho destaca que, nos anos iniciais da República, a
neutralização da influência da capital na política nacional representou um dos
desafios para aqueles que iam tomando as rédeas do novo regime, e também para
os grupos ligados à exportação que tinham seus negócios afetados pelas crises
econômicas e financeiras. A maneira indireta de neutralizar a capital foi o
fortalecimento dos estados, com a construção de um arranjo político que garantia
às oligarquias o domínio local e a participação no poder nacional, obra política
construída por Campos Sales em 1900. Outro caminho foi viabilizado a nível local,
com a decretação da lei orgânica do Distrito Federal, que previa a nomeação do
prefeito pelo Presidente da República, com aprovação do Senado Federal, o que
acabou por abrir caminho à despolitização do governo municipal (1987)

99
preocupadas com o ordenamento da capital da República e sua elevação ao status de cidade
moderna. Os empresários, atentos às oportunidades de investimentos abertos com a
expansão e as transformações urbanas no Rio de Janeiro.
A noção de gestão técnica e científica da cidade, inscrita nesta aliança de
interesses, pautava-se pela perspectiva de submeter a política à técnica, supondo que
haveria uma forma “neutra” de gestão dos problemas da cidade e das diferenças sociais
nela existentes. Forma esta que abria o caminho para a “civilização”. No entanto, como
bem diz Chalhoub, “o que se declara literalmente, é o desejo de fazer a civilização nos
trópicos; o que se procura, na prática, é fazer política deslegitimando o lugar da política na
história” (1996: 35)
Com efeito, o que podemos observar é que a aliança de interesses entre
Estado, Ciência e Capital foi forjando uma concepção de cidade modernizada e um projeto
de sociedade que interveio sobre a diversidade urbana, recriando velhas diferenças e
produzindo novas desigualdades. Na capital da República, tal aliança deu base a um
processo de segregação no espaço urbano, deslanchado com a urbanização de fins do
século XIX, mas que atingiu sua maior expressão nos primeiros anos do século XX com as
Reformas de Pereira Passos, resultantes de uma ação conjunta dos governos federal e
municipal. As obras de saneamento e embelezamento da cidade implementadas no governo
de Pereira Passos, conhecidas na época como “bota abaixo”, renovaram a área portuária,
alargaram ruas e abriram avenidas, eliminando grande parte das habitações populares
existentes no centro (Vaz 2002: 51). A “cidade européia”, daí resultante, diferenciou-se das
áreas para onde os trabalhadores pobres, geralmente negros foram empurrados: os morros e
a periferia (Neder 1997: 113).
Mauricio Abreu ressalta que dentre outros aspectos, o período Passos tem
sua importância associada ao fato de constituir-se num exemplo de como as contradições
do espaço, ao serem resolvidas, muitas vezes geram novas contradições para o momento de
organização social que surge.

É a partir daí que os morros situados no centro da cidade (Providência, São


Carlos, Santo Antônio e outros) até então pouco habitados, passam a ser
ocupados, dando origem a uma forma de habitação popular que marcaria
profundamente a feição da cidade neste século – a favela (1988: 66)

100
Lilian Vaz, recuperando o próprio Abreu, avalia que depois das reformas, a
crise da habitação popular, que já atingia a cidade, não apenas acirrou-se como deslocou
seu eixo: passou da forma para o espaço da habitação, da moradia em si para seu habitat. A
habitação popular deixou então de ser associada a uma construção – o cortiço – para ser
identificada a uma área – a favela (Vaz 2002:53).
Todo este processo de transformações do espaço urbano não implicou
apenas na separação de atividades e de classes sociais, com a formação de áreas distintas
para moradia e trabalho, e para ricos e pobres. Ao intervir nos espaços de moradia e
trabalho dos trabalhadores pobres, a gestão técnica, científica e autoritária da cidade
procurou atingir seu modo de vida, suas formas culturais e suas manifestações políticas.
Ela envolveu também projetos de controle social que redefiniram a ação policial e
moldaram os padrões de conduta e sociabilidade no espaço urbano carioca. (Neder 1997).
Exemplo disso foram as posturas implementadas por Pereira Passos, tais como:
recolhimento de mendigos a asilos, proibição de cães vadios e vacas leiteiras na rua, da
cultura de hortas e capinzais, da criação de suínos e da venda ambulante de bilhetes de
loteria. Tais medidas vinham controlar a experiência de vida e trabalho dos moradores da
cidade, especialmente ambulantes e mendigos (Carvalho 1987: 95). Outro exemplo, foi a
luta contra os quiosques, estabelecimento de comércio popular construído nas calçadas, e
ao redor do qual moradores pobres da cidade se reuniam para beber e conversar,
particularmente os trabalhadores autônomos que se encontravam nestes espaços enquanto
esperavam a freguesia (Chalhoub 1986: 174).
O que destacamos acima nos leva a pensar que o quadro da cidade do Rio de
Janeiro, era uma paisagem em movimento, onde as mudanças e, de forma particular, cada
reforma ou medida do poder público causava um profundo impacto na experiência social
daqueles que aqui viviam.
Por isso mesmo, não podemos conceber que, nesta paisagem em
movimento, apenas os agentes sociais que assumiam as rédeas da “modernização da
capital” se moviam. A literatura acadêmica voltada para o período vem investindo esforços
em demonstrar as contradições entre os processos que colocavam esta paisagem em
movimento, e o deslocamento dos outros agentes sociais, aqueles duramente atingidos
pelos processos econômico-sociais e políticos, e mais particularmente pelas reformas
urbanas que marcaram a época. Lílian Vaz, por exemplo, indica as alternativas
encontradas pela população pobre para responder à crise de habitação (2002). Chalhoub

101
recupera aspectos da experiência de vida e trabalho dos trabalhadores, apontando os
caminhos que criavam respostas a situações adversas, tais como redes de solidariedade,
compadrio, a distensão do grupo familiar para além da família nuclear. Levanta ainda
como os populares burlavam os mecanismos de controle social, criando um código próprio
que permitia não apenas sua sobrevivência como também o ajuste de tensão dentro de seu
grupo sócio-cultural. (Chalhoub 1986). José Murilo Carvalho, analisando a Revolta da
Vacina, indica como o vigor dos valores e prática do universo dos trabalhadores pobres
constituía-se em um perigo à estabilidade e ordenamento da sociedade já que abria brechas
para participação e mobilização popular. E fala ainda das “repúblicas” do Rio, vindas do
Império, que continuaram a viver e renovar-se, a despeito da invenção da nova cidade
criada pela República. O mundo subterrâneo da cultura popular que engoliu aos poucos o
mundo subterrâneo da cultura das elites. (1987)
Resta recordar que foi este o tempo da difusão da imagem de dois mundos
inteiramente incomunicáveis nos centros urbanos: um mundo ligado à riqueza e à
civilização e, outro da miséria, da ociosidade, do crime. E também dos dois mundos
compondo a imagem do Brasil: a cidade empreendedora, símbolo do progresso, se opondo
ao campo atrasado e preguiçoso. Uma dualidade que já vinha sendo gestada no século
anterior, quando, de acordo com Eunice Durham, foi explorada nos relatos dos viajantes do
século XIX, onde:

Afirmava-se a existência de uma dualidade fundamental através da qual se


opunha, de um lado, a tecnologia rudimentar e a organização patrimonial do
sistema tradicional, retrógrado e pobre, baseado nas relações de dominação,
lealdade e obrigações mútuas; de outro, um sistema capitalista industrial em
expansão progressista e rico, fundado na concepção do lucro, na racionalização
do processo produtivo, na burocratização das instituições, na impersonalidade
das relações interpessoais 52 .

Estes retratos contrapostos da realidade brasileira, incansavelmente


analisados e veiculados, tanto pelas forças sociais que assumiam as rédeas da República
quanto pelos críticos do governo republicano, foram sendo reelaborados na tessitura

52 Durham 1973: 8 e 9, citado por Zaluar & Alvito 1996: 12

102
conflituosa da sociedade brasileira e, em relação ao que nos interessa mais particularmente,
do mundo urbano. Aqui, chama atenção:

(...) o quanto a pobreza fazia parte da experiência de uma sociedade em


mudança, que se queria moderna e civilizada, na direção de um progresso
sintonizado com o padrão europeu. O tema do progresso, verdadeira obsessão
da época, montava um horizonte simbólico que construía as figuras de um
presente dilacerado entre os símbolos nos quais as elites se reconheciam
satisfeitas de sua própria modernidade e os sinais de um atraso associado à
incivilidade popular e que gerava desconforto, horror e temor diante de uma
realidade que encenava o avesso da sociedade que se queria construir (Telles
1999: 107)

É, nesta tessitura conflituosa da sociedade brasileira, negada através de


imagens de dois mundos contrapostos, que a favela surge. Surge numa sociedade em
mudança, marcada pela produção de novas desigualdades e pela segregação do espaço
urbano, com a delimitação dos usos do espaço para moradia e trabalho, ricos e pobres. Por
visões e práticas que procuravam controlar o popular, delimitando seu espaço na cidade,
reprimindo suas formas de expressão, disciplinando seu modo de vida, e colocando-o
“sob suspeição”. Surge naquela que era então a capital do país, centro das atenções da vida
nacional. E alvo de investimentos políticos, econômicos e técnico científicos, capazes de
adequá-la aos interesses e padrões culturais inscritos na aliança de interesses entre os
agentes sociais que alimentaram a gestão técnica e científica da cidade.
Neste processo de formação das primeiras favelas, é bom lembrar, as
conexões entre as duas formas de moradia popular, que vêm sendo apontadas por vários
estudiosos. Chalhoub, inspirado em pesquisa de Liliam Vaz, levanta a possibilidade dos
ex-moradores do Cabeça de Porco terem aproveitado o material da demolição do cortiço e
subido o morro por detrás da estalagem que, depois será ocupado por soldados que
voltaram da guerra de Canudos 53 . Assim como Abreu, conforme análise já aqui citada,

53 O morro em questão é o atual Morro da Providência, considerada a primeira


favela carioca Liliam Vaz, recuperando um estudo de Mauricio Abreu, lembra que
a formação da favela de Santo Antônio, que desapareceu por volta de 1950, é

103
muitos pesquisadores chamam atenção para o fato de que a crise da habitação popular na
cidade, agravada com as reformas urbanas de Passos que deram fim a muitos cortiços,
levou parte da população a morar nos morros das áreas centrais da cidade, a fim de
permanecer próxima a seus locais de trabalho.
Lílian Vaz vai além e, observando que a favela da virada do século não era o
que entendemos hoje por esta palavra, levanta a hipótese de que quando ela surgiu
constituía uma forma intermediária entre o cortiço e a favela atual, entre o velho e o novo.
A conexão que une o velho e o novo se traduz na presença de casebres e barracões dentro
do grande cortiço- o Cabeça de Porco- e ainda, na existência no Morro da Favela de
habitações coletivas baixas e compridas, formadas pela sucessão de portas e janelas que
dificilmente poderiam ser auto construídas (2002:56). Outro ponto em comum entre
cortiços e favelas se revela na forma de acesso à habitação:

Há várias referências ao aluguel de barracos, de “cavas”, do “chão” e de


terrenos nas primeiras favelas. A questão da cobrança de aluguel remete à
forma de propriedade: algumas das primeiras favelas não resultaram de
invasões, mas de grupos de imóveis de aluguel. Alguns proprietários de
cortiços também possuíam imóveis de aluguel nas primeiras favelas (Vaz 2002:
57)

Além disso, segundo a mesma autora, a favela sofreu a ação do mesmo


processo sócioespacial que determinou o fim dos cortiços, um processo que trazia a
especialização funcional e social do espaço urbano, determinando áreas distintas para cada
categoria, segundo os diferentes usos do solo e as diferentes classes sociais. Por fim, a
ação do Estado também une a favela ao cortiço: a administração municipal que
inviabilizou a permanência das classes populares nas tradicionais habitações coletivas e
criou dificuldades ao deslocamento para os subúrbios, através de um incentivo
governamental, tolerou a construção de “barracões toscos nos morros que ainda não
tivessem habitações” (2002: 57) .
Junto a isso, podemos pensar outras conexões. Primeiro, a população não
sobe os morros levando apenas material de demolição dos cortiços, mas também formas de

anterior à Providência. Foi ocupada por praças de outro batalhão, também


retornados de Canudos (Vaz 2002).

104
sociabilidade, valores culturais e visões de mundo, inscritas na experiência do cortiço e que
eram tão ameaçadoras quanto aquelas. Outro aspecto a considerar é que, num momento em
que ganhava força a identificação classes pobres e classes perigosas, e avançava a gestão
técnica e científica da cidade, cortiço e a favela se unem como alvo de preocupação
política e análise de autoridades públicas e outros agentes social, e como matéria prima
para a construção de um imaginário estigmatizante.
Aqui, aproximamo-nos por fim do que mais nos interessa, que diz respeito à
compreensão da constituição da fronteira: as imagens produzidas acerca da favela, no
momento em que ela surge nesta paisagem em “movimento”.
A paisagem do Rio de Janeiro estava “em movimento”. Nesta paisagem, -
que recolocava o conflito social cotidianamente numa cena urbana em “reforma” e ainda, o
projetava na arena política nacional - o processo que desloca a questão da habitação
popular, da forma para o espaço, veio marcado também por uma mudança em relação aos
“objetos de suspeição”, a “gente perigosa”, referida por Ruth.
Assim como o cortiço, a favela foi alvo do olhar observador das autoridades
públicas e outros agentes sociais que tinham suas atenções voltadas para a cidade. Após a
campanha contra os cortiços, a favela passa para o primeiro plano quando se pensa e se
discute a cidade; é sobre ela que recai o discurso médico-higienista que condenava as
habitações anti-higiênicas. “Para ela se transfere a visão de que seus moradores são
responsáveis pela sua própria sorte e também pelos males da cidade” (Valladares 2002: 8).
Este olhar vinha referenciado pelos dois aspectos destacados por Chalhoub
e anteriormente citados: um ideário que associa mecanicamente classes pobres e “classes
perigosas”; e a noção da gestão técnica e científica da cidade, onde destaca-se a aliança
entre Estado, Ciência e Capital. Trata-se então de um olhar marcado por uma concepção
positivista de ciência e, mais particularmente, pela influência do higienismo. E, ainda, por
uma percepção de cidade, onde estava presente uma dualidade que deveria ser dissipada,
através do combate aos elementos que representavam “o atraso”, e ameaçavam o projeto de
instaurar a modernidade na cidade. Um atraso que era identificado em tudo aquilo que
contrastava com os signos da “civilização” e que evocava o passado colonial, a escravidão
e a monarquia. Identificado, particularmente, nas formas de moradia e na sociabilidade
popular, bem como em suas expressões culturais.
Zaluar & Alvito, através de alguns documentos da época, destacam pistas
que indicam como os morros cariocas, no início do século XIX, já eram alvo da

105
preocupação de autoridades, sendo percebidos como um duplo problema: sanitário e
policial. A solução ao “problema”– “cerco policial”, “a extinção dos casebres e pardieiros”
- também já encontra-se presente na visão das autoridades públicas da época, bem como de
outros segmentos da população, como comerciantes (1998).
Fazendo uma leitura a respeito do processo de construção social da favela,
antes que as ciências sociais entrassem em cena, Lícia Valladares destaca que as primeiras
imagens da favela foram legadas pelos homens das letras, jornalistas e reformadores
sociais do início do século XX. A despeito de suas tendências ideológicas e políticas
distintas, propósitos diferenciados em suas visitas aos morros, todos partilhavam de um
entendimento comum do que eram os novos territórios de pobreza que surgiam na cidade,
e estavam informados por um mesmo mundo de valores e idéias, a ponto de “participarem
da construção de um arquétipo”, “de uma imagem padrão que se tornou consensual a
respeito deste ‘mundo diferente’” (2002: 8).
Valladares lembra ainda que foi especialmente o Morro da Favela que
concentrou toda a atenção e despertou iniciativas das autoridades, chegando a ser objeto de
estudo do engenheiro Backheuser, escolhido pelo Prefeito Pereira Passos para avaliar o
problema das habitações populares. A necessidade de intervenção nas favelas é sinalizada
no relatório do engenheiro, e na época chegaram a circular na imprensa carioca duas
caricaturas que indicavam a iniciativa do poder municipal em “limpar” a favela 54 (2002).
E foi este morro também que entrou para a história, por sua associação com
a Guerra de Canudos, que marcara a época. Na origem da construção social da favela
identifica-se um mito presente em todos os autores que, no início do século XIX, falam
deste novo território de pobreza: o mito de Canudos. As histórias do morro da Favela e a
de Canudos estão ligadas porque, como já mencionamos, foi no morro carioca- então
chamado Providência- que estabeleceram-se ex-combatentes da Guerra de Canudos, que

54 Em uma das caricaturas, Oswaldo Cruz traz uma braçadeira com o símbolo da
saúde e expulsa a população do morro da Favela com um pente, onde se lê
“Delegacia de Hygiene”. O morro é representado por um homem mau encarado,
vindo a caricatura acompanhada de um pequeno texto: “Uma limpeza
indispensável: a Hygiene vai limpar o morro da Favella ao lado da Estrada de
Ferro Central. Para isso intimou os moradores a se mudarem em dez dias”. A outra
caricatura mostra Oswaldo Cruz subindo a favela atrás do prefeito, que é precedido
pelo chefe de polícia em primeiro plano e é acompanhada do texto: “As três
autoridades vão trabalhar de commum acordo para melhoria das condições
hygienicas dos referidos morros, expurgando-os ao mesmo tempo das maltas de
desocupados que alli existem nos referidos casebres” (Valladares 2002: 8)

106
passaram a denominar o local de Morro da Favela. A explicação da mudança de nome tem
duas versões: uma considera o fato de que a vegetação que cobria o morro carioca era a
mesma que cobria o Morro da Favela em Monte Santo, na Bahia; outras versões sustentam
que o nome favela vem do morro da Favela de Monte Santo que apresentou feroz
resistência ao avanço final do exército republicano contra a luta liderada por Conselheiro.
A última versão “vem revestida de um forte conteúdo simbólico que remete à resistência, à
luta dos oprimidos contra um oponente forte e dominador”, nos diz a autora. (2002: 9).
Ainda acompanhando sua reflexão a respeito da imagem de Canudos na
construção das primeiras representações sobre a favela, é importante destacar que foi o
arraial de Canudos descrito em Os Sertões de Euclides da Cunha que “desempenhou o
papel de mito de origem da favela carioca”:

Embora o livro de Euclides da Cunha seja posterior (1902) ao batismo do


morro da Providência como morro da Favella (1887), a marca da obra não pode
ser descartada. Muito pelo contrário, foram as imagens fortes e impactantes
transmitidas por Os sertões que permitiram aos nossos intelectuais entender e
interpretar a favela emergente (Valladares 2002: 9) 55

A análise da autora nos mostra que a leitura do Morro da Favela, e também


das outras favelas, a partir das imagens de Canudos de Euclides da Cunha, pode ser
encontrada na visão de jornalistas da época, como por exemplo, João do Rio, ao relatar a
visita ao morro Santo Antônio: “estávamos na roça, no sertão, longe da cidade”; “tinha-se,
na treva luminosa da noite estrelada, a impressão lida da estrada do arraial de Canudos”.
Os relatos trazem descrições que aproximam a topografia e a geografia de Canudos e dos
morros do Rio de Janeiro, a posição estratégica desempenhada pelo morro sertanejo e os
cariocas dentro de um espaço mais amplo, e o papel assumido por uma chefia que, aqui e
no arraial de Canudos, controlava o espaço e seus moradores. E havia ainda o fato de que,

55 Segundo Valladares Os Sertões foi lido por todos os intelectuais da época e


responsável por Canudos não ter caído no esquecimento. Skidmore observa de que
semanas depois de publicada, a obra de Euclides já era proclamada como um
clássico. Atribui a recepção favorável ao fato de que ele tocara “no nervo exposto
do sentimento de culpa da elite com relação ao abismo existente entre o seu ideal
de nacionalidade e as condições reais do país”. Além disso, fazia uma crítica
devastadora ao exército, agradando muitos intelectuais que ressentiam-se do
arrocho militar da década de 90, com a censura e o estado de sítio (1976: 126)

107
na leitura de Euclides da Cunha, Canudos representava a liberdade de uso da terra, de
trabalho, impostos, costumes e práticas sociais.
A idéia de comunidade, tão presente no arraial analisado por Euclides da Cunha,
acaba se transpondo para a favela, servindo como modelo aos primeiros observadores que
tentaram caracterizar a organização social dos novos territórios da pobreza na cidade. À
semelhança de Canudos, a favela é vista como uma comunidade de miseráveis com
extraordinária capacidade de sobrevivência diante de condições de vida extremamente
precárias e inusitadas, marcadas por uma identidade comum. Com um modus vivendi
determinado pelas condições peculiares do lugar, ela é percebida como um espaço de
liberdade e como tal valorizada por seus habitantes. Morar na favela corresponde a uma
escolha, do mesmo modo que ir para Canudos depende da vontade individual de cada um.
Como comunidade organizada, tal espaço constitui-se num perigo, uma ameaça à ordem
moral e à ordem social onde está inserida. Por suas regras próprias, por sua persistência em
continuar favela, pela coesão entre seus moradores e por simbolizar, assim como Canudos,
um espaço de resistência (Valladares 2002: 11/12)
As reflexões de Licia Valladares, dando destaque ao lugar ocupado pelo
arraial de Canudos de Euclides da Cunha nas imagens que vão ser produzidas a respeito da
favela, nos fornece mais um elemento para pensar a produção das representações sociais
sobre este novo espaço social no período que marca seu surgimento. O papel que Canudos
representara na época, e particularmente o livro de Euclides da Cunha, projetando-se a
nível nacional e despertando uma reflexão sobre o país, abria caminho para que registros
acumulados a respeito do movimento conformassem pistas para se pensar várias outras
questões do momento histórico que o Brasil vivia 56 . À luz de Canudos, reexaminam-se os
rumos políticos do país, e especialmente da ordem republicana. Analisa-se o papel do

56 Aqui, cabe lembrar a ressonância da Guerra de Canudos num momento em que


o país passava pelas mudanças econômicas e político-sociais já aqui levantadas. De
acordo com Walnice Galvão, ela foi um marco na imprensa nacional e seu impacto
da Guerra foi tão grande que pela primeira vez fez-se uma cobertura em bloco dos
acontecimentos. Constitui-se mesmo no primeiro evento a ser coberto como
“evento mediático”, o que foi viabilizado pela recente instalação de redes de
telégrafo cobrindo o sertão. Na época, os principais jornais do Rio de Janeiro, São
Paulo e Bahia criaram uma coluna especial, quase sempre intitulada “Canudos”. A
maior parte dos correspondentes eram militares, alguns deles combatentes.
Euclides participou da Guerra como enviado especial do jornal A Província de São
Paulo, o que, segundo Galvão, era quase uma novidade na época. A série de
reportagens que Euclides produziu, e que nunca publicou, tem sua importância
destacada pelo fato de ser o embrião do livro Os Sertões (Galvão 1999: 154).

108
exército. Reflete-se sobre o povo brasileiro, e particularmente sua conformação étnica
(que para maioria dos intelectuais da época, tratava-se de uma “deformação”). E,
sobretudo, Canudos trazia para ordem do dia os desafios de uma sociedade que projetava a
civilização, em consonância com um modelo europeu, e buscava superar o “atraso”,
encarnado em tudo aquilo que evocava o passado colonial e imperial.
A favela estava surgindo, constituindo-se pois num espaço desconhecido,
que só podia ser descrito, dissecado, desvendado, através de referências com as quais os
observadores do social contavam. Neste processo, os registros da Guerra trazendo à cena a
descrição do “atraso”, e abrindo espaço a uma reflexão sobre sua superação, contribuem
para conformar uma leitura dos desafios presentes na cidade, e interpretar aquilo que ia se
configurando na contramão da “ordem civilizada”. Como lembra Valladares, a dualidade
presente na oposição “litoral versus sertão” do discurso euclidiano transparece nas
primeiras imagens e representações sob a forma de oposição “cidade versus favela”
(2002:12). Imagem que ressoa na observação do médico Afrânio Peixoto: “Não nos
iludamos, o nosso sertão começa para os lados da Avenida”. 57
Com isso, podemos pensar que o “mito de Canudos” agrega-se a outros
aspectos já destacados anteriormente, que remetem-se à noção de classes perigosas e à
gestão técnica e científica da cidade, constituindo os parâmetros através dos quais vão se
construindo as primeiras representações sobre a favela carioca. Unindo estas várias
referências encontramos um dualismo que acaba por cimentar o imaginário social a
respeito das favelas. Um dualismo que ora se manifesta de forma crua e sombria,
concebendo este espaço social como o mundo da desordem e dando alimento a formas de
intervenção violentas e coercitivas, que buscam eliminá-lo. Ora se expressa com um
colorido mais suave, pensando-o como o lugar do atraso que não conhecia o “progresso”, e
que acabaria por ser eliminado através da força da “civilização”.
Neste último caso, talvez possamos incluir a visão do escritor e poeta Olavo
Bilac, para quem a favela era uma “cidade à parte”. Zaluar e Alvito recuperam uma crônica
de 1908, chamada “Fora da vida”, em que o poeta comenta o fato de ter conhecido uma
lavadeira no Morro da Conceição, que não descia no centro da cidade há 34 anos, e afirma:

57 A citação foi retirada de Valladares (2002: 10), recuperando o trabalho de


Gilberto Hochman: “Logo ali, no final da avenida: Os Sertões redefinidos pelo
movimento sanitarista da Primeira República”. História, Ciência, Saúde –
Manguinhos, 5, Suplemento julho: 217-35.

109
Fizemos cá embaixo a Abolição e a República, criamos e destruímos governos
(...) mergulhamos de cabeça para baixo no sorvedouro do “Encilhamento”,
andamos beirando o despenhadeiro da bancarrota, rasgamos em avenidas o
velho seio urbano, trabalhamos, penamos, gozamos, deliramos, sofremos –
vivemos. E, tão perto materialmente de nós, no seu morro, essa criatura está lá
33 anos tão moralmente afastada de nós, tão separada de fato da nossa vida,
como se, recuada no espaço e no tempo, estivesse vivendo no século atrasado,
e no fundo da China (...) essas criaturas apagadas e tristes, apáticas e
inexpressivas, que vivem fora da vida, se não têm a glória de ter praticado
algum bem, podendo ao menos ter o consolo de não ter praticado mal nenhum,
consciente ou inconscientemente... 58

Na visão de Zaluar e Alvito, a crônica de Bilac possivelmente é uma “chave


para entender o porquê dos planos de ‘limpeza’ não irem adiante” naquela época:
“simplesmente não ‘valia a pena’” (2002: 11). Percebidas como “fora da vida”, as favelas
não faziam parte daquilo que era então considerado existência social para o autor.
Penso que a visão de Bilac nos evoca ainda outros aspectos. E faço aqui um
aparte para recordar que há alguns meses apresentei o texto em um dos encontros de um
grupo de estudo formado por “trabalhadoras sociais”. Uma delas, questionou: “que vive
fora da vida?!, então quer dizer que a vida só constituía lá no espaço aonde ele está?!”; “ele
fala que conheceu uma pessoa tão moralmente afastada de nós (sublinhado por ela); o
que levou a este afastamento?”. Em seguida, em meio a um debate sobre o “afastamento”,
ela conclui: “ele fala, e parece que ela nasceu para aquilo; você vê que o estigma sobre a
favela vem sendo trabalhado há muito tempo, aqui ele fez um julgamento diretamente à
pessoa, e ele faz uma fala até bonita, você lê assim... você acha uma coisa interessante.” 59 .
O comentário – “parece que ela nasceu para aquilo”- e a pergunta de Joana:
“o que levou a este afastamento?”, sabemos podem ser respondidos se nos voltarmos para
os processos históricos sobre os quais refletimos anteriormente, e também no capítulo
anterior ao abordarmos o desencontro. É a resposta a esta pergunta que nos permite ligar a

58
O extrato da crônica de Bilac encontra-se na Introdução de Zaluar e Alvito (1998: 11).
59 O referido grupo de estudos foi realizado de janeiro a maio de 2005, em
resposta a solicitação de “trabalhadoras sociais”, tendo sido coordenado por mim.

110
parte ao todo, os “fora da vida” àqueles que estão “dentro da vida”, ou seja, que tem sua
existência social na cidade reconhecida como “vida”.
A conexão que liga a parte ao todo estava ausente na visão carregada de
dualismo de Bilac, assim como ocorria com as representações marcadas por uma visão
dual, presentes em diversos intelectuais, e mesmo outros agentes sociais, da época. O que
nos parece interessante no texto do poeta é a forma como este dualismo se manifesta, com
uma “fala até bonita”, como avaliou Joana. Distanciando-se de outras visões da época, que
também traziam o dualismo, mas já associavam a favela à desordem, a uma “espécie de
vida fora do lugar”, a “fala até bonita” de Bilac inscreve a favela num lugar fora da
história, fora da existência social. Um lugar de “apatia” e “inexpressividade”. Difícil não
recordar aqui a imagem de carência que, na atualidade, freqüenta o imaginário social a
respeito das favelas do Rio de Janeiro. Não lembrar as falas de professores de escolas
públicas que dialogam (?) com vários de seus alunos “apáticos” e “inexpressivos”,
acreditando que eles são produtos de um lugar que até existe, mas fora do nosso tempo e
do nosso espaço. A visão de alguns mediadores, técnicos do poder público e de ONG´s,
que avaliam a experiência e ação daqueles que vivem nas favelas a partir de seus
referenciais de “existência social”, e esperam trazer a favela para dentro da história. Enfim,
difícil não identificar aqui a força de uma representação social que pensa a favela “recuada
no tempo e no espaço”.
De certa forma, abstraindo a linguagem e as referências da época, foi esta
atualidade do texto de Bilac que me chamou atenção, levando-me a refletir que os longos
anos que marcam a existência da favela na cidade trouxeram várias mudanças para este
espaço social, e para suas relações com o poder público e diversos agentes sociais.
Deslocaram o lugar da favela da inexistência para a existência social. Foram anos
marcados por lutas que, afinal, contrariam a percepção da favela como “fora da história”.
No entanto, ainda assim, eles não foram suficientes para romper com determinadas
imagens que, se considerarmos o depoimento de Bilac, remontam ao início do século
passado.
Isso nos faz pensar na força de uma representação dual que incorporou-se à
tessitura do que chamamos fronteira, informando as lentes de observação de vários agentes
sociais que vão ocupando este terreno de fronteira. Talvez seja este dualismo o legado
mais forte que as primeiras imagens acerca da favela nos deixaram. Dualismo que será
reatualizado nos anos posteriores quando a favela ingressar na agenda política e constituir-

111
se como espaço de intervenção social. Num momento em que deixa de ser um problema,
alvo de preocupação de autoridades e alguns segmentos da sociedade, para se tornar o que
Bourdieu denomina um problema legítimo, socialmente produzido (1989:37). Um
problema resultante de um processo que aciona o trabalho de diferentes agentes sociais e se
traduz em múltiplas práticas e instrumentos de intervenção social e política.

2.2. Um problema legítimo

Os percursos que demarcam a gênese e o desenvolvimento das iniciativas


governamentais ou de caráter particular nas favelas, bem como as lutas sociais nestas
localidades, podem ser compreendidos a partir desencontro entre o econômico e o social,
que faz emergir um conjunto de processos, experiências e dramas sociais, próprios de uma
sociedade em tensão, mergulhada num mundo aquém de suas possibilidades. São
processos que produzem e reproduzem as fraturas desta sociedade e que vão conformando
aquilo que é chamado a questão social. “A questão social é uma aporia fundamental sobre
a qual uma sociedade experimenta o enigma de sua coesão e tenta conjurar o risco de sua
fratura”, nos diz Castel (1998 :30).
Compreendemos que a fronteira vai constituindo-se no esforço de responder
a este enigma. Desenvolve-se enquanto um espaço de mediação, fundamental ao controle
dos custos sociais produzidos pelo descompasso próprio da sociedade capitalista.
Recorrendo a uma perspectiva do mesmo Castel, podemos dizer que ela nasce abrigando
um conjunto de dispositivos montados para responder ao crescimento contínuo “das franjas
mais dessocializadas dos trabalhadores” (1998:31).
Não é à toa que em nosso país a história da intervenção social nas favelas
cariocas confunde-se com a história da expansão do capitalismo, sob um modelo urbano
industrial e a incorporação da “questão social” na agenda política do Estado.
Os marcos iniciais podem ser percebidos a partir da segunda metade dos
anos 20, quando se assiste à primeira campanha contra a favela. Empreendida junto ao
poder público e à imprensa carioca, e ocupando os jornais durante dois anos, a campanha
foi levada a frente por Mattos Pimenta, um médico sanitarista, rotariano com atividades
empresariais. O papel pioneiro deste personagem na transformação da favela em

112
problema, bem como suas idéias e propostas, são recuperados por Valladares, que destaca
o fato de o carro-chefe da campanha ter sido a imagem da favela como “lepra esthética”:

A campanha contra a favela, promovida no interior de uma luta mais


abrangente pela remodelação do Rio de Janeiro, parece ter sido programada e
conduzida com sucesso, respaldada pelo Rotary Club do Rio de Janeiro, uma
das associações do empresariado carioca. Um filme de dez minutos, realizado
por Mattos Pimenta e patrocinado pelo próprio Rotay, As Favellas, mostrava
“o espetáculo dantesco que presenciei na perambulação pelas novas favellas do
Rio” (Valladares 2002: 15)

A ação do médico-rotariano-empresário não termina aí. Munido de sua


experiência profissional e suas idéias, que combinavam o discurso médico-higienista, o
reformismo progressista e o pensamento urbanístico em ascensão, Mattos Pimenta procura
obter apoio do poder público (diretor de saúde, do Prefeito e do chefe de Polícia) e lança
sua proposta de solução para o problema das favelas, apontando algumas medidas de
“salvação pública”, dentre elas: impedir a construção de novos casebres, estabelecer a
fiscalização por parte do poder público e iniciar a construção de casas para proletários e
asilos e colônias para inválidos, velhos e crianças desamparadas. O projeto de construção
de habitações populares, que demonstrava a inserção do autor no mercado imobiliário,
seria viabilizado através de um contrato de abertura de crédito com garantia hipotecária e
obrigação de construir casas populares assinado pelo Banco do Brasil e empresas
construtoras. O programa não devia implicar ônus para o Tesouro, nem descontos em folha
de pagamento e segundo seu autor, em quinze anos, a juros de 9% ao ano, seria possível
oferecer aos moradores das favelas uma construção de cimento armado. 60
Segundo nos conta Valladares, o plano de remodelação da cidade do Rio de
Janeiro elaborado em 1927 por Alfred Agache, urbanista francês, baseou-se em inúmeros

60 Valladares informa ainda que Mattos Pimenta havia passado vários anos na
Europa acompanhando o desenvolvimento da ciência urbana, conhecendo seu
prestígio nos meios políticos e os resultados estéticos positivos de reformas como
as realizadas em Paris (2002). A formação e experiência do autor levam-no pois a
um lugar social que encarna a aliança Ciência e Capital. A ação do médico-
empresário-rotariano vai se dar, portanto, no sentido de buscar a outra face da
aliança, o Estado.

113
trabalhos já existentes e sofreu a influência das idéias e representações de Mattos Pimenta.
Os discursos de ambos são próximos, trazendo a imagem da favela como lepra.
Referenciados em parâmetros higienistas e estéticos, veiculavam o conceito moderno de
urbanismo que tinha a higiene como base e a estética como fim (2002: 17).
A particularidade de algumas idéias de Agache são ressaltadas por
Valladares(2002) e também por Abreu (1988). Além de identificar a permanência próxima
ao mercado de trabalho como um dos motivos principais para a ocupação dos morros,
Agache parece ter sido um dos primeiros a perceber que a burocracia municipal dificultava
a atividade de construção pela população pobre da cidade. Junto a isso, sua percepção do
social informa uma descrição da favela numa linguagem quase sociológica, onde se levanta
o quadro social e o mercado habitacional existente na localidade.
Parece, porém, que foi também a percepção social que deu alimento para
que Agache elaborasse as razões para a erradicação das favelas. No quadro social por ele
descrito, destaca-se um “princípio de organização social” nas favelas, “ o começo de um
sentimento de propriedade territorial”, uma sociabilidade baseada em relações de
parentesco e vizinhança, que estabelecem costumes, criam pequenos negócios, abrindo
espaço à “sedentarização” da favela. Daí, ser necessário “impedir toda a construção estável
e definitiva nas favellas, a qual tornará diffícil e onerosa a expropriação total por causa da
utilidade pública”. 61
O Plano de Agache não inova em relação ao que fazer com as favelas, que
iam se constituindo como problema. Propõe sua erradicação. Mas dando atenção à
complexidade que já se anunciava no espaço urbano, concebia que ela “devia fazer parte
de uma estratégia maior de intervenção do Estado sobre o processo de reprodução da força
de trabalho através de políticas setoriais específicas” (Abreu 1988: 90). A proposta
sugeria então a adoção de medidas legislativas sociais e a realização, com auxílio dos
poderes públicos, de um programa de construção de casas a “preços módicos”, que
compusessem em seu conjunto, as “villas-jardins operárias”, para onde a população
residente nas favelas deveria ser também transferida.
De certa forma, a experiência do Plano Agache já sinaliza as contradições
que iam se configurando no debate a respeito das favelas. Constituiu-se no “exemplo da
tentativa das classes dominantes da República Velha de controlar o desenvolvimento da

61
O texto do Plano Agache citado por Abreu (1988), encontra-se em Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.
Cidade do Rio de Janeiro: Remodelação, Extensão e Embellezamento 1926-1930, Paris, Foyer, 1930.

114
forma urbana carioca” (Abreu 1998: 86). Porém, contrariando os princípios ordenadores da
República, e traduzindo uma percepção social e política que se generalizava, indicando os
limites do liberalismo, o plano propunha aquilo que a República Oligárquica não podia
realizar:

Paradoxalmente, a fórmula apresentada por Agache para a resolução dos


problemas da República Velha – ou seja, a intervenção do Estado no processo
de reprodução da força de trabalho urbana- se constituirá na mola mestra do
novo regime que Getúlio Vargas implanta no país (Abreu 1988:90)

É no governo de Getúlio Vargas onde encontramos o marco seguinte, que


traduz a projeção da favela na cena nacional, abrindo espaço à sua constituição como
problema legítimo: o Código de Obras de 1937. O Código é considerado o documento
oficial que reconhece a existência da favela, definida em toda sua diversidade. Nele estão
presentes alguns aspectos destacados por Valladares: nesta primeira definição oficial, dois
ou mais casebres já seriam suficientes para formar uma favela; este tipo de aglomerado se
desenvolve fora da lei; as favelas crescem pela construção de novos casebres ou pela
expansão dos mesmos; o aluguel na favela é importante, manifestando-se sob a forma de
aluguel de casebres ou arrendamento do solo; a favela apresenta variações, com
construções de casebres em terrenos, pátios ou quintais de prédios.
Porém, é a partir dos anos 40 que se dá a definitiva afirmação da favela na
cena urbana da cidade: multiplicando-se, tornando-se tema de pesquisas e estudos, objeto
de ação política e configurando-se como palco de intervenção social. Voltando ao diálogo
com a reflexão de Bourdieu a respeito da “dúvida radical” e a necessidade da “história
social da emergência” dos problemas, podemos considerar, ainda, que é dentro deste
mesmo processo que a favela vai ser constituída como problema legítimo. Ou seja, “o
problema da favela”, alvo de diferentes ações e reflexões, é resultado de um trabalho
coletivo, necessário para “dar a conhecer e fazer conhecer” este problema como legítimo.
Como “confessável”, “público”, “oficial” (Bourdieu 1989:37). Neste trabalho coletivo,
realizado na concorrência e na luta (novamente pegando emprestado os termos de
Bourdieu), destacamos alguns momentos fundamentais:

115
ƒ 1942, foram erguidos os primeiros Parques Proletários provisórios, assim
chamados já que a intenção era construir habitações calculadas para durar seis anos;
os três parques foram inaugurados, abrigando 2500 moradores oriundos de
diferentes favelas da cidade (Valla 1986: 38); tal iniciativa não se desdobrou em
uma política mas definitiva; o que se tornou definitivo mesmo foi o estado de
inacabamento das habitações, calculadas inicialmente para durar seis anos; no lugar
das favelas removidas, novas casas; nos parques proletários, surgem barracos.
ƒ 1946, é criado o Departamento de Habitação Popular, ligado à Secretaria de
Viação e Obras; o Presidente Dutra cria uma Comissão Interminesterial para
realizar “um estudo extensivo das causas de formação de favelas e suas condições
atuais”. (Valla 1986)
ƒ 1947, a Igreja Católica, reconhecendo que o problema da favela não era apenas
fruto do processo migratório e que sua solução dependia de esforços conjugados,
conseguiu o apoio do Governo Federal para a criação de uma instituição que
atuasse nas favelas. Surgiu então a Fundação Leão XIII, cuja finalidade declarada
era “dar assistência material e moral aos habitantes dos morros e favelas do Rio de
Janeiro”, propondo-se então a manter escolas, ambulatórios, creches, maternidades,
cozinhas e vilas populares. No desenvolvimento da experiência constitui-se uma
nova prática no enfrentamento da questão das favelas; “antes de tudo, é preciso
compreender os favelados, ganhar-lhes a confiança, prestar-lhes serviço,
desinteressadamente, isto é, sem nenhum outro intuito que não seja o de lhes fazer
o bem, e isto não se efetiva senão convivendo com eles, participando de sua
ansiedades, lá no seio das favelas, tornando-se amigo deles e lhes apontando
caminhos novos para a sua vida atribulada”, diz o relatório da Fundação (Valla
1986)
ƒ 1948, pela primeira vez é realizado um censo de favelas no Rio de Janeiro, então
Distrito Federal; a população moradora destas localidades começa a entrar nas
estatísticas; havia então 105 favelas na cidade, sendo que quase a metade
localizava-se na região dos subúrbios, seguida da Zona Sul, e Zona Centro-Tijuca.
Era uma população predominantemente migrante, proveniente de regiões dos
Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo e grande parte dos
naturais era constituída de crianças entre 0 e 13 anos de idade; a ocupação no setor
secundário era então predominante (30% da população favelada) mas 40%

116
localizavam-se na construção civil e serviços domésticos – 20% cada. (Abreu 1988:
106)
ƒ 1948, o tema da favela ocupa jornais da época, a partir de uma série de artigos,
publicados no Correio da Manhã pelo político e jornalista Carlos Lacerda, que
configuraram a então chamada campanha “Batalha do Rio”; “aqueles que não
quiserem fazer um esforço sincero para atender ao problema das favelas, assim
como aqueles que preferirem encará-los como caso de polícia, têm uma alternativa
diante de si: a solução revolucionária (pois os) comunistas(...) oferecem a
expropriação dos grandes edifícios e a ocupação de todo o edifício como solução
imediata, redutora e fagueira a quem vive numa tampa de lata olhando o
crescimento dos arranhas céus”, afirmava então o jornalista. Como resultado da
Batalha, o governo federal e a prefeitura se articulam criando uma série de
comissões que deveriam trabalhar a solução do problema das favelas: uma
Comissão Central, composta por altas personalidades, e ainda sete subcomissões,
sob a direção da Prefeitura (Valla 1986)

Ah, se estou aqui a levantar esta cronologia não é por um mera exposição
factual. Também não é tanto para demonstrar uma escala de eventos que demonstra o
reconhecimento definitivo do lugar da favela na cidade e a série de respostas ao “problema
social” que ela encarna. Na verdade, o grau de efetividade de cada uma destas ações parece
ter sido bem menor do que se podia esperar. O que importa mesmo é que, juntas, tais ações
vão conformando um terreno de intervenção e debate a respeito da favela, constituído por
diferentes práticas levadas à frente por múltiplos agentes sociais. A Fundação Leão XIII
incluía desde os representantes mais expressivos da hierarquia da Igreja Católica até
profissionais e voluntários responsáveis pelos serviços junto à população atendida. As
iniciativas estatais abrigavam personagens do alto escalão dos governos federal e
municipal, e também técnicos, responsáveis por estudos e pesquisas. Integravam-se
também ao terreno, a imprensa e os políticos. E, a partir dos anos 50, vê-se ainda uma
aproximação crescente de segmentos intelectuais de classe média (estudantes, literatos,
artistas), que buscam as favelas “a fim de partilhar, entender, e revelar seu estoque de
cultura” (Burgos 1998:30). E, é claro, incluem-se no terreno os “objetos” de intervenção,
estudos e debate: os moradores das favelas.

117
Bem, voltamos novamente à imagem do desencontro. É neste desencontro,
que se acirra quanto mais o econômico avança em relação ao social, que a fronteira emerge
como o terreno da “conjuração do risco de fratura” alojando, num crescente, diversas
forças sociais, interessadas de diferentes formas em intervir, digamos, no processo de
“conjuração”. Vai tornando-se então lugar de produção múltiplas experiências e práticas
sociais, e de representações que vão se acumulando, dando-lhe então uma conformação
particular.
Porém, é importante dar atenção ao fato de que o desencontro por si só não
produz a fronteira. Ele cria, para usar a expressão de Castel, o “enigma da coesão”, o
dilema que interroga a sociedade exigindo-lhe respostas. As mudanças históricas pelas
quais o país passava e a correlação de forças aí presentes é que vão delineando a alternativa
encontrada. A este respeito, algumas experiências sociais e políticas da época concorreram
para a emergência da fronteira enquanto alternativa ao “problema das favelas”. A
redemocratização do país na segunda metade dos anos 40 abre espaço ao debate político,
pautado pelo tema do desenvolvimento nacional e aonde, pouco a pouco, a questão da
“integração” da favela vai tomando acento. Em meio a esta retomada do debate político, é
fundamental assinalar o então inesperado crescimento do Partido Comunista na Câmara
dos Vereadores. Tudo isso num quadro em que, alimentada pela decolagem da acumulação
urbano industrial de base concentracionista ( e a alimentando), a urbanização avançava a
pleno vapor, destacando-se neste processo o expressivo crescimento do número de favelas
e da população favelada, conforme apontava as estatísticas da época.
É preciso considerar ainda que, se as mudanças pelas quais passavam o país
e a configuração de forças sociais conformam a emergência da fronteira como alternativa
ao desafio trazido pela crescente presença das favelas na paisagem urbana, a tessitura deste
terreno de fronteira não pode ser reduzida ao quadro social e à conjuntura da época. Ela se
constitui buscando alimento na própria experiência histórica da sociedade brasileira, e nas
imagens aí produzidas sobre as classes populares e as favelas do Rio de Janeiro, sobre as
quais já refletimos na parte anterior. A este respeito, nos parece significativo o fato de que
o documento que marca o início da presença da favela nas estatísticas da cidade – o Censo
de 1948 – comporte um texto que relaciona a presença de “pretos e pardos” nas favelas ao
fato deles serem “hereditariamente atrasados, desprovidos de ambição e mal ajustados às
exigências sociais modernas” (Zaluar & Alvito 1998: 13). Outra referência ilustrativa diz
respeito ao Parque Proletário da Gávea inaugurado em 1942 e às reclamações feitas pelos

118
jornais da época em relação à paralisação das obras. Em 1943, o jornal A Noite publica um
artigo, trazendo uma análise a respeito da favela, seus moradores e suas relações com a
sociedade:

Indivíduos que não tendo podido, por uma razão qualquer, adaptar-se às
necessidades ou conveniências da civilização contemporânea, não encontram
lugar em tal civilização. Esses indivíduos formam le déchet social que os
sociólogos denominam desajustados, os inadaptados sociais. Esse déchet
humain dos desviados da comunidade social é que constitui os grupos
decompostos da comunhão civil para incrustrar-se nas favelas, por exemplo.
Exatamente, porque nesse déchet humain admite-se predominar uma haine
commune contra a sociedade e avulta a dificuldade na solução do problema.
(Valla 1986: 40)

O documento público e oficial, bem como o texto veiculado pelo jornal


traduzem bem a força de representações produzidas em fins do século XIX e início do
século XX, e demonstram que o trabalho coletivo que “deu a conhecer e fez conhecer a
favela” como problema legítimo da sociedade veio atravessado por uma forma de conceber
a favela e o espaço urbano, pleno de estereótipos. É, portanto, um trabalho tributário das
representações construídas desde o século XIX.

A produção política na “fronteira” e a ação da Igreja Católica

O lugar do “fazer social” nas favelas possivelmente não é uma invenção do


Estado 62 . Mas, sem dúvida, em aliança com a Igreja Católica, ao dar o “ponta pé inicial”

62 Se a fronteira viva é lugar de diferentes agentes sociais, uma das questões que
me interroguei foi a respeito da presença de outros agentes, desenvolvendo
iniciativas sociais nas favelas antes dos anos 40. Sobre o tema, há pouca coisa na
literatura sobre a história das favelas. O esforço de ir na contramão deste vazio
encontra o desafio da invisibilidade pública das favelas no período. Existem sinais
das trocas entre o morro e o resto cidade, particularmente no campo cultural, mas
contamos com poucas pesquisas a este respeito, e nada nos permite conceber a
idéia de que estas trocas tenham se desdobrado em formas de intervenção social
nestas localidades. O mesmo silêncio encontramos em relação à ação de igrejas de

119
na configuração de um terreno de intervenção social nas favelas cariocas, ele foi
personagem fundamental na gênese de uma produção política do “fazer social” e na
constituição da fronteira.
A produção política já se anuncia naquela que foi a primeira iniciativa
pública em relação às favelas: os Parques Proletários Provisórios. Eles foram palco de
inúmeras visitas oficiais – do Presidente da Sociedade de Puericultura do Brasil, do
Interventor do Espírito Santo e do próprio Getúlio Vargas, Presidente da República – e de
diversos eventos, como missas, e festas comemorativas. Em meio à aura mitológica que
cerca o Governo Vargas, há ainda registros de que o presidente recebeu as chaves de uma
casa popular para seu uso pessoal. (Valla 1986).
Esta iniciativa conjunta do Governo Federal e da Prefeitura não foi adiante
naquela época, porém veio inaugurar um canal com grupos populares que estavam fora da
teia de compromissos do Estado Novo e da complexa montagem que ela envolveu, ao
institucionalizar os canais de interlocução política (Mendonça 1990). E neste sentido foi
reveladora do lugar que a população favelada ia ocupando no cenário político e do esforço
de dar contornos políticos ao lugar do “fazer social”.
Tal esforço aparece de forma ainda mais clara e contínua, na experiência da
Fundação Leão XIII, criada a partir de uma proposta de setores da Igreja Católica, tendo a
frente Dom Jaime Câmara, junto ao Governo Federal. Reconhecendo o fenômeno de
favelização como tendo “raízes profundas na crise econômica e social” que o país
atravessava, a Fundação preconizava novas formas de ação, fundamentadas no
conhecimento da favela (através do levantamento estatístico, da classificação das famílias e
dos indivíduos e os estudos da comunidade) e no tratamento das famílias (através de
atividades de serviço social, educação, saúde e organização social da comunidade).
Considerando esta perspectiva é que se construiu um programa (Centro de Ação Social -

várias orientações no espaço da favela. A ação da Igreja Católica até fins dos anos
40 junto aos moradores destas localidades dava-se através das paróquias. (Valla
1986). No entanto, pouco se sabe sobre a presença de outras organizações
religiosas, particularmente sobre as espíritas, que sempre possuíram certa
invisibilidade pública. Enfim, o que pude concluir até agora é que as iniciativas
pontuais do Estado, as ações policiais, as trocas culturais entre o morro e o resto
da cidade, bem como as possíveis ações de grupos religiosos não chegaram a
configurar um campo de intervenção social. O que não anula sua importância, pois
as experiências e visões aí produzidas certamente foram carregadas na bagagem
dos diferentes agentes sociais que mais tarde vão passar a atuar sistematicamente
nas favelas cariocas.

120
CAS), eixo de todo o trabalho social e que tinha como base o Serviço de Educação (Valla
1986:50).

O Serviço de Educação é a base sobre a qual repousa a Ação Social do


CAS...Doenças, analfabetismo, ideologias exóticas, crimes, contravenções,
prostituições etc são males de um povo que vem vivendo anos a fio, sem o
benefício de uma palavra esclarecedora e amiga que só a Escola, na sua mais
alta concepção pode dar. 63

A inquietação diante dos “males” vividos pelo povo era clara! E sabemos,
que dentre estes males, as “ideologias exóticas” ocupavam um papel especial. É necessário
subir o morro antes que dele desçam os comunistas, afirmava o slogan que se disseminava
a cada dia traduzindo a preocupação de grupos e partidos ligados às estruturas de
dominação do país.
O esforço de institucionalizar este “fazer social” deve ser, portanto,
compreendido no âmbito das disputas políticas da época e da necessidade de redefinição da
relação com os grupos populares, que vão levando a um reposicionamento dos agentes
sociais em relação ao tratamento da questão das favelas.
Porém, o que mais chama atenção na experiência da Fundação é sua forma
nova de enfrentar a questão das favelas, que se dava no sentido de mobilizar os moradores
para a resolução de seus problemas, especialmente aqueles relacionados à infra-estrutura
urbana, e de incentivar a formação de associações locais.

(...) a participação do povo é sempre possível de ser obtida através de


organizações locais (...) Nesse plano de melhoramentos não pode deixar de ser
incentivado o movimento associativo da energia elétrica que bons resultados já
vem proporcionando às famílias e demonstrando que o povo quando bem
orientado tem capacidade de resolver seus problemas. Esses movimentos vêm
sendo orientados pela Fundação Leão XIII em dezenas de favelas dentro de um
espírito democrático e de responsabilidade pessoal de cada um de seus
membros, sendo totalmente banido desse movimento qualquer idéia

63
Como Trabalha a Fundação Leão XIII. Notas e relatórios de 1954, Rio de Janeiro, 1955 cit. Valla (1986 :
50)

121
paternalista ou de protecionismo, mal compreendido e prejudicial à
recuperação moral do homem. 64

Indicando o dinheiro e o trabalho do povo como a via de solução do


problema das favelas, a entidade vinha acenar com a solução de problemas através da
mobilização dos moradores e do uso de seus recursos humanos e financeiros. Com isso
anunciava uma inversão no tratamento da questão, onde responsabilidades públicas, como
melhorias nas condições de vida e moradia da população favelada, são colocadas como
problemas dos moradores. Neste âmbito, as associações locais de moradores deveriam ser
incentivadas uma vez que assumiam o papel de organizações canalizadoras dos recursos
humanos e financeiros das localidades (Cunha & Oliveira 1997).
A Fundação Leão XIII, posicionava-se assim na “vanguarda” da análise do
“problema” das favelas – examinado “como tendo raízes profundas” - e das respostas a ele,
trazendo uma forma de ação social, onde participação do povo, organização local e
responsabilidade individual se misturavam numa equação, que além de ser fundamental ao
controle social da população “sob intervenção”, vinha fundar uma prática política.
Através desta “equação”, de seu surgimento até 1954, a Fundação estendeu
sua atuação a 34 favelas, implantando em algumas delas serviços básicos como água,
esgoto, luz e redes viárias (Burgos 1998). Esteve à frente da instalação de bicas,
manilhamento de valas e implantação dos serviços de luz em várias favelas da cidade. E,
ainda, gerenciando a “equação”, ela foi pouco a pouco assumindo o papel de braço da
burocracia estatal dentro dos morros, chegando a controlar o registro das associações locais
formadas. E acaba por ser incorporada ao Estado no Governo Carlos Lacerda, em início
dos anos 60 (Valla 1986).
O percurso de sua experiência traduz os limites da iniciativa nascida em
estreita articulação com o Estado e referenciada na prática assistencial da Igreja Católica.
Conforme expande sua atuação, as atividades ligadas à mobilização dos moradores vão
diminuindo e as atribuições burocráticas vão assumindo maior espaço em seu trabalho de
intervenção nas favelas. Depois de cinco anos de existência, em 1952, apenas uma agência
local da Fundação havia sido criada, e nos anos seguintes os trabalhos de vistoria,
fiscalização de obras e o serviço de conservação vão tornando-se as atividades mais
importantes de seu Departamento Técnico (Valla 1986: 63).
64
Ibidem, p:27

122
Tal percurso acaba por levar a seu reposicionamento dentro do campo da
fronteira, deixando o lugar de “vanguarda” no encaminhamento do problema da favela
para encarnar um papel que lhe garante maior enraizamento no aparelho de Estado, que a
torna alvo de críticas daqueles que vão ingressando na fronteira, trazendo novas propostas.
A importância da experiência da Fundação Leão XIII na constituição da
fronteira, e das relações de mediação política aí presentes, fundamenta-se em dois
elementos:

ƒ É através da equação participação do povo, organização local e responsabilidade


individual, mobilizando aqueles que são vítimas das privações produzidas pelo
desencontro entre o econômico e social, que se busca conjurar o risco de fratura
social; uma equação que, como bem lembra Valla, isenta o Estado e os
empregadores das melhorias das moradias e das condições de vida da população
favelada (1986 :52)
ƒ A “equação” demarca a participação dos moradores das favelas, limitando-lhe o
espaço (restrito ao local) e conformando-lhe a forma (ação individual mediada pelo
próprio canal inaugurado pela Fundação), buscando esvaziar suas relações com
outros canais políticos.

Ambos os aspectos acabaram por referenciar as políticas sociais voltadas


para as favelas, e se enraizar na história destas localidades, e na própria fronteira. Foram,
posteriormente, reelaborados por diferentes instituições como a Cruzada São Sebastião
(1955) e o SERFHA ( Serviço Especial de Recuperação de Favelas e Habitações
Antihigiênicas- 1956), aos quais nos referiremos posteriormente. Em seu conjunto,
inauguraram uma forma de mediação política que burocratiza as relações entre as favelas e
o Estado e delimita o terreno de participação dos moradores destas localidades. Poderia
dizer uma forma despolitizadora. Mas que nem por isso deixa de traduzir uma produção
política do “fazer social”. O que acontece é que mais do que uma “equação” de ação social,
estes elementos fundaram “fórmulas políticas” que acabaram por se assentar na
constituição da fronteira, deixando fortes vestígios em sua dinâmica atual.
A principal dimensão desta “fórmula política” é que ela reforça a liderança
local como o canal privilegiado de acesso ao poder público, esvaziando assim as demais
experiências coletivas. Tal processo, marcante na consolidação da fronteira em fins dos

123
anos 50, tem particular desdobramento sobre sua estrutura e dinâmica, pois abre espaço a
um posicionamento desigual das organizações e grupos locais dentro do “terreno do
trabalho social”, reservando os melhores espaços àqueles agentes sociais da localidade que
estão mais próximos da liderança que possui relação direta com o poder público.

2.4. Saber técnico e científico e construção política

Ao colocar em revista alguns dos principais marcos da emergência e


constituição da fronteira, uma das questões que nos chama atenção é o diálogo entre as
formulações técnicas e científicas a respeito da favela e seus moradores, e as práticas
políticas que vão se constituindo neste terreno.
Já vimos como a aliança entre Ciência, Estado e Capital é um capítulo
fundamental da história do Rio de Janeiro, manifestando-se desde fins do século XIX,
quando as ideologias higienistas alimentaram reformas e uma “gestão científica” da cidade,
‘que escolhia cuidadosamente seus beneficiários’, sem compromissos com a maioria da
população, as chamadas “classes perigosas” (Chalhoub 1996). Mas os “ventos” mudaram
e, como sabemos, as mudanças pelas quais passava a sociedade, e particularmente a
cidade, implicavam no reconhecimento da favela, e daqueles que nela moravam, como
“problema legítimo” da sociedade. Com isso, aqui a aliança estabelece-se num tom
diferenciado, onde vão emergindo novas formas de conceber o “problema”, que
contribuirão para o que já chamamos de produção política do “fazer social” e a própria
constituição da fronteira.
A este respeito, particularmente a partir dos anos 50, no âmbito do esforço
de interpretar os desafios vividos então pela sociedade brasileira e de dar respostas a eles,
se destacaram temas, conceitos e técnicas que vão referenciar as práticas políticas
implementadas em relação às favelas.
Como Valladares afirma, ao longo dos anos 50 vai se delineando uma
mudança na literatura a respeito da favela, com o aparecimento de trabalhos baseados num
“conhecimento menos de impressão e mais de fundamento, fazendo uso de diferentes
metodologias de pesquisa e de dados oficiais combinados à observação sistemática”. Para
a autora, a mudança já havia sido apontada pelo Censo de 1950, que trouxe um avanço no
conhecimento desta realidade, baseado em critérios múltiplos e objetivos, que incluem

124
sexo, grupos de idade, cor, instrução, naturalidade, ramos de atividade. Os novos dados do
censo tornaram possível não apenas o diagnóstico de cada favela e do conjunto destas
localidades, como também dava elementos para a comparação de sua população com o
restante da cidade (2000: 24/25).
O que tal mudança nos sinaliza é que a favela passa a ser problematizada a
partir de critérios que despontavam como fundamentais ao entendimento dos processos
econômicos e sociais pelos quais o país passava, onde se destacavam as migrações rurais, a
industrialização e uma urbanização que avançava rapidamente. É bom que se ressalte,
então, que este deslocamento do olhar é produzido no diálogo do pensamento intelectual
com a realidade brasileira que colocava novos desafios. Nesta perspectiva, é o lugar da
favela, e de sua população dentro da sociedade brasileira, que vai reposicionar as imagens
então constituídas a seu respeito, e as referências através das quais se “conhecia” tais
localidades.
Esta “redescoberta” da favela, inscrita num processo que institui um novo
olhar para o país em mudança, teve a inspiração do avanço dos estudos funcionalistas no
Brasil. Tais estudos vão constituir-se na lente através da qual se dá este diálogo com os
novos desafios que se configuravam. Foi, portanto, marcada por uma visão de sociedade
que afirma a existência do “equilíbrio” entre as suas diversas partes constitutivas, que
tendem a se ajustar mantendo o todo harmônico, e que concebe o não integrado como
disfuncional uma vez que não se enquadra no ordenamento e funcionamento do sistema.
São estes postulados funcionalistas que estão subjacentes à teoria da
modernização que, a partir dos anos 50, domina o debate intelectual e político a respeito do
desenvolvimento das sociedades latino americanas. No campo do debate, são colocados
um conjunto de “problemas”, que vão sendo produzidos como “legítimos”, e interpretados
como uma espécie de distúrbio provocado pela presença do “arcaico” em uma sociedade em “modernização”.
Aqui encontramos as raízes da “questão da marginalidade
”, forma através da qual
parte da intelectualidade vai pensar o desencontro que atingia os países latino americanos. A
“marginalidade” era concebida como fruto de distúrbios do processo de modernização, e os grupos marginais como não integrados ao
sistema social. Nesta perspectiva, a modernização pela qual passavam determinados países latino-americanos produzia certas

desarticulações e rupturas pois desorganizava estruturas sociais preexistentes mas não atingia odos segmentos da sociedade, deixando
, , t
persistir então o tradicional e o arcaico. Daí surgirem desajustes, que assim definidos a partir de um modelo de desenvolvimento,
eram
organização e conduta, tido como “moderno” (urbano-industrial) mas que eram, contudo, passíveis de serem resolvidos com a integração

do “arcaico” (campo) pelo “moderno”.

125
Tanto a discussão da marginalidade, assim colocada, quan o a teoria da modernização
t , tiveram vida longa e
grande impacto sobre o debate e as políticas implementadas no combate aos problemas que apareciam no urbano.
Foram
alimentadas por uma visão dualista que, como vimos, já se enraízara no pensamento social
brasileiro. Incorporando as novas contribuições das ciências sociais, elas contribuíram
mesmo para reatualizar tal visão, dando-lhe um “escopo científico” e uma longevidade que
podemos constatar até hoje. Na busca deste “escopo científico”, elas abrem caminho à
produção de um conhecimento que procura dissecar a realidade das favelas, e sua relação
com o “todo”, tendo como fundamento os critérios que já foram aqui mencionados. Por
sua vez, tal conhecimento vai contribuindo para a conformação de técnicas e práticas
políticas que buscam intervir na favela, de forma à integrá-la no “todo” e restituir o
“equilíbrio” da sociedade. Formas de intervenção pontuadas por uma visão dual, cujos
contornos refletiam então os desafios da sociedade que se tornava urbano-industrial.
A este respeito, cabe destacar a crescente influência do método
Desenvolvimento de comunidade e sua influência nas ações da Cruzada São Sebastião, e
do SERFHA (Serviço Especial de Recuperação de Favelas e Habitações Anti Higiênicas).
O Desenvolvimento de comunidade propaga-se no Brasil a partir de um
movimento internacional, institucionalizado após a II Guerra Mundial pelas Nações Unidas
e reforçado por organismos como Unesco, OEA e CEPAL. Ingressa aqui, portanto, em
pleno contexto da chamada “Guerra fria”, integrando-se ao esforço de expansão da
ideologia e da sociabilidade capitalista, de forma a enfrentar o avanço socialista e assegurar
a hegemonia no mundo que se bipolarizava. Mais concretamente ele é implementado no
âmbito de um programa de intervenção norte-americana na América Latina, que inclui a
assistência técnica e financeira aos países da região. O foco maior aqui é a modernização
do campo e a expansão do sistema capitalista.
Segundo a ONU, em 1956, ele é definido como:

Processo através do qual os esforços do próprio povo se unem aos das


autoridades governamentais, com o fim de melhorar as condições econômicas,
sociais e culturais das comunidades, integrar estas comunidades na vida
nacional e capacitá-las a contribuir plenamente para o progresso do país. 65

65 Definição do D.C, em 1956, pela ONU, citado por Amann (2003).

126
A penetração do Desenvolvimento da comunidade no Brasil dá-se através
das Escolas de Serviço Social, sendo que é a partir dos anos 50 que emergem as primeiras
obras de intelectuais brasileiros a respeito do assunto (Valla: 1986; Ammann: 2003). Neste
primeiro momento, as reflexões e experiências desenvolvem-se fundamentalmente no meio
rural, enfatizado no próprio movimento internacional que desencadeou a proposta na
América Latina. É a partir dos anos 60, que se dá o incremento do Desenvolvimento de
Comunidade no meio urbano. No âmbito da apresentação e discussão de programas
urbanos que se desenvolvem isoladamente em várias cidades do país, realizado na XI
Conferência Internacional de Serviço Social, os projetos de erradicação e transformação de
favelas assumem um lugar particular (Ammann 2003).
Difundido como uma técnica, o Desenvolvimento da comunidade vem
referenciado pelos postulados funcionalistas, onde estão inscritas as noções de integração e
equilíbrio. Vem, portanto, marcado por uma concepção que nega as contradições do social,
percebendo os conflitos como desequilíbrios, passíveis de serem ajustados, e os valores e
formas de sociabilidade que não se “integram à ordem”, como desvios que devem ser
corrigidos. Segundo Ammann, a integração é concebida sob uma visão acrítica e aclassista,
isentando o trabalho social de qualquer envolvimento político, desconsiderando as
estruturas sociais responsáveis pela desigualdades sociais, e dissimulando a divisão do
trabalho (2003:32).
Valla chama atenção para outro aspecto que referencia a formulação do
Desenvolvimento da Comunidade no Brasil. Justamente na década de 50, quando se
intensificou a implantação desta técnica no país, difundia-se a leitura de pensadores
cristãos – como Maritain, Lebret e Mounier – pela intelectualidade brasileira. A influência
do pensamento social cristão aparece no “pressuposto de que a iniciativa e a
responsabilidade social dos membros da comunidade, ou seja, a boa vontade inerente aos
homens, seria o motor do desenvolvimento” (1986:69).
Produzida sob o impacto das teorias funcionalistas e do pensamento social-
cristão sob a intelectualidade brasileira, esta técnica, mais do que traduzir uma determinada
forma de interpretar as mudanças que então se configuravam no país, veicula uma
determinada forma de responder ao desencontro presente na tessitura da sociedade
brasileira. Dentro desta resposta, dois aspectos se destacam: o reforço da promessa de
“ajuste” do desencontro, e o papel atribuído àqueles que são por ele mais duramente
atingidos.

127
O tom de promessa do “ajuste” contido na proposta é parte integrante do
próprio imaginário produzido pelas formas de sociabilidade capitalista, que nega e esvazia
os conflitos aí inscritos. O segundo aspecto é que nos parece mais desafiante, já que a
noção que atribui à população a responsabilidade pela melhoria de suas condições de vida,
possivelmente foi aquela que acumulou maior força enquanto experiência e representação
social, estando estreitamente vinculada a uma determinada concepção de “participação”
que difundiu-se dentro da fronteira, encontrando-se nela presente até os dias de hoje.
Encontramos tal noção de participação nas obras dos intelectuais que se
voltaram para o Desenvolvimento da Comunidade, dentre entres José Arthur Rios,
integrante do primeiro trabalho de campo nas favelas cariocas (SAGMACS 1960) e que
esteve a frente do SERFHA, duas experiências sobre as quais falaremos mais adiante. Uma
das obras de Rios (Educação de Grupos, 1957), levanta a importância da educação de
comunidade como um tipo de educação social que visa promover o levantamento dos
níveis e padrões da vida de uma comunidade inteira através do planejamento democrático
de suas possibilidades e recursos. Proclama como objetivo primordial desta educação, a
solução coordenada dos problemas técnicos e humanos da comunidade, de forma que a
relação entre grupos e indivíduos realize os valores da paz social e do bem comum. Para
alcançar o objetivo, salienta algumas estratégias: o controle social pelas instituições básicas
da sociedade, o combate às “ideologias indesejáveis” e o assentamento de um consenso
social legitimado nas lideranças locais. 66
Safira Ammann, que faz uma análise desta obra e de outras produzidas por
intelectuais do Desenvolvimento de Comunidade, avalia que o trabalho de Rios é inspirado
em autores vinculados à sociologia americana, tendo como grande tônica a noção de
integração, que embasa seu conceito de comunidade e tipologia de comunidade. A autora
lembra ainda que a obra insere-se na política nacional desenvolvimentista, “cujo eixo é a
modernização com salvaguarda da paz social”. E destaca que ela sugere modelos que
fragmentam e isolam os grupos e comunidades em ações e decisões de âmbito estritamente
local, ao invés de os engajarem nos processos decisórios da nação. (2003)
Em Rios, assim como em outros, autores, é através do desenvolvimento de
grupos/comunidades que se dá a “participação”, que assume um sentido restrito,
consistindo fundamentalmente na mobilização dos recursos da comunidade na solução de
seus problemas.

66
As idéias de Rios aqui expostas foram retiradas de Ammann (2003)

128
A participação se consubstancia pela contribuição que as autoridades locais e o
povo dão aos técnicos, no estudo e no tratamento dos problemas da
comunidade. Focaliza-se a necessidade de “induzir a comunidade a escolher
uma solução e a tomar as providências necessárias para a sua execução” pois,
sem isso não conseguirá interessá-la. Enfatiza-se que “se a execução é confiada
aos próprios interessados não se tornam necessárias grandes somas de
investimento” e que o “plano será mais adequado se consultar mais de perto
dos desejos e as aspirações da comunidade” (Ammann 2003:45)

Tal noção de participação aparece nas primeiras experiências de


Desenvolvimento de Comunidade em relação às favelas. Valla localiza sua utilização nas
ações da Cruzada São Sebastião: na implementação da população favelada nos blocos
erguidos ao lado da favela da Praia do Pinto- Leblon; e nos projetos sociais e de infra-
estrutura urbana desenvolvidos nas favelas localizadas em diferentes regiões do Rio de
Janeiro (1986).
Criada em 1955, a partir de uma idéia lançada pelo bispo Dom Helder
Câmara num Congresso Eucarístico, a Cruzada nasce com a finalidade de “dar solução
67
racional humana e cristã ao problema das favelas do Rio de Janeiro”(1986) . O
desenvolvimento desta iniciativa da Igreja, num momento em que outra instituição da
Igreja já se encontrava atuando na fronteira, explica-se pela desativação e
descaracterização do trabalho da Fundação Leão XIII. Tendo como base Parisse, Valla
avalia então que o surgimento da Cruzada dá-se em função da necessidade de “recuperar o
espírito empreendedor que caracterizava a ação de sua predecessora em seus primórdios”.
Uma outra razão, também apontada pelo autor, está associada à configuração de forças
políticas e suas relações com a Igreja Católica: a iniciativa da Cruzada foi viabilizada com
o apoio do pacto populista representado pelo PSD/PTB enquanto a Fundação, desde seu
surgimento, teve a seu lado a UDN (Valla 1986:63/64).
As duas razões nos indicam elementos presentes no terreno de fronteira. Um
deles, relaciona-se ao posicionamento distinto que a Cruzada vai assumir em relação à sua
predecessora – a Fundação Leão XIII. Parece claro aqui a concorrência e a disputa pela
liderança no tratamento do problema legítimo entre instituições/iniciativas pertencentes ao

67 III Congresso Brasileiro de Serviço Social citado por Valla (1986:65)

129
mesmo campo, no caso a Igreja, contribuindo para operar deslocamentos por parte destas
instituições dentro do campo de fronteira. A outra razão nos leva a um aspecto que marca a
experiência histórica deste terreno de fronteira e que hoje, por razões que levantaremos
mais adiante, assume particular destaque: as disputas travadas pelos agentes sociais na
fronteira na busca de aliança com os poderes públicos, e a forma como diferentes forças
políticas “fatiam” este campo de fronteira, estabelecendo elos com os agentes sociais que
podem favorecer a ampliação de suas bases políticas.
A Cruzada traz um novo tom à forma de intervenção nas favelas, o que fica
claro no objetivo traçado pela entidade, a fim de responder sua finalidade: “desenvolver
uma “ação educativa de humanização e cristianização no sentido comunitário, partindo da
urbanização como condição mínima de vivência humana e elevação moral, intelectual,
social e econômica”. Diferindo da proposta da Fundação Leão XIII, que enfatizava a
assistência material e moral à população favelada, a preocupação com a ação educativa da
Cruzada indica como horizonte a integração social das populações em questão (Valla
1986).
É aqui que a proposta da Cruzada encontra-se com o Desenvolvimento de
Comunidade. Ainda acompanhando o estudo organizado por Valla a respeito da
experiência da Cruzada, destacamos que, por ocasião da transferência das famílias
faveladas para o conjunto da Praia do Pinto, houve a criação de um Departamento de
Serviço Social que lançou mão do Desenvolvimento de Comunidade, promovendo
encontros cujo objetivo era “ o estudo em comum dos problemas do conjunto, necessidades
e aspirações dos moradores, para através daí, levá-los a descobrir os recursos ao seu
alcance (relacionando-os com as necessidades existentes), planejar a solução dos
68
problemas e melhorias a empreender ou recursos a criar” . Destas reuniões, surgiu a
idéia de criar um Conselho de Moradores que deveria ir assumindo as funções
administrativas até chegar a se constituir no verdadeiro “governo do bairro”. Dentre as
tarefas dos presidentes dos conselhos de cada bloco estavam: o controle dos indivíduos que
circulavam no conjunto, a conservação dos prédios e a organização de grupos para
trabalhos cooperativos em torno de serviços de uso coletivo. De acordo com Valla, tal
sistemática de trabalho expressa a tônica do Desenvolvimento de Comunidade, trazendo
uma concepção de participação que “traduzia-se na prática em todo um trabalho de

68
Citado por Valla (1986: 71), III Congresso Brasileiro de Serviço Social. Cruzada São Sebastião: duas
experiências de promoção humana. Rio de Janeiro, outubro de 1965, p:3

130
persuasão da população no sentido de levá-la a aceitar e implantar um novo modus
vivendi”.

Se considerarmos as implicações da proposta de “integrar ex-favelados” na


vida normal do bairro não é difícil concluir que o referido conselho de
moradores concretizava, na realidade, uma etapa prevista na proposta dos
agentes. Sua institucionalização no conjunto de apartamentos asseguraria a
adoção de uma das práticas de organização social consagradas e legitimadas
pela ideologia dominante, e que nunca tinham-se propagado como prática na
vida da favela (1986: 72)

Além disso, a experiência da Cruzada é marcada pela preocupação com a


difusão de valores morais e cívicos, expressos no Decálogo dos Cavalheiros de São
Sebastião cujos “mandamentos” demarcam os padrões de sociabilidade, valores culturais e
idéias políticas esperados dos “ex-favelados”. Como exemplo: “Ajude seu vizinho”, “Sem
exemplo não se educa”, “Bater em mulher é covardia”, “Palavra de homem é uma só”,
“Quero meu direito, mas cumpro minha obrigação”, “Sem Deus, não somos nada” 69 . A
pergunta que fica é se os “ex-favelados” disseram “amém” a tudo isso!
Em outros projetos implementados pela Cruzada em diferentes favelas do
Rio de Janeiro, o apelo à participação popular foi mais expressivo e houve o
desenvolvimento de trabalhos cooperativos visando melhorias na infra estrutura urbana
local, sendo que em Morro Azul pela primeira vez foi instalada uma rede de esgoto em
favela. Recuperando a avaliação de Parisse, Valla destaca que a ação da Cruzada de
entrega de apartamentos passou para obras de melhorias coletivas realizadas pelos
interessados com a ajuda dos técnicos (1986:76).
Os limites da experiência da Cruzada são claros e já foram acima
levantados, relacionando-se fundamentalmente com sua visão de participação. De certa
forma, eles podem ser explicados se considerarmos as raízes de sua proposta: o fato de ser
implementada pela Igreja Católica, viabilizada através do pacto populista cujos esforços
vão se concentrar na perspectiva de incentivar a “modernização” e “assegurar a paz

69
Citado por Valla (1986) mas a fonte original do autor é Parisse. Favelas do Rio de Janeiro. Evolução e
Sentido. Caderno do CEMPHA, Rio de Janeiro, 5, 1969

131
social”; e incorporar as estratégias de desenvolvimento local da proposta do
Desenvolvimento de Comunidade, referenciados numa visão funcionalista da sociedade.
O que queremos levantar aqui é o que não foi limite. Considerando a
avaliação de Parisse a respeito do deslocamento operado na ação da instituição, de certa
forma, ela instaura um “novo” lugar na fronteira. Podemos supor que, parafraseando a
frase de Guimarães Rosa, o “novo” não se encontra nem na partida, nem na chegada. Ele
se colocou no meio da travessia. Os limites da proposta da Cruzada, informada por uma
visão de educação que afinal buscava uma mudança do favelado, no sentido de que ele
deixasse de ser favelado para se integrar à cidade, possivelmente foram redefinidos face ao
desenvolvimento da própria proposta, quando os técnicos da instituição defrontaram-se
com os agentes sociais atingidos pelos projetos. A experiência, ao abrir espaço para que
houvesse um efetivo contato entre os técnicos e a população, com esta última
possivelmente não dizendo “amém”, acenou com um deslocamento para se pensar a favela,
e seus moradores, dentro do espaço urbano, que pode ser assim resumido: recuperando
uma expressão de Olavo Bilac, analisada em páginas anteriores, ao invés de atuar no
sentido de fazer os favelados deixarem seu estado de “fora da vida”, levando-os para
“dentro da vida” (o que implicaria na extinção do favelado e da favelas) , os esforços dos
mediadores envolvidos nas iniciativas deveriam se dar no sentido de reconhecer os
favelados como “dentro da vida”, ou seja, reconhecê-los como parte da cidade, procurando
potencializar em sua vida aquilo que poderia contribuir para melhoria de suas condições de
existência na cidade.
A reflexão acima nos faz pensar também nas contradições presentes nas
experiências desenvolvidas dentro da fronteira que, muitas vezes, nascem animadas por
um leque de interesses que demarcam seu lugar de ação, mas que, no confronto com
aqueles que são atingidos pelos projetos, acabam por se redefinir. Ainda que, muitas vezes,
tal redefinição não implique em uma ruptura com a proposta inicial – que freqüentemente
tem seus limites demarcados pelas forças sociais que a sustentam-, ela produz experiências
(sob a forma de conflitos, interrogações e mesmo novas práticas), capazes de deslocar
imagens cristalizadas e sugerir novos caminhos de ação. Talvez isso explique o papel que
a Cruzada assumiu, algumas vezes, posicionando-se como interlocutor dos moradores das
favelas junto ao Estado, como ocorreu em 1958 e 1959, quando negociou com o poder
público a não remoção de três favelas então ameaçadas, Borel, Esqueleto e Dona Marta. A

132
questão é atual porque talvez ajude a compreender diversas experiências desenvolvidas na
fronteira hoje.
É com o SERFHA (Serviço Especial de Recuperação de Favelas e
Habitações Anti Higiênicas), que o Desenvolvimento de Comunidade assume maior
expressão, tornando-se a atividade central na proposta de intervenção desta instituição,
criada em 1956, sob a administração de Negrão de Lima, e contando o apoio do governo
desenvolvimentista de JK.
A experiência do SERFHA, talvez, seja também um dos exemplos mais
claros da aliança entre Ciência e Estado no encaminhamento da questão das favelas. A
origem da instituição remonta a uma pesquisa de campo realizada nas favelas da cidade por
sociólogos do SAGMACS (Sociedade de Análises Gráficas e Mecanográficas aplicadas
aos Complexos Sociais), dentre os quais o já citado José Arthur Rios. O trabalho deu
origem ao Aspectos Humanos das Favelas Cariocas, publicado em dois suplementos
especiais do jornal O Estado de São Paulo, em 1960. Na visão de Valladares, este é o
marco inicial da pesquisa das ciências sociais nas favelas, desenvolvendo o que ela chama
de “um conhecimento mais de fundamento” (2002: 25).
A referida pesquisa realiza uma avaliação crítica das experiências
desenvolvidas pelas instituições da Igreja, destacando seu caráter assistencial-paternalista e
sugere que seja formulada uma política flexível em relação às favelas, destacando, dentre
outras afirmações, que: “o favelado é sempre incluído passivamente quando a
Administração deveria confiar a ele a tarefa de sua própria recuperação”; “nessa
organização de grupos auto-suficientes radica-se todo o problema educacional”; “a favela
não é só uma imposição, mas um hábito”; “o apartamento aburguesa o favelado sem o
educar”; “a melhoria da habitação pelo favelado é mais educativa que a aquisição do
apartamento”. Recomenda ainda: “ a transmissão de propriedade nas favelas, após a
urbanização, só poderá ser feita de acordo com os favelados, estimulando a formação de
sociedades de melhoramentos que, imunes da influência política, poderiam prestar serviços
à Administração, ser seus intermediários naturais com a população das favelas”; “a
formação e a organização de grupos incentivando a sociabilidade, a proteção e o respeito
mútuo, o sentimento de independência, o senso de responsabilidade, seriam passos

133
importantes para a educação dos favelados. A esses líderes a Administração poderia
delegar tarefas desobrigando-se de encargos custosos e de reduzida eficácia”. 70
De acordo com Valla, foi depois deste trabalho do SAGMACS, que o
SERFHA ganhou autonomia e força política, podendo então desenvolver sua própria
proposta, baseada no relatório da pesquisa, e tendo à frente José Arthur Rios. Ainda
segundo o autor, o elemento inovador na proposta é a ausência da idéia de investir recursos
públicos na solução do problema e a noção de “participação” acentua-se71 (1986: 79) .
Repetimos: é ao favelado que deve ser confiada a “tarefa de sua própria recuperação”, a
“melhoria da habitação pelo favelado é mais educativa que a aquisição do apartamento” e
“a esses líderes a Administração poderia delegar tarefas desobrigando-se de encargos
custosos e de reduzida eficácia”. Aqui, a “participação” é vista como participação deste
agente social nas melhorias de sua comunidade, “e caminho educativo” capaz de promover
a “recuperação” do morador da favela. Poderíamos dizer que, nesta perspectiva,
participação implica em mais recursos da comunidade, maior poder dos “líderes”, com
reforço de sua relação com o poder público, e economia de recursos públicos.
A proposta, inspirada na tônica do Desenvolvimento de Comunidade,
operacionalizou-se fundamentalmente através da organização de associações de
moradores. Até maio de 1962, quando o órgão foi extinto, foram criadas 75 associações,
sendo que cada uma delas assinava um acordo com o SERFHA, onde constavam os
compromissos das associações de moradores e da coordenação (Valla 1986; Burgos 1998).
Dentre os primeiros, destacam-se: a cooperação na urbanização da favela, com a coleta de
contribuições junto aos moradores, devendo a associação se responsabilizar pela utilização
das contribuições e submeter-se à supervisão da coordenação; contribuir para substituição
progressiva dos barracos por construções mais adequadas e mobilizar moradores para
realização de outros trabalhos de emergência na favela – Operação Auto Ajuda – conforme
os planos da coordenação; “solicitar autorização da coordenação para melhoria das casas,
especificando as necessidades de reparo e manutenção”; “impedir a construção de novos
barracos, vindo quando necessário a esta coordenação para apoio policial”; “na favela,

70
Tais avaliações e recomendações encontram-se citadas em Valla (1986: 78) e fazem parte do Relatório do
SAGMACS: Aspectos Humanos da Favela Carioca, Suplemento Especial: O Estado de São Paulo, 13 a 15
de abril de 1960.
71
Valla chama atenção de que: “o que parece ser algo original, inteiramente novo, revela-se apenas como a
consolidação de uma tendência que já estava sendo gestada nas experiências anteriores. Na verdade, na
medida em que sobrevivia, nestas experiências anteriores, a concepção paternal-assistencialista de forma
acentuada, torna-se difícil apreender a gestação deste novo, ou seja, o apelo à “participação” dos moradores
nos projetos (1986: 79)

134
manter a ordem, o respeito à lei, e de um modo geral, o cumprimento das determinações da
coordenação e do Governo” 72 .
Os compromissos da coordenação do órgão incluíam: “fortalecer a
associação e nada fazer nas favelas ou vilas operárias sem anúncio ou acordo prévio”;
“supervisionar a utilização dos recursos recolhidos pela associação e aplicados para
melhoria na favela”; “substituir progressivamente os barracos por construções mais
adequadas com a ajuda dos próprios favelados”; “autorizar a melhoria dos barracos
existentes, tendo sido os reparos aprovados pela associação”.
Os termos do acordo são avaliados por Valla e Burgos que chamam atenção
para diferentes aspectos.

Na verdade, as determinações e os planos governamentais de urbanização, já


estavam traçados. E para a sua elaboração, os moradores não foram
convocados a participar. O momento de sua convocação é, justamente, aquele
em que o plano deve ser executado. A auto-suficiência dos grupos pretendida
na proposta dos agentes reduz-se assim à capacidade destes em acatar e fazer
com que os outros acatem e executem trabalhos de melhorias nas favelas
“conforme os planos técnicos e a orientação da coordenação (Valla 1986: 83)

Os limites da flexibilidade proposta pelo SERFHA encontravam-se na


própria concepção e organização do órgão, cujos planos, traçados de antemão, reservavam
aos moradores o lugar de executores e “legitimadores” das “determinações” da
coordenação e do Governo. Era este o lugar que permitia o encaminhamento do
“problema” das favelas através da “redução de encargos custosos” e de formação de líderes
que servissem à “Administração”.
A análise de Burgos nos ajuda a avançar na importância deste último
aspecto dentro da experiência do SERFHA, que vai marcar a história das favelas nos anos
iniciais da década de 60. Segundo o autor, no acordo entre associações e o órgão, a “a
moeda de troca da promessa de urbanização é o controle político das associações pelo
Estado, arranjo que deveria criar uma cumplicidade entre as lideranças locais e o poder
público”. A despeito dos ideais contidos em sua proposta, de reforçar a auto-suficiência

72
As informações do acordo entre as associações de moradores e o SERFHA encontram-se em Valla (1986)

135
dos favelados, “o que prevaleceu foi a tendência de subordinar politicamente os moradores
das favelas”, com o poder público apenas acenando com “a substituição da Igreja pelo
Estado” (1998: 31/32).
Possivelmente, podemos encontrar aí uma das razões que levaram ao fim da
experiência do SERFHA em 1962, quando Carlos Lacerda, assumindo o Governo do
recém criado Estado da Guanabara, exonerou José Arthur Rios e extingüiu o órgão,
subordinando-o à Secretaria de Serviços Sociais (Valla 1986). “O motivo era evidente”,
analisa Burgos: “o SERFHA trazia a marca do governo anterior, tendo sido criado durante
a gestão de Negrão Lima” (1998:33). Mas, além das divergências políticas, havia algo
mais, de acordo com Valla: “as imposições do capital imobiliário, que cobiçava os valiosos
terrenos onde estavam localizadas muitas favelas” (1986: 84)
O destino do SERFHA não se afasta dos rumos assumidos por muitas
experiências tecidas dentro do arranjo populista. A abertura de canais diretos com grupos
populares, alojando tais relações dentro da estrutura do Estado, não se fez sem custos
políticos. Se, por um lado, permitiu o maior controle destes grupos e rendeu saldos
políticos, por outro lado, produziu demandas que extravasaram o pacto populista, não
podendo ser por eles atendidas, especialmente num momento em que a composição de
forças políticas no país se reorganizava, de forma a garantir o que viemos chamando aqui
do desencontro. A pressão do capital imobiliário é revelador desta reorganização de forças
no então Estado da Guanabara, tendo se constituído num elemento de desequilíbrio do
arranjo populista que já se esgotava. Em outras palavras, o SERFHA esteve presente na
criação de 75 associações. Contudo, a pergunta que fica é: seria capaz de “controlá-las”,
particularmente num momento em que o capital imobiliário se organizava, anunciando
seus interesses remocionistas? Os vínculos “orgânicos” entre associações de moradores e
órgão seriam suficientes para assegurar a paz social num momento em que o fantasma da
remoção crescia ameaçando o que muitas favelas já começavam a conquistar, o “estar
dentro da vida”?

2.5. Amém ou além?

A esta altura, a gente se pergunta: conforme esta fronteira ia se constituindo,


como se colocavam os moradores de favela dentro deste terreno?

136
Aqui, faz sentido lembrar aquela velha frase: “questão social era caso de
polícia”. Como vimos, conforme tornava-se um problema legítimo, a favela foi deixando
de ser apenas caso de polícia. Porém, o movimento que a torna “caso de história” tem sido
mais lento. O investimento na documentação sobre as favelas cariocas, o diálogo da
história com a memória, particularmente os projetos de memória desenvolvidos em favelas
do Rio de Janeiro, vêm apontando caminhos para tornar a favela “um caso para história” da
cidade, e, especialmente, contribuir para que as experiências históricas das favelas cariocas
e de seus moradores venham a público, favorecendo maior compreensão deste espaço
social e seu reconhecimento como parte da cidade. 73
Mas o desafio que se coloca, de início, na recuperação da posição destes
agentes sociais na fronteira, é que sua prolongada inexistência social (afinal, eram os “fora
da vida”) e o não reconhecimento da favela como parte da cidade, alojava tudo que dizia
respeito a este pedaço do mundo social no universo dedicado à “gente perigosa”.
Há uma certa invisibilidade em relação ao que acontecia nas favelas antes
dos anos 50. Mas podemos imaginar, por exemplo, que por detrás de uma simples
ocorrência policial, possivelmente, havia uma expressão e resistência cultural ou uma luta
de política, no sentido que já nos referimos anteriormente, aquele indicado por Francisco
de Oliveira: reivindicação de parcela dos que não êem parcela. São os causos que não saem
no jornal, ou, então aparecem na “coluna criminal”. E aqui recupero depoimentos presentes

73 A este respeito, nos últimos anos são várias as iniciativas desenvolvidas em relação à memória
das favelas e , envolvendo diferentes agentes sociais, de campos diferenciados, mas muitas vezes
em diálogo. Dentre as iniciativas mais importantes, destaca-se a Rede de Memória do CEASM
(Centro de Estudos e Ações Solidária da Maré), que tem à frente pesquisadores, professores e
estudantes de curso universitário da região. O Favela tem Memória, integrante do portal Viva
Favela do Viva Rio, que envolve um conjunto de atores diferenciados, dentre eles os
“correspondentes comunitários”. E ainda o já mencionado Condutores de Memória, projeto cuja
origem eu pude acompanhar e que tem à frente três educadoras de favelas da Grande Tijuca. Há
ainda vários outros projetos ou programas de instituições que incorporam a temática da memória
da favela, como a iniciativa do UrbanData que procurou recuperar a memória escrita sobre as
favelas, sistematizando e analisando toda a bibliografia levantada, que deu origem a publicação
organizada por Valladares e Medeiros(2003). Importantes também têm sido os eventos que
procuravam dar visibilidade ao que vem sendo realizado e promover a troca de experiências entre
as várias iniciativas. Nos últimos anos, participei de três eventos: o Seminário Memória das
Favelas, em 2003, promovido pelo ISER e que deu origem à publicação do ISER, A Memória das
Favelas; Memória Social e Favelas sob a coordenação da Profa Lygia Segalla, ocorrido na
Faculdade de Educação da UFF; Grande Tijuca tem memória e História para contar, realizado
pela Agenda Social Rio e apoiado pela Universidade Cândido Mendes. O objetivo deste último era
debater a criação de um Centro de Memória na Grande Tijuca, região do município do Rio de
Janeiro, aonde a Agenda Social Rio vem desenvolvendo projetos.

137
em Varal de Lembranças: Histórias e causos da Rocinha (1983), uma publicação que foi
marco para aqueles que se debruçavam sobre as favelas 74 :

Antigamente a polícia chegava, carregava médium, mesa e tudo. Baixava o


pau. O delegado prendia todo mundo. Baixava o pau e prendia. Era isso, minha
filha! O catolicismo era quem mandava. Mandavam matar, prendiam. Hoje é
diferente, não tem nada disso. Cada um tem o que quer, faz o que quer (Ivens
Guedes/1982) 75

Os moradores pediram à Prefeitura um melhoramento, né? Muito morador fez


ajuda então. A Prefeitura deu o cimento. Sabe quem ainda estava no poder? O
Presidente Vargas. Aí, eles vieram, fizeram o orçamento e começaram a
colocar cimento. Aqui dentro o pessoal foi reunindo, então foi melhorando a
situação aqui (Guilhermina Coelho da Silva, 1982)

São invisíveis também os enfrentamentos que se iniciam lentamente e se


alongam, como muitos daqueles que marcam os confrontos contra a expulsão da terra, e os
embates cotidianos, vividos na interlocução com diferentes mediadores que chegam às
favelas. Mas podemos imaginar que as lutas da favela não se iniciaram com os primeiros
movimentos que foram registrados como “organização comunitária” dentro do campo da
fronteira. Podemos imaginar que antes de enfrentar processos de remoção ou confrontar-
se com o poder público, moradores de muitas favelas, “na calada da noite”, tiveram que
enfrentar grilheiros e representantes de pessoas que se diziam proprietários de terras, e
policiais.
74
O marco da publicação está associado ao fato de que foi uma das primeiras publicações a se voltar para a
história de uma favela carioca. Além disso, ela foi resultado de experiências de educação comunitária e de
uma pesquisa coordenada por Lygia Segalla, desenvolvidas em um período em que o movimento de favelas
encontrava-se particularmente vigoroso. A respeito da experiência, é interessante a reflexão da antropóloga
Lygia Segalla na publicação do ISER, A Memória das favelas (s/data).
75
Segundo uma das matéria feitas através da matéria “No tempo dos atabaques”, assinada por Jaime
Gonçalves, e resultante da pesquisa do portal A Favela tem Memória (www.favelatememoria.com.br), os
terreiros espíritas nas favelas cariocas tiveram seu auge entre os anos 40 e 60, tendo sido
submetidos à lei do silêncio e sofrido uma violenta perseguição policial. Tais terreiros eram
freqüentados por personalidades da época, inclusive políticos. Esta é uma história que leva a marca
de uma especial invisibilidade, mas que, escavada, pode nos dar indicações das trocas
“subterrâneas” entre a favela e o chamado “asfalto”, contribuindo para uma maior compreensão da
fronteira. A este respeito, podemos recordar Zaluar e Alvito que avaliam que é possível identificar, na
mesma cidade, diferentes maneiras de se relacionar com o estranho, com o que não é amigo nem inimigo,
assim como diversos modos de criar as pontes entre amigos e inimigos (1998:20)

138
Esta foi uma possibilidade que me foi sugerida em uma oficina realizada no
Morro do Borel através do depoimento de José Calegário, morador do local que foi um dos
fundadores da associação: “Fomos perseguidos pelos grilheiros que tinha nesse morro em
50. Tivemos um debate que vinha polícia toda semana, quase todo dia, pra tirar a gente
daqui, a mando de um grilheiro daqui. Era o Pacheco” 76 . E também através da leitura do
livro de Manoel Gomes sobre as lutas do povo do Borel. O livro relata a complexa rede
que envolveu uma sucessão de grilheiros que controlaram as terras, sublocando os terrenos
do morro para a construção de barracos, destacando que: um deles “não permitia a entrada
clandestina de moradores, quem não pagasse seria despejado” e que “quando algum
pretendente a aluguel tentava fazer uma casinha melhor de alvenaria, ele não dava
permissão”; outra “não era de tocar viola de papo para o ar, cada vez mais violenta na
expulsão e destruição de barracos”; e outros dois “agiam como se fossem policiais,
particulares, é claro”. Destaca também a desconfiança, por parte dos moradores, em
relação à legitimidade das transações feitas pelos grilheiros. E narra ainda a luta maior dos
moradores contra a Imobiliária Meuron Ltda, pertencente à empresa Seda Moderna, e que
dominava a transação de terras na área onde se localizava o morro, sendo também
responsável pela construção de moradias verticais no chamado “asfalto”.
Tais informações concorrem para reforçar a reflexão de Vaz (2002) a
respeito das aproximações entre favela e cortiço, já aqui abordadas, e a análise de
Valladares que, no “período fundador”, a favela “percebida como temporária, transitória, é,
no entanto, logo reconhecida pelos primeiros observadores como detentora de valor
econômico e, como tal, explorada mediante a cobrança de aluguel do ‘chão’ ou dos
barracos” (2002: 25). Isso nos mostra que, quando ainda não se constituía em problema
legítimo, e era percebida por muitos como “fora da vida”, a favela já era espaço de
conflitos próprios do circuito da “vida moderna e civilizada”. Há muito silêncio em torno
da forma como os moradores se colocavam diante de tal exploração, mas, novamente, o
livro de Gomes indica pistas:

Por meados do ano de 1945, os moradores do local começaram a observar as


novas construções na rua Conde de Bonfim (...) começa daí uma certa
desconfiança por parte dos habitantes mais antigos que duvidavam da

76
Relatório de campo junto às oficinas realizadas pelo grupo Os Condutores de Memória: um histórico
cultural da Grande Tijuca, 2001/2002

139
legitimidade do negócio de Daniel e Pacheco, não só não levando a sério suas
instruções, deixando alguns até de pagar o “tutu” dos aluguéis (Gomes
1980:13)

Para além de alguns indícios, como estes, que aguçam nossa imaginação, ou
da imaginação, que nos faz perseguir os indícios pistas do que acontecia nas favelas,
sabemos aquilo que se tornou fato, ou notícia. Trabalharemos, pois, com os fatos aos quais
temos acesso, que se remetem fundamentalmente ao período da história das favelas que
começa em meados dos anos 40.
O que temos acesso nos diz que nem bem a fronteira emerge, os moradores
se posicionam dentro deste terreno, interrogando o destino que se reservava a eles. Assim o
fizeram quando, em 1945, algumas favelas (inicialmente o morro Pavão/Pavãozinho e
depois Cantagalo e Babilônia) criaram as já mencionadas comissões de moradores a fim de
resistir a um possível plano da Prefeitura de remoção para Parques Proletários Provisórios
(Burgos 1998).
O lugar ocupado pelas ameaças de remoção na experiência das favelas pode
ser percebido nas palavras de Izequiel Nascimento, um dos líderes da luta contra a
remoção no Morro do Borel e da organização da associação de moradores, e, ainda,
primeiro presidente desta associação: “o emprego a gente perde, mas a casa fica”77 . A
frase, mais ainda do que força simbólica, tem a força de quem viveu a experiência da perda
de trabalho por causa de sua luta política. Novamente recorrendo ao depoimento de José
Calegário, Izequiel “perdeu o emprego, apanhou muito nessa ocasião”. “Ele trabalhou e
lutou muito por isso aqui. E, não tem uma estrada com o nome dele aqui no Borel”,
avaliou 78 . A luta foi ganha, mas o nome de Izequiel não ficou, o que é lamentado pelos
moradores mais antigos.
A ameaça de remoção marca também espaço importante na dinâmica da
fronteira, então em constituição, tornando-se uma questão central em torno do qual os

77
Izequiel Manoel do Nascimento, hoje falecido, nascido em Pernambucano, era cozinheiro e
trabalhava na Marinha Mercante, tendo chegado ao Rio de Janeiro em 1923 e ao Borel nos anos 40
de nascimento. A entrevista, realizada pela equipe de pesquisa da qual eu participava, fazia parte
da pesquisa No Fio da Navalha: Memória Histórica, Conflito Social e Cidadania no Morro do
Borel, desenvolvido pelo Centro de Ética e Política do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da
Universidade Federal do Rio de Janeiro /UFRJ, sob orientação do Professor Olinto Antônio Pegoraro, e
apoio do CNPq, 1990-1992.
78
Relatório de campo junto às oficinas realizada pelo grupo Os Condutores de Memória: um histórico
cultural da Grande Tijuca, 2001/2002.

140
agentes sociais aí presentes vão se posicionar. Mais uma vez, Izequiel Nascimento, nos dá
indicações dos agentes em cena:

Fui a uma reunião para fechar um acordo na divisão de terras, a Seda faria
casas do outro lado para nós (...) ela não cumpriu o acordo: era tudo mutreta(...)
Na reunião estavam: o Senhor Tenório Cavalcanti, um padre que não lembro o
nome, Luzia Maria Aragão da Fundação Leão XIII e Felipe Pinto da Seda
Moderna. 79

Não foi à toa que a luta contra a remoção foi o elemento fundamental para
desencadear as primeiras mobilizações dos moradores de favelas no âmbito da fronteira,
em algumas delas dando origem à organização das associações de moradores. Este foi o
caso do próprio Morro do Borel, cujas ações contra a remoção acabaram por levar ao
surgimento, em 1952, da associação de moradores, uma das primeiras da cidade.

As lutas são mais antigas do que a associação. A associação é nova. Eu sou um


dos fundadores da Associação que naquele tempo era “União dos
trabalhadores favelados” e eu, acredito que é a mais antiga do Rio de Janeiro
(José Calegário, morador do Morro do Borel). 80

A formação desta associação do Morro do Borel é um exemplo da


organização dos moradores fora do domínio da Fundação Leão XIII, que, até o
desenvolvimento das atividades do SERFHA, vai exercer o controle sobre muitas
associações comunitárias. Novamente, aqui, recorremos a Izequiel Nascimento que avaliou
a ação do órgão da Igreja Católica: “ficavam tapeando o pessoal, dando fazenda, fazendo
casamento”. A disposição combativa dos moradores diante dos oficiais que procuraram
remover os moradores também é relatada por ele quando recorda que disseram a eles: “lá
dentro nós não temos nada, mas água fervendo tem”.

79
Depoimento de Izequiel Nascimento presente no relatório de Luis Augusto Borges de Leão, Trabalho e a
Cidade: um estudo sobre a questão da terra e a formação da Chácara do Céu, UFRJ, mimeo, 1992. O
relatório é parte integrante da pesquisa acima referida.
80
O livro de Gomes não traz um registro claro de anos. Mas segundo informações de moradores antigos, a
formação da associação data de 1952, por ocasião do início do processo de luta contra a remoção. Porém, foi
oficialmente registrada em 1954. Relatório de campo junto às oficinas realizadas pelo grupo Os Condutores
de Memória: um histórico cultural da Grande Tijuca, 2001/2002

141
No processo de organização da associação, porém, encontra-se a presença
de outro mediador: o advogado Margarino Torres, que chegou pela primeira vez ao Borel,
em 1952, numa assembléia que agregou cerca de 200 moradores, acompanhado então de
um desembargador. A partir daí, desenvolveu uma ação que ultrapassou a esfera jurídica
contribuindo na politização da luta dos moradores e sua articulação com as experiências
de outras favelas. Orientou a fundação da associação e sugeriu ainda a organização de um
mutirão para a construção de um posto médico e de uma pequena escola, que, tão logo foi
erguida foi alvo de uma tentativa de remoção por parte dos oficiais da Polícia Municipal,
que ocorreu durante o dia, horário em que grande parte dos homens da localidade
encontravam-se fora. A remoção foi impedida por mulheres e crianças e pela intervenção
do advogado que acionou rapidamente a Justiça.
No movimento sinteticamente relatado, acima dois aspectos se destacam. O
primeiro, a construção da escola pelos moradores, orientada pelo advogado, em meio ao
processo de resistência, expressa uma forma de luta que posteriormente será incorporada à
experiência do movimento das favelas. A presença da escola favorece a garantia de
ocupação da terra, abre espaço à organização local e ao movimento de pressão por outras
melhorias, como aquelas que dizem respeito à infra-estrutura urbana. O segundo aspecto
está relacionado a este primeiro: a investida contra a favela, no momento em que ela
constrói a escola, fortalecendo seu enraizamento no local, demonstra que o poder público
não estava alheio à importância da instituição criada pelos moradores dentro da
organização comunitária.
O espaço ocupado pelo movimento dos moradores na fronteira pode ser
medido pela repercussão nos jornais da época. O Correio da Manhã, de 24 de junho de
1954, noticiou o fato, trazendo as declarações do Coronel Oswaldo Melchiades de
Almeida, presidente da Comissão de Favelas e diretor da Polícia de Vigilância: “nenhuma
violência, nenhuma arbitrariedade jamais foi praticada por mim ou pelos meus auxiliares
contra humildes e honrados trabalhadores, que habitam o Morro do Borel, ou qualquer
outra favela carioca”. O Coronel prossegue relatando: o encaminhamento que deu ao caso,
exigindo que a Imobiliária Meuron “garantisse aos favelados que desejassem sair
espontaneamente uma situação com relativo conforto”; a solução dada pela Imobiliária,
que estava disposta a doar um lote de um terreno no Engenho Novo ao trabalhador que
concordasse em sair dali; e seu procedimento final, realizando “um recenseamento dos
moradores do Morro do Borel”, transmitindo-lhes a proposta. A reportagem é finalizada

142
com as declarações do Coronel a respeito do advogado Margarino Torres que, segundo,
ele, agia movido por uma “orientação comunista”, colocando em prática “os métodos
marxistas de agitação, de insultos às autoridades e difamação”. “Para realizar melhor o seu
programa neste sentido, aquele advogado chegou a fundar a União dos Favelados,
juntamente com Vereadores e Deputados comunistas”, avaliou.
_ Pelo exposto - concluiu- pode-se fazer uma idéia facilmente de quem está
contra os favelados: se os comunistas que procuram iludir sua boa fé, não permitindo que
aceitem uma proposta humana, cristã e patriótica, como a que lhes dei conhecimento; ou se
as autoridades que tudo fizeram para assegurar o bem estar e a tranqüilidade desta massa
obreira 81 .
A matéria, que dá um espaço bem extenso à visão do Coronel, traduz a
presença de outro agente social na fronteira em constituição: a imprensa 82 . Chama atenção
aqui também que os impasses vividos pelos “humildes e honrados trabalhadores” do Borel
e outras favelas eram tratados por um Coronel, que acumulava um cargo de “diretor de
polícia de vigilância” com a “presidência da comissão de favelas”, o que nos faz pensar
que tais impasses, a despeito de a favela ir se constituindo em problema legítimo, eram
tratados numa “esfera policial”. O que se destaca ainda na matéria são as declarações do
Coronel a respeito do advogado Margarino Torres. Para além de estabelecer seus vínculos
com o comunismo, o que fica evidente em suas declarações é o esforço para demonstrar
que ao contrário das autoridades, que tinham uma proposta – “humana, cristã e patriótica” -
que assegurasse “o bem estar e tranqüilidade” da “massa obreira” - a ação do advogado
não era movida por uma proposta em relação à favela, estando pois, contra ela. No âmbito
de uma conjuntura política “bipolar”, e sob o impacto da combatividade do movimento dos
moradores da favela, abre-se espaço a produção “de trincheiras” na fronteira então em
constituição, com os agentes sociais aí localizados passando a serem vistos como
“bandidos e mocinhos”. “Trincheiras” que vão marcar este terreno de mediação política,
que é a fronteira.
O peso dado pelo Coronel a Margarino Torres não foi à toa. A mediação do
advogado abriu espaço a um conjunto de relações que provavelmente tornaram possível o
reposicionamento da associação de moradores na fronteira, dando-lhe uma relativa
81
A reportagem do “Correio da Manhã” foi retirada da matéria “Os verdadeiros donos”, assinada por
Marcelo Monteiro, resultante da pesquisa do portal A Favela tem Memória
(www.favelatememoria.com.br).
82
A este respeito, cabe lembrar que desde a Batalha do Rio, à qual já nos referimos aqui, a imprensa assume
papel importante também na fronteira.

143
autonomia em relação aos agentes vinculados ao Estado e à Fundação Leão XII. Dentre
tais relações, destaca-se a aliança com políticos ligados ao Partido Comunista, e a aliança
que passa a ser desenvolvida com outras favelas. 83
Na verdade, a União dos Trabalhadores Favelados esteve à frente de um
movimento mais amplo que unia várias favelas da cidade. Segundo nos conta Ruth Barros,
uma das coordenadoras do projeto Condutores de Memória que já citamos aqui, “apesar de
estabelecida no Borel, a União era mais abrangente, acolhendo moradores de outros morros
que passavam pela mesma situação” 84 . Com efeito, posteriormente, a União teve papel
fundamental na primeira organização que articulou várias favelas cariocas. E o próprio
Margarino Torres acabou atuando junto a outras comunidades, situadas em diferentes áreas
da cidade como Mata Machado, Santa Marta, Catacumba, Parque Araxá, o que lhe deu
base para candidatar-se a vereador na legenda do PTB, com apoio de João Goulart. (Gomes
1980).
A ação do Estado e de setores da Igreja Católica deu-se no sentido de ir
empreendendo uma produção política do “fazer social” nas favelas cariocas, destacando-se
aí um esforço de delimitar o “terreno” em sua forma e suas redes de ação, traduzido na
“equação de ação social” que funda uma “fórmula política” sobre as quais já refletimos
aqui. Mas os moradores de favelas foram mais do que uma mera (in)variável na equação e
na fórmula! Se é verdade que o Estado deu o ponta pé inicial no delineamento do terreno,
isso só foi possível porque a favela expandia-se e consolidava-se na paisagem urbana,
afirmando-se como um modo de vida e projetando-se como um “problema social”. Se
diversas associações de moradores nas favelas foram criadas sob a influência do Estado, e
sob os olhos burocráticos da Fundação Leão XIII, nada garante que a dinâmica política
destas localidades estivesse completamente submetida ao controle do governo e da
Fundação. A formação de vínculos mais amplos entre as favelas, particularmente através
da Fafeg (Federação de Associação de Favelas do Estado da Guanabara), a própria
atuação desta organização, e as relações destas localidades, em especial das lideranças,
com agentes supra locais, nos sugere o contrário.

83
O livro de Manoel Gomes faz referência ainda a repórteres e estudantes, destacando uma manifestação dos
moradores do Borel no Ministério da justiça quando “a massa humana de favelados se comprimia e se
misturava com a juventude estudantil, com a Liga Feminina, parlamentares, sindicalistas e repórteres” (1980:
59)
84
Ruth Barros, artigo “A união de uma associação”, Condutores de Memória: Recordando e construindo as
histórias do Borel, Informativo do Projeto Condutores de Memória da Agenda Social Rio, Agenda Social
Rio, junho de 2001.

144
Podemos perceber este fato na dinâmica presente na fronteira nos primeiros
anos dos anos 60. O avanço no movimento de favelas, ao mesmo tempo em que o Estado
aperfeiçoava seus mecanismos de intervenção nestas localidades e controle sobre a
organização dos moradores, é marcado por alguns eventos ocorridos no início desta
década. Em 1962, moradores de Nova Brasília, então ameaçada de remoção, lotaram oito
ônibus e dirigiram-se ao Palácio do Governador, ocupando as escadarias. Segundo
Perlman, avisaram ainda a imprensa e entregaram um abaixo assinado solicitando a
permanência nas terras (1977: 249). Já 1963 assiste à fundação Fafeg (Federação de
Associação de Favelas do Estado da Guanabara), no mesmo momento em que a
Assembléia Legislativa aprovava a destinação de 3% da arrecadação estadual para obras de
melhoramento em favelas, “o que denota a capacidade de articulação política alcançada
por este segmento” (Burgos1998: 33). No ano de 1964, simbólico para todo o país, a Fafeg
marca presença na fronteira com a realização de seu primeiro Congresso e através da
resistência contra a remoção da Favela do Pasmado que, segundo os jornais da época, foi
enfrentada por soldados armados de metralhadoras (Perlman 1977). O ano se fecha com o
movimento de reação da favela de Brás de Pina aos planos de Governo de Carlos Lacerda
de removê-la, transferindo sua população para Vila Kennedy e Vila Aliança, os conjuntos
habitacionais recém construídos com financiamento norte-americano, na zona oeste da
cidade. E alguns anos depois, a década vai chegando ao fim, assistindo às primeiras
experiências de urbanização de favelas, uma delas resultante do movimento de Brás de
Pina, e desenvolvida pela Codesco Companhia de Desenvolvimento de Comunidade) 85 . E
ainda, vendo a proposta de urbanização se afirmar no Congresso de Favelas da Fafeg, sob
o lema “Urbanização sim, Remoção não”.
O fortalecimento das lutas da favela nos parece evidente. Mas queremos
aqui refletir a respeito de algumas questões aí inscritas. A este respeito, buscamos os
registros trazidos por Carlos Nelson Ferreira dos Santos, que acompanhou o processo de
urbanização da favela de Brás Pina em 1968 e fez uma análise de toda a experiência
ocorrida no local desde o início da década. Analisando o movimento de 1964/65, destaca
que a “imprensa ajudou muito a fazer com que o caso de Brás de Pina ultrapasse as
fronteiras locais e virasse um caso pertinente a toda a cidade” e que “havia jornais

85
A Codesco, subsidiária da COPEG (Companhia de Progresso para o Estado da Guanabara), começava a
desenvolver programas de urbanização em algumas comunidades do então Estado da Guanabara, dentre elas
a comunidade de Brás de Pina, na XI R.A.

145
contrários ao governador que ainda podiam se expressar-se com alguma liberdade e que
tomaram partido dos moradores, mobilizando a opinião pública” (1981: 35). E descreve
um dos eventos que integraram o movimento contra a remoção:

Foi uma cena grandiosa com o palco nobre da favela, a sua rua principal, cheio
de atores ilustres e numerosos figurantes. Estavam lá o governador em pessoa
com sua equipe técnica, o cardeal tentando servir de mediador, os tais 50
padres capitaneados pelo de Brás de Pina, os cem policiais com metralhadoras,
a massa de favelados conduzida pelos seus líderes, mais repórteres e curiosos.
(1981: 34). 86

A avaliação do autor a respeito do papel da imprensa, e sua descrição do


evento em Brás de Pina, nos oferecem pistas não apenas do conjunto de agentes sociais que
integravam então à fronteira, aos quais viemos aqui nos referindo, mas também das
divisões que se operavam no interior de um determinado grupo, visto como homogêneo. A
análise a respeito da ação de alguns jornais no sentido de contribuir para projetar o
movimento e mobilizar a opinião pública a favor da população nos sugere que a imprensa
não era homogênea. O “cardeal” fazia parte da ala mais conservadora da Igreja Católica,
comprometida então com o controle dos moradores da favela e com o combate ao
comunismo. Do outro lado, “os 50 padres capitaneados pelo de Brás de Pina” integravam
outro segmento da Igreja Católica, desenvolvendo uma ação junto às favelas e procurando
representar seus interesses. “A massa de favelados conduzida pelos seus líderes” indica as
diferenciações havidas dentro da própria favela.
Esta é uma questão que merece atenção, pois, a narrativa do movimento de
favelas, até hoje, é freqüentemente marcada pela existência de “trincheiras” que traduzem
um conflito dual. A ênfase ganha sentido diante própria necessidade de demarcar um
confronto político de âmbito mais geral, que opõe aqueles que lutam pela integração da
favela à cidade aos que buscam controlá-la e atuam no sentido de mantê-la “fora da vida”,
86
O Cardeal em questão era D. Jaime Câmara, aliado de Carlos Lacerda mas que, na ocasião, encontrava-se
estremecido com o governador em função da incorporação da Fundação Leão XIII ao Estado. Os 50 padres
faziam parte da rede de relações de um segmento da Igreja, que trabalhava com os problemas urbanos de
populações pobres, e da qual fazia parte o padre que atuava em Brás de Pina, exercendo uma influência
importante na Associação. Os líderes de Brás de Pina , “pelo padrão normal dos favelados cariocas, poderiam
ser considerados uma elite: eram operários ou prestadores de serviços com empregos estáveis; alfabetizados;
com um razoável domínio de certas formas de discurso, qualificáveis como ‘politizadas’ ou ‘ideológicas’;
tinham contato com grupos externos à favela e que eram organizados politicamente”. (Santos 1981: 33).

146
tanto objetiva quanto simbolicamente. Em momentos políticos em que este confronto
acirra-se, como por ocasião do movimento de Brás de Pina, é possível encontrar elementos
que expliquem a localização dos agentes sociais dentro da fronteira. Mas em outras
circunstâncias, perde-se o fio da meada, e a resposta para o enigma de porquê aquilo que
era unido- “o movimento popular” - fragmentou-se, acaba recaindo sobre uma abstrata
“divisão do povo” ou uma ação do Estado. Daí a necessidade de dar atenção às distinções
existentes dentre os próprios segmentos sociais presentes na fronteira. Distinções que se
fundam em experiências históricas e posições, dentro do próprio segmento social (ou do
campo) do qual se faz parte, diferenciadas 87 . Tais distinções, por sua vez, produzem
visões e posicionamentos muitas vezes diversos, e mesmo divergentes, diante de uma
determinada situação, como ocorreu, por exemplo, na situação já abordada, que envolveu a
criação de uma nova instituição da Igreja Católica- a Cruzada São Sebastião- para tratar do
problema da favela.
Percebemos tal fato também, nos anos 50, no movimento de luta do Morro
do Borel contra a remoção, abordado acima. O processo que marca o desenvolvimento das
alianças com agentes supralocais e o fortalecimento da luta da favela, projetando-a no
campo da fronteira, marca também o fortalecimento dos agentes locais, à frente do
processo, dentro do próprio Borel. A este respeito, algumas passagens do citado livro de
Manoel Gomes sugerem as divisões existentes dentro da própria localidade, em função da
diversidade de interesses e de visões a respeito da luta. Por ocasião de uma assembléia,
logo depois da fundação da associação, houve a discussão e aprovação de algumas
resoluções, dentre elas que “os inquilinos de alguns moradores que possuíssem mais de um
barracão, pagassem o seu valor real ao seu proprietário para evitar perdas econômicas que
não seriam justas”. De acordo com o autor, “esta tese não foi muito bem recebida pelos
sublocatários presentes” (1980: 26/27). No decorrer da luta, houve momentos em que “as
indecisões ainda retinham um grande número de favelados a não acreditar no impedimento
do despejo”. Havia também os que “supunham que isso era pretexto para acabar com a
ampliação territorial que desfrutavam no morro e impedir a expansão de seus terrenos” (
40/41). A narrativa recorda ainda a destruição de barracos pela “turma de grilheiros

87 Recorremos aqui ao conceito de campo de Bourdieu, considerando as diferentes posições


ocupadas pelos agentes dentro de um campo determinado, e as lutas e concorrências travadas em
seu interior. Nesta perspectiva, as ações e visões diferenciadas dentro de um mesmo campo, como, por
exemplo, da Igreja Católica, relacionam-se também as disputas travadas neste campo, traduzindo algumas os
caminhos encontrados pelos agentes para se deslocarem aí dentro assumindo melhores posições, ou se
distinguirem (1989; 1990).

147
arregimentada entre alguns moradores descrentes da vitória da UTF e alimentados por
gordas propinas” (34).
Ao analisar o caso da favela de Brás de Pina, Carlos Nelson Ferreira dos
Santos nos indica que estas distinções já existiam no âmbito desta localidade antes do
movimento contra a remoção, ainda que não tivessem assumido maior projeção nesta
época 88 . Um terço dos favelados cedeu às pressões do governo e concordou com a
remoção para o conjunto da COHAB. Os que permaneceram uniram-se, ligando-se aos
líderes da Associação e ao padre, vivendo então “um período de muita solidariedade” e
luta pela urbanização da favela. “Todos declaravam estar conscientes de que a batalha
havia sido ganha porque tinham se mantido coesos na hora decisiva”, afirma Santos
(1981: 34). No entanto, os desdobramentos do processo, quando desenvolve-se a
urbanização, fazem emergir as distinções.
Com isso queremos destacar que na fronteira em constituição, não havia
uma homogeneidade na luta que se projeta como de “resistência” ou movimento de
favelas. Havia distinções entre os moradores de favelas, divergências entre estes e seus
“aliados”, e entre aqueles que lutavam pela defesa destas localidades. Novamente,
recuperamos Carlos Nelson que faz uma reflexão de como se encontrava a FAFEG, em
1964, quando ele e alguns colegas, ainda estudantes da Faculdade Nacional de Arquitetura,
conheceram líderes da organização que os convidaram para assessorá-los.

O panorama da FAFEG era dos mais confusos. Havia gente ligada ao Partido
Comunista, gente de ação católica e da AP, picaretas e cabos eleitorais. Os
líderes principais e mais atuantes eram, de certa forma, manobrados por
políticos que lhes prometiam “limpar sua ficha” no DOPS quando queriam
cooptá-los, ou os ameaçavam com as mesmas fichas quando queriam “pô-los
nos seus lugares” (Santos 1981:44).

A Federação não se encontrava muito diferente de várias outras instituições


que estavam fora do campo da correlação de forças sociais dominantes, que logo dariam
fim a qualquer traço de democracia no país. Os agentes que se situavam em posições

88
Segundo o autor, Brás de Pina chegou a ter três associações de moradores que viviam se combatendo,
sendo que uma delas passou a se distinguir “pela dedicação de seus membros, todos ligados a movimentos de
Ação Católica”. Foram os líderes desta associação que ficaram à frente da organização nascida a partir da
fusão das três (Santos 1981:33)

148
diferenciadas, com o acirramento da repressão, acabariam por se localizar no mesmo
campo, recuperando uma expressão de De Decca, “o campo dos vencidos”. Ainda que o
objeto da análise do autor se afaste do que viemos discutindo, aqui bem se aplica sua
reflexão:

(...) desconsiderou-se que nas lutas políticas do período, a ordem dos


vencidos possuía registros diferenciados e que, inclusive, os discursos
acadêmicos, atendendo a demandas específicas de poder, silenciavam
indiretamente, também, o eco das experiências históricas (De Decca 1984:32).

Com isso queremos destacar que o posicionamento dos moradores de


favelas, e de agentes sociais que se aliam a eles em suas lutas, é um pouco mais complexo,
distanciando-se da imagem evocada por uma narrativa, atravessada por um dualismo que é
bem explorado pelos dois lados da disputa, particularmente nos momentos de maior
confronto político. É certo que, na maioria das vezes, as favelas não disseram “amém” aos
destinos que traçaram para elas, buscando removê-las ou mesmo controlá-las. A
experiência histórica destas localidades demonstra que mais do que resistir, muitas favelas
buscaram ir “além”. Com isso, não apenas moveram-se na fronteira, nela projetando-se e
dando um novo tom ao problema legítimo, reivindicando a urbanização das favelas no
lugar das remoções, ou mesmo das simples melhorias. Mas também se deslocaram na
sociedade como um todo, colocando em questão o estigma que as cercava. No entanto,
alguns relatos, nos levam a concluir que este caminho foi se construindo também em meio
a tensões e disputas dentro das próprias localidades, aonde existia uma heterogeneidade
que contraria a imagem una de “morador de favela”. “O morar em favela” abrigava, e
abriga, uma diversidade de experiências e visões em confronto, desde o momento em que a
favela surge. Se os registros de muitas destas experiências e visões não vieram à tona, isso
não significa que não seja fundamental considerá-las quando se enfrenta o desafio de
compreender a dinâmica deste terreno de fronteira, e as imagens que aí ficaram. No
movimento que silencia algumas destas experiências, encontramos também a distinção de
algumas lideranças e a configuração de relações de poder local que recolocam novos
desafios para aqueles que lutam pela vida nas favelas, e as favelas fazendo parte da cidade.
No caminho de “ir além”, foram fundamentais as relações travadas com os
outros agentes da fronteira, alojados naquilo que já chamamos aqui de “estruturas

149
supralocais” e, na maioria das vezes, situados em posições no espaço social bem
diferenciadas dos favelados. Tais relações traduzem não apenas aproximações de visões
políticas ou ideológicas, mas alianças conjunturais em torno de um “inimigo comum”.
Aqui, muitas vezes as aproximações se configuram em função de concorrências e disputas
travadas no âmbito do próprio campo do qual o agente supralocal pertence. Explicam-se,
em parte, pela necessidade destes agentes, muitas vezes ocupando posições subordinadas
dentro do campo, nele se distinguirem. E, em vários casos, configuram-se aqui as lutas
simbólicas travadas na fronteira, em torno da proximidade com o “popular”. Uma vez que
este terreno vai se constituindo como um espaço de mediação do político, no âmbito do
que chamamos desencontro entre o econômico e social, nas lutas aí travadas o “popular” é
o alvo em questão. Compreendido em sua dimensão simbólica, este espaço vai se
configurando atravessado pelo que Bourdieu denomina os usos do povo, ou seja pela
disputa concorrencial em torno da legimitidade da fala para o povo e do povo (Bourdieu
1990 :181).
Presentes na constituição da fronteira, estes são registros que nela ficaram.
Muitas vezes concorrendo para que “a favela não fosse além”.

“A destituição da fala”, a “anulação da política”

Enquanto a segunda metade dos anos 40, e particularmente os anos 50,


assiste a um movimento de constituição da favela como problema legítimo, nos anos 60
inicia-se um processo que atua na contramão deste movimento, poderíamos dizer uma
tentativa de “deslegitimação do problema”, que se traduz na “política remocionista”. Mais
do que nunca a fronteira torna-se um terreno de “trincheiras”, delineando-se aqui a
polarização a qual já me referi. O processo não se faz sem conflito. Isso porque se há este
esforço de “deslegitimação” do problema, há também o já abordado fortalecimento das
lutas dos moradores de favelas. Na verdade, pelo menos em seus primeiros anos, este
esforço tem um efeito contrário e concorre para o avanço na organização das favelas.

150
Nestes primeiros anos, destacam-se as iniciativas do Governo Estadual de
Carlos Lacerda, desenvolvidas no âmbito da expansão da especulação imobiliária na
cidade e do crescimento de grandes obras viárias. Aqui, a aliança Estado e Capital atuando
sobre a construção e reconstrução do espaço urbano, que faz parte da história da cidade,
entra em cena com mais força. Em meio ao processo de expansão metropolitana, o solo
urbano valorizado e o chamado “problema viário” se constituem em ótimas oportunidades
de investimento do capital imobiliário e financeiro. 89
Esta é uma aliança que tem particular desdobramento sobre as políticas
públicas em relação às favelas pois, o poder que ela vai assumindo na fronteira concorre
para que seja retomada a recorrente imagem da favela como “uma lepra”, e reatualizada a
perspectiva da erradicação desta forma de habitação popular, desta vez levada a cabo
através de uma política sistemática, primeiro do governo estadual e depois do governo
federal. Com isso, o encaminhamento da questão das favelas vai se dar de forma cada vez
mais autoritária e centralizadora, procurando desmontar toda a construção política tecida
pelas favelas ao longo dos anos.
Há quem avalie que o processo que se inicia com a ação remocionista
devolve a representação da favela aos termos da década de 40.

Diante dessa reelaboração da identidade do favelado, nem mesmo a lógica de


negociação baseada na cooptação de lideranças, experimentada no início dos
anos 60 pelo SERFHA, poderia ser implantada; afinal, ela fora desenvolvida
tendo em vista uma outra identidade do favelado, aquela que vinha sendo
politicamente construída e que, inclusive, dera lugar a uma entidade federativa,
a Fafeg. A polarização entre o mundo da ordem e o lugar da desordem devolve
a representação da favelas aos termos da década de 40, da favela como o
hábitat de indivíduos pré- civilizados, e, por isso, não cabe mais o diálogo com
suas entidades políticas: a discussão sobre o que fazer com as favelas torna-se
impermeável à participação de seus moradores (Burgos 1998: 34/35)

89 Abreu analisa o “problema viário”, decorrente do aumento de circulação de veículos particulares


principalmente na zona sul, no âmbito do padrão de acumulação do capitalismo no Brasil, que
passa a se basear no Departamento III (bens de consumo duráveis), onde projetava-se a indústria
automobilística, incentivada pela Instrução 113 da SUMOC e dos “50 anos em 5” de JK que
facilitam a entrada do capital estrangeiro. Recorre aqui a Francisco de Oliveira que destaca o fato
de que “a simples existência deste Departamento numa economia subdesenvolvida já (era) em si
mesmo, sinal de concentração de renda” (Abreu 1988: 113)

151
Vemos, portanto, que para além dos interesses econômicos que informam a
política inaugurada por Lacerda, estava em jogo também um investimento contra o
movimento que as favelas vinha construindo, costurando alianças com diferentes agentes
sociais.
Foi aqui que se iniciaram as primeiras remoções, viabilizadas através da
COHAB (Cooperativa de Habitação Popular do Estado da Guanabara), uma companhia de
economia mista, sendo que Lacerda e seu grupo (Rafael Almeida Magalhães, Flexa Ribeiro
e outros) possuíam 49% das ações permitidas no setor privado (Valla 1986). Fundada em
1962, no âmbito do Acordo do Trigo, firmado entre o Estado da Guanabara e o USAID
(Agência para Desenvolvimento Internacional do Estados Unidos), sua proposta original
era o uso da dotação de três milhões de dólares recebidos na urbanização de favelas “mas
logo, por motivos políticos, a COHAB vai se transformar em ponta de lança do programa
de erradicação lançado por Lacerda” (Santos 1981: 88). Com os recursos da COHAB são
então construídos, entre 1962 e 1965, conjuntos habitacionais em áreas periféricas da
cidade – Vila Kennedy, Vila Aliança, Vila Esperança e Cidade de Deus, para aonde são
transferidos os moradores de favelas localizadas em áreas centrais do espaço urbano, em
terrenos destinados a moradias de classe média e indústrias.
Esta iniciativa do governo veio inaugurar uma era que assumiu contornos
dramáticos para aqueles que viviam sob a ameaça da remoção. Carlos Nelson descreve o
novo momento, no âmbito do qual se deu o já referido movimento da favela de Brás de
Pina:

Pouco antes da tentativa de remover Brás de Pina, os cariocas haviam assistido


ao espetáculo de uma favela em chamas durante uma noite inteira. Era o do
Pasmado, a primeira a ser removida e cujos barracos foram em seguida
incendiados como símbolo de uma nova era que se pretendia inaugurar. Era
prometida a extinção de todas as favelas do Rio, oferecendo-se a seus
moradores casas seguras, “modernas” e...muito distantes dos lugares onde
moravam antes, que, presumivelmente, seriam, quando desocupados,
purificados pelo fogo (Santos 1981: 32). 90

90
A narrativa aqui evoca o registro da destruição do Cabeça de Porco, em fins do século XIX, o que nos faz
pensar que “o fogo” faz parte da história da habitação popular na cidade do Rio de Janeiro.

152
A promessa de “casas seguras” e “modernas” não seduziu a maior parte dos
moradores de favelas, pois a transferência para áreas periféricas implicava em uma
mudança que dava fim a um modo de vida construído ao longo de anos, que lhes permitia
maiores possibilidades de sobrevivência e deslocamento na cidade. Aqui cabe lembrar
algumas razões da resistência dos moradores às remoções para os conjuntos habitacionais:
a deficiência de transportes, e o aumento no custo de deslocamento pela cidade, a distância
dos locais de trabalho, a diminuição das oportunidades de trabalho, a ruptura dos laços de
sociabilidade construídos na favela, a falta de acesso aos serviços urbanos que contavam
nas favelas e de outros fatores que os integravam à cidade (Perlman 1977).
Não é a toa que, como já vimos anteriormente, esta ação remocionista do
governo estadual vai encontrar resistência por parte das favelas. O Morro da Fé, na região
da Leopoldina, dizem, tem esse nome por causa da resistência de seus moradores às
investidas remocionistas. A primeira, por volta 1969, quando a Prefeitura e o Exército
demoliram todas as casas, amarrando-as com cordas e puxando-as até derrubá-las através
do uso de tratores e caminhões. Ao fim de tudo, os moradores expulsos não receberam
casas nem lotes (Cunha & Oliveira 1997).
Como já vimos, frente às ameaças de remoção, as favelas se manifestam em
movimentos como de Brás de Pina e se articulam em torno da organização então formada,
a Fafeg. A resistência se expressa também na luta partidária, aonde os votos dos favelados
concorreram para a derrota de Flexa Ribeiro, candidato da situação, para Negrão de Lima
(coalizão PTB- PSD) (Burgos 1998). 91 Aqui reside um outro traço inscrito na fronteira: o
peso das favelas na dinâmica político partidária da cidade.
Outra agência que marcou esta nova era, e traduz também a articulação com
recursos norte-americanos, bem como a intervenção do capital privado na fronteira, foi a
Ação Comunitária do Brasil, filial da Acción Internacional, fundada em Nova Iorque,
fundada em 1965. A ACB nasce em 1966, tendo como uma de suas finalidades a
demonstração da eficácia do desenvolvimento comunitário e de como o setor privado, ou
seja, as classes produtoras se organizam para atacar as”deficiências sociais urbanas” junto
com o Governo. A proposta da nova organização concebia que o problema principal a
vencer diante das favelas “são as razões psicológicas da miséria, incentivadas pelos
políticos desonestos e pela caridade mal planejada, fazendo com que o favelado acostume-

91
Perlman traz um artigo do Jornal do Brasil de 1965 noticiando que as urnas de Vila Kennedy, Vila Aliança
e Jacqueline tinham totalizado 4734 votos para Negrão de Lima e apenas 408 para Flecha Ribeiro. Uma das
matérias, conclui que “Vila Kennedy não era o sonho dourado dos favelados” (Perlman 1977: 246)

153
se a receber e não lutar...São causas psicossociais que criam as favelas” 92 . Em 1967, a
entidade já atuava nas seguintes favelas: Parque Carlos Chagas, Parque União, Candelária,
Favela Fernão Cardim e Santo Amaro. Mas com as mudanças empreendidas no ano
seguinte com a criação pelo governo federal do CHISAM, sobre o qual falaremos mais
adiante, a Ação Comunitária passa de órgão privado para órgão público, atuando como
uma das instituições executoras do programa dos programas de remoção do novo órgão
federal, reorientando então seu trabalho no sentido da “preparação do favelado para a
remoção” (Valla 1986: 106)
A era inaugurada com Carlos Lacerda, e que teve seu auge com as ações
desenvolvidas pelo governo federal, acabou sendo fortemente marcada por um crescente
prática tecnocrática e autoritária em relação às favelas. Em seguida ao atrelamento das
Associações de Moradores às Regiões Administrativas e à Secretaria de Serviço Social
(1967), um decreto de 1968 estabelece como “finalidade específica das associações de
moradores a representação dos interesses comunitários perante o governo”, e reconhece a
existência de apenas uma associação em cada favela. A intervenção do governo nas
associações se traduz até na mudança dos nomes das associações. José Calegário, morador
do Borel, recorda que a associação precisou mudar de nome no governo militar: “foi por
isso, imposição do golpe militar. Aí ela passou a ser União dos Moradores do Morro do
93
Borel e, todas as comunidades foram obrigadas a mudar”. Esta é uma face da nova era
que recrudesce iniciativas que já marcavam a fronteira, procurando “subverter o papel das
associações, que de representantes dos moradores passam a fazer as vezes do poder público
na favela” (Burgos 1998: 35).
A outra face desta era, reatualiza experiências históricas onde está presente
o uso da violência para lidar com o “problema” dos trabalhadores, pobres, ou das “classes
perigosas”. Localiza-se aqui um leque de ações empreendidas, particularmente pelo
governo federal. Em 1968, é criado o CHISAM (Coordenadoria de Habitação Popular de
Interesse Social na Área Metropolitana do Rio de Janeiro- subsidiada ao Ministério do
Interior e ao BNH), com o objetivo de implantar uma política única de favela para os
estados da Guanabara e do Rio. De 1968/1973, o novo órgão promove a remoção de mais

92
Ação Comunitária, Jornal do Brasil, suplemento especial de 19 de junho de 96, citado
por Valla (1986:105).
93
Relatório de campo junto às oficinas realizada pelo grupo Os Condutores de Memória:
um histórico cultural da Grande Tijuca, 2001/2002.

154
de 90.000 moradores de 50 favelas do então Estado da Guanabara, dentre elas Catacumba e
Praia do Pinto 94 .
A “política única de favela” vem então acompanhada de ações violentas,
como aquela de combate à Fafeg que, em 1968, já contando com 100 associações filiadas,
reuniu-se em Congresso demarcando sua oposição à política de erradicação das favelas, à
transferência dos moradores e condenando todos os custos humanos, sociais e financeiros,
acarretados pela remoção. Após a mobilização da entidade para impedir a remoção da
favela Ilha das Dragas (Lagoa Rodrigo de Freitas), seus líderes foram perseguidos e presos.
Feito o expurgo, a Fafeg passou por eleições, sendo que os nomes das chapas tiveram que
ser submetidos ao exame da Secretaria de Segurança. Com isso, ela passa a ser atrelada ao
Estado, possuindo poderes para indicar as associações que possuem condições para receber
auxílio financeira do governo (Perlman 1997; Burgos 1998).
A violência assume um tom ainda mais dramático na execução das
remoções, destacando-se aqui o caso da Favela da Praia do Pinto onde, os moradores, em
torno de 7000, recusaram-se a sair da localidade e ser transferidos (Valla 1986).

Durante aquela noite, um incêndio “acidental” alastrou-se pela favela: apesar


de muitos moradores e vizinhos alarmados terem chamado os bombeiros, estes,
evidentemente cumprindo ordens não apareceram. Pela manhã, quase tudo
tinha sido arrasado. Muitas famílias não conseguiram salvar nem seus parcos
haveres, e os líderes da “resistência passiva” desapareceram completamente,
deixando suas famílias em desespero. No local, construíram prédios de
apartamentos financiados para militares (Perlman 1977: 247)

O incêndio da Praia do Pinto marcou a memória das favelas e traduziu com


clareza o sentido assumido pela política governamental, consolidando o movimento que
vinha desmantelando toda a organização das favelas. A partir daí, segundo afirma José
Maria Galdeano, na época secretário geral da Fafeg, “todas as outras remoções foram
pacíficas. A ditadura estava estabelecida e a gente não tinha como reagir”. As lideranças
mais combativas ficaram impossibilitadas de manter contato”. Abdias de Nascimento,

94
A execução do programa federal na esfera social ficou a cargo da Secretaria de Serviço
Social da Guanabara, da Fundação Leão XIII, da Secretaria de Trabalho do Serviço
Social/RJ e da Ação Comunitária do Brasil (Valla 1986: 99)

155
membro do Conselho Deliberativo da Fafeg recorda: “houve muita pressão, tortura
psicológica, ameaçaram nossas famílias. Algumas pessoas chegaram a desistir da política”.
95

As pessoas não chegaram a desistir da política a toa. A política como


construção, e no sentido já anteriormente destacado por Francisco de Oliveira “de
reivindicação da parcela pelos que não tem parcela” estava sendo desmontada pela
sucessão de iniciativas do Governo militar. Com isso, abre-se espaço ao fortalecimento da
“política clientelista”, principal caminho de acesso de muitas favelas ao Estado, refratário
à participação popular.
Mas aqui, cabe um parêntese, pois, dissemos “fortalecimento” porque esta é
um “política” que já acumulava história no terreno da fronteira. Na verdade, desde seus
primórdios, este espaço é marcado pela ação do “político” nas favelas, personagem
marcante na memória destas localidades. Não há quem não tenha dado apoio a algum. Ou
conhecido um que entrou na “comunidade” fazendo promessas e nunca mais apareceu 96 .

Lá pra 1950, 60, começaram a surgir políticos por aqui, alguém interessado,
mas só na base da conversa. O mais conhecido aqui, quando a política entrou
em ação, era a política do Adhemar, do Tenório, do Amaral Peixoto. Tinha o
Lacerda também. O primeiro que iniciou aqui foi o Armando da Fonseca, foi
pra deputado, se não me engano. Por aí, continuou a vida. Prometendo, dando,
não dando.

Comecei a abrir esta rua aqui através da política. Eu trabalho em política há


quarenta anos mais ou menos. Aí eu fui trabalhar com Lutero Vargas, era
candidato a deputado, e João Luiz de Carvalho, que era candidato a vereador.

É principalmente a partir dos anos 50 que o político, figura que entra em


cena na favela, passando a fazer parte da experiência de vida e da dinâmica social destas
localidades, e reproduzindo aí relações que então marcavam historicamente as estruturas de

95
Os depoimentos das lideranças da Fafeg encontram-se na matéria “O terror dos
militares”, assinada por Marcelo Monteiro e resultante da pesquisa do portal A Favela
tem Memória (www.favelatememoria.com.br)
96
Os dois depoimentos a seguir foram retirados de Varal de Lembranças: Histórias da
Rocinha, União Pró Melhoramentos dos Moradores da Rocinha, 1983, p:79

156
dominação e o mundo político do país. A ligação com o político dá-se particularmente
através de moradores que passam a se destacar como lideranças locais, trazendo
“melhorias” para a favela. Melhorias que vêm à conta gotas, mediadas por relações
pessoais, a margem dos canais institucionais e, na maioria das vezes, sem envolver ações
coletivas dos moradores. Sr. Bonifácio, um dos fundadores da União dos Trabalhadores
Favelados no Morro do Borel, recorda: “cada comunidade tinha o seu padrinho. Mas
depois os moradores mais engajados começaram a perceber que não poderiam depender
para sempre dos políticos e começaram a se organizar” 97 .
Tais relações vão assumir particular dimensão no período que se segue ao
auge das remoções no então Estado da Guanabara, ao desmantelamento da Fafeg e à
perseguição e prisão de seus líderes. A este respeito, Burgos chama atenção para o fato de
que a desfiguração do favelado como ator político era um dos objetivos do remocionismo e
que seu relativo sucesso deixa um vazio político.

Nesse vazio, duas lógicas distintas, porém complementares vão se impondo:


de um lado, o ressentimento gerado pelo “remocionismo” terrorista tende a
distanciar a vida social das favelas e dos conjuntos habitacionais da vida
política da cidade, tornando carente de legitimidade o poder público e suas
instituições, aí incluídas as associações de moradores, em muitos lugares
confundidas com o Estado; de outro lado, desenvolve-se uma política
clientelista, resultante de uma acomodação pragmática dos excluídos às
oportunidades existentes num contexto constrangido pelo autoritarismo
(Burgos 1998 :39)

Acomodação pragmática! O termo talvez careça de um olhar inquietante.


Podemos pensar em possibilidade de ação que reatualiza experiências e relações já
presentes na fronteira, num momento em que os deslocamentos neste terreno eram
limitados por uma política autoritária e tecnocrática. O recurso ao clientelismo como
possibilidade de ação, traduziu-se então em uma atuação pelas brechas, através de relações
pessoais, que tornavam possível o “fazer social” num momento em que o campo político

97
Depoimento retirado da matéria “A disputa pela água”, assinada por por Marcelo
Monteiro e resultante da pesquisa do portal A Favela tem Memória, já aqui citado.

157
encontrava-se destituído de debate, regras e de fala. Acessar canais diretos de interlocução
política, que os moradores de favelas já conheciam, foi então a forma de ação possível,
quando a fronteira encontrou-se marcada pelas conseqüências dos “choques e lutas
armadas”. Sim, “choques e lutas armadas”! Pois, como vimos fez parte da história de
constituição deste terreno a investida violenta e armada contra os moradores das favelas,
como bem o comprovam as experiências vividas por aqueles que foram removidos, ou
ameaçados de remoção.
A violência de tal investida foi proporcional à dimensão do lugar ocupado
pelas favelas na arena política e na cena social. A despeito de todo o esforço realizado no
sentido de delimitar o espaço e a forma de ação dos moradores das favelas, desde os fins
dos anos 40 estas localidades procuraram se organizar coletivamente e interrogar os
“destinos” que lhes reservavam os diferentes projetos políticos. O movimento de
resistência ao fortalecer-se foi indo além e demarcando uma mudança na lutas das favelas.
Diante das ameaças de remoção, a questão da luta pela terra aparecia como elemento
central no associativismo, mas já incorporava a reivindicação pela alternativa de
urbanização das favelas. Contrastava pois, com o período anterior quando, sob o controle
do Estado e da Fundação Leão XIII, o que estava em evidência era a mobilização em torno
de melhorias de infra-estrutura urbana nas favelas.
Enfim, o que merece atenção é o fato de que os moradores de favelas, em
especial suas organizações, atuaram no sentido de interrogar a “equação” que apelava a
seus “recursos” e de desfazer a “fórmula” que lhes negava o lugar de sujeitos políticos.
Com isso, a fronteira deixa de ser um simples terreno de intervenção social, de
“conjuração do risco de fratura”, para se tornar um lugar de disputa política. Se ela é um
terreno tecido na ação política, tal tessitura foi em grande medida realizada pelos próprios
favelados. Isso nos faz lembrar as já citadas palavras de Francisco de Oliveira, afirmando
que quem faz política no Brasil são as classes dominadas (Oliveria 2000: 60)
A investida da era inaugurada com Lacerda em 1963 foi então contra este
“fazer político”. Com ela, a fronteira acabou por se transformar num terreno de
“trincheiras”, marcado não apenas pelas disputas políticas e simbólicas, que contribuem
para reelaborar ou forjar propostas e representações sociais, mas também pelo uso da
violência e por experiências dramáticas, como as que foram mencionadas acima. Com ela,
buscou-se empreender aquilo que, novamente Oliveira, chamou de “destituição da fala” e
“anulação da política”. Porque quem fez política, na fronteira viva foram os moradores

158
das favelas ao publicizarem o desencontro entre o econômico e o social e interrogarem os
mecanismos de “conjuração” da fratura social.

Desafios na fronteira

Ao longo dos anos examinados, e mais ainda posteriormente, nos 80, a


fronteira alargou-se incorporando novos agentes sociais. As favelas mudaram, avançando
em algumas conquistas, particularmente relativas à infra estrutura urbana, e abrigando
diferenciações e disputas ainda maiores. O narco-tráfico passa a atuar na fronteira,
concorrendo para interferir bastante nas relações aí inscritas. As disputas dentro do espaço
público cresceram, com o surgimento e fortalecimento de novas instâncias para o
tratamento da “questão social” e novos agentes sociais. A apropriação do espaço público,
e seu uso para fins privados também cresceu, numa proporção que desafia a análise social.
Formaram-se também novas estruturas supralocais na fronteira, abrigando dentro delas
agentes sociais distintos. A Igreja Católica, há muito tempo parte integrante deste terreno,
sofre a disputa de outras entidades religiosas. Algumas com uma longa história acumulada
nas favelas, atualmente tem suas “bases” alargadas e encontram-se com um maior grau de
institucionalidade, o que lhes dão condições de disputar espaços cada vez maiores na
fronteira.
Hoje, a articulação e desenvolvimento de programas governamentais ou não
governamentais se incrementam nas favelas do Rio de Janeiro, num dinamismo que
surpreende a alguns e contraria outros, como Valda, educadora do Morro do Borel, que
uma vez avaliou: “é uma indústria da pobreza”. A expressão “trabalho social” generaliza-
se nomeando um leque de ações diferenciadas, levadas a frente por agentes sociais também
diferenciados. Aqueles que vivem e atuam em suas localidades, ou mesmo em outras,
buscam formas de inclusão econômica e social através do trabalho de intervenção social.
Estes mesmos agentes circulam numa rede que os coloca em interlocução com múltiplos
espaços do mundo social.
Tudo isso é, com freqüência, genericamente abrigado na discussão do
chamado terceiro setor, termo amplo para designar um lugar que não é publico, e nem

159
privado, formado por uma heterogeneidade de agentes 98 . Tudo isso, muitas vezes, é
discutido no âmbito das políticas públicas, sob o neoliberalismo. Tudo isso, é outras vezes,
parte integrante da pauta de desafios dos movimentos sociais na cidade. Tudo isso indica a
ampliação e o alargamento da fronteira. Como experiência social que marca a sociedade
urbana. E também como processo que se torna objeto de análise.
A fronteira alarga-se conforme avançam as várias formas de exclusão que
atingem hoje o mundo social, e em particular os moradores das regiões mais empobrecidas
da cidade.
O enfrentamento da vulnerabilidade, e a reprodução das famílias
trabalhadoras, vai se dando através de uma multiplicidade de caminhos. Caminhos que
indicam os deslocamentos possíveis num terreno de privações, inclusive de políticas
sociais sistemáticas. Como já foi afirmado, possivelmente, várias destas privações vêm
sendo respondidas, de forma precária, por canais como igrejas, grupos religiosos o narco-
tráfico e por grupos ou redes locais informais, onde as lideranças e moradores que atuam
junto a projetos sociais exercem um papel fundamental. Ainda que muitas vezes
impliquem em relações de “favorecimento”, todas elas são vias que dispensam a
concorrência, a burocracia e porque não dizer, a degradação subjetiva, que envolve a
busca por acesso a um serviço ou um projeto público. Refiro-me aqui à degradação
subjetiva para nomear a experiência dilapidadora, extenuante e humilhante pela qual passa
a população empobrecida ao recorrer a um serviço público ou buscar inserção num
99
programa de atendimento social. . Experiência inscrita no “lugar dos não-direitos e da
não- cidadania”, onde “a pobreza vira carência, a justiça se transforma em caridade e os
direitos em ajuda, a que os direitos tem acesso não por sua condição de cidadania, mas pela
prova de que dela está excluído” (Telles 1999);
São vias que vão se integrando à fronteira, inclusive o narco tráfico. Mesmo
clandestino e localizado no campo da criminalidade, ele se incorpora ao terreno do trabalho
social, contando com recursos relativamente vultosos, e assumindo um espaço nada

98
A este respeito, algumas das indicações da análise de Carlos Montaño a respeito do
Terceiro Setor nos parecem interessantes, sobretudo aquelas que recuperam a gênese do
termo (2002)
99
Tal experiência é histórica, mas sua reatualização num contexto em que a
vulnerabilidade social aumenta assume contornos dramáticos. O impacto de tal experiência
na vida desta população, e seus desdobramentos sobre sua atuação social e política, é
pouco dimensionado quando se trata de discutir “mobilização e a participação popular” na
vida política.

160
desprezível, cuja dimensão é difícil de ser avaliada já que possivelmente ele não atua
apenas através de ações assistenciais que possuem relativa visibilidade pública, e a
clandestinidade e o recurso à violência dificultam qualquer investigação. Alguns outros
canais, particularmente aqueles informais e sem institucionalidade reconhecida, situam-se
numa posição subordinada que não lhes garante acesso a disputa de fundos de apoio a suas
ações.
A vulnerabilidade e a precariedade social vai sendo respondida também com
políticas sociais compensatórias. São “débitos a fundo perdido, preço a pagar pela
sustentação de uma economia cuja dinâmica bane e descarta parcelas da população”.
(Martins 2002:14).
No âmbito destas políticas são geradas diversas iniciativas implementadas
nas favelas e áreas da periferia urbana, que vem mobilizando múltiplos agentes, ocupando
posições diferenciadas, e desiguais, dentro destes projetos. Mas são políticas
assistemáticas, pontuais, que atuam de forma fragmentária. Tão vulneráveis e precárias
quanto as condições que procuram responder.
Como já foi destacado, muitas destas iniciativas indicam uma saída para
aqueles que são atingidos pelo desemprego. Com isso, a fronteira vai se constituindo no
lugar social de onde estas pessoas vêm tirando seu sustento. Muitas vezes, sem precisar se
deslocar no espaço físico da favela, elas se localizam nesta fronteira. E aí atuando, buscam
sua inserção na sociedade, que os fez “sobrar”.
É uma fronteira que se amplia também porque se redefine a relação entre o
Estado e a sociedade, e com ela o desenho das políticas sociais. Neste desenho, instituições
públicas, organizações comunitárias, igrejas das mais variadas orientações, ONG´s,
instituições de ensino e empresas aparecem como “parceiros”, num contrato que evoca
uma horizontalidade que passa longe do posicionamento desigual destes diferentes agentes
na fronteira, e no mundo social, de forma geral. Se considerarmos que fora do contrato que
supõe um determinado grau de institucionalidade, ainda se incluem as redes e grupos
informais locais que concorrem para ação de muitas instituições, a desigualdade de
posicionamento dos agentes inscrita neste terreno é ainda mais acentuada.
Particularmente nas favelas, este desenho das políticas sociais tem
implicado que as entidades locais deixem de atuar como interlocutores políticos, tornando-
se “parceiras” na execução e gerenciamento de programas e serviços públicos, processo
que faz parte do enxugamento dos recursos destinados às políticas sociais. O processo

161
parece reatualizar o antigo registro que atribuía às organizações locais a canalização dos
recursos humanos e financeiros das favelas. Considerando, porém, o sentido das políticas
públicas atuais, a nova correlação de forças na fronteira e nas favelas, há uma
ressignificação da prática e do papel destas organizações, que antes se limitavam
principalmente às associações de moradores. Os termos dos elos entre associações e Estado
também alteraram-se, funcionando aqui a mencionada “parceria”, que inscreve a
associação local dentro de uma institucionalidade própria da sociedade capitalista. A
lógica do mercado, com a adoção do receituário neoliberal desdobra-se aqui, orientando a
descentralização, flexibilização e integração das ações, com máxima potencialização dos
recursos utilizados.
Com este novo desenho das políticas sociais, e a expansão da “fronteira
viva”, tem se delineado uma tecnificação e uma fragmentação crescente do social. O
desencontro, que reproduz processos excludentes é tomado por aquilo que é sua
manifestação aparente: os problemas sociais. Estes são amplamente tematizados, e
geralmente vão assumindo, uma forma cada vez mais autônoma, descolando-se do mundo
histórico social. A diversidade de grupos, alcançados por programas sociais, e inclusive
problematizados na investigação acadêmica- idosos, crianças e jovens em situação de
risco social, mulheres, alcoólatras, dependentes químicos etc –, revelam a forma com que o
social vem sendo submetido a uma fragmentação crescente. Todo este movimento de
decomposição, e a burocratização dos conflitos aí colocados, concorre para o
esvaziamento político das reivindicações dos moradores das favelas e a anulação do campo
de direitos sociais. Os direitos universais são substituídos por ações pontuais, que colocam
o cidadão no lugar de assistido ou de consumidor.
Neste novo desenho de relação entre Estado e sociedade, é fundamental
também a participação de organizações, lideranças e moradores de favelas nos programas
sociais desenvolvidos. E novamente aqui reencontramos uma história que não foi
inventada, que remonta à constituição da fronteira. Há uma espécie de reatualização da
velha equação de ação social fundada nos primórdios deste terreno de iniciativas sociais, e
que assumiu uma projeção política maior com a ação do SERFHA no início dos anos 60. A
participação como trabalhadores a serviço de ações sociais, das quais dependem a
viabilidade dos programas, atualmente assume contornos maiores e mais complexos,
envolvendo uma diversidade de agentes sociais, e recursos humanos e financeiros vultosos,
nos fazendo pensar mesmo na “indústria pobreza”, referida por Valda. Com isso, as

162
organizações locais e os moradores das favelas vão constituindo-se em peça importante no
dinamismo da intervenção social e nos seus saldos políticos. Por várias razões:
ƒ A inclusão precária destes moradores e organizações no funcionamento dos
programas sociais garante um rebaixamento de custos, pois os trabalhadores
sociais são contratados através de cooperativa ou organizações não governamentais
responsáveis pelo gerenciamento dos serviços públicos; ou porque os projetos
sociais são levados a frente por organizações que estabelecem vínculos também
precários com estes trabalhadores sociais.
ƒ A descentralização das ações garante uma máxima potencialização de recursos já
que se repassa para as organizações locais parte dos custos dos serviços ou projetos
sociais, como por exemplo, infra estrutura de apoio às ações desenvolvidas (são as
organizações que disponibilizam muitas vezes suas instalações) e despesas com
transporte.
ƒ A presença de organizações locais ou de moradores na execução dos projetos
facilita o desenvolvimento de várias de suas etapas, especialmente no momento que
exige a mobilização das localidades, favorecendo uma economia de custos e sua
viabilidade.
ƒ Esta presença favorece também a legitimidade política do programa mediado por
lideranças e educadores que possuem credibilidade nas localidades.
ƒ A forma através da qual se organizam e se dinamizam os programas - onde estão
inscritas a precariedade dos vínculos de trabalho, flexibilidade e integração de
ações - facilita seu uso como espaço de disputa político-partidária.
Estes são aspectos que marcam a fronteira hoje. Mas analisá-la a partir
apenas da perspectiva dos processos excludentes que se configuram e do desenho nas
relações entre o Estado e a sociedade civil é apreender uma parte do processo. Uma vez
que ela é uma fronteira que foi constituindo-se na tessitura política, é possível supor que
sua dinâmica e sua própria estruturação não é uma simples tradução da orientação das
novas políticas econômicas e dos processos de precarização, e da vulnerabilidade social daí
decorrente. Assim como não o foi em períodos anteriores.
De certa forma, ainda que se configure no âmbito de processos excludentes,
que expressam o incessante e crescente desencontro entre o econômico e o social, a
constituição atual deste terreno é resultante de um conjunto de deslocamentos, que
traduzem, em certa medida, a forma como os diferentes agentes sociais foram respondendo

163
aos desafios colocados pelo mundo social em mudança, de acordo com sua experiência e
seus interesses. De forma bem esquemática, penso em alguns destes deslocamentos:

ƒ as lutas travadas pelo movimento de favelas, incluindo as múltiplas divergências


dentro deste movimento que levaram seus vários agentes se posicionarem de forma
diferenciada diante do poder público e da sociedade;
ƒ a ação local de igrejas de diferentes orientações, sem deixar de considerar a
crescente investida de algumas delas no sentido de disputar um maior espaço junto
às favelas;
ƒ a expansão das ONG´s, e particularmente o deslocamento operado no perfil das
organizações não governamentais, no sentido de voltarem-se cada vez mais para o
trabalho de intervenção social, desenvolvendo parcerias com diferentes instituições
supra locais nacionais, e especialmente com o poder público; a retração de
investimentos internacionais, por parte de instituições que apoiavam várias ONG´s,
aumentando a concorrência entre elas, e a necessidade de recorrer a fundos
nacionais para captar recursos, concorre para esta mudança de perfil e
especialmente para a realização destas parcerias.
ƒ a crescente visibilidade da “questão social” (traduzida sobretudo nas imagens de
violência e da miséria “pública” nas ruas divulgada pela mídia), recolocando
incessantemente a necessidade da “conjuração do risco de fratura social”,
mobilizando diferentes segmentos da sociedade;
ƒ a mobilização de universidades, institutos de pesquisa, e intelectuais, de forma
geral, no sentido de se aproximarem do campo de intervenção social, produzindo
programas que procuram conjugar pesquisa e ação social; possivelmente, a inserção
de muitos intelectuais na formação e desenvolvimento de ONG´s, especialmente
nos anos 80, favoreceram tal deslocamento em algumas instituições de pesquisa;
aqui o desmonte operado com várias universidades públicas e as disputas de
mercado, e recursos, entre as instituições particulares que atuam na educação
contribuíram para que o terreno da fronteira se tornasse um lugar particular de sua
ação.
ƒ o deslocamento operado por parte de alguns setores do empresariado que, de ações
pontuais e assistenciais, começam a criar linhas de atuação mais sistemáticas,
promovendo projetos de intervenção; dá-se aqui a filantropização da pobreza,

164
através de ações que dirigem-se a grupos especiais (“meninos de rua”, crianças
carentes, grupos étnicos etc), privatizando e filantropizar o que antes era objeto de
políticas sociais públicas, negando neste movimento a universalidade e pretendendo
substituir as políticas universais de cidadania (Oliveira:2000 c)
ƒ as mudanças ocorridas na organização do narcotráfico que, por um lado,
concorreram para acirrar as disputas dentro do “movimento comunitário” e entre
várias favelas; por outro, atuaram sobre o modo de vida destas localidades,
acirrando os dramas produzidos pelo próprio processo de exclusão; além disso, tais
mudanças contribuíram para um diferente posicionamento das organizações do
narcotráfico dentro da fronteira; é possível supor que as ações assistenciais e
diretas dos traficantes locais estejam sendo substituídas por formas de intervenção
que penetram nos canais institucionais, através de velhos mecanismos de prática
política fundados no personalismo e na coerção.

Pois bem, as considerações acima são apenas um esboço dos deslocamentos


destes agentes sociais. Sei bem que tais processos envolvem uma complexidade que vai
além do “olhar reduzido” que lancei sobre estas experiências. Mas o que importa mais é
destacar aqui é que a multiplicidade de experiências sociais que atravessa a fronteira”
indica a complexidade da correlação de forças sociais aí presente. E que há uma
heterogeneidade de ações e interesses, até mesmo dentro daquilo que aparece como uma
unidade: como por exemplo, o chamado movimento comunitário.
Por isso volto a recordar um dos significados apontados no termo fronteira.
Fronteira de tensão. Os conflitos e disputas inscritas na constituição deste pedaço do
mundo social, e em sua própria estrutura e dinâmica, passam longe da imagem de um
terreno onde todos “trabalham juntos pelo social”. E aqui recorro mais uma vez à
imaginação.... Juntos, há alguns, em determinadas circunstâncias. Separados, cada qual em
sua posição, há muitos. Unidos, alguns poucos. Trabalhando, nem todos. Talvez a
educadora tenha alguma razão em sua confidência: “Há muita gente que só pensa em 1001
formas de ganhar dinheiro com o social, com a miséria”.

165
Apresentação

O olho vê, a lembrança revê, a imaginação transvê. É preciso


transver o mundo (Manoel de Barros)

A fala de Joana tem poder! Certa vez, num grupo de discussão, ela disse assim:
“Nós somos uma espiral. Se pararmos, nos morreremos”. Avaliava então seu trabalho, e de
outras tantas educadoras que, como ela, atuam em organizações e projetos sociais nas
favelas do Rio de Janeiro.
Isso me faz recordar José de Souza Martins que, discutindo a dimensão do tempo
nas lutas sociais no campo, avaliou sua experiência de 15 anos acompanhando estes
movimentos, declarando então que sua pesquisa ainda não fechara e que possivelmente se
aposentaria antes de terminar o trabalho. “Há coisas que estou acompanhando desde o
começo, que começaram a acontecer e ainda não acabaram de acontecer”, disse ele (1993).
Joana não pára porque seu trabalho é necessário, e se renova e se amplia a cada dia,
sempre tendo como base os resultados que vai colhendo. O sociólogo, estudioso dos
movimentos no campo, não pára porque ainda não consegue explicar o conjunto do
processo.
Isso me faz pensar que há trabalhos que tomam uma existência. Talvez seja este o
caso desta pesquisa.
A lembrança revê...É um trabalho que vêm de longe. Resulta de várias fontes.
Como é freqüente no ofício de pesquisador, é pedaço de uma travessia maior. É
desdobramento de experiências e encontros acumulados em diferentes espaços acadêmicos
e profissionais que possuem um eixo comum: a sociabilidade das favelas do município do
Rio de Janeiro e sua relação com o poder público e diferentes esferas da sociedade civil 100 .

100 Tais experiências e encontros se remetem a inserções diferenciadas: um trabalho desenvolvido no início
dos anos 90 na Chácara do Céu, favela que faz parte do chamado Complexo do Borel; o mestrado em
Educação na UFF-RJ ( cujo tema de dissertação foi a produção do saber histórico pelos participantes de
alguns movimentos sociais ocorridos em favelas da Leopoldina-subúrbio do Rio de Janeiro); a experiência
nas escolas públicas da rede municipal do Rio de Janeiro, situadas em localidades faveladas; a prática de
pesquisa e intervenção social junto a duas ONG´s: o CEPEL (Centro de Estudos e Pesquisas da Leopoldina)
e a Gestão Comunitária: Instituto de investigação e Ação social; o acompanhamento do Programa de
Aumento da Escolaridade (Secretaria Municipal de Trabalho, Viva Rio e Escola Técnica Federal de
Química), atuando como supervisora pedagógica e posteriormente desenvolvendo um trabalho de pesquisa a

166
Pedaço de caminho numa travessia maior. Acumulando dados que vão trazendo
mais peças ao quebra cabeças do “que começou a acontecer”. Conversas que instigam
minha imaginação. Informações, que vão trazendo novas dimensões ao “conjunto do
processo”. Interrogações sem respostas. Compartilhando desafios. Experimentando
encontros que vão deslocando minha existência profissional e, porque não dizer? Pessoal.
Seguindo em espiral, em função da necessidade de ir mais além. É pedaço de travessia que
parece não ter ponto final.
... Se a gente pára, a gente morre. Mas seguir em espiral não é nada fácil!
O olho vê... Nas favelas da cidade do Rio de Janeiro, acompanho um leque
diversificado de ações e experiências acontecendo. E por trás de várias delas, alguns
personagens: moradores das favelas que trabalham em projetos, públicos ou não
governamentais. São, sobretudo, mulheres, que exercem seu ofício percorrendo seus locais
de moradia, ou outras localidades, atuando num terreno que vem se alargando cada vez
mais: o terreno do trabalho social. Alguns têm muito tempo de estrada. Tempo de ação no
movimento e na organização comunitária. São da era em que eram poucas as iniciativas
sociais de caráter governamental ou não governamental nas favelas. Muitos ingressaram
neste terreno nos últimos dez anos, participando de programas públicos ou de projetos de
ONG´s. Quase todos já atuaram neste terreno de forma voluntária. A maioria retira deste
trabalho social o seu sustento e de sua família.
No diálogo com estes personagens, um acúmulo de perguntas:
“Nós somos gente, que corta os espinhos, que tira as pedras, prá seus pés
caminharem”, disse Valda, a educadora de uma favela carioca num texto poetizando o
trabalho do “agente comunitário”. 101 Quais pedras e quais espinhos?; como cortar os
espinhos e como tirar as pedras?.
“Eu adoro a obra social, não tenho recursos e tenho família para sustentar e preciso
ganhar para me sustentar”, afirmou o morador de uma outra favela, a frente da gestão de
um pequeno projeto comunitário. Do outro lado da cidade, uma educadora contava: “na
nossa comunidade, a maioria que começa a fazer um trabalho social, se a prefeitura
emprega, esquece da comunidade”. E eu questiono: em quais condições de trabalho é

respeito da experiência do programa. E ainda os trabalhos de consultoria e avaliação junto a ONG´s que
desenvolvem programas de educação, geração de renda e outros programas sociais junto a favelas da cidade.
101 Poesia “Pé na Estrada” (dedicada ao agente comunitário) in Pedaços de Mim: Poesias de Valda, Apoio:
Gestão Comunitária: Instituto de Investigação e Ação Social e Women’s front of Norway/Fokus-Norad,
mimeo, 2001.

167
realizada esta “obra social”?; qual o sentido do social para aqueles que trabalham?; e para
aqueles que são por ele servidos? 102
Em um encontro com gestores de pequenos projetos realizados em diversos favelas
e áreas da periferia de nossa cidade, perguntei o que precisam para desenvolver melhor
seus trabalhos. Diferentes respostas, mas todas falavam de informação. “Trabalhar com
social é muito difícil e a articulação é lenta, tem que gostar muito. Dentro do social tem
que ter acesso ao poder público, a leis e não é fácil. Tem que ter troca, nem que seja de
serviço. O processo é lento”, avaliou uma das gestoras. “Muitas informações são restritas.
Existe um pequeno grupo que detém as informações”, acrescentou um outro. E um outro
tanto de questões me vêm a cabeça: quem detém as informações?; como se dá ao acesso ao
poder público e às informações?; quais os mecanismos que regulam este acesso?; o que
significa a “troca” neste mundo do social?
“Eu acho que na vida hoje, nós temos para trocar, independente de raça, de religião,
de grau de escolaridade...nós temos isso pra trocar”, dizia uma outra educadora, contando
com satisfação sobre a oficina de direitos humanos e AIDS, que desenvolveu junto a um
grupo de profissionais de nível superior de uma universidade pública situada no Rio de
Janeiro. E aí lembro de outra que trabalha em uma creche, que avalia: “valoriza muito mais
fazer um curso de atualização a ter que ficar seis horas ouvindo bobagens de quem não
vive o dia a dia de uma favela, e sendo pressionada a apresentar bons resultados”. E eu me
pergunto: o que é trocado?; como é trocado? em quais condições há troca?, como se dá a
pressão? .
Num grupo de estudos para educadores que atuam em favelas, todos conversam
sobre as dificuldades em levar adiante os encontros e uma educadora observa “qualquer
coisa que a gente faz em grupo para estar discutindo, se atualizando, se capacitando, é com
dificuldade mesmo. Eu ainda não vi nada que foi facilidade. É assim mesmo”. E
acrescenta: “a gente não pode parar; eu já vi vários segmentos, coisas boas acontecendo, e
quando parou quem saiu perdeu foi nós próprios”. E aí, eu questiono: o que é perdido?; o
que vem sendo perdido a cada vez que a troca entre educadores, a atualização e a discussão
é deixada de lado?
“A creche mudou minha vida. Vi que tinha problemas mas a comunidade também”,
contou a moradora de uma favela da cidade que começou seu trabalho, atuando em uma

102 Tais depoimentos assim como os seguintes foram extraídos de relatórios de campo, resultantes de
avaliação e consultoria a projetos desenvolvidos em favelas por educadores moradores destas localidades.

168
creche. Ela repete algo que já ouvi de várias pessoas que trabalham em projetos em seus
locais de moradia e isso me leva a mais uma interrogação: o que leva a ação em projetos
comunitários a mudar a vida de uma pessoa?; qual o significado desta mudança?
“Nós somos uma espiral. Se pararmos, nos morreremos”, me diz a educadora que
me inspirou no início deste capítulo. E eu fico pensando: o que significa “parar” e
“morrer” para quem é “espiral”?; o que significa ser “espiral”?; para onde está indo esta
“espiral”?
São diversas as perguntas.... Nas “viradas” da espiral, há os desafios. Desafios que
têm a ver com a renovação e ampliação de questões, a partir dos resultados colhidos.
Desafios que colocam a necessidade de novos olhares e formas de ação. Desafios que nos
exigem deslocamentos em nosso campo de trabalho e no mundo social.
...Em espiral eu fui e vou, seguindo.
Na parte I, a A Espiral, apresento os desafios e conceitos que se acumularam na
espiral ao longo de vários anos e ajudaram a sedimentar a pesquisa, a proposta deste
trabalho, suas ferramentas de análise e os tortuosos caminhos de abordagem.
Na parte II, O Desencontro e a Fronteira, trago dois capítulos, cada qual voltado
para questões que ajudam na aproximação do tema da pesquisa.
Enfim, a última parte, O Trabalho em Movimento, é composta de um conjunto de
capítulos voltados para a compreensão do trabalho social dos moradores que vivem e
atuam em algumas favelas do Rio de Janeiro.

169
Parte I

A Espiral

170
1. Porque é preciso navegar...: um inventário de perguntas, respostas e
imaginações

Refletir sobre chegadas e partidas é buscar o que nos move. É buscar fios de
memórias, ressignificá-los no presente e reencontrar novas direções. Porque não é preciso
inventar sempre a roda, recorro a experiências e conhecimentos acumulados, e antigos
mapas. Mas porque é preciso dar respostas a novos desafios, do mundo em mudança, parto
em busca de novos roteiros. E aí, começo a navegar no desconhecido.
É disso que aqui vou falar. Do que foi se acumulando na espiral, e ainda hoje
sedimenta esta pesquisa.

No “inferno”

Eu cheguei à seguinte conclusão: “a terra é do latifundiário, o mar é da marinha, o


céu é da aeronáutica e para os favelados só sobrou o inferno”, foi bem assim que há alguns
anos falou o morador de uma favela da Penha, subúrbio do município do Rio de Janeiro.
Inferno, lugar da sobra. Lugar de padecimento.
Posso dizer que sempre quis saber mais e mais do “inferno”. Conhecer a “sobra”.
Explicar a “sobra”. Os “sobrantes”.
Foi assim que cheguei pela primeira vez numa favela localizada no bairro da
Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro: a Chácara do Céu. Atravessando uma fronteira.
Estranha no lugar. Imagens na cabeça. Buscando conhecimentos que pudessem explicar
estas imagens.
A Marginalidade em Questão: Conflito Social, Condições de Vida e Cotidiano na
Favela (1992) nasceu daí. Da busca incessante de explicações para a existência daquele
lugar, descrito por uma moradora. “Lugar esquecido por Deus”, disse ela. Explicações
que me fizessem entender.
Com base na leitura de autores que se dedicavam então a estudar os processos de
marginalidade e a urbanização nas sociedades da periferia capitalista, bem como as favelas
cariocas, e nas informações que recolhia a respeito da Chácara do Céu, conseguia chegar
às explicações para o surgimento desta favela, e de tantas outras existentes na cidade do

171
Rio de Janeiro 103 . Analisava que foi particularmente a partir dos anos 40, no âmbito da
expansão capitalista de base industrial e urbana - que mostrava suas outras faces, alijando
econômica e socialmente parcelas crescentes da população- - que se deu o crescimento
concentrado e ampliado das favelas no Rio de Janeiro. A Chácara do Céu, tendo se
expandido nos 70, e possuindo quase 75% de moradores com origem migrante, era
expressiva de um processo de favelização desenvolvido no âmbito de um modelo de
acumulação, cuja decolagem foi garantida pelo projeto político implementado durante os
anos da ditadura militar 104 .
Concluía que entre, o momento histórico que marcava o expressivo crescimento do
número de favelas no Rio de Janeiro (anos 40/50) e o período no qual se deu a
consolidação da Chácara do Céu, as favelas, juntamente com outras formas de moradia, se
afirmaram como expressão, e enfrentamento da exclusão no espaço urbano 105 . O entremeio
marcou, então, o reconhecimento do “fenômeno” de favelização como parte de um
processo no qual se inscrevem as contradições urbanas , resultantes da privatização da
esfera pública, e dos limites do Estado no sentido de assegurar as condições de reprodução
da força de trabalho urbana. 106
Descobria ainda que, em todo este processo, a exploração do trabalhador não se
restringiu à relação capital e trabalho propriamente dita, mas abarcou igualmente a esfera

103 A partir dos anos 70, quando passaram a predominar a perspectivas que rompem com modelos dualistas
de explicação das mudanças históricas e sociais, a favela é “redescoberta”. Alguns estudos, como O Mito da
Marginalidade de Janice Perlman (1977), preocuparam-se em desvendar sua dinâmica interna e suas redes
associativas, bem como seus nexos com os espaço da cidade e com o mundo político. Um outro conjunto de
reflexões concorreu também para esta “redescoberta”, ao procurar explicar o avanço da favela e das áreas
periféricas das metrópoles a partir das contradições do processo de acumulação urbana industrial que se
acelerava, tendo como principal “avalista” o Estado. Criticando-se a perspectiva que a concebia como um
distúrbio de uma urbanização desordenada, a favela passa a ser vista como uma forma de sobrevivência no
âmbito das contradições da dinâmica econômica e social capitalista no espaço urbano. As lutas levadas à
frente pelos moradores destas localidades também vão ser analisadas sob esta perspectiva. Destacam-se aqui
os trabalhos de Lucio Kowarick, Capitalismo e marginalidade urbana na América Latina (1975) e Espoliação
Urbana (1979). E ainda, Contradições Urbanas e Movimentos Sociais (1978) e Cidade Povo e Poder de José
Álvaro Moisés e alli (1982).
104 Na época em que foi realizada a pesquisa, início dos anos 90, nossa equipe de pesquisa constatou que
70% da população havia então se estabelecido na favela a partir dos anos 70 e que seu crescimento deveu-se
sobretudo ao fluxo de migrantes, vindos especialmente da Paraíba (37%), interior do Estado do Rio de
Janeiro (12,5%), Minas Gerais (11%) e outros estados do Nordeste e Sudeste (14%)
105 Refiro-me aqui aos chamados loteamentos clandestinos na periferia da área metropolitana que, embora
surgidos anteriormente, expandiram-se de forma expressiva nos anos 60 e 70 no Rio de Janeiro. E também
aos conjuntos habitacionais populares que, a despeito de integrarem-se a programas públicos, são
“reconstruídos’ por seus moradores de forma atender a seu modo de vida.
106 O conceito contradições urbanas nos remete ao conjunto de estudos que, na segunda metade dos anos 70,
apontava a especificidade do padrão monopolista de acumulação do capital desenvolvido nos países da
periferia capitalista, onde o Estado vinha garantir as condições desta acumulação. A este respeito destacam-se
os trabalhos de Moisés (1978) e Oliveira (1978), influenciados pelos estudo de pesquisadores europeus,
entre eles Castells (1983)

172
do Estado, o qual teve um papel fundamental no somatório de extorsões que se operaram,
através da inexistência ou precariedade de serviços que se apresentavam como socialmente
necessários à subsistência dos trabalhadores, fenômeno que Lucio Kowarick chamou de
espoliação urbana. (1979). Com isso, o ônus da reprodução da força de trabalho foi
assumido pelos trabalhadores, particularmente no que se refere aos serviços de infra-
estrutura urbana.
Com os dados obtidos através de questionários aplicados junto aos moradores da
localidade, chegava a ensaiar uma configuração econômica e social da favela, constatando
o alto índice de analfabetismo (40,5% da população) e a baixa renda familiar (entre 1 e 2
salários mínimos), expressiva da inserção precária da maioria de seus moradores no
mercado de trabalho. Inspirada em leituras da sociologia e antropologia urbana,
relacionava dados deste perfil econômico e social com os depoimentos colhidos junto aos
moradores, e avaliava que, em seu cotidiano, a sobrevivência dos “sobrantes” era garantida
através de um conjunto de estratégias de sobrevivência: a distribuição na favela segundo
os locais de origem facilitava as redes de solidariedade e permitia o compartilhamento de
bens de consumo e, até mesmo, de serviços de infra-estrutura urbana, como a água; a
recriação de experiências e valores de origem rurais, como a criação de porcos, se dava de
forma a favorecer a existência na cidade, tornando-se parte constitutiva da vida urbana; nas
famílias que contavam com um maior número de pessoas trabalhando fora, as mulheres
contribuíam para renda familiar, garantindo a reprodução dos outros membros e
dedicando-se à economia doméstica, que podia incluir atividades importantes à
subsistência, como criação de alguns animais; a maioria das mulheres dedicava-se a
trabalhos suplementares, como tomar conta de crianças da favela, um arranjo que
contribuía para o orçamento e que, ao mesmo tempo, não implicava sair do espaço de
moradia e o abandono das atividades fundamentais ao cotidiano familiar. 107
Tais análises me fizeram dar um passo a mais na espiral de meu trabalho. Não
apenas conseguia explicar o surgimento da favela e algumas de suas características.
Começava a compreender seu modo de vida.
Mas ao dar o passo, defrontei-me com uma “virada” na espiral... Lugar e momento
de desafio. É que houve problemas no meio da feitura deste meu trabalho. Foi quando ao
entrevistar Dona Sebastiana, ela me disse bem assim: Minha vida está boa do jeito que

107 Dentre as leituras da sociologia e antropologia urbana, destaco o já mencionado livro de Perlman (1977),
e ainda Cardoso (1978), Caldeira (1984), Durham (1988, 1984 e 1977)..

173
está. Surpresa, eu não fiquei. Já tinha ouvido antes coisas parecidas, e minha formação
acadêmica me dava uma série de conceitos para explicar aquilo: alienação, falta de
consciência histórica e de classe. Mas fiquei, sim, foi desconfiada! E comecei a imaginar...
a autoridade nos gestos, no tom e mesmo no conteúdo da afirmação de Sebastiana e outros
tantos moradores, confrontada com a evidente precariedade de suas condições de vida,
levava-me a pensar que não a estava entendendo, percebendo alguma coisa em sua fala e
que, portanto, podia haver algo “errado” comigo, com minha formação acadêmica e
profissional. Foi isso que concluí.
E aí percebi que queria mais. Mais do que explicar. Queria avançar na
compreensão. Compreender mais a vida na “sobra”. E também suas relações com aquilo
que não é sobra. Com aquilo que é “domínio” na cidade. E que é “domínio” nas relações
que nela se tecem. Queria compreender as relações da “sobra” com aqueles que vão ao
“inferno” em busca de alguma coisa, com algum interesse, assim como eu estava fazendo.
Ponto de chegada, começo de outra partida! A partida que fez nascer, alguns anos,
depois meu projeto de pesquisa no mestrado, a respeito da memória histórica nas favelas:
Reconstruindo a trama por caminhos, atalhos e pistas.

Nas tramas do “inferno”

...Foi assim que me aproximei das favelas da Penha, bairro localizado na


Leopoldina, subúrbio do Rio de Janeiro, onde desenvolvi uma nova pesquisa. Trabalhei
movida pela necessidade de me voltar para o conhecimento produzido pelas classes
populares, considerando-o como fundamental na construção de um conhecimento crítico.
Aqui, no âmbito das discussões do grupo de orientação coletiva do mestrado, buscava
ajuda em Martins, que dizia:

Isso passa pela nossa conversão à condição de objeto dele, no sentido de tomar
como premissa o pensamento radical e simples das classes exploradas, meio e
instrumento (ao invés de instrumentalizá-lo) para desvendar o lado oculto das
relações sociais com os olhos dele, revelando-lhe aquilo que ele enxerga mas
não vê; completando, com ele, a produção do conhecimento crítico que nasce
da revelação do subalterno como sujeito, na medida em que lhe restituímos a
condição de objetivo e lhe abrimos a possibilidade de resgatar o pleno sentido

174
de conhecimento alternativo que ele representa e propõe na sua prática.
108
(Martins 1989: 137)

Considerava então que, na construção do conhecimento crítico, o olhar para o outro


abre espaço para a compreensão de nossas concepções, podendo fertilizar nossa prática
profissional e política, em especial no que se refere à relação com os grupos populares.
E assim, procurava seguir em espiral....Desta vez, recuperando a história de três
movimentos ocorridos nas favelas da região e tecendo uma reflexão sobre o saber histórico
popular, investigando a forma como as os agentes participantes destes movimentos
percebiam a sua história, particularmente as lutas das quais participam, e os significados a
elas atribuídos. 109 .
Seguindo as pistas de algumas das lutas ocorridas nestas localidades, procurei
buscar parte de uma memória que parecia perdida na história da cidade, mas que não
escapava àqueles que a vivenciaram enquanto ação. “Acho que nunca, na história disso
aqui, nunca se viu tanta gente, lá naquela Praça, numa Assembléia... Nem a Associação de
Moradores conseguiu botar tanta gente como nós botamos lá”, ouvia P. Penha recordar o
início dos anos 80, um tempo em que eles pareciam estar com “a história nas mãos”. Um
tempo em que dizia Luiza: “o movimento era assim...porque a gente não ia um, a gente
não ia para o Palácio para reunir com o gabinete. Ia cinqüenta e subiam três, subia a
comissão. Então tinha sempre um movimento muito vivo ali, sempre presente” 110 .
Porém, resgatar a história de alguns destes movimentos através dos depoimentos
daqueles que os vivenciaram, buscando recuperar o seu significado histórico, era parte do
trabalho proposto. Na verdade, meu objetivo não era tanto trazer tais lutas para a “História”
mas, especialmente, compreender os significados que seus protagonistas lhes atribuíam,
considerando que só assim poderia entender melhor as experiências sociais e práticas
políticas daqueles que vivem no “inferno”. Entender, enfim, porque dizem que a “vida

108
A experiência no grupo de orientação coletiva em Movimentos sociais, Políticas públicas e Educação,
coordenado pelo prof. Victor Valla, de 1994-95, no Programa de Pós Graduação em Educação da UFF, foi
fundamental em algumas reflexões e conceitos, que hoje sedimentam esta pesquisa. No grupo, trocávamos
experiências de trabalho e novas leituras. As diferentes trajetórias daqueles que participavam do grupo
confluíam numa encruzilhada, em torno de um eixo comum que nos levava às questões que atravessavam o
movimento popular. Aqui, relevávamos os desencontros entre a população e os profissionais que com ela
trabalhavam, em busca de uma perspectiva crítica de nossas práticas e interpretações.
109 Tal pesquisa deu origem à dissertação de mestrado Grotão, Parque Proletário, Vila Cruzeiro e outras
moradas: História e Saber nas favelas da Penha, defendida junto ao Programa de Pós Graduação em
Educação da Universidade Federal Fluminense, e sob a orientação do Prof. Dr. Victor Valla (1995)
110 Tais depoimentos, assim como os seguintes, encontram-se no texto da dissertação acima citada.

175
está boa do jeito que está”, porque fecham ruas, ou porque se silenciam, quando os
militantes políticos acham que eles precisam falar. Porque fazem determinadas opções
políticas que, aos olhos daqueles que estão fora do “inferno”, aparecem sempre como
“alienadas”.
Foi desta forma que fui compreendendo um pouco mais da ‘sobra’, do saber e das
visões de mundo, e também dos movimentos dos “sobrantes”. Dialogando com as
reflexões de Thompson (1981;1987) e de Martins (1989), avaliava que era no âmbito de
sua experiência de subalternidade que os “sobrantes” produziam suas visões a respeito das
lutas por eles vivenciadas 111 . E recuperando fios de memória destes agentes, constatava
que nesta experiência histórica de subalternidade, vinham inscritas práticas e percepções
construídas ao longo do vivenciamento de um processo de exclusão em suas múltiplas
faces: na exclusão no campo e no migrar para a cidade, na exploração no trabalho e na luta
cotidiana na favela, na relação com os mediadores e no confronto com as instituições
públicas.
Analisando, então, estas práticas e percepções, podia perceber que elas eram
atravessadas por mediações que particularizavam a forma como este processo era vivido
pelos sujeitos: fertilizado pela prática sindical, pela atuação político-partidária, pela
experiência de trabalho, pelo acompanhamento do dia-a-dia na favela, pela religiosidade.
Com isso, podia ir compreendendo melhor porque não era todo mundo igual ali no
“inferno”. Porque uma liderança dizia: “eu achava horrível aquela briga dos
companheiros favelados, todos pobrezinhos, brigando um com o outro pelo poder que não
tinha significativo algum” enquanto uma moradora da mesma localidade lembrava que “a

111 O conceito de experiência, que já era então bastante recorrente nas análises a respeito dos movimentos
sociais, revelou-se fundamental na pesquisa, indicando um eixo de análise que, sem perder de vista as
determinações mais amplas colocadas pelas relações de produção, contemplava os elementos particulares que
atuam como mediadores na produção cultural das classes populares. Dialogando com ele, foi possível
concluir que a experiência social, ainda que inscrita em processos macro-estruturais determinados pelas
relações de classes, é vivida por sujeitos que tratam desta experiência em sua consciência de maneiras
diferenciadas, de acordo com sua cultura, sua visão de mundo e sua historicidade.
Quanto ao conceito de subalterno, recuperei a interpretação de J.Souza Martins: “o legado da tradição
gramsciana que nos vem por meio desta noção, prefigura a diversidade das situações de subalternidade, a sua
riqueza histórica, cultural e política”(1989). O conceito adequava-se à pesquisa em torno da experiência
histórica dos moradores das favelas, e dos movimentos sociais aí desenvolvidos, porque tinha o mérito de ser
atravessado pela marca da universalidade e da particularidade. Universalidade, porque deve ser
compreendido no âmbito do processo de subalternização, que, produzido pelo desenvolvimento capitalista,
atinge parcelas crescentes da população. Particularidade, porque só pode ser interpretado a partir da forma
historicamente específica através da qual se desenvolvem relações entre os diferentes grupos subalternos e o
capital.

176
própria comunidade tem noção do que ela quer”. Ia começando a compreender os
caminhos e opções diferenciadas dos “sobrantes”.
Reencontrava ainda uma das principais questões que deram origem à pesquisa:
lançava um novo olhar para a experiência histórica e a visão de mundo dos “sobrantes”.
Chegava à conclusão de que ela vinha marcada pela dor da travessia histórica que se
reatualizava incessantemente, colocando a necessidade de garantir o dia-a-dia, de prover a
vida no presente. Vinha atravessada também pela imprevisibilidade do cotidiano da vida
subalterna, frente ao enfrentamento da sobrevivência. Percebia também que esta mesma
experiência não anulava a possibilidade de projetos. Os “sobrantes” não viviam apenas de
dar respostas às urgências. Alimentavam projetos. Projetos alongados e adiados em meio à
imprevisibilidade do cotidiano e à busca da provisão. Vividos enquanto sonhos, ideais e
expectativas de mudança. Tecidos ao longo da vida, eram redefinidos em função dos
limites aí colocados, encontrando possibilidades de se insinuar em meio às brechas
forjadas pelos sujeitos em seu cotidiano. Assim, era o projeto da casa própria, o “ideal” que
a P. Penha declarava ter dentro dela, e também seu sonho frustrado de ser assistente social
e a busca por outro caminho, de agente de saúde.
Percorrendo as histórias dos movimentos que então pesquisava, concluía que era
em meio às lutas sociais que a experiência de subalternidade ia se explicitando como
coletiva: em seu vivenciamento enquanto injustiça, exploração, desejo e expectativa de
mudança, e no encontro que tornava possível que necessidades e projetos vividos
individualmente fossem percebidos em sua dimensão coletiva. Era como uma moradora
dizia a respeito da ocupação que deu origem à favela onde vivia: “olha, diante de pagar
aluguel, não só sou eu, são muitas pessoas, muitas famílias”.
Descobria que, se examinada, considerando a experiência dos agentes sociais da
ocupação, a favela é bem mais do que resultado das contradições do padrão de
acumulação do capital e do papel que o Estado aí assume. Ela pode ser projeto de vida
tecido em meio à insatisfação vivida como perda e a expectativa de melhoria de vida. Ela
pode ser luta individual e coletiva, travada em meio à precariedade experimentada no dia a
dia. Ela encerra modos de vida e formas culturais, construídos coletivamente, no
enfrentamento da vida no espaço urbano. E ela pode ser conquista, resultante de trabalho
comum e de conflitos com outros agentes sociais, particularmente o Estado e o capital
imobiliário.

177
E assim, eu deslocava o olhar. No lugar de produto das contradições da acumulação
urbano industrial que é garantida pelo Estado, processo tecido historicamente em meio aos
conflitos presentes no mundo urbano, usando uma expressão de Lefebvre, na cidade do
capital. Ao invés de carência, entrava o trabalho, a conquista. Ambos movidos pela
necessidade. Uma necessidade experimentada enquanto condição de vida e dinamizada por
agentes sociais que agem, referenciados em certas determinações sim, mas também
atravessados por expectativas e projetos, e que encontram coletivamente caminhos para
concretizá-los. As possibilidades de os projetos se viabilizarem estariam então menos
associados à intensidade do descontentamento, do que ao encontro que permitia que
insatisfações e projetos vividos particularmente fossem reconhecidos em sua dimensão
coletiva.
Este “encontro” mereceu um olhar atento. Porque não é raro na história das favelas.
Marca mesmo a memória de algumas de suas principais lutas.

(...) no verão, a gente tinha uma informação que a associação de moradores


vendia água, desviava água para os terrenos próprios do Grotão. E aquela
empresa de ônibus Nossa Senhora de Lourdes recebia um subsídio e tal, de
água, de canos clandestinos. (...) A associação levou uma grana para que
deixasse ligar. Era uma água gratuita. A água da comunidade é grátis. Só paga
a manutenção da bomba que faz o sistema de elevatória. Ninguém paga conta
de água no banco, nada disto. Existe aquele convênio. E no verão sempre
faltava água. Aí descobriram que esta água era desviada para os terrenos
próprios da Vila Cascatinha, para que se aumentasse o quadro social e com
isso a associação captava mais recursos. (...) a mulherada se juntou uma vez
para dar uma coça nos manobreiros. Várias donas de casa com vassouras. Foi
em 83. Foram para pegar o seu Zezinho. Foram na casa do seu Zezinho e
depois foram na casa do manobreiro. Foi uma coisa delas. Uma coisa assim
que aconteceu rapidamente. Foi um levante das donas de casa, com vassoura na
mão 112 .

112 Tal fato ocorreu em Vila Cruzeiro, no bairro da Penha. Sr.Zezinho era o presidente da Associação de
Moradores na época referida.

178
Eis aí o “encontro”. Uma situação em que configurou-se o que Thompson chama de
atropelo aos “supostos morais” dos moradores, baseados num histórico e “amplo
consenso” da comunidade, atravessado por um noção legitimizante. (1984, p.65). Controlar
o fornecimento de água, cobrando por isso, podia ser considerado como legítimo, mas o
seu desvio para outros locais a fim de se acumular recursos atropelava o “amplo consenso”
ao qual se refere Thompson. Este atropelo, no âmbito do transtorno causado pela falta
d’água no verão, abriu as possibilidades para ação direta das mulheres.
Depoimentos que traziam relatos de eventos como o citado acima ajudaram-me a
compreender uma das interrogações da pesquisa: a temporalidade inscrita nas lutas
populares, sua dinâmica, seus nexos de ação. Concluí que eventos como este não podiam
ser reduzidos nem ao clímax de um processo acumulativo, nem a um acaso abrupto. Muitas
vezes, eles se colocavam para os sujeitos enquanto oportunidade no meio da estrada, num
percurso que aparentemente parecia “conformado” e, neste sentido, apareciam como um
ponto de ruptura que possibilitava o deslanchar compartilhado de um projeto e a instituição
da luta. Mas eles eram também potencializadores de caminhos que vinham se tecendo e,
por isso, signos de experiências acumuladas, que definiam alternativas e práticas no
encaminhamento deste projeto.
Concluía que necessidade, trabalho e conquista, projetos, modos de vida, encontros
em meio a atropelos, são experiências que, juntas, foram conformando processos de ação, e
não de simples reação. Experiências que desdobraram-se em organização e luta,
consolidando a presença das favelas na paisagem urbana carioca e sua integração na
agenda política do Estado. E colocando em questão muitas das imagens redutoras e
dicotomizadoras veiculadas a seu respeito, inclusive dentro do pensamento acadêmico.
Por fim, ao longo de toda a pesquisa, fui procurando construir uma reflexão sobre
as armadilhas presentes na relação entre aqueles que viviam no “inferno” e diferentes
profissionais mediadores, de forma a problematizar as representações produzidas por estes
últimos acerca do conhecimento e da experiência popular e, por outro lado, me aproximar
criticamente das visões que os “sobrantes” possuíam a respeito dos mediadores.
Aqui, foi fundamental um tanto de leituras e o desenvolvimento de uma discussão
sobre a cultura, concebendo-a a partir de sua dimensão processual, contraditória e
conflituosa. Seguindo caminhos trilhados por Geertz (1989), Sahlins (1990), Durham
(1977) e Ginzburg (1987), pensava as produções do mundo simbólico das classes
populares como ação no tempo, atravessadas por tempos históricos distintos e inscritas

179
num tecido social permeado por lutas e contradições. Dentro desta perspectiva, procurava
ir além das dicotomias que opunham cultura de elite/cultura popular, recuperando a noção
de circularidade trabalhada por Carlo Ginzburg, que aponta as trocas subterrâneas
existentes entre cultura subalterna e a dominante, afastando a concepção de uma autonomia
entre elas e resgatando seu movimento relacional. E acolhia o conceito de hegemonia
cultural sugerido por Thompson, que me permitia explicar a reprodução de determinadas
práticas e valores comuns à sociabilidade capitalista, mas compreender também as
“distintas cenas e dramas diversos” desenhados nas teias das estruturas de dominação e
subordinação (1984)
Tendo como base tal discussão, dialoguei com os depoimentos dos atores dos
movimentos então pesquisados, ensaiando uma leitura a respeito da relação entre
lideranças e moradores das favelas e os profissionais mediadores, procurando desalojar
determinadas interpretações dicotomizadoras. Percorrendo as histórias, relia textos,
imaginando....Estabelecia nexos que indicavam novas possibilidades de análise. Chegava
à noção de mediador na comunidade que me levou a repensar as oposições bem definidas
entre mediadores externos/comunidade e, também, refletir sobre o percurso da liderança à
frente da organização comunitária, enquanto uma possibilidade de ação política no
movimento, que muitas vezes a aproximava dos profissionais mediadores, tornando suas
representações bastante semelhantes. De certa forma, o mediador na comunidade vinha me
sugerir outras alternativas de prática social e política, que não passavam necessariamente
pelos “níveis de consciência política” indicados por mediadores externos mas também
pelas lideranças mais expressivas.
Ao fim da pesquisa, concluía que a atuação do morador mediador na comunidade
particularizava-se pela ação nas margens das esferas de poder instituído na favela, no caso
a associação de moradores. Aproximava-se da liderança pelo conhecimento do jogo
político, acumulado na prática no movimento comunitário, mas dela distinguia-se pela
forma de ação na luta. Diferenciava-se dos demais moradores pela experiência no
movimento e pelo conhecimento das regras do universo político. No entanto, a particular
forma de atuação na favela, através da proximidade cotidiana com os moradores, reforçava
os vínculos com sua experiência subalterna. Produzia, pois, sua visão a partir de um outro
lugar que possivelmente lhe dava um horizonte de visibilidade crítica. Daí, ele percebia as
implicações das relações de poder na favela, a atuação dos mediadores externos, e
interpretava a ação e experiência dos demais moradores. Na percepção do mediador na

180
comunidade, o seu percurso apresentava-se como particular, mas não era colocado em
outro plano. Ele aparecia enquanto possibilidade da trajetória de vida daqueles que viviam
na localidade. Trajetória que ele buscava compartilhar no âmbito da localidade em que
vivia através de sua ação mediadora.
Esta identificação da existência do mediador na comunidade foi uma das questões
que assumiu maior relevo na pesquisa, mas não pude me dedicar a ela. Cheguei ao fim da
pesquisa levando a interrogação comigo. E nos anos seguintes, mantive-a como um
desafio.

Da existência social que interroga

Porque a gente procura caminhar em espiral, é que as descobertas não se desfazem.


Posso dizer que foi esta percepção da existência do mediador que me levou a desenhar a
pesquisa voltada para os educadores que vivem e atuam em favelas do município do Rio de
Janeiro.
Mais uma vez, a lembrança revê... Meu primeiro encontro, e mesmo diálogo, com
estes educadores deu-se exatamente na época da pesquisa sobre a qual refleti anteriormente
quando, além de desenvolver uma investigação sobre os movimentos populares em favelas
da Penha, atuava no CEPEL (Centro de Estudos e Pesquisas da Leopoldina), onde pude
acompanhar a assessoria que a instituição oferecia às educadoras do Sementinha Serviços
Comunitários, participando inclusive da sistematização da experiência de trabalho do
grupo através da elaboração de uma publicação Guia do Bem Estar: um trabalho de
Esperança. 113
Defrontar-me com o trabalho do Sementinha, dentre outras coisas, me despertou
para o particular lugar ocupado por moradores de favelas que atuam como educadores em
seus locais de moradia, ou em outras favelas. Até então, minha visão a respeito do universo
dos que viviam na favela era um pouco dicotômica: de um lado, os moradores comuns,
mais ou menos participantes das lutas comunitárias; de outro, as lideranças voltadas
fundamentalmente para estas, mais ou menos vinculadas às associação de moradores. De
repente, descobria que havia pessoas na favela que não se localizavam nem no lugar do

113 O Sementinha Serviços Comunitários é um grupo formado por mulheres que desenvolvem atividades na
área da saúde, em favelas da Penha. O grupo formou-se em meados dos anos 80, a partir de uma proposta de
mobilização comunitária da Pastoral de favelas da Igreja Bom Jesus da Penha. A experiência histórica do
Sementinha e as visões produzidas pelo grupo foi um dos temas da dissertação de mestrado já citada.

181
morador comum, nem da liderança propriamente dita. O que percebi imediatamente é que
as mulheres do grupo afastavam-se dos outros moradores pelo fato de que circulavam em
espaços sociais diferenciados, para além dos lugares aonde viviam.
Com isso, posso dizer que o diálogo com o Sementinha me fez relativizar a
paisagem das favelas, interrogando uma visão que polarizava a existência social nestas
localidades não concebendo lugares outros, exceto o de morador comum e liderança
participante do movimento comunitário.
Com o tempo, acompanhando o grupo fui desvendando outras questões. As
mulheres do Sementinha possuíam uma prática de assistência individual aos moradores.
Levavam doentes e idosos aos serviços de saúde, ao banco, e outros locais que eles
necessitavam. E acompanhavam aqueles que estavam internados no hospital, zelando por
eles e, muitas vezes, respondendo ao estado de abandono que estas pessoas se encontravam
em função do mal funcionamento do serviço público ou da negligência/ou falta de
condição das famílias. Era evidente no grupo uma prática de solidariedade, que já havia
identificado na sociabilidade das favelas, onde necessidades que aparecem como
individuais, mas quase sempre são causadas pela falta de acesso aos serviços públicos (de
infra-estrutura urbana ou sociais) e pela desfiliação social, são solucionadas numa esfera
comum 114 .
Sim, as mulheres do Sementinha, como muitas moradoras das favelas, eram
solidárias. Estavam sempre prontas a agir a fim de ajudar quem estava ao lado. No entanto,
o que percebi foi que esta solidariedade era mais do que uma prática social local. Ela foi se
constituindo como forma de trabalho. O que não cheguei a compreender foi o processo que
deslocou esta solidariedade, configurando-a como trabalho. De qualquer forma, ver o
Sementinha em ação me fez lançar um outro olhar sobre aquilo que até então via como
elemento constituinte do modo de vida na favela.
Esta questão, assim como a complexidade da dinâmica do movimento popular nas
favelas e a posição aí ocupada por estes educadores das favelas- que passei então a
conceber como mediador na comunidade - se repôs em todas as minhas experiências de
trabalho em favelas nos anos seguintes.

114 O termo desfiliação social, trabalhado por Castel (1998) é usado aqui para referenciar a multiplicidade de
situações de precariedade que atingem os moradores de favela, num processo que nada tem de estático e que
configura um acúmulo de experiências, que vão da vulnerabilidade à desfiliação. Desta forma, questões que
são tratadas de forma substancializada e isoladamente, como desemprego, alcoolismo, dependência química,
perda de laços familiares e da sociabilidade local, são experiências que fazem parte deste percurso de
desfiliação social.

182
Supervisionando, e, mais tarde, prestando consultoria a um projeto educacional
desenvolvido por uma ONG, pude ter contato com uma diversidade de agentes que atuam
favelas e áreas da periferia da cidade, ampliando desta forma meu campo de observação a
respeito do papel destes educadores e de sua relação com a organização comunitária.
Levantando a avaliação negativa por parte de alguns alunos do projeto em relação às
associações de moradores, questionava então:

(...) é fundamental identificar por onde têm passado os caminhos de


participação da população nas comunidades. Se muitas vezes os moradores não
encontram respostas nas associações, de que forma vêm articulando suas
demandas, veiculando suas necessidades e enfrentando seus problemas? Quais
os espaços que despertam sua confiança e permitem sua atuação? (Cunha
1999)

Na mesma época, novamente na região da Leopoldina, coordenando uma pesquisa


a respeito das iniciativas sociais implementadas nas favelas , e das redes de apoio e
solidariedade tecidas entre elas, pude avançar nas reflexões a respeito das ações dos
educadores em favelas. Percebia então que havia um processo em expansão nestas
localidades e afirmava:

Assim, mesmo contando com dificuldades, crescem os projetos e serviços no


campo social que, além de responder a alguns dos principais problemas das
comunidades, oferecem alternativas de trabalhos a alguns de seus moradores,
fazendo aumentar o número dos chamados trabalhadores sociais. São
principalmente agentes e educadores comunitários que possuem um vínculo
precário, sem nenhuma estabilidade e garantia trabalhista. Atuam, porém, em
vários serviços, levando para seu trabalho aquilo que nenhum curso ou
programa de capacitação é capaz de oferecer: sua experiência no trabalho
comunitário e o conhecimento das relações existentes nas comunidades (Cunha
& Valla 1999: 45)

183
Destacava ainda a tendência de incorporação de tais trabalhadores em vários
programas governamentais, apontando as armadilhas aí presentes, com as quais os
moradores já estavam acostumados a conviver:

(...) o crescimento de disputas dentro das comunidades já que não há espaço


para remunerar todos os trabalhadores sociais; e o reforço político do poder
governamental que anuncia a participação ativa da comunidade em programas,
onde quase sempre quem dá as cartas é ele, e quem trabalha a baixo custo são
os moradores. Trabalha, não apenas executando as ações, mas pensando as
soluções para os problemas e conflitos que surgem no desenvolvimento dos
programas (Cunha & Valla 1999)

Pouco tempo depois, pude perceber o mesmo movimento para além da Leopoldina:
em algumas favelas da Tijuca. Atuando como consultora, e mais tarde como coordenadora
de projetos de uma ONG, verificava a multiplicação dos projetos sociais nas favelas, de
iniciativa governamental ou não. Sustentando as ações destes projetos, havia o trabalho
voluntário ou de vínculo precário de moradores que, em sua maioria, participavam de mais
de um projeto. E que estendiam suas ações, como uma espiral. Acompanhando este
trabalho, eu podia identificar um aspecto que já havia se destacado na experiência junto ao
Sementinha Serviços Comunitários:

O desenvolvimento do trabalho na comunidade exige do educador que ele vá


além de sua área mais específica de atuação, pois em seu dia a dia defronta-se
com problemas que exigem encaminhamentos; assim, segundo os educadores,
eles vão se tornando assistentes sociais, psicólogos etc; é importante destacar
que a credibilidade, confiança e respeito que o educador tem na comunidade
está diretamente ligada à sua disponibilidade para responder, e mesmo
simplesmente escutar, os problemas dos moradores. 115

Enfim, destas experiências pude colher algumas questões para desenhar a pesquisa:
a configuração da solidariedade como forma de trabalho; a diminuição da credibilidade das
115
Relatório de Avaliação dos Grupos de discussão, Gestão Comunitária: Instituto de Investigação e Ação
Social, mimeo, 2000.

184
associações de moradores das favelas; os caminhos de participação da população nas
comunidades; o crescimento de projetos e serviços no campo social; o aumento dos
trabalhadores sociais; o reforço político do poder governamental através da incorporação
dos trabalhadores sociais em seus programas; a ação em espiral dos educadores,
respondendo a múltiplas demandas nas localidades aonde atuam. E seguir em espiral.

185
2. Os Trabalhadores sociais das favelas do Rio de Janeiro: no
desencontro, em fronteira

Hoje, sigo procurando estudar o trabalho dos chamados educadores comunitários,


aqueles que moram e atuam em suas localidades, ou mesmo em outras, trabalhando em
programas e projetos sociais governamentais ou não governamentais.
Sigo, desenhando algumas hipóteses.
Considero que este é um trabalho que vem de longe, tributário de relações, práticas
e saberes que se forjaram sob modos de vida que marcaram as favelas em outras eras. De
uma sociabilidade local, aonde encontramos os registros da experiência de viver num
urbano que desafiava os moradores das favelas, acabando por produzir um estoque comum
de informações e referências, necessários à apropriação e sobrevivência na cidade.
Tributários também da experiência comum de morar num espaço desenhado a muitas
mãos, sempre a construir, resultante de projetos aonde trabalho e luta, vida pessoal e
social, se intercruzam num mesmo esforço conjunto. Experiência de quem sabe o que diz o
poeta J. Cabral de Melo Neto, que “um galo sozinho não tece a manhã”. Registros que
evocam ainda a vivência de condições de vida semelhantes que configuram arranjos feitos
na esfera da vizinhança e mesmo local. Arranjos, inscritos em determinadas experiências
históricas e informadas por processos identitários que configuram diferentes papéis sociais.
Este é também um trabalho que foi constituindo-se nas idas e vindas das lutas que
marcaram a história das favelas na cidade. Alimenta-se portanto de toda a complexidade
subjacente a estas lutas, marcada pela disputa de interesses divergentes, por conflitos com
agentes sociais diferenciados, e por caminhos diversos de ação, que incluem as formas de
organização comunitária, a negociação e/ou confronto direto, e a chamada cooptação.
É um trabalho que foi se forjando num terreno mais amplo, habitado por uma
multiplicidade de agentes sociais, posicionados de forma diferenciada no mundo social, e
com interesses divergentes. Mas que possuem em comum o fato de realizar uma prática
social desenvolvida nas favelas, ou em interlocução com elas. Trabalho que foi se
configurando num campo de relações que envolve outros processos de trabalho e de ação
política, o chamado campo de trabalho social nas favelas.
Não deixa de ser também um trabalho que faz ecoar a experiência subjetiva
daqueles que a ele se dedicam, marcada por percursos distintos, pela força de determinados

186
papéis sociais a desempenhar, por inserções em diferentes grupos e organizações
comunitárias ou não, e por deslocamentos operados no mundo social.
É ainda um trabalho que hoje traz um novo signo, integrando um conjunto de
iniciativas que vêm se desenvolvendo dentro de uma lógica, cuja orientação traduz um
novo padrão de relação do poder público e instituições da sociedade civil com as favelas
do município, onde estes diferentes agentes aparecem como parceiros. E expressam novas
formas de ação, produzidas em meio aos desafios presentes na sociabilidade das favelas da
cidade, no início deste novo século. Um trabalho que dialoga com a ineficiência e
precariedade dos serviços públicos, com o desemprego crescente, com as vidas “suspensas
por um fio” de um número crescente de moradores, e com a violência policial e do tráfico
de drogas que marca as relações na favela 116 .
Enfim, é um trabalho que se constitui em meio às continuidades e descontinuidades
históricas que marcam nossa sociedade, e, particularmente, a experiência de vida e as lutas
sociais dos moradores das favelas. Reatualizando o antigo, e carregando o novo, ele
desafia os agentes sociais que o desenvolvem, bem como aqueles que procuram
compreendê-lo. Por estar em constituição, seus ”segredos” vêm sendo construídos e
compartilhados no caminho da “espiral”. Segredos que implicam em experiências,
produzidas num novo cenário, e que possivelmente estão gerando novos conhecimentos
por parte daqueles que trabalham, e desalojando significados já cristalizados na vida destas
pessoas.
Se é um trabalho em constituição, há muito a ser decifrado a seu respeito. Minha
proposta aqui é começar a desvendar a sua trama. Debruçar-me sobre alguns processos que
ajudam a explicar esta constituição e refletir sobre os segredos, experiências e
conhecimentos que vêm sendo aí produzidos. Para, afinal, melhor compreender a trama, e
avançar na “espiral”.

A trama: ferramentas de análise

A lembrança revê...Já seguia em espiral, atenta à atuação dos educadores em


favelas quando conversei com algumas mulheres, contratadas como “agentes
comunitárias” pela Secretaria Municipal de Habitação. Na ocasião, elas faziam uma oficina

116
“Suspensa por um fio” inspira-se na expressão usada por uma mulher desempregada em seu depoimento
em A Miséria do Mundo.

187
desenvolvida por uma ONG e promovida pela Secretaria. Uma delas me colocou sua
situação, e das outras, da seguinte maneira: “Estamos trabalhando em várias comunidades,
trabalhando com educação, conscientizando; mas quando todas estas comunidades
estiverem saneadas, estiverem transformadas, o que vai ser da gente? Vamos ficar sem
emprego”. 117
Preciso admitir que fiquei meio sem palavras. Como dividir com elas, algo que eu
sequer compreendia muito bem? Recordo que a única resposta que me ocorreu foi algo
como: “vocês podem ficar sem emprego durante algum tempo, mas o trabalho de vocês vai
ser sempre necessário; o trabalho de vocês é fundamental porque sempre vão existir
comunidades que precisam; mesmo que não precisem de saneamento, elas vão precisar de
outras coisas; e as favelas não param de surgir e se expandir”.
Falei, sem expressar exatamente o rumo da minha reflexão: o drama destas
mulheres, chamadas agentes ou educadoras comunitárias, que sobrevivem divididas entre a
dor de se confrontar com vários tipos de privação a cada dia, a satisfação de ver seu
trabalho cumprido e a realidade onde atuam “transformada” – comunidades saneadas, por
exemplo,- e o medo de “sobrarem”, perderem aquilo que lhes garante a sobrevivência
material e que tem um valor simbólico em suas vidas.
Apenas alguns meses depois, com as mudanças empreendidas pelo Prefeito César
Maia recém empossado, aconteceu o que elas temiam: a maioria delas perdeu o emprego.
Não sei exatamente o que aconteceu com as favelas aonde trabalhavam. Se foram mesmo
saneadas. Mas estou certa que sequer foram transformadas, e prescindiram do trabalho das
“agentes”. E também ignoro o destino delas. Sei que algumas conseguiram se reinserir
através de projetos desenvolvidos por ONG´s, e outras foram recontratadas depois de um
longo tempo sem trabalho.
É este drama, experimentado enquanto processo com todas suas conquistas e
perdas, bem como a multiplicidade de questões que lhe atravessam, que me interessa nesta
pesquisa. Pesquisa que procura refletir sobre o trabalho das pessoas que moram e atuam
em suas favelas, ou mesmo em outras. Muitos delas, como as mulheres acima
mencionadas, contratadas por grandes programas sociais do próprio poder público. Outras,
ligadas a organizações não governamentais. Todas possuindo um vínculo precário.

117
Relatório de campo no Morro do Adeus, Oficina História de Comunidades, Secretaria Municipal de
Habitação, Gestão Comunitária: Instituto de Investigação e Ação Social, Caixa Econômica Federal,
Concremat, 2000

188
O olho vê.... Tais pessoas são comumente chamados de agentes ou educadores
comunitários. A diferença não é uma questão semântica. Ela parece indicar formas diversas
de compreender o que eles fazem. Estou optando por não recorrer aos termos “agente”
ou “educador comunitário” exatamente porque desconfio que ambas as noções não
comportam a experiência destes moradores de favelas, bem traduzidas no drama das
mulheres com quem conversei, que eu aqui repito: “Quando todas estas comunidades
estiverem saneadas, estiverem transformadas, o que vai ser da gente? Vamos ficar sem
emprego?”. Ao contrário, os termos aí colocados - o agente, o comunitário, o educador -
evocam experiências e sentidos associados a uma época que já se passou, embora tenha
deixado suas marcas na prática destas pessoas que hoje atuam em suas favelas ou em
outras. Com isso quero dizer que a marca da “militância” e da atuação no movimento
popular ainda orienta a experiência destes moradores que trabalham em projetos sociais
nas favelas, mas não é suficiente para dar conta da ação que eles vêm desenvolvendo, e das
relações nas quais se encontram inseridos. Ao meu ver, ao nos agarrarmos à velhas
referências para analisar o trabalho destes agentes sociais nos arriscamos a perder os novos
significados que este novo processo traz. Isso sem falar no fato de que acabamos por
transformar referências em modelos de ação, e analisamos, e mesmo avaliamos, a prática
destas agentes a partir de tais modelos.
Dar nome ao novo, especialmente o que está em mudança, é um desafio. Mas optei
por usar a noção de “trabalhador social” para nomear estes moradores das favelas que
atuam em projetos sociais. Faço assim exatamente para demarcar seu lugar como pessoas
que sobrevivem através de atividades desenvolvidas no terreno da intervenção social.
Pessoas que, através de suas ações, são criadoras da riqueza social, contribuindo para
sanear as favelas, por exemplo 118 .Pessoas, cuja força de trabalho vêm sendo
mercantilizada, ainda que num jogo com regras particulares. E que são submetidas a
processos de exploração, bem como de apropriação de saberes, mesmo que estes processos
se entercruzem com a dinâmica das lutas na esfera política, e particularmente com os
movimentos sociais.
Há ainda algumas outras razões. Recorro ao termo “trabalhador social” a fim de
indicar o circuito mais amplo no qual estes trabalhadores atuam, que ultrapassa as
fronteiras do local, do chamado “comunitário”. E, particularmente, buscando apontar a

118 Estou compreendendo aqui este processo de trabalho como criador de riqueza na medida em que
contribui para a reprodução do trabalhador, inserindo-se desta forma, indiretamente, na acumulação do
capital.

189
diferença entre o processo de trabalho, tema desta pesquisa, e aquele que marcou as lutas
das favelas e as intervenções sociais aí realizadas ao longo de vários anos.
O olho vê....Deixa os contornos da favela para buscar respostas que ajudem a
decifrar o que lá acontece. No caso, para ir ao encontro de pistas que expliquem o processo
de trabalho dos moradores de favelas.
Penso que as mudanças em curso nas favelas, e particularmente o aumento do
número do que chamo de trabalhadores sociais, devem ser compreendidas a partir das
contradições do mundo social, considerando a forma através das quais elas vêm se
manifestando na entrada do milênio, expressando o “desencontro entre o econômico e o
social nas sociedades capitalistas, este atrasado em relação àquele” (Martins 1997). É
neste desencontro, que se acirra quanto mais o econômico avança em relação ao social, que
vai se configurando o movimento que reserva às forças sociais em conflito, a diferentes
instituições e, mais concretamente, a cada agente, um determinado espaço. Tal espaço se
traduz numa prática e num posicionamento diante dos tão polemizados “problemas
sociais”.
Mais particularmente, o trabalho destes agentes sociais pode ser explicado a partir
de processos mais amplos de mudança que atingem o mundo social, redefinindo as formas
de sociabilidade capitalista, o papel do Estado, e de sua relações com a sociedade civil.
Concretamente, ele aparece como uma das expressões das chamadas políticas de
terceirização desenvolvidas pelo poder público, tendo em vista o enxugamento de seus
custos com o social. Desenvolve-se então, no âmbito de uma dinâmica de inclusão de
“excluídos” no movimento de valorização, por meio de formas indiretas de subordinação
do trabalho ao capital. É mais uma, dentre tantas outras, forma precária de inclusão
econômica.
Considerando as alterações operadas no Estado e em sua relação com a sociedade, a
incorporação de moradores em programas sociais configura-se como uma saída econômica
e política para o poder público, que economiza nos encargos sociais e ainda vai atribuindo
a estes agentes a tarefa de dialogar com os grupos por ele atendidos, despolitizando sua
relação com as favelas, ao inaugurar canais técnicos, cuja legitimidade é dada pela
presença de um profissional destas localidades.
Mas o olho procura ver mais.... Dialoga com a vida nas favelas, de forma a
compreendê-la e a melhor desvendar o movimento de seus agentes. Ou seja, dialoga com

190
este mundo de trabalho em movimento nas favelas, de forma a compreender as
experiências e conhecimentos aí produzidos.
O trabalho destes moradores tem se configurado como alternativa para aqueles que,
historicamente alijados de seus direitos sociais, vêm agora sofrendo mais cruamente o
impacto das mudanças econômicas e sociais em curso, cujas expressões mais violentas
aparecem sob a forma do desemprego e falta de segurança. É através desta alternativa, que
muitos vêm procurando reverter seu esforço em benefício de sua própria favela, ou mesmo
de outras, e sustentar sua inserção econômica e social.
É um trabalho que vai se ampliando porque, ao contrário do que indica a suposição
no questionamento da “agente” da Secretaria de Habitação, as favelas não estão saneadas,
e muito menos transformadas. Neste pedaço do mundo social, o desemprego cresce, a
miséria avança, a precariedade se amplia, a ação do tráfico de drogas delimita o
deslocamento dos moradores e suas ações, e o poder público se limita a procurar manter
sob controle os problemas e conflitos daí advindos, recorrendo a políticas sociais de caráter
pontual, em parceria com ONG´s e instituições locais. Neste pedaço do mundo social,
multiplicam-se as necessidades sociais dos moradores que, não atendidas pelos serviços
públicos, geram demandas junto àquelas pessoas que se tornam pontos de referência, e que,
com seu trabalho social, acumulam credibilidade nas localidades aonde atuam. Com isso,
o trabalho cresce em espiral.
Compreendo que ele cresce dentro de um terreno maior, onde sua ação mediadora
tem se destacado. Terreno que vem se configurando como um lugar do mundo social aonde
estão alojados diferentes agentes sociais, que ocupam posições desiguais neste mundo.
Todos voltados para a intervenção social nas favelas. Em crescente expansão, este terreno
vem se constituindo como espaço fundamental de mediação do político. Nele, defrontam-
se interesses diversos e, muitas vezes, divergentes e em disputa. É um terreno que chamo
de fronteira.
A lembrança revê... Comecei a me dar conta deste terreno, ao longo do percurso
procurando explicar e compreender o que se passa no universo das favelas cariocas. De
início, fui percebendo-o de forma pontual, aqui e acolá, no âmbito dos vínculos de algumas
localidades com algumas estruturas supralocais 119 . Deixar de me debruçar sobre uma ou

119
Recorro aos conceitos de localidade e instituições ou estruturas supralocais usados por Alvito (2001), que,
por sua vez, se inspira em Anthony Leeds (1978). O conceito de localidade comporta redes complexas de
diversos tipos de relações. Já as estruturas supralocais não têm sua formação governada ou relacionada a uma
dada localidade. Neste caso, estão incluídos os partidos políticos, o sistema bancário, o mercado de preços,

191
outra localidade, e passar a acompanhar várias localidades e a organização de diversas
estruturas supralocais, me fez interrogar a configuração particular deste terreno, espalhado
num ponto de encontro entre as favelas da cidade e diferentes estruturas supralocais. Passei
então a me perguntar se não seria ele um lugar de fronteira, um ponto de cruzamento do
global com o local? Da esfera pública e com o não público? Reinterpretando a expressão
cunhada por Bourdieu, não seria um lugar onde “as estruturas sociais estão em ação”
(1997)? Não seria o lugar onde estaria mais visível o movimento e a agregação daquilo que
a análise social procura separar e fixar: o econômico, o social, o político, o cultural?
Observo que não é uma fronteira comum, que anuncia fins e limites, separação de
terrenos distintos. É um terreno de encontro, que configura uma paisagem específica. É
onde a “sobra”, aqueles que vivem no que o morador chamou de “inferno”, está em
conexão com um outro lado que agrega espaços diversos, como as várias instâncias do
poder público, as ONG´s, as igrejas, as universidades etc. Observo que, para alguns que
vivem nas favelas, pode ser lugar de saída. Para outros, que se encontram em estruturas
supralocais, de entrada. Para outros tantos, situados em diferentes posições deste terreno,
lugar de conquista. Para muitos que aí se localizam, de interlocução e pressão, e de tensão.
Para todos, de mediação. Diversas formas de mediação: entre os moradores das favelas que
circulam nesta fronteira, atuando como educadores e lideranças comunitárias, e os
“sobrantes”, que vivem no chamado “inferno”; entre o poder público e o local; entre as
várias instâncias da sociedade civil, estruturas supralocais não governamentais e a esfera
local. É, pois, um lugar de mediações e tensões onde, em movimento, encontram-se
moradores e lideranças das favelas, técnicos do poder público e de ONG´s, líderes
religiosos e políticos, e mesmo o narcotráfico.
Recordo o significado do termo fronteira viva, no velho Aurélio: “tipo de fronteira
resultante de lenta evolução histórica e fixada através de choques ou de lutas armadas;
fronteira de acumulação, fronteira de tensão”. Sim, levanto aqui a idéia de que se trata de
uma fronteira viva. Viva porque histórica, dinâmica e resultante de lutas, experiências e
conflitos que articulam e opõem múltiplas ações e projetos sociais. Uma fronteira que foi
se constituindo ao longo do tempo, através de processos instituídos e instituintes, marcados

sindicatos, associações profissionais e, sobretudo, o Estado, que opera através de várias instituições. Alvito
chama atenção, em seu estudo sobre Acari, que incluem-se aí ainda, as ONG´s, os mass media, a Igreja
Católica e o tráfico internacional de drogas.

192
pela dinâmica de experiências e movimentos desenvolvidos nas favelas, em variadas
épocas.
Penso, pois, que a fronteira possui uma configuração histórica e uma estrutura e
dinâmica particulares. E, embora não apresente um grau de estruturação e autonomia,
aproxima-se de alguns aspectos evocados pelo conceito de campo de Bourdieu. Pode ser
compreendida como espaço atravessado por relações objetivas entre as posições ocupadas
pelos agentes na distribuição de recursos, que são ou podem se tornar operantes na
“concorrência pela apropriação dos bens raros que têm lugar neste universo social”. Neste
espaço, a localização dos agentes segue então princípios diferenciadores, que nos remetem
a “poderes sociais fundamentais” : “o capital econômico, em suas diferentes formas, e o
capital cultural, além do capital simbólico, forma com que se revestem as diferentes
espécies de capital quando percebidas e reconhecidas como legítimas”. (1990: 154).
A fronteira é então aqui concebida como um espaço que forjou-se historicamente,
sendo constituída por relações objetivas entre diferentes atores: técnicos e funcionários das
instituições públicas, lideranças e os agentes comunitários, contratados ou não por
programas governamentais, os próprios moradores das favelas, os profissionais que atuam
em ONG´s e, cada vez mais, pesquisadores. A despeito de muitas vezes circularem em
torno de projetos comuns, tais agentes ocupam posições diferenciadas, na sociedade e,
mais particularmente, na fronteira. Assim, ela está longe de ser um espaço homogêneo e
com relações horizontais. Recuperando a interpretação que Renato Ortiz faz da noção
trabalhada por Bourdieu, lembramos: “ se particulariza pois, como um espaço onde se
manifestam relações de poder, o que implica afirmar que ele se estrutura a partir da
distribuição desigual de um quantum social que determina a posição que um agente
específico ocupa em seu seio”. (Ortiz 1994)
Refletir sobre o trabalho dos trabalhadores sociais, concebendo-o dentro de um
terreno de fronteira, significa buscar um caminho que não reduza tal trabalho a apenas uma
expressão de processos de exclusão ou inclusão precária, ou uma forma de “cooptação”
pelo poder público, e ainda a mais uma forma de “militância comunitária”. Posso dizer
mesmo que faz parte do esforço de exercitar um duplo olhar, ao qual tenho recorrido em
minha travessia em espiral. Um olhar que se volta para processos mais amplos de mudança
do mundo social a fim de explicar o que acontece nas favelas. Mas que, ao mesmo tempo,
busca compreender este “acontecer histórico”, considerando a experiência dos agentes

193
sociais envolvidos no processo, de forma a melhor decifrar o movimento destes agentes.
Um olhar que apreende o mundo social como um espaço histórico e relacional.

Transvendo...

Vejo....Mergulhado no terreno de fronteira, o trabalho social desenvolvido por


alguns moradores das favelas da cidade, contratados por projetos do poder público ou de
ONG´s, deve ser compreendido como um campo de contradições, onde estão colocados
dois movimentos que se atravessam: aquele que empurra as pessoas para “dentro”, para a
condição subalterna de reprodutores mecânicos do sistema econômico, reprodutores que
não reivindiquem, nem protestem em face das privações, injustiças, carências; e aquele que
gera a interpretação crítica e a ação dos chamados “excluídos”, isto é, sua participação
transformativa no próprio interior da sociedade que exclui. (Martins, 1997)
O movimento “que empurra as pessoas para dentro”, vai delimitando um espaço de
ação no qual os que vivem no “inferno” se movem e atuam. A partir dele, configuram-se
formas de inclusão precária e instável, dentre as quais o trabalho desenvolvido por vários
destes moradores em suas favelas, ou mesmo em outras. É um movimento que vai
delimitando o campo de ação no qual os agentes sociais - e em particular os trabalhadores
sociais- se movem e atuam, buscando formas de enfrentamento de sua sobrevivência, das
necessidades e dramas daqueles a quem precisam responder, e dos desafios colocados às
localidades onde vivem. Neste campo, a noção de condições de vida indica uma realidade
de empobrecimento econômico e social, que vem implicando a precarização das várias
dimensões de vida dos moradores de favela.
O outro movimento que “gera a interpretação crítica e a ação dos chamados
excluídos”, nos sugere determinadas possibilidades de ação neste campo. Menos visível,
ele é um desafio ao pesquisador. Indica pistas a respeito de como os agentes sociais se
movem, e em que medida o fazem de forma diferenciada, a despeito da identidade de suas
condições de vida. Aqui, se coloca a necessidade de operar com um conceito que implique
em um eixo de análise que nos faça compreender as alternativas de sobrevivência destes
agentes e a leitura que eles têm de sua realidade. Levantamos então a idéia de que, apesar
de inseridos em determinadas condições de vida que conformam seu campo de ação, os
moradores das comunidades pobres não respondem reativamente a elas, mas atravessados

194
por sua experiência, que implica uma determinada forma de apropriação da realidade e as
possibilidades de ação sobre ela. 120
Ainda que busque abordar os dois movimentos, a ênfase desta pesquisa recai sobre
o segundo. Seguindo em espiral, o que busco é refletir sobre o processo de trabalho
realizado por moradores das favelas do município do Rio de Janeiro, localizando-o no
terreno de fronteira. Procurando compreender as experiências e os conhecimentos
produzidos por estes trabalhadores sociais, suas relações com outros agentes sociais da
fronteira. Decifrar o significado que eles estão conferindo a seu trabalho. E investigar
como e até que ponto sua experiência ultrapassa a esfera local e pode ser geradora de novas
formas de ação política.
Usando de imaginação.... Situado na fronteira, num ponto de encontro entre o local
e o global, este processo de trabalho encarna de forma significativa algumas das
contradições de nosso mundo social, e pode constitui-se numa chave para decifrar algumas
das principais tensões que o atingem. De certa forma, ele encontra-se em pontos onde as
“estruturas sociais estão em ação”. A este respeito, Bourdieu, referindo-se aos ocupantes
de posições instáveis, como é o caso dos trabalhadores da área social, destaca :

(...) são extraordinários “dispositivos analisadores práticos”: situados em


pontos onde as estruturas sociais “estão em ação” e, por este fato, movidos
pelas contradições destas estruturas, eles são obrigados, para viver ou
sobreviver, a praticar uma forma de auto-análise que, muitas vezes, dá acesso
às contradições objetivas de que são vítimas e às estruturas objetivas que se
exprimem através delas (Bourdieu 1997).

Por isso, o interesse em estudar o trabalho em questão. Recuperando a reflexão do


sociólogo, interrogo: até que ponto os trabalhadores, moradores de favelas, situados em
pontos onde as estruturas sociais estão em ação, possuem um horizonte particular de
vivenciamento das contradições sociais e de sua interpretação crítica?
Esta pesquisa é então mais uma aposta. A aposta no mergulho em um mundo em
movimento que pode nos ajudar a refletir sobre as formas precárias e instáveis de inclusão

120
Recuperamos aqui o já mencionado conceito de experiência do historiador E.P. Thompson, que em sua
obra indica um conjunto de mediações que fundamentais à prática histórica e social, uma vez que atravessam
as ações dos homens referenciando o seu agir sobre uma situação determinada. (1981, 1987)

195
social, a sobrevivência da população pobre da cidade, o significado das políticas sociais
voltadas para esta população e, especialmente, repensar por onde correm os caminhos de
potencialidade crítica nas favelas.

196
3. Movendo-se no campo, traçados da pesquisa

A gente parte ao encontro dos desafios. Esforça-se para pegar os melhores mapas.
Faz os roteiros mais precisos. E começa a navegar, para dar conta do desconhecido. Mas,
tudo vai tomando novas dimensões e contornos. E aí, a gente se lembra de uma velha
observação de Thompson, que levamos na bagagem:

Nas margens do mapa, encontraremos sempre as fronteiras do desconhecido. O


que resta fazer é interrogar os silêncios reais, através do diálogo do
conhecimento. E, à medida que esses silêncios são penetrados, não cosemos
apenas um conceito novo ao pano velho, mas vemos ser necessário reordenar
todo o conjunto de conceitos (E.P.Thompson 1981: 185)

E aí a gente reordena.

Dando direção à pesquisa

Quando dei início a esta pesquisa, a idéia inicial era estudar o trabalhador social,
atingindo um universo mais amplo destes agentes sociais, de forma a caracterizá-lo, e
também seu processo de trabalho. Parecia-me então que antes de empreender qualquer
aventura num campo quase inexplorado, era preciso mapéa-lo, fazendo uma aproximação
que priorizasse a produção de dados a respeito destes trabalhadores e a busca de uma
lógica explicativa para seu processo de trabalho.
Porém, não demorou muito para que eu optasse por uma abordagem que
restringisse o universo de trabalhadores atingidos, mas pudesse conferir mais profundidade
na abordagem. Isso porque concluía que meu objetivo maior não era dar conta de um
amplo e diversificado leque de trabalhadores sociais. Era enfrentar com uma reflexão
teórica os desafios que encontrava no âmbito das experiências que vinha acompanhando
em algumas favelas, dar respostas particularmente às questões que apareciam no trabalho
de formação que vinha desenvolvendo junto a trabalhadores sociais. Sabia então que os
agentes sociais com os quais tivera, e tinha, contato, configuravam apenas uma fatia deste

197
universo de trabalhadores. Mas um pedaço que, como eles gostam de afirmar, constituem
“referência” no terreno do trabalho social.
Estes trabalhadores têm uma base de atuação nas favelas onde trabalham, mas
circulam por vários espaços do mundo social, o que lhes dá um perfil particular. Interessa-
me enfatizar a experiência destes agentes, não porque os conceba como padrão de
trabalhador social, mas porque eles, como já afirmei anteriormente, estão situados em
pontos onde as estruturas sociais “estão em ação” (Bourdieu 1997). Através da sua
experiência de trabalho é possível então ter acesso a algumas das principais contradições
que se inscrevem no campo do trabalho social, e em nossa sociedade de forma geral. Para
além disso, a opção por enfocá-los relaciona-se à perspectiva de abrir um caminho que
concorra para dar visibilidade ao que eles vêm fazendo.
Daqui, surge então um primeiro recorte desta pesquisa. Ela aborda
fundamentalmente a experiência de trabalhadores sociais que tem uma posição específica
no terreno do trabalho social, mantendo canais diferenciados de interlocução com
diferentes agentes sociais: desde aqueles “nascidos e criados” na favela como associações
de moradores e grupos locais; passando pelos que desenvolvem intervenções nas favelas,
mas a organização está situada fora das localidades, como igrejas, algumas ONG´s e
programas de intervenção públicos; até agências governamentais ou não governamentais
que estão em diálogo com estes agentes mas que não desenvolvem atividades nas favelas.
Depois deste primeiro recorte, o segundo momento de definição nesta pesquisa foi
a construção da noção de fronteira. Quando dei início a pesquisa, já concebia a perspectiva
de que havia um “terreno do trabalho social”, que apresentava uma conformação particular.
Também acolhia a idéia de me aproximar do conceito de campo de Bourdieu, para
compreendê-lo, avaliando que ele respondia o que vislumbrava neste terreno, ou seja,
diferentes agentes sociais em disputa, e tecendo alianças. Porém, ainda estava incerta
quanto à possibilidade de abordar o trabalhador social, considerando sua inserção dentro
do que então chamava “terreno”. A definição deste caminho só me veio quando passei por
uma situação que reforçou minha perspectiva: conversando com alguns trabalhadores
sociais, percebi os impasses que experimentavam, procurando entender os encontros e
desencontros entre diferentes agentes sociais no âmbito de um movimento do qual eles
faziam parte; o principal desafio era compreender as razões de determinadas alianças, e de
outras tantas disputas, opondo agentes que deveriam estar do mesmo lado da “linha”;
recorri então ao conceito de Bourdieu, usando a metáfora do terreno e de vários tipos de

198
vegetação nele presentes, algumas crescendo e fazem sombras em outras; de alguma
forma, a metáfora funcionou, pois a conversa ampliou-se, com um leque variado de
“pontes” entre o que eu tinha falado e aquilo que buscávamos entender.
A experiência foi tão interessante para ambas partes que, depois daquilo, eu passei
a fazer uso da idéia para conversar com vários outros trabalhadores sociais e técnicos com
os quais estava em diálogo, e os trabalhadores, por um bom tempo, referiam-se à Bourdieu.
Era uma “virada” da espiral. Pensando o terreno como fronteira, passei a querer
me aprofundar mais no tema. Mas aí reside o problema: quando a gente caminha em
espiral, o desafio maior são as viradas. São momentos em que, dependendo do passo que se
dá, você segue em espiral ou acaba é caminhando em círculos, correndo o risco de parar.
De certa forma, foi o que ocorreu num momento do percurso desta pesquisa, quando me
estacionei “apaixonadamente” na virada. Cheguei a me deixar seduzir pela perspectiva de
mergulhar no complexo terreno de fronteira. Ir lá atrás, dialogar com a história, recuperar
as muitas tramas que teceram este terreno. Pensando em, depois, aterrisar no presente e
dialogar com a sociologia de Bourdieu e avançar em sua abordagem teórica metodológica,
indo ao encontro de seus “espaços de ponto de vista” (1997). Para então decifrar a
fronteira através dos “espaços de ponto de vista”.
No entanto, de alguma forma a lembrança das palavras de Joana, citadas no início
do texto, me alertaram: “se pararmos, nós morreremos”. Os diálogos com o Profo
Gaudêncio Frigotto, orientador, e Monica Peregrino, amiga de doutoramento, e de projetos
de trabalho, também foram fundamentais. Avaliei que mergulhando na fronteira eu corria
o risco de morrer, me afastando do meu interesse maior: analisar o processo de trabalho
dos trabalhadores sociais, com todos as perdas e conquistas que este processo vem
implicando; refletir sobre suas relações com outros agentes sociais e particularmente seu
papel dentro da correlação de forças na fronteira; buscar o sentido de suas ações,
procurando decifrar para onde a espiral está indo.
Neste momento me dei conta, especialmente, que a fronteira se coloca como uma
questão fundamental, mas como o espaço onde estes agentes estão localizados. De certa
forma, como ocorreu com o conceito de campo de Bourdieu, a fronteira aqui se colocou
como uma forma de dar direção à pesquisa, indicando o recorte metodológico que usei
para enfrentar o tema trabalhado, um recorte que permite pensar o processo de trabalho dos
agentes sociais em questão dentro de um espaço de mediação, que não o reduza aos
processos de inclusão precária, nem às tramas locais da favela. Como já afirmei antes, um

199
recorte que torne possível conceber a particularidade do que vêm fazendo estes agentes,
indo na contramão de uma perspectiva que os amarre aos processos de exclusão ou
inclusão precária, ou a uma espécie de “cooptação” pelo poder público, ou então, numa
dimensão heróica, a mais uma forma de “militância comunitária”.
Tendo delimitado meu interesse na fronteira, defrontei-me então com minha última
e, talvez, mais difícil virada. Uma virada que colocou em questão duas velhas perguntas de
um pesquisador: para quê e como pesquisar quando se trabalha com o humano?
Ela relacionou-se fundamentalmente com a perspectiva de trabalhar com os
“espaços de ponto de vista”, indicado por Bourdieu. Ou seja, desvendar a experiência de
trabalho dos trabalhadores sociais, seus “segredos” e os sentidos que estão atribuindo a
suas ações e relações, considerando aqui os distintos pontos de vistas dos trabalhadores
sociais. A imagem de uma colcha de retalhos, sugerida por Valda, uma das trabalhadoras
que acompanhei, me pareceu então sugestiva.

Uma colcha de retalhos


bonitos e bem escolhidos,
assim se faz a lembrança dos sonhos
que se sonhou.
A vida traça os caminhos
por onde andam os mortais,
cada um no seu destino,
que nem sempre é igual

Ao falar da poesia Colcha de Retalhos, que ela apresentara por ocasião de um


evento que participara em Belo Horizonte, Valda destacara o fato de que a colcha era
preferível à rede, porque é feita de retalhos que não são iguais. “A colcha de retalhos é a
união de pedaços diferentes”, disse ela. A idéia da colcha de retalhos, não me era estranha.
Há alguns anos, inspirada pelo nome e a idéia de um filme que havia assistido, havia
recorrido ao termo, junto com Ruth Barros, uma educadora que acompanho o trabalho, a
fim de elaborar um projeto voltado para mulheres de favelas e suas memórias.
Pensei então na perspectiva de construir uma abordagem que conhecesse e
interpretasse o processo de trabalho em questão considerando os traçados de trabalho dos
trabalhadores sociais, em suas diferenças de “retalhos”, mas também levantando “o fio que
une os retalhos”.

200
O impasse foi se constituindo, conforme ia percebendo as implicações da tarefa em
termos das relações que mantinha com vários trabalhadores sociais, e das relações entre
eles. Isso porque os distintos pontos de vista são também pontos de conflito, implicam em
distintos lugares assumidos na fronteira, em momentos que assumem particular
significado para estes trabalhadores. Ainda que a reflexão sobre estas distinções fosse
importante na pesquisa, acabei por não enfatizá-las, abrindo mão então da abordagem a
partir dos diferentes espaços de “ponto de vista”. De certa forma, mais do que uma virada
teórico-metodológica, foi uma virada profissional, no caso de educadora que investe na
pesquisa como forma de melhor enfrentar os desafios da educação. Neste momento, o
desafio maior é, sem dúvida, apostar na visibilidade destes agentes sociais, cujo trabalho
assume ares, ora de militância política, ora de vocação ou missionarismo. Se este é um
trabalho quase desconhecido enquanto trabalho, trata-se, sobretudo, de começar a
desvendá-lo.

As formas de abordagem e a elaboração

Considerando os recortes acima levantados, no processo de pesquisa defrontei-me


fundamentalmente com dois caminhos.
Um deles, consistiu na revisão bibliográfica que me possibilitou um
aprofundamento em minhas ferramentas de análise: o desencontro e a fronteira. Como a
história é minha “cachaça”, acabei optando por um eixo de reflexão que permitiu uma
aproximação histórica com estas ferramentas.
Em relação ao desencontro, procurei levantar os elementos fundamentais que
permitiram a tessitura histórica do desencontro em nossa sociedade, e identificar a
particularidade que ele assume em nossos tempos atuais, ou seja, a intenção era ir ao
encontro do que permanece e do que vem mudando no âmbito deste movimento que faz o
econômico avançar em relação ao social.
Quanto à fronteira, a perspectiva era também recorrer a um eixo histórico. Mas
aqui o fiz movida ainda por outras razões. A necessidade de buscar os registros históricos
que se instauraram neste terreno desde sua emergência e nos primeiros momentos de sua
constituição, e permaneceram na fronteira sob a forma de representações que alimentam as
ações dos agentes sociais que hoje nela se encontram. Aqui enfrentei algumas dificuldades.
Isso porque recuperar relativos à história da fronteira me levou ao encontro da história das

201
intervenções governamentais nas favelas. Para não me deixar aprisionar por uma
perspectiva que concebe historicamente a fronteira, a partir apenas da ação do Estado, foi
necessário recorrer a outras fontes. E aqui precisei unir pedaços, análises e informações
levantadas na bibliografia sobre a intervenção social nas favelas e dados resultantes de
trabalhos relativos à memórias das favelas, que vêm sendo desenvolvidos nos últimos anos.
Aproximação histórica com a fronteira, história das intervenções governamentais, e
memória das favelas são questões que apresentam diferenças substanciais, mas que correm
o risco de serem misturadas. Procurei enfrentar o risco, tecendo a aproximação histórica a
partir da reunião de fragmentos, tendo sempre como eixo a busca de registros que ainda
alimentam hoje este pedaço do mundo social.
O outro caminho refere-se ao trabalho empreendido em campo, de forma a
enfrentar o tema central da pesquisa, o processo de trabalho dos trabalhadores sociais.
Como não é preciso inventar a roda, procurei, num primeiro momento,
potencializar todas as experiências que já havia realizado, e que diziam respeito ao tema.
Revi textos, levantamentos e dados de pesquisas e trabalhos realizados juntos a
trabalhadores sociais em favela, reencontrando inclusive o material que havia coletado
junto ao Sementinha Serviços Comunitários, grupo ao qual já me referi anteriormente.
Todo este material foi reaproveitado no sentido de mapear algumas questões
iniciais de pesquisa e, posteriormente, no momento de análise, recorri a alguns deles a fim
de redimensionar algumas reflexões.
Mas como já afirmei, optei por desenvolver a pesquisa fundamentalmente junto aos
trabalhadores sociais que já vinha acompanhando, recorrendo a grupos focais, entrevistas
longas individuais e, sobretudo procurando observá-los em ação.
Os grupos focais foram realizados junto a trabalhadores sociais de um grupo que
venho acompanhando há vários anos. Sobre alguns destes agentes, falo em um dos
capítulos da terceira parte. Os roteiros foram preparados considerando a necessidade de
apreender os participantes em relação, mas em alguns momentos acabei por abrir mão do
que havia “roteirizado” pois a dinâmica do grupo em relação, trazendo temas inesperados,
se revelou mais interessante, e potente, do que meus roteiros. Isso me pareceu um sinal de
que havia ainda muito a conhecer sobre os trabalhadores sociais e que precisava seguir os
indícios por eles trazidos.
As dificuldades de realização das entrevistas foram maiores do que eu previa:
compatibilização de horários já que a agenda dos trabalhadores sociais que acompanhava é

202
sempre muito cheia; imprevistos que nos levavam a desmarcar as entrevistas; e dificuldade
de criar um ambiente favorável a entrevista longa pois, na maior parte das vezes, precisava
acessá-los em suas “bases” de trabalho, o que concorria para interrupções freqüentes.
Agrega-se a isso, problemas técnicos, próprios da era da informática e de uma
pesquisadora pouco previdente, que me fizeram perder duas entrevistas para o “buraco
negro” do Windows e outra para o chiado do gravador.
Em função de minha inserção em projetos dos quais eles participam, ao longo dos
quatro anos, pude acompanhar ainda a experiência de vida e trabalho de alguns destes
trabalhadores sociais. A proximidade entre pesquisador e pesquisado revelou-se um
desafio, muitas vezes experimentado como impasse para mim, como já afirmei pouco
acima ao referir-me a minha desistência de trabalhar com “espaços de ponto de vista”. Por
outro lado, tive a oportunidade de vê-los o tempo todo em relação com os moradores das
favelas onde trabalham, com outros trabalhadores sociais, com agentes de grupos e
instituições locais, e de instituições supralocais. Penso que este foi um caminho
enriquecedor que concorreu para eu ir construindo uma visão mais ampla do que eles vêm
fazendo, pois não precisei me orientar apenas pelos depoimentos que eles me davam.
Neste caminho de segui-los, pude vê-los construindo iniciativas, projetos nas
localidades onde vivem, ou buscando atingir várias favelas. Revelava-se então sob meu
olhar várias dimensões do trabalho destes agentes: os via procurando redigir projetos, fazer
relatórios, discutir impasses dentro dos grupos que levavam a frente às iniciativas, atuar
como gestores, enfim, um número variado de papéis.
Outras passagens ricas do percurso relacionam-se ao acompanhamento de
experiências de formação destes agentes. Destaco duas destas passagens. A primeira, o
curso oferecido a trabalhadores sociais que desenvolvem um projeto de memória das
favelas, mas do qual participaram outros trabalhadores que tinham interesse pelo tema. No
curso, pude não apenas presenciar discussões destes agentes a respeito de temas
fundamentais à pesquisa, tais como sua relação com os moradores das localidades onde
vivem e a ação do poder público nas favelas, mas também perceber como eles se
apropriam de conceitos e noções construídos pelo pensamento acadêmico, trazendo-os para
sua realidade. Reforcei, ainda, algo que já havia percebido: a fome de novos saberes por
parte destes trabalhadores.
O outro momento desenvolveu-se ao longo de um grupo de estudos que realizei
junto a alguns trabalhadores sociais, respondendo a demanda de alguns deles. O grupo foi

203
realizado ao longo de quatro meses, e a proposta inicial era contemplar num primeiro
momento três temas: as favelas no espaço da cidade; ações sociais e políticas públicas nas
favelas: conflito social e intervenção nas áreas populares; movimento e organização
comunitária: resistência, experiências coletivas nas favelas e ação política. A experiência
defrontou-se com um impasse vivido pelos trabalhadores sociais, que Rosa, uma das
participantes, bem resume aqui, ao refletir em um dos encontros, quando discutíamos a
possibilidade de interromper o grupo de estudos:

Qualquer segmento, qualquer coisa que a gente pára o grupo, para estar
discutindo, se atualizando, se capacitando é com dificuldade mesmo. Eu ainda
não vi nada que foi facilidade. É assim mesmo.

E uma coisa que eu vejo, mesmo com dificuldade, nem todos podem vir, tem
dias que não pode vir, a gente não pode parar; eu já vi vários segmentos, coisas
boas acontecendo, principalmente aqui na região, e quando parou quem saiu
perdeu fomos nós próprios.

Qualquer lugar que reúna um grupo para discutir um assunto que vai ser
melhor pra gente, tem que toda dificuldade continuar. Vai ter dia aqui vai ter
dois. Vai ter dias que está três. Vai ter dias que vai estar todo mundo. Eu acho
que aqui tem poucas pessoas. Podia ter mais pessoas.

A agenda sempre cheia dos trabalhadores, que levava a uma freqüência irregular
por parte de cada um, e minha necessidade de potencializar mais meu tempo a fim de
avançar na pesquisa, acabou conduzir à decisão de suspender o grupo.
Por fim, pude viver uma das experiências mais marcantes dos traçados da pesquisa,
num momento em que encontrava-me particularmente desanimada com ela, e com minha
vida profissional, de forma geral. No ano de 2003, em função de um projeto ao qual todos
nós estávamos integrados, acompanhei alguns destes trabalhadores, ao Fórum Social
Brasileiro, realizado em Belo Horizonte. De certa forma, a experiência não contribuiu tanto
para coleta de dados. Concorreu sobretudo, para uma renovação de forças que, se perdidas,
não me trariam até aqui. Vê-los em movimento num espaço de múltiplas faces e registros,

204
apresentando seus trabalhos, interlocutando com agentes sociais diferenciados, circulando
entre tendas, palestras, táxis, igrejas, mesas de restaurante e corredores de hotel, me fez
atentar para o fato de que eles definitivamente haviam ultrapassado fronteiras, e que se
localizam num espaço bem particular da fronteira. E que o desencontro assumia um
sentido diferente em suas vidas. Eles não eram presas do desencontro, eles o enfrentavam,
com as armas que dispunham e com outras, que buscavam encontrar.
É preciso escolher as armas para enfrentar o desencontro. Muitas vezes, não saber
escolhê-las é abrir caminho para fazer crescer a prisão. Este, aliás, foi um dos motivos por
ter me esforçado para ser cuidadosa no momento da redação do trabalho. A meu impasse
principal era como trabalhar dados que ouvi de cada um, de todos em conversas, e das
informações que eram fornecidas, às vezes, num bate papo que eles sabiam que não iria
transpor muros? Como não expor os trabalhadores sociais, e outros agentes sociais? Dar
visibilidade ao processo que eles experimentam, e autoria a suas falas, me parecia uma
questão fundamental. E sei também que para eles tanto a visibilidade quanto a autoria é
uma dimensão importante do que fazem. Além disso, todos desenvolvem atividades em
espaços coletivos, lutam pela abertura do espaço de debate público, pela visibilidade de
informações. Porém, há a espinhosa questão da inserção precária nos projetos. E o
fantasma da demissão pairando sob a cabeça de alguns deles, sem que precisem fazer
qualquer esforço para serem dispensados.
Com isso, optei, em várias passagens, por não identificar muitos depoimentos que
foram dados pelos trabalhadores sociais do grupo com o qual trabalhei, e por outros,
também de outras regiões do município com os quais tinha contato ou que passei a
conhecer ao longo da pesquisa. Enquanto ia redigindo, pensava que todo este anonimato
dava um tom meio “impressionista” àquilo que foi cuidadosamente trabalhado. E pensava,
alertada por minha amiga Mônica Peregrino, o quanto era revoltante que suas reflexões não
pudessem ter autoria. A invisibilidade que muitos deles têm dentro dos programas nos
quais atuam - bem traduzida no fato de que os sites dos programas não possuem um link
que se refira as suas ações e sequer dizem quantos agentes cada programa possui -, se
reflete aqui, a despeito do esforço de torná-los visíveis.
Por fim, gostaria de destacar que o trabalho, particularmente a última parte, tem um
tom de ensaio. Por algumas razões. Primeiro, considerando o fato de que busquei um tema
pouco explorado, com o objetivo de indicar algumas questões e abrir um caminho para que
eu, e outros tantos, possam posteriormente adentrar por este caminho. Mais

205
particularmente, levantar uma discussão a respeito do fazer destes trabalhadores sociais,
do que está aí se constituindo. Segundo, as reflexões foram realizadas, com as armas que
eu dispunha, desenvolvendo a pesquisa no âmbito de experiências educativas e de
avaliação de projetos junto a grupos particulares de trabalhadores sociais, o que lhe confere
um certo limite de abrangência, pelo menos relativo ao perfil dos trabalhadores sociais e
suas representações. As visões e experiências trazidas por mim não podem ser
generalizadas, sem deixar de considerar o fato de que os pesquisados configuram uma fatia
particular deste universo de trabalhadores sociais. A maioria dos agentes que “falam” neste
trabalho ocupam uma posição diferencial na fronteira , não apenas porque estão em
intercâmbio com estruturas supralocais e circulam por outros espaços. Penso que,
atualmente, todos que trabalham neste ofício o fazem. Porém, o fazem de forma pontual,
setorizada, tal como funcionam os projetos nos quais trabalham. A questão é que os
trabalhadores sociais “aqui presentes” tecem intercâmbios e circulam de forma sistemática,
ultrapassando fronteiras, unindo elos e criando experiências. E aí que buscam o substrato
de seu trabalho, redimensionando-o.

3.3. Desafios no campo

Por várias razões este foi um trabalho que exigiu a recorrente repetição: é espiral...,
não se volta ao ponto de partida! Falar de cada uma destas razões implicaria vários ensaios.
Acadêmico, profissional, social, político, existencial... Falo do que aqui cabe, e que
implicou numa constante reelaboração dos caminhos de abordagem.
A pesquisa desenvolveu-se num momento da história do país, e também do Estado
do Rio de Janeiro e da cidade, particularmente frustrante para quem vive de apostar em
utopias e na humanização da vida. Num momento assim, não é difícil deslizar para o
pessimismo, quem sabe o fatalismo, e acabar por mergulhar no imobilismo que esteve
além de nossa imaginação há algumas décadas. Mas há algo que a história nos lembra, isso
não é pior do que afundar nas ilusões de uma promessa que não se cumpriu. Francisco de
Oliveira, ao recuperar Gramsci, nos lembra uma velha lição: “ Gramsci, aconselhava a, nas
crises, afiar, o ‘pessimismo da razão’, para ajudar ao ‘otimismo da vontade’, que só pode
surgir da práxis das classes dominadas para responderem e derrotarem esse Holocausto
sem (?) câmaras de gás”. (1998: 221) Procurei seguir a velha lição, “afiar”, “ajudar”.... nos

206
momentos em que as imagens da “crise” assumiam proporções meio fantasmagóricas em
meu horizonte.
A lembrança revê....uma destas imagens surgiu tão logo elaborei o projeto de
pesquisa. Recupera uma história já aqui relatada. Enquanto me iniciava na aventura de
doutorar-me, chegava aos meus ouvidos a notícia de que os agentes comunitários
contratadas pela Secretaria de Habitação do Município do Rio de Janeiro, alguns dos quais
eu já havia feito contato, haviam sido demitidos. Aconteceu o que eles temiam, concluí. Os
“objetos” da pesquisa estão sendo extintos, concluí também! O fato que, para eles e outras
pessoas, virou drama pessoal, para mim virou problema de pesquisa. Isso dá o que pensar!
Precisei experimentar o duplo caminho de interpretar a situação enquanto educadora que
acompanha o dia a dia dos trabalhadores sociais em algumas favelas, e com eles dialoga, e
como pesquisadora, que se dedica a investigar todo o processo.
Imagens como esta, dando o que pensar, se repetiram ao longo de todo o caminho.
Freqüentemente, deparei-me com experiências meio dramáticas destas pessoas que
trabalham percorrendo as favelas, e acompanham cotidianamente vidas suspensas por um
fio, defrontando-se com a falta de resposta aos problemas que encontram, e vez por outra
são quase que esmagadas pelo “trator” de uma medida do poder público, ou uma ação da
polícia e do tráfico de drogas.
Acompanhei algumas pessoas sentirem o peso desta espécie de “esmagamento”,
com seus corpos falando, principalmente através da hipertensão e problemas de coluna.
Em várias ocasiões, fui encontrá-las disposta a entrevistá-las ou acompanhar um trabalho
por elas realizado, mas tudo que podia fazer era ouvi-las. Minha agenda de pesquisa era
também “esmagada”.
Possivelmente este foi um dos principais desafios metodológicos que precisei
enfrentar, integrante de um campo maior de questões, comuns ao desenvolvimento de
pesquisas junto a “objetos” que também são sujeitos. Desafio que se torna ainda mais
complexo quando tais sujeitos passam a viver por um fio, trabalhando junto a pessoas que
se encontram com as vidas suspensas, pelo mesmo fio que esgarçando-se cada vez mais,
mais separa do que une. Desafio que se torna particularmente inquietante quando tudo isso
diz respeito ao nosso campo de ação profissional como educadora, e nos cabe também dar
respostas.
Pesquisar no campo de ação profissional....este foi o outro grande desafio deste
trabalho. Primeiro, difícil conciliar o tempo de ação do trabalho como educadora em

207
ONG´s com o tempo de ação como pesquisadora. Os impasses cotidianos das atividades
em ONG´s, e, especialmente, o fato destes impasses envolverem o trabalho de um conjunto
de pessoas, vão nos tragando. A urgência nos precipita a todo instante, tornando o tempo
de ação, tempo de decisão. Decisão é precisão, ainda que depois seja necessário ajustar o
impreciso.
Com a pesquisa, sabemos, acontece o inverso. Cada desafio exige a elaboração,
investigando cada beco, em busca de respostas. O tempo de ação é tempo de mastigação,
de um certo saboreamento das coisas que vamos encontrando pelo caminho: pistas,
respostas, mais perguntas...Com isso é difícil o tempo lento de pesquisa não acabar
subordinando-se ao ritmo das precipitações requeridas no outro ofício.
Hoje, perguntando-me como lidei com isso, digo que não foi possível dar uma
resposta a esta contradição, de divisão do trabalho. Por vezes, simplesmente deixei-me
levar, pelo tempo, digamos, imperioso das atividades em projetos das ONG´s. Outras
vezes, procurei compatibilizar meus vários tempos, minhas várias faces, abrindo mão, ora
de um papel, ora de outro, o que me fez ter a sensação de que me tornava um ambiente
Windows, com várias janelas, a serem abertas e fechadas. É claro que isso, em diversos
momentos, me levou a travar e experimentar o recorrente risco de pifar. “Não sois
máquinas, homens és que sois”, já dizia Chaplin em seu Último Discurso de O Grande
Ditador. E tampouco meus ofícios eram janelas a serem abertas e fechadas com um
simples toque de mouse, pensava eu, sabendo que a resposta “objetiva” não era
necessariamente aquela que me daria maior objetividade no desafio enfrentado.
Estes desafios metodológicos, surgidos a cada instante do trabalho, absorveram boa
parte de minhas reflexões ao longo da pesquisa. Investigando o trabalho do outro, passei a
revisitar o meu, refletindo sobre as tramas deste ofício que é ser educadora e procurar
produzir conhecimento na encruzilhada de muitos saberes e experiências, meus e de outros.
Saberes e experiências produzidos em espaços diferenciados, desiguais, sob lógicas
diversas. Muitas vezes contrapostos e privados da possibilidade de se encontrarem.
Em várias ocasiões, em tal reflexão, busquei inspiração nas próprias pessoas que
pesquisava, trabalhadores sociais que tentam equilibrar seu tempo exercendo várias
atividades, encarnando uma multiplicidade de papéis. Com eles aprendi que não é possível
dar respostas a uma contradição, que exige muito mais do que o esforço de cada um. Mas
que é possível enfrentar o conflito, traficando conhecimentos e experiências de um ofício
para outro, de forma potencializá-los. E assim, me esforcei para ser um pouco pesquisadora

208
quando estava em ação, em meu outro ofício. E para abrigar um tanto do ritmo das
precipitações, requerido nas várias atividades junto a projetos sociais nas favelas do Rio de
Janeiro, quando desenvolvia a pesquisa.
Enfim, de algum modo precisei reinventar todo o meu trabalho, como educadora e
pesquisadora. E, com isso, acabei por repensar a pesquisa, no campo onde atuo, junto a
grupos populares. Reforcei minha antiga percepção da pesquisa como produção
compartilhada de conhecimento, fundamental ao campo educativo.
Nesta pesquisa, mais do que nunca descobri o sentido do inacabado e do
imponderável quando se trata de desvendar segredos do humano e do social. O movimento
não está apenas inscrito no histórico-social, ele se coloca o tempo todo na relação do
pesquisador-pesquisado. Em alguns momentos, foi colocando meu roteiro de pesquisa de
lado, e deixando me surpreender pelo movimento dos entrevistados, ou dos participantes
de grupos focais, que pude ter acesso ao inesperado, que acabou se revelando fundamental
na compreensão do processo de trabalho dos agentes sociais enfocados. Foi assim que
descobri o quanto o rememorar em conjunto cumpre um papel fundamental no trabalho
destes agentes. Foi assim que pude identificar o leque de referências que acumulam, e
exploram, de forma a dar visibilidade e afirmar sua posição na fronteira.
Aprendi que, na entrevista, a pesquisa encontra uma dimensão de intervenção que
não pode ser ignorada. Reforçava então uma idéia que eu e Rosely de Oliveira, então
colega de trabalho, já havíamos discutido e que eu havia levantado por ocasião de uma
pesquisa desenvolvida no CEPEL, inspirada por uma reflexão de Bourdieu 121 :

(...) certos pesquisados, sobretudo entre os mais carentes, parecem aproveitar


essa situação como uma ocasião excepcional que lhes é oferecida para
testemunhar, se fazer ouvir, levar sua experiência da vida privada para a esfera
pública; uma ocasião também de se explicar, no sentido mais completo do
termo, isto é, de construir seu próprio ponto de vista sobre eles mesmos e sobre
o mundo, e manifestar o ponto, no interior desse mundo, a partir do qual eles se
vêem a si mesmos e o mundo, e se tornam compreensíveis, justificados, e para
eles mesmos em primeiro lugar (1997: 704)

121 A pesquisa em questão, já referida voltava-se para o levantamento das iniciativas sociais da região da
Leopoldina, mas existia então um eixo da pesquisa que procurava analisar mais particularmente as ações
promovidas por instituições e grupos religiosos. Na época, a leitura de Bordieu, me inspirou a refletir sobre a
importância do testemunho no ritual das igrejas evangélicas.

209
O autor lembrava então que, longe de serem “instrumentos nas mãos do
pesquisador”, os pesquisados “conduzem de alguma maneira a entrevista e a densidade e a
intensidade de seu discurso”.
Foi no exercício da investigação junto às trabalhadores sociais que dei contorno à
idéia de que o papel mediador do pesquisador na entrevista podia abrir espaço para que
nela se configurasse uma ação do pesquisado, que trazia desdobramentos para ele. Foi
colhendo depoimentos junto aos trabalhadores sociais, os levando a rememorar suas
vidas, que os vi elaborar reflexões a respeito de seu trabalho e os conflitos que ele
envolve, e mesmo repensar sua posição no campo da fronteira. Depois, acompanhando
suas ações e, especialmente, participação em encontros com outros agentes sociais, pude
perceber que agiam movidos por um novo olhar.
A condução do pesquisado em relação à entrevista não se esgota no ato desta
última. Vai além. A este respeito, achei interessante também o fato de que um dos
trabalhadores sociais cujo trabalho eu acompanhei, me pediu a cópia do depoimento que
ele me deu a respeito de seu percurso.
O mesmo trabalhador, me indicou algo que já havia percebido em outras ocasiões.
Conversando com ele a respeito das análises que vinha fazendo, e colocando minha visão
de que eles eram uma fatia do universo de trabalhadores sociais, ele observou: a maioria
dos agentes não sabe o capital simbólico que acumula. A apropriação que fazia do
conceito, sobre o qual eu falara quando encontrara alguns deles, me mostrou novamente a
forma como eles buscam armas para se mover na fronteira e afirmar suas posições.
Indicou-me também a importância de dividir a trajetória da pesquisa com eles, e o
significado que eles davam ao fato.
Penso em tudo que foi dito acima como sinais de deslocamento na relação entre
pesquisador e pesquisado. Sinais que nos fazem refletir sobre antigas questões, como a
delicada questão do uso dos depoimentos do entrevistado, e novos caminhos, que indicam
a complexidade inscrita no ato da entrevista, em outros instrumentos, e em seus
desdobramentos.
Enfim, tive a certeza de que, muitas vezes, é no meio do caminho que encontramos
algumas respostas que buscamos, fundamentais a pesquisa. Em alguns momentos, foi me
subordinando ao ritmo das precipitações, exercendo o papel de educadora, que descobri
algumas pistas para este trabalho. Foi mediando impasses, e mesmo conflitos, entre
educadoras com as quais trabalhava, que me defrontei com as diferenças entre elas, e do

210
trabalho que desenvolviam, revendo a imagem homogeneizadora que até então eu
cultivava a respeito da questão. Em outros momentos, foi abrindo mão de minha agenda de
investigação que avancei na compreensão da experiência de trabalho dos agentes sociais
pesquisados. Com freqüência, nestes momentos, pude ouvir das pessoas que desistia de
entrevistar, o que sequer passava pelo meu horizonte de inquietação. Foi assim que
descobri algumas das dores, subjetivas e físicas, produzidas pelo trabalho destas pessoas.
Dores que não encontram-se no campo das dificuldades ou obstáculos ao trabalho, sobre as
quais todos os educadores falam. São subterrâneas, vindo à tona em momentos que
envolvem situações de conflitos, injustiças, que pude acompanhar. Alguns dos
depoimentos que ouvi nestas ocasiões ampliaram minha compreensão a respeito do
trabalho que estas pessoas exercem. Mas, não raramente, eles não puderam ser
incorporados à pesquisa, sob a forma de “dados”. Desabafos quase sempre se recusam a ser
processados como “dados”.

211
Parte II

O Desencontro

A Fronteira

212
4. O Desencontro

(...) Deus arrependeu-se dos males que havia feito e permitido, a


um ponto tal que, num arrebato de contrição, quis mudar seu nome
para um outro mais humano. Falando à multidão, anunciou: “A
partir de hoje chamar-me-eis Justiça. E a multidão respondeu-lhe:
“Justiça, já nós a temos, e não nos atende”. Disse Deus: “Sendo
assim, tomarei o nome de Direito”. E a multidão tornou a
responder-lhe: “Direito, já nos o temos, e não nos conhece”. E
Deus: “Nesse caso, ficarei com o nome de Caridade, que é um
nome bonito”. Disse a multidão: “Não necessitamos caridade, o
que queremos é uma justiça que se cumpra e um direito que nos
respeite”. Então, Deus compreendeu que nunca tivera,
verdadeiramente, no mundo que julgara seu, o lugar de majestade
que havia imaginado, que tudo fora, afinal, uma ilusão, que
também ele havia sido vítima de enganos, como aqueles de que se
estavam se queixando as mulheres, os homens e as crianças e,
humilhado, retirou-se para a eternidade. A penúltima imagem que
ainda viu foi a de espingardas apontadas à multidão, o penúltimo
som que ainda ouviu foi do dos disparos, mas na última imagem já
havia corpos caídos sangrando, e o último som estava cheio de
gritos de lágrimas. (José Saramago- Prefácio ao livro Terra)

Momento de ir buscar alguns elementos que nos ajudem a explicar o campo de ação
dos agentes sociais dos quais tratamos. E desenvolver uma interpretação dos
deslocamentos aí produzidos: aquele que se configura no sentido de empurrá-los para a
“condição subalterna de reprodutores mecânicos do sistema econômico”, e outro que vai
delineando a ação e a interpretação crítica dos chamados excluídos. Fazemos isso,
primeiro, identificando alguns processos que atravessam historicamente este campo de
ação. Depois, buscamos nos aproximar das suas contradições, nas formas de concretas de
vida e trabalho, tal como elas vêm se manifestando na realidade de algumas favelas do
município do Rio de Janeiro.
Começo lembrando Valda que disse bem assim “ o caráter da pobreza mudou.
Estamos cada vez mais pobres... (...) A maior pobreza é a falta de política social. O poder

213
público ensinou a todos sermos individualistas”. Disse-me ainda que foram erguidos
muros e portões de ferro em várias casas nas favelas. E afirmou que a maioria “não vê
aquela gente que está fazendo sua casa na rua”. Ela mora em numa das maiores favelas da
Tijuca, bairro zona norte do Rio de Janeiro e há longos anos atua em projetos voltados para
a prevenção de DST´s/AIDS na favela aonde mora, e em várias outros locais, inclusive no
chamado asfalto. Localiza-se num terreno que chamo de fronteira Daí, ela acompanha as
mudanças que acontecem nestas localidades e nas vidas de seus moradores. Daí, faz a
crítica às políticas sociais voltadas para este pedaço do espaço urbano.
Martins afirma que é preciso estar atento ao fato de que, mudando o nome de
pobreza para exclusão, podemos estar apenas escamoteando o fato de que a pobreza hoje,
mais do que mudar de nome, mudou de forma, de âmbito e de conseqüências. Estamos
longe do tempo em que pobre era quem não tinha apenas o que comer. (Martins 1997:18).
Ele fala da pobreza hoje e questiona a noção de exclusão. Ele atua também no terreno de
fronteira, em diálogo crítico com educadores populares, agentes de pastoral e animadores
de movimentos populares. Daí, ele acompanha o que chama de nova desigualdade e
procura interpretá-la. Daí, problematiza “a conceituação rotuladora que veste a realidade
fluida e conflitiva com a camisa de força dos enquadramentos preconcebidos para tentar
dar sentido ao que parece dele privado, a realidade pura dos pobres” (1997:7).
Recordo os dois ao seguir a primeira pista que aparece em meu horizonte de
pesquisa, ao refletir sobre o que vem acontecendo hoje, em nossa sociedade, e em
particular, nas favelas do Rio de Janeiro. Acumulamos pobrezas, antigas e novas...
Vejo que o trabalho dos moradores das favelas é um trabalho que confronta-se com
antigas e novas pobrezas. Eles sobrevivem em meio a elas. A velha conhecida pobreza
material, que se amplia no espaço, aumentando a precariedade das condições de vida da
população. Aquela que aponta a degradação dos serviços públicos e os limites, ou a falta
de políticas sociais, como bem disse Valda. Uma outra, que cresce junto com a violência,
e que, como lembra Kowarick, delimita os direitos civis, influenciando o cotidiano das
pessoas e afetando o cerne da cidadania civil. (1999: 140).
Estamos, pois diante de uma pobreza que evoca o enigma de uma sociedade que
não consegue traduzir direitos proclamados em parâmetros igualitários de ação (Telles
1999 :82). Uma pobreza que parece “se constituir num ponto cego que desafia teorias e
modelos conhecidos de explicação”:

214
Ponto cego instaurado no centro mesmo de um Brasil moderno, a pobreza
contemporânea arma um novo campo de questões ao transbordar dos lugares
nos quais esteve configurada “desde sempre”: nas franjas do mercado de
trabalho, no submundo da economia informal, nos confins do mundo rural,
num Nordeste de pesada tradição oligárquica, em tudo o mais, enfim, que
fornecia (e ainda fornece) as evidências da lógica excludente própria das
circunstâncias históricas que presidiram a entrada do país no mundo capitalista.
De fato, ao lado da persistência de uma pobreza de raízes seculares, a face
moderna da pobreza aparece registrada no empobrecimento dos trabalhadores
urbanos integrados nos centros dinâmicos da economia do país. (Telles 1999
:83)

A pobreza em suas várias faces é um tema inquietante, no sentido que mobiliza a


todos que procuram interpretar as mudanças no país e dialogam com as alternativas aí
colocadas. É especialmente um tema polêmico que envolve visões diferenciadas e
divergentes.
Para decifrar o “ponto cego” que nos desafia, muitos têm recorrido ao termo
“exclusão”. É ele o termo mais amplamente usado na atualidade para caracterizar os
processos que experimentamos nos anos recentes. Na última década, possivelmente foi
uma das palavras que mais marcaram as imagens produzidas e difundidas a respeito da
sociedade brasileira, e de outras do mundo capitalista. Há quem aposte em sua força
denunciadora . Quem a adote como um conceito de fundo, em torno do qual se organiza
uma parte do saber das ciências sociais, mas que aponte os cuidados que seu uso inspira. E
há quem a descarte, ressaltando o fato de ela referir-se a estados e não a processos, e sugira
ainda seus riscos despontencializadores. 122.

122 No primeiro caso, por exemplo, Aldaíza Sposati que lembra que a exclusão não é um fenômeno novo
mas que possui uma forte presença no fim do século XX, por razões outras, que não passam pela economia.
Ela assume o caráter de um conceito/denúncia, da ruptura da noção de responsabilidade social e pública
construída a partir da Segunda Guerra e a quebra da universalidade da cidadania conquistada no Primeiro
Mundo (1999). No segundo grupo, situamos o francês Serge Paugam que destaca o fato de a exclusão ser
usada para designar realidades diferentes e ambíguas, levando, então, à necessidade de agregar a ela outros
conceitos, como o da desqualificação social, a partir do qual se pode examinar um feixe de dimensões que
estão em jogo quando se discute exclusão: trajetória, identidade e território(1999). No último caso, é possível
situar Castel e José de Souza Martins. O primeiro lembra que o uso da noção de exclusão leva ao risco de
não se recuperarem trajetórias que permitem compreender rupturas em relação a posicionamentos anteriores,
caindo-se, então, na “armadilha” de “delimitar zonas de intervenção que podem dar lugar às atividades de
reparação” (1997). O segundo alerta para o fato de a “exclusão” estar se tornando uma coisa fixa e

215
A discussão teórica e metodológica em torno do tema é bastante rica 123 . E, como
lembra Virgínia Fontes, embora apareça como questão nova, própria da crise
contemporânea, o tema da exclusão contém uma história atrás de si e pode recobrir
fenômenos profundamente diversos (1997: 37)
Não é meu objetivo debruçar-me sobre a discussão teórica e metodológica acerca
do tema, e os conceitos e noções vizinhas. Dando atenção a Bourdieu, que nos diz que “a
linguagem exprime mais facilmente as coisas do que as relações, mais os estados do que os
processos” (1994), preferi seguir um caminho que me permita uma maior aproximação da
dinâmica histórica, que não exprima tanto estados, como processos. Daí, vou ao encontro
da historicidade dos processos subjacentes aos problemas que estão abrigados sob a noção
de exclusão, e que constituem o campo de ação dos que localizam-se na fronteira. 124

Raízes de um desencontro

Se compreendida como tema que indica um conjunto de contradições, experiências


e conflitos sociais presentes no mundo contemporâneo, a exclusão possui vida longa.
Muito do que temos visto por aqui, e que o pensamento europeu e mesmo norte-americano
começa a se familiarizar, sugere um dilema que atravessa a história das sociedades
capitalistas, marcadas pelo desencontro entre o econômico e o social, este atrasado em
relação a aquele. “O econômico anuncia possibilidades que a sociedade não realiza ou
realiza com atraso”, afirma José de Souza Martins, ao fazer uma leitura da obra de
Lefebvre (1996).
Nos tempos de glória dos grandes centros capitalistas, o pensador francês já
apontava a subsistência da escassez e da antiga pobreza, e analisava a nova pobreza que se
instaurava nas sociedades de abundância. Uma reflexão que indicava o movimento
contraditório do capitalismo - que anuncia o reino da liberdade, com o avanço ilimitado

irremediável, que paira sobre nós como uma fatalidade e adverte, sobretudo, que ao discutir exclusão se deixa
“de discutir as formas pobres, insuficientes e, às vezes, até indecentes de inclusão”(1997).
123
Para além das referências acima citadas, o livro de Sarah Escorel - Vidas ao Léu: Trajetórias de Exclusão
Social (1999) traz uma enriquecedora revisão e discussão a respeito da exclusão social, abordando também
outras categorias ligadas ao mesmo campo temático, como pobreza, underclass e marginalidade, e
veiculando as visões dos principais autores.
124
Parte das reflexões colocadas aqui resultam das discussões e do trabalho elaborado na disciplina Teoria e
Educação I do Programa de Pós Graduação em Educação da UFF/Niterói, em 2001 e deram origem ao
trabalho Movendo-se no desencontro: uma leitura sobre o campo de ação das classes populares em tempos
capitalistas , apresentado na Reunião Anual da ANPED, 2002.

216
das possibilidades humanas na libertação de suas carências - mas que reproduz antigas
privações, criando ainda novas necessidades.

Essa imagem paradoxal sempre foi constitutiva do capitalismo. As imensas


conquistas em termos de capacidade produtiva e de meios econômicos e
tecnológicos jamais estiveram disponíveis, politicamente, para a generalização
de um possível bem-estar planetário. Adam Przeworski, aliás, interrogou-se
sobre a questão, buscando responder a uma pergunta de sua filha: por que, com
tantos meios técnicos, não se consegue eliminar a fome do planeta? Sua
conclusão extremamente pessimista indica os limites da intervenção política –
isto é, da democracia – nos processos econômicos. (Fontes 1997 : 43)

Podemos localizar, a partir desta imagem desencontrada e paradoxal, a exclusão


como um tema que indica processos e um conjunto dramas e conflitos sociais de um
mundo que anuncia, em seus meios e em suas conquistas, o reino da abundância, mas que
reproduz historicamente a escassez e todo tipo de privações.
“O problema da exclusão nasce com a sociedade capitalista”, afirma Martins. O
capitalismo traz como regra estruturante o desenraízamento e a exclusão. “ A sociedade
capitalista desenraíza, exclui, para incluir, incluir de outro modo, segundo suas próprias
regras, segundo sua própria lógica. O problema está justamente nesta inclusão”, adverte o
mesmo autor (1997 :32). Vale lembrar aqui a análise de Etienne Balibar, trazida por
Fontes (1997: 39):

ninguém pode ser excluído do mercado, simplesmente porque ninguém pode


dele sair, posto que o mercado é uma forma ou uma ‘formação social’ que não
comporta exterioridade. Dito de outra forma, quando alguém é expulso do
mercado, na realidade, funcionalmente ou não, ele é mantido em suas margens,
e suas margens estão sempre ainda em seu interior. Não seria o mercado essa
estrutura ou instituição social paradoxal, talvez sem precedentes na história,

217
que inclui sempre suas próprias ‘margens’ (e portanto seus próprios
‘marginais’) e que, finalmente, somente conhece exclusão interna? 125

A reinclusão no processo de mercantilização sob a lógica do capital se dá de forma


precária, num movimento através do qual a sociedade repõe antigas privações e produz
novas desigualdades. Diferentes formas de produção encontram-se entrelaçadas sob a
lógica da reprodução do capital, que forja o “moderno” mas recria também o “arcaico”,
dando-lhe lugar no processo de valorização. Ganha particular sentido aqui, a existência de
uma massa de trabalhadores submetidos a formas não capitalistas de produção. Se o
capitalismo se desenvolve, criando excedentes populacionais úteis, excluídos do processo
de trabalho e dos frutos da produção social, estes mesmos excedentes são incluídos no
processo de valorização, por meio de formas indiretas de subordinação ao capital. É
através deste movimento que o capitalismo reproduz-se, articulando tempos históricos
distintos, "uma recriação contínua de relações sociais arcaicas juntamente com a
progressiva criação de relações sociais cada vez mais modernas" (Martins 1989 :100).
Assim sendo, o "arcaico" é uma dimensão reatualizada e integrada ao capitalismo, tanto
quanto o "moderno", e não um resíduo, passível de ser eliminado com o avanço do
moderno. Como lembra Virgínia Fontes:

Independentemente da forma pela qual as populações passariam a conectar-se


ao mercado de trabalho- assalariamento, artesanato, serviços diversos,
empregos domésticos, informalidade ou ocupações extralegais (tráficos,
contrabandos) – passavam a fazer parte integralmente da generalização das
relações mercantis de cunho capitalista. (1997)

Mais do que apontar, então, um conjunto dramas e conflitos sociais do mundo


contemporâneo e um futuro de apartação social, a temática da exclusão nos coloca também
diante percursos e experiências sociais produzidas historicamente no seio da sociedade
capitalista e que são constitutivas de sua dinâmica. Desta forma, os dois mundos – aquele
que anuncia a libertação das carências, com base no avanço dos meios econômicos e da
125
Balibar, Etienne, “Exclusion ou lutte des classes?” In: Les frontières de la démocratie, Paris, La
Découverte, 1992 apud Fontes, Virgina. “ Capitalismo, Exclusões e Inclusão Forçada” In: Tempo, vol.2, n03,
Universidade Federal Fluminense/Departamento de História, Rio de Janeiro: Relume Dumará, junho de
1997. Os grifos são do autor francês.

218
capacidade produtiva, e o outro que aprisiona homens e mulheres, reproduzindo e criando
todo o tipo de privações em escala ampliada – não encontram-se separados. São faces da
mesma moeda, integradas sob a lógica do capitalismo, onde as forças produtivas se
desenvolvem mais rápido do que as relações sociais, onde a produção é social, mas a
apropriação dos resultados da produção é privada, como Marx já destacava no século XIX.
Uma contradição que, nos lembra José de Souza Martins, “anuncia o descompasso
histórico entre o progresso material e o progresso social” (1996).
Este descompasso evoca então o movimento de expropriação e exclusão do
trabalhador com sua inclusão posterior. Como avalia Virgínia Fontes, uma inclusão não
idílica, não resultante do desejo individual de cada trabalhador, ou inclusão forçada no
processo de mercantilização da vida social, que assegura a sobrevivência do próprio
sistema ao submeter e disciplinar a força de trabalho à sua existência (1997). Ou inclusão
de forma subordinada e precária, como sugere Martins (1997).
O descompasso, ainda, no âmbito do mesmo movimento histórico de
desenvolvimento do capitalismo, comporta realidades sociais desencontradas, mergulhadas
em tempos históricos distintos. Hobsbawm, fazendo um balanço do estado do mundo um
século depois da era das revoluções e percorrendo os processos que marcaram a segunda
metade do século XIX, nos chama atenção para o fato de que o mundo caminhava para
uma divisão. Em fins do século XIX, a despeito das disparidades entre as regiões ricas e
pobres, as diferenças entre elas eram, pelos padrões modernos, espantosamente mínimas e
não pareciam insuperáveis: “de, digamos, 1 a 1,8”, sendo que o produto nacional bruto per
capita nos países depois conhecidos como desenvolvidos era basicamente o mesmo que
nas outras regiões. Em 1880, usando-se os mesmo cálculos, a renda per capita dos
primeiros era cerca do dobro dos países mais pobres e em 1913, se tornaria mais do que o
triplo, aumentando, a partir daí, numa escala crescente. No entanto, sobreposta à imagem
de um globo dividido, com dois universos separados por um abismo, encontramos também
um mundo “genuinamente global”, cada vez mais estreitamente “ligado pelos laços de
deslocamento de bens e pessoas, de capital e comunicações, de produtos materiais e idéias”
(1988: 31).
Tal sobreposição de imagens, que evoca o desencontro de realidades num mundo
unido pelos laços aos quais Hobsbawm se refere, só pode ser compreendida a partir do
movimento histórico que destacamos e que marca a expansão planetária do capitalismo. A
este respeito, é a partir da chamada segunda revolução industrial, do processo de

219
concentração econômica e da consolidação de uma economia global única, sustentada
politicamente com a formação dos impérios das grandes potências, que este movimento
adquire maior visibilidade. Torna-se claro aqui a dinâmica através do qual o capital se
reproduz e universaliza-se, desarticulando ou subordinando outras formas de produção
social e recriando desigualdades em escala ampliada.
O descompasso histórico entre o progresso material e o progresso social nos leva
então ao movimento de expropriação e exclusão do trabalhador com sua inclusão posterior,
de forma subordinada e precária. E nos evoca ainda expansão planetária do capitalismo,
produzindo e recriando realidades sociais desencontradas, mergulhadas em tempos
históricos distintos. Mas, sobretudo, ele nos coloca diante dos conflitos desenrolados ao
longo deste processo. Esta é uma história que precisa “ser penteada a contrapelo”, como
falou Walter Benjamim, na contramão dos feitos da burguesia em suas várias eras: desde
aquelas que marcaram as revoluções de fins do século XVIII, até hoje.
Sabemos que, ainda que um tanto desta história seja apagada ou, pelo menos, fique
na penumbra, os trabalhadores não assistiram sentados, recuperando a expressão de Marx,
às “orgias do capital”. O processo não se constituiu sem lutas, muitas das quais ficaram
registradas nas obras de seus contemporâneos e daqueles que a resgataram. Edward
Thompson, por exemplo, chamou atenção para muitos delas, mostrando como a classe
trabalhadora na Inglaterra esteve presente em seu próprio “fazer-se” e não foi “gerada
espontaneamente pelo sistema fabril” (1987). Resistiu ao processo, muitas vezes
revigorando aquilo que ele chamou de economia moral da multidão, no confronto que
traduzia o conflito com a nova economia capitalista de mercado (1984).
Com efeito, a aposta burguesa, o “projeto de formar homens previsíveis chocou-se
com a experiência e concepção de vida operária” (Bresciani 1985: 86). Se nos primórdios
do capitalismo, os trabalhadores têm suas ações e práticas permeadas por pressuposto de
uma tradição popular antiga, posteriormente, com o avanço do capitalismo, eles vão
redefinindo suas práticas, dando respostas originais aos novos problemas que lhes eram
colocados cotidianamente. Tais respostas traduziram-se nas sociedades radicais de
orientação cartista, owenista ou mesmo religiosa, que propunham e buscavam a difusão do
saber técnico entre os trabalhadores, chegando a ameaçar o movimento burguês dos
Institutos de Mecânica, cujo projeto era compatibilizar o trabalhador com o novo modelo
de fabricação e controlar os efeitos da introdução da máquina e dos movimentos rotineiros

220
ao processo de trabalho fragmentado, evitando inclusive a sistemática quebra de máquinas
(Bresciani 1985).
Ao longo do século XIX e início do XX, em desencontro com o capital, os
movimentos não só se multiplicaram como se fortaleceram, desencadeando, mesmo, uma
contra-revolução a partir da segunda metade do século XIX. E ainda está próxima de nossa
memória as lutas que marcaram o século XX, no âmbito da afirmação do ideário e da
experiência socialista. A forma com que estes movimentos e sua organização foram
respondidos - seja pela repressão, seja pelo refinamento dos mecanismos de
disciplinarização e controle dos trabalhadores nas fábricas e nas ruas e dos compromissos
políticos tecidos – nos fala do seu próprio vigor e de sua intervenção no processo,
redefinindo as regras do jogo. “A contrapelo”, podemos mesmo interrogar aquilo que é
considerado conquista burguesa para redescobrir outras histórias:

Taylorismo e fordismo, por exemplo, categorias importantes na economia


política e na sociologia do trabalho, não são decorrentes de novos processos
produtivos. Ao contrário, são formas implementadas para diminuir a
porosidade do trabalho, expressas na resistência ao trabalho por parte dos
trabalhadores. Num caso e noutro, a própria transformação do trabalhador em
extensão da máquina, para roubar-lhe a autonomia através do posto fixo de
trabalho na linha de montagem. (Oliveira 2000)

O fato pareceu virar reminiscência; porém, muito do longo percurso dos avanços e
recuos da construção do chamado Estado de Bem Estar Social passou pelas mãos dos
trabalhadores. E nos vários cantos do mundo, todos os caminhos da construção
democrática foram abertos por eles, levando as disputas para fora dos espaços de trabalho e
da cidade, interrogando aquele que se anunciava como árbitro do conflito, o Estado. Desta
forma, o que era possível foi se tornando direito.
As possibilidades históricas da construção da democracia estiveram, então,
associadas às lutas sociais e políticas daqueles que, sem ver os frutos do progresso,
questionaram as promessas de abundância e de diferentes formas brigaram pelo fim de
suas privações. Exprimindo e publicizando o conflito, estas lutas implicaram na
constituição de uma esfera pública e na conquista de direitos políticos e sociais.

221
A estruturação da esfera pública, mesmo nos limites do Estado classista, nega à
burguesia, a propriedade do Estado e sua dominação exclusiva. Ela permite,
dentro dos limites das “incertezas previsíveis”, avanços sobre terrenos antes
santuários sagrados de outras classes ou interesses, à condição de que isto se
passe através de uma re-estruturação da própria esfera pública, nunca de sua
destruição. Representa, de um ponto de vista mais alto e mais abstrato, o fato
de que agora “os homens fazem a história e sabem por que a fazem” ( Oliveira
1998:39 )

É claro que o caminho se fez com avanços e recuos. E aqui, chegamos também aos
desencontros presentes na construção histórica da democracia e na configuração dos
Estados do Bem Estar. Novamente Lefebvre, nos recorda algo que, em tempos de
abundância , pareceu ter sido esquecido.

O compromisso democrático não suprime a luta de classes, pelo contrário,


exprime-a . Historicamente, não poderia ser de outro modo, uma vez que a
burguesia, na sua luta contra o feudalismo, teve de apelar para o povo e, por
outro lado, devido a sua própria ideologia, foi obrigada a administrar a
liberdade de opinião, de expressão, de pensamento e até de organização. A
ação popular apenas a encostou à parede, compelindo-a a não relegar as suas
teorias para a ideologia pura; esta ação, em suma, voltou contra a burguesia –
legitimamente segundo Marx – as idéias lançadas por ela mesma no tempo de
sua ascensão política e da sua própria revolução.

A história da democracia mostra este duplo aspecto da democracia e só por seu


intermédio se explica. As instituições democráticas em todos os países, e na
história de cada país, refletiram a forma momentânea do compromisso, isto é, a
relação momentânea das forças atuantes no interior da nação (e também no
plano internacional) (Lefevbre 1974: 112).

No entanto, mais do que nunca sabemos, a democracia desenvolvida nos limites do


Estado burguês não significou a supressão do descompasso histórico entre o progresso

222
econômico e o progresso social, chegando apenas a diminuí-lo e mantê-lo sob controle.
Temos claro aquilo que foi avanço na construção democrática. A pergunta que nos
fazemos é quais seus limites.
Os limites não passaram desapercebidos por muitos daqueles que viviam os anos
dourados na sociedade norte-americana e de alguns países da Europa, e sua percepção
aparece em obras que iam interrogando o presente das democracias modernas, seus
processos culturais, a sociabilidade capitalista, os mecanismos de controle em sua
instituições e a organização do Estado. Localiza-se em pensadores de escolas tão diversas,
como o já citado Lefbvre, Adorno e Horkheimer, Sartre, Foucault, Bourdieu e Althusser,
dentre outros. E encontra-se nos diversos movimentos que marcaram os anos 60 na Europa
e EUA, tensionando as desigualdades, os mecanismos das instituições sociais democráticas
existentes, suas formas de ação e sua não convivência com as diferenças, e que abriram
espaço para toda uma área de estudos voltados para as chamadas minorias 126
Castel destaca o efeito despolitizador do Estado democrático e nos ajuda a pensar a
questão (1998). Discutindo as características que marcam o movimento do Estado Social
rumo à social-democracia, lembra seu caráter inacabado, a ambigüidade de alguns de seus
efeitos e o caráter contraditório de alguns outros. Em relação ao primeiro aspecto, chama
atenção que a maior parte das realizações da época marcam “etapas intermediárias num
processo ininterrupto” e que, mesmo sem o saber, os assalariados “já estavam virtualmente
vulneráveis” uma vez que seu destino “estava concretamente ligado à busca de um
progresso do qual não controlavam nenhum dos parâmetros”. Desta forma, o autor percebe
que “os avanços no direito do trabalho não significam que se pratica democracia na
empresa ou que a empresa se tornou ‘ cidadã’ . A ampliação das proteções sociais teve
ainda alguns “efeitos perversos”, como a gestão tecnocrática e a despolitização da
sociedade, denunciados pelos movimentos sociais dos anos 60 e 70. Por fim, e aqui Castel
localiza a contradição mais profunda, o “Estado social dos anos de crescimento” produz
“efeitos individualizantes duvidosos” , ao enquadrar os cidadãos em categorias jurídico-
administrativas e cortá-los de seu pertencimento concreto a coletivos.

126 Recordamos aqui não apenas aqueles movimentos que traziam a questão da discriminação das minorias e
afirmavam sua identidade, como o movimento negro e de mulheres mas ainda movimentos que interrogavam
os limites da democracia dos Estados Democráticos, quando seus interesses ultrapassavam as fronteiras,
como foi o caso da mobilização contra a Guerra do Vietnã. Sabemos que tal mobilização esteve muito
associada ao impacto da sociedade norte-americana diante de “seus mortos” e da guerra perdida. Porém, não
deixou de demonstrar as fraturas da sociedade, os limites do paraíso e “sua porta de saída.

223
Estabelecendo regulações gerais e fundando direitos objetivos, o Estado social
também aprofunda a distância em relação aos grupos de pertencimento que, em
último caso, não têm mais razão de ser para garantir as proteções. Por exemplo,
o seguro obrigatório é realmente a mobilização de uma certa solidariedade, e
endossa o pertencimento a um coletivo. Mas pelo modo como foi
instrumentalizada, essa forma de “fazer sociedade” não exige senão
investimentos pessoais muito limitados e uma responsabilização mínima (...) A
intervenção do Estado permite aos indivíduos esconjurarem os riscos de
anomia que, como Durkheim havia visto, existem no desenvolvimento das
sociedades industriais. Porém, para fazer isso, têm como interlocutor principal-
e em caso extremo único- o Estado e seus aparelhos. A vulnerabilidade do
indivíduo, que foi afastada, encontra-se então reconduzida a outro plano.
(CASTEL, 1998, P.508)

Boaventura de Sousa Santos, analisando o processo de contratualização social,


política e cultural que marcou o desenvolvimento do Estado Moderno e seu “grau máximo
de legitimidade” no Estado-providência, chama atenção para o fato de que a “socialização
da economia” foi obtida à custa de uma dupla dessocialização, “a da natureza e dos grupos
sociais aos quais o trabalho não deu acesso à cidadania”127 .

Sendo uma solidariedade entre iguais, a solidariedade entre os trabalhadores


não teve de se aplicar ao que extravasava o círculo da igualdade. Por isso, as
organizações operárias nunca se deram conta, em alguns casos até hoje, que o
local de trabalho e de produção é freqüentemente cenário de crimes ecológicos,
de graves discriminações sexuais e raciais (1999: 39)

Agregada a este fato, Boaventura aponta ainda a questão já destacada por Castel,
nos ajudando a avançar. A politização e publicização do Estado veio acompanhada de uma
despolitização e privatização de toda a esfera não estatal. Com isso, “a democracia pode se

127 O autor concebe a socialização da economia como o longo movimento de reconhecimento de que a
economia capitalista não era apenas por capital, fatores de produção e mercado, mas também por
trabalhadores, classes e pessoas com necessidades básicas e interesses.

224
expandir na medida em que seu espaço se restringiu ao Estado e à política que ele passou a
sintetizar” (39).
A democracia representativa - que experimentou avanços e recuos ao longo da
primeira metade do século passado e consolidou-se no pós Segunda Guerra, espalhando ao
mundo suas promessas - foi então procurando forjar os limites do compromisso,
localizando-o dentro do próprio Estado. Ao fazê-lo, delimitou também a linha do horizonte
no que se refere a suas possibilidades de respostas ao descompasso. De certa forma, ainda
que o compromisso dependesse das correlação de forças sociais, como nos lembrou
Lefebvre, em seu movimento de construção , a democracia veio acompanhada daquilo que
a negava, ou seja, de processos e mecanismos que canalizavam o conflito para dentro do
Estado e produziam o usuário e o consumidor, esvaziando o lugar tão duramente
construído do cidadão. Se assim for, e incorporando a formulação de Boaventura, a
travessia das portas do Estado e a tomada de outros espaços, levando o conflito para aí,
como aconteceu em fins dos anos 60 e 70, foi o limite da democracia.
Com efeito, todos os processos contraditórios que fomos levantando aqui estão,
como viemos afirmando, na raiz do descompasso histórico do econômico e social das
sociedades capitalistas. Porém, assumiram especial relevância nas regiões do mundo que,
mesmo cada vez mais integradas aos circuitos globais, localizaram-se aí num espaço
crescentemente subordinado, como a avaliação de Hobsbawn sugeriu 128 . Sociedades que
foram marcadas por experiências históricas que trouxeram particulares formas de aliança
entre os núcleos centrais da economia mundial e os grupos alojados nas estruturas de
dominação interna. E onde a maioria da população sequer conheceu os anos dourados.
Não é a toa que estas sociedades, incluindo a nossa, já possuem longa familiaridade
com processos que desafiam o pensamento sociológico europeu, e também norte-
americano, num momento em que as paisagens dos países que conheceram as promessas
da abundância tornam-se cinzentas, trazendo à cena dramas e conflitos sociais,
relacionados ao desemprego e à miséria, que até então eram vistos como residuais. O leque

128 Espaço subordinado mais fundamental, como podemos perceber através de toda a literatura que, desde o
próprio Marx, destaca a importância destas regiões na formação, consolidação e reprodução do capitalismo.
Uma importância que, sabemos, relaciona-se a seu papel econômico enquanto reservatório de mão de obra e
riquezas, fornecedora de matérias primas e produtos primários, espaço para investimentos do capital e para o
deslocamento da mão de obra sobrante nos países centrais. Mas que articula-se ainda ao papel político e
ideológico que assumiram na configuração do mundo moderno e contemporâneo e nas disputas que, desde a
Grande Expansão Marítima, envolveram as chamadas grandes potências.

225
de problemas que o tema da exclusão evoca já são velhos conhecidos daqueles que vivem
nos cantos periféricos do planeta.

Um parêntese...

Chegando ao Brasil... Faço um aparte porque a lembrança revê. Pensar o


desencontro aqui é uma tarefa que me coloca de antemão diante de uma espécie de trauma,
digamos, histórico. Isso porque me faz recordar os velhos tempos de graduação em
história, quando sentia uma enorme dificuldade diante de todas as disciplinas de História
do Brasil. O que acontecia era que quando estudava os processos que marcavam as
sociedades do então chamado Primeiro Mundo, tinha a sensação que tudo parecia se
encaixar. Parecia mais fácil dar explicações para o acontecer histórico destes países. Em
relação ao Brasil, bem como as sociedades latino-americanas, chegava a algumas
explicações, mas havia sempre uma vírgula. E depois desta vírgula, a tal especificidade da
formação social brasileira que me indicava um leque de dúvidas, incertezas e perguntas.
Aos poucos, fui compreendendo que aquilo que pensava ser minha dificuldade era
uma experiência que foi se constituindo no campo do pensamento social no Brasil. E foi
constituindo-se na medida em que aqueles que buscavam interpretar o país defrontavam-se
com dilemas que atingiam nossa sociedade, e que não estavam no “mapa” do “primeiro
mundo”. Ou seja, dúvidas, incertezas e perguntas eram registros que traduziam o
questionamento dos modelos clássicos de interpretação do desenvolvimento do
capitalismo, e do Estado burguês no mundo contemporâneo, e sua inadequação quando se
tratava de explicar e compreender a nossa realidade.
Hoje, percebo que a imprecisão surgida na discussão a respeito da experiência
histórica brasileira foi forjando um caminho fecundo de interpretação de nossa sociedade,
seus dilemas, mudanças históricas, e particularmente dos processos de exclusão por ela
experimentados. Neste caminho, destacaram-se leituras diferenciadas, produzidas em
distintos campos de reflexão, com filiações teóricas divergentes. Mas que foram trazendo
pistas que hoje se acumulam em nossa bagagem, sinalizando questões que não podem
deixar de ser consideradas ao refletirmos sobre o desencontro no Brasil. De certa forma,
Francisco de Oliveira resume um pouco caminho quando fala:

226
A formação da sociedade brasileira, se a reconstituirmos pela interpretação de
seus intelectuais “demiúrgicos”, a partir de Gilberto Freyre, Caio Prado Jr.,
Sergio Buarque de Hollanda, Machado de Assis, Celso Furtado e Florestan
Fernandes, é um processo complexo de violência, proibição da fala, mais
modernamente privatização do público, interpretado por alguns com a
categoria de patrimonialismo, revolução pelo alto, e incompatibilidade radical
entre dominação burguesa e democracia; em resumo, de anulação da política,
do dissenso, do desentendimento, na interpretação de Rancière (2000b: 59) 129 .

A avaliação do autor nos aponta registros da experiência de nossa sociedade que


contribuem para a compreensão do desencontro no Brasil. Registros indicados nas obras
dos intelectuais por ele citados e por outros que vêm se dedicando a interpretar as recentes
mudanças mais amplas de nossa sociedade, dentre eles o próprio Oliveira(1998, ) e Martins
(1997, 2002).
Temos claro então, que uma reflexão sobre o desencontro no Brasil exige que se
recupere determinadas experiências históricas de nossa formação social. Sposati nos indica
algumas delas quando discute exclusão social:

Trazer o tema da exclusão social para o Brasil significa demarcar que a análise
se dará em uma sociedade colonizada, que já partiu do conceito discriminador
entre colonizador e colonizado. Ser trazido para a colônia era um castigo de
degradação para alguns portugueses. Tratava-se, portanto, de um território de
segregação – e exploração de riquezas, é claro, para os comerciantes e
exploradores.

Mais ainda: trazer o tema para o Brasil é somar a essa cultura o processo de
escravidão que seqüestrou a condição humana à elite e fez de negros e índios
objetos de demonstração de riqueza (1999: 130).

129 A interpretação de Rancière refere-se à sua concepção de política, como a reivindicação da parcela dos
que não têm parcela, desentendimento em relação a como se reparte o todo. Francisco de Oliveira inspira-se
em Jacques Rancière para analisar o Estado do Bem Estar Social e suas contradições, bem como os
processos políticos no Brasil. A obra em questão, de Rancière, é O Desentendimento, São Paulo: Editora 34,
1996.

227
A experiência do escravismo brasileiro forjou formas de sociabilidade e dominação
que não foram desarticuladas com a expansão do capitalismo no país e a constituição do
Estado burguês o que, de diferentes formas é analisado nos autores acima mencionados por
Francisco de Oliveira. Com isso, o que queremos destacar é que os processos de exclusão
no Brasil, ainda que se configurando a partir da formação do capitalismo, delinearam-se
num solo histórico cuja tessitura encontrava-se marcada pela sociabilidade e cultura
produzidas pela escravidão, bem como pelos conflitos e lutas aí produzidos.
Podemos identificar tal movimento nas mudanças ocorridas nas últimas décadas do
século XIX, quando se dão a crise do escravismo, o estabelecimento de novas formas de
exploração do trabalho e a redefinição das estruturas de dominação política. Mesmo com a
escravidão mostrando sinais evidentes de desagregação, a noção de pobreza, por exemplo,
continuava a mover-se dentro dos parâmetros do sistema agrário escravista-mercantil pois
“ser pobre significava, entre outras coisas, não ter escravos” (Fragoso 1990: 148). A força
destes parâmetros do sistema escravista se traduz também nas idas e vindas do chamado
processo de “abolição progressiva”, onde destaca-se a constituição das modalidades de
trabalho livre, ainda presas a uma cultura produzida pela sociedade escravista. 130
Kowarick, analisando a formação do mercado de trabalho livre no Brasil, ressalta
que os homens livres resistiam a formas de trabalho sistemáticas que eram vistas como
alternativas degradadas de existência. O trabalho regular na fazenda era tomado como
aceitação da condição servil e preterido pela sobrevivência autônoma.

Nessa situação em que todas as atividades se baseiam no trabalho compulsório,


em que agregados ou camaradas são freqüentemente tratados como escravos e
pequenos proprietários ou posseiros são sumariamente expropriados ou
expulsos, restam poucas alternativas para o crescente contingente de livres e
libertos que, historicamente, iria se avolumando às margens de uma sociedade
altamente dicotomizada e excludente. (1987: 68)

130
Os contratos de locação de trabalho, que marcam as primeiras experiências com a mão de obra imigrante,
tinham como pressuposto fixar a mão-de-obra na propriedade cafeeira e impedir seu acesso à propriedade da
terra, e demonstram que tais modalidades de trabalho “livre” não passavam de um regime disfarçado de
escravidão branca. (Gorender 1980; Kowarick, 1987). Alguns autores destacam que os brasileiros livres
pobres representaram um papel marginal no então pólo dominante da economia (particularmente, nas áreas
em expansão do café em São Paulo) e abordam a rejeição da classe senhorial à utilização da mão livre
nacional em substituição à mão de obra escrava já que havia então grande dificuldade de se mobilizar o
trabalhador livre brasileiro, transformando-o em força de trabalho para a lavoura (Conrad 1978; Kowarick,
1987

228
A autor avalia ainda que a ideologia da “vadiagem” veiculando a imagem da
preguiça e indolência deste trabalhador, e sua inaptidão para o trabalho, foi um fator
reiterado pela elite senhorial da cafeicultura paulista, a fim, de inicialmente, reproduzir a
escravidão, e depois criar oferta abundante de mão obra imigrante. E conclui: “para tanto,
era necessário depreciar os nacionais, isto é, retirar-lhes as possibilidades de trabalho
recriando as condições materiais de sua marginalização e atribuindo-lhes as pechas de
indolentes e indisciplinados” (1987: 112).
Com a abolição da escravatura, quando todos tornaram-se formalmente livres, a
marginalização do trabalhador nacional permaneceu. Onde não houve a utilização do
imigrante, ele foi incorporado às tarefas produtivas, mas para onde acorreram imigrantes,
especialmente as áreas mais dinâmicas da cafeicultura paulista, ele continuou relegado a
uma posição marginal:

Serviu de reserva de trabalho para as atividades mais degradadas e mal


remuneradas, e reproduziu sua necessidade de trabalhar na medida em que
conseguia viver sem se submeter a um trabalho continuado, ainda fortemente
marcado pelas barbaridades do cativeiro (Kowarick 1987 :116)

As formas de trabalho que substituíram a cativa, que já existiam antes mesmo da


Abolição, caracterizaram-se por um baixo nível de monetarização e o uso gratuito do
trabalho familiar, o que permitia aos donos de terras a redução de seus custos e uma maior
resistência frente às flutuações no mercado internacional. O fato garantia a “reiteração de
elementos da estrutura econômico-social preexistente à abolição, como por exemplo, a
hierarquia social, com o seu elevado grau de diferenciação e concentração de riquezas”
(Fragoso 1990: 159).
Sabemos ainda que a abolição não trouxe mudanças significativas para a inserção
social dos negros. Chalhoub lembra que o negro passou de escravo a trabalhador livre, sem
mudar, contudo, sua posição relativa na estrutura social. Analisando os dados referentes à
estrutura ocupacional da cidade do Rio de Janeiro em 1890, destaca que 48% dos não
brancos economicamente ativos empregavam-se em serviços domésticos, 17% na
indústria, 16% não tinham profissão declarada e o restante encontrava-se em atividades
extrativas, de criação e agrícola (1986: 51).

229
Se nos voltarmos para as modificações que se processavam no campo político,
verificamos que a República não implicou em transformações no que se refere à estrutura
de dominação no país. O sistema federalista então implantado proporcionou um maior
acesso dos interesses regionais e de classe ao centro do poder. Porém, como sabemos, não
desdobrou-se numa democratização política. Carvalho mostra como a República fez muito
pouco em termos de expansão de direitos civis e políticos. Algumas mudanças ocorridas
apontavam para uma desconcentração de poder, mas, como não vinham acompanhadas de
uma expansão significativa da cidadania política, resultaram em entregar o governo mais
diretamente nas mãos dos setores dominantes, tanto rurais quanto urbanos (1987: 45).
Como lembra Fragoso:

As classes subalternas continuavam destituídas de parte substancial de seus


direitos de cidadania. No campo, esta situação se traduziria no fortalecimento
do mandonismo local (coronelismo), o que só reforçava os aspectos não
econômicos presentes nas novas relações de produção (1990: 151)

Com as reflexões acima queremos lembrar que a constituição do desencontro do


Brasil se dá dentro de determinados marcos que antecedem o desenvolvimento do
capitalismo no país. Marcos que não são “heranças aprisionadoras”. Não estamos falando
aqui de uma sociedade cujos males foram determinados pelo fato de ter sido ela colonizada
e escravista. Estamos falando de registros que se reatualizaram no tempo, assumindo
novos significados, ao serem incorporados à tessitura de formas posteriores de dominação
interna e de inserção do país no movimento de internacionalização do capital. Afinal,
recuperando uma avaliação de Martins:

Quando a riqueza se modernizou ao longo do século XIX e, sobretudo, nas


décadas finais daquele século, não se modernizou por ações e medidas que
revolucionassem o relacionamento entre riqueza e o poder, como acontecera na
história da burguesia dos países mais representativos do desenvolvimento
capitalista. Ao contrário, na sociedade brasileira, a modernização se dá no
marco da tradição, o progresso ocorre no marco da ordem. Portanto, as
transformações sociais e políticas são lentas, não se baseiam em acentuadas e

230
súbitas rupturas sociais, culturais, econômicas e institucionais. O novo surge
sempre como um desdobramento do velho(...) (1994: 30) 131

Modernização no marco da tradição, no marco da ordem...Tais idéias nos parecem


fundamentais ao entendimento da mudança histórica no Brasil, e em particular na
configuração do que viemos chamando de desencontro. Apresentam-se nos autores citados
por Francisco de Oliveira através de conceitos, noções e concepções que, de diferentes
formas, convergem, indicando a forma através da quais a mudança se opera em nosso país,
sempre sem grandes rupturas, e repondo um tecido social marcado pela concentração de
poder e riqueza e por uma estrutura social fortemente hierarquizada. Mas o que queremos
aqui destacar também é o que se encontra por detrás destas transformações lentas,
recorrendo aqui ao termo usado por Martins. A este respeito, nos parece válido recordar a
proposta de Walter Benjamim, que sugeria que o historiador trabalhasse como o físico na
desintegração do átomo, com o fim de liberar as enormes forças que ficaram presas na
explicação linear da história que teria sido “o narcótico mais poderoso do nosso século” 132 .
Um trabalho que envolve, usando um termo do mesmo autor, “pentear a história a
contrapelo”.
De certa forma, é uma perspectiva que aparece na já citada análise de Francisco de
Oliveira que avalia que a formação da sociedade brasileira é um processo complexo de
“anulação da política, do dissenso, do desentendimento”. Assim, o movimento que vai
tecendo a “modernização no marco da tradição”, é também um movimento de “destituição
da fala”, de “anulação da política”, do “desentendimento”, da anulação “da reivindicação
da parcela dos que não tem parcela”, da reiterada negação do conflito.
O que estamos aqui dizendo pode ser percebido no já referido processo que marcou
a crise do escravismo e a redefinição das estruturas de dominação em fins do século XIX e
início do XX.
Abordando o processo de abolição da escravidão na corte, Chalhoub nos mostra as
lutas e o significado deste processo histórico para a massa enorme de negros, que
“procurou cavar seu caminho em direção à liberdade explorando as vias mais
institucionalizadas da escravidão (...) O fato de muitos escravos terem seguido este

131 Grifos do autor.


132 Citado por Fontana (1998: 276), sendo que a fonte do autor é Walter Benjamin, Paris, capitale du XIXe
siècle. Le Livre des passages I, Editions du Cerf, 1989, p.480.

231
caminho não significa que eles tenham simplesmente 'espelhado' ou 'refletido' as
representações de seus 'outros' sociais" (1990: 252). Concebe, portanto, as percepções e
lutas dos negros como forças instituintes do político. Aliás, é este também o sentido da
"cidade negra", “cidade arredia e alternativa”, instituída por escravos, libertos e negros
livres pobres ao longo de sua luta contra a escravidão na corte:

é o engendramento de um tecido de significados que politiza o cotidiano dos


sujeitos históricos num sentido específico - isto é, no sentido da transformação
de eventos aparentemente corriqueiros no cotidiano das relações sociais da
escravidão em acontecimentos políticos que fazem desmoronar os pilares da
instituição do trabalho forçado (186).

O autor lembra, que na cidade negra, os cortiços tinham especial significado, já que
eram nestas habitações coletivas que muitos negros livres, libertos e mesmo escravos
moravam, ou viviam com suas amásias, e iam encontrar auxílios e solidariedades para
realizar o sonho da compra da alforria (1986). Por isso, a demolição do famoso cortiço
carioca, o Cabeça de Porco, foi também um ataque à cidade negra. Com esta demolição, e
de outros cortiços, os republicanos atacavam a memória histórica da busca da liberdade,
desmontavam cenários, esvaziavam significados penosamente construídos na longa luta da
cidade contra a escravidão (Chalhoub, 1996).
A “instituição da política” e o mesmo “ataque” se coloca em outros tantas
experiências de luta que foram destituídas de fala, e cujos indícios tem sido recuperados
por aqueles que escavam as “forças que ficaram presas na explicação linear da história”.
Experiências de lutas populares nas cidades, como a revolta da Vacina, ou no campo, como
Canudos e Contestado. Ou que marcaram os movimentos dos operários do início do século
passado por melhores condições de trabalho. Em todos estes movimentos, o que vemos é o
combate à “política”, ao “desentendimento”, da “reivindicação da parcela dos que não tem
parcela”.

232
O desencontro no Brasil

Em nosso país, o tom sombrio do desencontro entre o econômico e social encontra


suas raízes no processo através do qual o capitalismo se desenvolve, num modelo
concentracionista, cujas possibilidades históricas localizam-se aqui. Ainda que integrada
ao mundo global, a acumulação urbano-industrial busca alimento na particular experiência
histórica da sociedade brasileira e na composição de forças sociais que integravam as
estruturas de dominação que vão se constituindo no período que se segue ao fim da
República Oligárquica. Combatendo as teses cepalinas, Oliveira analisa o processo,
destacando o fato de que a crise dos anos 30, em todo o sistema capitalista “criou o vazio”
mas não a alternativa de rearticulação da reprodução de capital.

(...) a expansão do capitalismo no Brasil repousará essencialmente na dialética


das forças sociais em pugna; serão as possibilidades de mudança no modo de
acumulação, nas estruturas de poder e no estilo de dominação, as determinantes
do processo. No limite, a possibilidade significará estagnação e reversão à
economia primário-exportadora. Entre estas duas tensões, emerge a revolução
burguesa no Brasil. O populismo será sua forma política, e essa é umas
especificidades particulares da expansão do sistema. (Oliveira 1981: 39).

A avaliação trazida por Francisco de Oliveira nos sugere alguns caminhos para
pensar o desencontro entre o econômico e o social no Brasil. Começamos por aquilo que,
habitualmente, é anunciado como início de tudo: a determinação trazida, ao modelo de
acumulação adotado e sua dinâmica, pelo papel subordinado do país no sistema mundial.
É importante destacar que a industrialização tardia, potencializou a acumulação
que dispunha, ao nível do sistema mundial, de uma imensa reserva de “trabalho morto” que
sob a forma de tecnologia era transferida para os países em processo de industrialização.
Não era preciso então esperar que o preço da força de trabalho se tornasse alto para induzir
as transformações tecnológicas que economizam trabalho (Oliveira 1981). Um processo
que, como sabemos, só reforçou o descompasso entre o econômico e o social já que
favoreceu a produtividade da inversão de capital e sua concentração, provocando, em
contrapartida, a compressão dos salários no setor industrial e expulsão crescente da mão de
obra, com seu alojamento precário no setor de serviços.

233
Mas talvez seja necessário pensar tal determinação com reservas. Se considerarmos
as colocações do autor, podemos conceber o posicionamento do país enquanto campo de
ação dentro do qual os agentes sociais se movem. A hegemonia dos países centrais dentro
do sistema capitalista implicava limites. Mas estes vão ser “contabilizados” e mesmo
explorados no modelo através do qual se articula o modelo de acumulação. Por isso, cabe
perguntar até que ponto tais limites determinavam as possibilidades de ação? Não nos
parece que esta seja uma questão que faça parte da história do passado pois, a despeito das
significativas mudanças pelo qual o mundo capitalista passou a partir de então, a resposta à
pergunta pode nos ajudar a clarificar aspectos de nossa experiência atual, quando então
costuma-se atribuir todos os nossos males a um modelo econômico imposto pela
globalização, deixando de lado as contradições que vem implicando na composição de
forças dominantes internas e seu interesse neste novo modelo 133 .
Se consideramos a análise, acima, do autor, as possibilidades históricas da
mudança de eixo da economia brasileira, com o avanço da acumulação urbano-industrial
estiveram aqui, na composição de forças sociais, traduzidas no populismo que, como o
autor nos lembrou, foi a forma política através da qual a burguesia no Brasil chegou ao
poder, configurando uma teia de compromissos. Com aqueles que haviam perdido sua
hegemonia, mas que ainda constituíam-se na principal fonte de divisas necessárias ao novo
modo de acumulação: as classes proprietárias rurais. E com os trabalhadores urbanos, que
pressionavam por mudanças e ainda chegavam às cidades, nos processos migratórios,
acenando com as possibilidades de explosão social. E que também iam se constituindo
num apoio fundamental na aliança contra as classes proprietárias rurais 134 .
Sabemos que o longo caminho que marca a construção das estruturas que
sustentavam a teia de compromissos apresentou diferenciações. No Estado Novo, envolveu
uma complexa montagem que “inscreveu as relações sociais na ossatura do Estado” e

133 A referência de alguns daqueles que pensavam o Brasil era o padrão de desenvolvimento dos países
centrais, o que os impedia de perceber a especificidade do modelo de acumulação aqui, atribuindo sua
dinâmica a determinações vindas substancialmente de fora, desde a época dos tempos coloniais. Toda a
discussão de Francisco de Oliveira no trabalho que usamos como referência, A Economia Brasileira: crítica à
razão dualista, publicado pela primeira vez em 1972, se deu em contraposição a tal visão, particularmente das
teses do CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina). O autor também chega a indicar os limites
da teoria da dependência, mesmo reconhecendo sua formulação correta, afirmando que “ela não dá o devido
peso à possibilidade teórica e empírica que se expanda o capitalismo em países como o Brasil ainda quando
seja desfavorável a divisão internacional do trabalho do sistema capitalista como um todo” (1981: 13).
134 Francisco de Oliveira chama atenção para o fato de que a aliança da burguesia com os trabalhadores não
é apenas uma derivação “da pressão das massas” mas uma necessidade de a primeira evitar que a economia,
após a Guerra e com o boom dos preços do café e de outros produtos agropecuários, se revertesse e
obstaculizasse a mudança do eixo da acumulação (1981, p.40)

234
desmantelou as formas tradicionais de ação política: houve aqui a criação de mecanismos
diretos de interlocução com o poder, construindo-se toda a estrutura corporativista, e a
montagem de interventorias/departamentos que interligavam os estados ao poder federal,
enfraquecendo as antigas situações locais e dando ao último maior autonomia (Mendonça
1990).
Após a “Era Vargas”, a domesticação do político reatualizou-se e, a despeito do
vigor dos partidos, a forma predominante de relação com o poder ainda passava por canais
de mediação diretos, num movimento que pressupunha amplas articulações e mobilizações
de massa em torno de temas nacionais e que vinha acompanhado da relação de favor, tutela
e clientela e onde o direito aparece com favor e privilégio.
De acordo com Francisco de Oliveira, o movimento que anulou e transformou as
organizações dos trabalhadores - sociedades de ajudas mútua e sindicatos, de várias
tendências- em Institutos de Previdência e nos sindicatos tutelados , foi uma “operação de
silêncio, de roubo da fala”. Uma operação que “se sintetiza na busca da ‘harmonia social’”,
e “é bem o signo da anulação da política” (2000: 61).
Vera Telles examinando o que chama “paradoxo da sociedade brasileira” – “que
desfez as regras da República oligárquica, que desencadeou um vigoroso processo de
modernização econômica, social e institucional, mas repôs a incivilidade nas relações
sociais” – destaca que no pós 30, a concessão dos direitos trabalhistas e a montagem do
sistema de proteção social tiraram a população do arbítrio do poder patronal para jogá-la
por inteiro sob a tutela estatal. Inspirando-se em Wanderley Guilherme dos Santos, analisa
o particular modelo de cidadania dissociado dos direitos políticos e também das regras de
equivalência jurídica, onde o cidadão como indivíduo não tem identidade e figura próprias:
a verdadeira figura da cidadania é o sindicato, detentor dos direitos e canal através do qual
o trabalhador pode ter acesso aos benefícios sociais garantidos pelo Estado. No âmbito
deste modelo, aqueles que não tem vínculos legais com a corporação encontram-se
mergulhados numa “existência percebida como impermeável à regulação estatal e que, por
isso mesmo, não existem para efeito legal”. Os direitos sociais, garantidos através dos
vínculos profissionais, não universalizam-se e produz-se uma clivagem que transforma em
não cidadãos os que escapam às regras do contrato, os que não tem pertencimento cívico,
“são os pobres, figura clássica da destituição”. A pobreza configura-se aqui como condição
natural, onde homens e mulheres se vêem privados de suas identidades já que
homogeneizados na situação estigmatizadora da carência.

235
(...) nisso que se explicita o aspecto mais desconsertante da sociedade
brasileira, uma sociedade que carrega uma peculiar experiência histórica na
qual a lei, ao invés de garantir e universalizar direitos, destitui indivíduos de
suas prerrogativas de cidadania e produz a fratura entre a figura do trabalhador
e o pobre incivil. Chama sobretudo a atenção uma lei que, ao proclamar
direitos sociais, sacramenta desigualdades, repõe hierarquias pelo viés
corporativo e introduz segmentações que transformam em pré-cidadãos todos
os que não têm a posse da carteira de trabalho (Telles 1999: 92)

A montagem de tal modelo de cidadania, inscrito na teia de compromissos do


Estado, teve papel fundamental na aceleração do processo de acumulação urbano-industrial
e traduz o lugar particular da Estado na configuração desencontro entre o econômico e
social em nosso país. O Estado que atuou diretamente na configuração das novas estruturas
de dominação, na acumulação urbano-industrial e na formação do mercado de trabalho.
O modo de acumulação articulado depois de 1930 e acelerado no pós guerra, trazia
algumas particularidades, a começar pelo processo de mercantilização da força de trabalho
que conta, logo de início, com a participação fundamental do Estado, através da legislação
trabalhista que favorece a conversão de enormes contingentes populacionais em “exército
de reserva”. Com isso, sua intervenção “igualou reduzindo – antes que incrementando – o
preço da força de trabalho” e afastou as possibilidades de que os salários de algumas
categorias operárias especializadas subissem. (Oliveira 1981: 17).
Francisco de Oliveira destaca ainda que o Estado operou na fixação de preços e na
distribuição de ganhos e perdas entre os diversos estratos capitalistas. Na esfera da
produção, subsidiou atividades produtivas e investiu na produção e na infra-estrutura
necessária à acumulação. Enfim, constituiu-se no eixo através do qual foi possível
transferir recursos e ganhos para a empresa industrial e viabilizar o funcionamento do
sistema de forma não automática e livre das regras do mercado (1981).
Este processo que marca a particular ação do Estado, somado a outros elementos,
tem implicações na concentração de renda na economia brasileira. Está mesmo no centro
do descompasso que atravessa nossa sociedade pois se é verdade que o capitalismo é
marcado pelo atraso do social em relação ao econômico, aqui o econômico acelerou-se
“queimando etapas”, mediado pelo Estado.

236
O impacto desta mediação na configuração das cidades que então cresciam não foi
pouco. A “captura” dos recursos públicos, desviados fundamentalmente para fins da
acumulação, com retração de investimentos na infra-estrutura e serviços urbanos, reforçou
a dilapidação da força de trabalho, fazendo crescer o grau de pauperização decorrente da
acumulação desenvolvida sob um padrão concentracionista. A exploração do trabalhador
abarcou então a esfera do Estado, traduzindo a já mencionada espoliação urbana
(Kowarick 1979).
É no âmbito das contradições deste padrão de acumulação do capital, e do lugar que
o Estado aí ocupa, que se pode localizar o surgimento e afirmação no espaço urbano das
favelas e outras formas precarizadas de moradia. É aí também que se inscreve a gênese do
que já chamei aqui de terreno da fronteira, o mundo de iniciativas sociais desenvolvidas
nas favelas cariocas, onde se insere o trabalho social dos moradores destas localidades.
Na verdade, todos os recursos investidos na criação das condições institucionais e
na infra-estrutura de apoio à acumulação urbano-industrial e à transferência de rendas e
subsídios para o setor industrial significaram o repasse de uma grande parcela da riqueza
social produzida e não se fez sem ônus para o conjunto da sociedade brasileira, e em
particular para os trabalhadores, tanto os que encontravam-se na cidade, submetidos ao
salários nivelados por baixo ou engrossando o exército de reserva, quanto aqueles outros
que viviam no campo, onde a legislação trabalhista sequer havia chegado.
E, aqui, ao evocarmos o universo do campo, voltamos ao movimento através do
qual o capital opera recriando o “arcaico” e incorporando-o à sua dinâmica, produzindo o
desencontro de tempos e realidades que foram percebidas como uma verdadeira
ambigüidade e a expressão mais acabada de dois mundos separados, em uma dualidade
que, no Brasil, se tornou famosa ao opor os dois Brasis, o moderno e o arcaico 135 .

135 A imagem dos dois Brasis, refere-se ao livro de Jacques Lambert, Os dois Brasis, de 1960. A visão
dominante na época era então que os problemas das sociedades em modernização eram uma espécie de
distúrbio provocado pela presença do arcaico. A questão da marginalidade tem suas raízes neste contexto e
era associada à discussão da modernização. A marginalidade era concebida como fruto de distúrbios do
processo de modernização e os grupos marginais, como não integrados ao sistema social. Nesta perspectiva, a
modernização pela qual passavam determinados países latino-americanos produzia certas desarticulações e
rupturas, pois desorganizava estruturas sociais preexistentes mas não atingia todos segmentos da sociedade,
deixando persistir então o tradicional e o arcaico. Daí surgirem desajustes, que são assim definidos a partir de
um modelo de desenvolvimento, organização e conduta, tido como “moderno” (urbano-industrial) mas que
eram, contudo, passíveis de ser resolvidos com a integração do “arcaico” (campo) pelo “moderno”. Tanto a
discussão da marginalidade, assim colocada, quanto a teoria da modernização, tiveram vida longa e grande
impacto sobre o debate e as políticas implementadas no combate aos problemas que apareciam no urbano.
Eder Sader e Maria Célia Paoli chamam atenção para o fato de que “a teoria da modernização oferecia,
mesmo que criticada, um referencial temático por onde se pensar o impacto do momento histórico e a
atmosfera de transição vivida (...) repensar o papel de cada agente social na produção e na adaptação aos

237
Na verdade, outra particularidade do padrão de acumulação foi a conciliação
existente entre a agricultura e a indústria, e o papel desempenhado por esta última neste
processo. A despeito de o novo padrão implicar no confisco de parte da renda vinda do
setor agrícola, “isso foi compensado até certo ponto pelo fato de que esse crescimento
industrial permitiu às atividades agro-pecuárias manterem seu padrão ‘primitivo’, baseado
numa alta taxa de exploração da força de trabalho” (Oliveira 1981: 23).
O campo, mergulhado numa espécie de penumbra, permanecia prisioneiro de
formas de produção “arcaicas”. Contudo, tais formas de produção, especialmente nas áreas
de fronteira e de ocupação, eram responsáveis pelo rebaixamento dos preços dos produtos
agrícolas que chegavam às cidades, suprindo as necessidades da população que, como
sabemos, sobrevivia com salários comprimidos. E ainda, o “arcaico” contribuía para
rebaixar os custos das matérias-primas para a indústria. Isso sem falar, na já mencionada
transferência de recursos para a indústria (via redistribuição operada pelo Estado) que
provinha principalmente das rendas da exportação.
Desta forma, aquilo que parecia dualidade, tratava-se mesmo de um processo
integrado, através do qual era possível viabilizar a reprodução do capital. Não deixou,
porém, de contribuir para o descompasso histórico entre o progresso material e o social,
alimentando o crescimento industrial e a modernização urbana mas recriando de forma
ampliada a miséria no campo e produzindo, nas cidades, formas de inclusão precária no
processo de trabalho e no espaço urbano.
Esta conexão entre “o arcaico” e “o moderno”, na verdade, marcou também, de
várias formas, a paisagem das metrópoles que se formavam. Estava no centro da
articulação entre a indústria e o chamado setor de serviços que “inchava”, tirando o sono
dos analistas do social e da economia, que esforçavam-se para compreender o motivo do
distúrbio, que afastava o crescimento industrial brasileiro dos outros modelos. Numa
dinâmica semelhante àquela que se operava com a agricultura, o “inchamento” do terciário
favoreceu a acumulação industrial, criando a infra-estrutura urbana e de serviços de forma
acelerada, contribuindo para rebaixar os custos de reprodução da força de trabalho e
incentivando o circuito do capital. Com efeito, segundo a interpretação de Francisco de
Oliveira, o crescimento não-capitalístico do terciário vinha mesmo resolver uma das

novos tempos que viriam. (...) Ao lado da percepção histórica de uma transição, os pesquisadores acadêmicos
contavam com o referencial modelar dos países de industrialização clássica, com o instrumental analítico da
sociologia industrial americana e, centralmente, com as proposições marxistas sobre a classe operária. Alguns
destes autores dialogavam também, implicitamente, com o imaginário das correntes de militância política da
época”. (Sader & Paoli 1988: 48)

238
contradições do crescimento industrial no país que por um lado, levava à urgente
necessidade de investir na infra-estrutura e serviços nas cidades, mas por outro lado,
ressentia-se da falta de recursos para isso, já que aqueles que estavam disponíveis eram
deslocados fundamentalmente para a indústria.

(...) a aparência de “inchação” esconde um mecanismo fundamental da


acumulação: os serviços realizados à base de pura força de trabalho, que é
remunerada a níveis baixíssimos, transferem, permanentemente, para as
atividades econômicas de corte capitalista, uma fração do seu valor, “mais-
valia” em síntese. Não é estranha a simbiose entre a “ moderna” agricultura de
frutas, hortaliças e outros produtos de granja com o comércio ambulante? Qual
o volume de comércio de certos produtos industrializados – o grifo é
proposital – tais como lâminas de barbear, pentes, produtos de limpeza,
instrumentos de corte, e um sem número de pequenos objetos, que é realizado
pelo comércio ambulante das ruas centrais de nossas cidades? Qual é a relação
que existe entre o aumento da força de veículos particulares em circulação e os
serviços de lavagem de automóveis realizados braçalmente? Existe alguma
incompatibilidade entre o volume crescente da produção automobilística e a
multiplicação de pequenas oficinas destinadas à re-produção dos veículos?
Como explicar que todos os tipos de serviços pessoais cresçam mais
exatamente quando a indústria recupera seu dinamismo na recuperação de
empregos e quando todo um processo se cristaliza- conforme os resultados do
censo demográfico – numa distribuição de renda mais desigual? Esses tipos de
serviços, longe de serem excrescências e apenas depósito do “exército
industrial de reserva” são adequados para o processo de acumulação global e
da expansão capitalista, e por seu lado, reforçam a tendência à concentração de
renda (Oliveira 1981: 34) 136 .

A análise do autor fala de um outro lado, que estava fora do horizonte de muitos
analistas que interpretaram as mudanças econômicas e sociais no Brasil contemporâneo e
que parece ainda possuir atualidade, a despeito das mudanças trazidas pelas duas últimas

136
Grifos do autor

239
décadas. O que nos sugere Francisco de Oliveira, para além da já destacada conexão entre
os dois setores e o papel fundamental do terciário na reprodução do capital, é que muitos
daqueles que vagueavam pelos “serviços”, longe de serem marginais, ou não estarem
integrados ao desenvolvimento capitalista, encontravam-se nele incluídos, ainda que de
forma precária. E ainda, sua inclusão precária não relacionava-se à diminuição do ritmo
industrial. Na verdade, o crescimento do setor, e do número de trabalhadores que nele se
localizavam, acompanhava a expansão da indústria e dos empregos oferecidos neste setor.
Desta forma, podemos compreender que o terciário não “inchou” no país apenas em função
da falta de empregos no setor industrial, que incorporando alta tecnologia, não absorvia
grande parte da mão de obra disponível. A equação de movimento do mercado de trabalho
era mediada pelo próprio dinamismo do setor, que tem uma função importante no processo
de acumulação global.
Bem, esta nunca foi uma questão menor no estudo do desenvolvimento do
capitalismo no Brasil e também das tramas que alimentam a sociabilidade capitalista em
nosso país. Possivelmente, menos ainda é hoje, quando o setor de serviços cresceu ainda
mais, abrigando por todo o país um contingente imenso de trabalhadores informais, que
atualmente, por exemplo, representam quase a metade da população ocupada que trabalha
e/ou mora na cidade de São Paulo (Jakobsen, Martins & Dombrowski 2000).
A importância do tema revela-se especialmente no fato de que seu padrão
“arcaico”, vem servindo como referência para definir o trabalho formal, como afirma
Castel (1998) e o próprio Francisco de Oliveira, ao recordar que “ bem observadas,
polivalência e flexibilização, e até mesmo uma autonomia perversa podem ser encontradas
em qualquer trabalhador desempregado que se ocupa de atividades, que variam
semanalmente” (2000). A respeito do tema, Bourdieu também avalia:

A precariedade se inscreve num modo de dominação de tipo novo, fundado na


instituição de uma situação generalizada e permanente de insegurança, visando
obrigar os trabalhadores à submissão, à aceitação da exploração. Apesar de
seus efeitos se assemelharem muito pouco ao capitalismo selvagem nas
origens, esse modo de dominação é absolutamente sem precedentes, motivando
alguém a propor aqui o conceito ao mesmo tempo muito pertinente e muito
expressivo de flexexploração (1998).

240
Sabemos, porém, que toda esta “epopéia do capital” não tem significado ausência
de protestos e construções que sempre indicaram apostas no presente, e também em tempos
melhores. A história do país no século que ficou para trás foi atravessada por lutas
daqueles que questionavam as desigualdades e buscavam o fim de suas privações. Muitas
ainda estão entre nós, na penumbra, talvez. A própria narrativa “oficial”, ao ser
interrogada, se trai ao documentar os dados que nos recordam o tanto de violência e
manobra que foram precisos para que a coesão social não se rompesse, as estruturas de
dominação não explodissem e nosso descompasso histórico se sustentasse. “De 1930 para
cá, em cada três anos média, houve um golpe ou tentativa de golpe no Brasil (...) Uma
exclusão no campo de direitos, a partir da qual se interroga e contesta o outro” (Oliveira
2000 b).
Como o próprio Francisco de Oliveira lembra, “a política é uma invenção das
classes dominadas” (2001). E nada nos revela melhor o fato do que os movimentos que
tomaram conta do país desde a segunda metade da década 70. Tecidos nos subterrâneos do
regime militar e em meio a suas experiências e práticas cotidianas nos espaços de trabalho,
moradia e sociabilidade, tais movimentos emergiram, interrogando nossa sociedade ao
trazer novas formas de ação política e colocar “novos personagens” em cena, para usar a
famosa expressão de Eder Sader (1988). E na travessia de situações de conflito, vividas
enquanto limite do desencontro, deixaram a esfera local para localizar este desencontro
onde ele é reproduzido, na teia mais ampla da sociedade e interpelar aquele que se coloca
como árbitro dos conflitos, o Estado (Cunha1995).
A construção democrática e a criação de uma esfera pública, de disputa e
publicização do conflito, em suas contradições, avançava interrogando o Estado e o
autoritarismo, bem como os velhos mecanismos de poder que atravessam nossa sociedade.
Com isso, “nossa velha e nunca resolvida questão social” ganhou dimensão institucional
evidente. Foi se construindo uma trama social que ia mapeando e explicitando campos
diversificados de conflitos, fazendo circular a linguagem dos direitos, desprivatizando
carências e necessidades, projetando-os no cenário público como questões pertinentes à
vida em sociedade (Telles 1999).
Mas tudo, de repente, pareceu escorregar por nossas mãos, instaurando-se uma
enorme perplexidade. Recorrendo mais uma vez a Vera Telles:

241
Perplexidade diante de uma década inaugurada com a promessa de redenção
para os dramas da sociedade brasileira e que se encerrou encenando aos olhos
de todos os espetáculo de uma pobreza talvez jamais vista em nossa história
republicana, uma pobreza tão imensa que se começa a desconfiar que esse país
já ultrapassou as fronteiras da vida civilizada (1999:82)

A nova desigualdade, no modo de dominação do tipo novo

Certo! A recriação de antigas pobrezas e produção de novas é parte constitutiva do


desencontro entre o econômico e o social presente nas sociedades capitalistas. O papel
particular assumido pelo Estado, fazendo avançar este desencontro de forma ampliada, é
marca de algumas sociedades, como a nossa. E é em meio a este descompasso que são
criados “os sobrantes”, configuram-se lugares de “sobra”, os “infernos”, para usar as
palavras daquele morador, lá no início. Produzem-se dramas, experiências e conflitos
genericamente abrigados sob o tema da exclusão. E se produzem também formas de
“remendar” o desencontro. Formas de “fazer social”, que vão constituindo o amplo e
heterogêneo terreno da fronteira.
Mas, se por todos os cantos do mundo, a exclusão, compreendida em sua imagem
de desencontro entre o econômico e social, pareceu assumir maior dramaticidade nas
últimas décadas, a questão que ainda se coloca é qual a particularidade deste processo em
nossos dias? De que forma este desencontro tem se desenvolvido na atualidade? Por que
um tom tão dramático, bem traduzido nas palavras de Valda que eu aqui repito: o caráter
da pobreza mudou, estamos cada vez mais pobres.
A busca de uma resposta nos aproxima das novas formas de sociabilidade
capitalista, desenvolvidas no âmbito da reconfiguração do capitalismo a partir dos anos
70. 137 A chamada multipolarização, com o fortalecimento dos blocos econômico, bem
como as mudanças que se processaram no mundo socialista, não só traduziram, mas

137
É nesta época que configura-se um quadro de esgotamento do padrão de acumulação desenvolvido no pós
IIa guerra, cuja dinâmica referenciava-se no fortalecimento do bloco capitalista, através da reconstrução das
economias dos chamados países centrais e do incremento à "modernização" dos periféricos. Um padrão de
acumulação, onde o Estado assumia um lugar central na reprodução do capital e da força de trabalho,
favorecendo a acumulação e incorporando a "questão social", de forma a neutralizá-la. É dentro desta
perspectiva que deve ser entendido o "Welfare State", enquanto redefinição da hegemonia política burguesa,
tecida no âmbito de um conflito de classes, que aponta portanto não só para a necessidade de reprodução da
acumulação do capital mas igualmente para a pressão exercida pelas lutas dos trabalhadores.

242
imprimiram um reconfiguração de forças, a nível internacional. Articuladas a estes
processos, as mudanças na base produtiva, contribuíram para que se operasse uma nova
dinâmica na divisão internacional do trabalho, marcada pela transnacionalização. Aqui, se
agrava o descompasso histórico nos cantos periféricos do planeta, inclusive com sua perda
de poder de barganha política face ao fim da bipolarização. E é também produzida uma
nova pobreza nos chamados países centrais.
Em meio a tudo isso, é que se dá a chamada crise do "Welfare State", que na
perspectiva neo-liberal é entendida naquilo que é tão somente sua expressão - crise fiscal e
déficit público, sendo atribuída ao crescimento da esfera pública no que se refere à
reprodução da força de trabalho. Daí, as proposições neo-liberais de volta do Estado
mínimo, o que significa, de forma geral, por um lado um retrocesso nas conquistas sociais,
e por outro, a apropriação do fundo público apenas pelo capital (Oliveira 1998).
Francisco de Oliveira nos adverte que a principal contradição deste movimento de
internacionalização se dá na medida em que ele aponta para a desterritorialização do
investimento e da renda enquanto o padrão de financiamento da reprodução do capital e da
força de trabalho continua circunscrito a sua territorialidade (1998). Analisando a
tendência moderna do capital, chama atenção da “mudança radical na determinação do
capital variável”, que vai traduzir-se nas formas da terceirização do trabalho precário entre
nós:

O conjunto de trabalhadores é transformando em uma soma indeterminada de


exército da ativa e da reserva, que se intercambiam não no ciclo de negócios
mas diariamente. Daí, termina a variabilidade do capital antes na forma de
adiantamento do capitalista. É quase como se os rendimentos do trabalhador
agora dependessem do lucro dos capitalistas. Disso decorrem todos os novos
ajustamentos no estatuto do trabalhado e do trabalhador, forma própria do
capitalismo globalizado (2003:136)

Tal tendência conforma os processos excludentes, ou de inclusão precária e


ampliada de amplas parcelas da população. Processos que vêm se materializando nas
políticas econômicas atuais, que agem no sentido de incluir as pessoas, “estritamente em
termos daquilo que é racionalmente conveniente e necessário à mais eficiente (e barata

243
reprodução do capital). E também, ao funcionamento da ordem em favor dos que
dominam” (Martins 1997: 20).
Aqui, dá-se em escala violenta, o desencontro entre o social e o econômico, onde o
Estado cumpre um significativo papel, tal como na decolagem do processo de acumulação
urbano-industrial. Viabiliza a continuidade da acumulação dentro dos limites colocados
pela contradição referida por Francisco de Oliveira, operando através de um conjunto de
políticas, como a privatização das atividades estatais, com a desestatização de empresas
públicas e atividades administrativas; a desregulamentação, com a redução da atividade
reguladora do Estado na economia e nas relações de trabalho, em particular; a abertura ao
capital internacional, com a eliminação das reservas do mercado e do protecionismo (Saes
2001). É ainda dentro deste mesmo movimento, que podemos compreender a transferência
de responsabilidade sobre os serviços sociais para a sociedade, de forma geral, e para as
classes populares, em particular (Pinheiro 1996).
Analisando o caso do município de São Paulo, sob a administração de Paulo Maluf,
Jair Pinheiro destaca que tal processo implica a transferência para as camadas populares de
parcela dos custos de reprodução da força de trabalho, indicando as vias desta
transferência:

1) redução do montante despendido pela Prefeitura Municipal de São Paulo


(PMSP) para o fornecimento de algum serviço, que pode se efetivar através de
convênio; 2) criação de mecanismos de captação de recursos junto à
comunidade; 3) redução de custos por intermédio do rebaixamento da
qualidade do atendimento oferecido. (1996)

A realidade não se coloca de forma diferente no município do Rio de Janeiro, onde


o mesmo fenômeno atinge os serviços sociais já oferecidos à população e, de forma mais
geral, orienta as políticas sociais implementadas para atender a alguns dos problemas
fundamentais: educação e saúde, moradia, saneamento, emprego. Aqui, a inclusão precária
da população manifesta-se sob um padrão precário e extorsivo de serviço. Precário porque
insuficiente em termos de atendimento, acesso e qualidade. Extorsivo porque nele a
população é responsabilizada por seu estado de privação e é convocada a arcar com os
custos daquilo que deveria ser lhe oferecido como direito.

244
Antigas e novas pobrezas são pois, tradução de processos excludentes e de inclusão
precária, que, delineando novas formas de sociabilidade capitalista, atualizam o
descompasso histórico entre o progresso material e o progresso social. Neste quadro, a
precariedade se generaliza, se inscrevendo no modo de dominação de tipo novo, ao qual se
referiu Bourdieu.
O impacto destes processos é examinado por Castel (1998). Ele lembra que o
processo de precarização atinge áreas de emprego estabilizadas há muito tempo, sendo um
processo central, comandado pelas novas exigências tecnológico-econômicas da evolução
do capitalismo moderno. E neste sentido, não há uma razão para levantar uma nova
“questão social”. No entanto, o mesmo autor, em seu trabalho, preocupa-se em analisar
alguns aspectos que concorrem para a cristalização desta “questão”:
A desestabilização dos estáveis que atinge segmentos com posições relativamente
asseguradas, como parte da classe operária e assalariados da pequena classe média;
A instalação na precariedade, traduzindo “trajetórias erráticas”, caracterizadas por
uma “mobilidade feita de alternância de atividades e de inatividade, de virações provisórias
marcadas pela incerteza do amanhã”;
Um déficit de lugares ocupáveis na estrutura social, ou seja, posições às quais estão
associados uma utilidade social e um reconhecimento público; são trabalhadores que estão
envelhecendo, jovens que procuram o primeiro emprego, desempregados de longa data que
“passam até a exaustão e sem grande sucesso, por requalificações ou motivações”; ocupam
uma posição de supranumerários.
A realidade francesa é o foco do autor, mas suas indicações inspiram a
compreensão dos processos que atingem o mundo social em nosso país. Ao contrário de
alguns países do núcleo central do capitalismo que assistiram o desenvolvimento do
“Welfare State”, mesmo com todas as contradições que Castel aponta, a sociedade
brasileira, assim como outras sociedades de economia periférica, sequer conseguiu avançar
na trajetória da construção democrática e aí consolidar um campo de direitos sociais.
Como bem lembra Oliveira, somos a “vanguarda do atraso”, que “consiste em chegar aos
limites superiores do capitalismo desenvolvido, sem ter atingido seus patamares mínimos”
(1998: 208)
Isso amplia o horizonte de análise de tais processos, pois nos coloca diante de um
desafio que desloca a questão para além do âmbito da economia, onde aliás, este modo de
dominação mencionado por Bourdieu, nos seduz a permanecer, como que desviando nossa

245
atenção. O desencontro em curso, além de sugerir processos de “descarte” ou exclusão do
mercado e modalidades várias de inclusão precária, está indicando também um
desencontro no campo do político, em especial dos direitos: do próprio trabalho, mas
também sociais e políticos.

Toda vez que os direitos são transformados em “custo Brasil”, que a


estabilidade do funcionalismo, antes um requisito para a construção de um
Estado moderno, é transformada em explicação para a dilapidação financeira
do Estado, que direitos humanos, que incluem julgamentos e tratamentos iguais
para todos os cidadãos, incluindo-se os que cometem crimes, são
transformados em causação da violência e bárbarie, o que está em jogo é a
exclusão. Não no seu sentido mais pobre, de exclusão do mercado e do
emprego mas no seu sentido mais radical: o de que, agora, dominantes e
dominados não partilham o mesmo espaço de significados, o mesmo campo
semântico. Há uma negação - ou sua tentativa – da contestação no mesmo
campo de significados, o que dilui a política e o conflito. É uma forma radical
de administração, tal como a administração de um zoológico. (Oliveira 1998:
203)

O mesmo autor chama atenção para o fato de que as classes dominantes na América
Latina desistiram de integrar a população, seja à produção, seja à cidadania. Não integram,
nem mesmo, como ocorria em outros tempos, por mecanismos reificadores de exclusão,
traduzidos nos vários recortes no mercado de trabalho (negros, mulheres, índios, mestiços,
infância, cortes geracionais). O que se pretende é a segregação, o apartheid, com a criação
de um campo semântico em que os significados dos direitos e conquistas civilizatórias, são
transformados em fatores causais de miséria, pobreza e ausência de cidadania. “As classes
dominantes começaram a extravasar uma subjetividade antipública” que elabora, pela
comunicação mediática, uma ideologia antiestatal. Neste âmbito, é que configura-se as
tendências de metamorfose das democracias em totalitarismos, produzindo-se “a
impossibilidade do dissenso, da alternativa, do seqüestro do discurso e da fala
contestatória, da anulação da política” (1998).
Tudo o que levantamos aqui é coisa que faz pensar! O período em que a idéia de
exclusão passou a ser reforçada no Brasil, o início dos anos 90, foi marcado pelo mergulho

246
inconstestável do país nos chamados tempos neoliberais, de início, traduzido no Plano
Collor e, pouco depois, materializado com a chegada do Plano Real. Contudo, o mesmo
período marcou também o retrocesso político e social da construção democrática. No
entanto, de certa forma, o uso do termo aparece mais associado ao primeiro processo, que
atinge os núcleos dinâmicos da economia do país, espalhando-se por todos os outros
setores, produzindo e reproduzindo desemprego e empobrecimento em escala ampliada e
causando uma fratura na sociedade, ameaçando-a de uma verdadeira apartação social. E
com isso, ao longo dos anos 90 e na entrada deste novo século, a polêmica em torno da
exclusão foi configurando muito mais em torno dos custos econômicos e sociais da
inserção do Brasil na “nova ordem globalizada” do que dos desdobramentos político-
sociais do processo em andamento. Neste ponto, cabe nos interrogar até que ponto tal fato
acaba implicando numa delimitação do debate e atua como uma espécie de cortina de
fumaça, encobrindo uma das principais contradições deste mesmo processo: o crescente
esgarçamento da sociedade brasileira e o esvaziamento do espaço de debate público e dos
projetos de sociedade que então se gestavam, acenando com novas formas de construção
social e do fazer político. Se assim for, é possível nos perguntar ainda, se este movimento
não têm significado uma forma de captura do texto e dos padrões de ação “neo liberal” já
que, como lembra Tomáz Tadeu da Silva, “o discurso liberal acaba por fixar as formas
como podemos pensar a sociedade e, nesse processo, terminar por nos fixar, a nós próprios,
como sujeitos sociais” (1995).
Não nos parece coincidência que aquilo que era inimaginável, ao longo dos anos
80, agora se torne real e que vivamos aprisionados novamente, com os tanques mudando
de cara, assumindo a forma de planos econômicos, desmonte das instituições do Estado e
também de um imaginário aprisionador que nos imobiliza.

O peculiar dos dias que correm é que se trata de uma modernização que
desloca os termos pelos quais o país foi tradicionalmente pensado e alternativas
de futuro formuladas, em meio a uma crise que é também uma crise de
referências e parâmetros estabelecidos. Entre a destruição dos serviços
públicos, a erosão dos direitos do trabalho e a desmontagem de formas
estabelecidas de regulação social, há a desestruturação de referências reais e
simbólicas nas quais, para o bem ou para o mal, durante décadas se projetaram

247
esperanças de progresso e se organizaram os termos como o próprio país foi
problematizado e pensado em suas possibilidades de futuro (Telles 1999: 153)

...E movendo-se no desencontro

Se compreendida em sua dimensão contraditória, a temática da exclusão nos evoca


também os conflitos desenrolados ao longo deste processo e a manifestação concreta do
desencontro, traduzida na experiência e nos significados dados pelos “excluídos” às
diversas formas de privação: privação de emprego, privação dos meios para participar do
mercado de consumo, do bem estar, dos direitos, privação de liberdade e da esperança
(Martins 1997:18).
...Então lembro novamente as palavras usadas para dar início ao trabalho. “Eu
cheguei a seguinte conclusão: a terra é do latifundiário, o mar é da marinha, o céu é da
aeronáutica e para os favelados só sobrou o inferno”, disse o morador. Recordo outras,
presentes nas memórias de um senhor, aluno de um projeto de educação de jovens e
adultos desenvolvido em favelas da cidade, que contava sobre a ordem de despejo que
recebera bem no início dos anos 70: “foi um choque tão grande para mim... Este foi o
primeiro despejo de minha vida” 138 .
É impossível não inquietar-se com estas percepções que nos cercam no dia a dia.
Elas não nos sugerem carências, nem tampouco vazios. Prestem atenção: o “só sobrou”, o
“foi o primeiro despejo”... dizem é de “processos”, de processos de perdas e dificuldades
de vida. Denunciam processos de desigualdades e injustiças. E falam do que seus autores
experimentam e de suas visões deste mundo onde temos vivido.
No desenrolar de uma oficina voltada para a história das favelas, os mais jovens
que não conheciam de perto a ocupação da localidade aonde moravam, recolhiam relatos
de moradores antigos e os traziam para nos contar 139 . “Era tudo barro e quando chovia,
piorava, muita gente caía”, dizia um grupo de jovens. “Não tinha luz, nem água. O lampião
era de querosene. A água, os moradores pegavam embaixo, na rua. Carregavam os baldes
de água na balança. Quem tinha condições, pagava alguém para levar a água”, outro grupo

138
Depoimento de aluno do PAE (Programa de Aumento de Escolaridade) desenvolvido pelo Viva Rio,
Secretaria Municipal do Trabalho, Viva Rio, Escola Técnica Federal de Química, 1997/1998.
139
Relatório de campo no Morro do Adeus, Oficina História de Comunidades, Secretaria Municipal de
Habitação, Gestão Comunitária: Instituto de Investigação e Ação Social, Caixa Econômica Federal,
Concremat, 2000

248
relatava. “No começo quem tinha água vendia. Estes moradores, que tinham água,
esticavam a borracha e cobravam por cada caixa”, acrescentava mais outro. E as pessoas
um pouco mais velhas, recordavam a época em que “as meninas trabalhavam nas fábricas
da região” e muitos moradores trabalhavam na construção da Ponte Rio Niterói. Obra
imensa, que se integrou à paisagem da cidade, sem que muita gente soubesse quantos
trabalhadores deixaram trabalho ali.
Precariedade nas condições de vida, diferenças sociais na favela, os elos que ligam
estas localidades à cidade...tudo isso passeava por ali nas memórias dos moradores. São
questões que traduzem o desencontro ao qual venho me referindo. Podem ser
compreendidas dentro do quadro antes esboçado a respeito dos processos excludentes.
Mas há outras dimensões presentes nestes processos...E delas, aqueles que
experimentam tais processos também nos falam: “Não caiu de paraquedas, entendeu?
Houve luta para as casas estarem melhor. Houve luta para se ter água encanada. Houve luta
para se ter uma luz decente. Houve luta aqui.”, diz o participante de uma oficina que
procura recuperar a memória histórica do Morro do Borel . “Ninguém tinha direito de
morar, do direito nós conseguimos através da luta. Nos anos 60, a gente não tinha sossego
pensava que estava muito bem, tranqüilo (...) descia todo mundo para resistir à remoção”,
nos conta outro. “A nossa história, a nossa organização, a gente esquece. Se hoje, nós
estamos aqui, teve um investimento atrás”, avalia a moradora de uma favela carioca, com
uma longa experiência no movimento comunitário e, hoje, à frente de vários projetos
sociais. 140
Por isso, recordo aqui que, no mesmo processo que inclui precariamente amplas
parcelas dos trabalhadores, dá-se também o movimento das reações, a interpretação crítica
da realidade e sua contestação.
Essas reações - porque não se trata estritamente de exclusão - não se dão fora dos
sistemas econômicos e dos sistemas de poder. Elas constituem o imponderável de tais
sistemas, fazem parte deles ainda que os negando; elas ocorrem no interior da realidade
problemática, “dentro” da realidade que produziu os problemas que as causam. (Martins:
1997, P.14).
Seguindo uma pista indicada também por Martins, lembro que aquilo que é
chamado de exclusão, ou os processos de inclusão precária e instável, não pode ser

140
Os dois primeiros depoimentos integram as oficinas do grupo Os Condutores de Memória: um histórico
cultural da Grande Tijuca, desenvolvido pela Agenda Social Rio, e coordenado pela Gestão Comunitária:
Instituto de Investigação e Ação Social e pelo Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas).

249
separado da interpretação que os chamados “excluídos” fazem dela, o que torna a questão
ainda mais complexa, exigindo um deslocamento na “espiral”. Uma aproximação com
aquilo que é manifestação concreta dos processos de inclusão precária e marginal,
traduzida em todas as formas de privação. (Martins:1997).
O que ocorre é que os processos excludentes também parecem caminhar como
numa espiral. Que, no caso, parece sempre descendente. A privação produzindo novas
privações, trazendo uma degradação crescente para aqueles que são atingidos mais
violentamente por este processo, tornando-as vulneráveis. O desemprego prolongado, por
exemplo, produz efeitos sobre a estrutura familiar e a inserção em redes de sociabilidade.
E por aí vai...
Por isso, antes de tudo, é preciso observar esta “espiral descendente” com cuidado,
de forma a não estabelecer relações mecânicas e lineares entre as várias privações. É
avançar num olhar abrangente que permita perceber o movimento desta “espiral”, para
além de seu efeito descendente. Há quem lembre que é preciso escapar das reduções,
compreendendo que a pobreza, além de um estado de privação material, é um modo de
vida, ou “um conjunto complexo de relações e instituições sociais, econômicas, culturais e
políticas criadas para encontrar segurança dentro de uma situação insegura”. No interior
deste complexo de relações, inclusive simbólicas, há pois um movimento que desloca
constantemente o limite da pobreza. “Ou seja, a pobreza nega-se a si mesma, recusa-se,
tanto simbólica, quanto objetivamente” (Araújo:2000).
Isso faz pensar! Faz pensar que os processos excludentes envolvem uma
complexidade, difícil de ser apreendida em todas as suas dimensões, considerando a
experiência daqueles que vivenciam tal processo, os deslocamentos realizados por eles, a
teia de relações onde estão inseridos, bem como as representações que vão sendo aí
reelaboradas e produzidas.
Neste ponto, mais uma vez o conceito de experiência de Thompson parece
fundamental ao articular uma série de dimensões que são vistas em termos de oposição:
estrutura e ação, ser e consciência, economia e cultura.

Os homens e mulheres retornam como sujeitos, dentro deste termo - não como
sujeitos autônomos, 'indivíduos livres', mas como pessoas que experimentam
suas situações e relações produtivas determinadas como necessidades,
interesses e antagonismos, e em seguida 'tratam' essa experiência em sua

250
consciência e sua cultura (as duas outras expressões excluídas pela prática
teórica) das mais complexas maneiras ( sim, 'relativamente autônomas') e em
seguida (muitas vezes, mas nem sempre, através das estruturas de classe
resultantes) agem, por sua vez, sobre sua situação determinada. (1981, p.182)

Dialogando com a reflexão do autor, penso que entre a experiência, determinada


em grande medida pelos processos de inclusão precária e instável, e o experimentar desta
experiência há um conjunto de mediações que não são menos determinantes à prática
histórica e social, uma vez que atravessam as ações daqueles que são vítimas destes
processos, referenciando o seu agir sobre uma situação determinada. Com isso quero dizer
que apesar de inseridos em determinadas “condições de vida” que conformam seu campo
de ação, e que traduzem processos excludentes, os moradores das favelas não respondem
reativamente a elas, mas atravessados por sua experiência histórica, suas representações
sociais e culturais que implicam uma determinada forma de apropriação da realidade e as
possibilidades de ação sobre ela.
A este respeito, uma mediação fundamental na compreensão da experiência da
inclusão precária, e das práticas aí forjadas, é uma análise sobre a forma como os processos
em questão se desdobram nas favelas do município, conectando-se com as experiências
gestadas historicamente nestas localidades.
Sigo, então, ensaiando uma reflexão baseada, sobretudo, na experiência acumulada
ao longo de meu trabalho como pesquisadora, coordenadora e assessora de projetos sociais
em favelas. 141
O que vejo, nas favelas do município do Rio Janeiro, é que os movimentos em
curso, de produção de novas desigualdades e reprodução de antigas, vão atingindo todos,
cerceando cada vez mais o campo de ação dos moradores e trazendo desafios aos que
buscam possibilidades de ação. Os caminhos parecem separar muitos e esgarçar antigas
sociabilidades, fundadas numa história comum de luta pela produção do espaço de vida.

141
Considerando as idas e vindas destas experiências, e o caráter informal de muitas delas, é difícil demarcar
os “lugares” de observação e análise. Porém, grande parte das informações e reflexões aqui presentes,
particularmente as observações referentes às iniciativas sociais nas comunidades são baseadas na já referida
pesquisa Redes Sociais de Solidariedade na Leopoldina, desenvolvida pelo CEPEL (Centro de Estudos e
Pesquisa da Leopoldina). Encontram-se registradas na publicação Conhecendo a Leopoldina: algumas
iniciativas sociais (1999)

251
Diferentes templos religiosos se multiplicam, operando com a reinclusão dos
“descartados”. E com eles vão se configurando cada vez mais as fronteiras que separam o
“Bem” do “Mal”. E assim, temos o evangélico e o macumbeiro, o crente e o católico 142 .
Ao mesmo tempo, o papel das lideranças comunitárias se esvazia da dimensão
política que em outras épocas a caracterizara. Atuando como braço do Estado e(ou) do
narcotráfico, dificilmente é percebida como expressão da vontade coletiva. Desaparece aí
toda sua credibilidade.
No mundo do tráfico, as divisões criam mais do que fronteiras dentre aqueles que
nele estão inseridos ou dele se aproximam. Atuam sobre a vida cotidiana dos moradores,
delimitando seus passos, seu espaço e seu tempo. E mais do que isso, referenciam o
horizonte das novas gerações, produzindo abismos, onde antes havia pelo menos empatia.
O único inimigo visível é o “alemão”, aquele que ocupa outro território. Assim, este
mundo vai detendo cada vez mais controle sobre esferas das relações sociais nestas
localidades.
Este colorido cinzento possivelmente é o tom mais forte da paisagem que se
delineia nestas localidades pobres, mas certamente não é o único. Dentro do mesmo
processo, como outra face da moeda, o desencontro que atinge a todos, recoloca também a
cada instante a ação compartilhada como caminho necessário, levando a formas de
reprodução social que, ainda que precárias e subordinadas, forjam novos laços e espaços,
anunciando possibilidades de ação.
Estas novas formas vão sendo gestadas, reelaborando experiências históricas
passadas e incorporando os novos impasses que se apresentam no campo de ação. Assim,
vão crescendo as iniciativas coletivas, muitas delas produzidas fora da esfera que antes
assumia o desenvolvimento comunitário: as associações de moradores. Grande parte
trazidas por instituições ou grupos religiosos, de diferentes orientações, que vêm
ampliando seu raio de ação, reforçando sua antiga proposta assistencial, mas atuando cada
vez mais no desenvolvimento social. Têm seus projetos bastante valorizados já que os
moradores das favelas sentem-se mais seguros participando de atividades realizadas por
instituições nas quais confiam. Porém, há também um conjunto de grupos ou entidades
leigas que se voltam para as áreas de educação, saúde, cultura e lazer. Freqüentemente,

142
José de Souza Martins chama atenção para o fato de que fundamentalismo pentecostal explica-se
sociologicamente, em grande parte, pela recusa da condenação da pobreza. “ Ele opera com a técnica social
de reinclusão dos desesperados e até de reinclusão preventiva dos condenados ao limbo da sociedade atual”
(1997).

252
aquelas iniciativas que apresentam mais visibilidade, mas nem sempre maior fôlego,
recebem recursos do próprio poder público ou mesmo administram projetos
governamentais, cumprindo um papel que outrora era executado pelo Estado. Mas talvez
não seja exagerado afirmar que todas experimentam uma grande instabilidade no que se
refere aos recursos financeiros e humanos, precisando redobrar seus esforços para manter
suas atividades e serviços.
Tais iniciativas estão se desdobrando em novos caminhos de ação coletiva e
possivelmente criando também outras formas de sociabilidade. Isso porque, são produzidas
no âmbito dos processos de inclusão precária que trazem novas imagens de desigualdade e
pobreza, fazendo crescer os desafios das populações empobrecidas e levando-as à
necessidade de reinventar suas ações coletivas. Nesta nova sociabilidade, antigas
referências, tão caras aos moradores das favelas, estão sendo reelaboradas, abrindo espaços
a práticas diferenciadas e assumindo outros significados. Possivelmente, família e trabalho
estão entre as referências que passam por expressivos processos de mudança.
Vários estudos sobre a dinâmica social das favelas e áreas das periferias
metropolitanas destacaram o papel da família enquanto unidade de produção e consumo,
onde são elaboradas as estratégias de sobrevivência no urbano 143 . No entanto, de fins dos
anos 70/anos 80 para cá, muita coisa mudou na paisagem das favelas e várias destas
mudanças tiveram especial impacto sobre as famílias trabalhadoras. Aumentou o número
de creches, ainda que este serviço esteja aquém das necessidades da população. O
desemprego vem crescendo, agindo de forma direta e violenta nas famílias. Explode não só
com o orçamento e os arranjos domésticos, mas muitas vezes com as relações familiares,
recolocando aí o papel dos homens trabalhadores. Levando também cada vez mais as
mulheres a sair em busca de trabalho. Atuando ainda sobre a vida das crianças e jovens,
fazendo aumentar sua procura precoce por um oportunidade de trabalho, num mercado que
torna-se mais e mais limitado e seletivo. Alcoolismo e dependência química, depressão,
abandono escolar, violência familiar são imagens de problemas, antes presentes nas
famílias trabalhadoras, que têm se acentuado nos últimos anos. Problemas que os serviços
de educação, saúde e assistência social não chegam a responder. Tornando-se crônicos e
exigindo um investimento constante de recursos, eles são relegados à segundo plano e

143
Dentre estas estratégias, impunha-se muitas vezes a não inserção das mulheres no mercado de trabalho,
obedecendo a uma necessidade colocada no âmbito da própria família e aí respondida. A respeito das
reflexões voltadas para a questão da família, destacam-se o trabalho de Eunice Durham (1984; 1988) e
Teresa Pires Caldeira (1984), dentre outros.

253
deixados sob o domínio de iniciativas da sociedade, especialmente aquelas atuantes nas
favelas. 144
E aí cabe perguntar: até que ponto estas iniciativas não vêm ocupando parte do
papel antes assumido pela família trabalhadora na reprodução social de seus membros?
Temos claro que a reprodução nunca se reduziu ao núcleo doméstico e que a família
trabalhadora constitui-se em escala ampliada, agregando parentes e muitas vezes vizinhos.
Porém, possivelmente, mais do que nunca esta reprodução está sendo assegurada também
através de outras esferas. Especialmente nas igrejas e grupos religiosos, onde ela,
redefinida, encontra uma rede de apoio. Ou mesmo através do mundo local do narco-
tráfico, por onde alguns dos membros familiares circulam ou são estreitamente ligados.
Com efeito, a rede do narcotráfico cresce e com ela aumenta o número de pessoas que aí
ingressam. Vivas, representam uma alternativa a mais no orçamento familiar. Mortas ou
mesmo presas, significam uma violenta perda objetiva e subjetiva para as famílias.
Já quando o olhar recai sobre a referência do trabalho na vida das favelas, a
lembrança logo evocada é da época em que ele marcava a identidade daqueles que ali
viviam. Dedicando-se em sua maioria a diferentes atividades do setor de serviços, ou
atuando no mercado informal, estes moradores dificilmente se reconheciam por seu lugar
na produção. Era o espaço de moradia comum e a luta pela sobrevivência no urbano que
reforçava seus vínculos. No entanto, a inserção subordinada destes moradores no
ordenamento de uma sociedade, onde a carteira de trabalho era a identidade do trabalhador,
bem como a localização desigual e a estigmatização das favelas no espaço urbano, deu ao
trabalho um significado especial, que vai além de sua importância na sobrevivência
econômica. Na dinâmica das relações locais e no confronto com poderes supralocais,
especialmente a polícia e autoridades públicas, ele afirma o lugar e a identidade do
trabalhador, aparecendo articulado à honra. (Alvito 1996) 145 .

144
É tendo em vista tais problemas sociais, que Valla discute a necessidade de um duplo caminho no âmbito
das relações Estado e Sociedade Civil: não se abre mão do confronto com o Estado, no sentido de exigir
investimentos em políticas sociais, mas ao mesmo tempo, iniciativas da sociedade civil organizam-se,
respondendo a tais problemas sociais, que elas encontram-se em melhores condições de solucionar. A
organização de tais iniciativas abre caminho a um fortalecimento da sociedade civil e na organização de seus
setores, de forma a demandar maiores investimentos do Estado(1998; 2000).
145
Em seu artigo A Honra de Acari, Marcos Alvito chama atenção para este fato, destacando que a honra não
é igual para todos, depende da posição da pessoa na hierarquia local e da observância, por parte da mesma, de
um comportamento condizente com sua posição em termos de status, idade ou gênero. (Alvito 1996). Assim,
ainda que aparentemente caminhe no sentido historicamente construído pela ideologia burguesa do trabalho,
o valor trabalho aqui se afasta dela, uma vez que tem estreita articulação com as relações de reciprocidade
local, e confere especial significado à honra. A ideologia burguesa do trabalho não incorpora a reciprocidade,
mas se fundamenta na relação indivíduo-sociedade que marca a modernidade, trazendo uma imagem onde,

254
Nos novos tempos, o valor trabalho não deixa de sofrer o impacto das mudanças,
que se desdobram mais especialmente através do avanço do desemprego e da expansão do
narcotráfico. Numa sociedade onde há violenta diminuição de alternativas de emprego, e
mesmo de trabalho no mercado informal, os mecanismos de controle social são
redefinidos, não se apresentando mais diretamente associados à inserção dos pobres na
produção propriamente dita. Confinada na gaveta, sem perspectiva de uso, a carteira de
trabalho perde seu significado especial.
Com a expansão do tráfico, mais do que nunca as localidade pobres da cidade
aparecem associadas à violência, tornando qualquer pobre suspeito. A confusão de
imagens entre trabalhador e bandido assume maior dimensão, desdobrando-se na dinâmica
das favelas, produzindo novas alternativas e trazendo mudanças às redes de relações locais
e extra locais, com novas práticas e valores se revelando.
Conforme diminui o número daqueles que têm emprego e mesmo trabalho, e o
mundo do narcotráfico se dissemina, muitos circulam neste mundo, por onde asseguram
sua sobrevivência e sua afirmação no espaço local. Mal podem sair de seus locais de
moradia, sem correr o risco de serem mortos, mas acessam os bens de consumo material e
simbólico, não deixando de traduzir a forma através da qual se inserem precariamente no
sistema. Seria o caso de interrogar se não se opera aqui o que Martins denomina de
reinclusão ideológica pois:

(....) a exclusão “ não só produz ela uma reinclusão em relações precárias e


marginais, como produz também uma reinclusão ideológica no imaginário da
sociedade de consumo e nas fantasias pasteurizadas e inócuas do mercado,
qualquer que seja ele, até mesmo o mercado de valores sagrados da tradição ou
da dignidade humana.(....) A nova desigualdade separa materialmente mas
unifica ideologicamente” (1997: 22).

Porém, este não é o único, e tampouco o caminho mais acolhido pela maioria dos
moradores. Torna-se expressiva aqui a multiplicação das igrejas evangélicas, há muito
tempo já existentes nestas áreas, mas nunca tão fortes e numerosas.

no mundo da pobreza (ou das classes perigosas como eram vistos ao longo do século XIX/início do XX),
existem os trabalhadores virtuosos e hones