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MARGARITA LÓPEZ MAYA

LUTA HEGEMÔNICA NA VENEZUELA


A CRISE DO PUNTOFIJISMO E A ASCENSÃO DE HUGO CHÁVEZ
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LUTA HEGEMÔNICA NA VENEZUELA


A CRISE DO PUNTOFIJISMO E A ASCENSÃO DE HUGO CHÁVEZ

MARGARITA LÓPEZ MAYA

Tradução de
Flávio Benedito

*Traduzido do original castelhano Del Viernes Negro al Referendo Revocatorio.


2ª ed. Caracas: Alfadil, 2005. Edição em português atualizada com acréscimo
do cap. 16, sobre a conjuntura política até 2009.
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ÍNDICE

Apresentação
Prefácio
Introdução
Parte I: Desmorona o modelo de Puntofijo e ressurge o protesto popular
Capítulo 1: Ajustes, declínio socioeconômico e violência cotidiana até 1999
Capítulo 2: Fatores políticos e subjetivos que se acrescentam ao declínio
econômico
Capítulo 3: O Caracaço
Capítulo 4: Depois do Caracaço: protesto popular e luta hegemônica
Capítulo 5: Descentralização, democracia e crise do governo de Andrés Pérez
Parte II: Em busca de lideranças alternativas. Partidos de vocação popular
nos anos 90
Capítulo 6: A ascensão de A Causa R na Venezuela
Capítulo 7: Convergência e MBR-200
Capítulo 8: Novos e velhos partidos de esquerda em fins do século: MVR, PPT
e MAS
Parte III: Implantação de uma nova hegemonia
Capítulo 9: As eleições de 1998: o triunfo de Chávez
Capítulo 10: As eleições de 2000: o novo mapa político do país
Capítulo 11: As insurreições da oposição
Capítulo 12: O referendo revogatório de 2004: geografia eleitoral em uma
Venezuela polarizada
Parte IV: Gestões da nova hegemonia
Capítulo 13: Prefeituras de esquerda: as gestões locais de LCR entre 1989 e
1996
Capítulo 14: O primeiro ano de governo de Chávez: o "projeto popular"
Capítulo 15: O governo de Chávez: democracia participativa e políticas sociais
Capítulo 16: De 2002 a 2009: economia, reeleição e Socialismo do século XXI
Epílogo
Bibliografia
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APRESENTAÇÃO

Nos últimos dois decênios, a Venezuela tem sido cenário de um dos


mais dramáticos e, ao mesmo tempo, dos mais promissores processos de
transformações históricas do continente latino-americano. Mais recentemente,
os avanços nas suas instituições democráticas e, sobretudo, na organização de
seus movimentos sociais ― que dia a dia ganham robustez no cenário político
nacional ― atraem para o país a atenção e o interesse de intelectuais, políticos
e instituições internacionais. Prova disso é que há hoje, na Europa e nos EUA
(além, evidentemente, de na própria América Latina), uma prolífica e
heterogênea produção acadêmica voltada a estudar a natureza e o alcance
dessas transformações, ao lado de uma intensa e polêmica discussão pela
imprensa mundial sobre o papel que estaria desempenhando o governo de
Hugo Chávez neste processo. Dos lados em disputa, uns apologeticamente
saúdam o líder bolivariano como um fautor da reconstrução histórica, nesta
América Latina do século XXI, de um socialismo genuíno e redivivo após os
reveses e frustrações do socialismo real. Outros, conservadores e ciosos de
um status quo que temem ver ameaçado pela crise estrutural do sistema
econômico mundial, vociferam contra o suposto caráter totalitário ―
neofascista, se diz ― do Estado venezuelano e de sua política econômica,
vista como retrogradamente estatizadora e coletivista. Outros ainda, quase
todos oriundos das fileiras da assim chamada "esquerda radical" do continente,
atados a certo dogmatismo cego, preferem condenar in totum o processo de
mudanças, alegando a essência burguesa do conjunto das políticas
implantadas ou, então, o alcance meramente reformista de seus propósitos. De
qualquer dessas interpretações ― evidentemente distorcidas por sua natureza
ideológica e seu intuito mistificador ― pouco se pode esperar de proveitoso a
uma compreensão clara da história atual venezuelana. Pois, por um lado,
atribuir a Chávez e ao bolivarianismo a paternidade e a condução do processo
de mudanças que o país experimenta é defraudar acintosamente a história
anterior da crescente ação transformadora dos movimentos populares (desde o
fatídico Caracaço, de 1989, ao surgimento e vitória eleitoral de grupos e
partidos políticos de orientação socialista, e do crescente anseio popular por
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mudanças políticas profundas, cuja manifestação se viu no apoio dado às


tentativas de derrubada do governo em 1992 e no repúdio definitivo aos
partidos tradicionais nas eleições de 1998). Neste sentido, portanto, seria antes
correto ver Chávez como rebento (dileto ou não) desse processo de avanço
das lutas populares. Por outro lado, seria também fechar os olhos à verdade
histórica não reconhecer no movimento chavista, alçado democraticamente ao
poder em 1998, uma grande parcela de mérito no âmbito das lutas por
conquistas sociais efetivas e duradouras. É preciso não esquecer que essas
lutas se travam num dos países do continente mais afligidos pela miséria e pela
desigualdade social em um meio de abundância de riquezas. Destarte, pouco
se ganha em compreensão imputar ao bolivarianismo chavista, sem mais e
apenas por detração ideológica, a pecha de populismo autoritário ou de
reformismo contrarrevolucionário ― neste caso, categorias históricas vazias de
sentido (tanto quanto as de teor apologético) se consideradas do ponto de vista
do rigor científico.
Desafortunadamente, vigora no Brasil (a par de uma visão
escandalosamente deformadora e simplista promovida em especial pela
grande imprensa nacional) um notável desinteresse político e teórico pela
realidade histórica do país vizinho, apenas atenuado por algumas análises,
valiosas mas pouco numerosas e infelizmente restritas a um grupo pequeno de
leitores. Foi tendo em vista este preocupante estado de coisas, que atinge não
só o público em geral mas, em particular, nossos estudantes universitários, é
que o tradutor se animou a publicar em português este livro da historiadora
venezuelana Margarita López Maya. A obra, sem pretender ser "neutra" ou
"imparcial", compõe-se de um conjunto de estudos cerradamente adstritos ao
rigor da análise científica, em que se combinam os dados empíricos à
interpretação da realidade segundo as categorias sociológicas pertinentes.
Cada capítulo traz uma elucidação objetiva e criteriosa dos diversos elementos
― econômicos, políticos e sociais ― que têm composto o quadro histórico de
mudanças da Venezuela, desde a implantação das políticas neoliberais, nos
anos 1980, à emergência de novas forças sociais e políticas nos anos 1990 ―
quadro que a autora interpreta, em termos gramscianos, como o de uma luta
hegemônica.
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Esperamos, enfim, que o leitor brasileiro encontre neste livro uma


oportunidade de vencer o estado de alheação que domina nossa universidade
e nosso meio intelectual e jornalístico quanto a problemas que afligem povos
irmãos, a quem nem mesmo a diversidade linguística afasta. Afinal, se o
passado recente da Venezuela revela um espelho de nossa própria experiência
histórica ― de desenvolvimento dependente e sempre socialmente insuficiente
― o seu presente de lutas e conquistas sociais poderá sugerir um caminho
diverso a ser trilhado ― sobretudo por aqueles que buscam, de fato, uma
América Latina liberta da iniquidade social e da alienação política e cultural.

Flávio Benedito - PPGHE-USP1

1
Esta tradução foi possível graças ao auxílio financeiro de uma bolsa de estudo concedida pelo
CNPq , instituição à qual o tradutor agradece.
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PREFÁCIO

Este livro é o resultado de uma investigação de muitos anos. É uma


indagação que se iniciou a partir do Caracaço, de 1989 ― um episódio que,
como aqui se afirma, acarretou uma ruptura do processo histórico-social
venezuelano. O estudo, com o passar dos anos, resultou nesta interpretação
sociopolítica global da história recente da Venezuela. O Caracaço foi um abalo
em minha carreira profissional. Obrigou-me a uma mudança de rumo nos
temas e nas inquietações com que até então eu vinha trabalhando, e
estimulou-me à procura de novas dimensões da realidade, o que
paulatinamente foi-me permitindo detectar e seguir fenômenos incipientes, que
adquiririam no correr do tempo um peso considerável na luta política.
Os capítulos estão baseados em um conjunto de artigos escritos desde
meados da década de 1990 até à atualidade. Alguns são de minha exclusiva
autoria; outros foram produzidos em colaboração com o Professor Luis E.
Lander. Deixo indicada a referência completa do artigo acadêmico original em
nota de rodapé, ao início de cada capítulo, de modo a que aqui as citações
fiquem reduzidas à sua mínima expressão. O leitor interessado nas fontes
completas que sustentam a argumentação de cada capítulo poderá ir ao artigo
referido. Também realizei uma seleção calculada entre os materiais
abundantes que eu tinha disponíveis, de maneira que cada capítulo é um
rearranjo de fundo dos artigos que servem de base, permitindo que estes
possam ser lidos em um continuum, como se se tratasse de uma narração
histórica elaborada em um só tempo, e não ao longo de mais de dez anos,
como é, de fato, o caso. O propósito dessa estratégia é oferecer ao leitor não
especialista um itinerário cognitivo acessível, que lhe permita compreender de
uma maneira mais densa e complexa por que a sociedade venezuelana
encontrou em uma mudança de hegemonia ─ com tudo o que esse conceito
traz implícito ─ a resposta que ela considera, por enquanto, satisfatória às suas
necessidades de adequação às mudanças nacionais e mundiais.
Este livro tornou-se possível graças ao apoio recebido, ao longo desses
anos, de colegas, estudantes, amigos, familiares e instituições. Minha gratidão
a instituições como o Woodrow Wilson international Center, em Washington,
8

D.C.; o Kellogg Institute for International Studies da Universidade de Notre


Dame, a Cátedra Andrés Bello do St. Antony's College da Universidade de
Oxford, o Instituto de Estudos Latino-americanos da Universidade de Colúmbia,
espaços acadêmicos em que trabalhei em diversos momentos, e que me
propiciaram acesso à informação e à infraestrutura ideal para pensar e
escrever sobre esses temas. Professores e estudantes, com quem mantive
intercâmbio de informações e ideias, ajudaram-me a ver de maneira distinta
certos eventos e detalhes do processo. Em meu país, foi especialmente
importante o apoio institucional da Universidade Central da Venezuela (UCV).
Muitos dos artigos nos quais se baseiam estes capítulos foram possíveis
graças às condições institucionais e ao apoio material de minha Alma Mater.
Como diretora da Revista Venezolana de Economía y Ciencias Sociales da
Faculdade de Ciências Econômicas e Sociais, entre 2000 e 2004, tive acesso
privilegiado a estudos de fundo e de conjuntura sobre os intensos e complexos
processos nacionais, latino-americanos e mundiais que atravessávamos, e
contei com um comitê editorial de altíssimo nível para ajudar-me a avaliar com
senso crítico tais processos.
De 2001 até hoje, tenho desfrutado o privilégio de conhecer e contar
com um grupo de colegas e amigos de agudo senso analítico, ampla
informação e grandeza humana. Ao "grupo Monagas" dedico este livro, pois as
reuniões de um grupo inicialmente pequeno no apartamento do edifício
Monagas, onde resido, deram como resultado o documento coletivo Un diálogo
por la inclusión y la profundización de la democracia, que conduziu em seguida
a um conjunto de reuniões no Centro de Estudos Rómulo Gallegos e em outros
espaços da cidade, aos quais se apresentou um sem-número de venezuelanos
e venezuelanas para discutir os acontecimentos da nação nos meses difíceis
de 2002, entre o golpe de Estado e a paralisação da PDVSA 1. Esta experiência
foi um estímulo excepcional para manter-me acompanhando e escrevendo
sobre esta fase da história nacional, enriquecida pela contribuição de tantas
pessoas sensíveis e talentosas. Quero agradecer em particular a Antonio
González, do Provea2, a Ana María Sanjuán, do Centro de Estudos para a Paz
(da UCV), a Edgardo Lander, Dick Parker, Magdalena Valdivieso, Ignacio

1
Petróleos de Venezuela S.A., a maior empresa estatal do país. (N. do Trad.)
2
Programa Venezolano de Educación-Acción en Derechos Humanos (N. do Trad.)
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Ávalos, amigos e colegas da FACES-UCV; a Alberto Müller, militar, político e


internacionalista, a Mireya Lozada, do Instituto de Psicologia Social da UCV, e
a Olga Dragnic, da Escola de Comunicação Social. Creio que há muito de cada
um deles nas páginas que se seguem. Além disso, esta edição em português
não teria sido possível sem o interesse e a abnegação que no trabalho de
tradução pôs Flávio Benedito, a quem agradeço de todo o coração. Uma
menção especial é para Luis E. Lander, meu esposo, amigo e colega, coautor
de alguns dos artigos que servem de base a capítulos deste livro ―
companheiro de vida e de tantas aventuras.
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INTRODUÇÃO
LUTA HEGEMÔNICA NA GLOBALIZAÇÃO NEOLIBERAL

Este livro descreve, analisa e interpreta a transformação sociopolítica


que ocorre na sociedade venezuelana desde que se iniciou, em fins dos anos
de 1970, o declínio da democracia hoje conhecida como de Puntofijo1, até à
implantação e os passos iniciais da consolidação de um novo projeto para o
país, de "democracia participativa e protagônica", identificado como o Projeto
Bolivariano.
A assombrosa transformação da sociedade, de que todos temos sido
testemunhas e partícipes, é interpretada neste livro em termos de uma luta pela
hegemonia. Definimos como luta hegemônica um processo dinâmico, que
implica a crescente e contínua organização e confrontação entre atores sociais
e políticos, em que se vão verificando avanços para uns e retrocessos para
outros; em que atores se vão reunindo em torno de uma posição ou se
retirando para uma outra; em que uns acumulam força e outros a perdem; em
que antagonismos iniciais têm-se modificado, debilitado ou deslocado enquanto
surgem outros antagonismos. Na luta hegemônica, os atores vão construindo,
mediante sua interação, as linhas básicas de projetos para o país, de acordo
com as demandas e sonhos daqueles que têm atuado, modificando-se
constantemente tais propostas em função da relação com outros atores que se
juntam ao projeto inicial, e/ou em função da ação de adversários, e mesmo de
observadores. Através, algumas vezes, da confrontação e, outras vezes, do
diálogo, de alianças, eleições, negociações e demais práticas da política, vêm
emergindo na Venezuela do século XXI propostas coletivas de futuro e novas
relações de poder. O Projeto Bolivariano, materializado primeiramente na
Constituição de 1999 e impelido pelo presidente Chávez e sua aliança de
1
O Pacto de Puntofijo (ou Punto Fijo), assinado em 1958, ao fim da ditadura de Marcos Pérez
Jiménez (1952-1958), resultou de um acordo entre os partidos Ação Democrática (AD), Comitê
de Organização Política Eleitoral Independente (Copei) e União Republicana Democrática
(URD), e pretendeu instaurar no país uma condição estável de constitucionalidade e de
equilíbrio político entre as diferentes forças políticas participantes do movimento cívico-militar
que derrubara o ditador. Contudo, a exclusão do Partido Comunista da Venezuela (PCV) ― de
expressiva influência no meio sindical da época ― e a posterior retirada da URD do pacto
tornaram-no, de fato, um meio de garantir a hegemonia bipartidária AD-Copei. A ascensão de
Hugo Chávez, em 1999, assinala o fim desse bipartidarismo de quatro décadas. (N. do Trad.)
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forças sociopolíticas emergentes, alcançou ao final do século o predomínio


político ou a hegemonia. Entende-se esse conceito como um equilíbrio instável,
no qual um grupo de atores conseguiu acumular suficiente legitimidade para ter
acesso ao poder e pôr em prática seu projeto para o conjunto da sociedade. Ao
dar seus primeiros passos como governo no século XXI, essa hegemonia e
esses atores parecem consolidar-se.
Ao situar nossa análise na perspectiva da luta hegemônica, estamos
afirmando que o processo hoje vivido pela sociedade venezuelana tem sido,
acima de tudo, democrático em sua natureza, independentemente do fato de
que, em diferentes episódios e vicissitudes ― como veremos em diversos
capítulos ― alguns atores tenham recorrido a práticas cruentas com esses
procedimentos, buscando fazer que, à força, prevalecessem seus interesses
particulares. Uma transformação hegemônica implica uma mudança de
relações de poder em uma sociedade mediante a guerra de posições, e a
história humana nos mostra claramente que o caminho para que isso possa
ocorrer está perigosamente cheio de obstáculos e emboscadas. Em geral, os
que desfrutam do poder farão o possível e o impossível para manter-se nele, e
os que agora se sentem com forças para dirigir a sociedade buscarão o
reconhecimento do poder, não raro a qualquer preço. A prolífica experiência
histórica indica que o mais comum são as mudanças violentas. Neste sentido,
o processo sociopolítico venezuelano, embora não isento de tais
manifestações, vai-se erigindo como um caso interessante e bastante
excepcional, visto que tem logrado mudanças significativas na ordem política
sem recorrer à violência e/ou ao autoritarismo. Enquanto luta hegemônica, o
processo sociopolítico venezuelano se projeta para o futuro como continuação
e aprofundamento dessa dinâmica democrática.
A história da luta hegemônica na Venezuela, de 1983 em diante, pode
ser exposta a partir de um conjunto de processos socioeconômicos e
sociopolíticos de caráter nacional, que se foram acumulando ao longo dessas
décadas. Estes elementos nacionais também estão intrinsecamente vinculados
a processos mais amplos da globalização neoliberal, que se vêm
desenvolvendo desde os anos de 1970 no sistema capitalista mundial, e que
têm alterado profundamente as relações centro-periferia, predominantes entre
os Estados nacionais após a Segunda Guerra Mundial. Por isso, a história que
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se procura compreender aqui é de significativa complexidade,


multidimensional, e mesmo com aspectos de interpretação difícil ou obscura.
O último quartel do século XX foi palco de um processo de
recomposição ou reestruturação do capitalismo ― algo que ainda não se
encerrou, e em que todas as sociedades do planeta têm sido afetadas, em
maior ou menor grau. Tendo-se iniciado esse processo, segundo alguns
estudiosos, em fins dos anos de 1960 por uma típica crise de superacumulação
nos países industrializados, somaram-se ao quadro de tensão a desvalorização
do dólar e a crise energética da década de 1970. A partir de então, foi-se
desenrolando um confuso complexo de políticas econômico-financeiras e de
processos de natureza diversa ― entre eles as inovações na área de
informática e comunicação ― assim como as assombrosas mudanças políticas
da Europa central sob a égide do capitalismo financeiro, mudanças que
tenderam à integração dos Estados e das sociedades em um sistema
econômico único. A América Latina esteve imersa nestas transformações,
afetada profundamente pela "crise da dívida" (e suas consequências imediatas)
dos anos de 1980 ― a que a Cepal chamou de a década perdida. Foi nesse
penoso decênio, quando todos os indicadores socioeconômicos de nossas
sociedades retrocederam, que teve início o calvário das políticas de ajuste e
reestruturação econômica, impostas às economias da região pelas agências
multilaterais de crédito, dominadas pelos interesses das forças econômicas e
políticas dos países centrais. Governos de extrema-direita nos EUA, Inglaterra
e outros países buscaram corrigir as disfunções de suas economias mediante a
imposição à periferia de formas de exploração aguda e de dominação.
É tendo por pano de fundo esse processo (chamado por alguns de
globalização neoliberal, e por outros de mundialização), que se desenrola o
drama venezuelano que analisaremos aqui. A Venezuela, por sua condição
multíplice de país periférico no sistema capitalista mundial, de economia
petroleira e de política democrática, parece ter sido especial e
contraditoriamente afetada pelas intensas reacomodações econômicas,
geopolíticas e socioculturais que se desenvolveram na esfera do capitalismo
desde então. O estreito vínculo histórico da Venezuela com os EUA ― como
afiançada fornecedora do combustível estratégico para a maquinaria industrial
e militar norte-americana ― tem conduzido o país a uma situação difícil para
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exercer efetivamente sua soberania, visto que a nação do norte, a partir desta
etapa, erigiu-se como a única potência militar e "imperial" do planeta, e que não
hesita em empregar sua força para assegurar os interesses das corporações
transnacionais que se albergam em seu território. Por outro lado, a Venezuela
é uma das democracias mais antigas da América Latina, e nos últimos anos
(ou seja, desde fins de 1998), sua mudança de hegemonia ― cuja direção vai
na contracorrente do neoliberalismo prevalecente como ideologia da ordem
internacional ― viu-se respaldada por recorrentes processos eleitorais e uma
intensa política exercida no âmbito das ruas. A transformação da sociedade
venezuelana através de caminhos próprios tem sido recebida com enorme
desgosto e alarma por parte das forças que atualmente dominam o mundo. Por
este e outros desenvolvimentos, vividos com intensidade ao longo desses
anos, esta análise transcende o caso particular, e muitos dos processos que
aqui são analisados contribuirão para que se lance luz sobre outras traumáticas
experiências de sociedades periféricas no contexto dessas transformações.
Este livro está dividido em quatro partes, que correspondem a diferentes
eixos temáticos. Cada parte, por sua vez, se divide em capítulos que procuram
desenvolver em profundidade um aspecto essencial de cada tema em questão.
A primeira parte corresponde ao cenário no qual se desenrolam a crise e
a luta hegemônica. Traz por título Desmorona o modelo de Puntofijo e ressurge
o protesto popular. Nesta parte se tratará do conjunto de fatores
socioeconômicos e sociopolíticos que explicam, anunciam e condicionam os
processos de mudança. Aqui estão compreendidos cinco capítulos, os dois
primeiros centrados no exame dos indicadores socioeconômicos e das
condições político-institucionais que engendraram a crise de hegemonia do
projeto político passado. Os outros três revisam e interpretam a mobilização
popular que se observou, tomando como eixo o Caracaço.
A segunda parte aborda o fenômeno da emergência de novas lideranças
na sociedade venezuelana, isto é, o aparecimento e/ou revigoramento de
atores sociais e políticos que buscam substituir atores antes protagonistas, em
particular os partidos Ação Democrática e Copei, que são cada vez mais
repelidos pela população. Esta parte se chama Em busca de lideranças
alternativas. Partidos de vocação popular nos anos 90. Na Venezuela, como no
resto da América Latina, a recessão econômica e a aplicação de políticas de
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ajuste e reestruturação de natureza neoliberal, com a consequente


decomposição social, a crescente pobreza e o aprofundamento da
desigualdade e exclusão sociais abriram caminho para uma pronunciada
polarização social. Mas, diferentemente de outros países da região, esta
polarização começou a expressar-se politicamente desde os anos 90 através
do crescimento eleitoral de organizações que passam a elaborar discursos em
sintonia com os anelos dos setores pobres e empobrecidos, evidenciando uma
política que se tem orientado por discursos "de classe". Aqui se examinam, em
suas origens e primeiras ações, os atores de vocação popular que alcançaram
uma hegemonia ― quer precária quer duradoura ― ao longo desse período.
Tais são os casos de A Causa R, Convergência, e o Movimento Bolivariano
200 (ou Movimento Quinta República). Esta parte é composta de três capítulos.
A terceira parte, Implantação de uma nova hegemonia, apresenta a luta
pelo poder entre novos e velhos atores políticos, tanto no âmbito institucional
dos regimes democráticos ― sobretudo no que diz respeito às eleições em
seus diferentes níveis da administração pública ― como também na arena
extraconstitucional da insurgência. Desde 1989, ano do dramático Caracaço,
os eleitores foram ensaiando, eleição após eleição, as alternativas para a
transformação da democracia venezuelana. Seria em 1998, após o acúmulo de
repetidas frustrações em relação às autoridades que elegiam, que os eleitores
radicalizaram-se e decidiram votar amplamente em favor de uma mudança
contundente, encarnada na figura do comandante do malogrado golpe de
Estado de 1992, Hugo Chávez Frías, e sua aliança política, o Polo Patriótico.
Desde então, e até agosto de 2004, quando ocorreu o referendo revogatório
presidencial ― que reafirmou a liderança do projeto bolivariano ― a luta pela
hegemonia foi intensa, por vezes feroz, revelando uma funda polarização
sociopolítica entre os diferentes projetos para o país, até agora com poucos
pontos de encontro. Esta parte é formada por quatro capítulos.
A quarta e última parte está dirigida à análise de gestões
governamentais em distintos níveis da administração pública, que trazem a
marca do projeto hegemônico em construção, de natureza popular e/ou de
esquerda. Esta parte se intitula Gestões da nova hegemonia, e pretende
identificar nos governos de A Causa R dos anos 90 e em alguns aspectos da
gestão governamental atual do presidente Chávez os elementos fundamentais
15

do projeto sociopolítico que hoje orienta o futuro da sociedade venezuelana.


Esta parte é composta de quatro capítulos, estando o último deles voltado para
um balanço do governo Chávez após uma década no poder. Ao epílogo que
encerra o livro junta-se ainda uma seleção de fotos ilustrativas da atmosfera e
de acontecimentos da época.
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PARTE I
DESMORONA O MODELO DE PUNTOFIJO E
RESSURGE O PROTESTO POPULAR

CAPÍTULO 1
AJUSTES, DECLÍNIO SOCIOECONÔMICO E VIOLÊNCIA COTIDIANA ATÉ
19991

Em fins da década de 1970, iniciou-se para a sociedade venezuelana


um processo contínuo de deterioração econômica, que significaria uma
dramática involução da qualidade de vida de vastos setores da população,
assim como um paulatino estreitamento das expectativas de progresso para
aqueles que ainda não haviam visto cumpridas as promessas de melhoria em
sua qualidade de vida oferecidas pela democracia de Puntofijo. A recessão
econômica iria provocar retrocessos em importantes conquistas sociais
alcançadas durante o desenvolvimento do modelo de substituição de
importações, gerando as condições para o mal-estar de diversos atores sociais
e políticos que protagonizariam as intensas mobilizações de confronto no fim
do século.
Buscando conter esse declínio, ao menos desde o governo de Luis
Herrera Campíns (1979-1984), puseram-se em execução diversas políticas ―
obedientes à orientação neoliberal ― de ajuste macroeconômico e de
reestruturação. As várias tentativas que se fizeram distinguiram-se por sua
curta duração. As duas primeiras, correspondentes aos governos de Herrera
Campíns e Jaime Lusinchi, foram bastante débeis; as duas seguintes, dos

1
Este capítulo está baseado em "Fracaso y fatiga de los ajustes en Venezuela: 1984-1998"
(Margarita López Maya e Luis E. Lander), em: María Cristina Cacciamali, Catalina Banko,
Dorotea Melchner, Ajuste estructural y su impacto social en América Latina. Caracas, UCV-
UNESP, 2000, pp. 226-240. Ver também uma versão com dados mais atualizados em: "The
Struggle for Hegemony in Venezuela: Poverty, Protest and the Future of Democracy",
(Margarita López Maya e Luis E. Lander), em Jo-Marie Burt and Philip Mauceri (eds.), Politics in
the Andes: Identity, Conflict, Reform. Pittsburg, University of Pittsburgh Press, 2004, pp. 207-
227. (N. da A.)
17

governos de Carlos Andrés Pérez e Rafael Caldera, conquanto tivessem


alguma consistência, encontraram uma forte resistência popular e culminaram
nas derrotas políticas desses personagens. Esta sucessão de tentativas
malogradas permite classificar o caso venezuelano como exemplo de uma
sociedade com fadiga de ajuste, entendendo-se por essa expressão uma
sociedade que, em virtude dos reiterados ensaios fracassados, perde a
confiança na capacidade do projeto para superar a crise. Ademais, os
insucessos acentuaram e aprofundaram o declínio econômico do país, iniciado
pelo esgotamento do modelo anterior de desenvolvimento, reforçando as
tendências à deterioração social e intensificando o descontentamento político
em relação aos partidos.

OS TRÊS PACOTES DE AJUSTE MACROECONÔMICO


Embora o governo de Herrera Campíns, iniciado em 1979, tivesse
algumas diretrizes neoliberais, expressas inicialmente em seu programa de
campanha e no VI Plano da Nação, a convergência do segundo boom dos
preços do petróleo (1979-81) com a força das rotinas e a inércia do petro-
Estado venezuelano conspirou contra a implementação dessas diretrizes e, em
rigor, não se aplicou durante esse governo um programa de ajuste
propriamente dito. Ao contrário, o governo acabou por atuar do modo como
havia criticado em seus antecessores ― ou seja, utilizando a receita fiscal
como dinamizador da economia ― e desembocou, ao final do mandato, em
uma situação de severa dificuldade econômica.
O governo seguinte, de Jaime Lusinchi, iniciado em fevereiro de 1984,
viu-se, assim, desde seus primeiros dias, em meio a uma recessão econômica
que se arrastava havia vários anos. Em que pese ao fato de, entre 1979 e
1981, o Estado venezuelano haver percebido uma receita maior do que a
obtida nos cinco anos do primeiro governo de Pérez (1974-1979), os recursos
acabaram por ser insuficientes para cobrir os inúmeros compromissos
assumidos pelo Estado com a sociedade. Desde 1979, havia começado no
país o declínio inexorável do modelo de desenvolvimento assentado na renda
petroleira, expressando-se esse declínio, antes de tudo, no estancamento do
ritmo da atividade econômica. Em 1983, a combinação desse estancamento
com os retardamentos do governo de Herrera Campíns para refinanciar a
18

dívida externa, junto com a situação em evolução do sistema capitalista


mundial ― que passava por reajustes profundos ― resultou na decisão
governamental de desvalorizar o bolívar e adotar um sistema de câmbio
preferencial. Em 18 de fevereiro, oficializaram-se essas medidas. Esta data é
conhecida na Venezuela como a Sexta-Feira Negra, e foi para a sociedade o
primeiro sinal de alerta de uma crise econômica que se prolongaria, com altos
e baixos, até aos primeiros anos do século XXI. Uma manchete de jornal
daqueles dias resumiu o estado de ânimo de grande parte da população: A
festa acabou!
O presidente Lusinchi tomou posse um ano depois, respaldado por uma
das maiores votações para presidência que registra a história eleitoral
venezuelana. Pouco depois, ele anunciou um pacote econômico que seguia
algumas das pautas ditadas pelas agências financeiras internacionais, embora
não fosse um plano de ajuste macroeconômico strictu sensu derivado de um
acordo formal com o Fundo Monetário Internacional (FMI), mas sim um
compromisso unilateralmente assumido pelo governo, que tentou com essa
iniciativa criar condições favoráveis ao refinanciamento de sua dívida externa,
calculada como sendo uma entre as quatro mais vultosas da região. O ajuste
do governo de Lusinchi se enquadra em um modelo de "pacote heterodoxo",
pois reúne algumas características que se ajustam a essa classificação:
manteve um papel ativo do Estado em investimentos e regulamentação
econômica; não estava diretamente vinculado ao FMI; e conferia maior
importância e prioridade aos tópicos da distribuição e do emprego, se
comparado aos programas ortodoxos. A seguir, apontamos esquematicamente
as medidas fundamentais anunciadas em fevereiro de 1984:

a) nova desvalorização do bolívar e estabelecimento de um sistema


cambial com quatro tipos de câmbio diferencial;
b) medidas compensatórias não-salariais para reduzir o impacto do
ajuste sobre a remuneração dos trabalhadores, em substituição aos
tradicionais aumentos gerais de ordenados e salários que os
governos decretavam antes. Anunciou-se um bônus (ou vale) de
transporte, por um período de dois anos, para os assalariados que
19

recebiam menos de 3.000 bolívares por mês, bem como o


estabelecimento de refeitórios industriais;
c) continuação e aprofundamento do sistema de controle de preços que
vinha sendo desenvolvido desde o governo anterior, mas que, na
prática, significou nos meses seguintes uma liberação de preços de
bens e serviços;
d) aumentos de preço da gasolina e outros derivados de petróleo no
mercado interno;
e) disposição para não aumentar a burocracia e para reduzir os gastos
de funcionamento do Estado.

Juntamente com essas medidas de feitio neoliberal, anunciaram-se


outras, não propriamente condizentes com essa doutrina econômica: as
medidas tendentes a estimular o desenvolvimento agropecuário, as de estímulo
à geração de novos empregos ― como o aumento de 10% do quadro de
funcionários das empresas no semestre seguinte, a redução das taxas de juros
e o pagamento das dívidas internas do Estado, sobretudo aquelas contraídas
com os agricultores e com os pequenos e médios empresários.
Um indício das contradições vividas no seio do governo por causa
dessas decisões revelou-se quando, poucos meses depois, foi apresentado o
VII Plano da Nação, no qual se diagnosticava com lucidez o esgotamento
irremediável do velho modelo de desenvolvimento industrialista, mas se
propugnava a reestruturação econômica obedecendo-se a orientações
fundamentalmente distintas da concepção neoliberal. O VII Plano apresentava
uma estratégia geral que articulava três outras especificas: uma de
crescimento, uma social e uma política. Tal estratégia global, seguindo os
paradigmas da planificação estratégica, repousava em duas bases os meios de
sua viabilização: a conformação de um projeto político consensual, chamado
de o Pacto Social, e a reestruturação do Estado. No que se refere à estratégia
econômica, promoviam-se como eixos dinamizadores a agricultura, a indústria
e o turismo, buscando-se simultaneamente a transformação e a modernização
do setor público para redefinir seu papel na atividade econômica. O plano
expressava a intenção de transferir ao setor privado um conjunto de atividades
e de serviços, mas arquitetado como estratégia para democratizar a base de
20

sustentação da sociedade civil, pois propunha a criação de um terceiro sistema


de propriedade ― o Sistema Econômico de Cooperação ― a fim de estender
aos trabalhadores o acesso à propriedade empresarial e, assim, equilibrar as
relações de propriedade.
O VII Plano encontrou uma feroz recusa por parte do setor empresarial,
que viu com horror o terceiro sistema de propriedade. O ministro renunciou em
dezembro de 1984, e o plano nunca chegou a ser implantado. Em lugar disso,
o governo promoveu uma mudança significativa na estratégia e elaborou um
Plano Trienal de Investimentos, centrando sua proposta econômica no
refinanciamento e pagamento da dívida externa. Para isso, submeteu-se às
diretrizes e exigências das agências financeiras internacionais.
Em dezembro de 1986, o governo de Lusinchi tornou a decretar a
desvalorização do bolívar. Tendo de enfrentar, nesse ano, uma redução
drástica dos preços do barril de petróleo no mercado mundial, o governo
recorreu, mais uma vez, a esse perigoso expediente para equilibrar a balança
de pagamentos. Esta "mudança de curso"1, como foi chamada pelo governo,
não significou, contudo, um novo pacote macroeconômico, e pode-se afirmar
mesmo que esta "mudança" foi interrompida. Por esses dias, já se havia
conseguido refinanciar a dívida externa, após ser cumprida uma das exigências
mais onerosas e absurdas impostas pelas agências internacionais: o
reconhecimento da dívida externa privada em dólar preferencial, assim como a
outorga de um aval público como garantia de pagamento dessa dívida. A ação
do governo, a partir dessa data, se caracterizará ― ainda que mantendo-se
alguns dos traços do pacote de 1984 ― pela expansão do gasto fiscal com o
objetivo de terminar o mandato com altos níveis de popularidade e assegurar o
triunfo eleitoral do partido do governo. Isso trouxe como consequência uma
diminuição imoderada das reservas internacionais, que, em combinação com
outros desequilíbrios econômicos, levou o presidente a declarar uma moratória
do pagamento da dívida em janeiro de 1989 ― um mês antes de finalizar-se o
período constitucional, mas já tendo ocorrido as eleições presidenciais, nas
quais, aliás, vencera Carlos Andrés Pérez, candidato da Ação Democrática
(AD).

1
A expressão original em espanhol, usada então pelo governo e difundida pela imprensa
venezuelana, é "un golpe de timón". (N. do Trad.)
21

O segundo pacote posto em execução na Venezuela foi o anunciado


pelo presidente Pérez, poucos dias depois de sua segunda posse. 1 Os
principais indicadores macroeconômicos ao término da gestão de Lusinchi
eram tão alarmantes que conduziram inevitavelmente a mudanças substanciais
na orientação econômica do governo. A inflação chegou a alcançar cifras
históricas de 28,08% e 29,46% em 1987 e 1988, respectivamente; as reservas
internacionais caíram a US$6,55 bilhões ao fim do ano de 1988; e o deficit
fiscal global, no momento de mudança de governo, representava 15,1% do
PIB. A nova orientação pela qual optou o governo pode, efetivamente, ser
classificada como um programa de ajuste de natureza ortodoxa, pois foi
resultado de um compromisso formal assinado com o FMI, e cumpriu todos os
requisitos exigidos por ele.
O programa de ajuste macroeconômico do governo de Andrés Pérez se
resume fundamentalmente na Carta de Intenção firmada com o FMI, em
Washington, em 28 de fevereiro de 1989. Seus elementos principais eram: a)
restrição do gasto fiscal; b) restrição dos níveis de salários; c) unificação do
regime cambial com paridade unitária e flutuante; d) taxas de juros flexíveis e
aumento imediato dos níveis das taxas de juros reguladas; eliminação dos
créditos com taxas preferenciais para a agricultura; estabelecimento, o mais
rápido possível, de taxas de juros para o mercado; e) redução do controle de
preços; f) protelação de programas de investimentos de baixa prioridade; g)
redução de subsídios; h) introdução de um imposto sobre vendas; i) reajuste
das tarifas dos bens e serviços providos por empresas estatais, incluindo os
preços dos produtos derivados de petróleo no mercado interno; j) reforma no
regime comercial, incluindo a eliminação da maior parte das isenções nas
tarifas e liberação das importações; k) suspensão das restrições às transações
internacionais, incluindo o investimento estrangeiro e a repatriação de
dividendos.
Para compensar os efeitos negativos sobre os setores populares, o
governo ofereceu como políticas sociais: a) política de subsídios diretos aos
componentes da cesta básica; b) programa de "bolsas alimentares"; c)

1
Carlos Andrés Pérez exerceu dois mandatos como presidente da Venezuela: de março de
1974 a março de 1979, e de fevereiro de 1989 a maio de 1993, quando foi destituído pelo
Congresso Nacional, sob acusação de malversação de fundos públicos. Em 1996, foi
condenado a 2 anos e 4 meses de prisão. Cf., adiante, o Cap. 4. (N. do Trad.)
22

construção de 42.000 creches; d) reforço dos programas de controle do


lactente e da criança pré-escolar; combate às enfermidades diarreicas,
respiratórias e as preveníveis por vacinas; e) plano de organização e
consolidação urbana das áreas de ocupação popular sem planejamento, com
melhoria de sua infraestrutura (serviços de água, luz, pavimentação etc.); f)
política de apoio a microempresas; g) programa popular de transferências
alimentares dirigido a crianças de até 14 anos, a mães gestantes e lactantes; h)
ampla ação dedicada ao aprimoramento dos postos de saúde; i) programa
destinado à organização e estruturação de um sistema de seguridade social; j)
criação da Comissão Presidencial para a Luta contra a Pobreza. Em desacordo
com os procedimentos próprios a um regime de democracia, as medidas (tanto
econômicas como sociais) não foram submetidas à consulta do Congresso
Nacional, nem conhecidas pela opinião pública, senão após haver sido
assinada a Carta de Intenção.
Em contraste com a experiência vivida durante o governo de Lusinchi,
houve no governo de Pérez uma concordância entre as medidas de ajuste
macroeconômico, contidas na Carta de Intenção, e as políticas tendentes à
busca de uma reestruturação da economia, materializadas nas seis "diretrizes"
do VIII Plano da Nação, chamado também de a Grande Virada. Neste plano,
estabeleceu-se um "hexágono estratégico" constituído por: 1) crescimento sem
inflação; 2) competitividade internacional; 3) conservação dos recursos
naturais; 4) mudança institucional; 5) capitalização dos recursos humanos; e 6)
compromisso social. Através dessas orientações, os objetivos em vista eram a
diminuição da intervenção estatal e do peso do Estado na economia, a redução
da dependência econômica venezuelana em relação ao petróleo, e o
crescimento econômico sustentado sem inflação. Ademais, pretendia-se
privilegiar a industrialização para exportação, aumentar a produtividade do
trabalho, ampliar o gasto social e erradicar a pobreza extrema, melhorar a
distribuição da riqueza, democratizar a propriedade e a administração,
transferir propriedades para formas associativas de trabalhadores e aprofundar
o sistema democrático.
Este pacote econômico desencadeou a mais vasta e inflamada
resistência ― em vários momentos, chegando mesmo a ser violenta ― da
população venezuelana. Entre os episódios mais expressivos da recusa a
23

essas políticas de ajuste estiveram o "Sacudón" (ou Caracaço), de fevereiro-


março de 1989, e os fracassados golpes de Estado de 1992, que viriam
detonar uma crise política cujo desfecho foi a destituição do presidente Pérez e
o estabelecimento de um governo interino para finalizar o período
governamental. Em consequência dos golpes de Estado, as políticas de ajuste
e reestruturação econômica perderam o ímpeto e a coerência. Foram
politicamente derrotadas.
Em dezembro de 1993, após uma campanha eleitoral montada sobre
críticas às políticas econômicas de orientação neoliberal, triunfou nas eleições
presidenciais o candidato Rafael Caldera. Durante os primeiros dois anos, o
novo governo buscou afanosamente definir uma proposta coerente de política
econômica não adstrita ao paradigma neoliberal para superar a crise. Mas, um
contexto internacional fortemente adverso a ensaios que estivessem
divorciados das orientações do Consenso de Washington, somado à mais
dramática crise bancário-financeira do século e a algumas contradições no seio
da equipe econômica, forçou o governo a recorrer, em 1996, ao auxílio do FMI.
Aplicou-se, então, o terceiro pacote de ajuste, batizado naquela oportunidade
com o nome de Agenda Venezuela.
Em abril desse ano, em um cenário político muito diferente daquele em
que fora apresentado o pacote de Andrés Pérez, enquanto importantes setores
da vida nacional clamavam pela definição de um programa econômico, o
presidente Caldera lançou então o programa de ajuste, que, como o de Pérez,
podemos caracterizar como de natureza ortodoxa. A Agenda Venezuela
procurou superar ― como fora tentado no pacote anterior ― uma crise
conjuntural (neste caso, uma crise bancário-financeira), e aproveitá-la para
começar a lançar as bases de uma economia aberta de mercado. Embora as
políticas sociais contidas na Agenda se apresentassem de maneira mais bem
elaborada do que na Grande Virada de Pérez, recebendo uma relevância
retórica e política maior do que no caso anterior, a implantação de ambos os
planos significou para o país a aplicação prévia de um programa de ajuste
bastante similar. As medidas tomadas a partir do mês de abril de 1996 foram:
a) aumento do preço da gasolina e demais derivados de petróleo no
mercado interno;
b) liberação dos preços das tarifas dos serviços públicos;
24

c) liberação plena do sistema de controle de câmbios, com a


consequente desvalorização do bolívar;
d) aumento das taxas de juros;
e) aumento da porcentagem a pagar no imposto sobre as vendas;
f) plano de privatização de empresas públicas;
g) liberação de todos os controles de preços, permanecendo
controlados apenas os preços de cinco artigos essenciais da cesta
de alimentos do venezuelano;
h) criação de um fundo de proteção ao sistema bancário;
i) início da discussão para a reforma do sistema de benefícios sociais;
j) programas sociais de enfoque voltado para proteger os setores mais
vulneráveis da população.

Para a reestruturação da economia, o governo apresentou ― adstritas


também à orientação neoliberal ― as diretrizes básicas de um conjunto de sete
políticas globais em matéria fiscal, cambial, financeira, trabalhista e outras.
Embora no texto da Agenda Venezuela fossem apenas mencionados, os
programas petroleiros (que formavam parte substancial do pacote de Caldera)
foram agrupados sob o que ficou conhecido como a Abertura Petroleira.
Conquanto, em rigor, o início dessa política fosse anterior ao governo de
Caldera, foi com este que ela alcançou seu maior desempenho. Seguindo a
mesma orientação doutrinária do programa de ajuste, a política de Abertura
estabeleceu para a área petroleira a transferência, do setor público ao privado,
das atividades conexas e medulares da indústria nacionalizada em 1976. Essa
política inseria-se em uma nova visão da relação do Estado venezuelano com a
OPEP e com o papel de ingerência dessa organização no mercado mundial de
hidrocarbonetos. Durante o governo de Caldera, defendeu-se ― segundo
promovia a própria gerência da Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA) ― a
tese de que os preços internacionais do petróleo deviam ser fixados pelas leis
de mercado, sem interferência dos governos nem dos países produtores e
consumidores. Isso provocou uma relação assaz conflituosa com os outros
países membros da OPEP, relação que se agravaria ainda mais por causa da
expansão da produção venezuelana, folgadamente superior às cotas ajustadas
no seio da organização.
25

Embora, a princípio, a resistência popular à Agenda tenha sido menos


dramática do que a enfrentada pelo pacote de Pérez, a queda dos preços
internacionais do petróleo a partir de outubro de 1997 ― para a qual, aliás,
contribuiu a política de Abertura e de expansão da produção na Venezuela ―
desempenharia um papel relevante na derrota política da Agenda, manifestada
no triunfo de Hugo Chávez Frías na eleição presidencial de dezembro de 1998.
Chávez foi o único candidato que, em seus discursos de campanha, opôs-se às
políticas de abertura em questão petroleira.

O EMPOBRECIMENTO DOS VENEZUELANOS


Independentemente de terem sido os fracassos dos programas de ajuste
devidos a causas políticas ou a falhas intrínsecas ao próprio modelo, o certo é
que a maioria da população venezuelana percebeu, desde meados dos anos
80, que a combinação do esgotamento do modelo de desenvolvimento de
industrialização por substituição de importações com a aplicação de programas
de ajuste e reestruturação segundo o que era pautado pelas orientações
neoliberais resultava, para essa população, em um empobrecimento contínuo.
Esta percepção teria crescentes repercussões na ordem política, estimulando o
desenrolar de um processo de crítica e deslegitimação dos atores políticos que
haviam sido responsáveis por esses programas, bem como incentivando uma
profunda desconfiança e recusa às políticas neoliberais como expediente para
sair da situação que se padecia.
A seguir, apresentamos no Quadro 1 o comportamento de alguns
indicadores macroeconômicos, com séries temporais que se iniciam em 1979,
ano em que a sociedade venezuelana começou a mostrar os sinais de declínio
econômico. Estas séries terminam em 1999, primeiro ano do governo de
Chávez, quando ocorreu a interrupção do terceiro programa de ajuste.
Ressaltamos os anos nos quais os programas de ajuste foram aplicados de
maneira contínua.
26

QUADRO 1: Alguns indicadores macroeconômicos (1979-1999)


PIB Crescimento Inflação1 tipo de Reservas
2
ANO milhões (var. PIB) (var. IPC) câmbio internac.
3
Bs. 1984 (Bs./$) milhões $
1979 494.942 1,50 12,83 4,30 8.819
1980 474.205 -4,19 22,89 4,30 8.885
1981 467.395 -1,44 15,94 4,30 11.409
1982 451.781 -3,34 8,52 4,30 11.624
1983 420.099 -7,01 5,85 9,90 12.181
1984 410.067 -2,39 12,16 12,65 13.723
1985 415.349 1,29 11,40 14,40 12.341
1986 431.594 3,91 11,58 22,70 11.685
1987 459.613 6,49 28,08 30,55 9.402
1988 477.564 3,91 29,46 39,30 6.555
1989 460.813 -3,51 84,47 43,05 7.411
1990 492.170 6,80 40,66 50,58 11.759
1991 532.605 8,22 34,20 61,65 14.105
1992 556.669 4,52 31,43 79,55 13.001
1993 558.202 0,28 38,12 106,00 12.656
1994 545.087 -2,35 60,82 170,00 11.507
1995 566.627 3,95 59,92 290,00 9.723
1996 565.506 -0,20 99,87 476,50 15.229
1997 601.534 6,40 50,04 504,25 17.818
1998 600.878 -0,10 35,78 564,50 14.849
1999 557.777 -7,20 23,56 655,25 15.030
Fonte: Baptista, 1997; IESA, 2000; BCV,1992, e cálculos próprios para crescimento e inflação
de alguns anos.

Podemos ver, na segunda coluna do quadro, como os indicadores do


PIB e sua variação percentual revelam a natureza oscilante da economia
venezuelana desde 1979, pois os anos de crescimento e de recessão se
intercalam, tendo como resultado praticamente uma situação de empate entre
uns e outros. A extrema dependência da economia do país em relação às
receitas provenientes da venda internacional de petróleo e seus derivados
explica, em grande medida, este comportamento. Não obstante, embora a

1
Média anual.
2
Para o fechamento de dezembro.
3
Para o fechamento de dezembro.
27

maioria dos anos que registram um crescimento superior a 5% corresponda a


anos de significativo crescimento da atividade petroleira, outros anos não estão
vinculados a essa variável (por exemplo, o ano de 1992), nem o decréscimo da
atividade petroleira corresponde diretamente a um decréscimo do PIB.
Observa-se que os anos de 1984, 1989 e 1996, correspondentes ao
primeiro ano de cada um dos três ajustes macroeconômicos, mostram
decréscimo em dois casos (1984 e 1989) e estagnação em outro (1996); e nos
dois anos seguintes, há crescimento em dois casos (1985-86 e 1990-91),
sendo em um deles moderado. Em um terceiro caso, há primeiramente
crescimento (1997) e depois decréscimo (1998). Assim, para o caso
venezuelano, não podemos afirmar que haja uma relação direta entre ajuste e
comportamento do PIB. O que, com efeito, sobressai no quadro é que, em
cada primeiro ano de ajuste, registra-se um aumento significativo do índice de
inflação; em seguida, constata-se uma diminuição, mas desde 1984 a
economia venezuelana não foi capaz de conter essa variável para levá-la de
volta a cifras de um único dígito. O comportamento do índice de preços ao
consumidor (IPC) para esta série de 21 anos indica que aquilo que custava Bs.
100,00 em 1979 alcançava em 1999 um preço de Bs. 30.923,00. Por outro
lado, influiu nesta inflação a contínua desvalorização do bolívar, a qual chegou
neste período à cifra de 15.238%. O impacto social desses indicadores
macroeconômicos iria fazer-se sentir, em primeiro lugar, nos indicadores do
comportamento do emprego.
No Quadro 2, pode-se constatar claramente uma tendência à diminuição
do emprego formal público, que passa a ser remediado mais pelo crescimento
do emprego informal do que pelo aumento do emprego formal privado. Nos
anos iniciais da série, o setor informal oscilou em cifras próximas a 40%, e a
partir de 1994 produziu-se um salto de oito pontos em sua magnitude, para
estacionar-se, nos anos restantes, em cifras próximas a 48%. As altas
porcentagens do setor informal, que em termos globais indicam uma tendência
de crescimento, contrastam com as tendências de comportamento do emprego
anteriores ao declínio do modelo de desenvolvimento por substituição de
importações, pois, entre 1969 e 1979, a média das taxas interanuais de
aumento do emprego informal apenas alcançou 0,1%. Ademais, pode-se
observar que, ao início de cada programa de ajuste, ocorreu um aumento da
28

taxa de desemprego, sendo nos três casos superior a 2%. Não obstante, nos
anos imediatamente seguintes, a evolução do desemprego mudou para cada
caso.
QUADRO 2: FORÇA DE TRABALHO (1983-1998)
ANO PEA Desocupados Setor público Formal Setor informal
% PEA % ocupados privado %ocupados
%ocupados
1983 5.407.292 10,30 22,67 36,03 41,30
1984 5.716.207 13,4 21,78 36,42 41,80
1985 5.915.573 12,1 20,18 39,52 40,30
1986 6.107.115 10,30 19,38 39,12 41,50
1987 6.321.344 8,50 18,86 42,44 38,70
1988 6.572.049 6,90 18,71 43,19 38,10
1989 6.900.588 9,60 19,68 40,62 39,70
1990 7.154.622 9,90 19,85 38,65 41,50
1991 7.417.929 8,70 19,07 40,43 40,50
1992 7.537.817 7,10 18,05 42,35 39,60
1993 7.546.241 6,30 16,80 42,60 40,60
1994 8.025.928 8,46 16,40 34,29 49,31
1995 8.608.653 10,22 17,57 33,99 48,44
1996 9.024.627 12,43 17,13 34,24 48,63
1997 9.507.125 10,65 16,96 35,57 47,47
1998 9.699.330 11,28 16,33 35,47 48,20
Fonte: IESA, 2000 e cálculos próprios para algumas porcentagens.

A situação de deterioração econômica e o aumento do setor informal se


expressam no comportamento da renda e sua distribuição. Para 1979, a renda
média anual, medida em bolívares de 1984, foi de Bs. 42.162, enquanto que
em 1997, após vinte anos de deterioração contínua, essa mesma renda desceu
a Bs. 15.299. Estas mesmas cifras expressadas em dólares significam que a
renda para 1979 foi de $5.345 e, em 1997, baixou para $3.049. Além disso, ao
longo desses mesmos anos, a distribuição da renda também se viu
deteriorada. Se, em 1979, a renda dos 5% mais ricos da população era 41,58
vezes superior à dos 5% mais pobres, em 1997 esta mesma relação se
deteriora para chegar a 53,11 vezes (Baptista,1997). Destes dados se pode
colher claramente o nível de mal-estar social que se ia gestando.
29

Outra variável expressiva da situação que então se padecia e da


consequente tensão que se ia criando é a pobreza (cf. Quadro 3). Embora haja
diferentes metodologias para medi-la ― e, naturalmente, dependendo de qual
delas se escolha, obtêm-se cifras distintas ― há uma coincidência dos
resultados obtidos por diversas metodologias que se traduz em uma tendência
geral do comportamento da pobreza nos últimos 20 anos.
Para os dados aqui apresentados, definimos como lares vivendo em
condição de pobreza aqueles cuja renda familiar per capita é inferior ao dobro
do custo da cesta básica de alimentos, e como lares em pobreza extrema
aqueles de renda familiar per capita inferior ao custo da cesta básica. Nos
dados apresentados, pode-se verificar uma tendência contínua de crescimento
tanto da pobreza como da pobreza extrema. De forma mais pontual, observa-
se que, no primeiro ano dos três programas de ajuste, a pobreza e a pobreza
extrema, comparadas ao ano imediatamente anterior, sofreram um incremento
pronunciado. A série culmina com cifras de pobreza extrema superiores às
cifras de pobreza que existiam na Venezuela em princípios dos anos 1980. Em
fins dos anos 1990, ambas as cifras chegam próximo do triplo do que eram no
princípio da série, isto é, em 1998 quase 50% das famílias são pobres e mais
de um quarto delas é de miseráveis.
30

QUADRO 3: LARES EM SITUAÇÃO DE POBREZA (1980-1997)


ANO Nº de lares % lares em pobreza % lares em pobreza
extrema
1980 2.806.679 17,65 9,06
1981 2.880.084 22,82 10,71
1982 3.019.932 25,65 12,14
1983 3.130.682 32,65 14,95
1984 3.183.339 37,58 18,90
1985 3.211.477 34,77 16,60
1986 3.412.139 38,88 17,67
1987 3.541.504 38,84 16,61
1988 3.659.369 39,96 16,77
1989 3.821.954 44,44 20,07
1990 3.859.923 41,48 18,62
1991 3.914.165 35,37 16,01
1992 4.032.402 37,75 15,52
1993 4.190.519 41,37 16,81
1994 4.396.784 53,65 27,52
1995 4.396.354 48,20 22,95
1996 4.549.363 61,37 35,39
1997 4.468.445 48,33 27,66
Fonte: IESA, 2000.

EXPANSÃO DA VIOLÊNCIA COTIDIANA


Em fins da década de 1980, junta-se à situação de crescentes
desequilíbrios socioeconômicos o aumento significativo das cifras dos
indicadores de violência, passando a Venezuela então da condição de
sociedade com níveis baixos de violência na América Latina para a de nível
médio-alto. Nas taxas de homicídios, a Venezuela chega a assemelhar-se ao
México e ao Brasil.
Desde o final dos anos 1960 ― quando perdeu força a insurreição
armada e consolidou-se o sistema democrático conhecido hoje como de
Puntofijo ― até 1989, a Venezuela pertenceu ao grupo de sociedades de baixa
violência cotidiana e sociopolítica no continente. Conquanto ações de natureza
violenta viessem crescendo na década de 1980, as cifras de diversos
indicadores, como veremos em seguida, deram um salto significativo a partir de
31

1989. Alguns estudiosos têm afirmado que o novo discurso neoliberal do


governo de Pérez, assim como a encarniçada violência e a violação do Estado
de Direito de que lançou mão esse governo para enfrentar a revolta popular
conhecida como Caracaço significaram uma ruptura do discurso hegemônico
de união e harmonia, elaborado no passado para legitimar a democracia
venezuelana, abrindo caminho a um uso mais generalizado da violência por
parte da população. Da mesma forma, a debilidade que demonstraram durante
o Caracaço as elites e as instituições políticas em atuar eficientemente para
controlar a situação acentuou a decomposição institucional, que, havia alguns
anos, ia-se agravando, incidindo também no uso de meios extrainstitucionais
para resolver os conflitos. Estudos como o realizado por Scotto e Castillo
(1994), da Universidade Católica Andrés Bello, corroboram (para o ano de
1994) a asserção segundo a qual, na raiz dos sucessos de fevereiro e março
de 1989, estava a circunstância de que as pessoas percebiam a instauração da
violência em suas vidas como uma presença permanente.
O Quadro 4 apresenta as cifras das taxas de homicídios por 100 mil
habitantes e sua variação percentual, tanto em Caracas como no conjunto do
território nacional, entre 1986 e 1999. Estas cifras põem em evidência o salto
que se produziu desde 1989. Não obstante terem sido registradas reduções
nas taxas em alguns dos anos posteriores, elas nunca regrediram a valores
semelhantes aos de antes do Caracaço.

QUADRO 4: TAXAS DE HOMICÍDIOS DE VENEZUELA E DE CARACAS (1986-


1999)
ANO VENEZUELA VENEZUELA CARACAS CARACAS
Taxa x Aumento Taxa x Aumento
100.000 hab. Taxa % 100.000 hab. Taxa %
1986 8 -- 13 --
1987 8 0,0 14 7,7
1988 9 12,5 19 35,7
1989 13 44,4 45 136,8
1990 13 0,0 44 -2,2
1991 13 0,0 46 4,5
1992 16 23,1 68 47,8
1993 21 31,3 91 33,8
32

1994 22 4,8 96 5,5


1995 21 -4,5 88 -8,3
1996 22 4,8 83 -5,7
1997 19 -13,6 64 -22,9
1998 20 5,3 63 -1,6
1999 25 25,0 81 28,6
Fonte: Centro de Estudos para a Paz- UCV (2002). Cálculos próprios para aumento de taxas.

Outros indicadores que mostram o crescimento da violência na vida


cotidiana das pessoas durante esses anos são os que registram delitos contra
pessoas e contra propriedades. Eles indicam também aumentos, embora sejam
menos claros do que as taxas de homicídios que expusemos acima. As cifras
de delitos são menos confiáveis do que as de homicídios, porquanto nestas
sociedades com instituições deslegitimadas muitas vítimas de delitos não os
denunciam, o que impede seu registro.
Ainda outro indicador é o de apropriação indevida de veículos. No
Quadro 5, pode-se observar que, enquanto a partir de 1993, os furtos de
veículos mostravam uma tendência decrescente, o número de roubos de
veículos ― algo que comporta um componente maior de violência contra os
proprietários do que no caso dos furtos ― não deixou de crescer.
Adicionalmente, outras cifras indicam que, enquanto o uso da violência no total
dos delitos registrados no país em 1990 representava 16%, no fim da década
(em 1999) havia alcançado 36%. A tendência se manteve neste nível em 2000
(33,8%), mas declinou em 2001 (21,1%).

QUADRO 5: APROPRIAÇÃO INDEVIDA DE VEÍCULOS (1990-1996)


ANO Taxa de furtos Taxa de roubos Taxa total
x 100.000 hab. x 100.000 hab. x 100.000 hab.
1990 151 34 185
1991 149 41 190
1992 149 47 196
1993 172 70 242
1994 157 82 239
1995 123 85 208
1996 111 99 210
Fonte: SANJUAN (1997, 225 e 228)
33

A violência nos delitos não só afeta suas vítimas diretas, mas também
recai sobre aqueles que se relacionam com essas vítimas, como as
testemunhas ocasionais e a população em geral, através da cobertura
realizada pelos meios de comunicação. Em pesquisa de opinião realizada em
1996 pelo sociólogo Roberto Briceño León, na cidade de Caracas, foram
obtidos resultados alarmantes. Uma parcela de 17% da população havia sido
vítima de roubo a mão armada no ano anterior à pesquisa, 3% haviam sido
agredidos, 11% haviam sido testemunhas da agressão a outra pessoa, e 10%
afirmaram ter perdido algum parente próximo por homicídio. Esse aumento
abrupto do componente violento na vida cotidiana, junto com o tratamento que
a mídia dava ao problema, levou os caraquenhos a sentirem-se mais
inseguros, mesmo quando comparados a habitantes de cidades mais violentas
da América Latina. Cerca de 33% dos habitantes de Caracas sentiam-se, em
fins da década, inseguros na própria comunidade ou bairro; 66% deles
sentiam-se muito inseguros quando se encontravam em outras partes da
cidade, e 61% quando usavam unidades de transporte coletivo.
Em síntese, esses indicadores revelam o caldo de cultura em que
germinaram os processos de crise e transição sociopolítica da sociedade em
fins do século XX.
34

CAPÍTULO 2
FATORES POLÍTICOS E SUBJETIVOS QUE SE ACRESCENTAM AO
1
DECLÍNIO SOCIOECONÔMICO

Em 16 de fevereiro de 1989, quatorze dias depois de haver tomado


posse pela segunda vez na presidência da República, Carlos Andrés Pérez
anunciou ao país a decisão de seu governo de tentar superar a crise
econômica e fiscal herdada de governos anteriores, mediante a aplicação de
um programa de ajuste macroeconômico e de um plano de reestruturação da
economia, de orientação neoliberal. Era a primeira vez que um governo
venezuelano aceitava explicitamente submeter-se às orientações do FMI. Onze
dias depois, a população das cidades iria protagonizar uma singular revolta
popular, que posteriormente seria conhecida como o Caracaço ou o "Sacudón".
A Venezuela entraria, em seguida, em um período de turbulências
sociopolíticas, no qual o protesto popular tornar-se-ia uma constante,
estendendo-se até recentemente, acompanhando e dando respaldo a
transformações radicais na ordem política estabelecida desde 1958.
Neste capítulo, apresentamos uma análise dos fatores político-
institucionais e subjetivos que conduziram ao Caracaço e à intensa mobilização
popular que a ele se sucedeu nos anos seguintes. Argumentamos que este
fenômeno do protesto popular contínuo, embora tivesse como caldo de cultura
a recessão econômica e seu impacto fiscal (que analisamos no capítulo
anterior), contou também com fatores de natureza político-institucional, com
fatores subjetivos e com certos episódios críticos de confronto com uma
autoridade injusta ― todos esses fatores decisivos para que fossem detonados
primeiramente a revolta popular de fevereiro de 1989 e, em seguida, o ciclo de
protestos que fez estremecer o país ao longo da década.

1
Este capítulo está baseado em "La protesta popular venezolana entre 1989 y 1993 (en el
umbral del neoliberalismo)", (Margarita López Maya) em: Lucha popular, democracia,
neoliberalismo: protesta popular en América Latina en los años de ajuste, Caracas, Nueva
Sociedad, 1999, pp. 211-235. (N. da A.)
35

ASPECTOS CONCEITUAIS
Muito se tem debatido, desde meados do século XX, acerca dos fatores
que impelem a ação coletiva, cuja manifestação vem-se ampliando não só na
Venezuela mas também em muitas outras sociedades do mundo. Superados
os preconceitos antigos, que levavam a considerar o protesto como a ação
irracional de "turbas" ou "massas", boa parte da literatura acadêmica atual o
reconhece como uma ação que possui sua racionalidade própria, um
instrumento que, em conjunturas específicas, é utilizado por multidões, grupos
ou atores sociais para alcançar seus objetivos. Não obstante, o que dá impulso
a este tipo de ação? Por que algumas sociedades são mais propensas ao
protesto popular, enquanto outras o utilizam raramente? Por que em certos
momentos ocorre uma intensificação do protesto em uma sociedade? Que
razões explicam as distintas modalidades com as quais diferentes atores ou
sociedades protestam? Todas essas questões são objeto de inúmeras teorias.
Um avanço teórico notável foi promovido nos anos de 1950 pela escola
de historiadores marxistas britânicos, ao argumentar e demonstrar
empiricamente para alguns casos europeus que a ação coletiva obedece a
uma causalidade complexa, na qual a privação material pode ser causa
necessária, mas nunca suficiente. Entre a fome e a mobilização coletiva,
segundo E. P. Thompson, existe em cada sociedade um conjunto de
mediações que é necessário conhecer, e que define para cada uma delas as
suas especificidades. A partir desse pressuposto, que foi ganhando aceitação
generalizada, multiplicaram-se na segunda metade do século as interpretações
sobre onde colocar o maior peso explicativo das causas do protesto e de suas
características peculiares em cada sociedade.
É claramente observável no caso da Venezuela que, desde os anos 80,
o abrupto e, em certa medida, inesperado declínio econômico do modelo de
desenvolvimento por substituição de importações estabeleceu o primeiro fator
propício à ação coletiva ao produzir um contínuo empobrecimento de parcelas
significativas das classes médias venezuelanas. A esse declínio somaram-se
os programas de ajuste macroeconômico que não conseguiram reverter esse
empobrecimento; antes, o acentuaram. A despeito disso, o empobrecimento
como única variável não pode explicar o desencadeamento da mobilização,
nem as características distintivas que uma determinada sociedade ― no caso,
36

a venezuelana ― lhe imprime. Se o empobrecimento por si só bastasse, todas


as sociedades que atravessam uma pauperização análoga à da sociedade
venezuelana reagiriam da mesma maneira que ela. Sabemos que, embora a
mobilização tenha ido in crescendo em diferentes sociedades da América
Latina, a intensidade, as modalidades e os atores no Equador, México ou Brasil
são bastante diversos entre si e em relação à Venezuela. Sustentamos aqui
que o Caracaço primeiramente ― e o desencadeamento do protesto popular
depois ― bem como suas peculiaridades, estão influenciados por outros
fatores, que se desenvolveram sobretudo na década de 1980.
Em primeiro lugar, ocorreu uma mudança naquilo que alguns autores,
como Sydney Tarrow (1996), definiram como a estrutura de oportunidades
políticas para certos setores da sociedade. Entende-se por isto o seguinte:
sobrevieram certas alterações políticas externas a grupos ou atores sociais, e
estes as perceberam como aproveitáveis para obter concessões do poder.
Segundo a lógica desta argumentação, as estruturas e/ou instituições do
Estado criam oportunidades estáveis; mas quando ocorrem mudanças nessas
estruturas ou instituições, surgem brechas ou aberturas que os atores de
escassos recursos podem aproveitar para dar impulso a seus movimentos.
Uma divisão das elites ou uma reforma do Estado podem servir de exemplos.
Os atores que se mobilizam tomam ― e, ao mesmo tempo, expandem ― as
oportunidades políticas, convertendo-as em ação coletiva beligerante e
sustentando-as no tempo graças a estruturas organizativas que vão
desenvolvendo e a marcos culturais que vão construindo. Segundo Tarrow, a
ação coletiva continuada, ao expandir-se, vai produzindo ciclos ou períodos de
turbulência e realinhamento no seio da sociedade. Uma vez que um ciclo tenha
começado por força da ação de alguns atores, reduzem-se os custos da ação
coletiva para outros atores, levantando-se então novos movimentos sociais,
que se apoiam mais nas oportunidades gerais suscitadas pelo ciclo do que nos
seus próprios recursos, ocasionalmente escassos. Os anos turbulentos podem
ter resultados diversos, mas sempre deixam atrás de si expansões na
participação e mudanças na cultura popular e na ideologia das sociedades.
Este enfoque ajuda a explicar o que tem ocorrido na Venezuela.
Vinculados a evidentes mudanças político-institucionais que, como
veremos adiante, estimularam a saída às ruas de setores pobres e
37

empobrecidos da sociedade, também é notório que, durante os anos 80,


desenvolveram-se certos fatores de natureza subjetiva que determinaram uma
mudança de consciência desses setores, mudança que também contribuiu para
a mobilização. Esta concepção, construída por Francis Fox Piven e Richard
Cloward (1977), refere-se a uma alteração da percepção que um ator ou grupo
tem de sua situação, o que o leva a convencer-se de que ela é injusta e, ao
mesmo tempo, de que ao mobilizar-se é capaz de alterá-la. Os pobres, dizem
Piven e Cloward, não saem às ruas se avaliam que correm perigo e/ou se com
isso não conseguirão nada. A ideia de mudança na consciência coletiva guarda
semelhanças com o conceito de indignação moral que Barrington Moore usara
para caracterizar os sentimentos de injustiça que surgem em certas
conjunturas e que provocam a rebeldia ― base, por sua vez, do protesto.
Ao convergirem oportunidades políticas e mudanças na subjetividade
com o contínuo declínio das condições materiais de vida na Venezuela de fins
dos anos 1980, o cenário estava pronto para uma crescente mobilização
popular. Contudo, o momento, as modalidades e a natureza do protesto
parecem estar influenciados por um terceiro fator adicional. Entre 1987 e 1988,
aconteceram dois episódios críticos de enfrentamento entre certos setores
sociais e o Estado. Esses episódios revelaram cruamente um Estado injusto e
arbitrário ― circunstância que reforçou os fatores anteriores. Mas também,
durante esses episódios, desenvolveram-se ações disruptivas violentas e
extrainstitucionais, que deram alguns resultados positivos para aqueles que se
mobilizaram. Os encontros com uma autoridade injusta, no dizer de William A.
Gamson (et alii), ao servir de exemplos de confrontação entre o poder e seus
adversários, marcam as interações posteriores. Pela natureza da confrontação
e sua proximidade no tempo, a revolta de Mérida, de 1987, e o Massacre de El
Amparo, de 1988, deram o tom ao Caracaço. E ambos, junto com este último,
iriam determinar algumas características da mobilização popular nos anos
seguintes.
38

MUDANÇAS NA ESTRUTURA DE OPORTUNIDADES POLÍTICAS


Ao se observar a evolução político-institucional dos anos de 1980,
evidencia-se uma paulatina deterioração de atores políticos e instituições
públicas, cujo desenrolar alcançará um ponto de inflexão nos eventos de
fevereiro de 1989 e dos meses seguintes. A partir desse ponto, entrarão tais
políticos e instituições em um franco processo de deslegitimação. Os primeiros
passos desta evolução estão vinculados ao declínio do modelo de
desenvolvimento industrialista dinamizado pela renda petroleira, que em
combinação com as mudanças no âmbito financeiro internacional levou à
Sexta-Feira Negra de fevereiro de 1983. Foi a partir daí, então, que as
instituições de mediação e representação política começaram a experimentar
permanentes dificuldades para cumprir as funções que lhes eram designadas
pelo sistema político instaurado em 1958. Daí em diante, de maneira contínua,
principiaram a alterar-se as relações entre poder e sociedade.
Antes da Sexta-Feira Negra, os canais de representação e conciliação
de conflitos, traçados nos pactos e alianças que fundaram o sistema político
em 1958 ― entre eles o de Puntofijo, que atualmente serve para identificá-lo ―
já haviam começado a mostrar-se insuficientes para conter a complexidade de
demandas e interesses de setores de uma sociedade que se modernizara
celeremente desde o segundo pós-guerra. A própria forma segundo a qual
havia sido planejado o sistema político com vistas à sua estabilização ― ou
seja, um sistema centralizado, que outorgava preeminência aos partidos
políticos, em especial a seus líderes nacionais, sobre outras formas da
sociedade civil ― agora se constituía em obstáculo à inclusão de novos atores
sociais e políticos que a complexidade de interesses exigia. Além disso, os
partidos políticos hegemônicos (os signatários do Pacto de Puntofijo ― AD e
Copei) e os sindicatos que lhes eram afins (agrupados na Confederação de
Trabalhadores da Venezuela - CTV) também perdiam seu dinamismo e sua
capacidade de representação e mediação popular, em virtude do desgaste
provocado pelo exercício do poder no contexto da riqueza abundante e fácil do
petro-Estado dos anos 1970.
Por volta da metade do primeiro governo de Andrés Pérez (1974-1979),
começaram a ser divulgadas denúncias de autoritarismo e corrupção no seio
39

do governo e dos partidos, por parte de organizações de oposição e algumas


personalidades. Igualmente, nos anos seguintes, durante o governo do
presidente Herrera (1979-1984), somaram-se a essas críticas algumas
censuras aos partidos e sindicatos por sua falta de ideias e de debates sobre o
futuro da sociedade. A partir de 1983, diante da evidência de que se esgotava
o modelo de desenvolvimento que havia orientado a economia venezuelana
sem haver cumprido seus objetivos de crescimento industrial autossustentado
e de equidade social, principiou a generalizar-se o questionamento do
desempenho do Estado desde o início da democracia, bem como o plano e a
conduta dos partidos hegemônicos.
O governo de Lusinchi (1984-1989) acrescentou ao processo, já em
marcha, de debilitação dos partidos políticos hegemônicos e de seus sindicatos
o desprestígio de outras instâncias do Estado, como o Poder Judiciário e a
Procuradoria Geral. A dependência desses poderes em relação ao Executivo
Nacional se fez patente nesses anos, ao deixar de funcionar, entre outros
dispositivos, o chamado pacto institucional entre os partidos AD e Copei. Este
pacto ― que foi idealizado em fins dos anos 1960 para fortalecer a estabilidade
institucional ― ao criar o compromisso de ambos os partidos de consultarem-
se e negociarem juntos a designação de cargos-chave dos poderes públicos,
havia assegurado adicionalmente uma relativa independência dos indivíduos
designados em relação às diretrizes partidárias. Em 1984, o governo
aproveitou a maioria absoluta que possuía no Congresso Nacional para romper
o pacto, e designou unilateralmente o controlador geral da República, o
procurador geral e cinco magistrados da Corte Suprema de Justiça (CSJ), com
seus respectivos suplentes. Com isso, a dependência das instâncias
encarregadas de supervisionar o Executivo tornou-se direta, debilitando sua
legitimidade e criando condições favoráveis a numerosas irregularidades e
abusos do poder.
Outro aspecto que contribuiu nesses anos para o descrédito das
instituições ― e, juntamente, para a abertura de uma estrutura de
oportunidades políticas que propiciava a rebeldia e a mobilização popular ―
esteve ligado aos desregramentos da vida privada do presidente, resultado do
rompimento entre uma esposa e família "oficiais" e outras "paralelas".
Conquanto não fosse a primeira vez que os venezuelanos assistiam a
40

dualidades desse feitio na vida particular de seus mandatários, os ingredientes


inéditos do caso do doutor Lusinchi foram dados pelo afã voluntarioso de sua
amante, que adquiriu ao longo do período uma ingerência crescente nas ações
do governo, e mesmo nas do partido. Este problema empanou a imagem do
presidente, a majestade do cargo e foi a origem de alguns atos de repressão e
corrupção, que só começaram a ser divulgados nos últimos dias de sua gestão
e nos primeiros do governo seguinte de Andrés Pérez, ou seja, pouco antes do
Caracaço. O caso mais escandaloso de corrupção administrativa do governo
foi o que se deu na Secretaria do RECADI 1 do Ministério da Fazenda, um
órgão criado pela administração do presidente Herrera após a Sexta-Feira
Negra, para administrar os dólares. No período constitucional de Lusinchi,
elaborou-se ali um complicado mecanismo de câmbios diferenciais, existindo
um alto grau de discricionariedade por parte dos funcionários encarregados de
tomar as decisões. Dados os milhões de dólares que estavam em jogo,
desenvolveu-se um sofisticado sistema de tráfico de influências no qual estava
envolvida a amante do presidente. Calcula-se que neste esquema foram
apropriadas ilicitamente somas de um total próximo aos 15 bilhões de dólares
por parte de um reduzido grupo de privilegiados.
Também a partir da presidência foram exercidas pressões e
manipulações sobre os meios de comunicação, em particular sobre os
impressos. Colunas de jornalistas de oposição, como José Vicente Rangel e
Sanín (Alfredo Tarre Murzi) deixaram "provisoriamente" de sair nos diários. Em
várias oportunidades, elevaram-se queixas na Sociedade Interamericana de
Imprensa e os jornalistas fizeram passeatas de protesto. Mas essa situação
somente foi superada e divulgada publicamente quando terminou o período
presidencial de Lusinchi. Foi este mais um ingrediente na debilitação
institucional.
Ao descrédito das instituições deve-se acrescentar o processo de
reforma do Estado, que se iniciou também durante o governo de Lusinchi.
Embora trouxesse uma tendência contrária àquela que pressagiava o
descrédito das instituições, pois era uma iniciativa do Estado para corrigir suas
disfunções e, como tal, fortalecer-se, pôs em evidência, contudo, a escassa

1
Sigla de Régimen de Cambio Diferencial. (N. do Trad.)
41

vontade das elites políticas para introduzir mudanças que efetivamente


pudessem alterar as relações de força existentes na sociedade. Além disso,
revelou igualmente a quase impossibilidade não só das elites políticas, mas
também das empresariais e sindicais, de porem-se de acordo quanto à
orientação econômica que deveria ser implementada para dar solução à
estagnação econômica que se instalara desde fins dos anos 70. O processo de
reforma do Estado também conseguiu que se aprovassem, em 1988, no
Congresso a ser renovado, algumas primeiras reformas de descentralização
política ― reformas que abririam as primeiras brechas institucionais através
das quais seria possível às mobilizações obter mudanças políticas.
O governo de Lusinchi, em consonância com as demandas e promessas
que haviam caracterizado a campanha eleitoral de 1983, decretou em
dezembro de 1984 a abertura de um processo de "reforma integral do Estado
venezuelano". A Comissão Presidencial de Reforma do Estado, mais
conhecida por suas iniciais ― Copre ― foi a instância criada para coordenar os
trabalhos para esse fim. No transcurso de um trabalho intenso e extenso, que
incluiu um amplo processo de consulta a atores velhos e novos do âmbito
sociopolítico venezuelano, ela logrou construir pelo consenso um conjunto de
propostas políticas e administrativas para dar início ao caminho das reformas.
Não pôde, contudo, formular uma proposta de reformas econômicas que
recebesse o consenso dos comissionados. Uma vez publicadas em 1986 as
propostas políticas, a Copre confrontou-se com uma dura oposição do próprio
Executivo que a havia criado, e que resistiu às transformações políticas
apresentadas. O partido oficial, a AD, uniu-se à resistência do presidente e,
dada a esmagadora maioria com que contava no Congresso, toda a
possibilidade de mudanças políticas nesse período pareceu evaporar-se. Não
obstante, nas últimas sessões de 1988 do Congresso, ao calor da conjuntura
eleitoral e apostando Andrés Pérez (candidato do partido oficial) na postura de
diferenciar-se do governo como meio de obter a vitória eleitoral, criaram-se
condições favoráveis à aprovação de algumas reformas políticas. A aprovação
da criação da figura do prefeito1 eleito por voto universal, direto e secreto, e
sobretudo a aprovação da eleição universal, direta e secreta dos governadores

1
O alcalde (em espanhol), que é a autoridade cujas atribuições são equivalentes, na hierarquia
administrativa brasileira, às do prefeito municipal. (N. do Trad.)
42

de Estado abriram os primeiros espaços a partir dos quais seria possível tentar-
se a inclusão de novos atores na representação política, com a consequente
mudança nas relações de poder. O processo de reforma do Estado veio alterar
a estrutura de oportunidades políticas do passado, ao revelar a rigidez e
contrariedade das elites políticas, sindicais e empresariais em aceitar
modificações da ordem socioeconômica e política existente, ao pôr a
descoberto as diferenças em torno das orientações para o futuro referentes à
sociedade, e ao abrir os primeiros caminhos para viabilizar mudanças políticas.

MUDANÇAS NA CONSCIÊNCIA COLETIVA


As mudanças político-institucionais propiciaram entre diversos setores
sociais uma crescente percepção de que a sociedade estava entrando em uma
nova fase de desenvolvimento. A Venezuela pós-petroleira foi uma expressão
bastante empregada para caracterizar a situação de então, sendo a Sexta-
Feira Negra de 1983 o primeiro momento paradigmático na mudança da
consciência coletiva ― como foi assinalado por alguns analistas (por exemplo,
o historiador Elías Pino Iturriera). Este evento abriu o processo de
questionamento entre elites e organizações da sociedade civil quanto ao
modelo de desenvolvimento econômico que fora implementado durante uma
parte significativa do século XX, e teve início a crítica persistente ao modelo de
Estado e ao sistema político que o havia sustentado.
Uma vez que as críticas não foram ouvidas pelas elites políticas e as
mudanças demandadas não se efetivaram, o processo de deterioração
institucional se avolumou e ensejou uma progressiva mobilização de setores
tradicionalmente beligerantes da sociedade. Os estudantes, os professores
secundários e universitários e, em geral, todo o setor da educação, assim como
outros setores organizados do funcionalismo público (como os funcionários dos
tribunais e de diferentes seções do setor de saúde) iniciaram na década de
1980 uma escalada de protestos. Estes atores valiam-se principalmente das
paralisações de trabalho e das manifestações de rua para exigir o pagamento
de salários atrasados, abonos e dívidas que o governo havia contraído nos
contratos coletivos e que não haviam sido saldadas. Essas demandas
formavam parte daquilo que os venezuelanos consideravam seus direitos como
43

cidadãos, visto que no discurso dominante elaborado desde 1958 a democracia


estava indissoluvelmente vinculada ao desenvolvimento econômico e social da
população e, em particular, ao bem-estar do povo. Neste sentido, os reiterados
descumprimentos do Estado em relação aos seus compromissos como patrão,
somados aos índices de inflação (que, como vimos no capítulo anterior,
começaram a crescer nesses anos), ao desemprego, à ampliação da
informalidade da atividade econômica de um número cada vez maior de
venezuelanos, e ao declínio dos serviços públicos, tudo isso foi minando a
legitimidade da democracia venezuelana.
Sem dúvida, as novas circunstâncias em que se achava a economia do
país dificultavam ao governo o cumprimento do esquema de democracia
esboçado a partir de 1958 e interiorizado pela população. Em que pese a isso
tudo, nos anos finais da gestão de Lusinchi utilizou-se o gasto público para
reativar a atividade econômica e, por esse meio, criar alguns sinais de melhoria
que permitissem o triunfo do candidato presidencial do partido oficial nas
eleições de 1988. Tal expediente provou ser uma ilusão quando, pouco depois
da vitória eleitoral de Andrés Pérez, o governo, esmagado sob o peso dos
compromissos e dívidas, viu-se obrigado a declarar moratória do pagamento
dos serviços de sua dívida. A moratória não só revelou quanto havia de artificial
nas melhorias sentidas nos últimos anos, mas também mostrou a falsidade
daquilo que, dois anos antes ― quando o governo negociou um
refinanciamento de suas dívidas com as agências internacionais ― havia sido
divulgado como "o melhor refinanciamento do mundo". Em fevereiro de 1989, a
demonstração dessa falsidade se fez mais contundente quando o próprio
presidente Lusinchi declarou à imprensa, para surpresa dos venezuelanos, que
havia sido "enganado" durante as negociações que seu governo manteve com
os bancos internacionais (cf. El Nacional, 27/02/1989).
Como se não bastassem esses fatos, o próprio discurso dominante da
democracia venezuelana, socializado durante décadas, começou a
desmoronar, questionado pelas elites e atores do âmbito internacional, movidos
por ideias de orientação neoliberal. Essas ideias alcançaram franca aceitação
no discurso oficial do governo venezuelano já nos primeiros dias da presidência
de Andrés Pérez.
44

Com efeito, embora as orientações econômicas da doutrina neoliberal


tenham começado a entrar no debate político desde a campanha eleitoral de
1978, e, da mesma forma, o governo de Herrera Campíns tenha desenvolvido
algumas linhas de política nessa direção, o segundo boom dos preços do
petróleo no mercado internacional (que se deu pouco depois de iniciado esse
governo), combinado com a força dos velhos padrões da racionalidade do
petro-Estado, fez que aquelas orientações fossem pouco coerentes e de
escassa significação. Não obstante, depois da Sexta-Feira Negra, essas ideias
principiaram a ter mais receptividade entre setores empresariais e grupos de
intelectuais, os quais fundariam nessa década algumas organizações
associativas ― o grupo Roraima foi o mais conhecido ― que propugnariam
pela redução do papel do Estado na economia e um maior ativismo do setor
empresarial privado em diferentes âmbitos da vida social. O governo de
Lusinchi também se moveria nessa direção: conquanto, durante seu governo,
ele se negasse a recorrer ao FMI para sanar os desequilíbrios fiscais herdados,
foi nesse tempo que começou a ser aplicado aquilo que, no capítulo anterior,
chamamos de plano de ajuste de natureza heterodoxa. Mas o neoliberalismo
enquanto discurso não era bem visto politicamente e, até ao governo de
Lusinchi, foi manejado com cuidado e grande reticência.
Entretanto, isso tudo mudou durante os primeiros dias da gestão do
presidente Andrés Pérez ― o que ficou evidenciado tanto pelo anúncio de um
ajuste ortodoxo de feição neoliberal como pela designação de um grupo de
ministros "tecnocratas", formados nessas novas orientações e manifestando
vivo entusiasmo por elas. O discurso neoliberal se fez repentinamente
predominante e aceito, em que pese ao que dizia em contrário o discurso
dominante tradicional das elites políticas e sindicais venezuelanas, forjado ao
longo do século XX, e que vinculava o desenvolvimento econômico da
sociedade ao papel interventor do Estado na economia. Consoante o novo
"consenso neoliberal", o Estado era agora o principal culpado das dificuldades
que haviam afligido a sociedade no último quartel do século. Condizentemente,
o neoliberalismo, com seus programas de ajuste e reestruturação econômica,
suporia não só uma retração do Estado na atividade econômica, mas também
fortes cortes fiscais nos já mutilados programas sociais, como meio de reduzir
o deficit fiscal, equilibrar os indicadores macroeconômicos e pagar as dívidas
45

contraídas. Esta repentina mudança da realidade, que já se entrevia, contribuiu


para gerar tensões tanto no seio das elites como no dos setores populares, os
quais haviam assistido através dos meios de comunicação às revoltas
populares de outros países e, porventura ― mas, sobretudo ― haviam
escutado a satanização que o próprio presidente Pérez havia feito desses
programas e seus promotores internacionais durante sua campanha eleitoral.
Vale a pena determo-nos nesses poucos meses que vão da vitória
eleitoral de Andrés Pérez, em dezembro, à sua posse em fevereiro de 1989,
pois justamente nesses meses encontram-se os elementos que, segundo
presumimos, vão provocar violentamente uma alteração na consciência de
setores pobres e empobrecidos da sociedade venezuelana. Nesses dois
meses, irá somar-se ao processo de deterioração institucional aquilo que Piven
e Cloward chamam de sentimentos de injustiça, ou o que Moore caracteriza
como indignação moral, isto é, uma percepção de violação inaceitável das
regras estabelecidas na democracia por parte do poder. É possível pensar-se,
ademais, que a imagem de um candidato com carisma e popularidade, como a
que tinha Andrés Pérez naquela época, pôde mesmo provocar entre esses
setores o que os mesmos Piven e Cloward assinalam como um aspecto
importante a impulsionar a ação coletiva disruptiva, a saber, a percepção de
que, mobilizando-se e protestando veementemente, a situação anunciada
poderia ser contida.
Andrés Pérez, desde o momento de seu anúncio como presidente até
sua posse, em 2 de fevereiro de 1989, fez uma exibição de força característica
de sua personalidade e estilo: realizou uma série de declarações e atos que
anunciavam um governo de alto perfil internacional e uma política de retificação
em matéria econômica e tratamento do problema da dívida. Em dezembro,
depois da vitória eleitoral, empreendeu uma turnê pela Arábia Saudita, Kuait e
Argélia, a fim de informar-se melhor sobre a estratégia da OPEP acerca dos
preços do petróleo. De regresso, fez escala em Washington, onde se encontrou
com George Bush (pai), recém-eleito presidente dos Estados Unidos, para
tratar de condições mais favoráveis ao pagamento da dívida venezuelana. Em
janeiro, no Brasil, propôs a formação de um bloco de países devedores, voltou
aos países árabes e depois viajou à Suíça para assistir a uma conferência
sobre a dívida. As diligências de Pérez, junto com as de uma missão especial
46

que ele nomeou nesses dias para iniciar conversações com os bancos
internacionais, geraram grande expectativa entre os venezuelanos, que
esperavam ansiosos a nova proposta do presidente para enfrentar a crise.
Em seu discurso inaugural, do dia 2, Andrés Pérez reforçou esta
imagem. Afirmou que na Venezuela haviam terminado os tempos das
equivocações, e propôs uma política que corrigisse os profundos desequilíbrios
monetários e fiscais, assegurando que sua fórmula política para resolver
permanentemente o problema da dívida se apoiaria na solidariedade entre
países devedores. Pérez criticou as estratégias aplicadas até àquela data: "Até
agora, a estratégia vigente, apoiada no tratamento individual de cada país
devedor, infligiu um severo custo social, enfrentando um formidável cartel de
credores que tem feito prevalecer seus esquemas e interesses".
Todavia, em 16 de fevereiro, em meio a grande expectativa, Pérez
apresentou seu programa de ajuste econômico, conhecido daí em diante como
O Pacote. Nele, ao contrário do prometido durante a campanha e insinuado no
discurso inaugural, dava-se uma saída neoliberal à crise, ou seja, o governo
aceitava recorrer ao FMI para renegociar a dívida, o que implicava submeter-se
a um programa de ajuste macroeconômico individualizado e ortodoxo. Entre as
medidas mais temidas pela população foram anunciados, para os dias
seguintes, a liberação de preços (incluindo o da gasolina), a liberação das
taxas de juros, a eliminação do controle de câmbio, o aumento das tarifas dos
serviços públicos e a redução dos subsídios.
Além disso, entre 2 e 16 de fevereiro, momento no qual ele pronunciou
esse discurso, a imprensa esteve informando sobre algumas dificuldades
políticas que o novo governo enfrentava. As relações entre Pérez e seu partido
começaram a tornar-se incômodas, sendo um dos pontos de maior tensão
aquilo que alguns líderes da AD qualificaram como a composição "tecnocrática"
do gabinete, isto é, a inclusão de um conjunto de jovens especialistas em
diferentes matérias ― sobretudo econômicas e fiscais ― mas carentes de
experiência política. Ademais, quase nenhum desses novos ministros era
militante do partido. A AD acrescentou que, como consequência disso, o
governo estava dando, quanto à crise econômica, uma resposta fria e
divorciada das realidades sociopolíticas do país. Outra dificuldade provinha do
fato de que a AD não contava com maioria parlamentar, como tivera durante a
47

gestão de Lusinchi, devendo por isso redobrar seus esforços de negociação


com os partidos de oposição ― Copei, MAS e Nova Geração Democrática
(NGD), com o intuito de obter os votos necessários para aprovação das
iniciativas do Executivo.1
Nesta mesma linha de dificuldades crescentes, os mecanismos para a
conciliação com a Fedecámaras e a CTV2 ― construídos nos primeiros anos
da democracia ― tampouco puderam funcionar. A CTV e seu presidente, Juan
José Delpino, consideravam como uma agressão à classe trabalhadora uma
série de propostas do governo que iam sendo conhecidas, como o aumento
seletivo dos salários, a liberação excessiva das taxas de juros e a violenta
desvalorização do bolívar. Delpino se negava a crer que Andrés Pérez tomaria
essas medidas. A Fedecámaras, por sua vez, não desejava os aumentos
salariais, e queixava-se de não haver sido consultada. Circulavam, além disso,
informações sobre irregularidades em cartas de crédito com subsídios em
dólares. Estes compromissos significariam, ao decretar-se a desvalorização do
bolívar, que os empresários envolvidos fariam um negócio rendoso a custa do
Estado.
É necessário mencionar também a forma pela qual, em meio aos
discursos de austeridade e sacrifício com os quais se rogava o auxílio da
população, realizou-se a posse do novo presidente ― que, por sua
suntuosidade, foi chamada pela Igreja Católica e por outros setores de "a
coroação de Pérez". Este e outros fatos de ostentação pública e privada,
somados às declarações de Lusinchi, já mencionadas, sobre o caráter lesivo
do refinanciamento da dívida aos interesses nacionais, difundidas diariamente
pelos meios de comunicação, formariam uma mistura explosiva de emoções e
sentimentos de frustração, surpresa, indignação, injustiça e percepção de
divisões nas elites. A isso acrescentava-se a escassez de produtos básicos,
que foi preciso suportar nos últimos meses, quer em razão das dificuldades
econômicas quer por causa de rumores, naquelas semanas, sobre as medidas
1
No Congresso, a AD obteve 87 deputados, Copei 67, MAS 18, NGD 6, A Causa R 3, ORA
(um movimento evangélico) 2 e o MEP, URD, Fórmula 1, OPINA e o PCV 1 deputado cada
(Conselho Supremo Eleitoral, 1989). (N. da A.)
2
A Federação de Câmaras e Associações de Comércio e Produção da Venezuela
(Fedecámaras, na sigla em espanhol) é a maior organização patronal venezuelana. A
Confederação de Trabalhadores da Venezuela (CTV), central de sindicatos de trabalhadores,
manteve durante toda a segunda metade do século XX fortes vínculos com o partido Ação
Democrática. (N. do Trad.)
48

que estavam para ser tomadas. Tais rumores provocaram o açambarcamento


dos gêneros por parte de comerciantes inescrupulosos, com a consequente
angústia da população. Esta mistura explosiva precisava apenas de uma faísca
para incendiar-se. O 27 de fevereiro de 1989 aproximou da mistura a centelha
necessária.

EPISÓDIOS DE CONFRONTAÇÃO COM UMA AUTORIDADE INJUSTA


Um contexto socioeconômico e político-institucional em declínio,
juntamente com expectativas frustradas e sentimentos de injustiça, era garantia
suficiente para a mobilização popular. Contudo, como veremos em capítulos
seguintes, essa mobilização ― embora aumentasse numericamente ao longo
da década ― seguia, em suas formas e natureza, as pautas institucionalizadas
da democracia de Puntofijo. Porém, nos últimos dois anos da gestão de
Lusinchi, o repertório iria alterar-se em razão de dois episódios de confrontação
com o governo nacional, ambos reveladores da ruptura que se estava
provocando na relação entre o governo e os setores populares. Esses
episódios trouxeram mudanças na maneira e na natureza do protesto, que
contribuíram para as características do Caracaço e das ações coletivas de
beligerância posteriores.

A Revolta de Mérida
Na sexta-feira, 13 de março de 1987, um estudante de engenharia da
Universidade dos Andes (ULA), na cidade de Mérida, de nome Luis Carballo,
foi ferido às portas de uma residência particular. De acordo com a notícia da
imprensa, era noite e o jovem, em companhia de amigos, havia parado ali com
o propósito de fazer "uma necessidade fisiológica". Ou seja, o estudante urinou
na entrada da casa, motivo pelo qual o proprietário ― um advogado,
considerado como "um potentado" ― se aborreceu e terminou disparando dois
tiros que, pouco depois, causariam a morte do rapaz. A agressão do advogado,
mais a suspeita dos estudantes de que o homem, por suas influências, não
pagaria pelo crime, estiveram a ponto de provocar seu linchamento pelos
jovens, se não fosse por uma operação-comando da Direção de Serviços de
49

Inteligência e Prevenção (Disip) do MRI1, que o protegeu, retirando-o do lugar


dos acontecimentos. A situação, contudo, permanecia muito acalorada: os
estudantes agiram. Deixando sair da residência a esposa e filhos do advogado,
entraram na casa, lançaram para fora os bens e, em seguida, incendiaram-na.
Uma vez conhecida a morte do estudante, tiveram início cinco dias de
distúrbios generalizados pela cidade, que começaram com saques aos
estabelecimentos das proximidades da residência do advogado, para logo
estender-se ao resto da urbe, incluindo-se o incêndio de uma sede da AD no
sábado, de armazéns militares no domingo, barricadas na Avenida Las
Américas, incêndio de ônibus, apedrejamentos e incêndios em diversos locais.
As aulas foram suspensas em todos os níveis no Estado de Mérida e o governo
pôs nas ruas a Guarda Nacional (GN) para controlar a situação. Três dias
depois, os feridos chegavam a 20, os detidos a mais de 500, e as perdas
materiais eram calculadas em cerca de dez milhões de bolívares. A imprensa
ressaltava o fato de não haver registro de acontecimento similar anteriormente,
nem em Mérida nem em qualquer outra cidade.
Este protesto popular parece ter contribuído para, uma semana depois,
um juiz determinar a prisão do advogado culpado pela morte do estudante, o
que fez acalmar o ambiente. Os distúrbios de Mérida foram protagonizados
tanto pelos estudantes como pela gente comum da cidade, que tinham muitos
motivos para suspeitar de que a justiça não seria aí aplicada, visto que
acontecimentos desse tipo costumavam ficar impunes se o autor do delito
fosse alguém com influência nas instâncias do poder. O assassinato de
Carballo suscitou quase imediatamente protestos estudantis também nas
cidades de Trujillo, Maracay, Barquisimeto e Caracas. A repressão de que o
governo lançou mão para controlar os protestos foi violenta, provocando novos
protestos estudantis, em uma espiral que parecia inextinguível. Em declarações
à impressa, o governador do Estado e o reitor da ULA reconheceram que a
falta de fé na justiça e a impunidade do crime foram os detonadores da
explosão. Em contraste, o governo nacional considerou os acontecimentos de
Mérida como obra de grupos da extrema-esquerda, que orquestravam um
"plano nacional de agitação" com o fim de provocar uma explosão social e pôr

1
Ministério das Relações Interiores (N. do Trad.)
50

a perder a democracia e o presidente Lusinchi. O presidente chegou mesmo a


afirmar que os distúrbios não guardavam relação alguma com a morte do
estudante (El Diario de Caracas, 17,19,20 e 22/3/1987).

O Massacre dos Pescadores de El Amparo


Um segundo episódio crítico ocorreu em 29 de outubro de 1988, um mês
antes das eleições nacionais. A primeira informação que a imprensa deu sobre
esse fato foi de caráter oficial, assinalando que o Comando Especial de
Contrainsurgência José Antonio Páez (CEJAP), em enfrentamentos com um
grupo de guerrilheiros colombianos no Estado de Apure, na fronteira com a
Colômbia, havia matado 16 deles, sem ter havido baixas nem feridos entre
homens do Comando. Várias fotos foram tiradas do lugar, e nelas apareciam
os cadáveres dos guerrilheiros com uniformes do Exército de Libertação
Nacional (da Colômbia) e armas ao lado dos corpos. Dois dias depois, contudo,
aparecia uma notícia totalmente diferente.
Aos meios jornalísticos impressos havia chegado a informação,
procedente do povoado de El Amparo, segundo a qual se dizia que os mortos
não eram colombianos, mas sim venezuelanos moradores dessa aldeia
fronteiriça; que não se tratava de guerrilheiros, mas de pescadores, e que não
estavam sabotando gasodutos ― como afirmava a versão oficial ― senão que
haviam saído no domingo de manhã para uma pescaria, a fim de passar um
costumeiro fim de semana tomando rum e preparando um sancocho.1 Em vez
de 16 mortos, eram 14, pois dois haviam conseguido escapar lançando-se à
água e nadando até poderem esconder-se. Com a ajuda de um fazendeiro
vizinho e da polícia local, regressaram ao povoado no dia seguinte para contar
o sucedido. Temerosos de alguma repressão para que se calassem,
esconderam-se na delegacia de polícia do lugar. Quando a GN e a Disip
apareceram e alegaram necessitar levá-los para interrogatórios, a multidão
furiosa de El Amparo as impediu, e o chefe de polícia ― arriscando a própria
vida ― ameaçou atirar nos oficiais da Disip, caso insistissem. Alarmadas pela
amotinação civil, as autoridades entraram em contato com o congressista

1
Comida típica da Venezuela e de outros países da região, tradicionalmente preparada nos
fins de semana. Trata-se de uma sopa espessa de legumes e carnes, cujo preparo varia
grandemente de uma região para outra. (N. do Trad.)
51

Walter Márquez, do Movimento ao Socialismo (MAS), um conhecido ativista


político da zona fronteiriça, para que mediasse a situação. Os sobreviventes do
massacre foram postos sob custódia e o deputado começou uma ampla
campanha em defesa dos pescadores.
Durante certo tempo, ocorreria um embate entre as duas versões, e
somente graças à insistência dos familiares dos pescadores, de jornalistas, de
figuras como as dos deputados Márquez e Raúl Esté (este, do Partido
Comunista da Venezuela), de representantes da Igreja Católica ― assim como
a coincidência com a conjuntura eleitoral, que permitiu existirem interesses
políticos dispostos a defender uma versão oposta à oficial ― foi que a verdade
pôde vir à tona. Com efeito, as vítimas do massacre não eram guerrilheiros,
mas moradores de El Amparo, simples pescadores. A despeito das evidências,
o governo se manteve, até ao fim de sua gestão, aferrado à primeira versão
dos fatos, e o presidente deu explicitamente respaldo ao CEJAP. Interesses
obscuros na zona fronteiriça, onde as ações da guerrilha colombiana se
confundem com as do narcotráfico e dos paramilitares, mais a cumplicidade de
alguns desses interesses com os de setores de corpos de segurança do
Estado, haviam convergido para ensejar esse crime abominável.
O Massacre de El Amparo, como ficou conhecido o fato, iria comover
diversos setores civis e religiosos da sociedade venezuelana, provocando nos
últimos dias do governo de Lusinchi significativas mobilizações de protesto, que
terminaram em distúrbios e saques, similares aos de Mérida. Mas também
ocorreram outros protestos, de novo cunho. Em 10 de novembro, por exemplo,
realizou-se a "marcha pela vida", que reuniu um amplo espectro de grupos civis
e religiosos; realizaram-se encenações teatrais com bonecos e atores nas ruas
para representar o massacre, em uma marcha que se dirigiu ao Congresso.
Grupos de base e representantes do clero repudiaram a insídia, a injustiça e a
impunidade. O massacre de El Amparo iria também provocar o surgimento de
uma organização social de defesa dos direitos humanos na Venezuela, a
associação civil Programa Venezuelano de Educação ― Ação em Direitos
Humanos (Provea), hoje uma das mais reconhecidas do país. Igualmente,
constituiu-se o Comitê contra o Esquecimento e a Impunidade em El Amparo.
Graças às gestões desses e de outros grupos, em 1995, quando se encontrava
no governo um partido sem vinculações com a gestão ou o partido de Lusinchi,
52

o Estado venezuelano reconheceu sua culpa e aceitou submeter-se ao ditame


da Corte Interamericana de Direitos Humanos, que foi pronunciado em 1996.
Os sucessos de Mérida e de El Amparo serviram para pôr frente a frente
as pessoas e a realidade de um Estado que se eximia de algumas de suas
obrigações mais caras em relação à população, revelando assim a dimensão
moral da crise: a justiça não estava sendo ministrada para os setores
subordinados e, além disso, o poder estava sendo exercido de maneira
arbitrária e sem freios contra os mais humildes, violando cláusulas vitais da
relação entre um Estado que se pretendia democrático e os setores populares.
É ilustrativo que os protestos suscitados tenham sido liderados por atores
distintos dos tradicionais partidos, pondo em ação modalidades de protesto até
então pouco convencionais, e que depois iriam generalizar-se.
Por fim, constituíram um último episódio crítico os acontecimentos
iniciados em 27 de fevereiro de 1989. A porta, até àquele momento
entreaberta, escancarou-se para dar livre passagem à mobilização dos setores
populares. Por sua magnitude e repercussões no processo histórico-social e
político venezuelano, é preciso dar-lhe um tratamento à parte.
53

CAPÍTULO 3
O CARACAÇO1

Em 27 de fevereiro de 1989, estourou na Venezuela uma revolta popular


que alcançaria uma magnitude sem precedentes em sua história. Na capital e
em quase todas as cidades principais e secundárias do país, realizaram-se
barricadas, bloqueios de vias, incêndios de veículos, apedrejamento de
estabelecimentos comercias, tiroteios e saques generalizados. A revolta durou
cinco dias em Caracas e um pouco menos no resto do país. O saldo de perdas
materiais e humanas foi altíssimo: as mortes, conservadoramente calculadas
em quase 400, foram, na grande maioria, de gente pobre moradora da capital.
A surpreendente e inusitada força deste acontecimento tem suscitado
uma abundante produção acadêmica sobre seu significado. Mas essa literatura
se ocupa principalmente de explicar as causas que levaram às ruas alguns
setores pobres e médios venezuelanos, ao passo que vários aspectos da
questão continuam sem atrair a atenção dos acadêmicos nem receber
respostas satisfatórias. Por exemplo: por que ocorreu uma revolta popular
durante um regime democrático? Por que esteve dirigida para objetivos como
estabelecimentos comerciais e não para alvos políticos? Por que durou tanto
tempo (5 dias em Caracas)? E por que os níveis de violência então alcançados
somente têm relativa comparação com certos saques urbanos ocorridos
durante diferentes episódios políticos da Venezuela do século XIX e as revoltas
de 1935-36, ocorridas quando da morte do ditador Juan Vicente Gómez? Estas
questões devem ser respondidas não só para uma melhor compreensão do
processo sociopolítico venezuelano, mas também como uma contribuição ao
esclarecimento desse tipo de revoltas em outras sociedades.
Neste capítulo, descreve-se de forma detalhada o "Sacudón" ou
Caracaço, com o objetivo de apresentar os fatos da maneira mais precisa
possível, e assim porventura alcançar as respostas a essas importantes

1
Este capítulo está baseado em Venezuela: la rebelión popular del 27 de febrero de 1989
¿Resistencia a la modernidad? (Margarita López Maya), Revista Venezolana de Economía y
Ciencias Sociales, vol. 5, nº 2-3, abril-septiembre de 1999, pp. 177-200; reelaborado em uma
versão mais curta e com enfoque distinto em The Venezuelan Caracazo of 1989: Popular
Protest and Institutional Weakness. Journal of Latin American Studies, vol. 35: (part one),
fevereiro de 2003, pp. 117-138. (N. da A.)
54

indagações. A informação factual procede das reportagens de vários jornais


venezuelanos daqueles dias, bem como de depoimentos e entrevistas
realizados com protagonistas ou testemunhas dos acontecimentos. O que
emerge dessa informação é a debilidade de um conjunto de instituições que
regulavam a vida político-institucional e diária dos venezuelanos ― uma
debilidade que desempenhou um papel decisivo na natureza, extensão e
duração da revolta.

SOBRE REVOLTAS POPULARES


A revolta popular dos dias de fevereiro e março de 1989, por suas
formas de protesto e pela natureza predominantemente violenta das ações
coletivas, recorda as revoltas populares do século XIX de algumas cidades
latino-americanas (cf. Arrom e Ortoll, 1966), mas também as conhecidas
revoltas provocadas por fome nas sociedades europeias, nos séculos de
transição para a modernidade: barricadas, incêndios, apedrejamentos, tomada
de ruas e estabelecimentos, saques com ou sem distribuição. Segundo a
literatura especializada sobre revoltas urbanas, as ações do estilo das
praticadas durante o Caracaço são próprias de sociedades pré-modernas, pois
nas modernas a conflituosidade social se exterioriza sob a condição de atores
organizados e a partir de um repertório de formas de protesto cuja natureza é,
em geral, pacífica ou convencional e, em casos especiais, confrontacional.
Mais recentemente, ao observar o fato bastante óbvio de que essas
formas de protesto emergiram com inusitada força nas últimas duas décadas
em muitas sociedades do planeta, John Walton e David Seddon (1994)
construíram uma analogia entre a transição europeia para a modernidade e a
situação presente de muitos países do Terceiro Mundo. Eles argumentam que
em tais países as sociedades estão atravessando uma transição, que se
caracteriza por ir de uma modernização paternalista ― que, dizem eles, na
América Latina foi impulsionada pela mão do Estado desenvolvimentista-
populista ― a uma modernização liberal (ou neoliberal), conduzida pelas
agências financeiras internacionais mediante a imposição de políticas
orientadas pela doutrina neoliberal. Os setores populares dessas sociedades
(da mesma forma como fizeram os ingleses pobres dos séculos XVII e XVIII)
teriam elaborado na etapa moderno-paternalista uma economia moral, isto é,
55

um código moral através do qual se relacionam com a economia, as


autoridades e os ricos. Segundo esse código, os pobres sentem que possuem
o direito, de um lado, de ser protegidos pelas autoridades em relação às
inclemências do mercado, e, de outro, de obter os meios mínimos necessários
para a sobrevivência. A virulência e a similitude em formas e tipos de ação do
protesto atual, em comparação com o passado, se devem a que ― assim
como outrora, quando as autoridades abandonaram o paternalismo para aplicar
a doutrina do laissez-faire ― elas traíram o código moral que estava em vigor
na relação entre o poder constituído e os pobres.
Diversos artigos publicados na Venezuela, durante os anos 90,
analisando o "Sacudón", sugerem que a revolta recebeu impulso de um
conjunto de motivações e fatores entre os quais certamente deve-se incluir a
traição a uma economia moral ou a algum conceito afim. Não obstante, Walton
e Seddon reconhecem que, à parte as características especialmente violentas
que a traição das autoridades à economia moral pode imprimir à mobilização
popular, toda sociedade protesta de acordo com modelos que lhe são dados
por sua história e por suas características institucionais. Por esse motivo, um
estudo comparativo do Bogotaço colombiano de 1948, ou do Santiagaço
argentino de 1993, ou mesmo dos protestos antiglobalização que vêm
ocorrendo nos últimos anos em diversos países (como a própria revolta
venezuelana de 1989), mostrará tanto similitudes quanto diferenças
importantes em termos de atores, motivos e modalidades de protesto. 1 Uma
visão similar, embora com menos implicações evolucionistas, é o conceito
utilizado por Francis Fox Piven e Richard Cloven do poder disruptivo da vida
cotidiana que levam os pobres. Segundo seu enfoque, não se trata de que
estes protestos ocorram por traição a uma economia moral, mas sim que o
poder de interromper violentamente a vida cotidiana dos pobres é praticamente
o único recurso de que eles dispõem para exercer pressão sobre a autoridade
em qualquer sociedade, e o empregam quando surgem estados de "terrível
penúria que padecem (...) em tempos de ruptura social e esgotamento". Esses
1
O Santiagaço foi uma revolta popular que estourou nas cidades da província argentina de
Santiago de Estero, em dezembro de 1993. Ainda que seus motivos possam coincidir com o
Caracaço venezuelano ― pois também representou um protesto contra um plano de ajuste
macroeconômico ― foi iniciado por funcionários públicos que ocuparam, saquearam e
queimaram a sede do governo, bem como a do legislativo e da justiça da província (cf. Lauffer
e Spiguel,1999). (N. da A.)
56

autores enfatizam que as modalidades violentas são um instrumento de poder,


que é usado em situações extremas; mas também argumentam (como Walton
e Seddon) que as características institucionais de uma sociedade são uma
peça-chave para compreender-se em que ponto começa a revolta, por quais
motivos algumas ações coletivas prevalecem sobre outras, e que razão explica
o aparecimento de um grau maior de violência em alguns casos.
A seguir, realizamos uma descrição detalhada dos acontecimentos que
se desenrolaram ao longo dos dias 27 de fevereiro e seguintes, quando se
patentearam, de maneira eloquente, a debilidade e a torpeza das respostas de
muitas instituições que então regulavam a vida social e política dos
venezuelanos. Na descrição há bastantes evidências tanto de que ocorreu uma
traição à economia moral dos venezuelanos pobres, quanto de que o contexto
institucional condicionou significativamente a natureza e as modalidades da
revolta.

O 27 DE FEVEREIRO DE 1989
Durante o fim de semana de 25 e 26 de fevereiro de 1989, entrou em
vigor em todo o país o aumento de 100% do preço da gasolina, segundo o
estabelecido pela política de ajuste macroeconômico anunciada pelo governo
do presidente Andrés Pérez, no dia 16. Passou a vigorar também o
consequente aumento das tarifas do transporte coletivo. O Ministério de
Transporte e Comunicações (MTC), seguindo os procedimentos institucionais
habituais, informou previamente que havia chegado a um acordo com a
Federação Nacional do Transporte (Fedetransporte). Segundo o acordo,
deveriam ocorrer ajustes nas tarifas do transporte coletivo em 30%. Tais
aumentos foram anunciados pela imprensa. Não obstante, a Central Única de
Veículos Livres e Por Postos, afiliada à Federação, havia manifestado sua
discordância quanto à proporção do aumento autorizado pelo governo, e no
mesmo dia 27 seu presidente contradisse algumas declarações da
Fedetransporte, dando a entender que a Central não iria exercer sua
autoridade para fazer que seus afiliados acatassem o aumento (cf. El Nacional,
28-02-1989).
De acordo com o noticiado por dois dos principais diários da capital, de
circulação em todo o país ― o El Nacional e o El Universal ― em 27 de
57

fevereiro, nas primeiras horas da manhã, começaram os protestos em alguns


pontos nevrálgicos do transporte coletivo suburbano de Caracas.1 No terminal
do Novo Circo de Caracas, principal ponto de recepção dos que vêm dos
subúrbios e cidades-dormitório, e nos pontos de parada do transporte coletivo
para Caracas das cidades-dormitório de La Guaira, Cátia La Mar e Guarenas,
antes das 6 horas da manhã, principiaram os protestos. Em todos esses casos,
os motoristas de ônibus tentavam cobrar um aumento de tarifa acima do
estabelecido pelo acordo com o MTC. Os usuários, em especial os estudantes,
resistiram. A imprensa da capital relatou também que vários protestos contra o
aumento das passagens haviam ocorrido desde cedo, nessa manhã, nas
cidades principais de Barquisimeto, San Cristóbal, Mérida, Maracay, Barcelona
e Porto La Cruz. Também em Maiquetia e Naiguatá do litoral central, Los
Teques, Porto Ordaz e Maracaibo, embora nestes casos não se tenha
precisado a hora de início. Da mesma forma, foram relatados princípios de
distúrbios à tarde, em Valência, Carora, Acarigua e Cidade Guayana.
Pela natureza da fonte que estamos utilizando, a descrição mais
detalhada de como se desencadearam e evoluíram os fatos provém de
Caracas e sua periferia. Esta descrição servirá para avaliar-se a revolta em seu
caso mais extremo.
Às 6 horas da manhã do dia 27, os estudantes do Instituto Universitário
Politécnico Luis Caballero Mejías tomaram o terminal interurbano de rotas
curtas do Novo Circo, em Caracas. Imediatamente, solidarizaram-se com a
tomada os camelôs e trabalhadores do terminal. A princípio, houve acaloradas
altercações entre estudantes e motoristas, depois reuniões com as autoridades
do terminal, enquanto eram esperadas instruções do MTC. Mas as instruções
não chegaram. Como modo de protestar, os estudantes se sentaram no chão,
formando uma barreira humana, obstruindo a via de entrada do terminal.
Tinham o recorte de jornal em que eram mostradas as tarifas oficiais, e
denunciavam a flagrante violação delas por parte dos motoristas da rota
Caracas-Guatire-Guarenas. Os estudantes também levavam o documento de
passe estudantil e as instruções (editadas pelo Centro de Estudantes) sobre o
que fazer se o passe não fosse aceito. Os motoristas alegavam cumprir ordens

1
O que se segue é uma reconstrução dos fatos baseada principalmente nestes jornais. (N. da
A.)
58

de seus superiores da Central Única, e por isso não acatavam o aumento


oficial de 30% noticiado pela imprensa.
Ademais, segundo um repórter do El Diario de Caracas, que chegou à
cidade-dormitório de Guarenas por volta das sete e meia da manhã, já havia
ali, por essa hora, dois veículos incendiados; e, então, começaram os saques
no Centro Comercial Miranda. A polícia não contava com efetivos para
enfrentar a situação, e não possuía gás lacrimogêneo; trazia apenas cartuchos,
que utilizavam seletivamente contra os "malandros". Entre os jornalistas e
cinegrafistas que faziam a cobertura, afirmou-se que existia em Guarenas,
desde o fim de semana anterior, uma grande tensão, pois os moradores
previam o desacato dos condutores ao aumento oficial da tarifa. Não obstante,
o governo não tomou precauções especiais em tempo, visto que o comandante
Rafael Galué García, da GN, foi enviado a essa cidade apenas de manhã. Por
causa, em parte, do descomunal congestionamento de trânsito provocado pela
revolta, o comandante chegou a Guarenas apenas no meio da manhã, com um
contingente de cem guardas, quatro subalternos, dois oficiais e quatro veículos
blindados com equipe para controlar desordens públicas. Encontrou a cidade já
mergulhada em um protesto violento ― e somente 16 policiais, absolutamente
subjugados pela situação. Todos os estabelecimentos comerciais, postos
policiais e o terminal de transporte da cidade foram destruídos entre esse dia e
o seguinte.
Voltemos a Caracas: quando a multidão de Novo Circo, liderada pelos
estudantes, sentiu-se forte em número, deslocou-se da Avenida Lecuna à
Avenida Bolívar, à altura do Centro Simón Bolívar. Em frente ao busto do herói
nacional ali levantado, começaram a construir barricadas para obstruir o
trânsito, enquanto gritavam palavras de ordem contra o aumento dos preços de
todos os bens e serviços. Com esta ação, bloquearam uma das principais
artérias da cidade.
Depois do meio-dia, outra multidão ― aparentemente vinda do mesmo
protesto do terminal do Novo Circo, e formada principalmente por estudantes
― congregou-se em frente à Universidade Central da Venezuela (UCV).
Solicitavam aos estudantes ucevistas que se juntassem ao protesto ― e era já
um grupo bastante numeroso. Esta multidão protestava não só contra os
aumentos das passagens, mas também contra as medidas econômicas
59

aplicadas pelo governo de Pérez. Atravessaram veículos na via de acesso à


Praça Venezuela e à Praça As Três Graças, interrompendo a circulação em
outro ponto nevrálgico da cidade. Por volta das cinco horas da tarde, a Polícia
Metropolitana (PM) apareceu e enfrentou os estudantes.
Pelas duas horas da tarde, principiou a tomada da autoestrada
Francisco Fajardo. A multidão veio do Parque Central, das imediações da UCV
e de La Charneca, e em cada uma das intersecções da estrada eram
colocados galhos de árvores, engradados de refrigerantes e qualquer objeto
que pudesse impedir a passagem dos carros. Todo caminhão que se
aproximava, e do qual se suspeitava que transportasse alimentos, era parado
pelas pessoas; punham sem violência o motorista sob controle, retirava-se a
carga, distribuíam-na e depois pediam ao motorista que pusesse atravessado o
caminhão. A PM chegaria mais tarde, mas tinha ordem de não agir. Além disso,
uma parte das pessoas do protesto do Novo Circo já se havia apossado da
intersecção da Avenida Lecuna com a Avenida Forças Armadas. Ali, próximo
da sede dos bombeiros do Distrito Federal, atearam fogo a um ônibus e não
permitiram que os bombeiros se aproximassem para apagar o incêndio. Outro
fio de fumaça, próximo à Roca Tarpeya, indicava um incêndio no morro que
ladeia o entroncamento da Avenida Forças Armadas com a Nova Granada.
Havia homens, mulheres, crianças e velhos que gritavam em protesto contra as
medidas econômicas anunciadas pelo presidente Pérez. A PM chegou e fez
disparos para o ar; em seguida, os policiais interromperam a ação e colocaram
dois "camburões" à altura da Avenida Lecuna. No fim da tarde, uma estudante
da UCV, Yulimar Reyes, morreu vítima de um disparo de escopeta em frente
ao Parque Central.
Por volta das seis horas da tarde, a combinação de tomada das artérias
nevrálgicas da cidade pela multidão com as manifestações estudantis, o
começo dos saques a estabelecimentos comerciais e a caminhões com
mantimentos, e a paralisação do transporte coletivo haviam tornado a cidade
um autêntico caos. Outro fenômeno que se viu, então, desde cedo, foi a
participação dos motociclistas da cidade no protesto popular. Em Caracas,
trabalhavam milhares deles, percorrendo a cidade diariamente para comunicar
entre si os diferentes agentes das atividades urbanas, em razão da ineficiência
dos correios. Antes das nove horas da manhã, eles se haviam juntado ao
60

protesto popular, e com seus veículos iam e vinham, de um lado a outro,


levando manifestantes, transmitindo notícias das mobilizações que aconteciam,
avisando sobre a aproximação de patrulhas, e resguardando com suas
motocicletas as esquinas e transversais que desembocam nas avenidas
principais. E, ao cair da tarde, milhares de pessoas se viram diante da
necessidade de retornar a suas casas sem transporte coletivo, pois a essa
altura o metrô de Caracas também já havia fechado seus portões. Assim,
novas multidões tomaram as ruas para empreender o regresso a casa. Pelo
caminho, iam adquirindo concretamente consciência da magnitude do protesto
que se desenrolava; depois disso, muitos populares se incorporariam ao
movimento.
A descrição dos sucessos nas cidades circunvizinhas de Caracas, como
as do litoral central ou dos Valles del Tuy e outras áreas do Estado de Miranda,
demonstra que todos eles foram casos similares. Os protestos na cidade-porto
de La Guaira, por exemplo, começaram antes do amanhecer, quando os
motoristas tentaram cobrar uma tarifa acima da fixada pelo MTC, e os usuários
se opuseram. O porto permaneceu paralisado desde esse dia. Em Cátia La
Mar, pela mesma razão, uma multidão enfurecida apoderou-se de alguns
imensos pneus, atravessou-os na Avenida O Exército e os queimou, deixando
sem comunicação a avenida e os subúrbios populares que a rodeiam ― assim
como as populações de Tacoa, Las Tunitas e outras do litoral central ― com
Caracas. Em Macuto, manifestantes assaltaram um caminhão de mantimentos,
enquanto uma comissão de estudantes dialogava com o presidente da Junta
Administrativa do Conselho e a prefeita local.
Em cidades importantes como Barquisimeto, capital do Estado de Lara e
uma das mais populosas do país, a história se repete: iniciam-se os protestos
estudantis contra o aumento do passe escolar, seguidos das queixas dos
outros usuários; a situação se torna violenta e se espalha por toda a cidade.
Porém, diferentemente de Caracas, ao meio-dia o governador solicitou a saída
para as ruas da Guarda Nacional. O presidente Pérez visitou a cidade à tarde
para participar de uma reunião de empresários, mas, ao que parece, não se
deu conta do que acontecia, ou então não deu importância ao caso.1

1
Em 1999, um de seus acompanhantes desse dia afirmou que Pérez sabia dos distúrbios, mas
inclinou-se a vê-los como algo passageiro (Betancourt, em El Nacional, 21-02-1999). Pérez, em
61

Os saques na capital e em outras cidades intensificaram-se ao cair da


noite, e prolongaram-se até o dia seguinte. Nessa noite, foram celebradas
festas em alguns bairros populares da capital, com uísque, champanha e
outras extravagâncias gastronômicas obtidas nos saques. Algumas notas de
jornal indicam a ocorrência de saques na Avenida Andrés Bello,
1
nomeadamente na Provedoria da Secretaria Central de Pessoal e em seus
depósitos, uma das maiores lojas de departamentos da cidade. Também em
outras áreas, como Antímano, El Guarataro, Maripérez, El Paraíso,
Curamichate, Petare e a Intercomunal de El Valle. No centro de Caracas, nas
proximidades das praças Miranda, Caracas e O'Leary, a multidão agia
desenfreadamente. Para os lados da região leste, ocorreram nesse dia, ainda
que em menor grau, saques em La Florida, na Avenida Rómulo Gallegos, em
Chapellín, La California, Los Palos Grandes e Petare. Durante a madrugada, o
Exército foi mandado para as ruas a fim de impor o controle militar da cidade.

DE 28 DE FEVEREIRO A 3 DE MARÇO
Depois da noite de saques nas áreas comerciais da capital, em seus
subúrbios e em algumas cidades do interior, generalizou-se na terça-feira a
rebelião por boa parte das urbes do país. Em Caracas, as principais avenidas
foram tomadas por centenas de manifestantes, que destruíam portas e vitrinas
e se apoderavam de tudo. Entre as palavras de ordem que eram ouvidas ou
ficaram pichadas nas paredes e muros das ruas, exclamava-se: "O povo tem
fome!", "O povo está furioso!", "Basta de mentiras!". Em alguns casos,
empunhavam-se bandeiras e cantava-se o hino nacional, ao irromper nos
estabelecimentos. As multidões impediram o trânsito, levantando grandes
fogueiras no meio das principais avenidas, e interromperam com elas todas as
entradas da cidade. Foram relatados casos de especial enfurecimento contra
estabelecimentos de imigrantes chineses, libaneses e portugueses, em razão
do fato de serem eles considerados os responsáveis pela escassez (por
açambarcamento de mantimentos) que havia ocorrido nas semanas anteriores.

uma entrevista dez anos depois, afirmou que seus assistentes de confiança, incluindo os
ministros da Defesa e das Relações Interiores, informaram-no reiteradamente de que nada fora
do comum estava ocorrendo nesse dia. Somente tomou consciência da situação próximo da
meia-noite, quando regressou a Caracas (UCV, documentário, 1999). (N. da A.)
1
OCP, na sigla em espanhol. (N. do Trad.)
62

Algumas reportagens assinalam também que foram vistos grupos armados


(alguns, inclusive, com uniformes de polícia e rostos ocultos por lenços) que
chegavam com caminhões para levar mercadorias das lojas. Além dos
estabelecimentos de comércio de alimentos, foram saqueadas lojas de
eletrodomésticos, roupas, ferramentas e outros produtos. Na Avenida Andrés
Bello não restou sequer um único estabelecimento intacto. Tampouco algum na
Avenida Nova Granada. Nas avenidas San Martín e Lecuna, as portas
metálicas ficaram destroçadas e o chão coberto de paus e pedras. Na
Intercomunal de El Valle, nos Jardins del Valle, no Cemitério e no km 6 da
Rodovia Pan-americana foram registrados grandes saques e tiroteios. A polícia
ali reprimia com mais força e o Exército na rua disparava com fuzis automáticos
(os conhecidos FAL). Além disso, verificou-se também o amotinamento dos
reclusos de El Junquito e Los Flores de Cátia, que queimaram colchões e
provocaram tumulto. Os doentes mentais do hospício de Cátia, em número de
aproximadamente sessenta, foram liberados na tarde desse dia, e apenas
cinco deles regressariam nos dias seguintes (Frasso, intervenção em fórum,
1999). As reportagens tendem a indicar que em boa parte desse dia a polícia
foi menos severa ao reprimir e, por vezes, solidarizou-se com a população,
participando das ações. Em Antímano, por exemplo, a PM, diante da
incapacidade de controlar a situação, chegou a um acordo com os moradores,
deixando entrar as mulheres e crianças nos estabelecimentos comerciais para
saquear, enquanto os homens permaneciam no morro (onde ficam suas
residências), nas barricadas, esperando as mercadorias.
A situação foi muito semelhante nos subúrbios. A imprensa da capital
informou, com alguns detalhes, sobre os saques em Maiquetía, La Guaira,
Macuto, Naiguatá e Cátia La Mar. Nesse dia, os saques atingiram praticamente
todas as cidades principais e secundárias do país. Com menos pormenores,
mas com características similares, as descrições dos jornais se repetem: em
Barinas, por exemplo, os mercados municipais, bem como alguns outros
estabelecimentos comerciais, foram assaltados por gente que protestava
contra o alto custo de vida e a falta de medidas de proteção ao consumidor. O
protesto começou com os estudantes da universidade, que incendiaram uma
padaria; mais tarde as manifestações se generalizaram nos bairros populares,
e tentou-se, sem êxito, incendiar uma sede do Comitê Executivo Seccional
63

(CES) do partido Ação Democrática. Em Maracaibo, donas de casa,


estudantes, trabalhadores e camelôs também protestavam contra o alto custo
de vida. No centro da cidade, a multidão saqueou supermercados e lojas, e os
motoristas do transporte coletivo paralisaram as atividades. Os distúrbios,
enfim, se espalharam por toda a cidade, saqueando-se centros comerciais e
veículos com alimentos.
Na região oriental do país, na cidade de Barcelona, capital do Estado de
Anzoátegui, os saques e distúrbios se deram com grande intensidade durante a
manhã, embora pela tarde amainassem. Entretanto, em Porto La Cruz, capital
turística do Estado, os distúrbios e saques persistiram por todo o dia, e a
cidade teve de ser tomada pela GN. As empresas de transporte haviam
aplicado um aumento de 100% às passagens, mas no transcurso do dia as
autoridades regionais, após conversações, conseguiram que elas aceitassem
limitar-se ao aumento oficial de 30%. Finalmente, em Porlamar, no Estado de
Nova Esparta, as concessionárias dos postos de serviço de gasolina
ameaçavam deixar sem combustível a ilha se não fosse feita uma revisão dos
preços e da margem de lucros que os novos decretos determinavam.
Entrementes, os estudantes da Universidade do Oriente nesse Estado (UDO-
Nova Esparta) protestaram contra o aumento da passagem no transporte,
queimando pneus e impedindo o trânsito entre Porlamar e La Asunción.
O governo, através do ministro das Relações Interiores, dirigiu-se pela
primeira vez à população, pouco depois do meio-dia de terça-feira, para pedir
calma e anunciar ― obviamente, de modo inoportuno ― que não permitiria
violência. Esta alocução, contudo, provocou escasso efeito para tranquilizar ou
frear as ações coletivas, pois o ministro, antes de terminar, sofreu um desmaio,
o que fez com que o pronunciamento fosse suspenso uma vez, para se tentar
de novo um par de horas mais tarde, sem que se desse à população
explicações claras sobre o ocorrido. Assim, a sensação de incerteza política
acabou por aumentar. Em seguida, pouco antes das seis horas da tarde, foi ao
ar em cadeia nacional dos meios de comunicação um pronunciamento do
presidente Andrés Pérez, que em companhia dos membros de seu gabinete
determinou a suspensão de um conjunto de garantias constitucionais e
estabeleceu para os dias seguintes o estado de sítio, com o toque de recolher
das seis horas da tarde às seis da manhã.
64

Com o toque de recolher, a rebelião começou a ceder sob força de uma


repressão atroz desatada sobre a população, sobretudo contra os moradores
dos bairros populares de Caracas. Essa repressão já fora empregada em
certas zonas da cidade durante o dia, e intensificou-se durante a noite e nos
dias seguintes. As diferentes polícias e o Exército, em um desesperado e torpe
intento de controlar a situação, atacaram furiosamente moradores e
transeuntes nos bairros populares. Em 1º de março, na chamada escadaria de
Mesuca, em Petare, o exército disparou contra a multidão, assassinando mais
de vinte pessoas (Camuñas, intervenção em fórum, 1999).
Na manhã deste dia, continuaram os saques e tiroteios em vários pontos
de Caracas; contudo, mais do que multidões, haviam começado a agir grupos
de delinquentes, muitas vezes armados. Por exemplo, relatou-se que na área
23 de Janeiro ― uma zona de bairro popular a oeste da cidade, a situação foi
de terror por causa do confronto que estava ocorrendo entre o Exército e
franco-atiradores que se haviam postado em terraços de alguns dos edifícios
de residências populares. Os soldados, em sua maioria jovens inexperientes
cuja idade girava em torno dos 18 anos, dispararam contra os edifícios com
seus FAL, destroçando apartamentos e tirando a vida da população civil
desarmada.
Enquanto a rebelião prosseguia na capital, nas cidades do interior o
toque de recolher e a militarização conseguiram reconduzir a situação à
tranquilidade. No dia 1º, persistiram focos de agitação em Maracay e
Maracaibo, mas Guarena, Mérida, Acarigua, Porto Ordaz, Carora e
Barquisimeto foram noticiadas como estando sossegadas, embora com as
atividades comerciais, escolares e de transporte paralisadas, além do
espetáculo dos veículos militares (as tanquetas) percorrendo as artérias
principais em meio aos escombros.
As noites de 1º para 2 de março e de 2 para 3 foram um pesadelo que
aterrorizou os setores populares de Caracas. Invasões policiais a residências e
tiroteios em algumas zonas periféricas, incêndios ocasionais e aparecimento de
cadáveres jogados na rua ao fim do toque de recolher são algumas das
histórias contadas. No dia 3, e com mais resolução no dia 4, sinais de uma
volta à normalidade começam a insinuar-se: camelôs que saem às ruas,
funcionários que começam a limpar, comerciantes que voltam para pôr
65

novamente em ordem seus negócios. Entrementes, os cemitérios se enchiam


de gente que esperava enterrar seus mortos. A imprensa continuou informando
sobre a ação de franco-atiradores e a resposta dos soldados e da polícia, em
bairros do oeste da cidade, conquanto já não houvesse mais saques. Em
cidades principais e secundárias do país, relatou-se normalidade e o tímido
recomeço das atividades urbanas para o dia 3. Em algumas cidades, como
Maracaibo e São Felipe, reduziu-se ou suspendeu-se o toque de recolher na
noite de 3 de março.

BALANÇO DAS PERDAS


Ao findar-se a semana e nos dias que se seguiram, procurou-se realizar
alguns balanços de mortos, de feridos e de perdas materiais. Não obstante, até
hoje as cifras são parciais e/ou carecem de confiabilidade. O ministro da
Defesa informou oficialmente, pouco depois do Caracaço, que o governo
reconhecia 277 mortos. A despeito disso, estudos posteriores chegaram a
cifras maiores. Um estudo da lista do necrotério de Bello Monte, em Caracas,
onde por lei deveriam ter entrada todos os falecidos em ruas ou hospitais da
capital nesses dias, deu como resultado um total de 310 mortos (Briceño-León,
1990). Outro estudo posterior, usando as mesmas listas, contou 322 mortes
(Centro de Estudos para a Paz, 1999). Estas cifras não incluem os mortos nas
cidades do interior, nem os cadáveres da capital que nunca chegaram ao
necrotério.
Em 1992, o Comitê de Familiares das Vítimas de Fevereiro-Março de
1989 (Cofavic) e a Rede de Apoio pela Justiça e pela Paz, duas organizações
de direitos humanos (a primeira, constituída em seguida às atrocidades
cometidas pelos corpos de segurança durante aqueles acontecimentos,
contava com as informações proporcionadas pelos familiares dos mortos ou
desaparecidos daqueles dias) elaboraram uma lista de 396 mortos. Esta cifra é
a que consideramos a mais próxima da realidade (Ochoa Antich, 1992).
Entretanto, o chefe forense do necrotério de Bello Monte informou que
os dois primeiros cadáveres chegaram a essa instituição em 27 de fevereiro, às
dez horas da noite, um horário bastante tardio se levarmos em conta que a
revolta começou antes das seis horas da manhã. Diversos funcionários dos
66

centros de assistência afirmam que foram muito poucos os ingressos de mortos


nesse dia, pois a maioria era de feridos, devidos a acidentes durante os
saques. Por outro lado, um membro do gabinete executivo do governo de
Pérez afirmou, em um fórum público realizado dez anos depois, que, quanto à
manhã de 28, foi informado acerca de um total de 63 mortos, o que ― no caso
de ser correta essa cifra ― representaria 15,9% do total de mortos segundo os
números definitivos apresentados pelo Cofavic (Blanco, intervenção em fórum,
1999). Essas indicações, juntamente com as conclusões do estudo de Briceño-
León sobre as características dos cadáveres, feitas a partir do estudo das listas
do necrotério, bem como os quadros elaborados pelo Centro de Estudos para a
Paz sobre a comissão do fato e localização anatômica das feridas por armas
de fogo (também das mesmas listas) revelam que as mortes ocorreram
principalmente a partir do dia 28, e que foram os corpos de segurança os
principais responsáveis por elas.
Segundo o estudo de Briceño-León (1990), 87% dos mortos eram
homens, com idade média de 27 anos; 95% eram venezuelanos e 83% não
tinham antecedentes criminais; 85,8% das mortes foram provocadas por armas
de fogo, e 11,9% por causas não registradas. De acordo com a análise do
Centro de Estudos para a Paz, da UCV (1999), de 266 cadáveres que
mostravam feridas por armas de fogo, mais de 60% tinham recebido disparos
localizados ou no tórax (35,71%) ou na cabeça (29,32%). Desses cadáveres,
211 haviam recebido um único disparo (79,2%), enquanto 39 haviam recebido
dois (14,66%). Tratava-se, portanto, de execuções sumárias de uma população
civil indefesa cujo delito principal fora o de estar nas ruas depois do toque de
recolher.
Sobre o número de feridos, as informações permitem apenas uma
aproximação imperfeita. No dia 4 de março de 1989, o governo informou sobre
1009 feridos por forma violenta, dos quais 218 por armas brancas, e 604 por
cortes de vidro. Não obstante, somente o pronto-socorro do leste de Caracas
― o Pérez de León ― informou ter atendido 575 feridos.
Em perdas materiais, o inventário oficial para as zonas críticas de
Caracas, Petare e o Litoral Central registrou a destruição de 900 mercearias,
131 pequenos empórios, 60 supermercados, 95 lojas de materiais e
ferramentas, 72 bazares e 850 negócios diversos. No Estado de Miranda
67

(excluindo-se o que corresponde à zona metropolitana de Caracas), e nos de


Arágua e Carabobo, informou-se que 784 estabelecimentos foram destruídos.
A câmara de seguros calculou em relação aos estabelecimentos comerciais
que estavam amparados por apólices que as perdas chegavam a 3,073 bilhões
de bolívares. Para os não assegurados, calculou-se um montante similar. Uma
porcentagem de 75% dos negócios afetados correspondeu a mercearias e
outros pequenos comércios que serviam aos bairros das áreas periféricas.
Informou-se também que 35% dos supermercados pertencentes a cadeias da
área metropolitana foram afetados. Podemos considerar essas cifras apenas
como aproximações insuficientes.
As detenções durante o Caracaço alcançaram os milhares e seria
necessária uma ampla investigação para a obtenção de cifras confiáveis.
Quanto ao dia 1º de março, registraram-se ― segundo a imprensa ― em Porto
Ordaz, cerca de 100 detidos; em Barquisimeto, mais de 500; em Carora, 20;
em San Cristóbal, 300; nas cidades principais e secundárias do Estado de
Arágua, 2000; em Cumaná, 200; em Valência, mais de 1800. Segundo uma
lista elaborada pela Federação de Centros Universitários, foram mais de 100 os
estudantes detidos em diferentes operações. Alguns detidos na Disip haviam
sido espancados com tacos e canos durante os interrogatórios.

O CARACAÇO EM COMPARAÇÃO COM OS PROTESTOS DE 1935-36


A força disruptiva do Caracaço alcançou magnitude, violência e
extensão tais que não permite compará-lo a nenhuma situação anterior na
Venezuela, mas apenas a grandes revoltas populares de outros países da
América Latina e do mundo. No entanto, ainda assim o Caracaço guarda
similitudes com a onda de protestos que sacudiu a Venezuela entre dezembro
de 1935 e fevereiro de 1936, quando a morte do general Juan Vicente Gómez
abriu uma estrutura de oportunidades políticas excepcional no contexto da
sociedade de então.
Em 17 de dezembro de 1935 morreu o general Gómez, em sua
residência de Maracay, após haver exercido o poder, de maneira autoritária e
personalista, por 27 anos. Conquanto tivesse tomado as precauções para
decidir quem havia de sucedê-lo no exercício do poder ― designando então o
68

general Eleazar López Contreras para o Ministério da Defesa ― a escassa


legitimidade das instituições políticas e o tradicional uso da força, somados aos
procedimentos personalistas em situações desse tipo, levantaram
imediatamente uma encarniçada luta pela sucessão entre os que atuavam no
poder da época. Enquanto membros da família Gómez e homens fortes do
regime, bem como aparentados e partidários do general López Contreras,
buscavam apoderar-se da presidência, multidões urbanas surpreendentemente
começaram a sair às ruas.
Entre o dia 18 de dezembro e os eventos conhecidos como de 14 de
fevereiro de 1936, as multidões estabeleceram uma forte relação com a
autoridade emergente. Em um contexto caracterizado pela inexistência de
canais de representação e mediação, mas, ao mesmo tempo, marcado por
importantes transformações sociais, que vinham ocorrendo havia já vários
anos, esta interação emergente foi a forma pela qual a política renasceu.
Desde fins dos anos de 1910, uma incipiente economia petroleira, combinada a
uma longa paz (segundo os parâmetros venezuelanos), vinha causando
mudanças na sociedade rural do século XIX. Uma sociedade moderna e mais
complexa se erigia; contudo, ela não tinha ainda, por essa época, meios
institucionais para expressar-se politicamente. Mas, a inter-relação da
autoridade e a multidão ― uma "política das ruas" ― tinha sua tradição, tanto
na Espanha como em suas colônias, sendo praticada inclusive em algumas
cidades latino-americanas do século XIX. Em 1935-36, esta política reviveu.
Começando no dia 18 de dezembro, as multidões ― sob a liderança do
movimento estudantil ― passaram a reunir-se nas praças públicas da capital e
de outras cidades do país para discutir os fatos políticos que estavam
ocorrendo. Na Praça Bolívar, de Caracas, puseram-se em frente às portas do
Governo do Distrito Federal exigindo de López Contreras ― recém-investido
presidente da República, e que se achava na cidade de Maracay assistindo aos
funerais de Gómez ― a destituição do general Velasco como governador da
capital. Velasco era um dos homens mais representativos (e dos mais odiados)
do regime moribundo, e López Contreras, dando um hábil e inteligente passo
adiante em relação a seus rivais na luta pelo poder, aceitou a exigência dos
caraquenhos e destituiu o governador. Era o dia 20. López Contreras entrou na
69

cidade em meio à expectativa geral. Nessa tarde, em frente ao palácio


presidencial, foi ele aclamado pelo povo.
Tão logo se soube da morte de Gómez, estouraram também importantes
distúrbios em diversas cidades do país. Semelhantemente ao que ocorrera
diversas vezes no século XIX, o desaparecimento do caudilho principal de
turno produziu um vazio de poder, o que era aproveitado pelas multidões para
realizar uma série de ações de rua, entre as quais soíam não faltar os saques.
Mas, apesar de os estabelecimentos comerciais estarem na mira do povo,
como sempre havia acontecido no passado ― e, com efeito, ocorreram saques
a lojas em Caracas, Maracaibo e outras cidades ― a maioria desses ataques
esteve dirigida para as propriedades dos políticos que, naquele momento,
haviam caído em desgraça. As casas e propriedades da família Gómez ou dos
gomezistas eram o alvo principal das multidões. Estas ações foram toleradas, e
até certo ponto aprovadas, pelo general López Contreras, que deu ordens
precisas aos corpos de segurança para fazerem-se visíveis nos lugares em que
ocorriam os saques, mas para cuidarem de não atacar ou infligir danos às
pessoas. À medida que foi consolidando seu poder, o governo de López foi-se
tornando menos tolerante com esse tipo de ação e, por conseguinte, a
repressão foi aumentando. Como resposta, as multidões foram-se organizando,
quer sob a liderança do movimento estudantil quer de outros movimentos
sociopolíticos emergentes. Foram, dessa forma, modelando suas demandas no
sentido da modernização política, replicando com violência somente quando
eram reprimidas violentamente, como durante os acontecimentos de 14 de
fevereiro de 1936. A situação no momento em que o Caracaço estourou guarda
algumas similitudes, embora também apresente importantes diferenças.
Vejamo-las.
Um dos traços mais notáveis do Caracaço, na perspectiva de
comparação com esses outros eventos, foi o de que, embora não existisse a
incerteza, como em 1935, em torno da cabeça do poder ― pois Andrés Pérez
havia sido eleito em dezembro com um relativamente forte apoio popular ― o
que, de fato, ocorreu durante as primeiras 30 horas da rebelião foi a notável
ausência do governo, em suas diferentes manifestações: não se fizeram
presentes os funcionários encarregados do cumprimento dos acordos firmados
com a Fedetransporte; as diferentes forças policiais ou não intervieram durante
70

os primeiros protestos ou alegaram cumprir ordem de não intervir. A ausência


mais surpreendente e determinante na forma e na dimensão que a rebelião
assumiu foi a do Governo Nacional. Sua primeira aparição se deu após a uma
hora da tarde do dia 28.
Existem inúmeros depoimentos da época (e posteriores) que alegam a
ignorância do Governo Nacional a respeito dos acontecimentos que se
verificaram em Caracas e em parte significativa das cidades principais e
secundárias do país durante todo o dia 27. Tanto o próprio ex-presidente
Andrés Pérez, em diversas entrevistas, como alguns altos funcionários de seu
governo (incluindo-se o ministro da Defesa) assinalam que o alto governo, mais
do que não ter conhecimento, não se precaveu ou não avaliou adequadamente
a gravidade da situação. Andrés Pérez e o ministro da Defesa Italo Del Valle
Alliegro ausentaram-se ambos da capital, nesse dia, por causa de tarefas de
rotina. Pérez insistiu (em uma entrevista concedida dez anos depois desses
fatos) em que os membros de maior confiança de sua equipe ― inclusive os
ministros da Defesa e das Relações Interiores ― o informaram repetidamente,
ao longo do dia, que nada fora do habitual estava acontecendo. Em
consequência, afirma, somente tomou conhecimento da situação à noite,
quando então regressou a Caracas vindo de Barquisimeto (UCV, 1999).
Na entrevista, Andrés Pérez deixa claro que, no momento de irromper o
Caracaço, os canais regulares de inteligência do Estado não estavam
funcionando. Porém, pode-se inferir também que nada de extraordinário era
esperado pelo alto governo em termos de mal-estar social, apesar da dureza
das medidas que haviam sido anunciadas e, igualmente, do fato de nesse dia
27 começar a vigorar o aumento das passagens. Isto põe em evidência um
cálculo político extremamente deficiente, o que é corroborado ainda mais pela
negação, até aquele momento, de Pérez em aceitar que o Caracaço tivesse
algo que ver com as políticas de ajuste que ele anunciara dez dias antes, ou
mesmo com o aumento no transporte público. O ex-presidente afirma que o
acontecido foi basicamente resultado de um problema de insubordinação da
PM, que vinha ocorrendo desde antes de sua gestão e que era motivada por
uma queixa dos policiais em relação aos seus superiores da GN. A PM não
somente não controlou os primeiros focos de protesto, como chegou mesmo,
em alguns casos, a estimulá-los. Este argumento, embora esclareça uma das
71

dificuldades que Pérez e seu gabinete enfrentaram no dia 27, não é senão
indício de uma das numerosas debilidades institucionais que convergiram
nesse dia para provocar os trágicos resultados.
Condizentemente, os altos dirigentes dos partidos políticos AD e Copei
também afirmam não haver recebido informações sobre os protestos do dia 27,
começando seus contatos com o governo somente na noite deste dia e no dia
28 pela manhã (Celli, intervenção em fórum, 1999). O governo, por sua vez,
justifica não ter ido a público antes da tarde de 28 com a alegação de que
tratava de conseguir o apoio de todas as forças políticas para decretar o estado
de sítio e o toque de recolher. Isto revelou um comportamento muito distante
do que ele havia demonstrado nos dias anteriores, quando procedeu aos
anúncios oficiais do plano de ajustes com o FMI sem contar com apoios
políticos básicos. Pérez nem sequer teve o apoio firme de seu próprio partido,
que se achava dividido internamente. Não obstante, isso não pareceu
incomodá-lo para realizar os anúncios do dia 16. A direção sindical, como seus
pares dos partidos, também brilhou pela ausência nas ruas, e até mesmo
demonstrou perplexidade diante do que acontecia. Mais ainda, uma vez postos
diante da situação, os dirigentes sindicais foram incapazes de empreender
qualquer ação que lhes permitisse intervir nos acontecimentos para controlar
ou canalizar o descontentamento de alguns setores sociais. Os canais
legítimos de representação e mediação estavam claramente decompostos.
A extrema debilidade dessas instituições deixou abertas as portas para
uma revolta sem controle. A desorientação do governo foi agravada
posteriormente pela brutal repressão exercida pelos corpos policiais e militares,
em especial na capital, embora em algumas regiões as autoridades estaduais
ou locais tenham atuado com mais comedimento. O procedimento
extrainstitucional para controlar a revolta e fazer retornar a multidão a seus
lares agravou a situação: as cifras de mortos e as características dos
cadáveres a que fizemos menção acima falam por si só. Também neste
aspecto, o Caracaço revelou quão funda era a deterioração institucional ― e a
aprofundou.
72

COMO CONCLUSÃO
A rebelião popular de 27 de fevereiro de 1989 foi um protesto violento e
de massas, perpetrada por uma sociedade que não contava com canais
idôneos para fazer-se ouvir e ser atendida pelas instâncias do poder. Quando
exteriorizou seu mal-estar contra a primeira manifestação concreta do pacote
macroeconômico ― ou seja, o aumento das tarifas do transporte coletivo ―
encontrou-se em um espaço público sem controles. A multidão se voltou então
contra os estabelecimentos de comércio, como sempre havia feito no passado
ao ocorrer um vazio de autoridade. Apesar disso, os populares não se dirigiram
para as casas dos políticos depostos, porque não os havia. Se nessas horas
incertas houvesse ocorrido um golpe de Estado, certamente essa multidão
também teria rumado para tais casas. As Forças Armadas, representadas pela
figura do ministro da Defesa, e o Alto Comando permaneceram fiéis ao regime
de Andrés Pérez, permitindo-lhe sobreviver.
A extrema disrupção da vida cotidiana nas urbes venezuelanas durante
os dias do Caracaço pôde certamente ser motivada por um complexo de
fatores, entre os quais se inclui como um dos componentes-chave a traição a
uma economia moral. No entanto, foi a debilidade das instituições, projetadas
no passado para conter e regular a ordem política e a vida cotidiana, o motivo
que explica a extensão, a duração e a violência do protesto. Se os atores
políticos e os sindicatos estivessem em sintonia com suas bases, decerto
teriam podido prever as dificuldades que sobreviriam ao anúncio do pacote.
Conquanto fosse altamente improvável que alguém pudesse predizer a
magnitude da ira popular que se vinha represando, partidos e sindicatos
íntegros necessariamente deveriam ter elaborado estratégias para opor-se e/ou
negociar com o governo o modo como se aplicariam as medidas do pacote.
Isto, por seu turno, teria dado às pessoas alguns canais de vazão de seu mal-
estar, ou então alguma esperança de alterar os dramáticos efeitos que elas
esperavam. Mas, ao contrário disso, as instituições de mediação estavam
demasiado erodidas para serem capazes de atuar.
Igualmente, as instituições governamentais mostraram todo tipo de
debilidades. Se, ao começar o protesto, os funcionários correspondentes
tivessem exercido sua autoridade para fazer que os sindicatos do transporte
cumprissem os compromissos assumidos alguns dias antes; ou se a polícia
73

tivesse intervindo imediatamente para controlar as manifestações violentas


antes que elas se espalhassem, é provável que não atingissem a extensão e a
intensidade que atingiram. O governo tampouco executou os procedimentos
institucionais de tentar chegar a acordos com os diversos grupos de interesses
afetados pelas medidas. Não parece que ele tenha avaliado as implicações de
um plano de ajuste que poderia suscitar o temor em uma população
empobrecida e, havia uma década, submetida à recessão econômica e à
frustração sociopolítica. A democracia venezuelana revelou-se tão carente
de traços democráticos efetivos, e as instituições que regulam a vida diária tão
faltas de consistência, que somente uma ação firme, rápida e profunda de
mudanças político-institucionais poderia ter evitado o processo de
deslegitimação política que se desencadeou a partir de então, e que alguns
anos mais tarde levaria a sociedade à crise e à transformação política.
74

CAPÍTULO 4

DEPOIS DO CARACAÇO: PROTESTO POPULAR E LUTA HEGEMÔNICA

Desde meados dos anos 80, mas sobretudo depois do Caracaço, a


Venezuela tem sido vista, tanto interna quanto externamente, como uma
sociedade marcada pela incessante mobilização de sua população. Esta
situação mudou profundamente a maneira como muitos percebiam antes essa
sociedade. Em princípios dos anos 80, havia uma ideia generalizada segundo a
qual os venezuelanos se achavam entre os cidadãos menos mobilizados da
América Latina. Argumentava-se que sua sólida democracia, lubrificada pela
renda petroleira do Estado, havia permitido que se estabelecessem e
consolidassem canais de mediação e representação eficientes, que
conjuravam o conflito social pronunciado e/ou violento. Os venezuelanos eram
"diferentes" do restante da América Latina, visto que pareciam ter superado a
contínua turbulência sociopolítica de outras sociedades. Isto chegou a
manifestar-se no mundo acadêmico com o aparecimento de certa literatura,
que afirmava a condição de excepcionalidade da sociedade venezuelana em
relação ao conjunto da América Latina. Não obstante, as duas últimas décadas
contradisseram por completo tal asseveração e, do mesmo modo, obrigaram a
que se revisse de uma nova perspectiva a política dos protestos de rua que se
desenvolveu na Venezuela desde 1958.
Neste capítulo, estudaremos o fenômeno do protesto popular
venezuelano no contexto atual e a relação que ele guarda com o passado e
com a luta de hegemonia que se tem travado. Partimos do pressuposto de que
algumas das características relevantes deste tipo de protesto (como sua
natureza, suas modalidades e motivações) refletem o processo de
decomposição política e de desinstitucionalização do sistema de partidos que a
sociedade sofreu desde a década de 90. Mas, ao mesmo tempo, elas
evidenciam também estratégias racionais usadas por atores para assegurar a
inclusão de seus interesses no processo político que se desenvolvia. Interessa-
nos, ainda, indagar se esta utilização do protesto como arma política é de data
75

recente, e se é certo o que alguns afirmam: que a sociedade venezuelana


estava sossegada nas décadas anteriores. Para isso, fazemos uma
investigação dos protestos de ontem e de hoje, comparamo-los e
apresentamos algumas conclusões.

DEFINIÇÕES CONCEITUAIS
Entende-se por protesto popular a ação disruptiva desenvolvida por
multidões, grupos e/ou atores dos setores populares, destinada a tornar público
seu desacordo ou desavença com relação a normas, instituições, políticas,
forças, autoridades e/ou condições sociais e políticas. O adjetivo popular,
relativo ao que, em cada sociedade, se entende por povo, é utilizado por nós
de uma maneira flexível, incluindo todo o universo social diverso do das
classes dominantes ― e abrangendo especialmente os pobres e marginais.
A natureza dos protestos pode ser classificada em três categorias,
segundo uma elaboração de Sydney Tarrow (1989): protestos convencionais,
confrontacionais e violentos. Como protestos convencionais, identificamos
aqueles mais rotineiros e frequentemente legais; mas, no caso de não serem
legais, não despertam entre os participantes, observadores e autoridades
sentimentos de temor ou angústia. Classificam-se como confrontacionais os
que, sem chegar a agressões físicas entre os antagonistas nem a danos a
propriedades e bens, suscitam sentimentos de temor ou angústia. São
exemplos deste tipo de protesto os fechamentos de vias, concentrações e
marchas combativas sem permissão, e greves de fome. São protestos
violentos os que provocam deterioração ou destruição de propriedades
públicas ou privadas e/ou danos à integridade física de pessoas participantes
ou não do protesto.
Esta visão do protesto popular segue basicamente o enfoque iniciado
pelos historiadores ingleses da chamada escola britânica marxista (George
Rudé, Eric J. Hobsbawm e Edward P. Thompson, entre outros), que, por um
lado, demonstraram o caráter racional destas mobilizações, enquanto, por
outro, resgataram a perspectiva a partir de baixo no estudo e interpretação do
processo histórico-social e político. Adicionalmente, nossa análise reconhece
também a influência da obra de sociólogos da corrente de política beligerante
76

ou contestatária, como Charles Tilly e Sydney Tarrow, que desenvolveram


sobre as formas e a natureza dos protestos alguns conceitos e reflexões
bastante úteis para a análise dos fenômenos de protesto na Venezuela.
Também foi importante para nossa análise a reflexão de Mainwaring e Scully
(1995) sobre a institucionalização de sistemas de partidos. Segundo estes
últimos autores, são sistemas de partidos institucionalizados os que cumprem
quatro quesitos: estabilidade eleitoral, enraizamento social, legitimidade e
organização. No caso venezuelano, observa-se o desmoronamento de um
sistema que possuíra essas características, e que deixou em seu lugar uma
situação que põe em evidência a desinstitucionalização do sistema de partidos,
em particular, e do sistema político, em geral. Neste vazio, irrompe o protesto
popular com o enérgico propósito de reconstruir os canais de acesso às
autoridades.
No que tange à sustentação empírica que respalda este capítulo, nosso
estudo se baseia em dois bancos de dados computadorizados. O primeiro
constitui a base de dados do Provea, a organização de direitos humanos a que
já fizemos menção, que mantém desde fins de 1989 um registro anual da
situação dos direitos humanos no país, entre eles o direito à manifestação
pacífica, que aqui particularmente nos interessa. A base de dados do Provea é
alimentada a partir de diversos jornais de cobertura nacional e regional, e sua
informação primária ou unidade de informação são os eventos de protestos. O
segundo constitui a base de dados El Bravo Pueblo (doravante BDEBP) ― sob
a responsabilidade de uma equipe de pesquisadores da UCV (Margarita López
Maya, Luis E. Lander y Keta Stephany), em versão digital no Centro de
Documentação do Cendes-UCV ― com informações procedentes
principalmente do jornal El Nacional, um dos de maior circulação no país,
estabelecido em Caracas e que manteve até fins do século uma posição
política independente. Esta base de dados tem informações completas dos
anos 80 e 90, e parciais de anos anteriores. A BDEBP, diferentemente da do
Provea, possui como entradas ou unidades de informação os artigos de
imprensa. Embora estes diferentes critérios dificultem o uso comparativo de
suas informações, essas bases proporcionam um material qualitativo ― e, em
alguns casos, também quantitativo ― muito valioso para uma investigação
77

acerca das mobilizações nos anos recentes e para contrastar esse


comportamento com o de anos anteriores ao Caracaço.
MAGNITUDE, NATUREZA E MOTIVAÇÃO DO PROTESTO EM ANOS RECENTES
De acordo com o Provea, nos 14 anos que vão de outubro de 1989 a
setembro de 2003, ocorreram na Venezuela 12.889 manifestações, o que
representa uma média de 2,52 manifestações diárias, incluindo todos os fins de
semana, férias e dias feriados (cf. Quadro 6). É um número significativo, que
cresce ainda mais quando se leva em consideração que nestas cifras não se
incluem nem as greves legais nem as paralisações imprevistas, formas muito
comuns de protesto na sociedade, mas que o Provea não considera como
formas de manifestação.
Nesta fonte, dois períodos de pico da série são ressaltados. O primeiro
ocorreu entre 1991 e 1994, e o segundo entre 1999 e 2003. No período 1991-
1994, desenrolou-se uma severa crise política cujos momentos mais
dramáticos foram os golpes de Estado malogrados de fevereiro e novembro de
1992. A partir desses fatos, o governo de Andrés Pérez entrou em um processo
acelerado de perda de apoios políticos, que atingiria seu ápice com a
destituição do presidente pelo Congresso Nacional, em maio de 1993, quando
a Corte Suprema de Justiça determinou que existiam méritos para instaurar-se
processo contra ele por malversação de fundos públicos. Pérez foi substituído
por um governo interino, a que presidiu o historiador Ramón J. Velásquez. Este
jurista concluiu o período constitucional e foi, por sua vez, substituído pelo novo
presidente, Rafael Caldera, eleito pelo pleito de dezembro de 1993. Durante
esses anos, observamos que a média diária dos protestos se elevou a 2,75
(novamente sem incluir as paralisações e greves).
O segundo pico ocorreu entre 1999 e 2003, e corresponde aos primeiros
anos do governo de Hugo Chávez. Este governo significou a emergência de
uma nova elite com um projeto político alternativo para a Venezuela;
concomitantemente, tem ele conhecido numerosas manifestações de massa,
tanto de apoio como de repúdio. Neste caso, a média sobe a 3,5 protestos
diários, o que se pode qualificar como um período de mobilização muito maior.
Não obstante isso, desde o informe de 2001-2002, o Provea tem incorporado
também os dados das paralisações de trabalhadores, o que amplia um pouco a
média considerada.
78

Quadro 6: Protestos e notificações de protestos (1983-2002)

Anos Total de protestos Total de notificações


Provea BDEBP

Out. 1983 a set. 1984 --- 283

Out. 1984 a set. 1985 --- 157

Out. 1985 a set. 1986 --- 191

Out. 1986 a set. 1987 --- 124

Out. 1987 a set. 1988 --- 121

Out. 1988 a set. 1989 --- 225

Out. 1989 a set. 1990 675 156

Out. 1990 a set. 1991 546 220

Out. 1991 a set. 1992 873 159

Out. 1992 a set. 1993 1047 185

Out. 1993 a set. 1994 1099 190

Out. 1994 a set. 1995 581 176

Out. 1995 a set. 1996 628 245

Out. 1996 a set. 1997 632 197

Out. 1997 a set. 1998 422 186

Out. 1998 a set. 1999 855 272

Out. 1999 a set. 2000 1414 329

Out. 2000 a set. 2001 1312 ---

Out. 2001 a set. 2002 1262 ---

Out. 2002 a set. 2003 1543 ---

TOTAL 12889 3416

Média por período 921 201

Fonte: Provea, Situação dos Direitos Humanos (informes anuais), e BDEBP.


79

Por sua vez, a BDEBP, no mesmo Quadro 6, mostra-nos para os anos


estudados um total de 3.416 notificações de protesto registradas em El
Nacional, o que corresponde a 0,55 registro por dia. Esta base de dados
também mostra alguns anos de pico, correspondendo o primeiro deles ao
período de mudança do governo de Herrera Campíns para o de Lusinchi,
envolvido nas turbulências provocadas pela Sexta-Feira Negra. Distingue-se
pelo aumento de notificações (como revelam também os dados do Provea) o
período anual correspondente ao Caracaço e (como o Provea) os primeiros
anos do governo de Chávez.
Relativamente à natureza desses protestos, observa-se no Quadro 7 a
distribuição dos protestos notificados pela BDEBP, de acordo com a
classificação já apresentada de protestos convencionais, confrontacionais e
violentos.

Quadro 7 : Natureza dos protestos (1983-2000)

Anos Total de convencionais % confrontacionais % violentos %


notificações
BDEBP

Out. 1983 a set. 1984 283 164 57,9 98 34,6 21 7,4

Out. 1984 a set. 1985 157 105 66,9 40 25,5 12 7,6

Out. 1985 a set. 1986 191 154 80,6 33 17,3 4 2,1

Out. 1986 a set. 1987 124 72 58,1 14 11,3 38 30,6

Out. 1987 a set. 1988 121 81 66,9 22 18,2 18 14,9

Out. 1988 a set. 1989 225 86 38,2 63 28,0 76 33,8

Out. 1989 a set. 1990 156 51 33,7 74 47,4 31 19,9

Out. 1990 a set. 1991 220 111 50,5 53 24,1 56 25,5

Out. 1991 a set. 1992 159 16 10,6 71 44,7 72 45,3

Out. 1992 a set. 1993 185 45 24,3 70 37,8 70 37,8

Out. 1993 a set. 1994 190 54 28,4 70 36,8 66 34,7

Out. 1994 a set. 1995 176 61 34,7 50 28,4 65 36,9

Out. 1995 a set. 1996 245 45 18,4 104 42,4 96 39,2


80

Out. 1996 a set. 1997 197 84 42,6 67 34,0 46 23,4

Out. 1997 a set. 1998 186 79 42,5 70 37,6 37 19,9

Out. 1998 a set. 1999 272 42 15,4 172 63,2 58 21,3

Out. 1999 a set. 2000 329 153 46,5 125 38,0 51 15,5

TOTAL 3416 1403 1196 817

Média por período 201 83 41,3 70 34,8 48 23,9

Fonte: BDEBP

Chama a atenção como as notificações de protestos violentos, que nos


primeiros anos da série constituíam menos de 10% do total, passam desde
1986 a ter sempre porcentagens de dois dígitos. Registram-se como períodos
particularmente violentos os de 91-92 e 92-93 ― correspondentes à crise, já
assinalada, do segundo governo de Andrés Pérez ― e o período de 95-96.
Este segundo período diz respeito aos anos de aplicação do programa de
ajuste macroeconômico conhecido como a Agenda Venezuela. Desde meados
dos anos 90, constata-se uma tendência à diminuição percentual dos protestos
violentos.
Na BDEBP, como já foi mencionado, classifica-se como violento
qualquer protesto que implique danos a bens e/ou agressões a pessoas, sem
identificar a responsabilidade pela violência. Entram, então, entre os
classificados como violentos, os protestos reprimidos pelo Estado. O Provea,
como organização vigilante dos direitos humanos, registra a cada ano
(diferentemente da BDEBP) a informação sobre o número de mobilizações
reprimidas. Em um trabalho anterior, tendo por base esta informação, pudemos
estabelecer a relação entre a repressão e o aumento da violência nas
manifestações (cf. López Maya, 2003).
Com efeito, de acordo com o Provea, o segundo período constitucional
do presidente Andrés Pérez (1989-1993) distinguiu-se pela intensidade da
repressão aos protestos exercida pelo Estado. Um em cada três protestos foi
reprimido e dele resultou um saldo altíssimo de mortos. Além da repressão
atroz exercida durante o Caracaço, somente no ano de 1992, depois do
fracassado golpe de Estado de 4 de fevereiro, foram registradas 26 mortes em
81

manifestações inicialmente pacíficas (ou seja, nas quais seus atores exprimiam
claramente a intenção de protestar por meios não violentos). Algumas
mudanças no comportamento do Estado frente aos protestos começaram a
manifestar-se durante o segundo governo de Caldera. Este governo assumiu
uma postura menos repressiva em relação às mobilizações. Da mesma forma,
a emergência de novos atores políticos nos governos regionais e locais
determinou uma mudança nas atitudes das autoridades em seus diferentes
níveis frente à manifestação pacífica. Diminuiu a criminalização em relação a
ela ― presente desde os anos 60, quando foi associada à luta política pela via
armada, e como tal era reprimida violentamente ― iniciando-se esforços para
regulamentar o uso da repressão.
Em meados desse período constitucional, a proporção de manifestações
reprimidas havia diminuído para uma em cada seis. As mortes em
manifestações públicas também diminuíram. Em 1996, nenhuma morte
ocorreu. Da mesma forma, reduziu-se o uso de armas de fogo nas
manifestações consideradas pacíficas.
Com o governo de Chávez, o protesto começou a adquirir um status de
maior reconhecimento e institucionalização. Um em cada 24 protestos foi
reprimido em 1998-1999, um em cada 28 em 2000-2001, um em cada 25 em
2001-2002, e um em cada 36 em 2002-2003. O uso de armas de fogo em
manifestações públicas diminui, e eleva-se sua proibição ao nível
constitucional. Nos cinco primeiros anos deste governo, cinco mortes
ocorreram em manifestações de tipo pacífico.1 Este desenvolvimento contribuiu
para uma diminuição da violência nos protestos, embora no último informe de
2002-2003 tenha-se observado uma subida da violência, que não está
relacionada com a repressão, mas sim com a aguda confrontação política que
se tem vivido desde o golpe de Estado de abril de 2002.
As notificações de protesto classificadas como confrontacionais pela
BDEBP aumentaram sua participação percentual no total dos protestos
notificados a partir do período 1988-1989, ou seja, o ano do Caracaço. Até

1
Os saldos de mortes por ações repressivas durante os dias do golpe de Estado (desfechado
em 11 de abril de 2002) não foram contabilizados no informe correspondente do Provea. O
saldo do dia 11 pela razão de não existir nessa data um informe confiável do ocorrido, e os dos
dias seguintes pela razão de recair a responsabilidade de fato no governo de Pedro Carmona.
No informe de 2002-2003, registram-se 4 mortes, mas 3 delas como resultado de ações
repressivas a uma manifestação violenta. (N. da A.)
82

esse período, a média percentual de notificações que diziam respeito a


protestos confrontacionais ― agressivos mas não violentos ― era de 21,4%. A
partir de 1988-1989, os protestos deste tipo tornam-se mais evidentes ao
alcançar uma média de 38,5% da totalidade de protestos notificados até 2000.
Na segunda metade da década de 1990, coincidindo com a diminuição dos
protestos violentos, observamos um incremento mais significativo nas
porcentagens de notificações de protestos confrontacionais. No último lustro da
década, a porcentagem das notificações de protestos confrontacionais ascende
a 43%. Por último, as notificações de protestos convencionais mostram um
comportamento quase oposto ao do assinalado para os violentos. No princípio
da série, suas porcentagens superam folgadamente a metade das notificações
registradas, enquanto diminuem nos anos de turbulência política, para voltarem
a um incremento de sua evidência depois de meados da década de 1990.
A BDEBP classifica as notificações também de acordo com as
motivações dos protestos. Para isso, são utilizados mais de 90 descritores.
Neste exame, aglutinamo-los em dois grandes grupos. O primeiro congrega os
descritores de natureza socioeconômica, isto é, todos os protestos motivados
por condições materiais de vida. O segundo recolhe as motivações que se
relacionam com direitos de natureza civil e política. Para facilitar as
comparações, no Quadro 8, além dos totais absolutos, são apresentadas as
porcentagens correspondentes. A última coluna reúne os dados de notificações
cuja motivação não está claramente estabelecida. Neste Quadro 8, os totais
não coincidem com os do Quadro 7, porque aqui se totalizam os motivos dos
protestos e não as notificações. Em algumas das notificações, o protesto
registrado tem mais de um motivo, e assim elas podem corresponder às duas
categorias.
83

QUADRO 8: MOTIVOS DOS PROTESTOS (1983-1999)

Anos Total socioeconômicos % civis e políticos % outro %

Out. 1983 a set. 1984 296 253 85,5 37 12,5 6 2,0

Out. 1984 a set. 1985 174 151 86,8 18 4,8 5 2,9

Out. 1985 a set. 1986 215 198 92,1 16 7,4 1 0,5

Out. 1986 a set. 1987 135 71 52,6 62 46,0 2 1,5

Out. 1987 a set. 1988 125 86 68,8 39 31,2 0 0,0

Out. 1988 a set. 1989 312 233 71,5 82 26,3 7 2,2

Out. 1989 a set. 1990 176 149 84,7 23 13,1 4 2,3

Out. 1990 a set. 1991 54 42 77,8 9 16,7 3 5,6

Out. 1991 a set. 1992 223 127 57,0 91 40,8 5 2,2

Out. 1992 a set. 1993 221 159 71,9 60 27,1 2 0,9

Out. 1993 a set. 1994 226 175 77,4 41 18,1 10 4,4

Out. 1994 a set. 1995 204 142 69,6 49 24,0 13 6,4

Out. 1995 a set. 1996 293 241 82,3 38 13,0 14 4,8

Out. 1996 a set. 1997 218 178 81,7 32 14,7 8 3,7

Out. 1997 a set. 1998 199 149 74,9 40 20,1 10 5,0

Out. 1998 a set. 1999 304 195 64,1 106 34,9 3 1,0

Fonte: BDEBP

Pode-se observar que a imensa maioria dos protestos notificados possui


motivações de natureza socioeconômica, ou seja, reivindicações salariais,
descumprimento de contratos de trabalho, serviços, etc. Contudo, é digno de
nota o fato de que, em uns poucos anos específicos, os protestos motivados
por demandas civis e políticas superam a terça parte do total registrado. Tais
são os casos de 1986-87, 1987-88, 1991-92 e 1998-99. Conquanto uma
explicação cabal das razões desses comportamentos esteja além dos
propósitos deste capítulo, a informação empírica constatada assinala que
84

esses comportamentos correspondem a períodos de agitação política


particularmente alta. No período de 1986 a 1988, por exemplo, ocorreram
mobilizações significativas por reformas políticas, especialmente dirigidas para
a descentralização do poder. Estas manifestações contribuíram para criar um
clima que ensejou a materialização dos protestos recolhidos pela Copre, e que
conduziram à aprovação de leis de descentralização. No período 1991-1992,
ocorreu o golpe de Estado de 4 de fevereiro, e o período 1998-1999
correspondeu ao primeiro ano do governo de Chávez, com toda a mobilização
em torno do processo constituinte.
Para observarmos com mais detalhes essas motivações, dividimos cada
grupo em três subgrupos. O primeiro ― subgrupo A ― dos protestos de
natureza socioeconômica, é formado pelos protestos que se centram nas
condições e direitos para a produção como, por exemplo, as mobilizações por
petições de terra, por subsídios, por crédito, contra impostos, etc. O segundo
― subgrupo B ― aglomera motivações relacionadas com demandas de
serviços públicos: protestos por saúde, educação, água, transporte, etc. O
subgrupo C reúne todas as motivações que giram em torno das rendas:
salários, contratos coletivos, aposentadorias, trabalho, etc.
O segundo grupo, que recolhe as motivações referentes aos direitos de
natureza civil e política, compreende também um subgrupo A, formado pelas
motivações relacionadas com os direitos humanos: maus tratos, mortes,
repressão, etc.; um subgrupo B, que reúne protestos por direitos civis, como
justiça, liberdade de expressão, leis, regulamentos, etc.; e um subgrupo C, que
abrange as motivações mais diretamente políticas, como fraudes eleitorais,
democratização, autonomia, corrupção, etc. No quadro seguinte, são reunidas
as motivações dos protestos notificados de acordo com as porcentagens desta
reclassificação:
85

QUADRO 9: MOTIVOS DOS PROTESTOS POR SUBGRUPOS (1983-1999)

Anos Socioeconômicos Civis e políticos

TOTAL A% B% C% TOTAL A% B% C%

Out. 1983 a set. 1984 253 7,5 25,3 67,2 37 56,8 21,6 21,6

Out. 1984 a set. 1985 151 12,6 30,5 57,0 18 33,3 16,7 50,0

Out. 1985 a set. 1986 198 11,1 20,7 68,2 16 56,3 12,5 37,5

Out. 1986 a set. 1987 71 1,4 42,3 56,3 62 85,5 6,5 8,1

Out. 1987 a set. 1988 86 29,1 27,9 43,0 39 64,1 23,1 12,8

Out. 1988 a set. 1989 223 32,7 34,5 32,7 82 70,6 18,3 8,5

Out. 1989 a set. 1990 149 10,7 44,3 45,0 23 30,4 21,7 47,8

Out. 1990 a set. 1991 42 26,2 54,8 19,0 9 44,4 11,1 44,4

Out. 1991 a set. 1992 127 18,9 48,8 32,3 91 57,1 7,7 35,2

Out. 1992 a set. 1993 159 26,4 26,4 47,2 60 45,0 16,7 38,3

Out. 1993 a set. 1994 175 25,7 48,6 25,7 41 80,5 14,6 4,9

Out. 1994 a set. 1995 142 7,8 50,0 42,3 49 57,1 22,4 20,4

Out. 1995 a set. 1996 241 26,6 34,0 39,4 38 65,8 10,5 23,7

Out. 1996 a set. 1997 178 21,9 36,0 42,1 32 59,4 31,3 9,4

Out. 1997 a set. 1998 149 20,1 24,2 55,7 40 50,0 27,5 22,5

Out. 1998 a set. 1999 195 18,5 33,3 48,2 106 47,2 14,2 38,7

Fonte: BDEBP

Vemos como entre os protestos com motivações socioeconômicas, as


demandas predominantes são aquelas agrupadas em C e B, isto é, as que se
relacionam com níveis de renda e serviços públicos, respectivamente. Ambas
somadas sempre superam a porcentagem de 70% do total de motivações
socioeconômicas notificadas. Dos 16 períodos que aparecem no quadro, em 11
as motivações de renda predominam. Entre as notificações de protestos de
motivação civil e política, é o subgrupo A ― dos direitos humanos ― que
86

compreende, entre outros descritores, os de repressão, agressão, invasão,


morte, vida, violência, recrutamento ― o que predomina em 13 dos 16 períodos
registrados. Em 11 deles, este subgrupo contabiliza mais da metade das
notificações motivadas por razões civis e políticas.
Em síntese, estes anos recentes se caracterizaram por intensos
protestos, os quais, desde 1989 (segundo o Provea), superam em média duas
mobilizações diárias, incluindo domingos e dias feriados, e sem contar as
paralisações de operários, que são um dos protestos majoritários dos
venezuelanos ― e que esta base de dados somente registra como
manifestação a partir do informe anual de 2001-2002. Os protestos violentos, a
partir de meados dos anos 80, passam a ter porcentagens de dois dígitos nos
dados da BDEBP. Apesar disso, tenderam a diminuir em fins dos anos 90, o
que se relaciona com uma mudança na atitude do Estado frente a esse direito.
Os protestos de natureza confrontacional, que antes do Caracaço eram menos
de um quarto do total de notificações, superam após esse acontecimento a
terça parte do total, e tendem a fazer-se mais evidentes nos anos recentes,
chegando mesmo a 43% no segundo lustro da década de 90. Isso tudo aponta
para uma sociedade em que as relações de poder estão em transformação.
As motivações predominantes nesta série têm relação com
remunerações e demandas de serviços públicos, embora ao final a evidência
das demandas civis e políticas tenda a aumentar. Entre os protestos de
motivações civis e políticas predominam os que exigem respeito aos direitos
humanos básicos de cidadania, tais como a vida, a dignidade humana e a
integridade física.

UMA VISÃO SOBRE OS PROTESTOS DE DÉCADAS ANTERIORES


Avaliamos a seguir quão novas são as características dos protestos
desses anos recentes em comparação com as do passado, contrastando-as
através de informações empíricas de anos anteriores para situá-las em um
contexto mais amplo. Porém, devemos começar por revisar algumas
interpretações que foram realizadas sobre as mobilizações e protestos
populares nos anos anteriores ao Caracaço.
87

A suposta passividade das massas tem sido considerada por Juan


Carlos Rey ― um dos politólogos de maior reconhecimento acadêmico na
Venezuela ― como uma das condições básicas que permitiram ao sistema
político venezuelano fundado em 1958 funcionar de maneira eficaz nas
décadas anteriores aos anos que consideramos acima. Em janeiro de 1958, foi
derrubada a ditadura do general Marcos Pérez Jiménez, iniciando-se um
regime de governos democráticos visto como modelo na região latino-
americana. Carlos Rey argumentou, pouco depois do Caracaço, que a lógica
da democracia venezuelana implicava o fortalecimento de grandes e poucas
organizações partidárias, estruturadas vertical e autoritariamente. Através da
relação estabelecida entre elas ― relação própria de um jogo, mas não de
soma-zero (no qual o que se dá a um necessariamente se tira a outro) ―
buscaram, de 1958 em diante, a estabilidade política, o que se alcançou com
notável êxito. Os signatários dos pactos constitutivos da democracia
venezuelana temiam a ocorrência ― se as demandas do povo não fossem
canalizadas através dessas organizações ― de um transbordamento cujo
resultado seria o fim do sistema, ou então, seu descontrole. Esse jogo foi
possível graças à renda petroleira do Estado. Assim, pois, a democracia
venezuelana ― segundo Rey ― implicava a desmobilização e não participação
das massas. A partir dos dados expostos acima, parece ser lícito afirmar que
esse quadro efetivamente mudou.
Moisés Naím e Ramón Piñango (1984) declararam, por sua vez, que
"(...) as primeiras décadas da democracia apresentam uma surpreendente
ausência de conflitos abertos permanentes". Afirmavam que o conflito aberto
não aparecia como fator determinante na dinâmica da sociedade, e processos
que, em outros países, provocaram grandes traumas, na Venezuela haviam
sido superados sem maiores turbulências sociais. Apontavam como exemplos
a pacificação da insurgência armada nos anos de 1970 e a paz operária da
democracia de Puntofijo.
Steve Ellner (1995) assinala que, embora essas interpretações tenham
fundamentos históricos que as sustentem, exagerá-las tem levado a
conclusões sobre características da sociedade venezuelana que se mostram
errôneas ou pouco precisas. No caso das mobilizações ― a que chamamos de
política das ruas ― essas afirmações pareceram querer indicar que elas foram,
88

até meados dos anos de 1980, mobilizações de pouca frequência e mesmo


pouco relevantes para a dinâmica da sociedade. Igualmente, afirmou-se que os
protestos das décadas iniciais da democracia de 1958 eram mais
ideologicamente motivados, menos relacionados com condições imediatas de
vida, e de menor intensidade e conflituosidade que na década e meia que
acabamos de estudar (Escobar, entrevista, 1997). Quão correto é isso? ―
cumpre indagar. A seguir apresentamos o exame de alguns anos dessas
décadas.
A BDEBP possui coligidas informações sobre protestos na Venezuela de
diversos anos do período democrático, de 1958 em diante. Aproveitando esse
acervo de informações, tomamos dois anos de cada década (entre os anos de
1958 e 1999), com o propósito de comparar algumas das características das
mobilizações nesse tempo. Interessa-nos examinar em que medida elas foram
diferentes entre si quanto à frequência, ou mais precisamente quanto à sua
evidência na imprensa, assim como quanto à natureza e aos motivos dos
protestos. Os anos escolhidos não correspondem a critérios elaborados, pois a
BDEBP não tem ainda informação completa do período. Procuramos tomar de
cada década um ano eleitoral e um segundo ano qualquer. A seleção dos anos
1958 e 1959 obedeceu ao critério de serem, nessa década, os dois anos nos
quais se instaurou o regime democrático no país. E na década de 1990, os
escolhidos foram 1998 (ano eleitoral) e 1999 (primeiro ano do governo de
Chávez). Insistimos no que afirmamos sobre esta base de dados: ela, por
alimentar-se de notificações e não de eventos de protesto, mais do que ser
quantitativamente precisa, proporciona uma estimativa da frequência e
características dos protestos.
Em contrário a convicções generalizadas (mesmo entre os que estudam
as mobilizações populares dos anos recentes), ao revisar os anos
selecionados, não encontramos diferenças apreciáveis quanto ao número de
notificações registradas em relação aos anos considerados na primeira parte
deste capítulo. Analisando os anos anteriores à década de 1980, e recordando
a advertência a respeito da imprecisão quantitativa da informação desta base
de dados, obtivemos que, em média, o número de notificações alcança um total
de 356, muito acima da média de 210 que registramos no Quadro 6. Isto nos
permite afirmar que, se avaliamos o período coberto na BDEBP da década de
89

1970, poderíamos estar diante de uma década que folgadamente supera a


média de notificações das décadas posteriores. Por exemplo: para o ano de
1973, registram-se 843 notificações; para o ano de 1977, registram-se 744, e
561 para o ano de 1978. Estes dados contradizem inclusive aqueles autores
que reconheceram a mobilização e os protestos como um fenômeno
permanente da sociedade venezuelana. É o caso de Richard Hillman, que
afirma estarem tanto os anos 60 como os 80 plenos de contínua turbulência
civil, e somente os anos 70 terem vivido uma calma relativa. Foram esses os
anos do chamado boom petroleiro, quando a crise vivida no Oriente Médio
provocou uma alta dos preços do petróleo nos mercados internacionais, o que
proporcionou anos de bonança fiscal para os países produtores.
Apresentamos a seguir um quadro (semelhante ao Quadro 7) para os
dois anos escolhidos de cada década anterior aos anos 90, com a natureza dos
protestos notificados, de acordo com a classificação da BDEBP:

QUADRO 10: NATUREZA DOS PROTESTOS (vários anos)

Anos Total convencionais % confrontacionais % violentos %

1958 358 230 64,3 95 26,5 33 9,2

1959 221 133 60,2 79 35,8 9 4,1

1961 211 132 62,6 55 26,1 24 11,4

1963 153 55 36,0 25 16,3 73 47,7

1970 353 22 6,2 268 75,9 63 17,9

1973 843 431 51,1 271 32,2 141 16,7

1983 163 148 90,8 8 4,9 7 4,3

1989 236 80 33,9 87 36,9 69 29,2

1998 168 77 45,8 68 40,5 23 13,7

1999 354 43 12,2 239 67,5 72 20,3

Fonte: BDEBP

Como se pode constatar, a ideia de que, em décadas anteriores, a


natureza dos protestos e das mobilizações era menos conflituosa não passa de
90

uma ilusão. Embora nos anos iniciais da instauração da democracia os


protestos violentos notificados sejam inferiores a 10% do total, eles aumentam
nos anos 60 e 70, aparecendo o ano de 1963 como particularmente violento.
Esse foi um ano eleitoral, e os grupos políticos comprometidos com a luta
armada fizeram chamado à abstenção. A confrontação entre o governo de
Rómulo Betancourt (1959-1964) e os grupos alçados em armas foi
especialmente intensa e virulenta, o que constitui seguramente uma parte
importante da explicação desse fenômeno. Os protestos de natureza
confrontacional, nos anos selecionados, mostram flutuações erráticas. Em todo
o caso, em razão da forma como foi construído o quadro (que toma em conta
apenas dois anos de cada década), não é possível identificar tendências. Há,
de qualquer modo, um par de anos (1959 e 1970) com porcentagens de
protestos confrontacionais superiores a um terço do total. Somente uma
avaliação de séries anuais ininterruptas e prolongadas, como a feita para o
Quadro 7, nos permitiria identificar períodos contínuos de turbulência similares
aos da segunda metade dos anos 1990, embora não se possa descartar a sua
ocorrência efetiva. Finalmente, os protestos convencionais são majoritários em
seis dos dez anos selecionados, e (como no Quadro 7) este tipo de protesto
perde evidência nos anos de maior turbulência sociopolítica.
Nos Quadros 11 e 12 são registrados os motivos dos protestos. O
primeiro destes quadros apresenta (da mesma forma que o Quadro 8) os
motivos agrupados em duas categorias amplas ― socioeconômicas e civil-
políticas ― para ressaltar a relação percentual entre ambas.
91

QUADRO 11: MOTIVOS DOS PROTESTOS (Vários anos)

Anos Total socioeconômicos % civis e políticos % outro %

1958 385 193 50,1 178 46,2 14 3,6

1959 234 128 54,7 86 36,8 20 8,5

1961 207 134 64,7 64 30,9 9 4,3

1963 154 37 24,0 99 64,3 18 11,7

1970 403 292 72,5 104 25,8 7 1,7

1973 851 580 68,2 167 19,6 104 12,2

1983 163 134 82,2 27 16,6 2 1,2

1989 325 250 76,9 70 21,5 5 1,5

1998 182 142 78,0 33 18,1 7 3,8

1999 392 246 62,8 143 36,5 3 0,8

Fonte: BDEBP

Neste quadro (como no Quadro 8), é possível observar-se que, exceto


no ano de 1963, os protestos motivados por razões socioeconômicas
predominam sobre os de motivos civis e políticos. Não obstante, esse
predomínio para os primeiros anos do quadro (isto é, para o período anterior à
Sexta-Feira Negra de 1983) não é tão pronunciado como para os anos
posteriores ao fato. Enquanto que, para os primeiros seis anos do quadro
(1958-1973), a porcentagem média das notificações com motivações
socioeconômicas atinge 55,7% do total das notificações. Nos quatro anos finais
do quadro (1983-1999), esta porcentagem se situa em 75%, quase 20 pontos
mais alta. Isto é concordante com os dados do Quadro 8, que possui a série
temporal ininterrupta de 1983 a 1999. Aí a porcentagem média das notificações
de protestos motivados por razões socioeconômicas é de 74,3%. Neste Quadro
11, também se singulariza (como no Quadro 10) o ano de 1963 como um ano
atípico. Neste, os protestos por motivações políticas e civis superam
substancialmente os de caráter socioeconômico, corroborando sua relação
com as razões de tensão política indicadas acima.
92

O Quadro 12 (similar ao Quadro 9) refina os critérios de classificação


das motivações, subdividindo cada uma das duas categorias amplas do quadro
anterior em três subgrupos.

QUADRO 12: MOTIVOS DOS PROTESTOS POR SUBGRUPO (Vários anos)

Anos Socioeconômicos Civis e políticos

TOTAL A% B% C% TOTAL A% B% C%

1958 193 10,4 24,4 65,3 178 30,0 7,3 60,7

1959 128 6,3 21,1 72,7 86 50,0 18,6 31,4

1961 134 16,4 30,6 53,0 64 29,7 14,1 56,3

1963 37 2,7 16,2 81,0 99 12,1 2,0 85,9

1970 292 4,8 49,7 45,5 104 27,9 45,2 26,9

1973 580 8,6 35,5 55,9 167 49,7 19,8 30,5

1983 134 16,4 26,1 57,5 27 81,5 7,4 11,1

1989 250 29,2 36,0 34,8 70 75,7 7,1 17,1

1998 142 25,4 27,5 47,2 33 60,6 27,3 12,1

1999 246 16,7 33,6 44,7 143 41,3 10,5 48,3

Fonte: BDEBP

Neste Quadro 12 (da mesma maneira como assinalamos para o Quadro


9), verifica-se que entre as motivações socioeconômicas predominam as
reunidas nos subgrupos B e C, ou seja, aquelas que se relacionam
respectivamente com níveis de rendas e com serviços públicos. Ambas juntas
sempre superam 80% do total de motivações socioeconômicas notificadas.
Repete-se o predomínio das motivações por renda. Entre as notificações de
protestos de motivação civil e política, o subgrupo C (de motivações
propriamente políticas e que compreende entre outros descritores os de
democracia, corrupção, eleições, político e autonomia) é predominante em três
dos seis primeiros anos. Mostra-se aqui uma diferença quando se compara
com as motivações dos anos 80, em que os direitos humanos tinham um claro
protagonismo.
93

CONTINUIDADES E NOVIDADES DO PROTESTO POPULAR RECENTE


De acordo com nosso estudo, os protestos populares na Venezuela ―
tão presentes na vida cotidiana da sociedade desde os anos 1980 ― revelam-
se um fenômeno bem menos inusitado do que muitas pessoas podem supor.
As notificações de ações coletivas de protestos nos anos que tomamos para
amostra das décadas anteriores indicam-nos que numericamente esses anos
são similares ― quando não superiores em alguns casos ― à média anual que
registramos para a última década e meia. Da mesma forma, salvo mudanças
de ênfase, as motivações dos protestos também se repetem.
A despeito disso, pudemos detectar algumas diferenças. Desde 1958,
quando se instaura o sistema democrático representativo, e até inícios dos
anos de 1970, encontramos um maior equilíbrio numérico entre os protestos
motivados por demandas socioeconômicas e os provocados por motivações
civis e políticas. A partir de então, o predomínio dos protestos socioeconômicos
passa a ser avassalador sobre os do segundo tipo. Além do mais, nos
primeiros anos do período democrático, entre os protestos motivados por
razões civis e políticas, os relacionados com demandas estritamente políticas
(reunidos no subgrupo C) têm uma evidência maior. Isso reflete o clima de
turbulência política no qual se vivia, clima próprio de uma luta hegemônica, a
cuja resolução se chegaria nos anos 70 em favor das forças signatárias do
Pacto de Puntofijo. Nos informes mais recentes do Provea, observam-se
indícios de que estamos em uma etapa semelhante: desde 2001 vêm
aumentando (tanto em termos absolutos como relativos) os protestos
politicamente motivados. Reconhece-se inclusive que muitos dos protestos que
aparecem como motivados por demandas socioeconômicas têm, na realidade,
um claro fundo político. Vivemos, pois, novamente, anos de luta hegemônica
cuja solução está ainda por se ver.
A solução da luta hegemônica nos anos 70 em favor dos atores de
Puntofijo significou o fortalecimento da legitimidade do sistema e de seus
principais atores. Esse estado de coisas, combinado à bonança petroleira
daquela década, permite explicar, ao menos parcialmente, a percepção de paz
social e harmonia mais ou menos generalizada que se tinha desses anos. Tal
percepção chegou mesmo, através de certa literatura do início dos anos 80, ao
extremo de exprimir a imagem de uma Venezuela cuja sociedade estava livre
94

de conflitos abertos. É nessa época, pois, que começam a surgir as


interpretações acerca de uma pretensa excepcionalidade da sociedade
venezuelana. Na BDEBP, observa-se que nos primeiros anos da década de 80
os protestos foram predominantemente convencionais, com cifras de um único
dígito para os protestos violentos. Contudo, a partir de uma perspectiva
histórica cronologicamente mais ampla, pode-se dizer que não era esta uma
situação normal, mas sim que se tratava apenas de um breve período "de
trégua". As situações não resolvidas de exclusão social e cultural de caráter
histórico, somadas à deterioração das condições de vida das maiorias ― tão
logo desapareceram os anos de bonança petroleira ― foram construindo o
cenário para a irrupção de um novo ciclo de conflitos e de luta política.
Entretanto, são efetivamente observáveis as mudanças no tipo das demandas
políticas dos protestos recentes. Desde o massacre de El Amparo, e mais
acentuadamente desde o Caracaço, a consciência pública deu um salto para
frente em sua atenção a violações dos diversos direitos humanos.
O protesto é um fenômeno permanente na sociedade venezuelana, e é
um equívoco que distorce a análise o exagerar a suposta passividade de
setores populares durante períodos prolongados, como sugere certa literatura.
De fato, o que muda é a função do protesto na dinâmica social. Em períodos de
luta hegemônica, a política das ruas intervém diretamente na confrontação com
o poder estabelecido, e isso se expressa nas mudanças da natureza e das
motivações do protesto. Ele se torna mais confrontacional e violento, e as
motivações diretamente políticas adquirem maior relevância. Ao contrário
disso, em períodos nos quais a hegemonia não está em disputa e quando são
maiores a legitimidade e a estabilidade do sistema político, as ações coletivas
de protesto por demandas socioeconômicas ocupam praticamente todo o
espaço. São protestos menos confrontacionais e violentos. A capacidade de
negociação dos atores em demanda é, igualmente, mais ampla. Mas,
diferentemente dos anos 60 ― quando o protesto era criminalizado pelo próprio
Estado e, em consequência, fortemente reprimido, provocando uma espiral de
violência ― desde meados dos anos 80 e principalmente nos anos de governo
de Chávez essa criminalização tem diminuído, e com ela a repressão. Por isso,
a luta hegemônica agora se expressa sobretudo mediante ações coletivas de
natureza confrontacional.
95

Na Venezuela, o Estado ― sendo financiado pela renda petroleira ― foi


capaz de manter à margem o protesto político entre os anos 70 e meados dos
80. Sua eficiência em atalhar o conflito acabou por desarticular boa parte das
tentativas de organização independente dos setores populares.
Frequentemente, o protesto foi apenas a antessala de negociações de cúpula
entre dirigentes de sindicatos e grêmios com partidos políticos e instituições do
Estado. Isso pode explicar o fato de que, conquanto fossem muitos os
protestos, estes não conduziam a movimentos nem a organizações sociais.
Com a contínua deterioração da economia e o processo de deslegitimação do
sistema político (mais agudo em fins dos anos 80), essa situação se alterou de
maneira irreversível. O protesto assumiu novamente um papel protagonista na
luta política, e as demandas redistributivas já não podiam ser satisfeitas pelos
mecanismos clientelistas e corporativos do passado. Estavam dadas, pois, as
condições para se passar do protesto a uma dinâmica de movimentos e
organizações sociais populares.
Nos anos mais recentes, a este complexo processo se acrescentaram
novos elementos. Desde o final do ano de 2001, emergiram novos atores na
política das ruas. Setores das classes médias e altas também passaram a fazer
uso dos espaços públicos na luta atual pela hegemonia na Venezuela. Este
novo ingrediente tem fortalecido ainda mais a evidência do protesto, visto que
seus atores contam com recursos econômicos poderosos, tais como os
diversos meios privados de comunicação audiovisual e impressa, que
compartilham e participam diretamente dos propósitos dessas mobilizações.
Também esses setores têm diante de si o desafio de sua organização para
melhorar e aprofundar a qualidade de sua relação com o Estado venezuelano e
com a democracia.
96

CAPÍTULO 5

DESCENTRALIZAÇÃO, DEMOCRACIA E CRISE DO GOVERNO DE


ANDRÉS PÉREZ 1

O processo de transformação da sociedade venezuelana apresenta


ritmos diferentes em suas expressões econômicas e sociopolíticas. Como
vimos nos capítulos precedentes, os efeitos do esgotamento do modelo de
substituição de importações, cujo dinamismo era ditado pela renda petroleira,
eram já perceptíveis em fins da década de 1970. Isso contribuiu para a
ocorrência de desajustes econômicos profundos (como a crise da dívida de
1983) e para a desorientação dos indicadores macroeconômicos desde então,
como também vimos. Em contraste, os desacordos sociais e políticos somente
se revelaram com força na segunda metade dos anos 1980 (sobretudo depois
do Caracaço, de 1989) pondo em evidência ― e acentuando-os ― os
processos de deslegitimação e decomposição de partidos e sindicatos
hegemônicos do sistema político. Estas condições de deterioração iriam levar a
ordem democrática a uma situação de extrema vulnerabilidade, provocando a
emergência de fatores de ruptura da ordem institucional e a crise do governo
nacional de Andrés Pérez, entre 1992 e 1993.
Neste capítulo, exploraremos a contribuição que deram as reformas
políticas aprovadas no final do governo de Lusinchi e início do de Andrés Pérez
à sustentação da democracia venezuelana durante a crise política de 1992 e
1993, quando ― após ser alvo de duas tentativas frustradas de golpe de
Estado ― o governo de Pérez entrou em um processo de perda aguda de suas
bases de sustentação política, generalizando-se uma situação de incerteza
sobre seu destino e pondo-se em risco a ordem democrática erigida em 1958.

1
Este capítulo está baseado em Venezuela: el impacto de sus reformas políticas durante el
lapso crítico de 1989-1993. (Margarita López Maya), Cuadernos del CENDES, Nº 26, maio-
agosto, 1994, pp. 27-54. (N. da A.)
97

A DEMOCRACIA AMEAÇADA
Três anos depois do Caracaço, na noite de 3 para 4 de fevereiro de
1992 ― regressando Andrés Pérez de uma viagem à cidade suíça de Davos,
onde, em concordância com as novas pautas econômicas neoliberais, o
presidente promovia a imagem da Venezuela para investidores internacionais
― ocorreu um levante militar. A insurreição foi encabeçada por um grupo de
oficiais do Exército, de média e baixa patentes, reunidos em um agrupamento
chamado Grupo Comacate (nome formado da primeira sílaba dos nomes
coronéis, majores, capitães e tenentes), e foi empreendida com a participação
de tropas dos quartéis de Maracay, Maracaibo e Valência. Os rebeldes se
apresentaram a La Casona, residência do presidente, onde tentaram prendê-lo.
Pérez, contudo, já alertado pelo ministro da Defesa de que alguma coisa
anormal acontecia, fizera uma breve escala ali e dirigiu-se em seguida para o
Palácio de Miraflores, sede do governo. Em consequência disso, as ações se
concentraram, logo após, no palácio presidencial.
Pérez, auxiliado pelo chefe da Casa Militar, logrou escapar de Miraflores
e alcançar uma emissora de televisão (a Venevisión), propriedade de Gustavo
Cisneros, através da qual se dirigiu à nação, por volta das duas horas da
madrugada do dia 4. Informou ao país o que ocorria, solicitou o apoio popular e
deu ordem aos militares leais para que controlassem a situação. A imagem do
presidente transmitida pela televisão, juntamente com as manobras (tanto as
militares como as persuasivas realizadas pelo ministro da Defesa), além
daquilo que pareceu ser um erro de logística do comandante Hugo Rafael
Chávez Frías, líder da insurreição, que não se movera, nas horas do golpe, de
seu centro de operações no Museu Militar de La Planicie para pessoalmente
realizar a captura de Pérez em Miraflores ― todas essas circunstâncias têm
sido apontadas como favoráveis ao presidente (cf. Ochoa Antich, 1992). Na
manhã do dia 4, a cidade de Caracas encontrava-se quase toda controlada por
forças leais ao governo. O presidente pôde, então, voltar ao palácio
presidencial e dali dirigir-se novamente ao país. Os rebeldes continuaram
resistindo mais algum tempo em alguns pontos estratégicos (como o aeroporto
militar de La Carlota, no coração da capital). Mas, por volta do meio-dia, o
tenente-coronel Chávez se dirigiu ao país pela televisão para informar sobre
98

sua rendição e pedir aos companheiros que depusessem as armas para evitar
um grande derramamento de sangue.
Nove meses depois, em 27 de novembro, ocorreu uma segunda revolta,
desta vez com oficiais de alta patente das três forças. O governo de Andrés
Pérez continuava mergulhado em uma situação de profunda impopularidade e
repúdio, como demonstrava nesses dias uma pesquisa de opinião, segundo a
qual 71% dos entrevistados consideravam que o governo era ruim, e 57%
pronunciavam-se a favor da renúncia do presidente (El Nacional, 21-11-1992).
Desta vez, a conspiração teve seu epicentro na base aérea situada no
Estado de Arágua, de onde decolaram logo ao amanhecer alguns aviões
Bronco, que se dirigiram para Caracas. Ali bombardearam o palácio
presidencial, o Capitólio (onde o Congresso tem suas sessões) e uma das
sedes da Disip, a polícia política. Ao mesmo tempo, grupos civis tomaram uma
estação de televisão, assim como o satélite que transmitia três dos quatro
principais canais televisivos da Venezuela. Transmitiram várias vezes uma
alocução do comandante Chávez, o chefe da revolta anterior e nesse momento
prisioneiro, conclamando o povo à subversão. Os rebeldes foram repelidos
pelas forças leais ao governo, que pelo meio da manhã, utilizando aviões F-16,
saíram em perseguição aos Bronco, derrubando um deles por volta do meio-
dia. Submetidas as forças sublevadas, alguns se entregaram e outros fugiram
para o Peru. Além das escaramuças militares, houve saques esporádicos em
Barinas, distúrbios de rua em Maracay e Valência e, aproveitando-se da
debilidade institucional, ocorreu um massacre na Detenção de Cátia, em
Caracas, onde morreram mais de 60 presos. Como cabeças da insurreição
foram apontados o general Francisco Visconti Osorio, chefe de logística do
Estado Maior Conjunto, o contra-almirante Hermán Grüber Odreman ― o oficial
da Marinha mais graduado e de maior antiguidade dos sublevados ― e o
contra-almirante Luis Cabrera Aguirre.
O que o Caracaço não conseguiu alcançar em 1989, conseguiram-no os
golpes de 1992, especialmente o primeiro: desatar um incontível processo de
desmoronamento da sustentação política do governo e propiciar a emergência
de atores e ações que depois impulsionariam mudanças drásticas no sistema
político venezuelano. Embora os partidos e organizações hegemônicos
oferecessem seu apoio ao governo e a seu gabinete, não foram capazes ―
99

porque não se atreveram ― de convocar suas bases para dar respaldo, mais
do que apenas formalmente, ao governo de Pérez. Não houve mobilizações
políticas a favor nem do governo, nem da democracia. Isto foi particularmente
preocupante durante o golpe de 4 de fevereiro. Além disso, o discurso do ex-
presidente Caldera no Congresso, nesse dia, permitiu também uma distinção
entre governo e sistema democrático, o que aprofundou a debilidade do
primeiro. E tornou-se notório também que os rebeldes comandados por Chávez
foram vistos com simpatia por alguns setores populares.
O presidente Pérez, diante da precariedade política em que se
encontrava, viu-se obrigado ― diferentemente de 1989 ― a negociar com os
partidos e as Forças Armadas para preservar o apoio necessário à
continuidade de seu governo. E, conquanto obtivesse pouco êxito, algumas das
ações que então se deram acabariam sendo decisivas para que a crise política
caminhasse dentro de canais institucionais.
Entre as medidas tomadas a partir de fevereiro de 1992 pelo Executivo
Nacional, uma das mais importantes foi a formação de um Conselho Consultivo
com o fim de formular recomendações ao governo para enfrentar a situação
crítica. O Conselho, que tinha à presidência o jornalista e historiador Ramón J.
Velásquez, era integrado por um grupo de personalidades consideradas como
suficientemente independentes, e que haviam divergido de algumas das
políticas do governo. Em princípios de março, essa comissão apresentou um
documento ao Executivo, no qual se confirmava que a crise na Venezuela era
geral, e tinha conotações especiais nos aspectos "econômico, social e ético". O
Conselho se pronunciou a favor de uma reforma constitucional nos meses
seguintes, pôs ênfase na necessidade de extremar as medidas contra a
corrupção e preconizou o saneamento do Poder Judiciário e a continuação do
processo de descentralização. Apresentou, além disso, um conjunto de
recomendações para retificar o pacote econômico, entre elas: suspender os
aumentos da gasolina até que se estabelecesse um critério racional que
levasse em consideração a condição de ser a Venezuela um país petroleiro;
estabilizar os preços da cesta básica e dos medicamentos, assim como as
tarifas dos serviços públicos; deter a abertura comercial compulsiva para o
setor agropecuário; e conceder financiamento especial a microempresas
familiares e a todo tipo de programas de auxílio na construção de moradias
100

populares. Na política financeira, o Conselho apoiou a reforma projetada pelo


governo, mas na política comercial recomendou interromper os programas de
ulteriores reduções de tarifas alfandegárias enquanto não se fizessem os
ajustes necessários para adequar o aparato produtivo às novas exigências. As
recomendações do Conselho não foram levadas em conta pelo presidente
Pérez; contudo, Velásquez, que presidia ao Conselho e a algumas das
propostas, desempenharia, como veremos, um papel importante na situação de
emergência institucional de 1993.
Outras iniciativas, que provocaram importantes repercussões
posteriores, provieram de grupos civis organizados ― conhecidos como a
sociedade civil. Depois da primeira tentativa de golpe de Estado, o chamado
Grupo dos Notáveis, constituído, entre outros, pelo escritor Arturo Uslar Pietri e
pelo jornalista José Vicente Rangel, exigiu modificações imediatas no Poder
Judiciário, além de promover a ideia da renúncia do presidente. Nesta mesma
linha, pronunciou-se também o partido A Causa R1, que, em novembro, fez sua
a denúncia de Rangel a propósito de uma possível malversação de recursos de
um fundo secreto por parte do presidente Pérez e dos ministros da Secretaría2
e das Relações Interiores, e apresentou um pedido de instauração de processo
contra Pérez ante a Corte Suprema de Justiça (CSJ). Com os meses, essas
ações prosperaram. Em março de 1993, o procurador geral da República
retomou o caso de malversação de fundos e peculato, apresentando-o pela
segunda vez ante a Corte, que, em virtude da pressão dos acontecimentos,
havia sido renovada em um número significativo de seus membros. Em 20 de
maio de 1993, a Corte determinou que havia méritos para instaurar o processo
contra o presidente e seus dois ministros, e no dia seguinte o Congresso ― de
acordo com a Constituição e de maneira unânime ― autorizava o processo e
suspendia Pérez de suas funções. Virava-se uma página inédita na história da
democracia venezuelana.
Com a suspensão do cargo do mandatário, abriu-se um período de
emergência institucional, pois não existia experiência prévia para discernir com
clareza o caminho que se deveria tomar para levar ao término o período

1
LCR (La Causa Radical), em espanhol. (N. do Trad.)
2
Ministério da Secretaria da Presidência, hoje Ministério do Poder Popular do Despacho da
Presidência. (N. do Trad.)
101

presidencial. Após algumas polêmicas, chegou-se a um acordo pelo qual


caberia ao presidente do Congresso ocupar o cargo como um primeiro passo
na resolução definitiva do vazio na presidência. Posteriormente, o Congresso
alcançaria um consenso significativo quanto à eleição de um substituto
definitivo de Pérez na figura daquele que fora o presidente do Conselho
Consultivo: Ramón José Velásquez.
Embora a suspensão dos poderes de Andrés Pérez e a solução
institucional da questão de quem o sucederia tivessem dado um passo
importante no alívio das tensões políticas que vinha sofrendo a sociedade, a
crise social e institucional estava ainda longe de ser solucionada. O período de
governo do presidente Velásquez caracterizou-se por uma sequência de
sobressaltos que, dia após dia, pareciam pôr sob risco a possibilidade de se
chegar às eleições presidenciais de 5 de dezembro. Aos desequilíbrios
econômicos, fiscais e sociais que afligiram a sociedade venezuelana na última
década, somavam-se agora as ações de forças anárquicas e de outras que
sentiram ameaçados os privilégios que haviam obtido a partir da decomposição
social e política dos últimos anos. Estas forças pugnavam por acentuar a
desestabilização da sociedade, com o propósito de provocar uma solução
violenta e, com ela, possivelmente melhorar suas condições de sobrevivência
nos anos seguintes.
Em julho, foram enviadas três cartas-bomba ao Poder Judiciário, uma
das quais chegaria à sede da CSJ e provocaria ferimentos em um empregado.
No final desse mês, em diversos pontos da cidade foram detonados artefatos
explosivos, e em agosto ocorreu a explosão de um carro-bomba no
estacionamento de um conhecido centro comercial. Outro caso que recebeu
ampla cobertura da imprensa, nesses meses, foi o de espionagem telefônica
realizada por ex-funcionários da Disip, que pretendiam extorquir dinheiro de
pessoas de grandes recursos ou prestígio político e apoderar-se de
informações privilegiadas sobre decisões dos poderes públicos.
O governo fez um grande esforço para descobrir os autores dessas
ações terroristas. Ainda no próprio mês de agosto, a Polícia Técnica Judiciária
(PTJ) conseguiu encontrar como supostos autores das cartas-bomba alguns
ex-funcionários da Disip ligados a altas esferas dos governos de Lusinchi e de
Pérez. Isto revelava ― em relação aos fins institucionais do Estado ― o grau
102

de decomposição e autonomia a que tinham chegado, nos últimos anos, alguns


grupos no interior dos corpos policiais.
Esta e outras ações rápidas do governo conseguiram impedir novas
formas de terrorismo nos meses seguintes. Restariam, contudo, os constantes
rumores de que se preparava um novo golpe militar, associado provavelmente
às altas esferas militares, incluindo-se mesmo o ministro da Defesa. Embora
este tivesse sempre desmentido a participação em qualquer ato dessa
natureza, o seu estilo pessoal e os seus anseios de evidência política,
combinados com a certeza de que o setor militar havia-se cindido após as
intentonas de 1992, mantiveram sobressaltada a população até às eleições de
dezembro. Com a realização pacífica do pleito, em 5 de dezembro, e o
reconhecimento da vitória de Rafael Caldera por todos os partidos políticos,
parecia que a crise política começava a ser contornada. Do mesmo modo, os
resultados revelaram mudanças significativas no sistema político. Pela primeira
vez desde 1958, um presidente chegou ao poder através de partidos distintos
da AD e do Copei.1 O Congresso passou a ser constituído por cinco bancadas
principais; porém, nenhuma obteve uma maioria significativa, o que as obrigou
a árduas negociações para alcançar-se o consenso necessário à implantação
de suas políticas (cf. Quadros 13 e 14). Com isto, rompia-se a tendência
crescente ao controle hegemônico do parlamento por parte do bipartidarismo
AD-Copei. Além disso, mais da metade dos jovens em idade de votar não se
inscreveu no registro eleitoral, e 40% dos inscritos de abstiveram (SIC, 559,
1993). Estes resultados permitem afirmar que a sociedade venezuelana entrou
em uma situação de reacomodação nas relações de poder.

1
Rafael Caldera, embora tivesse sido fundador e líder histórico do Copei, retirou-se do partido
e concorreu às eleições de 1993 por um outro, também fundado por ele ― Convergência ―
contando com o apoio de partidos de esquerda, como o MAS e o PCV. Cf, adiante, o Cap. 7.
(N. do Trad.)
103

QUADRO 13: ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS POR PARTIDO (1983-1993)

Partido 1983 1988 1993

votos % votos % votos %

AD 3.680.549 55,3 3.859.180 53,0 1.304.849 23,2

Copei 2.166.467 32,6 2.932.277 40,0 1.241.645 2,11

MAS 223.194 3,25 198.361* 2,7 595.042 10,59

Convergência ** -- -- 958.529 17,07

Causa Radical 5.917 0,1 26.870 0,4 1.282.853 21,97


Fonte: CSE (1984, 1994)

* Nestas eleições, o MAS fez aliança com o Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR),
partido que depois se fundiria ao MAS.
** Partido novo, que concorreu pela primeira vez nas eleições de 1993. Em aliança com o MAS
e outras organizações minoritárias, apoiou Rafael Caldera, que, vitorioso, obteve um total de
1.710.722 votos, isto é, 30,46% dos votos válidos.

QUADRO 14: EVOLUÇÃO DAS CINCO PRINCIPAIS BANCADAS DO


PARLAMENTO (PERÍODOS DE 1984-89 A 1994-99)

Partido 1984-89 1989-94 1994-99

dep. sen. dep. sen. dep. sen.

AD 113 28 97 22 55 16

Copei 60 14 67 20 53 14

Causa Radical 0 0 3 0 40 9

Convergência -- -- -- -- 26 6

MAS 10 2 18 3 24 5
Fonte: CSE (1984 e 1994)

Nota: Considera-se apenas a evolução das cinco bancadas parlamentares principais do


período 1994-1999. Foram excluídas do quadro as bancadas minoritárias.
104

AS REFORMAS POLÍTICAS
O fato de a sociedade venezuelana ter conseguido eludir a severa crise
política que descrevemos acima, recorrendo a mecanismos institucionais e sem
haver provocado a ruptura de seu sistema democrático, deve-se, entre outros
fatores, ao processo de reforma do Estado que se iniciou em 1984, com a
constituição da Copre. Esta comissão, como já assinalamos, elaborou em
meados da década um conjunto de propostas para enfrentar as dificuldades
por que atravessava a sociedade venezuelana. Em seus primeiros
documentos, estabeleceu-se o princípio da descentralização político-
administrativa do Estado como um meio essencial à superação dos obstáculos
à democracia do país. Entre 1988 e 1989, graças primeiramente à conjuntura
eleitoral (que levou Andrés Pérez à presidência da República) e, em seguida, à
explosão social de fevereiro-março de 1989, foi aprovado pelo Congresso
Nacional um corpo de leis derivadas dessas propostas. Com a Lei sobre
Eleição e Remoção de Governadores de Estado (1989); a Lei sobre o Período
dos Poderes Públicos dos Estados (1989); a Lei Orgânica de Descentralização,
Delimitação e Transferência de Competências do Poder Público (1989); a nova
Lei Orgânica de Regime Municipal (1989), e a Lei Orgânica do Conselho da
Judicatura (1988), desataram-se forças para impelir as mudanças no
funcionamento do Estado e do sistema político. Este processo seria ainda
reforçado, entre 1992 e 1993, no calor da crise, pela alteração da Lei Orgânica
de Sufrágio e uma série de regulamentos parciais para complementar a lei de
descentralização já apontada. Estas reformas atuaram como um oportuno
salva-vidas para preservar o sistema político. Analisemos brevemente o
conteúdo dessas leis.
Mediante a Lei sobre Eleição e Remoção de Governadores de Estado e
a Lei sobre o Período dos Poderes Públicos dos Estados, substituiu-se o
sistema de designação dos governadores por parte do presidente da
República. Em seu lugar, estabeleceu-se a eleição universal, direta e secreta
dos que ocupariam este cargo. Os eleitores seriam aqueles que se
encontrassem no registro eleitoral do respectivo Estado, e o período de
duração do mandato dos governadores foi fixado em três anos, permitindo-se a
105

reeleição para o período seguinte e/ou transcorridos dois períodos contados a


partir de sua última eleição.
A Lei Orgânica de Descentralização, Delimitação e Transferência de
Competências do Poder Público e seus regulamentos parciais (Nº 1, 2, 3, e 4
de 1993) fixaram as primeiras orientações e procedimentos para desenvolver o
processo de descentralização. Através deles, transferiram-se ao nível regional
(às unidades da federação) certas competências que anteriormente eram
atribuição exclusiva do nível nacional; regulamentaram-se competências
concorrentes sobre a base da transferência progressiva ao nível regional de um
número significativo de serviços que antes eram prestados pelo poder nacional
(como educação, cultura, saúde, defesa civil, etc.), e fixaram-se as fontes de
receitas dos Estados. Igualmente, criou-se a figura de um Ministro de Estado
para a Descentralização como assessor do governo nacional nesta matéria.
A nova Lei Orgânica de Regime Municipal criou a figura do prefeito como
máxima autoridade do executivo local, separando as funções do Executivo das
do Legislativo, que antes estavam reunidas no Conselho Municipal. O prefeito
seria eleito da mesma maneira que os governadores, e permaneceria também
por três anos em suas funções, podendo ser reeleito para o período
imediatamente posterior ou esperar dois períodos contados a partir de sua
última eleição. Para aspirar ao cargo de prefeito, estabeleceu-se que o
candidato deveria ter vivido pelo menos três anos antes na comunidade que
almejasse dirigir, e manter sua residência ali pelo tempo que durasse o
mandato. A lei criou também as paróquias e juntas paroquiais, a fim de
propiciar a descentralização administrativa e a participação popular;
reconheceu as associações de moradores como atores locais e previu a
assembleia aberta, o referendo para matérias de interesse coletivo diversas do
orçamento e tributos, e a revogatória do mandato do prefeito.
A Lei Orgânica de Sufrágio foi modificada duas vezes, em 1992 e 1993,
em meio às crescentes pressões de atores sociais e políticos pela ampliação
do critério do voto personalizado para a escolha dos legisladores nos três
níveis do Poder Legislativo. Na segunda vez, entrou em vigor um sistema que
combinava a nominalidade com o sistema de representação proporcional nos
três níveis, fixando-a em 66,6% no nível local (vereadores) e em 50% nos
106

outros dois níveis (membros do Congresso Nacional e assembleias legislativas


dos Estados).
A nova Lei Orgânica do Conselho da Judicatura reduziu o número de
membros deste corpo e lhes deu uma maior independência em relação ao
Executivo nacional, pois três de seus membros passavam a ser designados
pela CSJ, um pelo Congresso e um pelo Executivo nacional. Da mesma forma,
aumentou suas atribuições, transferindo para o Conselho a competência de
criar, suprimir e modificar as circunscrições dos tribunais, antes nas mãos do
Executivo nacional, além de fortalecer sua atribuição ― já estabelecida ― de
designar e supervisionar os juízes.

AS REFORMAS DURANTE A CRISE POLÍTICA


As reformas voltadas para dar impulso ao processo de descentralização
e para aperfeiçoar o sufrágio mostraram-se decisivas durante a crise política de
1992-1993. Elas permitiram, desde 1989, a recuperação e/ou a criação de
legitimação de algumas autoridades do poder público, com o que, em 1992-
1993, pôde-se conter a crise do governo nacional neste nível, sem que ela se
estendesse aos âmbitos regional e local. Além do mais, as eleições orientadas
para a descentralização, sobretudo as regionais, também começaram a atuar
como um canal institucional de drenagem do mal-estar manifestado nos
grandes protestos de rua, e através delas foram-se decantando um relevo de
liderança e uma agenda de demandas que provariam sua importância nos anos
vindouros.

AS ELEIÇÕES REGIONAIS E MUNICIPAIS DE 1989: REPÚDIO A PÉREZ E À


AÇÃO DEMOCRÁTICA DEPOIS DO CARACAÇO
As primeiras eleições regionais e locais, que ocorreram em dezembro de
1989, a escassos dez meses do Caracaço, refletiram em seus resultados o fato
de que uma parte do eleitorado foi às urnas para expressar seu repúdio ao
governo nacional e às políticas econômicas que este vinha implementando. O
presidente Pérez, respaldado por seu partido (AD), havia sido eleito um ano
antes com o voto majoritário em 19 dos 20 estados do país. Mas, nessas
primeiras eleições para governadores, os candidatos da AD perderam em 9
107

estados, a maioria deles estratégicos ― ficando sem os governos de Miranda,


Carabobo e Arágua no centro (junto com o Distrito Federal, principais sedes
das indústrias manufatureiras), o de Zúlia (onde se localiza o grosso da
indústria petroleira) e o do Estado de Bolívar (sede da Corporação
Venezuelana de Guayana e das indústrias de ferro, hidroeletricidade e
alumínio). Tanto o voto de oposição quanto a abstenção eleitoral, que alcançou
a cifra de 54,85%, atuaram como mecanismo de desafogo do
descontentamento político e do mal-estar social reinante, enviando uma
mensagem clara, conquanto não ouvida naquele momento pelos atores
hegemônicos.
Não há dúvida de que esta variável não foi a única a determinar os
resultados eleitorais desse ano. O atrativo de uma liderança emergente de
caráter local ou regional ― como foram, por exemplo, os triunfos de Carlos
Tablante, do partido MAS no Estado de Arágua, e o de Andrés Velásquez, do
partido A Causa R no Estado de Bolívar ― assinalou a complexidade das
teclas que começaram a tocar as reformas. Não obstante, nos estados em que
o eleitorado não pôde contar com uma liderança emergente alternativa, os
eleitores manifestaram seu repúdio ao governo e suas políticas, recorrendo ao
expediente tradicional de votar na oposição ao bipartidarismo.
No momento em que se dão as tentativas de golpe de Estado em
fevereiro e novembro de 1992, os governadores e prefeitos eleitos em 1989
encontravam-se no terceiro ano de gestão. O que se havia realizado durante
esse intervalo, em termos de descentralização político-administrativa, tinha sido
muito pouco. Alguns avanços na mudança dos critérios com que o Executivo
nacional orientava suas políticas foram alcançados graças à pressão dos
partidos de oposição combinada com a dos governadores. Neste sentido, cabe
assinalar o caso da Lei de Investimentos de 1990, que somente pôde ser
aprovada após um árduo debate e negociações entre o Executivo nacional, o
Congresso, os partidos políticos e os governantes eleitos (López Maya, 1991).
Essas e outras tensões entre o Executivo nacional e os regionais ao
longo desses anos, junto com o fato de que muitos governadores eram de
oposição, reforçaram na população uma percepção diferenciada entre os
governadores e o presidente. Também contribuiu para essa diferenciação a
escassa conciliação política demonstrada pelo governo de Pérez. Foi neste
108

contexto que se deram os golpes de Estado de 1992, ressaltando-se durante


os acontecimentos a independência dos governadores em relação ao governo
nacional.

OS GOVERNADORES DIANTE DOS GOLPES DE ESTADO DE 1992


Durante o levante militar de 4 de fevereiro de 1992 ― embora o objetivo
principal fosse evidentemente a derrubada do presidente Pérez ― a estratégia
compreendeu também ações militares (além das desenvolvidas na capital da
República) em três estados importantíssimos do país, em cujo comando
encontravam-se governadores que não pertenciam às fileiras da AD: Arágua,
Carabobo e Zúlia.
No Estado de Zúlia, as atividades militares rebeldes, dirigidas pelo
tenente-coronel Francisco Javier Arias Cárdenas, da unidade de artilharia
missilística Monagas, lograram apossar-se da residência oficial do governador,
da ponte do Lago de Maracaibo, do Destacamento 35 da Guarda Nacional, do
Quartel de Patrulheiros do Governo, dos campos de petróleo da costa oriental
do Lago de Maracaibo, da Base Aérea Rafael Urdaneta, do Aeroporto
Internacional de Chinita, do centro da cidade e do Canal 11 de televisão. O
governador de Zúlia, o social-cristão Álvarez Paz, foi sequestrado durante a
madrugada com sua esposa, 3 filhos e o secretário de governo. Quando
tentaram dialogar com os insurretos, acabaram presos também o presidente da
Assembleia Legislativa e dois deputados. Arias Cárdenas proclamou-se
governador militar, Maracaibo ficou paralisada, bem como boa parte de Zúlia,
quando os rebeldes tomaram, de forma incruenta, as instalações petroleiras de
Lagunillas, Cidade Ojeda e Cabimas. A situação perdurou assim até ao meio-
dia do próprio dia 4, quando então Chávez se rendeu em Caracas. Com a
mediação do bispo de Maracaibo, Arias se rendeu pouco depois.
O governador, tão logo foi posto em liberdade, fez declarações à
imprensa. Estas, recolhidas pelo diário Panorama, caracterizaram-se por um
tom de moderação e reflexão. Reconheceu que a direção política do país vinha
cometendo muitos erros, embora dissesse que isso não justificava a alteração
da ordem constitucional. Também asseverou que este fato devia servir para se
revisar a verdadeira natureza da democracia venezuelana, que necessitava
109

ampliar sua base de legitimidade. Assegurou que os rebeldes o trataram, a ele


e à sua família, com decência. No dia seguinte, assinalou que Arias Cárdenas
lhe pareceu "sumamente inteligente, audaz, assumindo riscos calculados,
muito sereno e firme em suas ações, mas, ao mesmo tempo, equivocado na
percepção da situação geral do país e no conhecimento da verdadeira
idiossincrasia e natureza do venezuelano comum".
Por sua vez, também na tarde do dia 4, o governador de Carabobo,
Henrique Salas Römer (igualmente das fileiras do Copei), acompanhado de
seu secretariado, concedeu uma coletiva de imprensa para informar sobre a
situação em Valência. Segundo o diário El Siglo, Salas Römer declarou que,
apesar de oito pessoas terem sido mortas nos distúrbios (três policiais, quatro
estudantes e um civil), a situação estava controlada. Fez um reconhecimento
público ao comandante da Guarnição de Valência, cuja imediata intervenção
impediu que o Comando da GN fosse tomado pelos rebeldes; fez também
menção à sua atitude de diálogo, que permitiu modificar a posição dos
golpistas. Disse que se havia reunido com vários oficiais rebeldes e que as
proposições deles tinham muita seriedade. Indicou que três capitães estiveram
à testa da insurreição em seu Estado, e que havia conversado com um tenente
que tentara tomar de assalto o Comando Regional da GN. Salas comentou que
este tenente "(...) mostrou[-se] sério e preocupado com melhorar as Forças
Armadas e manteve, todo o tempo, uma atitude digna de atenção (...) isso me
animou a pedir-lhe que [dissesse] aos que comandam o movimento sobre
minha disposição de escutar suas propostas, porque creio que há algo de justo
nelas, ainda que o caminho esteja errado." Como se observa, a tônica é muito
semelhante à de Álvarez Paz.
Em Maracay, capital do Estado de Arágua, os pontos de maior perigo da
intentona foram o Quartel Páez, no qual se encontrava o principal arsenal da IV
Divisão de Infantaria, e a Base Aérea Libertador. A tomada desses lugares foi
evitada graças à atitude persuasiva do alto comando, que conseguiu convencer
o tenente Ortiz Contreras, chefe da operação, a não tomar de assalto o quartel.
O governador Tablante (das fileiras do MAS), em sua Mensagem ao Povo de
Arágua, publicada na imprensa local no dia 6, informou que uma ação
coordenada do governo do Estado, com os governos locais, os partidos
políticos, os grêmios, os moradores e a comunidade em geral, juntamente com
110

a resposta responsável e imediata das Forças Armadas, através da persuasão,


logrou convencer os "sediciosos" a renunciar à "aventureira atitude". Disse o
governador que o ocorrido "(...) tem um pano de fundo indubitável na grave
situação de desesperança e desconfiança em que vive nossa população. É
necessária e impostergável uma virada, uma mudança de atitudes que nos
permita atender a essas demandas, ouvir as angústias de nosso povo, e dar
respostas certas e possíveis".
Nos dias seguintes, o governador Tablante, do mesmo modo que outros
governadores que não pertenciam à AD, foi objeto de acusações por parte da
alta direção desse partido. No caso do governador, um alto líder do partido do
governo denunciou um suposto envolvimento dele com o golpe. Por sua vez, o
presidente da AD, Humberto Celli, afirmou que era algo muito suspeito que nos
estados em que governava a oposição a tentativa de golpe se tivesse mantido
por mais tempo que alhures. As respostas dos governadores, ou dos que
saíram em defesa deles, não se fizeram esperar. Uns ― como Álvarez Paz, de
Zúlia ― em um tom conciliador, e outros ― como Tablante e Velásquez (este
último o governador do Estado de Bolívar) ― em tom de franco repúdio. Em
defesa de Tablante foram publicadas ainda declarações feitas por seu partido e
por grupos regionais, advertindo a AD de que "(...) Tablante teve a valentia de
dizer a Carlos Andrés Pérez que o Quartel Páez não seria bombardeado
quando este deu a ordem. Se o tivesse feito, certamente se registrariam mortes
de civis que vivem nos arredores" (El Nacional, 11-02-1992).
As posições desses governadores tiveram seu antecedente imediato no
curso que tomou o debate no Congresso Nacional, em sua sessão
extraordinária de 4 de fevereiro, no fim da manhã. A sessão foi convocada de
urgência, às instâncias do Executivo nacional, com o propósito de as Câmaras
ratificarem a suspensão das garantias decretada pelo presidente e de obter
uma condenação unânime da ação dos rebeldes, bem como um vigoroso
respaldo ao governo de Pérez. Entretanto, essas expectativas não se
satisfizeram totalmente, pois ― embora se tenha ratificado a suspensão das
garantias ― o tom do documento público do Congresso não foi de respaldo
incondicional ao governo. Essa reviravolta teve sua origem na crítica
contundente do ex-presidente Caldera, secundada pelo deputado de LCR,
Aristóbulo Istúriz, os quais responsabilizaram Andrés Pérez, seu gabinete e seu
111

partido por terem levado o país àquela situação: "É difícil pedir ao povo que se
imole pela liberdade se ele está passando fome" foram as palavras textuais de
Caldera. Dali em diante, os mandatários regionais do Copei, LCR e do MAS
seguiriam a mesma posição de Caldera ao referirem-se ao acontecido em suas
regiões.
O segundo golpe de Estado ocorreu poucos dias antes das segundas
eleições para governadores de estado, de maneira que muitos deles se
encontravam em plena campanha eleitoral. Entre eles, os governadores dos
Estados de Carabobo, Arágua, Zúlia e Bolívar estavam na contenda em busca
da reeleição para um novo período de três anos. Além disso, as informações
que saíram pela imprensa nacional e local foram mais exíguas do que em 4 de
fevereiro, e o raio de ação dos sublevados também foi mais reduzido. O Estado
de Zúlia, por exemplo, não sofreu desta vez os embates da conspiração.
A partir da análise das declarações do mandatário zuliano, revela-se que
estas se mantiveram no mesmo tom das precedentes, embora tendessem a ser
mais enfáticas quanto à intenção de controlar a ordem e de distanciar-se do
governo de Pérez. O governador zuliano, imbuído do ambiente pré-eleitoral,
disse que depois da tentativa de golpe anterior foram prometidas muitas coisas
que não se cumpriram, como as mudanças sugeridas pelo Conselho Consultivo
e a convocatória de uma Constituinte. Segundo o governador, isto foi visto pela
população como um embuste, e portanto estes eram agora os resultados.
Para o governador de Carabobo, o propósito desse golpe fora o de
paralisar o processo eleitoral. Em Valência, como em Maracaibo, não houve
maior movimentação. Disse ele que, embora as pessoas questionassem o
presidente, elas eram solidárias com seus governadores, e as eleições
próximas dariam oxigênio ao sistema político. De sua parte, o governador de
Arágua pôde declarar no dia 28 que a situação em seu Estado havia sido
controlada. Afirmou, no mesmo tom do colega zuliano, que uma das causas do
golpe fora que os cogollos, isto é, as cúpulas dos partidos, não cumpriram o
prometido depois de 4 de fevereiro; não obstante, as pessoas acreditavam no
caminho democrático.
Desta vez, as acusações do partido AD e do governo de Pérez se
concentraram na crítica ao partido LCR, que teria estado, segundo afirmavam,
diretamente comprometido com o golpe. Alguns de seus dirigentes foram
112

presos e acusou-se o governador do Estado de Bolívar, Andrés Velásquez, de


ser o responsável por um roubo praticado nesse dia, no aeroporto da cidade de
Porto Ordaz, onde morreram quatro pessoas. O partido, o governador e sua
equipe repudiaram enfaticamente tais acusações. Velásquez declarou que
Pérez era o responsável pela crise que o país atravessava, que era o
perturbador da paz, e que por isso LCR havia sugerido, desde fevereiro
passado, um referendo pelo qual o povo pudesse manifestar-se acerca da
conveniência da renúncia do presidente, como uma saída democrática e
pacífica para a situação. Exigiu, ainda, o restabelecimento das garantias para
que as eleições se realizassem (El Guayanés, 30-11-1992 e 02-12-1992).
Em 6 de dezembro de 1992, nove dias depois da tentativa de golpe,
todos esses governadores foram confirmados em seus cargos por suas
comunidades regionais. Enquanto a população rechaçava o Executivo
nacional, acusando-o de insensível, corrupto e incapaz, os governadores de
Zúlia, Arágua, Carabobo e Bolívar, todos de partidos oposicionistas, obtinham
porcentagens superiores a 60% do total de votos. O governador Velásquez, por
exemplo, venceu com 63,36% dos votos, em contraste com os 40,3% obtidos
em 1989. Crescimentos semelhantes tiveram os outros governadores. As cifras
eleitorais evidenciavam que os mandatários regionais haviam conseguido
distanciar-se do Executivo nacional, e mantinham-se em sintonia com a
população de seus estados.
Porém, o resultado mais surpreendente das eleições de 1992 foi o da
prefeitura de Caracas. É de ressaltar que a descentralização não alterou a
modalidade de escolha do Governador do Distrito Federal, que continuou
sendo por indicação direta do presidente da República. Por isso, a população
urbana de Caracas, desejosa de exercer um "voto-castigo" contra o governo e
os partidos, bem como contra o sistema político tradicional, encontrou na
abstenção e no voto pelo partido LCR, no nível municipal, os meios para
exprimir com clareza sua mensagem. Em 6 de dezembro, à tarde, começou a
correr o boato de que, contrariando todos os prognósticos, o professor
Aristóbulo Istúriz, de LCR, estava na frente na contagem dos votos do
município Libertador. Em razão de rumores segundo os quais uma fraude
eleitoral a favor do partido do governo estava prestes a ocorrer, centenas de
113

pessoas começaram a reunir-se em frente ao Conselho Supremo Eleitoral


(CSE), à espera dos boletins oficiais.
Na segunda-feira, 7, pela manhã, o CSE continuava sem dar números
definitivos, mas dizia-se que a margem de diferença entre os candidatos da AD
e LCR era muito estreita. Milhares de pessoas foram ocupando a Praça
Caracas, que fica em frente ao Conselho, para defender a vitória de Istúriz. Às
três horas da tarde, aproximadamente, o presidente do CSE chamou os dois
candidatos para firmarem um pacto respeitando o resultado, qualquer que ele
fosse. Claudio Fermín, da AD, aceitou satisfeito. Istúriz recusou a proposta,
argumentando que ele não havia violado as regras e que "(...) a única coisa
que havia de respeitar eram os votos do povo".
Istúriz ganhou a prefeitura com 34,45% dos votos válidos, contra a AD,
que obteve 32,03%. O total de votos nulos correspondeu a 3,59%. Embora a
abstenção tenha alcançado 62,57%, setores populares foram às ruas para
celebrar a vitória.

GOVERNADORES E CRISE NA PRESIDÊNCIA


Os governadores recém-eleitos iriam ter uma atuação relevante durante
os sucessos que culminaram na suspensão do presidente Pérez de seu cargo,
determinada pelo Congresso Nacional em 21 de maio de 1993. Nesse mês,
ocorreram duas reuniões de governadores. A primeira em 7 e 8 de maio,
quando os governadores se reuniram com o presidente Pérez, pouco depois de
haver circulado o rumor de sua provável renúncia se a determinação da CSJ
lhe fosse desfavorável. Pérez aproveitou a Convenção para dirigir-se ao país, e
especialmente aos magistrados da Corte, e informar que não estava disposto a
renunciar. Esta notícia ganhou as primeiras páginas dos jornais, enquanto as
referências à importância do processo de descentralização receberam menos
ênfase. Ademais, não assistiram a essa reunião os governadores de Zúlia,
Arágua, Lara e Bolívar. O governante deste último estado se disse cansado de
ouvir o mesmo discurso de Pérez, sempre a justificar o injustificável e a
contradizer-se em sua defesa para permanecer no poder.
A convenção, embora pouco noticiada em virtude da crescente crise
presidencial, teve contudo alguns avanços dignos de nota. Os governadores
114

reexaminaram a situação do conflito dos professores, que mantinha paralisada


a educação pública, e solicitaram ao Executivo nacional a aplicação do Laudo
Arbitral para que os estudantes não perdessem o ano escolar. Além disso,
decidiram reunir-se de novo em uma semana para revisar algumas matérias
urgentes.
A estabilidade da gestão dos governadores regionais em meio a uma
situação política que tendia a evidenciar um vazio de poder no governo central
manifestar-se-ia com a pronta instauração da Segunda Convenção de
Governadores, na cidade de Valência, em 14 de maio. Criou-se certa
expectativa em razão da decisão que estava prestes a ser tomada pela CSJ e
da posição que assumiriam a respeito os governadores. Duas declarações dos
governadores, em um ambiente plural e sossegado, provocariam impacto sobre
o desenlace dos acontecimentos nos dias seguintes.
Uma delas foi um desmentido que se fez de certas declarações do
ministro da Defesa acerca da existência de focos de subversão em alguns
estados. Especificamente no caso dos estados aos quais o ministro fez alusão
direta, os governadores de Falcón, Guárico e Lara disseram que não havia
absolutamente tais focos, ou, no máximo, havia um início de manifestação
muito pequeno (no Estado de Guárico), e que já fora identificado e controlado.
O governador Navarro, do Estado de Lara, declarou que era um assunto muito
sério que dissessem isso sem apresentar provas. O governador Cermeño, de
Falcón, declarou que podia tratar-se de uma estratégia para convulsionar ainda
mais a situação política. O governador Arocha, do Estado de Miranda, e
também Álvarez Paz, de Zúlia, suspeitaram de que havia intenções de gerar
mais agitação. Álvarez Paz alertou para a repressão que podia estar sendo
preparada em seguida a esta declaração de suposta subversão.
A outra declaração referia-se à conduta que deveriam assumir os
governadores em relação à possível decisão da Corte de declarar a existência
de méritos para o processo contra Pérez. A decisão geral foi a de que se
tratava de um assunto jurídico; portanto, era preciso esperar a determinação e
acatá-la em todas as suas partes. Não obstante, alguns governadores se
mostraram favoráveis à renúncia do presidente se a decisão lhe fosse adversa.
Demonstraram também sua preocupação pela paralisação dos investimentos e
do processo de descentralização provocados pela incerteza política, mas
115

disseram-se convictos de que a renúncia de Pérez não produziria nenhuma


situação desestabilizadora. Durante a reunião, as tensões em torno desse tema
ameaçaram provocar uma divisão indesejável entre os governadores, razão por
que o governador Salas Römer propôs que o tema fosse debatido sem,
contudo, fixar-se um acordo no momento das conclusões. A respeito dos
pontos da agenda, conclui-se que o chamado Documento de Carabobo, no
qual, entre outros assuntos, exigiu-se do Executivo celeridade na transferência
de serviços, além de recusar o IVA (Imposto sobre Valor Agregado) como um
imposto de caráter centralizado, e pedir ao Congresso a aprovação de normas
de maior nominalidade para as eleições.
Finalmente, nas eleições nacionais de 1993, o retrocesso do
bipartidarismo e a irrupção de um partido ascendente, A Causa R ― cujo
candidato presidencial, o governador Velásquez, alcançou 22% da preferência
eleitoral ― foram auspiciados, entre outros fatores, pelo processo de
descentralização (cf. Quadro 15). Sem tais reformas políticas é difícil conceber
que ele poderia converter-se no terceiro partido do país, com uma bancada de
parlamentares formada por 40 deputados e 9 senadores. Ocupar-nos-emos
desse partido com maior vagar no capítulo seguinte.
116

QUADRO 15: RESULTADOS ELEITORAIS (POR UNIDADE FEDERAL) DE ANDRÉS VELÁSQUEZ, CANDIDATO
PRESIDENCIAL DE LCR (1983-1993)

UNIDADE FEDERAL 1983 1988 1993

AMAZONAS 0,05 0,0 15,0

ANZOÁTEGUI 0,1 0,3 34,0

APURE 0,05 0,1 3,9

ARÁGUA 0,09 0,3 31,9

BARINAS 0,04 0,1 8,2

BOLÍVAR 0,50 1,2 49,6

CARABOBO 0,09 0,5 27,6

COJEDES 0,09 0,1 11,6

DELTA AMACURO 0,05 0,2 9,4

FALCÓN 0,05 0,2 9,4

GUÁRICO 0,05 0,1 15,8

LARA 0,07 0,2 8,5

MÉRIDA 0,06 0,3 10,8

MIRANDA 0,08 0,7 30,7

MONAGAS 0,06 0,1 21,2

NOVA ESPARTA 0,07 0,2 15,2

PORTUGUESA 0,05 0,1 7,3

SUCRE 0,07 0,2 16,9

TÁCHIRA 0,03 0,1 13,4

TRUJILLO 0,04 0,1 6,4

YARACUY 0,06 0,2 6,9

ZÚLIA 0,03 0,1 13,7

DISTRITO FEDERAL 0,11 0,7 35,0

Fonte: CSE (1984, 1990 e 1994)


117

PARTE II

EM BUSCA DE LIDERANÇAS ALTERNATIVAS:


PARTIDOS DE VOCAÇÃO POPULAR NOS ANOS 90

CAPÍTULO 6
1
A ASCENSÃO DE A CAUSA R NA VENEZUELA

Em fins dos anos 80, começou a fazer-se visível no sistema político


venezuelano um partido de esquerda que fora até então um partido marginal.
Tratava-se de uma instituição pequena ― A Causa Radical ― que ficaria mais
conhecida depois como A Causa R (LCR).
Esta organização ganhou surpreendentemente três cadeiras na Câmara
de Deputados do Congresso Nacional em 1988. Nas primeiras eleições para
governador de estado, em dezembro de 1989, ficou claro que LCR vinha em
ascensão, quando seu candidato no Estado de Bolívar, Andrés Velásquez,
saiu vitorioso. Três anos depois, nas eleições municipais e estaduais de 1992,
o partido voltou a ganhar em Bolívar, aumentou seu predomínio nas prefeituras
e conselhos municipais desse Estado, e um de seus líderes mais carismáticos,
o professor Aristóbulo Istúriz, como vimos, triunfou contra todos os
prognósticos na prefeitura da cidade de Caracas. Nas eleições nacionais de
dezembro de 1993, o governador Velásquez obteve 22% da preferência do
eleitorado e o partido se converteu na terceira força política do país,
deslocando desse posto o Movimento ao Socialismo (MAS), e obtendo uma
porcentagem de votos que esta última organização jamais havia alcançado em
toda sua trajetória.

1
Este capítulo está baseado em El ascenso en Venezuela de La Causa R (Margarita López
Maya), Revista Venezolana de Economía y Ciencias Sociales, vol. 1, nºs 2-3, abril-setembro,
1995, pp. 205-239. (N. da A.)
118

Para compreender esta notável e crescente figuração de LCR nos anos


90, devemos ter em mente como pano de fundo a severa crise socioeconômica
e política da Venezuela, que analisamos com detalhes na Parte I. A esses
fatores de natureza externa à organização será necessário acrescentar as
próprias características da evolução de LCR desde sua origem em início dos
anos 70. A isso e ao conteúdo de seu projeto e discurso está dedicado este
capítulo.

ORIGEM E TRAJETÓRIA DE LCR ATÉ AO MOMENTO DA


DESCENTRALIZAÇÃO
O núcleo germinal da organização política que nos anos 70 se
formalizaria perante o CSE com o nome de A Causa Radical era formado por
um pequeno grupo que se separou do PCV em 1970 e não acompanhou a
maioria dos dissidentes desse partido na fundação do MAS, em janeiro de
1971.
Os anos finais da década de 60 e os iniciais da de 70 foram de grande
efervescência social na Venezuela. Corresponderam ao primeiro período do
governo de Rafael Caldera (1969-1974) e foram marcados pelas importantes
mobilizações de estudantes e de operários. Por esse tempo, a luta armada ―
enquanto instrumento para se chegar ao poder político e empreender a
Revolução ― já havia sido amplamente derrotada no país. Em consequência, o
governo havia tomado a iniciativa de conceder anistia aos guerrilheiros, o que
ficou conhecido como a política de pacificação. Por sua vez, os partidos
comprometidos com a luta armada, o PCV e o Movimento de Esquerda
Revolucionária1, encontravam-se desfeitos por discórdias internas ― um
resultado lógico do fracasso de seus projetos sociopolíticos na luta hegemônica
então travada.
A divisão mais importante do PCV foi a que deu origem ao partido MAS,
que, pouco tempo depois, converteu-se na terceira força política do sistema de
partidos venezuelano. As posições ideológicas do MAS derivaram tanto de uma
feroz crítica à concepção de partido que servia de modelo ao PCV (concepção
à qual atribuíram parte da responsabilidade pelo fracasso da luta armada),

1
MIR, na sigla em espanhol. (N. do Trad.)
119

quanto às ideias em ebulição do movimento estudantil venezuelano,


influenciado, por sua vez, pelo correspondente movimento estudantil europeu e
pelo pensamento da "nova esquerda" dos anos 60. As ideias de democracia e
socialismo vieram a ser, por essa época, os novos eixos do pensamento de
esquerda. E embora o MAS não tivesse obtido nos anos 70 e 80 um caudal de
votos que lhe permitisse concorrer com os partidos hegemônicos (AD e Copei)
na luta pelo controle do governo central, ele ocupou um espaço relevante no
Congresso Nacional e participou das múltiplas alianças e negociações
tradicionais do sistema.
Na Convenção de fundação do MAS, em janeiro de 1971, o dirigente
Alfredo Maneiro deixou consignadas as diferenças que tinha com seus
companheiros. Maneiro foi um dos comandantes da luta armada no oriente do
país e militou por cerca de 18 anos no PCV, no qual chegou a ser membro do
Comitê Central. Foi também um dos protagonistas do processo de ruptura que
ocorreu no seio do partido, e acabou reconhecido como membro natural do
Comitê Central do MAS para a Convenção. Não obstante, Maneiro foi à reunião
cheio de reticências por estar em desacordo, entre outras coisas, com o fato de
o MAS incluir setores do PCV de tendências mais conservadoras do que as
dele e de Teodoro Petkoff1. Tratava-se daquelas facções menos críticas à
atuação do PCV e mais dispostas a reconciliar-se com o passado. Por isso,
Maneiro decidiu excluir-se a si mesmo. Junto com ele seguiriam umas
escassas 10 pessoas, entre elas Pablo Medina, José Lira e Lucas Matheus,
que se tornariam depois líderes-chave de LCR.
Neste pequeno núcleo, constituído por antigos militantes médios ou
ativistas de base do PCV, Maneiro foi sem dúvida o líder principal. Os
documentos que deixou revelam seus dotes intelectuais e instinto político.
Segundo ele registrou em seus escritos, no ano de 1971 continuaram de
maneira informal os contatos entre o grupo, mas a ideia de constituir um partido
pareceu, durante os primeiros meses, algo insensato. Em suas palavras:
"Existiam nove possibilidades em dez de que o grupo perdesse sua qualidade

1
Teodoro Petkoff, fundador do MAS, era uma das figuras mais conhecidas e de maior prestígio
no mundo da esquerda venezuelana. Seria, em seguida, presidente de seu partido e candidato
presidencial. Em 1998, abandonou o MAS por discordar do apoio à candidatura presidencial de
Hugo Chávez Frías. (N. da A.)
120

inicial, a confiança em si mesmo, e que terminasse por não insistir nos


pressupostos políticos dos quais partia".

VENEZUELA 83 E A CAUSA R
Apesar de Maneiro dizer que duvidava da constituição de uma
organização política, muito prontamente se decidiu a lançar algumas bases
para garantir a sedimentação das ideias que ele e seus companheiros ― além
de uma série de outras pessoas, em sua maioria jovens vinculados a
movimentos populares ― vinham discutindo. Daí a publicação para sua
difusão, no próprio ano de 1971, das Notas negativas.
Estas Notas são uma recopilação de escritos produzidos pelo grupo que
se dera a conhecer com o nome de Venezuela 83, e que constituiu o
antecedente imediato de LCR. Maneiro lhe deu o nome de Venezuela 83 para
associá-lo ao ano em que ocorreria a reversão da maioria das concessões
petroleiras em mãos das companhias transnacionais. Maneiro compreendia
que esse processo era crucial para a sociedade venezuelana e advogava o
adiantamento do processo de reversão. Em Notas negativas, Maneiro também
analisou o fracasso da luta armada na Venezuela, criticou a fundo o PCV, sua
estrutura e seu funcionamento. Refletiu sobre o papel da vanguarda do
movimento popular e os problemas de eficiência e qualidade revolucionária das
organizações que diziam representar o povo. Opinava que eram poucas as que
conseguiam despertar entusiasmo por seu regime interno, por seu
desembaraço, criatividade e sensibilidade em relação às massas. Nos escritos
finais de Notas negativas, encontra-se já a matriz conceitual do que viria a ser
o partido LCR.
Maneiro defendia a ideia de que a fundação de um partido não podia ser
concebida como o começo de um movimento revolucionário, mas, ao contrário,
que um partido era o resultado de um movimento revolucionário em certo grau
de seu desenvolvimento. Afirmava que era necessário dar conteúdo político à
assombrosa e espontânea capacidade de mobilização das massas, bem como
participar das infinitas e variadas formas do movimento popular com a
convicção de que essas massas resolveriam por si mesmas o assunto de sua
direção política. Em vez de partir de uma estrutura política dada, devia-se
121

confiar em que o movimento popular tomaria em suas mãos a tarefa de


produzir em seu seio uma nova liderança. Essa construção de uma vanguarda
ligada ao movimento de massas, surgida de sua prática e experiência, era
também, para Maneiro, uma construção ideológica.
Essas ideias devem ser consideradas no contexto do que foi o debate
venezuelano, de fins dos anos de 1960, entre intelectuais e militantes de
esquerda acerca das formas da luta revolucionária. Esse debate, por sua vez,
inseria-se no âmbito mais geral da esquerda latino-americana. No caso
venezuelano, dada a magnitude da derrota guerrilheira ― mas também em
virtude da qualidade intelectual e diversidade política de seus líderes ―
desenvolveu-se um questionamento severo à proposta foquista, às
extrapolações de experiências e ao autoritarismo dos partidos comunistas.
Estas noções foram identificadas como causas importantes da derrota. Deve-
se recordar que a guerrilha venezuelana foi eminentemente de extração média
e universitária, e que não apenas o PCV e seus segmentos participaram da luta
armada, mas também uma dissidência da AD, chamada MIR. Por outro lado,
em fins dessa década, boa parte dos membros desses grupos reconhecia a
impossibilidade ― dadas as condições do país e a derrota militar que haviam
sofrido ― de traçar qualquer forma de luta armada. Daí que comandantes,
como Maneiro e Petkoff, tenham-se esforçado por encontrar uma nova
articulação com o movimento popular através de propostas teóricas e práticas
adequadas às condições específicas do caso venezuelano e à inconveniência
e impossibilidade, no curto ou médio prazo, de utilizar a violência como forma
de luta.
Coerentemente com essas ideias, o reduzido grupo Venezuela 83
decidiu não criar uma organização, com ata constitutiva, burocracia e estatutos,
mas insistir na necessidade de um partido em permanente formação. Para isso,
seus membros presumiram que tinham de dedicar todos seus esforços à
construção de um tipo de vanguarda que fosse o resultado do encontro entre o
grupo que eles compunham ― grupo que eles próprios caracterizavam como
fruto da crise do marxismo ― e a liderança que provinha do movimento
espontâneo das massas. Maneiro dizia que a liderança popular era produzida
constantemente em todas as atividades ― por exemplo, em um jogo de
beisebol. Era preciso, pois, ir ao encontro dessa liderança.
122

Durante o ano de 1971, Maneiro e seu grupo avaliaram quais tipos de


movimentos de massas com potencial para a mudança existiam na Venezuela,
e escolheram três para criar a vanguarda: o movimento estudantil da
Universidade Central da Venezuela (UCV), o movimento operário da
Siderúrgica do Orinoco (Sidor) e o movimento popular da área de Cátia, em
Caracas. A UCV experimentava por esses dias um grande dinamismo,
resultado do processo de renovação universitária. Em Sidor, fora organizada
uma greve de grande importância que, contudo, havia fracassado, deixando um
saldo de 514 empregados demitidos. Havia ali, pois, um grande
descontentamento dos trabalhadores e, ao mesmo tempo, estava-se
desenvolvendo um movimento operário alternativo ao das organizações
sindicais tradicionais, controladas pela AD e pelo Copei. Os bairros de Cátia ―
dizia Maneiro ― eram como uma cidade dentro de Caracas, com meio milhão
de habitantes e suas particulares classes alta, média e baixa. Possuíam
tradições combativas, estavam pouco contaminados pelo "lúmpen político" que
abundava em outros bairros, e eram de povoamento mais antigo e estável que
os bairros populares de Petare, no leste da cidade.
A tarefa podia parecer insensata, levando-se em conta o caráter frágil do
grupo inicial. Mas para Maneiro e seu grupo, tratava-se de um trabalho lento,
meticuloso, porventura de poucos resultados a curto e médio prazo. É nesta
perspectiva que se explica, por exemplo, que em janeiro de 1972 Pablo
Medina, um dos membros do grupo, saiu sozinho para Cidade Guayana com a
tarefa de criar em Sidor um agrupamento operário.
Sidor foi um dos principais projetos industriais da democracia
venezuelana. Tratava-se de uma indústria estatal de base, situada no sul do
país, em uma zona de escassa população, e que aproveitava um conjunto de
vantagens comparativas do lugar, entre elas um volumoso potencial
hidroelétrico. Graças ao dinamismo próprio da indústria metalúrgica e ao
estabelecimento posterior da indústria do alumínio, Cidade Guayana converteu-
se, desde os anos 1960, em um polo de atração da migração interna do país. O
efeito disso foi criar, ao longo do tempo, uma comunidade sem laços históricos
com a região e constituída fundamentalmente por uma população de operários
e empregados do Estado venezuelano. Além disso, e diferentemente do
complexo industrial localizado no eixo centro-costeiro do país, em Cidade
123

Guayana as condições de trabalho e de vida sempre foram muito duras,


péssimas a segurança e a higiene nos postos de trabalho, e o Estado nunca
esteve muito disposto a desempenhar o papel de proprietário paternalista.
Passaram-se anos até que os trabalhadores de Sidor pudessem obter a
assinatura de um contrato coletivo. O potencial combativo que ali viram os que
formavam o grupo Venezuela 83 derivava justamente dessas peculiaridades.
No ano em que Medina saiu para Cidade Guayana, esta era um ímã a atrair
também outros grupos de esquerda, embora os partidos tradicionais
parecessem não se preocupar com o que ocorria ou pudesse ocorrer ali.
Medina se empregou como operário no horário noturno, e começou a
imprimir um jornal chamado El Matancero. Inicialmente, era uma publicação
clandestina em razão das características autoritárias do sindicalismo dominante
na região, controlado por uma burocracia corrupta, associada principalmente à
AD. Os primeiros números foram redigidos por Medina praticamente sozinho,
auxiliado apenas por alguns ativistas de Caracas, que vinham durante o fim de
semana. No final de 1972, Matancero era um grupo constituído por uns dez
operários. Por volta de 1973, o técnico em eletricidade Andrés Velásquez
colaborava com o grupo. Em 1974, fez seu primeiro discurso em frente ao
portão de Sidor1 a favor da chapa do movimento Matancero nas eleições
sindicais do Sutiss (Sindicato Único dos Trabalhadores da Indústria Siderúrgica
e Similares). Por essa época ― segundo ele declarou em entrevista que
concedeu anos mais tarde ao ativista Farruco Sesto ― foi que conheceu
Alfredo Maneiro.
Cinco anos depois, em 1977, Tello Benítez, outro líder surgido do
movimento popular, alcançou um posto no Sutiss. A partir dessa posição,
principiou a ascensão do "novo sindicalismo" que Matancero representava.
Além da honestidade que esgrimiam contra a corrupção do sindicalismo
tradicional, Matancero lutava por reivindicações como a participação
democrática dos operários nas decisões sindicais que lhes tocavam ― algo
inexistente no sindicalismo da região ― e a higiene e segurança dos operários

1
O portão de Sidor é a entrada e saída principais dos trabalhadores. Ali acham-se os pontos
de parada do transporte coletivo que os operários usam para ir e vir de suas casas. Nos
horários de entrada e saída dos diferentes turnos há uma considerável concentração de
operários e empregados; por isso, era um lugar excelente para dirigir-se a eles. Velásquez
ficou conhecido como "o líder do Portão". (N. da A.)
124

em seus postos de trabalho, temas não tratados pelos outros líderes sindicais.
Benítez discutia na mesa de negociações com a empresa e o sindicalismo
tradicional, enquanto Velásquez se encarregava de informar os operários em
frente ao portão.
Dois anos depois, nas eleições sindicais de 1979, a chapa do
Matancero, encabeçada por Velásquez, alcançou o controle do Sutiss. Como
reação e em seguida a uma série de atropelos ― que seria demasiado expor
aqui em detalhes ― em 1981, o sindicato sofreu intervenção da Fetrametal, a
federação sindical a que estava afiliado o Sutiss e que sempre fora controlada
pelo sindicalismo da AD. Velásquez, Benítez e alguns outros operários foram
despedidos de seus postos de trabalho. Mas, em 1988, depois de sete anos de
gestões e lutas, o sindicato teve a intervenção levantada, convocaram-se
eleições e o Matancero voltou a ganhar. As estratégias do sindicalismo
tradicional haviam fracassado na batalha. Principiavam, assim, a fama e a
expansão do Sindicalismo Alternativo, que naquele ano agrupava uns 40
sindicatos e grêmios em todo o país.
Os outros movimentos de massas sobre os quais Venezuela 83 (ou
LCR) buscou incidir tiveram momentos de esplendor, mas, diferentemente de
Matancero, os núcleos organizativos não chegaram a consolidar-se.
Na UCV, enquanto durou o processo de renovação universitária, o grupo
aglutinado em torno do jornal PRAG teve papel importante nas lutas das
escolas de engenharia e arquitetura. PRAG foi fundado em meados de 1971
por José Rosales e José Lira, e mantido em seguida por uma liderança
proveniente da Liga dos Estudantes, entre os quais se distinguiam Edgar
Yajure, na Engenharia, e outros dirigentes de origens diversas, como Federico
Villanueva, na Arquitetura. Eles faziam uma dura crítica à "politicagem" dos
partidos, à corrupção de alguns destes na UCV, como era o caso ― segundo
eles ― do PCV e do MIR, e defendiam o resgate da dignidade estudantil,
fustigada pela ocupação forçada e pela intervenção governamental desse
estabelecimento de ensino, desde 1969.
A incorporação do grupo de PRAG a LCR deu a esta uma presença
importante na UCV, mas provocou tensões internas na organização, motivadas
principalmente por lutas de liderança e diferenças de personalidades entre
Maneiro e Yajure. As tensões se expressaram em uma discordância sobre a
125

maior ou menor ênfase que LCR devia pôr em pesquisas e discussões teóricas
e conceituais. Em setembro de 1976, ocorreu a expulsão de PRAG, quando
Maneiro se opôs às solicitações desse movimento para que se expusessem
com maior clareza os objetivos e estratégias da organização. PRAG advogava,
entre outras coisas, a criação de um centro de pesquisas e uma maior atenção
à formação de quadros, coisas que Maneiro considerava que se desviavam de
sua concepção de LCR como movimento de movimentos. PRAG foi dissolvido
em 1979, após editar alguns números mais do jornal.
O fracasso em consolidar PRAG e, em geral, qualquer outro movimento
intelectual por parte de LCR foi atribuído por Maneiro às características
particulares deste setor, afetado ― segundo ele ― de maneira mais negativa e
profunda do que o resto da sociedade pelas condições venezuelanas de
bonança petroleira que se verificou a partir de 1974. Em contraste, para
aqueles que saíam, o fracasso refletia a tendência excessivamente pragmática
da organização fundada por Maneiro, tendência que, com o tempo, facilitaria
um desvio "trabalhista" e uma falta de clareza em seus programas políticos. Na
Universidade dos Andes (ULA), criou-se também o grupo BAFLE ― embora
tivesse provocado menor impacto do que PRAG e houvesse desaparecido tão
logo seus fundadores saíram da Universidade, entre eles, Enrique Villa,
Roberto Siso e Raúl Lander.
Em 1980, Maneiro tentou de novo um projeto que abrisse espaço ao
debate e à geração de ideias criadoras no âmbito da intelectualidade do país.
Este projeto se chamou A Casa da Água Mansa e esteve constituído por 30 ou
40 pessoas. Como parte do projeto, encontram-se as publicações da Água
Mansa, dirigidas por Farruco Sesto, as quais reúnem parte do pensamento e
alguns dos traços da evolução de LCR. Aí surgiu um problema parecido com o
de PRAG: Thaelman Urguelles, Ángel Cacique, entre outros, lideravam um
grupo, enquanto Farruco era cabeça de outro. A discussão mais acirrada era
acerca do papel de Água Mansa. Para Farruco, tratava-se de um lugar ou
espaço para promover e animar a discussão. Urguelles, ao contrário, pensava
ser necessário assumir posições definidas a respeito do meio artístico e
intelectual. Essas discordâncias de concepção e liderança puseram fim ao
projeto.
126

O grupo Cátia 83, que depois daria lugar ao Pró-Cátia, teve um início
lento e difícil em princípio dos anos 1970, mas acabou por desenvolver uma
grande atividade, de tipos diversos. Da mesma maneira que os outros
movimentos, começou publicando um jornal ― Cátia 83 ― visto que Maneiro
considerava este meio algo mais idôneo, respeitoso e democrático do que o
tradicional procedimento de atração de militantes praticado pelos partidos e
que ele caracterizava como de "convencer adulando". O grupo inicial de Cátia
foi formado, entre outros, pelos irmãos Mora, por Denis Favier e Alberto
Luquen, "o cientista". A partir de Pró-Cátia, ganharam impulso muitas
atividades comunitárias e iniciativas políticas. Uma das mais significativas foi a
coleta, em 1976, de 24 mil assinaturas para promover uma reforma da Lei
Orgânica do Conselho Municipal (LOCM). Pró-Cátia pretendia que os
vereadores representassem de fato suas comunidades e que, também, fosse
estabelecido o direito de revogar o mandato deles. Apesar de mais de meio
milhão de pessoas viverem em Cátia, jamais existira um vereador dessa zona
de Caracas. Além das reivindicações políticas, Pró-Cátia empreendeu uma
campanha em prol de mercearias populares para a área, solicitou caminhões
compactadores de lixo para resolver o problema de dejetos, propôs a
construção do Parque do Oeste, e promoveu campeonatos de "bolinha de
borracha"1, como expressão desportiva de uma juventude carente de quadras
esportivas. O grupo Pró-Cátia enfraqueceu-se e, por fim, dissolveu-se já nos
anos 80, principalmente em razão da tensão e da divisão derradeira de LCR,
ocorrida em 1983, após a morte de Maneiro. O problema da candidatura
presidencial de Velásquez precipitou a ruptura final.
É de ressaltar que cada um desses "movimentos" operava de uma
maneira relativamente independente, e o que se chamou Venezuela 83 (e a
partir de 1973, A Causa R) era uma espécie de liame a vincular todos eles. O
jornal Causa R, que começou a sair em fevereiro de 1973, serviu para ir
identificando a organização com esse nome. O R era escrito ao contrário,
segundo seu progenitor Farruco, por acasos do desenho, mas logo se
generalizou a ideia de dizer que era porque a Venezuela era um país ao

1
Pelotica de goma, em espanhol: jogo parecido com o beisebol, embora jogado sem tacos, em
que a bola é rebatida apenas com a mão. Muito popular no país, pode ser praticado em
quadras ou em espaços menores, como nas ruas. (N. do Trad.)
127

contrário, e embora alguns digam que tal sigla não representava nada, deixava-
se associar ao conceito de "revolução". A organização carecia de formalização,
não havia ata constitutiva, nem muito menos estatutos, mas, de fato, dava-se
um processo seletivo de incorporação. Como os escritos de Maneiro o refletem,
tratava-se de um movimento de movimentos ou "(...) uma espécie de complexo
de organizações autônomas (...) diferentes entre si (...) há uma espécie de
acordo ideológico e político mínimo que liga o conjunto". Quanto a uma
estrutura organizativa, havia uma Direção Nacional (em vez do Comitê Central,
como no PCV), formada pelos dirigentes dos três movimentos; mas, na prática,
reuniram-se talvez apenas duas ou três vezes ao longo dos anos de 1970.
Havia ainda uma equipe política para as tarefas do dia a dia.

A DIVISÃO DE 1983
Iniciando-se a década de 1980, os dois movimentos de LCR que
alcançaram êxito eram o sindicalismo alternativo em Sidor, que controlava um
dos sindicatos mais importantes do país, e o Pró-Cátia, que vinha tornando-se
conhecido por suas iniciativas no campo das reivindicações comunitárias.
Entretanto, em rigor, a organização era uma agrupação pequena e concentrada
em apenas dois pontos da extensa geografia venezuelana. Em 1978, para
preencher um requisito do CSE, deu-se ao R o significado de "radical" ―
segundo Farruco, na acepção de "enraizado".
Maneiro, desde a etapa da primeira bonança petroleira (1974-1978),
vinha refletindo sobre as dificuldades de expressão política dos movimentos
populares venezuelanos. Por exemplo, nas eleições de 1973, criticou o MAS
por haver, segundo seu critério, diluído de tal maneira o conceito de socialismo
que o esvaziou de significação transformadora, e o eleitorado não o viu como
uma opção de mudança real e viável. Também reconheceu como errônea a
posição abstencionista que tiveram tanto LCR como outros grupos de
esquerda, visto que a população continuou indo às urnas em clara indicação de
confiança nos mecanismos institucionais. Maneiro compreendeu cedo que, na
Venezuela, era preciso buscar as transformações através de tais mecanismos.
Porém, a ideia-chave que seria posta em prática em fins da década de
1970, como também nas eleições de 1983, era a de que a política venezuelana
128

estava bloqueada, que a AD havia perdido sua capacidade de transmitir uma


mensagem à população, e o Copei não podia levantar o entusiasmo em virtude
do péssimo governo de Herrera. Isto, segundo Maneiro, estava provocando a
"orfandade eleitoral" de uns 2 milhões de venezuelanos. Ocorreu-lhe, então,
ser necessário superar o obstáculo dessa situação, resgatando esse eleitorado
que ocupava o centro do universo político. Para ele, convinha apresentar uma
opção de "centro", não de esquerda, pois as organizações dessa tendência não
tinham "capacidade convocatória" e haviam chegado a um limite além do qual
pareciam incapazes de crescer.
LCR começou, então, a aproximar-se de certas figuras consideradas "de
centro", como Jóvito Villalba, o fundador da URD, para propor-lhes a
candidatura presidencial. A que melhor quadrou, contudo, foi a candidatura do
editor da revista Resumen, o jornalista Jorge Olavarría, em julho de 1982. De
origem abastada e mentalidade conservadora, Olavarría vinha cumprindo um
papel importante nas denúncias de todo o tipo de corrupção, particularmente a
que grassava no sindicalismo de Guayana. Olavarría defendia a posição do
Novo Sindicalismo, e seus artigos contribuíram para tornar públicos o
movimento de Matancero e seu dirigente Velásquez. A opinião pública ficou um
tanto surpresa com esta aliança; mas, indubitavelmente, Olavarría dava a LCR
acesso a uma das revistas mais lidas daquela época.
Enquanto viveu Maneiro, os movimentos populares de LCR respaldaram
― aparentemente sem conflitos ― esta nomeação. Sua liderança incontestável
e a própria autonomia e ambiguidade ideológica dos movimentos favoreceram
a circunstância de depositarem nele a confiança necessária para lidar com as
dificuldades que pudessem surgir. Porém, em novembro de 1982, Maneiro
faleceu inesperadamente. Tinha 45 anos. Foi um golpe duríssimo para a
organização, pois era então um momento em que ela parecia ganhar alguma
evidência, graças à candidatura de Olavarría e, através dele, a divulgação das
atividades dos movimentos na revista Resumen. Muitos temeram que a
organização como projeto político fosse aniquilar-se. Houve certo desespero
em Pró-Cátia, pois se pensou que todos aqueles anos de trabalho estavam
perdidos.
Olavarría, por sua vez, pensou que ele próprio podia ocupar o vazio
deixado por Maneiro. Mas, embora tivesse boas relações com o movimento de
129

Pró-Cátia, tinha contudo alguns atritos com os dirigentes fundadores da


organização, especialmente com Pablo Medina e Lucas Matheus. Olavarría
possuía uma personalidade dominadora e, além disso, tinha pouca coisa a
compartilhar com os operários de Sidor. Algum tempo antes de encerrar-se o
prazo para a inscrição do registro eleitoral das candidaturas, Olavarría impôs
certas condições a LCR. Entre outras coisas, pediu para si a Secretaria Geral
da organização. Alguns intelectuais, como Urguelles, puseram-se de acordo,
mas outros quadros da Direção recusaram a proposta e conseguiram
prevalecer. Olavarría renunciou e se lançou ao Congresso com um grupo
chamado Opina. Tinham início os problemas.
Dando continuidade à ideia de buscar "o centro", Urguelles e seu grupo
propuseram unir-se à candidatura do ex-presidente Caldera. Em uma
assembleia plenária que ocorreu na UCV, discutiu-se essa candidatura, e o
grupo chegou mesmo a lançar um comunicado pelo jornal. Para o movimento
de Matancero, Caldera era inaceitável. Fora durante seu governo que ocorrera
a demissão dos 514 operários de Sidor. Eles desejavam lançar a candidatura
do presidente de seu sindicato, Andrés Velásquez. Já não havia Maneiro para
mediar a disputa.
Ao ser rechaçada a candidatura de Caldera, Urguelles e o movimento
Pró-Cátia, bem como a maioria dos intelectuais que permaneciam no grupo,
abandonaram LCR. Perdia-se então o braço bairrista e o que restara do
intelectual, ficando a organização reduzida ao grupo que havia saído do PCV
em 1970, mais a direção do movimento de Matancero. O viés operário que a
partir de então adquiriu foi, até certo ponto, inevitável.
Depois das eleições nacionais de 1983, a organização parecia ferida de
morte. Velásquez atingiu uns 6.000 votos nessas eleições, enquanto perdia ―
no que muitos viram uma fraude eleitoral ― a disputa pelo Estado de Bolívar.
Mas, seis meses depois, nas eleições municipais de 1984, LCR chegava em
segundo lugar como partido neste Estado. A organização decidiu, pois,
concentrar-se ali em Bolívar, apoiando-se nos trabalhadores da zona do ferro
para derrotar o bipartidarismo da AD e Copei.
A partir dessa data, LCR avançou lentamente em sua evolução, tratando
de fortalecer-se como organização local nos municípios de maior população do
Estado de Bolívar, além de estender a influência do movimento Matancero
130

entre os sindicatos. Com a ausência de Maneiro, a organização não voltou a


ensaiar o desenvolvimento de novos movimentos populares, permanecendo
centrado no sindicalismo de Matancero. Ademais, em virtude das
características do partido a respeito da cobertura e dinâmica organizativa, a
incorporação de novos membros era algo muito lento por ser seletiva e
basicamente individual, devendo-se cumprir o quesito de serem eles ativistas
políticos. O único grupo significativo que depois se incorporou foi o encabeçado
por Alí Rodríguez em 1987. Era este um pequeno grupo que se havia desligado
do Partido da Revolução Venezuelana (PRV). No tocante a Aristóbulo Istúriz ―
que também seria nos anos 90 um dos líderes mais importantes ― incorporou-
se ele em 1986 e de maneira basicamente individual, embora tivesse fundado o
sindicato de professores SUMA e parte deste acabou por ir a LCR.

EVOLUÇÃO ENTRE 1989 e 1993


O desempenho político de LCR nas conjunturas eleitorais de 1983 e
1988 foi pouco expressivo. Enquanto os candidatos presidenciais da AD e do
Copei monopolizavam juntos 87% e 93%, respectivamente nos dois pleitos,
das preferências do eleitorado, o MAS, as alianças da esquerda e ainda alguns
movimentos eleitorais conjunturais, como o de Olavarría em 1983 e o de
Vladimir Gessen em 1988, superavam comodamente o candidato Velásquez e
seu partido. Mas, no Estado de Bolívar, a votação de LCR se mostrou
interessante: em 1983, o partido obteve 7,96% do total de "votos pequenos"1, o

1
Nas primeiras décadas da democracia representativa na Venezuela, um meio de assegurar o
voto a todos os cidadãos com mais de 18 anos ― em especial aos analfabetos ― era recorrer
ao uso de cédulas eleitorais de diferentes cores. No momento da eleição, eram atribuídas
cores aos partidos: à AD o branco, ao Copei o verde, à URD o amarelo, ao PCV o vermelho,
etc. Este mecanismo era particularmente importante em um país em que mais da metade da
população era analfabeta. Como as eleições para os diversos cargos políticos eram realizadas
em um único ato a cada cinco anos, utilizavam-se, também, dois tipos de cédulas: uma para se
escolher o presidente da República ― o voto grande ― e outra para os cargos legislativos
(federais, estaduais e municipais) ― o voto pequeno ― segundo uma lista de candidatos de
cada partido. Na prática, eram os partidos que escolhiam os representantes nos diversos níveis
institucionais, restando ao eleitor apenas a escolha do partido de preferência. As listas eram
fechadas e fixas, ou seja, não se podia alterar a ordem hierárquica dos candidatos, sendo eles
portanto eleitos conforme a ordem previamente fixada pelo partido. Nos anos 70, uma inovação
foi a separação das eleições municipais em relação às nacionais, para que o candidato
presidencial e a política do nível federal não interferissem diretamente na votação de nível
local. Em fins dos anos 80, ocorreram as grandes reformas no sufrágio, quando os eleitores
passaram a escolher os candidatos nominalmente, além de por listas. Ensaiaram-se algumas
variantes, e prevaleceu um sistema misto (de tipo alemão), que enfraquecia o poder dos
"cogollos" dos partidos na escolha dos candidatos e ampliava a influência do cidadão no
131

que significou um crescimento de 178% em relação às eleições anteriores. Seis


meses depois, em 1984, nas eleições municipais, alcançou 17,13%, com o que
conseguiu eleger quatro vereadores no município do Caroni e um em Heres.
Em dezembro de 1988, LCR conseguiu eleger um deputado direto ao
Congresso Nacional, pelo Estado de Bolívar, e surpreendentemente outros dois
por quociente1, no Distrito Federal (Caracas)2 e no Estado de Miranda. A
organização estava crescendo em Guayana e adquiria também alguma
presença em Caracas (cf. Quadro 14).
Foi neste contexto que se desenrolaram os dois processos que iriam
trazer LCR ao primeiro plano do cenário político venezuelano: a severa crise
social e política da Venezuela e, em estreita relação com ela, a aprovação das
leis de descentralização. A partir daí começou sua ascensão.
Como já assinalamos em outros capítulos, as primeiras eleições
regionais e municipais de dezembro de 1989 refletiram o grau de recusa da
população ao governo da AD, presidido por Andrés Pérez. Mas, junto com o
"voto-castigo" exercido pelas comunidades regionais, o primeiro processo de
eleição de governadores também começou a tornar visíveis as potencialidades
de uma liderança regional até então irrelevante como variável na escolha de
candidatos para cargos públicos. Se anteriormente as qualidades de um
candidato mediam-se por sua destreza em fazer favores e tecer as vinculações
necessárias para que os membros dos "cogollos" (as cúpulas) partidários o
elegessem, agora esses "cogollos" também deviam considerar o carisma e as
raízes de seus candidatos nos estados para poderem competir no jogo
eleitoral. Isto, de fato, começou a criar tensões no interior dos partidos
hegemônicos e provocou não poucos enfrentamentos entre a liderança
nacional e os quadros médios. No caso dos Estados de Arágua e Bolívar, o
peso do caráter regional das candidaturas de Tablante, pelo MAS, e de

momento do voto. O analfabetismo na Venezuela já fora então reduzido a menos de 10%. (N.
da A.)
1
Para preservar o princípio da proporcionalidade nos órgãos legislativos, recorria-se ao
expediente da eleição por quociente: dividindo-se o total de votos válidos pelo número de
deputados eleitos diretamente, o quociente indicava a quantos deputados cada partido tinha
direito, segundo seus votos recebidos. No caso em que houvesse um partido com menos
deputados do que apontava o quociente, o CSE designava os complementares a partir da lista
do lugar em que o partido havia obtido mais votos. (N. do Trad.)
2
Após a promulgação da Constituição de 1999, o DF passou a denominar-se Distrito Capital.
Atualmente, o chefe de governo do distrito é designado pelo presidente da República. (N. do
Trad.)
132

Velásquez, por LCR desempenhou um papel significativo. Em menor grau, isto


também influenciou a vitória de Oswaldo Álvarez Paz, do Copei, no Estado de
Zúlia.
É digno de nota que o Estado de Bolívar, no qual LCR se havia
concentrado desde o início da década, fora sempre uma região adeca. Não
obstante, graves denúncias de corrupção atingiram o sindicalismo próximo do
partido, sobretudo seus dirigentes. Adicionalmente, lutas pela liderança
regional haviam mergulhado a AD em uma grave crise, e ao que parece muitos
de seus militantes ignoraram a linha partidária e votaram em LCR. Este fator
pôde dar a Velásquez a diferença necessária para vencer, pois sem alianças
ele obteve 40,30% dos votos, enquanto a AD, que ficou em segundo com seu
candidato Jorge Félix Martínez, obteve 36,69% ― ou seja, uma diferença de
apenas 3,61%. A abstenção foi a quarta mais alta do país, atingindo 55,82%.
Além do triunfo de Velásquez no governo estadual, o partido ganharia
ainda duas prefeituras: Clemente Scotto no município do Caroni, do Estado de
Bolívar ― que corresponde a Cidade Guayana ― com 27.200 votos (33,86%
do total), e Luis Lorenzo Aguilar no município de Miranda, do Estado de
Carabobo, com 975 votos (37,75% do total). Esta última era uma pequena
prefeitura e, neste caso, a votação de LCR esteve abaixo das expectativas da
organização.
O triunfo em Bolívar foi uma surpresa para o resto do país. Mas,
segundo Velásquez, dias antes os dirigentes da AD na região souberam que
iam ser derrotados e se apressaram em preparar uma fraude. LCR, que os
conhecia bem por sua traumática experiência em Sidor com Fetrametal,
rapidamente denunciou o ardil, enquanto a população de Cidade Guayana foi
às ruas em um claro respaldo à organização. Velásquez conta que foi à Radio
Caroni fazer a denúncia. Quando saiu, havia uma multidão esperando-o e, em
seguida, uma caravana interminável de veículos. A notícia correu pelas fábricas
e muitos operários deixaram seus postos de trabalho. No dia seguinte, ainda
sem a divulgação do vencedor, Sidor foi praticamente paralisada. Em Cidade
Bolívar, a capital do Estado, a atividade se deteve e foi organizada próximo da
sede do centro eleitoral uma manifestação com milhares de pessoas.
Velásquez viajou para Caracas, foi ao CSE para informar sobre o que estava
acontecendo e solicitar um pronunciamento definitivo. Quando regressou,
133

segundo ele, havia não menos de 10 mil pessoas no aeroporto. Essas


mobilizações foram determinantes, e pouco depois a AD convocou uma
coletiva de imprensa no Estado, a fim de reconhecer o triunfo de LCR.
Velásquez declarou que todos estavam dispostos a defender a vitória com suas
próprias vidas se necessário fosse, e LCR estava com eles.
Com a prefeitura do distrito Caroni, a situação foi mais ou menos a
mesma. Ali também houve suspeitas de que a AD e o Copei arquitetavam uma
fraude, e igualmente todos se mobilizaram para defender o triunfo. A situação
atingiu um tal extremo que os votos não puderam ser contados no próprio
lugar; foi necessário levar as atas eleitorais ao CSE, em Caracas, com o
propósito de contabilizá-las na capital. A Junta Eleitoral Principal do Caroni deu
a vitória à AD e chegou mesmo a declarar oficialmente como prefeito o
candidato adeco, enquanto em Caracas Scotto era declarado o prefeito eleito.
Três anos depois, as dificuldades políticas não haviam feito senão
agravar-se ainda mais em razão dos golpes de Estado malogrados. Em
dezembro de 1992, apenas oito dias depois do último levante, Velásquez,
buscando a reeleição como governador, conseguiu 135.673 votos (desta vez
63,36% dos votos válidos). Igualmente, LCR passou a controlar as três
prefeituras mais populosas do Estado: venceu de novo no Caroni com seu
prefeito Scotto, que obteve agora 68,36% dos votos válidos. No município de
Heres, no qual está a Cidade Bolívar, capital do Estado, LCR obteve 47,88%
dos votos válidos. A disputa pela prefeitura do município de Piar, no qual se
encontra a Cidade Piar, foi vencida por Amerigo de Grazia, de LCR, com
45,77%. O Estado de Bolívar tem um total de 10 prefeituras: nenhuma das sete
restantes superava os 25.000 eleitores, enquanto nos casos anteriores todas
superavam os 60.000. A AD venceu, sem alianças, em três prefeituras, e o
Copei, em aliança com outros grupos, venceu nas quatro restantes. Nos
municípios conquistados por LCR, a abstenção continuou sendo alta, acima da
média do Estado.
O triunfo de LCR em Bolívar estava dentro do previsto. As gestões do
governador e do prefeito Scotto haviam obtido a aprovação da população, e
esperava-se um apoio importante. Não obstante, a expansão nestas eleições
superou seus próprios cálculos, o que permite dizer-se que a organização ―
que durante anos foi tão zelosa em diferenciar-se do resto dos partidos
134

políticos venezuelanos ― começou a recolher os frutos de sua estratégia


quando, como já assinalamos, a população urbana de Caracas, assim como de
suas adjacências no Estado de Miranda, desejosa de exercer um "voto-castigo"
contra o governo de Pérez, os partidos e mesmo contra o sistema político
tradicional, encontrou entre a abstenção e o voto em Istúriz, de LCR, os meios
para exprimir claramente sua mensagem. A pressão popular foi ali de novo
decisiva, e Istúriz acabou declarado vencedor, embora com uma estreita
margem.
Excetuando o Estado de Bolívar e o DF, LCR venceria em apenas mais
duas prefeituras, ambas bastante pequenas. Foram as prefeituras do município
de Miranda, no Estado de Carabobo, onde repetiu seu triunfo de 1989 com
30,05% dos votos válidos, e do município de Arismendi, no Estado de Nova
Esparta, onde obteve com 1.823 votos uma porcentagem de 27,74% dos votos
válidos. Afora essas unidades, LCR alcançou médias baixas de votação no
resto do país. Apenas médias de um único dígito ou frações minúsculas, exceto
em alguns municípios do Estado de Miranda, em Cabimas no Estado de Zúlia,
e Santos Michelena no Estado de Arágua: em nenhum desses casos, no
entanto, chegou a sobrepujar os 16% do total de votos válidos.
Nas eleições nacionais de 1993, o esquema bipartidário AD-Copei,
vigente na Venezuela desde fins da década de 1960, foi rompido. Uma aliança
do MAS com a dissidência do partido Copei, centrada no movimento eleitoral
Convergência, bem como com um forte grupo de pequenos partidos de
diversas tendências políticas ― grupo conhecido durante a campanha como "el
Chiripero"1 ― conseguiu a vitória de Caldera, com 30,45% dos votos válidos. O
segundo lugar foi duramente disputado entre três candidatos, ficando
oficialmente LCR em quarto lugar, com 21,94% do eleitorado. A AD ficaria em
segundo, com 23,59%; e o Copei em terceiro, com 22,74%. Relativamente aos
resultados para o Congresso Nacional, LCR se transformou no terceiro partido
político da Venezuela, deslocando dessa posição o MAS. Neste período (1994-
1998), LCR começaria com uma significativa bancada parlamentar, composta

1
Chiripero é o coletivo de chiripas, pequenos insetos semelhantes à barata, comumente
vivendo em grupos. Pela capacidade de se adaptar e sobreviver a diversos ambientes, sua
imagem foi popularmente associada à de vários políticos, sobretudo nessa conjuntura eleitoral
venezuelana de 1993. (N. do Trad.)
135

por 9 senadores e 40 deputados, número muito superior ao que o MAS havia


atingido em toda sua trajetória.

MUDANÇAS NO DISCURSO
É lícito perguntar-se se este processo contínuo de expansão de LCR,
entre 1989 e 1993, trouxe atrelada a si alguma transformação de seus objetivos
e de seu discurso. Salta à vista uma primeira reflexão. O líder fundador,
Maneiro, foi o principal pensador político do grupo, não apenas no tocante à
elaboração dos diagnósticos da realidade venezuelana voltados às estratégias
e táticas políticas, mas também no que concerne à concepção do tipo de
organização e à ideologia que deviam orientar LCR. A morte de Maneiro, em
1982, significou por isso uma perda muito significativa, que foi remediada
apenas em parte.
Enquanto Maneiro esteve à frente de LCR, mantiveram-se vivos o
debate e a polêmica. Os diferentes jornais que seu grupo foi fundando com o
propósito de fincar as raízes da organização nos movimentos populares
refletiam seu afã de sedimentar e pôr à prova as ideias que ele havia
concebido a respeito dos movimentos populares, a vanguarda e a política em
geral. Além disso, PRAG e Água Mansa contribuíram, nos anos 70 e começo
dos 80, para uma maior circulação de ideias acerca da realidade venezuelana,
bem como acerca das exigências organizativas de um partido que dizia
perseguir "a revolução social". É de assinalar que o quadro conceitual a partir
do qual a reflexão era realizada no interior de Venezuela 83 e de LCR era
fundamentalmente marxista, embora não se tratasse de um pensamento
ortodoxo. Vimos atrás como Maneiro deu especial importância aos conceitos
de movimento popular e vanguarda. Escreveu sobre a relação entre ambos, e
uma de suas preocupações constantes era a de como se poderia garantir na
vanguarda a eficiência e a "qualidade revolucionária". Sua grande recusa do
PCV levou-o a conceber uma organização apartada dos parâmetros leninistas,
nos quais se moviam quase todos os outros partidos na Venezuela. Segundo
ele, era preciso criar um partido a partir de baixo, organicamente vinculado ao
movimento popular; um partido em permanente construção e uma ideologia
136

sempre em movimento, construindo-se na medida e juntamente com as lutas


populares.
Os escritos de Maneiro posteriores às eleições nacionais de 1973 e à
bonança petroleira na Venezuela de 1974 revelam também outros conceitos e
palavras-chave de seu discurso. A democracia, por exemplo, presente desde a
ruptura com o PCV, fez-se mais reiterativa e clara: impõe-se a necessidade de
dar impulso a uma discussão sobre a democracia, pois a concepção que
prevalece é a versão adeca, que alude à renovação, a cada 5 anos, de
vereadores, deputados, senadores e presidente da República, o que é uma
expressão mínima, puramente eleitoral da democracia. O tema das versões de
democracia foi desenvolvido a propósito da situação municipal e dos direitos
humanos, propondo-se uma democracia radical como bandeira da esquerda. A
bonança petroleira, por sua vez, obrigou a modificar o diagnóstico da realidade
venezuelana e as condições nas quais haveria de desenvolver-se o movimento
popular. Segundo Maneiro, as medidas populistas então implementadas pelo
primeiro governo de Pérez golpeavam a capacidade de negociação dos
sindicatos revolucionários, debilitando-os tanto quanto o fazia à esquerda em
geral.
Durante esses anos, em que pese ao claro esforço por diferenciar-se do
resto das organizações políticas de esquerda, Maneiro não negou seu
posicionamento marxista, nem sequer de esquerda. Em uma entrevista
concedida a Agustín Blanco, em 1981, disse que recusava "o esquerdismo", e
que ele, Maneiro, considerava-se mais de esquerda do que muitos daqueles
que o julgavam não ter esta posição política. Indagado se LCR era marxista,
Maneiro replicou questionando se era necessário haver uma etiqueta de uso, e
considerou isto um falso problema. Disse também que a ideologia da
organização era democrática no sentido que lhe deu Marx: "(...) no momento
em que o movimento revolucionário conquiste o poder, conquistará a
democracia". Em seguida, ressaltou que qualificá-los ― a ele e à organização
― de marxistas era apresentá-los de uma maneira fácil que os identificava com
aquilo com que não desejavam ser identificados, isto é, os partidos como o
MAS e a Liga Socialista. Maneiro preferia apresentar uma prática e que as
pessoas a julgassem. Somente aceitaria a afirmação de que LCR era marxista
se fosse aceito que ela era a única organização marxista na Venezuela.
137

Como advertimos, LCR foi construída sobre bases teóricas dentro dos
parâmetros do marxismo. Suas ações políticas, por sua vez, vinham
respaldadas por constantes diagnósticos da realidade sociopolítica
venezuelana, elaborados principalmente por Maneiro. Nos anos 80, incorporou-
se a este conjunto de ideias a do "centro político", a que já aludimos a respeito
da candidatura de Jorge Olavarría. O que aconteceu depois da morte de
Maneiro foi antes a utilização desses diagnósticos, conceitos e ideias, para
reinterpretá-los à luz de dois novos fatos: a preeminência de Matancero como o
movimento popular principal e a paulatina conversão do partido em uma
organização com opção real para governar, tanto em esferas locais e regionais
como na esfera nacional.
Em 1990, Velásquez, já governador do Estado de Bolívar, disse que era
uma ideia fundamental de LCR ― uma parte mesmo de sua ideologia ― a de
que "os trabalhadores podem governar". Com isso, tornava preciso o setor
social que LCR representava e dava uma mudança de termo à expressão
"classe operária" do discurso passado, buscando um sujeito político mais
amplo. Usar-se-ia dai em diante "os trabalhadores" em todos os discursos
desta organização política. Pablo Medina, secretário-geral e um dos
fundadores da organização, foi ainda mais direto neste aspecto: para ele, LCR
era um partido dos trabalhadores. Isso se refletia em sua direção ― segundo
ele ― formada majoritariamente por trabalhadores. A razão lhe parecia clara: a
liderança dos trabalhadores está acima da estudantil na Venezuela, e se não
era capaz de superar os intelectuais em termos de conhecimentos,
sobrepujava-os no terreno político.
Esta posição central dos trabalhadores (um termo que dilui e amplia o de
operários) pode ser considerada uma redução do pensamento de Maneiro
sobre LCR. Na realidade, não se encontra em seus escritos mais conhecidos
esta sorte de "sujeito último" do movimento de movimentos que era a
organização. Mas é lógico pensar ― em razão da matriz marxista e da
concepção de que o projeto se constrói na ação do movimento popular ― que,
de forma alguma, isso era contraditório com sua maneira de conceber a
organização. Diríamos que é um derivado histórico da hegemonia que adquiriu
o movimento de Matancero, uma vez que desapareceram os outros
movimentos. É de notar, ainda, que tampouco se voltará a falar do problema da
138

vanguarda, embora continue mantendo-se a condição de ser ativista social


para se poder militar no partido.
A partir do triunfo de Velásquez, em Bolívar, a necessidade de dar
algumas respostas às exigências de governo foi esboçando outros elementos
para configurar, de maneira ainda vaga, a ideia do objetivo de LCR para a
sociedade venezuelana. Estes elementos careciam de um maior
desenvolvimento teórico ou fundamentação conceitual, refletindo a tendência a
uma visão pragmática e imediatista da política por parte da organização. O
programa de governo de Velásquez ao tomar posse em 1990 pode ser
considerado, em escala regional, o embrião do projeto sociopolítico de LCR,
um embrião que se desenvolverá anos depois no partido Pátria Para Todos,
quando LCR dividiu-se em 1997, e uma parte de seus dirigentes fundou esta
nova organização política. O programa constituía-se de quatro "grandes linhas"
orientadoras: primeiramente, o exercício da democracia, entendida não apenas
como uma forma de eleger, mas também de governar. Em segundo lugar,
acabar com a corrupção. A terceira se referia a conseguir eficiência e clareza
nos serviços, especialmente em saúde, educação e segurança pessoal. A
quarta linha, desenvolver a região de Guayana de acordo com alguns critérios
que se mostravam divergentes do desenvolvimento dessa região segundo o
concebido pelo Estado venezuelano. LCR propunha então não a estratégia dos
megaprojetos para uma indústria fundamentalmente de exportação de matéria-
prima (ferro, alumínio, bauxita), mas um desenvolvimento básico e estratégico
com uma indústria média e manufatureira que realizasse no próprio Estado a
transformação da matéria-prima.
Em 1991, com a atenção voltada não somente para a reeleição de
Velásquez como governador, mas também para a construção de sua
candidatura à presidência da República em 1993, LCR adiantou o que, na sua
maneira de ver, era um projeto alternativo para a sociedade venezuelana. As
linhas desse projeto eram similares às esboçadas anteriormente para a região
de Guayana, conquanto na quarta linha tenha-se acrescentado "a recusa à
privatização a todo o custo". Da mesma forma, como novidade, estava
presente um ingrediente nacionalista que antes não havia recebido maior
ênfase. Velásquez afirmara: "é [será] um governo (...) com amor à pátria, que,
em minha opinião, não existe."
139

Importa assinalar que os componentes do discurso de LCR em relação


ao desenvolvimento econômico desejável para a Venezuela eram pouco
definidos, simples e formavam parte do discurso de oposição que, nesses
anos, era promovido por um grupo de dissidentes do Copei, liderados por
Caldera, por alguns independentes e pelo partido MAS, que juntos iriam
constituir o movimento eleitoral Convergência para dar impulso à candidatura
presidencial de Caldera. Em geral, a equipe do programa de governo de
Caldera apresentou declarações mais bem elaboradas do que LCR sobre um
desenvolvimento econômico alternativo ao projeto de natureza neoliberal que
os partidos AD e Copei apoiavam. Os outros elementos do discurso de LCR
tampouco traziam grande originalidade, não obstante o fato de que enfatizar a
origem "trabalhadora" do governo de LCR e respaldar isso com evidências de
idoneidade no manejo dos recursos públicos dava à organização, em certos
setores sociais, um atrativo de que os outros grupos careciam.
Na campanha eleitoral de 1993, LCR apresentou à opinião pública um
documento-base de seu projeto para a Venezuela. Na introdução, apontava-se
a imperiosa necessidade de empreender-se uma retificação do rumo que
seguia a sociedade e encaminhá-la na direção de uma sociedade "justa,
equilibrada, tolerante, solidária, eficiente, produtiva e civilizada". O projeto se
baseava em dois grandes delineamentos para alcançar seu objetivo: uma
radical transformação cultural e uma revolução produtiva. A primeira
pretenderia que "o conjunto da sociedade esteja formado por verdadeiros
cidadãos, que possam desfrutar da liberdade que lhes pertence e de todos os
bens que a vida em sociedade oferece". Empreenderia como tarefa, entre
outras, a democratização da vida social em todas suas instâncias, uma
profunda reforma educativa, a instauração de um Estado de direito mediante
reformas do ordenamento legal da República, reforma urbana, programa contra
a corrupção e relançamento das noções de pátria e soberania.
A revolução produtiva buscaria deixar para trás a economia "rentista".
Entendia-se por isto o avanço rumo a uma reforma petroleira integral,
reconhecendo-se que se manteria esse caminho como o principal da atividade
econômica, porém não como renda, mas sim em sua capacidade produtiva. A
reforma se apoiaria em três bases: primeiro, permanência na OPEP sempre
que houvesse reciprocidade; segundo, desenvolvimento de associações
140

estratégicas complementares para obter-se apoio financeiro, tecnológico e


acesso a mercados ― consoante essa ideia, as associações deviam abrir-se
também ao capital nacional, e não só ao internacional ― e, terceiro,
transformar os hidrocarbonetos na maior quantidade possível de produtos
elaborados não destinados à produção de energia. Esta política petroleira seria
complementada por um desenvolvimento do potencial agroalimentar do país,
uma estratégia industrial com ênfase na pequena e média indústria, com o que
se podia expandir o mercado interno, considerado neste projeto como a
condição necessária para uma saída racional ao mercado externo. Entre outros
aspectos econômicos, mencionavam-se: o reconhecimento da necessidade de
estimular a ciência e a tecnologia como forças motrizes para a revolução
produtiva; a diminuição do deficit fiscal com descentralização; a realocação dos
trabalhadores desempregados, assim como a necessidade de dar-lhes novos
aprendizados técnicos; a renegociação da dívida; a privatização das indústrias
que não fossem as estratégicas; e, por fim, uma reforma tributária progressiva,
que incluísse um imposto sobre capitais venezuelanos investidos no exterior.
Muitas dessas orientações, vistas como novidades naquele momento,
reaparecerão anos depois no projeto político que alcançará a hegemonia sob a
direção do presidente Chávez.
Independentemente de desdobramentos ulteriores (aos quais
dedicaremos nossa atenção nos capítulos seguintes), que levaram primeiro à
sua divisão e depois a uma pronunciada descaracterização ideológica e
debilitação política, LCR foi o meio que facilitou nos anos 90 o reaparecimento
dos setores populares no espaço político, permitindo a eles que fossem
ouvidos depois de anos de esquecimento e supressão. O caminho que ensejou
essa mudança foi aberto graças à descentralização do Estado e ao
posicionamento seguro de LCR no trabalho local. LCR não era uma
organização política nova: estava ali, por assim dizer, trabalhando em
sindicatos e bairros sem trair seus princípios nem cair em corruptelas. A
população pobre e média, ao encontrar-se órfã de canais de mediação com o
Estado, reagiu prestando seu apoio a LCR, a organização que mais claramente
havia-se mostrado alheia à cumplicidade com o sistema político tradicional,
quer na teoria quer na prática. LCR recolheu, então, os frutos de sua
perseverança de duas décadas.
141

CAPÍTULO 7

CONVERGÊNCIA E MBR-2001

Em meio à crise de legitimidade dos partidos tradicionais (AD e Copei),


foram emergindo nos anos 90, além de LCR, outros novos atores políticos que
buscavam o apoio de um eleitorado desencantado e falto de representação e
mediações. O movimento eleitoral Convergência Nacional foi o primeiro a
conseguir capitalizar o descontentamento geral, nas eleições de 1993,
conduzindo o doutor Rafael Caldera a sua segunda vitória eleitoral. Depois
desse triunfo, o movimento transformou-se no partido Convergência, que
apoiou a gestão de Caldera ao longo do período constitucional de 1994-1999,
entrando em seguida em uma fase de declínio. Neste segundo governo de
Caldera, o Movimento Bolivariano 200 (MBR-200) começou sua atividade
pública. Atuaria, entre 1992 e 1997, como organização política, e nesse último
ano decidiu constituir uma estrutura eleitoral ― o Movimento V (Quinta)
República (MVR) ― com a qual o militar de reserva Hugo Chávez Frías obteria
a vitória na eleição presidencial de dezembro de 1998.2 A partir de 1999, o
MBR-200 tendeu a desaparecer. Do mesmo modo que LCR, estas
organizações evidenciavam uma busca difícil, por parte da sociedade, para
reconstruir os vasos comunicantes entre a sociedade e o Estado, perdidos na
deterioração dos partidos signatários de Puntofijo. Estas organizações
estreantes revelavam, tanto em seus pontos fortes como em suas debilidades,
as características em mudança das relações de poder durante essa década.
Este capítulo é dedicado a estudar as organizações Convergência e
MBR-200 a partir de uma análise da origem e do desempenho político de
ambas até 1996. O MVR, de estrutura eleitoral, metamorfosear-se-ia em

1
Este capítulo está baseado em Actores emergentes en la crisis de legitimidad del sistema
político: La Causa R, Convergencia y el MBR-200 (Margarita López Maya), Cuadernos del
CENDES, Nº 32, maio-agosto, 1996, pp. 36-60. (N. da A.)
2
Hugo Chávez obteve 56,2% dos votos, contra 39,9% de Henrique Salas Römer, do Projeto
Venezuela. Cf., adiante, Cap. 9. (N. do Trad.)
142

seguida no partido de Hugo Chávez, alcançando importantes êxitos a partir de


1998. Mas, deixaremos para nos ocupar deste partido no capítulo seguinte.

CONVERGÊNCIA: DE MOVIMENTO ELEITORAL A PARTIDO DE GOVERNO


Assim como afirmamos que LCR foi a organização política que maior
proveito pôde tirar das condições críticas do sistema político venezuelano e do
declínio de seus atores hegemônicos após o Caracaço, o doutor Rafael
Caldera foi também um grande beneficiado da situação política e do mal-estar
social e econômico do início da década. Fazendo dentro dos limites da
institucionalidade uma oposição acerba ao segundo governo de Andrés Pérez,
o ex-presidente conseguiu uma ascensão contínua de sua popularidade, o que
o levaria pela segunda vez à presidência da República, em 1993. Através da
construção de um movimento eleitoral, a Convergência Nacional, e uma aliança
de partidos ("el Chiripero"), Caldera foi capaz de romper o monopólio que
desde 1958 os partidos AD e Copei detinham nas eleições presidenciais.
O nascimento da Convergência Nacional como organização político-
eleitoral deu-se em junho de 1993, quando de sua ― assim considerada ―
Primeira Assembleia Nacional, celebrada em Los Caracas, um balneário do
litoral central pertencente ao DF. Em 3 de julho desse ano, foi assinada a ata
constitutiva; no dia 7, o Copei expulsou de suas fileiras o ex-presidente, e em
23, foi inscrita a candidatura de Caldera no CSE com o respaldo da
Convergência Nacional e outros 12 grupos políticos. A Convergência Nacional
foi concebida como um instrumento para aproveitar o grande movimento
eleitoral criado em torno da figura do ex-presidente. A virtude deste
personagem repousava em seu potencial para canalizar os votos dos
independentes na conjuntura de dezembro de 1993, pois, embora Caldera já
tivesse recebido a nomeação presidencial do partido MAS, e posteriormente
foram-se somando a ele outras organizações partidárias de natureza e doutrina
diversas (como o MEP, o MIN e o PCV1), a vitalidade de sua candidatura
provinha dos independentes. Criar uma organização para as eleições
significava oferecer ao eleitorado a possibilidade de votar em uma legenda que

1
Movimento Eleitoral do Povo, de esquerda socialista; Movimento de Integridade Nacional, de
centro-direita; e Partido Comunista da Venezuela. (N. do Trad.)
143

não se identificava com nenhum partido do passado. Essa legenda foi a da


Convergência, que trazia o emblema de uma pirâmide invertida e suas três
cores: amarelo, verde e vermelho.
A Convergência nutriu-se, inicialmente, de um conjunto variado de
movimentos, muitos dos quais eram originários do Copei: Copeianos com
Caldera, Renasce e Convergência Agrária (Maldonado, entrevista, 1996). Mas,
houve também inúmeros grupos independentes que ofereceram seu apoio ao
ex-presidente. Entre eles, distinguem-se a Associação Nacional de
Independentes (ANDI), um grupo de notáveis que promoveu um ato chamado
"Venezuela vem primeiro", e outro muito evidente, conhecido como grupo
Tecoteca, cujo nome provinha do edifício em que se reunia, em Caracas. Entre
os membros deste grupo, havia algumas personalidades acadêmicas que
haviam colaborado na formulação do programa de governo difundido durante a
campanha eleitoral, figuras que depois assumiriam cargos-chave na gestão do
governo.
A estratégia da Convergência de apresentar-se como um movimento
eleitoral de independentes alcançou êxito e Caldera venceu as eleições com
um total de 1.710.722 votos válidos, o que correspondeu a 30,46% dos votos
válidos emitidos. Desse total, a Convergência foi responsável por 956.529
votos, que representaram 55,9% do total da aliança. O MAS foi a segunda
força, responsável por 595.042 votos da vitória de Caldera (ou seja, 34,8%).
Além disso, a Convergência obteve um total de 6 senadores e 26 deputados,
constituindo-se na quarta bancada parlamentar do Congresso, com um número
ligeiramente superior ao MAS.
Uma vez terminada a etapa eleitoral, o grande desafio desta
coordenação dos movimentos eleitorais de Caldera era converter-se em uma
organização capaz de dar sustentação política ao governo e de manter uma
existência duradoura. Na assembleia nacional de fundação, em 1993, algumas
normas organizativas gerais já haviam sido estabelecidas e foram ampliadas
nos dois anos seguintes, de modo a constituir a incipiente estrutura do partido.
Em 1996, a Convergência possuía dois documentos oficiais: os estatutos,
elaborados e aprovados por aclamação na Segunda Assembleia Nacional da
Convergência, celebrada no Poliedro de Caracas, em junho de 1995; e uma
144

Declaração de princípios e programa de ação, também aprovada por


aclamação nessa assembleia.
Desses dois documentos e das entrevistas feitas em 1996 com membros
da Convergência, desponta como sua característica básica a permanente
referência a construir uma identidade e a seguir uma conduta que diferisse
claramente dos partidos tradicionais.1 Por exemplo: a Convergência concebia-
se como uma organização de quadros e não de massas, pois em vez de
militantes ― dizia-se ― atraía a adesão de "voluntários", entre cujas
características devia estar a "habilidade política" (cf. Estatutos). Segundo os
entrevistados, na Convergência buscavam-se os líderes naturais de uma
comunidade. Conforme supunham, um líder deveria ter pessoas que se
vinculassem a ele ou, então, que existissem em sua área pessoas interessadas
por sua comunidade, que mesmo sem ser líderes, iriam vinculando-se a uma
liderança. Com todos eles reunidos, formava-se uma equipe a serviço da
comunidade. Não havia seccionais, nem células, mas "comandos de atividade
solidária", nos quais os voluntários se agrupavam em torno de um ou vários
coordenadores, de acordo com as tarefas que fossem fixadas. Os
coordenadores eram eleitos no interior do comando. Constituíam-se, pois,
esses comandos seguindo o traçado espacial dos centros de votação, visto que
o projeto, segundo os estatutos, previa que a cada centro de votação
correspondesse um comando de ação solidária.
Outro ponto em que punham muita ênfase os convergentes era o de
fomentar um esquema horizontal e aberto em suas estruturas para
apresentarem-se como o oposto da verticalidade e autoritarismo dos partidos
tradicionais. Sendo antes uma coordenação de comitês eleitorais que um
partido propriamente dito, na Convergência existia muita autonomia dos
comandos de ação solidária. A bancada parlamentar também gozava de
autonomia quase total, definindo os posicionamentos da organização em
matéria legislativa. Mas, como organização derivada de uma conjuntura
eleitoral e ainda em processo de construção, sua lógica organizativa era, na

1
Uma das maiores dificuldades deste estudo foi a de ter acesso aos dirigentes da
Convergência. Depois de reiteradas tentativas, pudemos entrevistar: Néstor Maldonado,
fundador do partido e um dos 10 coordenadores nacionais da Convergência (1996); Juan
Francisco Sosa Maury, subchefe da bancada parlamentar (1996), e Vladimir López, assistente
de Manuel López Ruiz, representante da Convergência no CSE (1996). (N. da A.)
145

prática, bastante vertical, indo de cima para baixo, isto é, do núcleo formado
pelo Comando Nacional até às regiões e localidades. De fato, realizavam-se
primeiramente as assembleias nacionais e a partir delas as assembleias
regionais para legitimar as autoridades desse nível. O nível local, segundo
reconheciam seus líderes, era o mais débil.
Um traço interessante era a atitude dos membros da organização ante
os procedimentos para a tomada de decisões. Já assinalamos que a
declaração de princípios e os estatutos foram aprovados por aclamação na
Segunda Assembleia Nacional. As decisões internas, tanto no Comando de
Coordenação Nacional como na bancada parlamentar e nas diferentes
estruturas da Convergência, eram tomadas por consenso sem necessidade de
votação. Nas palavras do deputado Juan Francisco Sosa Maury: "Nós não
cremos no voto por uma razão de princípios. O voto é uma expressão contável,
numérica; não é, de modo algum, o desenvolvimento de uma tese. (...) Cremos
no voto como o final do processo, mas esse processo deve passar por uma
elaboração conceitual. Eu fundamento minhas razões e propicio um consenso
em torno de meus argumentos, mas não os forço com o voto. Graças a Deus,
até agora, no interior da bancada, não tivemos necessidade de votar". O
professor Maldonado confirma esse procedimento de se chegar ao consenso
sem votar também em relação ao Comando de Coordenação Nacional. Este
comando era a instância executora da política da Convergência e estava
constituído por dez coordenadores, sendo encabeçado por Juan José Caldera
(filho do presidente) como coordenador geral nacional.
Em termos de doutrina, os estatutos da Convergência, assim como sua
declaração de princípios e programa de ação, expressavam a inspiração cristã
da organização. Como objetivo fundamental estabelecia-se a "realização de
uma autêntica democracia na Venezuela", entendida como uma democracia
participativa. Igualmente, na declaração de princípios, apontava-se a
Convergência como um movimento a serviço do "bem comum" e "por
conseguinte, solidário com a luta social de Rafael Caldera". A ênfase na figura
do doutor Caldera como centro e fim da organização foi reconhecida pelo
deputado Sosa Maury da seguinte maneira:
Nossa transcendência como movimento passa por definir que somos um
movimento calderista sem timidez. Com isso, amarramo-nos a uma teoria e a
146

uma prática exemplificada em uma vida. Se nos amarramos a isso, teremos


transcendência. Se assumirmos um caráter diferente do calderismo por algum
motivo pessoal ou histórico, então certamente perderemos essa transcendência.
Nós nos amarramos a suas ideias, as ideias da visão cristã da política. Ele é um
dos grandes propugnadores das ideias da visão social-cristã da política. Ao
amarrarmo-nos a isso, estamos fazendo atividade cristã na política e isso faz
você transcendente; você vai-se incorporando a um conceito de homem bem
definido, a um conceito de sociedade, de partidos, a conceitos claros no campo
da ação econômica; você tem, pois, um claro projeto ideológico, que você abraça
através de um homem (...).

Porém, em pouco tempo, a Convergência perdeu seu caudal eleitoral.


Nas eleições regionais de 1995, a Convergência desceu ao quinto lugar como
força nacional. Não obstante, com seu candidato Eduardo Lapi, venceu para
governador do Estado de Yaracuy (o torrão natal de Caldera), com 45,77% do
total de votos válidos. Lapi fora apoiado por uma aliança Convergência-MAS-
URD-FURC46-AP-MEP-U, ficando a Convergência como o primeiro partido do
Estado. Em termos absolutos, Lapi venceu com 57.049 votos, dos quais a
Convergência lhe trouxe 47.547, ou seja, 83,34% dos votos aliados. No Estado
de Lara, a Convergência participou da aliança que deu a Orlando Fernández a
vitória para governador. Neste caso, Fernández ganhou com 152.183 votos,
sendo 36,36% deles conseguidos pela Convergência (isto é, 55.347, além dos
87.091 do MAS) e ficando como o segundo partido da aliança e terceiro do
Estado. Além desses dois casos em que sua participação foi decisiva, a
Convergência participou das alianças que deram a vitória a Jorge Carvajal (AD)
no governo de Bolívar, Rafael Tovar (Copei) em Nova Esparta, Ramón
Martínez (MAS) em Sucre, e Iván Colmenares (MAS) em Portuguesa. Nestes
casos, sua contribuição foi menor, embora importante, nas alianças que
permitiram o triunfo desses candidatos.

O MBR-200: BUSCANDO REPRESENTAR A "VENEZUELA PROFUNDA" 1


Em 26 de março de 1994, o presidente Caldera libertou da prisão o
tenente-coronel Hugo Chávez Frías, o cabeça da insurreição militar de 4 de
fevereiro de 1992. Ao sair da prisão, atuando então como civil ― pois serem

1
Esta imagem foi utilizada por Diego Bautista Urbaneja em uma exposição que fez das
tendências políticas em marcha na Venezuela, no Centro Gumilla, em janeiro de 1996. Ele
chamava acertadamente a tendência de "a Venezuela profunda" ao fazer uma analogia com
outros fenômenos políticos na América Latina: o mais conhecido deles é o dos zapatistas de
Chiapas, no México. (N. da A.)
147

reformados das Forças Armadas foi um requisito exigido pelo governo para
conceder liberdade aos responsáveis principais das intentonas de 1992 ―
Chávez anunciou sua disposição de converter o MBR-200 em uma organização
política, em cuja liderança concorreria à presidência da República. É a partir
dessa data que se abre o desafio de converter um movimento que até então
havia sido predominantemente militar, e por muito tempo clandestino, em uma
organização política capaz de chegar ao poder por vias institucionais.
A história do MBR-200 foi intensa e singular no contexto da política
venezuelana. Por quase dez anos, foi um agrupamento majoritariamente
militar, que operava no silêncio dos quartéis, estando seus dirigentes
estudando e diagnosticando a realidade do país para finalmente conspirar
contra a ordem política estabelecida. Sua denominação provém dos desejos de
seus fundadores de emular a conduta e a ação de Simón Bolívar ― e o número
200 refere-se ao bicentenário do nascimento do prócer, celebrado em 1983,
ano no qual o grupo militar teria principiado suas atividades políticas.
Segundo os membros da organização que entrevistamos em 1996, o
MBR-200 nunca foi concebido como um instrumento exclusivamente castrense.
Ao contrário, Chávez nos asseverou então que sempre haviam recusado os
sectarismos ou fundamentalismos militares. Assegurou, ainda, que desde
quase o começo buscou-se articular o movimento com grupos civis para
imprimir nele um cunho cívico-militar. Esses civis procediam de familiares e de
amigos dos jovens militares, muitos dos quais já pertenciam a organizações da
esquerda venezuelana. Por volta de 1996, a relação cívico-militar havia
alcançado uma situação mais equilibrada e expressava-se no diretório
nacional, nomeado nesse ano, formado por dois militares de reserva (Chávez,
como diretor geral, e Luis Dávila), um ex-funcionário da PM (Freddy Bernal), e
dois civis, sendo um deles uma mulher (Letícia Barrios e Samuel López).
Igualmente, o MBR-200 pretendia manter no futuro essa dupla natureza civil e
militar, e embora seus membros reconhecessem os riscos e tensões que isso
encerrava, consideravam que ambas as perspectivas se completavam e
conferiam originalidade à organização. Contudo, punham a todos nos limites da
148

legalidade, pois na Venezuela de 1996 os militares careciam de direitos


políticos.1
Diferentemente de outras organizações emergentes que se esquivavam
das formalidades, o MBR-200 cultivou desde o início uma vasta documentação
que expressava suas bases ideológicas e programáticas, as propostas
organizativas, a estratégia e as táticas, e suas posições diante de diversos
problemas da realidade nacional. Em termos ideológicos, o MBR-200 se
instituía como uma organização nacionalista, que procurava na história política
do país e da América Latina os fundamentos de sua doutrina. Expressava
mediante o símbolo da "árvore das três raízes" as origens de seu pensamento:
por um lado, o pensamento de Simón Rodríguez, preceptor de Bolívar, que
buscou a originalidade nas formas de organização social e política da
sociedade; o pensamento do próprio Simón Bolívar, que, segundo eles, trazia
um caráter distanciado de extremos ideológicos e tendente ao equilíbrio; e as
ideias de Ezequiel Zamora, caudilho da Guerra Federal, que, ainda segundo
eles, determinavam os ingredientes reivindicativos e democráticos de sua
ideologia (o lema de Zamora nessa guerra do século XIX era "Terras e homens
livres, eleição popular e horror à oligarquia"). Os documentos, bem como os
próprios líderes do MBR-200, referiam-se constantemente a esses três
personagens da história venezuelana para fixar suas posições e elaborar suas
propostas. Por outro lado, punham eles muita ênfase no caráter democrático do
movimento, considerando-o "(...) um processo, como um ente profundamente
dinâmico, com diversas forças libertadas e em movimento" (Chávez em Zago,
1992). Apoiavam-se também em Bolívar, que havia dito certa vez que uma
democracia era "(...) um sistema de governo que deve promover a maior soma
de felicidade, a maior soma de segurança social e a maior soma de
estabilidade política". Outro aspecto a que sempre fazem referência nas
entrevistas e documentos dessa época era o tema das fronteiras, muito
sensível para eles e para todo grupo militar e nacionalista. Sustentavam
reiteradamente a necessidade de defender com eficiência essas áreas e

1
Esta situação mudou com a Constituição de 1999, que outorgou o direito de voto aos militares
da ativa. Não obstante, eles não podem ser militantes de partidos nem concorrer a cargos de
eleição popular, como também não podem participar de propaganda política ou fazer
proselitismo político. (N. da A.)
149

buscar o pan-americanismo do Libertador como estratégia nas relações com os


outros países da América Latina.
Ao frustrar-se o golpe de Estado de fevereiro de 1992 contra o
presidente Andrés Pérez, as propostas elaboradas para esse momento pela
organização foram reordenadas com o intuito de adaptá-las às novas
circunstâncias. Entre as medidas que deviam ser tomadas, conforme o
documento Por que nos insurgimos? (em Zago, 1992) estavam a de revogar o
mandato do presidente Pérez, dos congressistas, dos magistrados do Poder
Judiciário e dos membros do Conselho Supremo Eleitoral, através de
referendo, e a de proceder simultaneamente à convocação de uma Assembleia
Nacional Constituinte (ANC) para ir construindo "a saída do labirinto". As
revogações, evidentemente, não puderam ser mantidas depois do malogro do
golpe; mas, em essência, ao longo da década as propostas do MBR-200 não
diferiram tão acentuadamente das iniciais, pois valiam-se de um diagnóstico
que não se modificou. Os membros do MBR-200 argumentavam que a
Venezuela atravessava uma crise estrutural, merecedora de soluções radicais.
De 1992 até 1997, a organização concentrou sua estratégia política
fundamentalmente em exigir a convocação de uma ANC, entendida como um
processo constituinte. Esta estratégia estava vinculada à decisão de não
concorrer a eleições em nenhum nível, por considerar que eram uma farsa,
incapazes de traduzir a autêntica expressão popular. Esta posição
abstencionista acarretou a divisão mais importante sofrida pelo MBR-200. Em
1993, Francisco Javier Arias Cárdenas, o ex-oficial de maior prestígio na
organização depois de Chávez, separou-se dela por não concordar com o
abstencionismo. Neste momento e depois, vários outros ex-oficiais se
desligaram, alguns dos quais concorreram a diversos cargos públicos através
de LCR. Arias Cárdenas venceu em 1995 para governador do Estado de Zúlia,
como candidato independente apoiado por LCR e uma organização regional
chamada VOZ.
Os documentos do MBR-200 sobre a ANC são bastante numerosos.
Neles seus membros se pronunciaram por uma transformação global das
estruturas da sociedade para tornar realidade o que Simón Rodríguez chamara
de uma sociedade "original" e "solidária" (MBR-200, 1992). Propunham um
Estado Federal, denominado Estado Federal Zamorano, organizado de modo a
150

possuir cinco poderes: Executivo, Legislativo, Judiciário, Eleitoral e Moral. A


democracia seria "popular", anelando que o povo fosse o protagonista na
tomada de decisões, isto é, que se constituísse uma democracia direta. Em
1994, foram elaborados não menos que sete documentos sobre a Constituinte,
incluindo-se mesmo um anteprojeto de Constituição Nacional.1
Em setembro de 1995, após a celebração de uma Assembleia Nacional
Pró-constituinte Popular, reapareceram algumas propostas específicas de
modificação da Constituição Nacional. Entre elas, distinguiram-se o sistema
parlamentarista de governo, os direitos políticos para os militares e a criação do
Poder Moral.2 No documento desta assembleia, eram criticadas as propostas
de Constituinte dos outros atores políticos, por considerar-se que não refletiam
as aspirações do povo, mas sim que exprimiam os interesses de partidos e
grupos. Para o MBR-200, na história do país os setores populares sempre
foram excluídos e apenas uma vez houve uma genuína "Constituinte popular":
a de 1846, em Barinas, com Ezequiel Zamora, que fora precedida de levantes
populares em mais da metade do território venezuelano. O MBR-200 procurava
reeditar essa situação; por isso, tinha entre suas táticas a de estimular e
conduzir o protagonismo popular como meio de fortalecer e acelerar um
"processo constituinte" que promovesse uma tal assembleia. Para Chávez, o 4
de fevereiro não foi uma intentona militar, mas "uma grande insurgência
popular", que apressou o processo rumo a uma Constituinte.
Os militantes do MBR-200 vinham construindo, desde meados dos anos
90, uma organização de amplitude nacional que, como as outras organizações
que estudamos atrás, opunha-se conceitualmente às tradicionais. O ingresso
na organização se fazia através de um "compromisso bolivariano", com o qual
o neófito prometia ser "honesto, trabalhador, humilde e solidário". Os militantes
se agrupavam nos chamados círculos bolivarianos, que, segundo os
entrevistados, existiam por todo o país. Os círculos eram conduzidos pela
coordenação bolivariana de município ou de corredor ― sendo esta última uma
distribuição espacial que funcionava somente em Caracas. Havia, ainda,

1
Estes documentos foram-me oferecidos por Maigualida Barrera, em 1996, como documentos
oficiais do MBR-200. A ela consigno meu agradecimento. Muitos deles não traziam nem data
nem lugar, mas depreende-se de seu conteúdo que são todos desse ano (1992), e formam
uma sequência. (N. da A.)
2
Dados tomados de MBR-200: Iª Assembleia Nacional Pró-constituinte Popular, celebrada em
9 e 10 de setembro de 1995. (18 pp.) (N. da A.)
151

coordenadores regionais em todos os Estados, além de uma coordenação


nacional e da Direção Nacional. Os militantes do MBR-200 reuniam-se para a
leitura e a discussão política e ideológica. Na contracorrente da formação
militar de seus dirigentes mais antigos, e reconhecendo a dificuldade que isso
encerrava para eles, a organização buscava ser horizontal em tudo e fazer
desvanecer em seu seio as hierarquias militares. Com frequência, eram
convocadas assembleias (municipais, estaduais e nacionais) para colher as
diversas opiniões, sobretudo as que deviam alimentar a elaboração do Projeto
Nacional Simón Bolívar. Os entrevistados foram unânimes em apontar que o
MBR-200 era uma organização de massas.
Afigurava-se difícil, em 1996, estimar a popularidade e a receptividade
nas massas populares dessa organização política e de sua mensagem. Como
a organização não havia concorrido em nenhum tipo de eleição, as avaliações
só podiam basear-se em sondagens e pesquisas de opinião feitas à época,
cujas perguntas e objetivos, contudo, nem sempre foram idôneos. O MBR-200
podia estar sendo beneficiado por certos traços da cultura política venezuelana
que, por essa época, em consequência dos golpes baldados de 1992,
começavam a ganhar relevo. Por exemplo, duas pesquisas de opinião feitas
muito antes da crise de legitimidade do sistema político, no começo da década
de 1970, indicavam que cerca de um terço dos entrevistados venezuelanos via
como positivo que o presidente da República fosse militar. E em meados de
1995, o Latinobarómetro registrava atitudes de desencanto com a democracia
por parte dos venezuelanos em uma medida maior do que a de outros países
da América Latina. À pergunta de se um governo "de mão de ferro" podia ser
bom para um país, 78% dos venezuelanos responderam que sim, podia ser
bom. Essa porcentagem foi superada apenas pela dos peruanos (80%),
enquanto que as porcentagens de Argentina, Brasil, Chile e México foram,
respectivamente, 46%, 52%, 63% e 44%.
Contudo, o estudo de pesquisas de opinião realizadas entre 1993 e
1996 parece mostrar que o MBR-200 e seu líder máximo tendiam a debilitar-se.
Uma pesquisa por amostragem, de caráter urbano e nacional, fixou em 4% a
simpatia pelo MBR-200, no início de 1995 (Consultores 21, em abril). Em
medições posteriores deste mesmo ano (em setembro e dezembro), a
porcentagem baixou para 3%, sendo pouco significativa a diferença por setores
152

sociais. Outras pesquisas por amostragem, de caráter regional, feitas em


diferentes Estados do país nesse mesmo ano, indicaram uma simpatia pelo
MBR-200 que oscilava entre 3% e 1%, também de maneira mais ou menos
uniforme.
Com relação à percepção que existia sobre Hugo Chávez, alguns dados
de diferentes pesquisas de opinião podem servir para uma estimativa geral. Em
meados de 1994, pouco depois de sua libertação da prisão, uma pesquisa
urbana de amplitude nacional com uma amostragem de 1500 casos, realizada
por Consultores 21, indicava um nível de afeição por parte da população de
55%, e de desagrado de 26%. Isto dava a Chávez um índice de popularidade
bastante elevado, da ordem de +29. Em início de 1994, o índice se mantinha
positivo, embora houvesse diminuído para +22. Novas medições em meados e
fim de 1994 e ao longo de 1995 apontavam um declínio importante da
popularidade de Chávez (cf. Quadro 16).

QUADRO 16: EVOLUÇÃO DA POPULARIDADE DOS REFERENTES POLÍTICOS

REFERENTE TRIMESTRE

II-94 IV-94 I-95 II-95 III-95 IV-95

Rafael Caldera 26 15 15 17 6 2

Hugo Chávez * -7 -23 -23 -10 -17

Carlos A. Pérez -59 -50 -46 --- -53 -38

* Hugo Chávez não foi incluído na pesquisa de Consultores 21 neste trimestre. Porém, foi
incluído em uma de Doxa, de julho de 1994. De um total de 1700 entrevistados na AMC (Área
Metropolitana de Caracas), Litoral Central, Guarenas, Guatire, Los Teques e San Felipe, 38%
manifestaram ter total ou muita confiança em Chávez A cifra para Andrés Velásquez, por
exemplo, foi, na época, de 23%. Ao mesmo tempo, 33% dos entrevistados expressaram total
desagrado pelo ex-comandante, e 49% por Velásquez. Esses números dariam um índice de
popularidade +5 para Chávez, neste momento e nesta região.

Fonte: Consultores S.A., Estudio de temas económicos. 4º trimestre de 1995, Informe analítico
de resultados, p. 77.

Uma pesquisa Omnibus de Datanalysis, realizada entre março e abril de


1996, corroborava a mesma tendência e ilustrava o caráter polêmico da figura
do ex-comandante, algo que também podia ser observado nas pesquisas de
153

Consultores 21: enquanto uma porção significativa de independentes


considerava votar nele em eleições nacionais ― Chávez estava em terceiro
lugar, com 9,7%, atrás da prefeita Irene Sáez, com 34,1%, e o ex-governador
Salas Römer, com 10,8% ― outra porcentagem o dava como o candidato de
maior rejeição dos eleitores. À pergunta Qual destes [candidatos] é o que
menos lhe agrada?, Chávez estava em primeiro lugar (17,6%), seguido pelo
líder do Copei Eduardo Fernández (15,6%).

UMA VISÃO COMPARATIVA DE LCR, CONVERGÊNCIA E MBR-200


Em que pese às notáveis diferenças entre a Convergência e o MBR-200,
e entre eles e LCR, existem vários traços comuns entre os três, que estão
relacionados ao contexto sociopolítico no qual surgiram. LCR e a Convergência
pretendiam em tudo afastar-se de esquemas partidários tradicionais.
Desagradava-lhes, inclusive, serem chamados de partidos (o mesmo acontecia
com o MBR-200), preferindo a expressão organização ou movimento. Vimos no
capítulo anterior que LCR fora concebida como uma estrutura que reunia a
força de movimentos sociais e a manifestava politicamente. Em função disso,
os membros desse partido eram fundamentalmente líderes do movimento
popular. A organização não tinha sido pensada como uma organização de
massas, como o fora paradigmaticamente a AD, mas como uma organização
pequena, de qualidade e eficiência. A Convergência também fora concebida
desse mesmo modo; contudo, neste caso o que existia era apenas uma
estrutura provisória que serviu para canalizar movimentos eleitorais em torno
da figura de Caldera. Em seus estatutos, que expressavam o projeto do que a
Convergência pretendia ser, ela era imaginada como uma organização
pequena, cujos "voluntários" eram os líderes naturais da comunidade. Em
ambos os casos, a direção de nível mais alto recusava-se a criar estruturas
organizacionais permanentes além das estritamente necessárias, e resistiam
até mesmo a estas. Rejeitaram secretarias, birôs, diretorias, pois temiam
perder o vigor juvenil e confundir-se com as pesadas estruturas tradicionais.
Igualmente, LCR e Convergência se negavam a ter uma militância
indiscriminada, porquanto consideravam que era algo custoso, prestava-se ao
clientelismo e entorpecia a consciência cidadã.
154

Vinculada a esta concepção que se opunha aos partidos tradicionais, a


vida financeira da organização também adquiriu alguns traços peculiares.
Ambas as organizações não exigiam quotas de seus militantes, mas apenas
dos que ocupavam cargos públicos. Segundo o deputado Carlos Melo, então
dirigente de LCR, a bancada parlamentar do partido contribuía, em 1996, com
uns dois milhões de bolívares mensais. Os recursos financeiros do partido
provinham, ademais, da quota concedida pelo Congresso Nacional. No caso da
Convergência, o laço pessoal era mais frouxo e ela dependia principalmente da
quota facultada pelo Congresso, embora a bancada parlamentar também
contribuísse. Nas entrevistas, afirmou-se que os comandos de ação solidária
deviam conseguir os recursos materiais necessários aos seus trabalhos, e, do
mesmo modo, os candidatos das diferentes disputas eleitorais precisavam eles
mesmos levantar seus próprios fundos. O MBR-200 também não exigia quotas
de seus militantes, encontrando recursos nas colaborações de simpatizantes e,
em especial, deles mesmos. Essas organizações preferiam uma finança
modesta, e até certo ponto precária, para aparecerem de forma distinta e evitar
impulsos censuráveis.
Para esses grupos emergentes, a oposição aos partidos tradicionais
(especialmente à AD) também se expressava na importância que eles davam
ao debate em assembleias de militantes. As três organizações (um pouco
menos a Convergência, por causa de sua pouca capacidade de convocar a
militância no período entre eleições) promoviam frequentemente plenárias e
assembleias; e eram bastante flexíveis (ou as regulamentações se prestavam à
ambiguidade) no que se referia ao número de participantes que ali acorriam. A
delegação tornava-se difícil, pois LCR e a Convergência tinham uma
concepção de partidos de quadros, de modo que todos os integrantes da
organização estavam qualificados para discutir e tomar decisões.
Um aspecto notável que as três organizações compartilharam foi a
reserva diante do mecanismo de votar. Os militantes de LCR eram resistentes
a utilizar o voto como instrumento para chegar-se a um acordo. Para eles, o
voto produzia facciosismo e não era necessariamente a melhor via para
alcançar a resposta mais justa ou verdadeira. Para esta organização, era
mister esgotar a discussão até chegar-se ao consenso. Nunca haviam votado.
Apontamos atrás uma atitude semelhante quanto à Convergência. Já no caso
155

do MBR-200, de fato, votava-se. Por exemplo, o Diretório Nacional de 1996 foi


escolhido mediante votação. No entanto, não era um mecanismo a que se
recorria rotineiramente. A posição abstencionista que defenderam até 1997, e
que provocou em 1993 a mais importante cisão interna, não resultou do voto,
mas de uma discussão levada até ao consenso.
Indubitavelmente, algumas dessas características contribuíram para
tornar atrativas estas organizações durante a etapa de crise e transição dessa
década. O eleitorado repudiava os partidos tradicionais bem como qualquer
organização que se parecesse com eles. Havia o anseio por novas formas de
representação e mediação política, e esses grupos estavam em diversos graus
de sintonia com as aspirações dos cidadãos. Não obstante, os traços que
esboçamos permitiam prever dificuldades para a sobrevivência deles a médio e
longo prazo. Igualmente, algumas de suas atitudes tornavam duvidosa a
qualidade de suas contribuições para a relegitimação do sistema político e para
o aprofundamento da democracia política.
As organizações de massas que, como a AD, surgiram na América
Latina ao longo do século XX foram veículos essenciais para politizar e
mobilizar as maiorias populares do continente. Isso propiciou a participação
popular, ao mesmo tempo em que enraizou e consolidou esses partidos. À
proporção que a AD e o Copei iam deixando de ser partidos de massas para
tornarem-se máquinas eleitorais, foram sendo abandonados esses trabalhos de
educação política e de mobilização popular. Isso contribuiu para o aumento,
desde 1983, da abstenção eleitoral.
A estrutura dos partidos emergentes, que estudamos neste e no capítulo
anterior, por suas características e atitudes, revelava-se bastante frágil para
corrigir a tendência à abstenção e ampliar a participação eleitoral. LCR e a
Convergência não aspiravam a educar as massas ou conduzi-las, mas a
propiciar e expressar politicamente os movimentos surgidos da sociedade civil.
O MBR-200, por sua vez, recusou até 1996 o mecanismo eleitoral como via
para alcançar o poder, fazendo por isso sucessivas convocações à abstenção.
Estas organizações confiavam mais em um certo momentum ― um golpe de
sorte ― para vencer as eleições, do que no trabalho persistente com as
massas como meio de propiciar uma maior e melhor participação eleitoral.
Tanto LCR como o MBR-200 desprezavam a ideia de que o fortalecimento e a
156

consolidação de suas organizações se alcançariam através de uma paulatina


expansão de suas posições no Estado por meio de mecanismos eleitorais.
Almejavam chegar ao poder máximo de uma única vez. Para descrever isso
com uma imagem que eles próprios usavam frequentemente, queriam
aproveitar a crista de uma onda para tomar o poder e em seguida fazer as
reformas. Esta posição, que eles justificavam pela desconfiança que sentiam
em relação aos mecanismos eleitorais, abatia a energia e a disposição
necessárias ao bom funcionamento das estruturas organizativas do partido
para atuar com êxito nas disputas eleitorais. Ao mesmo tempo, no caso
específico de LCR, os triunfos eleitorais entre 1992 e 1995, pelas
responsabilidades que comportavam, também debilitaram sua capacidade de
concentrar-se nas atividades de agitação social. E veremos em capítulos
seguintes que isso, combinado com outros aspectos intrínsecos à sua estrutura
como organização, levou finalmente esses grupos a uma penosa divisão ―
em razão da qual retornaram ao rol dos partidos de escassa relevância
nacional.
A Convergência, em contraste, estimava sua quota de poder: não se
opunha com a mesma veemência ao sistema eleitoral institucional ― como o
faziam LCR e o MBR-200 ― e tinha sua estrutura a serviço do momento
eleitoral. Mas, era uma organização precária em tudo o mais e, exceto pela
figura de Caldera, carecia de liderança. Sua permanência dependia quase
exclusivamente da figura do presidente, cujo papel de protagonista na política
venezuelana ia encerrar-se pouco depois. Seu filho, Juan José Caldera, que
porventura pensou em herdar essa liderança, não sobreviveu a ele de maneira
significativa. A Convergência seria uma das muitas organizações que surgiram
e minguaram no calor da transição.
O MBR-200, em 1997, apresentava características ideológicas que
tornavam difícil pensar em seu crescimento efetivo no futuro. Seu diagnóstico
do processo histórico venezuelano tendeu a afastá-lo da simpatia e do favor de
certos setores sociais, como as classes médias e altas, contribuindo
claramente para os traços de polarização política que veremos desenrolar-se
com agudeza na disputa eleitoral de 1998, e que persistem até hoje no governo
de Chávez. Para os bolivarianos, a história venezuelana dos séculos XIX e XX
é, em essência, a mesma: uma história em que as massas populares foram
157

vítimas das oligarquias, representadas no século XX pelos partidos. Oligarquias


e partidos são as duas faces da mesma moeda. Por isso, cumpria encetar uma
"revolução" na Venezuela começando-se do zero. O MBR-200 afirmava buscar
o poder para revitalizar o projeto nunca realizado de Bolívar e Zamora.
Com esse diagnóstico, Chávez e seus seguidores viam com desprezo as
profundas transformações da sociedade venezuelana do século XX, em
particular o surgimento de importantes setores sociais médios ― fruto da
"Venezuela petroleira" ― que, contudo, não eram necessariamente
"oligárquicos". Assim, a modernização da vida social, a vinculação orgânica da
sociedade com o resto das sociedades do planeta, a mudança profunda do
"venezuelano" ― produto dessa transformação e de um crescimento
imigratório notável, que trouxe à Venezuela um leque de recursos culturais ―
tudo isso pareciam pontos cegos na percepção bolivariana da história do país.
O MBR-200 também não reconhecia que setores populares venezuelanos
haviam entrado na participação política precisamente através dos partidos
populares (sobretudo da AD), e que por isso, durante décadas, não se sentiram
vítimas, mas sim que participaram ativamente do projeto nacional. Para que
uma mensagem como a dos bolivarianos calasse fundo na população ― como,
de fato, ocorreu ― foram necessários não só a prolongação e o
aprofundamento da crise econômica do país, mas também outras
circunstâncias de natureza política e mesmo conjuntural, que justamente
conduziriam essa organização, então mudada em Movimento V República, à
vitória eleitoral de dezembro de 1998 e à cristalização de uma nova hegemonia
na Venezuela.
158

CAPÍTULO 8

NOVOS E VELHOS PARTIDOS DE ESQUERDA EM FINS DO SÉCULO:


MVR, PPT E MAS1

Em meados da década de 90, o desmoronamento dos partidos AD e


Copei continuava sem encontrar organizações substitutas no sistema político
venezuelano que permitissem estabilizar a democracia do país. LCR, que
gerara tantas expectativas no início da década, teve nas eleições regionais e
municipais de 1995 um desempenho considerado "catastrófico" por parte de
alguns de seus dirigentes mais importantes. Isto provocou agudas tensões
internas no partido, o que redundou em sua divisão em 1997, sua consequente
debilitação no cenário político e a constituição do partido Pátria Para Todos
(PPT), que desempenharia um papel importante nos anos seguintes. A
Convergência, como já notamos, não foi capaz de superar os obstáculos de
sua concepção personalista e rapidamente rumou para o declínio. Um
desempenho diferente teve o MBR-200, transformado no Movimento V
República, que alcançou sob esta denominação um papel de protagonista
político nos processos eleitorais de 1998 em diante. Como assinalamos
também, ele se constituiria, ao princípio do século XXI, no partido hegemônico
do emergente sistema político.
Do mesmo modo que ocorrera aos partidos da primeira metade da
década, as organizações que mostraram algum desempenho expressivo no
lustro seguinte estavam condicionadas pelo repúdio à política, em geral, e às
suas agremiações tradicionais, em particular ― circunstância que representou,
desde os anos 80, um ingrediente novo de cultura política compartilhado pela
maioria dos venezuelanos. Esta avaliação negativa modelaria as concepções
organizativas e programáticas dessas organizações que surgiam no calor da
transição e estimularia nelas a inovação das estruturas, a informalidade e as
soluções criativas para aqueles elementos vistos como os principais defeitos
dos partidos tradicionais.

1
Este capítulo está baseado na conferência Partidos de vocación popular en la recomposición
del sistema político venezolano: fortalezas y debilidades (Margarita López Maya), apresentada
no XXIII Congresso da Associação de Estudos Latino-americanos (LASA), Washington,
setembro, 6-8-2001. (N. da A.)
159

Neste capítulo, concentramo-nos em algumas das características dos


partidos de esquerda que alcançam evidência e protagonismo nas eleições de
1998. Sopesamos suas forças e suas fraquezas na luta por sobreviver a médio
prazo e por consolidar um novo sistema político. Comecemos por refletir acerca
dos critérios que são úteis para avaliar a sobrevivência política.

PARTIDOS NACIONAIS E GLOBALIZAÇÃO


Os esforços hegemônicos do MBR-200 (MVR, a partir de 1997)
começaram a produzir frutos nos últimos anos do século. A surpreendente
vitória eleitoral de Hugo Chávez em 1998 e os quatro processos eleitorais
ocorridos em seguida, entre 1999 e 2000, serviram para dar a estes
bolivarianos, respaldados pela aliança de forças políticas conhecida como Polo
Patriótico (PP), o predomínio nos cargos de eleição popular pelos quatro
cantos do país, o controle do Executivo e do Legislativo nacionais, e um
instrumento institucional primordial: a Constituição da República Bolivariana da
Venezuela, com a qual puderam iniciar o assentamento das bases de um
sistema político renovado. Em que pese ao êxito desse desempenho político,
persistem até hoje fortes dúvidas sobre sua real capacidade de sobreviver
neste início de século XXI.
Que critérios podemos empregar para avaliar as possibilidades de
sobrevivência das organizações emergentes? Trata-se de um ponto dificultoso
dilucidar essa questão. Por um lado, se examinarmos as condições
socioeconômicas que constituem a base de uma compreensão inicial da
estrutura social ― que é, em última instância, a que impõe os limites aos atores
representantes dos diversos interesses ― encontraremos que a recessão e a
desorientação econômica presentes no país desde fins dos anos 70 atuam no
sentido de uma mudança definitiva da estrutura social anterior, sem que se
mostre ou se entenda claramente qual seja a nova configuração da sociedade
venezuelana. Ao apresentar-se como diferente da sociedade calcada no
modelo de substituição de importações, essa nova configuração vê revolverem-
se as bases da representação política e as relações de poder do passado, sem
que, contudo, existam paradigmas claros para facilitar uma leitura do tipo de
representação política que poderia ser favorecido pelas novas condições
160

socioeconômicas e sociopolíticas. Por outro lado, essas mudanças internas são


ocultadas e se relacionam muito estreitamente com processos econômicos,
geopolíticos e culturais internacionais dominados pelas forças da globalização
neoliberal. A crescente influência desses processos sobre a política nacional
não é algo fácil de se avaliar com precisão, e torna mais complexa a discussão
sobre quais critérios devem ser utilizados para uma avaliação da sobrevivência
política, mesmo a curto prazo.
Tem-se escrito extensamente sobre a influência que vem exercendo
sobre a mentalidade nacional o senso comum neoliberal, que se vai impondo a
quase todas as sociedades do planeta, sobretudo entre os setores de média e
alta renda, mas também entre os setores populares, em virtude do bombardeio
incessante que lançam sobre as populações as empresas transnacionais de
comunicação. Estes processos ― assinala-se ― fortalecem valores
individualistas, consumistas e imediatistas, todos eles infensos à política
entendida como atividade coletiva, criadora de solidariedades, de bem comum
e de visão de futuro. Sobre a intervenção de atores transnacionais (como o
FMI) ou agências (como a CIA) na política nacional dos países periféricos do
sistema capitalista mundial, ou sobre a intervenção dos EUA na política de
sociedades periféricas, há também uma ampla literatura que apoia o
argumento do enfraquecimento do Estado nacional como um espaço em que
se tomem as decisões-chave ao devir dessas sociedades. Por conseguinte, no
momento de se pensar nas possibilidades de estabilidade de uma nova
hegemonia na Venezuela, é preciso considerar não apenas as circunstâncias e
ações dos atores na arena nacional, mas também as atitudes e práticas menos
ponderáveis de atores poderosos que incidem sobre o âmbito nacional a partir
de um espaço globalizado e submetido à hegemonia neoliberal.
Contudo, aqui nos limitaremos a sopesar apenas certas variáveis do
contexto interno. Embora a sobrevivência política dos partidos emergentes na
Venezuela não dependa tão-só de seu desempenho no seio da sociedade, o
bom resultado neste nível sem dúvida os fortalece nas possibilidades que têm
de não desaparecer rapidamente. De fato ― como veremos em capítulos
seguintes, quando examinarmos as experiências vividas por estas
organizações políticas durante as confrontações de natureza insurrecional que
ocorreram entre 2001 e 2004 ― o desempenho interno bem sucedido em
161

relação aos critérios que aqui utilizamos permitiu neutralizar as poderosas


determinações que as forças hegemônicas do neoliberalismo procuraram impor
a partir da arena internacional.
No âmbito nacional, a consolidação de um partido político reside, de
modo significativo, em conseguir coletivamente e em concorrência
institucionalizar em alguma medida um sistema de partidos (Mainwaring e
Scully, 1995). Para que isso ocorra, é decisivo que as organizações políticas
obtenham alguma regularidade, autonomia e permanência de suas estruturas
organizativas e procedimentos de funcionamento interno, de modo que seu
destino dependa menos de líderes carismáticos particulares, que podem ou
não manter-se durante o processo de consolidação. Igualmente, quanto
possam perdurar esses partidos depende, em grande medida, de conseguirem
lançar raízes na sociedade. Para isso, a atividade de criar uma identidade
coletiva a partir da qual os setores sociais logrem reconhecer-se revela-se algo
imprescindível. A atividade "identificante" é a que permite a geração de
sentimentos de pertinência para indivíduos e grupos sociais; é a que promove,
por sua vez, segurança e valimento, elementos que possibilitam as
solidariedades e as ações comuns no tempo (Pizzorno et alii, 1985). A
atividade identificante modela também as reivindicações e impulsiona as
orientações programáticas de grande fôlego. Por isso, no que se segue,
estudaremos os esforços organizativos e o desenvolvimento da atividade
identificante das organizações MVR e PPT. Incorporaremos em alguns
aspectos o caso do partido MAS, inicialmente da aliança do Polo Patriótico, e
definida por seus próprios dirigentes como uma organização progressista.

ORGANIZAÇÃO E PROCEDIMENTOS INTERNOS DO MVR, PPT E MAS


Como assinalamos reiteradamente em capítulos anteriores, um dos
fatores que mais condicionaram nos anos 90 as estruturas organizativas dos
partidos políticos emergentes foi a atmosfera de repúdio aos partidos
tradicionais que envolvia a política venezuelana. O repúdio à AD e ao Copei ―
acentuado por um contexto internacional e uma matriz de opinião fomentada
por meios de comunicação privados que estimulavam a rejeição à política e
aos políticos ― foi gerando uma opinião negativa em relação aos partidos
162

como organizações em geral, o que levou à situação extrema de os atores


políticos emergentes evitarem denominar-se partidos, preferindo ser
conhecidos como movimentos. Da mesma forma, este preconceito motivou
entre as organizações com vocação popular a exploração de iniciativas
inovadoras quanto à organização e aos procedimentos de participação e
debates internos, mantendo-se à distância dos modos convencionais para não
se parecerem com os partidos tradicionais. Os esforços nesse sentido
indubitavelmente renderam importantes dividendos políticos a partidos como o
MVR, o PPT e o MAS. Em outro sentido, contribuiu também para renovar o ar
da democracia política venezuelana ao preservar a credibilidade nela,
permitindo sua sobrevivência nos anos críticos do início do século XXI. Não
obstante, muitos aspectos atrativos em momentos políticos conjunturais podem
mudar-se em debilidades à sobrevivência da organização quando o que é
transitório desaparece. Os partidos que aqui analisamos estão nesta
encruzilhada.

O MVR
O MVR nasceu em 1997 como uma estrutura eleitoral do MBR-200, visto
que os militantes desta organização ― até então partidários da abstenção nas
eleições ― concordaram em concorrer às eleições que deveriam acontecer em
dezembro de 1998. Naquele momento, a criação do MVR foi pensada como um
passo tático dentro da estratégia geral do MBR-200 de valer-se do poder para
uma nova fundação da República. Foi concebido para acolher todos os
movimentos, agrupamentos políticos e personalidades que se iriam juntando à
candidatura de Hugo Chávez. O MBR-200 continuaria sendo o partido dos
bolivarianos, mas o MVR (cuja composição fora pensada para ter 60% de
militantes do MBR-200 e 40% de independentes) permitiria constituir "uma
grande frente dos setores patrióticos do país, popular e neodemocrática"
(Núñez Tenorio, entrevista, 1997).
É interessante salientar o caráter eleitoral inicial do MVR, pois este traço
lhe evidencia as peculiaridades e o diferencia conceitualmente do MBR-200, do
qual nasceu. A partir de 1999, com a sucessão de processos eleitorais aos
quais o MVR concorreu como o partido do presidente Chávez (e que
estudaremos na parte seguinte desta obra), essa estrutura acabou por
163

substituir o MBR-200, dando, porém, a ela uma lógica distinta da inicialmente


concebida na primeira. Isto acrescentou ainda mais fragilidade à já precária
organização inicial.
O MBR-200, como vimos, foi primeiramente uma organização
clandestina de caráter cívico-militar. A partir de 1989, depois dos dramáticos
acontecimentos desse ano, a organização passou a conspirar contra o governo
de Andrés Pérez, desfechando o golpe militar de 4 de fevereiro de 1992.
Presos Chávez e seus companheiros, foram em março de 1994 libertados por
suspensão da pena, ordenada pelo presidente Caldera. A partir daí, Chávez e
os companheiros ― doravante na condição de militares reformados ―
empreenderam um importante trabalho de expansão da organização.
Um aspecto relevante do MBR-200 até 1997 foi o de que a entrada na
organização era relativamente controlada por seus fundadores, e buscava-se
praticar uma dinâmica que eles definiam como de "baixo para cima". Como já
assinalamos, ingressava-se na organização através de um "compromisso
bolivariano". Os militantes se agrupavam nos círculos bolivarianos, nos quais
se discutia intensamente política. Tais círculos tinham coordenações em nível
municipal e regional. Eram convocadas assembleias municipais, estaduais e
nacionais para colherem-se opiniões sobre diversos assuntos, e eram
realizados esforços conscientes para equilibrarem-se ― mediante uma intensa
exercitação de debate e estudo em comum, assim como do cultivo de relações
interpessoais ― as complicadas relações entre os civis e os militares
pertencentes à organização. Igualmente, eram cultivadas relações horizontais e
procedimentos democráticos, incluindo ― embora excepcionalmente ― o voto
secreto e a aceitação da decisão da maioria como mecanismo para tratar dos
conflitos.
Este processo foi interrompido, ainda em sua etapa inicial, com as
eleições de 1998 e as subsequentes, de 1999 e 2000, quando diante da
impossibilidade de inscrever no CSE o partido com a sigla bolivariana ― era (e
continua sendo) proibido usar o nome de Simón Bolívar para identificar um
partido ― idealizou-se a tática de criar uma estrutura eleitoral. O MVR, vitória
após vitória, passou a desempenhar um papel de protagonista no sistema
político emergente, e o MBR-200 perdeu primeiramente a evidência, e ao final
também o sentido. Diferentemente do MBR-200, que foi criado como uma
164

organização política, o MVR estava concebido para tomar decisões e fazer


alianças em uma conjuntura eleitoral. Daí que, propositadamente, ele
concentrava o poder decisório em uma cúpula. Seus círculos eleitorais e suas
sete direções estratégicas funcionavam como uma "metódica a partir de cima",
segundo afirmou em entrevista um de seus progenitores, o professor José
Rafael Núñez Tenorio. E o que se discutia nas diferentes instâncias desta
estrutura não era política (ou aspectos ideológicos e programáticos), mas sim
quem iria a tal ou qual cargo público. O MVR nasceu para articular movimentos
e personalidades que tinham como ponto comum respaldar a candidatura de
Chávez, mas que, em termos de ideologia, aspirações e interesses, eram
extremamente heterogêneos. Alguns de seus membros mais notórios, como
Omar Mezza ou Luis Miquilena, não pertenceram inicialmente ao MBR-200.
Além disso, em 2000, no contexto do último processo eleitoral do século, a
sempre presente tensão cívico-militar da organização provocou uma cisão no
interior do movimento bolivariano original. E embora Francisco Arias Cárdenas
já se houvesse separado da organização em 1993, um grupo de militares
participantes do golpe fracassado de 4 de fevereiro ― alegando o desvio
causado pela influência de alguns civis no governo de Chávez em relação ao
projeto bolivariano original ― também resolveu afastar-se do movimento. Ao
final desse processo eleitoral, o MVR emergia (subtraído de seu componente
militar inicial) como a organização do presidente. Concomitantemente, o MBR-
200 se desvanecia.
A substituição do MBR-200 pelo MVR provocou uma agregação de suas
bases, de suas lideranças e de suas ideologias. De fato, partilhavam
basicamente o apoio ao presidente Chávez e algumas linhas gerais de um
projeto sociopolítico mais identificável pelo que repudiava do que pelo que
propunha. As responsabilidades de governo em todos os níveis da
administração pública, que as consecutivas vitórias haviam criado, obrigavam a
liderança emergente desta organização a dar a elas uma atenção prioritária,
relegando para o futuro tarefas como construir e consolidar o partido. Esta
tendência era reforçada, ademais, pelo escasso valor, clareza e/ou vontade de
estabelecer uma instituição partidária por parte da ampla maioria dos que
formavam a organização, incluindo o próprio Chávez:
165

A mim não me tira o sono nenhum partido político; a mim, sim, me tira o sono a
organização do movimento popular. Os partidos devem ser expressão desse
movimento popular, devem ser canais de participação e de influência do
movimento popular organizado, mas não podem hegemonizá-lo. Se não servem,
bem, o movimento popular deve eliminá-los... Os partidos são para mim como
ensaios. (em El Nacional, 12-12-1999).

Conquanto fosse essa a situação geral ao fim dos processos eleitorais


de 1999 e 2000, foram-se desenvolvendo intermitentemente, depois deste
último ano, algumas iniciativas por parte de Chávez e de outros líderes
importantes a fim de dar certo traço de continuidade entre o MBR-200 e o
MVR, assim como proporcionar estabilidade a este último. Por exemplo, em
2000, a Direção Nacional de Organização ― ou mais precisamente, um de
seus membros, William Lara, depois presidente da Assembleia Nacional ―
elaborou aquilo que se tornaria um documento primário para a estruturação do
partido. Em sua razão de ser e em suas estruturas, refletia-se a busca por um
ponto de encontro entre as concepções do MBR-200 e do MVR.
A Democracia Patriótica ― como foi chamado o documento do MVR,
elaborado por Lara ― estabelecia como objetivos da organização constituir-se
em uma eficiente máquina eleitoral e, ao mesmo tempo, em uma organização
cultural capaz de difundir e legitimar seu projeto de país em toda a sociedade;
além disso, devia constituir-se em um espaço de participação e orientação
política para diversos atores, permitindo o aprofundamento da "visão
ideoprogramática da Árvore das Três Raízes e uma instituição pedagógica
voltada para a formação de líderes políticos e sociais". Note-se que a função
eleitoral continuava sendo o primeiro objetivo da organização.
Além disso, as estruturas expressas no documento eram semelhantes
às do MBR-200, pois sua unidade primária começava ― embora não com os
círculos bolivarianos ― com os chamados círculos patrióticos, em tudo
parecidos com aqueles. A organização, seguindo um padrão bastante similar a
outras organizações partidárias venezuelanas, projetava construir-se em
quatro níveis territoriais: o local, o municipal, o regional e o nacional, cada um
deles com quatro tipos de estrutura: a assembleia, o conselho, a direção
ampliada e a direção. A despeito das similitudes deste esquema com o do
MBR-200, saltava aos olhos uma importante diferença. O texto reconhecia
explicitamente a necessidade de aplicar o mais rápido possível a "metódica a
166

partir de baixo", isto é, convocar eleições diretas para todos os cargos em


todos os níveis, a fim de que a organização se pusesse de acordo com os
conceitos de democracia participativa e protagônica que constituem o coração
do projeto bolivariano. Em 2000, pois, reconhecia-se que o que na realidade
existia era uma estrutura eleitoral, não um partido, uma estrutura concebida e
organizada a partir de cima. Ademais, o documento ― apesar de entrar, com
alguns detalhes, nas funções e atividades dos órgãos e cargos em cada nível
― era pouco explícito acerca dos procedimentos de tomada de decisões no
seio da organização. Finalmente, o Comitê Tático Nacional (CTN), que era a
estrutura que concentrava o poder decisório da organização, nem sequer
aparecia no documento ― o que é ainda outro elemento a expressar a
dicotomia entre o que o MVR efetivamente era e o que desejava ser.
Em 2001, foram-se tornando mais numerosas as iniciativas para dar ao
partido alguma estabilidade. Por exemplo, houve em janeiro reiteradas
declarações da direção do MVR de que estava em preparativos a convocação
de um Conselho Patriótico, máximo organismo de tomada de decisões em
nível nacional, assegurando-se de que o partido iria às eleições para cargos
internos em todos os níveis. Com a mesma preocupação, constituiu-se em
maio a Escola Nacional de Formação J.R. Núñez Tenorio, cujo propósito era
dar um solo ideológico comum aos militantes e dirigentes da organização;
falou-se também de um congresso com o fim de promover um debate sobre as
ideias políticas básicas do MVR. Não obstante, as dificuldades recorrentes
entre a direção, por causa de assuntos que iam das questões ideológicas às
mais concretas tarefas políticas diárias, conduziam a tensões permanentes em
todos os níveis e ocasionavam repetidas intervenções do CTN nas diversas
coordenações regionais e locais, assim como expulsões de dirigentes. Isto
tendia a postergar as ações em prol do fortalecimento da organização e a
empurrava na direção de uma deterioração irrefreável.
Neste contexto, em abril de 2001, o presidente Chávez manifestou sua
intenção de fazer reviver o MBR-200, para assim canalizar o movimento
popular "revolucionário" (em El Nacional, 26-04-01). As declarações pareceram
obedecer a uma estratégia do presidente para pressionar sua organização a
envidar esforços de unificação e de coesão política. Em setembro, novamente
em declarações públicas, Chávez informou a seu partido que se poria à frente
167

do MVR, uma vez que este não parecia capaz de disciplinar-se sem sua
condução. No fim desse ano, o MVR havia iniciado um processo de
reestruturação interna. O CTN, enquanto estrutura executiva do partido,
desapareceu para ceder lugar ― tal qual propunha o documento de Lara ― à
Direção Executiva Nacional (DEN), um órgão composto de 30 membros a cuja
cabeça pôs-se o presidente Chávez. Como segundo posto na Direção Geral,
ficava o então Ministro das Relações Interiores Luis Miquilena, e como terceiro,
na Direção de Organização, o deputado e militar de reserva Francisco
Ameliach. Além disso, iniciou-se um processo de reestruturação das entidades
regionais, quando muitas delas estavam vivendo uma situação de alta
conflituosidade e com órgãos de direção paralelos que se desconheciam entre
si. O Conselho Patriótico e as eleições internas (anunciadas em início de
janeiro de 2001 para se realizarem em agosto) foram adiados para 2002.
Neste ínterim, também foi-se decidindo que o MBR-200 não faria coalizão em
suas funções com o partido político, mas que seria o organizador do
movimento de massas necessário à revolução. Estes progressos, contudo,
seriam interrompidos pelo golpe de Estado de 2002 e pela crise política que
assolaria o país até 2004.

O PPT
Diferentemente do MVR, o PPT não principiou como um movimento
eleitoral, mas sim como um partido de quadros, que embora tenha sido
fundado em data recente (1997), por ser uma prolongação direta e sem
rupturas ideológicas do partido LCR (do qual os dirigentes do PPT se viram
expulsos), sua concepção e dinâmica são anteriores aos anos de 1990.
O PPT, do mesmo modo que o MVR, é uma organização com muitos
pontos fracos; mas estas debilidades não provêm de improvisação
organizativa, de tensões cívico-militares ou, então, da heterogeneidade
ideológica de suas bases e seus dirigentes. Ao contrário, trata-se de uma
organização cujos líderes têm dedicado muito esforço a pensar e a discutir a
concepção de partido que desejam. Muitos deles têm pelo menos duas
décadas de luta política, ou mais, e partilham as linhas centrais de um projeto
político comum. Suas bases, conquanto tenham oscilado significativamente na
168

década de 90, em sua porção mais estável são pequenas e constituídas por
grupos populares politizados e intelectuais.
Os problemas do PPT são de outra índole, e alguns deles se mostraram
particularmente evidentes quando ocorreu a divisão de LCR em 1997. A
excessiva informalidade com que se relacionavam os quadros nesta
organização e, de modo muito importante, o uso quase exclusivo do
mecanismo do consenso, com o qual o partido decidia tanto as políticas que
seguiria como as designações para cargos de eleição interna ou popular, não
tornaram possível lidar satisfatoriamente com as diferenças de toda natureza
que surgiram, visto que LCR experimentou um crescimento vertiginoso entre
1989 e 1995. Ao acentuarem-se as diferenças ― e estarem elas respaldadas
por grupos internos muito parecidos quanto à força e à importância ― o
dirigente Andrés Velásquez, apoiado por um grupo de quadros no qual se
incluía o secretário de organização do partido, Lucas Matheus, dividiu a
organização e expulsou dela todo aquele que não seguia suas ideias. Entre os
que acabaram fora da organização contavam-se alguns dos quadros
fundadores e mais conhecidos de LCR. Assim, no momento de criar o PPT em
1997, esses quadros ― tratando de assimilar as lições que lhes dera a
traumática experiência ― pretenderam ser mais explícitos e formais na
organização e nos procedimentos de decisão interna do partido.
De fato, para seu registro no CSE, os agora pepetistas elaboraram
estatutos nos quais assentaram os três tipos de estruturas organizativas com
as quais vinham operando desde LCR: as equipes, as plenárias e/ou
assembleias, e os conselhos internos. As três estruturas, dependendo de sua
funcionalidade, constituem-se em alguns (ou em todos) dos quatro níveis da
organização, que seguem o mesmo critério territorial da maioria dos partidos
venezuelanos: o da base, o paroquial ou local, o regional e o nacional. Quando
cumpriram esse requisito para registrar LCR, na década de 80, esforçaram-se
por deixar manifesto que consideravam isso uma mera e irrelevante
formalidade e que, na prática, não lhe dariam importância. Agora mostravam-
se propensos a reconhecer a necessidade de estabelecer algumas regras
claras relativamente à organização e aos procedimentos internos de tomada
de decisões.
169

Deve-se recordar que em LCR jamais se votava, pois o procedimento


reconhecido por seus membros para dirimir diferenças era a discussão até
chegar-se ao consenso. Condizentemente com a ausência do mecanismo de
voto, as estruturas organizativas desse partido não estabeleciam um número
fixo de membros em nenhum dos órgãos, porquanto estes não estavam
concebidos para a lógica um membro/um voto, nem o acatamento da vontade
da maioria. Por isso não foi possível resolver as diferenças quando elas se
tornaram mais agudas do que tinham sido com a ruptura, pois quando a
relação de forças se igualou e não foi alcançado o consenso, não se pôde
decidir quem ou o quê tinha a anuência majoritária, nem quem deveria ceder, e
o quê. Em virtude da experiência com a divisão, os estatutos do PPT
estabeleceram então o recurso ao mecanismo da votação sempre que o
consenso não fosse claro, e fixaram critérios de maioria simples ou qualificada,
segundo os casos. Igualmente, embora buscando um difícil equilíbrio entre a
flexibilidade e a necessária estabilidade, foram instituídos números mínimos e
máximos de membros nas diferentes estruturas organizativas.
Mas o descalabro que representou a divisão de LCR em 1997
manifestou-se no PPT de diversas maneiras, colocando-o nos primeiros anos
em uma situação de grande fragilidade: a perda de um número importante de
quadros e o despojo do nome, dos símbolos e dos recursos que recebia
legalmente do Estado. Em 2000, a separação deste partido em relação à
aliança do Polo Patriótico do presidente Chávez ― resultado de tensões com o
MVR a respeito dos apoios eleitorais desse ano ― significou para o partido
uma considerável diminuição de sua presença política no cenário nacional, o
que obrigou seus dirigentes a restringir-se a suas vitórias nos níveis municipal
e regional para, a partir daí, tentarem recuperar-se.1 Além disso, a nova
Constituição, que eliminou o financiamento público para os partidos, desferiu
um duro golpe em organizações de vocação popular, pois nem seus dirigentes
nem o eleitorado que eles pretendem representar possuem recursos para
concorrer com outros atores de representação social diversa.

1
Nas eleições de julho de 2000, eles obtiveram o predomínio em dez prefeituras e dois
governos estaduais. (N. da A.)
170

A estas fraquezas bastante notórias acresciam-se outras, também muito


significativas, como a falta de estruturas com que enfrentar os processos
eleitorais ou garantir a formação de seus quadros. Apesar disso, a concepção
e a estrutura organizativa deste partido possuem certas vantagens em relação
ao MVR. Sua experiência política e a coesão de seus dirigentes favorecem-no
em um cenário no qual figuram muitas organizações inexperientes. Sua
flexibilidade organizativa lhe permite tanto recolher-se como expandir-se,
diminuindo assim os custos das derrotas, embora não lhe permita o
aproveitamento cabal das vitórias. Contudo, seus quadros estão acostumados
igualmente ao debate entre iguais ― com importantes ideias e interesses
partilhados ― e ao sacrifício prolongado, sua melhor reserva.
Em 2001, aproximaram-se de novo do presidente Chávez, conseguindo
uma nova aliança com o MVR e tendo alguns de seus dirigentes sido
incorporados a altas funções do governo. Esses dirigentes, aliás,
desempenhariam um papel de primeiro plano na defesa da institucionalidade e
na sobrevivência do Executivo nacional durante os acontecimentos de caráter
insurrecional que a oposição desencadeou nos anos de 2002 e 2003. Desde
então, conquanto aflorem ocasionalmente, as asperezas entre eles e o MVR
têm-se tornado menos visíveis.

SOBRE A CONCEPÇÃO ORGANIZATIVA DO MAS


Do mesmo modo que LCR e o PPT, o MAS foi fruto de uma divisão do
PCV. Em termos organizativos, nasceu condicionado de forma igual a LCR, ou
seja, como consequência do repúdio que seus dirigentes sentiam pelo
esquema de organização do partido comunista. "Movimento de movimentos",
flexibilidade organizativa e debate de ideias foram as orientações centrais nos
primeiros anos do MAS, levando a constantes reorganizações do partido nos
anos 70 e 80. Não obstante, o MAS (diferentemente de LCR) acolheu cedo a
ideia de ir a uma política de massas, voltando-se para a disputa eleitoral.
Igualmente, no início dos anos 80, o partido legalizou um sistema de facções
ou tendências internas, como parte de sua proposta de socialismo com
democracia política. A dinâmica dessas tendências internas submeteu o
partido, ao longo dos anos de sua vida, a intensos debates e dissensões, o
que têm levado, por seu turno, a encarniçadas lutas e fraturamentos. Isso tem
171

impedido, por vezes, a coerência em suas políticas e, também, uma atenção


contínua para vicissitudes políticas mais gerais. Do mesmo modo, o MAS tem-
se caracterizado por recorrentes saídas de seus líderes mais importantes, não
só como resultado de embates ideológicos, mas também em razão do
persistente desencanto de muitos deles diante do minguado crescimento
eleitoral que a organização demonstrou ao longo do tempo.
Durante a década de 90, ocorreu no MAS uma desfiguração ideológica
que suscitaria muitas interrogações quanto a seu status como partido de
esquerda e quanto à vocação popular de suas ações. Durante a segunda
presidência de Caldera, o MAS foi o partido governista e como tal respaldou o
programa de ajuste estrutural e reestruturação econômica de natureza
neoliberal aplicado pelo governo desde 1996. Teodoro Petkoff, dirigente
fundador e um dos principais líderes da organização, integrava o grupo de
ministros responsáveis na área econômica pela execução da reforma. A
atenção dedicada às lideranças locais e regionais ― uma política que o MAS
priorizou desde 1988 ― também contribuiu para dar ao partido um excessivo
pragmatismo e esvaziamento ideológico nos últimos anos do século. O apoio a
Hugo Chávez e a incorporação do MAS ao Polo Patriótico, em 1998,
obedeceram principalmente a cálculos eleitorais da parte tanto do MAS como
do MVR, e embora isso tivesse permitido ao primeiro sobreviver politicamente
no nível nacional após apoiar o governo de Caldera, significou também o
surgimento de consideráveis tensões no interior do partido, bem como de
divergências com o segundo. A decisão de dar apoio à candidatura de Chávez,
em 1998, por exemplo, levou a que se separassem do partido alguns de seus
líderes históricos e emblemáticos, como o próprio Petkoff e Pompeyo Márquez,
além de outros. Já anteriormente havia ocorrido a saída de outros líderes
históricos, como Freddy Muñoz, dando vez a uma liderança mais jovem com
bases de natureza local ou regional, e com projetos políticos preferentemente
pessoais e de tipo pragmático. Igualmente, seus atuais líderes nacionais são
essencialmente homens do aparato partidário, hábeis na negociação política,
mas desprovidos de brilho intelectual. No início de maio de 2001, o CTN do
MVR, diante das constantes discrepâncias e tensões com o MAS, anunciou a
ruptura de sua aliança com esse partido. Ainda no mesmo dia, Chávez
respaldaria a decisão do MVR (em El Nacional, 11-05-01). Em outubro, o
172

distanciamento entre as lideranças dos dois partidos tornou-se ainda mais


manifesto, provocando pouco depois uma divisão do MAS, tendo um grupo
continuado a apoiar o governo de Chávez (MAS-MAS, que depois passou a
chamar-se Podemos), enquanto um outro passava à oposição (MAS-Oposição,
que depois continuou como MAS).

A ATIVIDADE "IDENTIFICANTE"
A atividade de construir e preservar uma identidade coletiva, a partir da
qual indivíduos e setores sociais possam reconhecer-se para empreender
ações conjuntas no tempo, constitui uma função essencial de qualquer partido
político em qualquer sociedade. Esta verdade se torna mais significativa no
contexto de uma sociedade empobrecida e fragmentada, como era a
venezuelana no fim do século, e que, além disso, nos dez anos anteriores vira
modificar-se os sensos comuns do discurso hegemônico internacional. O
discurso neoliberal dos anos 80 em diante, com sua depreciação da figura do
Estado e sua apologia da globalização, da privatização e do individualismo,
significou uma guinada violenta no discurso socializado da Venezuela dos 50
anos anteriores. Neste contexto de orfandade de referentes, o MVR e o PPT
desenvolveram suas estratégias "identificantes" em relação a uma
ressignificação do sujeito popular, uma volta à história nacional e um explícito
repúdio ideológico ao neoliberalismo como doutrina econômica com derivações
políticas. Tal estratégia daria copiosos resultados políticos. Esses partidos ―
embora coincidam nas orientações gerais, ou seja, quanto ao sujeito povo, ao
uso da história pátria e às proposições em relação ao neoliberalismo ―
guardam algumas diferenças entre si. Passemo-las em revista.

POVO E ANTINEOLIBERALISMO NO MVR


A hegemonia alcançada pelo partido MVR nos últimos anos deve-se
precipuamente ao carisma e à popularidade de Hugo Chávez nos meios
populares. Esses atributos são o resultado de uma soma de fatores, entre os
quais desponta como principal a capacidade do discurso chavista de
reconstruir o sujeito popular da cultura política venezuelana do século XX ― o
povo. A reedição dessa identidade tornou possível a expressivas parcelas da
população reconhecerem-se como indivíduos possuidores de uma origem e
173

pertencimento claros, com atributos valiosos e um chão comum sobre o qual


firmar solidariedades e ações conjuntas.
O conceito de povo venezuelano já aparece nos documentos do MBR-
200, e está presente sobretudo nos discursos e alocuções de Chávez desde o
começo de sua carreira política. O povo, diz Chávez ainda na prisão de Yare,
em 1993, é "o protagonista" das grandes transformações da história. Às vezes,
o povo desaparece, mas amiúde ressurge quando "se partilham costumes e
existe uma comunicação intensa". Então, as multidões se associam, liberando
a "solidariedade metafísica" (Chávez, 1993). Hugo Chávez considera que
desde o 4 de fevereiro de 1992, quando frustrou-se o golpe de Estado por ele
dirigido, o povo vem ressurgindo e silenciosamente reorganizando seus
protestos. Isso, aliás, expressa-se na forma das altas porcentagens da
abstenção eleitoral. Mas, para ele, trata-se, a partir de 1994 (quando sai da
prisão), de acompanhar a força transformadora desse povo já em movimento,
organizá-la e dirigi-la, e construir com ela uma ideologia e um projeto nacional.
Outro pilar da atividade identificante neste discurso é a história pátria,
reinterpretada e utilizada como uma poderosa linguagem simbólica, que
legitima o presente associando cada ação do partido e do líder a datas
evocativas de um passado venezuelano comum, glorioso e transcendente.
Os exemplos são abundantes. Chávez e o grupo de fundação do MBR-
200 constroem uma ideologia venezuelana que eles identificam como A Árvore
das Três Raízes, sendo cada raiz a representação dos pensamentos de Simón
Bolívar, Simón Rodríguez e Ezequiel Zamorra, figuras históricas do século XIX
venezuelano. O nome de Bolívar está contido duas vezes na organização
política inicial, pois colocou-se o número 200 na designação para representar o
segundo centenário natalício do Libertador, que coincidiria (segundo alegam os
bolivarianos) com a data de fundação do movimento, em 1983. Como não
puderam usar esse nome para a inscrição no CNE, valeram-se de outro, de
grande potencial simbólico nacional: o Movimento Quinta República (MVR). Tal
nome propõe a refundação da República, pois ― de acordo com a
interpretação dada pela organização à história do país ― em 1830, após a
separação da Venezuela da Grande Colômbia, teve início o período da "quarta
república", que fora sempre "oligárquica" e que atingira os mais altos graus de
174

decomposição com a "democracia puntofijista". Além disso, ao abreviarem-se


ambas as denominações (MBR e MVR), a fonética permaneceu igual.1
Eis mais alguns exemplos. Em 1994, ao ser libertado da prisão, Chávez
recorda a velha canção do bando dos liberais da Guerra Federal do século XIX
quando proclama que "o céu continua encoberto".2 Igualmente, as
organizações de base do movimento denominaram-se círculos bolivarianos,
para em seguida mudarem-se em círculos patriotas. O projeto político foi
denominado projeto Simón Bolívar, a nova Constituição (de 1999) rebatizou a
república como República Bolivariana da Venezuela; as escolas, criadas
segundo um novo programa de educação básica, são chamadas de Escolas
Bolivarianas; e a política de integração com toda a América Latina intitulou-se
Alternativa Bolivariana para as Américas (ALBA).3
Utilizam-se datas relacionadas às lutas de independência para a
realização de atos políticos considerados relevantes, com o que se pretende
dar força simbólica às determinações do projeto. O juramento de fundação do
MBR-200 fez-se em um 17 de dezembro (de 1983), aniversário da morte de
Bolívar. O MBR-200 escolheu, em 1997, a data de 19 de abril, comemorativa
da declaração de independência da Venezuela, para realizar uma reunião na
qual se decidiu, em contrário às posturas abstencionistas anteriores, a
participar do processo eleitoral do ano seguinte com Chávez como candidato à
presidência. Do mesmo modo, em 1998, escolheu-se o 24 de julho, data
aniversária de Bolívar, para a inscrição da candidatura junto ao CNE.
Esse persistente emprego de recursos simbólicos alusivos à
nacionalidade tem estimulado uma espécie de cultura patriótica. Na Venezuela
atual, tornou-se rotineiro que qualquer ato público de alguma importância e,
sobretudo, as manifestações em apoio ou em oposição ao governo estejam

1
Em espanhol, as letras b e v representam o mesmo fonema consonântico, correspondente à
nossa consoante oclusiva bilabial sonora b. (N. do Trad.)
2
A chamada Guerra Federal ocorreu entre 1859 e 1863, e tem sido considerada uma guerra
social através da qual setores populares reclamaram o cumprimento das promessas de
igualdade e liberdade que o estabelecimento da república não havia satisfeito. Entre os
caudilhos principais do grupo federalista figurava o general Ezequiel Zamora, e a canção a que
faz menção Chávez é um famoso canto da época contra a oligarquia: "O céu encoberto
anuncia tempestade. Oligarcas, tremei! Viva a liberdade!". (N. da A)
3
A partir de junho de 2009, a sigla passou a denominar a Aliança (não mais Alternativa)
Bolivariana para os Povos de nossa América. (N. do Trad.)
175

adornados com bandeiras nacionais, o canto do hino e camisas e bonés


tricolores.
Um dos episódios mais ilustrativos dessa nova cultura, no primeiro ano
do governo, ocorreu na noite de 25 de julho de 1999, ao ser conhecida a vitória
esmagadora do Polo Patriótico na eleição para a formação da Assembleia
Nacional Constituinte (ANC). O presidente Chávez, acompanhado de sua
esposa, que acabara de ser eleita para a Assembleia, apareceu na sacada do
Palácio de Miraflores para saudar a uma entusiástica assistência que vinha
reunindo-se ali desde as duas horas da tarde. A imagem de uma sacada da
qual a autoridade dialoga diretamente com o povo não é nova na história da
Venezuela. Os casos mais emblemáticos são: o do conselho aberto de 19 de
abril de 1810, quando o capitão-geral Vicente Emilio Emparan, assomado à
sacada que dava para a Praça Maior, escutou e acatou a solicitação popular
para que renunciasse a seu cargo, dando assim início ao processo de
independência nacional; e o do general Eleazar López Contreras, que no
momento de sua chegada a Caracas, após a morte de Juan Vicente Gómez
em dezembro de 1935, apareceu à sacada da Casa Amarela para receber as
manifestações de júbilo do povo da capital, iniciando-se aí também o processo
de modernização política da sociedade venezuelana.
Em 25 de julho, estando na sacada à vista de todos, Chávez entoou o
hino nacional, acompanhado pelo público presente, e pediu a todos os
venezuelanos que assumissem a vitória com humildade e sem revanchismo.
Uma hora antes, as portas do palácio haviam sido abertas para que o povo
entrasse. Houve música, baile e gritos clamando pela dissolução do
Congresso. Foram distribuídos comes e bebes. Não foi nem seria esta a única
oportunidade em que o presidente Chávez surgiria à sacada do Palácio de
Miraflores, batizada daí em diante de Sacada do Povo.
Um terceiro elemento poderoso tem sido seu discurso pugnaz, que traz
a clara intenção de enfrentar e excluir certa estrutura de poder e uma elite,
qualificada reiteradamente de oligárquica, traidora e corrupta, ao passo que
pretende integrar os excluídos, o povo venezuelano. Em tal sentido, o discurso
chavista tem igualmente desqualificado, em conjunturas diversas, os
intelectuais, a hierarquia eclesiástica, os dirigentes dos partidos tradicionais, os
176

meios de comunicação privados, banqueiros, empresários e executivos da


empresa estatal petroleira (PDVSA), além de outros.
Estão também permanentemente presentes no discurso de Chávez os
elementos dirigidos a elevar a autoestima do povo e a empatia do líder com
ele: a vinculação do povo aos feitos históricos do século XIX, em especial aos
da Independência e aos da Guerra Federal; a referência ao bravo povo, ao
povo nobre e valente, sendo esses apenas alguns dos diversos qualificativos
elogiosos que repetidamente Chávez emprega; o uso de imagens e do
vocabulário próprios da vida militar ― batalha, estratégia, tática, mapa
estratégico, emboscada, desembainhar o sabre, calçar as botas ― que são
recursos a transmitir ideias de ordem, disciplina, eficiência, disposição,
organização e planificação a médio e longo prazo; o uso também frequente de
imagens e expressões do mundo do beisebol, tendentes a estabelecer
apropriadamente um diálogo horizontal com o povo, que tem nesse esporte
sua maior predileção. Chávez não só emprega a linguagem do beisebol, como
também (em seu primeiro ano de presidência) exercitou-se, mais de uma vez,
no próprio campo de jogo.
Ao mesmo tempo que o discurso político de Chávez e seu partido
reunifica os setores populares sob a identidade de povo, também modela
relações e demandas. Entre 1992 e 1998, o MBR-200 exigiu um processo
constituinte para chegar a um poder constituinte de fundação da "Quinta
República". A nova ordem política resultante desse processo é vista como uma
democracia "participativa e protagônica" do povo venezuelano, em contraste
com a "oligárquica e partidocrática" do regime anterior.
A concepção de povo, reconstruída pelo discurso chavista, vincula-se à
noção de Nação, e ambas são reconhecidas na cultura política venezuelana do
século XX por designar os senhores da riqueza que repousa no subsolo do
território. Neste imaginário, o Estado ― como guardião dos interesses do
povo-Nação ― é reconstituído também em seu papel de rentista, isto é,
retorna à sua função de extrator de uma mais-valia internacional em forma de
renda para distribuí-la a todos os membros da sociedade. O projeto político do
MVR abrange, dessa forma, uma volta à centralidade do Estado no devir da
sociedade, bem como um retorno à concepção de democracia enquanto uma
ordem que garanta a igualdade no acesso aos benefícios dessa renda.
177

O discurso do emeverrismo e de Chávez é, definitivamente, um discurso


contrário aos processos de globalização tal como eles vêm desenvolvendo-se
nos últimos anos. Condizentemente, apresenta-se contra a imposição das
políticas de inspiração neoliberal. Esse discurso tem rejeitado principalmente
as privatizações, até então vistas por muitos como algo bom ou necessário per
se ― e combatido, em especial, a pretensão de se privatizar a indústria
petroleira nacional sob o esquema da abertura petroleira, implementada
durante o governo anterior de Caldera. Do discurso ressalta, igualmente, a luta
por uma democracia que privilegie a igualdade social em detrimento da
igualdade de oportunidades. Ilustremos estes pontos com alguns dispositivos
da Constituição vigente, um documento básico do projeto político em
ascensão. (Os grifos são nossos):

O Estado promoverá a iniciativa privada, garantindo a criação e justa


distribuição da riqueza, assim como a produção de bens e serviços que
satisfaçam as necessidades da população, a liberdade do trabalho,
empresa, comércio, indústria, sem prejuízo de sua faculdade para ditar
medidas para planificar, racionalizar e regular a economia e impelir o
desenvolvimento integral do país. (Artigo 112).

O regime socioeconômico da República Bolivariana da Venezuela se


fundamenta nos princípios de justiça social, democracia, eficiência, livre
concorrência, proteção do ambiente, produtividade e solidariedade, a fim
de assegurar o desenvolvimento humano integral e uma existência digna e
proveitosa para a coletividade. O Estado, juntamente com a iniciativa
privada, promoverá o desenvolvimento harmônico da economia nacional
com o fim de gerar fontes de trabalho, alto valor agregado nacional, elevar
o nível de vida da população e fortalecer a soberania econômica do país,
garantindo a segurança jurídica, solidez, dinamismo, sustentabilidade,
permanência e equidade do crescimento da economia, para alcançar uma
justa distribuição da riqueza mediante uma planificação estratégica
democrática, participativa e de consulta aberta. (Artigo 299)

Por razões de soberania econômica, política e de estratégia nacional, o


Estado conservará a totalidade das ações de Petróleos da Venezuela,
S.A., ou da entidade criada para o manejo da indústria petroleira,
excetuando a das filiais, associações estratégicas, empresas e qualquer
outra que se tenha constituído ou se constitua como consequência do
desenvolvimento de negócios de Petróleos da Venezuela, S.A. (Artigo 303)

O Estado protegerá e promoverá a pequena e média indústria, as


cooperativas, as caixas econômicas, assim como a empresa familiar, a
microempresa e qualquer outra forma de associação comunitária para o
trabalho, a poupança e o consumo sob regime de propriedade coletiva (...).
(Artigo 308)
178

Os elementos de identidade assinalados e a conceituação das


demandas a que apelam Chávez e o MVR inserem-se profundamente na
cultura política venezuelana anterior, assim como na matriz ideológica latino-
americana da etapa de vigência do modelo de substituição de importações.
Como tais, eles têm estimulado o entusiasmo e a mobilização de vastos
setores da população, que, por seu turno, oferecem reiterado apoio ao
propósito de consolidação dessa hegemonia emergente e seu projeto
sociopolítico.

POVO, ORGANIZAÇÃO E DEBATE NO PPT


Embora se possa pensar que o PPT partilhe com o MVR o conceito de
povo como construção de seu sujeito político, uma atenção mais demorada ao
seu discurso, bem como aos esforços em sua atividade identificante, revela
não apenas semelhanças, mas também algumas diferenças que distanciam
uma organização da outra.
O PPT, do mesmo modo que outrora fizera o partido LCR, constrói o
conceito de sujeito popular também usando a noção de povo, entendendo-o
como os pobres, os excluídos e os que são tratados injustamente. Não
obstante, o PPT associa o conceito de povo à noção de movimentos
populares. O povo é um conjunto de movimentos populares cujos interesses
são afins. E o PPT é uma organização que busca expressar politicamente
esses movimentos, como também busca ser "o movimento dos movimentos".
Com isso, incorporam-se destacadamente à sua identidade os atributos de
organização e diferenciação, não só dos movimentos populares entre si, mas
também entre a organização política e tais movimentos. O fato de conceber-se
como uma organização de quadros reforça as características de distância
entre o partido e os movimentos, pois a articulação entre a organização e os
movimentos populares ocorre através dos ativistas sociais que fazem trabalho
político no PPT. Esta dinâmica fomenta a politização como atividade
identificante, e, diferentemente do discurso de Chávez, realça o aspecto
organizativo na concepção de identidade que se constrói.
Além dessa maior ênfase no caráter de correia de transmissão entre
movimentos e poder que a organização política adquire e a ênfase no aspecto
organizativo da identidade do sujeito político, outra diferença com o MVR é a
179

pouca significação que tem, nas estratégias de identidade do PPT, o uso de


referências históricas reinterpretadas enquanto via para o reconhecimento de
si próprio. Nos documentos da antiga LCR e do atual PPT, assim como no
discurso de seus dirigentes, as alusões históricas para evocar algum passado
histórico e legitimar alguma ação presente são praticamente inexistentes. A
ideia de pátria ― dirá um de seus principais dirigentes, Pablo Medina ― deve
ser trabalhada sobretudo "como expressão do que somos e do queremos ser.
Expressão de uma comunidade nacional que tem interesses próprios, e que
tem aspirações próprias, e que é seu direito fundamental". O bolivarianismo
tampouco é relevante, como também não se mostra importante o uso de
símbolos e rituais para unir entre si os membros do partido, ou uni-los aos
movimentos populares.
Ademais, é evidente a ausência no PPT de uma liderança carismática
da magnitude de Chávez. Em razão das próprias características da
organização, os seus membros tendem a reconhecer-se como uma reunião de
iguais, que mantêm entre si e com os movimentos sociais a que se vinculam
relações horizontais e de grande informalidade. O debate político permanente
― que supõe contínuos deslocamentos de um lugar a outro do país por parte
de seus quadros, em condições de recursos materiais mínimos ― a árdua
discussão dos temas até que se alcance um consenso e as ações coletivas
partilhadas são alguns dos instrumentos que mais estimulam a confiança
mútua, as redes do sentimento de proveniência e a solidariedade. Assim, os
mecanismos para a construção da identidade se baseiam primordialmente nos
instrumentos de formação política: o ativismo, a discussão e os consensos,
que criam o solo comum onde possam todos reconhecer-se.
A conceituação das demandas se elabora a partir de três eixos. O
primeiro é a preservação da pátria, que, conquanto conote a ideia de uma
história ou identidade comum, é sustentada principalmente como patrimônio. A
preservação dos bens comuns acumulados por essa pátria ― leiam-se as
indústrias de base, a indústria petroleira ― deve fazer-se sob a propriedade
do Estado nacional, porque será "com aquilo que temos de mais valioso" que a
Nação poderá articular-se e sobreviver ao processo de globalização (Müller
Rojas, diálogo, 1997). Aqui, do mesmo modo que o MVR, o discurso pepetista
é claramente nacionalista e antineoliberal. Os pepetistas veem pontos positivos
180

nas mudanças mundiais, na redução das fronteiras e na globalização dos


sistemas de comunicação, mas acreditam que isso não levará a abolir a ideia
de pátria. A preservação da pátria se faz acompanhar da ideia de democracia
(expressa no Para Todos do nome da organização), e é entendida não
meramente como acesso às liberdades públicas, mas essencialmente como
acesso à informação e à riqueza. Pretende-se passar de uma democracia
formal a outra que seja radical, isto é, "profunda, cotidiana, popular" (Medina,
entrevista, 2000). Para alguns dirigentes, a democracia como demanda passou
a um segundo lugar em razão do advento do neoliberalismo, da dívida externa
e dos diversos mecanismos que vêm paralisando a atividade econômica do
Estado e transnacionalizando a economia (Medina, entrevista, 2000; Müller
Rojas, diálogo, 1997). Outros dirigentes, contudo, continuam a defender que
"não tem sentido ter todas as riquezas do mundo se não se pode ter acesso a
elas" (Istúriz, entrevista, 1997). Finalmente, o terceiro eixo sobre o qual se
apoiam as demandas vem da identificação do povo como os pobres,
maltratados e excluídos, e deve conduzir à bandeira da justiça social: "Em
nossa condição de cidadãos livres e conscientes do tempo em que vivemos,
não estamos dispostos a aceitar passivamente um modelo de sociedade que
consinta a pobreza, o analfabetismo absoluto ou funcional, a insegurança
pessoal e, em termos gerais, o abandono e a exclusão de milhões de
venezuelanos" (PPT, 1997).

FORÇA E FRAQUEZA DOS PARTIDOS POPULARES EMERGENTES


As duas variáveis analisadas aqui revelam aspectos de força e de
debilidade das organizações políticas estudadas, que, conquanto não esgotem
a problemática de sua sobrevivência política, permitem lançar luz sobre as
vantagens e desvantagens em permanecer entre as organizações que devem
ser levadas em conta neste início de século XXI.
De um ponto de vista organizativo, o MVR tem revelado uma expressiva
debilidade. Pouco mais do que uma estrutura eleitoral que logrou capitalizar
algumas vitórias surpreendentes através do carisma de seu líder principal, o
partido não possuía em 2001 nem estruturas democráticas nem bases
permanentes. Carecia também de dirigentes verdadeiramente unidos por
181

interesses construídos sobre experiências e debates comuns. As ideias


partilhadas, afora a admiração pelo presidente e o repúdio da velha política e
dos partidos tradicionais (AD e Copei), eram escassas. O MBR-200, do qual
ele deriva, tampouco havia adquirido em 1997 (quando começou seu declínio)
uma solidez efetiva enquanto organização. Não obstante, ele foi concebido em
seu momento por um coletivo que tentava viabilizar um projeto sociopolítico de
mudanças ― menos através de uma estratégia eleitoral, e mais enfocado nas
outras atividades, extremamente importantes para qualquer organização que
ambicionasse chegar ao governo, ou seja, as tarefas de discutir propostas
políticas, debater e difundir suas ideias, formar seus quadros, criar suas
estruturas, lidar com os conflitos entre seus membros e eleger seus líderes nos
diversos níveis. O vertiginoso êxito do MVR ― em grande medida devido ao
carisma de Chávez ― alterou um processo mais lento de cristalização e
consolidação da organização política para exacerbar os traços de máquina
eleitoral a serviço do carisma do líder máximo.
Este fenômeno revelou-se algo difícil de ser corrigido, e a chamada
Direção Executiva Nacional (DEN), embora com uma composição mais ampla
e representativa do que o Comitê Tático Nacional (CTN), continuou sendo até
2001 uma estrutura fundamentalmente de cúpula, que tomava todas as
decisões no interior do partido sem consultar suas bases. É certo que começou
a haver, em meados de 2001, diversas ações dos líderes voltadas a dar à
organização uma maior unidade e coesão. No entanto, a liderança
avassaladora de Chávez ― que constitui o único eixo mediador de interesses
e conflitos no seio da organização ― projeta sérias dúvidas sobre sua
capacidade de perdurar para além de seu líder. O MVR se assemelha em
muitos aspectos aos partidos eleitorais que têm surgido na Venezuela em
conjunturas diversas: o caso mais recente é o da Convergência (de Caldera),
que findou ao esvair-se a popularidade ou o apelo de quem a liderou. Em favor
do MVR deve-se dizer, no entanto, que entre 2000 e 2001 verificou-se um
domínio crescente da ala civil da organização, em consequência de terem
passado para a oposição alguns antigos companheiros de armas ― de
inclinações militaristas ― de Chávez. Igualmente, com a ruptura definitiva
entre o MVR e o MAS, assim como a passagem, em 2001, do prefeito de
Caracas para a oposição (e, em 2002, a separação definitiva de Luis
182

Miquilena), o governo e seu partido tenderam a uma maior homogeneidade e


coerência em sua ideologia de esquerda. O MAS, como já assinalamos, não
tem demonstrado nos últimos anos uma vocação popular clara, e quanto ao
prefeito Peña, outra figura distanciada do governo, jamais comungou as
ideologias de esquerda, o que ele mostraria sobejamente durante os
enfrentamentos entre o governo e a oposição, entre 2001 e 2004.
Além disso, tem-se revelado à analise o poder inusitado de um discurso
de integração de setores pobres e empobrecidos da sociedade e de repúdio ao
"senso comum" do discurso neoliberal, juntamente com a valorização da
nacionalidade venezuelana ― que constitui um dos elementos de maior força
do projeto sociopolítico emergente. Diferentemente do passado mais recente,
no qual pesquisas de opinião evidenciavam um preocupante desinteresse dos
venezuelanos pela política, essa atividade identificante do presidente Chávez
(e, em menor grau, de alguns dirigentes do MVR) vem provocando tanto a
eclosão de uma cultura popular como a recuperação do interesse político de
alguns setores da população, inclusive entre os jovens. É este um poderoso
capital aproveitável para sedimentar essa organização política, que seria
chamada a dar bases mais coerentes e duradouras ao discurso ideológico,
visando a tornar viáveis propostas políticas de maior alento e ações coletivas
voltadas ao aprofundamento da democracia na sociedade.
Um exame atento do PPT revela fraquezas que também suscitam
dúvidas sobre sua viabilidade futura. Apoiada em uma liderança coletiva de
expressiva experiência política e em uma estrutura organizativa relativamente
forte, flexível e atraente para setores da população que buscam alternativas à
política e aos partidos tradicionais, esta organização demonstra vários
aspectos frágeis que lhe dificultam crescer e converter-se em uma opção de
poder em nível nacional. É notório, por exemplo, que seus procedimentos
internos são pouco eficientes para lidar com conflitos. Embora sua maior
fraqueza tenha sido reparada ao incorporar-se aos estatutos o reconhecimento
do voto como procedimento para dirimir diferenças, este mecanismo ainda está
por provar sua eficácia. No primeiro momento crucial em que se pôs à prova o
dispositivo institucional, algumas semanas antes das eleições de maio de 2000
(que acabaram por ser proteladas para julho), quando houve a necessidade de
os dirigentes votarem se permaneciam no Polo Patriótico ou se saíam dele,
183

Istúriz e Medina ― dois de seus dirigentes principais, partidários do


rompimento com o Polo ― ao sentirem-se em desvantagem, ameaçaram
retirar-se da organização se a decisão coletiva lhes fosse desfavorável. A
votação, por fim, os favoreceu, mas o procedimento debilitou a credibilidade da
reforma, além de levar a alguns resultados eleitorais que enfraqueceriam o
desempenho político do partido no crucial período constitucional de 2000-2006.
Ademais, do que ficou exposto acima é possível inferir que o PPT
revela-se uma organização pouco definida para alcançar e exercer o poder.
Mais preocupada em expressar politicamente os movimentos populares, ela
parece dedicar pouca reflexão a aspectos organizativos decisivos para exercer
o governo: o problema eleitoral, a formação e qualificação profissional de seus
dirigentes, e suas relações com setores administrativos, intelectuais e políticos.
Isso leva a pensar que se trata de um esquema organizativo feito para
funcionar como correia de transmissão dos setores populares, mas que não se
presta a construir hegemonia e exercer o governo. A noção de movimento de
movimentos ― que o MAS partilhou com o PPT em seus primeiros anos e
depois abandonou por ser excessivamente instável ― embora permita ao
partido uma dinâmica fluida com os movimentos populares, demonstra ser
insuficiente para fortalecê-lo como uma organização de projeção nacional. Não
obstante, os dirigentes do PPT têm administrado com algum êxito prefeituras e
governos estaduais desde 1989, mantiveram dois governadores e algumas
prefeituras até 2004, e têm exercido importantes posições no Executivo
nacional desde 2001.
Paradoxalmente, as reaproximações em relação ao MVR e ao
presidente Chávez desde 2001, com os quais o PPT efetivamente compartilha
muitos elementos do projeto político, tiveram por consequência o afastamento
do secretário-geral Pablo Medina. Embora a saída de um de seus fundadores
principais tenha-se dado depois de um longo debate, e aparentemente sem
traumas nem evasões numerosas de militantes, ela acabou por desfigurar, em
anos recentes, o perfil próprio do partido. Hoje o PPT se confunde com o MVR
em sua subordinação às diretrizes da liderança personalista do presidente
Chávez. Isto nos leva a temer por sua sobrevivência a médio prazo e/ou
vislumbrar sua fusão com o outro partido.
184

A atividade identificante do PPT não se baseia em recursos de grande


poder emotivo e simbólico. Procura, antes, apoiar-se na politização contínua
da população que ele pretende representar. Esta estratégia não parece
produzir efeitos políticos tão amplos e de verdadeiro impacto quanto os que
são conseguidos pelos recursos simbólicos e de comunicação de Chávez e do
MVR. Mesmo assim, é capaz também de construir redes de solidez e
durabilidade. Essa atividade poderia ser complementada por outras que
procurassem ampliar o espectro dos setores sociais e os incluíssem na
organização, e outras que propiciassem a comunicação com atores
ideologicamente afins, promovendo assim uma aproximação com eles em
certas conjunturas políticas. Neste sentido, o discurso do PPT apela antes à
racionalidade de seus membros e simpatizantes, ao passo que o MVR se
move no mundo emotivo deles. Contudo, ambas as estratégias poderiam
combinar-se para construir uma plataforma sólida de identidade partidária.
Finalmente, tais grupos refletem em sua organização e comportamento,
bem como em seus ideários, alguns condicionamentos muito fortes derivados
do repúdio aos partidos e do processo de desinstitucionalização de que foram
vítimas nos anos 90. Existe nesses grupos emergentes de vocação popular
uma genuína desconfiança para com a institucionalização, temendo que dela
decorra a rigidez organizativa que foi característica dos partidos tradicionais. O
MVR e o PPT receiam contrair a surdez às reivindicações dos setores
populares (como ocorreu à AD nos últimos lustros) ou a paralisia do debate e
da circulação de ideias para a mudança (que marcou os anos 70 e 80), ou,
ainda, o mal da concentração de decisões em uma cúpula personalista e
corrupta, com o consequente afastamento do voto popular. Mas, ao tratar de
conjurar esses fantasmas, eles correm o risco de fazer naufragar um projeto
político democrático de vocação popular. A debilidade institucional que até
agora essas organizações demonstram põe o fiel da balança da sobrevivência
política quase exclusivamente no desempenho governamental que elas
venham a ter em todos os níveis da administração pública, no carisma ou na
simpatia pessoal que possam despertar seus dirigentes (em especial, o
presidente Chávez), e na efetividade das mensagens que elas transmitam
pelos meios de comunicação. Estes recursos têm demonstrado sobejamente,
tanto no caso venezuelano como no de outras experiências latino-americanas,
185

uma extrema fragilidade e volatilidade, que podem conduzir o processo político


dos próximos anos a retrocessos cujas piores consequências recaiam sobre os
setores de nossas sociedades que mais necessitam da ação do Estado. As
organizações emergentes de vocação popular têm, por isso, uma
responsabilidade maior do que outros setores: cumpre a elas buscar sua
permanência e estabilidade para assim conseguir no Estado uma
representação e uma mediação democráticas duradouras em favor dos que
delas mais necessitam.
186

PARTE III

IMPLANTAÇÃO DE UMA NOVA HEGEMONIA

CAPÍTULO 9

AS ELEIÇÕES DE 1998: O TRIUNFO DE CHÁVEZ1

Em novembro e dezembro de 1998, os venezuelanos participaram de


um dos processos eleitorais mais complexos e, ao mesmo tempo, mais
apaixonantes de sua história democrática. Nas eleições regionais e para o
Congresso Nacional, realizadas em 6 de novembro, acentuou-se o universo
plural da representação política que surgira em processos anteriores, e o fiel
da balança inclinou-se desta vez para o lado dos atores de vocação popular,
aglutinados no chamado Polo Patriótico. Entre eles, o Movimento V República
converteu-se no segundo partido do país, e o Pátria Para Todos conquistou
três governos estaduais, colocando-se em sexto lugar da lista das
organizações políticas. Em 8 de dezembro, o tenente-coronel da reserva Hugo
Chávez Frías, chefe da malograda insurreição de 4 de fevereiro de 1992 e líder
fundador do MVR, alcançava a presidência com uma das maiores votações já
recebidas por um candidato na história eleitoral do país. Em segundo lugar,
vinha o candidato de outra organização emergente, chamada Projeto
Venezuela (PV), Henrique Salas Römer, enquanto os partidos AD e Copei
(eixos do tradicional bipartidarismo do país), depois de alguns episódios pouco
compreensíveis do ponto de vista da racionalidade política, abandonaram a
corrida para apoiar a candidatura de Salas Römer, um adversário político até

1
Este capítulo está baseado em Triunfos en tiempo de transición. Actores de vocación popular
en las elecciones venezolanas de 1998 (Margarita López Maya e Luis E. Lander), Cuestiones
Políticas, nº 22, janeiro-junho de 1999, pp. 107-132. Outra versão em: América Latina Hoy, nº
21, Salamanca, abril de 1999, pp. 41-50. (N. da A.)
187

cinco dias antes. A aliança de última hora intitulou-se a si mesma de Polo


Democrático.
O significativo avanço regional e nacional do PP em novembro, bem
como a contundente vitória presidencial de Chávez em dezembro redundaram
em uma nova virada na disputa pelo poder na Venezuela, agora em favor de
dirigentes e organizações políticas novas, alheias e avessas ao velho sistema
partidário. Com esta mudança de elites, iniciava-se também a cristalização no
Estado de uma nova hegemonia, com um projeto para o país, que no ardor da
luta política dos anos seguintes alcançaria cada vez maior clareza e solidez.

O CONTEXTO: UM ELEITORADO FRUSTRADO E RADICALIZADO


Durante o período constitucional do presidente Caldera (1994-1998),
prevaleceu a já longa dificuldade por parte da sociedade para encontrar um
modelo econômico novo que superasse o modelo rentista-petroleiro
venezuelano, esgotado desde fins dos anos 70. Neste quadro, o governo
começou com uma aguda crise financeira e fiscal, e terminou com outra crise
fiscal que, embora não atingisse a magnitude da de 1994, determinaria uma
nova agudização do empobrecimento da população e a consequente
percepção pessimista e crítica dos venezuelanos acerca de como havia sido o
desempenho econômico do governo durante esses anos. A este contexto
socioeconômico sobrepôs-se a continuidade da deterioração político-
institucional, visível tanto nas múltiplas faces da ineficiência das instituições do
Estado e dos serviços públicos, como na eficaz ação dos partidos tradicionais
para neutralizar praticamente todas as iniciativas de mudança política que
vinham sendo propugnadas por atores emergentes e pelos cidadãos em geral,
desde os anos 80. Esbocemos rapidamente este contexto que propiciou a
conformação de um eleitorado mais disposto que outrora a procurar nas
eleições uma mudança mais profunda para a ordem política da sociedade.

QUEDA DOS PREÇOS DO PETRÓLEO E AS CONDIÇÕES SOCIAIS DO PERÍODO


Como já discutimos na Parte I deste estudo, quando o doutor Caldera
chegou ao governo, em fevereiro de 1994, a sociedade venezuelana acabara
de experimentar uma tentativa de reestruturação econômica, conhecida como
188

a Grande Virada, sob a orientação e tutela dos organismos financeiros


multilaterais. Esta tentativa, conquanto tivesse atingido nos primeiros anos
alguns resultados macroeconômicos positivos, desencadeou uma crise
sociopolítica e institucional de vastas proporções, da qual a vitória de Caldera
nas eleições de 1993 foi um dos resultados.
O presidente Caldera foi eleito com promessas explícitas de
desenvolver um modelo econômico diferente daquele pautado pelas
orientações do FMI e do Banco Mundial. Essas promessas, contudo,
frustraram-se. Poucos dias antes da posse do novo governo, o presidente
Velásquez viu-se obrigado a intervir no principal banco do país, o Banco
Latino. Esta medida foi interpretada pelo novo presidente como "uma rabada
da crise moral e econômica" dos anos anteriores. Não obstante, significou o
início da mais severa crise financeira que já padecera o país ao longo do
século e, de acordo com informações do Banco Central da Venezuela (BCV),
implicou, para o ano de 1994, a injeção de recursos pelo Estado no sistema
bancário equivalentes a 10% do PIB. O custo financeiro que essa crise
representou para o fisco limitou severamente a capacidade de projetar e pôr
em prática um modelo econômico próprio em um contexto internacional no
qual as políticas dos organismos multilaterais eram hegemônicas. Após dois
anos de tentativas incertas para definir uma política econômica, o presidente
Caldera anunciou, em abril de 1996, a implementação da Agenda Venezuela,
uma versão atenuada da Grande Virada de Pérez.1
Em 1997, a combinação de um aumento do preço médio da cesta
petroleira venezuelana nos circuitos internacionais com uma maior
arrecadação de impostos no setor não-petroleiro e uma disciplina mais rígida
nos gastos públicos permitiu a recuperação de algumas cifras
macroeconômicas. Registrou-se em relação ao ano anterior um crescimento
do PIB de 5,12% (a preços constantes); igualmente, um superavit nas contas
públicas de 1,6% do PIB; a inflação baixou a 50,04% (em 1996, ela havia
atingido 99,87%), e as reservas ao fim do ano alcançavam $17,745 bilhões
(IESA, 1999). Esta situação criou, principalmente entre os agentes

1
Um resumo das principais vicissitudes da crise bancária do primeiro ano do governo de
Caldera e de seus programas econômicos até à Agenda Venezuela pode ser encontrado en
Gran Enciclopedia de Venezuela, Caracas, Editorial Globe, 1998, v. IV, pp. 285-325. (N. da A.)
189

econômicos, uma atmosfera de alívio e de moderado otimismo, o que


pressagiava o início de um processo de recuperação e solução da longa crise
econômica vivida pelo país. Não obstante, desde outubro de 1997, começaria
o que posteriormente representou uma derrubada dos preços do barril de
petróleo no mercado internacional. Pouco antes de encerrar-se o ano de 1998,
o BCV calculou que a queda do preço médio da cesta petroleira de exportação
venezuelana em relação ao ano anterior era de 34,1%. Isso obrigou a
sucessivos ajustes do preço médio de realização do petróleo venezuelano para
efeitos de cálculos fiscais, a partir de uma estimativa inicial da Lei de
Orçamento de US$15,50 o barril e descendo a US$11,50 ao finalizar-se o ano.
Em 11 de dezembro de 1998, o preço da cesta petroleira venezuelana atingiu
a cifra mais baixa do ano ao ser cotada a US$7,66 o barril. Esta drástica
redução provocou uma diminuição na renda fiscal petroleira da ordem de US$7
bilhões, o que forçou a um corte dos gastos públicos de aproximadamente
US$2,3 bilhões e um deficit fiscal de cerca de 5% do PIB (Ministro Petkoff, em
El Universal, 20-11-1998). O moderado otimismo com que se fechou o ano de
1997 foi-se convertendo, ao longo do ano seguinte, em claro pessimismo e
questionamento do desempenho do governo na política econômica. 1
No plano social, o governo de Caldera não conseguiu superar os
gravíssimos problemas que a sociedade venezuelana arrastava havia vários
lustros. Com uma inflação acumulada de mais de 800%, que foi a mais alta
em um período constitucional, os principais indicadores sociais do governo de
Caldera continuaram sua tendência à deterioração. Em junho de 1997, de um
total de 4.740.250 lares, 2.122.016 achavam-se em situação de pobreza, e
895.542 deles em situação de pobreza extrema. Isto quer dizer que 44,76%
dos lares venezuelanos não contavam com uma renda suficiente para
satisfazer suas necessidades básicas, e 18,89% não chegavam a satisfazer
suas necessidades alimentícias. O Provea calculou, em relação ao ano de
1998, que 15% dos venezuelanos se encontravam em condição de pobreza
atroz, entendendo-se por essa categoria a que abrange os que vivem ao
relento e se acham excluídos de qualquer política social.

1
Ao finalizar-se o ano de 1998, o BCV calculou a inflação em 29,9%, isto é, 20,5% mais baixa
do que no ano anterior; as reservas internacionais fecharam em US$14,853 bilhões e o dólar
cotado a Bs. 565. O BCV reconheceu que todos esses indicadores eram melhores em relação
às "expectativas que foram traçadas para o ano". (El Universal, 2-1-1999: 2-4) (N. da A.)
190

Quanto ao mercado de trabalho, o desemprego aberto ficava acima dos


10% como média anual ao longo do período, estando cerca de metade da
população economicamente ativa no setor informal da economia (IESA, 1998).
Além disso, segundo os indicadores sociais fornecidos pelo Provea, entre 1993
e 1997, a mortalidade por desnutrição dobrou, atingindo nesse último ano a
proporção de 993 por 100 mil habitantes. Em termos de deterioração dos
serviços públicos, como educação e saúde, 70% dos estudantes que
ingressavam na educação primária não chegavam a concluir o nono ano, e 8
em cada 10 alunos que entravam na universidade provinham da educação
privada. Nas áreas em que residia a população mais pobre, a taxa de
mortalidade infantil era 2,5 vezes mais alta que as taxas nacionais. A
esperança de vida ao nascer do estrato V (o mais pobre) era 12 anos menor
do que a dos estratos I e II. O Ministério da Saúde e Assistência Social estimou
que, na época, 30% da população não tinham acesso aos serviços de saúde.
Tudo isso revelava um quadro de profunda exclusão, assim como um cenário
pouco propício para abrigarem-se expectativas de melhoria.

A DETERIORAÇÃO POLÍTICO-INSTITUCIONAL E AS PROMESSAS NÃO


CUMPRIDAS DE REFORMAS
Do mesmo modo que no plano econômico, as promessas eleitorais de
Caldera no plano político-institucional não foram cumpridas. Embora se tenha
alcançado uma certa paz política, em nada foi remediada a situação de
deterioração das instituições fundamentais do Estado e de deslegitimação do
sistema político. A prometida e ansiada reforma profunda da Constituição
Nacional, que fora uma das bandeiras de Caldera durante a campanha
eleitoral, acabou sendo ano após ano postergada.
Deve-se recordar que Caldera chegou ao poder logo após uma
profunda crise política, cujos traços mais importantes estavam representados
pela explosão social de 27 de fevereiro de 1989, pelos malogrados golpes
militares de 1992 e pela destituição do presidente Andrés Pérez em maio de
1993. Somando-se a isso, o desencanto dos venezuelanos com seu sistema
democrático vinha-se revelando mais patente nos crescentes índices de
abstenção nas urnas e nas pesquisas de opinião que mostravam desapego e
191

repúdio em relação à política e aos partidos e instituições, como o Congresso e


o Poder Judiciário.
Conquanto seja certo que, no início de seu governo, Caldera tenha
afastado algumas das mais sérias ameaças à estabilidade política, como nos
casos em que conseguiu um afrouxamento da tensão com os setores militares
e com o Congresso Nacional, sua promessa eleitoral de realizar
transformações profundas nos poderes do Estado através de uma reforma
constitucional foi repetidamente protelada. Nos cinco anos anteriores, uma das
propostas mais recorrentes para superar a crise política e institucional foi a de
modificação da Constituição por meio de uma reforma conduzida a partir do
Congresso ou, então, mediante uma assembleia constituinte. Caldera, em sua
condição de senador vitalício, presidiu à Comissão Bicameral que elaborou a
proposta de reforma ampla, que, contudo, não chegou a ser aprovada. Caldera
prometeu realizá-la se fosse eleito presidente.
Apesar da promessa, a crise financeira do ano de 1994, ao combinar-se
com a debilidade do partido do governo e seus aliados no Congresso, atuou
como um obstáculo inicial que punha em risco a governabilidade. Em meados
de 1994, quando sobreveio um impasse entre o Poder Legislativo e o
Executivo em consequência da suspensão de garantias decretada por este
para enfrentar uma grande fuga de capitais, o presidente acabou optando por
uma aliança com o partido da primeira bancada no Congresso, a AD. Esta
aliança, nunca formalizada, iria prolongar-se por todo o período constitucional
e se tornaria um dos maiores obstáculos ao avanço de qualquer iniciativa real
de mudança, por ser a AD a principal defensora do status quo do sistema
político. De sorte semelhante à da reforma geral da Constituição, surgiram
também outras iniciativas legislativas que poderiam ter significado
transformações importantes no sistema político e nas instituições do Estado.
Entre elas, cumpre mencionar a reforma parcial da LORM 1 e a Lei dos Direitos
Democráticos dos Trabalhadores em seus Sindicatos, Federações e
Confederações.
Ademais, um dos campos de atuação do Estado mais necessitados de
reforma ― o Poder Judiciário ― embora tivesse obtido algumas inovações na

1
Lei Orgânica de Regime Municipal, sancionada em junho de 1989. Cf., adiante, o Cap. 13. (N.
do Trad.)
192

ordem legal, não conseguiu reverter sua imagem de ineficácia nem promover
reformas fundamentais, como a Lei Orgânica da Corte Suprema de Justiça, a
Lei Orgânica de Salvaguarda do Patrimônio Público (com a qual se
estabeleceria que os delitos de corrupção não poderiam prescrever), e a do
Código Penal. A prescrição, em 1997 e 1998, das causas por delitos contra a
coisa pública do ex-presidente Lusinchi e sua agora esposa Blanca Ibáñez
acentuou ainda mais o profundo mal-estar dos cidadãos em relação ao
funcionamento desse Poder.
Finalmente, ganharam relevo as tensões e peripécias que entre 1997 e
1998 ocorreram em torno da modificação da Lei Orgânica do Sufrágio, agora
chamada Lei Orgânica do Sufrágio e da Participação Política, e a nomeação
dos membros da nova instituição reitora das eleições ― O Conselho Nacional
Eleitoral (CNE). Um prosseguimento das vicissitudes ocorridas durante a
discussão dessa Lei ao longo de 1997 até a sua aprovação em dezembro, e
da nomeação do novo CNE em fevereiro de 1998, em consequência de um
pacto excludente entre AD e Copei, pôs uma vez mais em evidência ante o
eleitorado a escassa vontade desses partidos de mudar os sistemas e
procedimentos que lhes eram favoráveis. Além disso, a rapidez com que
prosperou um acordo entre esses mesmos partidos para modificar a referida
lei, cinco meses mais tarde, com a finalidade de antecipar as eleições
regionais e do Congresso Nacional, criar um triunvirato no seio do CNE e
facultar a esse Conselho o poder de modificar a seleção dos integrantes dos
organismos subalternos, calculando que tudo isso favorecia seus interesses,
foi outro ingrediente que alimentaria a tendência a seguir opções radicais em
um eleitorado enfadado com a conduta desses atores, reiteradamente
divorciada dos interesses da cidadania.
193

A CONJUNTURA: ATORES EMERGENTES VERSUS TRADICIONAIS


Os atores emergentes de vocação popular ― entendendo-se por eles
os que, em seus programas políticos e discursos, incorporam como elemento
central de sua razão de ser a luta pelas reivindicações dos setores mais fracos
da sociedade ― além de contar com um contexto socioeconômico e político-
institucional que os favorecia, souberam enfrentar com êxito ao longo da
campanha eleitoral as estratégias e ações tanto das forças tradicionais do
bipartidarismo, como dos outros atores emergentes.

O POLO PATRIÓTICO
Como já apontamos em capítulos precedentes, a insurreição militar de 4
de fevereiro de 1992, diferentemente dos levantes ocorridos no início da
instauração do sistema democrático em fins dos anos 50 e início dos 60, não
sofreu a rejeição das multidões nas ruas; ao contrário, a revolta foi vista com
simpatia por amplos setores populares, desgostosos com o plano de ajuste
imposto pelo governo de Pérez, e desencantados com a política tradicional,
incapaz de velar por seus interesses e/ou introduzir as prementes reformas
políticas, exigidas desde a década de 80.
A partir de 1994, quando os golpistas foram libertados pelo presidente
Caldera, o MBR-200 passou a reconstruir-se como uma organização política
de composição cívico-militar, que procurava seu enraizamento na sociedade.
Em abril de 1997, em uma assembleia nacional, seus membros decidiram
concorrer às eleições dentro dos parâmetros da política tradicional. Para isso,
criou uma estrutura político-eleitoral, o MVR, a que se incorporaram quadros
civis de extensa experiência política, oriundos da velha esquerda venezuelana:
Luis Miquilena, José Rafael Núñez Tenorio, Omar Mezza Ramírez, entre
outros.
Como também referimos atrás, o PPT originou-se de uma divisão de
LCR, quando o ex-governador e líder sindical Andrés Velásquez, candidato do
partido nas eleições de 1993, tomou a iniciativa de, em abril de 1997, expulsar
um considerável grupo de seus dirigentes. Posteriormente, o grupo de
Velásquez (ao qual o CSE conferiu o nome e os emblemas de LCR) uniu-se à
candidatura da ex-miss universo Irene Sáez, dando um tom moderado ao seu
194

discurso para situar-se no centro do espectro político venezuelano. Em


contraste, os quadros de LCR que criaram o PPT reafirmaram
majoritariamente a vocação popular do grupo, e estabeleceram em seus
discursos uma postura antineoliberal mais clara e coerente. À medida que o
grupo dava seus primeiros passos, as figuras de Aristóbulo Istúriz, Alberto
Müller Rojas, Alí Rodríguez, José Albornoz e Pablo Medina foram-se tornando
seus dirigentes principais.
Destarte, em fins de 1997, o MVR e o PPT iriam coincidir em algumas
de suas propostas. Especialmente, em relação ao nacionalismo (e daquilo que
daí derivava, o antineoliberalismo) e à clara vocação popular. Igualmente,
ambos os grupos ― em suas versões anteriores do MBR-200 e de LCR ―
haviam sido durante os anos críticos do governo de Pérez os dois principais
propugnadores da reforma política profunda mediante a convocatória a uma
assembleia constituinte. Daí que ― salvo as diferenças que haviam tido no
passado, e após um processo de encontros e desencontros ― afigurou-se ao
PPT que não havia outra opção política nessa conjuntura eleitoral senão a de
apoiar a candidatura em ascensão de Chávez Frías.1 O apoio foi formalizado
em princípio de 1998, e o PPT trouxe à candidatura de Chávez um contingente
de experimentados quadros políticos e sociais. A experiência política do PPT
também tornou mais rica a aliança ao incorporar a ela seu conhecimento de
política institucional e de militância nas ruas, que adquirira nos anos recentes.
Demais, as duas organizações formaram o núcleo principal do que seria
o Polo Patriótico, e imprimiram nele a marca de uma aliança de indiscutível
vocação popular. No desenrolar da conjuntura eleitoral de 1998, outras
organizações foram aderindo ao Polo Patriótico. No caso do partido MAS, sua
direção se debatia (até fevereiro de 1998) entre várias opções, sendo as
principais as que se inclinavam para as candidaturas de Sáez e Salas Römer
e, em menor medida, a do adeco Claudio Fermín. Uma porção minoritária
optava por Chávez. Não obstante, em meados do ano, vários fatores passaram
a pesar na decisão final do MAS de fazer parte do PP e dar respaldo ao seu
candidato. Por um lado, esta candidatura, mesmo que frágil entre os membros

1
Os vínculos entre ambas as organizações datam de antes da insurreição militar de 4 de
fevereiro. Após essa intentona, distanciaram-se em razão de divergências acerca dela. A nova
conjuntura eleitoral tornou a uni-las. (N. da A.)
195

da direção do partido, gozara sempre de considerável simpatia em suas bases.


Por outro, ao dar-se a antecipação das eleições para o Congresso e para os
governos estaduais e assembleias legislativas, uma aliança do MVR com o
MAS revelava-se conveniente ao PP, visto que ela permitiria (como, de fato,
aconteceu) uma melhora substancial de suas possibilidades eleitorais nesse
momento. O MAS contava então com uma importante base regional, expressa
em quatro governos estaduais. Para o MAS, o apoio do PP às suas
candidaturas regionais também não era algo de desprezar. Por último, no
momento em que vingou a aliança em torno da candidatura de Chávez, este já
estava, havia alguns meses, à frente na corrida presidencial segundo
praticamente todas as pesquisas de opinião. O apoio do MAS viria reforçar
essa posição.
As outras organizações que passariam a engrossar o PP foram as que,
nas eleições de 1993, apoiaram a candidatura de Caldera, e que ficaram então
conhecidas como "el Chiripero". Entre elas, contavam-se o PCV e o MEP.
Também se uniriam alguns novos grupos de eleitores como: Gente Emergente
(GE), Solidariedade Independente (SI) e Associação Agropecuária (AA). Em
setembro, Chávez contava (segundo pesquisa de Datanálisis) com 41,6% da
preferência do eleitorado; em outubro, com 44,8%, e em novembro, após as
eleições regionais, subiu (segundo o mesmo órgão de pesquisa) a 49,6%.
Outras pesquisas (como a de Consultores 21) davam-lhe 46% da preferência
eleitoral ainda em setembro, e 48% no mês seguinte.

O PP ANTE A DIFÍCIL CONJUNTURA ELEITORAL


Nessa conjuntura eleitoral, sérios obstáculos se impuseram ao PP, que,
contudo, soube superá-los com habilidade e êxito. Os atores políticos
tradicionais, especialmente a AD e o Copei, mas também importantes agentes
de poder (como alguns grupos econômicos), importantes meios de
comunicação, setores das Forças Armadas e personalidades formadoras de
opinião, perceberam na candidatura de Chávez uma ameaça real ao sistema
político do qual, em maior ou menor medida, eram usufrutuários. Esses atores
promoveram uma oposição intensa ― e amiúde ignóbil ― com a qual
acabaram por favorecer a opção emergente do PP. Do mesmo modo, os
outros atores emergentes, cedo ou tarde sucumbiram à aliança com os atores
196

do bipartidarismo, o que lhes comprometeu a imagem de partidos de mudança,


desejada pelo eleitorado.
O estilo discursivo de Chávez, desde que lançara sua candidatura em
1997, deu azo a que, mais de uma vez, seus adversários tomassem dele
elementos com os quais iniciassem campanhas de satanização de sua figura.
O fato de ele ter sido responsável por um golpe de Estado foi um ingrediente
importante na construção dessa imagem negativa. Neste sentido, durante as
diversas campanhas políticas, em que algum deslize discursivo era
aproveitado, Chávez foi estigmatizado como autoritário, fascista,
antidemocrático, promovedor de violência, e um candidato que para ganhar
não titubearia em varrer as instituições e impor um clima de terror próximo de
uma guerra civil. Ao mencionar, em um comício, que "varreria a Ação
Democrática da face da Terra", ou que, ao vencer, as cabeças dos adecos e
copeianos seriam "fritas em óleo"; ou suas declarações no sentido de que
aqueles que se opusessem à convocação de uma Constituinte iriam para a
prisão ― tudo isso despertou justificadamente exasperadas manifestações de
repúdio. Não obstante, a torpeza com que os partidos principais do
bipartidarismo procuraram capitalizar esses dislates acabou por neutralizar as
palavras de Chávez, e, em alguns casos, chegou mesmo a beneficiá-lo. Tal foi
o caso, por exemplo, de uma propaganda da AD transmitida pelos meios
audiovisuais, na qual foi apresentada uma imagem ofensiva de pessoas
humildes. Essas pessoas vociferavam, diante de um caldeirão cheio de óleo,
que teriam de "fritar" toda a Venezuela, porque "todos somos adecos". A
propaganda foi censurada e retirada pelo CNE; porém, além das piadas que
provocou, acentuou a rejeição em relação à AD entre diversos setores sociais.
Uma fonte importante de tensões era encontrada nas relações com
alguns setores castrenses, cuja personagem mais visível era o comandante do
Exército, general Rubén Rojas Pérez, genro do presidente Caldera. As
manifestações mais notórias desse desencontro ocorreram a partir de outubro,
e chegaram até às eleições de dezembro. O general Rojas, em uma
intervenção durante um ato do Exército na cidade de Maturín, manifestou-se
afirmando que a instituição não podia aceitar a vitória eleitoral de alguém que
havia encabeçado um golpe militar. Dias antes, ocorrera já um impasse
quando esse mesmo comandante se negara a assistir à reunião do Alto
197

Comando Militar com o candidato presidencial Chávez. O Alto Comando, por


iniciativa própria, vinha convocando reuniões com todos os candidatos. Outros
sucessos desse teor perturbavam o clima eleitoral e pressagiavam um
desenlace violento. Nos dias imediatamente anteriores às eleições
presidenciais, espalharam-se insistentes rumores sobre uma mobilização
militar para impedir o triunfo de Chávez. O presidente Caldera manteve-se
claramente à margem dessa confrontação. Contudo, em momentos decisivos,
como na sexta-feira, 4 de dezembro, dois dias antes das eleições
presidenciais, e em meio aos piores augúrios, em um ato de fim de ano da
Guarda Nacional ― uma instituição que os rumores vinculavam estreitamente
ao golpe ― Caldera deixou claro que o governo garantiria o respeito aos
resultados eleitorais e à institucionalidade democrática. Este discurso foi
transmitido em cadeia nacional, coisa que não era então frequente para esse
tipo de ato.
Embora com menos estridência, as tensões entre o PP e os executivos
da estatal Petróleos da Venezuela S.A. (PDVSA) revelaram-se igualmente
fortes. Neste caso, muitos dos críticos e opositores à política petroleira do
governo acabaram agrupando-se mais ou menos ativamente no Polo. O único
candidato que expressou publicamente desavenças com a política da empresa
foi Chávez. Isto significou que os porta-vozes dela, bem como outros setores
do país opostos a Chávez, participaram da campanha de oposição à sua
candidatura, acusando-o de ignorante, de estar mal assessorado e de
defender posições já ultrapassadas. Entretanto, na situação de depressão dos
preços do petróleo e de superoferta do produto, as críticas à política de
expansão de PDVSA encontraram mais receptividade e simpatia do que em
anos anteriores.
Finalmente, no clima acalorado da campanha e diante da ascensão
contínua de seu nome nas pesquisas, Chávez foi-se configurando para seus
adversários como o candidato a ser vencido. Cada um dos outros candidatos
foi esboçando estratégias que tentavam aglutinar ao seu redor as vontades
antichavistas. Isso, contudo, não foi possível senão após as eleições regionais
de novembro, visto que não estava claro nas pesquisas e sondagens de
opinião quem era o candidato mais idôneo para enfrentar com chances de
198

êxito o candidato do PP. Os diversos ataques frontais davam à imagem de


Chávez certos traços de vítima, e com isso ele ia-se fortalecendo.
Realizadas em novembro as eleições regionais, o quadro eleitoral
pareceu definir-se com três blocos distintos: o PP, o PV e a AD. O Projeto
Venezuela aparecia fazendo decolar a candidatura de Salas Römer.
Conquanto tivessem sido magros seus resultados, Römer começava a
distanciar-se (como mostravam as pesquisas) dos demais candidatos que
disputavam o segundo lugar (Luis Alfaro Ucero, pela AD, e Irene Sáez, pelo
Copei, Movimento Irene e Fator Democrático). Diante dessa realidade, a AD e
seu candidato idealizaram uma ofensiva publicitária para apresentarem-se
como os triunfadores de novembro, e assim fortalecer seu candidato
presidencial. Nos principais jornais do país, no dia 9 de novembro, apareceram
grandes informes publicitários que diziam: "Está provado ― AD ― Somos a
maioria ― Alfaro presidente". A AD havia obtido a bancada parlamentar mais
numerosa ― considerando-se como partido individual ― e conseguiu reter oito
governos estaduais.
Embora a ideia de formar um Polo Democrático houvesse sido cogitada
antes, ela não havia vingado. Mas, para surpresa do país, a partir de 24 de
novembro, sobreveio precipitadamente um encadeamento de sucessos que
culminaria com a concentração majoritária das organizações não-chavistas em
torno da candidatura de Salas Römer.
Com efeito, em 24 de novembro, um grupo de governadores da AD
recém-eleitos solicitou ante a Comissão Nacional de Estratégia de seu partido
que se reconsiderasse a candidatura de Alfaro. Nesse dia, a proposta foi
recusada. No dia seguinte, contudo, em reunião do Comitê Executivo Nacional
(CEN) com os governadores adecos, apresentou-se o pedido (aprovado por
votação, de 39 votos a favor e cinco contra) ao candidato para que
renunciasse, o que ele se negou a fazer. Ante a negativa, o CEN decidiu
convocar para o dia 27 um Comitê Diretivo Nacional (CDN), que decidiu ―
após alguns enfrentamentos físicos, inclusive ― revogar a candidatura de
Alfaro (El Universal, 28-11-1998). No dia 28, o CEN ordenou à militância que
votasse em Salas Römer. O episódio encerrou-se com a expulsão, por decisão
unânime dos membros do CEN, de Alfaro Ucero, que se negara a acatar as
decisões das diferentes instâncias do partido. Somou-se a isso, ainda, a
199

polêmica decisão do Conselho Nacional Eleitoral de fazer valer os votos


emitidos com a cédula da AD para Salas Römer.1
Enquanto essas coisas ocorriam na AD, no Copei foram-se sucedendo
fatos que, como em uma sequência retardada dos acontecimentos
experimentados pelos adecos, também levariam este partido a apoiar Salas
Römer. A direção nacional do Copei, reunida em 30 de novembro, decidiu
revogar a candidatura de Irene Sáez e unir-se à de Römer. Os dois candidatos
defenestrados decidiram continuar na campanha, apoiados por outros grupos
de eleitores.
Estes atropelos de última hora para que fosse formada uma frente
eleitoral anti-Chávez, longe de pôr em perigo a vitória do candidato do Polo
Patriótico, pareciam naquele momento confirmá-la ― o que, aliás, depois ficou
patente nas eleições de 6 de dezembro. Da mesma forma que a candidatura
independente de Sáez iniciara seu declínio nas pesquisas de opinião tão logo
se oficializara o apoio do Copei e, posteriormente, a aliança para chapas
parlamentares do Distrito Federal com a AD, também o apoio de última hora
dos dois partidos à candidatura de Salas Römer pode ser considerado ― se
levarmos em conta os resultados ― um benefício pouco atraente. A torpeza,
por um lado, e a improvisação dos atores políticos tradicionais do
bipartidarismo, por outro, fizeram afundar esse esquema no mar de repúdio
manifestado a seus representantes, acabando por afiançar assim a opção que
mais claramente propugnava a mudança.

OS RESULTADOS ELEITORAIS DO PP
Separadas em maio (por decisão do Congresso) as eleições
presidenciais das demais ― o que foi conseguido mediante uma aliança
exclusiva entre a AD e o Copei ― realizaram-se em 8 de novembro as eleições
para senadores e deputados ao Congresso Nacional, para governadores dos
23 Estados e para deputados às assembleias legislativas. Nessas eleições,
foram seladas alianças de diversos tipos entre os partidos e agrupamentos

1
Houve interpretações conflitantes acerca do artigo 151 da Lei, pois este definia que para
substituir-se uma postulação era necessária a renúncia, morte ou declaração de incapacidade
do candidato, o que inexistia absolutamente neste caso. Membros do CNE e consultores
jurídicos desse órgão haviam declarado, dias antes, a impossibilidade da transferência dos
votos se Alfaro não renunciasse (cf. El Nacional, 18 a 29 de novembro de 1998). (N. da A.)
200

eleitorais, sendo que algumas delas explicam-se mais propriamente por lógicas
regionais. No entanto, a antecipação dessas eleições em relação à eleição
presidencial (que ficou para 6 de dezembro) determinou que os resultados de
novembro fossem interpretados como um "primeiro turno" da presidencial. A
seguir, apresentamos o desempenho dos candidatos do PP em ambas as
eleições.

AS ELEIÇÕES DE NOVEMBRO
Em 8 de novembro, os principais agrupamentos políticos que
constituíam o PP (ou seja, o MVR, o PPT e o MAS) fizeram um acordo para
apresentar candidatos comuns nas eleições regionais. Isto refletia a vontade e
a capacidade desses partidos de pôr de lado seus interesses particulares em
prol dos interesses mais gerais da aliança. Graças a isso os candidatos a
governadores pelo PP conseguiram eleger-se em oito Estados:

QUADRO 17: GOVERNADORES ELEITOS PELO POLO PATRIÓTICO


(NOVEMBRO DE 1998)

GOVERNADOR ESTADO VOTOS %

Alexis Rosas Anzoátegui 92.175 34,22

Didalco Bolívar Arágua 229.211 67,59

Hugo de los Reyes Chávez Barinas 68.070 43,55

Eduardo Manuitt Guárico 81.259 48,00

Orlando Fernández Lara 178.697 53,53

Iván Colmenares Portuguesa 88.038 47,34

Alfredo Laya Vargas 32.698 39,17

Francisco Arias Cárdenas Zúlia 325.968 54,42

Fonte: CNE, (http//www.eleccion98.cantv.net, 28-12-1998)


201

Além dessas vitórias, que permitiram à aliança igualar-se ao partido AD


em número de governos estaduais, ela chegou em segundo lugar em dez dos
treze Estados restantes. Embora no Distrito Federal não se elegesse
governador, o desempenho do PP foi ali avassaladoramente triunfante na
eleição para os cargos ao Congresso Nacional (cf. Quadro 18). Levando-se em
conta que as previsões da AD eram de que, na pior das hipóteses, seriam
mantidos os 11 governos estaduais alcançados em 1995 (podendo mesmo
chegar a 14), os resultados revelaram um saldo claramente favorável ao PP.
Deve-se ter em mente que, além disso, o total da votação dos governadores
eleitos do PP foi de 1.096.116 votos, enquanto que o total de votos dos
governadores da AD atingiu apenas 564.391. Acabou por ser surpreendente e
emblemática a eleição do pai de Chávez para governador do Estado de
Barinas, derrotando o candidato (e então governador) da AD. Foi também
contundente a vitória de Alexis Rosas, do PPT, em Anzoátegui, onde
concorreu com o ex-candidato presidencial de LCR, Andrés Velásquez, o qual
chegou em terceiro, atrás do candidato da AD. Além de Rosas, do PPT foram
eleitos governadores Eduardo Manuitt e Alfredo Laya (em Guárico e Vargas,
respectivamente), que, unindo-se à sua bancada parlamentar, proporcionou ao
partido um sólido espaço político para a reconstrução após a divisão de LCR
um ano e meio antes.

QUADRO 18: REPRESENTAÇÃO PARLAMENTAR DIRETA DO DISTRITO FEDERAL


(NOVEMBRO DE 1998)
Aliança ou Partido senadores deputados nominais deputados lista1
Polo Patriótico 2 7 2
AD – Copei – Irene* 0 0 2
Projeto Venezuela 0 0 4
* Em 26 de julho, fez-se pública a aliança destes partidos para as eleições parlamentares do
Distrito Federal.
Fonte: CNE, (http//www.eleccion98.cantv.net, 5-12-1998)

1
Os deputados por lista são os eleitos através de listas apresentadas pelos partidos políticos.
O eleitor tem direito a dois votos, sendo o "voto nominal", com o qual escolhe o candidato que
se apresenta com o nome próprio, e o "voto-lista", para a escolha de candidatos previamente
designados em conjunto pelo partido. Este último garante o princípio constitucional da
proporcionalidade. (N. da A.)
202

A despeito dos resultados notáveis para o PP em sua representação


parlamentar para o Distrito Federal, os resultados para os cargos ao
parlamento no resto do país ― conquanto não tivessem sido contrários ― não
conferiram ao Polo uma maioria hegemônica no Congresso. Com efeito, o
Congresso Nacional, que se instalaria em 23 de janeiro de 1999, estaria
formado por uma variedade de forças políticas, sem que nenhuma delas
constituísse uma maioria absoluta. Daí ser necessário à proposição de
qualquer iniciativa política o estabelecimento de alianças entre duas ou mais
forças parlamentares. O PP contava com aproximadamente um terço da
representação no Senado, e um pouco mais na Câmara dos Deputados (cf.
Quadro 19).

QUADRO 19: FORMAÇÃO PARLAMENTAR PERÍODO 1999-2004


NÚMERO DE VOTOS E CARGOS POR AGRUPAMENTO POLÍTICO
PARTIDOS SENADORES DEPUTADOS
votos cargos votos nominais por lista
Polo Patriótico 1.750.985 18 1.723352 37 38
MVR 1.008.693 12 986.131 25 21
MAS 465.977 5 440.665 8 10
PPT 171.469 1 171.091 4 3
Outros 104.846 0 125.465 0 4
AD 1.246.567 20 1.195.751 33 29
Copei 620.642 7 593.882 10 17
Proj. Venezuela 518.976 3 518.235 6 14
A Causa R 151.960 1 147.806 0 6
Convergência 119.951 2 122.242 2 3
Abertura 123.948 1 76.991 0 3
Irene 63.422 0 62.738 0 2
Renovação 61.992 1 61.704 0 2
ORA 24.794 0 26.610 0 1
URD 16.880 0 19.145 0 1
MIN 19.138 0 18.099 0 1
MDP – BR 13.404 0 15.341 0 1
Outros 289.304 0 282.575 0 1
Fonte: CNE, (http//www.eleccion98.cantv.net, 28-12-1998).
203

Estes resultados deram ocasião a que os adversários do PP buscassem


afanosamente constituir, no mês de novembro, um polo eleitoral alternativo
para as eleições presidenciais, argumentando que duas terças partes do país
haviam-se manifestado contra os candidatos e as propostas de Chávez.
Especialmente, a ideia de uma reforma profunda do Estado por meio de uma
Assembleia Constituinte ― proposta central da plataforma eleitoral do MVR e
do PP ― pareceu debilitar-se, visto que emergia um Congresso com uma
composição majoritariamente contrária a ela.

AS ELEIÇÕES DE DEZEMBRO
Entretanto, após a cadeia de acontecimentos que resultaram ― como
assinalamos ― na aparatosa constituição do chamado Polo Democrático em
torno da figura de Salas Römer, em 6 de dezembro, as eleições ensejaram o
seguinte resultado:

QUADRO 20: RESULTADO DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS


(DEZEMBRO/1998)

CANDIDATO VOTOS %

Hugo Chávez Frías 3.673.685 56,20

Henrique Salas Römer 2.613.161 39,97

Irene Sáez Conde 184.568 2,82

Luis Alfaro Ucero 27.586 0,42

Outros 38.304 0,58

Fonte: CNE, (http//www.eleccion98.cantv.net, 10-12-1998).

A folgada vitória de Chávez ao ganhar em 18 das 24 unidades federais,


embora prevista por algumas pesquisas de opinião, não deixou de despertar
surpresa. Como se pode ver no Quadro 20, ocorreu uma acentuada
polarização (96,17%), na qual o PP superou os 50% dos votos. Tendo
204

capitalizado em novembro a terça parte dos votos, os resultados podem ser


explicados a partir de vários fatos. Por um lado, como era previsível, a
participação eleitoral aumentou em 9,25%. A abstenção nas eleições para
senadores foi de 45,49% e nas presidenciais de 36,24%. Isso significou um
aumento da massa de eleitores da ordem de 1.103.703 votos. As votações dos
partidos PV, AD, Copei, Convergência ― isto é, dos que indicaram a seus
militantes e simpatizantes que votassem em Salas Römer ― obtiveram em
dezembro apenas cem mil votos a mais do que, em conjunto, foi registrado em
novembro, enquanto que Chávez alcançou 1.922.700 votos a mais. Isso indica,
em primeiro lugar, que a diminuição na abstenção voltou-se majoritariamente a
favor de Chávez; em segundo lugar, que os eleitores cujo voto nas eleições de
novembro foi dado às organizações políticas não alinhadas à opção de Salas
Römer também acabaram por votar, em sua maioria, no candidato do MVR,
sem que isso tivesse sido fruto de novas alianças formais. Neste sentido,
Chávez foi mais favorecido do que Salas pela polarização. Em terceiro lugar,
que o clima de entusiasmo e politização do país, nesses meses, permitiu
antecipar uma abstenção menor nas eleições presidenciais do que a que foi
finalmente registrada. Uma hipótese para explicar esse fato ― impossível de
quantificar-se com as cifras oficiais do CNE ― reside na circunstância de que o
número de eleitores (sobretudo os da AD e do Copei) que, diferentemente de
novembro, não fizeram das eleições de dezembro somente um ato de repúdio
à conduta das cúpulas desses partidos, pode ter sido elevado. Sendo correta
essa hipótese, o número de novos eleitores em dezembro era superior ao
registrado nas cifras oficiais como simples diferença entre o total de eleitores
em ambas as eleições. Este seria um caudal adicional de votos que favoreceu
Chávez.
Definitivamente, as vitórias de Chávez e do PP aproveitaram-se da
transição não resolvida da sociedade venezuelana. Uma situação de incerteza
a respeito do porvir, agravada no início de 1998 pela persistente baixa dos
preços do petróleo, deu aos alardeados avanços econômicos da Agenda
Venezuela do governo Caldera um aspecto apenas conjuntural, ensejando
novamente o pessimismo e o questionamento quanto ao caminho traçado. Ao
lado dessa variável ― embora não se tenham experimentado de novo os anos
de naufrágio dos presidentes Pérez e Velásquez ― tampouco se verificou
205

alguma melhoria na qualidade de vida ou alguma recuperação do estado de


deterioração político-institucional. Além disso, em 1998, tornou-se mais visível
do que em outros anos a escassa ou nenhuma vontade dos atores da política
tradicional de alterar as regras do jogo. Quiçá por todas essas razões, os
estudiosos prognosticavam no início desse ano uma abstenção de 50% nas
eleições de dezembro e, igualmente, a continuidade da apatia política ―
tendência que, contudo, não se verificou.
A candidatura de Chávez e as forças que se aglutinaram ao seu redor
introduziram na disputa uma esperança de mudanças profundas, tanto da
classe política como das propostas do país até então apresentadas. Seu
discurso, ademais, foi o único que deu preeminência aos setores
empobrecidos e excluídos e os valorizou como verdadeiros sujeitos do sistema
político democrático. Assim, a polarização social crescente encontrou em
Chávez sua expressão política. Por outro lado, seu hábil manejo dos
emblemas e símbolos pátrios estimulou uma muito ansiada autoestima entre
os venezuelanos, que estavam já, havia duas décadas, assistindo à regressão
de seu processo de modernização no século XX.
Os resultados de dezembro de 1998, de modo mais radical do que os
de 1993, abriram para a sociedade venezuelana um novo mapa político e
iniciaram o processo de implantação de uma nova hegemonia. Os
desempenhos da AD e do Copei sepultaram definitivamente o bipartidarismo
fundado no Pacto de Puntofijo. Com os atores emergentes ― tanto os de
vocação popular, como os outros ― irromperam no cenário político novas
figuras, e finalmente começaram a predominar novas gerações na liderança
política do país.
206

CAPÍTULO 10
AS ELEIÇÕES DE 2000: O NOVO MAPA POLÍTICO DO PAÍS1

Em dezembro de 2000, encerrou-se um período de intensa atividade


eleitoral. Em um lapso de 25 meses, iniciado em novembro de 1998, haviam-
se levado a cabo duas eleições presidenciais e duas para governadores de
Estado; além disso, foram escolhidos dois parlamentos e se deram dois pleitos
de representantes para as legislaturas regionais; ainda, votou-se para
representantes a uma Assembleia Nacional Constituinte, uma eleição para
prefeitos, outra para vereadores e membros das juntas paroquiais, e três
referendos. Deste conjunto de eleições, durante o ano de 2000 foram
celebradas (em um único ato, no mês de julho) as segundas eleições
presidenciais, de governadores, de deputados à nova Assembleia Nacional e
aos conselhos legislativos estaduais, assim como as de prefeitos para os 335
municípios do país. Em 3 de dezembro, realizaram-se as eleições para
vereadores, para membros das juntas paroquiais, e um referendo nacional.
Esta ampla atividade eleitoral resultou em afastar do cenário político
venezuelano sua tradicional elite, dominante no país desde 1958, e em
substituí-la por novos atores emergentes. De longe, a figura que mais se
sobressai neste processo é o atual presidente da República, Hugo Chávez
Frías, cujo carisma e popularidade explicam, em grande medida, as vitórias
alcançadas. Nas eleições de 2000, Chávez e as forças que o apoiaram
lograram assenhorear-se de uma significativa maioria dos cargos públicos em
todos os níveis, o que lhes possibilitaria desenvolver nos anos seguintes as
propostas que vinham defendendo para o país.
As eleições de 2000, sujeitas às disposições contidas na nova
Constituição Nacional, aprovada em referendo de dezembro de 1999, estavam
inicialmente programadas para ser realizadas em 28 de maio. Deviam-se
realizar conjuntamente nessa data as eleições para presidente, governadores,

1
Este capítulo está baseado em Elecciones de 2000. Implantación de una nueva hegemonía
en Venezuela (Margarita López Maya e Luis E. Lander), Anuario Social y Político de América
Latina y El Caribe, Flacso, Nº 4, 2001, pp. 9-17; e Quince meses de gobierno chavista ¿Avanza
un proyecto popular? (Margarita López Maya e Luis E. Lander), Cuestiones Políticas, Nº 24,
2000, pp. 11-36. (N. da A.)
207

prefeitos, deputados nacionais e regionais, vereadores e membros de juntas


paroquiais. Essas "megaeleições", como ficaram denominadas, por sua
complexidade e premência, foram objeto de demanda ante o Tribunal Supremo
de Justiça (TSJ) por parte de organizações da sociedade civil. Na própria
semana determinada para a realização das eleições, o TSJ resolveu postergá-
las. Como resultado desse contratempo, as autoridades do Conselho Nacional
Eleitoral (CNE) foram substituídas e as autoridades legislativas do momento, a
Comissão Legislativa Nacional (o Congresillo), concordaram em separar as
eleições dos vereadores e membros das juntas paroquiais das restantes, com
o propósito de simplificar o processo. Em 30 de julho, realizaram-se as
eleições para presidente, governadores de Estado, deputados à Assembleia
Nacional e às assembleias estaduais, e prefeitos de municípios. Em 3 de
dezembro, ocorreram as que faltavam, de vereadores e membros de juntas
paroquiais, assim como um referendo sobre a renovação da direção sindical no
país.

O CARISMA DO PRESIDENTE
Poucas vezes na história contemporânea venezuelana pôde-se
presenciar um carisma político tão forte como o que demonstra Hugo Chávez
― capaz, contudo, de igualmente suscitar um tremendo repúdio por parte de
setores sociais altos, médios e intelectuais. Esse repúdio esteve presente
desde que ele iniciara sua atividade política mais pública, em 1994; exacerbou-
se, ainda, durante a campanha eleitoral de 1998 e continuou ao longo de seu
primeiro ano de governo. Os meios de comunicação impressos de cobertura
nacional e os programas televisivos de opinião refletiam ― e mesmo
acentuaram-na depois ― uma realidade quase diametralmente oposta à que
era manifestada nas eleições e nas pesquisas de opinião desde 1998. Graças
ao recurso midiático, a crítica a Chávez e a seu governo sempre se fez feroz, e
sempre permanente a rejeição. Para alguém que porventura viesse do exterior
e procurasse auscultar a sociedade venezuelana, o que se transmitia (com
exceção de algumas estações de rádio e alguns jornais impressos
secundários) era a distorcida imagem de um líder repudiado pelas maiorias ―
enquanto que, ao contrário, esse repúdio concentrava-se, na verdade, apenas
naquela parcela da população que não se encontrava entre os estratos sociais
208

de pobreza generalizada. Visto que este repúdio revela-se como uma realidade
inquestionável, evidenciada de modo cada vez mais claro nos anos seguintes,
convém-nos tratar de dilucidar o porquê da atração popular de Chávez e,
igualmente, da rejeição dos outros estratos.
Muitos elementos se conjugam para dar a Chávez uma aura irresistível
diante da imensa maioria da população venezuelana que é pobre ou que
sofreu o empobrecimento individual ou familiar nas últimas duas décadas: sua
extração popular; seu manejo de símbolos e referências culturais que apelam
para os valores hegemônicos da nacionalidade venezuelana; a construção de
um discurso pugnaz, que inclui setores sociais excluídos, e que exclui as elites
políticas, chamadas por ele e seus seguidores de puntofijistas; a projeção de
uma imagem não contaminada com a política tradicional; sua condição de
militar; sua imagem de homem jovem, membro de uma nova geração; e seu
estilo informal e pedagógico de dirigir-se à população. Todos esses são
atributos que, combinados entre si de diversas maneiras em diferentes
conjunturas, projetaram essa imagem positiva propiciadora da simpatia e
mesmo da euforia popular.

FISIONOMIA, ORIGEM, E REFERÊNCIAS SIMBÓLICAS DE CHÁVEZ


Os traços físicos de Chávez permitem a qualquer venezuelano
identificá-lo imediatamente como um homem de extração popular: "Alto, de
compleição forte, mas não grosseira, tem o tipo do venezuelano que nos
últimos cem anos não recebeu novas misturas raciais. Cabelo negro e crespo,
olhos oblíquos, boca grossa, nariz afilado" (Zago, 1992) Esta adequada
descrição de sua fisionomia reflete bem, ademais, um tipo de venezuelano
resultante da mestiçagem predominantemente de negro com índio, e que
corresponde àqueles indivíduos que, ao longo da história da Venezuela, têm
composto os setores dominados da sociedade. Acresce-se que Chávez
nasceu em um pequeno povoado do Estado de Barinas, uma área rural situada
a grande distância das regiões de maior dinamismo no processo de
modernização do país. Barinas é parte dos altos llanos1 ocidentais, o que

1
Los Llanos (literalmente, as planícies), são uma vasta região de savanas no norte da América
do Sul, que abrange áreas da Venezuela e da Colômbia. Essa região do noroeste venezuelano
foi, em grande parte, palco dos movimentos de Independência no século XIX. (N. do Trad.)
209

confere ao personagem uma aura de llanero, figura evocativa na cultura


popular de imagens de caráter heroico e indômito, mas também de
indisciplinado e irreverente, cuja origem remonta às lutas pela independência
política do país.
Um segundo ingrediente de grande importância no fervor popular que o
presidente Chávez desperta entre seus seguidores tem sido a já assinalada
construção de um novo discurso político em que símbolos e imagens,
elaborados a partir de referências históricas e culturais reinterpretadas,
desempenham um papel de primeira ordem. Em todos os atos políticos do
presidente, dos ínfimos aos mais relevantes, é possível encontrar o uso de
símbolos para desenvolver e fortalecer sua posição. Nas próprias origens de
seu primeiro movimento político, o MBR-200, sua ideologia identificava-se com
"A Árvore das Três Raízes", representação do pensamento de Simón Bolívar,
Simón Rodríguez e Ezequiel Zamora. Como notamos atrás, Chávez e os
outros fundadores do movimento atribuíam a este último ― um caudilho da
Guerra Federal ― um "caráter reivindicativo e profundamente democrático"
(Zago, 1998). Além disso, o MBR-200 incorporou duplamente em seu nome o
símbolo mais transcendente da nacionalidade venezuelana ao denominar-se a
si mesmo bolivariano e empregar o número 200 como representação do
segundo centenário natalício do Libertador, que coincidia ― segundo afirmam
― com a data de fundação do movimento, em 1983. Ao transformar-se o MBR-
200 em MVR, outra identidade de grande ressonância histórica foi encontrada.
Com este nome, seus idealizadores propõem a refundação da República: de
acordo com sua interpretação histórica, em 1830, quando da separação da
Venezuela em relação à Grande Colômbia, iniciou-se a quarta República, que
foi sempre oligárquica e atingiria o mais alto grau de decomposição durante a
democracia puntofijista. Ademais, nas siglas MBR e MVR (aliás, foneticamente
coincidentes), o nacionalismo tem uma forte marca, constituindo o coração da
simbologia chavista.
Fiel ao tratamento que dá aos símbolos históricos, Chávez recorda, em
1994, ao ser libertado da prisão, a velha canção federalista a proclamar que "o
céu continua encoberto"1. Igualmente, as organizações de base do movimento,

1
Cf. nota 2, p. 171.
210

que começam a ser fundadas a partir desse ano, são denominadas círculos
bolivarianos; o projeto político se chamará projeto Simón Bolívar, e a nova
Constituição de 1999 rebatiza a República com o nome de República
Bolivariana da Venezuela. Os exemplos são abundantes.
Também o uso de datas cívicas para a realização de atos políticos
considerados importantes tem sido uma constante nas execuções desse
projeto. Além da alusão ao segundo centenário de Bolívar, o movimento
escolhe, em 1997, a data de 19 de abril (comemorativa da declaração de
independência em 1810) para realizar uma reunião na qual se decide,
contrariando posturas abstencionistas anteriores, participar do processo
eleitoral do ano seguinte, tendo Hugo Chávez como candidato à presidência
da República. Da mesma forma, em 1998, o dia 24 de julho (data aniversária
de Simón Bolívar) se prestou à inscrição da candidatura no CNE.
Reiteradamente, pretendeu-se incorporar o 4 de fevereiro (dia do golpe de
1992) às datas pátrias. Em 1999, foi proposto (sem lograr êxito) que a posse
do presidente eleito no mês de dezembro anterior fosse realizada naquela
data, em lugar do dia 2 do mesmo mês. Em 2000, já exercendo seu governo,
realizou-se um comício de grande expressão na Praça Caracas, ao qual o
presidente Chávez chegou às 18h 30min, vestido com uniforme de campanha,
e antes de dirigir-se ao público, entoou o Hino Nacional. A prática de cantar o
hino do país, ao início ou ao fim de uma manifestação, tornar-se-ia para ele um
costume nos anos seguintes.

O VERBO PRESIDENCIAL
Um terceiro componente medular da popularidade de Chávez tem sido o
estilo de seus discursos. Não eram comuns na história mais recente do país os
discursos presidenciais com o grau de pugnacidade que caracteriza boa parte
das intervenções do atual presidente. Desde sua campanha eleitoral, e ao
longo de todo o ano de 1999, em comícios ou não, separadamente ou em
conjunto, Chávez tem enfrentado ― empregando uma linguagem direta,
agressiva e frequentemente desabonadora ― personalidades, elementos
tradicionais do poder e instituições. Tem mantido, igualmente, fortes
altercações com o Congresso, tal como a ocorrida a propósito da discussão da
Lei Habilitante de 1999. Em mais de uma oportunidade, contando com forte
211

apoio popular, Chávez ameaçou dissolvê-lo (cf. El Nacional, abril de 1999).


Chávez protagonizou também candentes conflitos com a Corte Suprema de
Justiça, em razão das controvérsias em torno da constitucionalidade das
perguntas para o referendo do mês de abril e do caráter originário ou derivado
da Assembleia Nacional Constituinte.1 Com o CNE teve ainda suas
escaramuças, quando este órgão lhe impôs uma multa por sua participação
ativa e pública na campanha para eleição dos constituintes. O presidente
dirigiu-se ao Conselho, perguntando-lhe onde deveria pagar a multa, mas
advertindo que teriam de amordaçá-lo ou prendê-lo: "(...) pois vou continuar
falando ao povo" ― disse (El Nacional, 15-06-1999). Com a alta hierarquia da
Igreja Católica, foram várias as oportunidades em que as confrontações se
mostraram particularmente acrimoniosas, chegando Chávez a afirmar que
alguns bispos estavam "possuídos pelo demônio". Este conflito teve uma curta
pausa quando o cardeal Ignacio Velasco, um dos mais altos membros
hierárquicos na Venezuela, cometeu a torpeza ― repudiada pela esmagadora
maioria da população ― de atribuir a tragédia nacional dos deslizamentos de
dezembro de 1999, na costa central, à ira de Deus provocada pela soberbia do
presidente da República.2 Chávez acusou a Confederação de Trabalhadores
da Venezuela, maior central sindical do país, de ser uma das "expressões mais
corruptas da cogollocracia". Seu enfrentamento com intelectuais e jornalistas
nacionais e estrangeiros também tem sido prolixo. Para citar uns poucos
exemplos, Chávez classificou como "analfabeto" o historiador Elías Pino
Iturrieta, doutorado no Colégio do México e membro da Academia Nacional de
História; e chamou de "irresponsável" a jornalista Vanessa Davies, do diário El
Nacional, que cobria as primeiras denúncias sobre violações dos direitos

1
Para convocar a ANC, Chávez emitiu um decreto de convocação de referendo popular que
abrisse caminho para proceder à convocatória da ANC. Ali eram formuladas duas perguntas
que deveriam ser feitas ao povo. A CSJ, após algumas vicissitudes, declarou improcedente a
pergunta 2 (sobre conceder poderes a Chávez para fixar as bases do processo eleitoral). Em
vez dessa pergunta, formulou-se outra, dando atribuições ao CNE para fixar as bases, o que
suscitou a controvérsia com Chávez. A outra grande disputa nesse referendo dizia respeito à
ideia de se a ANC era originária ou não. Decidiu-se que não, apesar de Chávez a desejar
originária, ou seja, que ela não estivesse sujeita ao quadro legal derivado da Constituição de
1961. (N. da A.)
2
Nos dias 15 e 16 de dezembro de 1999, na costa caribenha do país (e sobretudo no Estado
de Vargas), gigantescos deslizamentos de terra provocados por intensas chuvas resultaram no
maior desastre natural da história da Venezuela. Os cômputos ― ainda hoje imprecisos ―
indicam entre 10.000 e 50.000 mortos e prejuízos materiais que montam aos 4 bilhões de
dólares. O referendo sobre a Constituição se realizara no dia 15 desse mês. Cf., adiante, o
Cap. 14. (N. do Trad.)
212

humanos pelo Exército e por forças policiais no Estado de Vargas, quando das
inundações do mês de dezembro.
Este discurso marcado pela pugnacidade tem a clara intenção de
enfrentar uma elite e pôr fim a uma estrutura de poder considerada por ele e
por seu movimento como oligárquica e corrupta. Concomitantemente, Chávez
elabora um discurso eficaz inclusivo dos setores populares. Esse discurso se
centra na ideia do povo como o protagonista da história e o agente das
transformações, em que ele, Hugo Chávez, é apenas "um pedaço de palha ao
vento", um elemento prescindível: "Somente o povo salva o povo, e eu serei o
instrumento de vocês (...) mas se há que derramar sangue, Cristo deu o
exemplo" (El Universal, 30-07-1997). E, ao intervir em um confronto entre altos
delegados de seu partido e de seu governo, Chávez repetiria a mesma ideia:
"O processo não me pertence; pertence ao povo. Eu não tenho grupos, mas
sim equipes de trabalho. Não tenho compromissos com ninguém, senão com o
povo" (cf. El Nacional, 12-02-2000).
São também permanentes nos discursos de Chávez alguns elementos
que, em conjunto, contribuem para manter a simpatia dos setores populares.
Ele apela constantemente para expressões dirigidas a elevar a autoestima do
povo: vincula esse povo de hoje aos feitos históricos nacionais do século XIX,
particularmente os relacionados à Independência e à Guerra Federal; refere-se
ao bravo povo, ao povo nobre e valente, entre outros epítetos elogiosos,
reiteradamente usados.
O estilo discursivo do presidente é um tema que se prestaria a uma
análise mais ampla e sistemática. Mas, no que tange ao nosso argumento,
basta-nos mencionar três elementos adicionais: primeiro, a informalidade, que
se expressa através de frequentes interpelações feitas a membros de seu
gabinete presentes no local da alocução ou através de referências a anedotas
e recordações da infância, de familiares ou amigos, aparentemente sem
conexão com o próprio tema do discurso. Segundo, o recurso ao humor,
manifestado de modo espontâneo e franco. São ambos recursos que
inegavelmente reforçam o diálogo horizontal e cativam seus seguidores. E
terceiro, o estilo pedagógico (provavelmente herdado de seus pais
professores) de muitas de suas intervenções públicas, quase sempre
acompanhadas de gráficos, mapas e projeções, que visam tornar
213

compreensível o assunto pelo cidadão venezuelano comum, e igualmente


imprimir um caráter transparente às ações do governo.
Esses elementos, em maior ou menor grau, suscitam o repúdio, o
desprezo e, frequentemente, a indignação entre seus adversários.
Indubitavelmente, o discurso desqualificador e excludente é o mais venenoso,
pois, como assinalamos, Chávez não poupa predicados pesados na hora de
enfrentar seus oponentes políticos. Negativos e puntofijistas foram dois
qualificativos muito empregados naquele ano, e com eles Chávez pretendia
identificar ― e pô-las todas no mesmo saco ― posições e trajetórias políticas
que podiam ser muito diversas. Os negativos eram aqueles que promoveram a
opção pelo NÃO no referendo de 1999. Puntofijistas foi a expressão
empregada para acusar os atores sociais e políticos ou personalidades,
vinculando-os ao regime democrático instaurado em 1958. Embora os atores
de um e outro momento não sejam necessariamente os mesmos, todos
acabam, no discurso presidencial, por ser aparentados porque são seus
oponentes. Os outros elementos discursivos, sem ter intenções agressivas,
não são todavia mais bem vistos por aqueles que o combatem. Do ponto de
vista dos setores altos e médio-altos da sociedade, em que se manifestam
componentes de desprezo pelos setores sociais excluídos e, em várias
ocasiões, até mesmo traços de racismo, um discurso dirigido a atrair a atenção
e o afeto dos setores pobres da população é encarado com repúdio. As
referências ao povo como centro do processo são interpretadas por esses
setores altos como provas de um populismo demagógico. A informalidade é
identificada com improvisação. A linguagem militar, como expressão de
autoritarismo. As alusões baseadas nos recursos beisebolísticos são vistas
como pouco sérias e impróprias a um estadista. O recurso ao humor, como
manifestação de grosseria. O tom pedagógico é visto como primitivo, de baixo
nível e desnecessário. Todos esses ingredientes tornam mais longos os
discursos do presidente, dando azo a que sejam tachados de "intermináveis
lengalengas". Bastará tomar as colunas de articulistas, como Rafael Arraiz
Lucca, Manuel Caballero, Marta Colomina, Aníbal Romero e muitos outros,
como mostra para ilustrar os diferentes aspectos do repúdio de setores
médios, altos e intelectuais.
214

ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS
A vitória alcançada por Hugo Chávez sobre seus contendores Francisco
Arias Cárdenas e Claudio Fermín, nas eleições de julho de 2000, foi
contundente (cf. Quadro 21). Comparadas com as presidenciais realizadas em
dezembro de 1998, não deixa de ser surpreendente nessas eleições de 2000 o
fato de ter ocorrido não uma diminuição em seu caudal de votos, mas sim, ao
contrário, um ligeiro aumento. Em 1998, Chávez venceu com um total de
3.673.685 votos (56,2% dos votos válidos), ao passo que em 2000 a votação
em seu favor subiu a 3.757.773, correspondendo a 59,8%. Além disso, em
1998, Chávez venceu em 18 das 24 unidades federais do país, e em 2000, foi
derrotado em apenas uma delas, a saber, no Estado de Zúlia, por uma
diferença minguada de 1,43%. Ainda que nas eleições presidenciais de 2000 a
abstenção tenha aumentado se comparada com as eleições anteriores ― um
aumento de 7,3% (passando de 36,2% para 43,5%) ― isto não aconteceu em
detrimento do caudal eleitoral chavista, que, de fato, incrementou sua votação
em mais de 80.000 votos.
Se nos detivermos nos resultados por unidade federal, veremos que,
com a exceção do Estado de Zúlia, Chávez venceu nos demais Estados com
uma diferença percentual superior ― em todos os casos ― a 7,3%. Isso
demonstra que a popularidade e o carisma do presidente continuavam sendo
um fenômeno de alcance nacional. Não obstante, houve alguns Estados nos
quais importantes lideranças regionais desempenharam um papel relevante,
quer a favor quer contra o triunfo de Chávez. Em Zúlia, o único lugar em que
Chávez foi derrotado, o vencedor era o até então governador do Estado. Em
Miranda, onde Chávez venceu com a menor diferença (7,33%), Enrique
Mendoza reelegeu-se governador nas eleições realizadas no mesmo dia, com
64,81% dos votos válidos, sendo que para as eleições presidenciais esse
candidato a governador apoiava Arias Cárdenas. No extremo oposto, no
Estado de Arágua, onde Chávez obteve a maior votação percentual (73,86%) e
a maior diferença em relação à segunda votação (50,72%), o também reeleito
governador Didalco Bolívar, que o apoiava, obteve uma votação percentual de
84,70%.
215

QUADRO 21: ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE JULHO DE 2000

Hugo Chávez F. Francisco Arias C. Claudio Fermín eleitores abstenção

votos %* votos % votos % %** %

Amazonas 14.450 62,36 8.529 36,81 192 0,83 26.953 59,75 18.155 40,25

Anzoátegui 189.613 61,38 113.912 36,87 5.394 1,75 322.637 55,68 256.826 44,32

Apure 53.527 54,36 44.177 44,86 784 0,80 105.934 62,02 64.877 37,98

Arágua 292.915 73,86 91.772 23,14 11.918 3,01 413.320 56,10 323.447 43,90

Barinas 105.207 62,62 60.889 36,24 1.903 1,13 175.092 62,04 107.132 37,96

Bolívar 188.949 69,01 79.765 29,13 5.088 1,86 288.249 53,28 252.745 46,72

Carabobo 303.701 61,38 175.842 35,54 15.234 3,08 519.393 58,05 375.312 41,95

Cojedes 47.409 58,68 31.963 39,56 1.423 1,76 86.300 64,90 46.666 35,10

Delta 25.157 65,60 12.857 33,53 335 0,87 39.323 60,39 25.788 39,61
Amacuro

Falcão 131.304 56,82 94.434 40,87 5.349 2,31 246.240 58,19 176.921 41,81

Guárico 98.481 59,68 64.044 38,81 2.486 1,51 183.159 57,25 135.290 42,48

Lara 237.238 62,99 130.123 34,55 9.239 2,45 398.587 53,63 344.669 46,37

Mérida 127.362 57,46 89.788 40,51 4.518 2,04 230.608 62,25 139.837 37,75

Miranda 346.003 51,93 297.185 44,60 23.163 3,48 698.174 57,24 521.663 42,76

Monagas 113.464 58,81 76.745 39,78 2.714 1,41 202.762 59,74 136.646 40,26

Nova 70.805 57,86 47.847 39,10 3.714 3,04 127.570 62,29 77.226 37,71
Esparta

Portuguesa 146.628 72,30 52.943 26,10 3.238 1,60 214.814 60,35 141.123 39,65

Sucre 145.219 63,53 79.441 34,75 3.923 1,72 235.284 55,62 187.715 44,38

Táchira 160.194 54,84 127.713 43,72 4.187 1,43 304.971 61,38 191.881 38,62

Trujillo 116.568 65,16 60.598 33,87 1.737 0,97 188.259 56,52 144.840 43,48

Vargas 58.958 69,98 22.723 26,97 2.569 3,05 88.858 49,06 92.251 50,94

Yaracuy 82.836 58,06 54.917 38,49 4.932 3,46 154.555 59,69 104.367 40,31

Zúlia 312.415 47,23 321.866 48,66 27.224 4,12 693.467 51,99 640.351 48,01

Distrito 387.360 61,38 213.930 33,90 29.789 4,72 648.902 53,34 567.532 46,66
Federal

Exterior 2.010 25,91 5.456 70,32 293 3,78 6.785 45,31 8.189 54,69

TOTAL 3.757.773 59,76 2.359.459 37,52 171.346 2,72 6.600.196 56,50 5.081.449 43,50
Fonte: CNE- Indra, 2000.
* As porcentagens de votos dos candidatos estão calculadas em relação ao total de votos válidos.
** As porcentagens de eleitores e de abstenção estão calculadas em relação ao total de eleitores
inscritos.
216

Os resultados das eleições de 2000 refletem a debilidade da oposição


política a Chávez. Um dos candidatos derrotados, Arias Cárdenas, fora
coparticipante de Chávez no frustrado golpe militar de 1992, reelegera-se
governador de Zúlia em 1998, apoiado por Chávez, e apenas alguns meses
antes das eleições de 2000 decidiu concorrer contra Chávez. Na contenda,
Arias Cárdenas concentrou em torno de si as forças de oposição das mais
diversas orientações, conseguindo polarizar parcialmente essas eleições.
Fermín, por sua vez, foi um preeminente dirigente da AD, prefeito de Caracas
por esse partido, pré-candidato à presidência (também pela AD) em 1998, e
depois candidato por um movimento próprio, após a AD não lhe ter dado seu
apoio. Foram esses dois candidatos ― um totalmente alheio aos partidos
tradicionais e o outro concorrendo como independente, que alcançaram juntos
pouco mais de 40% dos votos válidos.

ELEIÇÕES PARA GOVERNADORES DE ESTADO


Os resultados dessas eleições representaram, em conjunto, as
evidências mais claras do avanço político das forças que apoiaram Chávez.
Nas eleições para governadores realizadas em novembro de 1998 ― que,
como salientamos no capítulo anterior, ocorreram separadamente das
presidenciais por decisão da então maioria parlamentar, e cujo intento era
enfraquecer o ímpeto eleitoral de Chávez ― a aliança que o apoiou obteve 8
dos 23 governos estaduais. A AD alcançou outros 8 governos, o Copei venceu
em 5 estados, e o Projeto Venezuela e a Convergência venceram em 1 estado
cada. Após a decisão parlamentar de separar as eleições presidenciais,
adiando as dos estados, as forças políticas que apoiavam Chávez
constituíram, como vimos, o PP, apresentando candidaturas conjuntas na
maioria dos estados. Em contraste, nas eleições de julho de 2000, contando
com várias vitórias eleitorais e mantendo elevados os índices de popularidade
do presidente, a estratégia para o PP pôde ser diferente. A premência de uma
aliança havia diminuído, e a tensão entre os diversos partidos que a
compunham aumentou. Isto redundou em que as organizações que haviam
apoiado Chávez em 1998 apresentaram-se então com um grau menor de
coesão. O MVR optou em vários estados por apresentar candidatos próprios,
rompendo assim a aliança. A situação foi especialmente tensa com o partido
217

PPT, que preferiu retirar seu apoio ao presidente e a vários dos candidatos aos
governos estaduais. Em menor medida, ocorreu algo semelhante com o MAS,
partido com o qual a aliança foi rompida em alguns estados.
Como mostra o Quadro 22, a estratégia do MVR resultou amplamente
favorável às forças hegemônicas emergentes. Nesta oportunidade, o PP
obteve ― sem a participação do PPT ― 14 governos estaduais . O PPT, por
sua vez, venceu em 2 unidades federais, e o MAS ― sem o apoio do MVR ―
ainda em 1, para um total de 17 estados afins ao projeto do presidente
Chávez. Adicionalmente, realizou-se nessa ocasião a primeira eleição para a
Prefeitura Metropolitana da cidade de Caracas, que foi vencida folgadamente
pelo candidato do PP.
218

QUADRO 22: ELEIÇÕES DE GOVERNADORES (JULHO DE 2000)

Estado Candidatos Votos % Apoios


Amazonas Bernabé Gutiérrez 10.721 43,68 AD; Copei; ORA; Prvzl; MIN; MA-Amazonas; TSV;
Opina; GIR Amazonas; Midea; Maei; Acura

Liborio Guarilla 10.500 42,78 PPT; Puama; PCV; Mupi; BR

Nelson Silva 3.305 13,47 MVR; MAS; SI; Popa; UDH; Ipcn; Mira; A Causa R;
Frenamac; GE; Pido; CI; MEP

Freddy Borro 16 0,07 Esquerda; M-2000

Anzoátegui David De Lima 129.208 41,74 MVR; MAS; SI; URD; Viene; GE; EPA; ORA

Andrés Velásquez 125.930 40,68 A Causa R; Esquerda; MIN; RC; Pqac

Alexis Rosas 32.649 10,55 PPT; PCV; MEP; ONI; RIN; LD

Juan Carlos 18.026 5,82 AD; Copei


Hernández

Rigoberto Caldivillo 2.207 0,71 MDD; Mira

José Guzmán 1.515 0,49 Prvzl

Apure Luis Lippa 50.863 48,37 AD; Copei; Prvzl; Esquerda; Convergência

Jesús Aguilarte G. 46.443 44,17 MVR; MAS; PPT; MEP; PCV; Ge; BR; A Causa R; NRD;
RC

Cristóbal Jiménez 7.851 7,47 Marapure; Movireso; SI; MUN

Arágua Didalco Bolivar 322.320 84,70 MAS; MVR; PPT; PCV; CV; BR; Dime; URD; MES; GE;
MEP; LAC; Opina; EL; MC-90; MR

Jesús Urdaneta 40.342 10,60 A Causa R; Esquerda; MIN; Iniciativa Própria; CS;
Hernández MDD; MDR

Andrés Tovar 11.955 3,14 AD; MIL

Lenin Aquino 2.053 0,54 SC95

José Villarroel 1.997 0,52 DR2000

Ismael Pérez Sira 1.893 0,50 Poder Moral; MFU

Barinas Hugo de los Reyes 89.385 52,57 MVR; MAS; Opc Reg 98; SI; Verdade; MEP; Ipcn; Irene
Chávez

Andrés Eloy Camejo 61.859 36,38 AD; Convergência; Corcino; Los Vecinos; PFP

Wladimir Ruiz 15.349 9,03 AB2000; PPT; BR; BS-21; DR

Francisco Visconti 20101 1,24 Visconti; PCV; A Causa R; RC; Maisanta 2000; FRP;
MDD; Opina

Marco Tulio Villafañe 1.349 0,79 Copei; AA


219

Bolívar Antonio Rojas Suarez 175.793 63,75 MVR; SI; MAS; BR; PCV; NRD; Vconlenin; URD;
Orinoco; MEP; PRV

Jorge Carvajal 86.664 31,43 AD; Renasce; Abertura; Opina

Dario Morandi 6.831 2,48 PPT

Ramón Machuca 4.125 1,50 A Causa R

Doménico Tanzi 1.564 0,57 Unete Guayana; Copei; IG

Edwin Sambrano 771 0,28 CRA

Carabobo Henrique F. Salas 297.400 61,04 Prvzl; Provoca


Romer

Manuel Vadell 185.592 38,09 MVR; MAS; PPT; PCV; SI; GE; MEP; POP; NRD; URD;
Ipcn; Usted; J patriótica

Hermann Escarra 4.232 0,87 A Causa R; Cadecide; MIN; Esquerda

Cojedes* Alberto Galindez 39.687 49,22 AD; Mcac; MIN; Iniciativa Própria; Prvzl; Ipcn; IAP;
Convergência; PM; ORA; Opic; Pcmi; AP; Moves 21;
Participa; MR

Yhonny Yanez Rangel 39.606 49,12 MVR; MAS; PCV; GE; Fric; NRD; SI; MEP; MUN;
Active; Opina; MIC; Mipao; Ainco; AA

Teófilo de Jesús 715 0,89 Copei


Rangel

Haydee de Franco 255 0,32 A Causa R; Iniciativa Própria; PV; MDD

Juan Bautista Peréz 186 0,23 PPT

Juan Sanchez 133 0,16 SER; Frenamac

Pablo Aure 42 0,05 Iniciativa Própria; DJC

Delta Yelitze Santaella 24.227 63,15 MAS; Miio; PCV; SI; A Causa R; PN; Ipcn; PPT; MID;
Amacuro DPD; Agrupa; AA; Arsrda; NRD

Emeri Mata 10.061 26,22 Meri; Copei; FD; ORA; Opina

Cesar Pérez Marcano 2.682 6,99 MVR; MEP; GE

Reinaldo Márquez 1.379 3,59 AD

Carlos Martínez 16 0,04 MDD

Falcão Jesús Montilla 112.936 48,59 MVR; MAS; PCV; PPT; MEP; NRD; GE

José Curiel 98.161 42,23 Copei; Prvzl; URD; Tu Camino; Mire; Triple C; Orfal;
ORA; F Progresa; Opina; Grudesar; ASD

Yoel Acosta 13.343 5,74 Patria Buena; A Causa R; Falconia; Esquerda; BR

Francisco Humbría 7.982 3,43 AD

Guárico Eduardo Manuitt 84.250 48,10 PPT; MAS; PCV; BR; CON; AA; URD; Novo Horizonte;
Uplp; FAI; Frenpave
220

Rafael Silveira 67.597 38,59 AD; Copei; Iniciativa Própria; Encontro; ABP;
Convergência; PGN; MDA; ORA; MR-2000-200; Pqac;
Pqac; Apro; Orideg-2000; Factor X; Patriotas; Força
Guárico

Rubén Ávila 18.713 10,68 MVR; SI; MEP;

Carlos Guyón 4.597 2,62 A Causa R; Iniciativa Própria; PGI; Esquerda;


Com Guárico; MIN; MDD

Lara Luis Reyes Reyes 225.271 62,07 MVR; OFM; PCV; SI; PPT; GE; GAS; MEP; Opina; NRD

Mariano Navarro 129.312 35,63 AD; Prvzl; Abertura; Pqac; DR; AP; FP

Hilario García Masabe 3.436 0,95 A Causa R

Armando Sanchez 2.153 0,59 Copei

Martín Valero 1.533 0,42 ORA; Iniciativa Própria

Segundo Melendez 1.239 0,34 Iniciativa Própria

Mérida Florencio Porras 108.239 48,48 MVR; MAS; PPT; SI; PCV; Ipcn

William Dávila 106.502 47,70 AD; Copei; Prvzl; Iniciativa Própria; Construmérida; Vec-
Avance; ASD; Parcimer; Construtores; Movisodem; RC

Jesús Rondón Nucete 6.178 2,77 Desafio Popular

Pusides Reyes 2.033 0,91 A Causa R; BR; MIN; MHM; A Chave; UVI; Opina; Incvf

Jesús Ángel Morán 313 0,14 Iniciativa Própria


Soto

Miranda Enrique Mendoza 421.360 64,81 Copei; Emiranda; MPJ; Pana; Iniciativa Própria; FVM;
Construtores; De Chacao 92; Mive; Realci; Avanço
Social; Miprea; Mov. Madera; AMI; TM; RC; J por CS;
FND; CM; Deparaporchacao; A Chave; FP; Pqac; Biem;
MLI; Opina; FRN; Mrg2000; Depuração; Fuci; Tuy Siglo
XXI

Willians Lara 219.505 33,76 MVR; MAS; Ipcn; PCV; SI; GE

Rodolfo Sanz 8.778 1,35 PPT

José Antonio Omaña 490 0,08 Cimopaci

Monagas Guillermo Call 81.146 41,25 AD; Convergência; NFG; MDA; ASD; ABP; Apro; Opina;
VOI; Construtores; RC; Factor X

Miguel Gómez 64.245 32,66 MVR; MAS; MEP; Geim; VM; Ipcm; MIO; PIM; FV

José Gregorio Briceño 50.879 25,86 Migato; PPT; PCV; SI; GE; BR; NRD

Luis Ortiz 316 0,16 A Causa R

Miguel Tineo 151 0,08 Iniciativa Própria

Nova Esparta Alexis Navarro Rojas 59.047 48,28 MVR; MAS; NGI; PCV; Brea; Base 2000; SI; Guaiquerí;
NRD

Morel Rodríguez 57.865 47,31 AD; Copei; MRA; Iniciativa Própria; URD; FP; Pqac;
Moncho; RC; IS
221

Gregorio Boadas 2.504 2,05 Prvzl; Fiode; MDD

José Sanabria 1.226 1,00 GE; PPT; Ipcn

Henry Urbano 819 0,67 A Causa R; MIN; Esquerda; Ora

Luis Villarroel 655 0,54 Soid Siglo XXI

Miguel López Marcano 182 0,15 Iniciativa Própria

Portuguesa Antonia Muñoz 100.515 50,08 MVR; PCV; Fiopp; PPT; Frenamac; NRD; Opina; Optar;
Mrab

Ivan Colmenares 90.470 45,07 MAS; Copei; Convergência; DDP; Esquerda; URD;
MDD; MCG; GE; SI; Ipcn; MEP

Carlos Casal 9.555 4,76 AD

Anibal Santeliz 179 0,09 O Poder 7

Sucre Ramón Martínez 132.527 58,20 MAS; MVR; A Causa R; SI; ASI; PCV; MEP; PDI; GE;
Ipcn; PIO; Convergência; 99

Eloy Gil 93.752 41,17 AD; Opção; Prvzl; ABP; URD; Abertura; Iprs; Sucre;
Encontro; ORA; Consucre; Pacifico; ASD; MDA;
Construtores; Apro; Factor X

Rafael Ramón 902 0,40 Iniciativa Própria


Belmonte

Pedro Veliz 459 0,20 BR

José Luis Meza 86 0,04 Iniciativa Própria

Táchira Roland Blanco 146.349 50,03 MVR; MAS; PPT; SI; NRD; UDH; BR; Eu existo; PRI;
PCV; Opina

Sergio Omar Calderón 127.417 43,62 Copei; Prvzl; Cura; Inita; Coparco; Deportistas;
Apc2001; RC; Cordialidade; MPI; PPA; Convergência;
Votaunidoa; Asir; Movipart; Move; Mjpt; Poeta; Tuclas

Enrique Colmenares 16.836 5,76 AD; Iniciativa Própria


Finol

Samuel López 1.738 0,59 A Causa R

Trujillo Gilmer Viloria 102.322 56,91 MVR; MAS; PCV; SI

Luis Ernesto González 64.821 36,05 AD; Copei; FT; Cfpi

Gerardo Márquez 12.309 6,85 Voluntariado; MDD; A Causa R; G Condor; ORA; MEP;
MIN; Esquerda

Manuel Rosario 355 0,20 Proy III Milenio

Vargas Antonio Rodríguez 47.400 59,76 MVR; MAS; MEP; SI; PCV; NRD

Alfredo Laya 17.357 21,88 PPT; Factor X; BR; MR

Generoso Mazzocca 9.621 12,13 AD; Prvzl; EL; Reconstruindo; Encontro; ORA; Iniciativa
Própria; Pqac; GE; Construtores

José Rubin 3.118 3,93 Iniciativa Própria


222

Alexander Luzardo 1.032 1,30 A Causa R; Esquerda; Muro Vargas

Ysmael Solórzano 185 0,23 Engenho 2000

Guillermo Moros 164 0,21 Iniciativa Própria

Carlos Pumar 156 0,20 Iniciativa Própria; Ipcn

Teófilo Quijano 153 0,19 Iniciativa Própria

Maurice Poler 135 0,17 Iniciativa Própria

Yaracuy Eduardo Lapi 75.585 51,32 Convergência; Lapy

Braulio Álvarez 52.165 35,42 MVR; MAS; PCV; GE

Nelson Suárez 12.645 8,59 Copei; Ad

Francisco Capdevielle 5.208 3,54 PPT; SI; Ipcn; NRD; MR

Jesús López 1.674 1,14 A Causa R; BR; MDD

Zúlia Manuel Rosales 325.733 51,44 UNT; OFI; SI; Ipcn; MIN; Mov20; Construtores; APD

Durán Centeno 169.478 26,77 MVR; MAS; PPT; PCV; Lago; GE; AR; Cioporcam

Germán Valero 132.788 20,97 A Causa R; Mana; Iniciativa Própria; Justiça; Esquerda;
Mbpz; Frente Zuliano; Ciud en Acción; Fuerza de
Trabaja; Mene Grande; Maracaibo Primero; Costa
Oriental; Podcamind; Palito Blanco; Vec de San José;
Vecinos del Amp; NAZ; 12 de Octubre; Vista Bella;
Santa Rosalía; Buena Vista; Arismendi; Cañada Honda;
La Pastora; Puerto Rico

Rogerio Boscán 4.191 0,66 Copei

José Pérez 993 0,16 Frencimzul; VOZ

Distrito Alfredo Peña 570.051 64,80 MVR; MAS; PPT; Ipcn; GE; PCV; SI
Metropolitano de
Caracas Enrique Ochoa A. 187.424 21,31 A Causa R; Esquerda; BR

Rosana Ordoñez 114.945 13,07 AD; Copei; Opina

Lorenzo Tovar 7.223 0,82 Solução

Fonte: CNE-Indra 2000


223

As forças e partidos de oposição viram reduzir-se significativamente sua


inserção regional. Os tradicionais AD e Copei tiveram diminuída sua presença
à frente de unidades federais de 8 para 2 e de 5 para 1, respectivamente. O
Projeto Venezuela manteve o governo do Estado de Carabobo, a
Convergência reelegeu o seu governador em Yaracuy, e o prefeito da cidade
de Maracaibo (que fora antes eleito para o cargo pela AD) venceu para
governador com o apoio de um movimento próprio, chamado Um Novo Tempo
(UNT).
Se a primeira impressão é a de que foi elevado o grau de
homogeneidade obtida nas eleições para os estados, uma observação mais
atenta revela alguns sinais de pluralidade política nesses governos regionais.
Além das seis unidades federais governadas por partidos de declarada
oposição, resultaram dois governos exercidos por membros do PPT ― que
acabaram eleitos em oposição a candidatos do MVR ― e, nas mesmas
condições, um governo do MAS. Os outros dois governadores do MAS tinham
uma indiscutível liderança regional própria. Além disso, o governador eleito do
Estado de Táchira foi apoiado pelo MVR apenas pouco tempo antes de
ocorrerem as eleições, quando aquele que até o momento era o candidato
apoiado renunciou à disputa. A candidatura do governador eleito em Táchira
havia sido apoiada inicialmente pelo PPT e pelo MAS, apesar da rejeição que
o MVR vinha manifestando por seu nome. O prefeito de Caracas, eleito com o
apoio pleno de todas as forças do PP, havia mantido insistente e publicamente
sua independência política, e gozava de uma popularidade pessoal que não
parecia depender exclusivamente do presidente Chávez.1
A eleição dos outros 12 governadores, contudo, não poderia ser
explicada sem o forte apoio recebido de Chávez, além do fato de coincidirem
em um mesmo dia os pleitos para governador e para presidente. Embora
esses governadores eleitos devessem suas vitórias, em boa medida, aos
favores do presidente, e por essa razão fosse de esperar que suas gestões
seguissem incondicionalmente as diretrizes ditadas pelo Executivo nacional,

1
Em outubro de 2001, em consequência de um confronto com o ministro Luis Miquilena, o
presidente Chávez e o prefeito de Caracas protagonizaram uma disputa verbal cujo desfecho
seria, tempos depois, o rompimento definitivo do prefeito com a coalizão de governo. (N. da A.)
224

todos eles precisariam construir uma liderança própria se pretendessem


reeleger-se quatro anos depois, porquanto nas eleições seguintes para
governador não haveria a coincidência com as presidenciais, marcadas para
2006.

ASSEMBLEIA NACIONAL E CONSELHOS LEGISLATIVOS ESTADUAIS


Os resultados obtidos na formação da nova Assembleia Nacional
proporcionaram à coalizão de governo uma maioria cômoda, mas não
contundente. Dos 165 deputados eleitos para o parlamento unicameral 1, 105
pertenciam a organizações afins ao projeto de Chávez, enquanto os 60
restantes distribuíam-se pelas diversas organizações que compunham a
oposição (cf. Quadro 23). Se compararmos esses resultados com os obtidos
nas eleições legislativas de novembro de 1998, os partidos chavistas
passaram do controle de 36% dos representantes na Câmara de Deputados do
antigo Congresso para 64% dos deputados da nova Assembleia. No antigo
Congresso bicameral, o número de senadores pró-Chávez era, em 1998, de
apenas 34%.

QUADRO 23: COMPOSIÇÃO DA ASSEMBLEIA NACIONAL (Julho de 2009)

PARTIDOS Número de deputados

Partidos pró-Chávez

MVR 77

MAS 21

Puama 3

Indígenas 3

Migato 1

TOTAL 105

1
Com a promulgação da Constituição de 1999, extinguiu-se o Congresso da República
(formado pelo Senado e pela Câmara de Deputados), e o Poder Legislativo passou a ser
exercido pela nova Assembleia Nacional, órgão unicameral. (N. do Trad.)
225

Partidos de oposição

AD 29

Copei 8

Proyecto Venezuela 7

Primero Justicia 5

Lapi 4

La Causa R 3

UNT 3

Alianza Bravo Pueblo 1

TOTAL 60
Fuente: CNE - Indra, 2000.

Segundo a nova Constituição Nacional, os trabalhos legislativos


requerem, dependendo do tipo de decisão a ser tomada, uma maioria simples,
uma maioria qualificada de três quintos ou uma maioria qualificada de dois
terços. Para a maioria simples, se estiverem presentes todos os deputados,
são exigidos 83 votos ― número que os do MVR unidos aos do MAS
superavam facilmente. A maioria qualificada de três quintos ― necessária, por
exemplo, para a aprovação de leis "habilitantes" (que delegam ao presidente
atribuições legislativas) ― perfaz-se com 99 votos. Para obter-se essa
votação, além dos deputados do MVR e do MAS, bastaria o voto de apenas
mais um deputado, o que de modo algum representava um problema para o
governo, pois contava com sete votos adicionais procedentes de organizações
afins. Para os 110 votos da maioria qualificada de dois terços, exigida, por
exemplo, para a aprovação de leis orgânicas e para a escolha dos membros
do Conselho Moral Republicano (Procurador, Controlador e Defensor do
Povo), faltavam ao total de votos da aliança do governo apenas 5 votos, o que
obrigava a coalizão a buscá-los entre os partidos da oposição.
Como acontece no caso dos resultados das eleições a governador, aqui
também a primeira impressão esconde matizes que devem ser levados em
226

consideração. O primeiro se refere à consistência do apoio masista às


diretrizes que emanavam do Executivo nacional. O partido MAS e seus
dirigentes participaram da aliança chavista revelando diversos graus de
tensão, e a situação de desentendimentos tendeu a acentuar-se em pouco
tempo. Em meados de 2001, a aliança entre o MVR e o MAS se desfez,
provocando uma situação bastante difícil para as forças do governo na
Assembleia. Ademais, entre os 77 deputados proclamados pelo CNE como
eleitos nas listas do MVR, encontravam-se alguns dos mais eminentes
dirigentes do MAS, o que aumentava em termos reais a representação deste
partido a expensas da representação emeverrista. Não obstante, um grupo de
dirigentes nacionais e regionais do MAS optou por continuar apoiando o
presidente, e pouco mais tarde fundaram o partido Podemos, permitindo que
as forças do governo mantivessem até 2005 uma instável maioria simples na
Assembleia, assim como o controle de quase todos os estados em que haviam
sido eleitos governadores com o voto da coalizão.
A formação parlamentar de 2000 obrigou permanentemente a uma
dupla negociação entre os deputados e as forças que eles representavam. Por
um lado, dava-se a conhecida negociação entre as forças governistas e as da
oposição e, por outro, as ineludíveis negociações no interior da própria aliança
de governo, sendo estas em muitos casos as mais importantes.
O campo da oposição também não era homogêneo. Talvez o traço mais
singular da formação desse campo tenha sido a nitidez com que tenderam a
diferenciar-se, logo nos primeiros meses, as que poderíamos chamar de forças
de oposição do sistema de partidos do passado e as novas forças que
procuravam não ser confundidas com elas. Um exemplo claro disso foi o caso
do Movimento Primeiro Justiça (PJ), partido novo no cenário político
venezuelano, de ideologia conservadora, mas que durante a campanha
manteve-se constantemente distante dos partidos AD e Copei. Coisa
semelhante ocorreu com LCR, que, sendo um partido de origem mais antiga,
foi sempre adversário dos partidos tradicionais, e sua coincidência na oposição
a Chávez não o obrigava a formar um bloco unificado com esses outros
partidos. Embora com menor nitidez, em razão de sua história e vocação, o
partido PV (Projeto Venezuela) também mantinha, de alguma maneira, certa
distância em relação a eles. Estas tendências, contudo, tomaram outro
227

caminho quando a oposição optou por uma estratégia insurrecional entre fins
de 2001 e 2003, como analisaremos no próximo capítulo.
Os Conselhos Legislativos estaduais, por sua vez, são os órgãos
encarregados de exercer o poder legislativo nas diversas regiões. São
formados ― dependendo do tamanho da população do estado ― por não
menos que 7 e não mais que 15 deputados. Através dos resultados dessas
eleições é possível estimar quão sólida foi a vitória chavista. Pelo MVR foram
eleitos cerca de 45% dos deputados regionais, e pelas diferentes forças
aliadas ao presidente essa porcentagem aproximou-se de 60%. Dos 23
conselhos legislativos, as forças de oposição ao governo obtiveram maioria em
5, ao passo que as forças aliadas a Chávez passaram a dominar em 15. Nos 3
conselhos restantes, o voto decisivo seria exercido pelo deputado indígena,
que estava mais inclinado a participar da aliança governista. Mas, é de
ressaltar que dos cinco estados dominados pela oposição três eram estados
de maior população do país e os únicos que tinham conselhos legislativos de
15 deputados.

ELEIÇÃO DE PREFEITOS
Em 30 de julho, realizaram-se também as primeiras eleições para
prefeitos nos 335 municípios do país. Por diversas razões, todos os prefeitos
tinham já, nessa data, mais de um ano de vencimento do período para o qual
haviam sido eleitos. Neste âmbito local, os resultados ensejaram um panorama
mais disperso. Conquanto fosse muito notório o avanço das forças chavistas
(se se fizer uma comparação com o número anterior de prefeitos), era também
evidente a continuidade, nesses cargos, de pessoas eleitas com o apoio da AD
e do Copei. Uma análise geral desses resultados é dificultada pelo fato de
variarem drasticamente as condições dos diferentes municípios. São muito
distintas as motivações do comportamento eleitoral em municípios como o de
Rio Negro, no Estado de Amazonas, onde o prefeito foi eleito com 242 votos,
em contraste com as do município Libertador, no DF, onde com uma elevada
abstenção de 46,55%, a votação para prefeito atingiu os 305.620 votos. Assim,
não será temerário afirmar que em municípios pequenos o conhecimento
pessoal dos candidatos, até mais do que sua filiação política, tem um papel
228

muito mais relevante do que teria nos municípios maiores, nos quais tal
conhecimento pessoal é evidentemente impossível.
É interessante avaliar os resultados nos cinco municípios que formam a
área metropolitana da cidade de Caracas. Não se pode discernir, a partir dos
resultados oficiais fornecidos pelo CNE, o comportamento eleitoral dos
diferentes setores socioeconômicos no país. Não obstante, pesquisas de
opinião mostraram, de maneira sistemática, uma polarização entre os setores
de menor renda ― que são a base principal de apoio do presidente Chávez ―
e os setores de renda média e alta, que majoritariamente compõem o lado
oposto. Segundo a distribuição populacional da cidade de Caracas, nos dois
municípios de maior população ― Libertador e Sucre ― concentra-se a
maioria das famílias de baixa renda, enquanto que nos outros três municípios
menores ― Baruta, Chacao e El Hatillo ― residem predominantemente as de
renda média e alta. Os comportamentos eleitorais nesses cinco municípios são
notavelmente divergentes. Se nos dois primeiros os candidatos a prefeito
pertencentes aos MVR, Freddy Bernal e José Vicente Rangel (filho), venceram
com relativa folga, nos três restantes os prefeitos eleitos foram apoiados por
forças de oposição a Chávez. Henrique Capriles Radonski e Leopoldo López,
vencedores em Baruta e Chacao respectivamente, provinham do PJ, e Alfredo
Catalán, prefeito de El Hatillo, do PV. Esse comportamento eleitoral
diferenciado foi semelhante ao das eleições anteriores e repetiu-se ― como
comentaremos em seguida ― nas eleições de 3 de dezembro.

ELEIÇÕES DE 3 DE DEZEMBRO
Os processos eleitorais do ano 2000 culminaram com as eleições de 3
de dezembro. Como vimos, nesse dia foram eleitos os vereadores dos 335
municípios do país e os membros das juntas das paróquias, nas quais se
dividem os municípios. Nessa mesma data, realizou-se também um referendo
consultivo sobre a renovação total das direções das centrais, confederações e
federações sindicais do país. Em uma só pergunta, indagava-se aos cidadãos
se estavam ou não de acordo com essa renovação total, assim como acerca
do procedimento e prazo que seriam dados para a eleição das novas
autoridades nessas organizações.
229

Porventura o aspecto mais notável dessas eleições tenha sido a


elevada abstenção. O CNE deu como cifra nacional uma abstenção de
76,16%, o que equivale a dizer que de cada 100 venezuelanos com direito a
voto apenas 24 o exerceram. O baixo interesse que despertaram as eleições
neste nível após as tensões suscitadas pelo pleito de julho, a escassa e
dispersa informação sobre os diversos candidatos, uma campanha eleitoral de
intensidade muito menor que as outras, a fadiga sentida por muitos
venezuelanos após tantas eleições em um período tão curto ― tudo isso são
fatores que explicam essa míngua da participação cidadã. No entanto, e do
mesmo modo que em julho, a vitória das forças pró-governo foi clara, e
novamente alteraram-se as velhas correlações de poder neste nível para ceder
lugar à hegemonia chavista.
Revisando os resultados de alguns dos municípios mais povoados do
país, podemos avaliar a formação dos novos conselhos municipais. 1 No
município Libertador, sede dos poderes públicos nacionais, a vitória do MVR
foi arrasadora. Em que pese à grande abstenção (que chegou a 85,6%), dos
13 vereadores eleitos 12 pertenciam a esse partido, e o outro à AD. Isso
representou um grave revés para o outrora partido hegemônico e, outrossim,
ilustra uma situação que, em geral, se estendeu por toda a geografia urbana
do país. No município de Sucre, no Estado de Miranda (também parte da
cidade de Caracas), os resultados ― conquanto menos incisivos do que no
outro caso ― foram igualmente vantajosos para o MVR, que obteve uma
cômoda maioria de 8 em um total de 13 vereadores dessa câmara municipal.
Os outros 5 pertenciam ao partido Primeiro Justiça. Em outras cidades do
centro do país, a situação restou parecida. Em Valência, por exemplo, o MVR
conquistou 7 vereadores em um total de 13, sendo que os restantes eram
provenientes 3 do PV e, também 3, de um movimento regional. É de notar que
esta unidade federal constitui a sede política do PV, e o governador
(pertencente ao partido) vencera a reeleição em julho. Em Maracay, município
Girardot do Estado de Arágua, os vereadores do MVR eram 9 de um total de
11 dessa câmara, um outro eleito das fileiras do MAS, e apenas um único de
oposição, da AD. Em San Juan de los Morros, do município de Miranda, no

1
No que se segue, empregamos os dados do CNE, disponíveis em 06/01/2001 no sítio da rede
mundial www.cne.cantv.net. (N. da A.)
230

Estado de Guárico, dos 9 vereadores, 4 eram do MVR, 2 do PPT ― de


afinidades políticas com o governo ― e 3 da AD, que constitui a oposição
aberta.
Em Maracaibo, capital do único Estado em que Chávez perdeu as
eleições presidenciais (Zúlia), o MVR conquistou 5 dos 13 vereadores do
município; UNT (o movimento político do governador) obteve 6, a AD obteve 1
e o último ficou com o representante das comunidades indígenas locais. Em
Barquisimeto, município de Iribarren, do Estado de Lara, 11 vereadores eram
do MVR, 1 do MAS e o único de oposição, da AD. Na cidade de Mérida, 5
eram do MVR e 4 da AD.
Na região oriental do país, a situação se repetiu. No município Bolívar,
do Estado de Anzoátegui, o MVR obteve 9 vereadores e a AD os dois
restantes. No município Caroni, do Estado de Bolívar, de 13 vereadores, 11
eram do MVR, 1 da AD e 1 de um movimento local.
Evidentemente, esta situação não foi homogênea em todos os
municípios. Por exemplo, nos municípios de Atures (Estado de Bolívar), San
Fernando de Apure (Estado de Apure) e Guanare (Estado de Portuguesa), a
Ação Democrática alcançou a maioria de vereadores. No Estado de Guárico, a
maioria foi conquistada pelo PPT em dez conselhos municipais. Mas, todos
esses municípios possuem uma população relativamente pouco numerosa e,
ademais, eles têm minguada influência na política nacional. Uma atenção
especial ― do mesmo modo como comentamos as eleições para prefeitos ―
merecem os resultados dos três municípios que, junto com os de Libertador e
Sucre, formam o Distrito Metropolitano. Como já mencionamos, esses três
municípios reúnem basicamente uma população de média e alta renda, e
contrastam com a população de baixa renda dos dois outros. Ali os resultados
foram: em El Hatillo, os 7 vereadores ficaram distribuídos entre o PV com 4, a
AD com 1, um movimento regional com 1, e o MVR com apenas 1. Em
Chacao, o PJ obteve 5 dos 7 vereadores, ficando os dois restantes com o
MVR. Em Baruta, 7 vereadores do PJ e 4 do MVR. Em todos os processos
eleitorais ocorridos no país desde 1998, a votação nesses três municípios
sempre foi desfavorável ao chavismo.
Contudo, o referendo sindical, realizado no mesmo dia, apresentou
resultados favoráveis ao projeto político de Chávez. A opção SIM do referendo
231

recebeu 62,02% dos votos válidos, enquanto o NÃO ficou com 27,34% dos
votos. O referendo foi bastante polêmico e suscitou, durante sua formulação e
preparação pelo governo nacional e seus representantes na Assembleia
Nacional, fortes tensões entre estes e os setores que se sentiram prejudicados
pela iniciativa, como a alta direção da Confederação de Trabalhadores da
Venezuela, ligada à AD. O referendo fora claramente promovido contra a
confederação. Também demonstraram firme oposição ao referendo outros
setores organizados da sociedade ― ONGs, como o Provea ― ou grupos
sociais, como o Queremos Eleger, que consideravam esse escrutínio uma
violação do direito constitucional à livre associação, representando uma
intervenção inaceitável do Estado na esfera privada. Igualmente, organizações
internacionais vinculadas à direção da CTV, como a Organização Internacional
do Trabalho (OIT), exerceram pressão, a partir do exterior, para evitar que o
referendo fosse aprovado. Deu-se o caso, ainda, da vinda de alguns
representantes dessas organizações à Venezuela com o propósito de tentar
tornar mais efetivas suas diligências e denúncias. Porém, a despeito de toda a
razão que talvez pudesse caber a elas, e apesar das evidentes manifestações
de torpeza política demonstrada pelo governo e seus parlamentares com essa
iniciativa, o referendo provocou quase imediatamente a renúncia da alta
direção da CTV, cuja decisão era, a princípio, de não renunciar, alegando ser
ilícito o procedimento. Por sua parte, o governo baixou o tom de confronto,
dando sinais de reconhecer o mau uso que havia feito dessa tão delicada
iniciativa.
232

CAPÍTULO 11
AS INSURREIÇÕES DA OPOSIÇÃO1

A luta pela hegemonia entrou em uma nova fase no final do ano de


2001. Entre dezembro desse ano e o início de 2004, atores sociais e políticos
que se opunham ao projeto emergente representado pelas forças bolivarianas,
tomaram a decisão de pôr em prática táticas insurrecionais com o objetivo de
forçar a saída, o mais rapidamente possível, do presidente Hugo Chávez de
seu cargo. Em consequência, em abril de 2002, desfechou-se um golpe de
Estado ― de êxito efêmero ― e, entre dezembro de 2002 e fevereiro de 2003,
uma paralisação geral que incluiu a interrupção dos trabalhos da estatal
PDVSA por altos executivos da empresa. Também esta paralisação fracassou.
No primeiro semestre de 2004, mais uma vez a sociedade se viu perturbada
pelo recrudescimento da turbulência sociopolítica, no cenário da nova
estratégia da oposição dirigida para a tentativa de conseguir a saída de
Chávez pela via constitucional de um referendo revogatório. Neste ambiente,
no final de fevereiro, desencadeou-se outra ação violenta: o chamado plano ou
operação guarimba. Ao final, o referendo revogatório presidencial (que ocorreu
em agosto de 2004) foi favorável a Chávez. Com esse fato, a luta hegemônica
atingiu uma nova etapa, ao fortalecer-se decisivamente o projeto sociopolítico
do governo. Os sucessivos reveses da oposição ao longo desse período
debilitaram suas forças e sua legitimidade, o que dificultou a continuidade
dessas práticas: abria-se doravante outra fase do confronto político, diferente
da fase insurrecional.
A luta travada nesses anos foi particularmente intensa e violenta por
acharem-se os atores políticos polarizados em campos mutuamente
excludentes, com perspectivas e objetivos vistos como opostos. Os atores que
lideraram os dois lados do confronto vinham exercendo uma política "de
classe", ou seja, vinham manejando discursos e práticas orientados por
diretrizes que reforçavam sentimentos de identidade e solidariedade de acordo
1
Este capítulo está baseado em La lucha por el poder en Venezuela entre 2001 y 2004:
actores y estrategias (Margarita López Maya). Trabalho apresentado à Reunião do Grupo de
Trabalho "História Recente" do Clacso (10 e 11 de agosto de 2004), Montevidéu, Uruguai. (N.
da A.)
233

com os níveis sociais de renda, provocando assim o posicionamento dos


setores organizados de média e alta renda predominantemente no polo da
oposição, enquanto os setores populares identificavam-se majoritariamente
com o projeto bolivariano do governo. No decorrer desses anos, muitos atores
foram-se organizando cada vez mais, transformando e/ou definindo suas
identidades com maior nitidez, e evidenciando o fortalecimento da dimensão
de eficiência em suas ações. Isso é especialmente certo entre os diversos
setores populares, que, diferentemente dos setores médios ― cujos processos
de organização ocorriam já havia algumas décadas ― caracterizavam-se, ao
início do governo de Chávez, por deficiências gritantes de organização e
dinamismo.
Formou parte das forças da oposição insurreta um conjunto muito
diversificado de organizações sociais e políticas, que desde o início de 2001
foram crescendo e desenvolvendo uma ação comum sob a coordenação de
uma organização única, maior e abrangente, chamada Coordenação
Democracia de Ação Cívica ― ou mais conhecida como Coordenação
Democrática (CD). Em vários momentos dessa fase, diferentes atores
alternaram-se na liderança da CD: desde o setor empresarial organizado na
Federação de Câmaras do Comércio e Produção (Fedecámaras), que liderou
as primeiras ações cujo desenlace foi o golpe de Estado de abril de 2002, até
setores de tecnocratas pertencentes à administração da PDVSA, que
desempenharam um papel decisivo durante a paralisação desta indústria;
passando pelo sindicalismo da CTV e trabalhadores públicos e organizações
sociais de média e alta renda, que identificavam a si próprios como "a"
sociedade civil. Não obstante, ao longo dessa fase, os meios de comunicação
privados, enquanto setor empresarial particular que atuou com alto grau de
coesão, exerceram uma influência determinante sobre as decisões e ações
desse polo oposicionista. Lançando mão de seu enorme poder midiático, este
setor transcendeu seu papel de mediador de informação para transformar-se
em ator político de decisiva influência no âmbito da Coordenação Democrática.
No outro polo, as organizações políticas que apoiavam o governo de
Chávez formaram, como já assinalamos, um conjunto de partidos com pouca
institucionalização, e que durante esses anos firmaram entre si diversas
formas de aliança e coordenação, como o Comando Tático da Revolução e o
234

Comando Maisanta ― tendo sido este último criado para empreender as ações
necessárias frente ao referendo revogatório presidencial de agosto de 2004. O
partido mais numeroso era o MVR, de Chávez, seguindo-se o PPT, o PCV, o
MEP, etc. Também nesse polo reuniu-se um leque de organizações sociais,
sobretudo pertencentes a setores de média e baixa renda, que nessa fase
foram-se paulatinamente constituindo. Atuavam às vezes por conta própria,
outras vezes em coordenação ou articulação com estruturas partidárias. Entre
essas organizações sociais, contavam-se os círculos bolivarianos, os comitês
de terras urbanas, as organizações guardiãs da estatal PDVSA, as
organizações de camelôs, cooperativas, sindicatos, a classe média em
positivo1, e outros.

A DIMENSÃO INTERNACIONAL E NACIONAL DO CONFLITO VENEZUELANO


Já dissemos que os dramáticos fatos que sacudiram a sociedade
venezuelana ocorreram em um quadro de crise integral, que corresponde tanto
a um conjunto de determinações nacionais como a um número de
condicionamentos vinculados a fatores e processos externos. Estes fatores e
processos vinculavam-se às mudanças que se desenrolaram no cenário
internacional como resultado dos processos de globalização neoliberal. A luta
hegemônica de que estamos tratando acontece em um contexto estreitamente
ligado às transformações do capitalismo do início do século XXI.
Em sua dimensão internacional, essa luta se relaciona com as
alterações nas relações entre os países capitalistas centrais e os periféricos,
alterações que vêm ganhando evidência desde os fins dos anos 1970, e que
tiveram uma de suas expressões mais dolorosas na "crise da dívida" que
assolou a América Latina nos anos 1980. Como vimos, a economia
venezuelana sofreu sua Sexta-Feira Negra em 1983, quando o Estado
precisou fechar por alguns dias o mercado de divisas e desvalorizar a moeda,
convertendo-se a Venezuela no quarto país mais endividado do continente e
acentuando-se o processo de desorientação e estagnação de sua economia.

1
As organizações guardiãs surgiram espontaneamente durante a paralisação petroleira. Eram
formadas por pessoas em sua maioria pobres, que foram proteger os edifícios da PDVSA.
Armaram barracas e pernoitavam ali para vigiar e supervisionar o que entrava e saía. Assim
fizeram durante meses e, ao que parece, foram depois contratados pela indústria. A classe
média em positivo foi outra organização que nasceu para mostrar que havia pessoas nas
camadas médias que estavam com o presidente Chávez. (N. da A.)
235

Como ocorreu à maioria dos países latino-americanos, os sucessivos governos


da Venezuela desde então foram aplicando, de maneira ortodoxa ou
heterodoxa, programas de reajuste e reestruturação econômica ― os
"pacotes", que encontraram enorme resistência das forças sociais e políticas
do país. Tanto em 1988 como em 1993 e 1998, os candidatos que alcançaram
a presidência da República venceram as eleições oferecendo um modelo
econômico antineoliberal como caminho para superar a crise. Não obstante,
apenas o presidente Hugo Chávez manteve posteriormente a promessa de
campanha, e seu governo ― como veremos adiante ― passou a desenvolver
uma proposta em vários aspectos alternativa às indicações recomendadas
pelas agências internacionais de financiamento aos países grandemente
endividados.
O projeto político do presidente Chávez e de sua aliança de forças
políticas, embora com todas as suas contradições, fraquezas e
inconsistências, tem-se orientado desde o início por concepções que
contradizem ― tanto na teoria como na práxis social e política ― a doutrina
neoliberal, bem como as relações de poder mundial que esse pensamento
legitima. Suas linhas gerais estão expressas na Constituição de 1999 e no
Plano de Desenvolvimento Econômico e Social da Nação (2001-2007).
Em sua dimensão nacional, a crise venezuelana corresponde a uma
causalidade complexa, que se urdiu na dinâmica de processos histórico-sociais
e sociopolíticos que possuem diferentes temporalidades e que, em muitas de
suas linhas básicas, são comuns ao resto das sociedades latino-americanas. À
exclusão social histórica ― gerada por modelos coloniais ou semicoloniais
implantados na sociedade ao longo de sua existência ― sobrepuseram-se,
desde a "crise da dívida", duas décadas de recessão econômica e
empobrecimento social. Essa pauperização na Venezuela foi, desde os anos
80, brutal e ininterruptamente crescente.
O empobrecimento social foi gerando uma polarização social contínua,
que é resultado tanto dos processos acima mencionados como da aplicação,
durante duas décadas, de políticas econômicas neoliberais regressivas em
termos de distribuição de renda. Os venezuelanos pobres e empobrecidos
foram percebendo, com o correr dos anos, que sua sociedade ia-se
convertendo em uma sociedade de ricos e pobres, restando a esses últimos
236

uma escassa possibilidade de ascensão social. O ressentimento que essa


situação foi gerando no âmago das classes sociais revelou-se inevitável,
sobretudo se recordarmos que a democracia venezuelana trazia como sua
promessa fundamental a de promover graus maiores de igualdade e justiça
social. O fato de a promessa não ter sido cumprida abalou fortemente suas
bases de legitimação. Isso se mostraria com clareza nos anos 90,
primeiramente com o repúdio do eleitorado aos partidos do puntofijismo (AD e
Copei), e depois, nas eleições de 1993, com o colapso do sistema bipartidário
e a vitória de Rafael Caldera à presidência do país. O fracasso desse governo
em superar as dificuldades econômicas, sua inconsequência diante da
promessa eleitoral tanto de forjar um modelo econômico alternativo ao
neoliberalismo como de empreender uma reforma constitucional que
melhorasse e aprofundasse a democracia, os fatores combinados à queda
abrupta dos preços do barril de petróleo no mercado internacional em 1998,
tudo isso empurrou os venezuelanos para a radicalização política.

O GOLPE DE ESTADO DE 11 DE ABRIL


No final de 2001, ocorreu aquela que seria a primeira paralisação cívica
dessa fase. Foi durante esse acontecimento, em 10 de dezembro, que as
forças sociais e políticas ― cuja posição, desde a campanha eleitoral de 1998,
fora de antagonismo ao projeto político bolivariano ― conseguiram realizar seu
primeiro protesto de massa a alcançar êxito, o que indicava uma virada a seu
favor na luta pela hegemonia. A partir de então teria início uma espiral de
confrontos entre essas forças e o governo, e que desembocaria em vários
episódios violentos. A paralisação cívica logrou interromper uma parte
significativa do comércio urbano e teve o efeito de unir um conjunto de forças
oposicionistas que, até esse momento, moviam-se de modo disperso e
fragmentado no espaço político. A paralisação foi convocada pela
Fedecámaras, cujo então presidente, Pedro Carmona Estanga, despontava
como o líder da oposição.
Um conjunto de fatores tornou possível o êxito da paralisação cívica de
dezembro. Em primeiro lugar, realizava-se a convocação dos grupos
descontentes com o conteúdo nacionalista da nova Carta Magna e que se
opunham ao plano político de Chávez desde 1998. Muitos investidores e a
237

grande maioria dos grupos econômicos venezuelanos vinculados ao capital


transnacional rejeitavam o regresso a um Estado com capacidade reguladora
da vida econômica e social, à reafirmação da propriedade estatal dos recursos
petrolíferos, ao direito dos trabalhadores aos benefícios sociais ― entre outros
elementos que foram revigorados ou inseridos na Constituição de 1999.
Quando, em novembro de 2001, o governo ― fazendo uso das faculdades
extraordinárias conferidas a ele pela Assembleia Nacional ― deu mais um
passo na consolidação das linhas estratégicas de seu projeto sociopolítico,
aprovando como Leis Habilitantes 49 novas leis (entre as quais destacam-se a
Lei de Terras e Desenvolvimento Agrícola, a Lei de Hidrocarbonetos e a Lei de
Pesca, que aprofundaram os processos de regularização da propriedade
privada no campo e as atividades econômicas fundamentais, como a atividade
petrolífera), essas forças, que já estavam mobilizadas desde meados do ano,
começaram a desenvolver uma estratégia contínua de resistência e confronto.
Para o clima tempestuoso gerado por esses óbvios interesses nacionais
e/ou internacionais presumivelmente ameaçados pelas leis medulares do
projeto bolivariano, aprovadas em novembro, também o governo contribuiu
com novas tensões, criadas por ele em virtude de uma condução política baixa
e, em alguns aspectos, autoritária. Isso, combinado a um desempenho
econômico medíocre no que concerne à satisfação de aspirações dos setores
populares (cf. adiante, Cap. 14), concorreu para que a oposição contasse, pela
primeira vez, com recursos para tentar arrebatar aos bolivarianos o monopólio
"das ruas". A seguir, apontamos brevemente alguns dos eventos e processos
que, em meados de 2001, tornaram a luta hegemônica uma relação sem
vantagem clara de parte a parte, entre oposição e governo.
Um caso digno de nota foi o procedimento do governo frente ao
referendo sindical de dezembro de 1999, no qual o sindicalismo tradicional
(mas também setores críticos a ele) sentiu ameaçada sua autonomia. Outro
caso ainda foi o da forma como o Executivo Nacional interveio na discussão da
Lei de Educação, em 2001, na Assembleia Nacional, quando o governo
praticamente desautorizou os acordos que suas organizações partidárias
haviam feito com a oposição, o que provocou a indignação dos setores da
educação privada e religiosa. Com isso, engrossaram-se as fileiras da
oposição, fazendo convergir com os interesses dos poderosos setores
238

econômicos, midiáticos e petroleiros, algumas significativas parcelas de


organizações de classe média, que denunciavam as inclinações
antidemocráticas do governo. Além disso, ao fazer aprovar importantes leis
mediante uma Lei Habilitante, sem difundir nem ampliar os espaços para a
participação e o debate, o governo acabou por fazer parecer justa a indignação
daqueles que se sentiam atingidos, sem, por outro lado, criar as condições aos
outros que se beneficiavam dessas leis de poderem inteirar-se
adequadamente de seu conteúdo e, por conseguinte, defendê-las. Esse modo
de aprovar leis de grande potencial de mudança para a sociedade estava em
contradição com o conteúdo de democracia participativa respaldada pelas
forças do governo na Constituição recém-promulgada. A isso acrescentava-se
o fato de, nos meses de 2001, o governo ver-se confrontado, por motivos
diversos, com atores sociais e políticos que eram seus aliados, como o MAS e
o prefeito de Caracas, o que facilitou a convergência das até então
fragmentadas forças da oposição em uma plataforma política única. Com o
êxito da paralisação cívica de 10 de dezembro, essa plataforma se fortaleceu.
As reações do governo, bem como as da oposição, ao sucesso político
da paralisação mostrariam, nos meses seguintes, ser catastróficas para a
democracia venezuelana. A oposição unida e fortalecida, reconhecendo a
liderança do empresário Pedro Carmona, fechou-se às negociações com o
governo e passou a exigir a revogação das 49 leis aprovadas por meio da Lei
Habilitante. Alguns grupos demandavam já a renúncia do presidente da
República. O governo, por seu turno, endureceu ainda mais as posições
assumidas antes da paralisação, negando-se a modificar ou a ceder qualquer
coisa em relação às leis; ameaçou, primeiro, fechar a Assembleia Nacional
caso perdesse a maioria parlamentar e, em seguida, promulgar uma lei sobre
os meios de comunicação que restringisse essa atividade. Seu partido fez
saber que qualquer deputado da legenda que negociasse com a oposição
seria expulso. Em vista das posições assumidas pelo governo e pela oposição,
ia-se tornando pouco provável uma saída institucional para a confrontação
crescente.
Os primeiros meses de 2002 foram de intensa e agitada atividade
política. A oposição, valendo-se da data de 23 de janeiro (aniversário da queda
do ditador Marcos Pérez Jiménez, em 1958), organizou em nome "da
239

democracia ameaçada pelo governo" uma marcha popular, à qual os


simpatizantes de Chávez responderam com uma contramarcha. Algo
semelhante aconteceu em 4 de fevereiro (data aniversária do frustrado golpe
militar de 1992), quando uma grande manifestação de rua do governo, em
Caracas, recebeu a contraparte de um "luto ativo" e marchas em diversas
cidades, organizados pela Coordenação Democrática. Esses meses foram
marcados pelo início da febril atividade de manifestações de rua no país, que
se estenderiam por todo o ano de 2002, e apenas começariam a ceder
paulatinamente depois da paralisação-sabotagem petroleira, a partir da qual
então as forças de oposição principiaram a debilitar-se. Mês após mês, cada
marcha da oposição tinha a resposta de uma dos simpatizantes do governo.
As classes médias e altas, sob a liderança da Fedecámaras e da CTV,
disputavam as ruas em igualdade de condições com os setores populares,
liderados pelo presidente Chávez e suas forças políticas e sociais.
Os fios que conduziriam ao golpe de Estado de 11 de abril foram sendo
dispostos pela contínua política das ruas. A trama começaria a urdir-se em
fevereiro, a partir da nomeação de uma nova diretoria da PDVSA pelo
Executivo Nacional. Conquanto o Executivo estivesse agindo legalmente, a
alta administração da empresa estatal rejeitou algumas das nomeações,
alegando que não estavam sendo respeitados os tradicionais "méritos" para
tais promoções. Não obstante, por trás do argumento da "meritocracia"
escondiam-se outras motivações.
No âmago da luta hegemônica que estava sendo travada com tanto
ímpeto, encontravam-se duas posições antagônicas em relação ao papel da
indústria petrolífera no futuro da sociedade venezuelana. De um lado, havia o
projeto ― idealizado a partir da alta administração e apoiada por atores
politicamente predominantes na CD, bem como por atores internacionais
vinculados à hegemonia neoliberal ― segundo o qual a indústria do petróleo
deveria ser independente do controle estatal para poder ser conduzida
efetivamente por seus altos administradores. A política de abertura petroleira,
que fora implementada na Venezuela nos anos 1990, durante os governos de
Andrés Pérez e Rafael Caldera, correspondia a esse projeto e esteve presente,
nesses anos, em diversos documentos da CD, especialmente em janeiro de
2003, em plena paralisação do setor petroleiro. Nesta proposta, eram
240

priorizados os aumentos de volumes de produção em detrimento dos de


preços, com o que se contrariava abertamente a estratégia da OPEP,
diminuía-se a receita fiscal petroleira e tendia-se a uma gradual privatização da
indústria. O projeto de Chávez e seus aliados, ao contrário, revertia ― através
da Constituição e de outras duas leis aprovadas em 1999 e 2001 (a de
Hidrocarbonetos Gasosos e a de Hidrocarbonetos Líquidos, respectivamente)
― a política de abertura, reconquistando o controle estatal sobre a indústria,
privilegiando os pagamentos de royalties em relação aos pagamentos de
impostos sobre ganhos, o que beneficiava a receita fiscal, e desenvolvendo
prioritariamente uma política de aumento de preços sobre a de volume de
produção, cujo resultado era reaproximar o país das diretrizes da OPEP. Por
essas razões, a paralisação de empregados do setor petroleiro, que começou
antes do golpe de Estado, embora fosse feita em nome da falta de "méritos"
dos indicados, escondia uma questão da maior transcendência na luta
hegemônica: quem haveria de ditar a pauta da política petroleira no futuro? O
Estado ou a alta administração da empresa?
Em 9 de abril, a CTV convocou, em solidariedade com a paralisação
dos trabalhadores da PDVSA, uma paralisação geral de 24 horas. Essa parada
de atividades contou com o apoio explícito da Fedecámaras, da Igreja Católica
(representada no Episcopado venezuelano) e de organizações sociais e
políticas de oposição. Após 24 horas ― e a despeito de a paralisação não ter
atingido a contundência da de 10 de dezembro anterior ― a CTV prorrogou-a
por mais 24 horas. No dia seguinte, contudo, e sem que se tivesse visto força
suficiente na paralisação, o presidente da CTV, Carlos Ortega, convocou uma
greve geral por tempo indeterminado, e para o dia seguinte uma marcha que
partiria do Parque del Este, no leste de Caracas, e terminaria no edifício da
PDVSA, em Chuao, também na mesma região da cidade.
No dia 11 de abril, a volumosa passeata da oposição teve início por
volta das 10 horas da manhã, e percorreu o trajeto anunciado. Mas, ao meio-
dia, ao chegar ao edifício da PDVSA, os organizadores da manifestação,
aparentemente animados com as dimensões da marcha, procuraram
convencer a multidão a dirigir-se ao palácio presidencial de Miraflores, com o
propósito de ― como assinalou Carlos Ortega ― "tirar Chávez". A marcha, a
mensagem e a convocação para Miraflores foram profusamente noticiadas,
241

discutidas e divulgadas pelos canais privados de televisão, que assim tornaram


explícito seu apoio político ao movimento. Destarte, a marcha foi crescendo à
medida que se aproximava do centro de Caracas. Como se estivessem
convocando os espectadores para um concerto ou um show de música pop, os
canais de televisão exibiam, de maneira gratuita, mensagens contínuas para
que todos os venezuelanos acorressem a essa ação de natureza
insurrecional.1 Porquanto essa marcha tinha evidentes traços de sublevação:
fazia-se de forma imprevista e sem notificação alguma, dentro de uma greve
geral de tempo indeterminado.
O Palácio de Miraflores, situado na região oeste da capital, estava
cercado de civis simpatizantes do governo, que ali faziam vigília para proteger
o presidente desde 9 de abril, quando começou a greve da PDVSA. Enquanto
a manifestação da oposição avançava, o governo buscava uma estratégia para
evitar o confronto. Seu partido convocava todos os militantes para que
rodeassem e protegessem o palácio presidencial. O presidente, em cadeia
nacional de televisão, às 13h45min, dirigiu-se ao país enquanto a multidão
continuava a reunir-se em torno do palácio e a marcha crescia pelo caminho
"para retirar Chávez". A Guarda Nacional cercou a sede do governo, mas no
momento em que os manifestantes chegaram ao centro da cidade, alguém
disparou um primeiro tiro. Os meios de comunicação exibiriam sem cessar,
nesse dia e nos seguintes, cenas daquilo que eles afirmaram ter sido a ação
de franco-atiradores chavistas contra civis antichavistas na Ponte LLaguno.
Esse pretenso massacre de civis, que acabou por revelar-se uma manipulação
de imagens realizada pelos canais privados de televisão, serviu de justificativa
para o golpe de Estado. Poucas horas depois, entre as seis e as dez horas da
noite, a mídia veicularia os pronunciamentos de militares declarando
desobediência à autoridade do presidente da República. Às quatro horas da
manhã do dia 12, Chávez saiu com sua escolta de Miraflores para entregar-se
no Forte Tiuna, onde foi preso.
O papel dos meios privados de comunicação mostrou-se decisivo ao
apresentar uma imagem distorcida do que ocorrera no centro de Caracas,

1
Os canais privados de televisão transmitiram as mensagens a título de "doação".
Recentemente, o Estado exigiu desses canais o pagamento dos tributos devidos, referentes às
transmissões em questão, que alcançavam os Bs.$6,1 bilhões, ou seja, cerca de US$3
milhões. (N. da A.)
242

naquele 11 de abril. Pode-se ver em um trecho do documentário A revolução


não será televisionada1, que os homens armados na Ponte Llaguno
disparavam contra policiais metropolitanos que os enfrentavam, e não contra
civis da marcha oposicionista. Os chavistas armados estavam defendendo os
civis chavistas, desarmados na ponte. Esses homens provaram sua inocência
e foram absolvidos em 2003. No ano seguinte, outro documentário ― Puente
Llaguno. Las claves de una masacre (Palacios, 2004) ― demonstrou com
ampla documentação audiovisual a manipulação midiática dos fatos ocorridos
na ponte, em 11 de abril. Esta e outras numerosas evidências de natureza
diversa, que foram divulgadas nos anos seguintes, comprovam como o golpe
de Estado foi algo planejado por uma aliança de civis e militares, que utilizaram
a manifestação de rua como fachada para dar legitimidade "democrática" à
deposição de Chávez. O que ainda resta por ser elucidado é quem deu início à
violência, se ela fazia parte do plano golpista ou foi o resultado espontâneo da
tensão que se viveu naquelas horas.
Como se sabe, 48 horas depois, uma outra insurreição civil-militar repôs
Chávez no poder. Os conflitos no interior da aliança que derrubou o governo,
as torpezas do presidente golpista Pedro Carmona Estanga, que em seu
primeiro decreto suprimiu todos os poderes públicos, e um surpreendente e
amplo levantamento popular viraram o jogo, e os militares se reagruparam em
torno do governo deposto. Às 3h30min de 14 de abril, Chávez regressou ao
palácio presidencial em um grand finale, com a multidão que o aguardava e
com as câmeras de TV que transmitiam as imagens para todo o mundo.
Poucos minutos depois, dirigiu-se à nação, pediu perdão por seus erros e
prometeu retificação e reconciliação.
A despeito de o confronto político desse episódio ter-se resolvido
aparentemente a favor das forças do governo, não houve um resultado político
claro e imediato, o que, por conseguinte, condicionou nos meses seguintes a
estratégia do governo. Este percebeu a necessidade de fortalecer-se política e
institucionalmente. Reorganizou as Forças Armadas para isolar e/ou afastar os
revoltosos ― no que foi bem sucedido, como se veria no papel exercido pela
instituição militar nos episódios seguintes. Diferentemente do que ocorreu em

1
The revolution will not be televised (produzido por David Power e dirigido por Kim Bartley e
Donnacha O' Briain, 2002).
243

10 de dezembro, o governo optou daí em diante, no plano político, por uma


estratégia de abertura em relação aos atores da oposição. Reformulou o
ministério, em especial os ministros ligados à área econômica, procurando
torná-los mais receptivos aos setores econômicos que o haviam derrubado.
Buscou, igualmente, uma reconciliação com os gerentes da indústria petroleira,
mantendo-os em seus cargos e modificando a diretoria que havia sido
recusada. Convidou a vir ao país diversas organizações e personalidades
internacionais, nomeadamente a OEA e o Centro Carter, com o propósito de
estabelecer canais de diálogo com os oposicionistas. Manteve, como resposta
às agressivas e intensas manifestações de rua da oposição, uma contínua
mobilização de suas bases. Entre abril e dezembro, mês no qual irrompeu a
quarta paralisação geral convocada pela oposição, a Coordenação
Democrática convocou a cada dia 11 ― recordando a data do golpe ― uma
manifestação de rua, à qual as bases bolivarianas retrucavam, no dia 13, com
outra manifestação. Essas mobilizações evidenciavam um crescente uso da
violência pelos adversários políticos, patente nos saldos de mortos e feridos
com que muitas delas terminaram.
A mudança de estratégia do governo não surtiu efeito sobre a oposição.
Apenas passadas as primeiras semanas após o golpe, durante as quais
desacordos e tensões reinaram no interior das forças opositoras, estas foram-
se reagrupando e negando-se ao diálogo e à negociação com o governo, para
cair mais uma vez, no final desse ano de 2002, na estratégia insurrecional,
agora de consequências devastadoras para a economia venezuelana.

A PARALISAÇÃO DA PDVSA
Um conjunto de acontecimentos e processos foi-se enredando desde
meados de 2002 para que as forças de oposição desembocassem, em
dezembro, no mesmo caminho insurrecional trilhado em abril. Cabe mencionar
entre eles, pela relevância em tornar atraente a opção pela estratégia
insurrecional, a decisão do Tribunal Supremo de Justiça, de 14 de agosto, que
determinou não ter havido méritos para levar a julgamento por rebelião quatro
altos oficiais envolvidos no golpe de abril. Esta fora uma clara decisão política
― e não jurídica, como devia ser ― do máximo tribunal do país, que assim
deixou evidente sua polarização, e abriu a porta a uma nova aventura militar.
244

Para os civis, foi um sinal de que reinava no país a impunidade. A organização


de direitos humanos Provea lançou um comunicado, no mesmo dia 14, pouco
antes de ser publicada a decisão, prevenindo para o que estava por se decidir
e discutindo os antecedentes que levaram a essa decisão. Ao final, advertia:
"Negar a possibilidade de um julgamento quando é pública e notória a
existência de indícios de comissão do delito de rebelião militar seria um ato de
impunidade de suma gravidade, apenas explicável pela politização do TSJ, da
qual, como dissemos, o oficialismo é um de seus principais responsáveis"
(Provea, 14-08-2002).
Em relação direta com essa decisão do TSJ, em 22 de outubro, 14
militares ― entre eles, alguns dos que foram absolvidos em agosto ―
tomaram a Praça Francia de Altamira, no leste de Caracas, pronunciando-se
em "desobediência legítima" contra o governo, e declarando a área "território
libertado". Anunciaram que somente abandonariam a praça quando Chávez
caísse, e chamavam seus companheiros de armas a insurgir-se contra o
governo. Este episódio e outros, claramente confrontacionais e violentos,
seriam permanentemente transmitidos e/ou difundidos pelos meios privados de
comunicação, com que demonstravam não apenas seu apoio a essas
estratégias, mas também contribuíam para manter e ampliar um clima de
grande tensão e conflituosidade política.
Outro acontecimento foi a terceira paralisação cívica da oposição, que
se desenrolou justamente no dia anterior ao levantamento militar da Praça
Altamira, e foi convocada pela Coordenação Democrática com o objetivo de
forçar Chávez à renuncia e/ou obrigá-lo a convocar as eleições
antecipadamente. No início de novembro, as tensões tornaram-se mais agudas
quando se deu um confronto violento no centro de Caracas, entre
simpatizantes do governo e da oposição. O confronto foi motivado pelo pedido
de um referendo consultivo por parte da Coordenação, referendo que as forças
oficialistas consideravam uma maneira ardilosa de forçar um referendo
revogatório contra o presidente. Pouco depois, quando foi invadida a casa de
um ex-chanceler da AD, revelou-se também a marcha de uma conspiração.
Em meados desse mês, aconteceu um tiroteio na Praça Bolívar, de Caracas,
entre policiais metropolitanos e a Guarda Nacional, em razão da politização e
polarização que os corpos de segurança haviam experimentado. No tiroteio
245

morreram três pessoas. Pouco depois, o Executivo nacional interveio na


Polícia Metropolitana, subordinada à Prefeitura Maior, e empregada
frequentemente pela oposição nos confrontos, visto que o prefeito Peña se
havia tornado uma das principais figuras da Coordenação. O Executivo
ordenou que a Guarda Nacional, controlada diretamente pelo governo, saísse
às ruas. Em novembro ainda, estourou também uma crise no Conselho
Nacional Eleitoral, que pôs em evidência a politização e polarização dessa
instituição. Em 2 de dezembro, depois de tudo que fora feito, a oposição
organizou a quarta e mais terrível paralisação, hoje conhecida como a
paralisação-sabotagem petroleira.
Esta paralisação apresentou conotações diversas das paralisações
anteriores quando se fez patente que não apenas uniam-se o comércio e parte
da indústria, ou a alta administração da PDVSA, como em abril, mas também
boa parte da administração operativa e os capitães da Marinha Mercante da
estatal petroleira. Estes gerentes e oficiais conseguiram, em poucos dias,
paralisar as atividades de operação da companhia e praticamente a totalidade
da frota de petroleiros da PDV Marinha. Na segunda-feira, 9 de dezembro,
quando as forças da oposição converteram o movimento em uma paralisação
"por tempo indeterminado" até que "Chávez caísse", o presidente da PDVSA,
Alí Rodríguez Araque, reconheceu, em cadeia nacional de rádio e televisão,
que a companhia estava virtualmente paralisada. Este mesmo personagem ―
naquilo que seria um passo decisivo para atalhar a insurreição ― denunciou a
paralisação como uma "sabotagem criminosa", conclamando o povo a sair às
ruas e cercar edifícios, instalações e outros bens da empresa, a fim de apoiar o
governo em seu esforço por obrigar a administração da estatal a suspender a
paralisação. Nas semanas seguintes, o povo efetivamente saiu às ruas para
resgatar a indústria. O conflito petroleiro ganhou protagonismo, enquanto
outras ações e setores perderam sua evidência e/ou centralidade.
Durante esse grave confronto político, muitos estabelecimentos
comerciais fecharam as portas; supermercados e bancos trabalharam em
turnos incompletos; colégios particulares e parte dos colégios públicos
interromperam suas atividades. Os venezuelanos, embora não dispusessem
de gasolina para o transporte (o combustível foi-se esgotando em dezembro),
mantinham-se nas ruas, em marchas e contramarchas que terminavam quase
246

sempre de modo violento, frequentemente com mortes. A Coordenação


Democrática "aboliu" as festas de Natal, pretendendo assim simbolizar o
sacrifício necessário para alcançar a "vitória final". As cidades ― sobretudo
Caracas ― ficaram divididas, espacialmente, em zonas esquálidas
(antichavistas) e chavistas. Ao chamado da Coordenação Democrática,
organizavam-se panelaços estrepitosos, todas as noites, nos setores de classe
média e alta. Também todas as noites, os meios privados de comunicação
transmitiam em cadeia o informe diário feito pelos líderes da Coordenação
sobre as ações do dia, seus resultados e as estratégias que seriam postas em
prática no dia seguinte. Em 23 de janeiro de 2003, diante dos claros sinais de
uma derrota iminente da oposição, as forças do governo convocaram uma
marcha, à qual acorreu um grande número de pessoas, enquanto membros de
classe média e alta se escondiam atrás das grades de suas casas e
realizavam "planos de contingência", à espera daquilo que líderes
irresponsáveis da oposição chamavam de "o assalto das hordas chavistas" às
residências dos setores de maior renda.
Em que pese aos muitos prognósticos que asseguravam não haver
governo na Venezuela que suportasse uma paralisação petroleira, Chávez e
sua aliança política ― com o apoio dos setores populares mobilizados, das
Forças Armadas que cerraram fileiras com o governo, dos funcionários da
companhia que permaneceram em seus postos e dos aposentados que se
integraram aos trabalhos de resgate ― puderam sobreviver. O governo
lentamente retomou o controle da empresa estatal, reativando as diversas
operações e aprofundando o processo de reestruturação da companhia, o que
houvera tentado realizar sem êxito no início de sua gestão. Além disso,
durante a paralisação, em nenhum momento aconteceram as explosões
sociais ou os massacres cuja ocorrência inevitável as forças da oposição
haviam previsto. Não houve, também, um desabastecimento de alimentos
significativo. Em meados de fevereiro, a tendência ao amplo controle da
empresa pelo governo fez-se clara, e ao findar-se o mês de março, mais de
18.000 gerentes e trabalhadores da PDVSA ― de um total de 40.000 ―
haviam sido despedidos por abandono de emprego. A empresa havia
conseguido recuperar todos os seus petroleiros, iniciara a retomada do
funcionamento de suas refinarias e as cifras de produção de barris diários se
247

aproximavam de novo da normalidade. A paralisação, sem que nunca tenha


sido decretado seu final, foi-se dissipando.
Diversamente do golpe de Estado, a paralisação petroleira provocou, na
luta hegemônica, um resultado político claramente favorável às forças do
governo defensoras do projeto bolivariano. A rebelião dos altos escalões da
administração da PDVSA levou a uma ampla dispensa por abandono de
emprego e, por conseguinte, a uma efetiva reforma petroleira, propugnada pelo
governo havia tempo, mas sem sucesso. Assim, ao resgatar sua capacidade
de controle sobre a indústria, o Estado pôde convertê-la em instrumento
fundamental de políticas econômicas e sociais orientadas pelo projeto político
governamental. Contrariamente, contudo, a demissão de administradores da
PDVSA deixou sem uma fonte importante de recursos materiais as forças da
Coordenação Democrática, e criou uma forte tensão entre elas.
A devastação econômica causada pela paralisação da PDVSA e de
parte da indústria privada nacional teve efeitos também de enfraquecimento
das bases sociais da oposição, visto que causou a falência de pequenas e
médias empresas industriais e comerciais, bem como um salto das taxas de
desemprego, que ascenderam de 15,4% a 20,3% em apenas quatro meses. O
PIB caiu, no primeiro trimestre de 2003, a -27%. Os grandes e médios
empresários, incluindo-se os poderosos donos dos meios de comunicação,
perderam milhões de dólares tentando infrutiferamente derrubar o presidente
Chávez. Ademais, a indústria petroleira havia sofrido uma sabotagem em suas
equipes e instalações. Tubulações danificadas, circuitos elétricos deteriorados,
arquivos desaparecidos. E o mais grave: seu sistema automatizado de
funcionamento foi furtado, e utilizaram-se computadores remotos para impedir
o governo de reativar os trabalhos. Por vários meses, as operações da
indústria tiveram de ser conduzidas, total ou parcialmente, de maneira manual
e local, com as óbvias dificuldades para se chegar aos níveis operativos
normais. Além disso, a ampla demissão da administração por sua conduta
insurrecional foi um dano enorme, difícil de minimizar. A essa catástrofe
econômica é preciso acrescentar o estado de deterioração das cidades, como
resultado dos confrontos expressos em termos "territoriais", em áreas de
chavistas e antichavistas (principalmente Caracas). Essas cidades estavam, ao
248

final, sujas de lixo, com ruas e serviços públicos danificados, "guetizadas", e a


população agitada pela ira e pelo medo.
Adicionalmente, as Forças Armadas, de um modo diferente do de abril,
agiram de maneira mais coesa no propósito de defender a indústria petroleira,
considerada parte intrínseca da soberania nacional e, naquele momento,
ameaçada pelas forças da oposição. Neste sentido, a Coordenação
Democrática e suas forças de sustentação cometeram um erro de cálculo ao
supor que a situação de instabilidade que o locaute deveria provocar desuniria
os militares e ensejaria uma intervenção deles para destituir o presidente da
República. Ao contrário disso, a ameaça à soberania provocou uma resposta
institucional de defesa do Estado, e, por consequência, do governo de Chávez.

OS MESES PÓS-PARALISAÇÃO: RUMO AO PROCESSO REVOGATÓRIO


PRESIDENCIAL
O saldo político da paralisação modificou nos meses seguintes a
correlação de forças e, por extensão, o cenário político nacional. O ano de
2003 transcorreu em meio a confrontos verbais e midiáticos das forças de
oposição e do governo, enquanto iam-se delineando novas estratégias que
mostrariam ser decisivas para a luta hegemônica em 2004.
Para o governo e seus aliados, a primeira coisa a fazer era superar os
efeitos socioeconômicos imediatos da funesta paralisação-sabotagem da
PDVSA. Para isso, junto com outras medidas, impôs-se um controle cambial,
além de implementarem-se políticas emergenciais de abastecimento de
gêneros alimentícios e combustível para a população. À medida que o governo
recuperava o controle do país, sua estratégia se tornava multidimensional e
complexa. Por um lado, continuou a reestruturação da estatal petroleira,
procurando consolidar o domínio que havia anteriormente alcançado sobre
uma empresa que, nos últimos lustros, tornara-se cada vez mais independente
e vinha apresentando uma receita fiscal cada vez menor. Segundo sua nova
concepção do papel da indústria, o governo buscava agora ajustá-la a distintos
critérios de produtividade e eficiência, e articulá-la ao resto da economia. Por
outro lado, no segundo semestre de 2003, iniciou ou retomou a execução de
um conjunto de políticas econômicas e sociais com o propósito de reativar o
aparato produtivo e responder às diversas demandas sociais da população, em
249

especial daquela parcela que, com contínua organização e mobilização, havia


defendido o governo contra as forças oposicionistas, e que provinha de setores
de extração popular. À proporção que essas políticas foram sendo
desenvolvidas ― algumas delas conhecidas como as Missões ― o projeto
bolivariano principiou a fortalecer-se e exibir com maior nitidez certos
elementos voltados a concretizar os objetivos de inclusão social e democracia
participativa. Foi após essa vitória política que o governo pareceu adquirir a
convicção de que sua sobrevivência, não apenas a médio e longo prazo, mas
também nos meses imediatos, estava intrinsecamente vinculada à
possibilidade de empreender, o mais rápido possível e de maneira tangível, a
democracia participativa e protagônica que viera anunciando desde o início da
gestão, mas que até então se havia firmado muito timidamente.
Entre as iniciativas sociais desenvolvidas pelo governo a partir da
paralisação-sabotagem, e que no decorrer dos meses traria ainda grandes
dividendos políticos ao chavismo na luta hegemônica, cumpre assinalar:
a) a implantação de políticas de segurança alimentar para setores
pobres, como a política de distribuição de alimentos através dos chamados
Mercal;
b) a formulação de políticas de reativação da economia, como o impulso
à economia social através da regularização de terras de zonas rurais e
urbanas, as rodadas de negócios que usam o gasto público para fomentar a
criação de cooperativas e pequenas empresas; políticas de financiamento a
microempresas; um plano concebido para combater o desemprego, mas que
foi tornando-se mais complexo para delinear uma espécie de economia
alternativa, que o governo chamou de modelo de desenvolvimento endógeno.
Este plano, conhecido como Missão Vuelvan Caras1, articula programas de
capacitação para o trabalho, outorga de ativos pertencentes ao Estado,
assistência técnica, moradia, terras, etc.;
c) o plano de ampla alfabetização (Missão Robinson I e II);
d) os diversos planos educativos (escolas bolivarianas, Missão Ribas,
Missão Sucre, Universidade Bolivariana), e

1
A expressão, do jargão militar, corresponde em português a Meia-volta, volver! (N. do Trad.)
250

e) o plano de assistência médica nos bairros urbanos, chamado Plano


(e depois) Missão Barrio Adentro (Bairro Adentro).
(Cf., para uma discussão mais detalhada dessas missões, o capítulo 15,
adiante).

Essas políticas indicavam que o governo ambicionava projetar a


imagem do "governante voltado a governar", atendendo aos reclamos e
necessidades dos setores mais excluídos no passado, e que o haviam apoiado
nos dias de dificuldades. Tal estratégia resultou, desde o início de 2004, em
uma crescente ampliação do apoio político ao governo, reconhecida inclusive
pelos órgãos de pesquisa politicamente inclinados à oposição.
As forças oposicionistas, por sua vez, achando-se enfraquecidas, viram-
se obrigadas a abrandar as mobilizações de rua. E já a partir de fevereiro de
2003, voltaram-se para a estratégia de convocar um referendo revogatório
presidencial, tentando com isso pôr de lado a paralisação petroleira sem,
contudo, encerrá-la abertamente. Esperavam, assim, diminuir os previsíveis
custos políticos negativos que a derrota da paralisação traria, iniciando então o
que supunham ser uma nova etapa de luta pela saída imediata de Chávez. No
entanto, alguns grupos continuaram aferrados à ideia de tirar Chávez do poder
por uma via violenta. Por exemplo, o eufemisticamente chamado Bloco
Democrático (BD) e certas personalidades civis e militares ― como o próprio
ex-presidente Andrés Pérez ― insistiam em reclamar um golpe de Estado, e
mesmo ― como Andrés Pérez ― um magnicídio. Essas ações eram
realizadas sem o apoio explícito da Coordenação Democrática, a qual se
concentrou no "revogatório", uma estratégia que se ajustava à
Constituição, e que fora, aliás, rejeitada pela CD apenas um ano antes.
Como complemento dessa nova estratégia, a oposição constituiu
também grupos coordenados entre si, que se dispuseram a elaborar
consensualmente um documento no qual fossem expressas as linhas básicas
de um projeto político para o governo "de transição", que, como supunham, se
seguiria imediatamente ao referendo revogatório. Os líderes da Coordenação
consideravam iminente a saída de Chávez, e a despeito dos fracassos das
estratégias anteriores, não estimaram os altos custos políticos que adviriam
disso. Ao contrário, iludidos pela miragem que os meios privados de
251

comunicação lhes proporcionavam, davam como certo o apoio majoritário dos


eleitores. Desconfiavam, contudo, da vontade do governo de deixá-los agir
democraticamente.
O referendo revogatório, que a Coordenação Democrática logrou
convocar, é um direito constitucional. O artigo 72 da Constituição estipula sua
realização a partir do cumprimento dos seguintes requisitos: a) deve ter sido
cumprida a metade do mandato da autoridade; b) o pedido de convocação
deve estar respaldado por assinaturas de, no mínimo, 20% dos eleitores
inscritos no Registro Eleitoral Permanente (REP); c) quando se realizar o
escrutínio, o número de eleitores que se pronunciaram a favor de revogar o
mandato deve ser superior ao número de eleitores que elegeram a autoridade
em questão; d) devem votar pelo menos 25% dos eleitores inscritos no REP; e)
o referendo só pode ser realizado uma vez. Pouco antes de encerrar-se o ano
de 2003, e tendo sido aprovada a nomeação das novas autoridades do CNE, o
caminho se aplainou: o órgão eleitoral autorizou e regulamentou os chamados
para a coleta das assinaturas do referendo revogatório presidencial, bem como
as assinaturas de referendos para deputados da Assembleia Nacional (tanto
do governo como da oposição). A coleta das assinaturas, seja das forças
chavistas, seja das oposicionistas, ocorreu durante duas semanas seguidas,
em novembro e dezembro. O ano fechava-se com um discreto otimismo.

"OPERAÇÃO GUARIMBA" E REFERENDO REVOGATÓRIO PRESIDENCIAL


Em 24 de fevereiro de 2004, apareceu a primeira decisão do CNE
relativa às assinaturas entregues em dezembro pela oposição. O CNE, em
uma decisão por 3 votos a 2, colocou sob observação mais de 148 mil
planilhas (que continham aproximadamente 1.480.000 assinaturas),
anunciando nos dias seguintes a aprovação de um procedimento que as
submetessem a um "reparo" (ou seja, a uma reparação para que pudessem
ser "ratificadas" ou não). O CNE manifestou uma dúvida "razoável" sobre a
autenticidade de uma parte das solicitações das planilhas, que foram
preenchidas com uma caligrafia similar, em contradição com a instrução
aprovada pelo órgão (cf., adiante, o capítulo 12). Em 2 de março, o CNE
informou oficialmente o número de solicitações válidas, inválidas e
"reparáveis", e estabeleceu os critérios para a reparação. A decisão recebeu o
252

apoio de observadores da Organização dos Estados Americanos e do Centro


Carter no país, que, contudo, expressaram reservas quanto aos critérios do
CNE para a reparação e exortaram o órgão a continuar negociando com
ambas as partes.
Em decorrência dessas decisões do CNE, as principais cidades ― e
sobretudo as áreas de residência dos setores sociais de média e alta renda ―
conheceram, entre 27 de fevereiro e 4 de março, uma onda de protestos
confrontacionais e violentos, organizados a partir dos apelos à "desobediência
civil" feitos pelos porta-vozes da Coordenação, que rejeitou a decisão do CNE
e afirmou desconhecer a legitimidade do órgão eleitoral (cf. Mendonza, em
Rádio Nacional, disponível no sítio www.aporrea.org, 25-02-2004). Os
protestos ― conhecidos como o guarimbazo ou operação guarimba ―
promoveram barricadas em rodovias e avenidas nevrálgicas de Caracas e
outras cidades, com incêndio de pneus, sacos de lixo e veículos, tiroteios na
Praça Altamira, violência física e verbal em diversos pontos das cidades,
confinamento de centenas de famílias em suas casas em razão do fechamento
das avenidas, que impediu a ida ao trabalho, às escolas e aos centros de
saúde.
O episódio recebeu a denominação de "operação guarimba" por causa
da semelhança com um plano desse nome, convocado desde maio de 2003,
através da internet, por um dirigente do partido BD, organização que se
separou da CD depois do golpe de abril, por insistir em uma saída violenta
para o impasse político. A palavra guarimba é de origem caribenha, e se
emprega em um jogo infantil na Venezuela para aludir a um lugar seguro (a
casa ou outro lugar), no qual uma pessoa perseguida ou atacada consegue
proteger-se. Segundo a mensagem veiculada pela internet, cada pessoa
deveria, em frente à sua casa ou guarimba, em uma data a ser anunciada,
praticar ações de resistência civil na rua, e abrigar-se em sua guarimba se a
polícia chegasse para reprimi-la. Quando os corpos de segurança se
retiravam, voltava-se a sair da guarimba. Segundo Robert Alonso, dono da
página web e, ao que parece, o inventor da tática, esta seria infalível para
provocar o caos nas cidades, levando as Forças Armadas a intervir e fazendo
cair Chávez em poucos dias.
253

O saldo trágico desse novo enfrentamento incluiu nove mortos, dezenas


de feridos, uns 40 revoltosos com mandados de prisão (mas liberados nos dias
seguintes) e milhões em perdas materiais. Nenhuma organização política ―
nem a CD nem o BD ― assumiu a responsabilidade pela violência
desencadeada, embora autoridades de municípios caraquenhos pertencentes
à oposição (os prefeitos López e Capriles Radonski, de Chacao e Baruta,
respectivamente) tenham-se negado a reprimir os protestos, alegando serem
manifestações legítimas.
O efeito imediato dessa violência foi o agravamento das tensões no seio
da Coordenação Democrática, entre aqueles que se dispunham, de um lado, a
rejeitar o processo de "reparo" e retirar-se da via do referendo, e de outro,
aqueles que insistiam, apesar das dificuldades, em prosseguir nesse caminho.
Entre os primeiros, estavam partidos como o PJ, o PV e LCR e organizações
radicais como Gente do Petróleo, formada durante a paralisação-sabotagem
por gerentes da PDVSA. Entre os segundos, incluíam-se organizações como o
MAS, a AD e o Copei, além de personalidades como Teodoro Petkoff e Alberto
Quirós Corradi, um ex-gerente e especialista do setor petroleiro. Esta última
posição, depois de muito debate, iria prevalecer. A oposição concordou em
convocar suas bases para "reparar" as assinaturas e, em 3 de junho, o CNE
declarou que havia assinaturas suficientes e que, portanto, as exigências
constitucionais tinham sido atendidas para a convocação do referendo
revogatório. Marcou-se, então, a data de 15 de agosto.
Com o anúncio da ativação do processo de referendo, os meses
seguintes viram uma mudança nos discursos e atitudes dos atores políticos,
marcados por uma maior moderação e equilíbrio no afã de conseguir os votos
dos setores do eleitorado que as pesquisas de opinião revelavam não estar
polarizados e/ou radicalizados, mas que seriam decisivos no resultado final.
Uma vez mais, iniciou-se na Venezuela a intensa atividade de organização e
mobilização das bases do governo e da oposição com o propósito de enfrentar
o referendo, cujo desfecho poderia decidir a luta hegemônica, que nas
confrontações anteriores havia pendido para um predomínio, ainda reversível,
das forças governistas.
O processo que conduziu ao referendo revogatório presidencial
significou para a oposição um triunfo político, especialmente para os setores e
254

as personalidades de vocação mais democrática ― que assinalamos acima ―


cujo peso não fora até então importante dentro da Coordenação. De fato, a
evidência desses atores durante a campanha representou uma mudança de
porta-vozes na CD, em que passaram a predominar discursos moderados,
mesmo daqueles que, até pouco antes, haviam-se colocado contra os
"reparos".
No âmbito das organizações e das bases do governo, nas horas
imediatamente anteriores e posteriores ao anúncio do CNE, manifestaram-se
evidentes tensões e contradições internas, com a ocorrência, inclusive, de
explosões de violência política no centro de Caracas. A situação foi
rapidamente apaziguada, quando, à noite, o presidente Chávez reconheceu,
em uma bem planejada transmissão em cadeia nacional, a decisão do CNE e
convocou sua base a organizar-se e preparar-se para o referendo.
Transmitindo-se do Palácio Miraflores, o presidente ― aparecendo rodeado de
símbolos religiosos e históricos ― considerou como uma vitória política própria
a Constituição de 1999 e o referendo revogatório que agora se efetivava contra
ele. Evocou, em seguida, a histórica batalha de Santa Inês, da Guerra Federal
venezuelana do século XIX, para explicar às suas bases a importância do
acontecimento eleitoral que se aproximava, a estratégia que se deveria
empregar, e pressagiar a retumbante vitória que se almejava. Finalmente,
recorreu a um muito famoso e emblemático poema llanero, intitulado Florentino
y el Diablo, no qual se mencionava um duelo travado entre as personagens,
em que Florentino vence o diabo. Chávez identificou-se a si mesmo com
Florentino, e à Coordenação com seu oponente, para esboçar a imagem mais
ilustrativa possível dos atributos que apontava no "outro" e da magnitude da
tarefa que todos tinham pela frente.
Em 15 de agosto, os eleitores venezuelanos acorreram em massa às
urnas, em um clima salutar de paz. As previsões logísticas do CNE foram
superadas pela importante afluência da participação dos cidadãos. Se em julho
de 2000 havia votado um universo de 6.600.000 venezuelanos, neste agosto
de 2004 votaram cerca de 10.000.000 de eleitores. Os centros eleitorais viram-
se sobrecarregados e as pessoas faziam filas que, em média, chegaram a sete
horas. Na madrugada de 16 de agosto, graças ao sistema computadorizado de
votação, o CNE pôde dar seu primeiro informe oficial, em que estavam
255

totalizados 94,49% das atas automatizadas, e cujas tendências eram já


consideradas irreversíveis. A opção pelo NÃO, favorável ao presidente, havia
vencido com uma folgada maioria: 4.991.483 votos (58,25%) contra a opção
pelo SIM, que recebera, segundo esse primeiro boletim, 3.576.517 votos
(41,74%). Pouco depois, os observadores internacionais reconhecidos pela
oposição (o Centro Carter e a OEA) anunciaram a compatibilidade de seus
cálculos com os do CNE. O presidente havia saído vencedor outra vez, e com
uma porcentagem de votos quase idêntica à das eleições de 2000.
Com esses resultados, a luta hegemônica adquiria ― novamente, mas
de um modo mais contundente e firme do que antes ― uma direção favorável
ao projeto bolivariano e às suas forças sociais e políticas. A legitimidade que o
resultado do referendo trouxe ao governo transcendia o âmbito nacional e
projetava-se no cenário internacional, também polarizado entre forças a favor e
contra o projeto bolivariano. Nos meses que se seguiram, a oposição tentou
denunciar, em instituições latino-americanas e internacionais, uma "fraude
eletrônica ampla", que, contudo, nunca conseguiram comprovar.
Posteriormente, outros grupos também apontaram um conjunto de
irregularidades institucionais, supostamente ocorridas durante o processo
revogatório, que teriam alterado a correlação de forças a favor do governo e,
por conseguinte, o resultado final da votação. Nesta linha de argumentação,
não se questionou o resultado favorável a Chávez, mas sim o processo que
conduziu à vitória. Mesmo que o processo revogatório tenha apresentado
algumas deficiências institucionais ― como costuma ocorrer, em maior ou
menor medida, nos processos eleitorais ― à luz do contexto insurrecional em
que ele se inseriu, e para cuja superação ele contribuiu decisivamente, é
possível considerá-lo um processo político razoavelmente transparente, de
resultados aceitáveis e bem sucedido em seu propósito. O processo que
culminou no referendo revogatório presidencial criou as condições em meio às
quais a sociedade foi capaz de encontrar um novo caminho, menos violento,
no qual prosseguiria a luta hegemônica. Além disso, abundantes evidências do
apoio e da popularidade do governo se mostraram nas pesquisas de opinião
(de diversas fontes), mesmo entre órgãos de pesquisa que vinham
abertamente apoiando a oposição. E ― recordemos ― diversas organizações
internacionais, que de modo algum podem ser indigitadas como chavistas
256

(como o Centro Carter e a OEA), apoiaram o processo e avaliaram


positivamente seus resultados.
257

CAPÍTULO 12
O REFERENDO REVOGATÓRIO DE 2004:
GEOGRAFIA ELEITORAL EM UMA VENEZUELA POLARIZADA1

No domingo, 15 de agosto de 2004, realizou-se, enfim, o referendo


revogatório presidencial. A pergunta a ser respondida fora formulada da
seguinte maneira: Você está de acordo com deixar sem efeito o mandato
popular, outorgado mediante eleições democráticas legítimas ao cidadão Hugo
Rafael Chávez Frías, como presidente da República Bolivariana da Venezuela
para o atual período presidencial? Como ocorreu a boa parte dos
venezuelanos e venezuelanas, devido à ampla concorrência, experimentamos
demoradas filas ― de mais de cinco horas ― para exercer o direito de voto.
Durante essas horas de espera, ouvimos as conversas e opiniões dos
companheiros de fila. Apesar de as pesquisas já indicarem claramente uma
tendência favorável ao presidente Chávez, ouviam-se aqui e ali vozes que
asseguravam sua eminente saída do cargo. Se extrapolássemos linearmente o
que recolhemos desses comentários, haveríamos de concluir que a opção pelo
SIM não podia senão sair vitoriosa da consulta.
Mas, como se tem dito tantas vezes, a Venezuela está vivendo nestes
anos recentes uma situação de extrema polarização política, que é a
expressão do aprofundamento da brecha social nos últimos 25 anos. Essa
polarização tem manifestações espaciais inegáveis, em especial nos principais
centros urbanos do país. Em Caracas, nas áreas mais pobres e mais
densamente povoadas, os resultados eram a imagem invertida da que
refletiam os setores urbanos de classe média. Naquelas, aproximadamente
75% dos cidadãos votaram no NÃO, enquanto os 25% restantes escolheram o
SIM. Ninguém duvidava, nesse dia, da vitória arrasadora do NÃO. Ao final, não
foi propriamente arrasadora, embora tivesse sido expressiva: cerca de 60%.
Não obstante, para os eleitores que optaram pela revogação do presidente foi
difícil persuadirem-se de que seus círculos familiares, geográficos e de

1
Este capítulo está baseado em: Geografía electoral en una Venezuela polarizada (Margarita
López Maya y Luis E. Lander), Observatorio Social de América Latina, nº 14, 2004, pp. 15-26.
(N. da A.)
258

trabalho não expressavam a vontade da maioria política do país. Outros


fatores somaram-se ainda para compor essa miragem, mas sem dúvida a
polarização em diversas dimensões da vida social constituiu ― e ainda
constitui ― o caldo de cultura no qual eles germinam.

O CONTEXTO
Como vimos no capítulo anterior, após o fracassado golpe de Estado e
a frustrada paralisação petroleira, setores majoritários da oposição
concentraram seus esforços, desde fevereiro de 2003, em alcançar a qualquer
custo a realização do referendo revogatório. Em maio de 2003, governo e
oposição, sob os auspícios da OEA, do Centro Carter e do Programa das
Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), assinaram um acordo no
qual se comprometiam a encontrar uma saída para a crise política, nos limites
estabelecidos pela Constituição de 1999. No 12º ponto do acordo,
comprometiam-se expressamente a respeitar e observar os requisitos do artigo
72 da Constituição, atinente aos referendos revogatórios; no 13º ponto,
concordavam em envidar esforços para nomear os membros de um novo CNE.
O acordo abriu caminhos para que a intensa conflituosidade vivida desde fins
de 2001 pudesse começar a ser resolvida por meios pacíficos e institucionais.
No segundo semestre de 2003, foram nomeados os integrantes do
CNE, poder político responsável por conduzir os processos eleitorais do país.
Nesse momento, as nomeações foram reconhecidas e bem recebidas tanto
pelas organizações simpatizantes do governo como pelas da Coordenação
Democrática. Sendo o referendo um mecanismo inédito da democracia
participativa venezuelana, esteve entre as primeiras tarefas a serem cumpridas
pelo CNE a de elaborar um regulamento que pautasse os procedimentos
necessários à realização da votação. Também este regulamento, aprovado por
unanimidade, pôde contar com um amplo apoio de ambas as partes.
A coleta de assinaturas para solicitar os referendos revogatórios de
deputados e do presidente da República realizou-se em dois fins de semana
consecutivos, entre novembro e dezembro de 2003, em completa paz. As
assinaturas para o referendo foram entregues com atraso. Quando, porém, no
259

começo de 2004, coube ao CNE exercer suas funções de árbitro, surgiram os


primeiros problemas. 1
No regulamento aprovado, ficara claro que cada solicitante deveria
preencher seus dados de maneira "individualíssima". Foram estabelecidos ―
mediante outras normas ― os casos excepcionais nos quais o solicitante
poderia ser assistido, e ressaltava-se que em tal situação uma nota deveria ser
acrescentada. Isso foi enfatizado tanto na propaganda institucional do CNE,
como na propaganda da oposição promotora do movimento. Não obstante, ao
revisar as assinaturas entregues, o CNE encontrou dezenas de milhares de
dados e assinaturas feitos com uma mesma caligrafia e sem nenhuma nota. A
situação se repetia no caso das assinaturas para o referendo presidencial e
das assinaturas para os referendos de deputados governistas e oposicionistas.
Em fevereiro, como vimos, o CNE, por maioria de seus diretores, tomou a
decisão de implementar um procedimento para o "reparo" dessas assinaturas,
convocando os supostos firmantes para ratificá-las ou rejeitá-las. Embora a
OEA e o Centro Carter respaldassem essa decisão do CNE, o anúncio do
procedimento suscitou uma primeira recusa por parte da CD, que incitou à
desobediência civil e desencadeou o guarimbazo, que descrevemos
sucintamente no capítulo anterior.
Ao final, a CD aceitou cumprir o estabelecido pelo CNE, e as datas para
os "reparos" foram fixadas e observadas sem maiores contratempos. Em 3 de
junho, o CNE declarou o cumprimento das exigências constitucionais e fixou a
data do referendo em 15 de agosto.

OS RESULTADOS DO 15 DE AGOSTO EM PERSPECTIVA COMPARADA


O ato do referendo revogatório foi pacífico e contou com ampla
participação. Longas filas e muitas horas de paciente espera foram motivo de
elogios por parte dos observadores internacionais, que viam nisso provas do
espírito cívico dos venezuelanos. Em duas oportunidades o CNE prorrogou o
fechamento dos centros de votação em virtude da magnitude das filas.
Finalmente, o encerramento oficial da votação ocorreu à meia-noite, embora

1
A retratação desse processo se faz aqui a partir de informações hemerográficas de fontes
diversas, que foram comparadas entre si para garantir uma objetividade maior, e a partir de
notas que tomamos, naqueles dias, dos noticiários e programas televisivos. (N. da A.)
260

alguns centros, sobretudo em setores populares, continuassem funcionando.


Graças à automatização da maioria dos centros, às quatro horas da manhã do
dia 16, o CNE divulgou o primeiro boletim oficial, apresentando já resultados
irreversíveis: o NÃO vencia o SIM em uma proporção aproximada de 60% e
40%. Eram as mesmas porcentagens nacionais das eleições de 1998 e 2000.
Poucos dias depois, foram anunciados os números definitivos. No quadro a
seguir, apresentamos os resultados percentuais nacionais, assim como de
algumas cidades, municípios, paróquias e centros eleitorais do país:

QUADRO 24: REFERENDO PRESIDENCIAL (2004)

NÃO SIM Nulos

Nacional 58,9 40,6 0,5


Área Metropolitana de Caracas 48,7 51,3 0,0
Município Libertador 56,0 44,0
Centro colégio Sta. Elvira** 24,1 75,9
Centro Iutirla** 25,3 74,7
Município de Baruta** 20,6 79,4
Município de Chacao** 20,0 80,0
Município de El Hatillo** 17,9 82,1
Centro Club La Lagunita** 5,7 94,3
Município de Sucre 47,1 52,9
Paróquia de La Dolorita* 73,1 26,9
Paróquia de Leoncio Martinez** 21,8 78,2
Estado de Zúlia 52,4 47,3 0,3
Município de Maracaibo (Maracaibo) 47,9 52,1
Paróquia de Ildefonzo Vásquez* 67,4 32,6
Paróquia de Olegario Villalobos** 26,3 73,7
Estado de Carabobo 56,6 43,2 0,2
Município de Valência (Valência) 47,6 52,4
Paróquia de Santa Rosa* 62,0 38,0
Paróquia de São José** 14,1 85,9
Estado de Lara 64,1 35,4 0,5
Município de Iribarren (Barquisimeto) 60,9 39,1
Paróquia de Unión* 72,5 27,5
Paróquia de Santa Rosa** 40,5 59,5
* Municípios, paróquias ou centro em que predominam setores populares.
** Municípios, paróquias ou centro em que predominam setores médios e altos.
Fonte: CNE (2004)
261

No quadro acima, fizemos uma seleção ilustrativa do comportamento de


eleitores de níveis diversos de renda. Caracas, Maracaibo, Valência e
Barquisimeto formam uma mostra bem representativa dos mais importantes
centros urbanos do país. Vê-se aí claramente como o nível de renda aparece
como determinante da orientação do voto. Em todos os 24 estados do país, a
opção do NÃO acabou vencedora. Apesar disso, em algumas das cidades
mais importantes do país, o SIM foi predominante. Tais são os casos de
Caracas, Maracaibo e Valência, que são mostrados no quadro. Em
Barquisimeto, o NÃO foi vencedor, mas por uma porcentagem menor do que a
obtida em todo o Estado de Lara. Isso demonstra que o projeto bolivariano
possui raízes mais fundas nas áreas de maior atraso. No interior das próprias
cidades, o comportamento eleitoral está também muito socialmente
determinado. O quadro compara municípios e paróquias de áreas urbanas de
diferentes composições sociais. Vemos aí que, enquanto nos setores de alta
renda a votação no SIM foi esmagadora, chegando a alcançar (como em um
centro de La Lagunita, do sudeste de Caracas) porcentagens próximas a 95%,
em setores pobres, a proporção ― embora sem chegar a extremos
semelhantes ― inverteu-se. Em cidades como Barquisimeto, onde venceu o
NÃO, a diferença de comportamento entre os centros localizados em áreas de
alta renda e os situados em bairros populares mantém a mesma tendência.
Porém, como já advertimos, esse comportamento não constitui uma
novidade. Desde as eleições presidenciais de 1998, com mudanças de ênfase,
o comportamento eleitoral dos venezuelanos tem sido fortemente determinado
por sua condição socioeconômica. No quadro 25, observamos esse
comportamento nos municípios de Caracas que concentram os habitantes de
maiores rendas, em vários processos realizados desde então:
262

QUADRO 25: VOTAÇÃO EM MUNICÍPIOS DE CARACAS (1998-2000-2004)


CHÁVEZ OUTROS

Eleições 1998 votos % votos %


Nacional 3.673.685 56,2 2.863.121 43,8
Baruta 34.995 29,0 85.511 71,0
Chacao 12.597 30,0 29.379 70,0
El Hatillo 5.372 23,7 17.323 76,3

Eleições 2000 votos % votos %


Nacional 3.757.773 59,8 2.530.805 40,2
Baruta 23.827 22,0 84.686 78,0
Chacao 9.651 24,5 29.803 74,5
El Hatillo 3.981 18,4 17.716 81,6

Referendo 2004* NÃO % SIM %


Nacional 5.619.954 58,9 3.872.951 40,6
Baruta 29.513 20,6 113.679 79,4
Chacao 9.897 20,0 39.542 80,0
El Hatillo 5.298 17,9 24.246 82,1

Fonte: López Maya e L. Lander (2000) e CNE (2004 e 2004)


* Computados 95,85% do total de atas.

Os eleitores dos municípios de Baruta, Chacao e El Hatillo constituem


aproximadamente um sexto do total da Área Metropolitana de Caracas. Em
outro dos cinco municípios, Sucre, eles compõem outro sexto; e em Libertador,
os restantes quatro sextos. Esses dois últimos municípios são, quanto à
composição socioeconômica, mais heterogêneos que os três primeiros. Porém,
deve-se ressaltar que em Libertador ― de longe o maior dos cinco municípios,
com cerca de um milhão de eleitores ― os setores populares são
manifestamente predominantes. Com algumas variantes, esse fenômeno de
segregação socioespacial repete-se em outras cidades venezuelanas,
263

reproduzindo o mesmo comportamento eleitoral. É de notar que desde as


eleições de 1998, enquanto em nível nacional o apoio ao presidente Chávez e
às forças sociopolíticas que o respaldam tende a estabilizar-se em termos
percentuais e a ampliar-se em números absolutos, nos três municípios
referidos o repúdio ao presidente e a seu projeto tende a acentuar-se.

DA EXCLUSÃO SOCIAL À POLARIZAÇÃO POLÍTICA


Desde o início de sua gestão, em 1999, o governo de Chávez tem sido
estigmatizado como um governo a provocar divisão e ódio social. Mas, a
polarização política que se experimentou desde a campanha eleitoral de 1998
é, antes, expressão de uma aguda segregação socioeconômica que, como
expusemos extensamente, tem suas raízes em processos de longa data e de
natureza complexa.
Importa salientar que desde 1989, ano em que ocorreu o Caracaço,
iniciou-se no seio da sociedade venezuelana um processo de desagregação,
distanciamento e temor por parte das classes médias em relação aos setores
populares, e que essa situação foi-se agravando no calor dos processos de
polarização social e de deterioração institucional que marcaram a década de
1990. Nas eleições de 1998, tornaram-se então visíveis ― enquanto
elementos do fenômeno de polarização política ― os traços de racismo e de
preconceito social contra os setores populares, manifestados pelas classes
média e alta do país. Uma caricatura, tornada célebre nessa campanha
eleitoral, feita pelo famoso desenhista Pedro León Zapata, expressava bem
esse aspecto de repúdio a Chávez que sentiam os ricos: "Não é Rambo, é
crioulo"1 era a legenda que a acompanhava. No final de 2001, como vimos,
com a bem sucedida realização da primeira paralisação cívica nacional,
convocada pela Fedecámaras, os atores sociais e políticos que se opunham
ao projeto bolivariano (fundamentalmente provenientes dos estratos médios e
altos) uniram-se e empreenderam estratégias de tipo insurrecional para mudar
a seu favor a cristalização hegemônica então presente no Estado. A
polarização se agravou e se estendeu a todos os aspectos da vida social: os

1
Há nesta legenda um jogo de palavras (intraduzível em português) entre Rambo e zambo
(crioulo, cafuz, mestiço). (N. do Trad.)
264

preconceitos sociais e raciais passaram a ser claramente visíveis em


pichações, na imprensa e em programas de televisão.
Os resultados do referendo apenas reiteraram esta fratura da sociedade
em dois campos cujos limites econômicos, sociais, espaciais, culturais e
políticos podem ser traçados a partir de uma lógica de classes. De fato, os que
são pobres são chavistas, pois veem nisso a esperança de uma mudança para
si e para suas famílias. O discurso e o projeto bolivariano os incluem; dão-lhes
uma identidade e um sentimento de pertencer a algum lugar ― valores com
que podem mover-se nesta selva em que se converteu o planeta, globalizado
pelo capital financeiro transnacional. Se provém da classe alta, então, é-se
antichavista, pois aí promete-se um imaginário "ocidental" e "moderno", que é
fundamentalmente branco, anglo-saxão, e com o qual os ricos se identificam
plenamente. Os dirigentes da oposição são seus pares, em quem confiam para
resguardar suas propriedades e liberdades diante das ameaças da turba. Eles
também os fazem sentir cosmopolitas, cidadãos do mundo. As classes médias
se inclinam para um ou outro lado, mas seus setores de maior evidência e
mais poderosos tomaram o caminho da oposição. Acasteladas há duas
décadas e meia em seus territórios urbanos, incomunicáveis com os setores
populares, educadas em colégios particulares, católicas em grande parte,
formadas em universidades que, mesmo públicas, eram até pouco tempo atrás
apenas escassamente frequentadas por estudantes de origem humilde.
Vivendo em um ambiente familiar e de trabalho afim, no qual os pobres são
cada vez mais uma espécie remota, acabam por confundir sua realidade com a
realidade, seu país com o país. Os meios de comunicação têm-se encarregado
de acentuar essa perversão, sobretudo nos últimos anos, em que um mundo
parcial e deformado se exibe ante nossos olhos sempre que sintonizamos os
canais privados de televisão (cf. Ishibasi, 2003). Enquanto isso, no canal
estatal (que esses setores ricos pouco sintonizam), vai despontando em meio
à aguda confrontação um outro país, cheio de componentes mestiços,
indígenas e mulatos, pleno de diversidade cultural e de pobreza ― um país
que estava oculto e silencioso, e que agora marcha triunfante pelas ruas,
porque se sente uma maioria. Resta a questão: como fazer para que se feche
a fenda que se abriu entre esses dois países, e o que fazer para que ambos se
juntem em um projeto comum no futuro?
265

COMENTÁRIO FINAL
De 1998 a 2004, oito processos eleitorais ― incluindo o referendo
revogatório presidencial ― demonstraram, com cristalina clareza, do lado de
quem estão as maiorias do país. Não obstante, as forças oposicionistas,
reunidas na Coordenação Democrática, negaram-se a reconhecer essa
realidade, arrogaram-se a representação majoritária e praticaram, de 2001 ao
tempo do referendo, ações insurrecionais como estratégia para vencer a luta
pela hegemonia. E nos meses seguintes ao referendo, mantendo as atitudes
de rebeldia, denunciaram uma suposta fraude eletrônica (nunca
convincentemente provada). A OEA e o Centro Carter, entre outros
observadores internacionais, atestaram a transparência do processo e dos
resultados. Como vimos, essa última decisão da oposição trouxe como
resultado afundar-se ela ainda mais no desprestígio e no isolamento político.
Os resultados das diversas disputas eleitorais travadas desde 1998
revelam uma geografia eleitoral caracterizada pela aguda polarização política,
fundada sobre uma polarização socioeconômica e espacial engendrada pelas
transformações ocorridas nas décadas passadas. A sociedade deixa-se ver
dividida em dois segmentos que se ignoram, que não se respeitam e que se
temem mutuamente. Sociedades assim constituídas enfrentam tremendos
desafios para recompor o tecido social e sanar suas feridas.
O presidente Chávez, as forças políticas que o apoiam e o projeto que
desenvolvem devem pôr-se a serviço das ineludíveis tarefas de reconciliação e
integração social. Para isso, os desafios se mostram a partir de diferentes
dimensões e âmbitos espaciais e temporais. O resgate do Estado e de sua
institucionalidade desponta como um dos desafios de maior importância.
Igualmente, impõe-se a construção de uma institucionalidade voltada para a
inclusão, a justiça, a integração social e o aprofundamento da democracia; a
recuperação da educação pública como espaço no qual se favoreça o encontro
da diversidade social e se inculquem os valores simbólicos e culturais que
permitam a convivência social em paz e promovam a tolerância entre as
diferenças; a recuperação das cidades como espaços públicos para o
encontro, como os lugares para o desenvolvimento da democracia
participativa. A cultura é outro espaço propício à integração social. Neste
momento, é imperativo restabelecer os canais normais de comunicação entre
266

os diferentes setores da sociedade. E o principal responsável por essa tarefa é


o próprio presidente da República e sua equipe de governo.
267

PARTE IV
GESTÕES DA NOVA HEGEMONIA

CAPÍTULO 13
PREFEITURAS DE ESQUERDA: AS GESTÕES LOCAIS DE LCR ENTRE
1989 E 19961

As gestões municipais dos prefeitos Clemente Scotto, no município de


Caroni do Estado de Bolívar (1990-1996), e Aristóbulo Istúriz, no município de
Libertador do Distrito Federal (1993-1996), representaram, na década de 1990,
as duas primeiras experiências importantes de governo local do partido LCR,
uma organização política de declarada vocação popular, que emergiu como
opção alternativa aos partidos tradicionais em fins dos anos 1980, e que
alcançou significativas parcelas de poder, tanto a nível nacional como regional
e local a partir de 1989. Em 1997, LCR sofreu ― como estudamos na Parte II
― uma grave cisão, e os prefeitos mencionados separaram-se da organização
passando a engrossar as fileiras do nascente Pátria Para Todos (PPT).
Atualmente, ambos ― assim como o grosso da militância da velha LCR ―
apoiam a aliança de forças hegemônicas do governo Chávez. Esses prefeitos,
em particular, têm desempenhado diversos cargos de grande importância em
tal gestão. Por isso, interessa-nos extrair dessas recentes administrações
alternativas alguns elementos que depois incidiriam nas diretrizes do projeto
bolivariano, atualmente hegemônico.
As gestões de Scotto e Istúriz guardam entre si importantes
semelhanças, tanto conceituais como operativas, o que parece indicar que
LCR enquanto organização ― ou ao menos alguns de seus membros ― havia

1
Este capítulo está baseado em Alcaldías de izquierda: las gestiones locales de LCR entre
1989 e 1996 (Margarita López Maya), Cuadernos del CENDES, nº 39, setembro-dezembro,
1998, pp. 163-194. (N. da A.)
268

meditado e elaborado os esboços de um projeto político alternativo de governo


local. Contudo, durante os anos que estamos considerando, a organização
nunca tornou explícito esse projeto, nem a direção nacional apoiou seus
prefeitos com muito entusiasmo. A semelhança mais notável entre ambas as
administrações foi o esforço dirigido para o desenvolvimento de práticas de
organização e participação cidadã que permitissem ir transformando aquilo que
consideravam a tradicional cultura "clientelista" venezuelana em algo mais
democrático. Esse objetivo partilhado distinguiu-as de outras experiências
locais dos mesmos anos, como as do MAS ― a organização política que
provinha, como LCR, da esquerda dos anos 1960. Aquele exercício incipiente
de democracia participativa ver-se-ia potenciado no fim do século XX graças
ao emergente projeto sociopolítico bolivariano.

CARACTERIZAÇÃO DAS PREFEITURAS ANTES DE LCR


As prefeituras dos municípios de Libertador e Caroni apresentavam
traços físicos, urbanísticos e sociopolíticos bastante diversos entre si, traços
que determinaram as condições nas quais atuaram as administrações dos
prefeitos Istúriz e Scotto. Vejamos brevemente, em perspectiva comparada,
esses três tipos de aspectos:
a) aspectos físicos e urbanísticos.
O município de Libertador, que Istúriz administrou entre 1993 e 1996,
era um dos municípios que formavam o então Distrito Federal (DF). Continha a
área central e a de maior concentração populacional de Caracas, capital do
país. A cidade é um assentamento urbano de antiga data (foi fundada em
1567) e em seu seio estabeleceram-se os poderes públicos, tanto os que
administraram a Província e Capitania Geral da Venezuela no período colonial,
como os da República a partir de sua fundação. A Área Metropolitana de
Caracas (AMC), criada em 1950 para fins estatísticos e de recenseamento,
abrangia então, além do município de Libertador, os de Sucre, Chacao, Baruta
e El Hatillo, que pertenciam ao Estado de Miranda. Libertador, pelas
características apontadas, era conhecido como a prefeitura de Caracas. Tinha
uma superfície total de 433 km2 e uma população de 1.823.222 habitantes
(segundo o censo de 1990), sendo a densidade demográfica de 4.210,6
hab/km2.
269

Caracas, por ser a capital de um país petroleiro, foi um polo de atração


migratória ao longo do século XX. Em 1900, sua população atingia apenas
100.000 habitantes. Graças ao negócio petrolífero, seu crescimento acelerou-
se: 1.116.245 em 1961; 1.658.500 em 1971; e 1.816.901 em 1981. Desde
então o crescimento pareceu estancar: como mostra a cifra do censo de 1990,
a população pouco superou a da década anterior.1
Segundo os dados da Secretaria Central de Estatística e Informática, o
município de Libertador possuía, quanto à composição social e condição
socioeconômica, 1.384.798 pessoas na categoria de população
economicamente ativa (com idade acima de 12 anos), das quais 51,2%
estavam classificadas como ocupadas, 5,9% como desocupadas, e 40% como
inativas.2 No DF, cuja população economicamente ativa era ligeiramente
superior à do município (1.589.603 pessoas), apenas 110.254 eram
estrangeiras (6,7%), e 539.812 eram venezuelanos nascidos fora do DF
(33,9%). Esses números permitem estimar em algo próximo de 40% a
população do município que provinha de outros lugares, em busca de
oportunidades para uma melhoria de vida. Em 1993, o índice médio de
pobreza nacional (adotando-se a metodologia da linha de pobreza) girava em
torno de 64%, e o III Inventário Nacional de Bairros, cujo levantamento é de
princípio da década de 1990, apontava que 41,3% (1.085.543 pessoas) da
população do município residiam em bairros3 ― entendendo-se por essa
denominação os assentamentos construídos a partir de invasões de terrenos,
sem plano nem projeto que cumprissem os requisitos contemplados em
qualquer outra urbanização regularmente traçada na mesma cidade e época
(Fundacomún, 1992).
Tais dados retratam uma cidade densamente povoada, com uma ampla
parcela de não nascidos nela, e com mais da metade de seus habitantes
vivendo em situação de pobreza, em condições de vida de baixa qualidade. A
estas condições que tornavam difícil a administração do município deviam
1
Segundo a OCEI, a população da AMC, em 1990, alcançava os 3.061.699 habitantes
(Fundación Polar, 1998). (N. da A.)
2
Segundo cálculos próprios. (N. da A.)
3
Fenômeno social próprio do século XX em toda a América Latina, o êxodo rural levou à
ocupação periférica e desordenada dos centros urbanos mais ou menos industrializados ou
que se iam industrializando. Os barrios (que preferimos traduzir, nesta acepção específica, por
seu equivalente direto bairros) venezuelanos se assemelham aos cortiços e favelas do Brasil.
(N. do Trad.)
270

somar-se as que derivavam das leis e regulamentações aprovadas em


diferentes momentos e com fins diversos, que acabaram por formar um
labirinto legal, o qual, por um lado, obstruía ― e ainda hoje obstrui ― a
possibilidade de um governo eficaz e, por outro, praticamente impedia
qualquer mudança de políticas para a cidade. O município era regido pela Lei
Orgânica de Regime Municipal (LORM), de 1989, mas também pela Lei
Orgânica do Distrito Federal, de data anterior. Ambas se contradiziam em
alguns aspectos e outorgavam faculdades e atribuições concorrentes entre
governador e prefeito. Além disso, o governador do DF era designado
diretamente pelo presidente da República, o que criava entre ambos certa
combinação de interesses, que podia não existir em relação ao prefeito, eleito
diretamente pela comunidade. Outra regulamentação que frequentemente
suscitava dificuldades era a Lei Orgânica de Ordenamento Urbanístico (de
1986), que estabelecia planos para as cidades venezuelanas em relação às
quais o Ministério do Desenvolvimento Urbano (uma dependência do Governo
Nacional) tinha uma posição hierárquica superior aos níveis federais e
municipais; as ações desse órgão eram motivo de tensão e complicações em
razão também de conflito de faculdades e atribuições. Se não bastassem tais
inconvenientes, existiam ― e continuam a existir ― leis e regulamentos da
vida urbana que remontam ao início do século XX, e mesmo antes, e
aguardam ainda uma atualização.
As características físicas, históricas e urbanas de Libertador, que
mencionamos acima, contrastam com as de Caroni. Este município do Estado
de Bolívar está situado distante da costa caribenha, no sul do território
venezuelano, fazendo parte de uma das unidades federais mais extensas e
menos povoadas do país. Caroni está localizado na margem sul do rio Orinoco
e é atravessado de norte a sul pelo rio Caroni, do qual toma emprestado o
nome. A capital do município, Santo Tomé de Guayana, depois denominada
Cidade Guayana, é uma das cidades mais jovens da Venezuela, visto que sua
criação, decretada pelo Governo Nacional, deu-se em 1961, a partir da decisão
de unificar política e administrativamente os centros povoados de San Félix,
Porto Ordaz, Charcana e Castillito, como parte de um projeto estratégico de
caráter nacional que intentava desenvolver um conjunto de indústrias de base
em uma área considerada como a mais rica em recursos hídricos e minerais
271

do país. San Félix, um dos primeiros núcleos urbanos da cidade, pouco


superava os 5 mil habitantes (segundo censo de 1950), enquanto Porto Ordaz,
outro núcleo originário da cidade, fora fundado apenas nove anos antes de
Cidade Guayana, em 1952, como resultado da descoberta de jazidas de ferro
no Cerro Bolívar e de sua exploração pela Orinoco Minning Company. No
município de Caroni encontra-se hoje um conjunto de indústrias de base que
até pouco tempo atrás pertenciam todas ao Estado venezuelano: Alcasa,
Bauxiven, Edelca, Ferrominera del Orinoco, Fesilven, Interalúmina, Minerven,
Sidor, Venalum e a represa hidroelétrica de Guri. Na década de 1990, algumas
dessas empresas foram privatizadas.
Em consequência da dinâmica industrial do município, a população de
Cidade Guayana cresceu vertiginosamente a partir dos anos 60,
caracterizando-se seus moradores por serem majoritariamente jovens e
adventícios de recente data na região, procedentes de todo o território
nacional e do estrangeiro. Estima-se que, em 1960, em San Félix, Porto Ordaz
e os outros núcleos de povoação que agora formam a cidade, a população
chegava a apenas 20.000 pessoas. Trinta anos depois, o censo de 1990
registrou uma população total de 465.823 pessoas, das quais 394.976 (84,8%)
não possuíam mais de 39 anos de idade. Do total da população, mais de 45%
eram imigrantes; 23.714 pessoas (5,09%) eram nascidas no exterior, e
181.703 (41,5%) em outros estados que não o de Bolívar. Com uma superfície
de 1.612 km2, o município de Caroni apresenta uma densidade demográfica de
288,9 hab/km2. Apesar de essa densidade ser muito menor do que a de
Libertador, Cidade Guayana concentra aproximadamente a metade da
população do Estado de Bolívar e é o centro urbano mais denso dessa
unidade federal. No momento de sua criação, a cidade suscitou um grande
esforço de planificação urbana. Não obstante, em 1989, ano em que Scotto
chegou à prefeitura, o município carecia de divisões administrativas e, segundo
o III Inventário Nacional de Bairros, de 1992, uma parcela correspondente a
48,41% da população vivia em assentamentos urbanos de áreas invadidas e
desassistidas de serviços básicos. É de ressaltar um outro dado importante:
nesses 30 anos, a cidade foi evoluindo com uma acentuada divisão na
composição social dos moradores de Porto Ordaz e San Félix. Em Porto
Ordaz, que é onde estão as fontes de trabalho das indústrias de base ― bem
272

como das pequenas e médias indústrias que cresceram à sombra delas ―


encontram-se as residências de pessoas de setores médios e altos, de
funcionários graduados e gerentes dessas empresas. Em contraste, a imensa
maioria da população operária e funcionários de menor qualificação vivem em
San Félix, na área dos bairros.
Tornando mais precisas as condições socioeconômicas do município,
acrescentamos que 66,6% de sua população eram, em 1990, economicamente
ativos, dos quais 43% estavam empregados; o desemprego atingia 7%; a
população de inativos e dos que exerciam atividades não declaradas somava,
segundo a OCEI, 50% da população. No Estado de Bolívar, em 1992, a
pobreza afligia 43% de seus habitantes (a média nacional era, à época, de
44,5%). Embora a taxa fosse ligeiramente inferior à média do país, havia-se
iniciado o declínio ou a falência de algumas das empresas de base, enquanto
outras passavam pelo processo de privatização. À privatização seguia-se a
expulsão de parcela dessa mão-de-obra, cujo fim inevitável era refugiar-se na
informalidade. Em 1990, nesse Estado, uma parcela de 17,23% da população
ativa declarou ser de trabalhadores por conta própria ou de serviço doméstico,
enquanto 34% eram funcionários ou operários do setor público.
Diante desses cenários físicos, urbanos e socioeconômicos das duas
prefeituras, os prefeitos de LCR ― consoantes com sua posição ideológica ―
orientaram seus esforços para o atendimento das necessidades da maioria
carente de recursos, favorecendo a melhoria de suas condições de vida nos
bairros populares.

EVOLUÇÃO SOCIOPOLÍTICA ANTERIOR DE AMBOS OS MUNICÍPIOS


Como vimos em capítulos anteriores, a chegada ao governo municipal
dos prefeitos de LCR, um partido insignificante até as eleições de 1988, foi
propiciada primeiramente pelo processo de descentralização que teve início na
Venezuela no final dessa década. Foi no quadro de crise política do governo
de Andrés Pérez que se deram as eleições locais e regionais de 1989 e 1992,
as quais iriam canalizar o descontentamento popular e promover a abertura de
novos espaços para a mediação entre a sociedade e o poder público. As
eleições contribuíram para manter o sistema político em meio a uma
conjuntura extremamente crítica. Assim, as vitórias em 1989 dos causaerristas
273

Andrés Velásquez (para o governo do Estado de Bolívar) e de Scotto (para a


prefeitura de Caroni) exprimiam o repúdio popular em relação ao partido
governista AD, porquanto nunca antes desse pleito eleitoral o partido havia
sido derrotado nesse Estado. Além disso, a vitória de Istúriz em 1992 esteve
também ligada à atuação dele e de seu partido durante os sucessos do
malogrado golpe de Estado de 4 de fevereiro. LCR, representada no
Congresso por Istúriz, fez eco ao ex-presidente Caldera em suas duras críticas
ao governo de Pérez. Essa postura teve grande acolhida da população.
Este contexto geral indubitavelmente condicionou as atuações iniciais
de ambas as gestões. Contudo, é preciso advertir da existência de
particularidades sociopolíticas, tanto no município de Caroni quanto no de
Libertador, pois elas são, ao mesmo tempo, um complemento explicativo das
condicionantes gerais da vitória dessa organização política em ambos os
lugares e fatores modeladores das possibilidades e obstáculos que teriam de
ser enfrentados, uma vez tendo o partido chegado ao poder.
No caso de Caroni, encontramo-nos no coração do trabalho político que
LCR havia realizado desde o princípio da década de 70. O movimento operário
da área, constituído por trabalhadores das indústrias de base ―
particularmente os trabalhadores da Sidor ― foi o núcleo germinal do que seria
depois conhecido como o Novo Sindicalismo, que, como apontamos no
capítulo 6, fez-se notar por seu enfrentamento com o sindicalismo tradicional
dos partidos signatários de Puntofijo, sobretudo da AD. O Novo Sindicalismo
havia alcançado o predomínio em Sutiss, o sindicato da Sidor, desde 1977.
Scotto foi advogado trabalhista de LCR na região, e Velásquez, que venceu
em Bolívar, fora presidente do sindicato de Sutiss. Diferentemente da indústria
manufatureira venezuelana localizada no eixo centro-costeiro do país, Sidor
havia funcionado em condições de trabalho e de vida sumamente difíceis para
seus trabalhadores. O Estado demonstrou ali, ao longo de vários anos, uma
frouxa disposição de exercer o papel de proprietário paternalista.
Adicionalmente, o sindicalismo adeco da área era amplamente conhecido por
seus métodos clientelistas e pela corrupção de seus dirigentes.
A existência desse sindicalismo forte deu a LCR uma base política em
Caroni, que, contudo, lhe faltou em Libertador. Veremos isso adiante. O Novo
Sindicalismo foi um importante fator de construção de identidade e
274

solidariedade sociais em Cidade Guayana, em vista da circunstância de seus


povoadores serem adventícios de todas as partes do país e de fora, e
consequentemente não possuírem laços afetivos, apego à terra e tradição em
comum. Era escassa a presença de outras organizações sociais na região; as
associações de moradores eram frágeis e, como no resto do país, estavam
intermediadas pelos partidos tradicionais. Existiam algumas comunidades
religiosas, como Fé e Alegria, os padres salvatorianos1 e a Diocese. No
entanto, não chegavam a ter a importância do sindicalismo. A atividade
comunitária que havia sido desenvolvida até então era exígua, em parte
estimulada pelo próprio Novo Sindicalismo e estava localizada nos bairros de
San Félix, onde residiam os trabalhadores. Além disso, o poder municipal era
aí uma estrutura ainda mais débil se comparada com outros lugares do país,
visto que a área, por ser sede de um projeto industrial estratégico da
democracia de então, recebia a ação política direta do poder central ― através
da Corporação Venezuelana de Guayana (CVG), criada pelo Executivo
Nacional em 1960, e cujo presidente era nomeado pelo presidente da
República. Essa corporação absorveu algumas atribuições-chave do poder
regional e local, entre elas, a de administrar as terras e os serviços de água e
limpeza urbana. Uma das primeiras tarefas da equipe que ingressava na
prefeitura foi tratar de construir relações com este órgão todo-poderoso na
área, relações que permitissem ao município começar a sair de sua condição
subordinada e dependente do poder central.
Uma diferença notável entre o processo sociopolítico que leva à vitória
de Scotto na prefeitura, em relação a Istúriz em Caracas, é que a estratégia
política para chegar ao poder municipal em Caroni foi traçada desde quando
se aprovara a primeira Lei Orgânica de Regime Municipal (LORM), em 1978.
Nas primeiras eleições separadas do nível municipal, realizadas em 1979,
Scotto já havia participado como candidato a vereador por LCR, embora não
tivesse sido eleito. Nas eleições municipais de 1984, LCR conseguiu
arrebanhar 17,13% dos votos para vereador da unidade federal, com os quais
obteve cinco vereadores ― quatro deles no município de Caroni e um no de
Heres. Scotto e seus companheiros (entre os quais também Velásquez)

1
Religiosos da Sociedade do Divino Salvador, instituto apostólico de Roma. Os padres
salvatorianos chegaram à Venezuela em 1957. (N. do Trad.)
275

começaram desde então a atuar no governo local de Caroni, desempenhando


principalmente o papel de opositores e denunciantes das irregularidades do
governo municipal. Isso ensejou um princípio de reflexão sobre o significado e
a concepção desejada de um governo local. Scotto formou ao longo desses
anos uma equipe político-técnica que, uma vez vencidas as eleições em 1989,
o acompanharia em sua primeira gestão como prefeito. Havia, pois, em Caroni
um conhecimento da problemática local e um trabalho político já feito, bem
como a incipiente formação de uma equipe e de um projeto.
A vitória de Istúriz, ao contrário, obedeceu ― de um modo mais
exclusivo do que a de Scotto ― ao "voto-castigo" exercido pelos eleitores de
Caracas contra o governo nacional e local em mãos da AD. Em meio à
agudização da instabilidade política de 1992, provocada pelos golpes de
Estado fracassados, LCR canalizou em seu favor o descontentamento relativo
à administração do presidente Andrés Pérez. Caracas, como centro dos
poderes públicos, é especialmente sensível aos avatares da política nacional.
A eleição do prefeito ali, mais do que em qualquer outro lugar, acaba por ser
contaminada pelos interesses dessa política. A vitória de Istúriz ocorreu contra
todos os prognósticos, pois não existia um trabalho local dessa organização
em Caracas: nem Istúriz nem LCR haviam desenvolvido algum ativismo na
política local.1 Três anos antes, nas eleições municipais de 1989, LCR não
tivera nenhuma figura expressiva no município, ficando seu candidato com
poucos votos. Em 1992, contudo, Istúriz venceu com 34,45% dos votos
válidos, contra o candidato da AD, Claudio Fermín, que obteve 32,03%. A
abstenção foi alta (62,57%), mas menor do que em 1989.
O primeiro a ser surpreendido pelos resultados eleitorais foi o próprio
Istúriz. Ele precisou então, em caminho, desenvolver ideias sobre uma política
local e montar uma equipe. Servindo de pontos de apoio, havia as experiências
de Velásquez como governador de Bolívar e as de Scotto como prefeito de
Caroni, estando ambos havia já três anos em exercício. Algumas pessoas das
equipes de Velásquez e de Scotto vieram a Caracas para prestar seus
serviços. Não obstante, era por demais evidente que se tratava de um desafio

1
O trabalho político em Caracas foi abandonado por LCR após a morte de Maneiro e a
separação do movimento Pró-Cátia em 1983. (N. da A.)
276

de proporções muito grandes para ser enfrentado com esses escassos


recursos humanos.
Acrescentemos, ainda, como diferença em relação à experiência em
Caroni, que em Libertador a população é socialmente mais heterogênea, a
sociedade civil é mais densa e foi continuamente perpassada por práticas e
costumes do clientelismo político tradicional. A maioria das associações de
moradores de bairros estava mediada pelos partidos, sendo elas muitas vezes
apenas fachadas destes. Suas direções permaneciam em exercício durante
anos sem convocar nem exercer práticas de participação democrática. Embora
isso não fosse algo tão diferente do que ocorria em Caroni, LCR não contava
em Caracas nem com o Novo Sindicalismo de Sutiss como respaldo, nem com
um governador que lhe fosse ligado. A partir do governo do DF e do central, os
opositores a qualquer partido popular emergente possuíam importantes
recursos para fazer sucumbir todo o intento de transformação.

POLÍTICAS DE DEMOCRATIZAÇÃO LOCAL


As administrações municipais de LCR em Caroni e Libertador
coincidiram quanto a considerar como objetivo principal de suas atividades a
democratização do poder local. Neste sentido, ambas as equipes de governo
refletiram uma busca por concretizar, no nível local, a democracia radical ―
um princípio ideológico básico de LCR. Esta democratização pressupunha o
desenvolvimento de uma cultura participativa, algo que o partido considerava
inexistente na Venezuela, em virtude da exacerbação da prática paternalista
como forma de relacionamento entre a sociedade e o poder. Conquanto
convergissem neste objetivo, havia diferenças em relação a estratégias,
instrumentos e atividades das duas gestões. Faremos em seguida um exame
isolado dos principais conceitos e instrumentos postos em prática por ambas
as prefeituras para cumprir aquele objetivo prioritário que as norteava.

Prefeitura de Caroni: "Mais vale errar com o povo do que acertar sem ele"
De acordo com a documentação oficial do município de Caroni, foi a
democracia radical o princípio orientador da gestão local de Scotto e sua
277

equipe.1 Esta democracia era entendida, no plano local, como "a reivindicação
do direito à cidade por todos os cidadãos, a democratização do poder e o
realizar as coisas com o povo" (Scotto, 1994). Esta postura seria condensada
no slogan que serve de epígrafe a esta subcapítulo, e que constituiu o lema da
equipe municipal ao longo de seus seis anos de trabalho. Considerou-se a
democracia radical indissoluvelmente vinculada à ideia de uma participação
crescente dos cidadãos em toda a atividade do governo. Isso, por sua vez,
implicava a criação de um conjunto de linhas estratégicas de ação e de
instrumentos que propiciassem esse processo.
Como vimos, Caroni é um município de fundação recente e carecia, à
época da posse do prefeito, de subdivisões territoriais que facilitassem sua
administração ou oferecesse um espaço adequado para o desenvolvimento da
vida comunitária. A estratégia mais fecunda e inovadora da prefeitura foi a de
desencadear um processo de paroquialização do município, ou seja, um
processo de descentralização do governo municipal, procurando incorporar os
cidadãos à criação dessas novas unidades territoriais. A paroquialização
serviria, por sua vez, de eixo articulador para um conjunto de atividades que
correspondia a quatro linhas de ação traçadas pelo governo local: 1) ampliar e
aprofundar a democracia; 2) dar transparência à administração; 3) melhorar a
qualidade de vida dos cidadãos, e 4) modernizar a instituição.
A paroquialização se iniciou logo ao primeiro ano da gestão,
desenvolvendo-se um conjunto de práticas que foi incorporando as pessoas à
tarefa de definir suas prioridades, de formular, dar prosseguimento,
supervisionar e inclusive avaliar as diversas atividades da prefeitura. A
paróquia, embora inexistente de um ponto de vista legal durante os três
primeiros anos do governo, foi a escala territorial com a qual se trabalhou
desde o início, tendo a prefeitura deslocado funcionários para as diferentes
áreas a fim de apoiar as práticas participativas a esse nível, assim como de ir
detectando lideranças que pudessem constituir-se em membros das futuras
juntas paroquiais, exigidas pela LORM de 1989. Durante o segundo período de
Scotto, em março de 1994, a prefeitura apresentou ante a Assembleia

1
A documentação oficial compulsada compreende extratos das prestações de contas da
prefeitura durante seis anos de administração, bem como um conjunto de publicações
municipais com propósitos de divulgação, incluindo algumas comunicações apresentadas pelo
prefeito Scotto em fóruns nacionais. (N. da A.)
278

Legislativa do Estado de Bolívar a proposta de criação de dez paróquias (oito


urbanas e duas rurais) para Caroni, como resultado de uma avaliação que
incluía como critérios: a) a afinidade histórica e processos sociais entre
comunidades e unidades de desenvolvimento; b) delimitações naturais;
número de habitantes; d) o conjunto das vias públicas existentes; e)
delimitação exaustiva do município. Em 1995, foram eleitas as primeiras juntas
paroquiais, depois de se propiciarem incontáveis assembleias paroquiais e de
se haver convocado e realizado um referendo, no qual participaram mais de
25.000 cidadãos, com a finalidade de dar nomes definitivos às paróquias.
Uma rica variedade de instrumentos participativos foi posta em ação ou
criada pela equipe municipal com o objetivo de incorporar os moradores nas
diversas facetas do governo local. Entre esses instrumentos ― e empregado
desde o princípio ― teve importância decisiva a modalidade da assembleia,
que ganhou impulso com a ideia de superar através dela a dinâmica
participativa imposta pela militância dos partidos, mediante a abertura de um
espaço para a livre discussão entre moradores e organizações de todos os
tipos. As assembleias eram convocadas por setores da cidade ou por grupos
que enfrentassem algum problema específico, como foi o caso das
assembleias dos camelôs em 1990, motivadas pelas graves questões
provocadas pela falta de regulamentações para o setor informal. Ou, então, o
caso das assembleias dos empregados municipais, que foram convocadas
com o fim de instruir esses empregados para incorporá-los ao processo de
reestruturação da prefeitura.
Por meio das assembleias, a prefeitura resgatou o espaço público para
a consulta ao povo: através delas, pôde ir identificando problemas, prioridades
e aspirações. Para tratar de problemas específicos, foram promovidas
inúmeras assembleias, e dentre elas guardou-se particular memória das
assembleias de orçamento e das assembleias de prestação de contas.
A iniciativa de Scotto e sua equipe de convocar o povo para incorporar-
se ativamente ao governo local, com a finalidade de influir nas decisões sobre
questões orçamentárias de suas áreas de residência, foi inédita na Venezuela,
e é possível que tivesse sido inspirada em uma prática similar desenvolvida
pelo Partido dos Trabalhadores (PT) no Brasil. As assembleias de orçamento
se realizaram a partir do segundo ano da primeira gestão (1991) e foram-se
279

aperfeiçoando em seu funcionamento através do método de ensaio e erro.


Acompanhando o relato que diversos funcionários fizeram desse processo, na
primeira vez que se realizaram, as assembleias resultaram em uma lista quase
infinita de pedidos feitos pelos moradores, e que depois não podiam ser
satisfeitos, provocando assim grandes tensões e dissabores. No ano seguinte,
a estratégia foi mudada para que a discussão girasse em torno das prioridades
de acordo com os recursos disponíveis. Realizaram-se assembleias de
orçamento nas oito paróquias urbanas. Nessas assembleias, era explicado o
significado de um orçamento e se tratava do montante destinado à área. A
Prefeitura dispôs para essa atividade a partida 70, que era a destinada a obras
públicas. Baseando-se em seu montante, os moradores decidiam sobre as
prioridades. Os funcionários levavam à reunião um porta-fólio com o
diagnóstico dos problemas da comunidade: carência de moradias, escolas,
abastecimento de água, centros esportivos, etc. Depois de recebida a
informação, dava-se direito à palavra e um funcionário ia anotando as opiniões
dos membros da assembleia; ao final, computava-se o que todos haviam
proposto e informavam-se os resultados. Se todos estivessem de acordo,
redigia-se uma ata na qual o prefeito se comprometia a destinar certa quantia
do orçamento para essas prioridades da paróquia. Também se deu ênfase às
assembleias de prestação de contas, nas quais se expunha o que fora
desenvolvido ao longo do ano nas diversas comunidades. Em 1991, foram
convocadas nove assembleias desse tipo e nove das de orçamento, sendo
praticamente uma por paróquia. Em 1992, foram respectivamente doze e dez
assembleias. Em 1993, foram dez de prestação de contas, complementadas
por cinco visitas aos portões das indústrias de base para informar também aí
sobre o que fora realizado.
Além das assembleias, merecem referência outras modalidades de
organização e participação, como as consultas às comunidades para tratar de
matérias específicas (por exemplo, o rezoneamento de áreas de
desenvolvimento urbano). Ou, então, as "tomadas" de lugares estratégicos
(por funcionários municipais), tais como os centros comerciais, para fins de
divulgação de informações; as visitas do prefeito e dos funcionários aos
portões das empresas de base ― quinze ao todo, entre 1990 e 1991; a
formação ou apoio às assim chamadas mesas de trabalho, que eram espaços
280

nos quais técnicos e moradores se encontravam para explicar, difundir e


discutir informações sobre algum problema nos serviços da área; a criação de
conselhos consultivos sobre diversos serviços locais (por exemplo, os casos
do Conselho Consultivo de Transporte e do Conselho Consultivo para a
Elaboração do Plano de Ordenamento Urbanístico, este último composto por
representantes dos grêmios e associações profissionais dos sindicatos, das
organizações comunitárias e outras instituições públicas. Foram promovidas
também juntas de fiscalização nos mercados, formadas com as associações
de moradores e adjudicatários das concessões, para controlar a pesagem dos
bens comercializados, seus preços, etc. Igualmente, empresas foram
incentivadas a realizar a manutenção e conservação de edificações escolares,
ligando-as aos moradores pertencentes às áreas convizinhas das escolas.
Podem-se ainda apontar outros esforços empreendidos por Scotto e sua
equipe, em observância à sua estratégia democratizante. Um esforço
importante foi o orientado para promover a renovação das direções das
associações de moradores, que antes haviam passado anos sem conhecer
eleições. Graças à renovação de seus membros, essas estruturas foram
desobstruídas, ensejando seu ressurgimento como instrumento para a
participação. Também foram estabelecidas as oficinas de formação e
informação, que procuravam fomentar entre os cidadãos o hábito de lidar com
informação. Esta modalidade foi apontada em um estudo comparativo de
gestões locais, em 1995, realizado por uma consultoria independente, como
um caso único a ser emulado na busca da criação de capacidades para gerir
programas locais de seguridade e assistência social. A prefeitura também
apoiou experiências de cogestão e de autogestão, como foi o caso da
construção de moradias e instalações desportivas, a administração
compartilhada de mercados municipais e de serviços sociais, ou o apoio
concedido à criação de consórcios e associações.

O município Libertador: "O governo do povo"


A gestão do prefeito Istúriz, que se iniciou em 1993, revelou ― em
termos de concepção e estratégias de ação ― uma grande coincidência com
as linhas desenvolvidas por Scotto. No município Libertador, do mesmo modo
que em Caroni, propôs-se uma transformação da democracia então vigente,
281

"clientelista, paternalista e corrupta", por uma "participativa", que tendesse à


democracia direta. Segundo o prefeito, esta democracia necessitava como
condição imprescindível o desenvolver de mecanismos que informassem o
povo, visto que Istúriz considerava que o conhecimento do ordenamento
jurídico, técnico e contextual dos problemas era o que afastava o temor de
participar e o que dava impulso ao processo de assumir os direitos e
compromissos de cidadão.
A despeito dessa orientação inicial, a complexidade de Libertador e a
improvisação com que se chegava ao governo afetaram a operacionalidade de
tais ideias. Apenas em meados do primeiro ano (1993), e de maneira mais
clara em 1994, encontramos um eixo de articulação das ações de governo
voltadas a impulsionar a democratização: era o chamado Governo Paroquial.
O Governo Paroquial foi o equivalente para as condições de Caracas do
processo de paroquialização que estudamos acima para o município de
Caroni. Tratava-se, do mesmo modo, de fazer avançar a descentralização
política iniciada pelo Estado nos anos 80, descentralizando agora a unidade
básica do funcionamento político-administrativo ― o município ― através da
criação de um espaço de governo nas paróquias já existentes, que
compunham Libertador. Diferentemente de Caroni, a divisão paroquial em
Caracas remonta ao período colonial, e a maioria das paróquias caraquenhas,
além de ser de longa data, possui características distintivas, derivadas de sua
evolução histórica. Não era o caso, pois, de criar novas paróquias com o povo,
como em Caroni, mas sim de abrir nas existentes um espaço político no qual
"(...) a junta [paroquial] eleita seja um órgão de governo, no qual o gabinete
técnico seja um órgão de governo, no qual as associações de moradores
sejam órgão de governo, e também que as organizações culturais, as
desportivas, as ambientalistas, os comerciantes organizados e toda a
individualidade preocupada com sua comunidade, todos tenham onde discutir
os problemas, onde tomar decisões, onde aprender, onde receber a
informação. Porque a armadilha dessa democracia representativa é pretender
convencer-nos de que vivemos na democracia, desinformados, manipulados"
(Istúriz, em Weffer e Martínez Brandy, 1996).
Esse conceito de governo paroquial ultrapassava o de junta paroquial
contemplado na LORM de 1989, visto que incluía uma transferência concreta
282

de poder às paróquias, e não apenas a abertura de um canal de consulta e


gestão administrativa (artigos 78 a 81). A Ordenação para a Criação e
Funcionamento do Governo Paroquial no município Libertador foi aprovada
pela Câmara Municipal em novembro de 1995, poucos dias antes das eleições
municipais desse ano, nas quais Istúriz seria derrotado. Tal ordenação teve
como base e sustentação as experiências práticas de características muito
diversas que, desde 1993, haviam sido desenvolvidas em algumas paróquias,
sendo a de maior ressonância a experiência de governo paroquial levada a
cabo na paróquia de Antímano. Também foi precedida por um processo
consultivo de assembleias paroquiais e setoriais na cidade de Caracas.
Segundo essa ordenação, o governo paroquial seria integrado pela junta
paroquial, as equipes técnicas que a prefeitura havia constituído nas paróquias
com funcionários de diferentes diretorias, a comunidade organizada, os
vereadores e deputados do circuito, os juízes de paz da paróquia, o chefe civil
e os representantes do poder central, distrital e institutos autônomos com
programas na paróquia. Ademais, outorgou-se voto a todo o morador que
houvesse assistido às três sessões imediatas anteriores de governo.
É lícito afirmar que esse conceito de governo paroquial foi a mais radical
proposta de democratização local desenvolvida pelos governos de LCR nesse
período. As curtas experiências que a partir desse conceito foram conhecidas
em Caracas estiveram mergulhadas em uma natural desordem e confusão,
além de estarem atravessadas pelas tensões derivadas das configurações
sociopolíticas arraigadas nas diferentes paróquias. Não obstante, em algumas
delas ― em especial em Antímano ― deu alento a um processo multidirecional
da informação e, com ele, a esperança em uma melhoria qualitativa e
quantitativa da participação. Derrotado o prefeito Istúriz nas eleições de
dezembro, o novo governo municipal ― cuja composição majoritária provinha
das fileiras da tradicional AD ― revogou a ordenação em agosto de 1996,
pretextando sua inconstitucionalidade.
De forma semelhante ao que ocorreu em Caroni, a gestão de Istúriz e
sua equipe também incentivou a assembleia como estrutura propiciadora de
organização e participação dos habitantes nas paróquias e bairros
caraquenhos. Nos primeiros meses de governo, cerca de 400 assembleias
foram convocadas em toda Caracas, com o propósito de identificar as
283

prioridades e os anseios do povo. As assembleias perduraram por todo o


período da administração. Contudo, segundo diversos funcionários dela,
constatou-se não apenas o grau de penetração da "cultura populista,
cogollérica" entre os moradores ― uma cultura inadequada para dispor o povo
ao autogoverno ― mas também a insuficiência do próprio instrumento
empregado para elevar a qualidade da cidadania. Uma vez fora da prefeitura,
Istúriz referiu-se ao assembleísmo desses anos como uma prática que logo
degenerou em um espaço cativo de "militantes políticos" e não de genuína
participação do povo. Segundo ele, embora ocorressem o intercâmbio de
ideias e a discussão, em pouco tempo os assistentes passaram a ser sempre
os mesmos e, nas assembleias, os critérios daqueles que mais gritavam ou
insistiam acabaram por impor-se (Istúriz, entrevista, 1997). Observou-se,
inclusive, que muitos ativistas de LCR iam às assembleias mais preocupados
em construir o partido do que em participar da elaboração do projeto de
governo local.
Como em Caroni, ensaiou-se em algumas paróquias de Caracas a
discussão coletiva do orçamento, o que ficou conhecido como a discussão da
Receita Paroquial. Esta receita foi criada pela gestão com os recursos
destinados às administrações de Obras e Serviços e de Conservação e
Manutenção da prefeitura. Os recursos eram transferidos às paróquias
conforme o seguinte critério: 50% do montante total divididos igualmente entre
as paróquias, e 50% divididos em duas partes, sendo 25% distribuídos de
acordo com a população e 25% de acordo com a gravidade dos problemas. A
discussão da receita fez parte de uma estratégia que procurava preparar o
espaço paroquial também para a administração de seus recursos. Em 1994, o
prefeito e alguns funcionários reconheceram alguns obstáculos que se
apresentavam ao avanço do processo. Entre eles estava a falta de preparação
técnica e legal dos membros das juntas e das organizações paroquiais em
geral, o que conduzia a visões imperfeitas e estritamente "bairrista" dos
problemas. Isso, muitas vezes, dificultava o uso eficiente dos recursos. Nesse
ano de 1994, a prefeitura modificou os critérios para a destinação dos
recursos, incorporando, entre outros, o do uso público das distintas paróquias
(um orçamento maior para um maior uso público pela comunidade, como no
caso da paróquia de Catedral, na qual se situa o centro histórico da cidade),
284

procurando assim alcançar uma distribuição mais equitativa. Da mesma forma,


a prefeitura reteve parte dos recursos para obras que beneficiassem toda a
cidade.
O apoio que diversas iniciativas e organizações de bairros e paróquias
receberam do governo municipal durante esses anos permitiu o florescimento
de formas de organização, participação e gestão comunitária. Entre as
modalidades dignas de menção estão as Mesas de trabalho ― espaços
concebidos (como em Caroni) para uma reunião cara a cara entre moradores,
juntas e diversos representantes de repartições do governo central, distrital e
municipal, empenhados na solução de problemas de serviços. Entre as mesas
que melhor vingaram nesses anos, distinguiu-se a mesa de água da paróquia
de Antímano, uma das paróquias com maior número de bairros e, também, de
problemas. Nesta mesa, tiveram encontro os membros da junta e moradores
com o engenheiro de águas e os representantes das diversas repartições do
governo central e distrital responsáveis por esse serviço ― especialmente a
companhia Hidrocapital. O presidente da companhia chegou a apresentar-se à
mesa, o que constituiu um ato sem precedentes. A mesa de água de Antímano
desembocou no compromisso assumido pela prefeitura e por Hidrocapital de
construir um aqueduto para livrar os moradores dos graves problemas que ali
eram obrigados a suportar; a par disso, a prática gerou uma cadeia de
experiências de organização social na comunidade. Dinamizaram-se também
vários tipos de comitês, como o Comitê de Usuários de La Vega (outra
paróquia com alta densidade de bairros), criado para encontrar soluções aos
preocupantes problemas de transporte que os moradores enfrentavam.
Mostrou-se igualmente relevante o apoio político, técnico e pecuniário
que a prefeitura ofereceu ao Consórcio Catuche, um projeto comunitário
situado em uma área pobre da paróquia de La Pastora. O projeto fora
inicialmente gerido com o apoio de padres jesuítas, e se originara de uma
primeira iniciativa deles e de moradores de transformar um tanque de água
(com oito metros de profundidade) dos tempos coloniais, usado como lixão da
área, em uma escola para crianças da comunidade. Posteriormente, foi
elaborado o Projeto Catuche, que contemplava o saneamento do rio Catuche,
que atravessa o bairro, e um conjunto de atividades socioculturais e
desportivas voltadas para a melhoria das condições de vida dos moradores.
285

Em 1996, o Consórcio Catuche recebeu, na Conferência Habitat II da ONU,


celebrado em Istambul, o reconhecimento como uma das 100 Melhores
Práticas Mundiais em matéria de melhoria de assentamentos humanos.

POLÍTICAS DE MODERNIZAÇÃO ADMINISTRATIVA 1


Um dado importante a se ter em conta ao estudarmos o que se fez em
matéria de modernização administrativa foi a situação extremamente
deteriorada que ambos os prefeitos encontraram como ponto de partida de
suas gestões. O processo de descentralização iniciado em 1989 desencadeou
aquilo que poderíamos chamar de processo de ressurgimento do nível local da
administração pública venezuelana, um espaço que, tendo sido esvaziado de
suas faculdades e atribuições nas décadas anteriores, havia perdido toda a
racionalidade que não a clientelista. Daí que, embora levando em conta as
claras diferenças entre os dois municípios ― além do fato de que Scotto
chegou à prefeitura no primeiro período em que ocorreram eleições diretas
para prefeitos (1989), ao passo que Istúriz o fez no segundo período (1992) ―
o que podemos ver em ambas as experiências foi a necessidade de enfrentar
um espaço administrativo em excepcional grau de decomposição, em virtude
da decadência vivida anteriormente. Isso limitou severamente os resultados de
seus esforços.
É de assinalar também que a LORM de 1989, em seus artigos 36, 37 e
38, estabelecia as competências que cabiam ao município, as colaborações
que tinha de prestar aos outros níveis do Estado e os serviços mínimos que
devia garantir aos centros de população, de acordo com o número de
habitantes que possuíssem. A lei especificava que o município podia prestar
qualquer serviço que contribuísse para o bem-estar da comunidade. No
entanto, eram de sua competência própria os seguintes: toda a matéria de

1
Foram muitas as dificuldades para se ter acesso a informações completas sobre este aspecto
das gestões estudadas. Apenas duas Prestações de Contas do município de Libertador (1993
e 1994) repousam na Biblioteca da Câmara Municipal. Dada as circunstâncias conflituosas da
transmissão de poder para o novo governo municipal em 1996, não foram cumpridos os passos
institucionais de apresentação e entrega da prestação do último ano da gestão de Istúriz. Após
algumas sondagens, descobrimos que a prestação existia e uma cópia fora preservada pelo
próprio prefeito. Fechando esse estudo, Istúriz no-la concedeu. Fica aqui registrado nosso
agradecimento a ele por isso. Agradecemos ainda a Itsia Vanegas, da Prefeitura de Caroni,
que nos proporcionou cópias da Prestação de Contas de 1992 e 1996 dessa prefeitura, bem
como de os quadros de receitas, arrecadação e gastos entre 1993 e 1995, elaborados pela
Secretaria de Programação e Orçamento dessa prefeitura. (N. da A.)
286

aquedutos, esgotos, drenagem e tratamento de águas residuais; distribuição e


venda de eletricidade e gás; elaboração e aprovação do plano de
desenvolvimento urbano local; promoção e fomento de áreas de recreação e
desporte; pavimentação das vias públicas urbanas; a arquitetura civil,
nomenclatura e ornato; organização do trânsito de veículos e pedestres;
transporte público urbano de passageiros; todo o serviço para a garantia de
abastecimento dos produtos de primeira necessidade; proteção ao meio
ambiente; organização e promoção de férias e festividades populares; limpeza
urbana; criação de institutos de crédito popular; cemitérios e serviços
funerários; atividades e instalações culturais e desportivas. Em serviços
sociais, tais como saúde, assistência social e outros, a lei apenas exigia sua
colaboração.

O SANEAMENTO FINANCEIRO E A MODERNIZAÇÃO ADMINISTRATIVA DE


CARONI
As vitórias eleitorais de Velásquez e Scotto, em 1989, respectivamente
para o governo do Estado de Bolívar e para a prefeitura de Caroni, significaram
o despojamento da AD em relação à direção que ela exercia nessa região,
considerada por seus dirigentes como um limite privado. Como assinalamos
acima, não somente esse partido jamais havia sido derrotado politicamente
nessa unidade federal, mas também que o âmbito regional e municipal de
Bolívar estava subordinado ao governo central através da Corporação
Venezuelana de Guayana (CVG), desde que fora criada em 1960, provocando
por isso um esvaziamento maior das faculdades e atribuições do estado e do
município do que em outros lugares do país. As estruturas e o pessoal desses
níveis político-administrativos praticamente haviam-se mantido cumprindo a
função de alimentar a máquina clientelista da AD, hegemônica na região desde
1958.
Em razão disso a situação em Caroni, em 1990, era de desordem
administrativa e de ineficiência financeira, e não surpreende que a resistência
à mudança tenha sido considerável. No resumo que a prefeitura divulgou sobre
os seis anos de gestão, a situação inicial era descrita da maneira seguinte:
287

Qual era a situação da prefeitura? Entre outras coisas:


- mais de 60 milhões de bolívares em dívidas que não estavam devidamente
registradas.
- ordenações municipais desatualizadas e insuficientes.
- milhões de bolívares em ajudas econômicas a pessoas de nomes "conhecidos" e
associados a vereadores e administradores de turno.
- gastos em materiais e utensílios desportivos que não chegavam aos campos de
jogo.
- veículos e equipamentos em geral inúteis.
- disponibilidade financeira com montantes inferiores às obrigações contraídas.
- registros contábeis em desordem e atraso.
- falta de liquidez para o pagamento do quadro de funcionários correspondente às
últimas quinzenas de 1989.
- utilização do dinheiro do município para pagar dívidas em bares e cantinas da
cidade.
- clima de reserva e desconfiança por parte de contratistas e fornecedores, que
sofriam com as relações de "matraca" e outros atropelos.
- documentos valiosos do patrimônio municipal mal arquivados e deteriorados por
ação das traças.
- escolas municipais em franca deterioração.
- centros de saúde carentes de pessoal qualificado e de dotação mínima necessária.
- associação de moradores, clubes desportivos e comitês de saúde com interferência
do partido de governo.
(Almacaroní, 1996).

Contra esta situação servindo de entrave, pretendeu-se uma


reestruturação administrativa do governo municipal, o que pressupunha seu
saneamento financeiro, bem como sua adaptação administrativa aos novos
objetivos da LORM de 1989 e a busca de autonomia em relação aos outros
níveis de governo, em especial em relação à CVG. Contava-se para isso com
um fator político-administrativo positivo, pois o âmbito regional também havia
sido transferido para as mãos de LCR ― circunstância que permitiu contar com
um aliado na mediação com o governo central.
Quanto ao saneamento fiscal do município, as cifras de receitas,
arrecadação e gastos desses seis anos de gestão indicam um esforço
importante para pôr em ordem as contas da prefeitura. As receitas (em termos
absolutos) registraram uma tendência ascendente ano após ano, como se
pode ver no Quadro 26, nas cifras das receitas arrecadadas. Igualmente, ao
288

trazer esses valores a preços constantes de 1989, podemos observar (cf.


Quadro 27) que a tendência à subida continua sendo relativamente
consistente, ainda que em 1992 e 1994 ocorressem baixas e depois, em 1995,
uma recuperação, sem contudo chegar às cifras de 1993. O desacerto de 1994
pode ter sido devido à alta inflação desse ano (60,8%) e à consequente
contração da demanda. A recuperação de 1995, conquanto não fosse
excelente, indica a atenção para a função arrecadadora. Nesse ano, a inflação
atingiu também valores muito altos (59,9%).

QUADRO 26: MUNICÍPIO DE CARONI (ESTADO DE BOLÍVAR)


Receita dotada e acumulada (1989-1995)
(em bolívares)

RECEITA RECEITA POR


ANO RECEITA ORÇADA ARRECADADA ARRECADAR
1989 363.316.173,00 312.494.636,00 50.821.537,00
1990 585.714.126,00 488.263.632,00 97.450.494,00
1991 1.339.163.761,42 842.010.607,74 497.153.153,68
1992 1.370.353.850,96 1.020.331.124,70 350.022.726,26
1993 1.781.486.800,58 1.647.918.453,39 133.568.347,19
1994 2.760.441.980,07 2.115.707.907,81 644.734.072,26
1995 5.629.231.006,15 3.989.873.816,91 1.575.414.592,99
Fonte: Prefeitura do Município de Caroni, Memoria y Cuenta (1992) e Prefeitura de
Caroni, Secretaria de Programação e Orçamento, "Informe de Ejecución de
Presupuesto de Ingresos" (anos de 1993-1995)
289

QUADRO 27: MUNICÍPIO DE CARONI (ESTADO DE BOLÍVAR)

Receitas Arrecadadas (em bolívares a preços correntes e constantes)


1989 - 1995

A PREÇOS A PREÇOS
ANO CORRENTES CONSTANTES (*)
1989 312.494.636 312.494.636
1990 488.263.632 347.116.367
1991 842.010.608 446.053.272
1992 1.020.331.125 411.247.635
1993 1.647.918.453 480.880.034
1994 2.115.707.908 383.921.414
1995 3.989.873.817 452.712.793
Fonte: Quadro 26 e índices de inflação do BCV. Cálculos próprios.

(*) Tomou-se como base o mês de janeiro de 1989.

Relativamente à composição destas receitas, a soma maior proveio do


arrecadado por receitas próprias, considerando-se sob essa rubrica toda
receita que significasse um esforço da gestão municipal para arrecadar seus
recursos. Tais receitas, durante o primeiro período de governo (1990 a 1992)
foram, de ano para ano, aumentando percentualmente sua contribuição: em
1990, constituía 72,48% das receitas totais, passando a 74,87% em 1991 e
75,34% em 1992 (cf. Quadro 28). No segundo período, ocorreu justamente o
contrário, visto que as receitas próprias reduziram sua contribuição no total
arrecadado, de 74,31% em 1993 a 62,85% em 1995.
290

QUADRO 28: MUNICÍPIO DE CARONI (ESTADO DE BOLÍVAR)

Evolução das receitas arrecadadas por fonte


1990-1995 (em bolívares)

Receitas Outras
Próprias Fontes Total de Receitas
1990 soma 296.927.644 112.725.185 409.652.829
% 72,48 27,52 100
1991 soma 630.375.164 211.635.443 842.010.607
% 74,87 25,13 100
1992 soma 768.750.094 251.581.031 1.020.331.125
% 75,34 24,66 100
1993 soma 1.203.851.487 416.066.966 1.619.918.453
% 74,31 25,69 100
1994 soma 1.555.210.616 560.497.371 2.115.707.987
% 73,51 26,49 100
1995 soma 2.507.998.209 1.481.875.608 3.989.873.817
% 62,86 37,14 100
Fonte: Prefeitura do Município de Caroni, Memoria y Cuenta 1992, "Cuadro
Demostrativo de la Evolución de los Ingresos por Fuente desde 1.990 hasta 1.992", s/p
e Prefeitura do Município de Caroni, Secretaria de Programação e Orçamento, "Informe
de Ejecución del Presupuesto de Ingresos", (anos de 1993-1994 e 1995). Cálculos
próprios.

Das fontes de receitas próprias, a mais importante é a arrecadação do


Imposto de Patente de Indústria e Comércio (IPIC), que em 1992 contribuiu
com 51,37% do total de receitas da prefeitura, e em 1995 com 47,21%. O
restante das receitas se origina de outras fontes, em especial do chamado
Situado Municipal (um montante fixo do orçamento ordinário, destinado aos
municípios por determinação constitucional) que contribuiu em 1992 com
24,66% das receitas totais, e em 1995 aumentou sua contribuição até alcançar
26,31%. Nesse ano, as contribuições do governo nacional (entre situado e
contribuições especiais) chegaram a constituir 37,15% do total arrecadado pelo
município, a cifra mais alta em toda a série (cf. Quadro 28, no indicado como
outras fontes). Esta sequência parecia indicar uma tendência a uma
291

dependência maior do município em relação às contribuições do governo


central, o que representava um retrocesso no objetivo de conquistar maior
autonomia municipal. Medidas do governo nacional, como a criação do FIDES,
apontavam nessa direção.
O Quadro 29 apresenta a evolução da arrecadação do IPIC (em valores
correntes e constantes no ano de 1986). Em valores correntes as somas são
crescentes, mas não em valores constantes de 1986, segundo os quais a
arrecadação diminui em dois anos: 1989 e 1994. Em 1995, ela se recupera,
sem todavia chegar aos valores de 1993. Isto volta a ser consistente com uma
retração da demanda por causa da alta inflação nesses dois anos, fator sobre o
qual o governo local não tem controle. Não obstante, apesar da continuidade
da inflação quase no mesmo nível em 1995 (59,9%), a arrecadação se
recuperou. Isso indica um cuidado maior com a arrecadação.1 Outro dado
interessante para conhecer-se a qualidade da arrecadação é o montante que o
município registra pelos chamados reparos fiscais. Em 1993, as receitas por
reparos alcançaram uma cifra equivalente em porcentagem a 4% do total
arrecadado do IPIC, e nos anos de 1994 e 1995 pouco mais de 2% desse
imposto. Este dado, ao contrário, parecia sugerir uma vigilância insuficiente da
arrecadação.2

1
A baixa considerável na arrecadação do IPIC ocorreu em praticamente todos os municípios
do país. Deveu-se sobretudo a fatores alheios ao governo local, como a implementação do
programa de ajustes macroeconômicos pelo governo Pérez, que provocou uma retração
severa da demanda e fez disparar a inflação. (N. da A.)
2
Embora seja difícil determinar com justo critério em quanto deve ser a relação percentual
entre reparos e IPIC, Angel Mouchet, especialista na matéria, calcula para a Venezuela
(dependendo do município em questão) entre 5% e 10%. Estas porcentagens estão abaixo nos
diversos anos (Mouchet, entrevista, 1998). (N. da A.)
292

QUADRO 29: MUNICÍPIO DE CARONI (ESTADO DE BOLÍVAR)


Comportamento da Arrecadação do IPIC (1986-1995)
Preços Correntes e Constantes

PREÇOS PREÇOS
ANO CORRENTES* CONSTANTES**
1986 32 32,00
1987 53 41,38
1988 69 41,61
1989 102 33,35
1990 202 46,95
1991 317 54,90
1992 524 69,05
1993 764 72,89
1994 1.043 61,88
1995 1.884 69,89
1996 3.799 69,35
Fonte: Angel Moucher Consultores, com base em dados do BCV e da Prefeitura de
Caroni, Secretaria de Programação e Orçamento.
* Receitas em milhões de bolívares a preços correntes.
** Receitas calculadas a preços constantes. Base 100 = 1986

Com relação às despesas, o Quadro 30 indica os gastos realizados de


1989 a 1995, e o Quadro 31 a relação entre despesas totais e despesas de
investimento. Estas últimas correspondem às entradas: 50 (aquisição de
maquinarias, equipamentos e imóveis), 60 (contribuições a órgãos do setor
público), 70 (obras e serviços para a formação de capital) e 90 (investimentos
financeiros). Com as despesas de investimento, a prefeitura pretendia não só
melhorar a qualidade administrativa do município, mas também contribuir para
a reativação econômica (depois do programa de ajustes implantado pelo
governo nacional em 1989), criando novos empregos diretos e indiretos.
Desafortunadamente, não existem informações suficientes nesses documentos
para que se possa traçar algum tipo de avaliação dos valores de despesas ali
apresentadas.
293

QUADRO 30: MUNICÍPIO DE CARONI (ESTADO DE BOLÍVAR)

Despesas Designadas e Executadas (1989-1995)


(em bolívares)
ANO DESIGNADA EXECUTADA
1989 363.316.163,00 265.577.724,94
1990 582.714.125,34 336.432.323,03
1991 1.339.161.761,42 841.248.690,44
1992 1.370.353.850,96 1.030.446.699,59
1993 1.781.485.800,58 1.463.945.212,03
1994 3.048.817.557,07 2.576.884.446,48
1995 5.806.515.161,11 5.043.507.077,45
Fonte: Prefeitura do Município de Caroni, Memoria y Cuenta 1992 e Prefeitura do
Município de Caroni, secretaria de Programação e Orçamento, "Presupuesto de gastos
asignados y ejecutados" (anos de 1990-1995)

QUADRO 31: MUNICÍPIO DE CARONI (ESTADO DE BOLÍVAR)

Despesas Comprometidas X Despesas de Investimento 1990-1992


(em bolívares)

DESPESAS DESPESAS DE
ANO COMPROMETIDAS INVESTIMENTO %
1990 336.432.323,03 60.798.892,66 18,07
1991 841.248.690,44 412.295.780,58 49,01
1992 1.030.446.699,59 453.836.199,49 44,04
Fonte: Prefeitura do Município de Caroni, Memoria y Cuenta 1992, "Cuadro
Comparativo de los Gastos Comprometidos Vs. Gastos de Inversión desde 1990 hasta
1992".

Em termos de melhoria na qualidade dos recursos humanos da


prefeitura, diversas publicações de divulgação desse órgão apontam ações
nessa direção. Uma política de elevação dos ordenados dos trabalhadores em
geral, que eram mal pagos quando do início da gestão; a regularização e
pontualidade no pagamento das remunerações; a confecção de um manual de
294

cargos e um tabulador de ordenados; a elaboração de um regulamento sobre o


pessoal; a abertura de cursos de aprimoramento para funcionários públicos, e a
implementação de avaliação do desempenho de funcionários municipais ―
todas essas foram iniciativas tomadas para que se assentassem regras claras
e estáveis aos empregados da prefeitura, procurando estimular assim uma
atmosfera mais positiva de trabalho. Um aspecto que merece destaque é a
implementação da política de recrutamento para postos de direção dirigida a
profissionais de alta capacidade técnica através do mecanismo de comissão de
serviços. Aproveitando a abundância de pessoal com alta qualificação que vivia
no município e trabalhava para as empresas de base, conseguiu-se que estas
empresas e a Corporação Venezuelana de Guayana permitissem a
transferência temporária de alguns desses profissionais para a prefeitura como
colaboração interinstitucional, cabendo às empresas de origem o pagamento
dos ordenados. Isso deu ao município a oportunidade de contar com recursos
humanos que, de outra forma, não teria podido pagar.
Entre outros esforços por modernizar a estrutura e o funcionamento da
prefeitura, cabe ainda mencionar os que se fizeram, desde o primeiro ano, para
elaborar o cadastramento, a automatização administrativa e de fazenda, o
esboço de um sistema de informação para controle da gestão municipal, a
criação de equipes técnicas de apoio ao trabalho nas diversas áreas do
município, e a assistência aos comitês de usuários para avaliação de serviços.
Algumas dessas inovações foram concebidas a partir da ideia de fomentar a
democracia participativa, conforme vimos anteriormente.

OS ESFORÇOS DE MODERNIZAÇÃO ADMINISTRATIVA EM CARACAS


No município de Libertador, durante a gestão do prefeito anterior, da AD,
poucos progressos haviam sido feitos. Quando assumiu a nova equipe da
administração municipal, o que se encontrou foi uma situação de desordem e
corrupção ― tal como em Caroni, mas na escala de Caracas. Eis alguns dados
sobre a situação, segundo a nova equipe: "Não havia infraestrutura para lidar
com a informação; tudo estava concebido para que as coisas se fizessem de
maneira irregular. A diretoria de Rendas Municipais era um testemunho vivo do
grau de corrupção com que se conduzia a prefeitura: ali negociava-se tudo,
desde a planilha para obter a solvência até as declarações dos contribuintes.
295

Em cada setor, havia uma pessoa incumbida de permitir que funcionasse o


esquema de desvio de recursos para o lucro pessoal. Havia uma fuga
tremenda de milhões através do bancos encarregados da arrecadação
municipal. Não havia conciliação de contas, não havia controle para as conciliar
nem encerrar os guichês (...) Quando chegamos, ocorreu uma sabotagem
técnica: derrubavam-se os sistemas, introduziam-se dados falsos, apagavam-
se outros. Todas as listas que permitiriam conciliar as contas desapareceram, e
só pudemos começar a formar uma base de dados a partir de 1992"
(Harnecker, 1993b).
No primeiro ano da administração, os esforços se voltaram para a
elaboração de um diagnóstico da situação presente, ao mesmo tempo em que
se tinha de enfrentar a pressão, vinda dos sindicatos, grêmios e outras
instâncias de poder controlados pelos partidos tradicionais, e que visava
frustrar toda a iniciativa de mudanças nas estruturas e procedimentos da
prefeitura. Em documento oficial do município, de 1993, são identificados
quatro grupos de dificuldades, sendo um deles relativo aos instrumentos
obsoletos da administração. Sobre este ponto, a equipe que ingressava na
prefeitura orientou-se inicialmente para a elaboração de um cadastramento da
cidade, além de procurar o saneamento do regime tributário, a adequação das
rendas municipais e o aperfeiçoamento da estrutura e eficiência dos
funcionários.
O dado seguinte dá uma ideia aproximada da situação do
cadastramento no município em 1992: de um total estimado de 700.000
cadastros, estavam registrados apenas 15.000 cadastros (Harnecker, 1993b).
Em 1994, a administração conseguiu concluir o projeto cartográfico da cidade,
considerado como um primeiro passo importante na modernização das
informações. Igualmente, pôs-se em funcionamento um sistema de informação
cadastral para a paróquia de Catedral, que iria servir de projeto-piloto do plano
de extensão do sistema a todo o município.
Nas finanças, a situação era, ao início, alarmante: a contabilidade fiscal
estava seis meses em atraso e seus dados eram pouco confiáveis; eram
ignorados os compromissos assumidos e não pagos em 1992, assim como as
dívidas dos anos anteriores. Em meados de 1993, calculou-se um deficit de
2.125.100 bolívares, dívida que foi paga em 1993 e 1994 (metade dela em
296

cada ano). A propósito dos fundos, quando se soube que se podia contar com
aproximadamente 100 milhões de bolívares no Instituto Municipal de Crédito
Popular, verificou-se que, ao movimentar a conta, o instituto achava-se
insolvente ― e foi afinal necessário pedir a intervenção da Superintendência
dos Bancos.
As dificuldades em relação aos recursos financeiros apontavam para a
necessidade de um trabalho contínuo de racionalização das receitas e da
arrecadação municipal. Não obstante, nos anos de Istúriz, a elevação da
qualidade na administração fiscal municipal ― pelo menos do que se pode
inferir das Prestações de Contas ― foi insuficiente. No Quadro 32, podemos
estimar os valores totais de receitas e despesas apresentados em três
Prestações de Contas. Tais valores, se comparados aos números
apresentados nos documentos do município de Caroni, refletem a pouca
eficiência e cuidado no manejo e/ou apresentação dessas contas. Por exemplo,
as receitas dotadas não existem na Prestação de 1993, e na de 1995 é apenas
uma estimativa imprecisa. Não é possível, ademais, comparar os valores de
receitas e despesas porque, em cada ano, eles foram apresentados de
maneira diferente, sendo assaz escassa a informação sobre os critérios usados
na separação dos títulos. Além do mais, segundo podemos constatar no
Quadro 33, referente à arrecadação das receitas pelo IPIC, os valores
correntes, embora revelem uma tendência ascendente, mostram (em preços
constantes de 1986) que somente no primeiro ano (1993) houve um aumento
próximo de 6% na arrecadação, decrescente contudo em 1994 e 1995. Ainda
que seja correto que durante esses anos a inflação tenha sido muito alta, as
cifras não deixam evidente nenhum esforço de recuperação das arrecadações,
em claro contraste com o município de Caroni, acima estudado. O descuido ou
a falta de formação nessa área podem ser vistos também na ausência de
referências às correções fiscais (feitas pelo órgão arrecadador nas contas do
município) nos documentos oficiais. Em vez disso, os membros da equipe de
Istúriz fazem referência, em suas declarações, a gestos simbólicos de
honestidade administrativa da prefeitura, como a baixa remuneração que
receberam os funcionários municipais ― incluindo o prefeito ― durante esses
três anos. No entanto, a fórmula para modernizar a fiscalização, aumentar a
arrecadação e evitar a corrupção está em pagar adequadamente àqueles a
297

quem cumprem tais tarefas. Igualmente, é imprescindível um pessoal


permanentemente treinado e com empregos estáveis ― o que não se pode
inferir dos documentos.

QUADRO 32: MUNICÍPIO DE LIBERTADOR (DISTRITO FEDERAL)


Receitas e despesas (1993-1995)
(em bolívares)

ANO Receita Orçada Receita Arrecadada Despesas Executadas


1993 ----- 10.749.313.881,00 10.500.000.000,00
1994 17.846.531.434 18.277.633.763,00 14.158.017.482,00
1995 27.700.000.000 23.664.009.554,00 14.484.343.000,00*
Fonte: Prefeitura de Libertador, Distrito Federal, Memoria y Cuenta, 1993-1994-1995.
* Em 30-11-1995.

QUADRO 33: MUNICÍPIO DE LIBERTADOR (DISTRITO FEDERAL)

Comportamento da arrecadação do I.P.I.C. (1986 - 1996)


Preços Correntes e Constantes

PREÇOS PREÇOS
ANO CORRENTES* CONSTANTES**
1986 719 719,00
1987 890 694,89
1988 1.068 644,12
1989 1.207 394,61
1990 1.970 457,87
1991 3.602 623,84
1992 5.475 721,45
1993 8.002 763,41
1994 11.087 657,75
1995 14.663 543,93
1996 22.585 412,31
Fonte: Ángel Mouchet Consultores, com base em dados proporcionados pela Prefeitura
de Libertador e pelo BCV.
298

* Receitas em milhões de bolívares a preços correntes


** Receitas em milhões de bolívares a preços constantes. Ano-base: 1986.

O modo como se lidou com a questão do pessoal administrativo é outro


aspecto frágil da gestão, tal como reconheceram os próprios membros da
equipe em entrevistas concedidas a Martha Harnecker, em 1996. No momento
da posse de Istúriz, a prefeitura tinha entre 12 e 15 mil funcionários, muitos
deles recebendo uma "remuneração extra" por clientelismo partidário. A
decisão da equipe de Istúriz foi a de demitir apenas uns poucos funcionários,
levando-se em conta quão explosiva seria uma política de redução de pessoal,
não só por causa da crise socioeconômica que se vivia, mas também em
virtude da racionalidade política necessária a uma gestão que iniciava seu
trabalho contra inúmeros obstáculos. De fato, a administração teve de enfrentar
os sindicatos da Câmara Municipal e de toda a cidade, que, sob influência da
AD, paralisaram várias vezes os trabalhos dos diversos setores, alterando o
andamento normal da vida da cidade, como tática para levar ao fracasso o
partido político adversário.
No que concerne à reestruturação do município, foi-se apresentando
desde o início da gestão uma proposta de estrutura flexível e eficiente, capaz
de substituir a então inoperante e responder aos anseios do projeto de governo
"do povo". Em 1995, ocorreu a reestruturação definitiva, criando-se uma
Direção Geral da prefeitura, coordenadora de quatro diretorias operativas, cada
uma responsável por linhas específicas de ação estratégica do município:
gestão interna, gestão econômica, gestão urbana e gestão cidadã. Além
dessas diretorias, o município passava a contar então com 12 órgãos
descentralizados, entre os quais o Instituto Municipal de Crédito Popular (sob
intervenção, como vimos, por causa das irregularidades), a Integral de
Mercados e Armazéns (Inmerca, que também padecia de irregularidades das
administrações anteriores e sofreu intervenção em 1995), a Fundação para as
Artes e a Cultura (Fundarte), e outras.
299

CAPÍTULO 14

O PRIMEIRO ANO DE GOVERNO DE CHÁVEZ: O "PROJETO POPULAR"1

"(...) A corrupção levou embora todo o dinheiro; então o presidente tem esse grave
problema; na realidade, não há dinheiro, mas o presidente o está procurando, e sei que vai
encontrá-lo porque é um homem muito inteligente" (Marco Cultural, 1999, 359:69).

Este comentário foi feito durante um protesto de pensionistas e


aposentados, que fechou a Avenida Urdaneta em 18 de março de 1999, pouco
depois da posse de Hugo Chávez como presidente da República. O comentário
sintetiza alguns traços importantes das bases da popularidade de Chávez ao
início de seu governo. Primeiramente, exprime-se nele o repúdio majoritário da
população venezuelana ao que fora a experiência democrática sob a
hegemonia da AD e do Copei, vista como corrupta. Em segundo lugar, mostra
a convicção generalizada da gravidade e profundidade da crise
socioeconômica que o país atravessava. Em terceiro, embora se soubesse que
a superação da crise não seria fácil nem imediata, albergava-se a esperança
de melhoria acreditando nas habilidades do presidente para vencer o desafio.
Um ano depois de feita aquela apreciação confiante, pesquisas de opinião e
resultados eleitorais mostravam que as simpatias e as expectativas
mantinham-se mais ou menos inalteradas. Na esfera política, o processo
constituinte e a elaboração da Constituição da República Bolivariana da
Venezuela, aprovada em dezembro por referendo popular, pareciam indicar
que finalmente um candidato presidencial cumpria a promessa eleitoral de
começar a empreender um aprofundamento da democracia que permitisse sair
da crise. Na esfera econômica, os sinais eram menos claros.

1
Este capítulo está baseado em Quince meses de gobierno chavista: ¿Avanza un proyecto
popular? (Margarita López Maya e Luis E. Lander), Cuestiones Políticas, nº 24, julho-dezembro
de 2000, pp. 11-36. (N. da A.)
300

A REFUNDAÇÃO DA REPÚBLICA
Como resultado dos processos eleitorais que se sucederam entre 1998 e
2000, a cuja análise dedicamos a Parte III, a elite política tradicional foi
deslocada de sua posição de predomínio no sistema político venezuelano, ao
passo que emergiu uma nova aliança hegemônica no poder, centrada na figura
do presidente Chávez ― o Polo Patriótico, representante de interesses
populares ― e pessoas ligadas ao setor militar. Foi um fato surpreendente,
pois, apesar da fraqueza e decomposição que desde os anos 80 os partidos
tradicionais manifestavam, não se vislumbrava ― mesmo já avançada a
década de 90 ― um quadro no qual houvesse forças emergentes capazes de,
em pouco tempo, desalojá-los de maneira tão definitiva. Porém, em 2000, a AD
e o Copei haviam-se reduzido praticamente a entidades vazias, órfãs de
liderança e de bases de apoio com alguma relevância. A situação de
deterioração e desprestígio desses partidos era tal que, por várias vezes, as
tentativas feitas para formar uma força política que enfrentasse a aliança de
Chávez expressamente os excluíam como possíveis integrantes dessa frente
de oposição. Por exemplo, uma proposta feita em fevereiro de 2000 visando as
"megaeleições" dizia explicitamente pretender "(...) estabelecer um plano
político que aceite como premissa fundamental recusar o passado, não
incluindo em nenhum dos acordos políticos a AD e o Copei (...)" (Fernando
Ochoa Antich, em El nacional, 14-02-2000). Além disso, a renúncia de
importantes dirigentes nacionais dos dois partidos tornou-se um fato cotidiano.
A proposta de convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte
como meio para uma nova fundação da República contribuiu decisivamente
para este rápido fenômeno. A exigência de uma constituinte havia sido um dos
eixos fundamentais do movimento bolivariano ― e de Chávez, em particular,
desde a prisão e durante a vida pública posterior. No mesmo dia em que tomou
posse como presidente da República, Chávez decretou a realização do
primeiro referendo (que se realizaria em abril), com o qual se abriu o caminho
para que aquele propósito se concretizasse. No mês de julho, foram eleitos os
constituintes, os quais em pouco mais de três meses apresentaram ao país o
resultado de seus trabalhos: uma nova Constituição, aprovada pelo segundo
referendo, em dezembro do mesmo ano. Semelhantemente ao afastamento da
301

velha elite, a aprovação em tão pouco tempo de um novo texto constitucional


foi também algo surpreendente, e promoveu um avanço na mudança de
hegemonia. Desde fins da década de 1980, os reclamos por reformas da
Constituição vinham em um crescendo na sociedade venezuelana. Essas
demandas viram-se reiteradamente frustradas, porquanto as inúmeras
tentativas institucionais não encontraram vontade política suficiente para apoiá-
las.

A CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA BOLIVARIANA DA VENEZUELA


Não obstante, a pressa com que Chávez quis que se pusesse em
execução esse propósito acabou por gerar conflitos, tensões, insatisfações e
debilidades no texto constitucional ― em muitos casos, sem necessidade. A
possibilidade de elaborar uma nova Constituição que gozasse de maior grau de
consenso foi abortada quando seus trabalhos sofreram a interferência de
cálculos políticos eleitorais, segundo os quais melhores resultados seriam
alcançados se o referendo aprobatório fosse realizado quanto antes.
Entre os pontos fortes do texto, podemos assinalar o que está contido no
Título III, referente aos deveres, direitos humanos e garantias. Em comparação
com a Constituição de 1961, os Direitos Humanos tornam-se, por este título,
mais amplos, mais complexos e mais atuais, e é outorgado status
constitucional aos convênios internacionais que a República subscreva sobre a
matéria. Pela primeira vez, são reconhecidos e incorporados à Constituição os
direitos dos povos indígenas e os direitos ambientais. Os avanços introduzidos
no Poder Judiciário também foram notáveis, e têm gozado de grande
consenso. É outorgada a esse poder a autonomia financeira, ao assinalar-se
que seu orçamento não pode ser inferior a 2% do orçamento ordinário nacional
(artigo 254). É dado status constitucional à obrigatoriedade de concursos
públicos para o ingresso e promoção na carreira jurídica, estabelecendo-se
igualmente a participação cidadã na seleção e nomeação dos juízes (artigo
255). Estabelece-se a gratuidade da administração da justiça, e restringe-se a
justiça militar unicamente aos delitos militares, excluindo-se deles os de
violação de direitos humanos (artigo 261).1

1
Este importante artigo constitucional, sobretudo porque se insere na Carta Magna de um país
latino-americano, ainda hoje constitui em sua efetiva aplicação um desafio que se impõe à
302

A organização dos poderes públicos nacionais incorpora o Poder


Cidadão, que, além da Procuradoria e da Controladoria, é integrado pela nova
figura da Defensoria do Povo, correspondendo-lhe a promoção, defesa e
vigilância dos direitos e garantias estabelecidos na Constituição, nos tratados
internacionais de direitos humanos e "interesses legítimos, coletivos e difusos
dos cidadãos e cidadãs" (artigo 280).
Outros aspectos que merecem destaque como pontos fortes do novo
texto constitucional são os artigos que aprofundam a democracia no sistema
político. São inauguradas formas participativas do exercício da democracia com
a incorporação de diferentes modalidades de referendo, que permitem
consultar a população sobre assuntos de alto interesse público, revogar o
mandato de funcionários eleitos e aprovar ou derrogar algumas leis (cf. artigos
5 e 71 a 74). Do mesmo modo, é conferido aos militares da ativa o direito ao
voto (artigos 64 e 330). Para um melhor e mais fluido funcionamento do Poder
Executivo Nacional, é criada a figura do vice-presidente executivo, colaborador
imediato do presidente da República e coordenador da administração pública
nacional (artigos 238 e 239).
Por outro lado, entre os aspectos mais preocupantes da Constituição
Bolivariana da República da Venezuela, podemos assinalar o que se refere à
Instituição Militar e sua relação com o poder civil. Enfraquece-se a
subordinação da esfera militar à civil, ficando essa sujeição unicamente cingida
ao presidente da República, que mantém sua condição de Comandante em
Chefe das Forças Armadas Nacionais (artigo 328 e 235). As promoções
militares são agora competência exclusiva das Forças Armadas, com a única
participação do presidente para aqueles graus maiores dos de coronel ou
capitão (artigo 331 e 235).
Voltado para pôr fim àquilo que era particularmente malvisto por setores
majoritários da população, proíbe-se expressamente na nova Constituição o
financiamento público dos partidos políticos (artigo 67). No entanto, é possível
que, neste caso, o remédio acabe por ser pior que a enfermidade. Se para seu

Justiça de nosso continente, tão violentada pelo passado recente de arbitrariedades dos
regimes militares. Em alguns países, como o Brasil, o julgamento dessas arbitrariedades
continua a ser matéria preterida, mesmo por governos de esquerda, cujos integrantes foram,
alguns, vítimas delas. Reza o artigo constitucional: "A comissão de delitos comuns, violações
de direitos humanos e crimes de lesa humanidade serão julgados por tribunais ordinários. A
competência dos tribunais militares se limita a delitos de natureza militar". (N. do Trad.)
303

funcionamento, os partidos dependem agora exclusivamente dos recursos que


por esforço próprio consigam captar, despontam daí dois problemas
inocultáveis: primeiro, a igualdade de oportunidades na concorrência política
fica enfraquecida ao restringir-se o papel regulador do Estado; segundo, com
esta disposição corre-se o risco de propiciar mecanismos ilegais de
financiamento. Os partidos com participação no poder público podem ver-se
tentados, em uma medida maior do que até agora, a desviar recursos do
Estado para financiar suas atividades. O financiamento privado de campanhas
e a realização de outras atividades políticas ― tornados agora mais
necessários ― podem também incrementar seus condicionamentos.
Outro aspecto questionável é a ampliação do período presidencial,
aumentado de cinco para seis anos, e permitindo-se a reeleição imediata para
um segundo mandato. Isso, sem dúvida, enfraquece a alternabilidade
democrática e fortalece as possibilidades de personalismos autoritários.
Igualmente, a amplitude de faculdades legislativas que o Congresso pode
doravante conceder ao Executivo Nacional, mediante uma Lei habilitante,
debilita o equilíbrio entre os poderes, ainda mais do que a Constituição de
1961, que era já marcadamente presidencialista (artigo 203).
A Constituição aprovada em dezembro de 1999 tem sido ainda objeto de
outras críticas. O excessivo detalhamento em alguns de seus títulos e capítulos
confere a ela, segundo alguns constitucionalistas, uma rigidez inconveniente. O
exíguo avanço na descentralização político-administrativa do Estado e a
unicameralidade do Parlamento são também vistos com inquietude e
preocupação. Para empresários e economistas neoliberais, o intervencionismo
estatal nos assuntos econômicos consagrado pela Constituição é excessivo.
Alguns economistas e funcionários do Banco Central da Venezuela (BCV)
consideraram que o novo texto constitucional restringe a necessária autonomia
da autoridade monetária. O novo nome ― República Bolivariana da Venezuela
― foi também alvo de grande debate e repúdio, inclusive no interior da própria
Assembleia Nacional Constituinte, que acabou aprovando-o na segunda e
última discussão sob forte pressão do presidente Chávez.
304

MODELO POPULAR DE DESENVOLVIMENTO?


Durante o primeiro ano de mandato, embora efetivamente tenha
avançado a cristalização de um novo modelo hegemônico no poder, pode-se
afirmar que, quanto às mudanças do modelo de desenvolvimento que deveria
complementar essa transformação política, a situação foi mista. A orientação
econômica do novo governo não logrou construir evidências sólidas de uma
transformação significativa em andamento, e o desempenho econômico foi
tímido e de pouca ressonância.
No texto da Constituição, é conferido aos trabalhadores e comunidades
o direito de desenvolver associações de caráter social e participativo,
dedicadas a qualquer tipo de atividade econômica e orientadas a melhorar a
economia popular e alternativa. Estabelece-se, igualmente, que estas
associações serão promovidas e protegidas pelo Estado (artigo 118). É
reconhecida também às comunidades indígenas a propriedade coletiva de suas
terras e o direito de manter e promover práticas econômicas próprias,
baseadas na reciprocidade, na solidariedade e no intercâmbio (artigo 119 e
123). A Constituição reconhece e ampara formas de atividade econômica
distintas das clássicas do capitalismo. Mas, a amplitude e força que essas
formas possam adquirir em prol de um modelo de desenvolvimento mais
popular que o anterior dependem deveras da evolução da gestão de governo e
sua vontade política de fortalecer os interesses de tais setores, o que
apresentava tendências pouco claras ao findar o ano de 1999.
Ademais, desde o princípio foram anunciadas e implementadas
mudanças na condução da política petroleira, mudanças que contribuíram para
uma substancial recuperação dos preços do produto no mercado internacional,
o que, por sua vez, ensejou melhores resultados econômicos no ano do que os
previstos ao início dele. Contudo, não foram suficientes para vencer a recessão
econômica que vinha do ano anterior, nem superar a deterioração das
condições de vida de setores majoritários da população. À parte a política
petroleira, no restante das atividades econômicas as políticas governamentais
se mantiveram semelhantes às dos anos anteriores. A permanência como
ministra da Fazenda, ao início do governo, de Maritza Izaguirre (nesta função
desde o período final do governo de Caldera) foi um sinal claro de que na
esfera econômica não aconteceriam mudanças significativas.
305

A GUINADA DA POLÍTICA PETROLEIRA


Houve, desde o início, grande clareza quanto às orientações a seguir no
que dizia respeito à política petroleira. Ao redor de Chávez tinha-se reunido,
desde que ele iniciara sua campanha à presidência, um conjunto de
personalidade e de setores que se opuseram à política petroleira dominante
nos anos 1990 ― a chamada "Abertura Petroleira". Isso permitiu que, já ao
início de seu governo, o presidente colocasse à frente do Ministério de Energia
e Minas uma equipe capacitada em matéria de hidrocarbonetos, mas com uma
orientação diferente. O ministro Alí Rodríguez e o vice-ministro Álvaro Silva
Calderón contavam com uma longa trajetória como especialistas em questões
petrolíferas. Como presidente da Comissão de Energia e Minas da Câmara de
Deputados, durante os primeiros anos do governo de Caldera, Alí Rodríguez ―
militante do PPT ― se opôs à política de abertura. Silva Calderón, por seu
turno, foi agente importante na elaboração de leis sobre o petróleo ― inclusive
a de nacionalização do setor nos anos 70. Opôs-se também ativamente à
política de abertura.
Chávez promoveu ainda mudanças importantes na direção da PDVSA.
Uma das primeiras medidas adotadas na guinada da política petroleira, em
março de 1999, foi o fortalecimento e cumprimento cabal dos cortes de
produção firmados pela OPEP e países produtores independentes. Com esses
cortes e com o início da recuperação das economias asiáticas no segundo
trimestre, os preços internacionais do barril começaram uma marcha
ascendente. O barril do petróleo venezuelano, que em fevereiro de 1999
custava em média US$8,43, em janeiro do ano seguinte foi cotado a US$23,34.
Ao longo desse ano, foi anunciada a revisão ― sem desconhecer os acordos
assinados ― da política de abertura, dos programas para a diminuição
significativa dos custos de produção, e a política de internacionalização da
atividade. Anunciou-se, além disso, que se submeteria à consideração do novo
Congresso um projeto de lei orgânica como lei-marco para os hidrocarbonetos,
que devia substituir a aprovada em 1943. A nova lei contemplaria, entre outros
aspectos, os mecanismos para a defesa e ampliação da receita fiscal
proveniente da produção de hidrocarbonetos.
A nova orientação em política petroleira, embora mostrasse sinais
inequívocos de recuperação da defesa dos interesses nacionais (podendo,
306

portanto, ser qualificada de nacionalista), por si só não era suficiente para


sustentar a vocação popular do modelo de desenvolvimento que estava sendo
gestado. Faltava para isso que os demais ingredientes da política econômica
do governo mostrassem, em suas prioridades e em suas ações, que estavam
dirigidas à retificação das tendências pauperizantes e excludentes do passado
recente. O primeiro ano de governo bolivariano não foi de molde a afastar as
dúvidas sobre isso.

A RECESSÃO ECONÔMICA
Os resultados da economia venezuelana de 1999, apresentados pelo
presidente do BCV em sua mensagem de fim de ano, revelaram a
profundidade da recessão econômica vivida. O Produto Interno Bruto (PIB)
sofreu uma queda estimada de 7,2%; o deficit fiscal foi de 3,1% do PIB; a taxa
de desemprego ― a mais alta em quatro décadas ― alcançou no final do
terceiro trimestre a cifra de 15,4% da população economicamente ativa, e a
informalidade subiu a 51,7% da população ocupada. A forte contração da
demanda interna provocou um decréscimo particularmente acentuado nas
atividades de manufaturas de 10%; na construção, de 20,4%, e no comércio,
de 16,5%. Entre os efeitos sociais da recessão, observou-se uma retração na
quantidade e na qualidade dos produtos alimentícios, com a diminuição da
diversidade e frequência da dieta alimentar (cf. Cenda, em El Nacional, 30-01-
2000). Por outro lado, a inflação diminuiu se comparada com a do ano anterior:
20,02% contra 29,91% (IESA, 2000). A balança de pagamentos apresentou
superavit (US$724 milhões) e o deficit fiscal foi inferior ao inicialmente
estimado. Além disso, as reservas internacionais mantiveram-se estáveis, com
um ligeiro aumento de US$315 milhões, apesar dos gastos com o serviço da
dívida pública externa (da ordem de US$3,5 bilhões) e uma importante saída
de capitais privados calculada em US$4,6 bilhões. Alguns desses últimos
resultados, que poderíamos estimar como positivos, são atribuíveis aos
aumentos dos preços do petróleo e a uma política de disciplina do gasto fiscal,
que, aliás, lança pouca luz sobre a vocação verdadeiramente popular da
política econômica do governo. Ao contrário, pode-se dizer que foi esse um dos
anos mais árduos que os setores populares sofreram nessas duas décadas de
crise e transição.
307

A essa realidade somou-se, em dezembro, aquilo que indubitavelmente


foi uma das maiores tragédias sofridas pelo povo venezuelano ao longo de
toda sua história. Um fenômeno climático atípico provocou persistentes chuvas
fora de temporada, que causaram inundações e transbordamento de rios em
diversas regiões do país. Em Caracas ― e ainda mais dramaticamente no
Estado de Vargas, onde as chuvas de dois ou três dias superaram a média
anual ― padeceu-se o castigo dos deslizamentos das ladeiras do Ávila, com as
consequentes avalanchas de barro, pedras e árvores que deixaram um saldo
de perdas humanas nunca oficialmente quantificado, mas que as estimativas
preliminares indicaram ser próximo de 10 mil pessoas. A topografia do Litoral
Central acabou por ficar irreversivelmente alterada. Vilas, bairros populares,
áreas residenciais de setores médios e clubes recreativos foram soterrados. O
número de desabrigados foi também imenso, chegando-se a estimar em um
terço da população do estado. Em um relatório elaborado pela Cepal, avaliou-
se que os danos materiais causados pelo desastre ascendiam a 3,2 bilhões de
dólares, equivalentes a 3,3 % do PIB de 1999. Os investimentos necessários
para que se possa recuperar o que é passível de recuperação, bem como para
reintegrar os que não podem retornar aos seus lugares de origem, são de tal
monta que superam os já elevados investimentos necessários para a
reativação da economia.

O ANO DE 2000
No início de 2000, o governo de Chávez e seu movimento tinham
apresentado duas prioridades: as chamadas "megaeleições", previstas para
maio, e adiadas para julho, e a reativação da economia. Com as eleições em
todos os níveis da administração pública, Chávez e sua aliança pretendiam
coroar de êxito o afastamento da velha elite política do país. Conquanto a
vitória da aliança chavista nessa batalha eleitoral não padecesse dúvida, o
processo revelou a instabilidade ainda presente entre suas forças. O confronto
que se daria em fevereiro de 2000, entre os comandantes do golpe de 4 de
fevereiro de 1992 e os altos funcionários públicos, serviu de exemplo de uma
das principais tensões ainda não resolvidas. Embora já ninguém questionasse
a liderança de Chávez, o reconhecimento do papel de líderes a outros
dirigentes continuava, com efeito, sendo objeto de polêmica. De um lado,
308

estavam ainda os que acompanhavam Chávez desde as origens militares do


movimento; e de outro, lutavam por posição de liderança os civis incorporados
ao movimento principalmente depois dos frustrados golpes de 1992. Essa
tensão perduraria nesse ano e nos seguintes, tornando incerto ainda hoje o
peso que terá definitivamente o componente militar em relação ao civil no
sistema político emergente.
Sendo o problema das relações cívico-militares no interior da aliança
porventura o terreno mais escarpado no qual se expõe a configuração da
hegemonia emergente, não era, contudo, o único. A seleção das centenas de
candidatos a serem apresentados nas "megaeleições" ameaçou, em alguns
momentos, provocar divisões e separações irreversíveis. Novamente o papel
de Chávez foi então crucial, refletindo a tremenda fragilidade institucional da
aliança e a contínua ascensão de uma liderança de feitio personalista.
A fragilidade da oposição política ao governo era tal que os
oposicionistas pareciam incapazes de pôr em perigo a nova hegemonia
emergente, e seu vigor evidenciava tal insuficiência que não se prestava a
servir de contrapeso na defesa do sistema democrático e das liberdades
públicas, caso um e outras se vissem ameaçados pela irrupção de tendências
autoritárias no seio do chavismo. A diversidade de posições entre as forças
oposicionistas era maior inclusive do que a existente entre as forças do
governo e, enquanto não se formasse algum núcleo com certo grau de
homogeneidade, seria impossível à oposição constituir-se como representação
política da massa de eleitores que consistentemente ― embora de forma
minoritária ― expressavam sua inconformidade com o projeto bolivariano.
Como ressaltamos em capítulos anteriores, boa parte dessa minoria
opositora provém de setores socioeconômicos altos e médios, e contam com
uma opinião de peso. Ao não se sentirem devida e suficientemente
representados no sistema emergente, esses setores tornaram-se potenciais
atores ou promotores de saídas não institucionais, situação que se confirmaria
sobejamente nas insurreições desencadeadas no período 2001-2004.
Como segunda prioridade, cumpria reativar a economia. Durante o mês
de fevereiro de 2000, o presidente Chávez, acompanhado em cada
oportunidade por altos funcionários públicos, concedeu uma série de
entrevistas coletivas com temas específicos, nas quais apresentou ao país os
309

planos setoriais. O Plano Estratégico de Reindustrialização, com seus


componentes da área manufatureira, de turismo e de agricultura ― e com
objetivos de curto, médio e longo prazo ― deveria ser o instrumento principal
dessa reativação. Complementado com o plano para a área energética,
infraestrutura e uma agenda social, o governo buscou apresentar-se com
orientações claras e definidas. Não obstante isso, os avanços que se lograram
nesse ano foram tímidos e, salvo o Plano Bolívar 2000, não puderem
preencher as expectativas dos setores populares. Por conseguinte, o
desempenho insuficiente em matéria econômica e social nesses dois primeiros
anos de governo acabou por debilitá-lo, contribuindo assim para promover uma
maior unidade ― e maior audácia ― nas fileiras da oposição em sua luta
hegemônica contra os bolivarianos.
310

CAPÍTULO 15
O GOVERNO DE CHÁVEZ: DEMOCRACIA PARTICIPATIVA E POLÍTICAS
SOCIAIS1

A democracia participativa e protagônica, que desde 1999 vem sendo


implantada na Venezuela, é a maneira pela qual os bolivarianos que hoje
exercem o poder responderam ao profundo anseio político manifestado desde
os anos 80 por amplos setores da sociedade. Diferentemente dos países do
Cone Sul, a democracia na Venezuela não chegou a ser interrompida, nas
décadas de 60 e 70, para dar lugar a ditaduras militares. Por isso os
venezuelanos não precisaram, nos anos 90, de uma "transição democrática" do
autoritarismo para uma "democracia restrita", como efetivamente ocorreu, por
exemplo, no Chile e na Argentina. Ao contrário, os diversos movimentos sociais
e de protestos que se multiplicavam no país exigiam uma reforma do Estado
para que se alcançasse uma democracia mais "profunda" e mais "integral".
Este anseio foi várias vezes frustrado pelos sucessivos governos após suas
vitórias eleitorais. Assim ocorreu desde Lusinchi (1984-1989), com sua
frustrada "Reforma do Estado", até Caldera (1994-1999), com sua postergada
reforma constitucional, e passando por Andrés Pérez (1989-1993), com as
reformas neoliberais. Apenas os bolivarianos tiveram a vontade política de pôr
ombros à empresa, e ao chegarem ao poder, em 1999, convocaram um
processo constituinte. Depois elegeu-se e instalou-se uma Assembleia
Constituinte, da qual surgiu a nova Constituição, materialização daquele
anseio. Reza a Exposição de Motivos da nova Constituição que a República se
"refunda" para estabelecer "uma sociedade mais democrática. Já não mais o
Estado apenas deve ser democrático, mas também a sociedade".

1
Este capítulo se baseia em Democracia participativa en Venezuela: filosofía y realizaciones
(Margarita López Maya), Le Monde Diplomatique, maio de 2005; e Notas para el debate sobre
las políticas sociales en la experiencia venezolana reciente (Margarita López Maya).
Apresentado no Seminário-oficina Desafíos y alternativas de cambio social en Uruguay y
América Latina, el papel del sindicalismo (Instituto Cuesta Duarte e Clacso), agosto de 2005,
Montevidéu. (N. da A.)
311

Esta democracia de novo cunho apresenta uma nova proposta para a


abordagem dos graves problemas de exclusão e injustiça social que afligem as
maiorias populares. Por esta razão, a proposta ― indo na contracorrente do
pensamento hegemônico mundial ― tem sido vista com desconfiança, quando
não com franca aversão, quer por certos atores sociopolíticos e agentes de
poder na sociedade venezuelana, quer por atores hegemônicos do sistema
capitalista mundial. Chega mesmo a despertar desconfiança entre grupos e
atores políticos de esquerda, o que se explica, entre outras razões, por
originar-se o bolivarianismo de atores distintos da esquerda tradicional, e por
estarem suas bases filosóficas enraizadas em terreno diverso do pensamento
tradicional do marxismo.
A seguir esboçaremos uma análise das fontes e das realizações da atual
democracia participativa e protagônica, título pelo qual se conhece hoje o
projeto político hegemônico na Venezuela. Este capítulo concentra-se
especificamente na dimensão social do projeto e em políticas sociais
concretas, almejando uma melhor compreensão de suas bases conceituais e
de sua prática, pretendendo contribuir assim para o debate sobre os possíveis
fundamentos de projetos políticos alternativos da esquerda no século XXI.

PROCEDÊNCIA FILOSÓFICA DA DEMOCRACIA PARTICIPATIVA


A democracia participativa e protagônica, assentada na nova
Constituição de 1999, procede, em seu conteúdo fundamental, do pensamento
liberal progressista de Rousseau e de Stuart Mill, bem como do socialismo
democrático mais recente de Poulantzas. Esses autores, como outros, foram
amplamente divulgados e discutidos na América Latina nos anos 70 e 80. Mas,
quando tiveram fim as ditaduras militares nas sociedades do Cone Sul, essas
ideias foram preteridas para dar lugar a uma democracia de tipo procedimental
ou restrito. O aspecto terrível da experiência autoritária e da força de seus
protagonistas determinou uma aproximação mais cautelosa da transição para a
democracia. As ideias democráticas, contudo, caíram em terreno fértil na
Venezuela e, tempos depois, floresceram no capítulo IV da nova Carta, que
consagra o direito dos cidadãos de participação em forma "direta, semidireta e
indireta" no processo não só do sufrágio, mas também de "formação, execução
e controle da gestão pública" (cf. Exposição de Motivos, CRBV, 1999). A
312

mudança de enfoque em relação à Constituição de 1961 é assaz notável, pois


que, conquanto se mantenham as formas da democracia representativa, agora
a participação em todos os âmbitos do Estado converte-se na prática educativa
fundamental para transformar as relações de poder profundamente desiguais
que existem na sociedade. Por sua vez, nas Linhas Gerais do Plano de
Desenvolvimento Econômico e Social da Nação 2001-2007, proclama-se que a
participação propicia o autodesenvolvimento, inculca a corresponsabilidade e
estimula o protagonismo dos cidadãos. Esses devem ser os pontos de apoio a
uma sociedade igualitária, solidária e democrática.

DEMOCRACIA PARTICIPATIVA E O ENFOQUE NOS ELEMENTOS SOCIAIS


O projeto político bolivariano compreende a democracia não apenas
como o desfrute de liberdades civis e políticas, mas também ― e
enfaticamente ― como igualdade social. É parte de seu atrativo e sua força. Na
Venezuela, o conceito de democracia também tivera essa conotação durante o
período da hegemonia bipartidária puntofijista, porquanto considerava-se que a
democracia política era o meio através do qual se podia alcançar a justiça
social. Essa maneira de compreender a democracia está, pois, enraizada na
cultura política do país, e nos fins do século XX converteu-se em uma das
promessas não cumpridas da democracia representativa. Por essa razão, o
que se ensaia na Venezuela hoje é uma transformação substantiva e profunda
da democracia representativa, pretendendo-se com isso que possa ser
alcançado aquilo que foi deixado irresolvido na etapa puntofijista. A busca da
igualdade social como objetivo explícito é uma das diferenças marcantes que a
democracia venezuelana traz ao ser comparada a outras democracias da
região, e é um dos sentidos que podemos dar ao termo revolução, com o qual
essa experiência é identificada. A Constituição de 1999 estabelece a igualdade
como princípio fundamental da República, em conjunto com outros ideais
relacionados, como "a solidariedade, a democracia, a responsabilidade social
e, em geral, a preeminência dos direitos humanos" (artigo 2).
As Linhas Gerais, que constituem um instrumento básico de orientação
para as políticas públicas do atual governo, ao tratar o problema da
desigualdade social e o modo de superá-lo, recusam explicitamente os
enfoques de natureza compensatória. Tais enfoques assumem que as
313

carências materiais das maiorias são uma condição acidental, provisória e/ou
individual (como se revela na acepção do termo pobreza em certas
perspectivas de política social de orientação neoliberal, utilizadas por governos
anteriores). O novo ponto de partida é a compreensão da desigualdade social
como exclusão social, próximo da acepção elaborada pelo Programa das
Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) nos anos 90, ou seja, como
exclusão de direitos sociais, inclusive como exclusão da própria condição
humana enquanto membro de uma sociedade. Portanto, o objetivo da ação do
Estado na esfera social está voltado para construir inclusão, restabelecer a
condição humana, os direitos sociais, e colocar as pessoas como sujeitos
sociais promotores e corresponsáveis por sua condição de vida. O enfoque das
Linhas Gerais é de tipo holístico, isto é, tal exclusão social é diagnosticada
como um problema estrutural da sociedade, que somente pode ser corrigido
aplicando-se uma prática pública que relacione a esfera social ao modelo
econômico, territorial, cultural e internacional da nação, e que trate de progredir
em todas essas frentes ao mesmo tempo. É o que o documento chama de "os
equilíbrios" que se devem construir para sair da crise estrutural, um dos quais
― o social ― centraria a ação do Estado na resolução da exclusão.
Como estratégia para a consecução do equilíbrio social, as Linhas
Gerais consideram decisivas as ações de atores fundamentais: por um lado, o
Estado em todos seus níveis administrativos e setores, como criador de
condições que tornem possível o apoderamento dos cidadãos; por outro, os
cidadãos que, através de sua organização e participação, através das famílias,
das comunidades e dos grupos organizados, transformam-se em sujeitos
políticos com valores como a solidariedade, o respeito aos procedimentos
democráticos e a corresponsabilidade.
A identificação de dois sujeitos-chave para superar a crise estrutural ―
sujeitos com obrigações e deveres distintos em uma meta comum ― difere do
enfoque da planificação pública do passado, quando era o Estado interventor o
ator principal, criador das condições que propiciariam a modernização, e com
ele a aquisição da condição cidadã por parte dos setores populares ― ou o
povo. Da possibilidade de acionar o Estado, dirigido pelos partidos, dependia
em grande medida a transformação social. Nas Linhas Gerais, em
comparação, fala-se do Estado como um "acompanhante" dos cidadãos,
314

famílias e comunidades organizadas; um Estado cujo papel não deve ser


predominante na criação da condição de cidadania dos venezuelanos; neste
novo esquema, o Estado é um facilitador do apoderamento dos que devem
tomar as decisões e o controle na gestão dos problemas. O Estado deve
garantir o acesso aos direitos humanos a toda a população, mas são os
cidadãos, as famílias e as comunidades organizadas, através da participação
na gestão pública, os únicos que tornarão possível a democracia participativa e
protagônica, ao assumir o papel de protagonista na solução dos problemas. Diz
a Constituição:
A participação do povo na formação, execução e controle da gestão
pública é o meio necessário para alcançar o protagonismo que garanta seu
completo desenvolvimento, tanto individual como coletivo. É obrigação do
Estado e dever da sociedade facilitar a geração das condições mais
favoráveis à sua prática (artigo 62).

Segundo essa lógica, para alcançar-se o equilíbrio social, as Linhas


Gerais apresentam três eixos em torno dos quais devem girar as políticas, cada
uma das quais deve atacar uma dimensão diferente e crucial da condição
estrutural de exclusão, e todas pressupõem a organização e mobilização
popular:
- um primeiro eixo esforça-se por corrigir a injusta distribuição de renda e
riqueza.
- um segundo eixo concentra-se em superar o discriminatório acesso
aos direitos humanos fundamentais, como alimentação, saúde, moradia e
educação.
- um terceiro eixo procura ativar o desenvolvimento da cidadania plena,
para que se destaquem nos membros da sociedade os atributos como a
solidariedade, a responsabilidade e as atitudes participativas e democráticas.
Esta maneira de abordar a exclusão é coerente e atrativa, com potencial
para ser eficiente quanto ao objetivo traçado. Com distintos instrumentos de
política, esses três eixos vêm sendo desenvolvidos na Venezuela desde a
promulgação da Constituição. E constata-se que os setores populares têm
experimentado uma dinâmica surpreendente, que os dota de níveis crescentes
de mobilização, organização e sentimentos de força de ação.
315

Tratamos a seguir das diversas políticas sociais apresentadas pelo


governo Chávez desde 1999, que parecem contribuir para essa dinâmica,
vivida com entusiasmo pelos diversos setores populares ― um fenômeno que
tem sido observado por estudiosos, analistas e jornalistas internacionais. Esse
entusiasmo se vê refletido tanto nas cifras que apresentamos abaixo, como nos
significativos índices de popularidade do governo bolivariano (e de Chávez),
manifestados nos resultados das eleições desde 1998 (como estudamos na
Parte III) e nas recentes pesquisas de opinião.

A CORREÇÃO DA INJUSTIÇA NO ACESSO À RENDA E À RIQUEZA


Neste eixo da ação social do Estado, possuem destacada importância a
Lei de Terra e Desenvolvimento Agrícola, aprovada mediante Lei Habilitante
em novembro de 2001, e o Decreto 1666, de 4 de fevereiro de 2002, este
relativo à regularização da posse da terra urbana ocupada por membros das
comunidades populares. Ambos os instrumentos legais almejam a
democratização da propriedade na Venezuela. Para a consecução do direito à
propriedade exige-se a constituição, mediante assembleia, de organizações
chamadas Comitês de Terra, rurais ou urbanos (CTR ou CTU). Além disso, a
comunidade deve delimitar seu território e reconstruir sua história, entre outros
requisitos. Isso tem dado impulso a uma intensa mobilização, organização e
autogestão popular, na esperança de usufruir esse direito.
A mobilização social desatada pela aplicação da Lei de Terra gerou, em
resposta, um processo de crescente conflito no campo, tendo como
antagonistas, de um lado, os proprietários de latifúndios e fazendas, e de outro,
o Estado e os camponeses. Esse conflito foi o ponto de partida, em 2001, para
a escalada de confrontações entre o governo de Chávez e os setores
empresariais ― um grave estado de coisas que desembocaria no golpe de
Estado de 11 de abril de 2002. Desde então, com altos e baixos, a luta social
pela posse da terra em áreas rurais tem continuado. Em 2005, a Procuradoria
Geral e inúmeras organizações de direitos humanos denunciaram o
assassinato de ao menos 73 dirigentes camponeses (vários desses crimes por
sicariato) contra aqueles que procuram defender a Lei de Terra e buscam a
adjudicação de propriedades rurais para seus diversos CTR.
316

No caso da posse de ocupação popular urbana, esta é uma política sem


precedentes no país. Andrés Antillano (2005), ativista dos Comitês de Terra
Urbana, afirma que os comitês criados por estímulo do decreto 1666, de
fevereiro de 2002, a partir da publicação no Diário Oficial, têm mantido uma
importante autonomia de ação frente à burocracia do Estado, e vão-se
espalhando por toda a geografia urbana do país. Segundo a Secretaria Técnica
Nacional para a Regularização da Terra1, órgão público encarregado de
coordenar os assuntos referentes a esse processo, existiam em 2005 quase
6.000 CTU constituídos, organizados em uma rede presente na maior parte dos
bairros das grandes cidades venezuelanas, abrangendo uma população de
aproximadamente um milhão de famílias, o que, em uma projeção
conservadora de quatro pessoas por família, representa um quarto da
população urbana pobre do país. Foram concedidas cerca de 100.000
adjudicações de títulos de propriedade de terra urbana. Antillano apresenta
algumas características desses CTU que, segundo ele, revelam a chave do
êxito alcançado até essa data:
1) A luta popular por regularização da posse da terra urbana ocupada é
anterior ao chavismo. Tem sua origem na Assembleia de Bairros, que
funcionou após o Caracaço, de 1989. Embora ela tenha desaparecido em
1994, algumas organizações que partilhavam dessa origem ressurgiram em
2001, em consequência da aprovação de 49 leis pelo mecanismo de Lei
Habilitante. As comunidades populares urbanas queixaram-se de que suas
aspirações não haviam sido incorporadas a essas leis, as quais, como
divulgava o governo, assinalavam o início da "refundação da República". Com
a publicação do decreto 1666, o processo começou de maneira autônoma, em
parte devido à crise política que assolou o governo nacional e o obrigou a
deixar de lado essa iniciativa. Foi somente dois anos depois que se criou a
OTNRT. Esse abandono oficial fortaleceu a independência dos CTU.
2) Os CTU, tal como estipula o decreto, possuem uma dimensão
territorial que corresponde ao que a comunidade entende e delimita como seu
"território". Esses "territórios sociais" fortalecem nos CTU os sentimentos de

1
OTNRT, na sigla em espanhol. (N. do Trad.)
317

pertencer a um lugar e a apropriação da organização por seus membros, bem


como promovem a solidariedade e o autogoverno.
3) Os CTU constituem-se mediante assembleia e por participação da
maioria, e devem preencher certos quesitos ― como o de levantar o plano da
comunidade (o "território") e reconstruir sua história ― para poder registrar-se
na OTNRT. Com isso, lideranças são estimuladas e reconhecidas como tendo
raízes na sociedade. Igualmente, são promovidos os vínculos entre seus
membros.
4) Os CTU mantêm uma notória flexibilidade e versatilidade
organizativas. Têm-se feito esforços para simplificar os procedimentos de
constituição dos CTU a fim de facilitar os processos de organização dos
setores tradicionalmente alheios à participação em organizações formais. Isso
permite criar uma situação em que não haja a necessidade de intervenção de
partidos, ONGs ou funcionários públicos. Por outro lado, não se prescreve
nenhum esquema de organização, para que cada CTU se ajuste à
idiossincrasia de sua comunidade.
Alguns ativistas afirmam existir uma tensão entre a autonomia dos CTU
e a dependência que se estabelece com instituições governamentais. Essa
tensão atravessa permanentemente sua dinâmica. Os conflitos são frequentes
e o modo pelo qual a tensão se resolverá, "segundo suas apreciações", é ainda
incerta.
De maneira similar às CTU, as Mesas Técnicas de Água (MTA),
definidas por Santiago Arconada como "a resposta organizada da comunidade
a qualquer problema ou carência no que se refere ao serviço de água potável e
saneamento" (2005), são também organizações populares com antecedentes
prévios ao governo de Chávez. Arconada é um de seus ativistas pioneiros, que
começou com a experiência desenvolvida na paróquia de Antímano, durante a
administração local do prefeito Istúriz, e é hoje funcionário da Gerência
Comunitária da empresa estatal Hidroven. As MTA têm sua origem na
experiência dos governos paroquiais instituídos por Istúriz, de LCR, durante
seu mandato em Libertador (1993-1995), como vimos. As MTA converteram-se
em política nacional por iniciativa de ativistas que haviam participado dessa
experiência e hoje apoiam o governo de Chávez. Estão sendo desenvolvidas
nestes últimos anos e, semelhantemente aos CTU, elas mantêm com tensão
318

sua autonomia e vitalidade, tendo conseguido estender-se a uma parcela


importante da geografia urbana e rural do país. São um fator importante para
uma bem sucedida intervenção das comunidades na solução de problemas
ligados ao acesso à água potável e saneamento básico. Além disso, têm
permitido a criação dos Conselhos Comunitários de Água como espaço de
intermediação institucionalizada com os órgãos públicos e entre as diferentes
MTA.
Outro elemento medular na luta por uma distribuição justa da renda e da
riqueza, e que tem recebido um apoio governamental significativo depois que
se superou a paralisação-sabotagem petroleira, são as diversas políticas
voltadas a impulsionar a economia social, compreendida como uma forma
"alternativa" e mais democrática, de autogestão e de cogestão de atividade
produtiva e de serviços. A Exposição de Motivos da Constituição assinala que
se busca um maior equilíbrio entre a eficiência econômica e a justiça social
"dando liberdade à iniciativa privada e preservando o interesse coletivo". No
artigo 308, o Estado obriga-se a promover e a proteger diversas formas de
associação comunitária para o trabalho, incluindo as cooperativas, empresas
camponesas, microempresas, e a pequena e média indústria, entre outras. No
artigo 70, reconhece-se que as cooperativas são formas de participação e
protagonismo do povo na esfera social e econômica, e instrui-se para que,
mediante uma lei, sejam estabelecidas as condições para seu efetivo
funcionamento. No artigo 118, estabelece-se que a lei deve reconhecer as
especificidades dessas organizações em seu caráter de geradoras de
benefícios coletivos. Por sua vez, o artigo 184 ordena que na lei se criem
mecanismos flexíveis para que as comunidades organizadas participem da
gestão de serviços descentralizados ou transferidos pelos estados e
municípios. São mencionados nesse artigo os serviços de saúde, educação,
moradia, cultura, desporte, ambiente, manutenção de áreas industriais,
proteção urbana, etc. Em 30 de agosto de 2001 foi promulgada a Lei Especial
de Associações Cooperativas, dando cumprimento ao mandato constitucional.
O crescimento dessas organizações ao longo desses anos foi espetacular.
Segundo a Superintendência Nacional de Cooperativas (Sunacoop), em agosto
de 2005 existiam 83.769 cooperativas registradas, o que significou um grande
salto em relação às 24.433 registradas em agosto do ano anterior, e as 10.032
319

contabilizadas em junho de 2003 (cf. Provea, 2005). Os afiliados das


cooperativas cresceram de 639.354 em 2003 para 874.947 em 2004.
A economia social está respaldada, de um lado, por um sistema de
"microfinanças", a fim de dar acesso financeiro e técnico àqueles que se voltem
a essa atividade: o Banco do Povo Soberano, o Banco da Mulher, o Banco do
Desenvolvimento Social, etc.; e, de outro, por programas de comercialização e
de capacitação para coempresários e trabalhadores. A economia social tem na
demanda pública um suporte fundamental para a democratização pela via do
mercado (Vila, 2003). De fato, desde 2003, tendo o Estado nacional alcançado
o controle da PDVSA, vêm ganhando impulso as chamadas rodadas de
negócios, algumas delas especialmente voltadas para cooperativas e
pequenos e médios empresários, em que são postas à licitação as compras
tanto desta empresa estatal como de outros órgãos públicos (por exemplo, a
CVG, os ministérios e outros).

O EIXO QUE COMBATE A EXCLUSÃO COMO CARÊNCIA DE DIREITOS


HUMANOS
Neste segundo eixo, também vêm sendo desenvolvidos vários
instrumentos de expressivo impacto social e político. Destacaremos aqui
alguns que, por sua concepção ou pela disponibilidade de informação
confiável, prestam-se a mostrar, de maneira preliminar, a coerência de tais
programas e instrumentos com o objetivo constitucional da democracia
participativa.
O Plano Nacional de Identidade (PNI) A falta de identidade é a
manifestação mais radical da exclusão. Nas últimas décadas, devido à retração
e ao enfraquecimento do Estado, o problema da falta de documento de
identidade oficial tornou-se crescente na Venezuela, com a consequente
violação dos direitos humanos. Ao não existir legalmente, o cidadão não pode
dispor dos serviços básicos, do sistema de educação e de seguridade social.
Desde 2000, com a assistência de técnicos da Unicef, o governo venezuelano
iniciou um plano com o slogan "Sou venezuelano, sou venezuelana", criando
as Unidades Hospitalares de Registro Civil de Nascimento (Uhrcn), para
garantir que todas as crianças nascidas em hospitais públicos obtenham
definitivamente o direito de ser cidadãos e possuir oficialmente um nome.
320

Estima-se que 94% dos venezuelanos nascem em estabelecimentos públicos.


A primeira Unidade Hospitalar foi criada no ano de 2000, no Estado de Zúlia.
Posteriormente, a maternidade Concepción Palacios, localizada em Caracas,
emitia com sua Unidade em funcionamento uma média diária de 60 certidões
de nascimento. Em 2003, a meta foi ampliar as Unidades Hospitalares para
quatro estabelecimentos da Área Metropolitana de Caracas e levar o PNI a oito
estados do país. O Plano incluía também a modernização gradual do Registro
Civil de Nascimentos.
As escolas e liceus bolivarianos (de educação básica e média) e os
Simoncitos (pré-escolar). Todos eles obedecem a um projeto educativo de
longo alcance. A inclusão pelo acesso à educação com qualidade desde os
primeiros anos ― um direito arrebatado aos setores populares pela redução do
Estado e dos gastos sociais nas décadas anteriores ― tem sido uma política a
receber impulso do governo Chávez desde 1999, e vem alcançando êxito na
recuperação da matrícula escolar, que decrescera continuamente ao longo dos
anos 90. Dados colhidos independentemente corroboram o êxito paulatino dos
anos recentes (cf. Provea, 1999 et seq.). Segundo dados oficiais, no princípio
de 2005 funcionavam cerca de 3.700 escolas bolivarianas, e esperava-se para
o fim do ano um total de 4.500. O Estado venezuelano logrou reverter a evasão
escolar no nível básico, lutando contra os "pagamentos velados" de matrícula
que eram exigidos na educação pública (em violação à gratuidade do ensino
como direito constitucional), e fornecendo uniformes e cartilhas escolares
gratuitamente como incentivo ao retorno à escola. Porém, e porventura mais
importante que isto, o Estado tem proporcionado às crianças uma jornada
completa (em vez do meio período escolar das décadas precedentes), o que
possibilita o trabalho dos pais ― e com frequência o da mãe que costuma ser o
eixo da família ― provendo às crianças dessas escolas duas refeições e duas
merendas diárias. Assim, as atuais escolas estariam alimentando a mais de um
milhão de crianças. Segundo o ministro da Educação Aristóbulo Istúriz, 20% do
orçamento nacional de 2004 foram destinados à educação em seus diferentes
níveis e programas, o que representa 7% do PIB. Os Simoncitos, por sua vez,
são uma versão nova do ensino pré-escolar, que pretendem começar a corrigir
a exclusão e a desigualdade social, afetiva e cultural antes de a criança
ingressar na educação básica. O governo tem defendido a necessidade de
321

tornar obrigatório este nível (que nunca foi), e declarou contar no início de 2005
com um total de 650.000 crianças matriculadas no novo sistema.
As Missões. São programas sociais que procuram dar solução aos
problemas de acesso a diversos direitos sociais, e são apresentadas
conceitualmente como políticas de emergência e/ou temporárias para atacar
certas necessidades sociais urgentes dos setores populares. As missões são
talvez as que mais notoriedade vêm tendo fora do país, sem que isso todavia
signifique que seu desempenho e suas características sejam até agora
sistematicamente bem conhecidos. A primeira dessas missões começou pouco
depois de o governo Chávez ter controlado a paralisação-sabotagem petroleira
de 2002-2003, e foi chamada Missão Robinson, do pseudônimo Samuel
Robinson que Simón Rodríguez, mestre de Bolívar, adotara.
A Missão Robinson I tem por objetivo erradicar o analfabetismo na
Venezuela. O método empregado por essa missão, conhecido com "Sim, eu
posso!", foi desenvolvido pela pedagoga cubana Leonela Relys e adaptado ao
contexto venezuelano por docentes do país. O método foi laureado por
instituições como a Unesco. Em 65 sessões de duas horas cada prepara-se o
participante, chamado de patriota, para as habilidades básicas de ler e
escrever. A Missão Robinson I se apoia em um facilitador (chamado de
voluntário) ― trata-se, em muitos casos, de jovens das próprias comunidades
ou professores e professoras aposentados, aos quais se oferece uma
preparação prévia. São utilizados como materiais de aula uma cartilha e outros
instrumentos de apoio. No censo nacional realizado em 2001, registrou-se na
Venezuela um total de 1.154.120 analfabetos. Não obstante, as cifras oficiais
de captação de patriotas feita pelo governo, apoiado nos voluntários ao início
da missão, alcançaram 1.252.226 pessoas. Poucos meses depois, iniciou-se a
Missão Robinson II, através da qual facilitava-se aos alfabetizados a obtenção
de um diploma de sexto grau em um período de dois anos. Se levarmos em
conta que 52% das pessoas analfabetas registradas na Missão Robinson I
afirmaram ter menos de 30 anos, é possível avaliar a significação definitiva que
essa missão tem na melhoria das expectativas de sucesso de mais de meio
milhão de venezuelanos. Em 2005, segundo o governo, o país estava pronto a
declarar-se livre desse flagelo, após realizar operações especiais para levar a
missão aos lugares mais distantes do território nacional, onde vivem
322

comunidades indígenas e camponesas, que assim teriam meios de desfrutar


desse direito.1
Outras missões centradas no direito à educação são a Missão Ribas e a
Missão Sucre, iniciadas também após a paralisação-sabotagem petroleira.
Estão dirigidas a sanar o problema da exclusão de amplos setores populares e
de alguns setores médios do acesso à educação secundária e superior. Desde
2004, o governo vem multiplicando as missões, animado por uma crescente
receita fiscal proveniente do avanço da reforma do setor petroleiro ― que tem
permitido um controle maior sobre as atividades da indústria ― combinada com
a alta dos preços do barril no mercado internacional. Entre as muitas missões
implantadas atualmente, podemos assinalar (além das anteriores) a Missão
Bairro Adentro, encarregada de estabelecer um sistema de saúde preventiva e
primária nas comunidades populares; a Missão Mercal, um circuito de
distribuição e comercialização de alimentos cujo propósito é assegurar o direito
à segurança alimentar dos setores populares; a Missão Guaicaipuro, para a
garantia às comunidades indígenas de seus direitos; a Missão Miranda,
destinada a melhorar as condições de vida de setores militares; a Missão
Vuelvan Caras, inicialmente dirigida a capacitar trabalhadores e abrir postos de
trabalho, mas que foi-se ampliando para constituir-se em uma espécie de
sistema econômico particular, denominado Núcleo de Desenvolvimento
Endógeno; a Missão Piar, para os mineiros; a Missão Negra Hipólita, para o
combate à indigência (andarilhos, esmoleres, alcoólatras, meninas e meninos
de rua), e a Missão Milagre, para a realização de cirurgias gratuitas de
enfermidades da visão, em parceria com Cuba.
Embora todas as missões sejam, em concepção, muito significativas
para lograr a superação da exclusão, não existem informações suficientes para
que possamos avaliá-las com a necessária seriedade. Entretanto, discutimos a
seguir alguns dados sobre a Missão Bairro Adentro, uma das políticas de maior
aceitação entre os setores populares e de maior reconhecimento político, tanto
nacional como internacionalmente.

1
De fato, em 28 de outubro de 2005, com o reconhecimento da Unesco, o governo de Chávez
declarou, em sessão parlamentar, ser a Venezuela "território livre de analfabetismo", pois,
segundo dados oficiais, menos de 2% apenas da população não sabiam ler e escrever. (N. do
Trad.)
323

O Plano Bairro Adentro, convertido em 2004 na missão homônima,


surgiu como uma iniciativa do presidente Chávez para promover o
desenvolvimento da saúde, educação, cultura e desporte nas comunidades
mais carentes do país, as quais, aliás, haviam demonstrado um compromisso
de apoio ativo e contínuo ao governo durante os anos de crise política de 2001-
2004. Esta missão está fundamentalmente voltada para oferecer, nos bairros,
serviços de saúde in situ, que incluem assistência médica gratuita, prescrição
gratuita de remédios, assistência domiciliar e serviço médico de 24 horas (cf.
www.barrioadentro.gov.ve, em 4-12-2003). Através de um convênio entre as
Repúblicas de Cuba e da Venezuela, em abril de 2003, profissionais de
medicina cubanos começaram, em conjunto com médicos venezuelanos, a
prestar assistência médica aos municípios de Libertador e de Sucre, da área
metropolitana de Caracas. A partir daí os trabalhos foram sendo expandidos
até cobrir, em 2004, todos os estados e municípios do país. O componente
médico venezuelano foi inicialmente mínimo, visto que as condições em que se
trabalha nos bairros pobres são pouco atraentes para esses profissionais, e a
Federação Venezuelana de Médicos fez ao programa uma feroz oposição. Não
obstante, em 2004, foram sendo integrados médicos e enfermeiras
venezuelanos. Por conseguinte, diminuiu a resistência do grêmio médico,
dados os benefícios da missão e seu impacto político positivo. Em 2005, os
dados oficiais apontam cerca de 20.000 médicos cubanos trabalhando nas
comunidades pobres de todo o país, junto aos quais serviam 1.500 médicos e
mais de 2.000 enfermeiras nacionais. Também em 2005 teve início a Missão
Bairro Adentro II, cujo objetivo é dotar os bairros carentes de centros de
diagnóstico integral e clínicas populares com capacidade para prestar serviços
médicos de nível superior ao dos disponíveis nos módulos da Bairro Adentro I.
Semelhantemente aos CTU e às MTA, a instalação do serviço de
medicina preventiva e de assistência primária ― que pressupõe o médico da
missão presente nas comunidades populares ― requer a organização de
Comitês de Saúde, incumbidos tanto de tomar decisões em assembleias como
de, além de receber e apoiar o médico em suas tarefas, administrar a saúde
integral da comunidade a que pertencem. Mas, diferentemente dos CTU e das
MTA, não existia suficiente experiência organizativa anterior nos bairros
caraquenhos em questão de saúde, nem na maioria das outras cidades do
324

país, o que fez que essa política fosse muito claramente empreendida a partir
do Estado, cuja influência tem sido muito maior sobre o desenvolvimento da
missão do que nos casos dos CTU e MTA ― conquanto se possa deduzir das
informações disponíveis que os processos de organização e gestão são feitos
fundamentalmente a partir das preocupações e necessidades das
comunidades (cf. Alayón, 2005).
As missões têm recebido muita atenção na América Latina, talvez
porque, como nota um especialista em políticas sociais, Carlos Eduardo Febres
(2005), embora sejam conceitualmente afins às políticas compensatórias e
focadas do neoliberalismo, elas diferem destas por sua extensão e cobertura, o
que lhes dá um "componente de universalidade" que as outras não possuem, e
porque no imaginário popular elas são vistas, diferentemente das neoliberais,
como capazes de concretizar a inclusão. Carlos Febres enfatiza a dimensão
simbólica que possuem as missões, isto é, a força derivada do discurso e das
imagens que acompanham esses instrumentos.
O Plano de Identidade, como afirmamos, tem sido promovido com o
lema "sou venezuelano, sou venezuelana", estimulando diretamente o
desenvolvimento do sentimento de pertencer à nação, considerado como via
de acesso à cidadania; a Missão Robinson com o "Sim, eu posso!", reforçando
o sentimento de autoestima; a Missão Sucre, que dá a denominação de
"vencedores" a seus estudantes. Mais recentemente, e por iniciativa própria, os
indigentes que começam a organizar-se para, através da missão, alcançar o
direito ao emprego, denominam a si mesmos nômades, e os da Missão
Vuelvan Caras, destinada a superar a altíssima taxa de desemprego, chamam-
se lanceiros1. A mudança de nome é também uma mudança de imagem. Isso,
evidentemente, vê-se potenciado pelo discurso do presidente Chávez, sempre

1
Obedecendo à simbologia marcial que Hugo Chávez imprime amiúde aos elementos da vida
política bolivariana, o nome da missão e de seus integrantes ― lanceros ― advém, conforme
a explicação oficial, do seguinte: "[O nome] da Missão foi escolhido pelo presidente Chávez,
inspirado no ato de valentia de 153 lanceiros patriotas que lutavam sob as ordens do general
José Antonio Páez. Encurralados pelo exército realista formado por 1.200 homens, nas
Queseras del Medio, no Estado de Apure, Páez ordenou a seus homens “Meia volta, volver!",
deixando o papel de perseguidos e atacando de frente os inimigos. A tática confundiu o
exército espanhol e brindou uma contundente vitória aos patriotas. O presidente encontrou um
exemplo a emular, de como com pouco se pode fazer muito. Um exemplo de como podemos
ganhar a guerra contra os monstros da pobreza e da exclusão social". Cf. sítio na web do
Ministério do Poder Popular para as Comunas e Proteção Social (Venezuela). (N. do Trad.)
325

carregado de símbolos e referências históricas que dão realce e projeção a


toda a ação política e oficial, inclusive essas das missões.

O EIXO QUE BUSCA O "APODERAMENTO"


O terceiro eixo da política social tem por objetivo fortalecer qualidades
que tornem possível a constituição de um cidadão solidário, participativo,
corresponsável e democrático, com o qual se pretende estabelecer uma nova
relação entre o Estado e a sociedade. Neste caminho, tanto as múltiplas
formas organizativas de participação que as políticas acima referidas vêm
promovendo, como os dispositivos constitucionais abertos para a ação política
nos diferentes níveis da administração pública perseguem o objetivo de
transformar o venezuelano em um cidadão politizado e corresponsável pela
solução de seus próprios problemas. Entre os dispositivos constitucionais vale
recordar, como fizemos em capítulos anteriores, os referendos de diversos
tipos (consultivo, aprobatório, revogatório e ab-rogatório), as assembleias, as
iniciativas legislativas, os Conselhos Locais de Planificação Pública e as juntas
paroquiais.
Durante o referendo revogatório presidencial de 2004, pôs-se à prova a
idoneidade desses dispositivos para o propósito assinalado. Setores e
organizações de oposição a Chávez mobilizaram-se para a coleta de
assinaturas e, cumprido e reconhecido esse trâmite, continuaram mobilizados
para promover o voto pela revogação do mandato presidencial. Do lado das
forças chavistas, incentivou-se a mobilização popular a fim de apoiar o
presidente. Estamos, neste caso, em presença de um tipo de mobilização e
organização popular impulsionadas pelo governo e seus partidos afins, com
propósitos claramente políticos. Esse tipo de organização popular, surgido no
fragor dos confrontos dos anos recentes, é mais de natureza defensiva e, em
grande medida, sua coesão depende da figura central do presidente Chávez.
As organizações populares, como os Círculos Bolivarianos ou as Unidades de
Batalha Eleitoral, tendem a um culto à personalidade e, embora tenham
produzido importantes resultados políticos, não só não favorecem mas podem
mesmo servir de obstáculo à organização autônoma dos setores populares e
sua capacidade de tomar decisões políticas de modo independente. Também
326

podem acabar sendo problemáticas, se consideradas do ponto de vista do


fomento da democracia.

UM PRIMEIRO OLHAR DE AVALIAÇÃO


O enfoque conceitual da esfera social no projeto bolivariano propõe, em
um contexto complexo, o objetivo de superar as condições de exclusão. Não é
questão apenas de melhorar a renda e/ou prestar melhor este ou aquele
serviço. Reconhece-se a exclusão como um problema histórico e pretende-se
estabelecer (ou restabelecer) a condição de cidadania. Diferentemente das
políticas anteriores, o peso fundamental da mudança se situa no cidadão
organizado e sua comunidade, em sua capacidade de tomar as decisões e
assumir as responsabilidades exigidas pela solução de seus graves problemas.
Não obstante, ao trasladarmo-nos à realidade dos setores e movimentos
populares na Venezuela, nessas últimas décadas, é óbvio que a relação entre
os dois sujeitos da transformação social ― vale dizer, o Estado e o cidadão
organizado em sua comunidade ― é uma relação desigual. O Estado
venezuelano conta com um conjunto de recursos financeiros, institucionais e
organizativos que o coloca numa posição econômica e política vantajosa
relativamente aos setores populares. Isso, contudo, põe em perigo a autonomia
de cidadãos e comunidades organizadas ante as diretrizes e/ou as pressões do
Estado ao longo do processo de transformação.
O movimento popular, quando se iniciou este novo projeto político,
estava extenuado, desorganizado e seus membros duramente golpeados por
quase duas décadas de política econômica neoliberal (cf. Denis, em Gindin,
2005). Além disso, o movimento popular anterior ao governo de Chávez,
embora existisse, carecia de base orgânica, de tradição e de articulações entre
suas partes, capazes de lhe dar alguma força para atuar com autonomia e
tomar iniciativas diante do poder do Estado. Escasso, pouco organizado,
disperso e fragmentado, esse movimento popular começa a conviver, a partir
de 1999, com múltiplas organizações populares que tinham sido estimuladas
pelo próprio governo através das diversas políticas e programas sociais, como
enumeramos acima.
327

Sociólogos, como Lander (2004), afirmam que, conquanto fosse natural


que o Estado desse impulso à mobilização e à organização de suas bases de
apoio, a desigual relação inicial abre pelo menos duas direções por onde se
pode conduzir a transformação da sociedade. A primeira ― e mais fácil ― é a
da volta ao padrão clientelista e paternalista, como ocorreu inúmeras vezes
com o populismo latino-americano e, em particular, com o populismo
venezuelano do século XX, materializado principalmente no partido AD. O
Estado, nesse cenário, controla e coloniza a sociedade e o movimento popular.
Podem ocorrer tanto a organização como a mobilização e o avanço social, mas
a autonomia só pode brilhar por sua ausência, enfraquecendo-se a capacidade
de o povo exercer o controle da sociedade e minando-se nele a geração de
sentimentos de força de ação. Quem decide sobre as práticas e suas
orientações é a cúpula do Estado que destina os recursos, na figura de seus
funcionários em postos-chave das várias instâncias da gestão pública. Não se
promovem nem a autogestão nem a independência, mas sim a aceitação
passiva da tramitação burocrática dos recursos públicos. Não há controle
verdadeiro por parte da sociedade, nem há transparência ― e, assim, abrem-
se as portas à corrupção. Esta via do populismo é autoritária em essência, uma
história conhecida e repetida até ao cansaço na Venezuela do século XX.
A segunda via (ou paradigma) é, segundo Lander, a participativa e
democrática. Ela pressupõe o estímulo contínuo, por parte do Estado, à maior
pluralidade de organizações sociais e produtivas, o respeito aos seus
desenvolvimentos para que avancem com níveis mais altos de participação
autônoma na gestão pública e, dessa forma, adquiram a capacidade cada vez
maior de controle sobre ela. Nesta via, é quesito imprescindível a criação de
densidade organizativa, a constituição de níveis intermediários de articulação
das organizações populares, igualmente autônomos, que sirvam de mediações
entre a sociedade e o Estado e que fortaleçam a ação do movimento popular,
como a das instâncias de gestão pública, garantindo sua capacidade de
controle.
Outra condição crucial para este desejado cenário é a institucionalização
crescente das instâncias de gestão pública para garantir firmeza, continuidade,
critérios de universalidade no acesso aos direitos e recursos, e capacidade de
controle público real.
328

Um exame do desenvolvimento dos vários instrumentos de política


social utilizados durante o governo de Chávez confirma haver na atualidade
uma dinâmica de mobilização e organização popular com raros antecedentes
na política do país: CTU, Comitês de Saúde, MTA, cooperativas, organizações
comunitárias de moradia, CRT, etc., têm crescido em número e amplitude por
todos os cantos do país (cf., entre outros, os relatórios anuais de Provea). O
entusiasmo participativo de setores antes excluídos em ter agora acesso a
políticas e recursos que lhes oferecem oportunidades de superar os difíceis
problemas de exclusão econômica, social e cultural, vem acentuando-se e
espalhando-se por toda a Venezuela, sobretudo a partir de 2003, quando o
Estado logrou controlar a indústria petroleira e pôde pôr em marcha sua
reforma do setor, com o consequente aumento da receita fiscal para financiar
as mais diversas iniciativas de políticas sociais. Esta dinâmica tem-se traduzido
em alguns esforços de coordenação entre organizações populares, assim
como na busca de criação de espaços intermediários ― como são os casos da
Conexão Social para o Poder Popular (2004) e dos Conselhos Comunitários de
Água. Não obstante, o entusiasmo participativo e organizativo nem sempre
acarreta uma maior autonomia na mobilização e organização popular.
Não existe um conjunto sistemático e/ou confiável de informações que
permita avaliar hoje com justeza rumo a qual dos dois caminhos ― o populista
ou o democrático-participativo ― dirige-se a dinâmica do movimento popular
desatado no Processo Bolivariano. Aparece, contudo, como muito problemática
a escassa valorização ― e consequente inação ― manifestada pelos
dirigentes e partidos