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o mal-estar soviético:

o debate sobre o psiquismo na Revolução Russa (1919-1936)

Thyago Marão Villela

trabalho de conclusão de curso apresentado à Associação Livre – Campinas (SP), como requisito
para obtenção de título de especialização em psicanálise pela Faculdade Vicentina
índice

1. os “engenheiros de almas” e a “sensação de vazio” ..................................................................03

2. a formação do campo psicanalítico na URSS...............................................................................05

3. a economia do inconsciente e o inconsciente da economia.......................................................09

4. além da pulsão de morte?...........................................................................................................15

5. a construção do recalque............................................................................................................18

6. o “homem máquina” e a apologia do trabalho ..........................................................................27

7. a psicologia como dispositivo repressivo e a construção do imaginário stalinista......................33

8. o “novo homem soviético”..........................................................................................................40

referências bibliográficas................................................................................................................48

2
o mal-estar soviético:
o debate sobre o psiquismo na Revolução Russa (1919-1936)

Thyago Marão Villela

1. os “engenheiros de almas” e a “sensação de vazio”

No dia 7 de outubro de 1932, um grupo de cientistas do Instituto de Medicina Experimental


se reuniu com os líderes bolcheviques Vyacheslav Molotov (1890-1986), Kliment Voroshilov
(1881-1969) e Josef Stálin (1878-1953), no apartamento do escritor Maxim Gorki (1868-1936).
Uma semana depois, o governo decretou que tal Instituto passava a ser o “Instituto da União”,
tornando-se assim o centro soviético oficial para o estudo do psiquismo. 1 Duas semanas após o
decreto, no dia 26 de outubro, Stálin foi novamente ao apartamento de Gorki para se reunir com
escritores. Foi nesta ocasião que o Secretário Geral do Partido saudou tais artistas como
“engenheiros de almas”, expressão que seria consagrada dois anos depois, durante o Congresso
de Escritores que instituiu o realismo socialista como estética oficial do regime. 2

As duas reuniões organizadas por Stálin possuíam um caráter paradigmático: ambas


visavam estabelecer as diretrizes políticas para a formação do “novo homem soviético”. Por um
lado, a propaganda literária deveria incitar o leitor à celebração dos feitos da suposta revolução
socialista. Por outro lado, o Instituto de Medicina Experimental deveria investir em pesquisas que
mostrassem a flexibilidade da mente humana, a sua capacidade de adaptação e as
transformações do psiquismo frente ao processo histórico soviético. O governo – que em 1932
comemorava o sucesso do Primeiro Plano Quinquenal (1928-1932) e o sucesso da coletivização

1
Ver JORAVSKY, David. “The Construction of the Stalinist Psyche”. In: FITZPATRICK, Sheila (org.). Cultural Revolution
in Russia, Bloomington and London, Indiana University Press, 1978, p. 126.
2
Ver PROCTOR, Hannah. Revolutionary thinking: A Theoretical History of Alexander Luria’s ‘Romantic Science’. PhD
Thesis. Birkbeck, University of London, 2016, pp. 54-54.

3
forçada do campo – precisava de um novo tipo de trabalhador, radicalmente engajado na
elevação da produtividade.

3
Com efeito, pouco antes da fundação do movimento stakhannovista, o catálogo da
“Primeira Exposição dos Artistas de Leningrado” (1935) afirmava que as artes visuais deveriam
“criar uma imagem plena do novo homem soviético”. 4 A maioria das obras expostas retratava,
assim, trabalhadores fortes, sadios e felizes. O tom heroico e triunfalista, porém, era contradito,
na mesma exposição, pelos quadros de alguns pintores, como Kazimir Malevich (1879-1935), cuja
obra final centrava-se no retrato de pessoas esvaziadas subjetivamente, cujas expressões
indeterminadas e cujos olhares vagos denunciavam uma espécie de exaustão psíquica. Malevich
elaborava tal mal-estar desde, pelo menos, 1932, mesmo ano da reunião de Stálin com os
“engenheiros de almas”. O pintor ucraniano escreveu, no verso do quadro “Premonição
complexa: torso em uma camisa amarela” (1932), que a obra “conjugou diversos elementos,
como a sensação de vazio, de solidão e de falta de esperança na vida (...)”. 5

Encontrava-se em disputa, portanto, duas posições radicalmente distintas sobre o


psiquismo do proletariado soviético durante a implantação do projeto stalinista de modernização
acelerada. De um lado, tornava-se hegemônico o projeto stalinista, calcado em uma retórica
otimista que enfatizava a consciência e celebrava o trabalho. Do outro lado, encontravam-se as
críticas que, contornando a censura, pareciam explicitar o mal-estar e funcionar como uma
espécie de representação do recalcado. A quais modelos psíquicos tais posições correspondiam?
A qual projeto de humanidade elas faziam referência?

3
Em 1935, durante o Segundo Plano Quinquenal, o Estado soviético decretou a fundação do movimento
stakhanovista, que visava propagandear um tipo ideal de trabalhador, radicalmente comprometido com o
incremento da produtividade. Segundo Trotsky: “O início do movimento foi marcado por maciças medidas
repressivas contra o pessoal técnico, engenheiros e operários, acusados de resistência e sabotagem e, em certos
casos, de assassínio de stakhanovistas. A severidade dessas medidas atestava a força da resistência”. Cf. TROTSKY,
Leon. A revolução traída. Trad. Henrique Canary, Rodrigo Ricupero, Paula Maffei. São Paulo: José Luís e Rosa
Sundermann, 2005, p. 102.
4
Ver “Catalogue de la premiere exposition des artistes de Leningrad au Musee Russe”, In MALÉVITCH, K. S., Le
mirroir suprematiste. Trad. Jean-Claude e Valentine Marcadé. Lausanne, L’age d’homme, 1977, p. 190.
5
Cf. CHLENOVA, Masha, On display: Transformations of the Avant-Garde in Soviet Public Culture, 1928-1933.  PhD
diss., Columbia University, 2010, p. 241.

4
2. a formação do campo psicanalítico na URSS

A ênfase no inconsciente desempenhou um papel importante nas formulações sobre o


psiquismo dos primeiros anos do processo revolucionário. Com efeito, desde 1912 a obra de
Sigmund Freud (1856-1939) era amplamente traduzida para o russo. Até 1915, quase toda a obra
freudiana havia sido traduzida por Moshe Wulff (1878-1971), Ivan Ermakov (1875-1942) e
Nikolay Osipov (1877-1934) e, em 1914, Freud reconhecia Wulff como um “psicanalista
treinado”. 6 Após a revolução de 1917, e durante o processo da Guerra Civil que assolou o país
entre 1918 e 1920, a psicanálise continuou sendo praticada. Tatiana Rosenthal (1884-1921),
militante bolchevique e proeminente psicanalista, foi designada, em 1919, como médica principal
e supervisora da sessão clínica do Instituto de Patologia Cerebral, dirigido pelo neurologista
Vladimir Bekhterev (1857-1927), em Petrogrado. Durante o inverno de 1919 e 1920, ela
organizou o primeiro curso de conferências do Instituto, enfatizando, primeiramente, o trabalho
de Freud e, posteriormente, o trabalho de Alfred Adler (1870-1937). No outono de 1920,
Rosenthal estabeleceu uma escola para crianças com problemas neuróticos e cognitivos, onde a
7
psicanálise era a primeira modalidade de tratamento. Também em 1920, Rosenthal publicou
um estudo sobre as obras de Fiódor Dostoiévski que precedeu, em sete anos, o texto de Freud
sobre tal escritor. O texto centrava-se na relação entre criatividade e psicopatologia, enfatizando
que “a raiz da expressão criativa se encontra no inconsciente”. 8 O movimento psicanalítico de
Petrogrado, contudo, teve uma vida curta. Ele cessou em 1921, após o suicídio de Rosenthal, com
36 anos. 9

As sociedades psicanalíticas se estabeleceram após o término da Guerra Civil e a


10
promulgação da Nova Política Econômica (1921-1928). Em 1921, foi fundada a Sociedade
Psicanalítica Russa, presidida por Ermakov. Além dele, o grupo era constituído por mais sete
membros fundadores: Nikolai Bernstein (1896-1966), Wulff, A.A. Siderov, A.G. Gabrichesvsky,
Ivan Illin, N.E. Uspensky e Otto Schmidt (1891-1956). A Sociedade – cuja maioria da direção era
6
Freud menciona Moshe Wullf em « Sobre a história do movimento psicanalítico »: “Apenas Odessa possui, na
pessoa do Senhor Wulff, um psicanalista treinado” (“Only Odessa owns, in the person of M. Wulff, a trained
psychoanalyst”). Cf. ANGELINI, Alberto. “History of the Unconscious in Soviet Russia: From its Origins to the Fall of
the Soviet Union”, Institute of Psychoanalysis n. 89, p. 369-388, 2008, p. 370.
7
Ver MILLER, Martin. Freud y los bolcheviques: el psicoanálisis en la Rusia Imperial y en la Unión Soviética, Buenos
Aires, Editora Nueva Visión, 2005, p. 101.
8
Apud MILLER, Martin. Freud y los bolcheviques, op cit, p. 102.
9
Ver ANGELINI, Alberto. “History of the Unconscious...”, op cit, p. 373. Também em 1921, Osipov emigrou para
Praga, fugindo da Rússia.
10
A Nova Política Econômica (Novaya Ekonomiceskaya Politika – NEP), promulgada pelo Partido Comunista em 1921,
objetivou restituir elementos de livre-mercado na economia soviética, visando dinamizá-la.

5
bolchevique – começou suas atividades como um grupo especializado nos estudos entre
psicanálise e arte e, posteriormente, ampliou suas atividades para três linhas de pesquisa e
atuação: 1) problemas psicológicos da criação artística (encabeçada por Ermakov); 2) análise
clínica (dirigida por Wulff); e 3) pedagogia (dirigida por Schmidt).

Em agosto do mesmo ano, Vera Schmidt (1889-1937), esposa de Otto Schmidt, fundou o Lar
Experimental de Crianças. O projeto procurava criar um “novo homem” soviético, esperando-se
que os educadores envolvidos no projeto pudessem interpretar o inconsciente infantil, levando
em conta a relação de transferência entre educador e aluno. O Lar Experimental baseava-se
numa pedagogia calcada no desenvolvimento de relações afetivas, ao invés da autoridade do
educador. Ademais, tal projeto pedagógico procurava tratar a sexualidade e a curiosidade infantil
de maneira não repressora. 11

Em 1922, Aleksandr Luria (1902-1977) fundou a Sociedade Psicanalítica de Kazan. As


discussões de tal grupo, que ocorreram ao menos duas vezes por mês, consistiram em análises
de casos, em interpretações de sonhos, na relação da psicanálise com as tendências da psicologia
e nas discussões dos trabalhos de Freud, como “Sobre o narcisismo” (1914) e “Psicologia das
massas e análise do eu” (1921). Um dos debates focou na legitimidade de usar o paradigma da
12
sexualidade para a análise de dinâmicas de grupo. No mesmo ano, Freud autorizou Luria a
traduzir suas obras para o russo. 13

Em 16 de setembro de 1922, os psicanalistas informaram ao governo sobre a fundação dos


dois grupos psicanalíticos. No informe, os psicanalistas comprometiam-se a cumprir as seguintes
obrigações: organização do Instituto Psicanalítico Estatal, estabelecimento de uma clínica pública,
11
Ver ANGELINI, Alberto. “History of the Unconscious...”, op cit, p. 371. De acordo com Renata Udler Cromberg,
“cerca de 30 crianças, filhas de dirigentes e funcionários do Partido Comunista foram acolhidas ali a fim de serem
educadas segundo métodos que combinavam os princípios do marxismo e da psicanálise. Acredita-se que o filho de
Stálin lá tenha estudado. O sistema de educação tradicional fundado nos maus-tratos e nas punições corporais foi
abolido e o ideal da família patriarcal, severamente criticado – em proveito de valores educativos que privilegiavam
o coletivo. As demonstrações afetivas, beijos e carícias foram substituídas por relações ditas ‘racionais’; as crianças
tinham uma educação laica e eram autorizadas a satisfazer a sua curiosidade sexual. Os educadores eram convidados
a não reprimir a masturbação e a instaurar com as crianças relações igualitárias. Não havia punições, não se devia
falar com as crianças sequer em tom severo. Não se devia realizar nenhum julgamento subjetivo sobre as crianças, já
que elas não o compreenderiam e ele serviria apenas para satisfazer a ambição e o amor-próprio do adulto. Não era
a criança em si, mas sim os resultados de sua atividade que deveriam ser julgados. Quando as crianças brigavam, o
agressor não deveria ser censurado, devendo-se descrever a ele a dor que causava no outro. As educadoras
deveriam guardar recato. O programa previa que todos deveriam ser analisados”. Cf. CROMBERG, Renata Udler.
“Psicanálise na Rússia”. In: SOUZA, Paulo Sérgio (org.). A psicanálise e os lestes. São Paulo: Annablume, 2017, p. 112.
12
Ver PROCTOR, Hannah. “A Country Beyond the Pleasure Principle: Alexander Luria, Death Drive and Dialetic in
Soviet Russia, 1917-1930”, Psychoanalysis and History 18(2), 2016, p. 162.
13
Idem, p. 161.

6
viagens para participação em eventos de outras cidades, publicação de volumes sobre psicanálise
e realização de cursos, conferências e palestras sobre o tema. Ermakov afirmou que a Sociedade
deveria produzir informes anuais ao governo e que, em caso de desmantelamento da Instituição,
14
o Estado teria o direito de dirigi-la. Assim, estabeleceu-se uma única instituição psicanalítica,
constituída pela fusão da Sociedade Psicanalítica Russa moscovita com a Sociedade Psicanalítica
de Kazan.

Surgiu então, em 1923, o Instituto de Psicanálise, que permitia aos analistas o oferecimento
de programas de formação. Sob a direção de Wulff, o Instituto abriu uma clínica para
atendimentos e, sob a organização de Ermakov, a instituição fundou a coleção Biblioteca
Psicológica e Psicanalítica, que publicou, pela Editora Estatal, algumas das obras centrais de
15
Freud, Melanie Klein (1882-1960), Carl Jung (1857-1961) e Sandor Ferenczi (1873-1933). No
mesmo ano, foram vendidas 2000 cópias de “Leituras introdutórias” de Freud (em dois volumes),
o que indicava a popularização da psicanálise na URSS. A coleção publicou, também em 1923,
“Psicologia das massas e análise do eu”. Embora o apoio à psicanálise não fosse irrestrito – a líder
bolchevique Nadezda Krupskaia (1869-1939), por exemplo, criticou as ideias freudianas,
caracterizando-as como “explicações superficiais (...) imbuídas de um sentimento pequeno-
16
burguês com relação às mulheres” – o governo bolchevique incentivou o debate sobre as
17
teorias psicanalíticas na imprensa. Dentre os bolcheviques, os oposicionistas de esquerda,
como Aleksandr Voronski (1884-1937) – que, inclusive, assinou junto aos psicanalistas o informe
18
entregue ao governo –, pareciam particularmente interessados na teoria freudiana. Leon
Trotsky (1879-1940), por exemplo, escreveu em 1923 a Ivan Pavlov (1849-1936), sugerindo que a
reflexologia poderia ser conjugada à psicanálise. 19

Se o debate, por um lado, era incentivado pelo governo, já a prática pedagógica dos
analistas era submetida a rigorosas críticas. Em outubro de 1923, Vera e Otto Schmidt viajaram
ao exterior para buscar orientações de Freud e Otto Rank (1884-1939) sobre as ameaças de
fechamento do Lar Experimental de Crianças, feitas pelo Estado, que impunha uma redução

14
Ver MILLER, Martin. Freud y los bolcheviques, op cit, p. 113.
15
Idem, p. 109.
16
Apud MILLER, Martin. “Freudian Theory under Bolshevik Rule: The Theoretical Controversy during the 1920s”,
Slavic Review, Vol. 44, No. 4, 1985, p. 635.
17
A Oposição de Esquerda surgiu em novembro de 1923, e consistia em um grupo de bolcheviques, liderados por
Leon Trotsky, que se opunham ao processo de burocratização do Partido Bolchevique.
18
Ver PROCTOR, Hannah. “A Country Beyond the Pleasure Principle…”, op cit, p. 162.
19
Idem, p. 168.

7
dos custos e obrigava os coordenadores do Lar Experimental a “fortalecerem o componente
20
proletário” no quadro de alunos. Além das estratégias para a continuidade do Lar, eles
21
debateram sobre o destino do complexo de Édipo nos processos de educação coletiva.
Contudo, apesar dos esforços para salvar o Lar Experimental, ele foi fechado pelo governo no ano
seguinte, acusado de incentivar a pornografia e o abuso sexual infantil.

Além das duras relações com o Estado, consubstanciadas no fechamento da Escola de Vera
Schmidt, o Instituto de Psicanálise teve de lidar com o problema do reconhecimento da IPA
(Associação Internacional de Psicanálise) que, para legitimar a psicanálise russa, exigiu que o
Instituto incorporasse também os grupos psicanalíticos de Odessa, Kiev e Rostov – o que
resultava em uma maioria de médicos analistas; além de exigir que Wulff e Ermakov (dois
médicos não bolcheviques) o presidissem. 22

3. a economia do inconsciente e o inconsciente da economia

Na edição de novembro-dezembro de 1923, a revista “Sob a bandeira do marxismo” (Pod


znamenem markisizma) publicava o artigo do filósofo bolchevique Bernard Bykhovskii (1898-
1980), intitulado “Sobre os fundamentos metodológicos da teoria psicanalítica freudiana”. O

20
MILLER, Martin. Freud y los bolcheviques, op cit,p. 117.
21
Idem, ibidem.
22
Idem, p. 112.

8
artigo, publicado durante o processo de formação do Instituto de Psicanálise e do
desenvolvimento das relações conflituosas entre os freudianos soviéticos e o governo,
inaugurava o debate sobre as possibilidades da articulação entre a teoria freudiana e o
marxismo. Bykhovskii argumentava que a psicanálise freudiana era monista, determinista e
dialética, sendo perfeitamente compatível com a reflexologia desenvolvida por Pavlov e
Bekheterev. No texto, o autor chamava a atenção para a noção de inconsciente e de conflito
psíquico, para as contradições entre as necessidades psíquicas e as demandas sociais, e para
como tais noções, desenvolvidas por Freud, poderiam ser cruciais, se articuladas ao marxismo,
para a compreensão, por exemplo, da psique infantil. 23

No ano seguinte, em 1924, foi publicado, na edição de janeiro-fevereiro de “Imprensa e


revolução” (Pechat’ i revoliutsiia), o artigo “O pensamento freudiano sobre a religião”, de Mikhail
Andreievich Reisner (1869-1929). Reisner era especialista em direito constitucional e foi militante
do Partido Social-Democrata Russo até 1917. Após a revolução, ele foi responsável por escrever a
legislação sobre a separação da Igreja e do Estado e foi um dos principais autores da primeira
constituição soviética, além de lecionar sobre filosofia do direito nas universidades de Tomsk e
Petrogrado. No texto referido, Reisner procurou articular o marxismo e a psicanálise para a
análise do campo religioso. Ao contrário de Bykhovskii, que baseava seu artigo nas obras de
Freud traduzidas para o russo, Reisner utilizou as edições originais dos textos freudianos para
explicar a teoria psicanalítica sobre o campo religioso. O artigo começava discutindo as
contribuições de Marx e Engels para a análise das religiões e constatando que, embora sejam
fundamentais para a compreensão dos aspectos socioeconômicos da prática religiosa, tais
autores não trataram a dimensão psíquica dos processos religiosos. Segundo Reisner, portanto,
não existia no marxismo um método para a compreensão das fantasias religiosas e de seus
simbolismos, aos quais a humanidade aderiu e criou ao longo da história.

Tal lacuna da teoria marxista poderia ser preenchida pelas ideias desenvolvidas por Freud. A
contribuição da psicanálise freudiana dar-se-ia em dois campos: na afirmação de que as fontes
latentes do desenvolvimento social pertencem ao complexo da “mentalidade sexual”
(myshlenie); e na noção de que os problemas eróticos não resolvidos são transportados ou
deslocados para as construções sociais. Assim, Reisner argumentava que as fantasias eróticas
infantis poderiam ser reelaboradas na vida adulta através do compromisso religioso estabelecido

23
MILLER, Martin. “Freudian Theory under Bolshevik Rule…”, op cit, p. 628.

9
entre os indivíduos e as instituições religiosas. Para o autor, a ideia de sublimação (segundo a
qual os conflitos psíquicos são reelaborados em formas socialmente aceitas de comportamento e
trabalho) era crucial para pensar as formas nas quais os conflitos inconscientes são manejados na
sociedade. Subjazia ao compromisso religioso, portanto, uma complexa rede de afetos
permeada por interesses conflitantes, que variavam da noção de dependência à noção de
independência, do sentimento de importância à apatia. Tais sentimentos eram estruturados no
processo de desenvolvimento individual e nos processos de adesão e culto a figuras de
autoridade. O indivíduo religioso, portanto, buscava alívio de seus conflitos internos na adesão à
autoridade transcendente que supostamente estruturava o mundo.

Segundo Reisner, a articulação entre a análise histórica e política de extração marxista e as


ideias freudianas poderia contribuir para explicar como o poder religioso pôde, ao longo dos
séculos, agir como uma força vital, mediante suas cerimônias e sua estrutura simbólica, na
manutenção das estruturas de classe. A religião, assim, poderia ser redefinida, nas palavras de
Reisner, como uma “forma de organização social da mentalidade sexual e das atividades
24
relacionadas a ela”. Tal redefinição sugeria que os conflitos sociais inconscientes eram
deslocados e transformados, mediante rituais simbólicos e cerimônias, em um sistema racional
que, além de embasar a estrutura política, direcionava o desejo dos sujeitos para novos objetos
na esfera econômica. Assim, Reisner afirmava que a atuação da religião constituía-se como uma
espécie de “organização das neuroses e manias em larga escala”, resultando na “sublimação das
25
forças criativas da humanidade através do poder da revelação”. Seria possível que o texto de
Reisner funcionasse, também, como uma advertência aos leitores russos sobre o processo
soviético? Com efeito, o “culto a Lênin”, embora institucionalizado apenas no final de 1924, já era
amplamente praticado, particularmente entre os camponeses. 26

24
Apud idem, p. 631.
25
Apud idem, ibidem.
26
Orlando Figes, historiador britânico e professor da Universidade de Londres, afirmou que a celebração dos líderes
soviéticos iniciou-se em 1918: “Uma biografia de Lenin destinada aos trabalhadores foi lançada às pressas [em 1918].
Com o tipo de título que se associa mais facilmente com os cultos de Stalin ou Mao – “O grande líder da revolução
dos trabalhadores” – ela retratou Lenin como um indivíduo supremamente sábio, uma figura sobre-humana
semelhante a Deus e amada por todos os trabalhadores. Um panfleto similar, chamado ‘O líder dos pobres rurais, VL
Ul'ianov-Lenin’, foi produzido para os camponeses e impresso em 100 mil cópias. Tal panfleto assemelhou-se a ‘Vidas
dos Santos’, a leitura favorita dos camponeses. Diversos mitos sobre Lenin, retratado como o paladino da Verdade e
da Justiça, começaram a circular entre os camponeses. Fotografias dele apareceram pela primeira vez em aldeias
remotas. Tais fotografias foram, muitas vezes, colocadas no 'canto vermelho', o 'lugar sagrado' dentro da cabana dos
camponeses onde ícones e retratos do czar eram tradicionalmente colocados.”. Cf. FIGES, Orlando. A people’s
tragedy: the Russian revolution (1891-1924). New York: Penguin, 1996, p. 628-629.

10
A posição de Bykovskii foi criticada pelo filósofo bolchevique V. Iurinets. Em “Freudismo e
marxismo”, publicado em 1924 na revista “Sob a bandeira do marxismo”, Iurinets caracterizava a
perspectiva freudiana como tributária do idealismo burguês de Nietzsche, Sorel e Bergson. O
autor afirmava que a primeira tópica freudiana (composta pelo inconsciente, pelo pré-consciente
e pelo consciente) e as abordagens sociais do psicanalista vienense, além de especulativas, eram
27
reducionistas e não serviam para explicar processos históricos ou as motivações das massas. O
autor caracterizava a teoria freudiana como uma espécie de “filosofia da degradação”, que criava
28
um “mundo fantástico e inalcançável”. E, sobretudo, o filósofo lia a teoria psicanalítica como
um ataque ao marxismo: “A sociologia freudiana é a parte mais débil do sistema psicanalítico: ela
é, simplesmente, uma contradição completa e colossal. Por trás dela, existe o ódio cego e a raiva
contra o marxismo”. 29 Ele citava diversos “ataques” ao marxismo vindo de discípulos de Freud:

“’O comunismo é a expressão de uma tendência à reaproximação com a mãe; é a


eterna nostalgia de retorno ao útero’; ‘o movimento comunista é uma tentativa de
retorno a um estado infantil’; ‘o comunismo é uma espécie de novo feudalismo’; ‘a
dialética marxista é uma expressão da paranoia que, articulada à crença mística no
papel do proletariado, transforma-se em uma paranoia religiosa’; ‘a palavra de
ordem ‘trabalhadores do mundo, uni-vos’ é uma expressão da ‘homossexualidade
de classe’”. 30

Contudo, apesar das críticas, as ideias freudianas pareciam possuir peso no Segundo
31
Congresso Psiconeurológico, ocorrido entre três e dez de janeiro de 1924 em Petrogrado. O
principal defensor de tais ideias era o psicólogo Aron Zalkind (1886-1936) que, desenvolvendo a
sua intervenção no Congresso, associava, no artigo “Freudismo e Marxismo”, importantes
lideranças bolcheviques às noções psicanalíticas, direta e publicamente, pela primeira vez. Ele
vinculada as ideias de Pavlov aos bolcheviques – vinculados à ala partidária liderada por Stálin –

27
MILLER, Martin. “Freudian Theory under Bolshevik Rule…”, op cit, p. 628.
28
GRILLO, Sheila Vieira de Camargo. “Marxism, Psychoanalysis and Sociological Methods: Voloshinov’s, Soviet and
European Marxists’ Dialogue with Freud”, Bakhtiniana, São Paulo, 12 (3): 60-86, Set./Dez. 2017, p. 76.
29
“Freudian sociology is the weakest part of the psychoanalytic system; it is simply a complete and colossal
contradiction; besides this, it is the expression of a blind hate and rage in relation to Marxism”. Apud idem, ibidem.
30
“Communism is the expression of the tendency to join with the mother – the eternal nostalgia to return to the
mother’s womb” (1924, p.90); “The communist workers movement is an attempt to return to an infantile state”
(1924, p.90); “Communism is neo-feudalism” (1924, p.91); “Marx’s dialectic is an expression of paranoia that,
together with the mystic belief in the role of the proletariat, acquires a form of religious paranoia”; “The slogan
‘workers of the world unite’ is an expression of class homosexuality”. Cf. idem, ibidem.
31
Ver MILLER, Martin. “Freudian Theory under Bolshevik Rule…”, op cit, p. 635.

11
Nikolay Bukhárin (1888-1938) e Grigori Zinoviev (1883-1936); e vinculava à psicanálise os
oposicionistas Trotsky e Karl Radek (1885-1939).

Em maio de 1925, Reisner publicava seu segundo artigo em defesa da articulação entre
marxismo e freudismo. No texto, publicado na revista “Imprensa e revolução”, Reisner admitia
que a aplicação da teoria freudiana aos processos históricos poderia resultar numa vulgarização,
calcada na simples transposição dos processos psíquicos para os processos sociais. O autor
mencionava a obra de Avrel Kolnai (1900-1973), “Psicanálise e Sociologia” (1920), como um
exemplo deste tipo de simplificação. Segundo Kolnai – que foi utilizado por Iurinets para criticar
as aproximações realizadas entre o marxismo e o freudismo – o comunismo seria um estágio de
regressão social no qual as fantasias e demandas infantis seriam gratificadas. De acordo com
Reisner, o proletariado, para Kolnai, não era uma classe social, mas um símbolo coletivo do
desejo infantil reprimido de possuir a mãe (a terra) e matar o pai (o Estado). Como escapar deste
tipo de articulação na conjugação teórica entre o marxismo e a psicanálise?

Reisner procurava redefinir o que constituía a realidade material ao incorporar ambas as


correntes de pensamento em um único paradigma. No final das duas partes de seu texto, Reisner
propunha um programa investigativo que podia ser sintetizado da seguinte forma: 1) o fenômeno
das respostas de massa às forças externas, possuindo causas reais ou estímulos no mundo
material; 2) a expressão simbólica dos conflitos referentes aos assuntos da realidade social; 3) as
forças propulsoras do comportamento coletivo que emanam principalmente das pulsões dos
indivíduos. Assim, o paradigma proposto por Reisner visava expandir o conceito de sociedade ao
32
incluir nele a “realidade dos símbolos sociais”. Em síntese, o autor procurava expor as funções
sociais dos processos psíquicos.

Tal proposição era, também, uma resposta à afirmação de Bukhárin, que, segundo Reisner,
havia escrito que inexistiam “forças psíquicas” nas quais o comportamento coletivo, a motivação
individual e os símbolos sociais se articulavam para criar o movimento da história. Para Bukhárin,
existiam apenas os fenômenos sociais concretos, que se constituíam pelas forças produtivas,
pelas relações de produção e pela cultura (composta por normas e ideias). Reisner, combatendo
Bukhárin, enfatizava a dimensão individual e simbólica dos processos sociais.

32
Apud idem, p. 634.

12
Assim, o autor procurava mostrar as articulações possíveis entre os conflitos de classe e os
conflitos individuais inconscientes, a partir da noção de que o princípio de realidade, em um nível
social, poderia possuir uma dimensão saudável ou uma dimensão “destrutiva”, “patológica”. O
proletariado, segundo Reisner, estava submerso em uma subordinação maior do que a pensada
por Marx: além da exploração econômica proporcionada pela escravidão assalariada, ele estaria
submetido a uma situação de ilusão e de frustração. O problema da dominação ideológica,
portanto, era também um problema das identificações inconscientes mobilizadas pelas classes
dominantes para o exercício do poder. Reisner mencionava, por exemplo, como o czarismo
instrumentalizou as noções de família, religião e pátria para a manutenção da cadeia hierárquica
de dominação. Neste processo de identificação, as classes subalternas internalizavam a noção de
que os seus problemas, tanto os econômicos quanto àqueles referentes à repressão psíquica,
eram sanados por tais figuras de autoridade. 33

Na esteira do crescimento e da articulação dos freudianos, B.D. Friedman, psiquiatra e


colega de Luria, publicou um artigo no qual afirmava a existência de uma meta análoga entre a
teoria marxista e a teoria psicanalítica: o marxismo visava a satisfação das necessidades sociais e
34
a psicanálise objetivava a satisfação e a resolução das necessidades individuais. O artigo
suscitou uma série de resposta críticas que visavam deslegitimar a teoria freudiana. O artigo de
Friedman foi um dos últimos publicados em um jornal clínico russo por um freudiano
reconhecido, em que os termos psicanalíticos constituíam uma parte central da argumentação.
Seu artigo foi, também, um dos últimos textos publicados em uma revista de psiquiatria soviética
a discutir a homossexualidade e a bissexualidade.

33
Ver idem, pp. 633-635.
34
Ver MILLER, Martin. Freud y los bolcheviques, op cit, p. 140.

13
4. além da pulsão de morte?

A difusão das ideias de Freud foi intensa na primeira metade do decênio de 1920, assim
como os debates que ela suscitou. De que maneira, contudo, a psicanálise freudiana foi
apropriada pelos seus defensores soviéticos? Em 1925, “Além do Princípio do Prazer” foi
publicado na URSS, e a introdução ficou a cargo de Luria e Lev Vygotsky (1896-1934). Tal
introdução parece indicar uma leitura comum aos freudianos soviéticos sobre as relações entre
as noções de princípio de prazer e o princípio de realidade. No texto, Luria e Vygotsky colocavam-
se favoráveis à radicalidade do texto freudiano. Os autores iniciavam a introdução comentando
que a psicanálise freudiana era muito popular no país, entre os estudiosos e entre o público em
geral, e vislumbravam nesta difusão das ideias freudianas o surgimento de uma tendência

14
psicanalítica soviética capaz de conjugar a reflexologia pavloviana com a psicanálise, 35 em termos
similares aos desenvolvidos por Trotsky em 1923.

No texto referido, Luria e Vygotsky postulavam uma oposição radical – que constituía a
“dialética do organismo e o desenvolvimento ‘espiralado’ do ser humano” – entre as “tendências
36
biológicas conservadoras” (i.e., a pulsão de morte) e as influências “sociológicas progressistas”.
Tal oposição traduzia-se numa tensão entre o indivíduo e o meio-ambiente, o qual moldava o
princípio de realidade. Segundo os autores, a condição da reestruturação psíquica, portanto,
encontrava-se na mudança das condições históricas que informavam as demandas efetuadas
pelo princípio de realidade:

“(...) se a tendência biológica conservadora, que visa à preservação do equilíbrio


inorgânico, esconde-se nas camadas mais profundas da vida psíquica, como pode
ser explicado o desenvolvimento da humanidade das formas mais básicas às mais
elevadas? (...) Freud nos dá uma resposta profundamente materialista e
interessante. Segundo ele, se nos recantos mais profundos da psique humana
existem as tendências biológicas conservadoras (e, em última análise, até mesmo
Eros reside nesta região psíquica), então as únicas forças que podem nos impelir ao
progresso e à atividade são as forças externas ao indivíduo. Em nossos termos, isso
significa as condições materiais exteriores nas quais o indivíduo existe. Se são elas
que representam a verdadeira base do progresso, são elas que criam a
personalidade real dos indivíduos e nos fazem nos adaptar e construir novas
formas de vida psíquica. Portanto, são elas que nos fazem suprimir e sublimar os
vestígios da tendência biológica conservadora.” 37

35
LURIA, Aleksandr; VYGOTSKY, Lev. “Introduction to the Russian Translation of Freud’s Beyond the Pleasure
Principle”. Trad. Rene Van der Veer. In: VEER, Rene Van der (edit.). The Vygotsky Reader, Oxfor, Basil Blackwell, 1994,
p. 11.
36
“So, according to Freud, the history of the human psyche embodies two tendencies, the conservative-biological and
the progressive-sociological”. Cf. idem, p. 16.
37
“However, if the biological conservative tendency to preserve the inorganic equilibrium is concealed in the deeper
layers of psychic life, how can humanity’s development from lower to higher forms be explained? (…) Freud provides
us with a highly interesting and deeply materialistic answer, i.e. if in the deep recesses of the human psyche there
still remain conservative tendencies of primordial biology and if, in the final analysis, even Eros is consigned to it, then
the only forces, which may propel us toward progress and activity, are external forces, in our terms, the external
conditions of the material environment in which the individual exists. It is they that represent the true basis of
progress, it is they that create the real personality and make us adapt and work out new forms of psychic life; finally
they are the ones that suppress and transfer the vestiges of the old conservative biology” . Cf. idem, ibidem.

15
A interpretação realizada por Luria e Vygotsky do título do livro de Freud reforça a oposição
entre os “princípios biológicos conservadores” e as “forças externas”. Segundo eles, “é esta
tentativa da mente de superar as verdades previamente estabelecidas – a tentativa de ir além do
princípio do prazer – que é a força criativa por trás deste livro”. 38

Contudo, o dualismo proposto por Vygotsky e Luria inexiste no texto de Freud. Os autores
referidos parecem partir da noção de adaptação dos sujeitos: o princípio de realidade (postulado
como a cultura) modula, através de suas demandas externas, o “princípio de prazer”, apesar da
função conservadora da pulsão de morte. Tal esquema, fundamentado na noção de “progresso”
das sociedades, explicaria o desenvolvimento humano e a superação das pulsões, apesar da
compulsão à repetição ensejada pela pulsão de morte. Para Freud, entretanto, o “princípio de
realidade” é uma instância psíquica que funciona como um escudo contra a realidade externa, ao
39
invés de confundir-se com tal realidade. A noção de pulsão de morte é, também, distinta nas
abordagens de Freud e de Luria e Vygotsky, e revela dois modelos opostos de história. Para os
autores referidos, a transição dos modos de vida primitivos para os complexos realiza-se
mediante um modelo de temporalidade linear, na qual uma fase de desenvolvimento suplanta a
outra, num sentido progressivo. Para Freud, porém, o psiquismo escapa desta lógica. No
inconsciente não existe temporalidade ou progresso: a tendência à compulsão à repetição é
sempre uma tentativa fracassada de satisfazer pulsões primitivas. A transferência e a sublimação
são repetições que nunca são idênticas ao evento original reprimido e, também, não o superam –
40
o inconsciente caracteriza-se pela simultaneidade, e não pela sucessão. Para Freud, contudo, e
ao contrário do que afirmam Luria e Vygotsky, inexiste um “instinto universal em direção ao
desenvolvimento”. Segundo o pensamento do analista vienense, a sociedade é construída na
repressão. Paradoxalmente, é a compulsão à repetição, estruturada pela pulsão de morte, que
faz avançar a civilização. Com efeito, é notável que as tentativas soviéticas de articular Marx e
Freud coincidiam nesta cisão entre o princípio de prazer e o princípio de realidade, entre a pulsão
de vida e a pulsão de morte. Também Reisner, por exemplo, parecia tratar o princípio de

38
“It is this attempt of the mind to reach farther than this truth – beyond the pleasure principle – which was the
creative force behind this book”. Cf. LURIA, Aleksandr; VYGOTSKY, Lev. “Introduction to the Russian Translation of
Freud’s Beyond the Pleasure Principle”, op cit, p. 12.
39
“Sob a influência dos instintos de autopreservação do ego, o princípio de prazer é substituído pelo princípio de
realidade. Esse último princípio não abandona a intenção de fundamentalmente obter prazer; não obstante, exige e
efetua o adiamento da satisfação, o abandono de uma série de possibilidades de obtê-la, e a tolerância temporária
do desprazer como uma etapa no longo e indireto caminho para o prazer”. Cf. FREUD, Sigmund. “Além do princípio
de prazer”. In Obras completas Vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1996, p. 20.
40
Ver PROCTOR, Hannah. “A Country Beyond the Pleasure Principle…”, op cit, p. 170.

16
realidade como a própria realidade, ao invés tratá-lo como um dispositivo psíquico. Tal leitura
comum poderia indicar, efetivamente, uma apropriação particular das obras de Freud pelos
41
analistas e teóricos soviéticos.

De todo modo, as discussões sobre a pulsão de morte seguiram. Em 13 de maio de 1926,


um artigo discutindo o caso de uma paciente que se queimou até a morte foi entregue à
Sociedade Psicanalítica Russa. De acordo com Hannah Proctor, contudo, o “(...) autor do texto
pensou que o caso – de uma garota cujo impulso obsessivo a fez cometer suicídio queimando-se
– ilustrava uma operação isolada do instinto de destruição”. 42 A insistência do autor em defender
que tal caso tratou-se de um caso isolado é significativa. Ou ela apontaria que a pulsão de morte
não era compreendida como um fenômeno universal por tal analista, ou indicaria a existência de
uma espécie de censura sobre o tema. Também em 1926, o quadro “O balão voou”, de Sergei
Loutchichkine (1902-1989), foi censurado por retratar um suicida. No mesmo ano, o governo
censurou um roteiro do proeminente cineasta Serguei Eisenstein (1898-1956), intitulado “A Casa
de vidro” (1926), no qual também existia uma personagem suicida.

5. a construção do recalque

Na primavera de 1925, dois debates públicos sobre marxismo e freudismo ocorreram, e tais
43
debates evidenciavam o aumento da repressão aos freudianos. Parte da repressão explicava-se
pela política estatal de proibir as pesquisas sobre a sexualidade infantil, as quais remetiam,
segundo o governo, à Freud. 44 Em um dos debates, promovidos pela Academia Comunista, Luria,
Wulff e Reisner defenderam a teoria psicanalítica.

Apesar da repressão, os trabalhos do Instituto de Psicanálise permaneceram intensos entre


1925 e 1926. Segundo as atas do grupo, em 1925 ocorreram 31 reuniões da Associação
Psicanalítica Russa, as quais discutiram, por exemplo, o complexo de castração e as relações

41
Tatiana Zarubina aponta para a noção soviética acerca de um sujeito integral, ao contrário da noção freudiana de
sujeito cindido. Com efeito, tal concepção soviética era expressa no termo licnost (pessoa), frequentemente utilizado
pelos psicanalistas, ao invés de sub”ekt (sujeito). Ver ZARUBINA, Tatiana. La psychanalyse en Rusie dans les années
1920 et la notion de Sujet. Cahiers de l’ILSL, no. 24, 2008, p. 269.
42
“‘The writer thought that this case – that of a girl whom an obsessional impulse drove to commit suicide by burning
– illustrates the isolated operation of the destructive instinct’”. Cf. idem, p. 174
43
Ver MILLER, Martin. “Freudian Theory under Bolshevik Rule…”, op cit, p. 638.
44
Ver MILLER, Martin. Freud y los bolcheviques, op cit, p. 152.

17
entre Freud e Pavlov. No mesmo ano, Wulff foi eleito para integrar o comitê editorial do Jornal
45
Internacional de Psicanálise. Já em 1926, ocorreram 20 encontros da Associação, além de
muitas aulas e conferências em diversos institutos médicos e educativos de Moscou. Apenas o
número das publicações editadas por Ermakov apresentou uma queda substantiva. 46

As críticas teóricas à obra de Freud se intensificaram. Em 1926, foi publicado, na revista


“Sob a bandeira do marxismo”, o artigo do membro da Academia Comunista de Moscou I. D.
Sapir, intitulado “Freudismo e marxismo”. O artigo criticava a generalização das teses de Freud
para a análise social. Segundo Sapir, o erro metodológico de Freud foi presumir que o
inconsciente poderia ser explicado no nível individual, sendo que ele é necessariamente
produzido socialmente. De acordo com o autor, a ideia de inconsciente estaria presente,
inclusive, em textos de Engels e Lênin, postulados como o resultado de um conhecimento
47
insuficiente, inexistente ou distorcido sobre a natureza e a sociedade. Sapir, embora
reconhecesse que “a sociedade de classes é a fonte mais rica em influência traumáticas para a
psique”, 48 propunha a crítica da cultura capitalista, e não a análise de casos individuais que não
poderiam ser generalizados. Segundo o autor, ao não refletir sobre a cultura que produzia o
conjunto dos sintomas de seus pacientes, Freud não poderia apreender tais processos psíquicos
como iminentemente sociais e históricos.

Em dezembro, o estupro coletivo de uma jovem em Leningrado, realizado por 26 membros


do Komsomol (Juventude Comunista), foi instrumentalizado politicamente para atacar a teoria
sexual da bolchevique Alexandra Kollontai (1872-1952), a qual, segundo o governo,
supostamente incitava os crimes sexuais. Seis dos jovens acusados foram sentenciados a morte e
outros 19 foram presos. Tal fato repercutiu diretamente sobre as concepções acerca da teoria
freudiana, que passava a ser encarada como uma espécie de teoria da depravação que, assim
como os textos de Kollontai, poderiam perverter a juventude.

Zalkind, antes fiel defensor da psicanálise, passava a atacá-la. Em seu texto “Os doze
mandamentos“, formulou uma política de repressão que o governo poderia empregar para o

45
Ver idem, p. 143.
46
Ver idem, ibidem.
47
Ver MILLER, Martin. “Freudian Theory under Bolshevik Rule…”, op cit, p. 639. É curioso notar que o autor entende
por inconsciente, aparentemente, uma espécie de falta de esclarecimento, e não uma instância psíquica.
48
“(…) class society is the richest source of traumatizing influences on the psyche”. Cf. MILLER, Martin. “Freudian
Theory under Bolshevik Rule…”, op cit, p. 640.

18
combate às perversões sexuais, distanciando-se radicalmente de suas concepções anteriores. De
acordo com Martin Miller,

Zalkind radicalizava o seu moralismo ideológico descrevendo a conduta sexual


aprovada pelo comunismo. Em seu notório texto “Os doze mandamentos”, advertia
quanto aos perigos do matrimônio antes dos vinte anos, assegurava que as
mulheres (mas não os homens) desejavam permanecer monogâmicos e afirmava
que o sexo entre distintas classes sociais era uma forma de perversão sexual.
Zalkind chegou a citar casos específicos de “imoralidade” que deveriam ser
controlados. 49

Em 1927, Valentin Voloshinov (1895-1936) publicava, pela Editora Estatal, o livro “Sobre o
freudismo: um ensaio crítico”. Apesar de reconhecer o “giro copernicano” que Freud havia
operado com relação à compreensão da psique, 50 Voloshinov aderia às teses desenvolvidas por
51
Iurinets. Por outro lado, Ilyá Abramovich Perepel (1895-1964), um freudiano de Leningrado,
tentou publicar um livro em defesa da psicanálise, intitulado “Psiconeurologia soviética e
psicanálise: sobre a questão do tratamento e da profilaxia das neuroses na URSS”. Perepel
criticava, no texto, o sistema de saúde soviético e posicionava-se por uma nova política que
priorizasse a “liberdade individual para as massas de cidadãos soviéticos”, articulada à “medicina
da sociedade capitalista”, como parte da melhoria geral do sistema de saúde. Ao contrário de
Voloshinov, Perepel não conseguiu a aprovação da Editora Estatal para publicar seu livro e o
publicou clandestinamente. 52

49
“Zalkind llevo su moralismo ideologico mas lejos describiendo la conducta sexual aprobada por el comunismo. En
sus notorios “Doce mandamientos”, prevenia acerca del matrimonio antes de los veinte anos, aseguraba que las
mujeres (pero no los hombres) deseaban permanecer monogamos, y creia que el sexo entre distintas clases sociales
era una forma de la “perversion sexual”. Para lós lectores interesados, Zalkind llego a citar casos especificos de
“agotamiento moral” que era necesario controlar”. Cf. MILLER, Martin. Freud y los bolcheviques, op cit, pp. 159-160.
50
Voloshinov escreveu: “A vida psíquica, para os antigos psicólogos, era constituída de “paz e quietude”: tudo estava
em seu devido lugar, sem crises e sem catástrofes. Do nascimento à morte existia um caminho suave e estável em
direção ao progresso, constituído por um progressivo desenvolvimento mental, no qual a mentalidade do adulto
substituía a inocência infantil. Tal otimismo naive da psicologia era a tônica da psicologia pré-freudiana” (“Mental life
for the old psychologies was all “peace and quiet”: everything put right, everything in its place, no crises, no
catastrophes; from birth to death a smooth, straight path of steady and purposive progress, of gradual mental
growth, with the adult's consciousness of mind coming to replace the child's innocence. This naïve psychological
optimism is a characteristic of all pre-Freudian psychology.”). Apud PROCTOR, Hannah. Revolutionary thinking, op
cit, p. 62.
51
Ver GRILLO, Sheila Vieira de Camargo. “Marxism, Psychoanalysis and Sociological Methods…”, op cit., p. 76.
52
Ver MILLER, Martin. Freud y los bolcheviques, op cit, p. 151.

19
Trotsky, divergindo da maioria do Partido, saiu em defesa da psicanálise no artigo “Cultura e
Socialismo”, publicado em Janeiro de 1927 na revista Novyi mir. Ele escreveu:

A tentativa de dar as costas à teoria freudiana e declarar a psicanálise como


incompatível com o marxismo é simplista. Porém, não somos obrigados a aceitar o
freudismo. Ele é uma hipótese de trabalho que pode produzir – e efetivamente
produz – deduções e conjecturas que se alinham com uma psicologia materialista.
Os procedimentos empíricos poderão provar tais conjecturas. Entretanto, não
temos o direito de banir os procedimentos que, embora soem menos confiáveis,
procurem antecipar as conclusões que os procedimentos empíricos tentam
formular. 53

Freud não estava alheio ao processo repressivo que se desenvolvia na URSS. Em uma carta à
Ossipov, datada de 23 de fevereiro, ele escreveu que:

A psicanálise na União Soviética está, aliás, passando por maus bocados. Por algum
motivo, os bolcheviques concluíram que a psicanálise é hostil ao sistema soviético.
Você sabe, com efeito, que a nossa ciência não pode ser posta a serviço de partido
algum, mas que precisa de liberdade para se desenvolver. 54

Pouco após a carta de Freud, em 7 de abril, Luria renunciou ao cargo de secretário da


Associação Psicanalítica Russa, em resposta ao coro antipsicanalítico engendrado no Instituto de
Psicologia onde trabalhava. Vera Schmidt o substituiu no cargo. 55

Em uma carta de 24 de agosto de 1927 a Max Eitingon (1881-1934), a psicanalista Sabina


Spielrein (1885-1942), que retornara à Rússia em 1923, declarava que:

53
“The attempt to declare psychoanalysis" incompatible" with Marxism and simply turn one's back on Freudism is too
simple, or, more accurately, too simplistic. But we are in any case not obliged to adopt Freudism. It is a working
hypothesis which can produce, and undoubtedly does produce, deductions and conjectures which proceed along the
lines of materialist psychology. The experimental procedure will in due course provide the tests for these conjectures.
But we have no grounds and no right to put a ban on the other procedure which, even though it may be less reliable,
nevertheless tries to anticipate the conclusions toward which the experimental procedure is itself advancing rather
slowly”. Apud MILLER, Martin. “Freudian Theory under Bolshevik Rule…”, op cit, p. 644.
54
“The [psycho-] analysts in Soviet Russia are, by the way, having a bad time. From somewhere the Bolsheviks have
caught the opinion that psychoanalysis is hostile to their system. You know the truth that our science is not able to be
put into the service of any party, but that it needs a certain liberalmindedness (Freiheitlichkeiint ) turn for its own
development”. Apud idem, p. 641.
55
Ver MILLER, Martin. Freud y los bolcheviques, op cit, p. 149.

20
O interesse pela psicanálise está muito difundido aqui [no Cáucaso Setentrional],
mas de maneira superficial. “Não se tem tempo” para se dedicar ao assunto porque
interesses mais essenciais e “práticos” estão no caminho. O representante oficial
da psiquiatria clínica em Rostov-sobre-Don valoriza as realizações da psicanálise,
mas adverte contra os “exageros” na esfera da sexualidade. (...) é o destino da
análise – compreensível do ponto de vista das pulsões – sempre suscitar resistência
onde se exibe a maior paixão. Assim, na Rússia, nós nos defrontamos com uma
resistência completamente não justificada, que é totalmente desconhecida no
estrangeiro; é o medo de que a psicanálise, “produto do sistema capitalista”, vá
contra os interesses das classes trabalhadoras. A psicanálise é acusada de remontar
tudo à sexualidade e, dessa forma, negar as realizações de Marx, que, como se
sabe, deriva tudo das condições sócio-econômicas. Há um grande erro aqui que
não pode ser esclarecido em um par de linhas: os ensinamentos de Freud e Marx
não devem excluir um ao outro e podem coexistir perfeitamente bem. Muitos de
nossos colegas, como o Prof. Reisner, o jovem Prof. Luria, a Dra. Rosenthal e outros
já falaram e escreveram sobre isso. (...) O Prof. Wulff e o Prof. Luria têm uma feroz
batalha para travar. Finalmente, eu mesma senti a necessidade de ministrar uma
conferência, na Sociedade de Neurologia e Psiquiatria local, sobre a reflexoterapia
e a psicanálise. Nela, mostrei quão pouco há de subjetivo e místico no ensino de
Freud e quanto uma boa parte do ensinamento de Freud encontra confirmação na
psicologia biológica ou “reflexologia”. 56

O cenário descrito por Spielrein era desolador para os psicanalistas freudianos. Contudo, até
1929 era possível rastrear alguns posicionamentos em defesa da teoria freudiana. Em dezembro
deste ano, por exemplo, Eisenstein declarou-se freudiano em uma entrevista concedida para a
57
revista “Cinemonde”. Porém, a defesa mais explícita de Freud no período referido parece
56
Apud CROMBERG, Renata Udler. “Psicanálise na Rússia”, op cit., pp. 93-94.
57
“Eisenstein: ‘Nós temos uma posição errada quanto aos símbolos. É falho supor que o símbolo é algo sem vida. O
poder da simbolização é sempre um poder vivo, pois pertence à essência do aparato sensório humano’. Jornalista:
‘Então você é freudiano?’. Eisenstein: ‘Sem dúvida. Sendo que todo homem simboliza sem perceber, é o papel dos
filmes tirar as consequências deste fato. Não é o símbolo constituído que me atrai, mas o processo de constituição
do símbolo’”. (“Eisenstein: We have an erroneous position in the notion of the symbol. It is wrong to claim that the
symbol is something lifeless. The power of symbolizing is always a living power, since it pertains to the essence of
human sensory reaction. Journalist: Ahah! So you’re Freudian? Eisenstein: No doubt. Since every man symbolizes
without noticing it, film must drawn the consequences. It is not the symbol that has arisen that interests me, but the
symbol arising.”). Cf. ALBERA, François (introd.). Sergei Eisenstein, Wilhelm Reich. Correspondence. Trad. Ben
Brewster. Screen, 22, 4, 1981, p. 80. Desde 1927, a influência das ideias de Freud no cinema eisensteiniano era

21
encontrar-se no artigo de Spielrein intitulado “Sobre a palestra do Dr Skalkovsky”, texto
apresentado no I Encontro de Psiquiatras e Neuropatologistas do Cáucaso Setentrional.
Aparentemente, este é o único texto publicado por ela em russo. Nele, Spielrein enfatizava a
abordagem crítica e cultural de Freud e realizava uma defesa do psicanalista vienense, afirmando
que sua doutrina era muito mais ampla que a de todos os seus seguidores e críticos. Spielrein
apontava para a necessidade de analisar o recalcado e suas representações, procurando
fundamentar a noção de “psicanálise abortiva” – uma análise na qual, por conta do breve tempo
do tratamento prescrito pelos ambulatórios, apenas alguns grupos de representações recalcadas
eram analisados. Segundo Spielrein:

A doutrina de Freud é mais ampla que as doutrinas de todos os seus inimigos e


seguidores. Há décadas, Freud definiu a neurose como uma inaptidão social e como
uma tentativa malsucedida de contato com o meio ambiente. Freud, por vezes,
disse que seria possível resguardar várias pessoas da neurose caso fosse possível
modificar o contexto social que estimula o recalcamento. (...) dentre esses fatores
[bio, fisio e sociogênicos], a influência dos fatores sociogênicos se mostra, para o
psicanalista, objeto de estudo capital. 58

Seria possível que Spielrein estivesse convocando a audiência e os leitores para o estudo das
condições sociais do país? No mesmo ano, em agosto, Wilhelm Reich (1897-1957) viajava à URSS
para uma visita de dois meses. Ele deu uma palestra na Academia Comunista, posteriormente
publicada com o título de “Psicanálise na União Soviética”, na qual afirmava que a prática

reconhecida. Conforme relatado pelo jornalista americano Joseph Freeman (1897-1965), em 1927, o artista
construtivista Sergei Tretiakov (1892-1937), pretendendo escrever uma nota sobre Eisentein, pretendia enfatizar a
enorme influência de Freud. De 1929 em diante, porém, Eisenstein iniciou um processo de distanciamento das
teorias freudianas. Em 1934, em uma carta a Wilhelm Reich, Eisenstein criticava o reacionarismo da psicanálise.
Contra a suposta tentativa de estabelecimento de normas pela psicanálise, ele escreveu que “os limites entre o
normal e o patológico não podem ser traçados” (“‘the boundary between the normal and the pathological cannot be
drawn’”). Apud PROCTOR, Hannah. Revolutionary thinking, op cit, p. 263. Reich escreveu a Eisenstein procurando
colaboração para pensar as relações entre o cinema e a psicanálise e, sobretudo, questionando Eisenstein acerca das
possibilidades de formulação de uma política cultural revolucionária que abarcasse o campo sexual. Reich menciona
alguns filmes soviéticos para exemplificar a “estética do orgasmo” que ele propunha: “Cama e sofá” (Abraam Room,
1927), “A estrada para a vida” (Nikolai Ekk, 1931), “Terra” (Aleksandr Dovchenko, 1930) e “Encouraçado Potemkin”
(Eisenstein, 1925). Eisenstein, em sua resposta a Reich, reprovava-lhe a centralidade da sexualidade na teoria do
psiquismo. O sexual, segundo ele, ainda que decisivo, não era mais do que um dos aspectos das manifestações
psíquicas. Assim, para Eisenstein, “a forma como os relacionamentos são representados pela psicanálise nega o real
estado das coisas” (“the form of the relashionships as represented by psychoanalysis denies the real state of affairs” ).
Apud ALBERA, François (introd.). Sergei Eisenstein, Wilhelm Reich..., p. 86.
58
SPIELREIN, Sabina. “Sobre a palestra do Dr Skalkovsky”. In: SOUZA, Paulo Sérgio (org.). A psicanálise e os lestes. São
Paulo: Annablume, 2017, pp. 151, 154.

22
59
psicanalítica crescia no país, viabilizada pelo governo e pelo processo revolucionário. Wulff
criticou publicamente as posições de Reich, associando-as ao discurso estatal:

O leitor que espera encontrar no artigo [de Reich] uma descrição objetiva da
presente situação e do desenvolvimento histórico da psicanálise na Rússia ver-se-á
profundamente decepcionado. A publicação de Reich é, fundamentalmente, uma
tentativa de adaptar a psicanálise aos desejos e às exigências de seus críticos
comunistas, visando fazê-la parecer mais aceitável deste ponto de vista. Porém, a
psicanálise sofreu muito com tal intenção, e foi mutilada a tal ponto que apenas
uma parte dela hoje ainda merece o nome de psicanálise. A situação real dela na
União Soviética é bastante simples e de modo algum excepcional. O destino dela é
compartilhado, por exemplo, pela teoria da relatividade, a teoria quântica, a
fenomenologia, a teoria gestáltica, a filosofia, a psicologia moderna e até mesmo a
biologia... Cada novo pensamento, cada ideia, cada novo descobrimento teórico ou
científico é recebido com a maior desconfiança e suspeita. Não surpreende,
portanto, que a psicanálise, que suporta o juízo do tribunal do Partido, não esteja
livre da culpa. Poder-se-ia dizer que um forte movimento psicanalítico tinha
condições de surgir na Rússia, caso não tivesse se chocado com a enérgica oposição
das autoridades. Porém, o que Reich escreveu não é mais do que a opinião do
Partido Comunista que governa a URSS, e é este o título que o ensaio dele deveria
ter recebido. 60

Além da palestra, Reich publicou, no jornal “Sob a bandeira do marxismo”, o artigo


“Dialética materialista e psicanálise”. O ensaio era uma crítica à noção estabelecida por Freud

59
MILLER, Martin. “Freudian Theory under Bolshevik Rule…”, op cit, p. 641.
60
“El lector que piensa que hallara en el articulo [de Reich] uma descripcion objetiva de la presente situacion o del
desarrollo histórico del psicoanalisis en Rusia, se vera profundamente decepcionado en sus expectativas. La
publicacion de Reich es, basicamente, solo un intento de adaptar el psicoanalisis a los deseos y exigências de sus
criticos comunistas a fin de hacerla mas aceptable desde su punto de vista. Pero el psicoanalisis ha sufrido mucho con
el intento, y tan gran parte de este ha sido sacrificado que apenas merece el nombre de psicoanalisis... La situacion
real en la Union Sovietica es bastante simple, y de ninguna manera excepcional. El destino [del psicoanalisis] es
compartido, por ejemplo, por la teoria de la relatividad, teoria cuantica, la fenomenologia, la teoria gestaltica, la
filosofia y la psicologia modernas, y hasta la biologia... Cada nuevo pensamiento, cada idea, cada nuevo
descubrimiento teórico cientifico es recibido con la mayor desconfianza y sospecha... y no resulta sorprendente que el
psicoanalisis, que soporta el juicio de este estricto tribunal del Partido, no podria encontrarse libre de toda culpa,.. Se
puede decir con certeza que un movimiento psicoanalitico fuerte y productivo podria desarrollarse en Rusia si no
chocara con la mas energica oposicion de las autoridades. Pero lo que Reich ha descripto es la opinion del Partido
Comunista gobernante de La U.R.S.S., y este es el titulo que el presente ensayo debia haber tenido”. Cf. MILLER,
Martin. Freud y los bolcheviques, op cit, p. 155.

23
sobre a pulsão de morte. Nele, Reich propunha que a pulsão de morte era elaborada como uma
resposta ao princípio de prazer, ao invés de precedê-lo. Reich aproximava-se, assim, do
argumento de Luria e Vygotsky, ao opor o princípio de realidade (mundo social) ao princípio de
prazer (realidade psíquica):

O princípio de realidade, tal como existe hoje, é o principio de nossa sociedade. O


princípio de realidade da época capitalista impõe sobre o proletariado uma
limitação gigantesca de suas necessidades, ao mesmo tempo em que apela aos
valores religiosos, como modéstia e humildade. (...) Tudo isto é fundado nas
condições econômicas e a classe dominante possui um princípio de realidade que
61
serve à perpetuação de seu poder.

Em 1930, foi publicada a última obra de Freud durante o período stalinista na URSS: “O
futuro de uma ilusão”, traduzida e editada por Ermakov. O prefácio, também a cargo de Ermakov,
associava a psicanálise aos valores da pequena burguesia, o que talvez indique as pressões
políticas impostas aos analistas. No livro, publicado originalmente em 1927, Freud definia o
campo religioso como uma ilusão, na qual eram projetadas e realizadas as fantasias infantis
reprimidas dos sujeitos. 62 A crítica de Freud, aliás, parecia assemelhar-se às críticas estabelecidas
por Reisner, quatro anos antes, sobre a adesão das massas às práticas religiosas. Freud chegava,
63
com efeito, a definir a religião como a “neurose obsessiva universal da humanidade”, tal como
Reisner o fizera.

No texto, Freud associava, em dois momentos, a ilusão religiosa à ilusão estatal. Contudo,
julgando-se inapto a analisar o processo revolucionário russo, apenas o menciona brevemente e
indica, não obstante, a necessidade da superação da cultura das sociedades burguesas. 64Porém,
61
“(…) the reality principle as it exists today is only the principle of our society […] the reality principle of the
capitalist era imposes upon the proletarian a maximum limitation of his needs while appealing to religious values,
such as modesty and humility[…] All this is founded on economic conditions; the ruling class has a reality principle
which serves the perpetuation of its power”. Apud PROCTOR, Hannah. Revolutionary thinking, op cit, p. 72.
62
Em “O futuro de uma ilusão”, Freud definia ilusão da seguinte maneira: “(...) chamamos uma crença de ilusão
quando se destaca em sua motivação o cumprimento de desejo, ao mesmo tempo em que não levamos em conta
seu vínculo com a realidade”. Cf. FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. Trad. Renato Zwick. Porto Alegre: L&PM,
2010, p. 86.
63
Idem, p. 109.
64
Freud escreveu, sobre a Revolução Russa, que “(...) quero assegurar expressamente que não tenho interesse em
julgar o grande experimento cultural que está sendo feito atualmente na vasta nação situada entre a Europa e a Ásia.
Não possuo o conhecimento de causa ou a capacidade para julgar sua exequibilidade, examinar a adequação dos
métodos empregados ou medir a extensão do inevitável abismo entre as intenções e sua realização. Por estar
incompleto, o que lá está em preparo escapa a considerações para as quais a nossa cultura, há tempos consolidada,
oferece o material”. Sobre a cultura burguesa, Freud escreveu: “Não se deve, pois esperar uma interiorização das

24
em uma carta do final do decênio de 1920, Freud era incisivo na crítica ao stalinismo e
comparava o bolchevismo a uma ilusão, tal qual fizera com o campo religioso. Ele escreveu que:

“Apesar de toda a minha insatisfação com o sistema econômico atual, eu não


possuo esperança alguma de que a estrada percorrida pelos soviéticos levará a
qualquer tipo de melhoramento. Com efeito, toda e qualquer esperança que eu já
tive quanto a eles desapareceu ao longo de uma década de poder soviético. (...)
Nós fomos privados de uma esperança - e uma ilusão - e não recebemos nada em
troca”. 65

O último relatório de Vera Schmidt sobre as atividades da Sociedade Psicanalítica Russa data
de 1930, no qual ela relata que, em 17 de fevereiro, Friedman discutiu as críticas à psicanálise
feitas no Primeiro Congresso de Psicólogos de toda a União Soviética. De acordo com Schmidt,
66
dentre os psicólogos que lá estavam, nenhum deles defendeu Freud. Em julho de 1931, após o
Congresso referido, a Sociedade Psicanalítica Russa foi dissolvida.

proibições culturais entre os oprimidos; pelo contrário, eles não estão dispostos a reconhecer estas proibições, antes
estão empenhados em destruir a própria cultura e, eventualmente, até em abolir os seus pressupostos. (...) Não é
preciso dizer que uma cultura que deixa insatisfeito um número tão grande de membros e os incita à rebelião não
tem perspectivas de se conservar perpetuamente, nem o merece”. Cf. Idem, pp. 43; 49.
65
“In spite of all my dissatisfaction with the present economic system I have no hope that the road pursued by the
Soviets will lead to improvement. Indeed any such hope that I may have cherished had disappeared in this decade of
Soviet rule. (…) “We have been deprived by it of a hope – and an illusion – and we have received nothing in
exchange”. Apud PROCTOR, Hannah. “A Country Beyond the Pleasure Principle…”, op cit, p. 178.
66
Ver CROMBERG, Renata Udler, “Psicanálise na Rússia”, op. cit.

25
6. o “homem máquina” e a apologia do trabalho

Até 1927, as intervenções do Partido referentes ao estudo do psiquismo e do cérebro


pareciam ainda restringir-se às críticas das teorias existentes. Porém, a partir de 1928, com a
promulgação do Primeiro Plano Quinquenal, evidenciavam-se as tentativas de formulação de um
projeto teórico stalinista sobre a psique.

No Primeiro Congresso de Pedologia, organizado por Zalkind com o apoio institucional de


Anatóli Lunatcharsky (1875-1933), Krupskaia e Bukhárin, explicitava-se o intuito partidário da
67
produção de um “novo homem”. Bukhárin, em seu discurso, afirmou que “nós não devemos
desperdiçar nossas forças em tagarelices abstratas, mas nos esforçar para produzir, em curto
prazo, certo número de trabalhadores qualificados, que sejam como máquinas, as quais nós
68
poderemos acionar imediatamente e colocá-las em funcionamento”. O Congresso, que teve
3000 delegados, votou pela fundação do jornal “Pedologia” e elegeu Zalkind como o presidente
da Comissão de Planejamento de Pesquisas em Pedologia. No mesmo ano, era publicado o
67
Ver BAUER, Raymond. The New Man in Soviet Psychology, Cambridge, Harvard University Press, 1952, pp. 80-81.
68
“We need to direct our strength not into abstract chatter, but into an effort to produce a certain number of living
workers in the shortest time frame; qualified, specially schooled machines that we can start up right away and set
into motion”. Apud PROCTOR, Hannah. Revolutionary thinking, op cit, p. 145.

26
primeiro número do jornal “Psicofisiologia do trabalho e psicotécnicas”, que objetivava
desenvolver técnicas de treinamento mental para a elevação da produtividade nas indústrias.
Constituíam-se, portanto, dois campos de atuação para o Partido: o estudo do desenvolvimento
psíquico infantil e o condicionamento para o trabalho.

No Primeiro Congresso sobre o Comportamento Humano, realizado em Janeiro de 1930 e


organizado pela Sociedade dos Psiconeurologistas Materialistas da Academia Comunista, era
69
“oficializado” um modelo psíquico centrado nas motivações e na consciência dos indivíduos. O
Congresso deliberou pela irredutibilidade da psique à fisiologia (ou seja, pela constituição da
psicologia como campo disciplinar autônomo) e pelo papel decisivo da consciência na ação
70
humana. Tal modelo psíquico era elaborado em direta oposição às tópicas freudianas e às
relações que elas estabeleciam entre o consciente e o inconsciente. Um palestrante do
Congresso, por exemplo, afirmou que “a atividade consciente, como a forma mais elevada da
71
atividade psíquica, inclui formas psíquicas baixas, inconscientes”. Zalkind, contudo, era ainda
mais direto, e afirmava que o modelo freudiano não era útil para a construção socialista:

Suponhamos que nos tenha sido dada a tarefa de estudar a criança ou o adulto em
uma instituição composta por freudianos. Como tal coletivo de analistas
empreenderia a tarefa referida? Para Freud, o homem existe inteiramente no
passado. Tal passado está em guerra com o presente, e é mais forte do que ele.
Para Freud, a personalidade dos homens “gravita” em torno deste passado, e as
tentativas de combater tal passado levam a uma tragédia profunda. Para Freud, o
consciente é subordinado ao inconsciente. Para Freud, os homens são preservados
dos imperativos sociais mediante a construção de uma estratégia de
comportamento criada em seus mundinhos privados. Para Freud, o homem é um
títere de suas forças internas, elementares. Quais tipos de resultados nós teríamos
destas premissas? Como poderíamos usar a concepção freudiana de homem para a
construção socialista? Nós precisamos, pelo contrário, de um homem socialmente
“aberto”, que possa ser facilmente coletivizado, e rápida e profundamente
transformado em seus comportamentos. Nós precisamos de um homem que seja
capaz de ser estável, plenamente consciente e independente, além de treinado
69
Ver BAUER, Raymond. The New Man in Soviet Psychology, op cit, p. 92.
70
Ver idem, p. 95.
71
Apud MILLER, Martin. Freud y los bolcheviques, op cit, p. 170.

27
política e ideologicamente. O “homem freudiano” responde a tais demandas da
construção socialista? Da instituição composta por freudianos, nós teríamos, de
seus estudos sobre o comportamento humano, apenas algumas afirmações muito
“significativas”, tais como as de que os homens escolhem “inconscientemente” e a
de que o passado dirige as suas vidas. 72

O Primeiro Congresso sobre o Comportamento Humano foi preparado desde 1929,


73
mediante a realização, pelo país, de Seminários Marxistas. Apesar da ampla participação no
Congresso (3000 pessoas em Leningrado durante três semanas), o evento não foi noticiado pelo
Pravda ou pelo Izvestiia. A falta de notícias evidenciava uma mudança na linha partidária, que
passava a esperar da neurofisiologia, mais do que da psicologia, a formulação de uma teoria
marxista da psique. Existiram, inclusive, pavlovianos no Congresso, porém as suas intervenções
não foram incluídas nos anais. A única liderança do alto-escalão a participar do evento foi
Lunatcharsky, que havia acabado de perder seu posto como Comissário da Educação e da
74
Cultura. Ele discursou sobre a psicologia da arte. O suposto redirecionamento do Partido à
neurologia evidenciava-se no livro de A. Storialov, “O materialismo dialético e os mecanicistas”
(que teve cinco edições em 1930), publicado após o Congresso. Storialov, além de incentivar a
perseguição estatal aos freudianos, denunciava os comunistas que haviam sido difusores da obra
de Freud na URSS, como Reisner, A. Variash e, inclusive, o organizador do Congresso sobre o
Comportamento Humano, Zalkind. 75

Apesar da pouca repercussão na imprensa, o Congresso referido elaborou o movimento


pela saúde mental, que desempenhou um papel crítico decisivo no país, possivelmente a
contragosto dos psicólogos associados ao regime, como Zalkind. Tal movimento visava responder
72
“Suppose we receive the assignment of studying the child or the adult in an institution composed of Freudians. How
would this collective of Freudians carry out their assigned task? Now, for Freud, man exists entirely in the past. This
past is at war with the present, and it is more powerful than the present. For Freud, the personality poses an
elemental gravitation toward the past, and attempts to fight the past from the standpoint of the present lead to
profound tragedy. For Freud, the conscious is subordinate to the unconscious. For Freud, man is preserved from the
demands of the society in a private little world in which he constructs a special strategy of behavior. For Freud, man is
a pawn of internal, elemental forces. What sort of results will we get…? How can we use the Freudian conception of
man for socialist construction? We need a socially “open” man who is easily collectivized, and quickly and profound
transformed in his behavior – a man capable of being a steady, conscious, and independent person, politically and
ideologically well trained. Does the “Freudian Man” meet the demands of the task of socialist construction?... From
such an institution composed of Freudians, we would get from their study of human behavior such very “significant”
statements as that man selects “unconsciously”, and that the past directs all of his behavior”. Apud BAUER,
Raymond. The New Man in Soviet Psychology, op cit, p. 99.
73
Ver JORAVSKY, David. “The Construction of the Stalinist Psyche”, op cit, p. 122.
74
Ver JORAVSKY, David. “The Construction of the Stalinist Psyche”, op cit, p. 122.
75
Ver MILLER, Martin. Freud y los bolcheviques, op cit, p. 173.

28
aos problemas de saúde mental manifestados pela população, registrados por muitos psicólogos
e psiquiatras, que denominavam tais diagnósticos de distintas maneiras: “neurastenia em
massa”, “’esquizoidização’ em massa’, “massificação dos sintomas autistas” e “exaustão
76
soviética” (Soviet iznoshennost). De toda maneira, existia um consenso no meio clínico a
respeito do aumento exponencial dos fenômenos de exaustão mental, apatia e de perda da
capacidade de trabalhar entre os jovens. Os psiquiatras também notavam os problemas
específicos desenvolvidos pelos militantes que mudaram do trabalho manual para o trabalho
intelectual, manifestados por medos de inadequação social. Os jornais iniciaram, por influência
do movimento pela saúde mental, uma campanha contra as más condições dos hospitais e contra
o espancamento de doentes mentais pela população rural. 77

Tal movimento parece ter sido o último respiro crítico no campo da psiquiatria. A repressão,
com efeito, veio rápida. Por medo dela, o psiquiatra Pyotr Gannushkin (1875-1933) afirmou que
78
publicou seus artigos sobre “invalidez juvenil” em jornais de pouca circulação. Os alunos de
Gannushkin, inclusive, insistiram, no Congresso sobre o Comportamento Humano, que o
professor não queria, com seus estudos, criticar o processo revolucionário. Em fevereiro de 1930,
a revista “Revolução e Cultura”, vinculada ao Comitê Central do Partido, abriu espaço para que
Gannushkin explicasse sua pesquisa. Ele afirmou, no artigo “Protegendo a saúde dos militantes
do Partido”, que o movimento pela saúde mental não questionava a noção de que o trabalho sob
o socialismo tinha um caráter revigorante, em oposição ao trabalho no capitalismo. 79

Analogamente, o livro “Trud, byt i zdorov’e partiinogo aktiva” (1931), do psiquiatra Leon
Rokhlin (1903-1984), sintetizava os resultados de cinco estudos sobre saúde mental entre os
militantes bolcheviques. Os resultados apresentados por ele indicavam que a porcentagem dos
militantes sofrendo de neuroses variava entre 41,5% e 88,7%. 80 A radicalidade do movimento era
tamanha que alguns psiconeurologistas chegaram a usar o termo “exploração” para referir-se às
81
jornadas de trabalho dos operários. Em resposta, o Comissário da Saúde, Mikhail Vladimirskii
(1874-1951), disse, em uma Conferência sobre educação médica realizada em 1931, que seria um
erro publicar estudos como os de Gannushkin ou Rokhlin. 82
76
JORAVSKY, David. “The Construction of the Stalinist Psyche”, op cit, p. 113.
77
Ver idem, p. 114.
78
Ver idem, p. 115.
79
Ver idem, ibidem.
80
Ver idem, p. 271.
81
Ver idem, p. 118.
82
Ver idem, p. 115.

29
No mesmo ano, S. I. Subbotnik – um dos líderes do movimento pela saúde mental –
desculpou-se publicamente, no artigo “Por uma ofensiva bolchevique no front teórico da
psiconeurologia”, pela afirmação que ele havia feito em outro artigo, de que a inspiração
socialista reduzia a sensação de fadiga. A inspiração socialista reduzia, segundo a retratação de
83
Subbotnik, a própria fadiga. O autor, no texto referido, atacava outros psiquiatras que
analisavam a exaustão do proletariado. Referindo-se a V. Dekhterev, Subbotnik escreveu que
“apenas um inimigo consciente ou inconsciente da construção socialista poderia escrever, como
um especialista fez, que os militantes que passaram do trabalho manual ao intelectual
84
apresentaram problemas especiais”. Subbotnik criticava também a ideia de “exaustão
soviética”, desenvolvida por Vassili Giliarovskii (1875-1959):

“A chamada ‘exaustão soviética’ não existe na realidade. O que existe é meramente


uma mania reacionária pela qual estão tentando colocar o proletariado contra o
seu tempo revolucionário ao semear o medo acerca de supostas dificuldades e,
assim, frear o nosso movimento. Toda a teoria do Professor Giliarovskii é uma
teoria da restauração burguesa”. 85

A ênfase na formação de trabalhadores capacitados para a elevação da produtividade,


assim, substituía o diagnóstico das pesquisas clínicas. No artigo “Resultados da discussão sobre o
front da ciência natural e a luta nos dois fronts da medicina” (1931), N. I. Grashchenkov, um dos
líderes do Partido no front da psiconeurologia, afirmou que

No nosso país, o movimento [pela saúde mental] deve ser um instrumento para
mobilizar as massas para a execução das tarefas de construção. Ele deve ser um
instrumento para criar uma personalidade que condiga com as demandas da nossa
sociedade socialista. 86

83
Ver idem, p. 116.
84
"Only a conscious or subconscious enemy of socialist construction could write, as another speciaJist had, that
activists transferred from manual to mental labor experienced special problems”. Apud idem, p. 116.
85
“So-called "Soviet exhaustion [iznoshennost']" does not exist in reality. What exists is merely a reactionary mania
[bred], by which they are trying to pit the proletariat against its revolutionary tempos, and by sowing fear of non-
existent difficulties to hold back our movement forward. This whole theory of Professor Giliarovskii is a theory of
bourgeois restoration.” Apud. idem, p. 116.
86
"In our country the movement must be an instrument for mobilizing the masses for the execution of the tasks of
construction, an instrument for creating a personality that fully meets the requirements of socialist society” Apud
idem, ibidem.

30
Devido à intensa perseguição, o movimento pela saúde mental terminou em 1931, um ano
após a sua fundação. Com efeito, um artigo de 1933 sintetizava a linha partidária adotada desde
1930. No texto “Os sucessos da neuropatologia soviética ao longo dos últimos 15 anos”,
publicado na Sovetskaia nevropatologiia, psikhiatrii i psikhogigiena, o psiconeurólogo M. B. Krol
(1879-1939) afirmou que a saúde mental dos trabalhadores estava assegurada pela dedicação ao
trabalho, fundamentada nas noções de honra, heroísmo e glória; e pela participação dos
trabalhadores no processo político. Eram estes os melhores meios de garantir o bem-estar do
proletariado. Segundo Krol, o papel dos psiconeurologistas, então, deveria se restringir à
proposição de atividades, como a calistenia, nos intervalos das jornadas de trabalho. 87

87
Ver idem, ibidem.

31
7. a psicologia como dispositivo repressivo e a construção do imaginário stalinista

Assim como a psiquiatria e a psicanálise, a psicologia também foi alvo de uma intensa
perseguição por parte do governo. Entretanto, diferentemente da psiquiatria, que enfatizou os
danos psíquicos provocados pela exploração do trabalho, ou da psicanálise, que procurou
elaborar uma leitura dos processos sociais soviéticos que incorporasse a dimensão psíquica do
inconsciente, a psicologia parece ter contribuído decisivamente para a construção de um
imaginário social alinhado aos interesses governamentais.

Em 1930, em um artigo publicado na “Vrachebnaia Gazeta”, Zalkind afirmou que a luta pelo
marxismo na psicologia começou em 1919 e se intensificou em 1922, na sessão de psicofisiologia
do Instituto de Educação Comunista, que foi criado pela iniciativa do APO-Tsk, ou seja, pela
divisão de agitprop do Comitê Central. 88 Segundo David Joravsky, esta foi a primeira vez em que
foi estabelecida a relação entre o agitprop e a noção de uma psicologia marxista. Com efeito, boa
parte da psicologia soviética parece ter servido aos interesses de agitação partidária, além de ter
contribuído na perseguição estatal. Tomemos, como um exemplo expressivo, as investigações
sobre a psicologia infantil.

Em 1929, dos 42 estudos empíricos ou discussões metodológicas publicados na revista


“Pedologia”, dezoito deles centravam-se nos efeitos do ambiente para o desenvolvimento
89
infantil. No mesmo ano, a revista referida publicou os resultados das pesquisas com crianças
siberianas. Os psicólogos que conduziram as pesquisas estavam interessados no impacto das
políticas educacionais soviéticas na cognição infantil. Os testes com as crianças focavam no
reconhecimento de determinados significantes. Assim, segundo tais pesquisas, 89% das crianças
da aldeia Tungus, reconheceram “corretamente” o retrato de Lênin e declararam que “ele fez
tudo”. Porém, um artigo publicado em 1930 comentava que

88
Ver idem, p. 269.
89
Ver BAUER, Raymond. The New Man in Soviet Psychology, op cit, p. 84.

32
As crianças possuem uma noção vaga sobre a URSS. Poucas (20%) estão
familiarizadas com tal nome, e, destas, apenas 5% (alunos do centro de
alfabetização) foram capazes de dizer o que URSS significa (...). As crianças da
aldeia Tungus não possuem noção alguma sobre a revolução, o Partido Comunista,
o Komsomol, os Pioneiros ou os sindicatos. Apenas 4% dos alunos sabiam o que os
comunistas ou os Pioneiros são. A maioria das crianças não sabia o que é o Exército
Vermelho. Apenas 7% dos alunos disse que o Exército Vermelho é necessário. 90

As expedições dos psicólogos visavam, assim, a imposição de determinadas categorias


abstratas às crianças, além de concluírem que as regiões mais distantes dos centros urbanos não
reconheciam “adequadamente” as lideranças bolcheviques e os símbolos soviéticos. Em 1930, as
conclusões realizadas por Luria pareciam radicalizar o quadro normativo de tais pesquisas ao
hierarquizar modos de pensamento.

Em seus estudos sobre desenvolvimento infantil, Luria identificava a capacidade de


abstração com a capacidade de pensar em conceitos e classificar os objetos de acordo com
critérios socialmente estabelecidos. As representações “surreais” ou “absurdas”, portanto,
localizavam-se no nível de uma consciência não desenvolvida. Os experimentos relatados por
Luria em “Discurso e intelecto entre crianças rurais, urbanas e sem moradia” (1930) são
marcados pela tentativa de estabelecer, para as crianças, uma distinção clara entre fantasia e
realidade. Em uma das experiências com irmãos gêmeos, por exemplo, Luria procurava
questioná-las sobre a “antropomorfização” dos animais:

Em um dos experimentos, os gêmeos foram apresentados, separadamente, à


imagens de animais usando atributos ou vestuários humanos. Luria reportou suas
respostas (a criança A recebeu aulas extras, ao contrário da criança B):

Iuri (A):

Luria: ‘Isto é possível?’. Iuri: ‘É.’. Luria: ‘O que o gato está fazendo?’. Iuri: ‘Está
tocando um violino.’ Luria: ‘Pode um gato realmente tocar violino?’ Iuri: ‘Não.’
90
“The children had a very vague notion of the USSR. Only a few even (20%) were familiar with the name, and of
them only 5% (schoolchildren and students at the literacy centre) were able to say what 'USSR' meant […] The Tungus
children had no notion about the Revolution, the Communist Party, the Komsomol, the Pioneers, or the trade unions.
Only 4% of schoolchildren knew what the Communists or the Pioneers or the Komsomol were. Most of the children
had no notion of the Red Army. Only 7% (the schoolchildren) said that the Red Army was necessary”. Apud PROCTOR,
Hannah. Revolutionary thinking, op cit, p. 120.

33
Liosh (B):

Luria: ‘Este desenho está correto?’. Liosh: ‘Está’. Luria: ‘Pode um gato dançar desta
maneira?’. Liosh: ‘Não’. Luria: ‘Então, o desenho está certo ou errado?’. Liosh:
‘Certo’. Luria: ‘Você já viu um gato tocar a balalaika?’. Liosh: ‘Não’. Luria: ‘Então
este desenho está certo ou errado?’. Liosh: ‘Certo.’ 91

Assim, a noção de desenvolvimento individual, para Luria, era fundamentada na concepção


de que a psique evolui da espontaneidade da infância à consciência dos adultos. As pesquisas de
Luria, assim, centravam-se na transição entre tais modos de pensamento. 92 A crítica estabelecida
pelo psicólogo à “antropomorfização” dos animais era partilhada por membros do Partido. Dois
anos antes, em primeiro de fevereiro de 1928, Krupskaia denunciou a história infantil
“Crocodilo”, de Nikolai Chukovsky (1905-1965), devido ao antropomorfismo dos animais. Após a
denúncia, Chukovsky escreveu, em seu diário, que o antropomorfismo era considerado o grande
93
crime da literatura infantil soviética. Em 1930, mesmo ano da pesquisa de Luria, o
“Komsomolskaia Pravda” publicou o artigo “As debilidades dos brinquedos soviéticos”, atacando
a persistência dos brinquedos e jogos burgueses no país, mesmo após o desenvolvimento da
revolução. Os brinquedos eram atacados por não serem condizentes com os valores proletários e
94
por falsificarem a realidade (como no caso dos animais usando vestes humanas). Os
brinquedos, concluía o artigo, deveriam ser apropriados ao papel das crianças como construtoras
do futuro comunista. No mesmo ano, no livro “Macaco, homem primitivo e criança”, Vygostsky e
Luria afirmavam que os jogos infantis eram ensaios para a vida adulta.

Assim, em novembro de 1931, ocorreu em Moscou a primeira exibição de brinquedos


infantis que procurava pôr em prática o imaginário que os dirigentes Partidários – e os psicólogos

91
“In one experiment, the separated twins are both presented with images of animals with human apparel or
attributes. Luria records their responses (Child A has received extra tuition unlike Child B):
Yura (A): ‘Does this happen?’ ‘It does’ ‘What is the cat doing?’ ‘The cat is playing’ ‘Can a cat really play on the violin?’
‘No’ ‘Then does this happen?’ ‘No’
Liosha (B): ‘Is this drawing right?’ ‘It is’ ‘Can a cat really dance like this?’ ‘No’ ‘Then is the drawing right or not?’
‘Right’ ‘Have you seen a cat play on a balalaika?’ ‘No’ ‘Then is this drawing right or not?’ ‘Right’ ‘But can a cat play
on a balaika?’ etc”. Cf. PROCTOR, Hannah. Revolutionary thinking, op cit, p. 164.
92
É notável como, no ano anterior à pesquisa de Luria com os irmãos gêmeos, Eisenstein publica “Beyond the Shot”,
artigo no qual declara o abandono da perspectiva visualcom base nos desenhos de crianças apresentados a ele por
Luria. Os dois, que se conheciam desde 1923, quando Luria assistiu uma peça de Eisenstein no Teatro do Proletkult,
concordavam quanto ao “primitivismo” do pensamento infantil. Eisenstein, contudo, positivava tal tipo de
pensamento, discordando, portanto, das conclusões realizadas por Luria em suas pesquisas.
93
Ver PROCTOR, Hannah. Revolutionary thinking, op cit, p.166.
94
Ver idem, p. 159.

34
– procuravam criar. Tratava-se de uma espécie de miniatura da URSS industrializada, com um
modelo da grande cidade ucraniana Dnipropetrovsk e miniaturas dos Pioneiros (ou seja, dos
membros da juventude comunista). Segundo Hannah Proctor, “Como maquetes vivas que
emulavam os adultos stakhanovistas, as crianças eram postas em competição umas com as
outras. A importância da máxima eficiência e do amor ao trabalho deveria ser ensinada desde
95
cedo”. No mesmo ano, foi publicado o livro infantil de M. Ilin (1896-1953), “A história do
Primeiro Plano Quinquenal”, que parecia narrar a história soviética de um ponto de vista heroico
e otimista. 96

O modelo de desenvolvimento psíquico sustentado por Luria, que consistia na evolução do


pensamento infantil ao pensamento conceitual, foi utilizado também na análise das populações
que sofriam a intervenção soviética. Entre 1931 e 1932, Luria conduziu dois experimentos na
região da Ásia Central, os quais objetivavam analisar os avanços psíquicos e cognitivos
promovidos pelo desenvolvimento do Primeiro Plano Quinquenal. As expedições de Luria tiveram
como grupo focal principal as mulheres e as crianças uzbequistanesas, que deveriam,
supostamente, apresentar uma evolução cognitiva em direção ao pensamento conceitual.

As expectativas de Luria quanto aos benefícios psíquicos do Primeiro Plano Quinquenal,


entretanto, se chocaram com a violenta realidade do Uzbequistão soviético. Por um lado, a
pesquisa revelava a vertiginosa repressão às mulheres operada pelo Islã. Por outro lado, a recusa
das mulheres em aceitarem o quadro normativo que Luria procurava impor a elas em seus testes
era entendida por ele como uma recusa em aceitar a “consciência revolucionária”. 97

95
“Like a living maquette of their Stakhanovite adult counterparts, the children were set in competition with one
another; the importance of maximum efficiency and a love of work were to be instilled at the earliest stages of life”.
Cf. PROCTOR, Hannah. Revolutionary thinking, op cit, p.160. A análise de Proctor, contudo, não evidencia o porquê
da exposição fomentar a competição entre as crianças.
96
Em 1935, o Laboratório Pedagógico e Pedológico, ao qual Luria era associado, publicou um estudo investigando os
novos brinquedos infantis, que deveriam promover a modernização soviética, com brinquedos sobre os kolkhozes, as
locomotivas e os espaços públicos (lavanderias, fábricas, salas de jantar etc); além de ensejarem valores como
cooperação e construção.
97
Ver PROCTOR, Hannah. Revolutionary thinking, op cit, p. 132. Zalkind criticou as entrevistas de Luria às crianças
uzbequistanesas: “É óbvio que as crianças não são imbecis. Imbecis foram os testes a elas aplicados. Será que nós
podemos realizar perguntas a elas associadas à experiência cultural e socioeconômica das grandes cidades ocidentais
ou orientais? Será que podemos aplicar tais questionários à crianças pertencentes às minorias nacionais que vivem
sob condições únicas de luta de classes, clima, cultura e vida cotidiana?!”. (“[I]t is obvious that it is not that the
children are imbeciles, but that the tests given to these children were imbecilic. Can we really ask questions devised
on the basis of the socioeconomic and cultural experience of our own or Western capital cities? Can we really apply
them to children of national minorities who live under completely unique conditions of the class struggle, of climate,
culture, and everyday life?!”). Apud idem, 110.

35
As expedições conduzidas por Luria despertaram o interesse do antropólogo americano
Melville Herskovits (1895-1963), que escreveu a ele em dois de março de 1932, na esperança de
que os resultados das expedições o ajudassem em sua própria pesquisa, sobre a adaptação dos
98
afrodescendentes nos EUA e a introjeção por eles da cultura “branca”. Aparentemente
desconsiderando os resultados concretos da pesquisa, Luria respondeu a Herskovits:

Nós temos na URSS condições extremamente felizes e interessantes para estudar o


processo rápido e profundo das mudanças no psiquismo das nações periféricas. O
processo de coletivização das formas econômicas e a industrialização, isto é, a
reconstrução socialista da vida, envolve, com efeito, mudanças na mente. 99

A preocupação com a criação de jovens trabalhadores, exemplificada na construção do


imaginário de celebração do trabalho e das forças produtivas, determinava também um
redirecionamento da prática pedagógica. Em cinco de setembro de 1931, um decreto restaurava
a disciplina nas escolas, reestabelecendo modos de avaliação e de didática autoritárias. O Partido
iniciava uma campanha pelo retorno dos professores às posições hierárquicas tradicionais e pela
intervenção da psicologia na pedagogia. 100

A psicologia, ademais, norteava a perseguição política: no terceiro número do “Pravda” do


Uzbequistão, por exemplo, o editorial afirmava que as crianças da escola FES No. 35 eram
educadas a serem chauvinistas, baseando-se nas respostas do teste psicológico “Quais pessoas
são melhores?”. 101 Tais conclusões, embasadas no suposto teor científico dos testes psicológicos,
atacavam as instituições e as pessoas que deveriam ser perseguidas pelo Estado. Luria também
auxiliou a repressão estatal. Em seu livro “A natureza dos conflitos humanos” (1932) – descrito
por ele em uma carta a Eisenstein, de 17 de fevereiro de 1930, como um trabalho sobre
102
“investigações criminais, neuroses e pessoas sem honra” - Luria identificava certos tipos de
criminosos que deveriam ser presos. O livro, baseado em experiências realizadas entre 1923 e
1930 pelo Instituto Estatal de Psicologia Experimental, estruturava-se em duas partes. Na
primeira, Luria analisava estudantes que, em 1924, passavam pela onda de expurgos nas
98
Ver PROCTOR, Hannah. Revolutionary thinking, op cit, p. 123.
99
“We have in the USSR extremely interesting and happy conditions to study the process of very deep and very quick
changes in the psychological processes of the periphic [sic] nations. The process of collectivization of economic forms
and industrialisation, the socialistic reconstruction of life does involve real changes in the mind”. Apud idem, p. 93.
100
Ver BAUER, Raymond. The New Man in Soviet Psychology, op cit, p. 102.
101
Ver idem, p. 110.
102
“(...) criminals, examinations, internal neurosis and other dishonourable types”. Apud, PROCTOR, Hannah.
Revolutionary thinking, op cit, p. 82.

36
Universidades. Ao todo, 18000 estudantes foram expulsos, sob a justificativa de serem
estudantes contrarrevolucionários. Luria investigou o impacto psíquico deste processo nos
sujeitos perseguidos e centrou-se na tensão e agitação dos sujeitos que, segundo ele,
infantilizaram-se durante o processo. A segunda parte do livro, a qual revela a atuação de Luria
na repressão, analisava o perfil psíquico de criminosos, principalmente assassinos, que foram
entrevistados por Luria pouco depois de serem presos. Em um dos casos, de 1927, ele
entrevistou quatro suspeitos e suas conclusões serviram ao Estado para fazer a condenação. As
perguntas que ele elaborou, segundo Hannah Proctor, foram pensadas para facilitar as
confissões. 103 Apesar disso, o livro de Luria não foi publicado no país, sendo editado apenas em
inglês, o que poderia indicar uma possível censura a seu conteúdo. Segundo Proctor, é possível
entrever, nas descrições dos eventos realizadas por Luria, a escassez e a miséria do período
nepista, e neste fato poderia residir a possível censura. 104

Tal ambiguidade do regime no trato com a psicologia parece ser frequente a partir de 1930,
após o Primeiro Congresso sobre o Comportamento Humano. Se, por um lado, o governo parecia
105
utilizar os testes psicológicos para efetuar a repressão, condicionar os trabalhadores e
construir um imaginário específico, voltado à elevação da produtividade, por outro lado o Partido
criticava os resultados de tais testes quando eles não se alinhavam ao imperativo da retórica
otimista difundida pelo Estado. Como parte da vigilância partidária à aplicação dos testes
psicológicos, a divisão de Cultura e Propaganda do Comitê Central criticou, em 1931, os
questionários políticos “abertos”, que poderiam conter respostas múltiplas. Tal estreitamento
106
das possíveis respostas era parte da linha de agitação estatal, segundo tal divisão de Cultura.
As conclusões dos testes que fossem consideradas politicamente problemáticas eram criticadas e
os psicólogos eram acusados de contrarrevolucionários. Também eram criticados quaisquer
107
resultados considerados “pessimistas”. Assim, o governo afirmou, em 1931, acerca dos
resultados de um teste feito pelo psicólogo F. P. Petrov na região de Chuvash:

103
Ver PROCTOR, Hannah. Revolutionary thinking, op cit, p. 85.
104
Ver PROCTOR, Hannah. “A Country Beyond the Pleasure Principle…”, op cit, p. 176.
105
Em 1931, por exemplo, os psicólogos industriais eram instruídos pelo governo a desenvolverem técnicas de
treinamento para a qualificação dos trabalhadores. Ver BAUER, Raymond. The New Man in Soviet Psychology, op cit,
p. 107.
106
Ver idem, p. 110.
107
Ver idem, p. 112.

37
As falhas de aprendizagem da maior parte das crianças de Chuvash são explicadas
por Petrov a partir das condições socioeconômicas da região, isto é, das condições
que foram criadas pelo Estado soviético e pelos trabalhadores, liderados pelo
Partido Comunista. São tais condições, segundo F. P. Petrov, que produziram o
baixo aprendizado das crianças analisadas. F. P. Petrov, não entendendo ou sequer
procurando entender as condições reais do desenvolvimento das crianças na União
108
Soviética, posiciona-se do ponto de vista da CONTRARREVOLUÇÃO.

A pesquisa de Luria na Ásia Central sofreu um ataque semelhante. Apesar de seguir a linha
partidária, ser anti-imperialista e criticar as determinações biológicas (e o determinismo racial
nazista), o livro de Luria foi criticado pelo governo por apresentar a construção do socialismo na
URSS como um processo, e não como finalizada. Relatos da expedição foram publicados em
revistas em inglês, mas, devido às críticas e ao cancelamento das expedições pelo governo,
nenhum livro foi publicado na URSS na ocasião (apenas 40 anos depois).

108
“The school failure of the great number of Chuvash children is explained by Petrov on the basis of contemporary
socioeconomic conditions; i.e., those conditions which have been created by the Soviet State, by the workers under
the leadership of the Communist Party. It is these conditions , according to F.P. Petrov, that account for the low
average performance of the children who were investigated. F.P. Petrov , neither understanding nor wishing to
understand the real conditions for the development of the children in the Soviet Union, speaks from the point of view
of COUNTERREVOLUTION”. Apud idem, ibidem.

38
8. o “novo homem soviético”

Em 1932, no principal artigo do primeiro número da revista “Psicologia”, F. Shemikian e L.


Gershonovich publicaram seu discurso à Sociedade de Psiconeurólogos Materialistas na
Academia Comunista de Ciências. O texto argumentava que Trotsky e Karl Kautsky (1854-1938)
109
revisaram o marxismo acerca das questões da psicologia. Os autores mencionavam o artigo
“Acerca dos diversos problemas na história do bolchevismo”, de Stálin, como um texto que
110
elevava a novas alturas os problemas da psicologia. Analogamente, o artigo de A. Talankin
associava a psicanálise ao menchevismo e citava o discurso de Stálin no Décimo Sexto Congresso
do Partido (publicado em 1931), no qual Stálin se referia à “psicologia das massas e sua relação
com o trabalho”, como um exemplo de como a psicologia devia centrar-se na “psicologia do
povo”. 111 No mesmo ano, Luria publicava “A crise da psicologia burguesa”, artigo no qual atacava
a psicanálise por ela ser, supostamente, individualista, irracional e pessimista, alinhando-se às
posições de Talankin e Shemikian. Tais posições eram publicadas no mesmo ano em que Stálin
reunia-se com escritores e alçava o Instituto de Medicina Experimental como o instituto oficial do
estudo do psiquismo.

A perseguição à psicanálise era tamanha que, mesmo os freudianos convictos incorporavam


o discurso associado ao regime para escaparem da repressão. Vera Schmidt, por exemplo, que
após 1930 seguia analisando pacientes clandestinamente, respondeu a uma turista em 1934 que
“na União Soviética não havia neuroses, doença típica de países capitalistas; nem se considerava
viável um método que se entregava por anos a um só indivíduo. Um psicanalista não teria nada a
buscar no novo mundo”. 112

Contudo, qual deveria ser o conteúdo da “psicologia marxista”? Sergei Rubinstein (1889-
1960), em 1934, procurava responder tal questão no artigo “Questões psicológicas no trabalho
de Karl Marx”. 113 Rubinstein propunha a formulação de uma psicologia marxista que superasse o
ideário dos “introspeccionistas”, como Wilhelm Wundt (1832-1920) e dos behavioristas,
109
Ver MILLER, Martin. Freud y los bolcheviques, op cit, p. 174.
110
Ver idem, p. 176.
111
Apud idem, p. 175.
112
CROMBERG, Renata Udler, “Psicanálise na Rússia”, op cit, p. 121.
113
RUBINSTEIN, Sergei. “Problems of Psychology in the Works of Karl Marx”, Studies in Soviet Thought, Vol. 33, No. 2,
1987.

39
resgatando as formulações de Marx sobre a consciência humana. De acordo com o autor, os
“introspeccionistas” postulavam que a consciência era um fato em si, um fenômeno cuja essência
corresponderia à aparência. Para eles, portanto, a consciência individual, assim, era o objeto da
psicologia. Já os behavioristas, segundo Rubinstein, apontavam que a existência da consciência,
apesar de não poder ser questionada, também não podia ser comprovada. Para eles, a
consciência seria um fenômeno acessível somente ao sujeito e, portanto, não seria passível de
transformar-se no objeto de uma ciência. O comportamento, assim, era alçado pelos
behavioristas como o objeto da psicologia. O homem, para eles, deveria ser estudado com base
em suas respostas ao meio ambiente.

Rubinstein propunha, como forma de superar tais teorias, a reconstrução do entendimento


da consciência e da conduta em sua inseparável continuidade. Tal continuidade concretizava-se
nos processos de objetivação ensejados pela atividade humana que construíam o sujeito. Estes
processos consistiam, sinteticamente, na humanização da natureza que o trabalho promove.
Segundo Rubinstein:

Ao objetivar a si próprio nos produtos de sua atividade, o homem se forma – sendo


em parte gerado, em parte desenvolvido, tanto afetivamente quanto
conscientemente. De acordo com “O capital”: “(...) ao mudar a natureza externa, o
homem muda a sua própria natureza”. Portanto, não é em uma espécie de
introspecção, mas no trabalho ativo que transforma o mundo que a consciência é
formada. 114

Conforme Rubinstein, a atividade especificamente humana – o trabalho – media a


consciência, ao mesmo tempo em que é transformado por ela. Como apontava Marx, o trabalho
humano é teleológico: o ato real contém o ato ideal, na medida em que o sujeito torna-se,
mediante sua atividade, criativo e capaz de idealizar o próprio fazer. 115

Rubinstein apontava, contudo, que o trabalho é iminentemente social e histórico, de modo


que, quando o sujeito se objetivava, ele se objetivava num mundo cujas relações sociais ele não

114
“In this way, by objectifying himself in the products of his activities, man is formed "in part generated, in part
developed" both in feeling and in consciousness, according to the famous statement of Capital: "(…)in changing
external nature, man simultaneously changes his own nature". It is not in penetrating into the depths of inert
immediacy, but in active labor transforming the world that man's consciousness is formed”. Cf. RUBINSTEIN, Sergei.
“Problems of Psychology in the Works of Karl Marx”, op cit, p. 115.
115
Ver idem, p. 118.

40
determinou, e cujo produto do trabalho ensejava um determinado tipo de sociabilidade e
reproduzia relações sociais estabelecidas. Quando o homem se tornava sujeito, ele se tornava
imediatamente um sujeito coletivo e histórico. A consciência, portanto, é necessariamente
consciência coletiva em um determinado quadro de relações historicamente construídas.
Segundo Rubinstein, “cada um dos meus atos liga-se a mim por milhares de vínculos, fiados pela
116
cultura historicamente acumulada que media a minha consciência”. Assim, a consciência deve
ser objeto da psicologia, assim como a introspecção. Porém, segundo Rubinstein, tal consciência
não devia ser entendida como singular, mas como parte de processos de objetivação sociais, que
a consciência mediava e era passiva de mediação através da atividade humana. A passagem do
“espontaneísmo” para a consciência era, segundo Rubinstein, um exemplo deste tipo de
processo. 117 A linguagem desempenhava uma função crucial, já que ela era o campo no qual se
fixava o ser refletido pelos homens e os processos das operações humanas. 118

Rubinstein afirmava que, se Bergson também postulou a atividade humana como


imprescindível à formação da consciência e Durkheim também atribuiu à consciência um caráter
coletivo, caberia aos marxistas a superação das dicotomias entre exterior e interior e entre social
e individual, através de uma abordagem radicalmente dialética. O autor apontava que Freud
também reconheceu alguns componentes sociais no Eu, porém encontrou as forças pulsionais no
inconsciente, que seria entendido na teoria freudiana como antagonista e externamente
relacionado com a consciência. 119

Segundo Rubinstein, tal abordagem dialética não podia fixar-se apenas em repetir tais
formulações gerais, mas devia ser capaz de analisar o “homem como pessoa”. Posto que a pessoa
(persona) é a confluência de determinadas relações sociais, o conceito de “necessidade” (em
oposição ao conceito de instinto) podia explicar as motivações históricas das condutas humanas.
De acordo com o autor, a ideia da historicidade das necessidades humanas aparecia em Marx
120
vinculada à ideia da historicidade dos talentos humanos. Tais talentos são determinados pela
divisão social do trabalho. Assim, escreve Rubinstein, que “a natureza psicológica da pessoa é

116
“Every one of my acts is linked to me by thousands of bonds, spun by the historically accumulating culture that
mediates my consciousness”. Cf. idem, p. 116.
117
Ver idem, p. 123.
118
Ver idem, p. 117.
119
Ver idem, p. 119.
120
Ver idem, p. 126.

41
121
concretizada em suas necessidades e talentos”. O “comunismo genuíno”, portanto, devia
enaltecer os dons e talentos dos indivíduos:

A tendência para o nivelamento e a impessoalidade é estranha ao comunismo


genuíno. Marx tratou desta questão em sua polêmica com Lassalle na Crítica do
Programa de Gotha. Lênin desenvolveu ainda mais essas ideias ao discutir os
direitos dos vagabundos em “Estado e revolução”. A atual campanha contra o
"nivelamento de salários" e pelo cuidado na apreciação dos dons de cada
trabalhador são realizações práticas sob o socialismo desta afirmação teórica de
Marx. 122

Tal formulação de Rubinstein, que enfatizava o talento individual, ecoava o processo de


combate, empreendido pelo governo, contra o discurso dos dirigentes de fábrica. Rubinstein
parecia, a sua maneira, formalizar a nova diretiva governamental. Desde a promulgação do
Primeiro Plano Quinquenal (1928), as lideranças stalinistas entraram em conflito contra os
“especialistas” nas fábricas, que criticavam o caráter fantasioso das metas para o aumento da
produtividade, fixadas arbitrariamente pelo governo. Contra a alegação de que haveria limites
técnicos para a política estatal de expansão produtiva, o governo passou a veicular um discurso
voluntarista de mobilização para o trabalho. Como aspecto deste discurso, forjava-se a figura de
um proletário radicalmente empenhado na elevação da produtividade, um proletário que, apesar
de todas as limitações técnicas da indústria soviética, era capaz de trabalhar incansavelmente
para a construção do socialismo.

A apologia dos udarniki, “operários modelo”, e a propaganda realizada em torno do mineiro


123
Izotov, recordista de produtividade em Donbas em 1932, evidenciava uma mudança
substancial na retórica governamental. Se, até o início do Primeiro Plano Quinquenal (1929), o
Estado, fundamentado no discurso taylorista, heroicizava a uniformidade e o anonimato do
trabalho operário, já em 1932 ele difundia uma retórica de incentivo ao “talento” e ao esforço
121
“The psychological nature of the person is concretised in his needs and talents”. Cf. idem, ibidem.
122
“The tendency toward levelling and impersonality is foreign to genuine Communism. Marx pursued the question of
the levelling of talents in his polemic with Lassalle in the Critique of the Gotha Program. Lenin further developed
these ideas when discussing the rights of vagabonds in State and Revolution. The current campaign against "wage-
levelling" and for care in appreciating the gifts of each worker are practical realizations under socialism of this
theoretical assertion of Marx”. Cf. idem, p. 127
123
Cf. LUCAS, Marcilio Rodrigues. De Taylor a Stakhanov: utopias e dilemas marxistas em torno da racionalização do
trabalho. Tese de doutorado em Ciências Sociais. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Unicamp, Campinas,
2015, p. 167.

42
individual dos operários. Tal retórica materializou-se no regime de trabalho a partir do
movimento stakhanovista, em 1935, com o estabelecimento da remuneração por metas e
recordes de produção, além da política estatal de distinção entre operários regulares e operários
stakhanovistas, que gozavam de privilégios materiais e simbólicos. A adesão a tais práticas de
concorrência e de exploração do trabalho – no qual a exaustão física e mental decorrente da
gigantesca jornada de trabalho era a regra – foi preparada desde 1932 mediante o discurso
voluntarista referido. 124

Conjugado a tais processos, possibilitados pelo esmagamento do movimento operário, o


Estado impunha um reordenamento social radical. Tal projeto político era expresso, assim, na
escalada de leis que visavam regular o modo de vida do proletariado: em 17 de dezembro de
1933, um decreto proibiu as “práticas homossexuais” (muzhelozhestvo) entre os cidadãos
125
soviéticos e em 1935 foi proibida a pornografia e legitimada a punição como medida
educacional para os jovens, 126 inspirada na pedagogia de Anton Makarenko (1888-1939), que se
destacava por propor uma educação militarizada: “ritmo austero, disciplina de ferro e
comportamento distinto”. 127

O Comitê Central do Partido, assim, fazia coro às teses de Rubinstein, apesar de criticá-lo
128
pela menção à Freud no artigo referido. Com efeito, as posições de Rubinstein pareciam
procurar dar forma à visão de mundo que era produzida pelo governo. Conforme Freud, em “A
questão de uma Weltanschauung” (1933) – palestra que contém uma das maiores análises que
ele fez do poder soviético,

O marxismo teórico, tal como foi concebido no marxismo russo, adquiriu a energia
e o caráter autossuficiente de uma Weltanschauung [visão de mundo]; contudo
adquiriu, ao mesmo tempo, uma sinistra semelhança com aquilo contra o qual está
lutando. Embora sendo originalmente uma parcela da ciência, e estando

124
Cf. idem, p.171-180.
125
A primeira tentativa de justificar a proibição da homossexualidade partiu do escritor Maxim Gorky (1868-1936), no
artigo “Humanismo proletário” (1934), publicado no Pravda. Nele, Gorky definia a homossexualidade como uma
forma de depravação tipicamente fascista. Posteriormente, o Comissário da Justiça Krylenko afirmou em um
discurso, realizado em 1936, que “Entre nós, trabalhadores, que acreditamos na relação natural entre os sexos e que
estamos construindo uma sociedade baseada em princípios saudáveis, não existe espaço para pessoas deste tipo
[homossexuais]”. Apud HEALEY, Daniel. “The Russian revolution and the decriminalisation of homosexuality”.
Revolutionary Russia, 6:1, 1993, p. 44.
126
Ver BAUER, Raymond. The New Man in Soviet Psychology, op cit, p. 41.
127
“(…) austere rhytm, iron discipline and distinguished bearing”. Cf. PROCTOR, Hannah, op cit, p. 192.
128
Ver MILLER, Martin. Freud y los bolcheviques, op cit, p. 182.

43
construído, em sua implementação, sobre a ciência e a tecnologia, criou uma
proibição para o pensamento que é exatamente tão intolerante como o era a
religião no passado. Qualquer exame crítico do marxismo está proibido; dúvidas
referentes à sua correção são punidas, do mesmo modo que uma heresia, em
outras épocas, era punida pela Igreja Católica. Os escritos de Marx assumiram o
lugar da Bíblia e do Alcorão, como fonte de revelação (...). Exatamente da mesma
forma que a religião, o bolchevismo deve também oferecer aos crentes
determinadas compensações pelos sofrimentos e privações de sua vida atual,
mediante promessas de um futuro melhor, em que não haverá mais qualquer
necessidade insatisfeita. 129

Contudo, ao mesmo tempo em que o Partido endossava as tentativas de elaboração de tal


visão de mundo, desenvolvidas pela psicologia soviética, ele atuava coibindo a psicologia
aplicada. Com efeito, em 1935, os testes de comportamento foram praticamente abandonados
pelos psicólogos, devido à intensa perseguição partidária. E, em 1936, mesmo ano da proibição
do aborto, o Estado soviético encerrou definitivamente tais estudos.

Em 4 de julho, o Comitê Central emitiu um decreto intitulado “Sobre as perversões


pedológicas no Comissariado do Povo para a Educação”, documento que proibia a prática
psicanalítica e a pedologia. Nele, o governo afirmava que

A psicologia soviética e a psicologia burguesa opõem-se uma à outra no seguinte


sentido: a psicologia burguesa assume o inconsciente como ponto de partida, como
se ele fosse a determinação básica da psicologia humana e como se ele fosse o
ponto central da personalidade do homem. A psicologia soviética afirma,
entretanto, que a consciência é o nível mais elevado, mais especializado, do
desenvolvimento da psique humana. A psicologia soviética, ademais, assinala o
papel dominante que as influências conscientes desempenham, se comparadas
com as influências inconscientes. 130

129
Apud CROMBERG, Renata Udler. “Psicanálise na Rússia”, op cit, pp. 137-138.
130
“La psicologia sovietica y la psicologia burguesa se oponen una a outra en este sentido: la psicologia burguesa
toma al “inconsciente” como punto de partida, como si fuera una determinacion basica de la psicologia humana, y
como si fuera el punto central de la personalidad del hombre. La psicologia sovietica ha fomentado explicitamente la
teoria de que la conciencia es el nivel mas elevado, mas especializado de desarrollo de la psiquis humana y ha
senalado el rol dominante que las influencias conscientes desempenan comparadas con las influencias
inconscientes”. Apud MILLER, Martin. Freud y los bolcheviques, op cit, p. 184.

44
O decreto reiterava, portanto, as críticas já estabelecidas pelo Partido à psicologia. Algumas
mudanças, contudo, foram realizadas na argumentação. O decreto afirmava que 1) os testes
tendiam a perpetuar a ordem de classes existente, 2) os pedologistas assumiam uma posição
negativa e passiva quanto ao fracasso escolar, considerando-o em função exclusivamente de
fatores externos, 3) os pedologistas davam pouco peso aos esforços positivos de moldar as
crianças e 4) os pedologistas, ao afirmarem que o ambiente formava a psique das crianças,
assumiam uma postura fatalista e pessimista. 131

O decreto enfatizava o conceito de treino, capaz de propor uma solução ao impasse


oferecido, segundo o governo, à noção determinista de ambiente empregada pelos psicólogos. 132
Segundo Bauer, o decreto contra a pedologia significava na prática que: 1) o papel do psicólogo
nas escolas foi limitado, suas funções foram praticamente eliminadas e o papel do pedagogo
ganhou predominância com relação ao papel do psicólogo; 2) o movimento dos testes foi abolido
nas escolas e indústrias; 3) a psicologia industrial foi abolida; 4) o modelo de homem na
psicologia deveria ser mais propositivo; 5) a influência do ambiente deveria ser deixada de lado,
em favor da noção de treino e 6) os psicólogos deveriam centrar-se em desenvolver os cidadãos
soviéticos, ao invés de procurar determinar a relação entre os fenômenos externos e o
comportamento. 133

Hannah Proctor sintetizou da seguinte maneira as implicações do decreto referido:

No dia cinco de julho, a primeira página do Pravda foi dominada pela notícia do
decreto emitido pelo Comitê Central do Partido, “Sobre as perversões pedológicas
no Comissariado do Povo para a Educação”. Os pedólogos foram atacados por
enfatizar os fatores ambientais ao invés das propensões psicológicas e por enfatizar
a passividade ao invés da atividade. As publicações dos pedólogos que se
centravam nas crianças soviéticas, como o estudo de Luria sobre as crianças que
viviam na rua, e que só cresciam em diversos meios sociais, evidenciavam o quão
longe estava a União Soviética de construir o modelo ideal de cidadão que o
governo pregava. O Estado argumentava, no decreto, que os relatórios e os testes
psicológicos tendiam à descrição e não à intervenção – ecoando os argumentos

131
Ver BAUER, Raymond. The New Man in Soviet Psychology, op cit, pp. 124-125.
132
Ver idem, p. 126.
133
Ver idem, p. 127.

45
utilizados pelo governo contra a pesquisa de Luria na Ásia Central. (...) A pedologia
foi declarada como um fracasso, pois, segundo o governo, ela representava os
seres humanos como seres indefesos à mercê do ambiente, ao invés de seres
engajados num processo revolucionário de redirecionamento da história. Alega-se
que Zalkind caiu morto ao ler o decreto. O trabalho de Vygotsky foi censurado até o
final da era stalinista. O trabalho de Luria com crianças terminou e ele voltou-se
para as pesquisas neurológicas – não é claro o que aconteceu aos 750 gêmeos que
estavam sob sua observação em Moscou. No contexto do decreto, Stalin já havia
consolidado o seu poder e muitas das posições mais radicais sobre a infância e a
família, que caracterizavam o período após 1917, foram censuradas. 134

O debate soviético sobre o psiquismo, assim, encerrava-se amargamente. Logo após a


revolução de 1917, ele inscrevia-se como uma tentativa de compreensão da humanidade, de
seus afetos, de suas pulsões e seus destinos mediante as novas configurações sociais e de poder.
Contudo, mediante a inflexão totalitária pela qual passou o regime, marcada pelo monopólio
político do Partido Comunista e pela repressão do movimento operário e camponês, tal debate
transformou-se em uma discussão sobre os modelos psíquicos que serviriam como dispositivos
repressivos e de propaganda para a criação do “novo homem” soviético, “assujeitado” pelo
imperativo do trabalho e do recalcamento.

referências bibliográficas

134
“On July 5th 1936 the front page of Pravda was dominated by the news of the VKP(b) Central Committee decree
‘On Pedological Perversions in the Narkompros System’. Pedologists were attacked for emphasising environmental
factors over psychological propensities, passivity over activity. Pedological publications focusing on Soviet children
growing up in different social milieus, such as Luria’s study of the besprizornye, revealed how far the Soviet Union
was from constructing its ideal model citizens. It was alleged that the reports and the standardised tests they
espoused tended towards description rather than intervention, echoing the arguments deployed to attack Luria’s
research in Central Asia. (…) Pedology was declared a failure as it was said to describe human beings helplessly
responding to their environment, rather than fostering dedicated revolutionaries intent on re-directing the course of
history. Zalkind is alleged to have dropped dead upon hearing the news of the discipline’s official denunciation.
Vygotsky’s work was blacklisted until the end of the Stalin era. Luria’s experiments with children were terminated and
he turned to focus on neurological research (it is unclear what happened to the 750 sets of twins under observation in
Moscow). By the time of the decree, Stalin had consolidated his position and many of the radical assumptions about
childhood and family life that had characterized the post-revolutionary period were overturned”. Cf. PROCTOR,
Hannah. Revolutionary thinking, op cit, p. 191.

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