Você está na página 1de 21

1

21/09/2007

TEMA 13 – “Os Voadores”

 EXPRESSÕES PESQUISADAS (strings):


 os voadores, o voador,
 sombra (s) de barro,
 instalação forânea,
 predador (es),
 depredador (es)
 mente verdadeira

 RESUMO DAS CITAÇÕES (livros e páginas):

1 – A Erva do Diabo -
2 – Uma Estranha Realidade -
3 – Viagem a Ixtlan -
4 – Porta para o Infinito -
5 – O Segundo Circulo do Poder -
6 – O Presente da Águia -
7 – O Fogo Interior -
8 – O Poder do Silêncio -
9 – A Arte de Sonhar -
10 – Passes mágicos - 101
11 – A Roda do Tempo -
12 – O Lado Ativo do Infinito - 19 – 202 – 215 – 263 a 285
13 – Sonhos Lúcidos -
14 – A Travessia das Feiticeiras -
15 – Encontros com o Nagual - 153 a 160 - 169

(*) NOTA: Conforme já avisamos, recentemente, quando um texto longo, ou capítulo inteiro
de algum dos 15 livros falar de forma focalizada sobre o tema em questão (às vezes o nome
do capítulo é mesmo o nome do assunto tratado), em vez de fazermos sequencialmente
várias citações, resolvemos transcrever todo o texto/capítulo para termos uma compreensão
mais completa do tema.

 CONSIDERAÇÕES

O tema dos Voadores, ou Sombras de Barro é um dos mais obscuros e intrigantes das
tradições de conhecimento interessadas no desenvolvimento interior do ser humano. Ele fala
de uma limitação misteriosa imposta ao desenvolvimento da percepção, consciência e
potencialidades, em algum momento da evolução dos seres humanos.

1
2

A literatura antropológica não registra informações e conceitos sobre o tema. A chamada


“literatura esotérica” esbarra, mas de forma não estruturada, em alguns conceitos mais
familiares ao tema.
É o que vemos principalmente na tradição xamânica, pelo fato de não ser racional mas sim
pragmática. Ela aborda a natureza de uma forma empírica e prática, e não tem receios de
parecer ilógica quando age sem mesmo entender mentalmente a natureza das energias com
as quais está entrando em contato.
Quem já teve contato com algumas destas tradições e rituais, seja na Amazônia, Sibéria,
África ou outros lugares, já ouviu falar de entidades não físicas (não orgânicas) indesejáveis
que atormentam os seres humanos e se aproveitam de forma predadora da sua energia e
consciência. É o caso também do espiritismo kardecista e de outras linhas de trabalho
animistas.
Os xamãs, ou videntes do Antigo México, com grande persistência e em estados de
“consciência intensificada” estudaram esses seres predadores a ponto de estabelecer uma
classificação, como está explicado extensamente na obra.
O relato é aterrador e a maioria dos leitores fica entre o ceticismo e a crença de que “há um
certo exagero nas afirmações”. O próprio Castaneda, apesar do contato com o fato, e da
magistral condução de don Juan, demorou muito para tomar consciência da situação
deplorável a que estamos submetidos.
Para o buscador sério fica clara a urgência, a premissa de que não temos tempo. De que
temos que iniciar o trabalho agora, neste mesmo instante em que estamos lendo esse texto.

Don Juan, em A Porta para o Infinito dizia:


“- Um ser imortal tem todo o tempo do mundo para dúvidas e confusão e medos. Um guerreiro, por
outro lado, não se pode agarrar aos significados obtidos sob a ordem do tonal, pois ele sabe que a
totalidade dele só tem pouco tempo nesta Terra.”
“Você tem de se esforçar ao máximo, o tempo todo.”

 CITAÇÕES

- Existem centenas deles - respondeu ele -, se não milhares! Pode-se dizer que um ser humano não é
mais que um conglomerado de milhares de vórtices giratórios, alguns deles tão minúsculos que são,
vamos dizer, como furinhos de alfinete, mas furinhos muito importantes. A maioria dos vórtices são
vórtices de energia. A energia flui livremente através deles ou fica presa neles. No entanto existem
seis tão enormes que merecem tratamento especial. São centros de vida e vitalidade. Neles a energia
nunca fica presa, mas às vezes o suprimento de energia é tão escasso que o centro mal gira.
Dom Juan explicava que esses enormes centros de vitalidade estavam localizados em seis áreas do
corpo. Ele os enumerava segundo a importância que os xamãs lhes concederam. O primeiro, na área
do fígado e da vesícula biliar; o segundo, na área do pâncreas e do baço; o terceiro, na área dos rins e
das glândulas supra-renais; e o quarto, no ponto côncavo na base do pescoço na parte frontal do
corpo. O quinto, ao redor do útero, e o sexto, no topo da cabeça.
De acordo com o que Dom Juan dizia, o quinto centro, pertinente apenas às mulheres, tinha um tipo
especial de energia que dava aos feiticeiros a impressão de liquidez. Era uma característica que
somente algumas mulheres tinham. Parecia servir como um filtro natural que peneirava as
influências supérfluas.

2
3

Dom Juan descrevia o sexto centro, localizado no topo da cabeça, como algo mais do que uma
anormalidade e abstinha-se totalmente de ter alguma coisa a ver com isso. Retratava-o como
possuindo não um vórtice circular de energia, como os outros, mas um movimento de um lado para o
outro, como um pêndulo, que, de certo modo, lembra a pulsação de um coração.
- Por que a energia desse centro é tão diferente, Dom Juan? perguntei.
- Esse sexto centro de energia - disse ele - não pertence inteiramente ao homem. Entenda, nós seres
humanos estamos, por assim dizer, sob estado de sítio. Esse centro foi assumido por um invasor, um
predador invisível. E a única maneira de dominar esse predador é fortificando todos os outros
centros..
- Não é um tanto paranóico achar que estamos sob estado de sítio, Dom Juan? - perguntei.
- Bem, talvez para você, mas certamente não para mim - respondeu ele. - Eu vejo a energia e vejo
que a energia sobre o centro no topo da cabeça não flutua como a energia dos outros centros. Ela tem
um movimento de um lado para o outro muito desagradável e muito estranho. Também vejo que, em
um feiticeiro que foi capaz de dominar a mente, que os feiticeiros chamam de uma instalação
alienígena, a flutuação desse centro torna-se exatamente como a flutuação de todos os outros.
Durante os anos do meu aprendizado Dom Juan recusou-se sistematicamente a conversar sobre o
sexto centro. Na ocasião em que estava me falando sobre os centros de vitalidade, desprezou
rudemente minhas frenéticas indagações e começou a falar sobre o quarto centro, o centro para
decisões.
- O quarto centro - disse ele - tem um tipo especial de energia que aparece ao olho do vidente como
possuindo uma extraordinária transparência, algo que poderia ser descrito como semelhante à água:
energia tão fluida que parece líquida. A aparência líquida dessa energia especial é a marca de uma
qualidade do próprio centro para decisões parecida com um filtro que peneira qualquer energia que
chega até ele e extrai dela apenas o seu aspecto que é parecido com líquido. Essa qualidade de
liquidez é uma característica uniforme e consistente desse centro. Os feiticeiros também o chamam
de o centro aquoso.
A rotação da energia no centro para decisões é a mais fraca de todas elas. É por essa razão que o
homem raramente decide alguma coisa. Os feiticeiros vêem que, após praticarem determinados
passes mágicos, esse centro torna-se ativo e eles podem, com certeza, tomar decisões que satisfaçam
os seus corações, enquanto que, antes, não conseguiam sequer dar um primeiro passo. Dom Juan era
bastante enfático sobre o fato de que os xamãs do antigo México tinham uma aversão, que beirava a
fobia, com relação a tocarem em seus próprios pontos côncavos na base do pescoço. A única maneira
pela qual eles aceitavam qualquer interferência que fosse naquele ponto era através do uso dos seus
passes mágicos que reforçam aquele centro trazendo para ele a energia dispersa e, desse modo,
impedindo, na tomada de decisão, qualquer hesitação nascida da dispersão natural de energia
ocasionada pelo desgaste da vida cotidiana.
- Um ser humano - dizia Dom Juan -, percebido como um conglomerado de campos de energia, é
uma unidade completa e lacrada na qual nenhuma energia pode ser injetada e da qual nenhuma
energia pode escapar. A sensação de perder energia, que todos nós experimentamos de vez em
quando, é o resultado da energia sendo afugentada, dispersada dos cinco enormes centros naturais de
vida e vitalidade. Qualquer sensação de obtenção de energia é devida à redistribuição da energia
previamente dispersada daqueles centros, isto é, a energia é recolocada naqueles cinco centros de
vida e vitalidade.
Passes mágicos, pág. 101

Respirei profundamente, fechei os olhos e tentei acalmar a minha mente. Falava freneticamente
comigo mesmo sobre o meu problema insolúvel: na verdade não gostava nada de visitar Dom Juan.
Na sua presença me sentia ameaçado. Ele me atacava verbalmente e não dava espaço para eu
demonstrar meu valor. Detestava me sentir desprestigiado cada vez que abria a boca; detestava
passar por imbecil.

3
4

Mas havia outra voz dentro de mim, uma voz que vinha de uma profundidade maior, mais distante,
quase tênue. No meio dessa represa de diálogo familiar, me ouvi dizendo que era tarde demais para
voltar atrás. Mas na verdade não era a minha voz nem meus pensamentos o que eu experimentava;
era, mais precisamente, como uma voz desconhecida que dizia que eu já estava muito profundamente
envolvido no mundo de Dom Juan, e que necessitava dele mais do que o próprio ar.
- Diga o que quiser - a voz parecia dizer -, mas se não fosse o egomaníaco que é, não estaria tão
desgostoso.
- Essa é a voz de sua outra mente - disse Dom Juan, como se estivesse escutando ou lendo os meus
pensamentos.
Meu corpo deu um salto involuntário. Meu susto foi tão intenso que me vieram lágrimas aos olhos.
Confessei a Dom Juan meu estado de confusão.
- O seu conflito é muito natural - disse. - E creia-me, não me exacerbo tanto assim. Não sou desse
jeito. Tenho algumas histórias para lhe contar sobre o que meu mestre, o nagual Julian, me fazia. Eu
o detestava do fundo do meu ser. Eu era muito jovem, e via como as mulheres o adoravam, se
entregavam a ele com facilidade, e quando eu tentava cumprimentá-las se voltavam contra mim
como leoas, prontas para me arrancar a cabeça. Odiavam-me e o amavam. Como acha que eu me
sentia?
- Como resolveu esse conflito, Dom Juan? - perguntei-lhe com mais do que simples interesse.
- Não resolvi nada - declarou. - Isso, o conflito, ou o que quer que tenha sido, era o resultado da
batalha entre as minhas duas mentes. Cada um de nós, seres humanos, tem duas mentes. Uma é
totalmente nossa, e é como uma voz fraca que sempre nos traz ordem, integridade, propósito. A outra
mente é uma instalação forânea. Nos traz conflito, auto-afirmação, dúvidas, desesperança.
A minha fixação nas minhas próprias concatenações mentais era tão intensa que me escapou
totalmente o que Dom Juan estava dizendo. Era capaz de me lembrar de cada uma de suas palavras,
mas elas não tinham significado para mim. Muito calmamente e olhando direto nos meus olhos, Dom
Juan repetiu o que acabara de dizer. Ainda fui incapaz de apreender o que ele queria dizer. Não
conseguia focalizar a minha atenção nas suas palavras.
- Por alguma razão estranha, Dom Juan, não consigo me concentrar no que você está me dizendo -
disse.
- Compreendo perfeitamente - disse ele sorrindo abertamente -, e algum dia você também
compreenderá, no mesmo instante em que resolver o conflito se gosta de mim ou não, quando deixar
de ser o eu-eu centro do universo.
"Nesse meio tempo - continuou -, coloquemos esse assunto das suas duas mentes de lado e voltemos
para a idéia de preparar o seu álbum de eventos memoráveis. Devo acrescentar que tal álbum é um
exercício em disciplina e imparcialidade. Considere esse álbum como um ato de guerra."
A afirmação de Dom Juan - que o meu conflito de querer ou não querer vê-lo ia terminar quando
abandonasse o meu egocentrismo - não era uma solução para mim. Na verdade, a afirmação me fez
ficar ainda mais aborrecido; fiquei ainda mais frustrado. E quando ouvi Dom Juan falar que esse
álbum era um ato de guerra, me lancei contra ele com todo o meu veneno.
- A idéia de que isso é uma coleção de eventos já é bastante difícil de entender - disse em tom de
protesto. - Mas, ainda por cima, chamar de álbum e dizer que tal álbum é um ato de guerra é demais
para mim. É muito obscuro. E a obscuridade faz com que a metáfora perca o seu significado.
- Que estranho! Para mim acontece o oposto - respondeu Dom Juan calmamente. - Tal álbum, sendo
um ato de guerra, possui todo o significado do mundo para mim. Não gostaria que o meu álbum de
eventos memoráveis fosse outra coisa senão um ato de guerra.
Gostaria de continuar discutindo o meu ponto de vista e explicar-lhe que eu entendia a idéia de um
álbum de eventos memoráveis. Ao que eu me opunha era a maneira surpreendente como ele o
descrevia. Naquela época, eu me considerava um defensor da clareza e do funcionalismo no uso da
linguagem.
Dom Juan não fez nenhum comentário sobre meu humor beligerante. Simplesmente abanou a cabeça
como se estivesse totalmente de acordo comigo. Depois de um momento, ou eu exaurira toda a

4
5

minha energia ou recebera uma quantidade gigantesca de energia. De repente, sem qualquer esforço
de minha parte, percebi a futilidade dos meus ataques. Senti-me completamente envergonhado.
- O que se apodera de mim para me fazer agir dessa maneira? - perguntei a Dom Juan seriamente.
Naquele instante estava completamente confuso. Estava tão aturdido pela minha percepção que, sem
sentir nenhuma vontade de minha parte, comecei a chorar.
- Não se preocupe com detalhes idiotas - disse Dom Juan para me tranqüilizar. - Cada um de nós,
homem ou mulher, é assim.
- Você quer dizer, Dom Juan, que somos mesquinhos e contraditórios por natureza?
- Não, não somos mesquinhos nem contraditórios por natureza - respondeu. - Nossas mesquinharias
e contradições, na verdade, são o resultado de um conflito transcendental que aflige cada um de nós,
mas que somente os feiticeiros são dolorosa e irremediavelmente conscientes dele: o conflito entre as
nossas duas mentes.
Dom Juan me olhou; seus olhos eram negros como dois pedaços de carvão.
- Você tem me falado continuamente sobre as duas mentes - disse eu -, mas o meu cérebro não
consegue registrar o que você está dizendo. Por quê?
- Com o tempo você saberá por quê - disse ele. - Por agora, será suficiente que eu lhe repita o que
disse antes sobre as nossas duas mentes. Uma é a nossa mente verdadeira, o produto de todas as
experiências de nossa vida, aquela que raramente fala porque foi vencida e relegada à obscuridade. A
outra, a mente que nós usamos diariamente para tudo o que fazemos, é uma instalação forânea.
- Acho que o ponto crucial é que o conceito de a mente ser uma instalação forânea é tão estranho
que a minha mente se recusa a levar isso a sério - disse eu, sentindo que fizera uma verdadeira
descoberta.
Dom Juan não fez comentários sobre o que eu disse. Continuou explicando a questão das duas
mentes como se eu não tivesse dito uma palavra.
- Resolver o conflito das duas mentes é uma questão de inventário - disse ele. - Os feiticeiros
chamam o intento quando pronunciam a palavra intento em voz forte e clara. Intento é uma força que
existe no universo. Quando os feiticeiros chamam o intento, ele lhes chega e prepara o caminho para
as suas realizações, isso significa que os feiticeiros sempre concretizam aquilo a que se propõem.
- Isso quer dizer, Dom Juan, que os feiticeiros sempre conseguem tudo o que querem, mesmo que
seja algo mesquinho ou arbitrário? - perguntei.
- Não, não é isso o que eu quis dizer. Pode-se chamar o intento para qualquer coisa - respondeu Dom
Juan -, mas os feiticeiros descobriram, a duras penas, que o intento só vem a eles para algo que é
abstrato. Essa é a válvula de segurança dos feiticeiros; de outra forma eles seriam insuportáveis. No
seu caso, chamar o intento para resolver o conflito entre as suas duas mentes não é uma questão nem
mesquinha nem arbitrária. Pelo contrário, é um assunto etéreo e abstrato, mas tão vital para você
como qualquer outra coisa.
O Lado Ativo do Infinito, pág. 19

- Com certeza, alguma coisa em você realmente desabou, - disse ele finalmente. - Você vem
desabando há um tempo, mas isso é consertado por si mesmo muito rapidamente, cada vez que o seu
apoio falha. Minha sensação é que isso agora desabou totalmente.
Depois de outro longo silêncio, Dom Juan explicou que os feiticeiros do México antigo acreditavam,
como ele já me dissera, que temos duas mentes, e só uma delas é verdadeiramente nossa. Sempre
tinha entendido que Dom Juan dizia que havia duas partes da nossa mente, e uma delas ficava
sempre em silêncio porque a expressão lhe era negada pelo poder da outra parte. O que quer que
Dom Juan tenha dito, eu tomava como uma maneira metafórica de explicar, talvez, a dominância
aparente do hemisfério esquerdo do cérebro sobre o direito, ou algo do gênero.
- Há uma opção secreta para a recapitulação - disse Dom Juan. - Assim como lhe disse que há uma
opção secreta para morrer, uma opção que somente os feiticeiros fazem. No caso de morrer, a opção
secreta é que os seres humanos podem reter a sua força vital e renunciar somente à sua consciência, o

5
6

produto de suas vidas. No caso da recapitulação, a opção secreta que somente os feiticeiros fazem é
escolher intensificar as suas mentes verdadeiras.
A memória inquietante de suas recordações só poderia vir de sua mente verdadeira. A outra mente
que todos temos e compartilhamos, eu diria, é um modelo barato: um poder econômico, o mesmo
tamanho serve para todos. Porém, esse é um assunto que discutiremos mais tarde. O que está em
jogo agora é o advento de uma força desintegradora. Mas não a força que o está desintegrando, não é
isso que quero dizer. Ela está desintegrando o que os feiticeiros chamam de instalação forânea, que
existe em você e em todo o ser humano. O efeito da força que está surgindo em você, que está
desintegrando a instalação forânea, é que puxa os feiticeiros para fora da sintaxe delas."
Ouvi Dom Juan cuidadosamente, mas não poderia dizer que entendi o que ele havia dito. Por alguma
razão estranha, que para mim era tão desconhecida como a causa das minhas recordações tão vivas,
não pude lhe fazer nenhuma pergunta.
- Sei como é difícil para você - Dom Juan disse de repente - lidar com essa faceta da sua vida. Cada
feiticeiro que conheci passou por isso. Os homens que passam por isso sofrem infinitamente mais
danos do que as mulheres. Os feiticeiros do México antigo, agindo em grupo, tentaram o melhor que
puderam amortecer o impacto dessa força desintegradora. Em nossos dias, não temos meios de agir
como um grupo, assim devemos nos apoiar em nós mesmos para enfrentar solitariamente essa força
que vai nos levar para longe da linguagem, pois não há meios de descrever adequadamente o que
está acontecendo.
Dom Juan estava certo, pois na verdade eu não podia explicar ou não encontrava uma maneira de
descrever os efeitos dessas recordações. Dom Juan dissera-me que os feiticeiros enfrentam o
desconhecido nos incidentes mais comuns que se pode imaginar. Quando se confrontam com eles e
não podem interpretar o que estão percebendo, devem confiar em uma fonte externa para saber a
direção. Dom Juan chamou essa fonte de infinito ou a voz do espírito, e disse que se os feiticeiros
não tentam ser racionais sobre o que não pode ser racionalizado, o espírito infalivelmente dirá a eles
o que está ocorrendo.
Dom Juan me orientou para aceitar a idéia de que o infinito era uma força que tinha uma voz e era
consciente de si. Consequentemente, ele me preparou para estar pronto para ouvir essa voz e agir
eficientemente sempre, mas sem antecedentes, usando o mínimo possível as grades do a priori.
Esperei impacientemente pela voz do espírito, para que me dissesse o significado de minhas
recordações, mas nada aconteceu.
O Lado Ativo do Infinito, pág.208

Dom Juan dissera que os feiticeiros de sua linhagem consideravam que um dos resultados mais
almejados do silêncio interior era a interação específica de energia, que sempre se anuncia através de
uma forte emoção. Sentia que as minhas recordações eram o meio de me agitar ao extremo, onde eu
experimentaria essa interação. Tal interação se manifestava em termos de tonalidades que eram
projetadas em qualquer horizonte no mundo da vida cotidiana, seja uma montanha, o céu, uma
parede ou simplesmente as palmas das mãos. Explicara que essa interação de tonalidades começa
com a aparição de uma tênue pincelada lavanda no horizonte. Com o tempo, essa pincelada lavanda
começa a se expandir até cobrir o horizonte visível, como as nuvens de uma tempestade que se
aproxima.
Assegurou-me que, saindo das nuvens de cor lavanda, surge um ponto de um vermelho cor de romã,
peculiar, rico. Disse que à medida que os feiticeiros se tornam mais disciplinados e experientes, o
ponto cor de romã se expande e finalmente explode em pensamentos ou visões, ou no caso do
homem letrado, em palavras escritas; os feiticeiros têm visões engendradas por energia, ouvem
pensamentos sendo enunciados por palavras, ou lêem palavras escritas.
Naquela noite, em minha escrivaninha, não vi nenhuma pincelada lavanda, nem vi nenhuma nuvem
se aproximando. Sabia que eu não tinha a disciplina de que os feiticeiros precisam para tal interação
com a energia, mas eu tinha um enorme ponto vermelho-romã na minha frente. Esse ponto enorme,
sem qualquer preliminar, explodiu em palavras desassociadas que eu lia como se estivessem numa

6
7

folha de papel saindo de uma máquina de escrever. As palavras se moviam com tal velocidade na
minha frente que era impossível ler alguma coisa. Ouvi então uma voz descrevendo-me algo.
Novamente, a velocidade da voz era imprópria para os meus ouvidos. As palavras eram truncadas,
tornando impossível ouvir alguma coisa que fizesse sentido.
Como se não bastasse, comecei a ver cenas levemente doentias, como as que se vê em sonhos,
depois de uma refeição pesada. Eram barrocas, escuras, sinistras. Comecei a me contorcer e
continuei assim até que fiquei enjoado. A cena inteira terminou aí. Senti o efeito do que me ocorrera
em cada músculo do meu corpo. Estava exausto. Essa intervenção violenta me fez ficar irritado e
frustrado.
Corri para a casa de Dom Juan para contar-lhe esse acontecimento. Senti que mais do que nunca
precisava de sua ajuda.
- Não há nada suave sobre os feiticeiros e a feitiçaria - Dom Juan comentou depois de ouvir minha
história. - Essa foi a primeira vez que o infinito desceu sobre você de tal forma. Foi como uma
ofensiva surpresa, uma tomada total das suas faculdades. Em relação à velocidade de suas visões,
você mesmo vai precisar aprender a se ajustar a elas. Para alguns feiticeiros, isso é um trabalho para
a vida toda. Mas de agora em diante, a energia vai aparecer para você como se estivesse sendo
projetada numa tela de cinema.
"Se você entender ou não a projeção, é outro assunto. Para se fazer uma interpretação exata, você
precisa de experiência. Minha recomendação é que você não seja tímido, e deve começar agora. Leia
energia na parede! Sua mente verdadeira está emergindo, e não tem nada a ver com a mente que é a
instalação forânea. Deixe a sua mente verdadeira ajustar a velocidade. Fique em silêncio, não se
atormente, aconteça o que acontecer:
- Mas, Dom Juan, tudo isso é possível? Pode-se mesmo ler a energia como se fosse um texto? -
perguntei, completamente oprimido por essa idéia.
- Claro que é possível! - retrucou ele. - No seu caso, não só é possível, como está acontecendo.
- Mas por que ler como se fosse um texto? - insisti, mas era apenas uma insistência retórica.
- Isso é uma afetação de sua parte - disse ele. - Se você ler o texto, poderá repeti-lo literalmente.
Entretanto, se tentar ser um observador do infinito em vez de um leitor do infinito, perceberá que não
poderia descrever o que está observando, e acabaria balbuciando futilidades, incapaz de verbalizar o
que testemunha. A mesma coisa se tentar ouvir. Isso, claro, é específico para você. De qualquer
forma, o infinito escolhe. O guerreiro-viajante simplesmente aquiesce com a escolha.
"Mas acima de tudo - acrescentou ele, depois de uma pausa calculada - não fique dominado pelo
evento porque não consegue descrevê-lo. Esse é um evento que está além da sintaxe de nossa
linguagem."
O Lado Ativo do Infinito, pág. 215

Sombras de barro
Sentar em silêncio com don Juan era uma das experiências mais agradáveis para mim. Estávamos
sentados em cadeiras almofadadas na parte posterior de sua casa nas montanhas do México central.
Era o final da tarde. Havia uma brisa agradável.
O sol estava atrás da casa, às nossas costas. Sua luz pálida criava extraordinárias sombras verdes nas
grandes árvores do quintal, que cresciam em volta da casa, e além dela, escondendo a vista da cidade
onde ele morava. Isso sempre me dava a impressão de que eu estava em um sertão, num sertão
diferente do árido deserto de Sonora, mas mesmo assim uma região agreste.
- Hoje vamos discutir o tópico mais sério em feitiçaria disse Dom Juan abruptamente - e vamos
começar falando sobre o corpo energético.
Ele me descrevera inúmeras vezes o corpo energético, dizendo que era um conglomerado de campos
energéticos, uma imagem refletida do conglomerado de campos energéticos que completam o corpo

7
8

físico quando é visto como energia que flui no universo. Dissera que era menor, mais compacto, e
parecia ser mais pesado do que a esfera luminosa do corpo físico.
Dom Juan explicara que o corpo e o corpo energético eram dois conglomerados de campos
energéticos comprimidos juntos por alguma estranha força aglutinante. Enfatizara inúmeras vezes
que a força que liga esse grupo de campos energéticos era, segundo os feiticeiros do México antigo,
a força mais misteriosa do universo. Na sua avaliação pessoal era a pura essência do cosmo como um
todo, a soma total de tudo o que existe.
Afirmara que o corpo físico e o corpo energético eram as únicas configurações energéticas
contrabalançadas no nosso domínio como seres humanos. Não aceitava, portanto, nenhum outro
dualismo além do existente entre esses dois. O dualismo entre o corpo e a mente, o espírito e a carne,
era considerado por ele como sendo mera concatenação da mente, emanando desta sem qualquer
base energética.
Dom Juan dissera que por meio da disciplina é possível para uma pessoa trazer o corpo energético
para mais perto do corpo físico. Normalmente, a distância entre os dois é enorme. Uma vez que o
corpo energético esteja a uma certa distância, que varia para cada um de nós individualmente,
qualquer pessoa, através da disciplina, pode forjá-lo em uma réplica exata do seu corpo físico - ou
seja, um ser sólido, tridimensional. Assim surgiu a idéia dos feiticeiros do outro ou do duplo. Da
mesma forma, através dos mesmos processos de disciplina, qualquer um pode forjar seu corpo físico
sólido e tridimensional, para ser uma réplica perfeita de seu corpo energético - ou seja, uma carga
etérea de energia invisível ao olho humano, como toda energia é.
Quando Dom Juan me contou tudo sobre isso, minha reação foi perguntar-lhe se ele estava
descrevendo uma proposição mítica. Ele respondeu que não havia nada mítico sobre os feiticeiros.
Os feiticeiros eram seres práticos, e o que descreviam era sempre algo totalmente sóbrio e realista.
Segundo Dom Juan, a dificuldade em entender o que os feiticeiros faziam era porque eles agiam a
partir de um sistema cognitivo diferente.
Sentado nos fundos de sua casa no México central naquele dia, Dom Juan disse que o corpo
energético era a chave de maior importância para entender o que quer que estivesse acontecendo em
minha vida. Via que era um fato energético que meu corpo energético, em vez de se afastar de mim,
como normalmente acontece, estava se aproximando de mim a uma grande velocidade.
- O que isso significa, que ele está se aproximando de mim, Dom Juan? - perguntei.
- Significa que algo irá nocauteá-lo - disse ele sorrindo. - Um tremendo grau de controle virá para
entrar na sua vida, mas não um controle seu, o controle do corpo energético.
- Você quer dizer, Dom Juan, que alguma força externa me controlará? - perguntei.
- Há inúmeras forças externas controlando você nesse momento - Dom Juan respondeu. - O controle
a que estou me referindo é algo fora do domínio da linguagem. É o seu controle e ao mesmo tempo
não é. Não pode ser classificado, mas pode ser experimentado. E acima de tudo, pode certamente ser
manipulado. Lembre-se disso: pode ser manipulado para a sua total vantagem, claro que, novamente,
não é a sua vantagem, mas a vantagem do corpo energético. Entretanto, o corpo energético é você,
portanto poderemos continuar eternamente, como um cachorro correndo atrás de seu próprio rabo,
tentando descrever isso. A linguagem é inadequada. Todas essas experiências estão além da sintaxe.
A escuridão chegou muito rapidamente, e as folhagens das árvores que um pouco antes eram de um
verde brilhante agora estavam muito escuras e espessas. Dom Juan disse que se eu prestasse muita
atenção na escuridão da folhagem sem focalizar os meus olhos, mas olhasse pelos cantos dos meus
olhos, poderia ver uma sombra fugaz cruzando pelo meu campo visual.
- Este é o momento adequado do dia para fazer o que estou lhe pedindo - disse ele. - Leva um
momento para ajustar a atenção necessária em você para fazer isso. Não pare até captar essa sombra
preta fugaz.
Vi algumas sombras pretas fugazes estranhas, projetadas na folhagem das árvores. Era uma sombra
indo e vindo ou várias sombras fugazes se movendo da esquerda para a direita ou da direita para a
esquerda, ou subindo para o ar. Para mim, pareciam como peixes pretos e corpulentos, peixes
enormes. Era como se peixes-espadas gigantescos estivessem voando no ar. Fiquei absorto com a

8
9

visão. Então, finalmente, isso me assustou. Ficou muito escuro para ver a folhagem, mas eu
continuava vendo ainda as sombras pretas fugazes.
- O que é isso, Dom Juan? - perguntei. - Vejo sombras pretas fugazes em todo lugar.
- Esse é o universo em liberdade - disse ele -, incomensurável, não linear, fora do reino da sintaxe.
Os feiticeiros do México antigo foram os primeiros a ver aquelas sombras fugazes, então começaram
a segui-las. Eles as viam como você as vê, e eles as viam como energia fluindo no universo. E
descobriram algo transcendental.
Parou de falar e olhou para mim. Suas pausas eram perfeitamente colocadas. Sempre parava de falar
quando eu estava por um fio.
- O que eles descobriram, Dom Juan? - perguntei.
- Descobriram que possuímos um companheiro por toda a vida - disse tão claro quanto podia. -
Possuímos um predador que veio das profundezas do cosmo, e assumiu o controle dos preceitos de
nossa vida. Os seres humanos são seus prisioneiros. O predador é nosso senhor e mestre. Nos faz
dóceis, indefesos. Se queremos protestar, ele suprime os nossos protestos. Se queremos agir
independentemente, exige que não o façamos.
Estava muito escuro à nossa volta, e isso parecia reduzir qualquer expressão da minha parte. Se fosse
dia, eu teria rido à larga. No escuro, sentia-me bastante inibido.
- Está muito escuro à nossa volta - Dom Juan disse -, mas se você olhar pelos cantos dos olhos,
conseguirá ainda ver essas sombras fugazes pulando por toda a sua volta.
Ele tinha razão. Ainda conseguia enxergá-las. Seus movimentos me deixavam tonto. Dom Juan
acendeu as luzes, e isso pareceu dissipar tudo.
- Você conseguiu, por seu próprio esforço, chegar aonde os xamãs do México antigo chamam de
tópico dos tópicos - disse
Dom Juan. - Tenho usado de rodeios esse tempo todo, insinuando a você que algo nos está
aprisionando. Com certeza somos mantidos prisioneiros! Esse era um fato energético para os
feiticeiros do México antigo.
- Por que esse predador assumiu o controle dessa forma que você está descrevendo, Dom Juan? -
perguntei. - Deve haver uma explicação lógica.
- Há uma explicação - respondeu Dom Juan -, que é a explicação mais simples do mundo. Eles
assumiram o controle porque somos alimento para eles, e eles nos esmagam sem piedade porque
somos seu sustento. Assim como criamos galinhas em capoeiras, gallineros, os predadores nos
criam em humaneros. Portanto seu alimento está sempre disponível para eles.
Senti que minha cabeça tremia violentamente de um lado para outro. Não podia exprimir minha
profunda sensação de incômodo e descontentamento, porém meu corpo se movia para traze-la até a
superfície. Tremi da cabeça aos pés sem qualquer volição de minha parte.
- Não, não, não, não - ouvi a mim mesmo dizer. - Isto é absurdo, Dom Juan. O que você está dizendo
é algo monstruoso. Simplesmente não pode ser verdade, nem para os feiticeiros nem para os homens
comuns nem para ninguém.
- Por que não? - perguntou Dom Juan calmamente. - Por que não? Porque deixa você furioso?
- É, isso me deixa furioso - retruquei. - Essas alegações são monstruosas.
- Bem - disse ele -, você ainda não ouviu todas. Espere um pouco mais e veja como se sente. Vou
fazê-lo passar por um bombardeio. Isto é, vou sujeitar a sua mente a violentos ataques, e você não
poderá se levantar e sair, porque está preso. Não que eu esteja fazendo você de prisioneiro, mas
porque algo em você o impedirá de partir, enquanto outra parte de você irá verdadeiramente
enlouquecer. Portanto, prepare-se!
Havia algo em mim que sentia como se fosse um glutão pedindo castigo. Ele estava certo. Eu não
teria ido embora por nada neste mundo. E mesmo assim, não gostava nada das nulidades que ele
estava despejando.
- Quero apelar para a sua mente analítica - disse Dom Juan. - Pense por um momento, e diga-me
como você explicaria a contradição entre a inteligência do homem, o engenheiro, e a estupidez de
seus sistemas de crenças, ou a estupidez de seu comportamento contraditório. Os feiticeiros

9
10

acreditam que os predadores nos deram nossos sistemas de crenças, nossas idéias do bem e do mal,
nossos costumes sociais. Eles são os que causaram nossas esperanças e expectativas, e sonhos de
sucesso ou fracasso. Nos deram ganância, avareza e covardia. São os predadores que nos tornam
complacentes, rotineiros e egomaníacos.
- Mas como podem fazer isso, Dom Juan? - perguntei, um pouco mais bravo com o que ele estava
dizendo. - Eles sussurram tudo isso nos nossos ouvidos enquanto dormimos?
- Não, não é dessa forma que fazem. Isso é idiotice! - disse Dom Juan sorrindo. - São infinitamente
mais eficientes e organizados do que isso. Para poder nos manter obedientes, submissos e fracos, os
predadores se envolvem numa estupenda manobra, estupenda, claro, do ponto de vista de um
lutador estrategista. Uma manobra horrenda do ponto de vista daqueles que a sofrem. Eles nos deram
as suas mentes! Você está me ouvindo? Os predadores nos dão as mentes deles, que se tornam
nossas mentes. A mente dos predadores é barroca, contraditória, morosa, cheia de medo de ser
descoberta a qualquer momento.
"Sei que apesar de nunca ter sentido fome, você tem ansiedade por comida, que nada mais é do que a
ansiedade do predador que tem medo de, a qualquer momento, ter sua manobra descoberta e a
comida negada. Através da mente, que afinal é a mente deles, os predadores injetam nas nossas
vidas de seres humanos o que lhes é conveniente. E dessa maneira garantem um grau de segurança
que age como um amortecedor contra o seu medo."
- Não que eu não aceite tudo isso como válido, Dom Juan - eu disse. - Poderia aceitar, mas há algo
tão odioso sobre isso que na verdade me repele. Força-me a tomar uma posição contraditória. Se for
verdade que eles nos comem, como fazem isso?
Dom Juan tinha um amplo sorriso no seu rosto. Estava tão satisfeito como nunca. Explicou-me que
os feiticeiros vêem bebês humanos como estranhas bolas luminosas de energia, cobertas de cima a
baixo com uma capa brilhante, algo como um casaco de plástico que é ajustado e bem apertado sobre
seu casulo de energia. Disse que essa capa brilhante de consciência era o que os predadores
consumiam, e que quando o ser humano alcançava a idade adulta, tudo o que sobrava daquela capa
brilhante de consciência era uma franja estreita que ia do chão até acima dos dedos dos pés. Essa
franja permitia à humanidade continuar vivendo, mas apenas vivendo.
Como se estivesse num sonho, ouvi Dom Juan Matus explicar que, até onde ele sabia, o homem era a
única espécie que tinha a capa brilhante de consciência fora daquele casulo luminoso. Portanto, se
tornou uma presa fácil para uma consciência de uma ordem diferente, tal como a consciência pesada
de um predador.
Aí fez a declaração mais contundente que jamais fizera. Disse que essa franja estreita de consciência
era o epicentro da auto-reflexão, onde o homem estava irremediavelmente preso. Ao jogar com nossa
auto-reflexão, que é o único ponto de consciência que nos sobrou, os predadores criaram lampejos
de consciência que eles passaram a consumir de forma implacável e predatória. Nos deram
problemas fúteis que forçam esses lampejos de consciência a surgir, e dessa forma eles nos mantêm
vivos em boa condição para que possam se alimentar com o lampejo energético de nossas
pseudopreocupações.
Com certeza havia algo no que Dom Juan dizia que era tão devastador para mim que, naquele
momento, eu realmente passei mal do estômago.
Depois de um momento de pausa, longo o suficiente para me recuperar, perguntei a Dom Juan:
- Mas, por que os feiticeiros do México antigo e todos os feiticeiros de hoje, apesar de verem os
predadores, não fazem nada sobre isso?
- Não há nada que você ou eu possamos fazer sobre isso - disse Dom Juan num tom grave e triste. -
Tudo o que podemos fazer é nos disciplinarmos ao ponto de não deixar que eles nos toquem. Como
você pode pedir para os outros homens terem esse rigor de disciplina? Eles rirão e gozarão de você, e
os mais agressivos irão encher você de pancadas até não poder mais. Não tanto porque não acreditam
nisso. Bem no fundo de cada ser humano há um conhecimento ancestral, visceral, sobre a existência
dos predadores.

10
11

Minha mente analítica ia e vinha como um ioiô. Ia embora e voltava, ia embora e voltava novamente.
O que Dom Juan estava expondo era absurdo, inacreditável. Ao mesmo tempo, era a coisa mais
razoável e tão simples. Isso explicava cada espécie de contradição humana que eu poderia imaginar.
Porém, como se poderia levar tudo isso a sério? Dom Juan estava me empurrando para o caminho de
uma avalanche que me derrubaria para sempre.
Senti uma outra onda de sensação amedrontadora. A onda não surgia de mim, mas estava ligada a
mim. Dom Juan estava me fazendo algo, misteriosamente positivo e ao mesmo tempo terrivelmente
negativo. Senti como uma tentativa de cortar um filme fino que parecia estar colado em mim. Seus
olhos estavam fixos nos meus, me encarando sem piscar. Desviou os seus olhos e começou a falar
sem me olhar mais.
- Sempre que tiver dúvidas que o assolem a um ponto perigoso - disse ele -, faça alguma coisa
pragmática sobre isso. Apague as luzes. Penetre na escuridão e descubra o que pode ver.
Ele levantou-se para apagar as luzes. Eu o detive.
- Não, não, Dom Juan - eu disse -, não apague as luzes.
Estou bem.
O que senti então foi o mais incomum medo, para mim, da escuridão. O mero pensamento me fez
perder o fôlego. De modo definitivo eu sabia algo visceralmente, mas não ousava tocar nele, nem
trazê-lo para a superfície, por nada deste mundo!
- Você viu as sombras fugazes nas árvores - Dom Juan disse recostando-se na cadeira. - Isso é muito
bom. Gostaria que você as visse aqui nesta sala. Você não está vendo nada. Você está meramente
captando imagens fugazes. Você tem energia suficiente para isso.
Fiquei com medo de que Dom Juan se levantasse e de qualquer modo apagasse as luzes, o que fez.
Dois segundos mais tarde, eu gritava como nunca. Não só eu tinha vislumbrado aquelas imagens
fugazes, como as ouvi zumbindo nos meus ouvidos. Dom Juan se dobrou de rir ao acender as luzes.
- Que rapaz temperamental! - disse ele. - Um total descrente, por um lado, e um completo
pragmático, por outro. Você deve organizar essa luta interna. Senão, vai inchar como um sapo
enorme e explodir.
Dom Juan continuou empurrando a sua farpa em mim, mais e mais fundo.
- Os feiticeiros do México antigo - disse ele - viram o predador. Chamaram-no de voador porque ele
salta através do ar. Não é uma visão agradável. É uma enorme sombra, impenetravelmente escura,
uma sombra preta, que pula através do ar. Então, aterrissa plana no chão. Os feiticeiros do México
antigo ficaram muito incomodados com a idéia de quando apareceria na Terra. Eles raciocinavam
que o homem deve ter sido um ser completo a um certo ponto, com insights incríveis, façanhas de
consciência que hoje em dia são lendas mitológicas. E depois parece que tudo desapareceu, e agora
somos homens sedados.
Queria ficar bravo, chamá-lo de paranóico, mas de alguma forma a retidão que geralmente ficava
apenas abaixo da superfície de meu ser não estava lá. Alguma coisa em mim tinha ultrapassado o
ponto de fazer a mim mesmo a minha pergunta predileta: E se tudo o que ele diz for verdade? Na
hora em que ele falava comigo naquela noite, no fundo do meu coração, senti que tudo o que ele
estava dizendo era verdade, mas ao mesmo tempo e com força igual tudo o que ele estava dizendo
era o próprio absurdo.
- O que está dizendo, Dom Juan? - perguntei fracamente. Minha garganta estava apertada. Mal
conseguia respirar.
- O que estou dizendo é que o que nós temos contra nós não é um simples predador. Ele é muito
esperto e organizado. Segue um sistema metódico para nos tornar inúteis. O homem, o ser mágico
que ele está destinado a ser, não é mais mágico. É um mero pedaço de carne. Não há mais sonhos
para o homem, mas os sonhos de um animal que está sendo criado para se tornar um pedaço de
carne: banal, convencional, imbecil.
As palavras de Dom Juan estavam evocando em meu corpo uma reação estranha, semelhante à
sensação de náusea. Era como se eu fosse passar mal do estômago de novo. Mas a náusea estava
vindo do fundo do meu ser, da medula de meus ossos. Tive uma convulsão involuntária. Dom Juan

11
12

me sacudiu pelos ombros com força. Senti meu pescoço oscilando para trás e para frente sob o
impacto de suas mãos. A manobra me acalmou imediatamente. Senti-me mais controlado.
- Esse predador - Dom Juan disse -, que, claro, é um ser inorgânico, não nos é totalmente invisível,
como são os outros seres inorgânicos. Acho que quando crianças o vemos e decidimos que isso é tão
horroroso que não queremos pensar sobre isso. As crianças, claro, poderiam insistir em focalizar essa
perspectiva, mas todos à sua volta as convencem de não fazê-lo.
"A única alternativa para a humanidade é a disciplina. Disciplina é o único meio de detê-lo. Mas por
disciplina não quero dizer rotinas severas. Não quero dizer acordar cedo, às cinco e meia da manhã e
ficar jogando água fria no rosto até se tornar azul. Os feiticeiros entendem por disciplina a
capacidade de enfrentar com serenidade obstáculos que não estão incluídos nas nossas expectativas.
Para eles, disciplina é uma arte: a arte de enfrentar o infinito sem titubear, não porque são fortes e
resistentes, mas porque estão cheios de respeito e assombro."
- De que maneira a disciplina dos feiticeiros seria um meio de detê-los? - perguntei.
- Os feiticeiros dizem que a disciplina torna a capa brilhante da consciência não palatável ao voador
- disse Dom Juan, estudando meu rosto como se quisesse descobrir algum sinal de descrença. - O
resultado é que os predadores ficam desnorteados. Suponho que a capa brilhante de consciência,
que não é comestível, não faça parte de sua cognição. Depois de ficarem desnorteados, eles não têm
alternativa a não ser deixar a sua tarefa abominável.
"Se os predadores não comerem nossa capa brilhante de consciência durante um período, ela
continua crescendo. Simplificando essa questão ao extremo, posso dizer que os feiticeiros, por meio
de sua disciplina, afastam os predadores por tempo suficiente para permitir que sua capa brilhante
de consciência cresça além do nível dos seus dedos dos pés. Uma vez ultrapassado esse nível, ela
cresce de novo até seu tamanho natural. Os feiticeiros do México antigo costumavam dizer que a
capa brilhante de consciência é como uma árvore. Se não for podada, cresce até o seu tamanho e
volume naturais. À medida que a consciência atinge níveis mais altos do que os dedos dos pés, as
manobras tremendas de percepção se tornam um fato natural.
"O grande truque daqueles feiticeiros dos tempos antigos era carregar a mente dos voadores com
disciplina. Descobriram que se sobrecarregassem a mente dos voadores com silêncio interior, a
instalação forânea fugiria, dando a cada um dos praticantes envolvidos nessa manobra a certeza
total da origem estrangeira da mente. A instalação forânea volta, eu lhe asseguro, mas não tão forte,
e começa um processo no qual a fuga da mente dos voadores se torna rotina, até que um dia fogem
para sempre. Com certeza um dia triste! Esse é o dia em que você deve confiar nos seus próprios
recursos, que são quase zero. Não há ninguém para lhe dizer o que fazer. Não há nenhuma mente de
origem estrangeira para ditar as imbecilidades a que você está acostumado.
"Meu mestre, o nagual Julian, costumava prevenir os seus discípulos de que esse era o dia mais duro
na vida de um feiticeiro, pois a mente real que nos pertence, a soma total de nossas experiências,
depois de toda uma vida de dominação, tornou-se tímida, insegura e evasiva. Pessoalmente, diria que
a batalha verdadeira dos feiticeiros começa nesse momento. O resto é mera preparação."
Fiquei realmente agitado. Queria saber mais, mas uma estranha sensação em mim implorava para eu
parar. Aludia a resultados escuros e punições, algo como a ira de Deus descendo sobre mim para
mexer com algo velado pelo próprio Deus. Fiz um esforço supremo para permitir que a minha
curiosidade vencesse.
- O que, o que, o que você quer dizer - ouvi-me perguntar - com sobrecarregar a mente dos
voadores?
- A disciplina sobrecarrega continuamente a mente estrangeira - respondeu ele. - Portanto, através de
sua disciplina, os feiticeiros subjugam a instalação forânea.
Estava oprimido por suas afirmações. Acreditava que Dom Juan ou estava atestadamente louco ou
estava me contando algo tão terrível que tudo em mim se congelou. Percebi, entretanto, como reuni
rapidamente minha energia para negar tudo o que ele dissera. Depois de um instante de pânico,
comecei a rir, como se Dom Juan tivesse me contado uma piada. Cheguei mesmo a me ouvir dizer:
- Dom Juan, Dom Juan, você é incorrigível!

12
13

Dom Juan parecia entender tudo o que eu estava experimentando. Balançou a cabeça de um lado
para outro e levantou seus olhos para os céus num gesto de fingido desespero.
- Sou tão incorrigível - disse ele - que vou dar à mente dos voadores, os que você carrega dentro de
você, mais um tranco. Vou lhe revelar um dos segredos mais extraordinários da feitiçaria. Vou
descrever para você uma descoberta que levou milhares de anos para os feiticeiros verificarem e
consolidarem.
Olhou-me e sorriu maliciosamente.
- A mente dos voadores foge para sempre - disse ele -, quando um feiticeiro consegue se agarrar à
força vibratória que nos mantém coesos como um conglomerado de campos de energia. Se um
feiticeiro mantém essa pressão por tempo suficiente, a mente dos voadores foge, derrotada. E é
exatamente isso o que você vai fazer: agarrar-se à energia que o mantém coeso.
Tive a reação mais inexplicável que poderia imaginar. Algo em mim verdadeiramente se sacudiu,
como se tivesse recebido um solavanco. Entrei num estado de medo injustificado, que imediatamente
associei com minha formação religiosa.
Dom Juan me olhou dos pés à cabeça.
- Você está temendo a ira de Deus, não é? - disse ele. Fique tranqüilo, isso não é seu medo. É o medo
dos voadores, porque sabem que você irá fazer exatamente o que estou lhe dizendo.
Suas palavras não conseguiram me acalmar. Senti-me pior.
Na realidade estava tendo convulsões involuntárias, e não conseguia controlá-las.
- Não se preocupe - Dom Juan disse calmamente. - Estou certo de que ataques como esses passam
rapidamente. A mente dos voadores não tem a menor concentração.
Depois de um momento, tudo parou, conforme Dom Juan previra. Dizer novamente que estava
desnorteado seria um eufemismo. Essa foi a primeira vez, na minha vida, com Dom Juan ou só, que
eu não sabia se estava indo ou vindo. Queria sair da cadeira e dar uma volta, mas estava morto de
medo. Estava repleto de afirmações racionais e ao mesmo tempo estava cheio de um medo infantil.
Comecei a respirar profundamente à medida que um suor frio cobria todo o meu corpo. De alguma
forma eu tinha desencadeado em mim mesmo uma visão pavorosa: sombras fugazes, pretas, pulando
em toda minha volta, onde quer que eu virasse.
Fechei os olhos e descansei minha cabeça no braço da cadeira almofadada.
- Não sei para que lado virar, Dom Juan - disse eu. - Esta noite, você realmente conseguiu me fazer
sentir perdido.
- Você está sendo dilacerado por uma luta interna - Dom Juan disse. - Bem no fundo de você, você
sabe que é incapaz de recusar o acordo em que uma parte sua indispensável, sua capa brilhante de
consciência, vai servir como fonte nutritiva incompreensível para, naturalmente, entidades
incompreensíveis. E outra parte sua irá contra essa situação com toda a sua força.
"A revolução dos feiticeiros é que eles se recusam a honrar os acordos dos quais não participaram.
Ninguém nunca me perguntou se eu consentiria em ser devorado por seres com um tipo diferente de
consciência. Meus pais simplesmente me trouxeram para esse mundo para ser alimento, como eles
mesmos, e esse é o fim da história:
Dom Juan levantou-se de sua cadeira e alongou os braços e as pernas.
- Estamos sentados aqui há horas. É hora de entrar em casa.
Vou comer. Você gostaria de comer comigo?
Recusei. Meu estômago estava um tumulto.
- Acho melhor você ir dormir - disse ele. - O bombardeio arrasou você.
Não precisei de uma sugestão adicional. Caí na minha cama e adormeci como um morto.
Em casa, à medida que o tempo passava, a idéia dos voadores se tornou uma das principais fixações
de minha vida. Cheguei ao ponto de achar que Dom Juan estava totalmente certo sobre eles.
Independentemente de quanto eu tentasse, não podia descartar a sua lógica. Quanto mais pensava
sobre isso, e quanto mais eu falasse e me observasse assim como aos outros homens, mais intensa era
a minha convicção de que algo nos tornava incapazes de qualquer atividade, qualquer interação ou
qualquer pensamento que não tivesse o eu como ponto de enfoque. Minha preocupação, assim como

13
14

a preocupação de cada pessoa que eu conhecia ou falasse, era o eu. Como eu não podia encontrar
nenhuma explicação para tal homogeneidade universal, acreditava que a linha de pensamento de
Dom Juan era a maneira mais apropriada para elucidar o fenômeno.
Aprofundei-me ao máximo nas leituras sobre mitos e lendas. Ao ler, experimentei algo que nunca
experimentara antes: cada um dos livros que lia era uma interpretação de mitos e lendas. Em cada
um daqueles livros, uma mente homogênea era palpável. Os estilos diferiam, mas o impulso atrás das
palavras era homogeneamente o mesmo: apesar de o tema ser algo tão abstrato como mitos e lendas,
os autores sempre conseguiam inserir afirmações sobre eles mesmos. O impulso homogêneo atrás de
cada um daqueles livros não era o tema anunciado no livro; ao contrário, era o auto-serviço. Nunca
sentira isso antes.
Atribuí a minha reação à influência de Dom Juan. A questão inevitável que eu me colocava era:
estaria ele me influenciando para poder ver isso, ou há realmente uma mente estrangeira ditando tudo
o que fazemos? Acabei, por força, na negação novamente, e passei como um louco da negação para a
aceitação, e novamente para a negação. Algo em mim sabia que aonde quer que Dom Juan quisesse
chegar era a um fato energético, mas algo igualmente importante em mim sabia que tudo isso era um
disparate. O resultado final de minha luta interna era a sensação de pressentimento, a sensação de
que algo iminentemente perigoso estava vindo.
Fiz inúmeras consultas antropológicas sobre o assunto dos voadores em outras culturas, mas não
encontrei nenhuma referência a eles em lugar algum. Dom Juan parecia ser a única fonte de
informação sobre esse assunto. A próxima vez em que o vi, imediatamente comecei a falar sobre os
voadores.
- Tentei ao máximo ser racional sobre esse assunto - disse eu -, mas não consigo. Há momentos em
que concordo plenamente com você sobre os predadores.
- Focalize a sua atenção nas sombras fugazes que você real mente vê - disse Dom Juan com um
sorriso.
Contei a Dom Juan que aquelas sombras fugazes iam acabar com a minha vida racional. Eu as via
por toda parte. Desde que deixara sua casa, era incapaz de dormir no escuro. Dormir com as luzes
acesas não me incomodava em nada. Entretanto, quando apagava as luzes, tudo em minha volta
começava a pular. Nunca vi figuras completas ou formas. Tudo o que via eram sombras pretas
fugazes.
- A mente dos voadores não deixou você - disse Dom Juan. - Ela está seriamente magoada. Está
tentando ao máximo reorganizar a sua relação com você. Mas alguma coisa em você se rompeu para
sempre. O voador sabe disso. O perigo real é que a mente dos voadores pode vencer ao fazê-lo se
cansar e forçá-lo a desistir, brincando com a contradição entre o que ela diz e o que eu digo.
"Veja, a mente dos voadores não tem concorrentes. Quando propõe algo, concorda com a própria
proposta, e faz você acreditar que fez algo de valor. A mente dos voadores lhe dirá que o que Juan
Matus lhe diz é pura bobagem, e a mesma mente concordará com a própria proposta. “Sim, claro, é
bobagem”, você dirá. Essa é a forma pela qual nos sobrepujam.
"Os voadores são uma parte essencial do universo e devem ser tomados pelo que realmente são:
assombrosos, monstruosos. São os meios pelos quais o universo nos testa.
"Somos sondas energéticas criadas pelo universo - continuou ele como se estivesse esquecido da
minha presença -, e é porque somos possuidores de energia que possui consciência que somos os
meios pelo qual o universo se torna consciente de si mesmo. Os voadores são os desafiantes
implacáveis. Não podem ser tomados como outra coisa. Se formos bem-sucedidos nisso, o universo
nos permitirá continuar."
Queria que Dom Juan falasse mais. Mas ele só disse:
- O bombardeio terminou na última vez em que esteve aqui; só há mais um tanto que se pode dizer
sobre os voadores. Chegou a hora para outro tipo de manobra.
Não pude dormir naquela noite. Caí num sono leve nas primeiras horas do dia, até que Dom Juan me
arrastou para fora da minha cama e me levou para fazer uma caminhada nas montanhas. Onde ele
morava, a configuração da terra era muito diferente daquela do deserto de Sonora, mas ele me disse

14
15

para eu não ficar me entregando às comparações, que depois de andar por quatrocentos metros, todos
os lugares do mundo eram exatamente iguais.
- Excursionar é para quem anda de carro - disse ele.
Andam a uma grande velocidade sem fazer nenhum esforço. Excursionar não é para andarilhos. Por
exemplo, quando você está andando de carro, pode ver uma montanha gigantesca e ficar
admirado com a sua beleza. A visão da mesma montanha não vai afetá-lo da mesma forma se a olhar
enquanto estiver indo a pé; afetará você de uma maneira diferente, especialmente se tiver de escalá-
la ou andar em volta dela.
Era uma manhã muito quente. Caminhamos no leito seco de um rio. Uma coisa que esse vale e o
deserto de Sonora têm em comum eram os milhões de insetos. As moscas e os mosquitos voavam à
minha volta como se fossem caças-bombardeiros vindo direto para minhas narinas, meus olhos e
ouvidos. Dom Juan me disse para não prestar atenção ao seu zumbido.
- Não tente espantá-los com sua mão - disse ele em tom firme. - Intente que se afastem. Construa
uma barreira de energia em volta de você. Fique em silêncio, e do seu silêncio a barreira será
construída. Ninguém sabe como isso é feito. É uma dessas coisas que os antigos feiticeiros
chamaram de fatos energéticos. Pare o seu diálogo interno. Isso é tudo de que se precisa.
"Gostaria de propor uma idéia estranha a você", Dom Juan continuou, andando à minha frente.
Tive de apertar os passos para ficar perto dele e não perder nada do que dizia.
- Devo enfatizar que é uma idéia estranha que encontrará uma enorme resistência em você - disse
ele. - Vou lhe dizer antes de mais nada que você não a aceitará facilmente. Porém, o fato de ser
estranha não deve ser um impedimento. Você é um cientista social. Portanto, sua mente está sempre
aberta para investigações, não é?
Dom Juan estava descaradamente gozando de mim. Eu sabia, mas isso não me incomodava. Talvez
pelo fato de ele estar andando muito rápido, e eu ter de fazer um esforço tremendo para acompanhá-
lo, seu sarcasmo passava direto por mim, e em vez de me chatear, me fazia rir. Minha atenção plena
estava focalizada no que ele dizia, e os insetos pararam de me incomodar ou porque eu intentara uma
barreira de energia à minha volta ou porque estava tão ocupado escutando Dom Juan que não me
importava mais se eles continuavam a zunir à minha volta.
- A idéia estranha - disse ele lentamente, medindo o efeito de suas palavras - é que cada ser humano
nesta Terra parece ter exatamente as mesmas reações, os mesmos pensamentos, os mesmos
sentimentos. Parecem responder mais ou menos da mesma forma aos mesmos estímulos. Essas
reações parecem ser um pouco obscurecidas pela linguagem que eles falam, mas se eliminarmos
isso, são exatamente as mesmas reações que assediam todos os seres humanos na Terra. Gostaria que
você se interessasse por isso, como um cientista social, claro, e veja se consegue formalmente
explicar tal homogeneidade.
Dom Juan coletou uma série de plantas. Algumas delas mal podiam ser vistas. Pareciam mais
espécimes de algas, de musgos. Eu segurava o saco aberto, e não falamos mais. Quando já tinha
coletado plantas suficientes, voltou para sua casa, andando o mais rápido que podia. Disse que queria
limpar e separar aquelas plantas e colocá-las na devida ordem, antes de elas secarem demais.
Estava profundamente envolvido pensando sobre a tarefa que ele me delineara. Comecei tentando
rever em minha mente se sabia de quaisquer artigos ou ensaios escritos sobre esse assunto.
Pensei que teria de pesquisar e decidi começar a minha pesquisa lendo todos os trabalhos disponíveis
sobre "caráter nacional" Fiquei entusiasmado com o tópico, de maneira casual, e realmente queria ir
para casa imediatamente, pois queria levar a sério a minha tarefa. Porém antes de chegarmos em sua
casa, Dom Juan sentou-se numa saliência mais alta, com vista para o vale. Ele não disse nada por um
tempo. Não estava ofegante. Eu não conseguia imaginar por que parara para sentar-se.
- A tarefa do dia para você - disse ele abruptamente, num tom pressagioso - é uma das coisas mais
misteriosas da feitiçaria, alguma coisa que vai além da linguagem, além das explicações. Hoje fomos
dar uma caminhada, conversamos, porque o mistério da feitiçaria deve ser amortecido no mundano.
Deve provir do nada e voltar novamente para o nada. Essa é a arte do guerreiro-viajante: passar

15
16

através do buraco de uma agulha despercebido. Portanto, prepare-se apoiando as suas costas contra
essa parede de pedra, tão longe quanto possível da borda. Estarei com você, caso desmaie ou caia.
- O que está planejando fazer, Dom Juan? - perguntei, e meu alarme era tão patente que percebi e
abaixei minha voz.
- Quero que você cruze as pernas e entre no silêncio interior - disse ele. - Digamos que você queira
descobrir quais artigos poderia procurar para refutar ou provar o que lhe pedi para fazer no seu meio
acadêmico. Entre no silêncio interior, mas não adormeça. Essa não é uma jornada através do mar
escuro da consciência. Mas sim ver a partir do silêncio interior.
Foi bastante difícil para mim entrar no silêncio interior sem cair no sono. Lutei contra um desejo
invencível de adormecer. Consegui e me encontrei olhando para o fundo do vale a partir de uma
escuridão impenetrável à minha volta. E, depois, vi algo que congelou a medula dos meus ossos. Vi
uma sombra gigantesca, talvez de uns cinco metros de lado a lado, saltando no ar e aterrissando com
uma pancada surda e silenciosa. Senti a pancada nos meus ossos, mas não a ouvi.
- Elas são realmente pesadas - disse Dom Juan no meu ouvido. Estava me segurando pelo braço
esquerdo, tão forte quanto podia.
Vi algo que parecia com uma sombra de barro serpenteando no chão, e depois deu um outro salto
gigantesco, talvez de uns quinze metros, novamente aterrissando com o mesmo baque silencioso e
sinistro. Lutei para não perder minha concentração. Estava assustado além de qualquer coisa que
podia racionalmente usar como descrição. Mantive meus olhos fixos na sombra que pulava no fundo
do vale. Então ouvi um zumbido muito estranho, uma mistura do som do bater de asas e o chiado do
rádio que está fora da freqüência de uma estação, e o baque surdo que se seguiu foi algo
inesquecível. Isso sacudiu a mim e Dom Juan até os ossos - uma sombra de barro preta, gigantesca,
aterrissara a nossos pés.
- Não tenha medo - disse Dom Juan com um tom imperioso. - Mantenha seu silêncio interior e ela irá
embora.
Eu tremia da cabeça aos pés. Tinha a nítida certeza de que se não mantivesse o meu silêncio interior
vivo, a sombra de barro iria me cobrir como um cobertor e me sufocar. Sem perder a escuridão à
minha volta, gritei com toda a minha força. Nunca estivera tão bravo, tão imensamente frustrado. A
sombra de barro deu outro salto, claramente para o fundo do vale. Continuei gritando, sacudindo as
pernas. Queria afastar aquilo que queria vir me comer. Meu estado de nervosismo era tão intenso que
perdi a noção do tempo. Talvez tenha desmaiado.
Quando recuperei os sentidos, estava deitado na minha cama na casa de Dom Juan. Havia uma
toalha, ensopada de água gelada, envolta na minha testa. Estava ardendo em febre. Uma das
mulheres do grupo de Dom Juan friccionava as minhas costas, peito e testa com álcool, mas isso não
me aliviava. O calor que sentia vinha de dentro de mim. Fora gerado pela ira e pela impotência.

Dom Juan ria como se o que estava me acontecendo fosse a coisa mais engraçada do mundo. Suas
gargalhadas saíam como enxurradas, sem parar.
- Nunca imaginei que você fosse levar tão a sério ver um voador - disse ele.
Pegou-me pela mão e me conduziu para trás de sua casa, onde me jogou numa enorme tina de água,
completamente vestido sapatos, relógio, tudo.
- Meu relógio, meu relógio! - gritei.
Dom Juan se contorcia de rir.
- Você não devia usar um relógio quando vem me ver disse ele. - Agora estragou seu relógio!
Tirei meu relógio e o coloquei ao lado da tina. Lembrei-me de que era à prova d'água e nada teria
acontecido com ele. Ficar imerso na tina me ajudou imensamente. Quando Dom Juan me tirou da
água gelada, recobrei um certo grau de controle.
- Aquela visão é grotesca! - Eu repetia sem parar, incapaz de dizer outra coisa.
O predador que Dom Juan descrevera não era algo benevolente. Era enormemente pesado, grosseiro,
indiferente. Senti seu desdém por nós. Sem dúvida, nos arrasou tempos atrás, nos tornando, como
dissera Dom Juan, fracos, vulneráveis e submissos. Tirei minhas roupas molhadas, me cobri com um

16
17

poncho, sentei-me em minha cama e chorei verdadeiramente até não poder mais, mas não por mim.
Tinha minha ira, meu intento inflexível, para não deixar que me comessem. Chorei pelos meus
semelhantes, especialmente por meu pai. Nunca soubera, até aquele instante, o quanto eu o amava.
- Ele nunca teve uma chance - ouvi a mim mesmo falar, repetidamente, como se as palavras não
fossem realmente minhas. Meu pobre pai, o ser mais atencioso que eu conhecera, tão terno, tão
gentil, tão indefeso.
O Lado Ativo do Infinito págs. 263 a 285

DEPREDADORES DE CONSCIÊNCIA

A continuação de nossa conversa chegou anos depois. Nessa ocasião, Carlos trouxe a uma de suas
reuniões um conceito completamente novo e aterrorizante que despertou as mais apaixonadas
controvérsias.
"O homem - disse - é um ser mágico, tem a capacidade de voar pelo universo tal como qualquer uma
das milhões de consciências que existem. Mas, em algum momento de sua história, perdeu sua
liberdade. Agora sua mente não é sua, é uma intrusão"-
Afirmou que os seres humanos são reféns de um conjunto de entidades cósmicas que se dedicam à
depredação, as quais os bruxos chamam "os voadores".
Disse que este era um tópico muito secreto dos antigos videntes, mas que, devido a um augúrio, ele
havia entendido que já era tempo de divulgá-lo. O augúrio foi uma foto que tinha tirado Tony, um
budista Cristão amigo dele. Nela aparecia nitidamente a figura de um ser escuro e tenebroso
flutuando sobre uma multidão de fiéis reunida nas pirâmides de Teotihuacan.
"Minhas companheiras e eu determinamos que já era tempo de dar a conhecer nossa verdadeira
situação como seres sociais, ainda que fosse às custas de toda a desconfiança que tal informação
pudesse gerar no público".
Quando me apresentou a oportunidade, pedi que dissesse algo mais sobre os voadores, e então me
contou um dos aspectos mais terrificantes do mundo de don ,Juan: que nós somos prisioneiros de
seres que vieram dos confins do universo, que nos usam com a mesma naturalidade com que nós
usamos as galinhas.
Explicou:
"A porção do Universo a que temos acesso é o campo de operações de duas formas radicalmente
diferentes de consciências. Uma delas, a qual pertencem as plantas e os animais, incluindo o homem,
é uma consciência esbranquiçada, jovem, geradora de energia. A outra é uma consciência
infinitamente mais velha e parasitária, possuidora de uma imensa quantidade de conhecimento.
Além dos homens e outros seres que habitam esta terra, há no universo uma imensa gama de
entidades inorgânicas. Estão presentes entre nós e em certas ocasiões são visíveis. Nós os chamamos
fantasmas ou aparições. Uma dessas espécies que os videntes descrevem como enormes vultos
voadores de cor negra, chegou em algum momento, da profundidade do Cosmos, e achou um oásis
de consciência em nosso mundo. Eles se especializaram em nos ordenhar'''.
"Isso é incrível!" - exclamei.
"Eu sei disso, mas é a mais pura e aterradora verdade. Você nunca se perguntou sobre o porquê dos
altos e baixos energéticos e emocionais das pessoas? É o predador que vem periodicamente recolher
sua cota de consciência. Eles só deixam o suficiente para que continuemos vivendo, e às vezes nem
para isso".
"O que você quer dizer?"
"Que às vezes exageram e a pessoa fica doente gravemente, e até morre".
Eu não dava crédito a meus ouvidos.
"Quer dizer que estamos sendo devorados em vida?", perguntei.
Sorriu.
"Bom, eles não nos ‘comem’ literalmente, o que fazem é uma transferência vibratória. A consciência
é energia e eles podem alinhar-se conosco. Como por natureza estão sempre famintos, e nós, pelo

17
18

contrário, exsudamos luz, o resultado desse alinhamento só pode ser descrito como depredação
energética".
"Mas, por que eles fazem isso?".
"Porque, num plano cósmico, a energia é a moeda mais forte e todos a querem, e nós somos uma
raça vital, repleta de comida. Cada coisa viva come a outra, e o mais poderoso sempre sai ganhando.
Quem disse que o homem está no cume da cadeia alimentar? Essa visão só pode ocorrer a um ser
humano. Para os inorgânicos, nós somos a presa".
Eu comentei que me parecia inconcebível que entidades mais conscientes que nós chegasse à esse
grau de rapina.
Respondeu:
"Mas o que você acredita que você faz quando come uma alface ou um bife? Você está comendo
vida! Sua sensibilidade é hipócrita. Os depredadores cósmicos não são nem mais nem menos cruéis
do que nós. Quando uma raça mais forte consome uma outra inferior, está fazendo com que sua
energia evolua.
"Já lhe falei que no universo só há guerra. As confrontações dos homens são um reflexo do que se
passa lá fora. É normal que uma espécie tente consumir a outra; o próprio de um guerreiro é não
lamentar por isso, mas tentar sobreviver".
"E como nos consomem?".
"Através de nossas emoções, devidamente canalizadas pela tagarelice interior. Eles desenharam o
entorno social de tal modo que estamos todo o tempo disparando ondas de emoções que são
imediatamente absorvidas. Eles gostam principalmente dos ataques do ego; para eles, esse é um
bocado delicioso. Tais emoções são as mesmas em qualquer lugar do universo onde se apresentem e
eles têm aprendido a metabolizá-las.
"Alguns nos consomem pela luxúria, a raiva ou o temor; outros preferem sentimentos mais
delicados, como o amor ou a ternura. Mas todos eles estão interessados na mesma coisa. O normal é
que nos ataquem pela área da cabeça, do coração ou do ventre, ali onde nós guardamos a maior
quantidade de nossa energia"-
"Eles também atacam aos animais?".
"Esses seres usam tudo aquilo que esteja disponível, mas eles preferem a consciência organizada.
Drenam aos animais e as plantas na medida de sua atenção que não é demasiadamente fixa. Atacam
inclusive a outros seres inorgânicos, só que esses sim os vêem e os evitam. como nós evitamos os
mosquitos. O único que cai completamente na armadilha deles é o homem".
"Como é possível que tudo isso esteja acontecendo sem que o percebamos?".
"Porque nós herdamos a troca com esses seres quase como uma condição genética, e a estas alturas
nos parece algo natural. Quando nasce a criatura, a mãe a oferece como comida, sem perceber,
porque a mente dela também está dominada. Quando a batiza está assinando um acordo. A partir daí,
se esforça por inculcar modos de comportamentos aceitáveis, o domestica, podando seu lado
guerreiro e o transforma em uma ovelha mansa.
"Quando uma criança nasce suficientemente energética para rejeitar essa imposição, mas não o
bastante para entrar no caminho do guerreiro, ela se torna um rebelde ou um desajustado social.
"A vantagem dos voadores reside na diferença entre nossos níveis de consciência. Eles são entidades
muito poderosas e vastas; a idéia que temos deles é equivalente ao que possa ter uma formiga de nós.
"Porém, sua presença é dolorosa e se pode medir de diversas maneiras. Por exemplo, quando eles
nos provocam ataques de racionalidade ou de desconfiança ou nos sentimos tentados a violar nossas
próprias decisões. Os lunáticos podem detectá-los muito facilmente - demasiado, diria eu -, já que
eles sentem fisicamente como esses seres pousam em seus ombros, gerando paranóias. O suicídio é o
selo do voador, pois sua mente é homicida em potencial".
"Você diz que é uma troca; mas, o que ganhamos com tal despojo?".
"Em troca de nossa energia, os voadores nos deram a mente, os apegos e o ego. Para eles, nós não
somos escravos, mas um tipo de trabalhadores assalariados. Eles privilegiaram uma raça primitiva e

18
19

lhe deram o dom de pensar, o que nos fez evoluir; mais ainda, eles nos fizeram civilizados. Se não
fosse por eles, nós ainda estaríamos escondidos em cavernas ou fazendo ninhos no topo das árvores.
"Os voadores nos dominam através de nossas tradições e costumes. Eles são os amos das religiões,
os criadores da História. Escutamos sua voz no rádio e lemos suas idéias nos jornais. Eles manejam
todos os nossos meios de informação e nossos sistemas de crenças. A estratégia deles é magnífica.
Por exemplo, houve um homem honesto que falou de amor e liberdade; eles transformaram isto em
autocompaixão e servilidade. Eles fazem isto com tudo, até mesmo com os naguais. Por isso o
trabalho de um bruxo é solitário.
"Durante milênios, os voadores prepararam planos para nos coletivizar. Houve um tempo em que
eram tão descarados que até se mostravam em público e as pessoas os representaram em pedra. Esses
eram tempos escuros, pululavam por todos os lados. Mas agora a estratégia deles se fez tão
inteligente que nem sabemos que existem. No passado, nos enganchavam pela credulidade; hoje em
dia, pelo materialismo. São os responsáveis pelo fato de que a aspiração do homem atual seja de não
ter que pensar por si mesmo; não precisa de mais nada, observe quanto tempo alguém agüenta em
silêncio!"
"Por que essa mudança na estratégia deles?".
"Por que neste momento, eles estão correndo um grande risco. A humanidade está em um contato
muito rápido e qualquer um pode se informar. Ou eles enchem nossa cabeça, bombardeando-nos dia
e noite com todo o tipo de sugestões, ou haverá alguns que perceberão e avisarão aos outros".
"O que aconteceria se pudéssemos repelir a essas entidades?"
"Em uma semana recuperaríamos nossa vitalidade e estaríamos brilhando novamente. Mas, como
seres humanos normais, não podemos pensar nessa possibilidade, porque isso implicaria em ir contra
tudo aquilo que é socialmente aceitável. Felizmente, os bruxos têm uma arma: a disciplina.
O encontro com os inorgânicos é gradual. No principio não os notamos. Mas um aprendiz começa a
vê-los no ensonho e logo na vigília - algo que pode enlouquecê-lo se ele não aprende a agir como um
guerreiro. Depois que os percebe, pode confrontá-los.
"Os bruxos manipulam a mente forasteira tornando-se caçadores de energia. É com essa finalidade
que minhas companheiras e eu desenhamos para as massas os exercícios de tensegridade que têm a
virtude de nos libertar da mente do voador.
"Nesse sentido, o bruxo é um oportunista. Aproveita o empurrão que lhe deram e diz a seu captores:
'Obrigado por tudo, nos vemos por aí! O acordo que vocês fizeram foi com meus antepassados, não
comigo!'. Ao recapitular sua vida, literalmente está tirando a comida da boca do voador. É como se
você chegasse à uma loja e devolvesse o produto ao negociante, exigindo-lhe: 'Devolva-me o
dinheiro!'. Os inorgânicos não gostam disso, mas não podem fazer nada.
"Nossa vantagem é que somos dispensáveis, há muita comida por aí! Uma posição de alerta total,
que não é outra coisa senão disciplina, cria tais condições em nossa atenção que nós deixamos de ser
saborosos para esses seres. Em tal caso, eles dão meia volta e nos deixam tranqüilos".

PERDENDO A RAZÃO

Em outra conversa, Carlos expressou que a razão é um subproduto da mente forasteira e que não se
deve lhe dar muita confiança. Essa declaração violou meus esquemas mentais.
Quando lhe perguntei a respeito, explicou que aquilo que os bruxos rejeitam não é a capacidade da
razão para chegar a conclusões, mas o modo como se impõe em nossa vida, como se fosse a única
alternativa.
"A racionalidade faz com que nos sintamos como um bloco sólido e começamos a conceder a maior
importância a conceitos como 'realidade'. Quando enfrentamos situações pouco comuns, como as que
acometem ao bruxo, dizemos para nós mesmos: "não é razoável", e isso dá a entender que já
dissemos tudo.
"O mundo de nossa mente é ditatorial, mas frágil. Depois de alguns anos de uso contínuo, o eu se
torna tão pesado que é uma questão de sentido comum nos dar um descanso para seguirmos adiante.

19
20

"Um guerreiro luta para romper a descrição do mundo que lhe foi imposta a fim de abrir espaço ao
novo. Sua guerra é a guerra contra o eu. Por isso procura estar permanentemente consciente do seu
potencial. Como o conteúdo da percepção depende da posição do ponto de aglutinação, um guerreiro
busca com todas as suas forças mover a firmeza desse ponto. Em vez de dar culto às suas
especulações, presta atenção a certas premissas do caminho dos bruxos.
"Essas premissas dizem que, em primeiro lugar, uma condição de plenitude energética nos permite
lidar adequadamente com o mundo. Em segundo, a racionalidade é uma conseqüência da fixação do
ponto de aglutinação na área da razão, e esse ponto se move quando alcançamos o silêncio
interior. Em terceiro lugar há em nosso campo luminoso outros pontos tão pragmáticos quanto a
racionalidade. Quarto, quando alcançamos uma visão que inclui tanto a razão como seu centro
gêmeo - o conhecimento silencioso -, os conceitos de verdade e mentira param de ser operantes e se
torna patente que o verdadeiro dilema do homem é ter ou não ter energia.
"Os bruxos consideram ao contrário das pessoas. Para eles, ancorar a atenção é loucura e fazê-la
fluir, sensatez. A fixação do ponto de aglutinação em áreas não habituais chamam: ver. Eles
consideram que ser sensato é um imperativo comum, mas eles têm comprovado que a racionalidade
não é sensatez. A sensatez é um ato voluntário, enquanto que ser razoável é fixar nossa atenção no
consenso coletivo".
"Então os bruxos se opõem à razão?".
"Eu já lhe falei que eles se opõem à sua ditadura. Eles sabem que o centro da razão pode nos levar
muito longe. A razão absoluta é impiedosa, não pára em meias tintas; por isso as pessoas lhe têm
medo. Quando conseguimos focalizá-la com inflexibilidade, geramos a obrigação de ser impecável,
porque não ser não é razoável. Fazer as coisas com impecabilidade é fazer tudo o que for
humanamente possível e um pouco mais. Portanto, a razão também o leva ao movimento do ponto de
aglutinação.
Encontros com o Nagual, pág. 153 a 160

Eu quis saber se as pessoas mortas podem voltar para contatar os vivos.


E ele me respondeu:
"As relações entre os residentes das diversas esferas da consciência só podem se efetivar pelo
alinhamento do ponto de aglutinação. A morte é uma barreira perceptiva final. Os vivos podem ir ao
reino dos mortos através do ensonho, mas esse é o tipo de assunto que um guerreiro não se mete,
porque só desgasta sua energia. Por outro lado, algo muito diferente é entrar em contato com bruxos
que partiram".
"Por que?"
"Porque eles sim conseguiram se fazer de um duplo energético, retiveram sua individualidade através
de suas técnicas"
"Como nós podemos estabelecer relações com esse tipo de consciência?"
"Ensonhando. Porém, é muito difícil que um desses bruxos que já partiram fixe sua atenção neste
mundo, a menos que ele tenha alguma tarefa específica para completar. E é mais difícil ainda que um
homem comum suporte esse contato.
"O intercâmbio com estes seres é dos mais gratificantes para os guerreiros, mas terrificante para os
outros, porque um bruxo inorgânico não é um fantasma, mas uma intensa fonte de energia auto-
consciente e implacável, capaz de danificar a quem se aproxime por descuido. Esse tipo de contato
pode ser até mesmo mais perigoso que o intercâmbio com um bruxo vivo".
"Em que consiste o perigo?"
"Assim é a natureza da energia. Se você acredita que os bruxos são pessoas amigáveis se equivoca;
são naguais!
"Há uma característica muito macabra em nossa constituição que nos impele a usar o meio a todo
custo. É algo natural, não podemos evitá-lo. Essa característica é exacerbada no bruxo e é ampliada
depois de sua partida, porque então já não há inibições que o obriguem. Quando o bruxo se
transforma em inorgânico, ele volta ao que sempre foi: uma emanação do depredador cósmico".

20
21

Encontros com o Nagual, pág. 169

21