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#1

Sistema Eleitoral.
Brasil e Estados Unidos
Como a cultura eleitoral e democrática pode interferir no aprofundamento político de
uma região.

Para entendermos e nos interessarmos pela política temos que compreender como
nossa postura com ela nos afeta. Usando como o exemplo mais próximo a nós, os
Estados Unidos, que não possui o melhor sistema eleitoral, porém, cria ferramenta
para que a população se aprofunde mais e foi um dos temas mais falados durante
2016 com a disputa pela Casa Branca entre Hillary e Trump.

Entendendo o contexto dos dias atuais, vamos relembrar como foi a formação dos dois
países. Nos Estados Unidos, as treze colônias americanas passavam por dificuldades
financeiras decorrente da forma como chegaram os ingleses que vieram explorar a
região, onde eram, em sua maioria refugiados religiosos. O que de certa maneira foi
fundamental para cada colônia se dedicasse a uma cultura para aprimorar sua
produção separadamente, atuando de forma autônoma em relação à metrópole, a
Inglaterra, que até então não tinha interesse com a região.

Enquanto no Brasil houve a forte presença e financiamento da Coroa Portuguesa, o


que fez com que a sociedade brasileira começasse a ser construída de forma unitária
e com a sensação de lacuna entre a sociedade e o poder. Sem contar que Mesmo
quando o Brasil virou metrópole durante a vinda da Coroa, o sentimento de
distanciamento se perpetuou.

Os Estados Unidos se tornou independente primeiro e por isso, seu modelo político
adotado serviu de inspiração para o Brasil, quando este se tornou uma república.

Ambos os países são presidencialistas. Além disso são federalistas, os estados tem
certa autonomia sem precisar consultar, no caso, o presidente do país sobre certas
decisões regionais. Ambos são bicamerais, ou seja, possuem duas câmaras
legislativas, além dos três poderes, legislativo, judiciário e o executivo.

Mas as igualdades terminam por aqui, o sistema eleitoral de cada país se desenvolveu
de forma diferente.

No Brasil, temos como característica o poder legislativo que é dividido em camada


inferior, a Câmara dos Deputados, que representa o povo brasileiro e em teoria e
possui 513 representantes, sendo 70 deles representantes de São Paulo. O Senado
representa a câmara superior, que por sua vez representa as diferentes regiões do
país, no caso, os estados, e portanto cada estado tem 3 representantes, totalizando
72.  Todo projeto de lei federal deve passar pelas duas casas.

Cada deputado tem o direito a cada quatro anos de se reeleger sem limite, assim
como os senadores, porém, este tem o mandato de oito anos e a mudança do Senado
ocorre primeiramente dois terços e após quatro anos o um terço restante. Por este
motivo, temos eleições que votamos para apenas um senador e outro para dois.

No poder executivo, o prefeito, governador e presidente tem quatro anos de mandato,


o presidente pode se reeleger uma única vez e após sua eventual reeleição o
candidato deve esperar o prazo de uma eleição para poder concorrer novamente.
Para ser presidente do Brasil, o indivíduo deve ter 35 anos completos, nascido no
Brasil, com suas obrigações eleitorais e militares em dia. Vale lembrar que nenhum
cargo que possa leva-lo a presidência diretamente ou indiretamente permite
estrangeiros, Ou seja, não é permitido estrangeiros se candidatarem à presidência e
tampouco assumir algum cargo de sua linha sucessória, seja ele por morte, doença,
impeachment ou viagem são eles, na ordem; vice presidente, presidente da Câmara
dos Deputados, presidente do Senado e presidente do Supremo Tribunal Federal
(STF), o líder do poder judiciário.

No poder judiciário, comandado pelo STF os onze juízes do tribunal são chamados de
Ministros, apesar de o cargo não ter nenhuma semelhança com os ministros dos
órgãos do governo. Eles são nomeados pelo Presidente e aprovados pelo Senado. A
idade para aposentadoria compulsória é de 75 anos e são responsáveis pelo
seguimento das leis.

Enquanto o sistema político adotado pelos EUA tem algumas diferenças, a House of
Representatives ou a câmara inferior é formada por 435 representantes eleitos pelo
sistema do voto distrital, cada representante representa o seu distrito para mandatos
de 4 anos. Já o Senate ou câmara superior é formado por 100 senadores, cada estado
possui 2 senadores para mandatos de 6 anos, com renovação de um terço a cada 2
anos.

O poder executivo americano também permite dois mandatos consecutivos, no


entanto, após o fim do segundo mandato, o presidente se torna impossibilitado de
concorrer novamente ao cargo de forma definitiva.

O poder legislativo americano é chefiado pela Suprema Corte dos Estados Unidos e A
constituição estipula que os juízes fiquem na corte enquanto tiverem boa conduta
(exceto quando o escolhido não tenha sido confirmado pelo senado). Portanto, os
juízes podem continuar exercendo por toda sua vida, ou até quando se aposentar ou
sair voluntariamente.

Quando partimos para o sistema eleitoral, no Brasil, o candidato é definido


internamente pelos partidos, possuímos 35 partidos políticos registrados pelo Tribunal
Superior Eleitoral, sendo que 27 deles tem algum assento na câmara dos deputados.
Os candidatos ao cargo executivo, são eleitos por dois turnos, o primeiro turno serve
para eleger o candidato mais aprovado e o segundo turno existe para identificar o
menos rejeitado, para em teoria, ter maior assertividade. Quando o candidato possui
50% dos votos válidos mais 1 voto, ainda no primeiro turno, ele é o mais aprovado e o
menos rejeitado, por conta disso, não há necessidade de segundo turno.

Cada partido significa uma ideologia única e que representa uma parte da população,
então, em teoria o Brasil possui 35 ideias distintas. No caso americano há duas
ideologias que se opõem.

Nos EUA, o voto não é obrigatório, há apenas dois partidos dominantes os


Democratas e Republicanos. Existem partidos menores, mas não estão presentes em
todos os estados e tampouco tem seu cadastro na cédula eleitoral em todas as
cidades, dado o seu minúsculo tamanho.  

Houve momento em que uma terceira via cresceu exponencialmente, que foi o caso
do partido Panteras Negras de 1966 até 1982, que representava o nacionalismo
negro. Os partidos dominantes, para não perder o domínio, decidiram aceitar os
valores dos Panteras Negras, como seus próprios valores e eliminaram a necessidade
de um terceiro partido, reduzindo a força e a necessidade da ideologia como partido
político único.
Para decidir quem representará o partido nas eleições, são feitas eleições primárias,
ou prévias em todos os Estados, para que o povo escolha quem será o candidato de
cada partido. Quem escolhe os candidatos à indicação do partido são os delegados
partidários. Cada Estado, então, decide como serão as primárias, abertas, fechadas,
livres ou do tipo “cáucus”. Dessa forma, decidem se os votantes devem ser filiados aos
partidos, se podem participar das prévias dos dois partidos, e etc.

As prévias começam bem antes das eleições à Presidência e o candidato escolhido é


confirmado nas Convenções Partidárias. O candidato nomeado como candidato à
Presidente escolhe quem será o seu vice.

A população decide quem vai escolher o seu líder governamental, os delegados, cada
estado tem um número de delegados, que é relativo ao número de habitantes. Quanto
mais populoso o Estado, maior o número de delegados. Assim, é constituído o Colégio
Eleitoral estadual, que deve ter, no mínimo, três delegados. Como a Constituição, em
1787, instituiu a autonomia dos Estados, cada um dos 50 existentes nos EUA decide
como escolherá seus delegado, se os eleitores devem ser filiados ou não aos partidos,
por exemplo.

Ao todo são 538 delegados que fazem parte do Colégio Eleitoral nos Estados Unidos.
Para ser eleito, o candidato deve ter o voto de 50% mais um dos delegados, ou seja
271. Por mais que o candidato tenha votos populares, o mais importante é ter votos do
Colégio Eleitoral, pois é ele que escolhe o novo Presidente.

Enquanto no Brasil, a campanha é financiada pelo partido que por sua vez capta
recursos de empresas e indivíduos. Nos EUA o financiamento é feito apenas com os
recursos do candidato, em teoria o partido não pode influenciar nesta questão. Este
ponto gera muito debate, uma vez que no Brasil é questionado se a doação de uma
empresa a um partido possa provocar troca de favores e influência em promessas de
campanha.

Mesmo que ambos os países sejam considerados federalistas, cada um tem


diferenças em relação ao poder e políticas públicas em cada ente federativo: Federal,
Estadual e Municipal.

No Brasil, o ente mais poderoso é o Federal, e nenhum outro pode sobrepor a ele e é
o mesmo quem define a maioridade penal e o regulamento de drogas, por exemplo.
Mas é campo estadual em que as políticas públicas são efetivamente tomadas, o
governador é responsável pela educação, segurança e repasses de verbas para os
municípios. O poder legislativo de cada estado regula todas as leis e tributos que não
firam as leis federais, além de controlar o poder do governador. Na esfera municipal é
gerido toda questão urbana pelo prefeito e o poder legislativo municipal verifica o bom
andamento ou não do mesmo, bem como as leis e tributos municipais, desde que não
interfira com as normas jurídicas os dois entes federativos já citados e superiores a
ele.

O fato das leis mais importantes estarem na escala federal e o poder de aplicação
estarem nas escalas estaduais e municipais geram críticas para alguns cientistas
políticos que acreditam que o poder de decisão devem estar em sua maioria nos entes
que efetivamente transformam as leis em realidade. Pois o distanciamento gera uma
lacuna e engessamento muito grande num país com diversas peculiaridades como o
Brasil, enquanto há uma outra corrente que concorda como está, tendo em vista que
um país com grandes extensões como o Brasil precisa manter sua unicidade com o
ente federativo superior atuante.

Nos Estados Unidos, o poder federal possui um conjunto mínimo de leis, que todos os
estados e municípios devem seguir.  No entanto, cada estado tem seu próprio código
de leis, por isso em alguns estados é permitido consumir maconha como Oregon e
Califórnia e em outros apenas para fins medicinais ou é proibido em quaisquer
circunstâncias. Assim como permissão para dirigir carros, em alguns estados essa
permissão ocorre a partir dos 16 anos e outros apenas a partir dos 18 anos.

Aprofundando ainda mais sobre como funciona o estado e o município na questão


eleitoral, no Brasil existe um número de deputados estaduais e vereadores para cada
cidade e eles são eleitos conforme suas ideias, sem necessariamente pertencer ao
bairro ou a região que o eleitor habita, enquanto nos EUA, o voto é distrital, ou seja, o
eleitor vota no candidato de sua região, no caso o distrito, que pode ser um conjunto
de bairros, e ele defende, em teoria, as causas de sua ideologia sobretudo em sua
região,

Por conta dessas características, podemos afirmar que os norte-americanos, mesmo


não possuindo um sistema eleitoral exemplar, possui uma democracia mais
estruturada que a brasileira, pelo fato que cada ente adota suas próprias políticas
públicas e o seu representante e você estão mais próximos. É muito mais fácil que
você conheça a máquina pública e questione o seu famoso vizinho eleito por reformas,
projetos de lei e a própria forma de legislar na fila do pão em um supermercado.

Vale lembrar que o financiamento norte americano é mais transparente, uma vez que
o lobby é permitido, então, você tem mais facilidade em identificar com quem o seu
candidato se relaciona e pensa sobre determinados assuntos, pois, ele é apoiado por
uma empresa, associação ou grupo abertamente e seguirá ideologias das mesmas
que o patrocinam.

Enquanto no Brasil, não temos uma proximidade candidato/representante - eleitor.


Além disso, o nosso voto vai para o partido, todos os votos do poder legislativo no
Brasil são somados e partilhados proporcionalmente para cada partido e formam a
divisão de cadeiras no parlamento, depois, que cada partido sabe quantas cadeiras
ganhou, estas vagas serão dadas para os mais votados de cada legenda. O nome
deste calculo se chama coeficiente eleitoral.

Por isso, é comum que partidos aceitarem candidatos populares para atraírem votos,
como podemos ver a candidatura de celebridades em geral, pois, trará mais votos
para o partido e o mesmo será capaz de eleger outros candidatos que muitas vezes
não seriam eleitos se não fosse pelo coeficiente e são “puxados” pelo candidato-
celebridade. Somando isso com um outro fator, já citado anteriormente, os candidatos
ao poder executivo são definidos por pleitos internos em cada partido e não pela
população e isso gera um extremo distanciamento, desinteresse e não compreensão
da política nacional.

Mesmo, após as eleições de 2014 com o nascimento de um Fla-Flu político entre


direita x esquerda, golpe x não-golpe e os demais debates das redes sociais, isso não
gerou maior interesse, pelo contrário, aprofundou ainda mais obscuridade ao interesse
político nacional, uma vez que agora o debate não tolera a opinião do lado contrário,
deixando o debate mais pobre e ignorante. Nenhum país pode dar o luxo de deixar isto
acontecer, isso é nocivo a qualquer democracia, sobretudo para o Brasil que em sua
história questionou sua vocação agroexportadora com demais políticas econômicas e
sempre tiveram políticas macroeconômicas baseadas em endividamento externo que
falharam desde por motivos ideológicos em sua concepção, seja por não identificar os
rumos que a política internacional tomaria com um estudo solido antecipado ou por
puro acaso que não tinha como prever situações e tomadas de decisões de países
importantes para o cenário internacional.

Com base na política americana, podemos destacar outras soluções, além do voto
distrital, existe o financiamento de campanhas que enquanto no Brasil não temos o
estímulo de procurar e não temos fácil acesso as empresas que financiam as
campanhas, nos EUA o candidato a presidência ser responsável pelos recursos de
sua campanha e o lobby ser permitido é mais transparente.

Uma saída que o governo federal brasileiro encontrou e foi possível notar durante as
eleições municipais de 2016, foi a lei que limitava as doações de empresas aos
candidatos, restringindo apenas a pessoas físicas, isso gerou eleições menores, mais
pobres e com campanhas mais diretas; dado o pouco recurso disponível. Isso gera
como consequência, uma diminuição ou fusão dos partidos nanicos, reduzindo a
apenas para partidos grandes ou com grande capacidade de atração de donativos,
permanecerem fortes, ou seja enxugará o alto número de partidos políticos existentes
no Brasil

Devemos lembrar que a nossa política é de coalizão, ou seja, os partidos apoiam entre
si para formarem base de apoio nas eleições e para um eventual governo caso eleito,
ou seja, mesmo que tenham ideias semelhantes, não são de todo iguais, logo, para
conseguir apoio, o candidato e o partido tiveram que ceder algumas ideologias
próprias em troca de ideologias destes partidos aliados para se manterem fortes e isso
atrapalha a máquina política. Por exemplo, podemos analisar o apoio do PMDB
durante a eleição a presidência de 2002 que apoiava o candidato José Serra, mas
durante a campanha de 2006, o partido apoiou o Lula. Sem contar que durante a
candidatura de 2002 do ex-presidente Lula, PT, a coligação era PT / PL / PCdoB / PPS
/ PDT / PTB / PSB / PGT / PSC / PTC / PV / PMN / PHS / PCB, a efeito de
curiosidade, José Serra, PSDB em 2002, contou com o apoio do PSDB / PMDB / PFL /
PPB / PSL / PTN / PSDC / PRTB / PSD / PRP / PAN / PTdoB.

Outra solução para a situação política eleitoral do Brasil, além do voto distrital, ou o fim
de coalizões é o fim do presidencialismo e a adoção do sistema parlamentarista, cujo
a diferença em relação ao presidencialismo poderá ser detalhada em outro texto.

É possível encontrar solução política para uma melhor consolidação da democracia no


Brasil, sem se limitar a qual ideologia política é a melhor, aliás, a democracia está
acima de debates de direita e esquerda e não há relação com a crise econômica que o
país está passando. Usando como base uma democracia que não é a ideal, porém
mais profunda que a nossa, podemos encontrar saídas que não só melhore a crise
institucional, mas que possa melhorar a qualidade da máquina pública, como gestora.