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Uma abordagem histórica da trajetória

ARTIGO ARTICLE
da parasitologia

A historical approach of the trajectory


of the parasitology

Luciene Maura Mascarini 1

Abstract The text describe the ways follow- Resumo O texto relata os caminhos trilhados
ing for the parasitology, a science that emerged pela parasitologia, uma ciência que emergiu
in century 19 with the sprouting and the es- no século 19 com o surgimento e o estabeleci-
tablishment of some areas of the medicine, be- mento de várias áreas da medicina, entre elas,
tween them, the tropical medicine. This sci- a medicina tropical. Essa ciência, segundo o
ence in agreement with bibliographical sum- sumário bibliográfico, foi indicada inicialmen-
mary was indicated initially as a branch of nat- te como um ramo da história natural, sendo
ural history, being constructed with the dis- construída com a descoberta e posterior des-
covery and subsequent description of several crição de vários agentes patogênicos, respon-
pathogenic agents responsible for some mor- sáveis por alguns processos mórbidos, até en-
bid processes, until then not attributable by tão não atribuíveis a organismos externos ao
external organisms to the individual. Some indivíduo. Alguns parasitologistas ao redor do
parasitologists around of the world began to mundo começaram a descrever, além dos agen-
describe, beyond of pathogenic agents, the vec- tes patogênicos, os vetores e os mecanismos de
tors and the mechanisms of transmission of the transmissão das diversas doenças causadas pe-
several diseases caused by the parasites. In los parasitas. No Brasil, o histórico da parasi-
Brazil, the report of the parasitology borders tologia margeia o trajeto da medicina tropi-
the itinerary of the tropical medicine, with the cal, com o constante embate entre os médicos
constant shock between the doctors of the So- da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio
ciety of Medicine and Surgery of Rio de Janeiro de Janeiro e da Escola Tropicalista Baiana. Já
and Bahian Tropicalista School. Already in em 1900, renomados médicos parasitologistas
1900, famous doctors parasitologists appear in surgem no cenário brasileiro: Oswaldo Cruz e
the Brazilian scene: Oswaldo Cruz and Carlos Carlos Chagas que, através de suas descober-
Chagas that by their discoveries, they stimu- tas, impulsionaram a parasitologia até os dias
lated the parasitology until the current days. atuais.
1 Departamento de Key words Historical of the medicine, Para- Palavras-chave Histórico da medicina, Pa-
Parasitologia, Instituto
de Biociências, Universidade
sitology, Tropical medicine rasitologia, Medicina tropical
Estadual Júlio de Mesquita
Filho (Unesp). Campus
de Botucatu/SP. Distrito
de Rubião Júnior, s/n
18618-000. Botucatu SP.
luciene@ibb.unesp.br
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Mascarini, L. M.

Uma abordagem histórica desenrolou ao longo dos séculos 19 e 20 nos la-


da trajetória da parasitologia boratórios das universidades, na grande maio-
ria das vezes, em precárias condições. Os maio-
A história nos mostra que ao invés de existir res avanços e descobertas da parasitologia tro-
um processo linear e relativamente simples de pical foram realizados por homens isolada-
transição epidemiológica, no qual as chamadas mente ao redor do mundo pertencentes a algu-
doenças de pobreza são substituídas pelos ma- mas universidades: Army e Laveran, na Argélia;
les da modernidade, o que se observa é um qua- Bunch, na África do Sul; Ross, na Índia; Man-
dro complexo de alterações, mudanças, adap- son, na China; e Bancroft, Queensland e Wu-
tações e emergências típicas dos fenômenos vi- cherer, no Brasil. Na Europa, podemos destacar
vos. A relação entre as populações de homens, Rudolphi, Von Siebold e Leuckhart, apoiados
vetores e agentes etiológicos é bastante comple- por grandes universidades e Kcheinmeister e
xa e não parece estar no horizonte, para os pró- Cobbold, indivíduos independentes, que nun-
ximos anos, a miragem de uma vida livre de in- ca tiveram posição acadêmica de muita impor-
fecções (Barata, 2000). tância.
Entre as doenças decorrentes da “pobreza”, Em 1872, Timoty Lewis localizou o nema-
destacamos as parasitárias, ou as parasitoses. tóide causador da filariose no sangue de hema-
Entende-se que parasitismo é apenas um dentre túricos, denominando-o Filaria sanguinis ho-
muitos tipos de associação de dois organismos minis. Os primeiros relatos dos parasitas adul-
e não há um caráter único possível para rotular tos apareceriam anos depois em um abscesso
um animal como parasita (Wilson, 1980). linfático examinado por Bancroft. Manson,
O parasita obtém alimento às expensas de atento a essas observações, desvendou grande
seu hospedeiro, consumindo-lhe os tecidos e parte do ciclo da filária, entre 1877 e 1878. Con-
humores ou o conteúdo intestinal, sendo que seguiu comprovar o mecanismo de infecção pe-
o relacionamento do parasita com seu hospe- lo mosquito Culex e a “periodicidade” que a fi-
deiro tem base nutricional não podendo lesar lária realizava invadindo a circulação periféri-
drasticamente o hospedeiro, evitando altera- ca ao cair da tarde e refluindo durante o dia, de
ções comprometedoras, o que o faria perder o acordo com o ciclo de vida do vetor, através da
seu hospedeiro. O parasitismo ideal é aquele dissecação progressiva dos mosquitos (Foster,
que não causa dano ao hospedeiro e, por conse- 1965).
guinte, não provoca doença. Isso é o que acon- A descoberta de Manson consagrou um no-
tece com alguns parasitas que, ao longo de mi- vo modelo de experiência e reformulou uma
lhares de anos, se adaptaram de tal forma aos série de questões no campo da patologia. Ques-
seus hospedeiros que passaram a viver outro ti- tões que requeriam novos saberes e dinâmicas
po de relação entre dois organismos denomi- de pesquisa para dar conta dos complexos ci-
nada simbiose. clos de vida dos parasitos patogênicos, envol-
Por volta de 1860, os fundamentos da ciên- vendo mudança de hospedeiros e numerosas
cia chamada de parasitologia foram estabeleci- adaptações e metamorfoses nos organismos pa-
dos e os parasitas se tornaram então os respon- rasitados e no meio externo (Benchimol, 2000)
sáveis por importantes doenças do homem e Inspirado nas idéias de Patrick Manson, Ro-
dos seus animais domésticos. Apesar de muitos nald Ross, médico do serviço inglês na Índia,
parasitologistas terem qualificações médicas, a identificou, em 1897, o parasito da malária de-
parasitologia se estabeleceu como um ramo da senvolvendo-se nas paredes do estômago de um
história natural na metade do século 19; mui- mosquito do gênero Anopheles. Em 1898, estu-
tos dos personagens que se distinguiram na pa- dando malária aviária, Ross estabeleceu, de ma-
rasitologia eram médicos, zoólogos, ou de ou- neira definitiva, seu mecanismo de transmissão
tros ramos da história natural. Embora hou- (Matos, 2000).
vesse muita especulação se os parasitas seriam As oportunidades de desenvolvimento da
os responsáveis pelas sérias condições patoló- parasitologia aumentaram com a criação e o
gicas apresentadas pelas doenças, foi nesse pe- estabelecimento das escolas de medicina e hos-
ríodo que se constatou que a hidatidose e a tri- pitais nos trópicos, fato que só ocorreu no final
chinelose tinham como agentes patogênicos os do século 19, criando assim oportunidade de
parasitas (Foster, 1965). estudar os parasitas tropicais. Embora não hou-
Segundo Foster, a história da parasitologia vesse clara distinção entre a medicina dos tró-
não é uma história de grandes eventos; ela se picos e das regiões temperadas, a maioria dos
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trabalhos de parasitologia no final do século foi como importante ramificação da parasitologia.
realizada nos trópicos (Lacaz, 1972). Em 1903, o Imperial Health Office, em Berlim,
A primeira escola de medicina tropical em fundou a divisão de protozoologia e Schaudinn
clima temperado foi inaugurada em Liverpool foi chamado para dirigi-la, sendo que em 1906
em 1899, com Boyce como professor de patolo- nascia a primeira escola de protozoologia, esta-
gia e chefe organizador, e Ross como conferen- belecida em Londres em conexão com o Listen
cista convidado. Os maiores trabalhos da esco- Institute.
la foram inicialmente testar as idéias de Ross na No Brasil, o histórico da parasitologia mar-
erradicação da malária através da destruição geia o caminhar da medicina tropical, quando
do vetor, e foi também nessa escola que Dutton em 1829, foi criada a Sociedade de Medicina e
identificou o primeiro tripanossomo humano, Cirurgia do Rio de Janeiro que, através de um
Trypanossoma gambiense, no sangue de um pa- amplo programa, se estendeu desde a adoção
ciente e descrevendo logo após o segundo, o T. de medidas de higiene pela população até a me-
rhodesiense. dicina legal, passando pela educação física das
A London School of Tropical Medicine de- crianças, enterro nas igrejas, denúncias da ca-
senvolveu dois ramos de atividade sob a dire- rência em hospitais, estabelecimento de regula-
ção de Manson: a “muck-room”, ou sala de fe- mentos sobre as farmácias, elaboração de me-
zes, como o laboratório ficou conhecido e o didas para melhor atendimento aos doentes
Seaman’s Hospital, em Greenwich. Nessa esco- mentais, alerta da insalubridade dos prostíbu-
la foram descritos pela primeira vez, pelo mé- los, destacando o saneamento básico. Foi a épo-
dico inglês George Low, embriões de Wuchere- ca da medicalização das instituições – hospi-
ria bancroft na probóscide dos mosquitos (Fos- tais, cemitérios, escolas, quartéis e prostíbulos
ter, 1965). –, quando o projeto de medicina procurou des-
A exemplo da Inglaterra, outras escolas de tacar o saneamento (Nunes, 2000).
medicina tropical e de parasitologia se esta- A Escola Tropicalista Baiana, integrada por
beleceram: o French Institute de Médicine Co- vários parasitologistas de renome, designava
loniale, em 1902 e o original Pasteur Institu- inicialmente um conjunto de médicos que se
te, fundado em 1888, em Paris, que encorajava organizavam ao redor de um periódico funda-
seus alunos a saírem da França e alçar vôos, do em 1866 – A Gazeta Médica da Bahia – à
fundando outros institutos. O primeiro Pasteur margem da Faculdade de Medicina existente na
Institute no Norte da África francesa foi funda- antiga capital do Brasil Colônia. Os tropicalis-
do em 1893 em Tunis. Dentre os trabalhos des- tas permaneceram na fronteira entre o para-
ses institutos destacavam-se os de investigação digma miasmático/ambientalista e a Teoria dos
na área da biologia e da medicina tropical, mas Germes, sendo que a escola estava preocupada
inevitavelmente muitos dos trabalhos eram so- em refutar o preconceito historiográfico de que
bre parasitologia médica. a medicina brasileira era imitação da européia,
Outro importante centro de pesquisa foi o produzindo investigações originais sobre as pa-
de Cambridge, fundado em 1906, responsável tologias nativas da Bahia e se posicionando in-
pela editoração da segunda revista científica de dependentemente face à medicina acadêmica
parasitologia – Parasitology que, juntamente européia e a classe médica local (Benchimol,
com o primeiro periódico de parasitologia – 2000).
Archives de Parasitologie –, editado em 1898, Peard (1992) enfatiza o antagonismo entre
constitui os primeiros traços da história da pa- os integrantes dessa escola e os médicos da ca-
rasitologia. Parasitologistas de renome deixa- pital do Império, encastelados na academia e
ram neles seus artigos: Davaine, Cobbold, Nut- na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.
tall, Blanchard e Hoeppli (Foster, 1965). A Sociedade Médica de Cirurgia do Rio de Ja-
O estudo da parasitologia iniciou-se nos neiro encarava o progresso como imitação
EUA em 1850 com Joseph Leidy, que ficou sozi- da ciência e das instituições européias; os tro-
nho por aproximadamente 20 anos, publican- picalistas baianos investigavam a singularidade
do, entre outros trabalhos relevantes, a descri- das doenças dos trópicos, a influência do clima
ção, em 1860, do parasita Trichinella spirallis. sobre as raças e sobre a geração ou multiplica-
Em 1910 foi fundada a Helmintological Society ção de miasmas e germes, com interesse cres-
e em 1952 a American Society of Parasitology. cente pelo papel dos parasitas como produto-
As descobertas de Laveran, Ross e Bruce, no res de doenças. Segundo esse mesmo autor, foi
final do século 19, expandiram a protozoologia o modelo científico, que deslocava a atenção do
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Mascarini, L. M.

meio ambiente para as etiologias parasitárias Demografia, realizado em Berlim em 1907. Nes-
específicas, que deu “clara e poderosa” identi- se evento, Oswaldo Cruz recebeu medalha de
dade aos tropicalistas baianos. Essa identidade ouro pela sua atuação em Manguinhos, tendo
adveio principalmente das investigações de essa condecoração uma enorme repercussão no
Wucherer, relacionadas à ancilostomíase, à fila- Brasil.
riose e à malária. Em 1906 foi inaugurada, em Belo Horizon-
Segundo Benchimol (2000), as contribui- te, a primeira filial do antigo Instituto de Man-
ções brasileiras ao programa de controle das fi- guinhos e Carlos Chagas executou a primeira
larioses seriam dadas pelas pesquisas embrio- campanha antipalúdica, em Itatinga, interior de
lógicas e patogênicas de Júlio de Moura e Pedro São Paulo, onde se construía uma hidrelétrica.
Severiano de Magalhães, destacando os traba- Em 1908, o então denominado Instituto de
lhos de Adolfo Lutz, o mais preparado para im- Manguinhos foi renomeado de Instituto Os-
plementar o modelo mansoniano em áreas ain- waldo Cruz. O modelo de médico da época do
da não exploradas pelos helmintologistas bra- campanhismo era Oswaldo Cruz, que susten-
sileiros, inclusive no campo da veterinária. tava que o saber assentava-se na pesquisa e na
A Escola Tropicalista Baiana tinha como experimentação com o objetivo de combater as
membro, em 1841, José Cruz Jobim que elabo- endemias e as epidemias (Nunes, 2000).
rou trabalho sobre as doenças que mais afli- Em 1909, Carlos Chagas, médico e pesqui-
giam escravos e indigentes do Rio de Janeiro. sador do Instituto Oswaldo Cruz, descobriria
Entre elas, sobressaía uma doença vulgarmen- uma nova doença em Lassance, interior de Mi-
te conhecida como opilação, cansação, caque- nas Gerais, a tripanossomíase americana, ou
xia africana e, na literatura estrangeira, “tropi- doença de Chagas. Pela primeira vez na histó-
cal chlorosis”, “mal de coen”, etc. Baseando-se ria da medicina, um mesmo pesquisador iden-
nos trabalhos de Jobim, Otto Wucherer diag- tificaria o vetor (inseto conhecido como “bar-
nosticou, em 1865, um caso adiantado de hi- beiro”), o agente etiológico (o protozoário Try-
poemia em um escravo que faleceu em segui- panossoma cruzi) e a doença causada por esse
da. Na autópsia, encontrou vermes da espécie parasita. A ênfase dada à originalidade cientí-
Anchylostomum duodenale, identificado por fica da descoberta de Carlos Chagas expressou
Angelo Dubini, em 1838. As investigações so- a importância assumida no processo de insti-
bre essa doença prosseguiram na Bahia e no tucionalização da ciência biomédica no Brasil
Rio de Janeiro, após a morte prematura de (Kropf et al., 2000).
Wucherer em 1873, porém as questões funda- No ano seguinte, 1910, Chagas obteve o
mentais relativas à biologia e aos hábitos dos prêmio Shaudinn, conferido pelo Instituto Na-
parasitas só seriam retomadas, num patamar val de Medicina de Hamburgo, por uma co-
bem mais sofisticado, em meados de 1880 por missão que reunia a nata da microbiologia e da
Adolfo Lutz (Benchimol, 2000). medicina tropical mundial. A doença de Cha-
Cerca de 20 anos depois do surgimento da gas consolidou a protozoologia como área de
Escola Tropicalista Baiana, Oswaldo Cruz cria- concentração das pesquisas, assim como a in-
ria uma nova escola de medicina, voltada para serção de Manguinhos (IOC) na comunidade
a saúde pública. Em 1902, ele assume a direção científica internacional como importante cen-
da área de saúde pública no governo de Rodri- tro de estudos sobre as doenças tropicais (Ben-
gues Alves, propondo ao congresso que o Ins- chimol, 2000)
tituto Soroterápico Federal fosse transforma- Segundo Barata (2000), a forma de ocupa-
do “num instituto para estudo das doenças in- ção do espaço agrário e do espaço urbano em
fecciosas tropicais, segundo as linhas do Insti- São Paulo em meados do século 20 determi-
tuto Pasteur de Paris” (Benchimol, 2000). Ele nou as condições extremamente favoráveis à
não foi atendido, porém destinou verbas pró- ocorrência de doenças transmitidas por veto-
prias para elevar a categoria do então Instituto res, doenças de transmissão hídrica e doenças
de Manguinhos. As fronteiras de Manguinhos de transmissão respiratória. Dentre as doenças
se alargaram e seus cientistas se embrenharam transmitidas por vetores, destacaram-se nesse
pelos sertões do Brasil para estudar e combater período a febre amarela, a peste, a malária, as
doenças, principalmente a malária. leishmanioses cutâneo-mucosas e a doença de
O instituto chefiado por Oswaldo Cruz foi Chagas.
a única instituição sul-americana a participar Em meados do século 20, eclodiu em São
do 14o Congresso Internacional de Higiene e Paulo a epidemia de leishmaniose tegumentar
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durante a construção da Estrada de Ferro No- Dessa forma, a entrar no século 20, a malá-
roeste, disseminando-se por toda a Alta Soro- ria tem sua sentença epidemiológica central:
cabana, Alta Paulista e região noroeste do Esta- a relação entre o agente, o meio ambiente e o
do, seguindo a penetração do homem e a der- hospedeiro. Além dos estudos entomológicos,
rubada das matas. A designação “úlcera de Bau- o avanço da parasitologia e da imunologia per-
ru” surgiu em decorrência desse surto, visto mitiu, no decorrer do século, avançar no co-
que o acampamento dos trabalhadores locali- nhecimento dos ciclos do parasito no homem
zava-se nessa cidade. Outros surtos ocorreram e no mosquito, na produção de drogas espe-
em cidades da região (Pirajuí, Birigui, Pená- cíficas a cada fase do desenvolvimento dos di-
polis, Araçatuba), sendo que os casos ocorre- ferentes plasmódios e, mais recentemente, na
ram entre trabalhadores que derrubavam ma- busca de uma vacina (Matos, 2000).
tas, moradores de vilas e povoados recém-ins- Entre as endemias rurais importantes, a úl-
talados bem como sitiantes e fazendeiros (Pes- tima a aparecer em São Paulo foi a esquistosso-
sôa, 1949). mose, cujos primeiros casos autóctones foram
No final do século, a endemia retornou ao registrados em 1923. Foram registrados 11 ca-
Estado, apresentando-se agora como doença de sos sem que se conhecesse a espécie de trans-
áreas periurbanas submetidas a processos de missor envolvido. Não foi atribuída maior im-
desmatamento para loteamento, nas quais os portância à descoberta visto que se acreditava
vetores apresentariam variação domiciliar. A não haver condições propícias para a instala-
doença, considerada inexistente no Estado, se ção da endemia (Barata, 2000). Na Segunda
manifestou em área que sofreu grande trans- metade do século 20, surgem casos autóctones
formação econômica substituindo a criação de de esquistossomose nos municípios de Ouri-
gado pelo plantio da cana, na qual se emprega, nhos, Palmital e Ipauçú, região onde é encon-
temporariamente, grande contingente de mão trada a Biomphalaria glabrata, hospedeiro in-
de obra migrante durante a colheita (Barata, termediário com maior potencial para a manu-
2000). tenção de focos. Novos focos são detectados
As características epidemiológicas da ocor- ainda no vale do Ribeira e vale do Paraíba, re-
rência de malária em São Paulo refletem as gião que se tornará endêmica para a doença,
condições de desenvolvimento socioeconômi- sendo a transmissão associada principalmente
co do Estado. O início da cultura cafeeira, no à lavoura de arroz em alagados (Chieffi e Wald-
século 19, começa a modificar as condições de man, 1988).
ocupação do espaço no Estado, intensificando Além da esquistossomose, as enteroparasi-
o processo de desmatamento, promovendo in- toses, ao longo da história, são indicadas como
tensos fluxos migratórios internos e externos, um dos mais sérios problemas de saúde públi-
estimulando a construção de ferrovias e propi- ca do Brasil (Pessôa, 1949, 1963, 1982; Rey,
ciando grande crescimento econômico (Barata, 1991; Neves, 2000).
1997). Pessôa (1949, 1963) afirmou que entre os
As referências às febres palustres intermi- trópicos de Câncer e Capricórnio, existem mais
tentes e febres paulistas são freqüentes nesse infecções helmínticas que pessoas. Observando
período. É possível supor, a despeito da carên- os diversos e numerosos levantamentos sobre
cia de dados numéricos sobre a doença, que to- as enteroparasitoses realizados em todo o mun-
do o processo de ocupação, intensificado du- do e especialmente em nosso país, vemos que a
rante o século 19, tenha propiciado a instala- afirmação é bastante atual (Bundy, 1995; Fer-
ção, consolidação e o aumento da endemia no reira et al., 2000).
Estado. Os relatos de epidemias no interior do Considerando a morbidade e a mortalida-
Estado, durante a década de 1910, registram de que podem advir das infecções por entero-
prevalências altas, atingindo de 40 a 85% da parasitas, a diminuição da capacidade de tra-
população. A ampliação dos conhecimentos re- balho dos adultos parasitados e os custos so-
lativos à produção da malária evidencia paula- ciais de assistência médica ao indivíduo e à co-
tinamente a complexidade e o número de fato- munidade, percebe-se facilmente que as para-
res envolvidos, seja em relação às diferentes es- sitoses intestinais humanas representam ex-
pécies de plasmódios, em relação aos vetores e pressivo problema de saúde pública nos países
seus comportamentos extremamente variados do Terceiro Mundo (Barata, 2000).
ou em relação ao homem e às suas condições
de vida (Barata, 1997).
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Mascarini, L. M.

Comentários finais

Neste início de século 21, as parasitoses deixa-


ram de ser doenças em torno das quais são mo-
bilizados recursos internacionais de diferentes
ordens, cedendo lugar a novos problemas, as
chamadas “doenças da modernidade”, como a
síndrome da imunodeficiência adquirida (Aids)
e as chamadas doenças reemergentes (antigos
problemas), como a tuberculose e outras a ela
associadas.
A história nos mostra que os antigos males
persistem nos países do Terceiro Mundo, frutos
na sua grande maioria de condições socioeco-
nômicas, sanitárias e higiênicas deficientes, da
não-implantação de políticas públicas que pro-
movam o crescimento econômico, da não-dis-
tribuição igualitária de renda e do não-acesso
universal à educação e aos serviços básicos de
saneamento e de saúde.

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