Você está na página 1de 13

A ANÁLISE SOCIOECONÔMICA COMO FATOR DE

INFLUÊNCIA NA SELETIVIDADE PENAL


Breno Kazuki da Silva Honda49
Hanna da Silva Mattos50
Ulric Gabriel Coutinho Jacob Cabral51

RESUMO: Este artigo tem como objetivo evidenciar as


disparidades presentes no ordenamento jurídico dentro da área
penal, o qual se mostrou influenciado por um fator extrajudicial
que vai de encontro com o próprio fundamento do Direito: a
condição socioeconômica dos réus. Este fator vem se
apresentando como determinante para a rigorosidade do
processo e da sanção, deturpando a eficácia plena e correta da
ação. Gostaríamos de apresentar, também, a lamentável relação
do Estado com o problema apresentado, fruto de uma
discriminação oriunda da estipulação autoritária e
segregacionista do modelo capitalista encoberto pelo Estado
que havia jurado proteger a sociedade.
Palavras-chave: Estado; disparidade; discriminação.

                                                                                                               
49 Graduando do Curso de Bacharelado em Direito – Centro
Universitário do Pará-CESUPA
50 Graduando do Curso de Bacharelado em Direito – Centro

Universitário do Pará-CESUPA
51 Graduando do Curso de Bacharelado em Direito – Centro

Universitário do Pará-CESUPA

88
1 - INTRODUÇÃO
Este artigo propõe uma reflexão acerca de um tema
tão importante e tão sutilmente presente na sociedade, a
Seletividade do Direito Penal. Logo, tem-se a intenção de criar
no leitor do artigo um pensamento crítico sobre a realidade que
nos é passada e a realidade factível, sobre as atitudes
discriminatórias e taxativas destinadas aos cidadãos de menor
poder aquisitivo, para que haja constante manutenção da
perenidade da elite vigente em detrimento de supostos
marginais, mas que, na verdade, foram marginalizados e são
produtos do sistema capitalista agressivo. Portanto, a
motivação da escrita do tema se dá por uma vontade de um
ordenamento jurídico mais solidário, para que se possa ter mais
clareza sobre a constante alienação produzida pelos meios
midiáticos, e como estes influenciam direta e objetivamente na
formação de opinião. Sobretudo, o artigo ambiciona recuperar a
fundamentação ética para o Direito, para o ordenamento
político como um todo, articulando argumentos em meio ao de
autores que se preocuparam com o tema, busca-se a
recuperação do sentimento de segurança jurídica há muito
perdido em meio a tantas vicissitudes provenientes de um ônus,
seja da demora da resposta do judiciário para os casos
concretos, ou pela insatisfação com a mesma, tendo em vista
que ela, por vezes, não resolve o caso equilibradamente.
A solidariedade do Estado para com o cidadão é um
dos fatores determinantes para que haja a vigência de um
Estado efetivo e deliberativo, deste modo a criminalidade será
prevenida, o que é bem mais válido do que ser apenas
remediada. É fato que sempre haverá atos ilícitos e que não se
sabe até onde as ilicitudes são fruto do Estado falho e da
intrínseca subjetividade humana, ou de cada uma
particularmente, mas que se tenha um sistema carcerário cuja
grande maioria não seja caracterizada por delitos que poderiam
ser majoritariamente prevenidos apenas pela solidariedade
estatal, indivíduos que tiveram oportunidades negadas, e foram
sofrendo a execrável opressão de um sistema cada vez mais
litigante e responsável por inserir a ideia de que a sociedade

89
tem a característica maniqueísta. No entanto, na verdade, acaba
protegendo quem segrega e segregando quem deveria ser
protegido.

2 - A CRIAÇÃO DE MINORIAS COMO PRODUTO DA


DISCRIMINAÇÃO DO DIREITO PENAL
O Direito Penal tem como fundamento a proteção dos
bens jurídicos dotados de relevância na esfera penal, como a
vida, a integridade física, entre outros. Dentro do Código, a lei
penal é igual para todos como está previsto na Constituição
Federal, não importando a classe social a que pertença,
portanto a isonomia seria, em tese, um alicerce na vara penal.
Entretanto, em uma reflexão que não necessita de grande
profundidade para começarmos a nos questionar quanto à
veracidade desta proposta de igualdade. Na Declaração
Universal de Direitos Humanos em seu artigo 1º diz "Todos os
seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos",
todavia sempre se fez presente uma desigualdade de direitos
quando as classes econômicas e padronização de culturas e
crenças se mostravam presentes, alguns grupos acabam sendo
menosprezados e excluídos por não se encaixarem nos ditames
impostos pela classe dominante, gerando a tal desigualdade,
criando as ditas minorias.
Denominam-se como minorias os grupos sociais que
têm menor expressão na sociedade, devido o grau de relevância
que a elite aloca para o discurso minoritário. Um dos principais
problemas, e uma das principais causas dos conflitos
intersubjetivos, é a negativa atribuição que se dá para esse
grupo social, taxando-os como os diferentes, más influências,
comumente excluídos e discriminados devido às questões
econômicas, étnicas e culturais. O termo “minoria” não tem
uma relação quanto à quantidade ou números populacionais de
determinado grupo social, seu real significado está ligado à
baixa capacidade de influência, derivada da discriminação em
relação à cultura e etnia ou o baixo poder aquisitivo.

90
3 - A “MAIORIA” COMO FATOR CONTRIBUTIVO
PARA CONSOLIDAÇÃO DAS DESIGUALDADES
Por consequência, percebe-se que há uma forte
relação entre pena e interesse majoritário da sociedade na
manutenção da ordem pública, podemos seguir refletindo sobre
isso no raciocínio de Magalhães de Noronha:
"Com efeito, e Estado, como já se disse mais de uma
vez, tem como finalidade a consecução do bem
coletivo, que não pode ser alcançado sem a
preservação do direito dos elementos integrantes da
sociedade, e, portanto, quando se acha em jogo
direitos relevantes e fundamentais para o indivíduo,
como para ele próprio, Estado, e as outras sanções são
insuficientes ou falhas, intervém ele com o jus
puniendi, com a pena, que é a sanção mais enérgica
que existe, pois, como já se falou, pode implicar até a
supressão da vida do delinquente."52
Logo, percebe-se que a baixa relevância dada para as
minorias pela elite não é refletida no significativo enfoque
promovido pelo Direito Penal nas sanções, tendo em vista que
estas, por sua vez, possuem uma alta porcentagem de
direcionamento para as classes mais pobres, para as “más
influências”, e tantas outras expressões minoritárias, as quais
são subjugadas por um discurso que fundamenta a pena em um
suposto “livre-arbítrio”, no entanto, muitas vezes não há a
reflexão que o Estado não oferece oportunidades dignas para os
socialmente excluídos, não que esta justificação por si só retire
a culpa de quem comete um delito, porém é uma opção refletiva
para uma maior solidariedade estatal para com aqueles que este
                                                                                                               
52NORONHA, E. Magalhães. Direito Penal. Vol. 1, 33 edição. São
Paulo. Saraiva.

91
se comprometeu a proteger. Portanto, surge uma indagação:
qual o motivo para que a lei penal destine seu maior foco para
determinado grupo social? Como se pode ver no caput do art. 5º
da Constituição Federal ‘’ Todos são iguais perante a lei, sem
distinção de qualquer natureza [...]’’, mas infelizmente o que
realmente acontece é que o grupo mais forte oprime o mais
fraco, e com isso vemos os que tem poder econômico
determinando o certo atrás de uma retórica pouco convincente
de proteção aos cidadãos de bem. Tal retórica de igualdade
sobre quem é protegido e punido é apenas ilusória, a igualdade
produzida é apenas uma igualdade formal, um direito
salvaguardado que é caracterizado apenas como uma liberdade
negativa, de cunho individualista e que pode, e assim o é, usado
como uma ferramenta elitista de controle, produzindo uma
imagem maniqueísta da sociedade.

4 - A QUEBRA DO MITO DA IGUALDADE


Acerca deste tema, é importante também frisar a
criminologia crítica de Alessandro Baratta, o autor pontua o que
é chamado de “mito do direito penal igual”, uma teoria que tem
como principais pontos: 1- O Direito penal não produz uma
defesa igualitária sobre todos e seus bens jurídicos essenciais,
posto que mesmo a sanção é aplicada desigualmente e
parcialmente; 2- A legislação penal também não é igualitária, o
quadro de personalidade dos infratores é muito característico e
de cunho segregacionista; 3- A contradição da tutela promovida
pelo Estado relacionada com a distribuição do status criminal
para uma determinada parcela de indivíduos acarreta uma
situação onerosa e mais danosa ainda quando considerada a
ineficácia da reação criminalizadora e de sua intensidade.
Desta forma, como o exposto por Baratta, há uma
desproporcionalidade sancionária, um dos pontos essenciais em
sua criminologia crítica, e como produto dos argumentos
expostos, revela-se logicamente possível a observação da
tentativa de perpetuação do controle majoritário sobre a

92
minoria, sendo a camada jurídica apenas mais uma das formas
de controle.
Um ponto importante a se ressaltar é que esse
controle, apesar do discurso às vezes passar uma impressão um
tanto radical, é presenciado de forma sutil e constantemente
presente nas mais variadas vertentes sociais, uma inserção de
ideias no subconsciente que acontece constantemente,
contribuindo para uma sociedade que segrega e é
preconceituosa com uma visão utilitarista. Zaffaroni usa a
expressão “criminologia midiática” para designar esse poder da
mídia de controlar a imagem estereotipada da pessoa que
comete o delito. Em dada passagem ele escreve:
(...) são os meios de massa que desencadeiam as
campanhas de ‘lei e ordem’ quando o poder das
agências encontra-se ameaçado. Estas campanhas
realizam-se através da ‘invenção da realidade’
(distorção pelo aumento de espaço publicitário
dedicado a fatos de sangue, invenção direta de fatos
que não aconteceram), ‘profecias que se auto-
realizam’ (instigação pública para a prática de delitos
mediante metamensagens de ‘slogans’ tais como ‘a
impunidade é absoluta’, os menores podem fazer
qualquer coisa’, ‘os presos entram por uma porta e
saem pela outra’, etc; publicidade de novos métodos
para a prática de delitos, de facilidades, etc.).
‘produção de indignação moral’ (instigação à violência
coletiva, à autodefesa, glorificação de ‘justiceiros’,
apresentação de grupos de extermínio como
‘justiceiros’, etc.)53

                                                                                                               
53ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Em busca das penas perdidas: a perda
da legitimidade do sistema penal. Rio de Janeiro: Revan, 1991. p. 129

93
Contudo, atualmente, mesmo ainda havendo esta
presença constante de tal controle, há uma forma muito mais
sutil com que tal pensamento é inserido e difundido na classe
majoritária. Agora há uma ilusória inserção da minoria dentro
do quadro de relevância social, não por uma proteção
legislativa, mas sim por um aparente aumento das classes
minoritárias dentro da mídia, a “institucionalização” de certas
personagens, que mais são estereótipos, e compõem certo
espaço dentro da cena midiática produzida. A mídia em si cuida
desta forma de abrandamento dos ânimos das minorias, que
como foi explicado anteriormente não o é por quantidade, mas
sim por relevância da expressão social, tem reivindicado cada
vez mais seus direitos, e o poder midiático é usado para que se
apazigue e evite reclamações. O uso da mídia é tão efetivo, pois
age no subconsciente em uma escala maior que apenas a
proteção legislativa, a cada instante os veículos de comunicação
estão transmitindo informações. Conclui-se que a influência da
mídia em assuntos de tema jurídico e político interferem nas
valorações éticas e morais subjetivas, o que produz certo
conformismo e sentimento de insegurança jurídica.
Zaffaroni continua aprofundando o assunto, em uma
dada passagem é exposto:
[...] ao menos em boa medida, o sistema penal
seleciona pessoas ou ações, como também criminaliza
certas pessoas segundo sua classe e posição social. [...]
Há uma clara demonstração de que não somos todos
igualmente ‘vulneráveis’ ao sistema penal, que
costuma orientar-se por ‘estereótipos’ que recolhem
os caracteres dos setores marginalizados e humildes,
que a criminalização gera fenômeno de rejeição do
etiquetado como também daquele que se solidariza ou
contata com ele, de forma que a segregação se
mantém na sociedade livre. A posterior perseguição
por parte das autoridades com rol de suspeitos

94
permanentes, incrementa a estigmatização social do
criminalizado.54
A estigmatização, já citada acima, é um fator
importante. A teoria do etiquetamento, ou teoria do labeling
approach, é uma corrente muito difundida dentro do tema da
Seletividade Penal, ela aborda uma visão marxista da
criminalização, e aqui pode haver certa confusão com o modelo
político, mesmo porque já se criticou muito a instituição da
mídia, algo tão arraigado ao sistema capitalista. Contudo, a
visão marxista cabe ao materialismo de pensar que a conduta
ilícita e socialmente reprovável não é intrínseca da sociedade, e
anterior ao ordenamento social, mas sim que a conduta ilícita é
fruto do ordenamento social, de suas vicissitudes, melhor
explanando. Tal teoria preocupa-se com a influência exercida
pelas consequências da segregação e taxação, o que é facilmente
realizado com a ajuda da mídia, o método mais abrangente e
fértil para a perpetuação da seletividade igualitária de
estereótipos criminosos, delinquentes e marginalizantes.

5 - UMA PERSPECTIVA SISTEMÁTICA DA


SELETIVIDADE PENAL
Logo, o sistema criminal brasileiro, ao invés de tentar
prevenir e remediar crime, acaba por criar um ambiente
propício para que este ocorra. A exclusão de muitas pessoas
após um processo seletivo é o que dá o nome de “Seletividade
do Direito Penal”, e esse serve para designar como o direito
seleciona sua área de atuação, para essa parte criminal atribui-
se duas etapas, as quais Rogério Greco também doutrina sobre,
estas são: 1- Criminalização primária: a seleção organizada pelo
                                                                                                               
54ZAFFARONI, Eugenio Raul; PIERANGELI, José Henrique. Manual
de Direito Penal Brasileiro, volume 1: Parte Geral. 9. ed. São Paulo:
Editora Revista dos Tribunais, 2011.

95
legislador, onde este indicará os tipos penais, ou seja, os atos
dotados de caráter lesivo aos bens jurídicos que são abordados
na esfera penal. São condutas, portanto reprováveis pelo
Direito, delimitando por consequência os bens jurídicos a serem
protegidos; 2- Criminalização secundária: Acontece após o
descumprimento, logo o desrespeito, produzindo um processo
de seleção que indicará quem será sancionado pelo Direito
Penal após a investigação, processo e condenamento, caberá ao
Estado então determinar a pena pela efetivação de seu jus
puniendi, para que por fim o condenado seja punido de acordo
com a sanção prevista pela lei previamente formulada.

6 - A “EFICÁCIA” DO DIREITO PENAL E O


DISTANCIAMENTO DA SOCIEDADE
O próprio Greco comenta acerca da seletividade
quanto sua eficácia prática, demonstrando o quanto ela não é de
fato levada a risca, visto que todos nós já cometemos em algum
momento da vida um ato ilícito, uma conduta que está prevista
como ilegal, todavia nem todos respondem penalmente por
isso, por quê? Pelo simples fato de que todos os indivíduos
dentro dos padrões taxados pela sociedade
socioeconomicamente beneficiada aparentam serem dotados de
uma preferência quanto à punibilidade, como se o Estado
“cobrisse os olhos” para estes atos, entretanto qualquer um fora
das descrições parece ser sumariamente atingido pela pesada
repressão estatal, a ponto de em alguns casos não terem sequer
o direito ao devido processo legal, tendo um dos bens mais
importantes como a liberdade privados, sem a chance de uma
ampla defesa. Isso se evidencia mais claramente quando
Rogério Greco afirma: “O Direito Penal tem cheiro, cor, raça,
classe social; enfim, há um grupo de escolhidos, sobre os quais
haverá a manifestação da força do Estado.” (GRECO, 2014, p.
155-159)
O sentimento de exclusão social é fruto das
vicissitudes do ordenamento jurídico, a insegurança jurídica

96
promovida por um Estado falho é algo muito danoso. O Estado
quando se distancia da população e mantém seu contato apenas
pelo comando legislativo e por uma resposta demorada e
incerta do organismo jurídico, acaba por causar uma indolência
social, um processo onde a sociedade passa cada vez mais a
desacreditar do direito, passa a retirar credibilidade da validade
legislativa. Este tipo de Estado promove em maior escala a
liberdade negativa, onde o Estado reconhece majoritariamente
os direitos individualistas e não oferecem uma proteção efetiva,
apenas reconhecem. Uma atitude onerosa e que não ocasiona a
possibilidade de haver uma liberdade positiva, ou seja, uma
situação onde, já salvaguardados os direitos individuais, resta
assegurá-los efetivamente e abrir espaços políticos para que se
possa deliberar o Estado e a sociedade sobre os mais diversos
assuntos estatais. Contudo, mesmo que esta liberdade positiva
produza uma empatia social e pessoas mais solidárias por se
sentirem parte do debate político, isto por si só ainda não é o
bastante para que as classes minoritárias sejam realmente
tratadas com dignidade. Ronald Dworkin tratou uma solução
para o problema minoritário trazendo para o ordenamento
jurídico o conceito de “trunfos políticos”, o qual protege as
classes minoritárias das vontades abusivas, que eventualmente
podem ser emanadas da maioria. Os “trunfos políticos” são
emanados do Estado direitos para proteção que,
aparentemente, não podem ser relativizados e servem de
blindagem legislativa contra abusos para com os bens jurídicos
de mais importância.
Assim, podemos perceber que a posição do Estado
quanto à legitimação da seletividade penal se apresenta ainda
muito frágil e deixando a desejar, isto é também uma herança
da hipertrofia legislativa, que tendo sua eficácia comprometida,
passa a ser mais sistematicamente preconceituoso e rigoroso
com os desfavorecidos, por acreditar que estes mais facilmente
têm de fato culpa com relação às acusações contra eles
proferidas. Greco se posiciona quanto isso:

97
O Estado ainda não acordou para o fato de que ao
Direito Penal somente deve importar as condutas que
ataquem os bens jurídicos mais importantes e
necessários para o convívio em sociedade. Enquanto o
Direito Penal for máximo, enquanto houver a
chamada inflação legislativa, o Direito Penal
continuará a ser seletivo e cruel, escolhendo esta que,
com certeza, recairá sobre a camada mais pobre,
abandonada e vulnerável da sociedade.55
Estes problemas que enfrentamos dentro do Direito
Penal apesar de tudo estão melhores de serem identificados e,
portanto permite mais espaço para debatermos o assunto
tentarmos resolvê-lo atualmente. Diferente de a algum tempo
atrás em que o Direito Penal não tinha esse espaço de debate e
era muito mais abusivo e burocrático, como é explanado por
Greco, que exemplifica com o uso do art. 51 CP e como antes de
sua modificação havia a possibilidade de conversão da multa
em pena privativa de liberdade. Em seguida para melhor
entender a burocracia de processos como esse e como isto
influenciava para o desrespeito aos direitos das minorias, Greco
usa a Lei de Execução Penal, que previa um procedimento
próprio de cobrança de multa, que era por intermédio dos
art.164 a 170 CP, pois este procedimento era demasiadamente
demorado, pois depois de transitada em julgado a sentença
condenatória, o escrivão deveria emitir uma certidão que seria
utilizada pelo Ministério Público como um titulo executivo
judicial. Em seguida esta certidão serviria como fundamento
para propor uma ação de execução, obedecendo as regras do
direito processual civil, para então realizar a citação, nomeação
de bens à penhora, ou quaisquer outros procedimentos. Para se
no fim do processo o individuo que fosse condenado fosse
analisado como solvente ou insolvente. Em caso de solvência a
pena seria convertida com base em multa-dias. Caso o
                                                                                                               
55GRECO, Rogério. Direito Penal do Equilíbrio: Uma visão minimalista
do Direito Penal. 7. Ed. – Niterói, RJ; Impetus, 2014. p.155-159.

98
condenado fosse taxado como insolvente ele teria o feito
suspenso, sem que houvesse uma conversão. Demonstrando,
portanto certo grau de evolução quando as condutas estatais
abusivas e suas consequências para a agravação das
disparidades jurídicas entre os grupos sociais.
Conclui-se que o conjunto de ações, providas de um
sistema falho, acaba por criar um círculo vicioso da formação
do pensamento punitivista na sociedade. Este pensamento nos
é inserido desde o princípio do amadurecimento do processo
cognitivo humano, transformando o comportamento da
sociedade mais segregante e cruel com aqueles que não foram
privilegiados com as oportunidades de ter uma vida digna como
a Constituição prevê. A atitude da mídia, como já foi verificada,
é muito importante nesse processo, e há vertentes teóricas
radicais que criticam esse processo, sobretudo na Teoria do
Etiquetamento, que entendem unicamente o “produto do
sistema” como o responsável por criar o comportamento ilícito.
No entanto, mesmo que não haja provas sobre a explicação da
origem do comportamento criminoso, é fato que o direito deve
ter uma abordagem realmente solidária e justa com todos, não
apenas com a elite. Sobretudo o Direito Penal, aquele que só
deve ser usado se for precisamente necessário, aquele que é a
última ratio dentre os códigos, pois lida com a privação da
liberdade do ser humano. Para uma sociedade mais justa e
igualitária é necessário que se abra espaços políticos e que se dê
oportunidades para essas minorias, para que eles se sintam
inclusos e que não haja um ambiente que induza pessoas à
criminalidade. É uma forma muito mais inteligente de se lidar
com o problema socioeconômico e que pode produzir
consequências muito positivas para a sociedade como um todo,
e não parcialmente.

REFERÊNCIAS

99
GRECO, Rogério. Direito Penal do Equilíbrio: Uma visão
minimalista do Direito Penal. 7. Ed. – Niterói, RJ;
Impetus, 2014. p.155-159
ZAFFARONI, Eugenio Raul; PIERANGELI, José
Henrique. Manual de Direito Penal Brasileiro, volume 1:
Parte Geral. 9. ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais,
2011.
ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Em busca das penas perdidas:
a perda da legitimidade do sistema penal. Rio de Janeiro:
Revan, 1991. p. 129
BARATTA, Alessandro, Criminologia crítica e critica do
direito penal ,1997.
NORONHA, E. Magalhães. Direito Penal. Vol. 1, 33 edição.
São Paulo. Saraiva.

100