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Enxergando Deus - Parte 4

Comunidade

“Papai, onde está Hashem?"


"Filho, onde quer que você O deixe entrar."

Como abrimos os olhos da alma e deixamos Hashem "entrar"?


Para responder a essa pergunta, vamos analisar detalhadamente as sefirót, as dez
qualidades de Hashem, uma por uma.

A primeira sefirá que iremos analisar é malchut — o poder de se ver as outras


qualidades.
Malchut é um atributo de Hashem presente em nós.
Esse atributo é a própria consciência.
Em outras palavras, por mais misterioso que pareça, nossa consciência para ver
Hashem, na verdade, origina-se de Hashem.
Malchut significa literalmente "reino", ou seja, um conjunto de pessoas que
reconhece um determinado rei.
No entanto, a Cabalá traz uma definição muito mais abrangente — malchut quer
dizer que você se sente como um participante de uma consciência coletiva que
reconhece Hashem não somente como um Poder Superior, mas também como o
Poder Supremo Soberano.
Esse reconhecimento coletivo de Hashem canaliza a Majestosa Presença Divina para
este mundo.
A Cabala diz que "não há rei sem nação."
Essa afirmação requer uma análise mais profunda.
Pode fazer sentido que, para os seres humanos, o rei dependa de seus súditos, que
reconhecem sua soberania.
O último imperador da China deixou de ser imperador quando não havia mais
pessoas que se curvavam quando ele passava.
Mesmo depois que o governo comunista o exilou, enquanto as pessoas o
reconheciam como soberano, ele ainda era rei, embora não tivesse mais o poder de
governar.
Porém, Hashem é a realidade.
Como Ele pode depender de reconhecimento humano?
O mundo em que vivemos é resultado da nossa percepção da realidade.
O filósofo Immanuel Kant se aprofundou nesse conceito, e questionou:
Vemos a realidade ou a nossa percepção da realidade?
A resposta de Kant é que não vemos a realidade, mas apenas nossa percepção da
realidade.
Em outras palavras, este mundo é a realidade?
Não, ele é a nossa percepção da realidade.
Por isso, o foco e a clareza da consciência determinam em que tipo de mundo
vivemos.
Imagine três pessoas sentadas, uma ao lado da outra, na sala de espera de um
consultório medico.
Elas estão na mesma sala?
Digamos que a primeira pessoa entrou e reclamou: "Ah, como esta sala é
pequena!"
Então a segunda entrou e disse: "Como esta sala é iluminada!"
A terceira chegou e pensou: "Eu, hein! Que sala desarrumada!"
As três estão sentadas a poucos centímetros de distância uma da outra, mas não
estão na mesma sala.
A primeira pessoa está numa sala pequena, sentindo-se muito apertada.
A segunda está numa sala iluminada, sentindo-se alegre.
A terceira está numa sala desorganizada, sentindo-se aborrecida.
O mundo em que vivemos é resultado do que vemos e do que estamos dispostos a
ver.
Essa ideia está no comentário do Zohar sobre a história da ida de Jacob ao Egito
para encontrar Jose, o filho perdido.
Jacob se sentia apreensivo por deixar a Terra de Israel, mesmo que para ver seu
querido filho.
Hashem então apareceu para Jacob e disse: "Não se preocupe, José fechará os
olhos do pai."
O que isso quer dizer?
De acordo com a Torá, quando uma pessoa falece, alguém precisa fechar-lhe os
olhos.
O Zohar explica que as cores, as texturas e as formas deste mundo existem em
nossos olhos.
Para entrar num mundo novo, mais elevado, depois da morte, a alma deve primeiro
deixar este mundo, que existe em nossa visão.
Por isso, os olhos devem estar fechados.
Assim, as pessoas podem partir e ver um mundo mais elevado.
O que Hashem quis dizer é que Jacob iria morrer no Egito e que José estaria ao seu
lado para fechar-lhe os olhos.
Desse modo, ele poderia ver o outro mundo e entrar nele.
O Zohar quer dizer que este mundo é uma ilusão?
Não.
Na verdade, o mundo é a percepção subjetiva de cada pessoa.
A sua consciência da realidade determina o mundo em que você está.
Sua consciência de Hashem determina o quanto da luz e da verdade Divinas serão
permitidas em seu mundo.
Até onde você reconhece Hashem, Hashem estará em sua vida.
Esse conceito é muito importante.
Embora exista, Hashem não Se revela no mundo perceptivo das pessoas a não ser
que elas O reconheçam e O convidem para entrar.

Consciência ampliada
De acordo com o Talmud, um belo companheiro, uma bela casa e belos objetos
ampliam a mente de uma pessoa.
Certa vez, visitei um amigo que precisava decidir se mudava para Israel ou ficava
nos Estados Unidos.
Mudar para Israel significaria um impulso espiritual, mas também uma decaída
considerável em seu padrão de vida.
Ele lembrou a passagem do Talmud citada no início deste parágrafo e disse: "Acho
que posso ter uma casa mais bonita se continuar morando nos Estados Unidos.
Poderia ganhar mais dinheiro e comprar móveis mais bonitos. Então, por que não
deveria ficar aqui em Chicago?"
Respondi: "O Talmud diz que essas coisas podem ampliar a mente. Você tem de
decidir como vai preencher essa mente maior, ampliada. Se houver pouco conteúdo
para abastecer sua mente, você vai se sentir muito vazio."
Nos dias de hoje, há muito o que se falar sobre mentes expandidas, mas pouco se
fala sobre como preencher o "espaço adicional".
Já tive estudantes em meus seminários no Instituto Isralight que se consideram
muito espirituais.
Infelizmente, são justamente eles que parecem ser cegos às necessidades dos
outros e às suas próprias responsabilidades — não lavam os próprios pratos nem se
candidatam a ajudar.
Eles acham que têm uma consciência maior, mas cheia de quê?
Se você só é consciente de si mesmo, então está cheio de si, e sua mente é muito
pequena.
Uma consciência realmente ampliada é uma consciência coletiva de Hashem — não
uma viagem espiritual para dentro de si mesmo.
Uma mente mais aberta nos inspira a ajudar os outros.
Tratamo-nos com o amor e o respeito próprios de súditos reais.
Esse tipo de consciência expandida leva à transformação deste mundo em um reino
repleto da majestosa presença Divina.
Quanto mais abrimos os olhos para Hashem e preenchemos o recipiente da
consciência com Hashem, mais Hashem preencherá nosso mundo.
E vale o contrário.
Quanto mais negamos Hashem, menos Hashern estará conosco.
O Zôhar, texto fundamental da Cabalá, afirma que a consciência não é nada por si
só.
Seu valor está somente naquilo que recebe.
O atributo de malchut serve apenas como um canal para receber as luzes e as
bênçãos das qualidades Divinas e para transmiti-las ao nosso mundo.
Um amigo meu teve uma experiência desagradável com a mãe de um de seus
alunos.
O jovem estava prestes a receber sua ordenação rabínica.
Isso chateava profundamente sua mãe, que considerava as religiões organizadas
como retrógradas e passivas de fanatismo.
Ela era muito rude e cínica quando tratava das convicções religiosas do filho.
Eles estavam a caminho da cerimônia quando ela disse ao meu amigo:
"Sabe, não acredito em Deus."
Meu amigo respondeu: "Tudo bem. Não acredite em Deus."
Ele foi o primeiro religioso a responder daquele jeito; os outros sempre tentavam
convencê-la da existência de Deus.
"O quê?", ela disse, surpresa.
"Você não quer acreditar em Deus? Tudo bem, então viva em um mundo sem
Deus", ele disse.
Essa é a escolha que temos a fazer.
Se não queremos acreditar em Hashem, então Hashem não estará em nosso
mundo.
Isso não significa que Hashern não seja real.
Ele é real, mas não para aqueles que escolheram negar essa verdade.
Em outras palavras, se nunca experimentei pêssego, não há sabor de pêssego em
minha vida.
Não importa se esse sabor é real ou não para os outros; ele não está em minha
vida.
Se não enxergo a cor vermelha, então essa não vai ser uma das cores em minha
vida.
Se os mamíferos não enxergam cores, vivem em um mundo "descolorido".
Se não quero ver Hashem, então no meu mundo não há Deus.

Viver a presença de Hashem


Os sábios do Talmud nos ensinam:
"Tudo está nas mãos de Hashem, exceto o temor a Hashem."
A palavra em hebraico para temor, “yirá”, significa "temor" e também "verá".
Tudo está nas mãos de Hashem, exceto nosso ato de reconhecer, ver e temer
Hashem.
Se não estamos dispostos a ver Hashern, Hashem não estará em nosso mundo.
É simples (e sério) assim.
Uma aluna minha, Tina, estava de viagem em Bancoc e conheceu Joe, também
turista, a quem ela imediatamente reconheceu como sua alma gêmea.
Tina ficou em êxtase.
Joe, no entanto, por mais que gostasse de Tina, não estava pronto para mudar
seus planos e ter um relacionamento sério.
Ele estava se preparando para continuar suas viagens na Índia.
Mas então a mala dele desapareceu misteriosamente, juntamente com passaporte,
cartões de credito e passagens de avião.
Joe foi forçado a cancelar os planos enquanto solucionava os problemas.
Tina reconheceu a presença de Hashem nessa reviravolta e estava feliz e grata.
Joe, no entanto, ficou chateado.
Para ele, aquilo tudo era uma enorme dor de cabeça.
Não é preciso dizer que Joe e Tina passaram bastante tempo juntos mergulhando
na complexidade da burocracia tailandesa.
E quando Joe estava pronto para partir novamente, já não queria mais.
Ele passou a ver Tina como a mulher dos seus sonhos.
Eles ficaram noivos e voltaram de Bancoc para se casar.
Algumas pessoas sentem a presença Divina constantemente, o que significa que
veem e sentem o cuidado e a orientação de Hashem em suas vidas.
Elas precisam de 800 reais para pagar um conserto de carro, e um cheque de 800
reais chega inesperadamente pelo correio.
Elas perdem o ônibus, pegam o próximo ônibus e a pessoa que senta ao lado é um
amigo de vinte anos atrás.
Quando expandimos nossa mente, reconhecemos que Hashem é o poder que dirige
o show e comanda o espetáculo.
Cada um de nós tem uma escolha.
Você pode acreditar que este mundo está repleto da presença de Hashem, que Se
importa com o mundo e o conduz.
Ou pode acreditar que este mundo é um grande acidente, uma bagunça caótica.
A escolha é sua.
Mas lembre-se: aquilo em que você acredita cria o mundo em que você vive.
Há muito tempo, eu estava saindo com uma mulher (usarei aqui o nome fictício
"Dafne") a quem eu amava muito.
Queria me casar, mas levei bastante tempo para perceber que ela simplesmente
não conseguia reconhecer o meu amor.
Fiz tudo ao meu alcance para lhe mostrar que a amava.
Porém, Dafne tinha uma autoestima tão baixa que não podia acreditar que qualquer
pessoa a amasse.
Não importava o quanto eu me declarava ou quantos buquês de flores mandava.
Ela não podia ver o meu amor.
Então, de certo modo, o meu amor não existia para ela.
Todos temos sede de amor, mas quanto amor podemos receber depende do quanto
acreditamos que alguém pode nos amar.
Quanto mais reconhecemos e acreditamos em Hashem, mais vamos receber e ver
Hashem em nossas vidas.
Durante a Guerra do Golfo, 39 mísseis Scud foram lançados contra Israel.
Milagrosamente, apenas uma pessoa morreu em consequência direta de todos
aqueles mísseis.
Foi inacreditável.
Estávamos em nossos quartos trancados, usando máscaras de gás e escutando o
rádio.
Ouvimos que os Scuds voavam a caminho de Israel.
O rádio não anunciou onde os mísseis caíram, mas todos sabiam que
a maioria havia caído perto de Ramat Gan, uma cidade superpopulosa próxima a
Tel-Aviv.
Então, um pouco depois, ouvimos: "Nenhuma vítima."
Durante a guerra, lembro-me de ter escutado uma entrevista com o Ministro da
Defesa do governo da época.
Depois de outro ataque sem vítimas, o entrevistador perguntou:
"O que o senhor tem a dizer sobre isso?"
O ministro respondeu, hesitante: "Tenho de dizer que foi um milagre."
Eu podia ouvir o tom de resistência em sua voz; ele tentava não admitir a
possibilidade de que milagres podem acontecer.
A verdade é que se você não quer acreditar em milagres, não verá milagres em sua
vida.
Construir a consciência
Como eu agiria se realmente acreditasse que a presença de Hashem preenche
minha vida, minha casa, meu escritório, minha cidade, meu mundo?
Como falaria com minha esposa e com meus filhos?
Como trataria um estranho?
Considerando-se que penso, falo e ajo de acordo com essa consciência elevada,
Hashem pode estar presente em meu mundo.
Não é apenas uma questão de acreditar ou dizer.
Temos de reconhecer a presença de Hashem no mundo constantemente, no modo
como conduzimos nossos relacionamentos, falamos, almoçamos, ou seja, como
fazemos praticamente tudo.
Espiritualidade sem disciplina diária é só um hobby.
Uma vez me pediram para oficiar o bar-rnitsvá de um garoto que vivia em um
ashram (comunidade espiritual).
Esse ashram, que ficava na Índia, era formado em sua maioria por judeus.
O guru recomendou à mãe do menino que o levasse ao Muro das Lamentações em
Jerusalém e celebrasse o bar-mitsvá lá.
Por isso, muitos judeus do ashram vieram a Jerusalém.
Eles procuravam um rabino de mente aberta que estivesse disposto a oficiar esse
bar-mitsvá um tanto incomum, e vieram a mim.
"Claro! Por que não?", pensei.
Após a cerimônia, fomos à casa de alguém para a comemoração.
O bar-mitsvando fez um discurso que eu nunca tinha ouvido.
Ele disse: "Quero agradecer ao Único, Tudo em Um e Um em Tudo."
Aquele menino de treze anos me impressionou bastante com seu discurso elevado
e místico.
Ele e seus companheiros de ashram eram muito espiritualizados.
Depois do discurso, todos foram convidados a participar da refeição — estritamente
vegetariana.
Todos deixaram os sapatos perto da porta e ficaram descalços.
Depois que os convidados se serviam, sentavam-se de pernas cruzadas no chão e
comiam.
Levei três filhos comigo.
Servimo-nos e sentamos no chão como todo mundo.
Naquela hora, meu filho Nuri, de cinco anos, me olhou e disse, espantado:
"Papai, o senhor não vai acreditar. Eles não disseram a bênção antes de comer!"
O choque que Nuri sentiu foi bonitinho, mas a ironia me tocou com tristeza.
Eu tinha conhecido pessoas que se dizem altamente espirituais, que têm a
consciência do vegetarianismo e a humildade de tirar os sapatos e até mesmo de
sentar no chão.
Mas quando chegou a hora de comer, eles simplesmente se empanturraram.
Não pararam nem para meditar um pouco e apreciar os alimentos como um
presente Divino.
Por outro lado, meus filhos, que trazem uma espiritualidade "menos sofisticada",
nunca pensariam em colocar nem uma migalha na boca sem antes reconhecer
Hashem como a Fonte de toda comida.
Um menino de treze anos que fala "do Tudo em Um e Um em Tudo" é
impressionante.
Mas como podemos aplicar esse alto nível de conteúdo filosófico em nossa
consciência diária?
Como o trazemos para o escritório, a cozinha, a sala e o quarto?
Não é apenas com uma coleção de ideias profundas que se constrói a consciência
de Hashem.
É preciso uma maneira concreta de aplicar a teoria no dia-a-dia.
As mitsvót e os rituais da tradição espiritual da Torá alimentam a consciência o dia
todo, para que se possa canalizar a presença de Hashem no mundo e na vida.
Ao aumentar minha consciência de Hashem, permito que a luz de Hashem e todas
as riquezas espirituais jorrem no mundo.
Poucos percebem a verdadeira bondade nas rnitsvót e a verdadeira riqueza dos
rituais: são convites para se ver Hashem.
O que queremos dizer com palavras e ações espirituais é:
"Hashem, quero que Você entre em minha vida!"
Quando coloco a mão no bolso e faço uma caridade ao mendigo lia rua, quando
sorrio para alguém na fila do supermercado, quando me esforço para ajudar o
vizinho a descarregar caixas pesadas, quando leio um livro para meus filhos, estou
convidando Hashem a entrar em meu mundo. Todas essas mitsvót se tornam
convites que trazem o Divino ao nosso mundo.

Hashem em exílio
A escolha é minha.
Posso aumentar minha consciência de Hashem por meio de fala, pensamento e
ação.
Ou posso ignorar essa consciência, deixar as qualidades Divinas do lado de fora e,
assim, viver num mundo sem Deus.
A Cabalá se refere a esse estado de negação como "o exílio da presença de
Hashem".
Em outras palavras, posso "jogar" Hashem para fora do mundo.
O versículo 119 do Livro dos Salmos cita: "Eu sou um estranho na Terra."
De acordo com alguns comentaristas da Torá, o "Eu" se refere a Hashem, que está
presente neste mundo, mas é irreconhecível para todos.
Em Isaías (43:12), está escrito: "Vós sois Minhas testemunhas. Eu sou Hashem."
O Midrash traz o seguinte comentário:
"Se vós sois Minhas testemunhas, Eu sou Hashem. Mas se não sois Minhas
testemunhas, Eu não sou Hashem."
O que isso significa?
É uma ideia incrível.
Hashem depende do nosso reconhecimento, por meio de nossas palavras e ações,
para poder entrar em nosso mundo.
Hashem depende, por assim dizer, da nossa consciência para fazer parte do nosso
mundo.
Já tive um aluno que, apesar de ter sido educado numa casa religiosa, não
acreditava em Deus.
Ele mesmo não entendia o porquê.
Estudou em escolas religiosas, aprendeu a rezar e ensinaram-lhe que há um Deus.
No entanto, seus pais, apesar da crença declarada em Deus, tratavam as pessoas
como lixo.
Em outras palavras, o comportamento negava Deus.
A agressão a outras pessoas demonstrava a total falta de consciência da presença
de Hashem no mundo.
Embora dissessem com palavras "acreditamos em Deus", suas ações diziam o
contrário.
E ações falam mais alto do que palavras.
Por isso, eles educaram o filho num mundo sem Deus.
Naturalmente, ele concluiu que Deus não existe, já que isso era verdade na casa
em que cresceu — Hashem não estava presente lá.
É claro que Hashem não precisa do nosso reconhecimento para existir, mas Ele
precisa, sim, do nosso reconhecimento para existir em casa, no local de trabalho,
na escola, ou seja, em nosso mundo perceptivo.
Sem a nossa consciência, a luz de Hashem não pode iluminar nosso mundo, o que
gera uma escuridão assustadora.
E a escuridão que resulta da ausência da luz de Hashem abre espaço para o mal.
Sempre fico fascinado quando viajo de avião em dias escuros e nebulosos.
Como o céu é claro quando se ultrapassa as nuvens!
Sempre tento lembrar, durante períodos difíceis, que mais acima a luz ainda brilha.
Só é preciso "abrir" as nuvens e deixar que os raios do sol cheguem a nós.
A escuridão só existe porque algo bloqueia a luz.
Podemos bloquear a luz de Hashem ao criar uma consciência nebulosa, por meio de
pensamentos, falas e ações.
Se fechamos os olhos para Hashern, criamos um mundo escuro, aparentemente
governado por forças caóticas e sem sentido que promovem e favorecem o
comportamento destrutivo.

Bom e verdadeiro
De acordo com a Cabala, o primeiro homem e a primeira mulher causaram a
retirada da presença Divina deste mundo.
Quando comeram da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, bloquearam a luz
de Hashem.
Qual foi o erro?
Adão e Eva pensaram que podiam criar sua própria realidade e determinar por si
mesmos o que realmente é.
Não se pode criar a própria realidade.
Mas pode-se criar o próprio mundo perceptivo que bloqueia a luz da realidade.
O que a serpente realmente quis dizer a Adão e Eva é: "Se comerem da Árvore do
Conhecimento do Bem e do Mal, também serão criadores de mundos."
E isso é verdade.
Você pode criar seu próprio mundo por meio do conhecimento do bem e do mal.
Pode decidir o que é ruim e o que é bom para si mesmo, mas suas escolhas podem
não condizer com a verdade.
Elas podem não representar o que é real, o que realmente é.
Você pode viver em seu próprio mundo de imaginação, que pode não refletir o que
acontece de verdade à sua volta.
Pode escolher viver num mundo de mentiras e ficar fora de sintonia com a
realidade.
Esse é o ponto ao qual a Cabalá quer chegar quando explica que Adão e Eva
distinguiram a Árvore do Conhecimento da Árvore da Vida.
Tendemos a esquecer que havia duas árvores no Jardim.
A Árvore da Vida representava a realidade como ela é.
A Árvore do Conhecimento representava nossa percepção e consciência da
realidade.
No entanto, nossa compreensão da realidade não cria a realidade; simplesmente
cria a nossa imagem da realidade, o nosso mundo perceptivo.
O desafio de Adão e Eva era enxergar a realidade como ela é.
Até onde vemos a realidade com clareza, a verdade de Hashem pode preencher o
nosso mundo.
A Cabala explica que Adão e Eva deveriam ter comido da Árvore do Conhecimento e
também da Árvore da Vida, unindo, assim, as percepções individuais à realidade.
A percepção de Adão e Eva com relação ao que é tinha de se unir ao que realmente
é, de modo que o que eles achavam que era bom fosse bom de verdade.
O erro de Adão e Eva fez com que todos os seres humanos tivessem a ilusão da
percepção da realidade como se ela fosse a verdadeira realidade, e não apenas um
veículo para se receber a realidade.
Ao separar a consciência da realidade, o primeiro homem e a primeira mulher
criaram a possibilidade de um mundo sem Deus.
Começamos a viver num mundo de imaginação desconectado da realidade, e nos
iludimos ao pensar que é real.
Conseguimos nos sentir bem ao fazer ou comer coisas que são, na verdade,
mortais.
Podemos nos convencer de que, se nos sentimos bem, aquilo que nos faz sentir
bem deve ser bom, real e verdadeiro; se nos sentimos mal, não pode ser real nem
bom.
A fundação de uma nova consciência
De acordo com a Cabala, Abrahão serviu de antídoto para o erro de Adão e Eva.
Ele começou consertando o recipiente quebrado da consciência e preenchendo a
lacuna entre percepção e realidade.
Assim, ele propiciou o início do retorno da presença de Hashem para o nosso
mundo.
Abrahão é importante não somente porque era uma pessoa elevada, mas também
porque trouxe Hashem de volta ao mundo.
Ele estabeleceu a fundação de uma nova consciência.
Abrahão foi a primeira pessoa a reconhecer uma realidade suprema, transcendente
e abrangente.
Em outras palavras, ele foi o primeiro a ver o que realmente é e a convidar Hashem
a entrar no mundo novamente.
Por outro lado, a sociedade pagã da época de Abrahão adorava as diferentes forças
da natureza e criou um mundo perceptivo de poderes distintos e conflitantes,
personificando deuses que guerreavam entre si.
Porque era assim que as pessoas viam a realidade, esse era o mundo em que
viviam — a percepção influenciava o comportamento.
Para estar em sintonia com um mundo confuso e de poderes antagônicos, cria-se
uma sociedade em que todos são distintos, toda empresa luta eternamente contra
outras empresas e o lucro de uma pessoa significa o prejuízo de seu vizinho.
É uma vida caótica e selvagem sem nenhum significado maior.
O mundo pagão era vazio de Hashem, de uma realidade suprema e unificada que
tornaria os seres humanos responsáveis pelos seus atos.
O mundo que as pessoas viam e criavam através de comportamentos e
relacionamentos era totalmente diferente do mundo de Abrahão.
No mundo pagão, estas são as regras:
• Qualquer coisa serve
• O poder faz a justiça
• A sobrevivência do mais forte é o que importa
• Se posso me dar bem, tudo bem
• Vale tudo na guerra e no amor
Para quem convivia com Abrahão, ele era uma pessoa de outro planeta.
Por isso o chamavam de “ivri”, termo do qual deriva a palavra "hebreu".
Ivri significa "alguém que vem do outro lado."
Abrahão era esquisito.
Fazia o impossível para ajudar outras pessoas (inclusive estranhos), era
compassivo, bom e preocupado com o destino de todos, até mesmo o dos
perversos cidadãos de Sodoma e de Gomorra.
Segundo os valores pagãos, ele era louco.
Em um mundo fragmentando de forças contraditórias, o que motivaria alguém a ser
generoso?
Abrahão vivia num mundo diferente porque reconhecia a realidade como sendo o
único e indivisível Hashem, que ama e abarca tudo.
O amor e o cuidado de Abrahão para com o próximo fluíam naturalmente segundo
sua visão de mundo.
Por isso, ele trouxe Hashem para o mundo por meio de seu pensamento, suas falas
e suas ações.
O mundo novo que Abrahão criou em decorrência da sua consciência refletia a
verdade de Hashern.
Já que ele era sintonizado com o que é (de fato, Quem é), estava aberto a ouvir a
palavra de Hashem:
"E farei de ti uma grande nação, e abençoar-te-ei, e engrandecerei teu nome, e
serás uma bênção."
Como pode alguém se tornar uma bênção?
Segundo o Midrash, Hashem disse a Abrahão:
"Até agora o poder da bênção estava em Minhas mãos. Agora dou o poder da
bênção a ti."
Tomar o poder da bênção em nossas mãos é como ter controle sobre a luz.
A Cabalá explica que o interruptor está ao nosso alcance.
Podemos ligar a luz de Hashem, criando um mundo novo, brilhante e radiante,
imbuído da Sua presença.
Podemos também "diminuir" a luz, criando um mundo escuro, feio e sem Deus.
Nossa consciência, nutrida por pensamentos, falas e ações, se torna o recipiente
para as qualidades Divinas e o veículo que transmite essas qualidades para o
mundo perceptivo.
Abrahão era o mestre da bênção, mas cada um de nós pode "se tornar uma
bênção".
O Midrash conta uma estranha parábola.
Um rei se perde num beco escuro à noite.
Ele tenta tatear tudo à sua volta e vai tropeçando no escuro.
Num dado momento, um amigo do rei olha pela janela e o vê perdido no beco.
Ele acende uma tocha para que o rei veja onde está indo.
O Midrash diz que o tal amigo era Abrahão.
Hashem disse a Abrahão: "Vá ante a Mim."
Ou seja, ilumine Meu caminho.
E assim foi.
Abrahão "permitiu" que Hashem entrasse no mundo ao "acender uma luz", ao
despertar uma nova consciência — malchut.
Os idólatras acreditavam em várias forças e vários poderes, mas não na realidade
suprema e que tudo abarca.
Abrahão criou a primeira teoria do campo unificado.
Ele insistia que a realidade não era apenas um receptor de forças fragmentadas e
sem propósito.
Abrahão via projeto, propósito, comunidade.
Ele via um reino.
E proclamava a todos, aonde quer que fosse:
"Eu e você somos parte do reino. É preciso responsabilidade, cuidado e amor entre
os membros do reino."
Essa consciência de que existe um reino abriu o caminho para a majestosa
presença Divina voltar ao mundo.

O novo mundo
O senso de interdependência de todas as partes dentro do todo era fundamental
para a comunidade de Abrahão.
Hashem disse a Abrahão:
"Através de ti todas as famílias da Terra serão abençoadas."
Ninguém nasce para viver sozinho.
A sua consciência influencia a minha consciência, e vice-versa.
Podemos ser uma bênção, ou uma maldição, para todos à nossa volta.
Se bloqueio a luz de Hashem no meu mundo, estarei lançando uma sombra no
mundo do meu vizinho.
Imagine que estamos todos juntos num barco.
Então um rapaz, que está com sede, decide fazer um buraco debaixo de seu
assento para pegar um pouco de água.
E todos começamos a gritar:
"O que você está fazendo? Vamos afundar!"
E ele diz, ríspido:
"Não se metam! Este buraco está sob o meu assento. Este é um mundo livre e eu
faço o que quiser."
Esse é o comportamento absurdo das pessoas que não têm senso de comunidade,
que se excluem de ser parte do reconhecimento coletivo de Hashem.
É importante entender que devemos nos preocupar não somente com a
disseminação da consciência de Hashem, mas também com a divulgação do senso
da comunidade de Hashem.
Muitos dos princípios da tradição espiritual judaica têm a finalidade de criar e
fortalecer a sociedade como um todo.
Certa vez, eu e meu pai estávamos na praia e vimos um homem e seus dois filhos.
Depois de terminar o piquenique, o homem pegou o lixo e jogou no mar.
Meu pai ficou horrorizado, foi até o homem e disse:
"O que você está fazendo?"
O homem respondeu:
"Não é da sua conta."
"Como assim não é da minha conta?", meu pai insistiu. "É da minha conta, sim! O
que você está fazendo?"
O homem respondeu:
"Estou jogando o lixo fora."
"Como você pode jogar o seu lixo no mar?"
"Não é da sua conta!"
Aquele homem não tinha senso de comunidade, não tinha malchut.
Estar consciente da comunidade é o recipiente da luz de Hashem.
Aquele homem tornou impossível a entrada da presença de Hashern no mundo, no
mar, na praia.
Ele a empurrou para fora.
Certa vez, um amigo meu estava num show de rock em um estádio perto de
Tel-Aviv.
O lugar estava lotado, apesar do alto preço dos ingressos.
Quando meu amigo estava a caminho do seu assento, notou uma família tentando
pular a cerca.
Eles olharam para os lados para ter certeza de que ninguém os via, e então
começaram a levantar as crianças para que pulassem a cerca.
Meu amigo foi até a família e perguntou: "O que vocês estão fazendo?"
O pai respondeu: "Não é da sua conta."
Meu amigo o olhou nos olhos e disse: "Você olhou para a direita e para a esquerda,
mas se esqueceu de olhar para cima."
Aquele homem realmente pensava que ninguém, inclusive Hashem, o veria.
Ele vivia num mundo isento dessa consciência.
Hashern não estava em seu mundo.
E foi ali naquela cerca que educou os filhos.
Ele os ensinou que Hashem não vê.
E embora Hashem, de fato, veja, seus filhos nunca verão que Hashem vê.
Por isso, Hashem também não estará no mundo deles.
Infelizmente, esses exemplos não são casos isolados.
O senso de comunidade está em falta na maior parte do mundo moderno.
Autossuficiência, individualidade e independência são aspectos mais valorizados do
que interdependência e comunidade.
Isso me ocorreu durante uma visita recente que fiz aos Estados Unidos.
Fiquei na casa de uma família numa área nobre.
No domingo de manhã, resolvi sair sozinho para uma caminhada.
Não podia estar a mais de duas quadras de distância da casa onde me hospedava,
mas mesmo assim me perdi.
Não sabia voltar.
Então pensei: "Tudo bem, é só pedir ajuda a alguém na rua."
Então percebi que não havia ninguém na rua.
No bairro onde moro, em Jerusalém, tenho de calcular o dobro do tempo que levo
para chegar aos lugares por causa das pessoas que encontro e cumprimento no
caminho.
Mas ali ninguém caminhava nas calçadas.
Naquele momento pensei: "Tudo bem, vou bater na porta de alguém."
Então cheguei à conclusão que ali não se pode bater na porta de ninguém, porque
toda casa tem uma placa no portão, advertindo:
"Segurança Armado, Cuidado com o Cão" ou "Não se Preocupe com o Cão, Cuidado
com o Dono".
Percebi que todos viviam em seus próprios mundos.
Como eu iria conseguir alguém que me ajudasse a voltar para casa?
Finalmente, consegui olhar através de uma cerca e vi um homem sentado em seu
quintal.
Eu disse: "Com licença."
Ele pulou.
Eu apressadamente o tranquilizei:
"Sou inofensivo. Só quero saber como chegar à casa de fulano.'
"Nunca ouvi falar."
"Ok. Bom, você sabe onde fica a rua tal?"
"Não, nunca ouvi falar dessa rua também."
Eu disse:
"Tenho certeza de que a rua fica a apenas umas duas quadras daqui.
Não conhece mesmo? Há quanto tempo o senhor mora aqui?"
"Há quinze anos."
Achei estranho.
Dias depois, contei essa história a um amigo que mora na Califórnia.
Ele disse: "Não é estranho. Moro num bairro em que as casas são construídas bem
próximas umas das outras, em montanhas. Não sei o nome dos meus vizinhos, e
tenho certeza de que eles não sabem o meu. E moro lá há dez anos."
Não há senso de comunidade.
Todos vivem em seus próprios mundos.
Mas se você realmente quer deixar entrar a luz da realidade abrangente e suprema,
tem de se ligar numa consciência coletiva.
Assim, mais da luz de Hashem permeará sua vida e a vida dos outros.
Então, mais bênçãos de beleza, verdade, providência Divina e sabedoria poderão
fluir no nosso mundo.
Comunidade não significa que somos todos iguais.
Uma comunidade de verdade é como uma empresa: cada um tem uma
responsabilidade e um papel diferente, mas todos contribuem para o todo.
De fato, os diferentes cargos são essenciais para o sucesso da companhia.
Mesmo que o diretor-geral seja um gênio de marketing, não pode fazer nada sem o
responsável pelo desenvolvimento de produtos, que é um gênio criativo.
E eles dependem do rapaz super detalhista do departamento de correios, que
assegura que as coisas vão para onde têm de ir.
Se a companhia consistisse em nada mais que gênios da criação, não seria bem-
sucedida.
E não importa quão organizados e brilhantes são os altos executivos se os
empregados "mais simples" não fazem bem seu trabalho.
Quando as pessoas têm senso de coletividade, apreciam as diferenças e entendem
a importância de cada indivíduo.
Numa comunidade, a uniformidade depende de ideais e valores compartilhados
dentro de uma estrutura que todos respeitem.
Numa comunidade, empresa ou qualquer estrutura organizacional há o
compromisso com unidade, estrutura, trabalho em equipe, objetivos e regras.
Mas, acima de tudo, há o senso do bem comum — trabalhar em conjunto para o
benefício de todos e aceitar a contribuição de cada um para alcançar objetivos
coletivos e individuais.
Por fim, o atributo de malchut se resume ao seguinte: sem um compromisso com o
próximo, não há comunidade.
Sem comunidade não há senso de coletivo, e sem o senso de coletivo não pode
haver consciência de Hashem.
Assim sendo, não se pode ver Hashem no mundo.
Exercícios para enxergar melhor
• Alguém já encarou uma situação de um modo completamente diferente do seu?
Qual era a diferença?
• Você já passou por algum momento em que pensou ver as coisas como realmente
eram, mas depois percebeu que estava errado e via apenas uma parte da história?
• Defina sua relação com sua comunidade.
Algumas perguntas a considerar:
Você faz parte de alguma comunidade?
Quais os princípios e valores que unem essa comunidade?
O que você pode fazer para unir ainda mais essa comunidade?
A sua comunidade eleva seu apreço pela vida?
Como? (ou: Por que não?) Como sua comunidade reconhece Hashem?
• Considere estabelecer uma missão para a sua comunidade.
Qual seria o seu papel para cumprir esse objetivo?
• Há valores ou qualidades Divinas presentes em sua vida que não existiam anos
atrás?
Que mudança de atitude fez com que você se abrisse para ver essas qualidades?
O que você faz diariamente para reconhecer essas qualidades e canalizá-las para o
seu mundo?
• A providência Divina já interferiu em sua vida?
Qual foi a interferência mais surpreendente?
• Há certos tipos de acontecimentos que se repetem em sua vida?
• Você já perdeu alguém que não enxergava o seu amor?
O que bloqueava a visão dele/dela?
• Se você sentisse a presença de Hashem hoje, como passaria a agir com amigos,
companheiro, chefe, pais, filhos etc?
• Há coisas de rotina ou rituais por meio dos quais você convida Hashem a entrar
em sua vida?
Há algum outro modo de trazer Hashem ao mundo?

Continua