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( Direitos Fundamentais )

Assunto: Terminologias e Tipos;


Conceito.
Do ponto de vista essencialmente linguístico e não ainda técnico-jurídico, é
fundamental esclarecer o significado das principais expressões utilizadas neste domínio
na linguagem constitucional, identificando por essa via os dois tipos de direitos
fundamentais previstos na Constituição e fixando ainda outras expressões
constitucionais ou doutrinárias aplicáveis a certos grupos de direitos fundamentais:

a) Direitos Fundamentais – expressão constitucional que designa as situações


jurídicas fundamentais das pessoas, reconhecidas nos artigos 22º à 88º da
CRA;

b) Direitos, Liberdades e Garantias – expressão constitucional que designa os


direitos fundamentais previstos nos artigos 30º a 56º da CRA;

c) Direitos Económicos, Sociais e Culturais – expressão constitucional que


designa os direitos fundamentais previstos nos artigos 76º a 88º da CRA, que
também podem ser designados por “direitos sociais” ou pela expressão bem
apurada de “direitos fundamentais sociais” ;

d) Direitos Fundamentais de natureza análoga ou, abreviadamente,


Direitos análogos – expressão constitucional que designa os direitos
fundamentais que, não estando previstos nos artigos 30º a 88º da CRA, por
força dum critério jurídico de qualificação, tenha um objecto que mereça um
tratamento análogo ao dos Direitos, Liberdades e Garantias. Em princípio,
serão os direitos consagrados na CRA ( Direitos Fundamentais de natureza
análoga formalmente constitucionais ) , mas não está excluída a
possibilidade de serem direitos apenas materialmente constitucionais ( Art.
26º, nº 1, da CRA) .

e) Direitos Fundamentais dispersos – expressão doutrinária que designa os


direitos fundamentais consagrados na CRA, mas fora do seu título II;

f) Direitos Extravagantes ou Extra-constitucionais – expressão doutrinária


que designa os eventuais direitos fundamentais recebidos pela cláusula do
art. 26º, nº1 da CRA ( cláusula aberta). Sendo direitos apenas materialmente
constitucionais, podem revestir ou não a qualidade de direitos fundamentais
de naturezas análogas aos Direitos, Liberdades e Garantias.
( Direitos fundamentais)
Assunto: Conceito de direito fundamental;
- Característica dos direitos fundamentais;
- Classificações dos direitos fundamentais.
São muitos e muitos diversificados os direitos das pessoas dentro da ordem
jurídica do Estado. Entre todos salientam os direitos fundamentais ou direitos das
pessoas perante o Estado e assentes na Constituição ou lei fundamental – direitos
fundamentais por traduzirem essa relação fundamental e por beneficiarem as garantias
inerentes a força específica das suas normas.
Os direitos fundamentais implicam três pressupostos ou condições:
a) Não há verdadeiros direitos fundamentais sem que as pessoas estejam em
relação imediata com o poder político, beneficiando de um estatuto comum e
não separadas em razão dos grupos ou das instituições a que pertençam. Não
há direitos fundamentais sem Estado ou, pelo menos, sem comunidade
política integrada; não há direitos fundamentais sem Estado que os respeite e
os assegure;
b) Não há direitos funadmentais sem reconhecimento de uma esfera própria de
autonomia das pessoas frente ao poder, não absorvendo este a sociedade em
que eles se movem. Não existem direitos fundamentais em regimes políticos
totalitários;
c) Não há direitos fundamentais sem Constituição – sem a Contituição do
constitucionalismo moderno iniciado no século XVIII, na Constituição
enquanto fundação do ordenamento jurídico do Estado que incidiu de um
poder constituinte, a constituição como sistematização racionalizadora das
normas estatutárias de poder e da comunidade, a Constituição como lei,
mesmo se acompanhada de fontes consuetudinárias e jurisprudenciais.

No período liberal falava-se em direitos e garantias individuais. A expressão


direitos fundamentais, embora não desconhecida no século XIX, seria consagrado na
Constituição de Weimar, de 1919, e viria a generalizar-se depois nos textos
constitucionais – como o angolano de 2010, o brasileiro de 1988 ou o português de
1976, na jurisprudência e na doutrina.

Já no direito internacional continuam a prevalecer os termos direitos do homem,


direitos humanos ou proteção internacional da pessoa humana – em parte, por assim
ficar clara a ligação aos seres humanos, e não aos Estados ou a outras entidades
internacionais; e, em parte por, para lá de convenções sectoriais sobre matéria
específica, ser menos extenso ou menos profundo o desenvolvimento alcançado e
procurar-se um « mínimo ético universal».

Em rigor, os direitos fundamentais são sempre direitos constante da Constituição


formal. Ao seu lado fala-se, entretanto, em direitos fundamentais em sentido material
para abranger todos os direitos constante da constituição em sentido material como
conjunto de normas de qualquer natureza que lhes acrescentam novos direitos, por si só,
ou enquanto reguladores da organização e da actividade do Estado ou da estrutura dos
seus órgãos e dos respectivos titulares.

Esta distinção dos direitos fundamentais em sentido formal e dos direitos


fundamentais em sentido material remota, de algum modo, ao IX Aditamento (1791) à
Constituição dos E.U.A e encontra-se, actualmente expressa ou implícita em muitas
Constituições no mundo.

( Direitos fundamentais)

Assunto: Os direitos fundamentais na CRA de 2010;


- A titularidade dos direitos fundamentais.

Na Constituição angolana o título II é reservado aos direitos e aos deveres


fundamentais.
Esta categoria genérica compreende uma “summa divisio” que distingue entre
direitos, liberdades e garantias e direitos económico, sociais e culturais. Os primeiros
encontram-se no título II, capítulo II, da CRA, nos artigos 30º a 75º. Os segundos, estão
consagrados no título II, capítulo III, nos artigos 76º a 88º. No seu conjunto, os mesmo
conferem um fundamento material ao Estado de Direito, democrático, social e
ambiental.
Existem alguns critérios de diferenciação que a doutrina e a jurisprudência há
muito que consideram valer apenas em termos tendenciais, como sejam os critérios do
radical subjectivo, da natureza defensiva ou negativa, da densidade subjectiva autónoma
e da maior determinabilidade no plano constitucional dos direitos, liberdades e
garantias, facilitando assim a sua aplicabilidade directa pelo poder judicial, por
contraposição com os direitos económicos, sociais e culturais, objectivamente mais
dependente na sua realização, da interposição prestacional do legislador e da
administração.
Titulares do direitos fundamentais
São titulares de direitos fundamentais os indivíduos, as pessoas colectivas e os
estrangeiros.
Quanto aos indivíduos, a questão de saber quem é titular de direitos
fundamentais é respondida, pela CRA, com o princípio da universalidade.
Decorre do artigo 22º, nº 1, da CRA que são titulares de direitos fundamentais
todas as pessoas.
O indivíduo é o sujeito primário e originário dos direitos fundamentais. A
subjectividade dos direitos fundamentais é expressão da personalidade jurídica em geral
e limitada dos seres humanos. Em todo caso, a CRA assume a legitimidade da operação
por parte do Estado, de uma distinção entre cidadãos angolanos e estrangeiros, de
acordo com uma filosofia política de cariz comunitarista liberal , que, ao reconhecer
uma intensidade diferenciada das obrigações individuais nas diferentes esfera de
integração social se distancia tanto do comunitarismo conservador como do
universalismo.
Distingue-se, assim, entre direitos dos cidadãos do Estado, invocáveis apenas
pelos angolanos e direitos de todas as pessoas. Estes são direitos de todos, quer quanto
à sua fundamentação, quer quanto à sua aplicabilidade.
De acordo com este entendimento, os direitos humanos não têm que ser
realizados de igual forma e de igual medida, pelos Estados, relativamente a nacionais e
a estrangeiros, residentes e não residentes, aspecto que pode ter relevância em domínios
como o direito de sufrágio ou direito de asilo. Em princípio, saber se se está perante um
direito dos cidadãos ou um direito de todos, depende do teor literal das próprias normas
constitucionais, que usam alternativamente a espressão “todos” ou “todos os cidadãos”.
São ainda titulares de direitos fundamentais os angolanos que residam ou se
encontrem no estrangeiro, os quais gozam dos direitos decorrentes da sua nacionalidade
que não pressuponham a sua residência em território nacional.

(Direitos Fundamentais)
Assunto: Continuação ( titularidade dos direitos fundamentais)
- Destinatários dos direitos fundamentais.
Indivíduos
Titularidade dos direitos fundamentais Pessoas colectivas
Estrangeiros
Destinatários dos direitos fundamentais
(1) Legislativo ( Assembleia Nacional)
(2) Judicial (Tribunais)
(3) Executivo ( Administração)
(4) Pessoas colectivas de direito privado, quando
investidos de poderes públicos
Poderes públicos
Relativamente as pessoas colectivas, tendo em conta o facto de os direitos
fundamentais radicarem no valor da dignidade da pessoa humana, o art. 22.º da CRA,
embora não o refira textualmente, admite também a titularidade de direitos
fundamentais por pessoas colectivas. Este entendimento resulta da conjugação do art.
22.º com outros preceitos constitucionais, como, entre outros, os artigos seguintes: 38.º,
n.º 3; 48.º, n.º 2; 50.º, n.º 2; 74.º; 192.º, n.º4.
Os indivíduos frequentemente constituem pessoas colectivas a fim de
prosseguirem diferentes finalidades, de natureza política, económica, social e cultural,
sendo que as mesmas frequentemente assumem a prossecução de interesses próprios,
vestidos da mera soma dos interesses dos seus isoladamente considerado.
Acresce que em muitos casos o exercício dos direitos, liberdades e garantias, só
faz sentido e adquire relevo social mediante esquema colectivo de cooperação.
Nisso se consubstanciam as pessoas colectivas que são centros de imputação de
relações jurídicas, as quais, em última análise, criam direitos e deveres a indivíduos.
Assim se compreende o reconhecimento da titularidade de direitos fundamentais
às pessoas colectivas e a sua sujeição aos deveres fundamentais. Naturalmente, as
pessoas colectivas só podem gozar dos direitos e estar sujeitas aos deveres compatíveis
com a sua natureza.
Quanto aos estrangeiros, o artigo 25.º, n.º 1, da CRA consagra o princípio da
equiparação dos estrangeiros e apátridas aos cidadãos nacionais para efeito de
titularidade de direitos fundamentais. De acordo com esse princípio, o princípio da
universalidade é entendido na sua valência de direitos internacional dos direitos
humanos, compreendendo a generalidade dos direitos fundamentais como direitos
humanos, integrantes da esfera jurídica de todos os indivíduos independentemente da
sua nacionalidade. Este entendimento decorre naturalmente do artigo 26.º, n.º 2, da
CRA que eleva a Declaração Universal dos Direitos do Homem e a Carta Africana dos
Direitos do Homem e dos Povos a auxiliar interpretativo dos direitos fundamentais
constitucionalmente consagrados.
Da esfera jurídica dos estrangeiros e apátridas excluem-se: a titularidade de
órgãos de soberania; os direitos eleitorais, nos termos da lei; a criação ou participação
em partidos políticos; os direitos de participação política, previsto por lei; o acesso à
carreira diplomática; o acesso às forças armadas, à polícia nacional e aos órgãos de
inteligência e de segurança; o exercício de funções na administração directa do Estado,
nos termos da lei; os demais direitos e deveres reservados exclusivamente aos cidadãos
angolanos pela Constituição e pela lei ( art. 25.º, n.º 2, da CRA).
A CRA admite, ainda assim, que aos cidadãos de comunidades regionais ou
culturais de que Angola seja ou venha a ser parte, podem ser atribuídos, mediante
convenção internacional e em condições de reciprocidade, direitos não conferidos a
estrangeiros, salvo a capacidade eleitoral activa e passiva para acesso à titularidade dos
órgãos de soberania ( art. 25.º, n.º 3, da CRA).
(Direitos fundamentais)
Assunto: Características dos Direitos fundamentais

Características
(1) Historicidade
(2) Universalidade
(3) Ampliação
(4) Limitabilidade ou relatividade
(5) Independência
(6) Complementaridade
(7) Concorrência
(8) Efectividade
(9) Irrenunciabilidade
(10)Imprescritibilidade
(11) Inalienabilidade

(Direitos Fundamentais)
Assunto: Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais
- Os princípios constitucionais sobre direitos fundamentais

O conceito de dignidade da pessoa humana constitui hoje um tema típico dos


Estados constitucionais contemporâneos.
Este tema foi pela primeira vez introduzido no constitucionalismo através do art.
151.º, n.º 3, da Constituição de Weimar (1919) relativa à disciplina económica, tendo
sido colocado num pedestal de centralidade pela Constituição angolana de 2010, ao lhe
conferir, no art. 1.º, uma função fundante de toda ordem jurídica de Estado de Direito
democrático.
A centralidade da dignidade da pessoa humana detecta-se igualmente no direito
internacional dos direitos fundamentais, onde pondifica nos preâmbulos da Carta das
Nações Unidas e na DUDH. No direito internacional, a ênfase da dignidade da pessoa
humana é a reacção consciente aos horrores da II Guerra Mundial e do Holocausto. Por
isso, a interpretação do conceito constitucional de dignidade da pessoa humana deve ser
feita em paralelo com os desenvolvimentos interpretativos internacionais.
O valor da dignidade da pessoa humana supõe uma pretensão de reconhecimento
e respeito por parte de cada indivíduo. As raízes do conceito assumem uma matriz
claramente judaico-cristã, tendo como base a concepção do ser humano como criatura à
imagem e semelhança de Deus. Mais recentemente, o tema foi teorizado em termos
filósoficos secularizado por Immanuel Kant em termos filosófico, a parte da
consideração dos indivíduos como fins em si mesmos, dotados de razão e moral prática.
A dignidade da pessoa humana é um princípio absoluto de uma ordem
constitucional livre e democrática.
A isto acresce o entendimento de que da dignidade da pessoa humana decorrem
os princípios gerais de liberdade, igualdade e solidariedade, elevando a mesma a
princípios constitutivo da ordem jurídica global, nos seus planos material, institucional e
processual. Neste sentido, a doutrina fala do efeito de irradiação da dignidade da pessoa
humana e o seu efeito externo nas relações horizontais entre cidadãos e grupos de
cidadãos.
De resto, é que decorre da CRA de 2010, principalmente dos artigos 1º e 89º.
(Direito Fundamentais)
Assunto: Os princípios Constitucionais sobre Direitos Fundamentais

(1) princípio da universalidade – Art. 22.º da CRA;


(2) princípio da igualdade – Art. 23º da CRA;
(3) princípio do acesso ao direito e a tutela jurisdicional efectiva –
Art. 29º da CRA;
(4) princípio da eficácia jurídica dos direitos fundamentais – Art.
58º e 28º da CRA;
(5) princípio da proporcionalidade;
(6) princípio da responsabilidade civil do Estado – Art. 75º;
(7) princípio dos direitos fundamentais como limite materal de
revisão constitucional – Art. 236º, al. e) da CRA.
Princípios sobre
Direitos fundamentais

(Direitos fundamentais)
Assunto: Direitos, Liberdades e Garantias
- Direitos análogos aos direitos, liberdades e garantias

A CRA consagra um amplo catálogo de direitos, liberdades e garantias. Os mesmos, longe de


serem uma manifestação da criatividade do legislador constituinte, são um produto de uma longa
tradição filosófico-político e teorético-constitucional que concebe a protecção dos direitos dos
indivíduos como a própria razão de ser do Estado, devendo ser interpretados por referência à
mesma.
Do ponto de vista estrutural, os direitos, liberdades e garantias apresentam uma configuração
preponderantemente negativa e defensiva, embora a tutela efectiva esteja dependente de um
complexo amparo institucional e normativo.
A primeira secção do capítulo dedicado aos direitos, liberdades e garantias correspondem ao
catálogo de direitos e liberdades individuais e colectivas (art. 30º a 55º da CRA). A segunda secção
do mesmo capítulo consagra as garantias dos direitos e liberdades fundamentais (art. 56º a 75º da
CRA).
Uma leitura dos preceitos constitucionais respeitantes aos direitos, liberdades e garantias
revela que os mesmo se apresentam frequentemente redigidos em termos abertos e carecidos de
densificação e concretização jurisprudencial. Daí que um estudo do respectivo âmbito de protecção
não possa prescindir de uma leitura atenta da jurisprudência constitucional.
Inserindo-se estes direitos numa tradição constitucional mais ampla, observa-se que
frequentemente o estudo de decisões de órgãos jurisdicionais de outros países e órgãos
jurisdicionais internacionais podem fornecer indicação preciosa sobre o modo como os mesmos
devem ser interpretados e aplicados. O mesmo vale, com as devidas adaptações, para as declarações
de voto e em muitos casos acompanham estas decisão.

(Direitos fundamentais)
Assunto: Regime específico dos direitos, liberdades e garantias
a) Aplicabilidade directa
b) Vinculação das entidades públicas
c) Vinculação das entidades privadas

1. Regime específico dos direitos, liberdades e garantias


No art. 27º a CRA refere-se à existência de um regime específico para os direitos,
liberdades e garantias, aplicável aos direitos fundamentais de natureza análoga; este regime
tem no artigo 28º da CRA o seu centro de gravidade, embora as suas ramificações se
encontre por toda a Constituição e mesmo fora dela. Seguidamente vamos estudar os
aspectos mais relevantes deste regime específico, começando pela aplicabilidade directa,
vinculação das endidades públicas e pela vinculação das entidades privadas.

1.2. Aplicabilidade directa


Nos termos do artigo 28º, n.º 1, da CRA, os direitos, liberdades são directamente
aplicáveis, nisto consiste a força jurídica destes direitos. Este preceito reveste-se de maior
relevo enquanto garantia da supremacia da Constituição.
A aplicabilidade directa dos direitos, liberdades e garantias significa que os mesmo
não carecem de mediação legislativa, devendo ser aplicados pelos tribunais, “sem lei,
contra a lei e em vez da lei”.
O princípio da aplicabilidade directa dos direitos, liberdades e garantias, constitui o
juiz no dever constitucional de tornar eficazes estes direitos, construindo uma norma para o
caso concreto, quando a mesma não existir ou existindo, não estiver em conformidade com
a Constituição.
A aplicabilidade directa dos direito, liberdades e garantias tem como objectivo
transformar todos os titulares destes direitos nos seus guardiões, exigindo a sua aplicação
por parte dos tribunais.

1.3 Vinculação das entidades públicas


O artigo 28º, n.º 1, da CRA consagra a vinculação de todas as entidades públicas
pelos direitos, liberdades e garantias.
A primazia destes direitos significa que os mesmos servem de parâmetro para
aferição da constitucionalidade de toda actuação do Estado de natureza política, legislativa,
administrativa e jurisdicional.
No que diz respeito a vinculação do legislador aos direitos, liberdaes e garantias a
mesma traduz-se fundamentalmente nos deveres de: a) conformar e concretizar
normativamente os direitos, liberdades e garantias; b) harmonizar os direitos, liberdades e
garantias em colisão; c) não violar os direitos, liberdades e garantias; d) tornar os direitos,
liberdades e garantias como parâmetro de toda actividade legislativa, mesmo em áreas não
imediatamente relacionada com os direitos fundamentais.
Já a vinculação da administração aos direitos, liberdades e garantias, manifesta-
se: a) na constitucionalidade da administração; b) na legalidade da administração; c) na
proibição da prática de crime; d) na recusa da prática de actos contrários aos direitos,
liberdades e garantias, em situação evidente de violação; e) na possibilidade de
desaplicação de regulamento inconstitucional, em caso de evidente inconstitucionalidade.
No que concerne à vinculação dos tribunais a mesma traduz-se nos deveres de: a)
desaplicação de normas violadoras dos direitos, liberdades e garantias; b) aplicação directa
dos direitos, liberdades e garantias; c) maximização pela via interpretativa dos direitos,
liberdades e garantias; d) interpretação das normas jurídicas em conformidade os direitos,
liberdades e garantias. A este propósito, a doutrina e a jurisprudência constitucionais têm
entendido que da vinculação constitucional das entidades públicas pelos direitos,
liberdades e garantias, resulta uma proibição de actuação por defeito, através da qual se
pretende assegurar a optimização da protecção dos bens jurídicos pela via legislativa,
administrativa e judicial de modo consistente com a sua dignidade constitucional. Uma
violação deste princípio ocorrerá quando o Estado pura e simplesmente não proteger bens
jurídicos como dignidade constitucional ou os proteger de forma manifestamente
insuficiente, em situação extrema de violação grave de bens jurídicos fundamentais (v.g.,
vítimas de abusos sexuais) podem mesmo falar-se de existência de um dever de
criminalização.
1.4 Vinculação das entidades privadas
Na CRA, estabelece-se a vinculação das entidades privadas pelos direitos,
liberdades e garantias, em termos que a doutrina designa de efeito externo ou efeito em
relação a terceiro, preceito que deve ser lido à luz da aplicabilidade destes direitos.
Isto significa que o juiz pode e deve aplicar directamente os direitos, liberdades e
garantias nas relações entre privados, sem lei, contra a lei e em vez da lei, embora numa
óptica de harmonização e concordância prática dos direitos fundamentais em presença,
tendo em conta o duplo papel das entidades privadas, que se apresentam como titulares e
destinatários de direitos, liberdades e garantias .
Existe, assim, uma íntima relação entre a vinculação das entidades privadas pelos
direitos, liberdades e garantias e a questão da colisão dos de direitos. Esta realidade impõe
a adopção de soluções materiais diferenciadas, constitucionalmente adequadas às entidades
e aos direitos fundamentais em presença, não vinculando as entidades privadas aos direitos,
liberdades e garantias exactamente nos mesmos termos em que as entidades públicas se
encontram vinculadas. Essa aplicação deve circunscrever-se à tutela de dimensões
essencias dos direitos, liberdades e garantias, a fim de não subverter o esquema
constitucional de competências e funções. Existe claramente margem para uma razoável
constitucionalização das relações privadas, em termos que tutelem dimensões essenciais
dos direitos em confrontos.