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(Direitos fundamentais)

Assunto: Regime específico dos direitos, liberdades e garantias


a) Aplicabilidade directa
b) Vinculação das entidades públicas
c) Vinculação das entidades privadas

1. Regime específico dos direitos, liberdades e garantias


No art. 27º a CRA refere-se à existência de um regime específico para os direitos,
liberdades e garantias, aplicável aos direitos fundamentais de natureza análoga; este regime
tem no artigo 28º da CRA o seu centro de gravidade, embora as suas ramificações se
encontre por toda a Constituição e mesmo fora dela. Seguidamente vamos estudar os
aspectos mais relevantes deste regime específico, começando pela aplicabilidade directa,
vinculação das endidades públicas e pela vinculação das entidades privadas.

1.2. Aplicabilidade directa


Nos termos do artigo 28º, n.º 1, da CRA, os direitos, liberdades são directamente
aplicáveis, nisto consiste a força jurídica destes direitos. Este preceito reveste-se de maior
relevo enquanto garantia da supremacia da Constituição.
A aplicabilidade directa dos direitos, liberdades e garantias significa que os mesmo
não carecem de mediação legislativa, devendo ser aplicados pelos tribunais, “sem lei,
contra a lei e em vez da lei”.
O princípio da aplicabilidade directa dos direitos, liberdades e garantias, constitui o
juiz no dever constitucional de tornar eficazes estes direitos, construindo uma norma para o
caso concreto, quando a mesma não existir ou existindo, não estiver em conformidade com
a Constituição.
A aplicabilidade directa dos direito, liberdades e garantias tem como objectivo
transformar todos os titulares destes direitos nos seus guardiões, exigindo a sua aplicação
por parte dos tribunais.

1.3 Vinculação das entidades públicas


O artigo 28º, n.º 1, da CRA consagra a vinculação de todas as entidades públicas
pelos direitos, liberdades e garantias.
A primazia destes direitos significa que os mesmos servem de parâmetro para
aferição da constitucionalidade de toda actuação do Estado de natureza política, legislativa,
administrativa e jurisdicional.
No que diz respeito a vinculação do legislador aos direitos, liberdaes e garantias a
mesma traduz-se fundamentalmente nos deveres de: a) conformar e concretizar
normativamente os direitos, liberdades e garantias; b) harmonizar os direitos, liberdades e
garantias em colisão; c) não violar os direitos, liberdades e garantias; d) tornar os direitos,
liberdades e garantias como parâmetro de toda actividade legislativa, mesmo em áreas não
imediatamente relacionada com os direitos fundamentais.
Já a vinculação da administração aos direitos, liberdades e garantias, manifesta-
se: a) na constitucionalidade da administração; b) na legalidade da administração; c) na
proibição da prática de crime; d) na recusa da prática de actos contrários aos direitos,
liberdades e garantias, em situação evidente de violação; e) na possibilidade de
desaplicação de regulamento inconstitucional, em caso de evidente inconstitucionalidade.
No que concerne à vinculação dos tribunais a mesma traduz-se nos deveres de: a)
desaplicação de normas violadoras dos direitos, liberdades e garantias; b) aplicação directa
dos direitos, liberdades e garantias; c) maximização pela via interpretativa dos direitos,
liberdades e garantias; d) interpretação das normas jurídicas em conformidade os direitos,
liberdades e garantias. A este propósito, a doutrina e a jurisprudência constitucionais têm
entendido que da vinculação constitucional das entidades públicas pelos direitos,
liberdades e garantias, resulta uma proibição de actuação por defeito, através da qual se
pretende assegurar a optimização da protecção dos bens jurídicos pela via legislativa,
administrativa e judicial de modo consistente com a sua dignidade constitucional. Uma
violação deste princípio ocorrerá quando o Estado pura e simplesmente não proteger bens
jurídicos como dignidade constitucional ou os proteger de forma manifestamente
insuficiente, em situação extrema de violação grave de bens jurídicos fundamentais (v.g.,
vítimas de abusos sexuais) podem mesmo falar-se de existência de um dever de
criminalização.

1.4 Vinculação das entidades privadas


Na CRA, estabelece-se a vinculação das entidades privadas pelos direitos,
liberdades e garantias, em termos que a doutrina designa de efeito externo ou efeito em
relação a terceiro, preceito que deve ser lido à luz da aplicabilidade destes direitos.
Isto significa que o juiz pode e deve aplicar directamente os direitos, liberdades e
garantias nas relações entre privados, sem lei, contra a lei e em vez da lei, embora numa
óptica de harmonização e concordância prática dos direitos fundamentais em presença,
tendo em conta o duplo papel das entidades privadas, que se apresentam como titulares e
destinatários de direitos, liberdades e garantias .
Existe, assim, uma íntima relação entre a vinculação das entidades privadas pelos
direitos, liberdades e garantias e a questão da colisão dos de direitos. Esta realidade impõe
a adopção de soluções materiais diferenciadas, constitucionalmente adequadas às entidades
e aos direitos fundamentais em presença, não vinculando as entidades privadas aos direitos,
liberdades e garantias exactamente nos mesmos termos em que as entidades públicas se
encontram vinculadas. Essa aplicação deve circunscrever-se à tutela de dimensões
essencias dos direitos, liberdades e garantias, a fim de não subverter o esquema
constitucional de competências e funções. Existe claramente margem para uma razoável
constitucionalização das relações privadas, em termos que tutelem dimensões essenciais
dos direitos em confrontos.