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Josué

Comentário expositivo

James Montgomery Boice


Copyright © 1989, de James Montgomery Boice
Publicado originalmente em inglês sob o título
Joshua
pela Baker Books, uma divisão da Baker Publishing House,
Grand Rapids, MI, 49516, EUA.

Todos os direitos em língua portuguesa reservados por


E M
SCRN 712/713, Bloco B, Loja 28 — Ed. Francisco Morato Brasília, DF, Brasil — CEP 70.760-
620
www.editoramonergismo.com.br

1ª edição, 2020

Tradução: Lidiane Cecílio e Thiago McHertt


Revisão: Felipe Sabino de Araújo Neto e Rogério Portella

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.

Todas as citações bíblicas foram extraídas da Versão Almeida Revista e Atualizada (ARA),
salvo indicação em contrário.
Para o Príncipe do exército do S .
Índice
Prefácio
1. O comissionamento do soldado (Josué 1.1-9)
2. No comando (Josué 1.10-18)
3. Raabe contra mundum (Josué 2.1-24)
4. A travessia do Jordão e o fim da jornada (Josué 3.1-5.12)
5. O Comandante do comandante (Josué 5.13-15)
6. Hora de gritar (Josué 6.1-27)
7. Pecado no acampamento (Josué 7.1-8.29)
8. Monte Ebal e monte Gerizim (Josué 8.30-35)
9. O erro de andar pelo que vê (Josué 9.1-27)
10. O dia mais longo (Josué 10.1-5)
11. As campanhas militares do sul e do norte (Josué 10.16-12.24)
12. Repartição da terra (Josué 13.1-19.51)
13. O Ancião magnífico (Josué 14.6-15)
14. As cidades especiais (Josué 20.1-21.45)
15. Adeus às armas (Josué 22.1-34)
16. Passando a tocha (Josué 23.1-16)
17. O último sermão do capitão (Josué 24.1-33)
Prefácio
Há muitas pessoas influentes de épocas passadas que, por um motivo
ou outro, foram ignoradas por seus sucessores. Isso seria verdade
sobre Josué, sucessor de Moisés, não fosse o livro do Antigo
Testamento (AT) que leva seu nome. Josué é a história desse
importante comandante militar, o líder da conquista judaica de Canaã,
e a inclusão do livro de Josué em nossa Bíblia é, sem dúvida, o modo
divino de chamar a atenção para quem, sem essa inclusão, teria sido
ofuscado por completo pelo antecessor.
No entanto, a ironia é esta: apesar de termos o livro de Josué na Bíblia
— o primeiro livro após o Pentateuco — muitos cristãos são
lamentavelmente ignorantes sobre esse homem e sobre o que foi
realizado por meio dele nessa importante etapa da história de Israel.
Josué era um soldado. Ele era um soldado brilhante, um dos
comandantes militares mais extraordinários de todos os tempos. Mas
ele não era uma pessoa contagiante, até onde sabemos. É provável
que ele fosse apenas um trabalhador, um homem bastante direto cuja
principal preocupação era realizar a comissão divina à risca. Não foi
marcado por grandes pecados, e cometeu pouquíssimos erros. Em
suma, não era o tipo de pessoa que se tornaria o bom herói de um
romance. No entanto, Josué era um homem de Deus. Deus disse a ele
no começo da conquista: “Tão somente sê forte e mui corajoso para
teres o cuidado de fazer segundo toda a lei que meu servo Moisés te
ordenou; dela não te desvies, nem para a direita nem para a esquerda,
para que sejas bem-sucedido por onde quer que andares” (Js 1.7).
Josué fez exatamente isso! E foi bem-sucedido! Ele dirigiu a conquista
judaica de Canaã durante sete longos anos, e subjugou todas as
grandes fortalezas e cidades da terra. Ele liderou o povo na renovação
da aliança com Deus. E no final, quando contava pelo menos 90 anos,
desafiou a nova geração a permanecer fiel:
Agora, pois, temei ao S e servi-o com integridade e com
fidelidade; deitai fora os deuses aos quais serviram vossos pais
dalém do Eufrates e no Egito e servi ao S . Porém, se vos
parece mal servir ao S , escolhei, hoje, a quem sirvais: se
aos deuses a quem serviram vossos pais que estavam dalém do
Eufrates ou aos deuses dos amorreus em cuja terra habitais. Eu e
a minha casa serviremos ao S . (Js 24.14, 15)
Esse foi um grande desafio, alicerçado pela vida de serviço fiel ao
Senhor.
O livro de Josué é importante por outras coisas além da história de sua
vida. Ele é o que Francis Schaeffer chamou livro-ponte — algo como o
livro de Atos. Atos é a ponte entre os Evangelhos, que contam a
história de Jesus, e as Epístolas, que lidam com a fé, a vida e os
problemas da igreja. Josué é a ponte entre os anos da peregrinação
desordenada de Israel no deserto e seu estabelecimento na terra.
Isso significa que Josué também é um livro de continuidades, e o
principal veículo dessas continuidades é a Palavra de Deus. É verdade
que não havia muito da Bíblia naquele tempo — apenas os livros que
Deus dera ao povo por meio de Moisés — os primeiros livros do
Pentateuco. Mas essas foram revelações suficientes para a época.
Elas disseram ao povo escolhido como Deus era e o que esperava
deles. Por isso Josué foi instruído a obedecer tudo que eles ensinavam
e a não se desviar nem para a direita nem para a esquerda.
À medida que tenho estudado Josué, convenci-me da necessidade de
sua mensagem para os nossos dias. Existem muitos cristãos professos
hoje: cerca de 50 milhões apenas nos Estados Unidos, segundo
algumas estimativas. Todavia, parece que não temos muitos Josués.
Não são muitos os que, sem tentar ser originais ou espetaculares,
decidem obedecer à lei divina em todos os aspectos e, na verdade,
obedecem a ela durante uma vida longa de serviço fiel. Não é esse o
principal motivo da fraqueza da igreja em nosso país atualmente? E a
principal razão do fracasso não é causada pela falta de leitura, estudo,
digestão e obediência à Palavra de Deus?
Vivemos na era da alfabetização, mas milhares de cristãos são
analfabetos bíblicos.
Nosso tempo valoriza a liderança, mas muitos se curvam ao vento do
secularismo ou são levados pela maré.
Ao publicar esses estudos neste importante e fascinante livro desejo
expressar meu profundo agradecimento à minha igreja, a Tenth
Presbyterian Church, a quem apresentei originariamente o material no
inverno entre 1985 e 1986, e The Above Bar Church em Southampton,
Inglaterra, a quem os estudos também foram apresentados (em versão
abreviada) no verão seguinte. Cada grupo me ajudou com muitos
comentários úteis. Em especial, sou grato aos irmãos da congregação
da Filadélfia por me permitirem investir grande parte do meu tempo a
pesquisar e escrever.
Como sempre, minha fiel secretária e assistente editorial Caecilie M.
Foelster conferiu o livro e orientou comigo sua produção. Sou sempre
muito grato a ela.
1. O comissionamento do soldado (Josué 1.1-9)
Sê forte e corajoso, porque tu farás este povo herdar a terra que, sob
juramento, prometi dar a seus pais. Tão somente sê forte e mui corajoso
para teres o cuidado de fazer segundo toda a lei que meu servo Moisés te
ordenou; dela não te desvies, nem para a direita nem para a esquerda, para
que sejas bem-sucedido por onde quer que andares. Não cesses de falar
deste Livro da lei; antes, medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de
fazer segundo tudo quanto nele está escrito; então, farás prosperar o teu
caminho e serás bem-sucedido. Não to mandei eu? Sê forte e corajoso; não
temas, nem te espantes, porque o S , teu Deus, é contigo por onde
quer que andares. (Jo 1.6-9)
O livro de Josué pertence à classe especial de livros bíblicos que
recebem o nome da personagem principal. De fato, ele é o primeiro
livro desse tipo. Nenhum dos cinco primeiros livros da Bíblia têm nome
próprio, embora lide com alguns dos maiores personagens da história:
Adão, Noé, Abraão, José, Moisés e outros. O livro de Josué narra a
conquista de Canaã pelas tribos de Israel sob o comando do sucessor
de Moisés, e recebe dele o nome. Nesse aspecto, ele pertence à
classe de livros bíblicos como Rute, 1 e 2 Samuel, Esdras, Neemias,
Ester e Jó.
É apropriado que o livro seja designado Josué. Embora lide com outros
assuntos, com certeza ele nos mostra o caráter e registra as
realizações desse homem extraordinário. Muitas vezes Josué é
esquecido, como costuma acontecer com quem sucede um indivíduo
de importância especial. Quem se lembra do presidente que sucedeu
Abraham Lincoln? Ou do primeiro-ministro depois de Winston
Churchill? Como costuma ocorrer, os sucessores geralmente são
obscurecidos pelos antecessores. Isso aconteceu com Josué. Pode ser
por isso que o livro tenha recebido seu nome. Talvez seja a maneira de
Deus dizer: “Você já considerou meu servo Josué? Ele foi
extraordinário, fiel e trabalhador. Totalmente dedicado a meu serviço.
Você deveria aprender com a história dele”.
Suponho que W. Phillip Keller pensava nesse sentido quando
escreveu: “[Josué] raras vezes recebe todo o crédito merecido como,
talvez, o maior homem de fé que já pisou no palco da história humana.
De fato, toda a sua brilhante carreira consistiu no relato simples de
apenas dar passos sucessivos em obediência silenciosa aos
mandamentos divinos”.[1]
Josué não era perfeito, e a façanha de “dar passos sucessivos em
obediência silenciosa aos mandamentos divinos” não é o modo de
chamar a atenção e admiração do mundo. No entanto, a obediência é
a chave para a vitória a serviço de Deus, e Josué é um exemplo
notável desse ponto.

P
O livro de Josué, porém, não é apenas a história de um homem. É
também a história de uma conquista — a conquista de Canaã pelas
tribos que Moisés tirou do Egito. Isso significa tratar-se de um livro de
transição: a mudança da era patriarcal, em que a nação de Israel
estava sendo chamada, formada, libertada e treinada, para a era da
ocupação estabelecida da terra. Até Josué, não vimos o cumprimento
da promessa feita originariamente a Abraão: “Darei à tua descendência
esta terra” (Gn 12.7). Haviam se passado mais de 500 anos desde o
anúncio da promessa e, finalmente chegou o tempo designado por
Deus e o povo avançou para tomar posse dos seus bens.
Francis A. Schaeffer ficou impressionado com o elemento da transição
e chamou Josué de um livro-ponte.[2]
Percebi três abordagens principais do livro de Josué ao pesquisar os
comentários básicos. Primeira, existe a abordagem liberal: o livro é
considerado principalmente um quebra-cabeça. Ao rejeitar suas
alegações históricas, os liberais se esforçam para tentar decidir quem
de fato escreveu o livro, quando ele foi escrito e o que aconteceu de
verdade. Ao agir assim, os estudiosos podem produzir centenas de
páginas de especulações inúteis. Segunda, há a abordagem
conservadora ou fundamentalista: Josué é considerado principalmente
uma alegoria da vida cristã. Os conservadores não duvidam da
historicidade factual de Josué; no entanto, para eles, a história contida
ali é muito menos interessante que os paralelos percebidos entre a era
antiga e a experiência “espiritual” contemporânea. A terceira
abordagem, representada por Schaeffer, considera Josué a ponte
histórica em que se enfatiza a continuidade na forma de Deus lidar
com seu povo.
Arthur W. Pink observa, acho que com alguma justificativa, que essa
abordagem pode muito bem ser sugerida pela primeira palavra do texto
hebraico, a conjunção hebraica waw, traduzida de modo geral por e.
Sim, sei que se trata muitas vezes só de uma questão de estilo literário
hebraico. Diversas frases hebraicas começam com e. Mas não é
apenas algo casual. Pense comigo. Gênesis não começa com e. Isso
já é esperado, pois se trata do livro dos começos e, como resultado,
não há nada a que possa estar vinculado antes. Gênesis começa com
“Bere’shit bara’ ’Elohim” (“No princípio criou Deus”). O livro seguinte da
Bíblia, Êxodo, começa com a conjunção e, bem como Levítico e
Números.[3] Isso indica — corretamente — que os livros pertencem um
ao outro. Gênesis, Êxodo, Levítico e Números formam uma unidade e
são a primeira divisão natural da nossa Bíblia.
À primeira vista, pode-se pensar que Deuteronômio, o quinto livro da
Bíblia, apresenta um problema para a nossa teoria. O livro não começa
com a letra “e”, embora seja o livro culminante do Pentateuco, a pedra
angular da lei. No entanto, refletindo, vemos por que isso é razoável.
Deuteronômio significa literalmente “a segunda lei”.[4] Trata-se da
reafirmação da lei, fato evidenciado pela repetição dos Dez
Mandamentos, apresentados pela primeira vez em Êxodo 20, e depois
repetidos em Deuteronômio 5. Como lei, os cinco primeiros livros estão
conectados. Mas, como história, Deuteronômio marca um novo
começo, e o livro de Josué se inicia de acordo com ele. De Josué em
diante, cada livro começa com a conjunção e, conectando assim cada
novo livro ao anterior, até chegar a 1 Crônicas. Logo, os livros de
Deuteronômio até o final de 2 Reis se reúnem e formam a segunda
maior divisão histórica da nossa Bíblia.
Também por isso Josué é uma ponte. Em Deuteronômio, Moisés é o
líder do povo. O livro de Josué começa assim: “Sucedeu, depois da
morte de Moisés” (Js 1.1). A partir daí, Josué, o assessor de Moisés, é
o líder.
Deuteronômio contém instruções sobre o que o povo deve fazer
quando conquistar a terra. Josué cita o Senhor dizendo: “Dispõe-te,
agora, passa este Jordão, tu e todo este povo, à terra que eu dou —
aos filhos de Israel. Todo lugar que pisar a planta do vosso pé, vo-lo
tenho dado, como eu prometi a Moisés” (Js 1.2, 3). O livro de Josué
registra essa conquista, bem como a divisão da terra após a conquista
— tudo de acordo com as promessas e o plano de Deus, estabelecido
em detalhes específicos em Deuteronômio.
Portanto, o primeiro ponto importante de Josué é que os propósitos de
Deus não mudam. As pessoas mudam: todos os que contavam
20 anos ou mais e que saíram do Egito com Moisés morreram no
deserto. Só a nova geração entrou na terra. Os líderes mudam: Josué
substituiu Moisés. Mas Deus não muda. Deus é o mesmo, e os
propósitos estabelecidos por ele para seu povo redimido também são
os mesmos.

P
A continuidade entre o período patriarcal e o período do assentamento
judaico, baseada no caráter e na vontade divina, está focada na
Palavra de Deus escrita — constituída nesse período pelo Pentateuco,
os cinco primeiros livros da nossa Bíblia. Este é o segundo ponto
principal de Josué. Em Josué 1.1-9, existem dois parágrafos. O
primeiro (v. 1-5) articula a natureza do registro como um livro-ponte:
Moisés está morto e agora Josué deve assumir, sabendo que Deus
estaria com ele como esteve com Moisés (v. 5). O segundo parágrafo
(v. 6-9) destaca a Palavra de Deus escrita que Josué deveria obedecer
enquanto tomava seu lugar na sucessão.
De certa forma, esses versículos são os mais importantes de todo o
livro; Josué é uma grande figura bíblica pelo fato de ter obedecido a
eles.
Sê forte e corajoso, porque tu farás este povo herdar a terra que, sob
juramento, prometi dar a seus pais. Tão somente sê forte e mui corajoso
para teres o cuidado de fazer segundo toda a lei que meu servo Moisés te
ordenou; dela não te desvies, nem para a direita nem para a esquerda, para
que sejas bem-sucedido por onde quer que andares. Não cesses de falar
deste Livro da lei; antes, medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de
fazer segundo tudo quanto nele está escrito; então, farás prosperar o teu
caminho e serás bem-sucedido. Não to mandei eu? Sê forte e corajoso; não
temas, nem te espantes, porque o S , teu Deus, é contigo por onde
quer que andares. (Js 1.6-9)
Os versículos detalham o relacionamento especial que Josué teria com
a lei escrita de Moisés. Algo fundamental aqui é o fato de haver a lei
escrita de Moisés e que era essa lei, em vez de alguma intuição natural
ou experiência esotérica, que deveria ser o guia e a fonte de bênção
de Josué. De todos os muitos comentaristas que conheço sobre o livro
de Josué, Francis Schaeffer é o único que enfatiza isso de forma
adequada, ao mostrar que a Palavra de Deus escrita é o primeiro e o
maior dos muitos fatores imutáveis da história. Os liberais não lhe dão
destaque; de fato, nem creem nisso, pois para o liberalismo é
fundamental supor que os livros do Antigo Testamento tenham sido
escritos muito depois dos acontecimentos descritos neles. Esses livros
têm a intenção de apresentar os pontos teológicos de uma era
posterior, em vez de relatar a obra de Deus real na história. Segundo a
maioria dos estudiosos liberais, o Pentateuco não foi escrito nem
mesmo na época da conquista, e Deuteronômio, o último dos cinco
livros, chegou muito tarde nesse longo período de desenvolvimento.
O entendimento liberal do Pentateuco está envolto no que é chamado
teoria JEPD.[5] Cada uma dessas letras representa uma fonte ou
período no desenvolvimento do Pentateuco. A letra J representa a
“fonte javista”, as partes mais antigas da lei, que usam o nome Javé
para Deus. A letra E significa “fonte eloísta”. Esse material usava a
designação Elohim para Deus. Em seguida vem a letra P para designar
os documentos sacerdotais[6] e, por último, a letra D que representa as
compilações da escola deuteronomista ou deuteronômica. Julius
Wellhausen, que publicou essa teoria em 1878, datou os escritos da lei
no século 5 a.C., após o exílio na Babilônia.
Essa não é a imagem em Josué. De acordo com os primeiros
parágrafos deste livro, Josué tinha a lei de Moisés. Além disso, a lei de
Moisés já contava com o status elevado de revelação divina.
Isso é algo realmente extraordinário e terrivelmente importante. Aqui
está como Francis A. Schaeffer expõe isso:
Josué conhecia Moisés, o escritor do Pentateuco, pessoalmente; ele
conhecia as forças e fraquezas dele como um homem; ele sabia que Moisés
era pecador, que Moisés cometia enganos, que Moisés era apenas um
homem. Apesar de tudo, imediatamente depois da morte de Moisés, Josué
aceitou o Pentateuco como algo mais que os escritos de Moisés. Ele o
aceitou como escritos de Deus. Não foram necessários duzentos ou
trezentos anos para que o livro se tornasse sagrado. Para Josué, o
Pentateuco era o cânon, e o cânon era a Palavra de Deus. A concepção
bíblica sobre a ampliação e a aceitação do cânon é simples assim: quando
ele foi dado, o povo de Deus compreendeu que ele era a Palavra. No
mesmo instante ele teve autoridade.[7]
Isso torna Josué o primeiro dos livros bíblicos modernos, no sentido de
refletir uma situação realmente paralela à nossa. A Bíblia apresenta
uma verdade atemporal; o Deus de Gênesis, Êxodo, Levítico, Números
e Deuteronômio é o Deus imutável — e também o nosso Deus. Mas
nos livros anteriores a situação era diferente. Deus falou diretamente a
Abraão. Deus se encontrou com Moisés no monte. Embora Josué seja
pessoalmente confrontado pelo “príncipe do exército do S ” no
capítulo 5, e revelações específicas lhe sejam dadas para a condução
da guerra pelo sumo sacerdote, a situação é diferente. Como nós,
Josué deveria viver em obediência à Palavra divina escrita e não na
esperança de revelações especiais.
Mais ainda: é a Palavra escrita que nos liga a Josué — assim ela
consistiu no vínculo com Moisés, seu ilustre predecessor. De fato, a
Bíblia nos liga a Deus, pois Deus decretou que ele se tornará
conhecido só por meio de sua Palavra.

C
Por mais importante que fosse possuir a Palavra de Deus por escrito,
como também a possuímos, isso não foi suficiente para garantir o
sucesso de Josué como o novo comandante de Israel. Ele não devia
apenas possuir a Bíblia em sentido técnico; deveria possuí-la de modo
pessoal. Esse é o cerne do comissionamento divino. Existem quatro
partes nele. Josué deveria:
1. Conhecer a Palavra de Deus. Ou seja, ele deveria lê-la e estudá-la.
As palavras saber e estudar não são usadas na seção, mas outras
palavras as pressupõem. Se a lei de Moisés era o guia de Josué, como
esses versículos indicam claramente ser, então Josué deveria saber o
que essa lei dizia. Os cinco primeiros livros — a Bíblia da época — não
seriam colocados na arca da aliança como relíquia reverenciada para
ser vista com admiração de tempos em tempos e nunca tocada. Ao
contrário, Josué teria de pegar o livro regularmente ou fazer uma cópia
que pudesse manter consigo e, então, ler e estudar enquanto
procurava adequar seu pensamento à mente de Deus, o autor do livro.
Este é um ponto muito importante. É verdade que no período antigo,
antes de Gutenberg ou antes dos escribas conseguirem fazer um
número razoável de cópias do texto de Moisés, o povo não possuía
exemplares próprios da Bíblia. Mas isso não significa que a Bíblia era
inacessível ou que eles tinham uma desculpa para não conhecê-la.
Josué deveria ler o livro. Mais tarde, como na cerimônia realizada nos
montes Ebal e Gerizim, a lei deveria ser lida na íntegra diante de todo
o povo (v. Dt 31.11-13).
Também não acho que essa fosse uma ideia nova para Josué, pois
não duvido que ele tivesse captado a importância da lei de Moisés nos
anos de convívio. Se Moisés passou grande parte dos 38 anos
anteriores trabalhando nesses documentos escritos (como ele sem
dúvida fez), Josué deve ter sido testemunha do trabalho, tendo
chegado a valorizar a lei e conhecê-la até certo ponto. Em outras
palavras, ele já deveria ser um estudante da Palavra, mesmo antes de
Deus tê-lo comissionado para assumir suas novas responsabilidades.
Você procura ser líder em círculos cristãos? Está desejoso de servir a
Deus? Um desejo como esse não é ruim; é bom. Mas se seu desejo é
servir a Deus como Josué, então você deve se preparar para isso. A
melhor maneira possível de se preparar é estudar e conhecer a
Palavra de Deus.
2. Falar sobre a Palavra de Deus. O texto diz: “Não cesses de falar
deste Livro da lei” (Js 1.8). Claramente, Josué deveria conversar sobre
a Bíblia em seu convívio diário habitual com a família, soldados,
amigos e outras pessoas que faziam parte da nação.
Como isso é contrário ao que acontece com o cristianismo em muitos
lugares hoje em dia. Nossos contemporâneos são bastante tolerantes
com as pessoas religiosas em alguns aspectos. Considera-se
esclarecido respeitar a prática religiosa alheia — desde que ela esteja
no devido lugar (na igreja ou sinagoga, no domingo ou no sábado) e
não afete o restante da vida. Mas deixe um discípulo de Deus começar
a falar sobre a Palavra divina no trabalho ou enquanto janta com
amigos ou joga golfe no clube e, de repente, a tolerância começa a
desaparecer. “Este não é o lugar para conversarmos sobre religião”,
dizem. Se a prática continuar, é provável que o crente tenha de
procurar novos amigos.
3. Meditar na Palavra de Deus. A meditação é um passo além do mero
conhecimento da Escritura ou de apenas falar sobre ela. Ela abarca o
raciocínio sobre a Palavra e a dedução de coisas a partir dela. A
meditação objetiva a aplicação. Infelizmente, essa é uma disciplina
conhecida por poucos cristãos hoje. Vivemos em uma época de
superficialidade e papinha na boca. Como consequência, muitos
cristãos pensam que o necessário a ser feito para alguém alcançar o
sucesso na vida cristã consiste em ir à igreja, prestar atenção ao
sermão, ter alguns amigos cristãos e continuar seus negócios como
qualquer um faria. Por isso os cristãos fazem tão pouca diferença na
sociedade. Eles pensam como o mundo e, como resultado, agem
como ele. Sua conduta e a conduta dos pagãos, com exceção dos
pecados mais grosseiros, são indistinguíveis. O que está faltando? O
elemento ausente é meditação profunda, genuína e persistente na
Palavra de Deus. Só quando a Palavra divina entra na mente e
começa a se tornar parte do raciocínio e pensamento cotidiano habitual
que começamos a agir de maneira diferente e, assim, fazer a
diferença.
4. Obedecer à totalidade da Palavra de Deus. O último elemento na
lista de requisitos é o mais importante. Josué não deveria apenas
conhecer, falar e meditar sobre a lei de Moisés, mas devia
principalmente obedecê-la. Deus disse: “[Tenhas] o cuidado de fazer
segundo toda a lei que meu servo Moisés te ordenou; dela não te
desvies, nem para a direita nem para a esquerda [...] tenhas cuidado
de fazer segundo tudo quanto nele está escrito” (Js 1.7-8).
Penso que aqui fracassa grande parte do cristianismo atual. É verdade
que muitas vezes não conhecemos a Palavra de Deus como
deveríamos. Não falamos disso com tanta frequência nem meditamos
com persistência e proveito o quanto deveríamos. Mas na era de
erudição amplamente difundida e com muitas igrejas biblicamente
orientadas (embora muitas vezes superficiais), a maioria de nós
conhece o suficiente da lei de Deus para se sair muito melhor na vida
cristã. Sabemos o que é certo; apenas não praticamos o que sabemos.
Não somos como o homem justo do salmo 1: “É como árvore plantada
junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja
folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem-sucedido” (v. 3).
Somos como os iníquos cujas obras, mesmo que (no caso de crentes
genuínos) não sejam eles mesmos, são “como a palha que o vento
dispersa” (v. 4).

H
Quase todos querem ser prósperos no que fazem, mas a maioria falha.
Qual é o problema? O problema é que não seguimos a fórmula divina
para o sucesso dada a Josué. Segundo a Bíblia, o segredo do sucesso
consiste em conhecer a Palavra de Deus, falar sobre ela, meditar nela
e, acima de tudo, vivê-la. No mundo de Deus não há substituição para
a obediência total.
Por isso Josué foi tão bem-sucedido. Ele era um bom soldado, mas
não era mais brilhante como comandante que vários outros que
percorreram os campos de batalha da história do mundo. Josué era um
líder de homens, mas não era mais talentoso que muitos outros. O
grande segredo de Josué consistiu transformar em sua função
conhecer a lei de Deus e vivê-la. Em Deuteronômio 27, há instruções
sobre como a lei deveria ser lida no monte Ebal e no monte Gerizim
depois que o povo entrasse e começasse a se apossar da terra.
Quando Josué chegou a esse ponto no desenrolar do plano divino, ele
agiu exatamente assim — nos mínimos detalhes. Josué não tentou dar
palpites sobre as instruções de Deus ou melhorá-las. Além disso,
quando chegou ao fim da vida, essa ainda era sua principal
preocupação, pois instruiu o povo com quase as mesmas palavras
pronunciadas a ele por Deus: “Esforçai-vos, pois, muito para
guardardes e cumprirdes tudo quanto está escrito no Livro da lei de
Moisés, para que dela não vos aparteis, nem para a direita nem para a
esquerda” (Js 23.6).
Precisamos disso hoje, não de métodos cada vez mais engenhosos,
menos ainda de pessoas cada vez mais inteligentes, mas de
obediência inteligente e motivada pela Palavra viva e permanente de
Deus.
2. No comando (Josué 1.10-18)
Então, deu ordem Josué aos príncipes do povo, dizendo: Passai pelo meio
do arraial e ordenai ao povo, dizendo: Provede-vos de comida, porque,
dentro de três dias, passareis este Jordão, para que entreis na terra que vos
dá o S , vosso Deus, para a possuirdes. (Jo 1.10, 11)
O primeiro capítulo de Josué contém duas partes principais: a que
relata o chamado e comissionamento de Josué e a que conta como
Josué assumiu o comando da nação e começou a dar instruções para
a entrada na Terra Prometida. A ascensão de Josué ao comando
ocorreu logo após seu comissionamento. O mais notável é que Josué
parecia temer essa responsabilidade. Digo isso pois as palavras mais
repetidas no capítulo são as que lhe ordenam não ter medo. Deus diz a
Josué que seja forte e corajoso três vezes (v. 6, 7, 9) e acrescenta:
“Não temas; nem te espante” (v. 9). No final do capítulo, o povo diz a
Josué a mesma coisa: “Sê forte e corajoso” (v. 18). Portanto, apesar do
que deve ter sido um senso muito agudo de inadequação, Josué
assumiu de fato o comando. Desde o início, ele mostrou ser o homem
de Deus para o momento.
Onde Josué obteve essa coragem? Como ele se tornou líder? As
respostas para essas perguntas são importantes quando procuramos
líderes cristãos nos dias atuais.

P
O primeiro ingrediente para a boa liderança é o que Frederick B.
Meyer, no seu comentário de Josué, designa passado fiel.[8] Josué é a
personagem principal do livro que leva seu nome, mas sua história não
começa em Josué. Na verdade, começa em Êxodo e continua nos
livros de Números e Deuteronômio. De fato, Josué aparece 27 vezes
nessas narrativas, cada vez exemplificando uma imagem de fidelidade
exemplar.

Primeira batalha
A primeira aparição de Josué na Bíblia ocorre em Êxodo 17.8-16, que
conta a primeira batalha travada pelas tribos de Israel depois de terem
sido guiadas para fora do Egito por Moisés e terem atravessado o
deserto até Refidim. A batalha foi contra os amalequitas, uma tribo
semissemita que ocupava a vasta região desértica entre as fronteiras
do sul da Palestina e o monte Sinai. Moisés entregou o comando das
tropas judaicas na batalha a Josué.
Isso significa que desde o início, Josué era o principal soldado de
Israel sob o comando geral de Moisés. A parte significativa da história
é a descrição de como a batalha foi vencida e o fato de seu registro no
livro da lei como recordação posterior e para beneficiar Josué. Afirma-
se que enquanto Josué liderava os exércitos do Senhor contra os
amalequitas, Moisés subiu em uma colina com vista para o campo de
batalha e levantou as mãos como sinal da bênção divina. Enquanto
suas mãos estavam levantadas, os israelitas venciam. No entanto,
quando ele se cansou e abaixou as mãos, os amalequitas começaram
a derrotar Israel. Isso ficou claro para Arão e Hur, que estavam com
Moisés, de modo que eles fizeram Moisés se sentar sobre uma grande
pedra enquanto se postaram cada um ao lado dele apoiando seus
braços. Eles fizeram isso até o pôr do sol, quando o exército
amalequita foi derrotado. Não duvido que isso tenha sido uma lição
para Josué, e que ele a aprendeu de forma definitiva e bem. Deus
poderia ter lhes dado a vitória sem os braços erguidos de Moisés,
como ele fez em várias outras ocasiões. Mas nesta, a primeira batalha
de Israel, os braços erguidos de Moisés foram, sem dúvida, o modo de
Deus mostrar que a batalha não pertence aos ágeis nem aos
poderosos, mas ao Senhor. Deus concede a vitória.
Josué deve ter aprendido — e a história foi registrada de forma
explícita para seu benefício posterior nessa área (Êx 17.14-16) — que
embora ele sempre fizesse o possível para ser um general notável, ele
teria sucesso apenas na medida exata da bênção do Senhor. Ele teria
de buscá-la.

Monte Sinai
A segunda vez que vemos Josué é no monte Sinai, onde Moisés foi
chamado por Deus para receber a lei. Quando Moisés subiu ao monte,
Josué foi com ele, parando no meio do caminho. Ele permaneceu em
seu posto no monte durante os 40 dias nos quais Moisés se reuniu
com Deus: de Êxodo 24.13, onde é mencionado pela primeira vez, a
Êxodo 32, quando Moisés desce o monte, junta-se a Josué e volta
para o arraial a fim de reprimir a rebelião que surgiu.
Este deve ter sido um período extremamente formativo na vida de
Josué. Êxodo 24.13, que o menciona especificamente, é precedido por
versículos que contam como Moisés, Arão, Nadabe, Abiú e os
70 anciãos de Israel (incluindo Josué) “subiram [o monte] e viram o
Deus de Israel, sob cujos pés havia uma como pavimentação de pedra
de safira, que se parecia com o céu na sua claridade. Ele não
estendeu a mão sobre os escolhidos dos filhos de Israel; porém eles
viram a Deus, e comeram, e beberam” (Êx 24.9-11). Essa passagem
surpreendente parece descrever uma antecipação de algo similar ao
que chamamos as grandes bodas do Cordeiro. Eles viram Deus e
realmente comeram e beberam em sua presença.
Se essa experiência foi de alguma forma parecida com a experiência
de Isaías ao ver o Senhor elevado nas alturas, que ele descreve no
sexto capítulo da sua profecia, Josué e os outros devem ter sido
afetados por essa revelação inescapável da santidade divina. Isso
aumentaria o pavor de Josué em relação ao pecado desenfreado, mais
tarde descoberto no arraial, quando os israelitas se entregaram à orgia
ao redor do bezerro de ouro. Josué teria aprendido que o pecado é
uma abominação que não pode ser tolerada entre quem professa
constituir o povo de Deus.

Espias
A mais reveladora das muitas referências a Josué em Êxodo, Números
e Deuteronômio é a história do envio dos doze espias à Terra
Prometida em Números 13 e 14. No que diz respeito à terra, o relato
dos doze espias concordavam: era uma terra que mana leite e mel,
uma boa terra. Eles até trouxeram de volta um imenso cacho de uvas,
romãs e figos como prova da fertilidade da terra. Mas é aí que a
semelhança termina. Dez dos doze espias acrescentaram:
O povo, porém, que habita nessa terra é poderoso, e as cidades, mui
grandes e fortificadas; também vimos ali os filhos de Anaque. Os
amalequitas habitam na terra do Neguebe; os heteus, os jebuseus e os
amorreus habitam na montanha; os cananeus habitam ao pé do mar e pela
ribeira do Jordão [...] Não poderemos subir contra aquele povo, porque é
mais forte do que nós. A terra pelo meio da qual passamos a espiar é terra
que devora os seus moradores; e todo o povo que vimos nela são homens
de grande estatura. Também vimos ali gigantes (os filhos de Anaque são
descendentes de gigantes), e éramos, aos nossos próprios olhos, como
gafanhotos e assim também o éramos aos seus olhos. (Nm 13.28, 29, 31-
33)
De todos os espias, somente dois, Josué e Calebe, pensaram
diferente. Calebe disse, “Eia! Subamos e possuamos a terra, porque,
certamente, prevaleceremos contra ela” (Nm 13.30).
As pessoas da terra eram as mesmas, independente de quem
estivesse olhando. A diferença no relato se devia apenas ao fato de os
espias estarem ou com os olhos em Deus, como ocorreu com Josué e
Calebe, ou terem se esquecido de Deus, como aconteceu com os
outros dez. Algumas pessoas eram gigantes; Calebe mais tarde pediu
para conquistar alguns deles. Mas quando os espias mantiveram seus
olhos em Deus, os gigantes encolheram-se em proporções razoáveis.
Os dois espias estavam certos em dizer: “Certamente, prevaleceremos
contra ela”. Mais adiante na história, acrescentam: “A terra pelo meio
da qual passamos a espiar é terra muitíssimo boa. Se o S se
agradar de nós, então, nos fará entrar nessa terra e no-la dará, terra
que mana leite e mel” (Nm 14.7, 8). Quando os dez se esqueceram de
Deus, os gigantes pareciam enormes e eles, como gafanhotos aos
seus próprios olhos.
Sabemos, é claro, que o povo de Israel decidiu seguir o relato da
maioria, esquecendo-se de Deus e desprezando sua promessa. Por
isso, tiveram de perambular pelo deserto pelos próximos 38 anos, até
que todas as pessoas com mais de 20 anos de idade tivessem
morrido. Esse foi um momento decisivo e trágico. No entanto, foi um
grande momento para Calebe e Josué. Os dois defenderam Deus e
suas promessas, e ainda agiam dessa maneira quase 40 anos depois,
quando chegaram de novo à fronteira da terra.
Josué aprendeu que nem sempre a maioria está correta.
Ele aprendeu que a descrença é fatal.
Ele aprendeu que, no fim, a única coisa que realmente importa é
confiar e obedecer a Deus. Ele de fato obedeceu, foi fiel até o fim.

Comissionamento de Josué
O quarto incidente importante na carreira de Josué, anterior aos dos
acontecimentos descritos no livro que leva seu nome, foi o
comissionamento humano para suceder Moisés. A história se encontra
em Números 27.18-23, mas seus ecos ressoam muitas vezes depois.
Lê-se no relato:
Disse o S a Moisés: Toma Josué, filho de Num, homem em quem há
o Espírito, e impõe-lhe as mãos; apresenta-o perante Eleazar, o sacerdote, e
perante toda a congregação; e dá-lhe, à vista deles, as tuas ordens. Põe
sobre ele da tua autoridade, para que lhe obedeça toda a congregação dos
filhos de Israel. Apresentar-se-á perante Eleazar, o sacerdote, o qual por ele
consultará, segundo o juízo do Urim, perante o S ; segundo a sua
palavra, sairão e, segundo a sua palavra, entrarão, ele, e todos os filhos de
Israel com ele, e toda a congregação.
Fez Moisés como lhe ordenara o S , porque tomou a Josué e
apresentou-o perante Eleazar, o sacerdote, e perante toda a congregação; e
lhe impôs as mãos e lhe deu as suas ordens, como o S falara por
intermédio de Moisés. (Nm 27.18-23)
Mais tarde o S ordenou a Josué dizendo: “Sê forte e corajoso,
porque tu introduzirás os filhos de Israel na terra que, sob juramento,
lhes prometi; e eu serei contigo” (Dt 31.23).
Suponho que o comissionamento tenha ocorrido alguns anos antes da
morte de Moisés. Portanto, houve um período em que Josué havia sido
apontado como sucessor de Moisés, mas ainda era o segundo na
cadeia de comando — como Davi que foi ungido rei, enquanto Saul
ocupava o trono. Em casos como esse o sucessor poderia se
comportar mal. Poderia se vangloriar dizendo: “Eu sou o sucessor de
Moisés”. Ou poderia tentar acelerar a transição: “Não dê ouvidos a
Moisés; ele está ficando velho. Ouçam-me”. Josué não fez nada disso.
Ele continuou a se comportar de maneira modesta e leal até que, no
tempo perfeito de Deus, a transição ocorreu de fato. No final de
Deuteronômio, no mesmo capítulo que relata a morte de Moisés, diz-se
de Josué: “Josué, filho de Num, estava cheio do espírito de sabedoria,
porquanto Moisés impôs sobre ele as mãos; assim, os filhos de Israel
lhe deram ouvidos e fizeram como o S ordenara a Moisés”
(Dt 34.9).
Frederick B. Meyer escreveu a respeito dos anos de preparação de
Josué para a liderança: “No caso dele, como sempre, a regra eterna se
manteve válida: a fidelidade em algumas coisas é a condição para
reinar sobre muitas; e a lealdade do servo é o trampolim para a realeza
do trono”.[9]
C
O segundo ingrediente necessário para a liderança cristã forte é o
chamado. Há um sentido importante em que todos somos chamados a
servir a Deus. Devemos ser discípulos de Jesus Cristo e realizar boas
obras (v. Lc 9.23; Ef 2.10). Entretanto, estou me referindo a algo que
vai além disso. É o chamado para uma tarefa específica, e dá ao líder
força na execução dela — força de que ele não disporia se não a
tivesse recebido. Josué recebeu o chamado de duas maneiras:
primeira, no comissionamento por Moisés, registrado em Números 27;
segunda, na ordem detalhada de Deus logo antes da conquista. Por
causa de Deus ter dito: “Dispõe-te, agora, passa este Jordão, tu e todo
este povo, à terra que eu dou — aos filhos de Israel” (Js 1.2), que
Josué declarou: “Provede-vos de comida, porque, dentro de três dias,
passareis este Jordão, para que entreis na terra que vos dá o S ,
vosso Deus, para a possuirdes” (Js 1.11).
No momento da chegada do chamado, Josué era um dos dois únicos
homens em Israel que realmente sabia o que estava por vir. Josué e
Calebe haviam entrado em Canaã com os 12 espias 38 anos antes.
Assim, ele conhecia a força do inimigo. Vira as cidades muradas.
Olhara para os gigantes com reverência. Humanamente falando, o
relato da maioria estava certo: as pessoas daquela terra eram
invencíveis. Se Deus não estivesse com os judeus na conquista eles
seriam derrotados e destruídos por completo.
Mas Josué não enxergava as coisas apenas do ponto de vista
humano. Ele nunca elaborou uma equação militar sem Deus como
fator determinante. Quando Deus o chamou, a possibilidade de
conquistar a terra — que sempre existiu para ele, pois com Deus todas
as coisas são possíveis — agora se tornou uma certeza, e ele avançou
com vigor. Nenhuma pessoa é tão invencível quanto quem tem certeza
de que Deus a chamou para uma tarefa. Ninguém é tão ousado quanto
quem sabe que Deus já lhe concedeu a vitória.
O chamado específico de Deus vem de maneiras diferentes, e é
importante aguardá-lo ou buscá-lo, se ainda não tiver chegado. Muitas
pessoas receberam o chamado específico de Deus enquanto
estudavam as Escrituras, reconhecendo que o que liam continha uma
aplicação específica para sua vida. Alguns receberam o chamado
específico por meio das circunstâncias, alguns por intermédio da ação
divina em outras pessoas. Calvino foi chamado para sua grande obra
em Genebra por William Farel, que o ameaçou com o juízo divino se
ele não permanecesse e ajudasse na Reforma. Recebi meu chamado
para o ministério de maneira subjetiva quando era bem jovem. Eu
sabia que Deus me havia chamado para fazer isso. Como digo,
chamados específicos chegam ao povo de Deus de maneiras
diferentes; mas sem levar em consideração como eles vêm, são um
ingrediente importante na liderança. Quem foi chamado para uma obra
por Deus não pode ter outra prioridade.

R
O terceiro ingrediente para a liderança cristã forte é a revelação
objetiva. A Bíblia não deve ser apenas algo que nos pertence, como se
pode ter outro livro e colocá-lo em uma prateleira para fins decorativos
ou como referência. Ao contrário, devemos tomar posse dela
internamente à medida que estudamos, falamos, meditamos e
obedecemos às palavras dessa revelação. Como vimos no último
estudo, nada é tão essencial para o sucesso no serviço a Deus quanto
o conhecimento e a fundamentação na Bíblia.
O importante aqui é reconhecer a necessidade desse padrão objetivo
para controlar nossas sugestões subjetivas sobre a direção divina. Se
somos chamados para um trabalho específico é inevitável que uma
medida desse chamado seja subjetivo. A Bíblia não diz de forma
específica o que você deve fazer em termos de vocação para a vida.
Se Deus o chamou para ser diplomata, você não encontrará a Bíblia
dizendo: “João, eu quero que você trabalhe no ‘ministério de relações
exteriores’”. Deus pode chamá-lo para essa responsabilidade, mas se
o fizer, terá de ser de maneira subjetiva, mediante o senso de chamado
pessoal, por meio de outras pessoas (talvez da igreja) ou das
circunstâncias.
Mas, se for esse o caso, como uma pessoa pode evitar ser levada pela
subjetividade? Como você pode se proteger de responder de modo
subjetivo a toda multidão conflitante de circunstâncias? A resposta é
por meio do conhecimento das Escrituras, colocando-a no coração
para que as categorias da Bíblia comecem a formar o padrão do seu
pensamento e você comece a avaliar as circunstâncias e os conselhos
dos outros como o próprio Jesus faria se estivesse no seu lugar.
Sugiro que a condução específica de Deus ocorre 99% das vezes por
meio das Escrituras e, na melhor hipótese, apenas 1% das vezes por
intermédio de algo subjetivo. Mesmo assim, os elementos subjetivos
devem ser avaliados e corrigidos pelas Escrituras. Vemos um exemplo
em Josué 1. Deus disse a Josué que havia chegado a hora de o povo
de Israel tomar posse da Terra Prometida. Isso pode ter sugerido
vários planos específicos para Josué, planos que ele pode ter validado
com base no chamado pessoal para ser o líder do povo. Embora seu
chamado fosse real, e parte do sucesso de Josué como líder, ainda
assim ele formou os planos de acordo com a revelação escrita.
Em Números 32 e Deuteronômio 3.18-20 estava registrado que as
duas tribos de Rúben e Gade e a meia tribo de Manassés deveriam
receber a terra a leste do Jordão, mas seus homens deveriam lutar ao
lado dos guerreiros das outras tribos, a oeste do Jordão, até que a
Terra Prometida fosse tomada. Josué lembrou-se desse trecho das
Escrituras e fez isso se tornar parte das ordens para essas tribos
desde o início (v. Js 1.13-15).

F D
O último ingrediente para a liderança cristã eficiente é a fé em Deus.
Isso é tão necessário hoje quanto nos dias de Josué.
Na primeira parte de Josué 1, há um versículo citado no Novo
Testamento (NT) e aplicado a nós que diz respeito ao assunto. No
versículo 5, Deus diz ao grande comandante militar: “Assim serei
contigo; não te deixarei, nem te desampararei”. (A mesma coisa é dita
a Israel por Moisés em Dt 31.6.) O texto é citado pelo autor de Hebreus
em 13.5: “De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te
abandonarei”, ao que o escritor acrescenta: “Assim, afirmemos
confiantemente: O Senhor é o meu auxílio, não temerei; que me
poderá fazer o homem?” (v. 6). Foi exatamente isso que Josué
experimentou e o que deve ter dito a si mesmo centenas de vezes.
Deus era por ele. Deus o havia chamado. Ele confiava em Deus.
Portanto, Josué levaria o povo à batalha sabendo que seria invencível
enquanto Deus continuasse a seu lado.
As pessoas seguem um líder assim porque segui-lo é o mesmo que
seguir a Deus. Por isso encontramos o encerramento desse capítulo
com as palavras: “Então, responderam a Josué, dizendo: Tudo quanto
nos ordenaste faremos e aonde quer que nos enviares iremos. Como
em tudo obedecemos a Moisés, assim obedeceremos a ti; tão somente
seja o S , teu Deus, contigo, como foi com Moisés. Todo homem
que se rebelar contra as tuas ordens e não obedecer às tuas palavras
em tudo quanto lhe ordenares será morto; tão somente sê forte e
corajoso” (Js 1.16-18).
O povo não havia “obedecido em tudo” a Moisés, é claro, e não
obedeceria a Josué em tudo. Mas isso não perturbou Josué. Ele se
manteve firme e cumpriu seu dever até o fim.
3. Raabe contra mundum (Josué 2.1-24)
Bem sei que o S vos deu esta terra, e que o pavor que infundis caiu
sobre nós, e que todos os moradores da terra estão desmaiados. Porque
temos ouvido que o S secou as águas do mar Vermelho diante de
vós, quando saíeis do Egito; e também o que fizestes aos dois reis dos
amorreus, Seom e Ogue, que estavam além do Jordão, os quais destruístes.
Ouvindo isto, desmaiou-nos o coração, e em ninguém mais há ânimo algum,
por causa da vossa presença; porque o S , vosso Deus, é Deus em
cima nos céus e embaixo na terra. Agora, pois, jurai-me, vos peço, pelo
S que, assim como usei de misericórdia para convosco, também dela
usareis para com a casa de meu pai; e que me dareis um sinal certo de que
conservareis a vida a meu pai e a minha mãe, como também a meus irmãos
e a minhas irmãs, com tudo o que têm, e de que livrareis a nossa vida da
morte. (Jo 2.9-13)
Seria um milagre tão grande quanto a travessia do Jordão ou a
destruição dos muros de Jericó se Raabe, a meretriz amorreia,
conhecesse latim. O latim só chegou à Palestina na ocupação romana
mais de mil anos depois de seu tempo. Ainda assim, se ela soubesse
latim, Raabe poderia ter descrito sua situação em Jericó, na época da
conquista judaica como, Raabe contra mundum: Raabe “contra o
mundo”.
Estudantes da história da igreja conhecem a expressão contra
mundum, pois ela foi usada por Atanásio, Pai da Igreja Primitiva, para
descrever sua situação no século IV. Atanásio nasceu em Alexandria
(Egito), por volta de 295 d.C., e morreu em 373 d.C., cheio de dias e
honras. Sua vida não foi fácil. Esses foram os anos das grandes
controvérsias trinitárias e, durante grande parte do período, Atanásio
foi quase o único defensor do que reconhecemos hoje como
cristianismo ortodoxo. Em suma, Atanásio defendeu a divindade de
Jesus ao reconhecer que a salvação depende de ele ser totalmente
Deus. Ele sofreu oposição de todos os lados. Imperadores o
denunciaram e o enviaram ao exílio. Foi exilado do bispado cinco
vezes. A igreja se voltou contra ele. Durante décadas, foi realmente
Atanásio contra todos. No entanto, apesar de sua posição ter sido dura
e dolorosa, ele defendia a causa do verdadeiro Deus, e Deus o
preservou e deu-lhe a vitória total no final.
Imagino assim Raabe e seu posicionamento contra o mundo de
Canaã. De fato, de certa forma, a história dela é maior que a de
Atanásio, pois Raabe não conhecia Jesus Cristo. Ela não dispunha da
Bíblia. Nenhum pregador proclamou a verdade de Deus para ela. No
entanto, Raabe ouviu sobre Deus e decidiu segui-lo, sem levar em
consideração o que a decisão lhe custaria.

R
A história de Raabe se passa no contexto da conquista de Canaã. Ela
está entrelaçada com a história do envio de dois espias por Josué a
Jericó, como Moisés havia enviado 12 espias para relatar o que viram
na terra anos antes. É interessante Josué ter enviado dois espias.
Quando Moisés enviou os 12 judeus infiltrados, 38 anos antes, apenas
dois retornaram com o relatório fiel de que Deus daria a terra ao povo.
Josué era um deles, e seu bom amigo Calebe o outro.
Na ocasião, Josué não quis repetir o desastre anterior e, talvez de
maneira simbólica, escolheu dois homens que, sem dúvida, foram
selecionados com cuidado e de quem se esperava um relatório de fé,
não de descrença. Além disso, creio que ele foi dirigido por Deus na
ação. O texto não diz isso diretamente, e alguns supõem que Josué
tenha errado ao enviar espias, dizendo que ele deveria apenas confiar
no Senhor e seguir em frente. Mas Deus dissera a Moisés para enviar
os 12 espias antes, apesar do resultado (Nm 13.1-2), e é razoável
supor que Deus havia instruído Josué a fazer o mesmo. Os espias
deveriam se dirigir a Jericó e então reportar o que viram para servir de
preparação para o ataque que ocorreria uns dias depois.
Se os espias foram enviados em obediência ao mandamento divino,
como temos todos os motivos para crer, provavelmente também
estamos certos em pensar no seu envio para salvar Raabe e não
apenas para trazer informações de volta. Josué não precisava de
informações sobre Jericó. Eram necessários os arranjos pelos quais
Raabe e sua família seriam salvos quando Jericó fosse tomada.
A situação aqui é semelhante à de João 4.4, passagem que nos
informa sobre Jesus: “Era-lhe necessário atravessar a província de
Samaria”. A estrada samaritana não era a única via para a Galileia. De
modo geral, tomava-se outro caminho. Contudo, Deus tinha um de
seus filhos eleitos residindo na cidade e, como Jesus ensinou,
nenhuma ovelha eleita perecerá. Jesus entrou em Samaria para salvar
a mulher samaritana. Da mesma forma, os dois espias foram enviados
a Jericó para salvar Raabe. Eles não sabiam disso, é claro, como não
sabemos o resultado quando somos enviados por Deus em alguma
missão. Todavia, na visão divina das coisas, esse era o motivo. Deus
atuava no coração de Raabe, levando-a à verdadeira fé, e agora ele
enviava seus mensageiros para lhe confirmar a fé e salvá-la
fisicamente. É interessante que a primeira personagem do grande livro
de Josué, além do próprio Josué, seja essa mulher, e a primeira
história real seja a dela.

G
Outra maneira de dizer o mesmo é afirmar que a primeira história de
Josué é um relato da misericórdia divina, não da ira. Josué é um livro
de conquistas duras, e a premissa da natureza particularmente
destrutiva da conquista é que “a iniquidade dos amorreus” havia
atingido a medida plena (v. Gn 15.16). Ou seja, estava na hora do juízo
do povo. Por todo o livro de Josué, vemos Deus ordenar aos judeus a
destruição total das nações que ocupavam a terra, um julgamento com
o paralelo mais próximo na destruição do povo da terra (exceto Noé e
sua família) no momento do grande Dilúvio. No entanto, mesmo neste
livro de juízo severo e absoluto, a primeira história é sobre a salvação
da meretriz de Jericó.
Esta é uma história de grande misericórdia, pois, humanamente
falando, não acontecia nada na vida de Raabe. Isso é tão
impressionante que vale a pena listar as desvantagens de Raabe. Ela
era:
1. Gentia. É verdade que, ao longo da longa história do povo judeu,
Deus demonstrara a tendência maravilhosa de alcançar e salvar certos
representantes gentios. Pensamos em Rute, a moabita, ou Naamã, o
sírio. Ainda assim, como Jesus disse mais tarde: “A salvação vem dos
judeus” (Jo 4.22), e as únicas vantagens reais em relação à verdadeira
religião estavam no judaísmo. Paulo perguntou retoricamente: “Qual é,
pois, a vantagem do judeu?”. E respondeu: “Muita, sob todos os
aspectos. Principalmente porque aos judeus foram confiados os
oráculos de Deus” (Rm 3.1,2); “Pertence-lhes a adoção e também a
glória, as alianças, a legislação, o culto e as promessas; deles são os
patriarcas, e também deles descende o Cristo” (Rm 9.4, 5). Nem todas
as vantagens foram totalmente possuídas por Israel no momento da
conquista, mas a maioria delas era, e — eis o ponto — Israel as
possuía. Raabe não contava com nada disso. Ela era gentia e,
portanto, como Paulo disse mais tarde aos efésios, os estrangeiros
naquele tempo eram “estranhos às alianças da promessa, não tendo
esperança e sem Deus no mundo” (Ef 2.12).
2. Amorreia. Os amorreus eram apenas um dos muitos povos que
ocupavam Canaã nesse tempo. A lista padrão inclui: “O queneu, o
quenezeu, o cadmoneu, o heteu, o ferezeu, os refains, o amorreu, o
cananeu, o girgaseu e o jebuseu” (Gn 15.19-21; v. Nm 13.29). Mas
entre esses muitos povos, que deveriam ser destruídos pela
iniquidade, os amorreus foram escolhidos para uma condenação
particular por seus pecados. Eles eram um povo corrupto e vil, até as
crianças eram sacrificadas em suas práticas religiosas depravadas.
3. Prostituta. Foram feitas tentativas diferentes de isentar Raabe da
plena implicação da palavra, e alguns sugeriram que, pelo fato de ela
aparentemente haver crido no Deus verdadeiro antes da visita dos
espias, ela já não vivia a vida pecaminosa de antes. Argumenta-se que
os espias não teriam ido à casa de uma mulher imoral. Arthur W. Pink
ainda afirma, pela presença de linho no telhado de sua casa (Js 2.6),
que ela se ocupava com um trabalho moral — e cita Provérbios 31,
onde se diz que a mulher virtuosa busca lã e linho e de bom grado
trabalha com as mãos.[10]
Bem, Raabe pode muito bem ter sido convertida antes da chegada dos
dois espias — acho que a linguagem sugere isso — mas ela é
identificada como prostituta, e os espias foram até ela pelo fato de ser
quem ela era. Não sugiro que eles a procuraram para propósitos
imorais. Mas, diga-me, aonde dois estranhos poderiam ir com a menor
probabilidade de responder perguntas comprometedoras? Dirigir-se
para lá foi genial. Além disso, quando o rei soube que os espias
haviam ido a Raabe e mandou colocá-los para fora, ele pareceu aceitar
com normalidade o fato de homens visitarem Raabe e aceitou o relato
dela de que os homens haviam saído quase tão rapidamente quanto
entraram. Não, não há dúvida de que ela era prostituta, como a
samaritana também era sexualmente imoral. É apenas outro caso da
grande e inexplicável graça divina que estende a mão para salvar essa
pessoa.
Francis A. Schaeffer pergunta se é “apropriado” Deus salvar uma
pessoa assim, e responde corretamente: “Completamente!”.[11] Raabe
não era pior que nós; no entanto, Deus nos salvou. Cristo redime os
pecadores, não os justos.

A
Apesar da lista sombria de desvantagens — gentia, amorreia e
prostituta —, essa mulher pagã tinha pelo menos uma grande coisa a
seu favor: ouvira falar do Deus de Israel. Como resultado disso, ela
creu no Deus verdadeiro, pois: “A fé vem por ouvir a mensagem”
(Rm 10.17, NVI).
Aqui entra a grande confissão de Raabe:
Antes que os espias se deitassem, foi ela ter com eles ao eirado e lhes
disse: Bem sei que o S vos deu esta terra, e que o pavor que infundis
caiu sobre nós, e que todos os moradores da terra estão desmaiados.
Porque temos ouvido que o S secou as águas do mar Vermelho
diante de vós, quando saíeis do Egito; e também o que fizestes aos dois reis
dos amorreus, Seom e Ogue, que estavam além do Jordão, os quais
destruístes. Ouvindo isto, desmaiou-nos o coração, e em ninguém mais há
ânimo algum, por causa da vossa presença; porque o S , vosso Deus,
é Deus em cima nos céus e embaixo na terra. (Js 2.8-11)
Sem dúvida, havia muitos aspectos da fé e da história de Israel
desconhecidos por Raabe. Ela só ouviu falar dos atos de Deus para
libertar os judeus do Egito e a respeito da vitória que ele lhes dera
sobre os dois grupos amorreus a leste do Jordão. Entretanto, isso
bastou! Ela desconhecia a adoção, as alianças, a lei, a adoração e as
promessas. Mas tinha ouvidos e ouviu sobre o que Deus fez; como
resultado, ela creu nele.
Um pensamento interessante me ocorre aqui, pois se perguntarmos:
“De quem Raabe ouviu essas histórias sobre o Deus de Israel?”. A
resposta provavelmente é dos homens que frequentavam seu
estabelecimento. Sua casa teria sido um lugar de grandes fofocas
quando estranhos da região e de longe relatavam histórias das
maravilhas do exterior.
“Você já ouviu sobre o que aconteceu no Egito?”, um deles poderia ter
perguntado. E teria contado como Deus enviou as pragas aos egípcios,
pragas que transformaram a água do rio Nilo em sangue, trouxeram
moscas e rãs sobre a terra, destruíram o gado e escureceu o sol. E por
último, matou os primogênitos.
“Você ouviu o que aconteceu no mar Vermelho?”, outro continuaria. “O
Deus judeu separou as águas para que o povo atravessasse em terra
seca. Então permitiu que as águas voltassem e afogassem os
soldados egípcios que os seguiam”.
“Essas pessoas ainda estão por aí”, poderia dizer um terceiro cliente.
“Não faz muito tempo, eles derrotaram e mataram Seom e Ogue, os
dois reis amorreus a leste do rio Jordão”.
Acho isso interessante pois, embora a Bíblia não escuse a prostituição
de Raabe, foi em certa medida devido ao fato de ser prostituta que ela
recebeu os relatos de tudo isso em primeira mão.
Afirmei antes que uma coisa favorável a Raabe era o fato de ela ter
ouvido falar do Deus de Israel, mas acrescento que a coisa
maravilhosa (e salvadora) é ouvir a respeito de Deus não só com os
ouvidos, mas também com o coração. Ali estava uma mulher pagã
imoral que, no meio da prática da prostituição, ouviu falar do
verdadeiro Deus de Israel e acreditou que o Deus de quem ela ouviu
falar era o Deus verdadeiro. Uma vez que isso pode acontecer — e
acontece — nunca podemos nos desesperar quanto a ninguém e não
precisamos nos desesperar quanto a nós mesmos.

P ,R ...
Quando dizemos que Raabe ouviu com o coração e com os ouvidos,
referimo-nos ao fato de ela ter crido em Deus, ou ter fé. Por isso ela é
elogiada no NT. Você sabia que Raabe é declarada modelo de fé duas
vezes no NT? Primeira, ela aparece na lista dos heróis da fé em
Hebreus 11.31: “Pela fé, Raabe, a meretriz, não foi destruída com os
desobedientes, porque acolheu com paz aos espias”. Segunda, o livro
de Tiago diz: “De igual modo, não foi também justificada por obras a
meretriz Raabe, quando acolheu os emissários e os fez partir por outro
caminho” (Tg 2.25). Aqui está a verdadeira fé, pois é fé em ação.
Devemos nos maravilhar com os atos dessa mulher. É verdade que ela
demonstrou fé em Deus ao acolher e esconder os espias —
representantes de Deus. É o que dizem os textos de Hebreus e Tiago.
Mas Raabe fez mais que isso, ela:
1. Colocou sua vida em perigo. Ela arriscou a própria vida e a vida de
seus familiares por causa dos espias. Jericó não era um lugar
agradável. Na verdade, era uma espécie de posto militar avançado, e
não estamos errados em pensar que a vida de Raabe não valeria um
tostão da época se seu erro fosse descoberto. Se os mensageiros do
rei não tivessem aceitado a declaração de que os espias haviam saído
antes do pôr do sol e tivessem entrado em sua casa e descoberto os
homens no telhado, ela seria arrastada de imediato até o rei e, é
provável que teria sido terrivelmente torturada antes de ser morta. Sua
família provavelmente teria sido levada e morta com ela. Raabe
deveria saber o risco que assumia, mas arriscou tudo com base na
descoberta espiritual e nova vida.
2. Rejeitou seu passado e o próprio povo. Era uma situação militar, e
Raabe sabia, como os outros moradores da cidade, que quando os
judeus os atacassem, não haveria escapatória. Se os judeus
conseguissem invadir a cidade, todos seriam mortos, como os
habitantes de Canaã matariam os judeus se tivessem oportunidade.
Raabe morava em Jericó. Humanamente falando, ela deveria ter sido
leal à própria cidade e povo. Mas ela rejeitou o passado por causa da
nova fé no Deus de Israel.
3. Identificou-se com o povo judeu. Ela não era judia. Por ter crido no
Deus judeu, agora ela instintivamente entendeu que seu lugar era com
o novo povo, e não com o dela. Em outras palavras, ao deixar o reino
das trevas para o reino da luz, ela também passou da cidadania natural
de Jericó para a cidadania dos filhos de Deus. De fato, como nem
todos os judeus acreditavam de forma tão genuína como ela, na
verdade ela se tornou mais judia, espiritualmente falando, que muitos
dos novos concidadãos.
Deus aceitou sua nova lealdade. Podemos imaginar como, por
misericórdia, Deus a receberia sob a proteção da nação escolhida e
permitiria que ela habitasse no meio das pessoas favorecidas em um
plano inferior — à semelhança dos gibeonitas, autorizados a viver
entre os judeus como “rachadores de lenha e tiradores de água para a
congregação” (Js 9.27). Mas não foi isso o que aconteceu. Embora
gentia, amorreia e prostituta, ela foi aceita de imediato como membro
pleno da nação favorecida. Ela se casou com um judeu e tornou-se
ancestral do Senhor Jesus Cristo. Ela se casou com um homem da
tribo de Judá chamado Salmom. O filho deles era Boaz, que se casou
com Rute, a moabita. O filho deles era Obede, pai de Jessé, o pai do
rei Davi (v. Mt 1.5, 6). Isso não é tremendo? Raabe não recebeu um
tipo de salvação de segunda classe; desde o início, ela recebeu o
pacote completo. Sua posição era igual à de qualquer cidadão de
Israel, e como prova disso, ela foi trazida para a nobre linhagem da
tribo de Judá e tornou-se ancestral de nosso Senhor.

C
A experiência de Raabe é paralela a de quem vai a Deus pela fé em
Jesus Cristo hoje. Josué nos diz que depois de Raabe ter ajudado os
espias, eles concordaram em poupá-la, e também sua família, quando
a cidade fosse tomada. Disseram: “Desobrigados seremos deste teu
juramento que nos fizeste jurar, se, vindo nós à terra, não atares este
cordão de fio de escarlata à janela por onde nos fizeste descer; e se
não recolheres em casa contigo teu pai, e tua mãe, e teus irmãos, e a
toda a família de teu pai” (Js 2.17,18). Raabe concordou e amarrou o
cordão de fio de escarlata na janela. Existe uma tradição na igreja,
desde Clemente de Roma e, possivelmente, mais cedo, de que o
cordão de fio de escarlata representa o sangue de Jesus Cristo, e
professores falam sobre o cordão ao longo de toda a Bíblia, desde o
sacrifício de Abel até o Calvário.
Não sei se o cordão de fio de escarlata de Raabe representava isso
especificamente, embora exista um paralelo notável entre o cordão que
identificou sua casa e o sangue dos cordeiros espalhados nos batentes
das portas e nas vergas das casas judaicas no Egito quando o anjo da
morte preteriu o lar e a família dos judeus. Sei que, explícito ou não, o
caminho da salvação sempre foi o mesmo e a experiência dos salvos
por Deus é paralela.
Somos como Raabe, se de fato entendemos sua história. Não
fazíamos parte da família de Deus ou de dentro do escopo do que
Deus faz de maneira salvadora na história humana. O pior: éramos
parte da sociedade corrupta e degenerada; cada um de nós tinha
pecados repreensíveis próprios. Mas Deus colocou sua mão sobre
nós. Ele nos fez conhecer seus grandes atos salvadores na história e
depois nos colocou em contato com seus mensageiros e
representantes. Ele suscitou a fé em nós, pela qual, por sua graça,
também colocamos a vida em risco. Em sentido espiritual, fomos
chamados a rejeitar o próprio povo e nos identificar com o povo de
Deus. Como sinal disso, o sangue de Cristo, como um cordão de fio de
escarlata, foi espalhado por nossa casa e vida.
E agora? Agora vivemos em uma terra estrangeira entre o momento do
nosso compromisso de fé e o momento do juízo final, que será o dia de
nossa libertação. Nesse importante ínterim, devemos permanecer
firmes em Deus como Raabe fez: Contra mundum! Devemos ser o
povo de Deus em oposição à cultura sem Deus que nos rodeia.
E se você não fizer isso? Então sua situação é a mesma dos cidadãos
de Jericó. Você olha as muralhas ao redor da grande cidade secular e
diz a si mesmo: “Certamente estou seguro aqui. As paredes são fortes.
Esta cidade existe há milhares de anos”. Mas por dentro, o coração
está enfraquecido pelo medo, e sabe que o dia do acerto de contas é
inevitável e o juízo se aproxima. Por que não ser como Raabe? Ela
não contava com nada além do relato verbal — seletivo e limitado —
dos poderosos atos de Jeová. Você dispõe da lei e do evangelho, a lei
que o condena seu pecado e o evangelho que mostra a solução para o
pecado pela morte e pelo sangue vertido de Jesus Cristo. Por que você
deveria viver mais sob a justa ira e condenação de Deus? Por que não
crer em Cristo, deixar seu passado pecaminoso e tomar o lugar com o
povo de Deus?
4. A travessia do Jordão e o fim da jornada (Josué 3.1-5.12)
E, quando os que levavam a arca chegaram até ao Jordão, e os seus pés se
molharam na borda das águas (porque o Jordão transbordava sobre todas
as suas ribanceiras, todos os dias da sega), pararam-se as águas que
vinham de cima; levantaram-se num montão, mui longe da cidade de Adã,
que fica ao lado de Sartã; e as que desciam ao mar da Arabá, que é o mar
Salgado, foram de todo cortadas; então, passou o povo defronte de Jericó.
(Js 3.15-17)
Você pode pensar no passado distante de sua vida, talvez quando era
criança, mas tenho certeza de que consegue se lembrar da emoção de
um dia pelo qual esperou muito tempo e que, por fim, chegou. Talvez
tenha sido um aniversário especial. Talvez fosse o natal ou o dia em
que você e sua família saíram de férias. Pode ter sido o nascimento do
primeiro filho. Por semanas, talvez meses, você esperou, ansiava esse
dia. Então, de repente, ele chegou.
Deve ter sido um dia como esse quando os israelitas passaram pelo
deserto através do rio Jordão para entrar em Canaã. Eles esperaram
por esse momento por muito, muito tempo. A maioria havia nascido no
deserto como parte da nova geração que substituiu a que se recusou a
confiar em Deus em relação à conquista da terra anos antes. Josué e
Calebe haviam esperado ainda mais. Esses homens contavam cerca
de 80 anos e aguardaram a conquista a maior parte da vida. Ainda
assim, isso não esgota o tamanho da antecipação do momento. Deus
prometera a conquista a Abraão mais de 500 anos antes (v. Gn 15.18-
21). A promessa foi repetida aos patriarcas por séculos. Considerado
de forma adequada, houve meio milênio de fervorosa antecipação e,
agora, o momento chegou.
Josué disse ao povo: “Santificai-vos, porque amanhã o S fará
maravilhas no meio de vós” (Js 3.5).

N
Em nossas versões bíblicas, o relato da travessia do rio Jordão está
espalhado por três capítulos, Josué 3-5. Mas, na verdade, trata-se de
uma só história, e os capítulos devem ser considerados juntos para se
obter o efeito completo.
Percebe-se a unidade dos capítulos de várias maneiras. No capítulo 3,
Deus diz a Josué: “Hoje, começarei a engrandecer-te perante os olhos
de todo o Israel, para que saibam que, como fui com Moisés, assim
serei contigo” (v. 7). No capítulo 4, repete-se o tema: “Naquele dia, o
S engrandeceu a Josué na presença de todo o Israel; e
respeitaram-no todos os dias da sua vida, como haviam respeitado a
Moisés” (v. 14). Da mesma forma, no capítulo 3, Josué diz aos
israelitas: “Tomai, pois, agora, doze homens das tribos de Israel, um de
cada tribo” (v. 12). Não somos informados aqui do motivo da escolha
deles, mas no capítulo seguinte a ordem é repetida e explicada: “Tomai
do povo doze homens, um de cada tribo, e ordenai-lhes, dizendo:
Daqui do meio do Jordão, tomai doze pedras” (Js 4.2, 3). As pedras
escolhidas pelos doze homens deveriam ser um memorial. Os três
capítulos estão ligados pela ênfase na aliança.
Nos capítulos, há três acontecimentos intimamente relacionados: 1) A
travessia do Jordão; 2) A construção do memorial da travessia; e 3) A
renovação da aliança e a efetivação do sinal da aliança em Gilgal após
a travessia do Jordão e antes do início da conquista da terra.

A
O aspecto mais importante da travessia do rio Jordão, além do modo
que ocorreu — paralelo exato da travessia do mar Vermelho na época
da saída do Egito sob Moisés — é o destaque da arca da aliança na
travessia. Isso é proeminente até mesmo na narrativa, uma vez que a
arca é mencionada 9 vezes no capítulo 3, 7 vezes no capítulo 4, e mais
quatro referências indiretas pelo uso de pronomes.
O que há de tão importante na arca? Ela simboliza a presença de Deus
no meio do povo.
As instruções para a construção da arca são encontradas em
Êxodo 25, o primeiro capítulo na Bíblia em que ela é mencionada. A
partir de lá, aprende-se que a arca não era muito grande. Tratava-se
de uma caixa de cerca de 110 centímetros de comprimento, e
70 centímetros de altura e de largura. Ela era revestida de ouro por
dentro e por fora, com uma tampa de ouro puro. Nela havia dois
querubins, ou anjos, de frente um para o outro nas extremidades. As
asas dos querubins estavam abertas e postadas para cima, próximas
uma da outra logo acima da tampa. Entendia-se que Deus habitava de
forma simbólica no espaço acima da tampa da arca, entre as asas dos
querubins. A arca era carregada por varas passadas por argolas
anexas a cada lado da arca. Quando a arca era movida, carregada
pelos sacerdotes, “Moisés dizia: Levanta-te, S , e dissipados
sejam os teus inimigos, e fujam diante de ti os que te odeiam”. Quando
parava, ele dizia: “Volta, ó S , para os milhares de milhares de
Israel” (Nm 10.35-36).
Então eis a primeira coisa importante. Quando o povo de Israel partiu
para atravessar o rio Jordão no início da invasão da Terra Prometida, o
próprio Deus seguiu adiante deles, como sempre deve ser o caso em
qualquer iniciativa espiritual bem-sucedida. Antes, quando Deus estava
pronto para liderar, eles se recusaram a segui-lo. Então, tentaram
avançar mesmo que Deus não liderasse. Em cada caso, o resultado foi
um desastre. A única maneira adequada de avançar em qualquer lugar
ou a qualquer momento é seguir a liderança de Deus. Só ele pode
conceder a vitória.
Ou seja, o significado da arca da aliança senso transportadas na frente
de todos no Jordão não consiste só em demonstrar que Deus deve
liderar toda iniciativa bem-sucedida, e sim que o próprio Deus deve
tomar a frente e ser seguido. O Deus que liderou Josué era o mesmo
que liderou Moisés e agiu por meio dele. O Deus da conquista era o
mesmo da saída do Egito — e assim por diante, no tempo de Abraão e
da criação. Deus é eterno; é sempre o mesmo em seu eterno ser.
A arca simbolizava isso. Ela era o símbolo da soberania, do poder ou
governo de Deus. O aspecto principal destacado pela travessia do
Jordão orientada pela arca era o mesmo poder divino em ação nesse
momento — como ocorrera antes quando o povo atravessou o mar
Vermelho sob a liderança de Moisés. Os dois milagres foram
intencionalmente paralelos. Deus não era menos soberano nessa
ocasião que 40 anos antes.
A arca era símbolo da santidade de Deus. Na caixa, ou baú, que era a
própria arca, havia as tábuas de pedra da lei que haviam sido dadas a
Moisés no monte Sinai. A arca era a fonte da expressão escrita do
caráter moral de Deus, o lembrete constante da santidade divina. A
violação da sua lei era uma afronta à sua natureza e uma rebelião
contra seu governo legítimo.
A arca também simbolizava a justiça de Deus. Não foi apenas o fato de
a justiça ter sido executada na presença da arca, embora isso fosse
verdade. (Quando Arão e Miriã falaram contra a autoridade de Moisés,
os três foram convocados à tenda da congregação, que continha a
arca, e Miriã foi julgada ali [Nm 12.1-15].) Antes, a arca era a imagem
do juízo de divino. Dentro dela estava a lei que o povo de Israel havia
transgredido. Acima, entre as asas dos querubins, a presença do Deus
três vezes santo. Quando olhava para baixo, Deus via a transgressão
da lei. Assim, a arca era o lembrete constante da necessidade do Juiz
de toda a terra fazer o que era certo. O juízo deve sobrevir ao pecado.
Mas isso não era tudo que a arca simbolizava. Se isso fosse tudo,
seria de fato uma imagem terrível. A arca também simbolizava a
misericórdia de Deus. A cobertura da arca era chamada “propiciatório”,
porque ali — uma vez por ano, no Dia da Expiação —, o sumo
sacerdote aspergia o sangue vertido momentos antes pelo pecado do
povo. O pecado do povo era confessado sobre a cabeça do animal, o
animal era morto no lugar das pessoas cujo pecado merecia a morte
(“o salário do pecado é a morte” [Rm 6.23]). Então o sangue era levado
para a parte mais sagrada do tabernáculo e aspergido sobre o
propiciatório — entre a santa presença de Deus e a lei transgredida
pelo povo. Desse modo, a arca testemunhava o princípio da expiação
substitutiva, o fato de que uma vítima inocente poderia morrer pelos
culpados. Esse princípio pode ser rastreado até o jardim do Éden,
quando o próprio Deus matou animais para Adão e Eva e os vestiu
com a pele deles. Isso culmina na morte de Jesus Cristo no Calvário.
Assim, a arca apontava para o caráter imutável de Deus. Ao nos
ensinar que Deus é sempre o mesmo em sua soberania, santidade,
justiça, misericórdia e demais atributos.

N
O segundo acontecimento relacionado à travessia do rio Jordão foi o
estabelecimento de um memorial de pedras retiradas do rio. O texto
diz:
Chamou, pois, Josué os doze homens que escolhera dos filhos de Israel, um
de cada tribo, e disse-lhes: Passai adiante da arca do S , vosso Deus,
ao meio do Jordão; e cada um levante sobre o ombro uma pedra, segundo o
número das tribos dos filhos de Israel, para que isto seja por sinal entre vós;
e, quando vossos filhos, no futuro, perguntarem, dizendo: Que vos
significam estas pedras?, então, lhes direis que as águas do Jordão foram
cortadas diante da arca da Aliança do S ; em passando ela, foram as
águas do Jordão cortadas. Estas pedras serão, para sempre, por memorial
aos filhos de Israel. (Js 4.4-7)
Há um problema técnico que deve chamar a atenção de qualquer
pessoa que leia atentamente o relato da colocação dessas pedras.
Claramente, os doze homens selecionados por Josué deveriam pegar
doze pedras do leito do rio Jordão e montá-las como um memorial na
margem oeste do rio. Esse não é o problema. A dificuldade vem do
fato de Josué no 4.9 dizer, literalmente, que Josué colocou doze
pedras no meio do Jordão no local onde estavam os sacerdotes que
carregavam a arca da aliança. Isso parece sugerir que havia de fato
dois memoriais: um feito de pedras retiradas do meio do Jordão e
erguidas na margem oeste de Gilgal e outra de pedras retiradas da
margem, mas erguidas no Jordão. É assim que as versões mais
antigas lidam com a passagem e, como resultado, a maioria dos
comentaristas (Meyer, Redpath, Schaeffer, Woudstra e outros) fala de
dois memoriais.
Havia dois memoriais? Poderia ser, é claro. Mas, em meu julgamento,
a New International Version [Nova Versão Internacional] está certa em
sua tradução ao pensar que o termo estavam deveria ser presumido no
versículo 9. Se sim, a frase diz respeito à colocação das “doze pedras
que que estiveram no meio do Jordão”, onde os sacerdotes haviam
ficado, em vez de colocar doze pedras adicionais no rio. Em outras
palavras, havia apenas um memorial.
Creio no acerto disso por duas razões. Primeira, o mandamento de
Deus a Josué e, por meio dele, ao povo diz respeito a apenas um
memorial. Josué poderia ter decidido adicionar o segundo por conta
própria, é claro, mas isso não está de acordo com seu caráter ou com
as instruções divinas para que ele obedecesse ao Senhor de maneira
implícita em todas as coisas, não se afastando da lei de Deus nem
para a direita ou para a esquerda. Seria mais comum Josué obedecer
ao mandamento específico de Deus e não acrescentar nada. Segunda,
ao contar a história, o versículo 9 parece explicar o que aconteceu com
as pedras retiradas do Jordão, não explicar como um conjunto
adicional de pedras foi colocado. Na sequência, somos informados
primeiro que os doze homens apanharam as pedras do Jordão e as
levaram ao acampamento (v. 8). Então nos dizem que o próprio Josué
as ergueu como memorial (v. 9). Também é significativo que, no final
do capítulo, quando as pedras são mencionadas de novo, nada se diga
sobre o segundo memorial no Jordão. Os versículos mencionam
apenas as pedras colocadas por Josué em Gilgal (v. 20).
Obviamente, se havia um memorial ou dois, o objetivo da ação era o
mesmo. As pessoas precisavam do memorial pois, como nós, tendiam
a se esquecer da bondade e dos poderosos atos divinos.
A história apresenta três razões específicas para este memorial.
Primeira, a geração que estava entrando na terra para conquistá-la
precisava de um memorial, pois o caminho a seguir seria difícil e
haveria momentos em que as pessoas ficariam desencorajadas. O
texto se refere a essa geração quando diz: “Cada um levante sobre o
ombro uma pedra, segundo o número das tribos dos filhos de Israel,
para que isto seja por sinal entre vós” (Js 4.5, 6). Ao retornar
regularmente a Gilgal, como o faziam, já que Gilgal era sua base de
operações, veriam as pedras e se lembrariam do poder e da fidelidade
do grande Deus que estava com eles, liderando-os na conquista.
Segunda, as gerações futuras precisariam do memorial, pois os filhos
se esquecem com facilidade da fé e as instruções dos pais. Essa razão
é destacada na história, no início e no fim do capítulo 4.
Quando vossos filhos, no futuro, perguntarem, dizendo: Que vos significam
estas pedras?, então, lhes direis que as águas do Jordão foram cortadas
diante da arca da Aliança do S ; em passando ela, foram as águas do
Jordão cortadas. Estas pedras serão, para sempre, por memorial aos filhos
de Israel. [...] Quando, no futuro, vossos filhos perguntarem a seus pais,
dizendo: Que significam estas pedras?, fareis saber a vossos filhos, dizendo:
Israel passou em seco este Jordão. Porque o S , vosso Deus, fez
secar as águas do Jordão diante de vós, até que passásseis, como o
S , vosso Deus, fez ao mar Vermelho, ao qual secou perante nós, até
que passamos. (Js 4.6, 7, 21-23)
Aqui, como em outras partes da lei, as pessoas são lembradas de
contar aos filhos os poderosos atos divinos na história passada, para
que os filhos não se esqueçam deles e permaneçam fiéis ao Deus de
seus pais.
Terceira, os povos da terra precisavam do memorial como testemunho
da existência e natureza do único Deus verdadeiro. O último versículo
do capítulo contém esta informação: “Para que todos os povos da terra
conheçam que a mão do S é forte, a fim de que temais ao
S ” (v. 24). Francis A. Schaeffer diz: “As pedras deveriam contar
às outras nações ao redor que esse Deus é diferente. Ele realmente
existe; ele é um Deus vivo, um Deus com poder real, que está presente
no mundo”.[12]

C
A terceira parte da história diz respeito à consagração do povo em
Gilgal pela reconstituição dos sinais da aliança da circuncisão e da
Páscoa. Isso ocorreu após a travessia do rio e antes do ataque a
Jericó.
O ponto interessante da reafirmação da aliança é exatamente o oposto
do que a sabedoria mundana aconselharia. Sem dúvida, isso ficou
claro para Josué e aos outros também, pois o relato do terror do povo
que vive na terra segue: “Sucedeu que, ouvindo todos os reis dos
amorreus que habitavam deste lado do Jordão, ao ocidente, e todos os
reis dos cananeus que estavam ao pé do mar que o S tinha
secado as águas do Jordão, [de diante dos filhos de Israel], até que
passamos, desmaiou-se-lhes o coração, e não houve mais alento
neles, por causa dos filhos de Israel” (Js 5.1). Para os cananeus, os
acontecimentos dos dias anteriores foram uma história de horror. Eles
já estavam aterrorizados o suficiente ao ver o exército de Israel —
cerca de dois milhões de soldados — espalhados pela margem leste
do Jordão. Era óbvio que os judeus pretendiam invadir as terras do
oeste. Era o período da cheia, ninguém podia atravessar a água.
Parecia que esse seria o tempo para sua preparação. De repente, as
águas deixaram de correr, o povo atravessou o rio e uma batalha era
iminente. A travessia súbita aterrorizou a todos.
A sabedoria mundana demandaria um ataque imediato, enquanto o
povo da terra estivesse desanimado e antes que pudesse fazer os
preparativos de última hora. Em vez disso, Deus pediu o adiamento de
três dias enquanto Israel observava os dois sacramentos.
Além disso, o sacramento da circuncisão deixou o exército totalmente
incapacitado por um tempo. Conhecemos os efeitos da circuncisão
pelo texto de Gênesis 34. Diná, irmã de Simeão e Levi, havia sido
violada por Siquém, filho do rei siquemita. Quando os siquemitas
quiseram resolver a questão e, mais tarde, se casar com as israelitas,
os filhos de Jacó insistiram que todo homem da cidade gentia fosse
circuncidado primeiro. Os siquemitas concordaram com a exigência,
mas essa era apenas uma armadilha dos filhos de Jacó. O texto nos
diz: “Ao terceiro dia, quando os homens sentiam mais forte a dor, [...]
Simeão e Levi, irmãos de Diná, tomaram cada um a sua espada,
entraram inesperadamente na cidade e mataram os homens todos”
(Gn 34.25). Os siquemitas ficaram incapacitados por causa do ritual,
mas foi precisamente esse ritual que Josué infligiu às próprias tropas
por ordem divina.
Esse era o momento em que Israel deveria ter atacado as forças
cananeias em Jericó. No entanto, se os exércitos de Jericó soubessem
da circuncisão dos judeus, deveriam ter saído da fortaleza e atacado
as tropas enfraquecidas. Humanamente falando, as ações dos judeus
constituíram uma loucura total.
Entretanto, a sabedoria divina não é como a humana. Era muito mais
importante os homens se reconciliarem com Deus que obterem uma
vantagem militar momentânea. As cerimônias tratavam disso. A
circuncisão era o sinal da aliança; significava integrar o povo da aliança
de Israel, como o batismo significa ser membro da comunidade da
aliança da igreja hoje. Era um selo divino para quem Deus havia
escolhido como seu povo, e a resposta humana às promessas de Deus
transmitidas na eleição. A Páscoa, cuja observância é descrita nos
versículos 10 a 12, era uma refeição memorial, como a ceia do Senhor
é um sacramento memorial para a igreja de Jesus Cristo hoje. Em
Gilgal, o povo deveria se lembrar da aliança, das promessas e dos atos
passados da libertação divina a fim de poderem viver como seu povo
nos dias que viriam pela frente.
Também precisamos aprender essa lição. Estamos sempre ansiosos
para seguir em frente com algum plano, e quanto maior o esforço e
mais rápido for executado, melhor. Precisamos aprender que esse nem
sempre é o caminho de Deus. O que fazemos é importante. Mas o que
somos é ainda mais importante. É mais importante que Deus tenha
nosso coração e mente que nossas espadas.
5. O Comandante do comandante (Josué 5.13-15)
Estando Josué ao pé de Jericó, levantou os olhos e olhou; eis que se
achava em pé diante dele um homem que trazia na mão uma espada nua;
chegou-se Josué a ele e disse-lhe: És tu dos nossos ou dos nossos
adversários?
Respondeu ele: Não; sou príncipe do exército do S e acabo de
chegar. Então, Josué se prostrou com o rosto em terra, e o adorou, e disse-
lhe: Que diz meu senhor ao seu servo?
Respondeu o príncipe do exército do S a Josué: Descalça as
sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é santo. E fez Josué assim.
(Js 5.13-15)
Os versículos que mencionam o encontro de Josué com o líder do
exército de Deus são um prólogo inesperado. A história da travessia do
rio Jordão e a consagração do povo e do exército prosseguiu com uma
consideração quase pomposa, espalhada ao longo de três capítulos.
Agora, de repente, justo quando estamos prontos para o relato do
ataque a Jericó, encontramos três versículos que contam como Josué,
ao andar perto de Jericó, de repente se deparou com a figura que se
revelou ser um comandante divino. Josué não o reconheceu a
princípio. Ele é descrito apenas como um homem com uma espada na
mão. Mas quando ele se identificou como o príncipe ou comandante do
exército do Senhor,[13] Josué se prostrou de imediato e o adorou.
Pode-se ter alguma dúvida sobre quem é o indivíduo? Ele não é nada
menos que Jeová, ao aparecer aqui, talvez, em uma manifestação pré-
encarnada da segunda pessoa da Trindade, o Senhor Jesus Cristo.

OA S
O relato, sem dúvida, sugere essa conclusão, pois o visitante
inesperado repeliria instantaneamente a adoração de Josué caso fosse
mero homem, como Paulo e Barnabé reagiram com horror quando os
homens e mulheres de Listra quiseram adorá-los como Zeus e Hermes
(v. At 14.8-20). Mas não é apenas por causa do que ocorreu em Atos
que estamos preparados para identificar o comandante não anunciado
com Deus. Fomos preparados para isso por histórias semelhantes no
AT.
A primeira história desse tipo está em Gênesis 3, na aparição de Deus
a Adão e Eva após a queda. Não somos informados sobre como Deus
lhes apareceu, mas a história não sugere uma teofania ou outro
acontecimento sobrenatural. O texto afirma apenas que o homem e a
mulher ouviram a voz do Senhor Deus que andava no jardim pela
viração do dia (cf. v. 8). O versículo parece sugerir que Deus apareceu
a Adão e Eva à semelhança de outro ser humano, ou pelo menos em
uma forma capaz de andar e conversar com eles.
Relato semelhante envolve a aparição dos três visitantes celestiais a
Abraão perto das árvores de Manre. Alguns comentaristas dizem que
os três visitantes sugerem a Trindade, e pode ser que seja. Os três
parecem ser considerados um e até falam como um. Todavia, é mais
provável — em vista do modo como a história é contada — que dois
dos três (os dois que foram a Sodoma e resgataram Ló) eram apenas
anjos e que o terceiro era a segunda pessoa da Trindade, em forma
semelhante à que havia aparecido a Adão e Eva.
Somos alertados disso no início da história: “Apareceu o S a
Abraão nos carvalhais de Manre, quando ele estava assentado à
entrada da tenda, no maior calor do dia” (Gn 18.1). No versículo 10, um
dos visitantes celestiais fala como Deus, prometendo que Sara teria
um filho na mesma época no próximo ano. No versículo 13, lemos:
“Disse o Senhor a Abraão [...]”. Mais adiante na história, quando
Abraão caminha com os homens para se despedir, o texto diz: “disse o
S : Ocultarei a Abraão o que estou para fazer?” (v. 17). Essas e
várias outras referências sugerem que Jesus antecipou a encarnação e
foi encontrado em forma humana mesmo antes de nascer em Belém.
A terceira história é sobre o homem que lutou com Jacó no vau do
Jaboque na noite anterior ao encontro de Jacó com Esaú.
Gênesis 32.24 chama essa figura “um homem”. Oseias 12.4, em um
comentário mais tardio e inspirado sobre a história, o chama “o anjo”.
Mas mesmo isso não diz tudo que precisa ser dito, a menos que
reconheçamos que este é “o anjo do S ”, ou seja, a figura divina
especial já observada em outras ocasiões. Ela lutou com Jacó para
levá-lo ao ponto de submissão e depois lhe deu um novo nome. Antes,
ele havia sido Jacó, cujo significado é “suplantador”, ou “enganador”.
Agora, usando a prerrogativa divina para refazer a criação e renomeá-
la, o anjo o chamou Israel, que significa “lutou com Deus e com
homens e venceu”.[14]
Ao que tudo indica, essa é a mesma figura que apareceu a Josué para
assumir o comando dos seus exércitos antes do ataque a Jericó.

O D
Mesmo aqui pode haver mais do que se supõe. Afirmei que essa figura
divina veio assumir o comando das forças judaicas, e isso é verdade.
Quando Josué pergunta que mensagem o Senhor tem para ele,
devemos entender que a figura lhe deu instruções para a ordem da
batalha de Jericó, instruções a serem seguidas no capítulo seguinte —
mesmo que não haja menção explícita. A figura, sem dúvida, assumiu
o comando das forças de Israel desse momento em diante, e durante
toda a campanha militar de 7 anos em Canaã.
No entanto, a expressão “o exército do S ”, em geral, significa
algo bem diferente nas Escrituras. Refere-se a exércitos de anjos.
Assim, provavelmente estamos certos em pensar nessa figura como o
comandante desse exército maior, que apoia Israel e ajuda em suas
batalhas.
Eis dois exemplos: No primeiro, em Gênesis 32.1-2 nos é dito que “os
anjos de Deus” encontraram Jacó e que ele nomeou o lugar onde os
viu Maanaim, que significa “dois acampamentos”. Essas legiões
celestes eram o exército de Deus, e sem dúvida elas foram reveladas a
Jacó para encorajá-lo e assegurar-lhe de que Deus seria sua defesa
contra qualquer ataque. “Dois acampamentos” refere-se ao
acampamento terrestre de Jacó e ao grande acampamento dos
exércitos de anjos.
No segundo, que ocorre um pouco mais tarde na história de Israel,
ocorre o envolvimento do profeta Eliseu. Ben-Hadade, rei da Síria,
lutava contra o rei de Israel. Mas toda vez que fazia planos para atacar
Israel, Deus revelava seus planos a Eliseu, e ele contava ao rei de
Israel, e as forças judaicas escapavam da armadilha. Naturalmente,
Ben-Hadade passou a acreditar que havia um traidor no alto comando.
E exigiu saber quem ele era. Os oficiais contaram-lhe a verdade e,
como resultado, ele decidiu capturar Eliseu. Eliseu estava em Dotã
com seu jovem servo, então Ben-Hadade marchou e cercou a cidade à
noite.
Na manhã seguinte, quando o servo de Eliseu acordou e saiu para tirar
água, viu que “tropas, cavalos e carros haviam cercado a cidade”
(2Rs 6.15). Ele ficou muito angustiado. “Ai! Meu senhor! Que
faremos?”, ele perguntou a Eliseu.
Eliseu respondeu: “Não temas [...] mais são os que estão conosco do
que os que estão com eles” (v. 16).
Então ele orou para que Deus abrisse os olhos do jovem, e quando o
fez, o servo “viu que o monte estava cheio de cavalos e carros de fogo,
em redor de Eliseu” (v. 17). Esses eram os exércitos dos anjos de
Deus. Eram forças poderosas. No combate, eles feriram os exércitos
do rei da Síria com cegueira, para que Eliseu pudesse levá-los à
cidade fortificada de Samaria e capturá-los.
O salmista fala muitas vezes do “S dos exércitos”, ou seja, de
Deus como Senhor destas hostes celestes. Lê-se no versículo 7 do
salmo 34: “O anjo do S acampa-se ao redor dos que o temem e
os livra”.
No NT, o Senhor Jesus Cristo falou desses exércitos a Pedro, dizendo:
“Acaso, pensas que não posso rogar a meu Pai, e ele me mandaria
neste momento mais de doze legiões de anjos?” (Mt 26.53).
Em minha opinião, a autodescrição feita pelo comandante se refere a
isso, de modo que deve ter sido um grande conforto e encorajamento
para Josué. Ele deve ter se perguntado como deveria proceder contra
Jericó. Tratava-se de uma fortaleza importante demais para ser
ignorada e deixada para trás. Na verdade, ela era bem fortificada.
Josué não conseguiria sitiar a cidade por um longo período enquanto
seus batalhões inexperientes se tornariam cada vez mais desanimados
e os exércitos cananeus reuniam forças para a batalha. O fato de o
Senhor surgir como o comandante das legiões celestiais deve ter lhe
dado bastante ânimo e assegurado a ele de que a força necessária
estaria disponível quando o ataque a Jericó ocorresse. E foi! O exército
do Senhor, e não o de Israel, demoliu os muros de Jericó e permitiu
sua derrubada.

P ?
Algo mais me interessa no relato. É a conversa entre Josué e o
comandante, no qual Josué pergunta: “És tu dos nossos ou dos nossos
adversários?”. “‘Nem uma coisa nem outra’, respondeu ele. ‘Venho na
qualidade de comandante do exército do S ’” (NVI).
Isso não é fascinante? Se estamos certos em entender esse indivíduo
como a segunda pessoa da Trindade que veio com o exército celestial
para defender Josué e garantir a conquista de Jericó (como creio), por
que ele não respondeu: “Dos teus. Eu sou por você e por Israel?”. Em
vez disso — apesar de sabermos que ele era a favor de Josué e, sem
dúvida, ajudou na batalha contra Jericó — o comandante respondeu
com uma negação. “Nem uma coisa nem outra”, disse ele. Ou seja:
“Eu não estou a seu favor nem dos seus inimigos. Estou aqui para
comandar os exércitos do S ”. O ponto da conversa parece que
Josué não deveria reivindicar a lealdade divina para sua causa, por
mais certa que fosse, mas sim Deus reivindicar a de Josué. Os dois
lutariam juntos, mas Josué seguiria o comandante dos exércitos do
Senhor em sua causa e batalhas, não o contrário.
Este é um princípio muito profundo. Alguns cristãos tendem a convocar
Deus para defender as causas deles, em vez de apenas seguir Deus
aonde quer que ele as leve. Como resultado, para quem está de fora, o
Deus do qual falam parece bastante partidário — não o Deus de todos
os homens e mulheres que ele realmente é.
Tempos atrás, o clérigo inglês e tradutor da Bíblia John B. Phillips
escreveu um livro a respeito de conceitos inadequados sobre Deus.
Fiquei muito impressionado com o livro e tive a oportunidade de me
referir a ele de várias maneiras ao longo dos anos. A primeira seção do
livro consiste em capítulos que lidam com vários deuses fracos: “O
policial onipresente”, “Reminiscências paternas”, “O ilustre ancião” e
assim por diante. Em um dos capítulos, intitulado “O Deus capturado”,
é uma análise do tipo de parcialidade que menciono. É uma discussão
sobre o Deus dos clérigos que o veem em grande parte como a
projeção das preocupações da própria denominação.
Ele escreve:
Todos os cristãos, seja qual for a igreja, repudiariam de pronto, é claro, a
ideia de que o seu deus seja o exato modelo de sua própria doutrina, e nós
não estamos aqui sugerindo que esse tipo de compreensão seja feito
conscientemente. Não obstante, abaixo do nível crítico do consciente, é
perfeitamente possível para um católico-romano, um batismo ou
presbiteriano etc., conceber um deus que esteja particularmente satisfeito
com o seu próprio grupo, cheio de dúvidas para com outros grupos ditos
cristãos, e abertamente contra todas as demais formas de cultos. O católico-
romano que afirma decisivamente que a ordenação de ministros feita pelas
denominações protestantes é “nula”, e que nenhuma “graça” é transmitida
através dos sacramentos realizados nas igrejas protestantes, está, em
última análise, adorando a um deus exclusivamente católico-romano, o qual,
só com muita relutância opera, (se é que opera), através dos outros canais
que não os católicos-romanos. Por outro lado, o evangélico mais radical é
obrigado a admitir honestamente que o deus que ele adora desaprova com
todo o vigor as vestimentas, os paramentos e o uso de velas no altear. A
tragédia desses exemplos poderiam ser reproduzidos diariamente ad
nauseam [repetidas à exaustão], não está na mera diferença de opiniões,
que continuará existindo até o dia do juízo final, e sim na ultrajante
insensatez, e no condenável pecado de se tentar considerar Deus como o
líder do partido que defende o ponto de vista particular de cada um.
O homem que não pertence a nenhuma igreja, não se sente tão envolvido
pelas diferenças denominacionais. Para ele, na sua feliz ignorância, essas
diferenças são meras variações psicológicas normais, de gosto e
temperamento diferentes, expressos na esfera religiosa. O que ele não
consegue engolir é a proclamação que cada um faz, de ser, o seu grupo,
com exclusividade, o certo. O seu julgamento é, obviamente, empírico, no
caso. Com efeito — não foi o que Cristo disse: “Pelos seus frutos os
conhecereis”? Pois então, se ele notasse que justamente aquela igreja que
reivindica para si com mais exclusividade, a qualidade de ser constituída
exatamente de acordo com as ideias do próprio Deus todo-poderoso,
estivesse realmente produzindo os melhores caracteres cristãos e
exercendo a mais legitima influência crista, demonstrando assim estar mais
cheia do Espírito vivo de Deus — talvez ele pudesse relevar as pretensões
de exclusividade. Mas o que ele constata está longe disso. Nenhuma igreja
detém o monopólio da graça de Deus, e nenhuma possui uma receita
exclusiva, que produza o caráter cristão. Dessa maneira, torna-se bem claro
ao observador de fora, que o verdadeiro Deus não se preocupa com os
compartimentos estanques denominacionais; ao contrário, “o Espírito sopra
onde quer” e não se submete a regulamentos humanos.[15]
O título do livro de Phillips é Seu Deus é pequeno demais. Mesmo ao
tentar expandir nossa ideia sobre Deus no livro, o título é o objetivo de
tudo. Se somos anglicanos com alta sensibilidade à liderança religiosa
e litúrgica; ou católicos romanos com crenças firmes sobre a sucessão
apostólica; ou independentes com medo do vínculo a formas ou rituais;
ou mesmo presbiterianos com muito respeito à teologia reformada, em
especial nas formas calvinistas, o Deus de nossa mente é sempre
menor que o Deus vivo e verdadeiro, apenas porque a mente (mesmo
que moldada pelas Escrituras) é pequena demais para concebê-lo ou
abrangê-lo por completo. Sempre somos surpreendidos e moldados
por Deus se, de fato, lidamos com ele e não passamos apenas pelas
formas externas da observância religiosa. “És tu dos nossos ou dos
nossos adversários?”, o cristão devoto pergunta. Jesus responde:
“Nem uma coisa nem outra. Venho como comandante do exército do
Senhor”.

T
O relato termina com a prostração de Josué diante do comandante.
Sem dúvida, Josué, a princípio, pensou que o indivíduo inesperado
fosse o que parecia — um homem e um soldado. Mas depois de se
identificar, Josué sabia que ele era Deus de Deus e, assim, prostrou-se
e o adorou. Ele perguntou: “Que diz meu senhor ao seu servo?”. O
comandante respondeu: “Descalça as sandálias dos pés, porque o
lugar em que estás é santo” (Js 5.15).
Você não conhece pessoas que se encaixam na descrição de Josué
após o encontro? Tenho falado de crentes partidários tão certos de que
Deus apoia sua denominação que se tornam intolerantes e
desagradáveis a todas as outras expressões de fé. Conhecemos
muitos deles. E pergunto: Você também não conhece pessoas que são
o exato oposto? Não é que não pertençam a uma denominação ou não
tenham fortes crenças sobre a verdadeira teologia da Bíblia, formas
apropriadas de governo da igreja ou adoração cristã. Eles são tudo,
menos vagabundos teológicos ou denominacionais. Essas pessoas
têm crenças fortes, mas também têm outra coisa. Têm uma visão
maior e mais grandiosa de Deus e, como resultado, seu interesse
primário não é saber se os outros colocaram todos os pingos nos is em
sentido teológico ou na sua denominação particular. Eles só estão
interessados em servir a Deus e esperam que ele conduza os outros à
sua maneira e no próprio tempo.
O que tornou essas pessoas cristãos assim? A resposta é bem
simples: elas realmente se encontraram com Deus, curvaram-se diante
dele e lhe perguntaram o que ele queria fazer com elas. Assim,
carregam o toque do céu e falam palavras que, de certa forma, são as
palavras de Deus.
Precisamos de pessoas assim, e precisamos segui-las.
6. Hora de gritar (Josué 6.1-27)
Gritou, pois, o povo, e os sacerdotes tocaram as trombetas. Tendo ouvido o
povo o sonido da trombeta e levantado grande grito, ruíram as muralhas, e o
povo subiu à cidade, cada qual em frente de si, e a tomaram. Tudo quanto
na cidade havia destruíram totalmente a fio de espada, tanto homens como
mulheres, tanto meninos como velhos, também bois, ovelhas e jumentos.
[...] Assim, era o S com Josué; e corria a sua fama por toda a terra.
(Js 6.20, 21, 27)
De acordo com o tenente-coronel Faris Kirkland, ex-professor de
Ciência Militar da Universidade da Pensilvânia, a palestra mais
emocionante que ele já ouviu versou sobre as táticas militares de um
antigo general. O palestrante era um visitante da sua turma, nem
mesmo um professor regular. Mas ele manteve os alunos fascinados
enquanto descrevia a estratégia militar desse homem: Um ataque
repentino no coração do território inimigo, dividindo suas forças e
fazendo jornadas para o sul e norte. Ele descreveu técnicas de guerra
psicológica, os elementos de velocidade, surpresa e terror.
Quem era esse antigo gênio militar? Os alunos sugeriram Alexandre, o
Grande, Napoleão, Júlio César, Átila o Huno. Só no final da palestra,
depois de esgotados todos os nomes possíveis, o professor revelou a
identidade daquele, cujas batalhas ele descrevera: Josué.

P :J
Da mesma forma, o brilhante marechal de campo britânico Edmund H.
Allenby também deve ter estudado o livro, pois adotou a estratégia de
Josué na libertação bem-sucedida da Palestina na Primeira Guerra
Mundial. A Palestina é um país montanhoso e a maior passagem por
ele é uma estrada de conexão que vai do sul ao norte através das
partes mais altas da terra. A estratégia de Josué (e de Allenby) era
dirigir-se ao oeste, do vale do Jordão até a estrada principal, dividindo
assim o país. Então, quando as forças inimigas estavam divididas,
primeiro eles destruiriam a oposição ao sul e depois a oposição ao
norte. Esse é o esboço da campanha militar descrita em Josué 6-11.
Antes de o país ser dividido, a tropa tinha de ser conduzida do vale do
rio Jordão até as montanhas. O primeiro obstáculo foi Jericó. Tratava-
se de uma fortaleza militar construída para defender a aproximação ao
leste até a parte alta do território. Não havia como contorná-lo; isso
significaria deixar uma grande força militar na retaguarda. Entretanto,
conquistar Jericó era um desafio desanimador. As muralhas de Jericó
eram altas, sua posição vantajosa. O que Josué deveria fazer com um
obstáculo dessas proporções?
Se Josué tivesse convocado um conselho de guerra, não é difícil
imaginar o que poderia ter sido dito. Um consultor poderia ter
argumentado que a maneira de tomar cidades fortificadas consiste em
usar rampas de cerco. Um acesso deveria ser construído para o topo
das paredes. (Assim os romanos tomaram cidades fortificadas mais de
mil anos depois.) Outro poderia ter argumentado sobre a necessidade
de deixar os defensores de Jericó em estado de submissão. “Feche a
cidade”, ele argumentaria. “Eles não podem aguentar para sempre.
Mais tarde, chegarão a um acordo, abrirão os portões da cidade e se
renderão”.
A história mostra que Josué não adotou nenhum desses conselhos; de
fato, nem sequer os buscou. Ele já estava em contato com quem era o
verdadeiro estrategista e comandante.
O verdadeiro comandante, que conhecemos no final do capítulo 5,
tinha um plano único para esta batalha. Ele disse a Josué:
Olha, entreguei na tua mão Jericó, o seu rei e os seus valentes. Vós, pois,
todos os homens de guerra, rodeareis a cidade, cercando-a uma vez; assim
fareis por seis dias. Sete sacerdotes levarão sete trombetas de chifre de
carneiro adiante da arca; no sétimo dia, rodeareis a cidade sete vezes, e os
sacerdotes tocarão as trombetas. E será que, tocando-se longamente a
trombeta de chifre de carneiro, ouvindo vós o sonido dela, todo o povo
gritará com grande grita; o muro da cidade cairá abaixo, e o povo subirá
nele, cada qual em frente de si. (Js 6.2-5)
Do ponto de vista humano, nada poderia ter sido mais inútil, apesar da
necessidade óbvia de atacar o posto militar. Altas muralhas não caem
com o barulho de pés a marchar. Cidades não são vencidas por
trombetas.
No entanto, foi exatamente o que aconteceu. O relato descreve como o
povo seguiu os mandamentos do Senhor. Todos os dias, durante seis
dias, as pessoas andaram em silêncio em torno da cidade que os
vigiava e, no sétimo dia, repetiram o exercício de aparência fútil
7 vezes. Ninguém falou nada. O único barulho era o som das
trombetas de chifre de carneiros tocadas pelos sacerdotes. Então, na
sétima vez do sétimo dia, quando a cidade estava totalmente cercada
pelos exércitos judeus, Josué ordenou ao povo: “Gritai, porque o
S vos entregou a cidade!” (v. 16). O povo gritou! Era a hora de
gritar! “Gritou, pois, o povo, e os sacerdotes tocaram as trombetas.
Tendo ouvido o povo o sonido da trombeta e levantado grande grito,
ruíram as muralhas, e o povo subiu à cidade, cada qual em frente de
si, e a tomaram” (v. 20).
Jericó foi destruída como Deus ordenou a Josué. Apenas Raabe e sua
família foram poupadas pelo fato de ela ter salvado a vida dos dois
espias.

C
Eu estava em uma reunião na qual um pastor relatava os avivamentos
que estão ocorrendo na Argentina, um país da América do Sul. Esse
país é amplamente aberto ao evangelho e dezenas de milhares de
pessoas vêm com regularidade à fé em Cristo em grandes reuniões ao
ar livre. O mais impressionante no avivamento relatado a mim foi a
preparação, ocorrida duas décadas antes. Nessa época, os líderes da
igreja argentina começaram a orar pelo avivamento e se perguntaram
o que deveriam fazer para se preparar para a bênção pedida a Deus.
Onde colocariam as pessoas que estavam pedindo para serem
convertidas? Como discipulariam as pessoas acrescidas à igreja? Seu
plano era treinar líderes para igrejas grandes e estabelecer fortes lares
cristãos com a prática de aconselhamento e discipulado.
Penso nesse relato ao estudar a descrição da conquista de Jericó
pelos judeus, pois uma coisa muito clara é a ocorrência de preparação
antes do grito da vitória. Parte da preparação começara 40 anos antes
com Josué, Calebe e os soldados treinados no deserto. Mais
preparação ocorreu depois da travessia do rio Jordão. Houve a
reinstituição do rito pactual da circuncisão e a nova observância da
Páscoa. O povo deveria se reconciliar com Deus antes do
derramamento completo da bênção divina.
Mas a preparação não parou por aí. De fato, continuou até o momento
do grito. Tudo antes desse momento serviu para a preparação do
coração das pessoas. A história enfatiza três etapas:
1. Silêncio. O primeiro passo na preparação do povo para a semana
culminante foi o comando de permanecer em silêncio. Eles deveriam
ficar completamente quietos enquanto cercavam a cidade condenada.
Seus lábios não deviam falar uma palavra. O texto diz: “Porém ao povo
ordenara Josué, dizendo: Não gritareis, nem fareis ouvir a vossa voz,
nem sairá palavra alguma da vossa boca, até ao dia em que eu vos
diga: gritai! Então, gritareis” (Js 6.10).
Isso deve ter sido algo difícil para o povo. Por um lado, havia milhões
de pessoas, e é difícil imaginar um grande grupo de pessoas se
movendo para qualquer lugar sem um zumbido tornando-se cada vez
mais barulhento até se tornar um rugido. Soldados entravam na fila,
crianças acompanhavam tudo, e uma rota deveria ser apontada e
tomada. Não sei como isso pôde ser realizado em silêncio, mas foi o
que o povo fez. Além disso, o povo teria dificuldade em ignorar as
provocações dos cidadãos de Jericó cercados. No primeiro dia, é
provável que os cananeus também tenham ficado quietos, observando
o que os exércitos circundantes fariam. Seria bizarro: uma força de
ataque silenciosa observada por defensores silenciosos. Mas o silêncio
dificilmente teria durado além do segundo dia. A essa altura, os
defensores começariam a zombar dos soldados judeus: “O que
pensam que estão fazendo, marchando em volta dos nossos muros?
Acham que somos tão tolos e deixamos uma porta aberta em algum
lugar? Estão com medo de lutar? Por que não tentam entrar?
Mostraremos como uma cidade deve ser defendida. Covardes!”. Sob
tais circunstâncias, deve ter sido difícil para o povo judeu ficar em
silêncio.
O que você acha que eles estavam pensando? Suspeito que deveriam
pensar que não havia a possibilidade de conquistar Jericó, a menos
que Deus a entregasse. Os muros de Jericó eram altos. Os portões
estavam fechados. Cada círculo nas paredes os ajudaria a perceber
que, se houvesse uma vitória, teria de ser dada por Deus.
Essa é a lição que todos precisamos aprender: o silêncio diante de
Deus. O evangelista argentino Luis Palau escreveu: “Que bem raro!
Quão difícil é conquistar. Se não estamos usamos palavras para falar,
existem mil vozes mentais em nossos pensamentos, cada uma
disputando a última palavra. Ouvir a Deus? Como ele poderia dizer
alguma coisa? A passagem parece dizer: ‘Silêncio. Não fale tanto.
Fique quieto diante do Senhor depois de derramar seu coração a ele.
Deixe Deus falar”.[16]
Frederick B. Meyer chama o “silêncio” de o mais difícil de todos os
mandamentos:
Que nossa voz não seja ouvida; que nenhuma palavra proceda de nossa
boca; que expressemos nossas queixas só a Deus — tudo isso é alheio aos
nossos hábitos e gostos. Como a morte é o último inimigo a ser destruído no
universo de Deus, o ato de refrear a língua é a última lição aprendida por
seus filhos. Gostamos de expor nossas queixas; conversar sobre nossos
males; comparar-nos com outras pessoas; e conversar sobre os remédios
mais prováveis. Contamos nossos segredos a amigos sob estritas
promessas de confiança, para descobrirmos a amarga experiência na
verdade dita pelo Mestre: o que se diz em segredo será proclamado aos
quatros ventos.
Apenas o coração quieto pode refletir a paz do cuidado extensivo de Deus,
ou detectar o mínimo sussurro de sua voz através da sua atmosfera
tranquila, ou conhecer toda a sua graça e poder.[17]
2. Obediência. A obediência foi o segundo passo na preparação do
povo para a conquista de Jericó. Ela é parte essencial da fé
verdadeira, e por isso, suponho, que as ações do povo são citadas em
Hebreus como demonstração de fé: “Pela fé, ruíram as muralhas de
Jericó, depois de rodeadas por sete dias” (Hb 11.30, grifo meu).
O que mais honra a Deus e o que ele mais gosta de honrar? A
profissão eloquente de fé? Não. Muitos chamaram Jesus de “Senhor,
Senhor”, mas depois caíram e deixaram de servi-lo. O exercício de
grandes habilidades ou talentos naturais? Não. Muitos tiveram grandes
habilidades, mas as desperdiçaram em fins inúteis, como o pródigo
que desperdiçou o dinheiro do pai. A aparência ou personalidade
atraente? Não. Saul era muito melhor que seus compatriotas, um
grande atleta, mas terminou a jornada de maneira ruim. A verdadeira
resposta para a pergunta é encontrada nas palavras de Samuel a Saul
depois que ele pecou ao não destruir os amalequitas por completo — o
que Deus havia lhe dito para fazer. Saul implorou dizendo que quase
os havia destruído inteiramente e que poupou o que poupou apenas
para oferecer como sacrifício. Mas Samuel declarou:
Tem, porventura, o S tanto prazer em holocaustos e sacrifícios
quanto em que se obedeça à sua palavra?
Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar,
e o atender, melhor do que a gordura de carneiros. (1Sm 15.22)
Essa é a resposta. O que mais honra a Deus e o que Deus mais gosta
de honrar é a obediência. Até mesmo Jesus foi honrado e recebeu um
nome sobre todo nome porque foi obediente: “... Obediente até à morte
— e morte de cruz” (Fp 2.8).
3. Obediência até o fim. O terceiro passo na preparação do povo judeu
para a vitória foi a obediência até o fim. O ponto se conecta ao anterior,
é claro, pois a obediência incompleta não é obediência verdadeira; é
desobediência, como mostra a história do fracasso de Saul em
aniquilar os amalequitas. Só é necessário destacar isso como ponto
separado por causa da incapacidade frequente de continuar nesse
caminho.
A conquista de Jericó destaca essa proeza dos invasores judeus. A
leitura cuidadosa da história mostra que Josué não disse às pessoas
quantas vezes seria necessário circular pela cidade ou precisamente o
que aconteceria no final dos 7 dias de marcha. As pessoas recebiam
suas instruções um dia de cada vez e, ao final da sua missão diária,
cercando os muros, eram encaminhadas de volta ao acampamento. E
nada aconteceu! Eles haviam obedecido a Josué, que estava
obedecendo a Deus. Cercaram os muros. Mas quando voltavam ao
acampamento, os muros ainda estavam de pé, ninguém havia se
rendido, e o exércitos deles parecia não estar mais próximo da
conquista final de Canaã que no dia anterior. E assim foi depois no
segundo dia... No terceiro... Quarto... Quinto... Sexto... O mesmo
aconteceu depois de 6 voltas ao redor dos muros no sétimo dia.
Essa situação me lembra o que deve ter acontecido depois de Eliseu
ter dito ao general sírio Naamã que ele seria curado da lepra se
tomasse banho no rio Jordão sete vezes. Sabemos que ele não gostou
da ideia, pois protestou sobre a inferioridade do rio Jordão em relação
aos rios de seu próprio país. “Pensava eu que ele sairia a ter comigo,
pôr-se-ia de pé, invocaria o nome do S , seu Deus, moveria a
mão sobre o lugar da lepra e restauraria o leproso. Não são,
porventura, Abana e Farfar, rios de Damasco, melhores do que todas
as águas de Israel? Não poderia eu lavar-me neles e ficar limpo?”,
Naamã perguntou (2Rs 5.11-12)
Deve ter sido uma grande provação para esse orgulhoso general ter de
mergulhar nas águas barrentas do Jordão 7 vezes, e posso imaginá-lo
a retrucar a seu servo que, na história, contava com mais senso
espiritual que Naamã. Depois de banhar-se, Naamã protestaria assim:
“Olhe, mergulhei no rio, mas estou como antes. Nada aconteceu”.
“O profeta disse que você deveria mergulhar sete vezes”, respondeu o
servo.
Após a segunda imersão, o protesto teria sido o mesmo. Não havia
nem o menor indício de que o método funcionava. Nem uma única
mancha havia saído. A diferença era que o general estava molhado e
lamacento. Assim após a terceira lavagem e a quarta e a quinta e a
sexta. “Nada está acontecendo”, teria declarado Naamã, bravo.
“Você só mergulhou na água seis vezes” diria o servo. “O profeta disse
sete”. Foi somente após o sétimo mergulho, depois da total obediência
até o fim, que “a sua carne se tornou como a carne de uma criança, e
ficou limpo” (2Rs 5.14).
Precisamos aprender a lição que os exércitos judeus aprenderam
diante de Jericó e Naamã, o sírio, aprendeu no lamacento rio Jordão.
Não só inexiste substituto para a obediência a Deus, como também
não há substituto para a obediência em todos os aspectos — até o fim.
E quando Deus não age tão rápido quanto desejamos ou atua
exatamente como estamos convencidos de que ele deveria fazer,
ainda assim, não temos justificativa para recuar ou adotar um
procedimento alternativo. Sobre essa história Arthur W. Pink escreveu:
“O fracasso aparente não os justificaria na adoção de outras medidas;
eles deveriam seguir de forma estrita as instruções divinas até o fim”.
[18] A vitória veio e os muros caíram só quando o povo obedeceu a
Deus com fidelidade.

D
Encerro com duas aplicações. Primeira, sendo você cristão, também é
um soldado do exército de Deus e está envolvido na guerra em que
muitas fortalezas inimigas precisam ser conquistadas. Nós as vemos
em todos os lugares. Existem fortalezas do mal em nossa terra, na
igreja e, devemos confessar, em nós mesmos. Elas são cercadas por
muros altos. Os portões estão fechados. Elas são controladas por
defensores fortes e experientes. O que fazer contra os fortes dos
inimigos de Deus e nossos? A resposta é: Devemos atacá-los como
Deus nos disse para travar guerra: por meio da oração, pela Palavra
de Deus e pelo nosso testemunho. Quando olhamos para as forças do
mal, podemos pensar que as armas antigas da igreja são inadequadas
e ficar muito tentados a abandoná-las e a usar os instrumentos do
mundo. Isso é um erro. Precisamos ouvir a Deus e obedecer fielmente
até o fim. Quando o fizermos, no tempo de Deus, os muros das
fortalezas de Satanás cairão.
O apóstolo Paulo escreveu: “Porque as armas da nossa milícia não
são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas”
(2Co 10.4).
O livro do Apocalipse fala da batalha dos santos contra Satanás: “Eles,
pois, o venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da
palavra do testemunho que deram” (Ap 12.11).
Segunda, se você não é cristão — se ainda está armado contra o
Senhor Jesus Cristo, o justo governador do mundo e de tudo que nele
há — lembre-se de que a vitória conquistada pelos judeus em Jericó,
seguida da destruição da cidade inteira é uma figura do que sem
dúvida ocorrerá com você no dia do juízo divino. Você fechou seu
coração contra Deus, levantou defesas nas muralhas da sua vida, e
embora esteja tremendo, recusa-se a se arrepender do pecado e a se
voltar para Deus para receber a purificação. Que loucura! Como você
pode esperar enfrentar o único Deus soberano do universo? Se você
não chegar a um acordo com Deus agora, se continuar resistindo, você
perecerá no juízo final, e sua destruição será justa.
A Bíblia nos diz: “Beijai o Filho para que se não irrite, e não pereçais no
caminho” (Sl 2.12).
Raabe fez assim. A Bíblia diz que o exército judeu queimou “a cidade e
tudo quanto havia nela [...] mas Josué conservou com vida a prostituta
Raabe, e a casa de seu pai, e tudo quanto tinha; porquanto escondera
os mensageiros que Josué enviara a espiar Jericó” (Js 6.24-25). A
posição dela não era melhor nem pior que a sua, e ela foi salva. Por
que a experiência dela não deveria ser a sua? Por que você também
não deve escapar da ira pela fé no Deus de Israel?
7. Pecado no acampamento (Josué 7.1-8.29)
Então, Josué rasgou as suas vestes e se prostrou em terra sobre o rosto
perante a arca do S até à tarde, ele e os anciãos de Israel; e deitaram
pó sobre a cabeça. Disse Josué: Ah! S Deus, por que fizeste este
povo passar o Jordão, para nos entregares nas mãos dos amorreus, para
nos fazerem perecer? Tomara nos contentáramos com ficarmos dalém do
Jordão. Ah! S , que direi? Pois Israel virou as costas diante dos seus
inimigos! Ouvindo isto os cananeus e todos os moradores da terra, nos
cercarão e desarraigarão o nosso nome da terra; e, então, que farás ao teu
grande nome?
Então, disse o S a Josué: Levanta-te! Por que estás prostrado assim
sobre o rosto? Israel pecou, e violaram a minha aliança, aquilo que eu lhes
ordenara, pois tomaram das coisas condenadas, e furtaram, e dissimularam,
e até debaixo da sua bagagem o puseram. Pelo que os filhos de Israel não
puderam resistir aos seus inimigos; viraram as costas diante deles,
porquanto Israel se fizera condenado; já não serei convosco, se não
eliminardes do vosso meio a coisa roubada. (Js 7.6-12)
Que linha tênue há entre uma grande vitória e uma grande derrota. Em
um momento, marcha-se triunfante em grande sucesso espiritual. No
momento seguinte, mergulha-se no vale tenebroso de alguma falha
espiritual sombria. Em um momento, somos como Elias em pé no
monte Carmelo, fazendo chover fogo no altar de Deus. No momento
seguinte, somos Elias no Horebe, queixando-se a Deus: “Eu fiquei só,
e procuram tirar-me a vida” (1Rs 19.10).
Foi assim com Josué. Quando as pessoas pensam em Josué, a
maioria pensa na vitória dos exércitos de Israel em Jericó, a grande
cidade murada que ficava na entrada da Terra Prometida. É certo
pensar assim. A vitória dos israelitas em Jericó foi uma grande,
realizada em estrita obediência ao plano de batalha de Deus e pelo
poder dele para derrubar as imponentes muralhas de pedra da cidade.
Mas esse é o capítulo 6. Em Josué 7.1-5 vemos a terrível derrota do
exército em Ai, uma cidade muito menor. É a única derrota das forças
invasoras registradas em Josué, e contém o único relato da morte de
judeus em combate. O que causou essa mudança? Como essa derrota
poderia ocorrer logo após a grande vitória?
Os comentaristas apresentam muitas explicações.
Alguns sugerem que os israelitas estavam muito autoconfiantes, algo
evidente na história. Ai era uma cidade menor que Jericó, assim, o
argumento continua: “Não suba todo o povo; subam uns dois ou três
mil homens, a ferir Ai; não fatigueis ali todo o povo, porque são poucos
os inimigos” (v. 3). O povo havia esquecido de que Deus lhe entregou
Jericó, não as tropas.
Outros pensam que a derrota em Ai se deve à falta de oração, em
especial por parte de Josué, que deveria ter consultado o Senhor para
ordenar a batalha em Ai. Aparentemente, ele não fez isso; agiu de
acordo com as recomendações dos soldados.
Quando se lê o relato da derrota de Israel em Ai, depreende-se, de
fato, a presença de cada um desses elementos, como sugerem os
comentaristas. Mas essas não são as razões apresentadas pelo
próprio Deus para o desastre. A explicação divina foi a seguinte: Havia
pecado no acampamento de Israel. Após a derrota e a compreensível
consternação de Josué, que se prostrou diante do Senhor,
perguntando: “Ah! S Deus, por que fizeste este povo passar o
Jordão, para nos entregares nas mãos dos amorreus, para nos
fazerem perecer?” (Js 7.7), Deus respondeu: “Levanta-te! Por que
estás prostrado assim sobre o rosto? Israel pecou, e violaram a minha
aliança, aquilo que eu lhes ordenara, pois tomaram das coisas
condenadas, e furtaram, e dissimularam, e até debaixo da sua
bagagem o puseram. Pelo que os filhos de Israel não puderam resistir
aos seus inimigos” (Js 7.10-12).
Devemos aprender com isso que Deus leva o pecado a sério, mesmo
que não o levemos; o pecado é a causa real da derrota do povo de
Deus.

N
O registro do que aconteceu com Acã foi feito para nossa edificação,
para nos mostrar como o pecado começa e progride se não for
confessado desde cedo e abandonado.
Acã era um dos soldados de Israel na batalha de Jericó. Ele estava do
lado certo do conflito, mas foi desobediente. Um dos mandamentos
divinos prescrevia a destruição total da cidade de Jericó. Todos os
artigos de metal (ouro, prata, bronze, ferro) deveriam ser levados ao
tesouro do Senhor como primícias da conquista, e todo o resto deveria
ser consumido pelo fogo. As pessoas deveriam ser mortas. Acã ouviu
essas ordens com todos os outros. Todavia, quando entrou na cidade e
viu alguns itens proibidos diante de si, cobiçou o que viu e os pegou.
Como mais tarde confessou diante de Josué: “Quando vi entre os
despojos uma boa capa babilônica, e duzentos siclos de prata, e uma
barra de ouro do peso de cinquenta siclos, cobicei-os e tomei-os; e eis
que estão escondidos na terra, no meio da minha tenda, e a prata, por
baixo” (v. 21). O fato de Acã ter escondido os despojos mostra que ele
sabia estar fazendo algo errado. O juízo divino recaiu sobre todo o
povo no próximo encontro militar por esse pecado voluntário.
O que levou Acã ao triste ato de desobediência? Sugiro os seguintes
elementos fundamentais. Acã:
1. Estava insatisfeito. Ou seja, ele estava insatisfeito como Deus
ordenara as questões da sua vida. É verdade que Deus conduzia Acã,
com os outros membros da nação, à nova terra de grande riqueza e
oportunidades. Era um local em que cada família deveria possuir a
própria terra, casa própria e sentar-se sob suas videiras e figueiras.
Mas a mente de Acã não se fixou nas bênçãos vindouras. Ele pensava
no passado, provavelmente assim: “Deus não tem nos tratado muito
bem nos últimos anos de peregrinação. É verdade que ele nos deu
maná para comer e que impediu que nossas roupas se desgastassem.
Mas você pode imaginar como é horrível usar as mesmas roupas por
quarenta anos e comer a mesma comida dia após dia e nunca ter
dinheiro de verdade para economizar para o futuro? Já passei por
muito na vida. Seguir a Deus pode satisfazer aos outros, não a mim.
Na primeira chance que tiver, vou melhorar minha situação”.
A insatisfação de Acã — um pecado — gerou a desobediência.
Este é geralmente o caso. Quando Satanás pecou e se rebelou contra
Deus, a insatisfação com sua posição no mundo de Deus o levou a
isso. Ele era criatura; Deus era o Criador. Mas ele queria ser como
Deus, e disse: “Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei
o meu trono e no monte da congregação me assentarei, nas
extremidades do Norte; subirei acima das mais altas nuvens e serei
semelhante ao Altíssimo” (Is 14.13-14). A insatisfação consistiu na raiz
do pecado de Satanás, e o pecado entrou no universo por conta da
rebelião contra Deus — que o havia criado como ele era.
O mesmo ocorreu com Adão e Eva, quando o pecado entrou na família
humana. Deus criou Adão e Eva perfeitos em todos os aspectos. Mas
quando Satanás chamou a atenção de Eva para o fato de ela e seu
marido não serem “como Deus, conhecedores do bem e do mal”
(Gn 3.5), ele plantou a semente da insatisfação e preparou o terreno
para seu triunfo.
Isso também não acontece com a gente? Não estou sugerindo que
qualquer seguidor de Cristo se satisfaça com um curso de discipulado
de segunda categoria, ainda menos com desobediência. Existe uma
forma adequada de ambição espiritual. Até o apóstolo Paulo disse:
“Esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as
que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da
soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Fp 3.13-14). Mas esse
mesmo apóstolo, na mesma carta em que escreveu sobre o progresso
para ganhar o prêmio do chamado de Cristo, também disse: “De tudo e
em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como
de fome; assim de abundância como de escassez” (Fp 4.12). O
segredo de Paulo era lutar pela glória de Cristo, não pela que lhe
pertencia, e estar disposto a alcançar esse fim como Deus lhe
propusesse.
2. Cobiçou o que não lhe pertencia. Sob as regras da guerra, o
conquistador pode apreender as posses do derrotado, e talvez Acã
estivesse pensando assim. Contudo, esse foi seu erro. Acã pode ter
sido parte do exército invasor e pode ter empunhado sua espada
efetivamente, mas ele não foi o conquistador de Jericó. Os outros
soldados judeus também não foram conquistadores. Deus a
conquistou. Deus entregou a cidade de Jericó aos exércitos de Israel, e
ele (não Josué ou qualquer outro general) exigiu a entrega dos
despojos da batalha ao tesouro do templo e a destruição de todo o
resto. Por isso Deus explicou a derrota a Josué dizendo: “Pois
tomaram das coisas condenadas, e furtaram, e dissimularam, e até
debaixo da sua bagagem o puseram” (Js 7.11, grifos acrescidos).
No valioso comentário sobre Josué, Francis Schaeffer afirmou se
referiu com sabedoria sobre a natureza dos itens que Acã pegou. Ele
pegou dois tipos de coisas: ouro e prata — sugestões do pecado do
materialismo de Acã — e “uma boa capa da Babilônia” — que sugere o
desejo de estar na moda, ter sucesso ou ser chique. Babilônia era uma
cidade conceituada. Nos anos posteriores, foi uma força esmagadora;
de fato, venceu Israel em 586 a.C. Mesmo nesse período da história, o
material babilônico era considerado extraordinário ou elegante.
Quando Acã viu a túnica com o trabalho e o estilo sofisticado de
Babilônia, percebeu a chance de ser como o mundo em seu sucesso e
moda exteriormente visível, e, portanto, pegou a roupa.[19]
Não precisamos nos esforçar para aplicar esse passo na queda de Acã
à própria vida, pois o materialismo e o mundanismo são talvez os dois
pecados mais aparentes da nossa era. Precisamos erradicar a cobiça
de nossa existência. “Não cobiçarás” é o décimo mandamento. É a raiz
do pecado por trás de todas as outras violações. Nada destruirá com
tanta rapidez a vida cristã como a insatisfação com os planos de Deus
— que leva ao desejo desenfreado do que Deus não concedeu ou
outorgou a outra pessoa.
3. Roubou os objetos. Ou seja, a insatisfação e cobiça de Acã, falhas
internas e invisíveis, levaram a ações pecaminosas. Acã roubou; ele
dissimulou (ele escondeu os metais preciosos e a roupa) e mentiu.
Sempre acontece assim. Podemos pecar na mente e, em seguida, pela
graça de Deus sermos levados a confessar e repudiar o pecado antes
de colher suas consequências. Contudo, se não nos arrependermos do
pecado oculto, ele inevitavelmente irromperá em público. Tiago diz:
“Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus
não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. Ao
contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o
atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o
pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte” (Tg 1.13-15).
O terrível avanço do pecado deveria nos fazer nos guardar até mesmo
contra as insatisfações mais “inocentes”.

O
A Bíblia nos diz que os pecados secretos da vida serão revelados no
juízo final. Mas nem sempre leva muito tempo para a exposição do
pecado. Foram necessários apenas alguns minutos no caso de Acã.
Sob o comando de Deus, a sorte foi lançada e uma tribo das doze foi
selecionada, depois um clã dentre os numerosos clãs dessa tribo,
seguido por uma das famílias desse clã e, finalmente, uma pessoa
dentre as várias pessoas nessa família. A pessoa escolhida foi Acã, da
família de Zinri, do clã de Zerá, da tribo de Judá.
“Declara-me, agora, o que fizeste; não mo ocultes”, disse Josué a Acã.
Acã respondeu: “Verdadeiramente, pequei contra o S , Deus de
Israel, e fiz assim e assim. Quando vi entre os despojos uma boa capa
babilônica, e duzentos siclos de prata, e uma barra de ouro do peso de
cinquenta siclos, cobicei-os e tomei-os; e eis que estão escondidos na
terra, no meio da minha tenda, e a prata, por baixo” (Js 7.20-21).
A história continua no que penso serem as palavras mais arrepiantes
do relato: “Então, Josué enviou mensageiros que foram correndo à
tenda; e eis que tudo estava escondido nela, e a prata, por baixo.
Tomaram, pois, aquelas coisas do meio da tenda, e as trouxeram a
Josué e a todos os filhos de Israel, e as colocaram perante o S ”
(v. 22-23, grifos acrescidos).
Os objetos roubados foram exibidos diante do povo. Mas a parte mais
assustadora da história é que foram colocados diante do Senhor.
Foram colocados diante dos olhos do Deus santo, como todo pecado
será.
A história termina com a morte de Acã, quando o povo de Israel o
apedrejou (e aparentemente, com toda a sua família) como punição
pelo pecado que trouxe derrota ao exército e desonra ao nome de
Deus. Depois disso, as bênçãos de Deus retornaram a Israel e Ai foi
destruído.
Aqui é onde Francis Schaeffer encontra ainda outra grande
continuidade neste livro do AT. Josué é, como vimos, a ponte entre os
anos de peregrinação e os do estabelecimento, entre preparação e
posse. Schaeffer falou antes sobre a existência da Palavra de Deus
escrita, a evidência do poder divino e imutável e da presença do líder
sobrenatural. Para isso, acrescentou a continuidade da aliança. Eia a
continuidade do juízo. Quando Acã pecou, a bênção de Deus cessou
para o povo de maneira corporativa; quando o juízo foi aplicado, as
bênçãos retornaram e a vitória se seguiu.
Schaeffer diz:
Esse processo simples e profundo explica todo o restante do Antigo
Testamento. Ele explica o período dos juízes, o dos reis, os cativeiros sob a
Assíria e a Babilônia, a volta dos judeus da Babilônia e a dispersão dos
judeus no 70 d.C. sob Tito. Ele explica Romanos 9 a 11, que fala dos judeus
afastando-se de Deus e, contudo, voltando para Deus no futuro, e ainda
uma vez, como nação, sendo o povo de Deus. Primeiro vem a bênção;
então, se entra o pecado, o julgamento vem. Se o povo de Deus se volta
para ele depois do julgamento, a bênção recomeça e se derrama.
Esse processo é tão universal quanto qualquer continuidade que temos
estudado até aqui. É o princípio do julgamento de Deus sobre o seu povo.
Ele é imutável ao longo de toda a Escritura, porque Deus realmente está ali.
Deus é um Deus santo, Deus ama o seu povo e Deus trata o seu povo de
modo consistente.[20]
A continuidade também se estende ao nosso tempo. No NT, vemos
esse princípio na história de Ananias e Safira, julgados por Deus por
mentirem aos líderes da igreja primitiva sobre a venda de suas terras e
sobre a oferta de parte do valor para a obra de Deus. Em nosso tempo,
vemos isso na vida derrotada e desanimada de muitos que pecaram
sem levar o pecado diante de Deus para purificação.

P
Se a história de Acã e a derrota dos exércitos judeus em Ai significam
algo para nós, ela deve nos fazer perceber a intolerância para com o
pecado na vida cristã. Embora seja uma história de juízo, é também a
proclamação de esperança pela bênção que voltará quando o pecado
for repudiado.
Deixe-me lembrá-lo de algo que ocorre no livro do profeta menor,
Oseias. Como o capítulo 7 de Josué, Oseias é uma história de juízo
divino. Trata-se do relato do juízo na vida da mulher infiel de Oseias, a
esposa cuja traição a Oseias representou as ações infiéis do povo de
Israel nos dias do ministério de Oseias. Na história do juízo divino
contra Gômer (mulher de Oseias), a parte mais terrível consiste nos
três juízos mencionados por Deus. Cada um deles é precedido da
palavra portanto o que os torna mais ou menos paralelos. Por causa da
infidelidade, Deus adverte que fará três coisas. Primeira: “Cercarei o
seu caminho com espinhos” e “levantarei um muro contra ela, para que
ela não ache as suas veredas” (Os 2.6). Isso significa que Deus a
impediria de maneira que não pudesse obter seus desejos, como faz
conosco quando escolhemos o caminho da desobediência em vez do
discipulado.
Segunda: “Tornar-me-ei, e reterei, a seu tempo, o meu trigo e o meu
vinho, e arrebatarei a minha lã e o meu linho” (Os 2.9). Isso significa
que Deus privará o filho desobediente das necessidades.
A terceira vez que a palavra portanto aparece, está ligada ao vale de
Acor (Os 2.15), referência direta à história de Acã e sua morte por
apedrejamento. Acã e Acor têm grafias semelhantes, e o local da
morte de Acã foi chamado Acor — um trocadilho com seu nome [heb.,
‘akhor] que significa “perturbação” ou “desgraça” — o que Acã trouxe a
Israel e recebeu de volta sobre sua própria cabeça. No momento do
apedrejamento, disse Josué: “Por que nos conturbaste [‘akhor]? O
S hoje, te conturbará [‘akhor]” (Js 7.25).
Quando chegamos a esse ponto da história, ficamos com medo. O vale
de Acor era um local de morte, e esse parece o ponto para o qual os
juízos de Gômer caminham: primeiro frustração, depois privação. O
que resta senão o juízo final, a morte de quem pecou?
Mas bem aqui a inexplicável graça e misericórdia de Deus entra em
ação. Embora esperemos o pior, eis o que o texto diz de fato no
momento: “Portanto, eis que eu a atrairei, e a levarei para o deserto, e
lhe falarei ao coração. E lhe darei, dali, as suas vinhas e o vale de Acor
por porta de esperança; será ela obsequiosa como nos dias da sua
mocidade e como no dia em que subiu da terra do Egito” (Os 2.14-15,
grifos acrescidos). O pecado acarreta juízo? Claro que sim. É o ensino
das Escrituras desde o início de Gênesis até o fim de Apocalipse. Por
isso que jamais se deve encarar o pecado de maneira leviana. Mas o
juízo não é a história toda. O pecado traz juízo, e Deus geralmente o
usa de forma graciosa para provocar a mudança em nós que lhe
permite transformar o que de outra forma seria o maior juízo em
bendita esperança.
Quem pode transformar o vale de Acor na porta de esperança? Com
certeza não podemos fazê-lo. Mas há alguém que faz: Jesus. Ele fez
isso ao tomar os problemas de Acor sobre si mesmo. Ele foi
conturbado por nós. Ele desceu ao vale sombrio do juízo e morreu em
nosso lugar, a fim de nos suscitar esperança por meio de sua
ressurreição.
8. Monte Ebal e monte Gerizim (Josué 8.30-35)
Então, Josué edificou um altar ao S , Deus de Israel, no monte Ebal,
como Moisés, servo do S , ordenara aos filhos de Israel, segundo o
que está escrito no Livro da lei de Moisés, a saber, um altar de pedras
toscas, sobre o qual se não manejara instrumento de ferro; sobre ele
ofereceram holocaustos ao S e apresentaram ofertas pacíficas.
Escreveu, ali, em pedras, uma cópia da lei de Moisés, que já este havia
escrito diante dos filhos de Israel. Todo o Israel, com os seus anciãos, e os
seus príncipes, e os seus juízes estavam de um e de outro lado da arca,
perante os levitas sacerdotes que levavam a arca da Aliança do S ,
tanto estrangeiros como naturais; metade deles, em frente do monte
Gerizim, e a outra metade, em frente do monte Ebal; como Moisés, servo do
S , outrora, ordenara que fosse abençoado o povo de Israel.
Depois, leu todas as palavras da lei, a bênção e a maldição, segundo tudo o
que está escrito no Livro da lei. Palavra nenhuma houve, de tudo o que
Moisés ordenara, que Josué não lesse para toda a congregação de Israel, e
para as mulheres, e os meninos, e os estrangeiros que andavam no meio
deles. (Js 8.30-35)
A maioria dos estudantes do AT concorda que o cerne da lei do AT é
Deuteronômio e que o coração de Deuteronômio é a lista de bênçãos e
maldições encontradas em Deuteronômio 27—30. Deuteronômio
pressupõe a aliança incondicional de Deus com Abraão, pela qual os
judeus foram escolhidos para ser o povo de Deus. Mas segue desse
ponto fixo para mostrar que as bênçãos, ou a falta delas, dependem da
obediência. Isso se desdobra nos capítulos intermediários. Há uma
lista de maldições para quem desobedece à lei divina (Dt 27-28). E
existe uma lista de bênçãos para quem adere a ela (Dt 28). As sessões
são seguidas por dois capítulos que pedem a renovação da aliança e
terminam com o chamado ao povo para escolher o caminho da bênção
divina.
Moisés diz: “Os céus e a terra tomo, hoje, por testemunhas contra ti,
que te propus a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a
vida, para que vivas, tu e a tua descendência, amando o S , teu
Deus, dando ouvidos à sua voz e apegando-te a ele” (Dt 30.19-20). Eis
o último desafio ouvido pelas pessoas antes da travessia do rio Jordão
em direção à Terra Prometida.

M
Uma característica interessante dessa lista de maldições e bênçãos é
que ela não foi pregada ao povo judeu apenas por Moisés, antes do
início de sua conquista de Canaã. Ela também foi repetida de modo
especial e cerimonial quando os judeus estavam na nova terra. Moisés
nunca esteve em Canaã, mas sabia algo a respeito dela, por relato ou
revelação. Então ele disse que quando o povo de Israel chegasse lá,
ele deveria ler essas bênçãos e maldições em uma assembleia
especial ao redor do monte Ebal e do monte Gerizim. Josué o fez.
Ai estava no extremo oeste do caminho para a região montanhosa do
Jordão. Para conquistar Canaã, os exércitos judeus tiveram de
controlar a estrada da montanha que levava ao norte e ao sul através
das regiões mais altas, e para seguir a estrada, tiveram de se mover
para cima, passando por Jericó e Ai. Jericó controlava a aproximação
pelo leste, a partir da área mais baixa do rio Jordão. Ai controlava a
ponta de acesso no extremo oeste.
Após as vitórias em Jericó e Ai, o observador poderia esperar que as
tropas judaicas prosseguissem de imediato com a conquista do país,
movendo-se para o sul ao longo da estrada da montanha para atacar
as cidades mais fortificadas da região. isso foi feito mais tarde, embora
não de uma só vez. Em vez disso, o observador os teria visto desviar
uns 40 quilômetros para o norte e alguns para o oeste, em direção ao
vale situado entre o monte Ebal e o Gerizim. Essa é uma área
particularmente bela. As montanhas, uns 914 metros acima do nível do
mar ou 304 metros acima do vale entre elas, são bastante áridas.
Entretanto, o vale geralmente é verde e, no ponto em que as
montanhas se aproximam, há um anfiteatro natural. Frederick B. Meyer
descreve-o como um local onde as montanhas são escavadas “e a
camada de calcário é dividida em uma série de bancos uniformes”. É
“um anfiteatro natural [...] capaz de conter uma grande audiência”.[21] O
anfiteatro era o destino do povo, e foi ali que as pessoas acamparam
para a cerimônia.
Excelentes propriedades acústicas caracterizam o ponto entre as
montanhas. Quem se encontra em uma montanha pode ouvir com
facilidade uma pessoa em outra, e as duas pessoas podem ouvir com
clareza o que se passa abaixo. Um visitante da Palestina, Canon
Tristam, contou ter colocado dois de seus companheiros de viagem
nas encostas das montanhas opostas e pediu que recitassem os Dez
Mandamentos de forma antifônica. Um podia ouvir o outro com
perfeição.
Foi isso que o povo judeu fez em Ebal e Gerizim depois de derrotar Ai
e assumir o controle da estrada do país. Eles fizeram isso em
obediência precisa aos mandamentos anteriores de Moisés. Moisés
havia dito: “Quando houveres passado o Jordão, estarão sobre o
monte Gerizim, para abençoarem o povo, estes: Simeão, Levi, Judá,
Issacar, José e Benjamim. E estes, para amaldiçoar, estarão sobre o
monte Ebal: Rúben, Gade, Aser, Zebulom, Dã e Naftali” (Dt 27.12-13).
Os levitas deveriam ler as maldições dizendo:
Maldito o homem que fizer imagem de escultura ou de fundição, abominável
ao S , obra de artífice, e a puser em lugar oculto [...]
Maldito aquele que desprezar a seu pai ou a sua mãe [...]
Maldito aquele que mudar os marcos do seu próximo [...]
Maldito aquele que fizer o cego errar o caminho [...]
Maldito aquele que perverter o direito do estrangeiro, do órfão e da viúva [...]
Maldito aquele que se deitar com a madrasta, porquanto profanaria o leito de
seu pai [...]
Maldito aquele que se ajuntar com animal [...]
Maldito aquele que se deitar com sua irmã, filha de seu pai ou filha de sua
mãe [...]
Maldito aquele que se deitar com sua sogra [...]
Maldito aquele que ferir o seu próximo em oculto [...]
Maldito aquele que aceitar suborno para matar pessoa inocente [...]
Maldito aquele que não confirmar as palavras desta lei, não as cumprindo
[...]. (Dt 27.15-26)
Após essas doze maldições, as quais os levitas deveriam ler, o povo
deveria dizer “Amém”.
Então as bênçãos deveriam ser lidas.
Se atentamente ouvires a voz do S teu Deus, tendo cuidado de
guardar todos os seus mandamentos que hoje te ordeno, o S , teu
Deus, te exaltará sobre todas as nações da terra. Se ouvires a voz do
S , teu Deus, virão sobre ti e te alcançarão todas estas bênçãos:
Bendito serás tu na cidade e bendito serás no campo.
Bendito o fruto do teu ventre, e o fruto da tua terra, e o fruto dos teus
animais, e as crias das tuas vacas e das tuas ovelhas.
Bendito o teu cesto e a tua amassadeira.
Bendito serás ao entrares e bendito, ao saíres.
OS fará que sejam derrotados na tua presença os inimigos que se
levantarem contra ti; por um caminho, sairão contra ti, mas, por sete
caminhos, fugirão da tua presença. (Dt 28.1-7)
Foi isso que Josué decretou nas encostas das montanhas.
Todo o Israel, com os seus anciãos, e os seus príncipes, e os seus juízes
estavam de um e de outro lado da arca, perante os levitas sacerdotes que
levavam a arca da Aliança do S , tanto estrangeiros como naturais;
metade deles, em frente do monte Gerizim, e a outra metade, em frente do
monte Ebal; como Moisés, servo do S outrora, ordenara que fosse
abençoado o povo de Israel. Depois, leu todas as palavras da lei, a bênção e
a maldição, segundo tudo o que está escrito no Livro da lei. Palavra
nenhuma houve, de tudo o que Moisés ordenara, que Josué não lesse para
toda a congregação de Israel, e para as mulheres, e os meninos, e os
estrangeiros que andavam no meio deles. (Js 8.33-35)
Deve ter sido uma experiência impressionante e emocionante.
Maldições sobre maldições — se você não obedecer à lei! Bênçãos e
bênçãos — se você obedecer!

U
O fato de o sermão ter sido pregado por Moisés antes de o povo entrar
na terra e depois ser encenado depois da entrada do povo e de todos
estarem acampados nas laterais do monte Ebal e Gerizim sugere que
o princípio da bênção, pela obediência, e maldição, pela
desobediência, era duradouro, fundamentado no próprio caráter divino,
e visto sempre no relacionamento de Deus com o povo.
Isso já foi demonstrado no caso de Acã e na derrota em Ai. Quando o
povo entrou na terra e iniciou o ataque contra Jericó em estrita
obediência aos mandamentos divinos, o resultado foi uma bênção sem
precedentes. Era exatamente o que se esperaria se: 1) Deus dirigisse
a batalha; 2) A conduta do povo obedecesse a Deus; 3) Deus fosse
benevolente e desejasse abençoá-los com vitória; e 4) Deus fosse
todo-poderoso. Não há outro resultado concebível por conta dos quatro
fatores. Todavia, quando os guerreiros saíram de Jericó para atacar Ai
e sofreram uma derrota vergonhosa, evidenciou-se de imediato a
existência de algo errado. O “errado” foi a desobediência. A bênção
retornou só depois da exposição do pecado e do juízo imposto a Acã.
A intenção de Deus era abençoar os judeus na conquista, mas a
bênção dependia da obediência contínua aos mandamentos. Se
desobedecessem, a bênção seria retirada e sobreviriam maldições.
O princípio explica toda a história judaica subsequente, como apontei
antes. Francis Schaeffer diz que esse princípio explica o período dos
juízes e reis, os cativeiros da Assíria e da Babilônia, o retorno dos
judeus da Babilônia e a dispersão final em 70 d.C.[22] Isso Também
explica grande parte de nossas experiências hoje.
Encontrei uma mulher a quem havia conhecido quando era estudante e
frequentava nossa igreja. Ela se interessou por um jovem não cristão
e, apesar das advertências de seus amigos, incluindo uma longa e
muito marcante discussão entre nós, casou-se com ele. Perdi o contato
com ela depois disso. Mas nessa ocasião, de repente, lá estava ela de
novo. No começo, não a reconheci, mas ela se apresentou e contou
um pouco sobre sua vida nos anos seguintes. Ela se tornou muito
infeliz. Enquanto nos despedíamos, ela disse: “Você estava
absolutamente certo. Nunca deveria ter me casado com ele”. Esse foi
um caso de desobediência voluntária, seguida de uma clara falta de
bênçãos em sua vida.

O E
A cerimônia realizada no monte Ebal e Gerizim ensina mais do que o
princípio de que a obediência leva à bênção e desobediência à falta de
bênção na vida. Também ensina a solução de Deus para o problema
do pecado em qualquer vida.
Se você leu Josué 8.30-35 com atenção, notou que a parte dos
versículos que menciona a leitura da lei nas encostas das montanhas
(v. 33-35) é precedida pela seção relativa à construção do altar sobre o
qual a lei foi escrita (v. 30-32). Isso também estava no cumprimento
exato dos mandamentos divinos outorgados ao povo por Moisés. Em
Deuteronômio, Moisés diz:
No dia em que passares o Jordão à terra que te der o S , teu Deus,
levantar-te-ás pedras grandes e as caiarás. Havendo-o passado,
escreverás, nelas, todas as palavras desta lei, para entrares na terra que te
dá o S , teu Deus, terra que mana leite e mel, como te prometeu o
S , Deus de teus pais. Quando houveres passado o Jordão, levantarás
estas pedras, que hoje te ordeno, no monte Ebal, e as caiarás. Ali, edificarás
um altar ao S , teu Deus, altar de pedras, sobre as quais não
manejarás instrumento de ferro. De pedras toscas edificarás o altar do
S , teu Deus; e sobre ele lhe oferecerás holocaustos. Também
sacrificarás ofertas pacíficas; ali, comerás e te alegrarás perante o S ,
teu Deus. Nestas pedras, escreverás, mui distintamente, as palavras todas
desta lei. (Dt 27.2-8)
Josué 8.30-32 é o cumprimento dessa ordem.
Então, Josué edificou um altar ao S , Deus de Israel, no monte Ebal,
como Moisés, servo do S , ordenara aos filhos de Israel, segundo o
que está escrito no Livro da lei de Moisés, a saber, um altar de pedras
toscas, sobre o qual se não manejara instrumento de ferro; sobre ele
ofereceram holocaustos ao S e apresentaram ofertas pacíficas.
Escreveu, ali, em pedras, uma cópia da lei de Moisés, que já este havia
escrito diante dos filhos de Israel.
Isso é absolutamente fascinante por pelo menos três razões.
Primeira, nessa grande ocasião a lei de Moisés era tão vigorosa e
visivelmente mantida diante do povo (pelo registro em pedra e pela
recitação da lei pelos levitas e resposta do povo à leitura dos levitas), o
altar também foi construído como solução do problema de quem
deveria ouvir a lei, mas não a havia cumprido. Ou seja, isso consistiu
na solução divina para o problema do pecado. Deus vinha ensinando
isso o tempo todo. Quando Deus concedeu a lei do Sinai pela primeira
vez, ele outorgou ao mesmo tempo os regulamentos sobre os
sacrifícios. Quando instaurou Moisés como legislador, ao mesmo
tempo tornou Arão sumo sacerdote. Era como se Deus trovejasse do
Sinai: “Não pecarás [...]”, e acrescentou de imediato: “Mas sei que o
farás, e então aqui está o caminho para escapar da condenação”.
O pecado traz juízo. O julgamento do pecado é a morte. Mas os
sacrifícios demonstram a possibilidade de uma vítima inocente morrer
no lugar do pecador. Naqueles dias, a vítima era um animal. O animal
apontava para o único sacrifício verdadeiramente suficiente, o sacrifício
de Jesus Cristo. Pela fé na morte de Jesus nós escapamos da punição
do pecado.
Segunda, quando o altar foi construído por Josué em obediência aos
mandamentos de Moisés, ele não foi edificado no vale entre as duas
montanhas, ou no monte Gerizim, mas no monte Ebal. Por que no
monte Ebal? A resposta encontrada em Deuteronômio 27.12-13 afirma
ser Ebal a montanha sobre a qual as maldições deveriam ser lidas, ao
passo que Gerizim era a montanha em que eram declaradas as
bênçãos dos justos. Em outras palavras, o altar era para pecadores.
Era para quem reconhecia seus pecados e que vinha, não como justo,
mas como pecador ao local do sacrifício.
É interessante que, mil anos depois, os samaritanos tenham construído
seu altar em Gerizim, não em Ebal. Então, quando a mulher de
Samaria disse a Jesus: “Nossos pais adoravam neste monte; vós,
entretanto, dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar”,
ela estava apontando para Gerizim (Jo 4.20). Jesus respondeu
afastando-a dessa montanha (e também do monte Sião) e apontando
para si e para o sacrifício vindouro. A principal característica dos
samaritanos daqueles dias e dos nossos dias (eles ainda existem) é a
justiça própria. Os samaritanos não se aproximariam de Deus como
pecadores, confessando sua necessidade do sacrifício purificador e
substitutivo. Eles o fizeram como pessoas justas. Como consequência,
a primeira coisa que Jesus fez com a mulher foi expor sua ignorância
espiritual (“Vós adorais o que não conheceis” [v. 22]) e descobrir o
pecado dela (“Porque cinco maridos já tiveste, e esse que agora tens
não é teu marido” [v. 18]).
Terceira, o altar construído no monte Ebal deveria ser de pedras
naturais, sem nenhuma arte humana adicionada a ele. Francis
Schaeffer, excelente nesse ponto, chama esse princípio corretamente
de “negação total de todo e qualquer humanismo”.[23] Ou seja, ele
consiste na negação do pensamento de que os seres humanos podem
adicionar qualquer coisa à salvação. É impossível. A salvação decorre
da graça exclusiva da obra de Deus.
Não se trata só de se dirigir a Deus como pecador, tomando assim seu
lugar, por assim dizer, no monte Ebal. Isso é absolutamente essencial
— não há lugar para os justos na presença de Deus — mas não é
suficiente. Nem é suficiente chegar ao local do sacrifício, e reconhecer
assim a necessidade de alguém morrer por você. Além disso, também
é necessário reconhecer que não há nada, absolutamente nada, que
você possa contribuir com isso.
Os reformadores expressaram essa verdade com as expressões
latinas sola fide e sola gratia. Sola fide significa “só pela fé”; isto é, fé
na obra de Deus e não está ligada, de alguma forma, ao mérito
humano. Sola gratia significa “só pela graça”; isto é, a graça por
completo. Augustus Toplady colocou assim:
Vêm vazias minhas mãos;
presas a tua cruz estão.
Nu, pois quero me vestir,
esperança em ti fruir.
À tua fonte vou correr.
Vem lavar-me, ou vou morrer.
Rocha Eterna, que feri,
quero abrigar-me em ti.[24]
A cruz de Cristo é essa fonte. Ele é a Rocha, ferida por nós. Se formos
a ele, teremos abrigo e pureza — e também receberemos poder para
começar a viver de maneira a trazer bênção.
9. O erro de andar pelo que vê (Josué 9.1-27)
Os moradores de Gibeão, porém, ouvindo o que Josué fizera com Jericó e
com Ai, usaram de estratagema, e foram, e se fingiram embaixadores, e
levaram sacos velhos sobre os seus jumentos e odres de vinho, velhos,
rotos e consertados; e, nos pés, sandálias velhas e remendadas e roupas
velhas sobre si; e todo o pão que traziam para o caminho era seco e
bolorento. Foram ter com Josué, ao arraial, a Gilgal, e lhe disseram, a ele e
aos homens de Israel: Chegamos de uma terra distante; fazei, pois, agora,
aliança conosco.
Então, os israelitas tomaram da provisão e não pediram conselho ao
S . Josué concedeu-lhes paz e fez com eles a aliança de lhes
conservar a vida; e os príncipes da congregação lhes prestaram juramento.
Ao cabo de três dias, depois de terem feito a aliança com eles, ouviram que
eram seus vizinhos e que moravam no meio deles. (Js 9.3-6, 14-16)
É difícil não admirar os gibeonitas. O que você teria feito se estivesse
no lugar deles? Eles eram moradores de um reduto de montanhas em
Canaã, talvez a próxima cidade na linha aterrorizante da marcha
judaica. Eles ouviram falar da destruição de Jericó e Ai e do implacável
extermínio de todos os que viviam lá. Então, com medo, recorreram ao
engano, julgando não serem capazes de resistir militarmente as forças
israelitas. Eles vestiram roupas velhas, carregaram seus animais com
sacos desgastados cheios de pão seco e mofado, penduraram odres
quebrados nos burros e foram até Josué e os outros líderes de Israel
pedir o estabelecimento de um tratado com eles. O disfarce tentou
convencer os judeus de que haviam feito uma longa jornada e não
haveria erro em serem tratados como aliados, e não como inimigos
que deveriam morrer. Como disse, é difícil não admirá-los.
Também é difícil não simpatizar com os israelitas, mesmo que não os
admiremos de todo. Afinal, o disfarce dos gibeonitas era bom, e os
judeus provavelmente estavam movidos por preocupações
humanitárias. É verdade que estavam desconfiados. Disseram:
“Porventura, habitais no meio de nós; como, pois, faremos aliança
convosco?” (Js 9.7). Mas havia o pão bolorento. Havia os odres
estragados. As roupas eram velhas. As sandálias estavam gastas com
muita caminhada. Além disso, a alternativa a crer e poupar os
visitantes consistia em duvidar e matá-los. Que mal poderia haver em
fazer um tratado?
Admirar os gibeonitas e simpatizar com os israelitas é natural. Mas isso
mostra apenas o quão longe estamos de fazer por natureza as coisas
da maneira de Deus. A avaliação bíblica da ação dos judeus foi: “Não
pediram conselho ao S ”; portanto, erraram seriamente (v. 14).

E
Os judeus confiaram em seu entendimento natural, com base na
observação, e a reação natural é dizer: “Mas o que há de errado nisso?
É realmente possível agir de outra maneira? Nosso mundo é um
mundo de impressões sensoriais. Contamos apenas com elas para
prosseguir. Devemos decidir com base no que vemos, ouvimos e
tocamos; se, ao agir assim, cometemos erros, dificilmente podemos
ser culpados por eles. Não há mais nada a ser feito”.
O grande erro aqui — tenho certeza de que você pode percebê-lo — é
presumir que a realidade consiste apenas no aspecto material. Sim,
verdade: grande parte da realidade é material. Por isso julgamentos
com base em impressões sensoriais adequadas e confiáveis em
muitas circunstâncias. Quando se pega um pedaço de carne da
geladeira e percebe-se estar com coloração estranha e exalar cheiro
ruim, é errado comê-la. Os sentidos lhe foram dados por Deus para
dizer que a carne está ruim e que você provavelmente ficará doente se
a ingerir. Essa maneira de decidir funciona para nós em várias
situações, todos os dias. Mas a dificuldade de desse modo o tempo
todo decorre do fato de a realidade não consistir apenas no aspecto
material. Também existe o mundo espiritual, e nele vive um ser
poderoso, astuto e malicioso, empenhado em nos destruir. Não
podemos ver o diabo. Não podemos lidar, provar ou cheirar suas
estratagemas. Portanto, em todas as áreas espirituais (e todas as
morais), precisamos da sabedoria excedente tudo que se possa derivar
de impressões sensoriais.
O conselho muito citado de Provérbios versa sobre isso: “Confia no
S de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio
entendimento. Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele
endireitará as tuas veredas” (Pv 3.5-6). As palavras principais são: Não
te estribes no teu próprio entendimento.
Acho que Alan Redpath exagera um pouco o ponto quando usa o
termo nada. Em muitos casos, meras impressões sensoriais estão
certas. Mas ele acerta em grande parte quando diz:
Nunca, nunca, confie em seu julgamento para nada. Quando o senso
comum diz que um caminho é correto, coloque seu coração em Deus, pois o
caminho da fé e o caminho da bênção podem estar na direção
completamente oposta à designada senso comum por você. Quando vozes
lhe dizem que a ação é urgente, que algo deve ser feito de imediato,
encaminhe tudo ao tribunal do céu. Então, se você ainda estiver em dúvida,
ouse ficar parado. Se for chamado a agir e não tiver tempo para orar, não
aja. Se for chamado a seguir em certa direção sem poder esperar até ter paz
com Deus em relação a isso, não se mova. Seja forte e corajoso o suficiente
para ousar permanecer em pé e esperar em Deus, pois quem espera nele
jamais será envergonhado. Essa é a única maneira de vencer o diabo.[25]
Precisamos ser muito específicos em relação a isso. Se quisermos
viver para Deus no mundo, devemos reconhecer a existência de um
domínio espiritual e também material, e devemos buscar a força de
Deus para ter sucesso nas batalhas que ocorrem ali.
Deixe-me lembrá-lo do sexto capítulo de Efésios, onde Paulo escreve
sobre nossas lutas em termos de metáfora militar:
Quanto ao mais, sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder.
Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra
as ciladas do diabo; porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e
sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo
tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes.
Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia
mau e, depois de terdes vencido tudo, permanecer inabaláveis. Estai, pois,
firmes, cingindo-vos com a verdade e vestindo-vos da couraça da justiça.
Calçai os pés com a preparação do evangelho da paz; embraçando sempre
o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do
Maligno. Tomai também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que
é a palavra de Deus; com toda oração e súplica, orando em todo tempo no
Espírito e para isto vigiando com toda perseverança e súplica [...]. (Ef 6.10-
18)
Esses versículos podem ser resumidos em vários princípios
importantes:
1. Como cristãos, estamos envolvidos numa guerra espiritual. Isso era
verdade para as forças judaicas na conquista, mesmo que a guerra
também fosse física e eles nem sempre tivessem plena consciência
das dimensões espirituais. Obviamente, isso ocorre em maior grau
conosco, pois somos comissionados a levar o evangelho da luz de
Deus em Jesus Cristo às trevas pagãs.
2. Para sermos bem-sucedidos na guerra, precisamos usar armaduras
espirituais. Isso indica não se tratar apenas do caso de sermos
enviados para atacar o inimigo; o inimigo também nos ataca, e
devemos estar protegidos contra suas ciladas. Como Paulo declara,
precisamos de verdade, justiça, conhecimento do evangelho e fé. O
último, em especial, serve para afastar as flechas de Satanás.
3. Nossa arma é a Palavra de Deus. Josué e os outros líderes de Israel
não dispunham dela no caso dos homens de Gibeão: uma palavra de
Deus. Até esse ponto, tudo que a nação fazia estava conectado de
alguma forma a uma revelação divina específica. Deus disse ao povo
quando atravessar o Jordão, o que fazer depois de atravessá-lo, como
atacar Jericó e assim por diante. Mesmo no caso de Ai, embora
houvesse pecado no acampamento, ainda havia instruções divinas
sobre como a emboscada deveria ser feita e o que deveria ser feito
com a cidade após a captura. No capítulo, não há nenhuma palavra do
Senhor, porque o povo não a procurou.
Você sente falta da palavra divina nas decisões que enfrenta? Se sim,
é porque não a procura. A Bíblia diz: “Se, porém, algum de vós
necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e
nada lhes impropera; e ser-lhe-á concedida” (Tg 1.5).
4. Devemos orar sempre pela ajuda e bênção de Deus. Paulo diz:
“Com toda oração e súplica, orando em todo tempo” (Ef 6.18). O povo
de Israel não conseguiu fazer isso e cometeu um grande erro.

C
Quão rapidamente eles descobriram! Não sei quanto tempo os
gibeonitas levaram na preparação do truque ou quanto tempo os
israelitas passaram examinando seus pertences, discutindo o problema
e, mais tarde, decidindo fazer um tratado com eles. Sem dúvida, cada
grupo levou o que considerou tempo suficiente, talvez semanas na
primeira instância, dias na segunda. No entanto, o texto é
impressionante quando diz em Josué 9.16 (imediatamente após o
versículo que diz: “Josué concedeu-lhes paz e fez com eles a aliança
de lhes conservar a vida; e os príncipes da congregação lhes
prestaram juramento”), “Ao cabo de três dias, depois de terem feito a
aliança com eles, ouviram que eram seus vizinhos e que moravam no
meio deles”.
Três dias para descobrir o erro!
Mas uma vida inteira para viver com isso!
A história nos diz que, quando o povo descobriu que os gibeonitas
eram de fato seus vizinhos, se queixaram contra os líderes, julgando-
os responsáveis. Ao que tudo indica, eles queriam matar os gibeonitas,
independentemente do tratado. Embora os líderes tivessem errado em
não consultar o Senhor sobre os gibeonitas, confiando nos próprios
sentidos, impressões e julgamentos, eles não cometeram outro erro ao
repudiar a aliança como o povo queria. Eles reconheceram a
importância do juramento e responderam: “Nós lhes juramos pelo
S , Deus de Israel; por isso, não podemos tocar-lhes. Isto,
porém, lhes faremos: Conservar-lhes-emos a vida, para que não haja
grande ira sobre nós, por causa do juramento que já lhes fizemos”
(v. 19-20). Então deixaram os gibeonitas viverem, e a promessa dos
líderes a eles foi respeitada.
O tratado foi respeitado durante séculos. Em uma ocasião posterior,
quando Saul, rei de Israel, transgrediu a aliança matando um grande
número de gibeonitas, Deus ficou do lado dos gibeonitas e julgou
Israel. O texto de 2 Samuel 21.1 registra ter havido uma fome de três
anos em Israel porque Saul “matou os gibeonitas”. Ela foi removida só
depois do julgamento da casa de Saul por um acordo entre os
gibeonitas sobreviventes e o rei Davi (v. 2Sm 21.1-14).
Eis o grande problema com a falha em consultar o Senhor em todos os
assuntos: devemos viver com as consequências das ações erradas.
“Um pecado ou ação errada não pode ser perdoado?”, alguém
pergunta. Sim, claro. Mas as consequências do deslize são muitas
vezes vividas indefinidamente.
O exemplo óbvio aqui é o casamento, embora muitos outros exemplos
possam ser dados. Não é incomum cristãos se casarem com quem
não é a escolha de Deus para si. Com frequência, o erro envolve não
cristãos, mas o mesmo pode acontecer com dois seguidores do
Senhor. O que pode ser feito nessas circunstâncias? O mundo tem
uma resposta. Ele diz: “Divorcie-se. Faça o melhor para si mesmo.
Pense no futuro”. A Palavra de Deus declara ser isso algo com o que o
cristão deve viver. Paulo escreveu: “A mulher não se separe do marido
[...] o marido não se aparte de sua mulher” (1Co 7.10-11). Acima de
tudo, não deve haver novo casamento. Jesus disse: “Quem repudiar
sua mulher e casar com outra comete adultério contra aquela. E, se ela
repudiar seu marido e casar com outro, comete adultério” (Mc 10.11-
12).
E a solução do mundo para deixar um casamento ruim? “Com certeza
você pode escapar das consequências da má decisão dessa maneira”,
diz alguém. Você pode? A verdadeira resposta é não. Muda-se um
conjunto de consequências para outro, mas não se escapa das más
consequências. Na situação, os resultados afetam os filhos, caso
existam, os amigos do casal e até o novo casamento.

D
A desobediência não é a solução para as más consequências da
desobediência anterior. Contudo, a obediência, em geral, é a solução.
Pelo menos, fornece condições em que Deus muitas vezes age de
modo inesperado.
Esse foi o caso dos gibeonitas. Eles enganaram os judeus ao fingir
terem vindo de uma terra distante — quando, na verdade, eram da
vizinhança —, e sofreram as consequências do engodo. A vida deles
foi poupada — eles alcançaram seu objetivo —, mas foram feitos
servos ou escravos. O texto diz: “Rachadores de lenha e tiradores de
água para toda a congregação” (Js 9.21). Sim, olhe para Josué 9.27,
onde encontramos a expressão com uma adição significativa: “Para o
altar do S , até ao dia de hoje, no lugar que D escolhesse”.
Eu acho isso tremendo! Os gibeonitas foram feitos servos dos judeus,
mas foi dito especificamente que o local de seu serviço estava (pelo
menos em parte) no altar do Senhor. Em outras palavras, embora
servos, eles tiveram o privilégio de ser conduzidos com regularidade
para perto das coisas espirituais. Nos anos posteriores, quando os
judeus foram atrás de falsos deuses, os gibeonitas ainda serviriam
junto ao altar onde o verdadeiro Deus ordenara a apresentação de
sacrifícios pelos pecados.
Foi uma bênção apropriada para as pessoas que explicaram sua vinda
a Josué dizendo: “Teus servos vieram de uma terra mui distante, por
causa do nome do S , teu Deus; porquanto ouvimos a sua fama
e tudo quanto fez no Egito; e tudo quanto fez aos dois reis dos
amorreus que estavam dalém do Jordão, Seom, rei de Hesbom, e
Ogue, rei de Basã, que estava em Astarote” (Js 9.9-10).
Francis Schaeffer compara os gibeonitas à prostituta Raabe nesse
momento, ao observar que, embora o testemunho dos gibeonitas não
fosse tão claro quanto o de Raabe — ela disse: “Vosso D , é Deus
em cima nos céus e embaixo na terra” (Js 2.11) — eles, no entanto,
creram no que ouviram e vieram por causa do poder do Deus dos
judeus. Schaeffer escreveu:
No uso semita da língua, um nome é uma verbalização que representa todo
o caráter de alguém. O que os gibeonitas realmente estavam dizendo era:
“Viemos por causa de quem é o teu Deus”. Do mesmo modo, eles falaram
de “como que o S , teu Deus, ordenara a seu servo Moisés” (Js 9.24).
Assim, em ambo os casos, o de Raabe e o dos gibeonitas, o que ouviram foi
suficiente para convencê-los.
Raabe trocou o reino dos inimigos de Deus pelo reino dos judeus. Ao tomar
essa decisão, ela se colocou contra o seu rei e a sua cultura. Os gibeonitas
tiveram a mesma atitude. Eles romperam com a confederação e juntaram-se
ao povo de Deus. Além disso, o ato de Raabe significa que se o seu antigo
rei tivesse descoberto o que ela fizera, sem dúvida a mataria. Os gibeonitas,
na verdade, foram pegos em sua deserção. A confederação sabia bem o
que os desertores haviam feito e, então, vieram mesmo contra os gibeonitas
para os exterminar.[26]
Schaeffer destaca a lealdade gibeonita depois da tomada da decisão.
Por muitos anos após esse incidente, houve guerra entre os cidadãos
da terra e os israelitas invasores. No entanto, nenhuma vez no registro
dessa longa conquista lê-se a menção a algum gibeonita desertor.
E dessa maneira eles prosperaram.
Quando a terra foi dividida, Gibeão foi uma das cidades dadas à linhagem
de Arão. Ela se tornou um lugar especial onde Deus era conhecido. Cerca
de quatrocentos anos mais tarde, Davi pôs o tabernáculo nessa cidade. Isso
significa que o altar e o sacerdote estavam também em Gibeão. Pelo menos
um dos homens fortes de Davi, aqueles que estavam mais próximos dele
nas batalhas, era gibeonita. Naquele momento importante e solene em que
Salomão, filho de Davi, subiu ao trono, Salomão ofereceu holocaustos em
Gibeão. Foi lá que ele teve sua visão, quando Deus lhe falou sobre seu
governo, que estava próximo. Ainda mais tarde, cerca de quinhentos anos
antes de Cristo, no tempo de Zorobabel, as genealogias daqueles judeus
que voltaram do cativeiro sob os babilônios incluíam uma lista dos
gibeonitas. Isso é especialmente notável porque os nomes de alguns que
reivindicavam ser judeus não foram encontrados nos livros genealógicos e
não lhes foi permitido fazer parte da nação judaica. Nos dias de Neemias, os
gibeonitas foram citados como estando no meio do povo que reconstruiu os
muros de Jerusalém. Os gibeonitas tinham vindo para se juntar ao povo de
Deus, e centenas de anos mais tarde eles ainda estavam lá.[27]

N ,
Quando estudamos a história de Raabe, apontei paralelos entre a
experiência dela e a nossa se formos gentios que passaram a crer no
Deus de Israel pela fé em Jesus Cristo, o judeu. Também há paralelos
com os gibeonitas. Eles eram mentirosos, enganadores. Jaziam sob o
juízo divino e estavam expostos à ira severa de Deus. Nós também.
Ouvimos falar do verdadeiro Deus, como eles. É verdade que, no
começo, não sabíamos muito a respeito dele. No entanto, Deus usou
esse pequeno começo para nos atrair para a companhia de seu povo,
onde aprendemos mais e, por fim, fomos totalmente identificados com
os salvos pela fé em Jesus Cristo. Também cremos. Essa é uma
grande maravilha, um tributo à graça de Deus.
Se você ainda não foi atraído à companhia do povo de Deus, deixe que
seu conhecimento sobre o verdadeiro Deus o atraia. Você só precisa
saber que ele é o Deus verdadeiro e que ele providenciou o caminho
para você ser salvo pela morte de Jesus. Venha a ele e escape do
juízo.
10. O dia mais longo (Josué 10.1-5)
Então, Josué falou ao S , no dia em que o S entregou os
amorreus nas mãos dos filhos de Israel; e disse na presença dos israelitas:
Sol, detém-te em Gibeão,
e tu, lua, no vale de Aijalom.
E o sol se deteve,
e a lua parou
até que o povo se vingou de seus inimigos.
Não está isto escrito no Livro dos Justos?
O sol, pois, se deteve no meio do céu e não se apressou a pôr-se, quase um
dia inteiro. Não houve dia semelhante a este, nem antes nem depois dele,
tendo o S , assim, atendido à voz de um homem; porque o S
pelejava por Israel.
Voltou Josué, e todo o Israel com ele, ao arraial, a Gilgal. (Js 10.12-15)

Há um texto no capítulo 10 de Josué usado com grande efeito por


Leland Wong, um evangelista do povo chinês na América. No topo do
papel timbrado dele, há frases de três versículos: Josué 10.13 (“O sol
se deteve”); 2Reis 6.6 (“O ferro flutuou”); e Salmos 48.14 (“Este é
Deus, o nosso Deus”). Costumo usar esses versículos como
testemunho da grandeza do Deus da Bíblia, o Deus que faz milagres.
Mas o ferro realmente flutuou?
O sol realmente se deteve?
Milagres dessa magnitude — em particular o sol parar — são tão
problemáticos para tantas pessoas que os tratei como uma categoria
separada em um capítulo intitulado “Alleged Problems in the Bible”
[“Problemas alegados na Bíblia”] em Standing on the Rock
[Permanecer na Pedra], livro de minha autoria. Lá eu digo:
Se você estiver dirigindo um carro a 100 quilômetros por hora e de repente
pisar no freio, seu corpo cairá para a frente. Presumimos que, se a terra
parasse subitamente, todos cairiam. Todos nós reconhecemos as
dificuldades. Mas, por certo, Deus está preparado para o milagre. E se isso
deve ser explicado pelo apelo ao puro milagre ou não, com certeza há
ocorrências na Bíblia que são puro milagre e eles não podem ser resolvidos
por explicações racionalistas.[28]
Ainda assim, a parada do sol e da lua nos dias de Josué em Gibeão é
uma ocorrência tremenda e merece tratamento cuidadoso.

“O ”
Os gibeonitas estabeleceram seu tratado com Israel, e desse modo
salvaram sua vida. No entanto, quando os povos das outras fortalezas
no topo da colina souberam disso, consideraram os gibeonitas
traidores e, naturalmente, decidiram agir contra eles. O texto diz:
Tendo Adoni-Zedeque, rei de Jerusalém, ouvido que Josué tomara a Ai e a
havia destruído totalmente e feito a Ai e ao seu rei como fizera a Jericó e ao
seu rei e que os moradores de Gibeão fizeram paz com os israelitas e
estavam no meio deles, temeu muito; porque Gibeão era cidade grande
como uma das cidades reais e ainda maior do que Ai, e todos os seus
homens eram valentes. Pelo que Adoni-Zedeque, rei de Jerusalém, enviou
mensageiros a Hoão, rei de Hebrom, e a Pirã, rei de Jarmute, e a Jafia, rei
de Laquis, e a Debir, rei de Eglom, dizendo: Subi a mim e ajudai-me; firamos
Gibeão, porquanto fez paz com Josué e com os filhos de Israel. (Jo 10.1-4)
É um ponto de menor interesse ser essa a primeira menção à cidade
de Jerusalém na Bíblia. Entretanto, para Josué, a ação relatada pelos
versículos significava que, pela primeira vez na campanha militar, ele
iria de encontro às forças aliadas dos cananeus em uma batalha militar
aberta e frontal.
Mas teria mesmo? De acordo com o relato, Josué não ouviu
diretamente da confederação cananeia ou dos espias, mas dos
gibeonitas atacados. Quando os reis dos amorreus se moveram contra
eles, os gibeonitas enviaram uma mensagem a Josué: “Não abandone
seus servos. Venha até nós rapidamente e nos salve! Ajude-nos,
porque todos os reis amorreus da região montanhosa uniram forças
contra nós” (Js 10.6). Se Josué não fosse um homem fiel, poderia ter
considerado essa uma forma de escapar das consequências do acordo
precipitado ao poupar os gibeonitas. Ele havia sido enganado por eles.
Agora eles estavam sendo atacados por causa do golpe aplicado. Não
seria sábio e justo permitir que encontrassem seu destino sem ajuda?
Se os reis das cidades da região montanhosa destruíssem os
gibeonitas — bem, isso removeria pelo menos um problema de suas
mãos.
Josué não pensava assim. Ele fez um acordo com os gibeonitas em
nome de Deus, e decidiu ser importante defende-lo. Então, em vez de
encarar a situação como um modo fácil de se livrar de uma dificuldade,
ele a aproveitou como uma oportunidade. Quando chegou a
mensagem, ele estava em Gilgal, o acampamento na região de Jericó,
às margens do rio Jordão. Reuniu suas forças de imediato e marchou à
noite pelo barranco íngreme até Ai e depois para o sul, até Gibeão,
onde atacou a confederação cananeia desavisada, provavelmente ao
amanhecer. A mudança foi tão ousada e o ataque tão repentino que os
exércitos da região montanhosa fugiram. O texto diz que Israel “os foi
perseguindo pelo caminho que sobe a Bete-Horom, e os derrotou até
Azeca e Maquedá” (v. 10).
Indo para o sul de Gibeão, onde a batalha começou, há uma subida de
16 quilômetros até Bete- Horom, o Alto. Mas a partir desse ponto a
estrada desce de forma precipitada, cerca de 200 metros em apenas
3 quilômetros. A rocha é cortada em degraus, e nessa descida
acidentada os cananeus fugiram diante da perseguição israelita. Eles
esperavam chegar às cidades fortificadas de onde partiram, selar os
portões e ganhar pelo menos uma noite de descanso antes de ter de
enfrentar os inimigos de novo.
Que dia foi aquele! Quando os cananeus fugiram pelo precipício do
caminho rochoso, Deus interveio no primeiro dos dois milagres para
ajudar os israelitas. Ele enviou uma tempestade de grandes pedras
que atingiu os soldados em pânico nas encostas de Bete-Horom. A
tempestade de pedras pode ter proporções fantásticas no leste, e essa
foi excepcional, mesmo para esses padrões. As pedras mataram
tantos que, como diz o texto, “mais foram os que morreram pela chuva
de pedra do que os mortos à espada pelos filhos de Israel” (v. 11).
Imagine a cena encontrada por Josué ao alcançar o topo de Bete-
Horom. Diante dele, até onde os olhos podiam ver, havia umas tropas
em pânico sendo perseguidas pelos soldados de Israel. Sobre as
encostas e acima das planícies, havia uma grande nuvem da qual
caíam grandes pedras. À direita, o sol começava a longa descida da
tarde em direção ao Mediterrâneo. Josué deve ter percebido duas
coisas. Primeira, essa foi uma oportunidade sem precedentes de
destruir a confederação do sul. Os melhores soldados inimigos haviam
se lançado contra ele e estavam fugindo. Se pudesse destruí-los
agora, as terras do sul estariam abertas a seus exércitos que
avançavam. Ao mesmo tempo, deve ter reconhecido que o dia estava
acabando. Quando o sol se punha, os combates cessavam, e não
havia tempo suficiente antes do pôr do sol para alcançar a vitória total.
Segunda, Josué fez uma coisa sem precedentes: pediu a Deus que
prolongasse o dia. Lê-se no relato bíblico:
Então, Josué falou ao S , no dia em que o S entregou os
amorreus nas mãos dos filhos de Israel; e disse na presença dos israelitas:
Sol, detém-te em Gibeão,
e tu, lua, no vale de Aijalom.
E o sol se deteve,
e a lua parou
até que o povo se vingou de seus inimigos. (Js 10.12, 13)
O texto não exagera quando continua: “Não houve dia semelhante a
este, nem antes nem depois dele, tendo o S , assim, atendido à
voz de um homem; porque o S pelejava por Israel” (Js 10.14).

O ?
Mas o que realmente aconteceu em Gibeão? O sol realmente parou
em relação à terra, o que significa que o planeta diminuiu a velocidade
e parou sua rotação? Isso é certamente o que o texto parece dizer.
Mas os problemas físicos associados ao milagre são tão grandes que
os estudiosos conservadores e os mais liberais têm procurado
alternativas variadas.
Na discussão desse problema The Christian View of Science and
Scripture [A visão cristã da ciência e da Escritura], Bernard Ramm
destaca quatro possíveis interpretações.
1. As palavras são poéticas. O povo desse período costumava tecer
referências aos corpos celestes em relatos de suas vitórias, como em
Juízes 5.20, onde Débora e Baraque afirmam que as próprias estrelas
lutaram contra seu inimigo, Sísera. De acordo com essa explicação, é
Josué fazia isso, e o texto o relata. Josué percebeu a oportunidade
escapar pelos dedos e pediu força a Deus. Deus respondeu ao renovar
tanto a força dos soldados dele que foram capazes de lutar o
equivalente a um dia de batalha em menos da metade do tempo
necessário. Foi como se (ou realmente parecesse a eles) o dia tivesse
sido prolongado. A Bíblia usa linguagem poética, é claro. Mas parece,
para a maioria dos intérpretes, não ser esse o caso aqui. Além disso,
há o milagre das grandes pedras. Se elas são poéticas, o que devem
representar? Se não são, por que a parada do sol não deve ser
entendida também de forma literal?
2. O sol e a lua (ou terra) realmente pararam. As pessoas que
acreditam no Deus onipotente não têm dificuldade em aceitar a
possibilidade de ele realizar esse grande milagre. Onipotente significa
“todo-poderoso”, e se Deus é todo-poderoso, então ele pode impedir o
sol, a lua ou a terra, ou fazer qualquer coisa com muita facilidade.
Talvez tenha sido isso que aconteceu. Ainda assim, o alcance do
milagre parece tão grande que mesmo um comentarista conservador
como Francis Schaeffer argumenta que Deus apenas prolongou as
horas da luz do sol de alguma maneira.[29] Ele o compara ao
prolongamento dos dias de verão ou os dias no verão em países do
norte, como a Noruega, quando o sol não se põe.
3. O milagre da refração dos raios do sol fez parecer que o sol e a lua
estavam fora dos postos regulares. Esse pode ser o tipo de milagre em
que Francis Schaeffer pensava. Ramm cita dois artigos de Arthur R.
Short e John L. Butler que discutem esse ponto cientificamente.[30] Eles
acreditam que os milagres de Josué 10 deveram-se a “uma miragem
especial e rara na atmosfera da terra, semelhante a uma ou mais das
miragens naturais, mas [era] de uma magnitude, altitude e caráter
resultantes de um milagre divino”.[31]
Há duas alegações não verificadas que podem influenciar aqui.
Primeira, alguns escritos sobre o milagre relatam a existência de
registros egípcios, chineses e hindus sobre um dia mais longo.
Segunda, há relatos não confirmados de que “é de conhecimento geral
entre os astrônomos que um dia inteiro está faltando em nossos
cálculos astronômicos e que o professor Pickering, do observatório de
Harvard, remonta ao tempo de Josué”.[32] De tempos em tempos, eu
mesmo vejo afirmações como essa, mas nunca encontrei nenhuma
documentação confiável sobre elas. Ramm também relata que não
conseguiu verificá-las de maneira satisfatória.
4. Josué não pediu um dia mais longo, mas a libertação do grande
calor do dia. O termo hebraico dom [flexão do verbo d ā mam], que a
maioria das versões em inglês traduz como “deteve”, geralmente
significa “ficar em silêncio, cessar ou parar”. Por esse motivo, Edward
W. Maunder, de Greenwich, e Robert D. Wilson, de Princeton,
sugeriram que Josué, no calor do dia, solicitou que o sol parasse de
brilhar, e que a resposta divina consistiu na tempestade de pedras, que
não só trouxe alívio para os soldados — para que a realização das
tarefas de um dia de trabalho em metade de um dia —, como também
destruição dos inimigos.
Confesso que não tenho grandes convicções quanto ao que
aconteceu, e ao ler os vários artigos e livros disponíveis, sinto que
ninguém mais tem convicções muito fortes sobre o ponto. Não acredito
que as palavras sejam poéticas, apesar de terem sido registradas no
livro dos Justos, um livro amplamente poético. Duvido que a terra
tenha realmente interrompido sua rotação, ainda mais que o sol e a lua
pararam de verdade na passagem pelo espaço. Costumo pensar que
outros fenômenos foram usados por Deus para prolongar a luz do dia,
mas não sei, e posso dizer apenas que me contento em esperar até
que o próprio Deus revele precisamente o que ocorreu. O certo é que
Deus fez algo para dar às forças judaicas uma vitória completa e
decisiva.

E D , D
Mas esse não é o fim da história para nós. As Escrituras nos foram
dadas para nosso “ensino, para a repreensão, para a correção, para a
educação na justiça” (2Tm 3.16). Devemos perguntar o que
precisamos aprender especificamente com o relato.
A primeira lição: nada é grande demais para Deus. Há pouco
mencionei Robert D. Wilson, ex-professor de hebraico no Seminário de
Princeton. Cerca de 12 anos depois de Donald G. Barnhouse se formar
em Princeton, ele foi convidado a pregar na capela e, quando chegou,
percebeu que Wilson havia se sentado perto da frente para ouvi-lo.
Quando o culto terminou, o antigo professor de hebraico se aproximou
de Barnhouse e disse: “Se você vier aqui novamente, não irei ouvi-lo
pregar. Venho apenas uma vez. Fico feliz que você creia no Deus
grande. Quando meus alunos voltam, venho para ver se eles creem no
Deus grande ou no deus pequeno, e então, sei como será o ministério
deles”.
Donald G. Barnhouse pediu a Wilson para explicar os termos. Ele
disse: “Bem, alguns homens têm um deus pequeno e sempre estão
aflitos com ele. Ele não é capaz de fazer milagres, de cuidar da
inspiração das Escrituras nem de preservação e transmissão delas a
nós. Esses indivíduos têm um deus pequeno, e eu os denomino assim:
pessoas que creem no deus pequeno. Depois, há quem conte com o
grande Deus. Ele fala, e está feito. Comanda, e tudo aparece. Sabe se
mostrar forte em nome de quem o teme. Você tem um grande Deus, e
ele abençoará seu ministério”.[33]
Donald G. Barnhouse realmente cria no Deus grande e seu ministério
foi abençoado por ele. Esse Deus também é nosso, como era de Josué
e dos israelitas vitoriosos. Nada é grande demais para ele.
A segunda lição de Josué 10 é que devemos esperar dias de grande
vitória pessoal na caminhada com Deus. Esse era o segredo do
combate de Josué. Deus havia dito a Josué que entregaria em suas
mãos os reis da região montanhosa e seus exércitos. (“Não os temas,
porque nas tuas mãos os entreguei; nenhum deles te poderá resistir”
[v. 8].) Assim, quando ele os viu fugir para as fortalezas da cidade ao
sul, Josué foi encorajado a invocar a Deus e esperar a intervenção
sobrenatural divina. Sei que somos inclinados a presumir coisas,
reivindicar promessas que Deus não deu ou vitórias pessoais e
egoístas, e não para a sua glória. Não temos autorização para esperar
a intervenção divina nesses casos. E quando realmente lutamos por
Deus e buscamos a glória divina? Nesses casos, devemos esperar a
intervenção de Deus e podemos pedi-la.
Percebo que Josué orou “ao S na presença dos israelitas”
(v. 12, grifos meus). Ou seja, ele foi franco sobre as expectativas. Não
temia ser humilhado pelo fracasso, pois queria apenas o que Deus
havia lhe dito que ocorreria. Ele colocou sua crença em risco. Se
fizermos como Josué, descobriremos que Deus a honra. Por último,
apesar de Josué ter orado pela intervenção milagrosa de Deus na
batalha, ele não foi de forma alguma negligente quanto às suas
responsabilidades. De fato, ele foi um comandante fiel e magnífico ao
longo da história. Foi fiel ao tratado com os gibeonitas. Foi criativo e
ousado na marcha noturna de Gilgal para atacar os exércitos do
inimigo na manhã seguinte. Então, iniciada a batalha, foi rigoroso em
obter a vitória. Ele não desistiu, por conta de cansaço ou falta de
vontade; continuou até o fim. Saiu-se vitorioso, e Deus lhe deu a
oportunidade de alcançar a vitória total. Nossas vitórias podem ser de
natureza muito diferente, mas também devem ser grandes vitórias.
11. As campanhas militares do sul e do norte (Josué 10.16-12.24)
Assim, feriu Josué toda aquela terra, a região montanhosa, o Neguebe, as
campinas, as descidas das águas e todos os seus reis; destruiu tudo o que
tinha fôlego, sem deixar nem sequer um, como ordenara o S , Deus
de Israel. Feriu-os Josué desde Cades-Barneia até Gaza, como também
toda a terra de Gósen até Gibeão. E, de uma vez, tomou Josué todos estes
reis e as suas terras, porquanto o S , Deus de Israel, pelejava por
Israel.
Naquele tempo, veio Josué e eliminou os anaquins da região montanhosa,
de Hebrom, de Debir, de Anabe, e de todas as montanhas de Judá, e de
todas as montanhas de Israel; Josué os destruiu totalmente com as suas
cidades. Nem um dos anaquins sobreviveu na terra dos filhos de Israel;
somente em Gaza, em Gate e em Asdode alguns subsistiram. Assim, tomou
Josué toda esta terra, segundo tudo o que o S tinha dito a Moisés; e
Josué a deu em herança aos filhos de Israel, conforme as suas divisões e
tribos; e a terra repousou da guerra. (Js 10.40-42; 11.21-23)
Até a metade do capítulo 10 de Josué, a história da conquista de
Canaã é contada em detalhes. Houve apenas três batalhas de
verdade: em Jericó, Ai, e nas colinas perto de Gibeão. A última se
transformou em uma grande batalha móvel enquanto os amorreus
fugiam em pânico para o sul em direção às cidades fortificadas nas
montanhas. Essas histórias foram contadas com detalhes. Agora, o
método de relatar a invasão é alterado. Em vez de uma descrição dos
detalhes militares e de outras naturezas de cada batalha, há resumos
rápidos das campanhas que levaram as forças judias a avançar
primeiro para o sul e depois para o norte do país.
Ao todo, ocorreram três fases na conquista. Houve a travessia inicial
do rio Jordão, seguida do avanço de Jericó para Ai até o coração do
país. A primeira fase estabeleceu os exércitos israelitas na terra e
dividiu Canaã. A segunda fase da campanha transcorreu na área ao
sul na parte definida em Jericó. Havia muitas cidades fortificadas nas
montanhas dessa área, e os reis e exércitos dessas cidades se aliaram
para atacar Gibeão. Eles foram derrotados por Josué quando este
socorreu os gibeonitas. O texto de Josué 10.29-43 menciona os
esforços para eliminar os inimigos na área. A terceira e última fase da
invasão foi a subjugação da região norte. A campanha é relatada em
Josué 11, sendo seguida pelo resumo da invasão, incluindo a lista dos
reis derrotados, no capítulo 12.
Assim, esses três capítulos (Js 10-12) contêm o cerne da conquista de
Canaã pelo exército judeu.

C
Aparentemente, a campanha contra as cidades do sul não demorou
muito tempo, pois Josué rapidamente se moveu para tirar proveito do
sucesso em Gibeão.
O relato começa com a convocação dos reis das cidades mais
destacadas do sul por Adoni-Zedeque, rei de Jerusalém, como declara
o início do capítulo 10. Quatro reis se uniram a ele: Hoão, rei de
Hebrom; Pirã, rei de Jarmute; Jafia, rei de Laquis, e a Debir, rei de
Eglom.
Jerusalém era a mais importante dessas fortalezas da cidade, no topo
da colina. Estava apenas cerca de 9,5 quilômetros meio ao sul de
Gibeão, e por isso sentiu muito a deserção dos gibeonitas.
Hebrom ficava a 30 quilômetros a sudoeste de Jerusalém. Era o lugar
onde os patriarcas haviam vivido séculos antes, onde Abraão, Isaac e
Jacó (e suas esposas) estavam enterrados, e onde José seria
enterrado de acordo com seu pedido final (v. Gn 50.25).
Jarmute ficava a 26 quilômetros a oeste de Jerusalém, em uma
cordilheira com vista para a planície costeira e o mar. Hoje é chamado
rio Jarmute.
Laquis era uma das cidades mais antigas da Palestina, que remonta ao
oitavo milênio a.C. Hoje leva o mesmo nome.
Eglom é geralmente identificado com Tell el-Hesi, também uma cidade
muito antiga.
Os exércitos dessas cidades formaram uma coligação contra Gibeão e
foram derrotados pelo ataque repentino e inesperado de Josué. Eles
foram destruídos pelos israelitas que os perseguiam quando fugiram
para o sul.
E que aconteceu com os líderes? Josué 10.16-28 conta como os reis
de Jerusalém, Hebrom, Jarmute, Laquis e Eglom se esconderam em
uma cova perto da cidade de Maquedá, no sul (a localização é
desconhecida) após a derrota dos seus exércitos e foram descobertos
por soldados judeus. Josué sabia a importância de ter descoberto e
capturado os reis inimigos, mas também conhecia as oportunidades
militares do dia. Então, ordenou que a caverna fosse selada até mais
tarde, enquanto ele e seus soldados continuavam a perseguir os
exércitos em fuga. Só depois do fim da batalha, Josué retornou à cova,
reuniu seu exército em Maquedá e trouxe os cinco governantes.
No dia seguinte, Josué fez duas coisas. Primeiro, fez com que os reis
derrotados se deitassem no pó diante dele, enquanto chamava os
comandantes das divisões do seu exército para virem e colocarem os
pés no pescoço dos reis derrotados. Josué disse: “Não temais, nem
vos atemorizeis; sede fortes e corajosos, porque assim fará o S
a todos os vossos inimigos, contra os quais pelejardes” (Js 10.25).
Segundo, Josué matou os reis de Jerusalém, Hebrom, Jarmute, Laquis
e Eglom e pendurou seus corpos nas árvores até o anoitecer.
Eu disse duas coisas? É verdade que Josué fez duas coisas no que diz
respeito aos reis, mas acho interessante ler em Josué 10.28 que no
mesmo dia no qual apanhou os reis, os matou e os pendurou nas
árvores, Josué também tomou Maquedá. Parece que ele não
conseguia ficar parado. Ele ficou entediado olhando para cinco reis
mortos pendurados em árvores, então remiu o tempo ao tomar a
cidade vizinha. O restante do capítulo conta como passou a dominar
uma fortaleza do sul após a outra: Libna, Laquis, Eglom, Hebrom e
Debir. Três dessas cidades pertenciam aos reis que acabara de matar;
as outras estavam por perto. É significativo que Jerusalém não esteja
incluída na lista das cidades que Josué teria tomado, embora o rei de
Jerusalém, Adoni-Zedeque, estivesse entre os mortos. Jerusalém
escapou de ser conquistada pelos israelitas (Js 15.63) e não foi
tomada até a época de Davi, centenas de anos depois (2Sm 5.6-7).
Conclui-se o capítulo com a afirmação de que Josué subjugou
totalmente quatro regiões: a região montanhosa, o Neguebe (a área
desértica mais distante, ao sul), as encostas do oeste e as encostas
das montanhas. “Feriu-os Josué desde Cades-Barneia até Gaza, como
também toda a terra de Gósen até Gibeão. E, de uma vez, tomou
Josué todos estes reis e as suas terras, porquanto o S , Deus de
Israel, pelejava por Israel” (Js 10.41-42).

C
A fase final da conquista de Canaã transcorreu no norte, e novamente
seguiu as ações dos reis da terra. Jabim, rei de Hazor, era o líder de
uma coligação do norte, como Adoni-Zedeque, rei de Jerusalém, havia
sido o líder no sul. Ele ficou alarmado com as vitórias dos judeus, como
deveria ter ficado, então convocou os reis e exércitos das cidades do
norte. Eles uniram forças perto das águas de Merom, um lago um
pouco ao norte do grande mar da Galileia.
O novo elemento na batalha consistiu no uso de carros pela coligação.
Não sei até que ponto Josefo, o historiador judeu, é preciso, pois ele
escreveu muitas centenas de anos depois. Todavia, de acordo com ele,
as forças combinadas dos cananeus eram de 300 mil soldados a pé,
100 mil na cavalaria e 20 mil em carros. Se isso for verdade (ou
mesmo se for apenas uma aproximação do tamanho do exército), esse
deve ter sido o maior combate na distinta carreira de Josué. Os
números em si são assustadores, mas além disso, havia os carros
contra os quais Israel nunca havia lutado. Josefo diz: “Esse exército de
inimigos consternou o próprio Josué e os israelitas, e, com o excesso
de seu medo, tornam escassa a esperança de alcançar o sucesso”.[34]
A Bíblia não diz que Josué ficou com medo pelo tamanho e natureza
das forças opostas, mas é possível que sim, pois Deus interveio de
novo para prometer-lhe sucesso: “Não temas diante deles, porque
amanhã, a esta mesma hora, já os terás traspassado diante dos filhos
de Israel; os seus cavalos jarretarás e queimarás os seus carros”
(Js 11.6).
Se Josué ficou intimidado com o tamanho do exército, ele se recusou a
demonstrá-lo. A história diz que, de imediato, marchou contra os
inimigos e os atacou de repente, exatamente como havia marchado
contra a coligação do sul de Gibeão e a derrotou. A batalha foi
provavelmente a mais violenta e sangrenta de toda a conquista,
embora pouquíssimos detalhes sejam fornecidos. Tudo que se diz é:
“O S os entregou nas mãos de Israel” e que “os feriram e os
perseguiram até à grande Sidom, e até Misrefote-Maim, e até ao vale
de Mispa, ao oriente; feriram-nos sem deixar nem sequer um. Fez-lhes
Josué como o S lhe dissera; os seus cavalos jarretou e os seus
carros queimou” (Js 11.8-9).
Após a derrota e a destruição da coligação do norte, Josué atacou as
cidades, começando por Hazor, que chefiara a coligação. Nesse ponto,
não recebemos os nomes das cidades que Josué conquistou. Isso
ocorre mais tarde, no capítulo 12. Em vez disso, somos informados de
que Josué tomou a “terra inteira”. A descrição a seguir abrange toda a
conquista, não apenas a campanha do norte. O texto descreve seis
áreas:
1. A região montanhosa, parte da qual ficava ao sul e parte da qual
ficava ao norte;
2. O Neguebe, a terra cada vez mais pobre que se estende ao sul de
Judá;
3. Gosén, uma área mais ao sul, cuja localização exata não foi
determinada (não é o lugar no Egito onde os judeus se estabeleceram
nos dias de José);
4. A encosta oeste, a região que se estende em direção ao mar
Mediterrâneo;
5. Arabá, a terra fértil a leste do rio Jordão; e
6. As montanhas de Israel com suas encostas, que incluem tudo ao
norte.
O território assim conquistado e ocupado é extenso. Estende-se de
Sidom ao Egito e do mar Mediterrâneo ao deserto. Era, de fato, toda a
terra que havia sido prometida a Israel.

R
O livro de Josué é dividido em duas partes: a conquista da terra e o
assentamento. A história da conquista termina no capítulo 12, portanto,
é apropriado que ele seja o resumo da conquista — que remonta às
batalhas travadas sob as ordens de Moisés, no outro lado do Jordão,
antes da invasão da terra. Então, o território conquistado representa a
porção dada aos descendentes de Rúben, Gade e meia tribo de
Manassés. Em seguida, as vitórias de Josué são resumidas,
concluindo com uma lista dos reis derrotados e mortos. É uma espécie
de lista de verificação:
Rei de Jericó Um

Rei de Ai (perto de Betel) Um


Rei de Jerusalém Um

Rei de Hebrom Um
Rei de Jarmute Um

Rei de Laquis Um...


A lista continua, chega a 31 itens e é concluída assim: “ao todo trinta e
um reis” (Js 12.9-24).
Assim terminou a conquista oficial da terra de Canaã, sob o comando
de Josué, filho de Num.

Q
A presença de Josué é sentida em todo o resto do livro que leva seu
nome. De fato, o livro termina com seus grandes sermões para os
líderes e o povo, nos quais os desafia a escolher Deus e servi-lo com
fidelidade. Ainda assim, este é um bom momento para recordar as
vitórias deste grande general e questionar as qualidades que o
tornaram um líder excepcional. Observarei seis delas. Josué:
1. Não permitiu que os ganhos de curto prazo o desviassem dos
objetivos de longo alcance. Josué poderia ter agido assim. A ilustração
principal é a descoberta do esconderijo dos reis da coligação do sul na
batalha abaixo de Gibeão. A descoberta dos reis foi uma grande
mudança de sorte, certamente dada a Josué por Deus. Matá-los teria
sido uma grande vantagem. No entanto, Josué percebeu que sua
principal tarefa era derrotar os exércitos deles e ocupar as terras do
sul; por isso, selou a cova em que os reis estavam escondidos e
depois lidou com eles.
A maioria dos cristãos pode aprender algo com Josué neste ponto,
pois somos confrontados muitas vezes com oportunidades boas, mas
de curto prazo e, não raro, elas nos afastam das tarefas principais.
Algum tempo atrás, eu conversava com Lorne Saney, o ex-líder do
ministério de discipulado Navigators. Ele me contou sobre como
administra as prioridades em meio a um estilo de vida com muita
pressão. Todos os anos, depois do Natal, ele tira um tempo para
estabelecer os objetivos pessoais do novo ano. Faz anotações e as
categoriza, determinando como alcançará cada uma delas nos
próximos 12 meses. Ele repete isso trimestralmente, o que lhe permite
reavaliar e rever, vendo até que ponto chegou ou como seu
pensamento pode ter mudado. O que mais me impressionou na
conversa foi a descrição de Saney de fazer a mesma coisa todos os
domingos à noite, em preparação para o trabalho da nova semana. Ao
fazer isso, ele ora. Então, tenta seguir adiante, fazendo as coisas de
maior importância primeiro. Algo assim seria útil para muitos cristãos
distraídos e desorientados.
2. Entendeu a necessidade que outros têm do encorajamento visível.
Quando Josué voltou a lidar com os reis capturados, ele não os matou
de imediato. Em vez disso, chamou seus comandantes e os fez passar
por ele, colocando os pés no pescoço dos reis que haviam sido
prostrados diante dele no pó. Josué estimulou os líderes, ao dizer em
essência o que Deus lhe falara para encorajá-lo: “Não temais, nem vos
atemorizeis; sede fortes e corajosos, porque assim fará o S a
todos os vossos inimigos, contra os quais pelejardes” (Js 10.25). Josué
sabia que haveria muitas batalhas longas e difíceis pela frente e
percebeu que os comandantes precisavam de incentivo regular e
contundente para perseverar.
O mesmo corre hoje. Uma das igrejas mais generosas (na proporção
de seus membros) nos EUA é a Ward Presbyterian Church de Livonia,
Michigan, pastoreada pelo dr. Bartlett Hess. Os membros dessa igreja
doam mais de 2 milhões de dólares para a obra cristã todos os anos.
Como fazem isso? Hess explica que o segredo é o estímulo. Alguns
pastores estão intimidam sempre as congregações pois não
contribuem com dinheiro suficiente. Hess os elogia pelo que ofertam e
apresenta relatórios cuidadosos e regulares do que é feito com a
quantia ofertada. Os mesmos princípios são válidos para a criação de
filhos: eles precisam ser estimulados. Eles também valem para o
relacionamento entre marido e mulher, patrão e empregado, e outros.
3. Não pegou atalhos, mas seguiu a campanha militar em uma
progressão lógica, passo a passo. Ainda hoje os estudantes das
Escrituras se impressionam com a busca consistente e lógica desse
homem pela conquista. Ele derrotou os reis e seus exércitos. Então,
avançou passo a passo contra as cidades fortificadas. Não havia outra
maneira de conquistar a terra por completo. A derrubada progressiva
das cidades, descrita de forma tão breve em Josué 10-12, durou
7 anos.
Isso ajudaria muitos de nós a sermos tão consistentes quanto Josué na
vida cristã. Em nossos dias, muitos livros, palestras e seminários nos
apresentam atalhos para o crescimento espiritual e a maturidade.
Perdemos muito tempo com isso, pois não há atalhos no
desenvolvimento da vida cristã. Não há mistério. A Bíblia nos diz que
devemos ler e estudar a Bíblia, orar, adorar com outros membros do
povo de Deus, testemunhar aos não cristãos e servir a outros de
maneiras específicas. Isso funciona e sempre funcionou, mas não é
um atalho para a maturidade. É apenas algo que devemos fazer e
continuar fazendo ao longo da vida cristã. Josué é um modelo para nós
nessa área.
4. Não permitiu que seus erros anteriores o perturbassem ou o
derrotassem. Josué era um grande líder, e Deus o usou grandemente.
Mas isso não significa que Josué era perfeito. Somos informados de
dois erros cometidos no início das campanhas. Primeiro, ele atacou Ai
ao seguir o conselho dos espias sem consultar o Senhor; por isso
sofreu uma derrota vergonhosa. Havia pecado no acampamento. Mas
ele poderia ter sido informado disso e ter lidado com a situação se
tivesse consultado a Deus primeiro. Segundo, ele foi enganado pela
mentira dos gibeonitas pela mesma razão. Ele tomou uma decisão com
base em suas observações e não orou.
Suponho que o diabo tenha chegado a Josué muitas vezes depois
disso, como ele muitas vezes vem até nós, e o acusou de ser um
grande fracasso e, portanto, inútil para Deus. Este é um dos truques do
diabo. Ele dirá: “Bem, você certamente estragou tudo. Você se
desonrou e se tornou inútil no que diz respeito a servir a Deus. Você
deveria desistir. Esqueça Deus. Sirva-me”. Josué não foi enganado por
isso, e também não devemos ser. Ele reconheceu seu fracasso como
fracasso, confessou-o e o deixou para trás. Ele fez o que o apóstolo
Paulo disse aos filipenses: “Esquecendo-me das coisas que para trás
ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o
alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus”
(Fp 3.13-14).
5. Creu em Deus implicitamente. O teólogo Robert C. Sproul aponta
uma grande diferença entre acreditar na existência de Deus e crer em
Deus. Muitas pessoas admitem que ele existe, mas não creem nele;
elas não acreditam no que ele diz. Josué creu em Deus e, como todos
os heróis da fé, agiu de acordo com sua crença. Deus disse a ele: “Sê
forte e corajoso; não temas, nem te espantes, porque o S , teu
Deus, é contigo por onde quer que andares” (Js 1.9). Josué esperava
com firmeza que Deus derrotaria seus inimigos. Então, atacou-os
esperando pela vitória.
6. Obedeceu completamente. Opino que a menção mais importante a
respeito de Josué se encontra no versículo 15 do capítulo 11: “Como
ordenara o S a Moisés, seu servo, assim Moisés ordenou a
Josué; e assim Josué o fez; nem uma só palavra deixou de cumprir de
tudo o que o S ordenara a Moisés”. Que declaração notável!
Josué “nem uma só palavra deixou de cumprir de tudo o que o S
ordenara a Moisés”. Foi-lhe dito para conquistar Canaã, por isso o fez
passo a passo em obediência aos mandamentos de Deus. Primeiro
Jericó, depois Ai, depois Gibeão, depois as cidades do sul, depois as
cidades do norte. Depois, organizou o assentamento descrito em
Josué 13-22. Ele fez tudo. Ninguém poderia apontar para uma única
coisa e dizer: “Josué, você se esqueceu de fazer isso. A tarefa não
está concluída”.
Quão maravilhoso seria se isso ocorresse com cada um de nós — se
ninguém pudesse apontar algo que deixamos de fazer e dissesse: “De
tudo que o Senhor ordenou [...] não deixou de fazer nada”. Nesse
caso, todos veríamos conquistas ainda mais extensas e bênçãos ainda
maiores que as experimentadas pelas forças de Israel.
12. Repartição da terra (Josué 13.1-19.51)
Era Josué, porém, já idoso, entrado em dias; e disse-lhe o S : Já estás
velho, entrado em dias, e ainda muitíssima terra ficou para se possuir [...]
reparte, pois, a terra por herança a Israel, como te ordenei. Distribui, pois,
agora, a terra por herança às nove tribos e à meia tribo de Manassés. E
assim acabaram de repartir a terra. (Js 13.1, 6, 7; 19.51)
São duas as divisões principais do livro de Josué: capítulos 1-12, que
descrevem a conquista de Canaã, e os capítulos 13-24, que
descrevem a distribuição da terra. Estamos no início do capítulo 13,
portanto, exatamente no meio do livro e no início da segunda seção.
Vários anos se passaram. A leitura rápida das campanhas militares
descritas em Josué 10-12 pode dar a impressão de que a derrota das
fortalezas da cidade do norte e do sul foi realizada em pouco tempo,
mas ela está errada. É verdade que as grandes batalhas da conquista
ocorreram em rápida sucessão e a força dos cananeus foi quebrada
em questão de semanas ou meses. Contudo, era apenas o começo.
Josué havia derrotado os exércitos dos cananeus em duas grandes
batalhas em Gibeão e junto às águas do Merom, mas foram seguidas
pela subjugação necessária das fortalezas da cidade, e isso levou
tempo.
Quanto tempo levou? Bem, Josué 14.7 nos diz que Calebe contava
40 anos quando Moisés o enviou para espionar a terra. Ele já
alcançara os 85 anos quando a guerra terminou e estava prestes a
receber a herança (v. 10). A diferença é de 45 anos, dos quais 38
foram vividos no deserto, com o povo de Israel, antes do início da
conquista. Portanto, as guerras de conquista devem ter levado cerca
de 7 anos.
A segunda parte do livro começa dizendo que Josué estava velho. Não
se sabemos sua idade exata, mas provavelmente era mais velho que
Calebe. De qualquer forma, quando Josué faleceu, no final do livro, ele
contava 110 anos. A maioria dos comentaristas acredita na
possibilidade de ele contar quase 90 anos nesse momento. O
problema da época era que, embora as grandes fortalezas da terra
(com algumas exceções, como Jerusalém) tivessem sido derrubadas,
ainda havia centenas de cidades menores ou enclaves cananeus a
serem tomados. O que deveria ser feito sobre isso? O plano dado pelo
Senhor a Josué, e que ele executou, previa repartir a terra entre as
tribos judaicas e depois enviar cada uma para estabelecer a própria
porção, subjugando os cananeus que ainda estavam na terra.
A chave para entender Josué 13-19 está no primeiro versículo da
seção: “E ainda muitíssima terra ficou para se possuir” (Js 13.1). Agora
essa tarefa estava sob a responsabilidade de cada tribo.

A
Mesmo isso foi feito em duas etapas de forma deliberada. A primeira
etapa dessa divisão e assentamento se encontra em Josué 13-17. Diz
respeito às duas tribos e meia estabelecidas a leste do Jordão (Rúben,
Gade e metade da tribo de Manassés); Judá, estabelecida ao sul; e
Efraim e a outra metade da tribo de Manassés, estabeleceram-se no
norte. Isso parece ter sido feito por interesses militares. O norte, o sul e
o leste eram as fronteiras militares de Israel; portanto, ao estabelecer
cinco tribos fortes nas áreas, Josué criou um ambiente seguro para o
restante das tribos.
Rúben, Gade e Metade da tribo de Manassés (Js 13.8-33)
A distribuição de terra para as tribos de Rúben, Gade e metade da tribo
de Manassés não era nova, havia sido determinada por Moisés antes
da conquista. Essas pessoas solicitaram a terra e Moisés a concedeu
sob a condição de que não usarem a herança para evitar sua parte na
conquista. Essas tribos se uniriam às demais nas batalhas necessárias
para proteger Canaã (v. Nm 32; Dt 3.18-20; Js 1.12-15). O registro da
distribuição do território transjordaniano a essas pessoas está incluído
aqui, porque esta é a seção do livro em que se registra a repartição
geral da terra.
Judá (Js 15.1-63)
A distribuição das partes do sul do país a Judá ocupa todo o
capítulo 15 e é bastante importante, pois Judá se tornou a tribo mais
importante. Judá, seu patriarca, foi o quarto dos 12 filhos de Jacó,
nascidos depois de Rúben, Simeão e Levi. Ele normalmente não
receberia destaque, não fosse pelos pecados dos irmãos mais velhos
que os desqualificaram das bênçãos especiais de primogenitura.
Rúben desonrou seu pai ao dormir com a concubina de Bila
(Gn 35.22). Simeão e Levi lideraram o massacre contra os siquemitas,
que Jacó disse “manchar” seu nome na terra (Gn 34).
A bênção completa da primogenitura (perdida por Rúben, Simeão e
Levi) não foi para Judá. Parte dela foi para José na pessoa de seus
dois filhos, Efraim e Manassés (1Cr 5.1-2). Ou seja, José recebeu a
porção dupla da herança do pai, por meio de cada filho, pois eles se
tornaram pais de uma tribo judaica e receberem um território tribal
separado. No entanto, Judá recebeu o direito de governar. De acordo
com a profecia de seu pai, registrada em Gênesis 49.8-12, Judá
deveria gerar reis e, mais tarde, o rei dos reis, o Messias.
E que lista de reis!
Davi, o maior de todos os reis de Israel, foi descrito como “um homem
segundo o coração de Deus”. Ele governou durante 40 anos, trouxe
paz a Israel e foi o autor de muitos dos mais belos salmos de Israel.
Salomão foi conhecido por sua sabedoria. No reinado dele, Israel
chegou ao auge da glória. Ele construiu o grande templo em Jerusalém
e foi o autor de Provérbios, Eclesiastes e o Cântico dos Cânticos.
Muito mais tarde, Josias foi usado por Deus para trazer o avivamento
da religião em que a lei foi redescoberta, o templo purificado e os
centros de culto a falsos deuses destruídos por toda a terra.
Esses reis reinaram em Jerusalém, que ficava na fronteira norte de
Judá. Os judeus não conseguiram tomar Jerusalém no momento da
conquista, como nos é dito em Josué 15.63, mas foram finalmente
expulsos por Davi, como registrado em 2 Samuel 5.6-7.
Efraim e a outra metade da tribo de Manassés (Js 16.1-17.18)
Uma característica interessante dessa distribuição é que grande parte
foi dada às cinco filhas de Zelofeade: Macla, Noa, Hogla, Milca e Tirza
(Js 17.3-6). Geralmente a terra era deixada para os filhos. Zelofeade
havia morrido sem deixar herdeiros do sexo masculino, e as filhas
desse homem se aproximaram de Moisés, dizendo: “Por que se tiraria
o nome de nosso pai do meio da sua família, porquanto não teve
filhos? Dá-nos possessão entre os irmãos de nosso pai” (Nm 27.4; v.
Nm 27.1-11; 36.1-12). Deus disse a Moisés que o apelo das mulheres
era certo, assim Josué 17 registra que elas receberam sua herança.
O interessante sobre as primeiras distribuições da terra, como Francis
Schaeffer aponta, é que elas estavam de acordo com decisões ou
princípios previamente registrados nos escritos de Moisés. Então, de
novo, somos lembrados de que o povo dispunha da Palavra de Deus
escrita que consideravam obrigatória: “O Pentateuco já era
completamente normativo. Ele era a Palavra de Deus para aquele
povo”. No caso das filhas de Zelofeade, as mulheres apelavam aos
escritos de Moisés sobre algo “que não apenas trazia em si algum tipo
de sentimento religioso, mas também dava ordens específicas que
deveriam ser obedecidas em cada detalhe”.[35]

D S
No final do período, o acampamento de Israel foi transferido de Gilgal
para Siló que ficava no alto país entre Ai e Gerizim. Provavelmente foi
alterado por razões militares, já que as fronteiras da nação estavam
protegidas agora. Aqui a segunda etapa da divisão ocorreu. Foi feito
um levantamento, o território restante foi dividido em sete partes e uma
descrição cuidadosa de cada porção (uma escritura de propriedade da
terra) foi registrada. Em seguida, as tribos restantes receberam suas
porções por sorteio, o que significa que a escolha foi de Deus.
Benjamim (Js 18.11-28)
A sorte caiu primeiro sobre Benjamim. Essa tribo relativamente
pequena recebeu uma porção de território situada entre Efraim e Judá
(porção de José) (Js 18.11). Não era um grande pedaço de terra, como
convinha ao pequeno tamanho de Benjamim, mas incluía lugares
importantes: Jericó, Ai, Betel, Gibeão e outros. Mais importante, ficava
perto de Judá, tocando o território de Judá em Jerusalém. Nos anos
posteriores, quando a nação se dividiu no reino do norte de Israel e no
reino do sul de Judá, Benjamim permaneceu com Judá no sul e assim
preservou a verdadeira adoração a Deus por um tempo.
Simeão (Js 19.1-9)
Simeão e Levi foram os patriarcas que lideraram o massacre dos
siquemitas e, na profecia de Jacó sobre o futuro de seus filhos,
registrada em Gênesis 49, eles são julgados ao serem mantidos fora
da posse de território na terra conquistada. As palavras de Jacó foram:
“Dividi-los-ei em Jacó e os espalharei em Israel” (Gn 49.7). Isso foi
cumprido, embora da maneira mais graciosa. É verdade que Simeão
não recebeu território próprio, mas recebeu terras dentro da terra de
Judá. Levi não recebeu a partilha tribal. Levi estava literalmente
espalhado por todo o território das outras tribos. Mas os levitas foram
feitos sacerdotes, e assim a dispersão deles foi realmente
transformada em bênção para as outras tribos e para si. Eles foram
estabelecidos em 48 cidades sacerdotais, onde deveriam representar e
ensinar sobre o verdadeiro Deus de Israel.
Zebulom (Js 19.10-16)
Quatro das tribos judaicas menores se estabeleceram ao norte, mesmo
acima do território designado a Efraim e às duas metades da tribo de
Manassés. Zebulom ficava ao norte da planície de Megido, quase
diretamente a leste do monte Carmelo.
Issacar (Js 19.17-23)
Issacar era irmão de Zebulom, ambos nascidos da primeira esposa de
Jacó, Lia. Eles eram o nono e o décimo dos 12 filhos de Jacó e, sendo
mais jovens, provavelmente cresceram juntos e se tornaram bastante
próximos. Portanto, na distribuição da terra, seus territórios ficam um
ao lado do outro. Issacar tocava o território de Zebulom, no lado leste
também ao norte de Manassés.
Aser (Js 19.24-31)
As terras dadas a Aser estendiam-se pela costa mediterrânea do
monte Carmelo até Sidom, no norte. Era um lugar muito fértil, mas
também foi exposto às influências corruptas das cidades gentias da
região, particularmente Tiro e Sidom.
Naftali (Js 19.32-39)
O território de Naftali corria paralelo ao de Aser, mas era interior.
Incluía as importantes cidades do NT de Cafarnaum, Caná e Betsaida,
embora não existissem no momento da conquista. Isaías introduziu
sua profecia do Messias por uma bênção sobre Naftali e Zebulom, que
deveriam ser chamadas de “Galileia dos Gentios” na época. Ele
escreveu: “Deus, nos primeiros tempos, tornou desprezível a terra de
Zebulom e a terra de Naftali; mas, nos últimos, tornará glorioso o
caminho do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios [...] e aos que
viviam na região da sombra da morte, resplandeceu-lhes a luz” (Is 9.1-
2).
Dã (Js 19.40-48)
A última das tribos a receber terras foi Dã. O território de Dã ficava
mais ao sul, na área entre o mar e Jerusalém. Este era o território
filisteu, incluindo (entre outros assentamentos) as grandes cidades de
Aijalom, Ecrom e Gate. É significativo que Josué 19 registre que o
povo de Dã teve problemas para tomar posse desse território.
(Sabemos que os filisteus permaneceram lá para atormentar Israel nos
anos posteriores.) Em vez disso, atacaram a cidade de Lesém,
subjugaram-na e ocuparam seu território.
No final do relato, somos informados de que após a divisão da terra por
Josué, os israelitas lhe deram uma herança. Ele pediu e recebeu a
cidade montanhosa de Timnate-Sera, no território de Efraim, algo
apropriado, pois ele era da tribo de Efraim (v. Nm 13.8). Essa parte do
livro é concluída com a seguinte explicação: “Eram estas as heranças
que Eleazar, o sacerdote, e Josué, filho de Num, e os cabeças dos pais
das famílias repartiram por sorte, em herança, pelas tribos dos filhos
de Israel, em Siló, perante o S , à porta da tenda da
congregação. E assim acabaram de repartir a terra” (Js 19.51). Eis um
final satisfatório para uma grande aventura militar e espiritual.

T
No capítulo anterior, examinamos algumas características marcantes
de Josué, mas vale a pena dizer, neste ponto, a título de resumo e
ênfase, que a característica marcante desse grande homem era sua
fidelidade no serviço a Deus e ao povo de Deus até o fim. Noventa
anos é uma idade bem avançada. Muitas pessoas param qualquer tipo
de serviço a Deus muito antes dessa idade, e muitas outras (ainda
jovens e trabalhando) não são muito fiéis. Josué não! Ele recebeu a
missão de conquistar e tomar posse de Canaã, e não desistiu a
conclusão dessa grande missão. A esse respeito, é significativo que
ele não tenha recebido a própria porção da terra até ter feito todo o
possível para destruir as fortalezas dos cananeus.
A fidelidade de Josué à tarefa não significava que o povo não tinha
nada para fazer ou que a necessidade de fidelidade da parte deles era
menos importante. Ao dividir a terra e enviar as várias tribos para
possuí-las, Josué reconheceu a responsabilidade do próprio povo e os
encorajou a isso.
É importante perceber isso, pois os cristãos geralmente consideram o
líder forte a desculpa para a própria falta de realizações. Se outra
pessoa trabalhar, eles se sentam e desfrutam dos benefícios de sua
realização. Isso não está certo. É verdade que Deus distribui dons de
maneira irregular. Na parábola dos talentos de Cristo, um servo
recebeu cinco talentos em dinheiro, outros dois e um terceiro apenas
um (Mt 25.14-30; veja uma variação dessa parábola em Lc 19.11-27).
Mas o objetivo é apontar o fato da responsabilidade de cada servo no
uso do talento concedido. Quem se recusou a usar o talento, mesmo
tendo apenas um, foi julgado com severidade.
À semelhança dos israelitas, nós também, cristãos, devemos tomar
posse do que é nosso. A ideia de possuir o que já nos foi dado por
Deus é um tema desenvolvido por muitos comentaristas de Josué, em
particular os que tratam o livro como uma alegoria da vida cristã.[36]
Eles apontam, com toda a razão, que, como o povo judeu recebeu
Canaã, mas ainda assim precisava conquistá-la quilômetro por
quilômetro e pessoa por pessoa, os cristãos receberam uma herança
cuja posse, da mesma forma, deve ser alcançada pela realização
individual. Esses comentaristas falam de conhecimento, santidade e os
dons do Espírito Santo. Claramente, eles são todos nossos. Mas
entramos neles apenas na medida exata em que chegamos a entender
e a Bíblia e nos apropriarmos dela, aproximamo-nos do Senhor Jesus
Cristo e lhe obedecemos e, na verdade, servimos a outros com os
dons recebidos.
Aplico isso de outra maneira. Em Apocalipse 11.15, um dos anjos de
Deus toca uma trombeta e as hostes do céu clamam: “O reino do
mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos
séculos dos séculos”. Esse versículo é uma atualização de algo já
ocorrido em princípio e envolve cada um dos seguidores de Cristo. Aos
olhos de Deus, o mundo e seus reinos já foram dados a Jesus e, com
base nessa posse e na autoridade de Jesus sobre o mundo, seus
discípulos são enviados por toda a terra a chamar os povos e reinos à
obediência. (v. Mt 28.18-20). Em outras palavras, somos enviados ao
mundo para anunciar o governo de Cristo, levar as pessoas a ele e,
assim, atualizar sua posse. O evangelismo é parte do que os teólogos
chamam “mandato cultural”.
Embora haja terra para todo cristão possuir, cada um deve pertencer a
Cristo antes de poder tomar posse dela, pois é pela força dele e não
nossa que podemos fazer qualquer coisa. Os reinos do mundo são
nossa herança, pois são de Cristo, e Cristo é nosso. Mas nós somos a
herança de Cristo — ele falou de nós ao Pai como “aqueles a quem tu
me deste” — e devemos pertencer de modo total a ele se quisermos
desfrutar de tudo que Cristo tem para nós.
13. O Ancião magnífico (Josué 14.6-15)
Chegaram os filhos de Judá a Josué em Gilgal; e Calebe, filho de Jefoné, o
quenezeu, lhe disse: Tu sabes o que o S falou a Moisés, homem de
Deus, em Cades-Barneia, a respeito de mim e de ti. Tinha eu quarenta anos
quando Moisés, servo do S , me enviou de Cades-Barneia para espiar
a terra; e eu lhe relatei como sentia no coração. Mas meus irmãos que
subiram comigo desesperaram o povo; eu, porém, perseverei em seguir o
S , meu Deus. Então, Moisés, naquele dia, jurou, dizendo:
Certamente, a terra em que puseste o pé será tua e de teus filhos, em
herança perpetuamente, pois perseveraste em seguir o S , meu Deus.
Eis, agora, o S me conservou em vida, como prometeu; quarenta e
cinco anos há desde que o S falou esta palavra a Moisés, andando
Israel ainda no deserto; e, já agora, sou de oitenta e cinco anos. Estou forte
ainda hoje como no dia em que Moisés me enviou; qual era a minha força
naquele dia, tal ainda agora para o combate, tanto para sair a ele como para
voltar. Agora, pois, dá-me este monte de que o S falou naquele dia,
pois, naquele dia, ouviste que lá estavam os anaquins e grandes e fortes
cidades; o S , porventura, será comigo, para os desapossar, como
prometeu.
Josué o abençoou e deu a Calebe, filho de Jefoné, Hebrom em herança.
Portanto, Hebrom passou a ser de Calebe, filho de Jefoné, o quenezeu, em
herança até ao dia de hoje, visto que perseverara em seguir o S ,
Deus de Israel.
E a terra repousou da guerra. (Js 14.6-15)
Na presença de um homem muito importante outras pessoas são
geralmente ofuscadas. Não é que os homens ofuscados nem sempre
sejam importantes, talvez sejam até maiores em alguns aspectos que
quem demanda mais atenção. Contudo, por várias razões, alguns
líderes simplesmente brilham e outros não. Foi assim com Josué e
Moisés. O mesmo aconteceu com Calebe na presença de seu
companheiro Josué.
É uma pena que isso tenha sido verdade para Calebe, pois ele foi um
homem extraordinário. Não há muitas informações a seu respeito.
Josué teria muito mais esquecido se não fosse o livro que leva seu
nome. Calebe nem sequer tem um livro. Ele é mencionado em apenas
meia dúzia ou uma dúzia de passagens bíblicas, e três delas em Josué
(Js 14.6-15; 15.13-19; 21.12). Embora possamos esquecê-lo, Calebe
não foi esquecido por Deus ou pelo povo. Calebe lutou lado a lado com
Josué durante os vários anos da conquista, e quando os combates
terminaram e chegou a hora de dividir a terra para o assentamento,
Calebe recebeu a porção que lhe havia sido prometida décadas antes.
Assim, Deus o honrou, como o povo.

H
Calebe aparece pela primeira vez em Números 13, o capítulo que
menciona a seleção dos 12 espias por Moisés. Eles deveriam
atravessar o Jordão e procurar a terra. Isso ocorreu 2 anos depois da
saída do povo judeu do Egito, quando Calebe contava 40 anos.
Na lista dos espias em Números 13.4-15, Calebe é citado como
representante da tribo de Judá, por proceder dela. Mas em outras
passagens ele é descrito como filho de Jefoné, o quenezeu (Js 14.6,
14), e os quenezeus não eram judeus. Eram pessoas que viviam na
terra em processo de conquista. De fato, eles são mencionados na
promessa originária da terra feita a Abraão, registrada em
Gênesis 15.18-21: “À tua descendência dei esta terra, desde o rio do
Egito até ao grande rio Eufrates — o queneu, o quenezeu, o
cadmoneu, o heteu, o ferezeu, os refains, o amorreu, o cananeu, o
girgaseu e o jebuseu” (grifo meu).
Então Calebe era estrangeiro, ou pelo menos seu pai. Não sabemos
como ele veio parar no Egito com o povo judeu. Talvez tenha sido
escravizado com os judeus sob o regime dos faraós, ou talvez seus
ancestrais tenham se dirigido ao Egito com os judeus. De qualquer
forma, em algum momento o pai de Calebe obviamente se identificou
com os judeus e foi leal à nova associação. Calebe também. De fato,
uma de suas principais características era a fidelidade. Portanto,
embora fosse estrangeiro, ele ainda se considerava fiel seguidor do
Deus dos judeus e o seguiu até o fim de sua vida.
O capítulo 13 de Números não conta muito sobre como os 12 espias
exploraram a terra, apenas: “Subiram e espiaram a terra desde o
deserto de Zim até Reobe, à entrada de Hamate. E subiram pelo
Neguebe e vieram até Hebrom; estavam ali Aimã, Sesai e Talmai,
filhos de Anaque” (v. 21-22). No entanto, suspeito que, desde o início,
Calebe tinha um interesse especial em Hebrom, a única cidade
realmente descrita em detalhes. Acho que ele insistiu na ida dos espias
até lá, ou eles se separaram e Calebe escolheu espiar Hebrom.
Por quê? Hebrom tinha desempenhado um papel importante na vida
dos patriarcas judeus, e Calebe, como novo membro da nação,
gostaria de ver onde estavam as raízes de suas novas alianças.
Hebrom foi o local onde Sara, esposa de Abraão, morreu e onde
Abraão comprou um campo contendo a caverna de Macpela, usada
como túmulo de Sara. Foi o único pedaço de Canaã que Abraão
realmente possuiu em vida, como se fosse o pivô dos judeus em
Canaã. Aqui o próprio Abraão foi sepultado, e mais tarde Isaque e
Rebeca, Jacó e, depois, José, que ordenara que seus ossos fossem
trazidos do Egito e enterrados lá quando os judeus deixassem o Egito
e conquistassem Canaã. Hebrom era o ponto mais próximo em Canaã
de um local sagrado para os judeus. Provavelmente por essa razão
Calebe, o novo cidadão judeu, insistiu em ver a cidade e depois a
reivindicou como herança especial.

D A
Havia algo mais sobre Hebrom que Calebe e os outros espias viram,
embora reagiram a isso de maneira diferente. Hebrom era o lar de
gigantes. Os espias que viram que a terra era boa, mas não
acreditavam que pudessem conquistá-la, disseram:
Fomos à terra a que nos enviaste; e, verdadeiramente, mana leite e mel;
este é o fruto dela. O povo, porém, que habita nessa terra é poderoso, e as
cidades, mui grandes e fortificadas; também vimos ali os filhos de Anaque
[...]. A terra pelo meio da qual passamos a espiar é terra que devora os seus
moradores; e todo o povo que vimos nela são homens de grande estatura.
Também vimos ali gigantes (os filhos de Anaque são descendentes de
gigantes), e éramos, aos nossos próprios olhos, como gafanhotos e assim
também o éramos aos seus olhos. (Nm 13.27-28, 32-33)
Sim, isso era um exagero. Nem todas as pessoas eram gigantes. Mas
os espias tinham visto algo que os assustou. Os nefilins eram gigantes
(esta é a palavra usada para “varões de renome, na antiguidade” em
Gn 6.4); Anaque descendia dos Nefilins, e três descendentes de
Anaque moravam em Hebrom. O texto de Números 13.22 até os
nomeia: Aimã, Sesai e Talmai. Dez espias viram esses gigantes e
concluíram que eles próprios eram como gafanhotos. Apenas Calebe e
Josué acreditavam que a terra poderia ser conquistada. Caleb disse:
“Eia! Subamos e possuamos a terra, porque, certamente,
prevaleceremos contra ela” (Nm 13.30).
Sabemos o que aconteceu. O povo ouviu a maioria tímida, como
geralmente ocorre, e Deus julgou sua incredulidade ao condenar toda
a geração a perambular no deserto até todas as pessoas com 40 anos
de idade ou mais, com exceção de Josué e Caleb, tivessem morrido.
Mas algo desse breve vislumbre de Hebrom na operação de
espionagem permaneceu com Calebe, e ele jamais conseguiu tirar o
lugar da cabeça. Muitas vezes ele deve ter dito a si mesmo: “Quando
voltarmos a Canaã, esse é o lugar que terei para mim. Eu disse que
Deus poderia expulsar os gigantes e, com a ajuda de Deus, é
exatamente o que vou fazer”.
Após a operação inicial de espionagem, Calebe pediu a Moisés que lhe
desse a região montanhosa que continha Hebrom, e Moisés consentiu.
Agora, no final da conquista, Calebe disse a Josué: “Agora, pois, dá-
me este monte de que o S falou naquele dia, pois, naquele dia,
ouviste que lá estavam os anaquins e grandes e fortes cidades; o
S , porventura, será comigo, para os desapossar, como
prometeu” (Js 14.12).
Essa foi a visão de Calebe nos 38 anos de peregrinação pelo deserto e
nos 7 anos da conquista. Frederick B. Meyer diz:
Entre as marchas e contramarchas, as inúmeras mortes, os murmúrios e
rebeliões do povo, ele manteve o propósito constante de fazer apenas a
vontade de Deus, agradá-lo, não conhecer outro líder e não ouvir outra voz.
Não adiantava tentar envolver aquele forte filhote de leão em qualquer
movimento contra Moisés e Arão. Ele não faria parte do despeito ciumento
de Miriã. Ele não seria seduzido pelos ardis das meninas de Moabe. Sempre
forte e verdadeiro, puro e nobre; como uma rocha em um mar instável, como
um pico coberto de neve em uma mudança de nuvens, tempestade e sol.
Um homem cuja natureza forte os homens mais fracos poderiam se
esconder, e que deve ter sido uma torre forte para a nova e jovem geração
que cresceu para preencher os lugares vazios na linha de frente de Israel. O
Nestor do campo hebreu, nele se antecipavam as palavras do salmista, que
dava fruto na velhice, e até o fim era farto e florescente.[37]
O caráter mantido durante toda a vida deu frutos no serviço abundante
desse homem magnífico.

H
Qual o segredo da grandeza de Calebe? Não é difícil responder a essa
pergunta: Calebe tinha total fé em Deus e se entregou totalmente a ele.
Grandes homens nunca são complicados. As pessoas complicadas
são fracas, cercadas por dezenas de causas e motivos conflitantes,
sem saber como conseguir tudo isso. Veem um lado de um problema,
mas também veem o outro lado. Observam a vantagem de um curso
de ação, mas reconhecem que pode ser melhor fazer outra coisa.
Grandes homens não são assim. Eles não são ingênuos. Eles sabem
que os problemas às vezes são complicados e que muitas vezes
existem caminhos diferentes que podem ser seguidos, mas veem a
causa importante e o melhor caminho e o seguem de maneira
consistente.
Atanásio tinha esse tipo de grandeza. Ele percebeu a importância de
preservar a plena divindade de Jesus Cristo para o cristianismo e lutou
por esse entendimento durante toda uma vida de controvérsia
teológica. E por fim, foi vindicado.
Lutero era outro homem assim. Ele se apossou da doutrina da
justificação pela fé e a apoiou fielmente, mesmo com o risco de sua
vida. Ele foi vindicado.
Wilberforce também foi ótimo nesses termos. Ele conhecia as
complexidades da questão da escravidão, mas também sabia que ela
era errada e lutou até deixar de existir no Império Britânico.
Lincoln lutou pela mesma causa na grande guerra entre os estados
americanos.
A lista poderia ser multiplicada muitas vezes, mas o que estou dizendo
é que Calebe tinha esse tipo de grandeza. Ele foi grande por manter fé
total em Deus e se entregar totalmente a Deus.
Por que Calebe tinha tanta fé em Deus? De novo, a resposta é
simples: por manter os olhos fixos em Deus e não nas coisas
vacilantes ou aterrorizantes à sua volta. Esse é o significado do relato
quase bem-humorado dos 10 espias registrado em Números 13 e o
contraste com o relato de Calebe e Josué. Nenhum dos espias
discordou do valor de Canaã. Era de fato uma terra “que mana leite e
mel”, como Deus disse. Nem diferiram na descrição do povo e das
cidades. As cidades eram grandes e bem fortificadas. O povo era
numeroso e havia gigantes na terra. O ponto de divergência consistia
na consciência de Deus. Os 10 olharam para si mesmos e para os
gigantes e concluíram que a conquista desse povo era impossível.
Comparados aos gigantes, os judeus pareciam gafanhotos. Calebe e
Josué olhavam para Deus e não para as circunstâncias, e quando
comparados a Deus, os gigantes eram gafanhotos. Por isso disseram:
“Não temais o povo dessa terra, porquanto, como pão, os podemos
devorar; retirou-se deles o seu amparo; o S é conosco; não os
temais” (Nm 14.9).
Alan Redpath escreveu sobre a fé de Calebe e Josué: “A maioria
mediu os gigantes contra a própria força; Calebe e Josué mediram os
gigantes contra Deus. A maioria tremeu; os dois triunfaram. A maioria
cria em gigantes e no deus pequeno. Calebe cria no Deus grande e
nos pequenos gigantes”.[38]
Há outra ilustração desse princípio. Pedro, um dos discípulos do
Senhor, viu Jesus caminhar na direção dele no mar da Galileia. Pedro
estava no barco, e o tempo estava tempestuoso. Mas em uma
explosão de fé, gritou: “Se és tu, Senhor, manda-me ir ter contigo, por
sobre as águas” (Mt 14.28). Quando Jesus ordenou que viesse, Pedro
saiu do barco e começou a andar sobre a água em direção a Jesus.
Infelizmente, ele tirou os olhos de Jesus e olhou para as ondas.
Quando o fez, começou a afundar, e Jesus estendeu a mão para salvá-
lo. Enquanto Pedro mantinha os olhos em Jesus, as ondas não eram
terríveis. Ele teria dito, como Calebe disse: “Certamente,
prevaleceremos contra ela” (Nm 13.30). Mas quando olhou para as
ondas, elas se tornaram esmagadoras e ele parecia muito pequeno,
prestes a ser tragado por elas.
“Quão grande é o seu Deus?”, perguntou John B. Phillips.[39] Calebe
cria no Deus grande, e o grande Deus de Calebe fez coisas grandiosas
por ele.

S
Há ainda outra parte da grande força espiritual de Calebe: ele se
entregou a Deus por completo. Isso fica mais claro em Josué 14. A
palavra principal é inteiramente: “A terra em que você pisou será uma
herança perpétua para você e para os seus descendentes, porquanto
você foi inteiramente fiel ao S , ao meu Deus” (Js 14.9, NVI, grifo
meu); “Por isso, até hoje, Hebrom pertence aos descendentes de
Calebe, filho do quenezeu Jefoné, pois ele foi inteiramente fiel ao
S , ao Deus de Israel (Js 14.14, NVI, grifo meu).
Inteiramente quer dizer com todo o coração. É a ideia incorporada ao
que Jesus chamou “grande e primeiro mandamento” (Mt 22.38):
“Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu
coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento” (Mt 22.37, v.
Dt 6.5). Nada pode ser mais básico para o verdadeiro discipulado. Mas
quantos de nós fazem isso ou se preocupam em fazê-lo? Pode-se
dizer que essa foi a característica dos longos anos de serviço de
Calebe, mesmo sendo um pecador como nós.
E ele ainda agia assim tempos depois! Isso não é notável? Calebe
serviu a Deus durante 45 anos, e agora ele contava 85 anos — um
bom momento para alguém se aposentar — 20 anos depois da idade
da aposentadoria da maioria. Mas Calebe ainda não havia terminado.
Ele lutou com Josué durante os sete longos anos da campanha militar.
Ele ganhou muitos troféus. Agora ele queria culminar a distinta carreira
com uma vitória sobre a área do país que vira e reivindicara quatro
décadas e meia antes. E ele o fez! O texto de Josué 15 diz que na
terra dada a Calebe havia duas cidades principais: Hebrom e Debir. O
próprio Calebe tomou Hebrom, ao expulsar os três descendentes de
Anaque: Sesai, Aimã e Talmai. Então ele ofereceu a filha ao homem
que poderia tomar Debir. Otniel, sobrinho de Calebe, tomou Debir.
Assim, Otniel e Acsa, filha de Calebe, se casaram e se estabeleceram
na própria porção da terra.

O J
Não posso encerrar o capítulo sem destacar que, ao se entregar
inteiramente a Deus, Calebe se contrasta com a maioria dos outros
israelitas do período. Calebe recebeu Hebrom e o tomou, expulsando
os anaquins da terra. Infelizmente, isso não era verdade para a maior
parte da nação. Muitas vezes nesta seção somos informados de que
eles não expulsaram os cananeus por completo. A terra era deles, o
poder dos cananeus foi quebrado, mas eles não tomaram posse
completa dos bens dados por Deus.
Por que isso? De novo, eis a resposta simples: Eles não serviram ao
Senhor inteiramente como Calebe. Penso ser provável estarem eles
cansados de lutar; talvez só quisessem um pouco de paz por um
tempo. Queriam aproveitar os despojos das batalhas. Sua religião
estava se tornando semelhante à exigida por muitos cristãos professos
hoje. Eles queriam estar “salvos, seguros e satisfeitos”. Bem, pode até
ser que estivessem salvos e seguros também. Mas eles não deveriam
ter ficado satisfeitos a ponto de abandonar a comissão. Ainda
“muitíssima terra ficou para se possuir” (Js 13.1), e eles não deveriam
se estabelecer em paz e prosperidade até a terem alcançado.
Além dos gigantes, outras coisas podem tirar nossos olhos de Deus e
do serviço prestado a ele. Podemos olhar para a paz, o conforto ou
milhares de outras coisas que competem pelo lugar de Deus.
Você se lembra dos versículos posteriores ao grande capítulo sobre os
heróis da fé em Hebreus? Hebreus 11 lista muitos dos magníficos
homens e mulheres do AT que lutaram pela fé e triunfaram. Somos
inspirados por esses exemplos — e com razão. Mas logo após as
histórias serem contadas, o autor do livro aplica os exemplos de fé a
nós, dizendo:
Portanto, também nós, visto que temos a rodear-nos tão grande nuvem de
testemunhas, desembaraçando-nos de todo peso e do pecado que
tenazmente nos assedia, corramos, com perseverança, a carreira que nos
está proposta, olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus,
o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não
fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus.
Considerai, pois, atentamente, aquele que suportou tamanha oposição dos
pecadores contra si mesmo, para que não vos fatigueis, desmaiando em
vossa alma. (Hb 12.1-3)
Tenho certeza de que houve momentos em que Calebe estava
bastante cansado, mas não desanimou; ele tinha os olhos fixos em
Deus, que lhe dava a vitória. Não ficaremos mais desanimados se
nossos olhos estiverem fixos em nosso grande Salvador e Senhor
Jesus Cristo.
14. As cidades especiais (Josué 20.1-21.45)
Disse mais o S a Josué: Fala aos filhos de Israel: Apartai para vós
outros as cidades de refúgio de que vos falei por intermédio de Moisés; para
que fuja para ali o homicida que, por engano, matar alguma pessoa sem o
querer; para que vos sirvam de refúgio contra o vingador do sangue.
E, fugindo para alguma dessas cidades, pôr-se-á à porta dela e exporá o
seu caso perante os ouvidos dos anciãos da tal cidade; então, o tomarão
consigo na cidade e lhe darão lugar, para que habite com eles. Se o
vingador do sangue o perseguir, não lhe entregarão nas mãos o homicida,
porquanto feriu a seu próximo sem querer e não o aborrecia dantes.
Habitará, pois, na mesma cidade até que compareça em juízo perante a
congregação, até que morra o sumo sacerdote que for naqueles dias; então,
tornará o homicida e voltará à sua cidade e à sua casa, à cidade de onde
fugiu. (Js 20.1-6)
Então, se chegaram os cabeças dos pais dos levitas a Eleazar, o sacerdote,
e a Josué, filho de Num, e aos cabeças dos pais das tribos dos filhos de
Israel; e falaram-lhes em Siló, na terra de Canaã, dizendo: O S
ordenou, por intermédio de Moisés, que se nos dessem cidades para habitar
e os seus arredores para os nossos animais. E os filhos de Israel deram aos
levitas, da sua herança, segundo o mandado do S , estas cidades e os
seus arredores (Js 21.1-3).
A maioria das pessoas se orgulha da cidade natal — uma forma de
dizer que, do ponto de vista do nativo, toda cidade, como toda pessoa,
é especial. Eu cresci em McKeesport, Pensilvânia, uma cidade na
junção dos rios Monongahela e Youghiogheny na parte oeste do
estado. Talvez não houvesse muitos motivos de orgulho, mas nos
orgulhávamos do time de futebol americano da escola. Lembramos às
pessoas que a atriz Shirley Jones veio daqui. Estávamos próximos de
Pittsburgh, o que também não ajudou muito, exceto que alguém havia
escrito uma música popular que dizia: “Há uma loja de penhores em
uma esquina em Pittsburgh, Pensilvânia”, e tomamos isso como parte
de nossa herança.
Nosso ambiente era completamente diferente do lago Wobegon, mas
entendo o espírito em que Garrison Keillor escreve sobre sua cidade
mítica, a pequena cidade em que “todas as mulheres são fortes, todos
os homens são bonitos e todas as crianças estão acima média”.
Às vezes, o orgulho das cidades é expresso em expressões
descritivas: Dallas é “o Grande D”; Nova York é “a Grande Maçã”;
Chicago é “a Cidade do Vento”. No meio do Kansas, existe um lugar
chamado de “Centro dos Estados Unidos”.
Israel também tinha suas cidades especiais. Elas eram especiais por
razões muito diferentes. Com certeza, havia orgulho nas muitas
centenas de cidades onde os judeus viviam. Vimos algo do fascínio
especial de Calebe por Hebrom, e Josué deveria se orgulhar da cidade
montanhosa de Timnate-Sera. Todos sentiriam orgulho da cidade que
ele havia capturado como parte da conquista judaica geral da terra. De
fato, noto um tom disso na lista cuidadosa das cidades designadas
para cada uma das tribos judaicas. Elas são conhecidas pelo registro,
é claro — como títulos de propriedade. Mas também deve ter havido
certa dose de orgulho, pois as pessoas examinavam a lista e viam as
próprias cidades. O registro era uma maneira de atribuir importância a
cada cidade.
Ainda assim, havia cidades particularmente especiais, como sugeri.
Elas são colocadas em duas classes. Primeira, havia as 48 cidades
dos levitas, os sacerdotes. Estas foram espalhadas por toda a terra
das outras 12 tribos (Efraim e Manassés, que eram descendentes de
José, cada um era uma tribo e, portanto, fizeram doze tribos além dos
levitas). Segunda, havia cidades de refúgio — 3 no lado leste do rio
Jordão e 3 no lado oeste. As cidades de refúgio são descritas em
Josué 20. As cidades dos levitas são descritas no capítulo 21.

C
As 6 cidades de refúgio foram retiradas das 48 cidades dos levitas.
Elas foram estabelecidas como cidades de refúgio sob o comando
específico de Deus, registrado em Números 35 e repetido com
algumas variações em Deuteronômio 19. (Existem duas menções mais
breves a essas cidades em Êx 21.12-13 e Dt 4.41-43.)
A necessidade delas surgiu do fato de que no mundo antigo, e até
certo ponto no Oriente até hoje, havia o seguinte costume: Se o
membro de uma família ou clã fosse morto por alguém, de modo
intencional ou acidental, a família do morto se reunia e designaria um
dos membros para ser o “vingador do sangue” do parente. Nesse
mundo, a máxima legal básica era “olho por olho e dente por dente”.
Portanto, se um membro da família fosse morto, era dever do vingador
do sangue localizar e matar os assassinos. Sim, havia certa justiça
primitiva no sistema. Alguém poderia ser morto por acidente, e sendo
essa a situação, seria injusto o vingador ser autorizado a prosseguir.
Moisés foi instruído a estabelecer cidades de refúgio onde quem matou
sem a intenção de assassinar, pudesse fugir em busca de segurança.
Por exemplo, Números 35 imagina a situação em que 2 homens
trabalham juntos cortando madeira. De repente, a cabeça do machado
de um homem voa e mata o outro homem. Essa é a situação em que o
vingador de sangue pode ser designado para eliminar o sobrevivente.
Todavia, no caso, o sobrevivente não teria culpa de nenhuma má
intenção real. Então, em vez de esperar com paciência por seu
destino, tendo que fugir do país como fugitivo ou se esconder, ele
correria de imediato para a cidade de refúgio mais próxima antes de o
vingador do sangue o alcançar.
Uma vez na cidade, o homem deveria comparecer diante dos anciãos,
como mostra o texto em Josué. Ele deveria declarar seu caso, explicar
o caráter acidental da morte. Então, se os anciãos da cidade julgassem
não haver intuito de matar e o ato tiver sido considerado fato um
acidente, o homem seria admitido na cidade, onde moraria em
segurança. Era necessário a ele permanecer ali até a morte do sumo
sacerdote que servia nesse período. Depois disso, ele poderia voltar
para casa em segurança.
É importante notar que este não era um acordo para os assassinos
poderem evitar a justiça. Quem assassinou seu semelhante deveria ser
executado judicialmente. Este era o dispositivo projetado para salvar
alguém culpado por um homicídio, mas sem a intenção de assassinar.
Francis Schaeffer trata dessa instituição especial de um modo que me
ajudou bastante. Ele comentou os seguintes pontos:
1. Em vez de tratar a vida de maneira leviana, como parece o resultado
prático de grande parte de nossa lei, a nomeação das cidades de
refúgio enfatizava o valor do homem feito à imagem de Deus. Em
outras palavras, a instituição das cidades foi motivada pela mesma
preocupação que exigia a execução do assassino. De volta às
primeiras páginas de Gênesis, após o grande Dilúvio, Deus disse a
Noé: “Certamente [...] da mão do próximo de cada um requererei a vida
do homem. Se alguém derramar o sangue do homem, pelo homem se
derramará o seu; porque Deus fez o homem segundo a sua imagem”
(Gn 9.5-6). A pena de morte foi estabelecida porque o homem foi feito
à imagem de Deus, portanto, é valioso demais para ser destruído. Em
Êxodo, o princípio é: “Quem ferir a outro, de modo que este morra,
também será morto” (Êx 21.12). Precisamente pelo mesmo princípio,
ninguém deveria ser executado se a morte causada fosse acidental.
Portanto, Êxodo continua e afirma: “Porém, se não lhe armou ciladas,
mas Deus lhe permitiu caísse em suas mãos, então, te designarei um
lugar para onde ele fugirá” (v. 13).
Schaeffer escreveu: “Porque Deus existe e porque ele tem um caráter,
nós vivemos num universo realmente moral. O assassinato viola a lei
do universo. Isso significa que o assassino traz em si uma culpa moral
verdadeira perante Deus — algo de que nossa geração sabe pouco ou
nada — e essa culpa precisa ser levada a sério”.[40]
2. Como as cidades de refúgio estavam abertas para estrangeiros
residentes em Israel e para judeus, como Josué 20.9 indica, temos
aqui um código de justiça genuinamente universal. Muitas sociedades
tiveram certa medida de justiça para os próprios cidadãos, enquanto
negavam a proteção dessas leis a pessoas de fora. Este não foi o caso
em Israel. Ali os estrangeiros desfrutavam dos mesmos direitos que os
judeus. Assim, Israel testemunhou a unicidade da raça humana e a
responsabilidade de cada pessoa ao único Deus verdadeiro.
3. Pelo fato de cada um desses pontos se basear na consciência
religiosa do povo judeu — todas as pessoas foram criadas pelo único
Deus à sua imagem —, esta lei, como as outras leis de Israel,
testemunhava o fato de que a único fundamento adequado para toda
lei universal é o caráter de Deus.
Schaeffer coloca assim:
As cidades de refúgio eram cidades levíticas — isto é, eles tinham que se
haver com Deus. A pessoa que procurasse refúgio deveria ficar na cidade
até a morte do sumo sacerdote; desse modo, ele seria lembrado de que as
leis civis estavam ligadas a Deus. Elas não existiam somente num vácuo
sociológico. Diferentemente do homem moderno, o povo do AT e das
comunidades cristãs depois da Reforma não via a lei civil como sendo
basicamente de cunho sociológico. Para eles, ela não estava firmada
primariamente sobre um contrato social. A lei civil estava relacionada com a
sociedade, mas não apenas à sociedade. Em última análise, estava
relacionada à existência e ao caráter de Deus. Isso é importante. A lei que
vem de Deus pode prover algo estável. A lei sociológica de hoje é relativista.
[41]
Deveria ficar evidente a partir desses pontos que a existência das
cidades de refúgio em Israel tem muito a dizer aos sistemas legais da
cultura ocidental moderna.

“O ”
Schaeffer também indica o fato de esses pontos também dizerem
muito como ilustração do valor da obra de Cristo para os pecadores. A
ilustração é imperfeita, claro. As cidades de refúgio eram para pessoas
inocentes de crimes reais. Não somos inocentes; ao contrário, somos
terrivelmente culpados aos olhos de Deus. Mais uma vez, embora
estivessem cuidadosamente espaçadas por todo o país, as cidades de
refúgio, muitas vezes estavam longe do pobre fugitivo, e seria apenas
no final de uma corrida desesperada que ele poderia encontrar
segurança. Cristo está sempre à mão. Ainda assim, apesar dessas
diferenças óbvias, muitos observaram que Jesus é de fato um refúgio
para nós, como as cidades de refúgio de Israel, e muitas
características dessas cidades têm paralelos espirituais.
Primeiro, era dever dos judeus indicar claramente o caminho para as
cidades de refúgio. Deuteronômio 19.3 diz que estradas deveriam ser
construídas para essas cidades. Fontes não bíblicas afirmam que a
ajuda a esses fugitivos era ainda mais extensa. Pontes foram
construídas sobre barrancos, para que o fugitivo pudesse pegar o
caminho mais curto possível. As estradas eram reparadas com cuidado
a cada primavera. Em todas as encruzilhadas, placas especiais diziam:
“Refúgio! Refúgio!”. Ninguém queria que o fugitivo seguisse o caminho
errado. Além disso, as placas eram ampliadas, para que mesmo um
homem que corresse muito pudesse lê-las sem parar. Eis um bom
paralelo à responsabilidade de tornar o caminho para Cristo facilmente
acessível aos perdidos. À parte de Cristo, o pecador está morto. Quem
o ajudará a encontrar o caminho para essa cidade? Devemos construir
pontes, reparar estradas e erguer sinais que conduzam a Jesus. Além
disso, devemos ficar no caminho e apontar o refúgio. Devemos gritar:
“Este é o caminho! Lá há segurança!”.
Segundo, as portas das cidades de refúgio sempre estavam
destrancadas. Essa era uma característica importante e incomum para
as cidades antigas. Naqueles dias, as cidades trancavam os portões à
noite para proteger os residentes de ladrões, vândalos ou qualquer
pessoa que pudesse prejudicá-los. Em tempos de guerra, os portões
sempre estavam trancados; mas não era assim nas cidades de refúgio.
Os portões dessas cidades sempre deveriam estar abertos, como os
braços de Cristo estão sempre abertos para receber quem vier a ele.
Jesus disse: “O que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora”
(Jo 6.37). O último capítulo da Bíblia diz: “O Espírito e a noiva dizem:
Vem! Aquele que ouve, diga: Vem! Aquele que tem sede venha, e
quem quiser receba de graça a água da vida” (Ap 22.17).
Terceiro, as cidades de refúgio não eram apenas para judeus, mas
para pessoas de todas as raças. Da mesma forma, a salvação
disponível em Jesus Cristo é para todos. Não importa sua identidade.
Você pode ser jovem ou velho, judeu ou gentio. Negro ou branco, rico
ou pobre, homem ou mulher, com boa instrução ou sem, privilegiado
ou desfavorecido. Não importa, o caminho da salvação está disponível.
Você precisa apenas desistir de qualquer ilusão de segurança que
possa ter agora, reconhecer o perigo em que se encontra e fugir para
Jesus.
Por último, se um homicida não fugisse para uma das cidades de
refúgio, não havia esperança para ele; não havia outra provisão na lei
de Israel para sua salvação. Se não fugisse para lá, o vingador do
sangue o alcançaria e ele seria morto. Você também é perseguido pelo
vingador incansável e inevitável: a morte. Você pode viver por muito
tempo, mas, apesar de sobreviver a Matusalém, acabará sendo
atingido por esse terrível inimigo. Quem sabe? Você pode ser atingido
neste ano, neste mês, até mesmo na mesma hora em que lê estas
palavras. Como você pode escapar do inimigo? Existe apenas um
caminho: Jesus. Você deve fugir para ele. Jesus disse: “Eu sou a
ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e
todo o que vive e crê em mim não morrerá, eternamente” (Jo 11.25-26).
O autor de Hebreus provavelmente estava pensando nas cidades de
refúgio quando escreveu sobre os “que fugiram para se apossar da
esperança oferecida a eles” (Hb 6.18).

C
Josué 21 é o último capítulo do livro que trata da distribuição do povo
de Israel na terra. Diz respeito à distribuição de 48 cidades especiais
aos levitas. Elas estavam espalhados por todo o país, para que o
benefício da presença, serviço e ensino dos levitas pudesse estar
amplamente disponível.
Isso era maravilhoso, consistiu no exemplo de como Deus transforma o
que originariamente era uma maldição em uma bênção. Em
Gênesis 49, Jacó tinha uma palavra dura para Simeão e Levi, seu
segundo e terceiro filhos. Ele disse: “Dividi-los-ei em Jacó e os
espalharei em Israel” (v. 7). Isso ocorreu porque anos antes os dois
irmãos haviam liderado o massacre dos siquemitas, que Jacó disse
que o tornaria “odioso entre os cananeus” (Gn 34.30). A dispersão dos
descendentes desses dois irmãos pela terra foi seu castigo, uma
maneira de dizer que eles não receberiam herança.
No caso de Simeão, isso se cumpriu quando seus descendentes
passaram a viver no território de Judá, como se viu no capítulo 12. Foi
um castigo, mas foi um castigo misturado com bênção, pois Judá
permaneceu próximo das coisas de Deus ao longo da história, e
Simeão foi beneficiado pela fidelidade de Judá. Por exemplo, embora o
Reino do Norte de Israel, contendo 10 das 12 tribos, tenha sido
vencido pelos assírios em 721 a.C., Judá (que continha Simeão) durou
até 587 a.C. — mais de cem anos depois. Assim, Simeão foi
abençoado de certa forma até no juízo divino.
O caso é ainda mais impressionante para Levi, a nossa principal
preocupação aqui. A tribo de Levi foi espalhada por todo o Israel, entre
48 cidades. Além disso, os levitas viajavam de um lado para outro para
cumprir os deveres relacionados à adoração no templo. Portanto,
embora os descendentes de Levi não possuíssem terras próprias, o
fato de serem feitos sacerdotes não foi uma honra pequena. Afirma-se
que não tinham “nenhuma porção” na terra porque “a porção deles era
oS ”.
Além disso, eles produziram grandes líderes entre o povo. Com
exceção da tribo de Judá, que produziu a maioria dos reis, a tribo de
Levi contribuiu com mais líderes distintos para Israel que qualquer
outro. Moisés era levita.
Moisés nasceu no Egito no período da maior opressão do povo judeu.
Seus pais, Anrão e Joquebede — da tribo de Levi, eram piedosos. Ele
era alguém com mais educação formal que qualquer contemporâneo.
Ele ocupou uma posição de grande privilégio e poder no Egito. É
possível que pudesse se tornar um futuro faraó. Entretanto, Moisés
não ficou do lado dos egípcios, e sim do lado de seu povo. o texto de
Hebreus nos diz:
Pela fé, Moisés, quando já homem feito, recusou ser chamado filho da filha
de Faraó, preferindo ser maltratado junto com o povo de Deus a usufruir
prazeres transitórios do pecado; porquanto considerou o opróbrio de Cristo
por maiores riquezas do que os tesouros do Egito, porque contemplava o
galardão. Pela fé, ele abandonou o Egito, não ficando amedrontado com a
cólera do rei; antes, permaneceu firme como quem vê aquele que é invisível.
Pela fé, celebrou a Páscoa e o derramamento do sangue, para que o
exterminador não tocasse nos primogênitos dos israelitas. (Hb 11.24-28)
Arão era levita e irmão de Moisés. Recebeu deveres especiais como
sumo sacerdote de Israel. O primeiro livro de Crônicas diz: “Arão foi
separado para servir no Santo dos Santos, ele e seus filhos,
perpetuamente, e para queimar incenso diante do S , para o
servir e para dar a bênção em seu nome, eternamente” (1Cr 23.13).
Fineias era um líder especial na tribo de Levi. Ele foi o terceiro sumo
sacerdote e serviu fielmente nesse papel durante 19 anos. Ele é
conhecido pelo incidente registrado em Números 25. As pessoas
haviam caído em imoralidade sexual com as mulheres de Moabe, que
as convidaram para os sacrifícios a seus deuses. Como resultado, o
juízo divino na forma de uma praga se abateu sobre o povo. Fineias
ficou ofendido com essa maldade. Então, quando viu Zinri, um membro
da tribo de Simeão, levar uma mulher moabita para dentro de sua
tenda, ele pegou uma lança, seguiu-os e atravessou com a lança o
corpo de Zinri e da mulher. Por causa disso, a praga foi interrompida e
Deus elogiou o zelo de Fineias: “Eis que lhe dou a minha aliança de
paz. E ele e a sua descendência depois dele terão a aliança do
sacerdócio perpétuo; porquanto teve zelo pelo seu Deus e fez
expiação pelos filhos de Israel” (Nm 25.12-13).
Eli era levita. Viveu 98 anos e era sacerdote em Siló. Serviu como juiz
em Israel durante 40 anos (1Sm 4.12-18).
Esdras era levita e um escriba distinto que serviu com Neemias na
época do retorno do povo de Israel da Babilônia. Ele escreveu o livro
de Esdras, o primeiro escrito após o cativeiro.
João Batista era levita. Filho de Zacarias, sacerdote na divisão de
Abias, e Isabel, que estava na linha de descendência de Arão (Lc 1.5).
Deus chamou João para ser o precursor de Jesus Cristo em
cumprimento às últimas palavras do AT: “Eis que eu vos enviarei o
profeta Elias, antes que venha o grande e terrível Dia do S ele
converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus
pais, para que eu não venha e fira a terra com maldição” (Ml 4.5-6).
Jesus elogiou muito João, dizendo: “Em verdade vos digo: entre os
nascidos de mulher, ninguém apareceu maior do que João Batista;
mas o menor no reino dos céus é maior do que ele” (Mt 11.11).
Que incentivo isso deve ser para nós! Na dispersão de Levi, vê-se o
justo juízo divino sobre o pecado. Mas também se vê o juízo se
transformar em bênção. Se você sofre pelo que outros fizeram —
talvez com o pecado de um dos pais, como os descendentes de
Simeão e Levi sofreram pelo pecado de seus pais — não se imagine
excluído do favor de Deus ou que lhe seja impossível angariar o favor
divino de novo vivendo com piedade. Deus visita a iniquidade dos pais
nos filhos “até à terceira e quarta geração daqueles que me
aborrecem” (Êx 20.5), mas ele também “se arrepende” do mal e traz
bênçãos onde vê arrependimento (Êx 32.14; Jr 18.8; 26.3, 13; Jl 2.13).
Não se desespere, mesmo que sofra pelos próprios pecados. Tenho
em minha mesa um cartão contendo uma citação espiritual do escritor
americano Washington Irving. Ele disse: “Aproximar-se do que segura
a vara alivia a disciplina”. Isso é verdade. Se você sofre por causa do
pecado, aproxime-se de Deus e descubra que ele está muito mais
pronto a transformar a punição do que você em vir até ele.[42]
15. Adeus às armas (Josué 22.1-34)
Então, Josué chamou os rubenitas, os gaditas e a meia tribo de Manassés e
lhes disse: Tendes guardado tudo quanto vos ordenou Moisés, servo do
S , e também a mim me tendes obedecido em tudo quanto vos
ordenei. A vossos irmãos, durante longo tempo, — até ao dia de hoje —,
não desamparastes; antes, tivestes o cuidado de guardar o mandamento do
S , vosso Deus. Tendo o S , vosso Deus, dado repouso a
vossos irmãos, como lhes havia prometido, voltai-vos, pois, agora, e ide-vos
para as vossas tendas, à terra da vossa possessão, que Moisés, servo do
S , vos deu dalém do Jordão. Tende cuidado, porém, de guardar com
diligência o mandamento e a lei que Moisés, servo do S , vos ordenou:
que ameis o S , vosso Deus, andeis em todos os seus caminhos,
guardeis os seus mandamentos, e vos achegueis a ele, e o sirvais de todo o
vosso coração e de toda a vossa alma. (Js 22.1-5)
A maioria dos comentários sobre Josué acaba depois de lidar com a
distribuição de Canaã entre as 12 tribos. Suponho que isso seja
compreensível, pois é difícil lidar de maneira extensiva com Josué 13-
21, e depois que os comentaristas percorrem esses capítulos, o ímpeto
do estudo os leva ao fim em no máximo um ou dois capítulos.
Contudo, o estudo de Josué acaba perdendo com os finais
precipitados, e uma das coisas que se perde é o capítulo 22, quando
Josué dispensa as duas tribos e meia às quais foram prometidas terras
a leste do rio Jordão. Isso é lamentável por várias razões. O capítulo
contém instruções importantes para esse povo, instruções tão
importantes quanto as instruções de despedida de Josué para os
líderes de Israel no capítulo 23 e o sermão de despedida para todo o
povo de Israel no capítulo 24. De novo, o capítulo contém uma
despedida em movimento, e isso leva ao que é certamente um dos
incidentes mais instrutivos em todos os longos anos da campanha.

C
O tema de cada um dos últimos capítulos de Josué é a necessidade de
reconhecer a Deus e servi-lo em tempos de paz e guerra. O contexto é
o período de transição. Durante 7 longos anos, o povo seguiu Josué na
conquista agressiva e ampla da Terra Prometida. Eles foram fiéis a
Deus nesse tempo todo. Sim, existiram alguns lapsos. Acã
desobedeceu a Deus ao tomar parte do despojo de Jericó — algo
proibido. Josué deixou de procurar o parecer de Deus no ataque inicial
a Ai. Mais tarde, ele e o povo foram enganados pelos ardis dos
gibeonitas. Mas esses não foram grandes lapsos e ocorreram no início
da campanha. Até onde se sabe, os 7 anos de luta foram marcados
principalmente pela fidelidade de Israel a Deus e pela tarefa diante
deles.
Mas e a paz? Com frequência as nações perdem em tempos de paz o
que ganharam na guerra. Israel abandonaria o alto nível de
comprometimento e integridade espiritual e gradualmente cairia em
desobediência e paganismo? Ou o povo permaneceria fiel a Deus?
Essas perguntas estavam na mente e no coração de Josué quando
desafiou primeiro as tribos ao leste, depois os líderes e, por fim, toda a
companhia do povo.
Quando Josué falou a rubenitas, gaditas e meia tribo de Manassés,
prestes a voltar para suas casas no lado leste do Jordão, ele enfatizou
três coisas: a obediência passada às suas ordens e às ordens de
Moisés, a fidelidade divina ao lhes dar a terra prometida e trazer-lhes a
paz desfrutada naquele momento e a obrigação de continuar a guardar
os mandamentos de Deus. Ao ampliar o último ponto, Josué disse:
“Tende cuidado, porém, de guardar com diligência o mandamento e a
lei que Moisés, servo do S , vos ordenou: que ameis o S ,
vosso Deus, andeis em todos os seus caminhos, guardeis os seus
mandamentos, e vos achegueis a ele, e o sirvais de todo o vosso
coração e de toda a vossa alma” (Js 22.5).
Não é difícil perceber: isso é exatamente o que se deve fazer hoje. De
fato, a última frase, extraída de Deuteronômio 6.5, nos lembra a
identificação que o Senhor fez do versículo como o primeiro e grande
mandamento: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de
toda a tua alma e de todo o teu entendimento” (Mt 22.37). Cumpri-lo
significa andar nos caminhos de Deus, apegar-se a ele e servi-lo de
todo o coração, como Josué explicou.

P
Creio que Francis Schaeffer está certo quando pede que usemos a
imaginação no momento e tentemos sentir a tremenda emoção
envolvida na separação desses companheiros de guerra.[43] O texto
não menciona as emoções. Mas devemos lembrar que esses homens
haviam lutado lado a lado na conquista que durou mais tempo que
qualquer uma das guerras mundiais. Um vínculo especial teria se
desenvolvido entre eles nessas circunstâncias. Ainda hoje lemos no
jornal algumas reuniões de veteranos repletas de emoção, talvez de
quem tenha lutado em uma campanha militar específica da guerra na
Europa ou invadido uma das ilhas do Pacífico como parte da guerra
contra o Japão. Teria sido assim para os veteranos das campanhas
judaicas. Quando chegou a hora de se separarem, os soldados teriam
passado pelo campo se despedindo dos companheiros. Ali estava um
irmão que salvou a vida de outra pessoa enquanto perseguia os
soldados da coligação sulista de Gibeão. Ali estava alguém que ajudou
a invadir os muros fortificados de Hebrom. Como disse, deve ter sido
um momento emocionante e muito comovente.
Mas, por fim, a partida aconteceu e as duas tribos e meia de Rúben,
Gade e Manassés se mudaram para o leste e, mais tarde, seguiram
para o Jordão. Já as tribos do oeste prepararam-se para a dispersão
em seus territórios.
De repente, chegou a notícia de que algo inesperado e terrível estava
acontecendo. As tribos ao leste estavam construindo um altar. O texto
diz: “Vindo eles para os limites pegados ao Jordão, na terra de Canaã,
ali os filhos de Rúben, os filhos de Gade e a meia tribo de Manassés
edificaram um altar junto ao Jordão, altar grande e vistoso” (Js 22.10).
Isso não era algo sem importância. Ter um altar diferente do altar de
Siló, onde ficava o tabernáculo do Senhor, simbolizava a ruptura com a
adoração ao Deus verdadeiro. Significava apostasia. O texto então diz:
“Os filhos de Israel ouviram dizer: Eis que os filhos de Rúben, os filhos
de Gade e a meia tribo de Manassés edificaram um altar defronte da
terra de Canaã, nos limites pegados ao Jordão, do lado dos filhos de
Israel. Ouvindo isto os filhos de Israel, ajuntou-se toda a congregação
dos filhos de Israel em Siló, para saírem à peleja contra eles” (v. 11-
12).
Pense nisso! Os homens haviam acabado de se separar nas
circunstâncias mais emocionantes. Estavam cansados da guerra e se
regozijavam com a tão esperada paz. Mas, de repente, assim que
souberam que as duas tribos e meia de Rúben, Gade e Manassés
estavam construindo um altar rival, arregaçaram as mangas de novo e
se prepararam para marchar contra eles.
Schaeffer diz: “Isso é simplesmente tremendo!”. Esses homens não
eram vendedores ambulantes. Ao contrário, estavam cansados de
lutar. Não estavam zangados, ciumentos ou ressentidos com os irmãos
do outro lado do rio. Eram irmãos. Por que então as tribos do oeste
estavam preparadas para entrar em guerra contra as tribos do leste?
Existe apenas uma explicação. Embora amassem os irmãos do leste e
estivessem cansados de lutar, no entanto, amavam mais a honra de
Deus e estavam determinados a não deixar que nada se opusesse a
ela. Eles eram zelosos por Deus. Schaeffer diz: “Eu gostaria muito que
Deus permitisse que a igreja deste século aprendesse essa lição. A
santidade do Deus vivo exige que não seja feita qualquer tipo de
concessão na área da verdade. Lágrimas? Tenho certeza de que
houve lágrimas mas, se houvesse rebelião contra Deus, a guerra era
inevitável”.[44]

A
Mas a guerra não começou de imediato, e nisso há outra grande lição.
As tribos do oeste estavam prontas para a guerra, mas antes de
marcharem contra as tribos do leste, enviaram uma delegação para
investigar a situação e ver se o erro que acreditavam estar ocorrendo
não poderia ser corrigido. Eis uma demonstração de amor e
preocupação para com a santidade de Deus. Observe os elementos:
1. A delegação do oeste foi direta ao descrever o que a preocupava.
Hoje, muitas vezes, somos tão relutantes em alienar ou ofender
alguém que diminuímos nossas preocupações, sugerimos que elas
talvez não sejam realmente tão importantes, ou as esqueçamos por
completo. A delegação não agiu dessa maneira. Ela era composta por
dez homens, um líder de cada uma das dez tribos do oeste sob a
supervisão de Fineias, filho de Eleazar, o sacerdote. Eles foram para
as duas tribos e meia do leste e disseram:
Assim diz toda a congregação do S : Que infidelidade é esta, que
cometestes contra o Deus de Israel, deixando, hoje, de seguir o S ,
edificando-vos um altar, para vos rebelardes contra o S ? Acaso, não
nos bastou a iniquidade de Peor, de que até hoje não estamos ainda
purificados, posto que houve praga na congregação do S , para que,
hoje, abandoneis o S ? Se, hoje, vos rebelais contra o S ,
amanhã, se irará contra toda a congregação de Israel. (Js 22.16-18)
As palavras são claras. Apostasia é chamada apostasia. Além disso,
existe a conexão clara entre a desobediência de um e os sofrimentos
de muitos. A moralidade não é individualista. Portanto, se quem afirma
integrar o povo de Deus não vive para ele de maneira fiel e obediente,
quem tenta seguir o Senhor sofre.
Cremos nisso? Se cremos, podemos ser tão tolerantes com a
apostasia e frouxos com quem se diz cristão como nós? Não seria o
caso, se realmente crêssemos nessas coisas, de sermos zelosos em
relação à honra de Deus?
2. O povo do oeste estava disposto a pagar qualquer preço para
recuperar os irmãos perdidos. É importante considerar isso. As tribos
do oeste não só demonstraram amor a quem pensavam estar errando
ao conversar antes de atacar. Isso por si só foi significativo, e algo que
devemos aprender. Contudo, eles fizeram algo ainda maior.
Ofereceram as próprias terras, se esse fosse o meio de atrair os povos
do leste de volta à adoração fiel a Jeová. Observe o que disseram: “Se
a terra da vossa herança é imunda, passai-vos para a terra da
possessão do S , onde habita o tabernáculo do S , e tomai
possessão entre nós” (v. 19). Em outras palavras: “Se a causa de sua
apostasia são as tradições da terra em que vive, não more lá. Venha
para onde moramos e lhe daremos algumas de nossas cidades,
algumas de nossas terras. Só não se rebele contra o Senhor”.
Eis um amor que custa caro. Mas esse é o tipo de amor que leva as
pessoas a Deus. Com frequência, quando praticamos a disciplina (e,
às vezes, a disciplina é necessária, principalmente em nossa era
espiritual), a praticamos de modo a que ela desculpe ou sirva a si
mesma, que se exalta, e geralmente repele a outra parte. Quão
diferente e quão mais eficiente seria se pagássemos o preço pessoal
nas tentativas de recuperar quem erra.
3. Quando as preocupações do povo do oeste foram explicadas, as
duas tribos e meia do leste concordaram com as acusações. Isso
também é importante, pois demonstra que eram crentes verdadeiros
em Deus e não impostores. Nenhuma palavra na resposta indica que
os povos do leste havia pensado direito antes de erguer os altares
falsos. Eles não disseram, como muitos fazem em nossos dias quando
os mandamentos de Deus são proclamados: “Mas essa é apenas a
sua opinião”. Essa resposta é uma forte indicação de que quem assim
procede não é salvo, pois ninguém dotado pelo Espírito de Deus pode
ser descuidado com os mandamentos divinos.
As palavras “mas essa é apenas a sua opinião” consistem em uma
tentativa de fuga. É verdade que qualquer coisa que qualquer um de
nós expresse honestamente é a nossa opinião, mas esse não é o
ponto. O ponto é: Essa opinião está certa? Esse é o padrão? Foi isso
que Deus falou? Se houver dúvida neste momento, os crentes podem
parar e trabalhar juntos para ver se é isso que Deus realmente disse
ou se houve algum mal-entendido ou distorção. Esse exame deve
continuar na igreja o tempo todo. A única coisa que o verdadeiro crente
não pode fazer é descartar a acusação como se ela fosse relativa. Se
Deus falou, devemos concordar com suas palavras e conformar nossa
vida a elas — caso sejamos seus discípulos de verdade.
Observe também que as tribos de Rúben, Gade e a meia tribo de
Manassés não só concordavam com a natureza das acusações, mas
também com a justiça do julgamento — se as acusações fossem
verdadeiras. “Se foi em rebeldia ou por infidelidade contra o S ,
hoje, não nos preserveis. Se edificamos altar para nos apartarmos do
S , ou para, sobre ele, oferecermos holocausto e oferta de
manjares, ou, sobre ele, fazermos oferta pacífica, o S mesmo de
nós o demande” (Js 22.22-23). Ao admitir a justiça do julgamento,
também admitiram a justiça do padrão mantido pelos amigos.

F
Muitas vezes, um confronto como esse na igreja termina mal — para
nossa vergonha. Mas no caso tudo terminou bem. As tribos que
atravessaram o Jordão explicaram que não haviam construído o altar
para estabelecer a adoração cismática de outro deus, mas como um
lembrete da história partilhada com as tribos do oeste por causa de sua
contínua adoração e serviço a Jeová.
Eles explicaram suas ações dessa forma:
Ao contrário, fizemos por causa da seguinte preocupação: amanhã vossos
filhos talvez dirão a nossos filhos: Que tendes vós com o S , Deus de
Israel? Pois o S pôs o Jordão por limite entre nós e vós, ó filhos de —
Rúben e filhos de Gade; não tendes parte no S ; e, assim, bem
poderiam os vossos filhos apartar os nossos do temor do S . Pelo que
dissemos: preparemo-nos, edifiquemos um altar, — não para holocausto,
nem para sacrifício, mas, para que entre nós e vós e entre as nossas
gerações depois de nós, nos seja testemunho, e possamos servir ao
S diante dele com os nossos holocaustos, e os nossos sacrifícios, e
as nossas ofertas pacíficas; e para que vossos filhos não digam amanhã a
nossos filhos: Não tendes parte no S . Longe de nós o rebelarmo-nos
contra o S e deixarmos, hoje, de seguir o S , edificando altar
para holocausto, oferta de manjares ou sacrifício, afora o altar do S ,
nosso Deus, que está perante o seu tabernáculo. (Js 22.24-27, 29)
Em outras palavras, o altar do Jordão não deveria ser um altar
funcional, mas um memorial ou lembrança do altar em Siló, e não era
para marcar a divisão, mas a união entre as 12 tribos.
Por que a história acabou bem quando havia tanto espaço para
discordância? Foi por causa dos dois passos já mencionados.
Schaeffer diz:
Primeiro, houve uma clara concordância acerca da importância da doutrina e
da verdade, uma compreensão de que a santidade de Deus exige que nos
curvemos diante dele e obedeçamos aos seus mandamentos. Lembre-se
das palavras de Josué, quando ele enviou o povo para o outro lado do
Jordão: “Tende cuidado, [...] que ameis o S , vosso Deus, andeis em
todos os seus caminhos, guardeis os seus mandamentos”. Houve um final
feliz porque o povo fez isso.
Segundo, aqueles que foram valorosos em sustentar a verdade foram
também corajosos ao agir em amor. Se tivesse havido apenas a sustentação
da verdade, nunca teria acontecido um final feliz. Teria havido apenas
guerra, porque as dez tribos teriam atravessado o rio e matado os outros
israelitas sem falar com ninguém. Teria havido tristeza no meio do equívoco.
Mas, por causa do amor de Deus, as tribos conversaram uma com as outras
abertamente, e o amor e a santidade de Deus puderam se encontrar. O
Salmo 85 fala da justiça de Deus e do amor de Deus se beijando (Sl 85.10).
Foi o que aconteceu aqui.[45]
Em última análise, o cristão tem apenas um dever básico na vida:
mostrar a realidade da existência de Deus e seu caráter em meio ao
mundo rebelde. Isso nem sempre é fácil, nem mesmo entre os cristãos.
Mas é o chamado que Deus abençoa se nos aplicarmos seriamente a
ele. O mundo não sabe nada disso. Em lugar de santidade e verdade,
há relativismo. Há verdade para você e verdade para mim, um padrão
de moralidade para você e outro para outra pessoa. Mas, em vez de
todos se darem maravilhosamente bem, como esse tipo de relativismo
parece garantir, o mundo está cheio de mal-entendidos, egoísmo e
ódio cruel.
Como cristãos, temos a chance de mostrar que o zelo combinado pela
verdade e pelo amor lança as bases para a harmonia e, em última
análise, é a única coisa realmente abençoada por Deus.
16. Passando a tocha (Josué 23.1-16)
Passado muito tempo depois que o S dera repouso a Israel de todos
os seus inimigos em redor, e sendo Josué já velho e entrado em dias,
chamou Josué a todo o Israel, — os seus anciãos, os seus cabeças, os seus
juízes e os seus oficiais — e disse-lhes: Já sou velho e entrado em dias, e
vós já tendes visto tudo quanto fez o S vosso Deus, a todas estas
nações por causa de vós, porque o S , vosso Deus, é o que pelejou
por vós. Vede aqui que vos fiz cair em sorte às vossas tribos estas nações
que restam, juntamente com — todas as nações que tenho eliminado —,
umas e outras, desde o Jordão até ao mar Grande, para o pôr do sol. O
S , vosso Deus, as afastará de vós e as expulsará de vossa presença
[...]
Esforçai-vos, pois, muito para guardardes e cumprirdes tudo quanto está
escrito no Livro da lei de Moisés, para que dela não vos aparteis, nem para a
direita nem para a esquerda; para que não vos mistureis com estas nações
que restaram entre vós. Não façais menção dos nomes de seus deuses,
nem por eles façais jurar, nem os sirvais, nem os adoreis. Mas ao S ,
vosso Deus, vos apegareis, como fizestes até ao dia de hoje. (Js 23.1-8)
(grifo meu)
Há algo comovente e inspirador nas últimas palavras de grandes
homens, em especial quando consistem na exortação aos sucessores.
Na história americana, pensamos na despedida de Washington do
Exército Continental ou no discurso de Douglas MacArthur no
Congresso: “Um velho soldado que tentou cumprir seu dever como
Deus deu-lhe a luz para cumpri-lo. Adeus”.
Voltamo-nos para a Bíblia em particular por essas intimações
comoventes. Nos últimos versículos de Gênesis, José, a figura central
do último terço desse livro, está morrendo e reúne os irmãos à sua
volta. Ele quer lembrá-los das bênçãos divina do passado e da futura
intervenção prometida em favor deles. E diz: “Eu morro; porém Deus
certamente vos visitará e vos fará subir desta terra para a terra que
jurou dar a Abraão, a Isaque e a Jacó [...]. Certamente Deus vos
visitará, e fareis transportar os meus ossos daqui” (Gn 50.24-25).
Mais uma vez, pensamos na despedida de Moisés, registrada nos
últimos capítulos de Deuteronômio. Eles contêm o chamado “Cântico
de Moisés” e a bênção final de Moisés sobre as tribos.
O NT contém a despedida de Paulo aos anciãos em Éfeso em uma
parada em sua viagem final a Jerusalém:
Agora, eu sei que todos vós, em cujo meio passei pregando o reino, não
vereis mais o meu rosto. Portanto, eu vos protesto, no dia de hoje, que estou
limpo do sangue de todos; porque jamais deixei de vos anunciar todo o
desígnio de Deus. Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o
Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a
qual ele comprou com o seu próprio sangue. Eu sei que, depois da minha
partida, entre vós penetrarão lobos vorazes, que não pouparão o rebanho.
Portanto, vigiai, lembrando-vos de que, por três anos, noite e dia, não cessei
de admoestar, com lágrimas, a cada um. (At 20.25-29, 31)
O final de Josué é assim. Um longo período se passou desde os
acontecimentos do capítulo anterior. No final da conquista, Josué
provavelmente contava 90 anos de idade (40 anos no Egito, de acordo
com Josefo; 40 anos no deserto; e 7 anos na conquista), e no
momento da morte, registrada em Josué 24.29, sua idade era de
110 anos. Portanto, há um intervalo de 20 ou 23 anos entre Josué 22 e
23, e sabendo que logo sairia de cena, Josué queria exortar seus
sucessores pela última vez.
Na verdade, ele fez duas exortações. O último capítulo do livro contém
suas palavras dirigidas ao povo todo reunido em Siquém. No
capítulo 23, que estudaremos agora, ele se dirige aos principais
homens da nação: os “anciãos, líderes, juízes e oficiais de Israel”.
Calebe estaria lá e Fineias, filho de Eleazar, o sacerdote. Entre eles
também estariam os soldados que haviam lutado com Josué nas várias
campanhas militares. A maioria deles homens era jovem na época.
Agora eram adultos. Tinham família. Todos teriam ascendido a
posições de liderança importante na nação.
O que Josué disse na ocasião? O que ele destacaria aos novos líderes
ao lhes passar a tocha?

A D
No capítulo, Josué menciona várias coisas muito importantes, e a
primeira delas, naturalmente, é o lembrete do que Deus fizera antes
pelo povo. O lembrete de Josué tem três partes: as vitórias militares, a
distribuição da terra sob a direção de Deus e o cumprimento do
assentamento, alguns dos quais ainda eram futuros, mas que Josué
considerava certo. Suas palavras são:
Já sou velho e entrado em dias, e vós já tendes visto tudo quanto fez o
S , vosso Deus, a todas estas nações por causa de vós, porque o
S , vosso Deus, é o que pelejou por vós. Vede aqui que vos fiz cair em
sorte às vossas tribos estas nações que restam, juntamente com — todas as
nações que tenho eliminado —, umas e outras, desde o Jordão até ao mar
Grande, para o pôr do sol. O S , vosso Deus, as afastará de vós e as
expulsará de vossa presença; e vós possuireis a sua terra, como o S ,
vosso Deus, vos prometeu. (Js 23.2-5, grifo meu)
Eu disse que Josué lembrou “naturalmente” as pessoas dessas coisas.
Mas, embora isso seja verdade em um sentido — é natural que Josué
tenha falado dos atos passados do Senhor em favor de Israel —
também é antinatural, pois não pensamos assim. Ao contrário, nós nos
separamos das ações divinas.
Separamo-nos do que Deus fizera, tornando a fé uma questão
subjetiva, como se o que importa é como nos sentimos em relação à
religião, em vez de conhecer e agir em relação ao que Deus fizera.
Geralmente não admitimos isso, é claro, e cremos ter Deus realizado
grandes atos de redenção por nós no passado. Muitas vezes, porém,
isso se torna menos importante para nós que nossos sentimentos
momentâneos, e começamos a agir de acordo com eles, não com o
que sabemos sobre Deus e seus caminhos. Josué não queria que o
povo de Israel fizesse isso. Com o tempo, eles seriam atraídos pelo
mundo e seus caminhos, pelas práticas e costumes religiosos das
culturas pagãs à sua volta. Nessa época, esses caminhos pareceriam
“bons” para Israel, e os prazeres do pecado “seriam” desejáveis. Eles
não deviam abandonar a adoração adequada a Deus por esse motivo,
porque sabiam certas coisas sobre Deus: ele agira por eles
poderosamente na libertação do Egito e na conquista e, assim,
demonstrara ser o verdadeiro Deus.
As pessoas deveriam basear os sentimentos nesse conhecimento, e
não o contrário.
Segundo, separamo-nos dos atos de Deus na história ao pensar na fé
como um “salto” sobre as evidências. O filósofo e clérigo dinamarquês
Søren Kierkegaard foi a fonte desse modo de pensar, depois de falar
do “salto da fé”, e muitos clérigos passaram a segui-lo daí em diante,
pensando que, de alguma forma, isso nos salva do embaraço da
apologética cristã sólida. Isso não acontece. É verdade que o “salto da
fé” abandona a apologética, mas também lança o cristianismo em um
mar sem limites, onde muitos naufragaram. A Bíblia não sabe nada
sobre esse “salto da fé”. A Bíblia nos diz: “Observe o que Deus fizera
por você na história. Lembre-se de seus atos. Pense sobre essas
coisas e seja edificado sobre elas”. A Bíblia não abandona as
evidências. Ela constrói fé sobre a razão e entendimento na fé.

N
O segundo tema da exortação de Josué aos líderes de Israel enquanto
lhes passava a tocha da liderança foi a obrigação presente. Não
bastava saber que Deus havia agido por eles no passado. Por causa
disso também era necessário que vivessem de determinada maneira.
Vemos dois requisitos.
Obediência
A obediência é a ênfase natural para um soldado como Josué,
principalmente porque ser o que Deus lhe havia dito no início das
campanhas militares. Contudo, era mais que isso. Trata-se do dever de
todo o povo de Deus. As palavras usadas por Josué na exortação
repetem o que ele havia sido instruído a fazer antes e são uma
referência deliberada a elas. No começo, Deus apareceu a Josué para
assegurar-lhe de estar com ele, como estivera com Moisés. Josué
deveria ter o cuidado de obedecer tudo que Moisés falara. Deus disse:
“Sê forte e corajoso, porque tu farás este povo herdar a terra que, sob
juramento, prometi dar a seus pais. Tão somente sê forte e mui
corajoso para teres o cuidado de fazer segundo toda a lei que meu
servo Moisés te ordenou; dela não te desvies, nem para a direita nem
para a esquerda, para que sejas bem-sucedido por onde quer que
andares. Não cesses de falar deste Livro da lei; antes, medita nele dia
e noite, para que tenhas cuidado de fazer segundo tudo quanto nele
está escrito; então, farás prosperar o teu caminho e serás bem-
sucedido” (Js 1.6-8). Josué agira assim. Ele havia obedecido a Deus,
cumprindo exatamente a lei de Moisés. Agora desejava intimar o povo
de Deus a algo semelhante.
Josué disse: “Esforçai-vos, pois, muito para guardardes e cumprirdes
tudo quanto está escrito no Livro da lei de Moisés, para que dela não
vos aparteis, nem para a direita nem para a esquerda; para que não
vos mistureis com estas nações que restaram entre vós. Não façais
menção dos nomes de seus deuses, nem por eles façais jurar, nem os
sirvais, nem os adoreis. Mas ao S , vosso Deus, vos apegareis,
como fizestes até ao dia de hoje (Js 23.6-8)
Duas coisas devem ser observadas. Primeira, há uma conexão entre a
exigência de obedecer aos mandamentos divinos e o fato previamente
declarado de que Deus fizera grandes coisas em favor do povo. Essa é
a mesma conexão encontrada no início dos Dez Mandamentos. Pelo
fato de Deus ter tirado o povo do Egito, da terra da escravidão, eles
não deveriam ter outros deuses diante dele. Existe uma conexão entre
Deus ter dado a Israel a terra e a obediência necessária.
Segunda, há o apelo contínuo à lei escrita de Deus, dada por Moisés.
Este é um padrão muito importante. O povo de Israel havia sido
exortado não apenas a viver de forma reta, moral, consistente e
produtiva. Isso as pessoas tentam fazer hoje, separadas do padrão
escrito por Deus nas Escrituras, mas não funciona. Josué não fez um
vago apelo a um código moral indefinido. Ele lhes apresentou “tudo
quanto está escrito no Livro da lei de Moisés” (v. 6), e lhes foi
prometido o favor e a bênção divinos se continuassem a viver de
acordo com esse padrão. Hoje as coisas funcionam da mesma
maneira. De fato, é o mesmo padrão. Ele foi ampliado ao longo dos
séculos durante os quais a Bíblia foi escrita. No capítulo seguinte,
descobre-se que “Josué escreveu estas palavras no Livro da lei de
Deus” (Js 24.26). Em outras palavras, nesse ponto, o livro de Josué foi
adicionado ao cânon como revelação autorizada por Deus para seu
povo. Contudo, o padrão é o mesmo em todos esses livros e
permanece nosso padrão hoje. A esse respeito, a exortação de Josué
é contemporânea.
Amor a Deus
Não se exigia do povo só a obediência à lei divina. Essa é uma
preocupação constante. Aqui, além da exigência de obedecer a Deus
em todas as coisas, há a obrigação adicional de amar o Deus que os
abençoou muito. Josué afirmou: “Portanto, empenhai-vos em guardar a
vossa alma, para amardes o S , vosso Deus” (Js 23.11). O que
Josué quis dizer com amar a Deus? Temos a resposta na maneira
como ele se referiu ao amor no capítulo anterior, ao exortar as duas
tribos e meia de partida para sua terra no outro lado do rio Jordão. Lá
ele disse: “Tende cuidado, porém, de guardar com diligência o
mandamento e a lei que Moisés, servo do S , vos ordenou: que
ameis o S , vosso Deus, andeis em todos os seus caminhos,
guardeis os seus mandamentos, e vos achegueis a ele, e o sirvais de
todo o vosso coração e de toda a vossa alma” (Js 22.5). Essa é uma
referência a Deuteronômio 6.5, o versículo que Jesus designou o maior
mandamento. É uma definição do que significa amar a Deus. Amar
significa seguir os caminhos de Deus, obedecer aos mandamentos
dele, apegar-se a Deus e servi-lo de todo o coração e alma.
Obedecer a Deus (o primeiro ponto) e amar a Deus (o segundo ponto)
andam juntos. Não diga que ama a Deus se não obedecer aos
mandamentos dele na Bíblia. Afirmar isso é hipocrisia. Se você ama a
Deus, cumprirá seus mandamentos. Isso acontece de tal modo que, se
você tentar obedecer aos mandamentos e seguir sinceramente os
caminhos divinos, se verá amando a Deus cada vez mais.

F
A terceira seção da exortação de Josué lida com um novo problema: o
casamento entre os judeus e as pessoas da terra conquistada. Josué
diz: “Porque, se dele vos desviardes e vos apegardes ao restante
destas nações ainda em vosso meio, e com elas vos aparentardes, e
com elas vos misturardes, e elas convosco, sabei, certamente, que o
S , vosso Deus, não expulsará mais estas nações de vossa
presença, mas vos serão por laço e rede, e açoite às vossas ilhargas,
e espinhos aos vossos olhos, até que pereçais nesta boa terra que vos
deu o S , vosso Deus” (Js 23.12-13).
O casamento entre os judeus e membros dos outros povos não havia
sido um grande problema até esse ponto. Entretanto, Josué era um
observador perspicaz da natureza humana e antecipou com sabedoria
os enormes problemas que Israel teria nessa área. O problema não
consistia no fato de serem casamentos inter-raciais ou multiétnicos, é
claro, não mais do que isso ocorre hoje. Uma raça mista surgira no
Egito, e Moisés se casara com uma cuxita, isto é, etíope. Raabe foi
incorporada a Israel. Essa não é a questão, o problema era mais o que
chamaríamos de “casamento com um incrédulo”. O povo da terra era
idólatra e extremamente corrupto. Por isso Deus ordenou que Israel o
destruísse. Josué previu que os judeus poderiam se casar com os
sobreviventes das nações cananeias corruptas e, assim, ser atraídos a
adorar seus falsos deuses e praticar suas depravações.
E assim aconteceu! Esta é a triste história de Israel a partir desse
momento. Em todo o período dos juízes, até o tempo dos reis, Israel se
afastou de Deus por esse caminho. Mesmo após o cativeiro e a
dispersão babilônica, no tempo de Esdras e Neemias, essa foi uma
das preocupações principais. Neemias, em particular, chega ao fim
com essa nota.
Vemos a mão do diabo na tentação? Tenho certeza que sim. Como os
ditadores inevitavelmente tentam enfraquecer os laços familiares,
sabendo que, se eles destruírem as famílias tornam muito mais fácil a
conquista da lealdade total das pessoas ao estado, também o diabo
sabe que se puder destruir a família, eliminará a influência eficiente
dos crentes no mundo.
As advertências de Josué não eram apenas para Israel. São para nós
também. Elas são ecoadas pela conhecida repreensão de Paulo: “Não
vos ponhais em jugo desigual com os incrédulos; porquanto que
sociedade pode haver entre a justiça e a iniquidade? Ou que
comunhão, da luz com as trevas? Que harmonia, entre Cristo e o
Maligno? Ou que união, do crente com o incrédulo?” (2Co 6.14-15).

H
O último ponto da exortação de Josué aos novos líderes de Israel foi a
necessidade de escolher; isto é, tomar uma decisão de obedecer a
Deus, servi-lo e não se deixar levar pela possível desobediência. O
desafio de escolher não é tão apontado aqui como no capítulo 24, no
entanto essa é a ideia.
Eis que, já hoje, sigo pelo caminho de todos os da terra; e vós bem sabeis
de todo o vosso coração e de toda a vossa alma que nem uma só promessa
caiu de todas as boas palavras que falou de vós o S , vosso Deus;
todas vos sobrevieram, nem uma delas falhou. E sucederá que, assim como
vieram sobre vós todas estas boas coisas que o S , vosso Deus, vos
prometeu, assim cumprirá o Senhor contra vós outros todas as ameaças até
vos destruir de sobre a boa terra que vos deu o S , vosso Deus.
Quando violardes a aliança que o S , vosso Deus, vos ordenou, e
fordes, e servirdes a outros deuses, e os adorardes, então, a ira do S
se acenderá sobre vós, e logo perecereis na boa terra que vos deu.
(Js 23.14-16)
Esse é o tema do livro de Deuteronômio e da cerimônia promulgada
por Josué nos montes Ebal e monte Gerizim em obediência ao
mandamento anterior de Moisés. Se as pessoas obedecerem, haverá
bênçãos. Se desobedecerem, haverá juízo. Elas devem escolher. No
que diz respeito às promessas condicionais, apenas a resposta fará a
diferença.
Mas há induções, pois Deus nunca apresenta uma escolha como se os
dois os lados da questão fossem iguais. O que mais me impressiona
nas últimas palavras de Josué aos anciãos, líderes, juízes e oficiais é a
repetição quádrupla da palavra bom. Josué fala duas vezes das “boas
palavras que falou de vós o S , vosso Deus” (v. 14-15), e duas
vezes ele fala da “boa terra que vos deu o S , vosso Deus”
(v. 15-16).
Eis o ponto. Devemos seguir a Deus e obedecê-lo não só porque ele é
o Deus verdadeiro e devemos segui-lo, embora isso seja óbvio. Não é
nem porque o caminho de Deus é o melhor caminho, embora isso
também seja importante. A melhor de várias opções não é, por si só,
necessariamente algo “bom”. Não, somos exortados a seguir a Deus
porque Deus realmente é bom e porque o caminho dele é realmente
um bom caminho.
Salmos 34.8 diz: “Oh! Provai e vede que o S é bom; bem-
aventurado o homem que nele se refugia”.
Salmos 69.16 fala da bondade do amor de Deus.
Salmos 84.11 afirma: “Porque o S Deus é sol e escudo; o S
dá graça e glória; nenhum bem sonega aos que andam retamente”.
Salmos 100.5 declara: “Porque o S é bom, a sua misericórdia dura
para sempre”.
Em Salmos 103.5 Davi afirma: “quem farta de bens a tua velhice”.
Salmos 119.39 afirma que todos “os teus juízos são bons”.
Naum 1.7 observa: “O S é bom, é fortaleza no dia da angústia”
Em João 10.11, Jesus se apresenta como “o bom pastor”.
Romanos 7.12 argumenta: “Portanto, a lei é santa; e o mandamento, santo,
e justo, e bom”.
Romanos 8.28 diz que “Sabemos que todas as coisas cooperam para o
bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o
seu propósito”.
Romanos 12.2 nos aconselha “que experimenteis qual seja a — boa,
agradável e perfeita vontade de Deus”.
Tiago 1.17 declara: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto,
descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra
de mudança” (grifos meus).
Esses versículos não são deturpações. Deus não mente, e ele é o
mestre do eufemismo. Na boca de Deus, “bom” significa superlativo,
tremendo. E não é assim? Deus não é bom? O caminho dele não é a
melhor das opções possíveis? Se você concorda com isso e que Deus
é realmente bom, deve segui-lo de todo o coração. Diga, como o
próprio Josué fez no capítulo seguinte: “Eu e a minha casa serviremos
ao S ” (Js 24.15).
17. O último sermão do capitão (Josué 24.1-33)
Agora, pois, temei ao S e servi-o com integridade e com fidelidade;
deitai fora os deuses aos quais serviram vossos pais dalém do Eufrates e no
Egito e servi ao S . Porém, se vos parece mal servir ao S ,
escolhei, hoje, a quem sirvais: se aos deuses a quem serviram vossos pais
que estavam dalém do Eufrates ou aos deuses dos amorreus em cuja terra
habitais. Eu e a minha casa serviremos ao S .
Então, respondeu o povo e disse: Longe de nós o abandonarmos o S
para servirmos a outros deuses; porque o S é o nosso Deus; ele é
quem nos fez subir, a nós e a nossos pais, da terra do Egito, da casa da
servidão, quem fez estes grandes sinais aos nossos olhos e nos guardou
por todo o caminho em que andamos e entre todos os povos pelo meio dos
quais passamos. O S expulsou de diante de nós todas estas gentes,
até o amorreu, morador da terra; portanto, nós também serviremos ao
S , pois ele é o nosso Deus.
Então, Josué disse ao povo: Não podereis servir ao S , porquanto é
Deus santo, Deus zeloso, que não perdoará a vossa transgressão nem os
vossos pecados. Se deixardes o S e servirdes a deuses estranhos,
então, se voltará, e vos fará mal, e vos consumirá, depois de vos ter feito
bem.
Então, disse o povo a Josué: Não; antes, serviremos ao S .
Josué disse ao povo: Sois testemunhas contra vós mesmos de que
escolhestes o S para o servir.
E disseram: Nós o somos.
Agora, pois, deitai fora os deuses estranhos que há no meio de vós e inclinai
o coração ao S , Deus de Israel.
Disse o povo a Josué: Ao S , nosso Deus, serviremos e
obedeceremos à sua voz. (Js 24.14-24)
Alguns anos atrás, quando o Committee on Biblical Exposition [Comitê
de Exposição Bíblica] estava sendo organizado, os fundadores se
reuniram para tentar definir a pregação expositiva. Não foi algo fácil. A
exposição envolve a comunicação sobre o significado de uma porção
específica das Escrituras, mas também envolve a aplicação de suas
verdades a nós hoje e a tentativa de levar os ouvintes a obedecer
esses ensinamentos. Por fim, o comitê definiu assim a exposição
bíblica: “Comunicar o significado de um texto ou uma passagem das
Escrituras nos termos da cultura contemporânea com o objetivo
específico de ajudar as pessoas a entender a verdade de Deus e
obedecê-la”.
Josué teria entendido e concordado prontamente com essa definição.
Ele não foi chamado para ser pregador; ele era um soldado e
administrador. Mas à medida que chegava perto do fim da vida e
olhava para as tentações que sobreviriam a Israel para afastar o povo
da adoração ao verdadeiro Deus após sua partida, ele se voltou para a
pregação, na tentativa de mantê-los fiéis a Deus ao máximo.
Temos três sermões de Josué nos três capítulos finais deste livro, cada
um mais longo que o anterior. O primeiro está no capítulo 22. Ele se
dirigiu às duas tribos e meia de Rúben, Gade e Manassés, que
voltavam para casa, nas terras além do rio Jordão. O segundo está no
capítulo 23. Foi dirigido aos líderes de Israel: anciãos, líderes, juízes e
oficiais. O terceiro foi pronunciado a todo o povo em uma grande
convocação em Siquém. Isso ocorreu no capítulo 24. É uma
característica significativa desses sermões que, embora tenham sido
proferidos a grupos de pessoas diferentes e contenham material um
pouco diverso, todos contêm em essência o mesmo ponto: a
necessidade de ser fiel a Deus de e obedecê-lo com fervor. Josué não
era um pregador abstrato e despreocupado. Ele anunciou sua
mensagem para obter decisões pessoais. E foi sincero. Pregou como
um dos grandes pregadores puritanos certa vez descreveu a si
mesmo: “Como um moribundo a outro moribundo”.
A ideia principal de Josué está nos versículos 14 e 15: “Agora, pois,
temei ao S e servi-o com integridade e com fidelidade; deitai
fora os deuses aos quais serviram vossos pais dalém do Eufrates e no
Egito e servi ao S . Porém, se vos parece mal servir ao S ,
escolhei, hoje, a quem sirvais: se aos deuses a quem serviram vossos
pais que estavam dalém do Eufrates ou aos deuses dos amorreus em
cuja terra habitais. Eu e a minha casa serviremos ao S ”.

D
Mas Josué não iniciou o sermão neste ponto. Ele começou ao fazer o
povo se lembrar do passado e do que Deus fizera por ele ao tirá-lo da
cultura da antiga Babilônia e depois do Egito e levá-lo à terra prometida
a Abraão no início de sua história.
A ênfase, é claro, recai sobre o que Deus fez por Israel e no fato de ele
ter feito isso. Uma tentação no final dos longos anos de conquista para
o povo pode ter consistido, em particular para os soldados, em refletir
sobre suas vitórias e se gabar delas como realizações pessoais. Eles
podem ter se gabado da vitória em Jericó, Ai ou em qualquer uma das
muitas outras centenas de batalhas. Mas Josué não permitiu ao povo o
pecado de tais reflexões. De fato, ele não diz que Deus fez algo
usando a terceira pessoa para se referir a ele. Ele cita Deus, usando a
primeira pessoa para Deus repetida e efetivamente em toda esta
seção:
Eu, porém, tomei Abraão, vosso pai, dalém do rio e o fiz percorrer toda a
terra de Canaã; também lhe multipliquei a descendência e lhe dei Isaque. A
Isaque dei Jacó e Esaú e a Esaú dei em possessão as montanhas de Seir;
porém Jacó e seus filhos desceram para o Egito. Então, enviei Moisés e
Arão e feri o Egito com o que fiz no meio dele; e, depois, vos tirei de lá.
Tirando eu vossos pais do Egito, viestes ao mar; os egípcios perseguiram
vossos pais, com carros e com cavaleiros, até ao mar Vermelho. E,
clamando vossos pais, o S pôs escuridão entre vós e os egípcios, e
trouxe o mar sobre estes, e o mar os cobriu; e os vossos olhos viram o que
eu fiz no Egito. Então, habitastes no deserto por muito tempo. Daí eu vos
trouxe à terra dos amorreus, que habitavam dalém do Jordão, os quais
pelejaram contra vós outros; porém os entreguei nas vossas mãos, e
possuístes a sua terra; e os destruí diante de vós. Levantou-se, também, o
rei de Moabe, Balaque, filho de Zipor, e pelejou contra Israel; mandou
chamar Balaão, filho de Beor, para que vos amaldiçoasse. Porém eu não
quis ouvir Balaão; e ele teve de vos abençoar; e, assim, vos livrei da sua
mão. Passando vós o Jordão e vindo a Jericó, os habitantes de Jericó
pelejaram contra vós outros e também os amorreus, os ferezeus, os
cananeus, os heteus, os girgaseus, os heveus e os jebuseus; porém os
entreguei nas vossas mãos. Enviei vespões adiante de vós, que os
expulsaram da vossa presença, bem como os dois reis dos amorreus, e isso
não com a tua espada, nem com o teu arco. Dei-vos a terra em que não
trabalhastes e cidades que não edificastes, e habitais nelas; comeis das
vinhas e dos olivais que não plantastes. (Js 24.3-13, grifos meus)
Seria difícil enfatizar os atos soberanos de Deus em nome do povo de
maneira mais eficiente em qualquer extensão que a enfatizada por
esses versículos.
Penso no grande “Recessional” de Rudyard Kipling de 1897:
Deus dos nossos pais, há muito conhecido,
Senhor da nossa longínqua frente de batalha
Sob cuja mão terrível temos tido
Domínio da palmeira e pinheiro —
Senhor dos exércitos, permanece conosco,
Para não esquecermos — para não esquecermos!
Isto é precisamente o que Josué estava dizendo ao povo. O Deus de
seus pais os acompanhara na batalha e lhes dera o domínio agora
possuído. Josué os desafiava a se lembrarem disso e a orar para que
o Senhor dos Exércitos ainda estivesse com eles, para que não se
esquecessem dele.
Eles deveriam se lembrar não só da identidade e do caráter do
verdadeiro Deus. Também precisavam se recordar do que haviam sido
e do que ainda seriam, se Deus não os escolhesse de forma soberana
para ser seu povo. Deus começou com Abraão, como sabemos. Josué
menciona Abraão. Mas Abraão não é mencionado para lembrar o povo
da suposta ascendência ilustre, mas para lembrá-lo do começo
humilde e totalmente pagão. A questão é: “Antigamente, vossos pais,
Tera, pai de Abraão e de Naor, habitaram dalém do Eufrates e serviram
a outros deuses” (Js 24.2, grifos meus).
As pessoas pensam que, quando Deus escolheu Abraão para ser o pai
do povo judeu, ele procurou alguém com um pouco de fé salvadora e,
quando encontrou a fé em Abraão, o salvou e começou a nação
judaica por meio dele. Contudo, a verdade é o oposto disso. Deus nos
diz o que viu quando olha para o coração não regenerado. Jeremias
citou Deus dizendo: “Enganoso é o coração, mais do que todas as
coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?” (Jr 17.9).
Moisés escreveu: “Viu o S que a maldade do homem se havia
multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do
seu coração” (Gn 6.5). O apóstolo Paulo declarou: “Não há justo, nem
um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos
se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem,
não há nem um sequer” (Rm 3.10-12; v. tb. Sl 14.1-3; 53.1-3; Ec 7.20).
Sendo assim o coração humano sob a perspectiva divina, como Deus
poderia olhar do céu e encontrar algo bom em alguém — a menos que
ele o tivesse colocado lá primeiro? Como pôde encontrar fé em
Abraão, a menos que a fé encontrada fosse seu dom prévio ao
patriarca?
Eis o ponto de Josué. Ao lembrar o povo do passado, ele não o fez
recordar de uma grande herança — à cuja altura deveria viver —, mas
sim do fato de terem sido pagãos, adoradores de falsos deuses, antes
de Deus os chamar. Eles deviam viver para ele por quem eram e o que
ele havia feito por eles.
É o mesmo para nós. Paulo diz:
Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos
quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe
da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência;
entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações
da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos,
por natureza, filhos da ira, como também os demais. Mas Deus, sendo rico
em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando
nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, — pela
graça sois salvos, e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez
assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; para mostrar, nos séculos
vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em
Cristo Jesus. Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem
de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois
somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus
de antemão preparou para que andássemos nelas. (Ef 2.1-10)
Antes de prosseguirmos há outro ponto que podemos observar: a
intensidade com que nossa corrupção passada se apega a nós,
mesmo depois de muitos anos experimentando a graça divina. Às
vezes, quando menciono a ascendência pagã de Israel, aponto para o
fato de que, apesar da estreita caminhada de Abraão com Deus e dos
ensinamentos fiéis de sua família, os ídolos ainda eram apreciados por
alguns de seus familiares três gerações após o chamado divino a
Abraão quando estava na Ur pagã. Refiro-me ao incidente referente a
Raquel, a esposa favorita de Jacó, que escondeu os deuses da casa
do pai sob uma sela e se sentou sobre ela enquanto ele vasculhava o
local. Ele cria que alguém da comitiva de Jacó os havia roubado. Que
horrível! Quão surpreendente é o fato de manterem e apreciarem
esses ídolos até a terceira geração dos patriarcas!
Mas em Josué 24 há ainda algo mais surpreendente. Aqui Josué
exorta seu povo: “Deitai fora os deuses aos quais serviram vossos pais
dalém do Eufrates e no Egito e servi ao S ” e “deitai fora os
deuses estranhos que há no meio de vós” (v. 14, 23). Essa não é a
terceira geração depois de Abraão. Dezenas de gerações já haviam se
passado. Além disso, os anos anteriores foram das maiores bênçãos e
grandes demonstrações do poder do Deus verdadeiro sobre todos os
outros “deuses”. Mesmo aqui, em um dos maiores picos de toda a
longa história de Israel, era necessário que Josué instasse a destruição
desses ídolos.
Somos melhores? Quem conhece o próprio coração sabe que os
pecados do passado se apegam a nós e são um perigo a cada
momento. Portanto, é sempre necessário rejeitar o falso e escolher
adorar e servir ao Deus verdadeiro (e continuar sempre escolhendo).

E
No estudo deste capítulo, Francis Schaeffer salienta corretamente que
quando Josué desafiou o povo a escolher servir a Deus e afirmou que
essa também era sua escolha, o tempo verbal usado implicava mais
que uma escolha feita no passado e válida para sempre, como se
alguém pudesse fazer isso e encerrar o assunto para sempre. Esse
tempo verbal indica o que os gramáticos chamam ação contínua. Ou
seja, envolve o passado, mas também envolve o presente e o futuro. É
como se Josué tivesse dito: “Escolhi servir ao Senhor; estou
escolhendo o mesmo caminho de serviço agora; e continuarei
escolhendo servir a Deus até o fim”.
Schaeffer escreveu: “Esse era o caráter de Josué. Ele escolheu, e
escolheu, e escolheu, e permaneceu escolhendo. Ele compreendia a
dinâmica da escolha feita de uma vez por todas e também a escolha
existencial. Assim, essa palavra ao povo não era uma afirmação
inflada pela euforia do momento. Estava profundamente arraigada na
compreensão de Josué do que se requer de uma pessoa feita à
imagem de Deus — alguém chamado a obedecer a Deus, não como
uma máquina ou um animal, mas por escolha”.[46]
Josué não limitou as escolhas ou deturpou as opções ao apresentar
seu caso ao povo. Embora Deus o tivesse escolhido, tendo chamado
Abraão quando ainda era adorador de ídolos em Ur e chamado toda a
nação para fora do Egito, o povo teve de escolher a Deus — de
maneira inteligente, decisiva e voluntária — para que a escolha tivesse
valor real. Josué deu a eles quatro opções:
1. Os deuses servidos por seus antepassados enquanto estiveram em
Ur dos caldeus. É a isso que “dalém do rio” se refere. O rio é o
Eufrates, e os deuses servidos além do rio eram os deuses do panteão
babilônico.
2. Os deuses servidos no Egito. Eram deuses bem diferentes dos da
Babilônia. Eles eram os deuses do Nilo, da terra e do céu. Rá, o deus
do sol, era o grande deus do Egito. As pessoas pensavam que ele
estivesse se incorporasse de modo contínuo no faraó. Quando Deus
trouxe o povo do Egito por meio das dez pragas, as pragas foram
dirigidas contra os deuses do Nilo, da terra e do céu. Elas mostraram
que os deuses egípcios eram impotentes.
3. Os deuses dos amorreus, em cuja terra os judeus estavam vivendo.
Estes eram deuses horríveis, como Moloque, que exigia o sacrifício de
recém-nascidos. Muitos deles eram deuses da fertilidade adorados por
meio de prostituição cultual.
4. O verdadeiro Deus, que transformou Israel em um povo, os tirara do
Egito e os estabelecera em sua própria terra, uma boa terra, como
havia prometido.

F ,
O que o povo de Israel escolheria? A escolha de viva voz foi clara:
“Longe de nós o abandonarmos o S para servirmos a outros
deuses!”, protestaram, “porque o S é o nosso Deus; ele é quem
nos fez subir, a nós e a nossos pais, da terra do Egito, da casa da
servidão, quem fez estes grandes sinais aos nossos olhos e nos
guardou por todo o caminho em que andamos e entre todos os povos
pelo meio dos quais passamos. O S expulsou de diante de nós
todas estas gentes, até o amorreu, morador da terra; portanto, nós
também serviremos ao S , pois ele é o nosso Deus” (v. 16-18).
É verdade! Mas Josué pareceu detectar uma nota de falta de
sinceridade, ou desprezo, na resposta previsível e pronta. Ele
suspeitava que encarassem a coisa toda de forma leviana. Estariam
supondo ter o poder em si mesmos de servir a Deus, em vez de
reconhecer que só o próprio Deus poderia mantê-los fiéis?
Estes devem ter sido os pensamentos de Josué, pois respondeu: “Não
podereis servir ao S , porquanto é Deus santo, Deus zeloso, que
não perdoará a vossa transgressão nem os vossos pecados. Se
deixardes o S e servirdes a deuses estranhos, então, se voltará,
e vos fará mal, e vos consumirá, depois de vos ter feito bem” (v. 19,20).
O povo estava autoconfiante. “Não; antes, serviremos ao S ”
(v. 21).
“Sois testemunhas contra vós mesmos de que escolhestes o S
para o servir”, disse Josué (v. 22).
E disseram: “Nós o somos”.
“Agora, pois, deitai fora os deuses estranhos”, disse Josué (v. 23).
“Ao S , nosso Deus, serviremos e obedeceremos à sua voz”,
responderam (v. 24).
Não eram necessárias mais palavras. Então Josué aceitou a
afirmação, estabeleceu a aliança entre o povo e Deus e registrou o
fato. O livro de Josué, em especial este capítulo, é o registro. Então
ergueu uma grande pedra como memorial e proferiu as palavras de
despedida: “Eis!”, disse ele a todo o povo. “Eis que esta pedra nos será
testemunha, pois ouviu todas as palavras que o S nos tem dito;
portanto, será testemunha contra vós outros para que não mintais a
vosso Deus” (v. 27). Josué havia lutado o bom combate. Ele completou
a carreira, guardou a fé. Agora, para ele estava estabelecida a coroa
de justiça que o Senhor, o justo juiz, o premiaria naquele dia — e não
apenas a Josué, mas a todos os que amam o Senhor e desejam por
seu retorno (v. 2Tm 4.7-8).
O que mais podemos fazer? Não podemos fazer as escolhas dos
outros; não podemos garantir o futuro deles. Nesse caso, somos
informados: “Serviu, pois, Israel ao S todos os dias de Josué e
todos os dias dos anciãos que ainda sobreviveram por muito tempo
depois de Josué e que sabiam todas as obras feitas pelo S a
Israel” (v. 31). Mas no livro seguinte da Bíblia, no segundo capítulo em
que o mesmo versículo é repetido, somos informados: “Foi também
congregada a seus pais toda aquela geração; e outra geração após
eles se levantou, que não conhecia o S , nem tampouco as obras
que fizera a Israel. Então, fizeram os filhos de Israel o que era mau
perante o S ; pois serviram aos baalins. Deixaram o S ,
Deus de seus pais, que os tirara da terra do Egito, e foram-se após
outros deuses, dentre os deuses das gentes que havia ao redor deles,
e os adoraram, e provocaram o S à ira” (Jz 2.10-12).
Isso pode ser verdade também no nosso caso. Daqui a uma geração,
os que nos seguem podem abandonar totalmente o Senhor. Eles
podem ir atrás dos deuses do mal da cultura materialista. Mas nós não
devemos agir dessa forma! Devemos dizer com Josué: “Eu e a minha
casa serviremos ao S ”.
[1] Joshua: Man of Fearless Faith. Waco: Word Books, 1983, p. 178.
[2] Josué e a história bíblica (São Paulo: Cultura Cristã, 2005), p. 13.
[3] O nome hebraico de cada livro do Pentateuco é extraído do primeiro versículo do capítulo

inicial: Êxodo 1.1: “E estes são os nomes” (Shemot [Nomes]); Levítico 1.1: “E chamou o
S a Moisés” (Wayiqra’ [E chamou]); e Números 1.1: “E falou o S a Moisés no
deserto do Sinai” (Bamidbar [No deserto]). [N. do R.]
[4] A designação hebraica segue aqui o mesmo padrão dos livros anteriores:

Deuteronômio 1.1: “São estas as palavras que Moisés falou” (Devarim [Palavras]). [N. do R.]
[5] Também conhecida como Teoria das Fontes. [N. do T.]
[6] A letra “p” vem do termo alemão Priesterschrift (escrito sacerdotal). Os falantes de inglês
atribuem o “p” ao adjetivo priestly (sacerdotal) em inglês. [N. do T.]
[7] Josué e a história bíblica, tradução de Nahum Pereira. São Paulo: Cultura Cristã, 2005,
p. 33.
[8] Joshua and the Land of Promise (Fort Washington: Christian Literature Crusade, 1977),
p. 19-21.
[9] Ibid., p. 19.
[10] Gleanings in Joshua (Chicago: Moody, 1964), p. 64.
[11] Josué e a história bíblica, p. 71.
[12] Josué e a história bíblica, p. 76.
[13] A versão do autor em inglês traz “o comandante do Exército do Senhor”, como a NVI. [N.
do T.]
[14] V. a discussão sobre a mudança de nome e seu significado em um comentário de minha
autoria, Genesis: An Expositional Commentary, Genesis 12:1-36:43. Grand Rapids: Zondervan,
1986, vol. 2, p. 334-5.
[15] Seu Deus é pequeno demais, tradução de Yolanda M. Krievim. São Paulo: Mundo Cristão,
2007, p. 32-3.
[16] The Moment to Shout. Portland: Multnomah, 1977), p. 113-4.
[17] Joshua and the Land of Promise, p. 78.
[18] Gleanings in Joshua, p. 165.
[19] Josué e a história bíblica, p. 91-6.
[20] Ibid., p. 97. V. tb. os caps. 2 e 3.
[21] Joshua and the Land of Promise, p. 106.
[22] Josué e a história bíblica, p. 97.
[23] Ibid., p. 104.
[24] Versão de Fabiano Medeiros. Hinos e Cânticos: Rocha Eterna [Augustus Toplady]. Graça
Soberana, 2008, disponível em: <https://gracasoberana.wordpress.com/2008/10/21/velha-e-
nova-rocha-eterna/>, acesso em: 24 de out. de 2019.
[25] Victorious Christian Living: Studies in the Book of Joshua. Westwood: Fleming H. Revell
Co., 1955, p. 142-3.
[26] Josué e a história bíblica, p. 123.
[27] Ibid., p. 124.
[28] James Montgomery Boice. Wheaton: Tyndale House Publishers, 1978, p. 95.
[29] Josué e a história bíblica, p. 117.
[30] Short, Modern Discovery and the Bible (London: Intervarsity Fellowship of Evangelical
Unions, 1943), p. 117; e Butler, “Mirages Are Light Benders,” Journal of the American Scientific
Affiliation (December 1951), vol. 3, p. 1-18. Veja Bernard Ramm, The Christian View of Science
and Scripture (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans, 1954), p. 158.
[31] Butler, “Mirages”, p. 9.
[32] Ramm, Christian View of Science, p. 159.
[33] Let Me Illustrate: Stories, Anecdotes, Illustrations. Westwood: Fleming H. Revell Co., 1967,
p. 132-3.
[34] Jewish Antiquities, tradução de H. St. J. Thackeray e Ralph Marcus. Cambridge: Harvard
University Press, 1958, livros V-VIII, p. 31.
[35] Josué e a história bíblica, p. 136, 141.
[36] Meyer, Joshua and the Land of Promise, p. 150-8; Redpath, Victorious Christian Living:
Studies in the Book of Joshua, p. 170-81, são dois principais exemplos. V. meu tratamento
dessas abordagens no cap. 1.
[37] Joshua and the Land of Promise, p. 161.
[38] Victorious Christian Living: Studies in the Book of Joshua, p. 197-8.
[39] Your God Is Too Small.
[40] Josué e a história bíblica, p. 194-5.
[41] Ibid., p. 158-9.
[42] O estudo de Levi foi adaptado de um estudo maior encontrado em James Montgomery
Boice, Genesis (Grand Rapids: Zondervan, 1987), vol. 3, p. 274-9.
[43] Josué e a história bíblica, p. 143.
[44] Ibid., p. 144.
[45] Ibid., 148-9.
[46] Josué e a história bíblica, p. 170.