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José Geraldo Vieira

A RONDA DO DESLUMBRAMENTO
E
O TRISTE EPIGRAMA

Editora Descaminhos
São Paulo
2016
Edição
André Caramuru Aubert
Produção editorial
Clélia Aubert
Assistência editorial
Leda Botton
Capa
João Henrique Lear
Revisão
Aline Silva
Foto de capa
Theatre Normand, Londres, autor desconhecido.
Acervo da New York Public Library.
Copyright © 2016 by José Geraldo Vieira
Todos os direitos desta edição reservados à
Editora Descaminhos
SP | 11 3062 9057
editora.descaminhos@gmail.com
www.editoradescaminhos.com.br
Sumário

O NASCIMENTO DE UM MESTRE
A RONDA DO DESLUMBRAMENTO
O milagre do gesso
A casula de ouro
O enxoval
A coroa de espinhos
A IX Sinfonia
A prima Lúcia
O Monte Tabor
Os pombos do claustro
Uma operação gratuita
João Lágrima
O filho de Maria Bárbara
O sacrilégio
Martha das Terras Baixas
Quando as ciganas passam...
À maneira de Verlaine
O segredo
A taça de champagne
Oscar Wilde
Van Dongen
Carola Marwenga
Baixo-relevo em lápis-lazúli
A mandíbula
A andorinha crucificada
A princesa Salomé
O TRISTE EPIGRAMA
I
II
III
IV
V
VI
VII
O NASCIMENTO DE UM MESTRE

“Somos ainda tão moços e já arrastamos conosco uma renda de coisas mortas”
José Geraldo Vieira, “A prima Lúcia”, em A Ronda do Deslumbramento, Rio,
outubro de 1919.

José Geraldo Vieira preferia datar sua estreia como escritor


em 1931, quando publicou A mulher que fugiu de Sodoma (escrito,
na verdade, durante o Carnaval de 1924). Enquanto romancista,
isso é verdade. Mas ele já tinha, naquele momento, dois livros
publicados, O triste epigrama e A ronda do deslumbramento. O
primeiro foi editado no Rio de Janeiro em 1920, quando José
Geraldo acabara de concluir o curso de medicina e se preparava
para deixar o Brasil com destino à Europa, onde faria
especializações em Paris e em Berlim. O segundo saiu em 1923,
justamente quando ele voltava ao Brasil, já médico radiologista, uma
especialidade então nova e bastante promissora. Ao desprezar
estes dois volumes inaugurais em sua carreira, José Geraldo Vieira
estava aplicando a si mesmo, ou à sua obra, o rigor do esteta
maduro que já havia publicado obras-primas da literatura brasileira,
como A Ladeira da Memória (1950) e O albatroz (1952). Mas, do
nosso ponto de vista de leitores, quase cem anos após o
aparecimento daqueles dois diminutos volumes, a perspectiva deve
ser naturalmente outra.
É provavelmente devido a esse menosprezo do autor por
seus dois livros da juventude que eles, ao contrário do que ocorreu
com os romances posteriores, jamais tenham sido, até hoje,
reeditados. Para piorar a situação, as edições iniciais foram
limitadas a poucos exemplares, o que faz com que os hoje
sobreviventes sejam consideravelmente raros.
O triste epigrama é um poema em prosa, curto e bastante
inspirado na estrutura de Balada do Cárcere (Ballad of the Reading
Gael), escrito na prisão por Oscar Wilde — cuja obra, aliás, era uma
das maiores influências sobre José Geraldo naquele início de
carreira —, e recebeu elogios de gente influente, como Ronald de
Carvalho e Gilberto Amado. É livro que se lê rápido e com inegável
prazer. A trama se passa no porto do Pireu, na Atenas clássica, e
conta a história — a tragédia — de um rico comerciante que perdeu
a memória e se tornou mendigo. Já ali estava um José Geraldo
Vieira que, aos vinte e poucos anos de idade, preferia situar suas
histórias em sítios distantes do Brasil, desfilando, sempre que
possível, sua erudição a respeito da arte universal. João do Rio, um
dos mais influentes críticos daqueles anos, não deixou de chamar a
atenção para o fato, afirmando que, embora o livro fosse fruto de um
autor promissor, faltava a este, ainda, a erudição necessária para
arriscar a reconstituição de eventos passados na Grécia Antiga. Se
por um lado é verdade que José Geraldo, após ter cursado o
colegial na Suíça e ser já então um leitor voraz em várias línguas,
era mais culto do que quase todo mundo de sua geração (e da
anterior), por outro é inegável que João do Rio tinha alguma razão
no que dizia. Afinal, como é que um médico carioca recém-formado,
quase imberbe, se atrevia a escrever um poema em prosa à moda
de Sófocles? Não consta, porém, que aquela crítica tenha afetado
muito o jovem escritor, uma vez que, nos anos seguintes, suas
obras iriam cada vez mais em direção a um exacerbado
cosmopolitismo. E se O triste epigrama, ainda imaturo enquanto
livro, não pode ser comparado a qualquer dos romances posteriores
de José Geraldo Vieira, é, no entanto, leitura bastante agradável, na
qual já se pode identificar, como o fez então João do Rio (apesar
das ressalvas), a fagulha do gênio.
Alguns anos (e uma longa temporada na Europa) depois,
José Geraldo Vieira publicaria A ronda do deslumbramento, volume
com 24 contos. A evolução é notável. Todos os contos do livro foram
escritos entre 1919 e os últimos dias de 1921. Aqui novamente a
receptividade foi mais do que boa, mostrando que o ambiente
intelectual do Rio de Janeiro, no início dos anos 1920, já reconhecia
em José Geraldo um escritor promissor. O maior exemplo disso foi a
entusiasmada acolhida de Agripino Grieco, então talvez o mais
influente e respeitado crítico literário brasileiro, que dedicou nada
menos do que 27 páginas de seu livro de ensaios Caçadores de
Símbolos (1923) ao volume de contos de José Geraldo Vieira. O
fato de um jovem e quase estreante ser colocado por Grieco ao lado
de autores consagrados, entre os quais Ronald de Carvalho, Tristão
de Ataíde e Raul de Leoni, já não seria pouca coisa. Mas é ainda
mais emblemática — e de certa forma premonitória — a maneira
como o crítico abre o capítulo em questão:
“A Ronda do Deslumbramento”, do Sr. José Geraldo Vieira, é um livro feito
para lisonjear o gosto dos artistas. Há nessa obra qualquer cousa que
lembra as palpitações de uma auriflama ao vento. Percorrer uma tal
coletânea de contos, depois de percorrer os trabalhos dos africanistas e
indianistas que andam por aí a garatujar em dialeto de Luanda ou em jargão
de tabajaras, é como sair de uma mina, de uma caverna subterrânea (...)
para vir adorar, cá fora, numa colina ridente, os milagres do taumaturgo Sol.
Lendo-se escritores assim, deixa-se de ser troglodita e fica-se quase
ateniense.
Pois bem: estava apontada ali, por um crítico consagrado, no
comecinho da carreira de José Geraldo, uma das principais marcas
registradas de sua obra, um cosmopolitismo erudito (já sentido em
seu livro de estreia), que, se por um lado daria a ele um papel
absolutamente único na literatura brasileira, por outro o condenaria
ao ostracismo nos seus anos de velhice e, principalmente, após a
morte, por não combinar com aquele traço nacional-regional-popular
que acabaria se impondo, especialmente após os anos 1950, como
o padrão exclusivo a ser seguido por um autor que se pretendesse
“brasileiro”.
Ainda seguindo a observação de Agripino Grieco, é evidente
que um dos aspectos a destacar em A ronda do deslumbramento é
que os contos passam ao largo da estética modernista, de viés
nacionalista, ou, mais ainda, regionalista, que se estabelecia cada
vez mais como dominante nos anos seguintes à Semana de 22.
Ora, José Geraldo estava completamente embebido de
modernismo, mas, tendo passado aqueles anos no Velho Mundo, o
seu modernismo era o europeu, pois ele pouco contato teve,
naqueles anos, com as vanguardas literárias brasileiras,
especialmente as de São Paulo, das quais se aproximaria mais
tarde. Ou seja: ainda que influenciado por autores do século XIX,
como, mais do que qualquer outro, Oscar Wilde, José Geraldo
conviveu com não poucos artistas ligados às vanguardas europeias,
e esse universo não só marcaria a sua literatura, de A ronda do
deslumbramento em diante, como ajudaria a fazer dele, nos anos
1950 e 1960, um dos críticos de arte mais respeitados do Brasil,
figura-chave do projeto de criação da Bienal de Arte de São Paulo.
Os contos mais antigos de A ronda do deslumbramento
(onze deles) foram escritos no Rio de Janeiro, e os demais na
Europa (seis em Paris, dois em Berlim, dois na Itália, dois em
Coimbra, um no sul da França). Ao ler hoje essas histórias, não
conseguimos evitar uma abordagem que, na falta de palavra melhor,
eu classificaria como “arqueológica”. Pois, como em toda boa
arqueologia, há mais de uma camada. Explico.
A primeira das camadas, a mais superficial, nos informa a
respeito da vida pessoal do autor. Os contos mais antigos, escritos
no Rio antes que José Geraldo — que até aquele momento havia
sido, mais do que qualquer outra coisa, um estudante de medicina
— embarcasse para a Europa, estão repletos de menções à vida
dos médicos e a seus dramas morais, com inevitáveis referências à
Gripe Espanhola, aquela epidemia de alcance verdadeiramente
apocalíptico que deu a volta ao mundo bem no momento em que
chegava ao fim a Primeira Guerra Mundial. Depois, já com um pé no
Velho Mundo, surgem referências a Lúcia (na verdade, a prima
Elizabeth Câmara Vieira, com quem se casaria: a paixão infantil,
incentivada pela família, mas que acabaria não resistindo, no futuro,
à evolução pessoal e intelectual do autor) e também uma espécie de
homenagem às origens familiares dele, açorianas. Finalmente, nos
contos escritos quando José Geraldo já estava devidamente
aclimatado à vida europeia, vemos o dândi brasileiro, rico, se
apropriando com tranquilidade daquele universo, tanto em seus
aspectos artísticos e intelectuais quanto também nos boêmios.
A segunda camada interessará especialmente a quem já leu
os livros mais conhecidos de José Geraldo Vieira. Porque aqui e ali,
em um conto e outro, estão questões, cenários e personagens que
aparecerão mais tarde, naturalmente que com outro tratamento, em
seus romances. Porque, diga-se, muitas das histórias têm tantos
lances autobiográficos quanto boa parte de suas criações
posteriores. Assim, é inevitável ler e concluir: “Puxa, isto eu já vi em
Território humano, ou em Terreno baldio”, e assim por diante. Na
mesma linha, vemos nos trabalhos da juventude os dilemas morais,
cristãos mesmo, que estarão presentes em toda a obra madura de
José Geraldo. Finalmente, ainda nesta “camada”, um aspecto —
destacado na epígrafe desta introdução — que identifiquei com
surpresa nos contos de A ronda e que vemos com frequência nos
livros maduros do autor, apesar de não ser tão comum em obras de
juventude: a questão da passagem do tempo, do envelhecimento,
das perdas de pessoas e lugares, da saudade.
Numa terceira camada arqueológica, identificaremos o
nascimento de traços estilísticos de José Geraldo Vieira, como, por
exemplo, a preferência da Europa ao Brasil como cenário para as
histórias, o gosto por listas, a escolha de palavras pouco usuais e a
exibição sem constrangimento de sua erudição caleidoscópica.
Vejamos este trecho, do conto “A taça de champagne”, que nos
apresenta um pouco disso tudo: “É uma cidade, um trecho de
Sodoma, Gomorra, Pompeia e Lesbo, dentro de Paris. Tem a
fisionomia antiga, as ruas estreitas, tortas como Suburra. Mulheres
ao lado de frutas e cestas de peixe... Mulheres e estrangeiros.
Restaurantes ao lado de restaurantes. Cabarés ao lado de
cabarés... Álcool. Prostituição, escravatura branca, cocaína, luxo,
miséria.” Juntam-se a isso as frases em francês, os dilemas morais
e espirituais dos personagens, e estamos diante, em muitos dos
contos, especialmente nos escritos na Europa, de todos os
ingredientes que seriam, mais tarde, utilizados de maneira ampliada
nos romances mais conhecidos do autor.
Finalmente chegamos à quarta e última camada
arqueológica, aquela que evidentemente é a mais importante para
qualquer leitor: a qualidade intrínseca das histórias e o prazer que
se experimenta ao lê-las. Percebe-se nos contos, é verdade, uma
certa irregularidade. Embora não haja um único do qual eu
pessoalmente não goste, de uma maneira geral, não posso negar,
prefiro os contos escritos na Europa, com aquela temática mais
urbana — ou cosmopolita — que tanto caracteriza o José Geraldo
das décadas seguintes. O que não quer dizer que não considere “O
sacrilégio” — apenas para citar um exemplo, que é um dos contos
escritos ainda no Rio, em 1919, cuja história se passa em uma ilha
não identificada (que, pelo contexto, podemos situar nos Açores) —
como uma verdadeira obra-prima, daquelas que poderiam
tranquilamente figurar em qualquer lista do tipo “os cem melhores
contos brasileiros de todos os tempos”. É natural, algumas das
histórias agradarão mais a determinados leitores, outros terão
preferências distintas. Mas não há, entre os 24 contos de A ronda
do deslumbramento, um único que não se leia com prazer.
Definitivamente, José Geraldo Vieira não estava sendo justo consigo
mesmo quando situava a sua estreia literária com A mulher que
fugiu de Sodoma, em 1931, pois é inegável — como bem percebeu
Agripino Grieco — que a estrela do gênio já vinha cintilando havia
um bom tempo.

André Caramuru Aubert, outubro de 2016


A RONDA DO DESLUMBRAMENTO
O milagre do gesso

Minha mãe era tão moça e tão linda que parecia minha irmã
mais velha. Tinha nos olhos um trecho de veludo, e as suas mãos
finas, sem anéis, lembravam, quando eu as beijava, duas hóstias
que, por uma suave transubstanciação, tivessem tomado a forma de
mãos...
Minha mãe tinha uma voz dulçorosa, de um timbre tão
inesquecível que, muita vez, ouvindo-a cantar, diante de meu pai
paralítico um trecho qualquer, eu sentia uma opressão de lágrimas
na garganta.
O coração da nossa casa era uma sala Diretório, de cor
cereja, austera, com manchas de Chabas, pelas paredes fidalgas.
Arrases e Gobelins pendiam do Hall e uma pêndula carrilhão, de
mogno e bronze, arquejava sempre, subdividindo, dia e noite, o
tempo da nossa vida. Um piano de cauda húngaro, de aspecto
boêmio e grave, posto a um canto, sob o lustre Sheffield, suntuoso,
era a paixão recatada de todos nós, embora tivéssemos móveis e
preciosidades herdadas através de gerações mais felizes. E, sobre
ele, entre telas espanholas, num halo de estuque, a pouca altura,
ovalar, simétrica, amarelada, em pujante relevo, pendia, colada à
parede, uma máscara de Beethoven.
Eu nunca vi cousa morta com tanta vida assim... Aquela
máscara encardida, sempre a encarei no titubeante respeito duma
vaga religiosidade. E, quando ela, sobre o velho piano húngaro,
olhava abstratamente minha mãe interpretar a Sonata ao Luar, e
trechos da Missa em ré, eu, encolhido numa cadeira Tudor, diante
de meu pai trêmulo e imprestável, horas altas da noite, na meia-luz
do abajur Sheraton, ouvia aquele aluvião de êxtases como se me
sentisse num outro século, num outro país, entre personagens de
gestos taciturnamente simbólicos... E quando minha mãe, vestida de
veludo Queen-Anna, heráldica, esguia, a bela cabeça inclinada
sobre um ombro, no entusiasmo e na comunhão dos trechos
sublimes, toda se curvava sobre o marfim, era tamanha a sensação
de tumulto e de doçura dentro de mim, tão real me surgia a
felicidade em longos séquitos bíblicos de oferendas imponderáveis,
que todo eu, no meu corpo de pajem, tremia num calafrio beatífico,
apoiado aos livros da mesa hexagonal, livros de edições magníficas,
que meu pai, na sua neurastenia singular, já não podia ver sequer.
Depois, quando, antes de deitar, após os estudos de latim e
história romana, minha mãe, esbelta, pura, no seu sorriso claro de
estame, me beijava os cabelos de pequeno príncipe do Sonho para
que o meu repouso fosse abençoado pelos santos patriarcais do
meu quarto Carolean (já nessa idade em desordem), eu me retirava
absorto, taciturno, enchendo a minha infância de precocidades
esquisitas de tédio e de meditação. Os meus olhos largos, azuis,
onde uma prima da minha idade, como num espelho, arranjava a fita
dos cabelos, estes meus pobres olhos límpidos, sempre se volviam
para a máscara carrancuda de Beethoven. E eu dormia no meu leito
Chippendale, num vago delírio, vendo a cabeleira revolta e
tumultuosa do Gênio farandolar em torno de mim como uma torrente
povoada das magnificências da lenda, cascateando símbolos
fluídicos na treva paradoxal de uma noite lactescente de astros.
Ora, aconteceu que uma noite meu pai piorou. Ele, que antes
de morrer já se ia imobilizando, essa vez delirou todo o tempo e,
com ele, deliramos todos nós. Minha mãe sempre que fica triste
rejuvenesce. De sua cadeira de martírio, como aquela rainha morta
de Ravenna que está sepultada sentada num trono estranho, meu
pai pediu a minha mãe que tocasse um pouco, qualquer cousa para
espiritualizar aquela hora material e terrena.
Ela obedeceu com suavidade tão triste que eu quis chorar...
Atravessou a sala, de porcelanas Worcester, sentou-se ao piano. A
máscara lá estava, compondo no silêncio uma rapsódia
sobrenatural... O gesso encardido, cheio de depressões, relevos,
desvãos e saliências de sombra e luz, emergia da parede como uma
fonte bizarra e ritual donde gotejasse fel...
As mãos de minha mãe, como hóstias que, por um capricho
qualquer tivessem a corporização de mãos, começaram a tocar o
noturno XIV de Chopin. Todos os vãos do meu espírito se encheram
duma poeira impalpável de ouro...
Toda a minha alma como uma cidade mágica soçobrou sob a
cinza do cataclismo. Ora eu subia, com asas de arcanjo, ora descia
com os tocos das asas sangrando... E em vão buscava
compreender por que distribuíra Deus tão irregularmente os seus
dons pelos homens...
Foi então que a grande magia aconteceu...
Meu pai entrevado havia dois anos no cadeirão Tudor,
surgiu, arrastando-se macabramente como um Lázaro que saísse
do retângulo da morte. E, extasiado, lívido, alto, trêmulo, pré-
histórico, de olhar sangrento, todo transfigurado atravessou a sala...
Minha mãe, sem o ver, pois descera as pálpebras sobre a
alma, tentacularmente sorvia o coração de Chopin com os seus
dedos em polvo...
Não foi alucinação dos meus sentidos!...
Pois, ante a ressurreição de teorias e teorias de emoções,
saudades, ânsias, entusiasmos, diante de mim, ante a dinâmica
maravilhosa da evocação e do arroubo, ante o prodígio patético,
ante a dor e a alegria, ante a vida e a morte, ante a placidez e a
loucura, ante o silêncio e o urro, ante o humano e o divino, a velha
máscara de Beethoven começou a contrair os maxilares, a mover a
musculatura da face concentrada, e, como da penha do monte
Horeb, dos olhos ocos, de gesso encardido, as lágrimas, quentes,
grossas, desvairadas, como borbotões, começaram a cair...
Rio, 1920.
A casula de ouro

Com a mão esquerda conseguiu muito lentamente chegar o


lampião para o canto da mesa; depois tentando erguer-se quis
apanhar na primeira estante uma Theologia Moralis. Para isso,
arrastando a metade direita do corpo paralítico, debruçou-se com
muito custo sobre os vidros de remédio. Pegou nos dedos tortos, em
garra, da mão direita para com eles firmar o livro e com a outra mão
folheou, abrindo ao acaso, um trecho litúrgico. Baixou a cabeça
branca, maltratada e encarou as letras do título... Passou o dedo em
cada sílaba; quis juntar, entender, e repentinamente, com muita
brandura começou a chorar... E as lágrimas, grossas e encardidas,
como pingos de resina, lhe davam ao pobre rosto de sexagenário
um tom quase sinistro. Perdera a memória dos sinais gráficos... Já
não sabia ler... ele que tinha passado a mocidade na biblioteca de
um seminário real... Com as costas da mão íntegra limpou as
pálpebras, num feitio trêmulo, meticulosamente; em seguida, com a
polpa dos dedos toscos, palpou a cara onde uma barba de dez dias,
crescendo irregular, meio loura e meio branca, lhe dava o aspecto
montanhês de certas cabeças de Malhoa. Ofegava e, mais por vício
do que por necessidade, respirando, deglutia o ar, abrindo e
cerrando a boca torta, suja de febre, onde os dentes luziam muito
amarelos entre bolhas de saliva... E chorando, mansamente, no
triste recato do seu desespero mudo, tinha patente, nítida, dolorosa
e comovente, no seu feitio de hemiplégico atirado para um canto,
uma timidez esquisita que o tolhia, que o acanhava e que lhe dava
quase ao busto estreito de raquítico um modo desconfiado de
criminoso lorpa. Mesmo sozinho, na tristeza miserável do tugúrio,
tinha como um grande medo, um grande respeito, muito vago, muito
impróprio e muito estranho. Olhava de soslaio, com a cabeça
sempre baixa, e, com a sotaina cheia de manchas, rota, puída,
repuxada, com remendos luzidios nas mangas, mais parecia um
peregrino maníaco repousando para sempre... do que um triste
cônego coadjutor...
Fechou o livro. Encheu-o um mau humor, um ódio brusco;
olhou o braço morto, rijo encostado ao peito; a mão, em concha,
tinha agora e simbolicamente o gesto eterno de pedir... A perna,
disfarçada entre as dobras da batina, era como um alfanje, voltada
para dentro, dura, pesada, inteiriça e incômoda.
E começou a fitar o chão, pensando. Aquilo viera
repentinamente, uma noite, no presbitério, depois de um viático.
Sentira antes uma nuvem na vista. Um formigamento num lado da
cabeça; as veias do pescoço e da testa lhe bateram bizarramente;
viera um travor na língua. Alguém o achara numa estala, sentado,
com o queixo a escorrer saliva e metade do corpo assim... Depois...
alguém, muitos dias depois, lhe notara a falta da voz. Tinha desde
então apenas um grunhido. Queria falar, forçava; moía os dentes,
entortava a boca; desesperava-se; esbugalhava os olhos, apontava
com um tremor horroroso qualquer coisa, ria, chorava, tinha um ar
atarantado de pedir paciência aos outros e caía prostrado, numa
angústia palpitante; ficava então quieto, com as mãos no colo, a
cabeça grisalha caída sobre o peito num gesto quase infantil. E
começava a lembrar a explicação do médico. Embolia. Esclerose
renal... Seção de piramidais. Paralisia. Hemiplegia... Artéria
meníngea média...
E olhava ainda o chão quando alguém abriu a porta, sem um
ruído.
Era Anna Maria.
— Boa noite, padre Estêvão... Está melhor? — Ele quis
sorrir. Ficou, como sempre, acanhado, num embaraço muito parvo.
Baixou mais o queixo sobre a batina; encolheu-se mais. Relanceou
o olhar pela pobreza celular da sala pobríssima; teve vergonha
daquele abandono; ao mesmo tempo um pouco de orgulho antigo
lhe brilhou no olhar cor de escarro, transmudado em pejo ante Anna
Maria, que ali estava, olhando, medindo aquela miséria sinistra.
Talvez ela viesse apenas por misericórdia; mentia talvez, achando-o
melhor. E, assim, cheia de cuidados e carinhos quase o humilhava,
tratando-o com o afago com que se tratam crianças recém-nascidas
ou velhinhos entravados.
Observou-a, porém, melhor. Ela, magra, pequenina, toda
grisalha, na sua virgindade castíssima de beata, assim, toda de
preto, com o modo compungido, quase convalescente de quem se
suplicia, ela, era a única visita de todos os dias. Sempre, quando o
sol se ia embora, Anna Maria entrava. Dava-lhe a cápsula, a
colherada de remédio. Punha em ordem, sumariamente, o tugúrio
onde as aranhas todavia não tinham trazido felicidade...
Padre Estêvão olhou-a bem, como uma irmã. Pobre Anna
Maria!... Tinha vindo ao mundo com esse feitio suavíssimo de certas
pessoas que não são dele! Tinha o rosto alvo, e os olhos tinham a
limpidez dos olhos que costumam fixar, sem temor nem remorso, a
toalha dos altares... Tinha nas mãos de morgada um ar de
enfermeira espiritual. A sua voz era longínqua, franca, pastosa, e
guardava ainda o timbre dos cantos das comunidades
contemplativas... Rodeava-a uma ternura, uma simpatia que a gente
não sabia se era por causa do olhar ou da voz. Nela o corpo tinha
uma linha neutra, que as vestes estilizavam. Era mulher, mas tinha
mais de arcanjo, embora fosse andrógino o seu busto de
comungante e o seu quadril de capitel...
Padre Estêvão olhou-a bem... Pobre Anna Maria... Quando
ele era ordinando, e logo após as investiduras presbiterianas fora
nomeado capelão do Orfanato onde ela vivia vestida de azul-
marinho, com os cabelos corridos e o rosto felpudo como certas
romãs... Dava-lhe a comunhão, ouvia-a no confessionário e sem
querer, lhe queria bem, com um respeito tímido. Como se ela
estivesse no Flos Sanctorum, nunca julgou, por um momento
apenas, que ela não fosse uma santa, uma eleita. Comparava-a aos
cordeiros de tão pura, e, quando lhe dava conselhos, na grade da
confissão, tinha, nítido, firme e inquebrantável, o deslumbramento
de estar polindo uma joia dos sacros tesouros das catedrais de
Chambéry de Laon ou de Clermont-Ferrand...
Tentou erguer-se; apanhou de novo o livro; chamou Anna
Maria. Mostrou-lhe as palavras, as letras, as sílabas; ficou trêmulo,
arquejante; remoeu os dentes, fez um gesto triste, sinistro, de uma
eloquência turva, quis dizer que não sabia mais ler. E mostrou as
estantes onde os trinta volumes de Patrologia, em série, luziam...
Mostrou o lombo dos in-fólios de liturgia; palpou os pergaminhos, as
cópias, os in-oitavos de encíclicas, de bulas; acariciou os clássicos:
São Tomás, Santo Agostinho; olhou atabalhoadamente os volumes
de Bossuet e do Padre Vieira. Pegou como uma criança a Teologia
de Sanchez e as Regras de Gury. Indicou as crônicas do abade
Hildeberto e de dom Huynes.
Sentou-se; começou de novo a enxugar os olhos. Notou,
com uma atenção suave e infantil, as manchas e os remendos da
sotaina...
Então, Anna Maria, baixando a fronte sobre a mesa,
cruzando os braços à volta dos cabelos, começou a chorar; os seus
soluços eram tão tristes que lhe davam a aparência bíblica de certas
santas góticas dos trifórios e tímpanos das catedrais normandas.
Padre Estêvão olhou-a bem. Ficou sério, quase severo, a
pensar na vontade de Deus. Quando entrara para o sacerdócio
pensara em chegar a príncipe da Igreja... Durante as leituras
ascéticas sonhava com alvas, murças, dalmáticas, sobrepelizes,
casulas, mitras, púrpuras e tiaras... Lia a história de Júlio II.
Sonhava com os Sacros Palácios Apostólicos. Via-se em catedrais
primitivas, duma arquitetônica de transição. Umas rudimentarmente
romanas, austeras. Outras bizarramente espiritualizadas nos
requintes bizantinos. Quase todas, porém, gloriosamente
pompeando nas suas realengas pompas góticas: São João de
Latrão. Santa Maria Maior. São Pedro. São Paulo extramuros. Pisa.
Santa Maria Novella. Santa Maria Del Fiore em Florença, na
riqueza paradoxal dos seus mármores e frescos da Renascença. O
Domo de Milão, maravilha gótica, branco como talhado em cristal de
rocha em louvor de Ambrósio e Borromeu. São Marcos, desvairo de
estilos.
Santa Sofia. Alucinação mental de místicos serralhos. Santa
Margarida de Marselha. Nossa Senhora de Paris, sonho
apocalíptico de João de Chelles. Reims, ferida vivíssima faiscando
ao sol, ainda cheia do sangue e da alma de Darbois. Leão, Mans.
Bourges, a esplêndida, com suas lendas de Ursino, Rodolfo de
Turenne e Hugo Capeto.
Tours. Ruão. Colônia, varando o céu renano.
Os Jerônimos e a Batalha, sonhos de raça, cheirando a mar,
caravelas místicas. Salamanca, rude e sombria. Toledo, asfixiada
entre becos e vielas. Córdoba, moçárabe e quase leiga. Cantuária e
Westminster, aureoladas de brumas e lendárias sugestões...
Depois aquilo tudo passara. Viera-lhe o senso comum...
Anna Maria soluçava... E ele, que falhara, que, apenas
subira a coadjutor numa velha Sé de província, ele, que de
grandeza só tivera o ter sido capelão aos vinte e poucos anos, num
Internato mesquinho, ele que vestia a batina dos peregrinos
medievais e que nem paramentos tinha, já nem poderia rezar o
Santo Sacrifício! Nunca! Nunca mais! Nunca mais daria a Divina
Partícula ao Coração de Anna Maria!...
Ela compreendeu o seu pensamento. Ergueu-se. Tirou da
mesa, no saguão humilde, um embrulho. Abriu-o, sorrindo, como se
delirasse... Padre Estêvão também se ergueu. Anna Maria
estendeu, no ar, alguma coisa, mostrando-a na ponta dos dedos...
— Uma casula de ouro! Bordei-a três anos... Quando vossa
reverendíssima voltar a dizer missa há de descer do altar, todo
paramentado, assim... assim com o cálice nas mãos já boas para
dar a comunhão à pobre Anna Maria... não é, padre Estêvão?!...
Ele olhou a casula onde um Agnus Dei brilhava... Palpou-a,
quis beijá-la... Quis falar... Fez que sim; sorriu, tão triste e tão
devagar!... Depois remoeu os dentes; quis explicar... Entrou a repetir
os gestos da mão esquerda, numa eloquência incomparável... Fez
que não... que não... que nunca mais... Teve um êxtase, um estupor;
sacudiu-o todo uma convulsão: descreveu na meia escuridão da
sala um rodopio lúgubre; a mão morta em garra, aquela mão que
simbolicamente tinha o gesto eterno de pedir, prendeu a fímbria
dourada. Moveu a boca, abraçou a casula, molhando-a com a saliva
que lhe empastava o queixo. Depois, tímido, amedrontado, vidrento,
caiu, muito rijo e muito esticado, aos pés de Anna Maria, grunhindo
que não... que não... que nunca mais!...
Coimbra, 1920.
O enxoval

Em nossa casa, apesar dos tempos modernos, imperam


ainda velhos hábitos patriarcais. E, à hora da ceia, sob a bênção de
Deus e dos olhos de minha mãe, é comum toda a família se reunir
ao redor da mesa torneada ao feitio dos móveis seculares.
Geralmente antes de nos deitarmos, a prima Lúcia alegra a palestra,
com a sua voz quente e franca, abrindo, na sonolência do casarão
aquietado, a sua risada feliz de menina e moça.
Às vezes, meu pai, no alpendre, aviva questões várias,
discutindo, a esmo, com autoridade equívoca, fatos fúteis da vida
quotidiana. Minha mãe, numa cadeira renascença, de altas
espaldas, borda calmamente, com um movimento igual de dedos, o
enxoval da prima Lúcia.
E eu, impossibilitado de sair com os meus pobres pulmões,
estes pulmões que tanto têm dado que fazer aos meus na
melancolia própria que caracteriza os hécticos, quase sempre,
nessa hora serena, leio o predileto Romain Rolland, encolhido a um
vão da sala.
Custa-me, porém, muito, acostumar o meu feitio soturno à
frívola alegria dos meus.
A prima Lúcia é adorável na ingenuidade da sua meia
educação artística e, sem querer, simboliza toda a mediana cultura
das famílias do nosso tempo.
Ontem, estando todos nós, como sempre em convívio, notei
que os seus olhos quando se encontravam com os meus
subitamente se escondiam sob as pálpebras azuladas e lentas. E,
não sei como, cheios de rubor, com atarantamentos, notei que nós
ambos nos sentíamos enleados, como se por acaso entre nós
houvesse, embora tacitamente, uma nebulosa história de paixão.
E aquilo começou a me fazer bem, a me aclarar o meu
estado como um óleo santo onde brilhasse uma luz votiva. E passei
todo o resto da noite, com o livro sobre os joelhos, trêmulo, cheio de
um inefável langor, olhando com piedosa humildade a prima Lúcia
sentada junto à janela, em frente à larga varanda, sob a noite
estival.
Meu pai, calado, folheava as suas queridas edições raras de
clássicos; e minha mãe, com os seus óculos de ouro velho, bordava,
com um sorriso contínuo nos lábios santos.
Então, vendo que ninguém nos pressentia, olhei longamente
os olhos de minha prima-irmã.
Ela, com um feitio esquisito, meio zonza, um tremor ligeiro no
lábio e no queixo, baixou a cabeça sobre as mãos e,
inesperadamente, com arrancos convulsivos, começou a chorar...
— Ó Lúcia...
Tomada de um estertor estranho, inclinando o busto sobre o
ônix da mesa flamenga, rompeu em novos soluços, entristecendo o
silêncio todo que a ouvia...
— Ó Lúcia?!... Que é isso?...
Ela ergueu aquela adorável cabeça, de cabeleira castanha e
fofa, olhou-me com infinita tristeza, e correu a se ajoelhar aos pés
de minha mãe.
Cambaleante, aturdido e meio cego, eu, então, me retirei
para o meu quarto.
A febre, o suor frio e a tosse tomaram de assalto o meu
alvoroço; e uma ideia fixa, demais trágica, se abraçou à minha
imaginação, como uma erva daninha a um muro que fosse cair...
Desde então, comecei a piorar entre os bustos de bronze de
Camillo e de Flaubert, e entre as minhas estantes inglesas de
literatura passadista. Decerto estes meus pobres pulmões lá se vão,
corroendo, numa lenta teimosia, a minha vida soturna de
misantropo.
Hoje, obedecendo a um teimoso e lúgubre desígnio,
esperarei que todos durmam. E, quando, alta noite, maior for a
febre, e o suor frio, e a tosse, e o desespero, com cuidados sutis me
levantarei e, pé ante pé, sofreando a respiração, irei até à sala
patriarcal, forrada de colgaduras solenes. Rasgarei, ou melhor,
picarei com a tesoura de minha mãe, o enxoval de casamento da
prima Lúcia... porque ela, desde o mês de Maria, mês em que
apanhei a tuberculose, é noiva de alguém que está ausente,
estudando no estrangeiro...
Estraçalharei todo o enxoval, peça por peça, virando-o da
arca trissecular do saguão; e, amanhã, quando todos acordarem,
saberão o meu segredo... E, quando toda a família se puser a
comentar a minha loucura, eu, no meu quarto, com a tesoura de
minha mãe, que afiarei toda a noite na pedra da sacada, cortarei as
veias dos pulsos como um personagem idiota de romance
histórico...
E todos, aos meus gritos, acorrerão... E diante de mim que
irei morrendo aos poucos, com o meu pobre rosto aporcelanado de
Musset ou de Cesário Verde, minha mãe e a prima Lúcia se
santificarão na dor que as alucinará... Com retalhos do enxoval, com
sedas, brocados, e rendas vindas do Lanvin e do Poiret, ricos
tecidos bordados em Veneza e na Madeira, amparando-me no colo,
depois procurarão estancar o sangue dos meus braços, aqui, assim,
nos meus punhos cheios de coágulos. E será tamanha e tão
dolorosa a cena que os meus olhos, como um óleo santo onde
brilhassem dois luzeiros trêmulos, se hão de apagar inundados
d’água, nessa expressão patética com que as crianças novinhas
olham as mães, morrendo...
A coroa de espinhos

— Felizmente, através do grande sofrimento que é a minha


vida tenho ainda uma porção mínima de felicidade!... És tu... Tu não
és como as outras mulheres são!... — E beijando a mulher na fronte,
mesmo sobre as madeixas castanhas, o maestro bateu a porta e
saiu.
Era manhã ainda. E o filho do casal, mais do que na noite
anterior, manifestava sinais evidentes de haver piorado.
No começo aquela maldita doença era apenas uma dor
aguda ao redor da cabeça... E a criança, queixando-se, dizia, com o
olhar baço dos cordeiros entanguidos: — Mãe... Parece que eu
tenho uma coroa de espinhos na cabeça... Uma coroa como a do
menino Jesus...
Mas, depois, a coisa piorara abruptamente... O médico
diagnosticara uma meningite... E daí por diante fora como se um
martírio devesse afligir pais e filho. O maestro, em pé, perto do
berço, olhava a criança cujas pálpebras já não deixavam ver os
olhos, aqueles olhos que eram duas manhãs de primavera no
campo... A mãe, solta a larga cabeleira sobre as costas, tinha
solicitudes maníacas, carinhos doentios, verdadeira febre em cuidar
da criança... Cada hora, porém, a coroa de espinhos apertava mais
o abraço estranho...
E agora, nessa manhã, a criança já não falava. Movimentos
repentinos e desordenados a agitavam toda. Erguia as mãos como
para alcançar qualquer coisa indistinta... Uma paralisia qualquer lhe
dera ao rosto um estupor angélico de imagem de cera.
Era manhã ainda... Mas uma sinistra manhã mais maldita do
que uma noite de trevas infernais...
— Filho... Pois tu já nem sequer vês tua mamãezinha?!...
O doente entrava já em coma... Abanava a cabeça da direita
para a esquerda, incessantemente e, qualquer coisa lhe cantava
surdamente no fundo da garganta, como uma corrente de água
clara...
O capacete de gelo lhe dava um ar extraordinário, um certo
feitio macabro...
E uma espuma levíssima, em bolhas de brilho irisado, lhe
franjava os lábios queimados de febre...
No compartimento vizinho cantavam dois canários. E um
ruído crescente, o ruído das ruas e do mundo, entrava pela janela...
Era a voz dos apregoadores, o rodar dos carros, o deslizar da
multidão pelos canais humanos das ruas... Era a vida, a luta, a
eterna ninharia do dinheiro, da ambição, do amor... da indiferença...
Os quarteirões, como colmeias ao sol, abriam as portas para a
trivialidade do comércio... Os carros conduziam senhores graves a
caminho dos bancos e das entrevistas.
O povo seguia, como um formigueiro, mas um formigueiro
estranho que já tivesse teorias de cigarra!... Os edifícios públicos, as
estátuas equestres lembravam a pátria, divindade eterna que, como
Moloch, devora os próprios filhos. A multidão, no seu conjunto, era
uma massa compacta seguindo o destino automaticamente; vista,
porém, sob lente mais nítida, mostrava que no mundo ainda há
castas, ainda há senhores e escravos, e que a caudal da dor é
paralela à felicidade, costumando até, nas enchentes, misturar
ambas o fel que abunda e a linfa que míngua...
Era manhã ainda... Morrer assim, antes da noite, na hora
fecunda em que o sol alaga as praças e os telhados, morrer assim...
A criança abanava a cabeça da direita para a esquerda,
como uma pêndula que quisesse dividir o tempo... O gorgulho
d’água corrente lhe cantava ao fundo da garganta... Dava vontade
de chorar ver coisa assim tão triste... E parecia diabólico, esse canto
contínuo dos canários, no compartimento vizinho...
De repente a pêndula parou... A fonte d’água clara cessou o
seu cantar subterrâneo... E, como por encanto, as pálpebras
deixaram ver os olhos, aqueles olhos que, agora, eram duas
manhãs turvas de outono... A mulher ajoelhou ao pé do berço...
Espargiu sobre o corpo, que ainda estava quente, a larga cabeleira
trágica...
— Já agora não te magoa mais a coroa de espinhos, meu
amor... meu pequenino amor...
E a criança sorria com os dentes brancos, de leite, como se
olhasse com desvanecimento a teoria de anjos que lhe viera
arrebatar a alma...
Aos gritos e soluços da mulher acorreram vizinhos. Um
pobre pintor de barrete de veludo e calças riscadas à Marcello,
beijou a mão do cadáver, remexeu os bolsos e disse:
— Vou comprar flores...
E saiu... Houve um largo silêncio... Um grande silêncio...
Num dado instante ouviu-se alguém subir a escada. Logo
depois outras pessoas subiram, falando alto...
A porta se abriu... O maestro entrou com o violino e uma
pasta, exclamando com certa ênfase:
— Vamos ensaiar a minha marcha... É o único tempo
disponível que temos...
Mas, num relance, compreendendo a tragédia que enchia
aquela saleta, abriu em cruz os largos braços e caiu sobre o berço...
Homens de cigarro ao canto da boca entraram trazendo um
violoncelo, uma harpa, violinos, um rabecão sinistro e flautas
amáveis...
Todos se descobriram. Depois, com evidente mal-estar,
tentaram sair, abrindo mansamente a porta...
— Não... Não... Fiquem, meus amigos...
Nessa hora entrou o pintor trazendo num jornal uma braçada
úmida de rosas... Cercou o cadáver com as flores... Uniu-lhes as
mãos sobre o peito; em seguida ajoelhando, começou a rezar, com
mansidão, como se assistisse a algum ofício divino...
O maestro abriu o piano. Distribuiu as cópias... Explicou
certos trechos, tocando-os, ao piano com a mão direita,
ligeiramente.
Depois, com os punhos cerrados, limpou duas lágrimas que
se alongavam até a barba inculta...
— Ó mulher!... Vem daí acompanhar-me ao piano...
— Eu?!
— Vem daí!...
Ela então, olhando o filho, com um olhar que era um abraço,
exclamou:
— Sim! Será até lindíssimo, tocarmos todos a marcha
fúnebre diante do nosso pequeno amor... Sim... Realmente...
Vamos... Sim...
O maestro baixou elegantemente o queixo sobre o violino,
tomou o arco, olhou em redor, fez um sinal, e os quatro violinos
começaram a descrever uma enorme planície coberta de urzes com
duas estradas imensas de ciprestes...
Depois as flautas acompanharam... E o piano... E a harpa...
E o violino e o rabecão... E a planície se povoou de reis... de
mártires, de santos, de infantes, de heróis, de papas, de cardeais,
de guerreiros... Um vento de borrasca açoitou as duas estradas de
ciprestes e chorões...
Uma tempestade caiu sobre o mundo... Ergueram-se então
preces e súplicas da terra. Deus ouviu... Veio a bonança...
Nisto, ao fundo da perspectiva surgiu um cortejo conduzindo
um cadáver coroado de espinhos... Archotes descabelados tingiam
o ar de amargura... Pombas fugiam perseguidas por grandes
bandos de corvos...
O cortejo se aproximou...
Na beira dum rio de margens retas e fundas uns cavaleiros
vestidos como cruzados talhavam com as próprias espadas um
túmulo na rocha. O cortejo chegou... Então os papas, os reis, os
infantes, os heróis, os cardeais, os guerreiros, os mártires, as
rainhas, as princesas e as santas, vestidos todos de púrpuras,
dalmáticas, hábitos talares, cotas, mantos e alvas, vieram, em dupla
fileira majestosa, beijar a criança e fazer-lhe carícias, levemente,
com a polpa dos dedos fidalgos...
Donzéis vestidos à Francisco I e damas toucadas à maneira
de York desceram, com cuidado infinito o pequeno mártir, depondo-
o no sacrário do túmulo real. Depois a régia comitiva desfilou ao pé
da tumba reluzente, lançando, ao fundo da cratera, mancheias de
rosas, joias e grandes lágrimas que queimavam como fogo...
Feito isso, a multidão multicor sumiu. A planície ficou vazia...
Nisto surgiu com seu manto doloroso, a mão de Deus e dos
Homens, com sete espadas no peito. Após ela vinham duas
mulheres: uma era santa e fora, em tempos, grã pecadora e tinha,
na Bíblia Nova e na Poesia, o nome de Madalena. A outra era de
uma beleza trigueira. As três mulheres retiraram do túmulo o corpo
da criança, com o cuidado com que se arranca de um jardim uma
roseira nova... Surgiram dois homens de aspecto também bíblico.
Eram Arimateia e Nicodemus; abriram um sudário de linho novo, e
os cinco transportaram, para além deste mundo, o cadáver do
infante!!
... O maestro depôs o violino sobre o piano. Os músicos
juntaram-se a um canto, ainda estupefatos de deslumbramento.
— Perdeste o filho da tua carne. Esse era mortal. Mas tens,
eterno e imortal, o filho do teu espírito. Este certo te dará glória e
honra...
— Sim... Sim...
Alguém exclamou ao lado: — O maestro tem o espírito
revolto de Beethoven, embora a sua fisionomia lembre a mansidão
de Chopin...
— Sim... Sim...
— Que enorme coroa de espinhos que eu tenho agora, aqui,
neste coração!... disse, com horror, a mulher, debruçando-se, em
soluços, sobre o cadáver.
O maestro não disse nada. Pôs o chapéu, saiu e foi procurar,
em algum bairro pobre, um caixão barato, sem enfeites, onde
coubesse a pequenina joia que era aquele cadáver coroado de
espinhos...
Berlim — Junho — 1920.
A IX Sinfonia

Como sempre, àquela hora, quando o homem do gás


ziguezagueando pela ladeira em direção aos lampiões, virgulava a
treva de espaço a espaço, nessa triste noite de bairro pobre, tio
Ramalho com o seu pesado capotão cinzento, segurando sob o
braço a sacola de camurça do violino, subia, cheio de mau humor, a
rampa esburacada.
Mas desta vez, caminhando todo curvado e trêmulo, parecia
muito preocupado, porque gesticulava com frenesi e até falava
sozinho, com uma evidente revolta a sacudi-lo todo; nem mesmo
cumprimentava aquelas caras conhecidas que, ou fechando as
lojas, ou espreitando das janelas, lhe faziam acenos familiares.
Talvez tio Ramalho tivesse bebido... Um homem desgraçado
quase sempre bebe quando não pode achar distração menos
empírica.
Trinta e cinco anos, a dar aulas de música, vejam vocês!
trinta e cinco anos, e não havia maior pobre naquela rua, nem
criatura que mais se lastimasse com uma tão contínua amargura
odienta. Apenas duas preciosidades o exaltavam, insulando-o
naquele meio operário, dando-lhe quase um vago feitio de nobre
arruinado: a filha e o violino...
O violino tinha, porém, o dobro da idade da filha. Um fora
adquirido em Cremona, havia quarenta anos, naquela temporada
áurea, quando havia público para aplaudir e recompensar. A filha
tinha vindo, porém, quando já a ingratidão, a inveja e a má sorte
começavam a acurvar a espinha de tio Ramalho, cavando-lhe o
despeito acre nas faces deprimidas, embaciando-lhe, com
resignações plácidas, os olhos de mocho e inteiriçando-lhe, com
maldosa teimosia, as mãos cabeludas e trêmulas.
Tio Ramalho falava sozinho... Mas falava coisas com certo
nexo e dizia mais ou menos isto, com aquela voz amarga com que
certos mendigos se queixam apenas por vício, sem esperança
alguma:
— Que mal fiz eu para não ser, como os outros, um bocado
feliz?!...
A revolta de tio Ramalho chegava ao auge quando repisava
com tristeza a principal razão da sua queixa: não poderia ir, nem ao
menos de galeria, à nona sinfonia, nessa noite?!... A primeira vez
que a levavam na América do Sul, vejam vocês! a primeira vez!...
Um teatro repleto, de idiotas de casacas; decotes na plateia;
estudantes frívolos nas galerias. E o colosso do Beethoven
gemendo... gemendo...
Tio Ramalho, porém, vejam vocês! tio Ramalho em casa!...
Pois não era de revoltar?...
Nem tivera coragem de tentar um adiantamento com a
família da menina Adélia... Tinha tanta cerimônia, e, de mais a mais
sempre lhe vinha um tamanho acanhamento diante de gente rica!...
Entrou em casa. Logo, na escada apertada e escura
encontrou um grupo de homens que fumavam discutindo greves. Tio
Ramalho deu-lhes as boas-noites. Depois pedindo com ar faceto um
cigarro, lhes explicou a grande injustiça que o escaldava, ali, no
peito...
— Não poderia ir ao teatro; não poderia formalmente! E
essa, hein?!
E como o consolassem, subiu resmungando, já um tanto
satisfeito, com o cigarro nos dentes...
No quarto, no último andar, àquela hora, devia estar já o café
prontinho! E a Rosalia devia estar regando com um caneco os
tinhorões da janela.
Como sabia bem um café feito pela Rosalia! Hum!!...
Antes de empurrar a porta da pocilga presenciou uma cena
burlesca, donde tirou novas considerações sobre a grande estopada
que esta vida é! E viu o seguinte, dilatando com satisfação de
escândalo o olhar duro de mocho: uma mulher de cabelo alto e
espinhas na cara, toda caiada de pó de arroz, discutia com um
estudante capenga, num calão sinceríssimo.
Tio Ramalho entrou. O quarto estava escuro e pelas vidraças
apenas entrava um clarão tênue e aleitado.
— Já me anda a Rosalia co’as vizinhas...
Acendeu o candeeiro e foi até a estante onde as pilhas de
álbuns, métodos e coleções de música cresciam em maços
distintos. A sombra de tio Ramalho, truncada em ângulo entre o teto
e a parede, parecia uma caricatura móvel.
— Mas que grande desmazelo!...
Sobre a tripeça carbonificada, a cafeteira jazia, suja de
fuligem, tendo apenas, dentro, uma pirâmide de café, truncada
como uma diminuta cratera. Tio Ramalho, em tomando três goles de
café, estala logo a língua e as bochechas, com bonomia; os olhos
tomam um brilho infantil e no rosto murcho, a pele pregada nos
maxilares começa logo a murchar e a encher, a murchar e a encher,
como um fole deglutindo o ar em sorvos.
Foi por isso que tio Ramalho fez, ele próprio, o café, ouvindo
com os dois pobres ouvidos que Deus lhe deu, uma voz estridente
no quarto vizinho, cantar uma ária marcial, com um estribilho
revoltoso.
Onde andaria a Rosalia?! Era a hora da rapariga estar à
janela, devaneando num passeio ideal, o pobre peito ofegante, a
boca seca, os olhos de boneca querendo saltar das pálpebras
pestanudas, para descer até lá embaixo, às grandes ruas de
movimento, onde havia clarões tentadores em fachadas de teatros,
cinemas e cafés...
— Ah! a nona sinfonia!... — pensou de novo, tio Ramalho; e
entrou a passear de um canto a outro da saleta, como um pássaro
preso; e andando, esticava o queixo para diante, punha as mãos
napoleonicamente na cava do colete encarnado e mastigava, com
um ar de roedor, a ponta esfarelada do cigarro.
Um artista, vejam vocês, que fazia do violino uma alma de
mulher, ali, engaiolado, sim, senhores, enquanto lá embaixo, pra
banda do mar, centenas de professores, sob a vareta de Marinuzzi
executavam a maior criação musical do mundo! E com coros, efeitos
de cena, vejam vocês!...
E puxava os punhos, cerrava os dentes e tinha ímpetos de
invectivar o próprio Deus que também não se apiedara de Santa
Cecília, deixando-a morrer num martírio...
Ah! se isso lhe houvesse acontecido na mocidade!... decerto
teria chorado uma noite inteira. Mas agora, já tinha por dentro
muitas cicatrizes das injustiças do mundo. Trinta e cinco anos havia
que uma perseguição anônima o aniquilava, quebrando-lhe os
surtos, fazendo-o falhar, arredando-o, como um zoilo ou como um
intruso, dos centros artísticos da cidade, obrigando-o à miséria, ao
rancor surdo, a apenas ter de seu, como duas misérrimas muletas, a
filha e o violino...
Depois de muito passar e repassar perto da tosca mesa de
pinho, foi que tio Ramalho descobriu, com certo espanto, um papel
dobrado em quatro, saindo como os élitros dum inseto das folhas
dum álbum encadernado em percalina.
— Que diabo é isto?
Era a letra de Rosalia.
“Pai, fujo para ser um pouco menos infeliz; mas antes quero
o teu perdão. — Rosalia.”
Era a letra de Rosalia... pois não!... Vejam vocês, uma letra
em pé, perpendicular, aquela, letra aprendida no Asilo das
Carmelitas Descalças.
Tio Ramalho ficou então, mais ou menos, com a expressão
aturdida desses loucos ingênuos e plácidos que vocês devem ter
visto nas grades do Hospício, olhando pra rua com insistências
idiotas e meigas.
Uma espécie de vertigem, com suores gelados, tirando-lhe
toda e qualquer mímica da musculatura magra do rosto, durou
alguns incertos minutos. Os braços penderam miseravelmente, e
tanto pesaram aquelas pernas bambas que tio Ramalho quase caiu
de joelhos num entorpecimento estúpido, a consciência baralhada.
— E essa, hein, e essa?!
Menos calmo, porém mais senhor de si, o velho violinista deu
dois passos e com os dedos em garra, despregou o retrato de
esmalte vitrificado da filha, preso à parede.
Era um pedaço de rosto atrevido, redondo, com uma pinta
magnífica na face esquerda, mesmo ao pé das pálpebras
pestanudas.
Vinte anos de miséria, de revolta incubada e de fantasia
prisioneira com irrequietações de pássaro representava aquela
confissão.
Tio Ramalho, com a mesma rebeldia com que se insurgia
contra o mundo, atirado praí como uma tábua esquecida à flor-
d’água, logo se insurgiu contra a nova emboscada daquela
perseguição anônima que o aniquilava, cortando-lhe os surtos,
amputando-lhe pedaços do corpo e da alma.
Passou em relance uma revista de penitente a toda a sua
vida, à cata dum pecado ou dum castigo merecido que lhe dissesse
a razão de ser de toda aquela odisseia particular da sua vida.
Apenas viu que uma ambição desmedida, como um corvo depenado
batia os tocos das asas querendo em vão atingir alguma altura. Fora
esse o seu pecado...
Depois de voltear pelo assoalho, cabisbaixo e trêmulo, com o
pesado capote a lhe cair do dorso, em pregas, teve um gesto de
ferocidade, um arreganho de dentes; depois, como se pensasse
muitas coisas atropeladamente, ergueu o rosto como a sacudir
fantasmas.
Mas por que o havia de perseguir, dia e noite, tão continuado
castigo?...
E olhou fixamente o violino, abrindo a sacola. Era uma bela
peça, lembrando, assim, na meia escuridão, uma gigantesca folha
de feto retorcida.
Tio Ramalho talvez tivesse bebido nessa noite... Quase todo
o desgraçado bebe quando não pode achar distração mais filosófica
nesta vida mesquinha...
Mas a verdade é que tio Ramalho falando sozinho, com um
feitio sinistro estampado na musculatura magra do rosto chupado,
de repente, num golpe imprevisto e tremendo, com todas as forças
dos seus dois braços descarnados e cabeludos, espatifou o violino
sobre a mesa, de encontro ao retrato da filha, dando de cheio,
quase diabolicamente, traçando no ar escuro um raio luminoso e
curto, cujo zunido estrídulo cortou a atmosfera espessa.
Do esmalte, quebrado em três pedaços, começou a cair, da
mesa ao chão, uma poeira branca; e, do instrumento, fendido em
três frestas que riam no bojo oitavado, saiu um lamento duplo, um
grito e um eco, um soluço e uma gargalhada, uma voz rouca e uma
voz metálica, um grunhido de demônio e um suspiro de arcanjo...
Como se o teto se abrisse, pareceu a tio Ramalho que podia
agora respirar melhor e que um ar menos empestado lhe entrava
pelas gretas da alma em carcaça...
E aquele cérebro, que um amolecimento invadia, não
presidiu mais a ato algum, de mímica ou de expressão. Apenas um
ríctus severo, um termo médio entre a alegria irônica e o rancor
selvagem, sulcou simetricamente aquele rosto inculto e esquálido,
como dois vincos de vida humana, animalizando um pedaço
encardido de gesso anatômico.
Foi assim, com essa aparência de velho caduco, que tio
Ramalho chegou até a janela, arrastando os pés, como esses
sentenciados presos a grandes bolas maciças.
Àquela hora, os coros, na imortal música da IX Sinfonia,
deviam estar cantando:
“Ó divina alegria!
Ó divina alegria!”
E as cordas e os metais, que Beethoven pôs na epopeia
clangorosa da sinfonia, num simbolismo atarantado de temas
ousados, deviam, àquela hora, estar vibrando, dentro do ar, como
um arquipélago pagão de vozes panteístas cantando num coro
homérico, dentro dum mar mitológico...
Tio Ramalho olhou embaixo a cidade acesa. Talvez fosse
perversão dos seus sentidos... Mas, rasteira como a ingratidão
humana, a cidade era uma grande treva esparsa, lá, embaixo,
retalhada em quadrados colossais pelas ruas fartamente iluminadas,
e figurando, vista de cima, um grande tabuleiro de jogo, em cujos
losangos, movidos por uma estranha fatalidade, os destinos dos
homens todos, como pedras mortas e passivas, se deslocavam,
avançando, recuando e desaparecendo...
Rio — 1919.
A prima Lúcia

Escrevo-lhe numa hora de delírio... A estas horas todos


dormem. E eu, na biblioteca de meu pai, rodeado de altas estantes,
sob a luz azulada de um candelabro, diante da secretária atulhada
de livros e papéis, ardo em febre, cheio de alucinações,
nervosismos, esgares e desabrimento de louco.
Escrevo-lhe numa hora de delírio... Ninguém me vê... Vou,
pois, contar todo o segredo, todo o martírio, todo o romance... Vou
contar muita coisa horrível... Não pretendo desabafar, não, não!!... A
minha dor eu não a repartirei com ninguém; avaramente a abraçarei
dentro de mim como um fogo necessário ao meu sangue, à minha
vida... De mais a mais os médicos não se comovem nunca... A
desgraça alheia os cauteriza... Mas não! Agora, o senhor se
comoverá! Hei de pôr de joelhos, diante do meu sofrimento, o
mundo todo... O senhor se comoverá!
Quanta miséria não viu o senhor?! Quanta agonia?! Quanto
drama? Mas o seu ofício lhe criou à volta da alma uma camada de
breu, por isso o sofrimento dos pobres e dos ricos, das crianças e
dos velhos, das mães e dos filhos, tudo lhe é alheio, indiferente!!
Mas hoje, com um ferro em brasa eu lhe queimarei, lentamente, o
coração!! E o senhor verá que é inútil, que a medicina é uma falaz
esperança, que o homem sem o médico ou por ele assistido,
continuará a ser o expurgo dos jardins de Deus...
Todos os seus livros e aparelhos, toda a sua ciência, toda a
sua vocação são um simples dedal para o imenso mar de
sofrimentos da humanidade...
Hoje, como um sinistro desabafo, eu lhe mostrarei com cores
tão sinistras a desgraça humana, que o senhor tremerá...
Escrevo-lhe numa hora amarga... para amaldiçoar a sua
profissão, chamando-a de franca quimera! Inda há pouco, nesta
cidade, o senhor viu, pelas ruas, nas horas sinistras do mês
passado, caminhões abarrotados de cadáveres a caminho dos
cemitérios onde, em pilhas, ficavam à espera das covas... O senhor
viu metade da população delirando como eu agora deliro...
Nas casas dos seus clientes, quantos não morreram?... E o
senhor inda se julga um sacerdote? E o senhor ainda fala nas luzes
do século, nos gênios da medicina?!
Ah! O senhor era pobre e hoje é rico... No seu consultório o
senhor ganhou fortuna... Mas a sua consciência não lhe diz nada? A
sua arte médica modificou a vida dos clientes que moram no seu
bairro?
Mas... perdoe-me, doutor... Eu lhe estou escrevendo fora de
mim... O senhor é um santo... Eu estou injustamente a clamar contra
o irremediável... O que é humano o senhor e todos os médicos
fazem... A culpa não é sua! A culpa não é de ninguém... Estarei
delirando?! Que horas serão? Por que lhe estou eu escrevendo?
Aqui em casa todos dormem... Só eu não posso dormir... Uma
excitação horrível... me perdoe!... Creio até que lhe estou a escrever
sofismas, paradoxos, contradições...
O senhor que é célebre, que é estudioso, vai concordar
comigo... Vou contar todo o romance, toda a tragédia... Vou lhe
chegar ao peito o ferro em brasa, lentamente... E o senhor vai, ao
menos por um instante, descrer da sua carreira, dos seus livros, de
tudo, doutor, de tudo...
Lembra-se bem da Lúcia, pois não?! Ela era tão linda que
muita vez, estudando, eu lhe via o rosto no lugar das folhas do
livro... Ela era tão alva que o seu corpo parecia duas asas fechadas
sobre a sua alma!... Ela ria tão francamente, que muita vez, longe
dela, no meu quarto de estudo, ouvindo-a rir na sala com minha
família, eu fechava os livros, os cadernos e começava a chorar sem
saber por quê!!...
Não sei se estou ainda ardendo de febre... Não sei se estou
ainda delirando...
Lembra-se bem da Lúcia, a prima Lúcia?! Ela era de uma
elegância de Ex-Líbris, tinha a serena compostura das aves reais...
E o seu olhar tinha um brilho tão úmido, que até parecia um
profundo lago de fogo líquido... As suas mãos fidalgas nasceram
para um constante ofertório de harmonias em louvor de Chopin e
Bach!... A sua cabeleira, em trança dupla, caindo airosamente ao
longo do torso, tinha reflexos de serpente e o seu nariz aquilino,
trêmulo nas aletas, lembrava recortes de estudos acadêmicos.
Lembra-se bem da Lúcia, doutor?! Da prima Lúcia?!
Uma vez estávamos ambos a um canto da grande sala. Já
devia ser bastante tarde porque no alto céu sereno os astros
eternos tombavam para a orla escura da floresta.
Diante da janela muito aberta as alamedas em dupla
perspectiva, tinham a imobilidade decorativa dos cenários felizes.
Dentro, na grande biblioteca austera, a mobília envolta na
penumbra e na treva gradativa daquela hora, guardava um tácito
feitio de testemunha insigne. Apenas o tom malva de uma única
lâmpada recortava, sobre o assoalho de basalto, um disco pálido de
luz.
Estávamos ambos a um canto da grande sala suntuosa.
Eu falava serenamente, em voz baixa, com aquele sussurro
das orações inefáveis. E ela, com a cabeça castanha pousada no
balaústre de mármore do balcão, ouvia tudo com um fervor de
comungante. Às vezes, a voz me tremia num timbre feliz de
evocações perturbadoras; e, então, sob o silêncio estagnado da
grande noite, ela soluçava... mas tão baixo, tão recatadamente que
a sua dor parecia se alargar sobre as coisas à maneira de uma
bênção...
E eu dizia:
— Repara bem, meu amor, na calma sugestiva desta noite
santa; de memória, não sei de uma tão oportuna hora para evocar o
passado. Somos ainda tão moços e já arrastamos conosco uma
ronda de coisas mortas.
E a minha voz foi ressuscitando o passado... lentamente,
numa volúpia minuciosa.
Em dado instante o luar abriu nos largos tanques de nenúfar
um espelho muito baço. Certos trechos do jardim surgiram, caiados
de luz, como numa fantasmagoria. As escadas brancas e fidalgas
mancharam-se de sombras de madressilva. E uma lufada morna fez
palpitar, lá longe, o rosal que, como um ninho cândido, dormia sob a
égide de um fauno de pedra.
Então eu me ergui para sorver o perfume da madrugada; e
nisto, nos olhamos. Com muito carinho nos debruçamos sobre a
pedra do espaldar, calados, olhando ao longe.
— Qual é a melhor lembrança que guardas do nosso
passado? — perguntou ela.
— A melhor?
— Sim! A mais viva... a inalterável... a melhor...
Respondi a esmo: — A melhor?
E como ela se inclinasse sob os meus olhos com uma avidez
fervente, comecei a recordar... A voz era tão lenta, tão trêmula, tão
religiosa, que ela se via obrigada, num meio êxtase, a chegar o
rosto junto ao meu, como os sedentos que afloram a fonte com os
lábios.
— Naquele tempo, eu tinha dez anos e tu apenas oito, e, não
sei por quê, nessa idade eu já tinha a certeza de que o meu destino
era paralelo ao teu. Lembra-me... sim... A melhor impressão... Sim...
Tu eras mais loura do que hoje. Tinhas a voz um pouco nasal,
recitavas fábulas às visitas, e, sem razão, armavas rixas e teimas
contra mim. Tão pequenina, já tinhas o instinto preponderante de
mulher. Chamávamo-nos de primos sem o sermos, e, quando íamos
ou vínhamos da escola, tínhamos a mania vaidosa de nos fazermos
notados. Em casa, de manhã e à noite, estudávamos juntos, à
cabeceira da grande mesa. E, como meu pai, nesse tempo, viajasse
muito, minha santa mãe amenizava as saudades vigiando o nosso
estudo.
Não sei por quê... mas, uma noite errei todo o exercício; a
tua presença ao meu lado, insensivelmente perturbava a minha
atenção.
Às vezes, eu parava de escrever para te olhar, às
escondidas. Mamãe cochilava, na cadeira de balanço, com um
jornal ou um bordado esquecido no colo. E eu, inclinado sobre o
caderno, fingindo escrever, eu... então começava a olhar a prima. E
como te visse, tão loura, tão pequenina, tão pedante, “fazendo a
tarefa”, um nervoso estranho me atacava, e então, ah!... então eu
roía as unhas...
Nas horas de recreio era a mesma coisa. Certos dias eu te
queria mais que em outros. Era quando punhas um vestido
encarnado, de babados... Davas-me a impressão de uma
personagem da história de França.
Comecei, em segredo, a querer muito bem à Lúcia... Uma
vez, na hora do estudo, o meu olhar encontrou o teu. Fizeste-me
uma careta e continuaste a conjugar o teu verbo ativo. Durante toda
a hora do estudo, não pude firmar na cabeça as ilhas do Japão.
Sentia um prazer infinito em te olhar, bastante, horas inteiras. Tu,
não sei se percebeste alguma coisa. Eras uma criança, assim, deste
tamanho, como as tuas bonecas. Depois do estudo, tomávamos chá
e íamos deitar. Às vezes, do meu quarto eu ouvia as tuas
gargalhadas, longe, no primeiro andar... E então, que tristeza...
Inclinava a cabeça no travesseiro e começava a roer as unhas...
Finalmente um dia... tu tinhas decerto oito anos... falamos
em casamento. De então em diante, tinhas amabilidades catitas
para comigo; íamos e vínhamos da escola, de braço dado apesar
das vaias dos garotos.
Mas o nosso amor parava nisso... Enfim, certa vez... Lembra-
me muito bem, enquanto minha mãe, na cadeira de balanço
conversava com uma visita, sorrateiramente, tapando com o livro a
tua mão m’a estendeste com um risinho feliz. Mas logo a retiraste,
amedrontada. Zanguei-me porque m’a negavas... Fiz uma cara séria
e tu para contrapeso, armaste um beicinho de pouco-caso. Durou
isso alguns minutos só, porque de novo m’a estendeste.
E eu, sentindo aquela polpa macia entre os meus dedos,
todo me esmerei em acariciar os teus dedos pequeninos como
pétalas.
Tinhas de vez em quando, como agradecimento, um sorriso
ao mesmo tempo brejeiro e nervoso, que te dava ao rosto duas
covinhas graciosas.
Nisto minha mãe, virando-se para mim, repentinamente,
pediu que lhe trouxesse água, eu próprio, visto as criadas estarem
ausentes.
Que susto! Retiraste tão desastradamente a mão, que
derramaste a tinta toda sobre a coberta da mesa.
Ah! Que repreensão!... Então, importante, augusto, com uma
arrogância de gesto, declarei que eu, eu sim, fora quem virara o
tinteiro.
Tive como castigo duas refeições sem sobremesa. E nem
calculas, no dia seguinte, à hora do almoço e do jantar, como eu me
sentia feliz, orgulhoso, embora meio vexado, em encarar, com
sacrifício, a compoteira azul, a que eu não tinha direito por vinte e
quatro horas... E tu, airosamente, com um certo desdém feminino,
nesse dia não tiveste a abnegação de recusar prato algum...
Anoiteceu. Houve o habitual serão. Reparei, porém, que
havia uma singular ternura nos teus olhos, quando me olhavas.
Trazias o teu vestido encarnado, à Maria Stuart e o teu rosto de oito
anos tinha a mesma seriedade do teu rosto de hoje... Notei que
tinhas pó de arroz, um tanto exageradamente, no vão dos olhos e
ao redor dos lábios. E, em teu cabelo louro, havia uma fita azul,
donairosa e importante. E em certo momento, baixinho me
chamaste, passando-me um bilhete com cuidadoso deslizar de mão.
Fiquei encarnado. Se vissem... Guardei-o no dicionário. Abri-
o depois, sob a mesa, disfarçando muito. Tinhas escrito, pela
prosódia do teu lógico soletrar, a seguinte pergunta: “Quando usarás
calças compridas? já é tempo?!”
Fiz-te sinal que não sabia, num ar desolado. Efetivamente, o
meu terno à marinheira me dava um feitio infantil. E a custo reprimi
o vício de roer as unhas, pensando no caso.
Depois do chá, beijamos mamãe, que nos deu as santas
boas-noites e seguimos pelo corredor afora. Mas como não
houvesse luz na segunda metade do corredor, senti uma opressão
esquisita na garganta. Como fosses adiante de mim, chamei-te
baixinho.
Paraste.
Então, segurando-te nas mãos a cabeça loura e assustadiça,
dei-te um grande beijo, tão bom, tão puro e tão rápido que toda a
noite não consegui dormir...
Lembro-me ainda do teu susto...
No dia seguinte, mamãe te surpreendeu diante da
penteadeira, às voltas com pó de arroz, carmim e perfumes...
E é mister dizer que durante dois longos dias não tivemos
coragem de trocar ao mesmo tempo um curto olhar... Embora muito
e muito nos examinássemos às escondidas um do outro.
Pois bem! Atenção! O senhor já não está acostumado a
chorar, a entristecer, a sentir um êmbolo na garganta! Os médicos
têm todos uma camada de breu ao redor da alma... Mas agora,
atenção! Quero chegar-lhe aos olhos uma visão sangrenta,
flamejante e horrível!... Na penedia da sua alma de médico hão de
nascer lágrimas, agora, como cáctus!...
A Lúcia era sua cliente... Na ocasião da gripe, o senhor
andava de casa em casa, distribuindo a sua ciência... Muita vez ao
acompanhá-lo até a porta o senhor e eu vimos os enterros que
passavam... E eu ficava pálido e o senhor abanava a cabeça,
seriamente...
Os jornais traziam as estatísticas diárias. No dia tal, 800
mortes, no dia tal 500 mortes... Ilustres e anônimos morriam... Havia
até um tom trágico pelas ruas da cidade... Todos sabem o que
houve... E eu tenho horror desse tempo... Eu não posso recordar
esse tempo. Agora, professor, ouça...
A prima Lúcia esteve mal... O senhor visitou-a sempre... Ela
conseguiu melhorar... O senhor por isso lhe deu alta... Ficamos
assim os dois ela e eu, as únicas pessoas da casa, porque as mais
estavam todas de cama, varadas de febre, com dores pelo corpo...
Uma noite, eu lia um romance qualquer de um autor russo...
Aqui nesta biblioteca, nesta cadeira... Nessa noite o silêncio era
profundo, talvez porque àquela hora estivesse morrendo muita
gente... Todos os doentes de casa, felizmente iam bem, melhorando
gradativamente...
Mas, não sei se estou delirando... Eu dizia que... Ah! sim,
perdão, eu lia, um romance qualquer... Nem era possível dormir
numa época de tamanha excitação...
Num dado tempo ouvi passos no corredor... Conheci o andar
de Lúcia. Voltei a cabeça... Ela entrava, na biblioteca... Esperei-a,
estranhando a sua presença àquela hora.
Lembra-se bem da prima Lúcia, doutor? Ela costumava falar
fitando a gente nos olhos, longamente... Às vezes, escutando o que
a gente lhe falava ela torcia os botões da própria blusa ou
encaracolava os cabelos, com muita graça, cheia de naturalidade...
Pois nessa noite de outubro, a prima Lúcia, vestindo apenas
um largo peignoir, atravessou o salão, chegou-se até a minha
poltrona e com a maior naturalidade, fitando-me longamente nos
olhos, indagou o que lia eu, àquelas horas...
Depois, passando as mãos, aquelas mãos esguias e fidalgas
pela testa, disse:
— Pois eu não estou bem. Sinto-me outra vez doente...
— Vai deitar, prima, vai deitar...
Ela, muito pálida, com fundas olheiras, disse então:
— Boa noite!... — Depois, olhando-me de um jeito,
perguntou vivamente:
— Tens quinino no teu quarto? Estou com febre...
Como eu respondesse afirmativamente, ela saiu... Eu a
acompanhei com o olhar até à cortina do corredor...
Depois... depois, não sei como, adormeci...
A febre não será uma espécie de exagero de vida que a
gente sente em si?! Ouça, ouça, caro Professor... Um grito
lancinante me acordou... Ergui-me de um salto, atravessei a
biblioteca e vi meu pai a correr pelo corredor, gritando: Lúcia! Lúcia!!
Lúcia!!!...
Ao entrar no quarto de Lúcia vi que... Perdão, doutor...
Preciso de ar, de muito ar! Como o peito é pequeno para o ar, meu
Deus! Nunca mais eu serei aquele antigo estudante risonho,
independente e feliz de outrora! Há coisas na vida tão decisivas que
desviam as normas traçadas... Por que devo eu arrastar pelo resto
da vida esta dolorosa visão?! Por que tenho memória?! Fora melhor
que um delírio, um insulto da natureza, qualquer coisa enfim me
isolasse do mundo, como esses espelhos aberrantes que não
refletem...
Ah! Mas não! Bendita seja a dor, a dor que penetra bem
profundamente... Porque agora, mais do que nunca, eu tenho o
resto da minha vida santificado pela desgraça... Ah! doutor!
Realmente o fogo purifica tudo! Mas por que falo eu em fogo?
Perdão! Eu desviei sem querer o fim da tragédia... Ao entrar no
quarto de Lúcia vi que um clarão a envolvia toda e minha mãe com
um largo edredom buscava aflitivamente envolvê-la...
Ah! Os meus pobres olhos bem quiseram sair das minhas
órbitas! Minha mãe e eu rolamos sobre o corpo de Lúcia procurando
com mantas e cobertores apagar as chamas que a envolviam... E
que chamas tão altas, tão violáceas, tão coleantes... Meu pai,
combalido da doença, assistia, com uns olhos de horror tão
grandes, que inda hoje os vejo...
Preciso de ar. Tenho febre... Perdão, doutor... Ouça ainda
este resto... Ouça... Quando conseguimos extinguir o fogo e depor
Lúcia na cama, ela com o busto em carne viva e dois carvões no
lugar dos olhos, gemia tanto como um rebanho inteiro de
agonizantes!... A pele toda franzida e cheia de vesículas se tinha
dilacerado deixando à mostra um todo vermelho, úmido, gotejante
quase... Os seus seios puríssimos de virgem pareciam duas
crateras mirradas... E os seus olhos, meu Deus!... eram dois
carvões, sob as pálpebras comidas...
Ela gemeu toda a noite embora o senhor tivesse chegado,
doutor, e lhe tivesse dado aquelas injeções...
De madrugada, ao sair, o senhor explicou:
— Foi a febre; é relativamente comum acontecer isso... Foi
um acesso... Inda no outro dia a senhora de um colega meu, num
acesso de febre...
Depois, a prima Lúcia começou a agonizar... E das suas
queimaduras se desprendia um cheiro equívoco... Depois, a prima
Lúcia começou a gangrenar de quando em quando, pedindo que a
matassem pelo amor de Deus...
No dia seguinte, morreram nesta cidade mais de trezentas
pessoas... Todos sabem como isso foi... A prima Lúcia obteve
(porque nós éramos importantes!), um lugar aberto pelos
correcionais na encosta de um cemitério... Naquele mês de outubro
não havia acompanhamentos nos enterros... E, mesmo que
houvesse, eu estava petrificado na minha dor e força alguma me
conseguiria arrancar do meu quarto...
Agora, confesse, doutor, a profissão que o senhor exerce, há
trinta anos, não é um calvário que o senhor sobe,
inconscientemente, há trinta anos, arrastando nas suas pegadas
uma multidão de mártires?!
Outubro — 1919.
O Monte Tabor

— As últimas aves, pressentindo a tormenta, fogem das


ruínas!... — disse o escultor, vendo sair juntos, pela porta da
biblioteca, o médico e o padre.
Depois, apoiado em suas muletas luzidias, ficou ao centro do
quarto, velando o poeta moribundo.
Anoitecia. O enfermo estava pior, e como nunca, o rosto
azulado lembrava, agora, nas saliências, uma porcelana pálida, com
um brilho úmido; a musculatura do pescoço, como nesses
crucificados de cabeça pendida, ressaltava em tiras descarnadas e
salientes que, descendo de sob as orelhas transparentes, se vinham
encontrar no peito, cavando entre si depressões escuras onde os
cordões venosos se encarquilhavam, desenhados sob a pele
flácida. O nariz adunco tinha um tal palor e um retículo azul tão
minucioso nas aletas trêmulas, que causava uma impressão
dolorosa de mau presságio. As mãos longas, descarnadas nos
dedos e edemaciadas no dorso, cheias de um lustro gorduroso,
mostravam como uma arborização carbonificada, a trama já calcária
das veias cilíndricas.
— Feito à imagem e semelhança de Deus!... — observou,
com suave ironia o poeta, descobrindo-se e mostrando um trecho do
corpo que o anasarca tinha deformado.
O escultor então, disfarçando, com entoação quente e
vibrátil, começou a distrair o enfermo.
— Não sei... Mas tu és, agora, mais do que nunca, o retrato
vivo e perfeito de um Pafnucio que vi em Milão, numa noite de
Thaïs. Esse nariz adunco, essa barba siríaca, esse ar místico de
cenobita, esse cansaço de quem atravessou o deserto, esse olhar
fixo de quem viu a vida...
O doente pareceu alegrar-se. E então, com certo alvoroço,
disse, como se falasse consigo próprio:
— Afinal a glória não foi muito ingrata para comigo... Eu
quase cheguei a realizar a norma do meu sonho luminoso...
E, mais cansado, com lentidão:
— Os poetas, até, em regra geral, neste século, não morrem
como eu vou morrer, isto é...
E erguendo a mão traçou um gesto elegantíssimo de
ascensão...
O escultor concordou.
— Tu estás consagrado... Os velhos da tua geração, os
poucos que ficaram dessa plêiade boêmia e rija, estão quase
sempre ao redor de ti... Os novos, os poucos dessa geração futura e
promissora, anseiam pelo teu restabelecimento.
— Tu és a parte mais genuinamente espiritual desse povo
ainda não materializado de todo. Como ninguém, até a época atual,
conseguiste renome primário desde as camadas de escol até o povo
estratificado que discerne pouco, que não logra compreender as
riquezas profundas, mas que só vê o deslumbramento superficial, o
esplendor que cresce acima do nível costumeiro das coisas...
O cantor da Morte de Ícaro balançou a cabeça e disse,
sorrindo com esforço:
— Eu lá me vou, como uma tocha que se derretesse... Ah! A
vida é o único bem da terra, principalmente quando nos quer
deixar... Será a morte iconoclasta? Durará a glória?! Terá sido vã e
mortal a Arte?!
Então, chegando-se ao leito do enfermo, o escultor falou com
solene tristeza, arrastando as palavras:
— Se tu morreres, pensa bem comigo, meu caro... Se tu
morreres jamais se verá apoteose tamanha... Esta casa, como um
templo, se encherá de velhos e moços, homens e mulheres, artistas
e povo... E o teu enterramento ostentará a magnificência discreta
daquelas festas sagradas que já se não realizam no mundo senão
uma vez ou outra, desde vinte séculos... Junto ao teu corpo,
velando-o, e mais ardentes que os tocheiros, almas preclaras,
inteligências pujantes e vocações admiráveis se apresentarão numa
romaria compacta... Homens que em ti beberam a maior lição de
beleza e êxtase virão ver o teu cadáver... E, olhando o teu
semblante de esfinge, sairão, depois, olhando de leve para o mundo
para que a impressão não lhes fuja do cérebro. E dirão: “Vi a mão
que escreveu o Sursum Corda! Beijei a fronte úmida do poeta latino
que pensou o sonho de Dido!” E, taciturnos, como as crianças
levadas, a crismar diante de um príncipe purpurado da Igreja, sairão
num recolhimento confuso, meio órfãos e meio mortos,
compreendendo bem que não é só de pão e água que vive o
homem. Mulheres que nunca viste, mas que durante dez e vinte
anos, cheias de rubor, conversaram com os teus versos, trarão
flores, num gesto esplêndido, suave e dannunziano. E virão também
magistrados, representantes dos poderes... E, com a solenidade
augusta que o tempo às vezes tem, olharão o patrício que cantou a
pátria despertando um povo, avivando forças latentes; o homem que
num gesto luminoso e fecundo levantou uma mocidade apática,
levando-a à compreensão dos seus destinos cívicos
incomparáveis... Terás assim, ao mesmo tempo a consagração
oficial e a consagração anônima, como um Deus que, na sua
imobilidade de ídolo, recebe impassível o holocausto dos sacerdotes
e a ovação litúrgica do povo... E dirão de ti, todos, que és imortal,
porque tinhas no cérebro o milagre das fontes sonoras e
inexauríveis, quando tu, morto, entre duas alas de povo, seguido de
discípulos, embalado pela alma taciturna de Berlioz e pela alma êxul
de Liszt, deres a toda a multidão uma profunda impressão de
vácuo... E depois, quando o tempo passar e muito acima da planície
e da aresta das cordilheiras, o teu nome resumir quase um
quadrante no zodíaco do céu pátrio, entrarás o ádito das lendas
incorpóreas e serás como essas sombras cristãs, armadas de
gládios ígneos, e que tendo sido no mundo, precursores, apóstolos
e paladinos, vagueiam, após a morte entre as fronteiras do mundo,
tangendo os zoilos, os corruptos e os gnomos da arte para a treva
rasteira dos fossos...
Houve um longo silêncio de vergar espáduas... Tinham ido
longe demais os dois...
Nisto entrou, irrequieto como sempre, o exuberante autor de
Sodoma Convertida.
— Falávamos do meu enterro!... — explicou o poeta. E havia
uma tremura cavernosa na sua voz. E repentinamente ajuntou: —
Tu és o indicado para falar nessa ocasião.
— Eu?!
— Naturalmente... Quero saber o que dirás de mim quando o
meu corpo for por aí uma custódia sem hóstia...
O romancista sorriu, desconcertado. Mas era tão sincero e
veemente o tom das palavras do enfermo que, como hipnotizado,
obedeceu.
— Dá-me uns minutos para pensar... Pensar e escrever...
Ao fundo do corredor um pequeno carrilhão Westminster
encheu de tristeza as divisões da casa. O escritor atravessou o
quarto recolheu-se à biblioteca do amigo. Sentou-se e começou a
pensar. Na parede um monge em oração de Zurbarán, tinha sob a
cogula, uns olhos de êxtase beatífico e na escrivaninha, num
pedestal, a ironia de Rabelais ria pela boca semiaberta de um Eça
acurvado. Hirsutos, como uma trindade de mendigos sublimes, de
cãs lanudas, Ibsen, Tolstói e Rodin tinham através dos blocos de
mármore escuro uma sagração litúrgica de três magos oficiando.
Algum tempo depois a porta de cristal da biblioteca
riquíssima se abriu e o romancista, pálido, com tiras de papel entre
os dedos, entrava cabisbaixo e comovido.
— Lê!... meu amigo...
No quarto meio escuro, as pessoas e a mobília tinham
recortes de penumbra. O poeta fechou os olhos, o escultor firmou-se
melhor nas muletas luzidias e o romancista, como quem se
adiantasse para um pavês, deu três passos à frente e começou a
ler...
— “Não falo aos teus ouvidos e nem sequer por milagre
quero que me ouças, pois tu, morto há vinte e quatro horas, como
as múmias mortas há vinte e quatro séculos, já nem cérebro tens
que se compare ao gesso, apto para a impressão... Mas falo como
fala o mar, entrando pelas lucarnas e impostas de um farol que se
apagou... Falo em vão e todavia a minha voz se encapela, toma
rugidos e reboa pelo teu corpo como a água espadanando e
fervendo pelas reentrâncias de uma caverna... Como aquele
oráculo, prisioneiro num ilhéu do mar Egeu, pergunto à Divindade
por que os destinos humanos não coincidem com os desígnios
divinos... Perco a noção do tempo, recuo séculos e séculos, e os
meus sentidos e o meu cérebro associam ideias atropeladamente;
embora siga este féretro lentamente através das ruas de uma
cidade; embora haja os edifícios de um século prosaico
estrangulando o ar e as almas; embora as ruas se continuem áridas,
como cortadas a sílex num planalto vulcânico; embora haja rumores
sacrílegos de indústria, podridões envolventes de mercantilismos,
hipocrisias e aparatos, parece-me que estamos todos muito aquém
da época atual. Somos coevos da multidão que viveu na terra
bíblica, no tempo do tetrarca. Não há um ataúde... Tão somente se
vê um homem que segue descalço, a túnica ao vento, a barba
pontiaguda e o gesto breve. Esse homem segue para o monte
Tabor, onde as coisas agrestes parecem purificadas num suave
recorte, destacando-se do céu que abençoa as doze tribos. Não há
um túmulo à espera de cal, mas um cume onde tremulam sarças cor
de incêndios...
— Tu, poeta excelso, não morreste, mas, transfigurado,
cheio duma inefável beleza, tu te elevas, entre a terra e o céu,
conversando com dois profetas preclaros, o Amor e a Morte.
Voltarás a viver entre nós, sereno e augusto, embora incorpóreo,
lentamente nos impregnando a todos da altíssima emoção da arte
eterna... A morte nunca porá na tua boca a mão ressequida e
convulsa do silêncio pois...”
Inesperadamente, o escultor se debruçou sobre o leito e
sacudiu o poeta... O romancista ficou preso ao chão, com as mãos
paradas no último gesto...
Nisto, lentamente, sob a noite augusta que caía sobre o
mundo, a alma do poeta na forma branca dum remígio apertado
numa coroa de louros, subiu farfalhando, em parábola, para a
grande transfiguração.
Rio — 1919.
Os pombos do claustro

No claustro forrado de azulejos moravam dois pombos tão


íntimos de frei Luiz, que até na capela entravam sem que ninguém
da comunidade os proibisse de arrulhar entre os castiçais do altar-
mor.
Dormiam num postigo perto do longo corredor do refeitório e
costumavam passar o dia sobre a nora do poço, num idílio bucólico.
Um dia, porém, frei Luiz, rezando a missa conventual, ao
virar-se para os fiéis e dizer “Orate fratres” caiu pesadamente sobre
os três degraus do altar.
Em seu lugar, dias depois, chegou um superior antipático,
gordo e vermelhão. Na cela do pobre frei Luiz, outrora tão branca e
asseada, os irmãos leigos pregaram prateleiras e armários. Frei
Leonardo era alquimista, e por isso instalou no seu quarto de servir
a Deus alambiques, retortas, frascos e até um motor cujo zunido
horas a fio intrigava as beatas da capela. Com seus óculos pretos, o
novo abade, alheio ao expediente da casa, passava os dias e as
noites, debruçado sobre uma mesa, combinando líquidos,
aquecendo provetas, examinando lâminas e acumulando numa
estufa coleções estranhas de tubos em cujo interior coalhavam
pouco a pouco substâncias diabólicas... Por isso frei Leonardo até
estava em evidente atraso nos seus ofícios.
Com mais interesse do que os próprios frades, os pombos do
claustro seguiam a arte mefistofélica do abade de óculos pretos...
Mas, eis que inesperadamente, uma manhã, frei Leonardo,
com intenção velada e pecaminosa, chegou-se até o poço, e com
pedacinhos de pão doce os atraiu, sussurrando cariciosos apelidos.
A princípio, os pombos, receosos, fugiam, recuando...
recuando... Mas como serpentes aqueles óculos negros
magnetizavam e quando os pombos deram acordo de si estavam
trancafiados numa caixa com portas de arame. Estiveram assim
surpresos toda a manhã. Ao entardecer, frei Leonardo, friamente
abriu a estufa, tirou de um tubo um grumo sangrento e gelatinoso e,
com um estranho instrumento, aspirou dum cadinho uma espécie de
caldo; em seguida, assobiando mundanamente, abriu a caixa, tirou
a pombinha e com a maior naturalidade, depenando-lhe uma coxa,
injetou profundamente, demoradamente aquele veneno todo.
Repetiu a operação com o Calçudo, com certa dificuldade porém,
porque ele se debateu com valentia, obrigando o beneditino a
imprensá-lo entre a borda da mesa e o ventre obeso.
Minutos depois, sós, no caixote, desconfiados e taciturnos,
os dois pacientes cochichavam quase não sentiram nada, no
começo; mas logo depois, gradualmente, começaram a estranhar as
coisas como se uma vertigem os tomasse suavemente. Sentiram-se
mal, meio cegos e uma ânsia esquisita lhes corria pelo corpo.
Decerto iam morrer... E ficaram tristes e arrepiados. Como único
consolo puseram-se a pensar em frei Luiz... Anoitecia. Àquela hora,
antigamente, o bom do abade costumava trazer-lhes castanhas
assadas... E eles as comiam sobre a venerável manga de
estamenha do santo amigo!... E que intimidade!...
Como tudo mudara depois da morte do velhote... Até
mulheres apareciam agora no corredor da comunidade; outrora
sempre fora isso tido como abuso; com o novo abade isso era
comum para gáudio e consolo dos noviços... Que falta não fazia frei
Luiz com aquela sua voz austera, hrr! hrr!...
Durante a noite a coisa piorou... Os pombos esqueceram
tudo para só se aterrorizarem com a doença que crescia, crescia...
O Calçudo ia sem pioras, mas a pombinha, essa, coitada, ia
bem mal. Tremia de frio e entre o bico e os olhinhos redondos tinha
aparecido uma inchação encarnada donde escorria uma água
pegajosa...
— Que diabo seria?!
E o frio aumentava... Sentia por dentro, pelo corpinho de
meio palmo, um esquisito mal-estar, como uma tonteira, ou o quer
que fosse, horrível, angustioso, incalculável... Tinha sede, muita
sede... Ah! Aquela hora o poço do convento, refletindo as estrelas
do céu e os galhos das nogueiras brilhava ao luar, como um espelho
bendito da terra de Israel, tentando ovelhas e caravanas... E ela, ela
porém, tinha sede, queimava por dentro, como uma brasa coberta
de cinza branca...
O Calçudo, encolhido a um canto, olhava-a sem
compreender nada. Ela então, na sua dulcíssima linguagem,
explicou o que sentia. Ele, pressuroso, com seu andar de valsa,
chegou-se então, beijou-a muito, deu-lhe coragem e ânimo.
— Seria feitiço do frade?
— Talvez, talvez...
Mas o tremor continuava... E a sede sempre a aumentar,
sempre, sempre... Então o Calçudo começou, irado e heroico, a
investir contra o arame do caixote.
Amanheceu... Quando o sino badalou, lá no velho côncavo
do campanário, a pomba olhou angustiosamente o Calçudo; torceu
horrendamente o níveo pescoço e caiu ao fundo da caixa com os
pés para o ar, os pobres olhinhos chagados, escorrendo uma
aguadilha fétida... O Calçudo correu até o pequeno cadáver e o
ficou velando com o seu trágico passo de valsa fúnebre.
Amanheceu de todo... Na capela, mulheres e crianças
comungavam àquela hora... E o Calçudo continuava a velar a
pequenina hóstia do seu amor... como um círio ardendo... Como ela
não estava horrível assim, com as pernas para o ar como duas
garras amaldiçoando!...
As penas tinham perdido o brilho e a cabeça úmida de pus
começava a enegrecer...
Um galo cantou... Outros o imitaram e os sinos no convento
e longe, na torre da Sé, começaram a badalar...
Então o Calçudo não pôde mais resistir e começou a chorar.
Ah! A sua mulherzinha! Três anos viviam eles no forro do
claustro; nunca tinham conhecido a tonteira dos pombais que eram
como casas operárias, habitações comuns de pombos pobres...
Eles, não, viviam sós, como gente rica... Ah! a sua mulherzinha!...
Que corpo tão lindo! Que plumagem! Que cabecita ágil! Que bico
elegante e que topete orgulhoso!... Tinha a mania de andar
saracoteando como os patos do repuxo... E como era engraçada
quando se metia a imitar o andar de frei Leonardo!... Tão boa
companheira! Uma vez voara um pouco longe, para além dos muros
do convento. Só voltara horas depois... Talvez algum amor, alguma
tentação, algum segredo... Fora esse o único pecado. Tinham vivido
por isso três longos dias alheios um ao outro, como os casais
humanos quando voltam de bailes e teatros... Mas ao fim do terceiro
dia a Calçudinha, muito desapontada, deu um voo rasteiro até o
poço; lavou-se cuidadosamente; fez-se bonita; alisou-se toda; e
sonsa, irresistível e graciosa, depois de secar a plumagem ao sol,
pediu perdão ao Calçudo, roçando-lhe com malícia, pela asa,
diversas vezes o peito alvíssimo de arminho. E o Calçudo perdoara,
perdoara... Só entre os homens é que existem códigos...
Pensava isso tudo quando frei Leonardo, antipático como
nunca, com seus óculos negros cercados de arame, assobiando
mundanamente, abriu a caixa e, com mão rápida, tirou o cadáver.
O Calçudo atirou-se àquela garra maldita, bicando-a com
desespero. Mas, calmamente, frei Leonardo fechou a portinhola, e
depois, com um canivete afiado, diante da janela, começou a abrir o
corpo da pombinha, esfarelando entre os dedos com atenção as
vísceras turgescentes...
O Calçudo fechou os olhos e pediu à alma boníssima de frei
Luiz que o levasse também com a sua amiguinha, dizendo:
— Haverá no céu mártir maior do que ela, coitadinha,
haverá?!!...
Mas, em vez de frei Luiz, apareceu frei Leonardo, agarrou o
pombo e com força, zás... repetiu a injeção com dose dobrada...
— Que dor, seu víbora! — parecia gritar o Calçudo,
debatendo-se entre os dedos gigantescos do abade.
Solto, depois, pelo mosaico do claustro, o pombo, inteiriçado
já não tinha dúvidas sobre o seu fim. Decerto ia morrer, alar-se ao
grande pombal azul do céu com a sua companheira e o bom frei
Luiz. Começou a ficar tonto, como se estivesse a rolar no espaço
duma grande altura. Voou com dificuldade e foi pousar na platibanda
da capela. Uma espécie de embriaguez o fazia tiritar num vago
torpor. Abriu a custo as asas encardidas e entrou pelo vitral no
interior augusto da capela. Pousou na toalha do altar-mor, diante do
sacrário; olhou beatificamente os santos e o candelabro; em
seguida, pôs-se a rezar a sua tímida oração de criatura. Vivendo na
companhia dos frades, aprendera a achar um suave conforto na
oração mental. Nisto, no coro, um órgão começou a chorar uma
espécie de “réquiem”. Talvez fosse a alma de frei Luiz que estivesse
movendo aquele teclado e aqueles registros... O Calçudo perdeu
aos poucos o entendimento das coisas. Pareceu-lhe no seu delírio
que o Espírito Santo gravado no altar era a sua adorada
companheira de asas abertas, cercada dum fulgor, brincando com o
Menino Deus à porta do sacrário... Sorriu... Tombou sobre a asa
esquerda: a agonia durou um curto sorriso e o Calçudo, sobre a
toalha alvíssima do altar, ficou tristemente a olhar o sacrário, morto,
frio, com os pés para o ar, implorando... No coro, ao fundo daquele
cenário sagrado, o órgão continuava a gotejar grandes lágrimas de
saudade...
Rio — 1919.
Uma operação gratuita

— Não é por ser meu filho, não, não é!... Mas juro que nunca
vi criança mais linda neste mundo! Até já m’o compararam ao
Menino Deus.
E beijava o filho, dizendo-lhe tolices, satisfeita, um orgulho
sereno a irradiar da fisionomia franca e agradável de mulher do
povo.
Dói-me muito ter de deixá-lo aqui; mas, afinal, é pro bem
dele, ora não?! Inda se a gente fôssemos ricos...
E, com um olhar esquisito, muito bem educado, onde as
lágrimas punham enevoamentos suavíssimos, entregou a criança à
enfermeira. Chegando, depois até a porta curvou o busto para o
lado de dentro, olhando com interesse o salão. Abrindo então um
riso claro, exclamou, batendo palmas:
— Ai! Que ricas caminhas! E com cortinados... Essas grades
à volta não magoam os corpinhos desses anjos, ora não?! É que eu,
eu nunca me separei desta alminha!... Há ano e meio que aqui no
meu colo o carrego dia e noite. Às vezes esqueço tudo, o olhar pra
ele, a modos encantada, meio zonza. O médico é aquele senhor
que está chegando? Fale-lhe do meu filho. Diga-lhe que não é uma
criança como as outras, não...
O interno do serviço, com palavras esquisitas e gestos
severos explicou então à pobre mulher o que os senhores médicos
iriam fazer.
— Seu filho será operado quinta-feira, às 9 horas. Coisa
ligeira, coisa sem importância...
À voz de operação a operária arregalou uns olhos muito
brancos, tornou-se de uma lividez acentuada, e a custo pôde dizer:
— Pois inda bem, meu senhor, inda bem. Os senhores hão
de ter a paga dos céus.
E agradecia com humildade, muito confusa na sua
sinceridade espontânea.
Convidaram-na então a sair. Era proibido gente estranha ali,
na clínica.
Saiu. E chegando ao pátio, depois de atravessar o corredor
enorme, viu, em tétrica exposição, crianças descarnadas pelo jejum,
envoltas em coletes de gesso, apresentando, umas, grandes tiras
de gaze pelos braços, outras talas rijas ao longo das pernas. Um
repentino pavor fê-la tremer de angústia muito tácita e muito
resignada. Aparelhos estranhos, cadeiras, e objetos de ginástica
infantil e reparadora fizeram-na parar, estatelada.
— É lá possível a gente corrigir o que Deus fez?...
Voltou a olhar as crianças cujos olhos mortiços procuravam o
sol.
Ah! Nenhuma delas era como o seu filho! Nenhuma sequer
que tivesse os olhos assim rasgados, grandes demais para um rosto
tão pequeno! Nenhuma que tivesse a cabeleira tão espessa e
castanha, dando àquela criaturinha a majestosa beleza de certos
príncipes reais como os que, às vezes, a gente vê em retratos de
dinastias!...
— Que coisa tão esquisita...
Um tremor crescente começava agora, e, aumentando, aos
poucos lhe invadia o pescoço e o queixo, espraiando-se-lhe até a
boca, em contrações tortuosas e instantâneas. Um pranto sereno e
mudo, feito de uma angústia velada e humilde, cavava naquela face,
como em cera cristã, expressões humaníssimas.
— Que coisa tão esquisita... Mas ele ficará bonzinho, ora
não?! — E ela própria respondia, imitando a voz do interno: Coisa
ligeira, minha senhora, coisa ligeira.
Saiu, e, quase ao fim da rua, olhando para cima, lá para trás
onde o casarão amarelo do hospital lembrava uma coroa sobre o
morro esverdeado e barrento, sentiu que, maior que a resignação, e
mais forte que o amor, a saudade, como uma hera daninha a
envolvia, agora, estrangulando-a sem piedade, como um começo de
agonia muito longa.
— Que coisa tão esquisita...
E era quase sublime, essa mulher taciturna, de andar muito
trêmulo e de expressão muito tímida olhando, sob as pálpebras
úmidas, o mar, lá, longe, rente à amurada, como um grande plano
cheio da cor bendita da esperança.
— Ó Deus grande! Deus justo! Deus infinitamente bom!...
Na manhã de quinta-feira, ao sair de casa, foi como se
acordasse duma hibernação. Uma vontade mal definida de chorar,
como um peso líquido, lhe abafava a alma, como se, intimamente se
acumulando, nunca transbordasse aquele fel...
— Que coisa tão esquisita...
E, de novo, subindo a ladeira, toda acurvada e diminuída,
mal tinha ânimo de olhar, no topo do monte aquele casarão sinistro
erguido como uma coroa sobre uma calva...
Estudantes de ar bisonho, órfãs uniformizadas e garotos de
ar brejeiro e atrevido, não viram decerto e nem repararam nessa
mulher cujo rosto macerado tinha o tom sereno de certos sudários
abençoados.
Ao chegar teve logo uma primeira contrariedade. Não viu,
como dias antes, crianças doentes, brincando ao sol, lentamente
alisando feridas com afagos trêmulos de dedos, numa exposição
inocente e alvar de chagas, aparelhos e risos claros...
— A operação demora, meu senhor, demora a operação?
Vão lhe dar aquele cheiro pra dormir, ora não?!
Rapazes de ar circunspecto calçavam luvas de borracha,
inclinados sobre uma pia. Junto deles, cerimonioso e augusto, com
uma barda de cenobita, um médico velho e calvo lavava com
cuidados extremos, quase maníacos, os largos dedos nodosos.
A operária, como quem se surpreendesse diante de um altar,
parou. Os médicos entraram numa espécie de pavilhão
envidraçado.
— É ali, pensou ela. Ai, que é tal e qual uma estufa de
plantas.
Intimidou-se, não teve coragem de entrar; decerto era
proibido. Uma enfermeira baixa e vesga veio ter com ela, disse-lhe
coisas sem interesse, e, como quem concede por alta deferência um
favor muito custoso, disse:
— Bem; a senhora, por um minutinho pode vê-lo que ele inda
está na cama, na sala... — Tiraram-lhe, porém, logo, o filho. Era
hora, não podiam esperar.
Era uma sala pequena, envidraçada, abafadiça e branca.
Estudantes sussurravam agrupados em conciliábulos, emitindo
diagnósticos, observações e anedotas e, tinham, nessa
concentração postiça um feitio pernóstico e irritante de mentores e
testemunhas.
Uma atmosfera profana e leiga amornava o recinto, muito
embora, na parede alvíssima, um Cristo dulçoroso olhasse, com
igual compaixão e cansaço, vítimas e algozes.
A operária, junto à porta, inclinou-se a olhar. Pareceu-lhe um
bom sinal, um muito bom agouro o feitio indiferente e tíbio daqueles
rapazes todos.
— A gente deita-se ali e fica todo desengonçado como um
polichinelo. Também a posição do doente ajuda o médico, pois não
ajuda?
Disseram-lhe que sim. A criança, debatendo-se toda, ria com
risadinhas curtas e entrecortadas diante da enfermeira que lhe fazia
arreganhos.
A um canto da sala, um cilindro de metal polido rangia, todo
suarento e, um vaporzinho tênue em espirais, saía duma torneira,
cantando quase.
Cheio de cautelas e trejeitos um doutorando tirou daquela
fornalha, um mundo de coisas de cirurgia, pinças, tesouras, bisturis,
agulhas, afastadores, ruginas, gaze, pastas de algodão
iodoformado, santo Deus, e rolos sem conta de ataduras; e tudo
isso ficou depositado numa bandeja que mais parecia um pequenino
esquife.
— Ah! não e não!... exclamou ela, abrindo os braços como
se rasgasse a tela duma visão negra. Entrou, porém, exatamente
nesse instante o sábio de longas barbas de cenobita.
Olhou-a com severidade e importância, depois, grave e
rígido de semblante, disse, secamente, quase com desdém:
— A senhora faça o favor de sair.
Saiu, acurvada, diminuída, com um grande pesar em ter
desgostado o senhor doutor; mas um pedaço dela própria, íntegro e
pulsátil, tinha ficado lá dentro, com esses senhores majestosos,
sérios, de muito saber e de alto preparo.
O chefe do serviço, contrafeito, um mau humor desenhado
na face cardinalícia, exprobou, com duas frases vagas, a balbúrdia
dos hospitais nesta terra. E, com uma espécie de saudade mística
nos olhos, como quem vê retrospectivamente a glória de um passeio
por conta do governo aos centros cultos e adiantados da Europa,
ajuntou com superioridade levemente ridícula:
— Os senhores precisavam assistir à ordem e à disciplina
dos serviços de Cozzolino e Kirmisson. — E nisto, como acólitos
dum rito cruento, três rapazolas recém-formados, iniciaram a
operação sob as vistas do chefe.
A mulher sentou-se num banco do passadiço. As paredes do
edifício, vistas do pátio, subiam como muralhas coloniais recortando
no ar azul um quadrado de céu muito remoto.
Num pórtico escuro, atrás de pilastras claustrais, órfãs de ar
angelicamente estúpido, com fitas de devoção a tiracolo, limpavam
os quadros foscos do vitral da Comunidade. E, trepadas sobre os
travesseiros e mesas de exame, crianças riam gostosamente, com
acenos enigmáticos, espiando através de postigos e óculos da
enfermaria geral.
— Bom e com a saudinha é que o quero eu. Depois será pra
aí um homem forte, com forças para sustentar a mãe, ora não
será?!
Na sala de operações, porém, tinha acontecido qualquer
coisa grave. Anormal e tétrico era o olhar de gesso dum Ambroise
Paré erguido a um canto da sala.
Um dos médicos, em dado momento erguendo no ar uma
pinça hemostática, muito assustado, gritara, olhando o anestesiador:
— Mas, seu doutor, essa criança não está respirando!...
— Está, ora essa, está!
— Então o senhor sabe ou não sabe dar clorofórmio!
Fechou-se em torno da mesa um círculo apertado de
curiosos.
— Esse moço pensa que anestesiar é somente pingar,
pingar e pronto. Eu não posso ter quatro olhos, é claro, não posso!...
Estatelado, como um sonâmbulo, junto da criança, o
estudante mal pôde falar. Quis, depois, mais calmo explicar, dar um
parecer, que diabo! porque aquilo era um acidente, uma síncope,
uma coisa inevitável; era até relatado em livros, ninguém poderia
evitar, com qualquer aconteceria o mesmo.
As opiniões dividiram-se. Teve, então, início o seguinte
espetáculo. Começaram a abaixar e erguer, ritmicamente, os braços
da criança; o chefe da clínica, com uma pinça tendo preso a língua
da criança, movimentava-a de acordo com os movimentos dos
outros.
Durou bastante tempo esse desespero; esbaforida, a
enfermeira fazia massagem no peito abaulado da criança.
— A quantidade de anestésico não era capaz de uma
intoxicação...
— Era, como não? — E quase todos comentavam, criticando
abertamente.
Um tempo enorme e precioso aquela gente gastou curvada
sobre a criança exigindo quase um milagre da ciência.
A energia desesperada de todos apenas violentou um
cadáver que começava a enrijar.
— Mas é impossível, mais, mais...
O corpo da criança, começava agora a criar certas nódoas
violáceas, e uma auréola azul à volta dos olhos fundos ampliava aos
poucos a trama escura das olheiras pisadas.
— Mais, mais...
Por fim, calados, como três cúmplices, os auxiliares do
serviço, muito lentamente, recompuseram o cadáver. Para moralizar
o caso e salvaguardar a responsabilidade, o velho cirurgião falou
aos presentes meio alto, com uma amabilidade covarde, explicando
o acidente, lembrando princípios de fisiologia, e inocentava o
“estudioso auxiliar” que em má hora se vira a braços com uma
fatalidade não muito rara na vida hospitalar e civil do médico. Houve
um sussurro, um mal-estar completo sobre todas aquelas cabeças.
Olhares entrecruzaram-se, voltou o silêncio, e um embaraço
profundo pregou-os a todos, naquele chão, sem lhes dar ânimo para
um passo ao menos. Finalmente, aberta a porta de vidro fosco,
saíram todos, como réus espiados por uma multidão silenciosa. A
operária ergueu-se logo.
— Então agora tenho que esperar três semanas?
— Sim, minha senhora, isto é...
— Mas se eu o pudesse levar já, hein? Era um favor tão
grande!... Havia de o colocar na posiçãozinha que o doutor
ordenasse; era um favor tamanho!... Já agora não é proibido, posso
lá ir, ora não?
E encaminhou-se para a porta. Fitou depois o médico e a
sala, e, abrindo os braços em cruz para logo em seguida os fechar
sobre o peito começou a chorar com muita brandura.
— É lá possível a gente corrigir o que Deus fez?...
Nesse instante, porém, saiu do pavilhão o interno soluçando
alto, com um lenço na boca; a enfermeira, ao lado dele, dizia,
repetindo sempre:
— O senhor não teve culpa, doutor, o senhor não teve
culpa...
Ouviu-se então naquele terraço um grito lancinante.
— Oh! Meu Deus! O meu filho... Mas eu, eu mato-me, olá se
não! Mato-me...
— Minha senhora, o que estava nas nossas mãos, o que era
humano, nós fizemos; em vinte e seis anos de trabalho nunca tive
um caso assim. Deploro, deveras, deploro essa fatalidade — disse
lentamente o chefe, deixando cair os braços pesados sobre o
avental.
Ela teve um olhar de desprezo profundo.
— Estudou vinte e seis anos nos livros e não soube salvar o
meu filho... Por que me disseram então que era coisa rápida?...
Tanta gente naquela sala, tanta gente e ninguém m’o soube salvar,
ninguém...
Horas depois, sentou-se no mesmo banco, no passadiço da
enfermaria e dos internos. Veio, porém, um velho enfermeiro que,
com muito jeito e carinho convenceu a mulher.
— É melhor pra senhora...
Descendo a rampa em zigue-zague, os dois, como mendigos
descendo ao povoado, conversavam baixo; o velho, com unção
muito religiosa na voz, dizia:
— A vida é isso mesmo. Eu, assim como aqui me vê, perdi
dois netinhos num desastre; dois netinhos já grandes, dois gêmeos.
A senhora leu, com certeza, nos jornais, todo mundo leu; eram
quatrocentas crianças com os padres do colégio e iam aí pra dentro,
pela baía; de repente... A senhora leu, com certeza, os jornais
trouxeram...
— Não é por ser meu filho, não, não é! Mas juro que era a
criança mais linda deste mundo!...
E, ofegante, contava, com um clarão no rosto:
— O meu Júlio tirou inda não há cinco meses o primeiro
prêmio de robustez naquela beneficência, ali... naquela rua que vem
dar num largo onde há um imperador de ferro mesmo ao centro do
jardim, sabe?
— Tantas crianças e o meu filho foi o primeiro, veja, o
primeiro... As outras mães cercavam-me a mim que o tinha aqui
apertadinho ao seio.
Um médico, todo de preto e com muita cerimônia leu alto o
nomezinho dele, deu-me nas mãos o diploma, a medalha e um
cumprimento muito amável, dizendo ao meu menino:
— Viva, “seu” Júlio, parabéns...
E os retratistas dos jornais vieram ao depois, tiraram a
caretinha da criança muito séria e educada no meio duma mesa
encostada à parede... E ao depois, oh! ao depois, nos jornais do
sábado, lá estava o meu filho, ele mesmo tal e qual com uma
carinha zangada, estranhando aquela festança!...
E, recordando, a fisionomia ainda se lhe avivava à lembrança
daquele orgulhoso triunfo.
Chegaram; o enfermeiro disse-lhe adeus, sorrindo.
Havia um portão largo, e o necrotério como uma capelinha,
estava ao lado. Entrou. A princípio não viu quase nada, estava um
pouco escuro aquele inferno... Numa escrivaninha, em frente da
operária, um sujeito despropositadamente gordo, carimbava
papeletas, com ar de pouco-caso. Inclinadas na parede, caixas
alongadas, de madeira crua, fechadas a prego, davam aquela sala
semiescura o aspecto subterrâneo duma catacumba.
— Custa muito?!
— Como diz a senhora?
— Se custa ainda muito...
— Isso é conforme; a senhora é parenta do morto, do
homem da gangrena?!
A operária então, numa algaravia, explicou o seu caso, com
muita paixão, maldizendo aquilo tudo: — Coisa ligeira, coisa ligeira e
deixaram o meu filho morrer...
— Mas, afinal, a senhora tem a guia para levar para sua
casa a criança?! É preciso ver isso. O melhor é o enterro sair daqui;
de outra forma é difícil nós nos entendermos.
— ’Stá bem, meu rico senhor, ’stá bem. Pois eu vou, eu vou.
E como um espectro, saiu, vacilante e vagarosa.
Raparigas passavam com frascos de remédio, saindo da
“sala do banco”.
E um cego repelente, cuja expressão tinha qualquer coisa de
comum com um buldogue, increpava a filha, que o guiava: — Pois
se eu sei que o botequim é do outro lado da rua “sua burra!”... Se eu
sei...
E com os borrões sinistros dos olhos parecia olhá-la com
rancor selvagem. A pequena, malvestida, com grandes pernas
roliças à mostra, atravessou a rua; e o pai, seguindo-a, abria muito
as órbitas; e uma espécie de sorriso trêmulo punha um clarão
satisfeito naquele focinho oleoso.
A rua, nesse trecho, em frente ao velho casarão da
Misericórdia, fechada por um túnel, de árvores retorcidas e
seculares, lembrava um caminho, dantesco, uma garganta infernal
semelhante às ilustrações de Parma e Doré.
Fileiras de carros esperavam os médicos, e, entretidos em
palestra, grupos de pobres, junto a uma escadaria encardida
esperavam a hora regulamentar da visita.
Pelo passeio, entre a linha da alameda, a mulher seguiu
automaticamente, sem erguer os olhos do abismo da sua dor
desconhecida. Longe, diante dela, do outro lado da rua, além da
amurada, o mar espelhava um sorriso irônico todo cheio de cor falaz
da esperança... Duas lágrimas, veiadas de sangue, rolaram
mansamente, cavando um brilho estranho na cera daquele rosto.
Crianças passavam pela mão de velhas silenciosas e sujas.
— Ah! Nenhuma, porém, que, como ele, tivesse uns olhos
tão grandes, rasgados demais para o rosto tão pequeno!...
Diante dela, surgiu agora uma rua apertada, tortuosa como
um beco napolitano, só transitada por pescadores e soldados.
Entrou pela viela adentro, lentamente. E seguiu, acurvada e
diminuída, descrevendo linhas trêmulas no calçamento úmido...
Ao fim da viela bateu a uma porta; uma rapariga morena,
com um corpete túrgido no busto bronzeado apareceu na meia
escuridão do portal. Olharam-se as duas mulheres; a que entrava
teve um gesto indecifrável, abaixou mais o busto, e sumiu como
uma feiticeira numa gruta.
Fecharam de novo a entrada, e agora, na fachada humilde e
amarela do casebre, a porta, negra e retangular, lembrava um
túmulo em pé, embutido numa galeria subterrânea...
Rio — 1919.
João Lágrima

Como um trecho de sombra que se fragmentasse da massa


espessa da multidão, João Lágrima saiu do grupo, aos empurrões,
assustado e furioso, resmungando e investindo, de cara franzida,
contra os operários que o apupavam. Depois, olhando para trás,
seguiu, a caminho da rua deserta, raspando o solo irregular com os
pés tortos, movendo-os como dois alfanjes.
— Que a gente, pobre como nasce, é que morre.
E ainda sob as vaias e assobios da assuada alegre, entrou
na Cooperativa, chegou-se até o balcão e pediu uma dose.
— Ó “seu aquele”, isso vem ou não vem?...
E, repetindo os goles, fitava com amizade o vendeiro,
esboçando um sorriso alvar e ronronando como um gato
interesseiro.
Lá fora, junto ao muro da Companhia, um homem aloirado
continuava a falar diante do grupo descrente dos operários. E citava
os recentes triunfos do “trabalho” sobre o “capital”; fazia
comparações entre a situação do proletariado no mundo,
apostrofava os patrões, os especuladores, e exaltava o santo suor
dos pobres que era cimento para a grandeza dos ricos. Marcava
para breve a data da liberdade que viria igualar as condições
humanas, pondo-as rasas como aquela praça; e, sacudindo nas
mãos um jornaleco subversivo, aconselhava as resistências, os
processos russos, e sobretudo, teóricas adesões a III Internacional.
E, discursando, o homem abrigava as orações no parêntesis
dos braços muito abertos, virando-se para todos os lados, medindo
astutamente o efeito do falatório, e olhando de revés, ressabiado, o
portão largo da Manufatura.
João Lágrima, em pé, na soleira da Cooperativa, olhava os
companheiros estatelados como uns paspalhões diante do
anarquista.
— Miolo podre é que este idiota tem!... E então o destino da
gente?... Se as coisas corressem assim como manteiga em focinho
de cão, já não havia pobres, homem!... Cuida então que cá somos
uns palermas?!
Saiu. E pela rua adiante, andando quase aos tropeços, tinha
curiosidades malucas, parando diante de cancelas toscas onde
assomavam garotos sujos e cães lázaros. Prosseguindo, parava de
novo, para, meio apoiado a um portal, olhar com estupidez o interior
pobre de qualquer casa. Durante isso cantava, baixo, em tremolo,
um samba obsceno; de vez em quando parava, ria sozinho,
aplaudia-se a si próprio.
— Aí, “seu bicho”! Tenor velho cansado...
Perto da via férrea, operárias, resguardando-se do sol com
lenços ramalhudos nas cabeças branquejantes de algodão,
atravessaram o riacho e, dando repentinamente de frente com o
bêbado, recuaram.
— Ó João Lágrima! Ó João Lágrima...
E ele as encarou, disse blasfêmias com ar grotesco e, de
indicador no nariz, com arreganhos de carnívoro, gritava,
provocando-as:
— Lágrima, hein, súcia?! Hein, canalha?!
Junto a uns montões de carvão de pedra, sentiu que um
peso, como um tronco, o derrubava, arrastando-o pelos dormentes
da linha. Estirado no pedregulho, depois teve um gesto de
sobressalto, ergueu a cabeça, virando-a para a direita e para a
esquerda como um camaleão; arrastou-se por fim até a vala onde
um lençol azul de água apodrecia ao sol. E então percebeu o que
aquilo tinha sido, pois pôde ver, já, a certa distância, como um
pulmão colossal respirando, uma locomotiva muito lenta, de cujo
tênder saía uma cara risonha e cínica, rindo a bom rir...
— Quase, hein, Lágrima! Quase...
Quis erguer-se, mas não pôde: estava tonto, pesavam-lhe as
pernas e um fio de sangue se lhe alargava na testa empastada de
suor e de fuligem. Com um risinho desavergonhado, estirou-se
beatificamente ao pé do barranco, e cantando de novo a ária faceta,
dispôs-se a dormir. Agora, todo encolhido sobre o jaleco, da cabeça
apenas se lhe via o cabelo cor de palha.
As pernas, em flexão sobre as coxas, tinham repuxado a
camisa, deixando à mostra um trecho cabeludo de ventre móvel,
pausadamente acompanhando a respiração. Horas depois, já de
tarde, o gerente da fábrica, passando para o chalé, parou a caleça,
desceu, e a custo despertou o tecelão.
— Isso é lá modo de vida, homem?!...
João Lágrima desenrolou-se como um animal que acordasse
duma longa hibernação penosa; e, erguendo-se preguiçosamente,
com uma baba a lhe empastar os bigodes de bárbaro, mal
encarado, um estupor profundo ante a silhueta de corvo do gerente,
deu de andar. A princípio não compreendeu bem onde estava; olhou
em torno, com longos bocejos de lorpa, e, soerguendo as calças
bambeadas, seguiu, raspando o solo com as foices convergentes
dos pés tortos...
Passando de novo pela Cooperativa, entrou, bebeu, discutiu
e tomou rumo de casa. Defronte da cancela, no terreiro, tinha já a
cara menos enfarruscada; os olhos, como cortados num tecido
crespo, tinham tonalidades de estanho; e a tez, cor de terra,
revestindo a ossatura deprimida em altos e baixos, apresentava
grandes manchas avermelhadas, ásperas e oleosas como nas
inflamações crônicas.
Ao subir os três degraus, já no pequeno alpendre onde
pintainhos ciscavam, topou, de súbito, com um homem que saía.
— Que é lá?...
O outro, com uns ombros fortes, de cor cobreada, à mostra,
arqueou o corpo e com impulso de touro arremeteu contra o
operário...
— Que é lá, patife?...
E nos olhos, mortiços como contas de vidro, luziu um facho
de sangue.
O homem, depois de derrubar o ébrio com um safanão,
deitou a correr, atravessou a linha férrea e galgou o muro, olhando
para trás com espanto.
João Lágrima, ergueu-se, limpando com brutalidade,
rispidamente, a roupa empapada de lama; e, logo depois, com um
pasmo imbecil nas ventas arreganhadas, estendeu os punhos,
ameaçando.
— Ó maroto! Oh!...
E aos poucos, aquela estampa animal recobrou sombreados
torvos e linhas incisivas, brilhando como uma chapa engordurada
que se aquecesse. Quis raciocinar, mas as ideias lhe fugiam numa
escuridão.
Entrou. A mulher, num alvoroço comprometedor em arranjar
os cabelos e fingir serenidades estudadas, acusou-se logo,
sentando-se em frente da máquina de costura. Estava muito
escarlate e apenas uma ideia lhe acudiu ao cérebro: “Por um caso
assim, numa dominga de Ramos, o agulheiro da estrada matara a
mulher, esganando-a.”
E toda ela se prendia a um horror súbito vendo, ali, o marido
em pé, na sala, trêmulo, oscilando como uma pêndula invertida, a
olhá-la sempre com o carvão sinistro daqueles olhos empapuçados
e oblíquos. Ao fim de muito tempo, não suportando mais aquele
silêncio sufocante, tomou uns ares de provocação e, torcendo a
costura nas mãos, perguntou:
— Que é, João? Que é?
— Ahn...
E ergueu uma cadeira; quebrou-a de encontro à parede, e,
ficando só com o espaldar na mão, investiu contra a mulher...
— Como anda bem tratadinha, cá a patroa... Então, sabe-lhe
bem uma variação, pois não acha?!
E, com um hálito podre, cercava-a dum sarcasmo obsceno e
brutal, olhando-a de alto a baixo, como a querer ver as “diferenças”,
os “rastos” daquela desavergonhada pândega...
— Racho-a, sua imunda...
E ameaçava o golpe, com ensaios cambaleantes, cuspindo
para os lados, soerguendo as calças frouxas e mal se equilibrando
nas pernas em X.
— Aquela imunda era pois a sua mulher! Mas que belo
papel, sim senhores... Um “estupor” que, em pequena, andava a
secar o algodão nos pátios da Companhia, mostrando a todos,
numa pouca-vergonha, as pernas nuas e as ancas moles... Casara
com “aquilo”, casara, para quê? para quê? Mas, ah!... Tudo ia raso,
agora... Tinha nojo, “a grande burra”, de dormir com o João Lágrima,
e então... então dormia, a sesta, com fedelhos... Que alta pândega
aquela... e que alta pândega esta agora, porque tudo ia dançar... co’
pau... Racho-a, racho-a, sua imunda...
Mas, repentinamente, uma espécie de convulsão o abalou;
como de vez em quando, agora lhe vinha aquela maldita tremura
dos braços e das pernas; a própria cara, repuxada de um lado,
entrou também a tremer, abrindo os cantos dos lábios num esgar, o
que lhe mostrava os dentes podres.
— Racho-a, sua imunda...
E ela, então, com firmeza, começou a gritar...
— Pois gosto dele, pronto. Gosto, gosto...
E defendia o corpo atrás da máquina com aquela cara
atrevida e sardenta, cheia de brio, o buço sob o nariz afilado, cheio
de suor.
Mas a esse tempo, começou a crescer um ruído arrastado,
vindo do fundo da rua; e aumentava, já transformado em alarido,
despertando a vizinhança. Distinguiam-se gritos de mulher e
vozerios de garotos. A avalanche rolava, varrendo o caminho,
engrossando, e a revolta chegava até o chalé do gerente.
Era a greve. João Lágrima assustou-se. Ainda com o
espaldar da cadeira na mão, abriu a porta, para ver o motim que
passava.
— Ó João Lágrima... Ó João Lágrima...
E uns homens o agarraram.
— Entra conosco nisto!...
E, erguido aos ombros de dois, debatendo-se todo,
distribuindo golpes irados, o bêbedo quis fugir, ensaiando arrancos.
Rasgaram-no todo. E ele, como um Tonny de circo, vendo
que era inútil reagir, entrou a chorar como era seu hábito quando
entrava no último grau de embriaguez.
— Ó Lágrima! Ó ’stupor!...
Mas, contorcendo o corpo que o tremor ainda sacudia num
sinistro shimmy, de coreia, o borracho teve, inesperadamente, um
riso cínico; cumprimentou os “mais”, e descobrindo, à porta, num
grande pasmo, a mulher, desgrenhada e boquiaberta, voltou-se para
ela, numa barretada jocosa, o chapéu amarfanhado.
A celeuma continuou, como uma lufada, varrendo tudo, aos
repelões. E embora gritasse, também, dançando e estalando as
pontas dos dedos em castanholas, João Lágrima seguia
deslumbrado, naquele triunfo todo, ora impelido à frente do grupo,
ora esmagado entre centenas de ombros que lhe davam a
impressão de aspas de touros chuçando-lhe o corpo magro.
Naquela altura, os seus olhos de boçal distinguiam, numa alucinada
apoteose, lá, junto à fábrica, a “Cooperativa” acaçapada, com as
três portas abertas, como um templo dominical, atraindo o
operariado, explorando-lhe a miséria, alimentando-lhe o vício,
impunemente, como se o álcool fosse por ventura, a aspiração
genérica daqueles corpos brutos e daquelas vidas acanhadas de
reses estúpidas.
A usina, toda em relevo negro na atmosfera, surgia ao fundo,
metálica, luzidia, cortada de cabos aéreos de aço, erguendo postes,
reservatórios, cúpulas giratórias entre a floresta das chaminés
cilíndricas, isolada toda ela dos campos estéreis pela dupla cinta
dos trilhos atravancados de vagões. E um cheiro de inferno químico
subia, encardindo o nevoeiro.
Era para lá que aquela torrente o arrastava, como a um
vórtice... E o bêbado batia palmas, distribuía carícias e
agradecimentos canalhas aos murros, aos pontapés e aos berros.
E sobre aquelas cabeças todas que se condensavam numa
sombra única, estrangulada entre os muros da rua, João Lágrima
seguiu a trote, sacudindo os ombros e os braços, como um
espantalho despertando revoadas e gritarias.
Rio, 1919.
O filho de Maria Bárbara

Ele ia a um canto da chalupa, entre os mais imigrantes, com


o saco de quadrados às costas e as galochas sobre os joelhos,
olhando com ternura os homens do remo.
A noite era tão densa que mal se podia distinguir na massa
ecoante do mar a sombra acachapada do “San-Miguel”; apenas três
ou quatro luzes no dorso do barco, rentes ao mar, davam a certeza
de que ele lá estava à espera dos bois e dos imigrantes para Ponta
Delgada.
— Ó filho da Maria Bárbara!... Hé!... — gritou uma voz
longínqua, de terra.
O mostrengo encolheu-se mais atrás dos outros homens
entre rodilhas podres de corda e montões de ananases.
Atrás, dentro da noite, como uma coisa que desaparecesse,
ficava a ilha de Santa Maria, com o seu farol muito débil piscando...
piscando como uma estrela à flor-d’água.
— Levanta-te, homem. A modo que ’stás vexado... Ir uma
pessoa ganhar pão na “Amárica” sempre é “bum”... Isto é uma
terrinha pobre, esquecida de “Deis”, que nan dá nada pra suster o
cadáver duma pessoa! — dizia o arrais, em pé, na popa, consolando
o palerma. — Ao despois, aquilo por lá é, parece-me a mim, uma
terra de liberdades; até pros padres, homem, até pra esses
maganões aquilo é uma pechincha... Olha! Os Inácios da lomba da
Cruz, aqueles três irmãos vieram de lá assim, cheios, cheios... E
sem nenhum ajudar o “oitro”. Hás também tu de ser f’liz. Por lá
sempre há quem recebe, da parte do governo, os que chegam; a
modos que é um serviço perfeito!... Até o governo ajuda. Inda t’hei
de ver, com brilhantes e uma corrente no jaleco, saltar do “San-
Miguel” com esses pés calçados e duas arcas atulhadas de roupa
para a Maria Bárbara. Digo-te que é uma mulher que merece. Quem
anda o dia todo na eira e na pia dos porcos, e à noite na “mánica”
de coser, bem merece dó de Deis, homem! Bem merece ter um dia,
na canada de San Martinho, uma casa, uma atafona, uns cerrados
pro trigo, a burra cheia de milho e vasos à janela, ora nan?...
— Eu digo que sim, pois então?!...
Um clarão frouxo batia agora de esguelha nas ondas,
fazendo-as brilhar como azeite. Os mais homens iam calados;
alguns fumavam, olhando com maneira tímida e resignada para o
bojo do “San-Miguel”.
— Tu nunca pisaste num navio? Pois é como um palácio de
fidalgos. Uma pessoa até fica tonta. Há os que vão como morgados
e há os que vão como desgraçadinhos. Esses, então, vão na proa.
— Quantos vão na proa e ao depois voltam no meio!... —
ponderou um velho com entoação concentrada, como a dar ânimo
aos que o ouviam.
— Sim, dizia eu, — continuava o mestre — na proa, na
frente, como o gado, olhando a ver quando chega. De noite é dormir
embaixo dos toldos ou nos corredores, ao longo do assoalho
emporcalhado e frio, todo encolhido na manta e no saco, fazendo
cálculos com a bola: “Voltarei como morgado ou como filho da Maria
Bárbara?!” Ser pobre nan desonra ninguém, mas ir a gente como
cão e ver os “oitros”, como republicanos e formigas do Rocio,
arrotando dinheiro sempre dá pena e ódio... Sabes? É sempre de
noite que a tristeza vem... A gente está encolhido entre as pernas
dum companheiro, sem poder pregar olho. O vento assobia. O frio
entra p’lo corpo adentro; de quando em quando, no meio da
escuridão, a sineta da ponte dá horas. Depois, se a gente tem o
ouvido no assoalho todo o tempo, ouve o motor do navio, chec,
chec, chec; se a gente está assentado ouve só o barulho da água
que a proa vai cortando... cortando... Outras vezes, quando menos
uma pessoa espera, o bruto dá um mergulho; então a cabeça
começa a andar à roda. Há quem enjoe sempre; é um vexame, uma
náusea, uma tonteira tal e qual como quando a gente convalesce
duma doença ruim... Então se há cheiro de óleo, a bordo, é um
horror... E vendo só água e céu, ouvindo a música e as risadas nos
salões e passadiços dos ricos, vendo, ao pé da gente, mulheres e
crianças dormindo à beira do abismo, geladas de frio e de mau trato,
então, meu menino, é que, sem querer, pouco a pouco, a gente
começa a pensar na ilha de Santa Maria, na boa terrinha...
E a gente diz assim com os próprios botões: “A estas horas,
na minha aldeia, todos já recolheram. Estão talvez ceando, ao redor
da toalha limpinha, o bom pão de cevada com chicharros e vinho da
Graciosa.” E a gente se alembra dos amigos, um por um. Dos
amigos e dos inimigos... Dá uma saudade! Uma cousa... Um mal-
estar, um nó na garganta... E a gente se recorda da casa, dos
cômodos, da mesa, do oratório, do armário, da arca, do moinho, da
estrada, das outras casas, das pessoas que passam falando alto
atrás dos bois mansos. E se a gente tem uma mulher... Uma
prometida ou mesmo, entendes?!... Ha! Ha! Ha!... Então, ha! ha!
ha!... Estou a rir, mas o que a gente sente, sabes, é uma vontadinha
bem forte de chorar...
Então, olha-se assim pros lados, com cautela... Se ninguém
vê, toca a desabafar... E é um regalo, um alívio sentir as lágrimas
pela cara... Faz um bem tamanho!... Olha-se depois com mais
calma, pro mar. Vê-se o grande céu estrelado, ouve-se o mar,
assim, em volta. Lá na ponte, no alto, o homem de quarto canta o
31, embuçado no seu capotão, como um militar... E eu, e tu, e todos,
então, meu caro, temos uma força, um ânimo, uma coragem, uma
vontade de chegar, de meter mãos à obra...
O filho da Maria Bárbara olhava com a doçura dos seus
olhos tristes para o patrão, aprovando com a cabeça,
automaticamente.
— Põe-te em pé, homem. É esse o bruto! Uma b’leza, ora
nan?...
— Digo que sim, que é muito “perfeito”, muito “perfeitinho”!...
— Perfeitinho, ó ’stúpido?! — atalhou um outro. — Um
demônio é que esse estafermo de barco é! Em vez de nos trazer
açúcar de Lisboa e da Madeira só nos leva os bois pra Ponta
Delgada e os homens para os navios da Fabre. Inda um dia virá que
nan haverá mais rapazes cá nos Açores; é uma cousa que eu, se
fosse homem dos poderes, havia de pôr cobro. Os agentes na
Terceira e em Horta estão podres de rico a exportar homens como
se isso de homens fosse colheita em grão!... E então a África! E
então as colônias? Nan é à toa que os ingleses mais os alemães
têm conversado... Vai tudo pra América... pra América!...
Já o filho de Maria Bárbara, em pé, na borda da barcaça,
com o saco de quadrados às costas e os socos nas algibeiras,
segurava a corda da escada.
Uma gritaria, em cima, o atordoou. Um refletor muito forte,
com uma luz muito branca, pregado na muralha, aclarava a escada,
facilitando o serviço. Havia, nos passadiços muita gente debruçada
para o mar, folgando alto; e um rapazola, no portaló, dirigia o
movimento.
— Cadeiras de vime... vime... vi-me... gritavam dum barco,
na treva, ao redor do “San-Miguel”. Homens de bordo falavam para
os barcos aglutinados embaixo; um guindaste barulhento e velho,
com suas molas primitivas, enrolando e desenrolando uma tira
enorme, ora baixava ora descia o cadernal, carregando e
descarregando. Caixas, malas, fardos e sacos subiam baloiçando;
depois, vagarosamente, com estrupido, trepidando, sumiam na
abertura lôbrega do porão, mesmo ao centro da terceira classe.
Passageiros assistiam o trabalho, debruçados, com um ar neutro,
feliz, despreocupado de muita paciência, ostentando uma
curiosidade frívola.
— Subam...
E eles subiram todos, um por um, como um rebanho
atravessando o portal dum ovil.
— Adeus. Diga a Francisca que eu volto com o saco tinindo
ou me dano por lá... — disse um homem abraçando o pai já trêmulo.
— Vamos! — gritou o oficial do portaló.
O filho de Maria Bárbara olhou espantado e subiu, por último,
com humildade, muito receoso, meio zonzo, equilibrando o corpo
aturdido; e ele que era ilhéu, entrevendo pelos degraus de corda a
água que bulia, teve medo do mar.
— Os seus papéis.
— Saiba o senhor que sim — disse com muita compostura,
procurando-os nas algibeiras. Repentinamente uma opressão o
tomou. Apalpou-se melhor.
— Essa agora... Mas juro que os trazia. Era o papel
encarnado da passagem, o papel do governo, como o “oitro” que diz
o passaporte... o atestado da freguesia, da escola e trinta coroas,
sim senhor, trinta coroas. Ah! Pronto... Hum!...
— Bem. Passe.
E ele entrou, mergulhando a mão calosa nos bolsos,
guardando com carinho a papelada. E um sorriso bom, honesto,
ingênuo, como um prêmio íntimo, lhe arreganhou o focinho de
cretino no largo contentamento de quem vai viver uma vida nova.
Atabalhoadamente, com cerimônias tímidas, deu três
passos. Do alto do passadiço um soldado lhe gritou: Arreda, animal!
jogando-lhe à cara gomos de laranja podre. Olhou para cima, sorriu
com docilidade servil, envergonhado sob os apupos grosseiros duns
homens que fumavam.
— Ó seu lorpa! Com essa cara e esses membros que é que
vais fazer, à América?!
Riu de novo, mas já agora com uma onda de sangue e de
raiva até às orelhas, um feitio normal de bruto na venta
desconfiadiça.
— Ponha-se ao fresco. Nan vê que estorva o serviço? gritou-
lhe o marinheiro que dirigia a manobra do guindaste ao pé da
abertura do porão.
O filho da Maria Bárbara se afastou para um lado, sem jeito,
espantado, já arrependido de ter vindo, cheio dum pânico que o
oprimia, dando-lhe até ganas de chorar. Lá atrás, na treva difusa,
com o seu farol de óleo, lembrando uma estrela rente à água, a ilha
de Santa Maria ficava frouxamente visível entre a noite. E o
monstrengo com a roupa justa, comprada na véspera na vila, o
tronco à mostra sob o jaleco de almocreve, o chapéu ruço de saloio,
as mãos felpudas de mono, com as unhas grossas e altas de terra,
começou a olhar para a treva, para o mar, para o recorte dúbio dos
montes de Santa Maria. Na cara estúpida e mal desenvolvida como
a dos fetos, de grandes orelhas transparentes e pequenos olhos
mortos de boçal siamês, uma carranca se esboçou, oscilando do
cômico ao piedoso, numa expressão pueril de medo e de choro. E o
bronco impúbere entrou a alimpar as lágrimas com os grossos
dedos curtos, sob o pavor do isolamento, lembrando-se da mãe
como os borrachos do ninho.
Ah! A Maria Bárbara!... Como pudera ela, forte, rija e perfeita
conceber aquele monstrozinho, a modos corcunda, meio torto, meio
gago, estúpido e repelente como o fruto dum incesto? Embalde ela
lhe dizia: Por que o meu pobre filho nan há de ser como os “oitros”?
Por que há de andar assim tolhidinho, a modos envergonhado? E
ele sorria, com um sorriso alvar; esticava-se, queria ser como os
outros, mas era impossível!... Tinha uma voz falha que lhe sumia
diante das pessoas como certas fontes ao verem o sol. Às vezes,
falava, ria com tonalidades desmedidas, atoleimadamente; em
seguida emburrava, fechando o cenho, contraindo as maxilas
proeminentes, uma viscosidade contínua a lhe escorrer das narinas
chatas e dos dentes em serra. E era esse exemplar que agora ia
para a América, para a Califórnia...
Como custara à pobre da Maria Bárbara esse sacrifício!...
— Ó alminha de Deus! És feio, és aleijadinho, tens medo das
pessoas, és selvagem, mas és meu filho. Quero-te como se fosses
um primor de criatura!...
E ele a ouvia sem emoção, anestesiado pela imbecilidade,
alheio, de olhos franzidos voltados para o chão como os criminosos.
Inda assim partira... O padre-cura dissera, em conversa, ao
pé do chafariz: — Dessa gente não se pode esperar nada; é raça
ruim, podre... — Inda assim ele partira, ao anoitecer, com o saco de
quadrados às costas, os socos nas algibeiras e as trinta coroas. Os
outros, os que também partiam, tinham parentes e amigos na hora
do adeus. Ele não! Como os bastardos ia sozinho. Apenas o
padrinho, ríspido e seco, o viera abraçar, aconselhando: — Ânimo,
’stupor...
Saíra de casa, deixando no cerrado, ao pé dos funchos, a
Maria Bárbara a acenar com uma toalha. Seguira a pé pelo caminho
afora. Mulheres, pelas janelas e muros o espiavam com
indiferença... E ele, às vezes, queria cumprimentar uma ou outra
cara conhecida, mas receava, tinha vergonha. E andando,
despedia-se com os olhos dos montes cobertos de faias e de
álamos; dos cerrados e dos campos cheios de papoulas e tremoços;
das lombas onde os moinhos giravam airosamente, e da estrada
onde as casas tristes e baixas lhe pareciam dizer adeus.
Pressentia no interior das salas pobres a voz conhecida de
raparigas da sua idade. Cabras, recolhendo dos montes, afastam-se
do caminho, badalando os guizos nostálgicos. De quando em
quando a ideia da mãe lhe cavava nas bochechas de lorpa um
tremor de pranto nervoso.
— Ânimo, ’stupor... — Lembrava-se agora do padrinho, da
América, da vida. Mas um peso qualquer, tolhendo-lhe os surtos, lhe
esmagava a alma.
Encostou-se na amurada. Na terceira classe o guindaste
suspendia os bois, um por um, amarrados por uma barrigueira de
couro cru. Os animais enfileirados na chalupa eram pouco a pouco
guindados. Esperneavam: mugiam, encarando a treva com os
grandes olhos muito vivos: depois desciam, inertes para o vão
lôbrego da proa.
— Coitados. Vão morrer em Ponta Delgada os pobres bois
de Santa Maria! — exclamou alguém. Ninguém sabe se o filho de
Maria Bárbara ouviu essa exclamação, nem se a entendeu ou se a
tomou como alusão. Mas o fato é que, quando o “San-Miguel”
rompeu a caminho do alto-mar, o filho de Maria Bárbara, com seu
feitio selvagem e receoso de novilho, a um canto, perto duns
homens que tocavam guitarra, chorava mansamente como uma rês
pressentindo que a vão abater...
Rio — 1920.
O sacrilégio

No meu país as velas dos lugres têm cores tão bizarras que
até parecem estandartes de romaria... Os promontórios, ao longo do
litoral entram tão longos e tão tristes pelo mar adentro que dão a
impressão de braços da aldeia dizendo despedidas aos poveiros... E
os barcos todos têm, no bojo, listões tão vivos que lembram, uns, o
sangue dos homens, outros, os olhos das mulheres do meu país...
De memória, procurando bem, só me lembra um lugre que
não tinha listões no bojo nem Imaculadas coloridas nos mastros. Era
um barco enorme, feio, de uma linha muito bruta, todo negro de
betume e que, olhado de frente, pela proa, parecia, sem tirar nem
pôr, um esquife...
Perto do farol, emergindo da água estagnada do
ancoradouro, o “Esquife” levava vários dias recebendo carga de
madeiras e frutas e quando partia, era sempre para o sul; ao voltar
tinha o aspecto mais sinistro talvez porque trouxesse,
habitualmente, de terras alheias, punhados de emigrantes que se
tinham desiludido lá para longe...
Parece incrível que um barco, como aquele, tivesse o áspero
destino que teve... Ora, calculem lá...
Quando veio, pelo mundo afora, aquela peste estranha que
matou tanta gente rica e tanta gente pobre, que, começando nos
campos da guerra se alastrou pelo resto das nações, matando de
verdade, sem respeito e sem dó, no meu país, como no de vocês,
ricos e pobres pagaram largo tributo... Cuido até que isso foi pra aí,
algum castigo, alguma lição, mesmo porque o flagelo veio num
tempo em que a humanidade andava tonta... Pois na minha aldeia,
que é um largo penhasco, o campo santo se abarrotou de cristãos...
Era uma miséria... Pelos barcos, pelos cais, pelos casebres, cada
dia morria um amigo, um parente... e a gente até quase já não
sentia porque tinha a cabeça no ar... Vai então, uns senhores que
vieram da parte do governo, começaram a distribuir remédios, uns
pós e rações... Mas a coisa piorava...
Apodreciam os pobres nas sarjetas e foi preciso vir de longe
uma comissão, uns bons senhores para dar tento àquela ruína...
E a primeira coisa que fizeram foi mandar vir uns presos das
colônias agrícolas para enterrar os mortos e desinfetar as vielas, os
becos, as casas, os barcos e até as pessoas...
E um dia já não havendo lugar no cemitério, e sendo a terra
em derredor penha bruta, tisnada de sol, os homens resolveram,
todas as tardes, jogar ao mar, lá longe, os cadáveres dos nossos
irmãos...
E então, fretaram o “Esquife”...
Todos os dias, ao entardecer, os correcionais ajuntavam os
mortos em duas pilhas. À direita os homens, na outra banda as
mulheres e as crianças... O “Esquife” recebia aquela carga e o
patrão, aproveitando o vento da noite, ia despejar no oceano, lá no
mar largo, aqueles pobres coitados que ele conhecia pessoalmente,
um por um...
Na ponte já havia até uma nódoa, no lugar da carga
lúgubre... Mas o patrão, insensível, com seu feitio adunco de corvo,
cumpria estoicamente o seu “contrato” com a mesma indiferença
com que recebia madeiras, frutas e gado... Pelos flancos do lugre
escorriam desinfetantes, aguadilhas e até um marujo era preciso
para raspar uma espécie de gordura sólida que com o correr dos
dias crescia nas tábuas da ponte...
No mar alto, atiravam-se os corpos presos a blocos de lastro;
e, uma vez ou outra, o mar deu à costa uns corpos murchos de
raparigas e anciãos...
Declinou porém, com a graça de Deus, tamanho horror...
Também, pudera! Com tantos votos, com tantas lágrimas!...
Na ermida, quando o bom tempo voltou, era uma dor de cortar o
coração aos penhascos... Os poveiros de luto, cumpriam
promessas... E muito custou à gente acostumar-se à falta de certos
homens que se tinham ido no “Esquife”... Apareciam caras
estranhas, gente de fora que fugira do horror das suas terras, pois o
mal quando acabava num sítio começava noutro, como uma foice
que vai ceifando...
Homens esqueléticos, aventuravam-se a sair à rua, ainda
combalidos, e parecia que aquela impressão maldita augurava o fim
do mundo...
Talvez não me acreditem, vocês. Mas sempre há gente no
mundo que, como os corvos, vive do repasto dos mortos...
Um mês depois, quando a vida se normalizou, e os barcos
começaram, com outros donos a faina da pescaria ao atum; quando
a gente já se começava a resignar, com as cicatrizes de dores pela
alma, e quando o “Esquife” limpo e desinfetado pelos homens do
porto, recomeçou a carregar madeiras, frutas e cortiça para o sul,
aconteceu um fato que se a mim me encheu de pavor, aos homens
todos da aldeia encheu de ódio, transformando-os em feras de
vingança...
Foi assim...
Corria, à boca pequena, que o patrão do “Esquife” roubava
os mortos antes de os despejar para a água... Passava-lhes uma
sistemática revista, tirando-lhes anéis, cordões, amuletos, santos de
metal, correntes e até a roupa que estivesse em condições...
A tripulação era formada de treze homens, arrendados em
Vigo e Bilbao, treze bandidos, misto de contrabandistas e piratas,
bronzeados, maltrapilhos, com cicatrizes, tatuagens, maldições,
blasfêmias e sombras nas caras aziagas de milhafre.
Antes de atirar o morto ao mar, abriam-lhe os maxilares,
quebravam-nos a murro para desencravar os dentes postiços de
ouro ou coisa que o valha... Despiam os que iam com roupas e
farpelas janotas. E como todos nós sempre calçamos botas novas
aos defuntos tiravam-lhas...
Tamanho sacrilégio, só sob o testemunho de Deus, numa
época tão triste, tinha, por força que clamar vingança!
Numa viagem do “Esquife”, houve uma altercação qualquer
entre o mestre e um homem da tripulação. Quando o lugre voltou, o
despeitado, na taverna, bêbedo e meio aturdido, contou, aos gritos,
como era feita aquela “função lúgubre”.
A princípio ninguém acreditou, pois que diante de um nosso
irmão morto, rijo, vestido decentemente para a outra vida, não há
coração de chacal que o profane, valha-nos Deus!!
De mais a mais aqueles infelizes eram conhecidos do
patrão... Mas o destino, às vezes, tece coincidências, prepara
verdadeiras armadilhas e quando uma pessoa menos espera vai ter
com seus próprios passos ao castigo que merece...
Uma noite o patrão, desembarcando no cais, completamente
bêbedo com uma caixa de ferro sob o braço, diante de uma pouca
de gente que o andava espiando, começou a dar risadas sinistras, e
tonto, cambaleante, apoiado em duas mulheres de má nota (por
sinal que não eram cá da terra, Deus seja louvado!) seguia para o
posto da Alfândega, escandalizando os poveiros com aquela
esquisita bebedeira...
E eis senão quando, ao atravessar a sarjeta de um beco,
onde as pedras tinham limo, o patrão escorregou, caiu de borco na
lama. Ao erguer-se, um pescador, que ninguém sabia quem era,
arrebatou-lhe das mãos a caixa e saiu a correr...
Em seguida, na praça, onde havia ajuntamento domingueiro
de gente rústica, o pescador mais outros homens arrombaram o
cofre espatifando-o na pedra do chafariz...
E então, pelas juntas e fendas saíram, as joias, os amuletos,
as moedas dos defuntos do “Esquife”...
Como se um tufão passasse, uma onda de ódio varreu a
aldeia toda desde o rocio, no adro dos Miguéis, até Atafona, junto
aos Expostos. Há coisas que se transmitem tão vertiginosamente
que parecem prodígios...
Uma multidão compacta se ajuntou em torno do chafariz...
Os parentes dos mortos, aos poucos reconhecendo as joias.
— Veja o anel de Martha, coitada... Inda traz a data do
casamento...
— Este broche era de Maria Júlia... a que morreu primeiro.
— Oh! A corrente do pai de Maurício, toda cheia de
ferrugem...
E todos abalaram ao encalço do bêbedo... Se não fora a
autoridade de um senhor, recém-chegado na terra, tinham feito o
mestre do “Esquife” em postas...
— Ladrão! Sacrílego...
E o vento do mar repetia, em eco, o soluço agudo das
mulheres, relembrando os mortos...
— Roubou ao meu homem o santinho que trazia ao
pescoço... Um santinho; que miserável!...
E os braços se alevantavam, mostrando joias.
Esbofetearam o ladrão e quase o puseram liso como uma
folha, de encontro ao umbral da taverna...
Ele, na sua meia inconsciência, abria e rolava nas órbitas
uns olhos tão estarrecidos que pareciam contas de pus veiadas de
sangue...
Mas, inesperadamente um velho que perdera na peste a
filha, erguendo à face do poltrão, uma pulseira de ouro maciço,
sacudindo a joia com furor, perguntou:
— Sabes de quem era isto?! Isto, homem!?
O outro fez que sim...
— Ah! Bem sabes... Vamos para bordo...
Uns quinze homens pularam para o “Esquife”, impelindo o
patrão.
— Ao largo...
E, após um curto espaço, o lugre, de velas inchadas,
começou a andar.
Nervoso, rangendo os dentes o patrão fitava o assoalho da
ponte, já meio lúcido, compreendendo o peso todo da situação.
Duas lágrimas lhe rolaram pelo rosto escaldante.
— Onde atiravas os mortos... Em que sítio...
— Além.
— Pois é para lá que vamos...
Perto dos penhascos, na altura em que se perdia a terra de
vista, o patrão, acobardando-se, quase de joelhos, disse:
— Era por aqui, assim — E mostrava o mar, em volta dos
arrecifes...
Então o velho, chegando-se à amurada, solenemente atirou
ao mar, uma por uma, as joias todas...
O mestre chorava, implorando, ora a um, ora a outro, perdão,
pelos mortos que decerto o estavam vendo àquela hora, pagar o
seu crime...
— Se fosses um homem, tu te atiravas lá baixo... pois não?!
— Sim, sim — balbuciou... — se eu fosse um homem eu me
atirava lá baixo.
E de um salto atirou-se ao mar.
Foi tão rápido o movimento que os quinze homens apenas
conseguiram ver, atabalhoadamente que uma coisa qualquer descia
entre as vagas, como um demônio articulado ou como um réptil
mergulhando...
— Encalhemos este estafermo — disse um dos homens... E
aproaram contra o areal que, em dunas, se levantava da banda
ocidental das penedias...
Depois, descidas as velas, atiçado o fogo nas madeiras e na
dispensa, taciturnos, sem olhar para trás, a largas remadas, em dois
barcos da Póvoa os homens do meu país, do meu pobre país onde
os promontórios parecem braços atraindo os poveiros que voltam da
pesca, afoitamente voltaram à terra, ao doce remanso em cujas
águas buliçosas as velas ostentam cores tão bizarras que até
parecem estandartes de romarias...
Rio — 1919.
Martha das Terras Baixas

Ela estava sentada no chão, entre o homem da guitarra e o


banco das esmolas. Como houvesse pouca luz, a sombra cinzenta
do reposteiro, no portal interno da taverna, lhe roía o tom malva do
busto, dando-lhe desde a cabeleira até os braços, uma gradação
dúbia, sem recorte visível de rosto. Apenas, profundos e metálicos,
os olhos, redondos, com palhetas multicores na íris misteriosa,
provavam que ali estava uma mulher ou um felino.
O homem da guitarra tocava qualquer cousa triste, e os seus
dedos grossos, nodosos, encordoados e trêmulos, tinham o dom de
fiar, em torno das cordas, uma teia de superstições, saudades e
amarguras. Ele tinha o rosto estúpido, porque era nas mãos que
Deus lhe pusera o sentimento. E a boca, severa, torta, em vírgula,
muito cerrada, tinha uma eterna mudez estoica, uma mudez antiga,
profissional, forçada quase, porque a filha, à custa de cantar tão
lindas cousas, insensivelmente emudecia os outros, num grande
pasmo.
Ora, não se sabe por quê, nessa noite, o velho da guitarra
tinha o rosto mais estúpido do que de hábito; os seus dedos
tremiam mais. E a filha, com a sua voz de meridional, e os seus
olhos de boêmia, cantando, entristecia mais que habitualmente, num
mudo recolhimento, os homens que bebiam e jogavam sob a luz
mortiça. Ninguém reparou mesmo que o próprio olhar do fadista
tinha a névoa langorosa do olhar morto de certos bêbedos pacíficos.
Fora, na viela um mendigo dormia em pé, num vão de
pilastra, sob o oratório medieval duma Nossa Senhora. Reinava um
grande silêncio na ladeira batida de luar. E como, quase sempre,
aquela noite, o luar esbatia nos lajedos, numa sombra exagerada e
oblíqua, a grande cruz de pedra do Arco Mouro.
Longe, para os lados da praça de touros, ouvia-se um
pandeiro abafado em risadas.
Em dada hora, os homens se retiraram, descendo a
congosta, fumando...
O taverneiro, corcunda como um bobo do Paço, apagou o
candeeiro de três bicos e deu as santas boas-noites ao velho e à
Trigueira.
— Essa tua guitarra é com’as mulheres. Tem dias que irrita...
E tem dias que bole com o coração da gente.
O velho agradeceu com um movimento de ombros, pôs a
capa de três palas aos ombros e saiu. A Trigueira, contando o
dinheiro do prato de folha, a guitarra sob o braço, saiu também, mas
tão vagarosamente que, vendo-a cosida ao muro, contra a treva das
arcadas, o pai lhe gritou:
— Pareces uma velha... Ânimo... Anda daí...
Mas, nesse instante, vendo a sombra larga, e perfeita como
um desenho, da cruz, o fadista parou, tirou o chapéu braguês de
duas borlas, benzeu-se e continuou o caminho com o silêncio dos
que fomentam uma ideia sinistra.
A Trigueira passou pela sombra. Puxou a mantilha sobre o
rosto, encarou a lua com a doçura cândida dos cães mendigos e
românticos, e começou a cantar.
E como a filha cantasse, até chegar em casa o fadista não
disse palavra, acompanhando estoicamente a própria sombra no
chão... Atravessaram o largo da Sé, silenciosa, onde os plátanos, de
folhas já amareladas, davam ao chafariz a ilusão dum abrigo de
tapada. Desceram e subiram ruas estreitas de fachadas austeras
com adufas mouriscas onde os vasos de alecrim recebiam a bênção
do orvalho. No fim do bairro pobre, junto a um casarão de colunas e
escadas, o guitarrista parou, remexeu nos bolsos da jaqueta saloia e
no vão da faixa vermelha, e abriu uma porta lúgubre, tão lúgubre
que parecia um túmulo em pé, embutido numa muralha. Mas a
Trigueira não entrou. Apoiada ao muro das Escadas-Velhas,
cantava ainda, com os olhos dilatados, para a ruína cinzenta das
muralhas e da ponte.
Para além, sob a noite lactescente, o rio serpenteava com
um rumor arrastado entre os salgueiros. Havia um brilho úmido nas
ínsulas de areia espelhante; a massa dum convento sobre um
monte, que se estreitava para o céu em três penhascos, lembrava
uma coroa aberta, pousada sobre uma calva. E a casaria irregular
do burgo, como em gravuras e águas-fortes de sabor antigo,
placidamente dormia sob a tutela cristã dum brasão audaz.
Foi então que a Trigueira deixou de cantar, porque uns
suores frios, como sempre, todas as noites, desde a última Páscoa,
começaram a lhe umedecer as têmporas sob as pastas luzidias dos
cabelos à andaluza. Aquela tosse habitual, que vinha sempre em
arrancos como soluços, sacudia-a toda. Ficou triste, mais
provocador. A doçura do rosto alongado, que uma pinta satanizava,
se acentuou, tomando a suave tonalidade dos sudários. Os olhos,
grandes e redondos, se encheram de mistério. Todo o seu ser
pareceu se preparar para um segredo. Uma avidez, que sabia a
pecado, e quase a petulância, lhe alvoroçou o busto. Desceu um
trecho da calçada com um trá-lá-lá nervoso de chinelas no bico dos
pés e olhando receosa para trás. Bateu a uma janela. Apareceu um
homem... A luz duma lanterna deu, por um momento, um clarão
sanguíneo à parede. Houve um silêncio. Depois um rumor de
passos. Novo silêncio. Abriu-se uma porta, uma larga porta secular
de aldraba quase monacal.
— Ó minha cigarra cantadeira!... — exclamou alguém da
parte de dentro. Pela fresta da porta que ficou aberta, se pôde
entrever um jardim com oliveiras cinzentas, bíblicas... Houve um
rumor decrescente de passos. Parece que a guitarra caiu no
mosaico do passadiço, porque se ouviu uma queda sonora que ao
mesmo tempo parecia um símbolo de dor e de alegria...
Fora, a casaria irregular do burgo dormia placidamente sob a
tutela cristã dum brasão audaz. As torres heráldicas, as muralhas
encardidas, a ponte romana, as ruas características, as praças
religiosas, as estátuas reguengas e os jardins fidalgos tinham um
mudo recolhimento de fanatismo ante a hóstia alvíssima, manchada
no centro, da lua nova que subia atrás dum pinhal...
Nisto, como por milagre, pôs-se a guitarra, lá embaixo, de
novo, a dizer umas cousas de estraçalhar a alma.
A Trigueira, dentro do quarto, teve um grande susto. O
homem, na treva, começou também a escutar, com um grande
assombro.
— Mas não deixaste a guitarra no pórtico, antes de
subirmos?!
Ela disse que sim, com a cabeça. E estava branca, tremia
toda, com uns grandes olhos de terror.
— Deve ser alguém que nos surpreendeu e que com um
grande sangue-frio achou um modo deveras extravagante de...
— Olha... Escuta...
Abraçaram-se os dois, a respiração suspensa. As mãos de
alguém, lá embaixo, no jardim das oliveiras cinzentas e bíblicas,
teciam ao redor das cordas da guitarra, uma teia de encantos, à
maneira cigana... e onde havia doçura e crime, abandono e fúria...
Há momentos em que a música arranca da alma verdadeiras
visões de melancolia; e surge então, como num delírio, um grande
trecho da felicidade que cai sobre as pálpebras como os dedos
duma sagrada unção. Há, então, qualquer cousa de inefável entre a
alma e o corpo, que ao mesmo tempo é martírio e gozo. Há uma
apoteose de sentidos; a alma ascende, turbilhona e sofre; depois
desce, e como o corpo, se estira na posição da morte e do amor,
para o grande repouso dos êxtases.
Inesperadamente a Trigueira abriu a janela que dava sobre o
pátio; debruçou-se sobre os vasos floridos, deu um grande grito,
arrancou a mantilha e começou a chorar, dizendo, com a mão
estendida lá para fora:
— Vê, vê quem é... Ou eu estou doida...
O homem, que tinha ao mesmo tempo algo de toureiro e de
estudante, debruçou-se.
— Sim. É ele!... É bem ele... — sussurrou.
Desceram então com infinita cautela. Mas a guitarra
continuava... continuava...
A Trigueira, chegando ao pórtico, estacou; abriu os braços;
alongou a cabeça contra a parede e viram-se-lhe os soluços,
descendo e subindo pelo colo robusto.
O velho guitarrista, com a jaqueta e a faixa, aquele mesmo
rosto estúpido, porque era nas mãos que Deus lhe dera o
sentimento, tocava sempre.
— Meu pai! Pelo santo amor de Deus...
E o fadista tocava... tocava... A boca severa, em vírgula,
torta, continuava muda, porque a Trigueira, à custa de cantar tão
lindas cousas, insensivelmente obrigava os outros ao grande
silêncio dos pasmos comovidos...
— Meu pai!... Oh!...
Mas, gradualmente, o rosto do músico começou a ficar mais
estúpido, numa impassibilidade sinistra de idiota ou de
deslumbrado.
A guitarra, como uma cousa que se humanizasse, pareceu
soluçar como uma garganta e caiu ao chão.
A Trigueira, ainda com o seio a descoberto, os cabelos soltos
e a mantilha aos ombros, sacudiu muitas vezes o velho da cara
paralítica; depois, como o largasse, ele oscilou, dolorosamente, num
rodopio lúgubre, que tinha ao mesmo tempo qualquer cousa de
dança e de desmaio. As mãos curtas, nodosas, grossas e
encordoadas, sempre na altura do peito tinham ainda a ilusão de
tocar, arranhando... os botões da jaqueta beirã. E como era nelas
que Deus lhe pusera o sentimento, teciam ainda, teciam sempre
uma meada de amarguras, superstições, saudades, ânsias e
mágoas, numa grande confusão de desvairo.
Depois, sob a luz vermelha da lanterna que ensanguentava a
parede, pouco a pouco, instintivamente, com um grande pasmo nos
olhos cor de fel, o fadista, como se procurasse a guitarra, caiu de
bruços, sem uma palavra, porque, mais do que nunca, a dolorosa
canção de amor em que vibrara a Trigueira, lhe obrigara a boca
torta, em vírgula, ao silêncio das emoções estrangulantes.
Coimbra — 1920.
Quando as ciganas passam...

— Repara bem lá para baixo... Assim, vistas através da


névoa, as mulheres e as crianças que recolhem à aldeia têm um
feitio quase bíblico, um certo ar nômade, como um rebanho
atarantado.
— Elas vêm a passo... E é muito triste, chega mesmo a
apertar o coração, entrar em casa como elas entram... Acender os
candeeiros sobre as mesas toscas, diante da Senhora dos
Poveiros... E, alta noite, ter ainda os olhos muito abertos, firmes no
teto... E isso porque os maridos, os filhos e os irmãos acabam de
partir para a pesca, num grande bando silencioso. Já nem se lhes
pode distinguir a fieira sangrenta dos barcos com as suas grandes
velas coloridas...
— E eles vão para longe?
— Sabem lá?!... Vão a esmo... Obedecem a uma tentação...
— Deve ser bom seguir assim, sem rumo, sobre as águas do
mar, alta noite, em grandes bandos, silenciosamente, com a
gravidade religiosa das superstições...
— Partir...
— Há muita gente, muito coração que parte só para o
mistério augusto de ter saudades...
— Eu às vezes tenho o romantismo pueril de querer ser
poveiro, como António Nobre...
— Os poveiros... Às vezes, no alto-mar, vão todos calados...
Outras vezes, algum canta; e os companheiros ouvem... Mas
geralmente o mar abafa, espiritualiza, retalha os trechos da
canção... E é estranho... Têm um sabor profundamente amargo
essas rajadas arrastando um pedaço de voz, sobre as águas, dentro
da noite... Parece até quando a gente ouve uma voz isolada, assim,
vinda dum ou doutro barco, parece até, sei lá! uma coisa religiosa,
de mau presságio às vezes; outras vezes trazendo esperanças...
— Tu sabes histórias de alto-mar? Há muita poesia sempre
nessas aldeias do litoral... Os promontórios, os rochedos, e esses
cemitérios cavados na pedra procuram em vão chamar os filhos
pródigos que um dia partiram e nunca mais quiseram voltar...
— Ouve lá... Senta-te aqui. Desta nesga decerto podes ver o
porto, o cais de madeira podre, a massa pardacenta do farol secular
e o trecho escuro das casas e da capela no vão das penhas... Já
todos recolheram. A esta hora rezam, nas coroas luzidias, pela
segurança dos que se foram à ventura das águas... Deve haver
mesmo alguém que chore... Chorar, quando a saudade nos dá um
feitio místico de desesperados, é ainda um grande consolo... Ouve
lá... Deu-se isto, meu amor, há muitos anos. Havia aqui, na aldeia,
numa viela, um homem cujo feitio obrigava à simpatia instantânea.
Era moreno, queimado do sol, e andava sempre sozinho, como os
maníacos... Era sempre alta noite, mormente se havia prenúncio de
borrasca, que ele saía para o mar. Quando voltava ia sempre pagar
os votos que fizera nas águas...
Mas a sua rede, a sua boa rede, vinha sempre vazia,
dobrada junto ao púcaro e às cordas.
Mesmo de longe se podia saber quando ele partia ou quando
ele voltava... porque o seu barco tinha uma vela triangular, tão
vermelha, tão viva, tão palpitante que os homens da terra o
apelidaram a “Asa de Sangue”...
Um dia, na taverna, estavam todos a combinar uma saída
para as bandas das ilhas. Ele também estava, mas só ouvia; não
falava, fumando o seu cachimbo de espuma.
E vai, então, começou-se a ouvir uma canção bárbara, cujas
palavras não se entendiam...
— As ciganas que passam... — disse um velho...
— As ciganas... Coisa rara, cá na costa, observou alguém.
— Estão na terra, há três dias... Decerto vieram roubar e ler
a sina das pessoas... — disse o taverneiro.
E as ciganas passaram cantando, com os filhos pela mão e
os jumentos e os carros atrás, numa colônia triste de boêmios
sinistros.
Tinham roupas bizarras, de cores vivas, os xales lhes
cobriam as pastas negras dos cabelos, apenas deixando ver os
brincos em disco. Traziam todas um ar atrevido na cara brejeira, e
respondiam com blasfêmias sonoras aos que as apupavam. Apenas
a Tuberculosa, uma trigueira de jeito adunco de ave mal-agourenta,
apenas essa sorria e pedia para ler o passado, o presente e o que
havia de vir... Mas ninguém quis. Apenas ele, sabes? ele apenas
estendeu a larga mão leal, firme, com tatuagens no dorso.
E a Tuberculosa olhou, seguiu com a unha os riscos da mão,
olhou, olhou e começou a tossir e a chorar...
— Que é lá, isso, mulher?...
E a cigana, diante dele, com a saia muito tufada, em dobras
iguais, de cores vivas, tornou a olhar, com uns olhos muito baços, a
polpa da mão leal, firme aberta entre os seus dedos aporcelanados
de balcânica vagabunda...
— “Vejo que aquela que tu amas, pobre, humilde e linda
como as santas pobrezinhas das capelas, será em breve coroada
princesa...”
Todos riram...
E as ciganas passaram, cantando, com os filhos à volta,
seguindo, à beira do mar, sob o sol do verão, como uma romaria
que Zuloaga pintasse.
À noite, os homens, com os seus oleados e capuzes,
embarcaram. O último a seguir na “Asa de Sangue” foi aquele cuja
bem-amada, “pobre, humilde e linda como as santas pobrezinhas
das capelas, seria em breve princesa...”
E eis que, ao vir da madrugada, quando dos promontórios
cor de limo escorrem fios de água, uma vela vermelha, quase viva,
quase palpitante, dobrou a ponta do farol, e veio parar junto ao
molhe de madeira podre.
Mulheres e crianças desceram, com suas coifas brancas,
imaculadas, saindo das vilas humildes e das ladeiras escuras... num
grande atropelo, porque a notícia do prodígio tinha corrido desde a
praça do chafariz até às congostas medievais do fim da rua maior.
O poveiro, com o olhar dos que enlouqueceram, arrastava a
sua rede para terra... Era a primeira vez... E, arrastando-a, ele tinha
os cabelos numa grande confusão, caído em vírgulas, e, em
trejeitos trágicos, gritava que se arredassem todos, que ninguém lhe
bulisse no tesouro...
Porque, dentro da rede, daquela boa rede nova, virgem de
pescarias, uma grande coroa real, uma grande coroa aberta,
resplandecia com as suas flores-de-lis douradas e uma fieira de
aljôfares à roda do ouro maciço...
Depois, ajoelhado na areia, com os braços em cruz, o
homem começou a chorar, num grande estupor. E a paixão
assombrada de todos era tamanha que as horas passaram...
passaram...
Por fim, cambaleante, com um fulgor de pedra preciosa nos
olhos estupefatos, o homem foi em busca de sua bem-amada,
abrigando no peito a coroa bizantina que o mar lhe dera... E a
multidão o acompanhava, majestosamente.
— A cigana adivinhou... A Tuberculosa... A Tuberculosa...
E chegando ao pé da Porta Romana, aquela que era pobre,
humilde e linda, foi cingida sobre a cabeleira negra e abundante,
com a coroa real, embora trouxesse no corpo um vestido de sirga
muito asseado. Ninguém entendeu, porém, o símbolo que o mar, o
grande mestre, quisera mostrar... Foi apenas, dois dias e duas
noites depois que se entendeu qual era o reino, o grande reino, o
reino augusto que aquela coroa representava...
... Porque, ao fim de dois longos dias e de duas longas
noites, o poveiro, ainda alucinado, havendo cismado em partir à cata
de mais tesouros e baixelas reais, foi pescado à rede, pelos homens
da “Arrojada”.
Estava ainda, apesar de morto, com um grande ar de
estupefação, um braço todo decomposto, com manchas nas órbitas
roídas pelos peixes. Tinha chagas verdes, infectas. Apenas a mão,
firme, leal, em concha, trazia ainda intactas as linhas do destino...
E, por acaso, conheces tu, meu amor, reino maior, mais
poderoso, mais antigo, mais inabalável, mais augusto do que o reino
da dor?... Todos nós, mesmo os humildes, temos na fronte a
glorificação constante da nossa hierarquia de sofredores de raça
legítima...
Paris, janeiro, 1921.
À maneira de Verlaine

— Est-ce que par hasard t’aimes pas la noce, toi? — E como


eu lhe dissesse que não, longamente, meneando a cabeça, ela
continuou a sorver com voluptuosa lentidão o veneno esverdeado.
Depois, indiferente, apoiando o queixo nas mãos, começou a
cantarolar, rolando os olhos amendoados pelo salão...
— Je l’ai tellement dans la peau — c’est fou! — je n’en peux
plus, — j’en suis au bout!...
Depois ajuntou: Il y a pas mal d’idiots, ce soir!...
E com ar de infinito desdém mostrou com um curto gesto de
cabeça a atmosfera pesada de luzes e bafios.
Ce vieux marcheur, la bas, a gauche s’est foutu dans une
chouette. Et vous, est-ce que vous aimez jouer?
Eu concordei em silêncio...
Ela então, com uma delicadeza que beirava ao sarcasmo,
pediu licença, ergueu-se foi conversar com um outro qualquer. Notei
depois que ambos falavam olhando-me com piedosa atenção.
Achei-me ridículo, sem jeito, aparvalhado; quis sair, mas não
tive ânimo de atravessar a sala. Todos me olhariam decerto,
zombando do meu ar grotesco e estúpido...
Pedi, então, qualquer cousa...
Uma orquestra enchia o ambiente de novidades canalhas
com atordoante profusão de gritos, urros e panteadas. E, ao centro
dum estrado uma silhueta alquebrada de mulher, saracoteava
cansadamente, numa equívoca imitação de bailado clássico.
Ao pé das janelas que deitavam para a noite silenciosa um
agrupamento mesclado jogava em torno de um pano verde. E o
cachoeirar das fichas escorria como uma tentação pela sala afora,
indo entristecer, lá embaixo, nas escadarias úmidas os mendigos e
boêmios que esperavam a caridade frívola dos tresnoitados felizes...
Eu comecei a analisar as mulheres. Mas o veneno
esverdeado acabando, estalei os dedos, chamei o garçom
circunspecto e pedi outro.
O homem curvou-se e trouxe outro copo; e com o austero
respeito dos interesseiros, indagou se eu não queria conversar com
a Estouvada.
— Avec qui?!
— Avec Suson! On l’appelle la Piquée, car elle a l’air canaille
même avec ses beguins.
Respondi que não, explicando: J’suis fauché. J’ai pas d’
péses...
E notei vagamente que a minha cabeça começava a
tontear...
— Mais outro... — E comecei a sorver o terceiro copo...
Pareceu-me então que, como os globos elétricos a minha cabeça
atraía mariposas pois três mulheres lânguidas, pedindo licença,
sentaram-se comigo...
— Bebam à vontade... minhas filhas!...
Elas riram do meu estado. Beberam licores, com estalidos de
língua, cochichando, olhando-me com profunda brejeirice, ágeis,
como ratinhos brancos. Depois, calmamente saíram com um rapaz
elegante do Brasil.
Um sono esquisito me pesava sobre as pálpebras e eu só
percebia de quando em vez a gargalhada clownesca de um velho
dançando com uma criatura que podia ser sua neta...
Sem saber por quê, comecei a ficar alegre, a provocar um
estafermo que cochilava diante de mim, e que abraçava garrafas e
copos numa atitude dolorosa de quem quer esquecer alguma coisa
triste.
Foi então que a Estouvada, abrindo e fechando o leque
chegou até à minha mesa e me perguntou alguma coisa secreta,
fixando os olhos amendoados no meu copo de absinto...
— Mais bien sure!...
E, diante da minha figura verlainiana começou a beber aos
goles, o resto do meu copo, tomando muito o gosto.
Sacudindo-me depois, com ambas as mãos, exclamou com
uma gargalhada de escândalo:
— Eh! Dit donc!... On va danser un p’tit peu; j’ai le cœur gros.
E, como se a fosse estrangular, agarrei-me a ela, e, como
um gnomo piedosamente ridículo, fixando-a, urrando, sem direção,
sob a chacota unânime do mulherio, o arranhamento desbragado da
orquestra chula e a irônica compostura dos garçons, dei três voltas
cambaleantes pelo salão...
Um punhado de cínicos formou um cordão em torno de nós
dois e, obedecendo exageradamente ao compasso da orquestra,
puseram-se todos a bater palmas, estrepitosamente, em arrancadas
ocas, iguais e reboantes...
Depois perdi a noção de tudo... Apenas me lembro que um
homem de casaca verde me entregou brutalmente o chapéu e a
pasta dos meus versos, dizendo:
— M’sieur! On va vous congédier; vous vous êtes trompé
d’adresse. Nous ne sommes pas au Café de La Rotonde...
E desci aos tropeções a escadaria de degraus atapetados.
Em cima, no patamar, a Estouvada ria, ria a perder, atirando-me às
costas, numa assuada frenética cravos murchos e guardanapos
tintos de vinho... gritando numa liberdade jocosa de montmartroise a
son aise: — “Que t’es ridicule mon vieux! en voulant faire ton petit
Verlaine!” E lembrava, assim, dentro da sua creation Magdaleine de
seda, uma ilustração obscena de Hérouard, na Vie Parisienne.
Começava a amanhecer. Chovia. Desci Montmartre e Vichy.
Comprei castanhas assadas junto ao Métro e continuei, pensando
em Rimbaud e em Jehan Rictus até a Etoile, subindo o boulevard de
Courcelles. Sentei-me entre os mendigos e boêmios que esperavam
a caridade frívola dos tresnoitados felizes... Abri a minha pasta de
versos simbolistas escritos em parigot, e distribuí com serena
fidalguia os meus sonetos e noturnos pela sarjeta, soltando-os,
como uma revoada, sobre a lama.
Nenhum daqueles mendigos quis o meu tesouro...
Então, sob a chuva finíssima que me empapava os ossos,
segui pela calçada afora, vacilando, como um ponteiro que
marcasse fielmente, sobre a fuligem do destino o traçado de febre
da minha vida vagabunda...
Paris — 1921.
O segredo

Ela estava diante de mim... Sofria a influência do meu olhar e


do meu silêncio; tinha os olhos úmidos, o peito anelante e todo o
seu feitio era uma tácita confissão de amor.
Eu, inclinado sobre a velha mesa, entre livros, bronzes e
revistas, o cinzeiro cheio de pontas de cigarro, sofria também o peso
daquela situação. Raiava a madrugada e, através dos vidros da
janela a minha vista se encantava sobre o parque, lá embaixo, com
os tapetes de grama, os repuxos trêmulos e as aristocráticas
alamedas de saudosas perspectivas.
E continuei a fumar, nervosamente.
Então, com uma voz quente, muito devagar, sem tirar os
olhos do chão, como se falasse consigo mesma, ela começou a
ponderar:
— “Amo deveras... sim, com todo o meu corpo e com toda a
minha alma... Mas a grandeza deste amor, o fogo que o alimenta e
que o purifica não é nem a volúpia dos transportes mútuos nem a
tenacidade dos sentimentos... O que dá ao nosso amor um profundo
encanto, é o segredo!...”
“Sim!... O segredo!... Porque ninguém sabe, ninguém
calcula, ninguém imagina... E que estranho que é passar um pelo
outro, entre os mais silenciosamente, cerimoniosamente, e sentir,
aqui, dentro do peito, a alegria de guardar avaramente o segredo...
Estarmos ambos em sociedade e sentirmos que os corações batem
apressados, que um rubor nos cresce ao rosto quando nos
entreolhamos, sem que ninguém perceba.”
“E que feliz que, é, como faz bem, como alivia, depois,
secretamente, com precauções infinitas, pensar no misterioso
encontro.”
“Como dá sensações bizarras esconder a imensa riqueza do
nosso pobre amor... E, em seguida, que magnífico prazer cair um
nos braços do outro, longe do mundo, sem o testemunho das
cumplicidades teatrais...”
“Não!... Decididamente não aceito a tua proposta. Olha-me,
bem, assim! Não achas que tenho razão?! Acredita-me; não é medo
de quebrar a situação que tenho. Pouco me importa o escândalo.
Contigo fugirei porque ser fiel, obedecer-te cegamente é coisa mais
que fatal; eu sou a tua pobre companheira, vencida, que te ouço
sem raciocinar, que te quero dum modo alucinado... Mas... Pensa
bem, pondera, segue o meu pensamento... — Haverá comparação
entre os beijos de agora, rápidos, furtivos, ardentes, esmagando os
lábios, pobres beijos raros, ousados, que deixam um séquito imenso
de recordações estonteantes, e os beijos que tu propões, beijos de
toda a hora, beijos calmos, que um dia serão um hábito, uma nova
função da nossa vida?!...”
“Pode acaso haver comparação?! Não sentes um imenso
prazer em esperar? E quando esperas e eu falto porque não foi
possível fugir até os teus braços um minuto, dize, não há um secreto
sofrimento que se espraia por todo o teu ser quando esperas em
vão?! E quando me vês passar?! E quando me segues de longe?!
Quando procuras adivinhar onde estou? Tudo, tudo isso não é bem
um martírio e, ao mesmo tempo, um gozo? Há nada melhor que
esse alvoroço de sentidos, essa ansiedade permanente, esse eterno
estado de inquietação que enche a alma dum constante desejo?!...”
“Não! Não virei morar contigo! Não fugirei de casa, não
obedecerei ao teu pedido... E é melhor assim... No dia em que me
tivesses ao dispor da tua vontade, esse dia seria, tenho a certeza, a
morte do nosso amor. Eu seria outra para ti. A regularidade de vida,
os hábitos de todos os dias, as pequenas intimidades, o convívio,
tudo converteria o nosso grande afeto num monótono vício...”
“O sabor do nosso grande segredo, o medo que nos
acompanha no pecado, a cegueira que nos turva o alcance da
nossa loucura, tudo isso cria ao redor da nossa paixão um não sei
quê de ânsia que oprime, que sufoca, que inebria...”
“Quando saio de casa em direção ao teu studio sinto
qualquer cousa me estrangular. Quando subo os degraus, e penso
que tu estás aqui, passeando pela sala, a minha espera, sem saber
se virei ou não, quando volvo o rosto temerosa que alguém me haja
seguido, palavra de honra, o meu coração bate, o ar me falta e
então eu penso comigo, como é dolorosa a felicidade. Caio no teu
peito; aninho-me na tua amizade franca; conto-te coisas sensíveis,
ouço-te, acaricio-te, olho o relógio, perscruto a noite, e, com uma
grande dor na alma, com uma angústia que só a palavra saudade
define, desço os degraus, atravesso os jardins onde os repuxos
evocam cenários de drama, passo o portão de grades solenes,
abaixo a cabeça e volvo à casa com o meu segredo...”
“Durmo com ele... e com ele acordo... Bem vês; eu não
posso fazer o que me pedes.”
Eu ouvia aquelas reflexões todas, sem dizer palavra.
E ela continuava, com a unção piedosa da sua voz quente,
as mãos, em gestos calmos, amparando os períodos persuasivos.
Lentamente, com uma ruga na testa, ante a claridade da
manhã que chegava, comecei a concordar tacitamente.
E, com o espírito calmo, os olhos sobre os móveis austeros
da biblioteca, recordei, por incidência, certa mulher de cabaré, loura
e irrequieta que, numa noite longínqua da mocidade me contara a
sua vida, diante de uma taça de absinto. Ela era triste de feitio, tinha
olheiras de morfinomaníaca, e falava também com os olhos no
chão. E a sua vida era um romance banal de todos os dias. Um
homem. Uma fuga. Uma leviandade. Mesquinharias. Tristezas.
Amor. Ódio.
Com a ruga na testa, o cigarro no canto da boca, fui
ponderando sobre as consequências de um passo... Compreendi a
esmo, o peso das responsabilidades. Vi, num vago delírio, figuras
de mulheres rolando bêbadas de prazer, à roda de uma luz, como
libélulas... Tornei a ver a mulher de olheiras violáceas, de vestido
negro, inclinada sobre o absinto, falando com amargura da sua vida,
ou talvez mentindo para emocionar o meu feitio pateta de
romântico...
Disse então, erguendo-me:
— “Bem, seja como queres. Peço-te perdão da proposta que
te fiz... Ouso mesmo dizer-te mais. Se por ventura um dia te
arrependeres, se achares que não deves voltar, não te quererei mal.
Ao contrário, admirarei com um profundo respeito a virtude da tua
alma e a fortaleza do teu ânimo. No fim de tudo, minha adorada
amiguinha, o amor é uma grande fatalidade, absorve as
consciências e como os grandes sacrifícios faz vítimas. Há sempre,
no amor, um ser que se torna sublime e outro que se rebaixa. Um
ascende, mercê da grande transformação purificadora e o outro
desce porque apenas cevou um instinto. Entendes?!...”
— “Sim.”
— “Vais?”
— “Adeus.”
— “Mas... tornas; sim, tu tornarás?!...”
— “Sim, tornarei. Pouco me importa a mim o que dizes sobre
o amor. Tenho confiança nos teus sentimentos. Creio na lealdade
dos teus olhos; creio na lealdade dos teus grandes olhos que não
mentem porque têm a serena doçura das fontes. Tu choraste, hoje,
quando me esperavas. E, chorar, quando se ama, sofrer, no amor, é
ser leal... Voltarei. E o grande segredo continuará entre nós ambos,
como uma grande teia...”
Abraçou-me... Olhou-me bem no fundo dos olhos. Baixou a
cabeça; puxou a gola do manto sobre o pescoço de garça,
atravessou a sala, esboçou no ar, como uma flor exótica, um gesto
de adeus, desceu os degraus, atravessou o jardim com a sua
silhueta elegante; abriu o portão de grades solenes, e apressou o
passo porque o dia era agora claro de mais... e aquele grande
segredo, como as pedras preciosas, de brilho discreto, só se dava
bem na claridade tênue das noites caridosas...
Paris. Dezembro — 1920.
A taça de champagne

Ficou muito branca, embora estivesse pintada de carmim;


notei que um tique doloroso, como às crianças quando querem
chorar, lhe repuxou os lábios. Olhou-me com um estupor que ao
mesmo tempo era uma repreensão; baixou a cabeça e não disse
palavra.
Só notei que os seus olhos estavam cheios d’água, depois,
muito depois...
Disfarçou, vendo que eu a encarava; enxugou as lágrimas e
continuou a beber. Repentinamente, porém, dois soluços a
sacudiram. E, então, algumas pessoas nos olharam. Foi pior;
perdeu aquela atitude forçada e constrangida; apertou entre as
mãos a cabeça e desatou num pranto calmo.
— É isso bem verdade? Realmente partes?...
— Sim; volto ao meu país.
Olhou então o lenço úmido de lágrimas e exclamou:
— Inda, ontem, assistindo, no Ginásio, à “Ternura” de
Bataille, eu estava longe de experimentar a verdade daquela frase:
Lágrimas e perfume: eis toda a mulher!
E sorriu com uma tristeza muito tênue. Depois continuou:
— A bem dizer tu não tens culpa. Mas repara em como é
sumamente estúpido prender-se a gente de corpo e alma,
cegamente, como num naufrágio, a alguém que depois... Entendes,
não?!... O que eu sofrerei, bom Deus... Que dias... e que noites...
A situação antiga que voltará... O cabaré... A mesma mesa, a
mesma luta, naquela incerteza que é ao mesmo tempo a nossa
ilusão de felicidade... Que é que eu vou fazer doravante? Voltar ao
que era? Mas tu já me tinhas levantado... Eu já não saberei mais
respirar aquele ar, novamente...
E arregalando muito os olhos, deixou-se ficar, pensativa:
Depois tomando-me as mãos, perguntou:
— Eu queria saber uma cousa. Bem vês: há ano e tanto que
dura a nossa intimidade. Esses dias em comum, o almoço e as
pequenas futilidades em teu apartamento; as meias que eu te
remendava. Os gritos com que, vindo de manhã do Hospital, com
teus livros, me acordavas zangado por eu dormir até ao meio-dia,
sem te lembrares que antes de te conhecer eu dormia até às quatro.
O jantar, em casa, com os teus amigos que gostavam de mim. A
corrida ao Bon Marché e ao Printemps, a procura duma simples
gravata, só para te agradar; as noites de teatro e as de cabaré onde
sempre amuavas desconfiando que eu olhasse algum antigo
camarada; os passeios em fiacres miseráveis em que conversavas
ora com o cocheiro, chamando-o mujique, Tolstói, e ora com o
cavalo lastimavelmente magro, chamando-o “meu irmão, o burro”, à
maneira de S. Francisco. As tardes em que eu te ia esperar no
saguão da Escola, no bairro latino, à saída dos teus cursos; as
noites ao longo do Sena, sob o luar, desde a Concórdia e o Palácio
Bourbon até Saint-Michel; os versos que fazias à Catedral e ao
Louvre, sentado num banco, alta noite enquanto eu cochilava, com
frio. Os passeios pelas livrarias do bairro latino, falando-me de
simbolistas; dum tal Verlaine, de... de Moréas, de Rimbaud, de
Samain, de Rodenbach e Verhaeren... A semana em que visitaste
os museus e as galerias, sério, calado, em êxtase, parando hora e
tanto em cada sala e proferindo juízos críticos que eu não entendia.
Os dias e as noites de inverno, em casa, de pijama, a estudar os
teus tratados junto ao abajur enquanto eu lia Paul Géraldy... As
visitas inesperadas, gente da tua terra com quem eu a princípio
implicava por falarem diante de mim uma língua que eu não
entendia... Tudo, tudo isso criou entre nós qualquer cousa que não
se pode quebrar assim. Eu já me vinha acostumando a ter remorso,
asco e pesadelo da vida de Montmartre. Oh! Eu não posso voltar ao
que era!... E tu, tu te vais embora... Sou na tua vida um episódio que
passou... que será esquecido... Por isso quero saber uma cousa: se
guardarás de mim uma impressão forte. Se pagarás o pouco de
ternura que em mim havia e toda eu te dei, com essa impressão
duradoura que na tua língua, segundo me ensinaste, se chama
saudade! Terás por mim de quando em quando, ao menos uma
lembrança que te faça parar... assim de olhos postos no passado,
com esse sentimento respeitoso com que se abrem livros onde há
flores secas?! Algum dia, na tua vida por qualquer acaso, por um
pequeno nada, porventura, algum dia me desejarás?!...
— Farei todo o possível por te esquecer...
Foi tão repentino, tão vivo o modo com que ela me fitou, tão
claramente lhe vi no rosto um trecho sofredor da alma ansiosa que
naquele corpo de há muito se vinha purificando, que uma emoção
fortíssima me atarantou. E a esmo, pausadamente, dando às
palavras a retidão dos gumes, repeti:
— Farei todo o possível por te esquecer. Tu pretendes
ocupar um lugar na minh’alma que te não pode pertencer. Porque,
afinal, é bem pequeno o coração da gente, tão pequeno (e tão
grande!) que nele não cabe mais de um amor!... E eu muito sofreria
se tu quisesses, por menor que ele fosse, ocupar o lugar que há
muito sempre pertenceu a alguém. Mas... não falemos mais nisso...
De novo os seus olhos se encheram de pranto. Pôs-se a
fumar e a beber, com esse silêncio imóvel que certas viciadas de
cocaína têm, ao olharem vagamente o próprio sonho.
— Então tens um grande amor? Ah!... — E com ternura,
ofegando: — É linda? mais linda do que eu?!...
— Mais linda, para os meus olhos, do que todas as mulheres
que eu tenho visto neste mundo que ando correndo. Mais linda do
que todas as mulheres dos romances e das poesias... Mais linda do
que as Madonnas todas das telas célebres que ainda ontem vimos...
Mais linda, muito mais linda do que tu!...
— Loura ou morena?
— Loura.
— Mais nova do que eu?!...
— Mais velha, um pouco.
— Ah!... Casada?...
— Isso não te interessa...
— Então é solteira...
— Sim. É quase uma criança e é quase uma mulher... O
nosso amor, porém, é já tão antigo! Nasceu conosco quando,
pequenos, aprendíamos a ler e a rezar... E conosco de há muito
vem crescendo. Um amor delicadeza, todo igual, como duas
crianças gêmeas, de tão parecidas e de tão confundíveis... Se não
fosse profanação mostrar-te-ia o meu cofre de cartas. Há as com
erros de caligrafia, infantis, escritas há anos, assim como também
as há ardentes, sinceramente ardentes, escritas há meses, há dias
talvez...
— E tu a queres muito?
— O nosso amor é gêmeo... E muito diferente do que tu
chamas Amor... No teu entender e na tua vida, o amor é uma
inesperada sede que absorve principalmente os corpos mesmo
quando espiritual. Começa num capricho, num béguin. Há
coincidência de simpatias; os hábitos se irmanam. Há paixão que é
cevamento de instintos; pouco a pouco, depois quando os
sentimentos se nivelam num estado normal, já as almas se
impregnam, se prendem. Mas considera lá nesse amor de
inesperado encontro, amor-camaradagem, amor-hábito, e vê a
diferença... Pondera, calcula, imagina e vê quão diferente não será
ele desse amor que tu não conheces...
Amor imenso que traz em si o peso de todos os dias e de
todas as noites de esperanças, sacrifícios e aperfeiçoamentos.
Cada hora que passa a alma de cada um se purifica para merecer a
alma do outro. Cada palavra que um ouve do outro, cada
pensamento que um pressente no olhar do outro é guardado
avaramente e cada dia desejado como o pão que o pobre pede a
Deus cada dia... Assim é que ele é... Mas mudemos de assunto.
Não quero que falemos mais nisso...
Ela continuou no êxtase do seu estupor, olhando vagamente
a forma com que as minhas palavras lhe passavam diante dos
olhos.
— E quando partes? — perguntou.
— Dentro de dias.
— É longe a tua terra?!...
— Muitos dias de mar, só mar e céu...
— Mar e céu... — repetiu ela, esboçando um gesto
estilizado. Quando te fores, eu à noite voltarei com minhas
camaradas, a Suzon, a Pervenche, a Grande e a Margot, ao Rat-
Mort, a beber no copo que os outros pagam, cerimoniosamente com
uns, canalhamente com outros. Senhores de idade no Bataclan e
nos Bouffes nos dirão seus vícios perguntando se
condescendemos... Cada dia acordaremos ao lado dum estranho
que será ou bom, ou mau, ou indiferente. Uns nos darão joias,
outros pancada!... Ora passearemos pelo Bois na Delage dum novo-
rico, ora iremos até a barreira, em metró. E estaremos, ora no chá
do Claridge, ora num bistrot de Richard-Lenoir. No Meurice
dançarão conosco uma noite; outras dançaremos brutalmente a
valsa chaloupée nos braços de boxeurs e rufiões da Praça da
República. Inesperadamente uma manhã iremos parar no Hall do
Carlton, em Nice, por favor e amizade levadas por algum poire;
será, porém, mais comum pararmos num cais, no Havre, impelidas
por algum tipo agenciador!!!
— Mas por que não vais trabalhar?
— Por que é que todas nós, desde Montmartre e Pigalle até
à rue Royale, nós do Scherazade e as desgraçadas do Olympia e
do Tabarin não vamos trabalhar? Isso nem é pergunta de psicólogo,
meu caro!... Nós, nesta vida, seguimos um certo fatalismo. Vamos à
mercê duma força que nos arrasta... Às vezes paramos, arrimadas a
alguém, mas logo tornamos à correnteza. Umas encontram quem
lhes pague vestidos no Lanvin, capas no Poiret, perfumes no Caron,
e carros no Vanden Plas. Mas um belo dia voltam, voltam à roda!
Outras arranjam contratos em revistas e chegam a estrelas de
boîtes, mas um belo dia voltam, voltam à roda. Eu, por exemplo,
volto, sem grandes mudanças, sem grandes ilusões, mas volto... —
Erguemo-nos. Tomamos um carro, como esses que eu outrora
escolhia para ir ao Blois, com um cocheiro de máscara de Ibsen ou
Tolstói e um pobre cavalo humílimo de grandes olhos nostálgicos.
Vamos calados. Na praça da Ópera, no Café de La Paix, no
boulevard da Magdalena, uma multidão noturna enche os terraços,
sob os clarões de combustores. Nos Campos Elíseos descem e
sobem, da Concórdia ao Arco do Triunfo e vice-versa, raros tipos
encapotados ao longo das calçadas ou em táxis rouquenhos,
porque é a hora de Mistinguett, de Sacha Guitry, de Gémier, de
Chevalier, dos teatros, dos concertos, das revistas obscenas, dos
cercles, dos dancings.
O Grand Palais e o teatro Marigny, cercados de sombras de
parque têm silêncios absortos sob o céu constelado e, ao fundo, o
obelisco vara a calma da noite, todo branco de luar, como se fosse
de marfim...
Voltamos. Atravessamos o Sena. À esquerda, longe, o corpo
de inseto da torre Eiffel, negro, com seu travejamento de ferro.
Descemos; à direita, as Tulherias cheias de silêncio, o Instituto
negro, carcomido. O Louvre, em alas de pedras que se vão
secularizando... As pontes, velhas amigas de Verlaine, e cujas luzes
encarnadas escorrem sobre as águas turvas. A Cité. Um trecho do
bairro latino onde sofreu Baudelaire e onde morreu o pobre Wilde...
A massa sagrada da Nossa Senhora de Paris, na ilha solenemente
escura. Descemos do fiacre. Andamos a pé, em torno da Catedral;
aqui e ali passam pares em intimidades. E a catedral, envolta pelo
nevoeiro de luz do Sena, toda a recebo dentro dos meus olhos,
empolgantemente. Damos volta à praça onde Esmeralda com a sua
cabra bailarina seguia o tilintar dos guizos do saio de Quasímodo.
Entramos em pleno coração do bairro latino, com seus cafés de
artistas, hotéis com luzes eloquentes, becos característicos,
escadas, praças, fontes e legendas. Vamos até Saint Germain,
silenciosamente. E súbito, tomando de novo um carro, ordenamos:
— Montmartre...
Montmartre... Depois de Clichy quanto mais perto do
Sagrado Coração, cada rua, cada ladeira cheira à boêmia, esse
cheiro misto de mercado e de cabaré... É uma cidade, um trecho de
Sodoma, Gomorra, Pompeia e Lesbo, dentro de Paris. Tem a
fisionomia antiga, as ruas estreitas, tortas como Suburra. Mulheres
ao lado de frutas e cestas de peixe... Mulheres e estrangeiros.
Restaurantes ao lado de restaurantes. Cabarés ao lado de
cabarés... Álcool. Prostituição, escravatura branca, cocaína, luxo,
miséria.
Entramos. Dançam, gritam. Bebem. Falam as línguas da
torre de Babel. Bebemos. Ela procura esquecer... Entra de novo no
seu elemento; a princípio se sente mal. Lembra-se talvez dos
trechos da sua vida vagabunda, por ali, a esmo. Recorda misérias
alongadas e felicidades fugazes. Vêm-lhe à mente as madrugadas
sem ninguém... ao passo que outras saíam de braço dado com
americanos bêbados. Às vezes, por causa de pequenas dívidas, de
rixas, de ódios, de ciúmes, era preciso esconder de alguma que saía
ou que entrava.
Mas logo passa o mal-estar. Champagne. Ela começa com
aquele olhar trágico das estrelas do Grand Guignol; põe-se a falar,
sem nexo. É o primeiro estádio da embriaguez. Mais champagne...
O seu olhar agora é torvo, morto, cercado de olheiras artificiais; a
sua voz lenta, intermitente, tem qualquer cousa que lembra
balbucios de criança se desculpando; o seu perfil de gárgula é o tipo
estéril, o tipo Paris das ilustrações de Hérouard. Ela soma, em si,
todas as classes, ordens e subtipos da mulher francesa. Quer
dançar. Mas não sei por que eu já não vejo bem as cousas. Há
gente que me olha piedosamente. Bailo sozinho com as mãos, as
pernas e as pálpebras... Tremo as espáduas, como num shimmy.
Canto, soltando dós de peito, cavernosos; ela, ao lado, pensa em
qualquer cousa triste. Sacudo-a. Champagne!... Quebro o copo,
faço sorrisos canalhas a outras mulheres. Gigolôs me provocam por
causa disso, e eu não me importo, bebendo fidalgamente com
gestos de Lyda Borelli.
Saímos. Os garçons me chamam de Monsieur le Comte e
por isso não lhes dou gorjetas. Converso com o cavalo sonolento
dum fiacre. Chamo-o de “meu irmão, o burro” como São Francisco.
Dou-lhe de comer, na minha mão, bombons que furtei às cocottes.
Alguém me ajuda a subir para um táxi de dois cilindros.
Em casa, diante do espelho, despindo-me, faço caretas a
mim mesmo, cumprimentando-me e despedindo-me de mais uma
noite da minha mocidade livre... Entanto, onde está ela? Procuro-a.
Arruma as suas cousas em duas malas, nervosamente. Despe-se.
Deita-se apenas vestida dum soutien-gorge paradoxal... No seu
corpo que Géraldy e Rictus cantariam há vestígios dos sete pecados
capitais. Na sua respiração há fadigas e nevoentas saudades de
vida burguesa e doméstica. Eu me atiro sobre as vinte almofadas do
divã, tonto, com ânsias esquisitas. E durmo, de cuecas, fartamente,
como um boxeur cansado, sem o remorso primitivo de pensar que,
longe, alguém me julga estudando, dia e noite...
De manhã essa mulher parte... a caminho do seu destino
donde eu a tinha procurado desviar. Parte, com os olhos cheios
d’água e de olheiras artificiais, mas sem atitudes dramáticas. Parte e
sofre sem, todavia, ter sido na minha vida mais do que uma taça de
champagne.
Paris. 1921.
Oscar Wilde

À hora combinada estávamos os dois à porta do Hotel


d’Alsácia, n.º 13, num canto do bairro Latino.
Entramos calados, de chapéu na mão como quem entra
numa capela, onde a meia-luz e o misticismo criassem um
respeitoso e enorme silêncio.
— É aqui.
Batemos à porta. O violinista abriu, deixou passar pelo vão a
austera cabeça de eslavo, sorriu, saudou-nos. Entramos. Sentamo-
nos todos ao redor dum piano Gaveau. Silêncio. Uma luz à
esquerda. O quarto, retangular e baixo, com as paredes brancas
recortava num trecho do mundo, um pequeno trecho deste mundo,
apenas, como as celas dos santos e as prisões dos criminosos
suficiente para se esperar a morte. Uma Salomé de Regnault, presa
à parede, diante de nós, sorria com a salva de ouro e o cutelo
luzidio sobre os joelhos. Pouco abaixo, no lugar onde havia um sinal
negro, na mesma parede, alguém tinha posto um ramo de loureiro.
Mais nada. O violinista, com a cabeleira sobre os ombros, sorria
sempre; a pessoa que estava diante de mim olhava o chão. E eu,
com o cenho franzido, o olhar longe, pensava nesse extraordinário
Sebastião Melmoth de Berneval, que morrera neste quarto, na noite
glacial e longínqua de 30 de novembro de 1900, num começo
aziago de sexta-feira.
“— A última vez que o vi, — disse lentamente o compositor
russo — foi no Procope. Ele bebia stout porque já não podia beber
absinto; estava malvestido e apenas a cabeça, aquela cabeça de
lord, com a fronte larga, o olhar profundo sob as arcadas espessas,
o nariz fidalgo, a boca irônica e um sorriso que fazia pensar ao
mesmo tempo em Mallarmé e em um opiomaníaco, apenas aquela
cabeça me podia certificar que era ele, bem ele quem ali estava
diante dum copo de stout. Apesar de tudo uma superioridade
genuína se evolava de todo o seu feitio de quase mendigo. Tinha os
cabelos grisalhos e as mãos, apesar do hard labour, eram ainda
finas e, olhando-as, a gente sentia uma religiosa convicção de que
elas tinham sido feitas para as harmoniosas obras-primas da Dor e
da Estesia. À porta do café, grupos de estudantes do Boulevard
Saint-Germain o encaravam; ouvi mesmo que falavam do escândalo
de lord Douglas filho.
— Mas, alheio a todos, como antes, mistificador, arquipagão,
esteta e snob, aquele homem de punhos sujos continuava a criar
modalidades da Beleza em todas as formas do prazer e da dor. Foi
a última vez que o vi. Dias depois, muitos dias depois, um ataúde
descia o boulevard, sob a chuva e, atrás, passo a passo, sobre a
lama, alguns homens seguiam o coche. Eu também estava. Alguns
eu conhecia: João Lorrain, André Gide, Paulo Fort; os outros, gente
de teatro, como Lugné-Poe; algumas mulheres; amigos, enfim, e o
mais gente que ele satirizava com maravilhoso engenho nas altas
rodas do grande mundo e da literatura...
— Depois, desde que ele dorme cristãmente, ele, o grande
ateniense, no Père Lachaise, lá, perto do Columbário, na 89.ª
divisão, desde esse tempo, mercê dum esforço, moro aqui, no
quarto onde ele morreu.
— Convidei-vos a ouvir hoje o meu noturno do C. 33. Eu
tocarei violino, o meu amigo me acompanhará ao piano e tu
(referindo-se a mim) ouvirás. Quero a impressão. Se o achares mau,
sê franco; rasgarei tudo; recomeçarei outro. Mas creio que, enfim,
quando o trabalho sai sincero e sentido, quase vivo do pensamento,
creio bem que será bom... Vamos. Aqui estão as partes: piano e
violino; tenha a bondade, o senhor. E tu, põe-te lá, ao canto, perto
da Salomé, nesta cadeira, assim...”
Obedeci. O homem da cabeleira fechou a luz. Tomou do
violino. Houve um longo silêncio, dentro da treva. Percebi um vulto
inclinado sobre o piano.
“E todavia todo o homem, neste mundo, mata o que ama. E
sabei que uns o fazem com um olhar de ódio, outros com palavras
acariciantes, o covarde com um beijo, o bravo com uma espada...”
“Uns matam o seu amor quando ainda novo, outros quando
já antigo; alguns o estrangulam com as mãos do desejo, outros
ainda com as mãos do ouro. Os melhores se servem dum punhal
porque os mortos esfriam assim, mais depressa.”
Balada C. 33.
Era a voz lenta e cantante do eslavo, declarando o motivo da
inspiração.
“Tudo na minha tragédia é odiento, mesquinho, repugnante;
o próprio uniforme nos torna grotescos. Nós somos os jograis da
dor, os clowns de coração partido.”
“Um dia na prisão, sem chorar, é um dia, durante o qual o
coração é duro como as pedras. Toda a parte em que se encontra a
dor é terra santa.”
“O segredo da vida é sofrer... A hora do arrependimento é a
grande hora da iniciação.”
“É com a dor que se constroem os mundos. E, quando nasce
uma criança ou um astro há sempre dor.”
“Eu disse que atrás da dor existe sempre a dor. Seria melhor
dizer que, atrás da dor há sempre uma alma. Aquele que vive mais
duma vida deve também morrer mais de uma morte.”
De Profundis.
Calou-se a grande voz. Alguém acendeu de novo, à minha
esquerda, a lâmpada, junto ao quadro de Regnault.
E, então, comecei a ouvir o noturno. Firmei as têmporas nas
mãos; fechei os olhos e deixei que
“o tempo descrevesse um círculo em torno do círculo da dor”
já que
“nada se move no terreno do pensamento sem que a dor
responda com vibrações infinitamente vivas.”
Foi então que os meus olhos viram o grande prodígio!...
Porque, palavra que lhes não minto e nem julgo ter havido obsessão
do meu cérebro!! nitidamente vi, diante de mim, com o seu copo de
stout, malvestido, com um grande ar de quem passa a caminho de
uma longa jornada, Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde.
Mas repentinamente uma bruma o apagou da minha visão e
como no desenho de Toulouse-Lautrec, novamente vi que o autor da
Salomé, numa casaca irrepreensível, fumando um cigarro dourado,
airosamente, numa elegância quase atrevida de tão perfeita,
passeava pelo quarto dizendo paradoxos:
“Amo os homens que têm um futuro e as mulheres que têm
um passado.”
“As mulheres são esfinges sem segredo.”
“Só há duas espécies de gente realmente interessante: os
que sabem tudo e os que ignoram tudo.”
“A alma é uma terrível realidade, pode-se vender, comprar,
trocar...”
E um sorriso de patrício lhe vincava o canto do lábio ao
passo que o olhar, não sei se incompreensível ou de misógino,
derramava, ao redor, uma luz que se diria coada através de
veludos...
Lentamente voltei à realidade depois de ver o grande esteta
dar a sua impressão sobre a Salomé de Regnault. Comparou-a a
uma cigana que fosse obrigada a subir até um atelier de
Montparnasse para posar. E ria-se com desdenhosa piedade... Ria
com desdenhosa piedade... Não! Não! Chorava! Chorava, agora, e
“tinha, como os jogadores de críquete um barrete”; vestia um
uniforme como um CLOWN DE CORAÇÃO PARTIDO.
Chorava! E as suas lágrimas, ao longo do rosto belíssimo e
viril, tinham uma serena gravidade, porque UM DIA NA PRISÃO
SEM CHORAR É UM DIA, DURANTE O QUAL O CORAÇÃO É
DURO COMO AS PEDRAS.
Não sei se foi alucinação dos meus sentidos. Creio que não
ouvi mais o noturno, ou se o ouvi, caí, de bruços, num transporte
patético, porque, na parede nua e baixa, vi agora, que a mão
infernal de Aubrey Beardsley desenhava, num esoterismo fantástico,
vinhetas da Salomé...
Abri os braços, arregalei os olhos; pus-me em pé, diante do
muro nu branco, muito branco... Mas... perdão! Há alguém, no muro,
como uma sombra ou um fumo violáceo que dança o bailado dos
sete véus... Salomé! Salomé!! Salomé!!!...
Surge ainda um braço hercúleo com uma salva de ouro por
cuja borda escorrem fios de rubi... Uma cabeça hirsuta, com os
olhos de água santa, uma horrível cabeça macilenta e feroz, de
olhos injetados, cabeleira ruiva e grande barba sangrenta, abre e
fecha a boca severa, amaldiçoando...
— EU BEIJEI A TUA BOCA, IOKANAAN... EU BEIJEI A TUA
BOCA... HAVIA UM GOSTO AMARGO NO TEU BEIJO!... —
exclamava, chorando e rindo, dolorosamente triunfante, a sombra
violácea da parede, bailando... bailando... sobre um fuste de ônix...
E ouço, ouço de novo o noturno. A minha alma se debruça pelo vão
dos meus olhos para melhor sentir a dor. Depois, sublime e augusta,
como uma ébria coroada de rosas, a minha alma sobe, deixa, na
muda adoração de todo o meu espanto e de todo o meu delírio, o
meu corpo que se ajoelha, com um ruído surdo de coisa morta...
Alguém me sacode brutalmente... Vejo agora os olhos do
violinista com um grande estupor fixando o meu rosto.
— Vocês não viram?! — pergunto num acento de loucura
plácida e cândida. — Vocês, não viram?!...
E como ninguém me compreendesse, como eu visse,
satisfeito e comovido o violinista enrolar o noturno carinhosamente,
com um grande sorriso luminoso, então abri os braços, fechei-os
sobre as têmporas e saí em busca da realidade frívola do sol...
Paris — 1920.
Van Dongen

Aquilo tinha começado antes, em Paris, na primeira semana,


quando ele, absorto, mudo, quase agressivo, cheio de pudor, não
ousava transpor a escadaria do Louvre, ou quando, estranho,
taciturno, em frente ao gradil do Luxemburgo dias inteiros olhava o
edifício austero e negrejante, sem ânimo para subir.
Se alguém tentava acompanhá-lo, ele, cheio de um absurdo
pavor, delicado mas resoluto, como um profano, negava-se, dizendo
que não, com uma certa firmeza quase brusca e incompreensível.
E agora, pela Itália, continuava, naquele feitio,
atarantadamente, um ar parvo no modo deslumbrado de percorrer a
Toscana, lentamente, com cuidados maníacos e devotos, numa
concentração quase mística, infantil e surpreendente. Em Siena,
apresentara os primeiros sinais evidentes, quando num arroubo,
cheio de transporte, sobraçando tudo quanto a literatura mundial
tem de célebre sobre a Itália, uma vez, sem razão plausível,
arregalando os olhos e falando baixo explicara à amiga que
Stendhal e Ruskin tinham confundido o gótico lombardo com o estilo
barroco.
Outra vez, diante do deslumbramento da capela Médicis,
visitando a igreja de S. Lourenço, depois de olhar minuciosamente
os mármores, onde as mãos do Gênio tinham deixado arremates
brutos, meio à Rodin, ele, de cenho feroz, num riso absurdo onde o
sarcasmo brilhava, perguntara à amiga, desordenadamente,
qualquer coisa paradoxal, sinistra, desequilibrada, tão sem nexo e
tão sem propósito que ela, a pobre Simone, recatadamente se
pusera a chorar, respondendo:
— Meu pobre amigo a tua cabeça desde que viu tanta
Beleza ficou transtornada... Creio bem que precisas de repouso.
Olha, se quiseres, iremos até Garda, ou, então, Santa Marguerita.
Tu, desde muito que precisas de um certo sossego.
E ele, fitando-a como um ébrio elegante, respondera: Desde
que os meus pobres olhos viram a Beleza que estão vendo não
podem mais ter o feitio neutro dessa multidão... Achas, meu Amor,
que ao chegar a Roma, vindo do norte, da Gália, (ah! ah! ah! da
França como tu queres) achas que ao chegar a Roma, por exemplo,
sentindo se alevantar em mim, como uma erupção de estesia, como
uma chuva de ouro, todo um sedimento de Emoção que se
extravasa com o clangor de um cristal quebrando-se em fagulhas,
achas que eu possa ficar o que era antes? Então pisar a terra que
eu piso, ter nos olhos a visão de Pompeia, apalpar Fiesole,
enclausurar-me em Veneza, retrogradar séculos e séculos, sentir o
que Mommsen não sentiu, considerar-me igual a Boissier, fazer
ressuscitar desde a Ligúria até a Sicília toda essa estranha e
assombrosa volúpia religiosa da Renascença guerreira e mística,
depois de haver vislumbrado no seu sarcófago de ruína a epopeia
severa dos romanos, chegar e ver uma ronda de púrpura e ouro
revolutear em torno dos meus cinco sentidos numa reconstituição
expressionista e estupenda, sentir dentro de mim todo esse banho
lustral que me renova, que me purifica e que me maltrata, encarar,
assim, a metro e meio de mim, o Moisés, palpar coisas que o Cellini
espiritualizou, ver, minha amiga, ver!... o Rafael e o Leonardo, sentir
a frescura das fontes onde há blocos e bronzes do Bernini, descer,
macabramente vestido de gabardine, ao Fórum, saltar os
escombros do templo das Vestais, jogar pontas de cigarro sobre o
mosaico da basílica Emília, descer em grupo burguês, às
catacumbas onde dormiu São Calisto, passear, num Lancia de oito
cilindros, pelas lájeas roídas da Via Ápia, indo quase até Óstia, que
é uma deplorável saudade do antigo porto Trajano, tendo, lado a
lado, o augusto mistério das tumbas e dos ciprestes e em frente a
mancha violácea dos montes Sabinos, transpor, à hora noturna, a
cidade sistina, passando como uma sombra, anonimamente pela
massa sonora das basílicas e dos Palácios, olhar o céu recortado
pelo retângulo dos pátios onde as lógias e os poços têm uma
cumplicidade histórica, por essa Itália afora, “meu amor”, quando um
homem como eu vê, sente, adivinha, apalpa, adora e possui
castamente, apaixonadamente toda a Itália, na grande núpcia,
naquela grande e suave posse, não pode absolutamente, como um
inglês de kodak e baedeker, deixar de abençoar o próprio espírito e
agradecer a Deus, veementemente, o dom admirável de ter olhos, o
dom sublime de memória e a faculdade sacrílega de reconstruir!...
Ela, a meiga e branda Companheira anuiu, por piedoso
enlevo, já agora cuidadosa, cheia de cautelas suaves e observações
secretas, a estudar o feitio transtornado do amigo. Entrou, então a
escrever cartas aos amigos, a contar, prolixamente que ele estava
mal, estranho, que naquela cabeça a Beleza tinha aberto clarões tão
pujantes que a atordoavam...
E, efetivamente, esse pálido escultor de físico à Vigny,
passeador elegante e rico, acompanhado de uma moderna e
honesta George Sand, trazendo malas dos alfaiates de S. James e
dos costureiros Gori e Lanvin, bem como caixotes de livros em
todas as línguas sobre Arte e Literatura, um dia, efetivamente se
atordoou ante o clarão deslumbrante demais da Beleza!...
E foi isso mais ou menos assim.
Ele chegou a Veneza. Instalou-se no Danielli, lá onde se
instalava Wilde.
— Tu hoje, não estás bem — disse-lhe a Simone
acariciando-lhe a testa, com aquela meiguice quente, que a mulher
francesa, quando ama, dá às mãos e à voz...
— Sim — respondeu ele, desfazendo o laço discreto da sua
Lavaliere — eu não estou bem... A Beleza, só porque eu a decifrei,
me quer devorar!... Ela é bem como a Esfinge da estrada de
Tebas... Nesta Itália, onde as ruínas têm a grandeza sugestiva do
Todo, o meu ser, como um todo que é, parece que se martiriza para
a augusta transformação da ruína...
Saíram ambos, pela Riva degli Schiavoni... A laguna, em
frente ao Lido, tinha um modo paradoxal de silenciosamente se
identificar com a Cidade...
Junto ao cais, uma fieira de gôndolas negras, esguias,
tresandando ao limo das escadas nobres dos Palácios do canal
Grande, parecia esperar uma comitiva invisível que surgisse da
Piazza, roçagante de veludo e púrpura, tintilante de espadas e
bainhas meio latinas e meio orientais.
A basílica, no seu paradoxal complexo de idades e estilos,
erguia para o céu seu corpo de taça invertida, bizantina taça cheia
de harmonia letal...
Eles entraram depois de silenciosamente fitarem o Palácio
dos Doges.
Simone, no seu tailleur Sacha Guitry, ligeira, esbelta, tinha
em si, no seu corpo, qualquer coisa daquelas estátuas que ela
própria admirava na seção de porcelana da galeria Pitti.
Ele entrou com um bizarro atarantamento. Diante dos
mosaicos do vestíbulo parou um pouco. Entrou... Todo o ouro, todo
o mármore, toda a múltipla beleza da basílica-serralho lhe entraram
no espírito como um veneno pelas pontas de espada dos seus
sentidos. O alabastro, o ônix, o jade, o pórfiro, a calcedônia, o
basalto, todos os painéis em mosaico, forrando, dourando,
embriagando, mistificando o corpo sensual e moçárabe daquela
grande cruz grega oca e maciça, severa e luxuriante, todo aquele
recinto de bizantinos sonhos erguidos em um fundo estridente de
exotismos sarracenos, góticos e romanos, tudo o irritou como
verdade que é que o ódio é às vezes amor!...
Repentinamente bracejou... com passo tardo circundando a
nave e as capelas murais; ajoelhando diante da pala de ouro, disse
mansamente ao ouvido da Simone...
— Lembras-te? Aqueles que eu via em França, no Louvre, e
que tornei a ver em Florença, estão de novo aqui. Têm ainda o
mesmo intento diabólico... Queriam no Louvre quebrar a martelo a
Vênus de Milo, mas com o meu pé pisei-os como répteis que eram.
Em Florença, pressentindo-os, rondei três dias e três noites o David
de Miguel Ângelo e a galeria dos Ofícios...
E, desde San Miniato até a praça da Senhoria, vigiei os
tesouros todos da Renascença.
... Porque eles queriam pintar de púrpura e escarlate as telas
do Ghirlandaio e até, segundo percebi, ousaram roubar trípticos
belíssimos de Santa Maria Novella... E eis que lá estão, eles todos,
lá lá... junto de Van Dongen que ri... ao lado dos futuristas tudescos,
entre os dadaístas italianos, de mãos dadas com os extravagantes
cubistas de Paris.
E gritava, apontando a pala de ouro.
— Ei-los, os sacrílegos... meu Deus! A basílica! A basílica! O
Fauno de Dardé lá está em lugar do altar! E as paredes, meu Deus,
as paredes, o teto e o chão, eles os riscaram com listões modernos,
enviesados, numa macabra técnica futurista... Em cem mil gôndolas
carregaram para a Laguna os mosaicos todos que forravam São
Marcos. Deitaram ao mar toneladas de maravilhas. A catedral como
um pagode está toda listada das sete cores do arco-íris, como um !
Meu Deus!...
E chorava, chorava tanto que, assim de pé, embora a pobre
Simone o abrandasse, ele tinha no seu gesticular piedoso qualquer
coisa bíblica, como um rabi, de azorrague nas mãos convulsas,
expulsando os escribas, fariseus e zoilos para fora do peristilo
sagrado...
Veneza — 1921.
Carola Marwenga

Trecho de praça onde desembocam ruas centrais. Multidão


que vai e vem; gente que recolhe e que passeia. Aglomeração nas
calçadas, diante de mostruários fartamente iluminados. Risadas.
Saudações. Sussurros. Blasfêmias. A voz de um camelô. O violino
rouco de um cego inválido. Das galerias, passagens, portais e becos
entram e saem variados espécimens de tipos que formam a alma
indiferente, cômica, dramática, cínica e ingênua da rua. Garotos
pedem esmola, oferecendo fósforos. Passa um casal feliz, num
tácito escândalo de carícias mal reprimidas. Burguesas com
embrulhos, puxando cães sonsos, param, voltam-se para olhar
mulheres sozinhas. Oficiais da Entente atravessam
despreocupadamente e alguns os olham com rancores jacobinos,
mudos. Anoitece lentamente sobre a massa pardacenta dos
quarteirões. E, à saída de ateliês e aulas de datilografia aparecem
estudantes ruivos à espera de um caso.
Começa a chover. A lama empapa a calçada. Brilham as
primeiras luzes. Os cafés e as cervejarias regurgitam; o frio aumenta
e a multidão cresce, sob os pórticos e à parada dos tranvias e do
Underground.
É então que a Velha aparece fragmentando-se do bloco do
povo, toda encolhida, ressabiada, zonza, com o seu andar
arrastado; às vezes, para; alguém, passando a comprime de
encontro aos taipais; e ela resmunga, segue, para de novo e
continua, enfim, sob a chuva miúda de inverno que, junto aos
clarões vivos dos combustores e lampiões, semelha uma poeira
impalpável e multicor. A um canto de rua se arreceia; olha
cautelosa, quer atravessar, enche-se de pavor; buzinas a assustam.
Lá consegue, enfim, mas... que custo!... E continua. Muito tempo
depois entra num portal; o prédio é velho e o bairro é de operários.
Atravessa o pátio, sobe vários andares. Caras intrigantes de
comadres lhe dão as boas-noites, esganiçadamente. Responde;
mostra-lhes o galho de pinheiro murcho, nu, agressivo. A sua Árvore
de Natal!... E explica como a conseguira arranjar. Fora a última.
Fora lá para baixo, numa esquina. Havia muita gente. Os homens
das carroças pediam caro mas todos pagavam... Havia uma grande,
alta, encorpada, pontuda, assim! e que todos queriam; levou-a um
senhor que altercava com outros dois. Ela conseguira aquela
porque, de tão feia ninguém a cobiçara. As mulheres gabaram-lhe a
sorte. E ela subiu, devagar, satisfeita, muito apoiada ao corrimão.
Abriu uma porta, acendeu uma luz; pousou o galho triste, seco, torto
e mesquinho, sobre a mesa; alimpou-se da rua, resmungando.
Atiçou o fogo na chaminé e foi alindar a sua árvore de Natal.
Escorou-a numa tripeça, ajeitou-lhe as ramagens raras, quebradas;
amarrou na haste felpuda, enrolando-a, fitas de tons alegres;
peneirou fiapos de penugens e algodão sobre o friso saliente dos
ramos, à guisa de neve; prendeu aqui e acolá lantejoulas e
suspendeu, entre o tufo verde-escuro as seis velas encarnadas, em
círculo duplo. Sob o peso a árvore vergou, numa deselegância
murcha. Foi buscar ao armário as caixas de bombons, enfeitadas de
junquilho, a torta de chocolate e o anel... O anel antigo, velho duas
gerações; mirou-o de encontro à luz; tornou a guardá-lo no
minúsculo aconchego de algodão de uma caixinha pobre...
E tudo isso porque a sua filha, a filha do seu coração, como
o Menino Jesus, fazia anos na noite de Natal.
Ah! a sua filha!... A rapariga mais viçosa, mais viva e mais
expedita de todo aquele casarão de cinco andares. Trabalhava no
centro, num escritório, escrevendo à máquina papéis importantes
que um senhor judeu lhe ditava; só voltava à casa ao anoitecer.
Dantes costurava, depois da ceia, contando à Velha coisas de
política externa, que ouvira nas conversas. Que o país devia pagar a
prestação próxima. Que convinha comprar dólares e não títulos de
bolsa porque se os ingleses condescendiam toda a mofina vinha da
França que teimava. E a mãe ouvia, emitindo opiniões tolas e
falando dos tempos que vão com vozes de lástimas bíblicas.
Mas, depois, pouco a pouco, dera em cear fora, com amigas;
em ir a teatros, concertos, cafés e bailes, em aparecer em casa com
vestidos caros, meias de seda e um certo feitio petulante de quem
se anda a modificar em companhias dúbias.
A velha entrou a amarrar a cara mas sem ânimo nem
autoridade para repreensões. E aquilo continuara...
Ora, nessa noite, como todos os anos, havia uma ceia
melhor, à maneira da província, “auf tyroler art” com carpas,
salsichas, ganso frio, compota, torta “mit sahne”, “baumkuchen”,
duas garrafas de vinho do Reno e licores de Innsbruck. Decerto a
filha traria amigas. Coisa pobre, com pouca gente, mas tão do
coração!...
E, beatificamente, estendeu a toalha de linho, dispôs os
pratos, cortou o pão, já agora mais branquinho, com recheio de
passas; tirou do armário e da arca velharias singelas para adornar a
saleta.
Alguém tocou a campainha; era um conviva; a moradora da
esquerda, vestida ao velho gosto alemão, naquela falta de jeito das
pessoas que têm uma intuição repentina de que são ridículas. Era
de um louro aço, grave, compungida, cheia de joias e verrugas na
papeira oleosa e nos dedos grossos; o vestido era de meia cauda,
com vidrilhos e reflexos furta-cor.
Chegou outra amiga; estalou beijocas nas bochechas da
velha dos vidrilhos; chamaram-se nomes feios, jocosamente, porque
estavam ambas em falta: não se visitavam.
Bateram novamente à porta e ao mesmo tempo tossiram. A
velhinha conheceu a voz da filha. Com cuidados nervosos e com
muito zelo correu a acender as velas; nos pavios delgados as
chamas tristes brilharam; e o triste do pinheiro, fúnebre como um
cipreste e caído como um chorão, então, ainda cheio do orvalho da
chuva, magicamente se acendeu de fulgores baratos.
Aberta a porta entrou uma rapariga loura, esguia,
desembaraçada, meio tipo de estudante. E um homem de farda
severa, seguindo-a, trazia uma grande caixa de uma casa de
modas.
Desfeito o embrulho todas viram um vestido de veludo bleu-
royal, para a noite, com o carimbo caríssimo da casa Michaelis no
forro de seda. E tão lindo, tão elegante e tão caro que para o
conseguir precisaria uma pobrezinha de Deus de trabalhar meses a
fio... ou então...
— E toca a vesti-lo. Ah! que pressa!... Pois calculem que me
esperam umas camaradinhas. E correu ao quarto. Na sala, junto ao
fogo, ninguém ousara falar, olhando todas o encantamento da
árvore. E nisto, ao fundo do corredor, enquanto se vestia, a filha
cantava.
— “Stille Nacht, heilige Nacht...”, nesse contentamento falso
de quem sufoca remorsos veniais... Muda, encolhida, zonza, a
velhinha começou a chorar um pranto muito medroso e muito
humilde. As lágrimas lhe rolavam pela face, de ruga em ruga, e
vinham até aos beiços, lentamente, grossas como mucos; e,
escorrendo, tinham, por efeito de luz, o tom verde do fel...
A rapariga apareceu, já um tanto acanhada da própria beleza
e do próprio luxo. Despediu-se das velhas que tinham sorrisos
atarantados e atônitos. Beijou a mãe e vendo-a chorar ficou muito
branca, indecisa; quis explicar, gaguejou; viu a mesa posta,
tradicionalmente posta junto à árvore santa. Decidiu-se, saiu, bateu
à porta mas a descida das escadas lhe custou tanto como uma
áspera penitência...
E eis que, depois, à mesa, a velhinha, servindo as duas
amigas, o bondoso professor, duas crianças e um rapaz acanhado,
começou a se queixar. Todos comeram em silêncio, gabando a
carpa, o ganso, o vinho. Só depois, à hora dos licores foi que o
velho “herr professor” pedindo desculpa, tratou do caso. Não tinha
nada que se imiscuir na vida de ninguém. Mais um calicezinho;
obrigado. Mas, era velho, vira o mundo, e além do mais a amizade...
E todos falaram, lentamente... Trá-lá-lá... Trá-lá-lá...
E, enquanto isso, ela pensava no filho que a não podia
ajudar porque, quatro anos antes, tendo partido na invasão das
terras gentis de França, nunca mais voltara do inferno raso de
Verdun...
Pela hora alta da noite, na sala silenciosa, depois que todos
após reconfortos e conselhos urgentes se retiraram, a Velhinha
começou num vago delírio de ronda, a recordar os natais passados
longe da cidade, nas serras altas da Turíngia, lá na sua aldeia de
costumes imutáveis... A criançada bailando em torno da árvore que
fulgura... O pastor, sisudo, calmo, cantando às raparigas as
legendas de Natal da Baviera, os rimances do Tirol, as baladas da
Floresta Negra e os corais do Alto Reno que ele lera nos
membranáceos livros das bibliotecas góticas... Na aldeia, cada
casa, cada azenha, da mais rica à mais pobre, desde o burgo-
mestre ao moleiro, todos tinham, sem exceção, a sua árvore de ao
pé da qual ninguém se arredava, numa reunião sagrada, secular, de
tradições herdadas. Os casais se vestiam à moda da terra, com
suas coifas, seus jalecos, domingueiramente, e o rapazio punha
polainas, atirava aos ombros as capas severas que envelhecem
como convém a tal ato.
E sem querer, a Velhinha vestiu a jaqueta pobre, roída nos
cotovelos; calçou as luvas de malha; fechou mais a manta sobre as
têmporas de veias sinuosas e saiu a esmo, com a bolsa debaixo do
braço.
Agora nevava como nos contos do Norte. E, encolhida nas
suas mantas provincianas que a faziam corcunda e tortinha, desceu
as ruas operárias e entrou no bairro rico... E continuou, continuou,
sob a neve que as lufadas semeavam...
Ela agora sabia de tudo, mas de tudo porque aquelas amigas
e aquele professor tinham posto à mostra, tudo, até as
particularidades perversas que podiam ser escondidas.
Chegou. Havia carruagens à porta, e grandes gambiarras no
alpendre do cabaré onde os que não têm família faziam o seu Natal
profano. Cocheiros de libré e porteiros de capotões com alamares,
palestravam, batendo os pés, afugentando as cãibras. Mutilados,
com ganchos no lugar dos braços e rodelas de couro e celuloide
cobrindo a chaga das órbitas e das ventas, pediam esmola,
branquinhos de neve, tiritando...
Negaram-lhe a entrada.
— Mas preciso dar a chave, entende?!... à minha senhora!...
No vestiário e no saguão outras dificuldades. E ela,
acanhada, trêmula, explicava a história das chaves; seria apenas
um momentozinho... Ir-se-ia logo embora... Que tivessem paciência.
No vasto salão, em elipse, decorado ao gosto futurista, num
modo bizarro de reentrâncias e saliências, tintas vivas, listões
berrantes, candelabros de formatos extravagantíssimos, medalhões
de azulejos impressionistas e estátuas grotescas, bárbaras da mais
exótica fantasia cubista, a orquestra tocava tangos e shimmies.
Mesas fechavam o círculo onde os pares dançavam em
estrebuchamentos de caras, tremuras de espáduas e rins e jogos
malucos de passos excêntricos. Criados serviam champagne Made
in Germany, com mesuras interesseiras; e, ao centro, de tamanho
natural, um abeto, com teias de seda e flocos de paina lacrimejante,
brilhava, ardia, cheio de lâmpadas e oferendas multicores.
A sua filha estava numa das últimas mesas, num camarote
com jarras Rosenthal e abajur lilás. Vestia a toilette de veludo de
heráldicas golas principescas e heráldicos debruns de ouro velho,
florentino. Tinha anéis de pedras bizantinas nas mãos e fumava
Ariston de luxo. As outras mulheres a olhavam como se olham
noviças porque a sua beleza quente tinha a transparência alegre
das mulheres que ainda não sabem beber. Os criados, ao servirem-
na, chamavam-na “a senhora condessa”, e o homem que estava ao
seu lado era velho, vestia casaca com aprumo militar, via o mundo
através de um monóculo e parecia mais um corretor de mulheres do
que propriamente um marchante liberal.
A Velhinha, a princípio se escondeu, toda tonta e cega, atrás
de um biombo dadaísta. De repente o seu rosto murcho se cobriu de
uma máscara de bruxa, com olhos de aves de mau agouro; a boca,
sem dentes, reentrou mais entre o nariz adunco e o queixo de
avozinha, deglutindo sombras trágicas; as mãos de dedos tortos,
artríticos, e onde as veias cheias de mau depósito se
encarquilhavam, tomaram gestos côncavos, rapaces. Toda a rija
construção montanhesa da sua pessoa austera e ainda medieval de
hábitos e impulsos, renasceu naquele alforje de ossos e pelancas.
A filha por acaso a viu. Saiu da mesa; veio falar, repreender...
Tresandava a vinho, tinha os seios metade à mostra, muito brancos,
movendo-se com a respiração, e, ao compor o cabelo deixava ver,
despudoradamente as axilas de um tom úmido de palha triga. No
seu feitio pateta de irresponsável tinha, na sua ebriez loquaz, gestos
canalhas, gabando a festança, em calão. Mulheres do guarda-roupa
e porteiros internos riam, veladamente, daquele assanhamento.
A Velhinha ouviu; puxou mais para o rosto o xale, a cobrir a
sua vergonha; uma onda de sangue lhe subiu à cabeça e,
atarantadamente, juntando o que de pejo, de autoridade, de orgulho,
de direito e de asco ainda lhe sobrava, estendeu a filha no chão,
sobre o tapete, com bofetadas ásperas, seguidas, encarniçadas!...
Houve uma grande celeuma. A orquestra parou; criados,
convivas de casaca e gigolôs de Charlotemburgo vieram levantar a
“senhora condessa”. O senhor de monóculo apareceu marcialmente;
indagou, falou com o gerente, ordenou que lhe trouxessem as peles,
a bengala, a cartola e que fizessem avançar, incontinenti, a sua
Mercedes. E enquanto isso, com sobranceiros gestos de blasé,
oferecia à “condessa” a sua marta-zibelina para que, com suas
máculas e desdéns, naquela retirada estratégica, se não resfriasse.
A orquestra atacou um one-step, para modificar o ambiente
já agora jocoso.
— Quem é essa mendiga?! — perguntava depois o homem
de monóculo, atravessando uma ala curiosa de gente, na sala.
A rapariga não respondeu. E, tomando o landaulet, atirou-se
ao fundo dos assentos, de perna cruzada, os olhos em brasa, num
grande atarantamento.
— Era tua mãe?!... — insistiu ele, compondo o cachecol. Ela
continuou na sua abstração de êxtase. E ele ajuntou, então,
acendendo um cigarro, com as mãos em anteparo, e com aquela
inconsciência social dos que já não sabem se são bondosos ou
cínicos: — Isto, filha, acontece na estreia, são contratempos da
aprendizagem...
E a Velhinha que o gerente e os porteiros tinham posto para
fora, aos safanões, seguia, agora através das ruas escuras onde as
tílias nuas imploravam, desgalhadas, na saudade das folhas. As
lufadas semeavam mancheias de neve sobre os quarteirões
religiosamente absortos.
As calçadas cheias de lama eram como a alma dos
homens... E ela foi andando, toda transida, até ao fundo da
perspectiva. Longe, no último andar da casa rica de um “Von”
qualquer, crianças cantavam em lieder sentimentais, ao redor de
uma árvore de Natal, as legendas velhíssimas dos monacais in-
fólios das bibliotecas vetustas.
... E como já fosse noite alta, as velas, titubeantes, tortas,
quase extintas, tinham clarões muito baços... e, sem querer,
imitavam essa mulher, titubeante, torta, quase extinta, nos clarões
baços da sua dor mesquinha.
Berlim — Natal de 1921.
Baixo-relevo em lápis-lazúli

Ao despontar da aurora, o Infante, lindo e grave como um


Batista do Pinturicchio, subiu à capela recamada de mosaico
vêneto. Ajoelhou em frente ao retábulo que as mãos de Ghirlandaio
tinham pintado em três tábuas florentinas; baixou os olhos e, num
meio êxtase de luz e de penumbra, dum futuro príncipe do Vaticano,
recebeu dum cálice de Bizâncio, a divina partícula.
Depois, gradualmente, mais belo e mais grave, com a sua
espada que o Cellini trabalhara, apertada de encontro ao saio,
naquele silêncio fosco que as Madonas dos mosaicos abençoavam,
diante do altar de alabastro, com os olhos piedosos na pala
sagrada, ficou longo tempo em contemplação, ouvindo a voz de
Deus que lhe borbulhava no peito como a clara fonte da Sabedoria.
Quando as infantas suas manas apareceram por trás das
colunas de pórfiro e, seguidas de aias majestosas, se assentaram
nas estalas do coro e quando o velho e sábio cônego surgiu com a
casula lantejoulante e esplêndida como uma dalmática, para o
sacrifício, precedido dum pajem brejeiramente devoto, então o
Infante se alevantou, persignou-se diante duma pia elegantíssima
do Donatello, atravessou o portal, sumiu por instantes no vão azul
da cortina de veludo, deslizou pelas galerias forradas de Arrases,
passou às salas austeras de tetos deslumbrantes renascença, olhou
carinhosamente um São Jorge do Verrocchio, audaz e gentil, e por
fim desceu ao pátio onde mulheres e estátuas se aqueciam ao sol.
As seis paredes do Palácio subiam recortadas de janelas e
seteiras, prendendo lá em cima, um trecho límpido de céu toscano.
E o Infante, com a cabeleira cheia de sol, o punho da espada
nas mãos ambas, olhou os pórticos onde os tocheiros de ferro
forjado pareciam antebraços amputados; olhou as estátuas, dons de
Papas, vindas do Lácio em sucessivas oferendas pagãs em
embaixadas opulentas; olhou os escudos fixos às paredes em
relevo austero e onde se viam armas, lírios, cruzes, leões, viseiras,
guantes, borlas cardinalícias em campos abertos de ouro, púrpura e
prata; olhou a escadaria de mármore branco, africano e vermelho,
cujos cancelos de ferro, fechos e brasões o Brunelleschi cinzelara
em luzidio bronze, com arte e finura tal que se diriam torturados pelo
cinzel de Giambologna ou Ghiberti; olhou a lógia literalmente forrada
de frescos dum discípulo incompreendido de Tintoretto, e onde se
sucediam, como no Camposanto de Pisa, trechos dum inferno
mansamente poético; olhou o poço mais formoso que o do Palazzo
del Podestà, com sua cinta de bronze, onde as figuras dos
apóstolos e da Samaritana, nas suas edículas góticas formavam
uma guirlanda quase alada. Em seguida subiu à Sala Magna, de
estuque e pintura pompeana. No imenso tapete havia velhos
silêncios discretos que sabiam muito mais que os códices
membranáceos da biblioteca. Bronzes e mármores pentélicos
cheios de secular transporte jaziam em socos de ônix, mesas de
ágata e fustes de calcedônia. Cristais, porcelanas, camafeus,
baixelas, trípticos, e candelabros dormiam no orgulho das
opulências. E o Infante, lentamente, com as mãos brancas onde
havia veias de puro sangue azul e anéis bizantinos de dinastias
defuntas, abriu a janela que deitava para o burgo.
A manhã transparente, punha no recôncavo das sete colinas
tons de jade e incendiava os domos de Santa Maria e da
Annunziata. Para a banda do levante era uma vertigem de luz e o ar
se fragmentava em escamas de fogo.
E ele olhou a cidade que despertava sob a tutela férrea das
torres da alcáçova. Então, como a Cristo no deserto, Satanás lhe
mostrou o reino da terra e lhe disse com a voz que tinha ainda
harmonias de arcanjo:
— “Este é o teu Reino. Hoje, à hora das vésperas, receberás
a tua coroa, o teu manto e o teu cetro. E das doze cidades onde
teus pais mandaram, virão embaixadas, cortejos e ofertórios.”
E a mão rubra de Satanás, lhe mostrou, numa ronda
multicor, as cidades, os castelos, os burgos, os bosques, os campos
louros de trigo, até longe, ao mar, onde cheias de cor as velas de
empresas e epopeias se inchavam ao vento da conquista.
O Infante fechou a janela, cujo cristal em círculos,
encaixados em cairéis de ouro, tinha agora, na mágica do sol, tons
de ametista. E cheio de pensares, vergado como um velho, desceu
aos seus paços íntimos. Abriu os velhos códices góticos, que
pacientes mãos beneditinas tinham enriquecido.
Então, com o ânimo forte como a têmpera da sua espada da
Ligúria, o Infante leu nas letras nímias e góticas, a lição cheia de
sangue dos seus antepassados. Leu os trechos heroicos e leu os
trechos dúbios. Leu as intrigas, as mensagens, as bulas; e até
conheceu o sentido equívoco de crimes que tinham vantagens de
virtudes.
E diante do códice de sangue e ferro, com sua encadernação
de pregos de ouro e iluminuras de pedras preciosas, o Infante
esperou que chegasse a hora vesperal...
E, eis que, à hora de vésperas, atravessando o burgo, os
cortejos solenes com seus vexilos subiram a escadaria de mármore,
atravessaram o cancelo de Brunelleschi aglomerando-se na sala
magna. De novo o imenso tapete sarraceno, dom dum Doge do
Adriático longínquo, ouviu a passada histórica dos borzeguins
pesados e o deslizar macio das caudas de veludo e dos chapins de
seda. Nos braços dos lampadários de Siena e no fulgor dos cristais
de Veneza as tochas de novo se enrugaram sob o pavio elegante.
Legados de Florença, da casa Médicis, sábios de Pisa,
donzelas de Livorno, frades de Lucca, burgueses de Arezzo,
gibelinos de Pistoia, procuradores da aristocrática república de
Veneza, enviados de Júlio II, em desordenado embaraço se
agruparam em frente ao trono. Condes, bispos, nobreza da
Senhoria, donas, aias, pajens, pintores, frades, crianças e galgos
esperavam junto aos três degraus.
Nisto, precedido de gentis-homens, que ostentavam ricos
trajes num meio gosto florentino e borgonhês, uns de veludo e sirga,
outros de armadura briosa, paramentados uns para o serão
principesco, outros substituindo a gala donairosa pela arrogância
feudal das vestes ásperas da escaramuça e do torneio, nisto,
precedido de corte dupla dos seus nobres e das suas donas altivas,
o Infante subiu os três degraus do seu Calvário.
E com grande pompa o legado do Papa lhe colocou na fronte
moça a coroa anciã da dinastia, metade de ferro, metade de ouro,
com pedras preciosas que tinham a cor da esperança e a cor do
sangue dos homens.
E o rei de quinze anos sentiu que todos quanto o olhavam
eram de agora em diante mais felizes do que ele...
Muito mais felizes porque tinham a cabeça apenas pesada
de ilusões, ao passo que ele tinha na sua cabeça o peso todo do
diadema de ferro e ouro, o peso todo da esperança e do sangue...
E foi tão triste, tão augusto, tão acabrunhante, de uma
majestade tão dolorosa o rosto do Soberano, que os cardeais com
as suas mitras coruscantes, os condes com as suas armaduras
luzidias, os enviados da Toscana com seus saios e túnicas, as
damas e os cavalheiros com seus brocados e púrpuras, todos
cercaram o trono.
O Soberano então se assentou diante da corte.
E começaram a desfilar as ofertas dos Potentados da Terra,
vindas de longe, de terras cristãs e até de portos sarracenos.
Passou um pajem trazendo numa almofada, três anéis de
pedras tão raras como as que levou a rainha de Axum e Sabá ao rei
Salomão.
Passou um segundo pajem trazendo numa salva uma
relíquia dum mártir, tão preciosa que curava até as chagas do Amor.
Passou um terceiro pajem trazendo o dom duma mulher que
o Infante amara em segredo: uma lágrima que secando tomara o
brilho, a forma e o valor das gemas de Golconda.
Passou uma criança trazendo riquezas do mar, numa rede
de seda, riquezas dum naufrágio, nunca vistas em costas da
Cristandade...
Passou uma outra trazendo, no côncavo das mãos, qualquer
cousa que ninguém viu o que era, mas que tinha o dom conjugado
da mirra, do incenso e do cinamomo...
Passou uma terceira trazendo tecidos tão preciosos, que
tinham o dom de tornar as mulheres mais lindas do que se
estivessem nuas...
Passou um frade trazendo um Livro de Horas, simples, sem
fecho de ouro, nem iluminuras, mas que tinha o dom de matar o
Tédio...
E o segundo frade trouxe no dorso as tábuas da arte de bem
gerir o povo...
O terceiro trouxe um azorrague, complemento do que
trouxera o segundo...
E pela noite toda deslizaram os homens e as mulheres com
incumbências múltiplas, expondo dádivas tão ricas, que os
mordomos, os intendentes, os servos e as cuvilheiras, já não tinham
onde receber e foram mandando tudo até para os ergástulos, onde
os prisioneiros que não viam o sol começaram a pensar que
deliravam ante tanto fausto.
E eis que alta noite, quando no céu puríssimo as
constelações palpitavam, quando nas suas equipagens luxuosas
todos deixaram a porta de bronze que se fechou como um retângulo
de treva, na calma do salão, no seu trono de três degraus, o
Potentado das Doze Cidades pensava, cheio de orgulho, nas
oferendas, que, convergindo das quatro estradas do mundo, tinham
vindo repousar no carvalho e no mármore, no ébano e na ágata das
suas mesas, dos seus consolos, das suas credências e até no chão
do vasto palácio de sete andares de granito trabalhado feito renda.
E o Potentado, com as mãos nas têmporas, a coroa oblíqua
sobre a cabeleira (porque se tinham aberto vinhos de virtudes
antagônicas), sozinho na sala magna, olhando o estuque romano do
teto e os frescos pompeanos dos paredões altivos, pensava no seu
povo que ele conduziria como um armento; pensava no gáudio, na
pompa a inaugurar, tão grande de deitar inveja a Lourenço o
Magnífico e outros mais por toda essa Itália afora... Toda a herança
de defeitos e virtudes de seis gerações lhe subiam à tona, no
instinto e já não era ele que reinava, mas a sombra de seus
avoengos.
Na fisionomia já se lhe viam máscaras sucessivas, diversas,
e toda a ronda do passado lhe dançava em torno.
Lentamente, porém, tremeram as tochas nas argolas de ferro
fundido; uma atmosfera como a que envolve as estátuas mutiladas e
os bosques de loureiros envolveu a sala toda.
E surgiram três mulheres...
E todas as três passaram trazendo oferendas imortais...
A primeira, a mais linda, cujos seios eram pomos de
embriaguez, mas cuja face tinha um tom augusto de Sacerdotisa,
trouxe nas mãos, na ponta dos dez dedos alabastrinos, uma coroa
de espinhos... E ao oferecê-la o seu rosto era tão triste e o seu
corpo tão augusto que o Infante chorou...
E arremessando o diadema sobre os coxins e
almadraquexas, com suas próprias mãos cingiu a coroa de
espinhos.
A segunda mulher, a mais encantadora, cujas pálpebras
violáceas adoçavam o veneno dum olhar esotérico de sibila, trouxe
nas mãos, na polpa dos dez dedos, vivos como tentáculos, o Beijo
de Judas. E ao oferecê-lo o seu rosto teve num vislumbre a mímica
paradoxal de todas as Salomés da Pintura, da Poesia e da Legenda.
E o Potentado deste mundo adiantou o rosto ao ósculo da traição.
Dizem crônicas e códices desse tempo que o rosto do Infante ficou
tão abatido, tão álgido e tão belamente doloroso que até algumas
mulheres o quiseram mimar como uma criança pobrezinha...
A terceira mulher, a mais meiga, a mais sobre-humana, tinha
semelhanças nítidas com as grandes mulheres da História. Ela
promanava do seio augusto dos Épicos... Tinha em si, no seu corpo,
o orgulho das colunas... De perfil lembrava Judith, e de frente tinha
o tom sidéreo de Beatriz de Ravenna.
Os seus gestos tinham a meiguice de Francesca. A sua voz
era, na sua boca misteriosa, como os versículos do Cântico dos
Cânticos ressoando no Tabernáculo. As suas mãos fidalgas de
Mona Lisa eram tão alongadas e tão doces, tinham tal semelhança
com as rosas que os anéis sentiam não ter lágrimas com que chorar
o consolo dos suavíssimos contatos. A sua túnica litúrgica era como
um cofre ofegante justaposto a uma pérola... E na carne do seu
corpo a sua alma andava diluída como um perfume palpável. O seu
olhar tinha a sinceridade branca das espadas leais... E, em volta
dela, abstratamente, velando-a como um tesouro, havia rondas
seráficas do céu e da terra, teorias de heróis e círculos de leões
apocalípticos.
E ela trazia entre os dedos de luz, entre a polpa litúrgica dos
dedos vivos como partículas consagradas, uma taça de fel...
O pobre potentado deste mundo estendeu a mão trêmula e
tomou o cálice de ouro maciço e gemas teodosianas. Súbito
esqueceu todas as dádivas, oferendas e dotes. Ordenou em altas e
estranguladas vozes que lançassem à multidão os presentes que
lhe tinham vindo das quatro pontas cardeais deste mundo. E com
grande pasmo, atônitos, os mordomos, procuradores, intendentes,
pajens e aguazis obedeceram àquela loucura. Por isso, nas feiras,
nas lógias, nos adros, nos pórticos, nas escadarias, nas congostas
do burgo e nas pontes, becos, vielas e escaninhos do bairro judaico
houve uma luta fratricida entre mendigos, mercenários, mercadores,
bufarinheiros e mais pequena arraia, porque os homens se
encheram de ambição à vista do ouro.
E o Potentado deste mundo, no seu palácio de granito
trabalhado como renda, longe dos seus áulicos e camareiros,
obstinado num sereno silêncio que alvoroçou os físicos e os
confessores, entrou a velar, com os seus olhos de febre, as três
oferendas.
E desde então, a coroa de espinhos ele a cinge sempre nas
audiências marcadas aos cortejos infinitos da Mágoa e da
Saudade...
O Beijo de Judas ele o recebe sempre na antecâmara dos
seus paços íntimos, pela boca dos seus conselheiros, amigos,
ministros e irmãos.
Mas a taça de ouro maciço e pedras de Bizâncio, a taça de
fel, essa ele a guarda avaramente e só lhe sorve o augusto veneno
na hora sublime em que o seu coração ulula abrasado como os
nômades sedentos do deserto...
Florença, 1921.
A mandíbula

Àquela hora, sem que ninguém o pressentisse, o Louco


conseguiu sair de casa. O muito decantado e romântico luar das
noites medievais aclarava as vielas, lembrando trechos velhos de
oleografias vulgares. E o silêncio, largo e tenso da hora, só de
quando em quando era apupado pelo vozear, nalguma taberna, de
mulheres e petintais.
O Louco, serenamente percorreu a rua, dando ao andar a
cadência pomposa dos personagens de Shakespeare; chegando ao
chafariz bebeu, com a cara a meio dentro d’água como uma rês
cansada; depois, limpando com as mangas de veludo os fios de
água dos lábios, pôs-se a subir a esmo a escadaria escura de um
templo. Nisto, como entre a dupla fileira de olmos bravos passasse,
a galope, uma berlinda de fidalgos, o Louco se coseu ao vão da
balaustrada, num feitio receoso de cão mendigo.
Ao fundo, na larga sombra do templo, três portas se
cavavam, rijas, chapeadas e negras como as de uma alcáçova. E, lá
para mais longe, a cúpula, como o seio de bronze das guerreiras e
bruxas do além-Reno, espargia sob o céu lactescente a invisível
grandeza das criptas e túmulos que cobria...
O Louco, então, começou a cantar e a subir os degraus de
três lances. Lá do alto, vista em conjunto, a cidade parecia um
cancro encravado na víscera dos vales; e, como dos cancros e
gangrenas, um cheiro malsão subia, despertando a ira de Deus.
O gnomo abriu os braços, circunvagou o olhar pelas
muralhas e estradas que isolavam a cidade dos campos, como as
ataduras isolam as partes podres das sãs, e gritou três vezes...
Logo depois, como o eco lhe atirasse ao rosto a imprecação, tomou-
se de ódio, sacou o punhal do cíngulo de couro e seguiu, com
ímpeto, sobre as lajes, a própria sombra. Mas como essa se
obliquasse aos poucos, cuidou que era ele o perseguido e correu
para o pórtico... A pouca altura, na rosácea do coro, uma coruja
impassível como um enigma, parecia, sobre a orla da pedra o alto-
relevo funesto e aziago de um in-fólio metálico.
Ogivas estreitas rasgavam, como seteiras, a massa dos
paredões carcomidos, e as gárgulas, negras e fumarentas, num
hibridismo de mulher e dragão, cortadas em penumbra, aspiravam o
silêncio, pelas fauces fantásticas... Em plintos quadrangulares, os
quatro evangelistas, mesmo à entrada, sustentavam o Evangelho,
guardados por monstros dóceis.
O Louco despiu o capeirote; arrojou o barrete; desceu até os
olhos uma espécie de cogula; prendeu melhor, ao cinto de esparto,
as camândulas e o bulhão.
— Isto mais parece um castelo roqueiro!... — disse,
trepando, com agilidade espantosa, ao lanço oriental da mó.
Agarrando-se, em seguida, às colunas lavradas de lavores, relevos
e bastiães, o gnomo alcançou a ourela da platibanda. Como uma
criança em folguedo, correu, ao longo da torre e ao redor da cúpula,
resvalando pelas laçarias, cantos, cornijas, voltas e fustes do
dédalo.
Sempre com o andar grotesco e a expressão desconfiadiça,
dobrou o busto sobre o vão da torre, onde pendiam dois sinos, como
cabeças decepadas, e invertidas que, por milagre, cantassem, às
vezes...
Atirou-se às cordas... Com o baque houve um repentino
clangor, uma exclamação bárbara que se alongou em onda quase
líquida, acordando meio povo, lá embaixo, no triângulo amarelento
dos quarteirões quietos... O corpo do energúmeno deslizou pelo
espaço, mãos, busto e pés escorregando pela dupla corda...
Embaixo, ainda tonto da queda e da vertigem, numa meia náusea, o
estupor cambaleou de encontro à concha do batistério; mas logo, a
luz violeta do alampadário, em frente ao sacrário, numa capela
mural, o despertou do marasmo... Avançou... Estacou, fixando o
teto; seguiu; voltou atrás... Não compreendeu bem o que aquilo
era... Pilastras delgadas como troncos de palmeira dividiam o
recinto em três. E a nave, àquela hora, era suntuosa de silêncio...
Ao nascente, havia claustros, um pátio, e muito luar... Da
outra banda, na treva dos paredões, santos de pedra, em calmo
conclave, fitavam o vácuo...
O Louco, cosendo-se aos assentos de carvalho do capítulo,
topou, subitamente, sob um dossel negro, com uma urna de
mármore; era um túmulo real... Parou. Tocou a pedra. Dois leões de
pórfiro sustentavam a urna cujo fecho era de jaspe, com garras
reluzentes de alabastro... E sobre a lousa, pousava uma coroa
cristã. Mais abaixo, outros túmulos se estendiam. Eram de
príncipes, de cardeais, de heróis, de santos, de infantas e de poetas
épicos...
E lembravam, sob a meia treva do zimbório, vasos enormes
que, não se sabe por quê, alguém houvesse enchido de pó!!...
Inscrições latinas celebravam a realeza, a piedade, o valor, a
mansidão, a glória e o gênio da raça... Por fora eram vasos
riquíssimos, de muito lavor, talhados numa só peça... Por dentro
eram lisos, tinham camadas de chumbo, de carvalho, de cetim e de
cinza...
O Louco franziu o cenho... Disse coisas sem nexo... Esboçou
um sorriso de desdém e, tomando uma atitude real e heroica de
santo e de épico, deu três voltas solenes ao redor dos túmulos.
— Muito me apraz voltar ao regaço da minha estirpe!... —
exclamou, acompanhando a voz com a mão em copa.
E calmo, soberbo, hercúleo, quase com naturalidade, apoiou
as mãos ambas ao bordo do tampo de jaspe do mausoléu real. A
pedra não obedeceu ao esforço. O gnomo então, o rosto
congestionado, com a força de um touro, servindo-se das mãos e do
ombro, começou a vencer... a vencer, porque, aos poucos, a pedra
rangeu, desentalhou as bordas, as juntas, os frisos e escancarou a
eternidade aos olhos do plebeu... Mas, negando-se ao sacrilégio,
repentinamente o bloco cedeu de novo, e de novo tentou encaixar-
se sobre o mistério... Nesse hiato de tempo o energúmeno tinha
baixado a cabeça, para a profanação... Houve, então qualquer coisa
horrível, pois os dominicanos, a arraia-miúda, o fidalgo de um solar
fronteiro, os aguazis e os lagareiros que atenderam aos sinos só ao
romper do dia puderam soltar da estupenda e augusta mandíbula de
pedra, um homem vestido de veludo e sangue, em cuja cabeça
triturada os ossos dançavam como seixos dentro de um saco...
Bayonne, 1920.
A andorinha crucificada

Nessa manhã de outono melancólico, o Príncipe, apertando


contra o brial a espada generosa, desceu dos píncaros de basalto
onde o castelo luzia como um São Graal precioso. Depois, de novo
erguida a levadiça, com o seu cortejo fiel de ricos-homens,
cavaleiros, donzéis, monges, alfaqueques, peões, almogáraves,
mendigos e até leprosos, quase um exército místico em cuja reçaga
seguiam carros, rocins, azêmolas e andas carregando uchotes,
arcas, alforjes, lambéis, colgaduras, cafis, almadraques,
alparavazes, marlotas, pelotes, armas e trigo, sob o vozerio dos
coudéis e eguariços, desceu, caminho de longínquos condados, em
missão de guerra e amor.
Então a infanta, tomada de saudades, toda vestida de longo
veludo litúrgico, subiu à torre albarrã, debruçou-se sobre a açoteia, e
estendeu os suavíssimos braços em direção da estrada que as
oliveiras entristeciam...
E começou a chorar vendo o cortejo estranho. O seu Bem-
Amado senhor à frente dos condes e dignatários, com o guião azul
esquartelado erguido, luzindo, ao sol convalescente. E almafres,
arneses, fains, ascumas, virotões, gorguzes, adagas, loudéis de
sirgo, solhas, balsões, estandartes com caldeiros, falcões e motes
ousados, dos cavaleiros e infanções, misturados aos capelinas,
cossoletes, cendais, samarras, estamenhas, jórneas e cogulas dos
frades, labrostes, mendigos e crianças enchiam as estevas e
adarços do campo, junto a estrada, dum insigne colorido, como nos
cenários das epopeias.
Nas salas e parques, os mômaros e os truões, com violas e
bandurras, doneando airosamente, pretenderam suavizar a mágoa
da infanta. Os cisnes, os pavões, os galgos e os açores amestrados,
redobraram de amoroso zelo, enchendo de jovial alarido os pátios,
os lagos, os claustros, as câmaras e até mesmo os ergástulos do
Paço.
Mas, à medida que, em lufadas tristes de funeral humilde, as
folhas amarelentas iam caindo sobre o mosaico dos balcões
rendilhados, a infanta começava a enlouquecer serenamente...
Franzina e loura, as duas tranças coleando entre os seios
castos, toda de azul-solferino desde o colo aos chapins, numa
túnica de grecisco, pelas galerias e terraços, desde a capela ao
pavilhão de falcoaria, a louca, num feitio estático e sonâmbulo de
andar de ave aquática, ora sorrindo mansamente e, ora acendendo
um ódio bizarro no rosto de porcelana viva, começou a falar, em tom
de balada palaciana, que o seu esposo e senhor, como um cavaleiro
de São Graal, indo travar peleja em longes liças, por lá se perdera,
como as andorinhas de Languedoc, que, às vezes, fugindo para os
mares da Sicília não tornam mais ao bendito beiral nativo...
À noite, sob o céu polvilhado de astros poeirentos, sob a
piedade das coisas mudas, desde a larga ponte levadiça até o adro
dos túmulos de mármore, a infanta, de olhos estagnados como a
tona dos marnéis, arrastando a cauda das roupagens suaves, o
dorso nervoso, a cintura móvel, a escarcela tintilante, o quadril
coleante, com o seu bobo corcunda, ao lado, tangendo a mandolina
estridente, falava do seu bem-amado que, numa manhã de
nevoeiros plúmbeos, se fora vestido de aço, num grande murzelo
colgado de panos roxos com uma grande flor-de-lis ao centro...
E a lua, da cor pálida das hóstias, como uma aia nutriz, muito
boa e muito piedosa, seguia sempre a louca...
Não se sabe por que o príncipe nunca mais voltou ao seu
castelo... Os ricos-homens, varões dos burgos talvez morressem
nas investidas. Os cavaleiros, vestidos de escamas de aço, talvez
se prendessem aos encantos das donas daquelas terras distantes...
Os donzéis, talvez postulassem, em abadias, para vestir o hábito e
cingir o gládio das Ordens... Os pajens talvez seguissem valorosos
amos... Os mendigos, de samarras rotas e estamenhas sujas, talvez
rojassem as chagas e a humildade nos degraus das estalagens
caridosas. Os monges, as cogulas sobre o rosto, talvez
peregrinassem pelas vielas e congostas e betesgas, nas arribas do
mar longínquo...
Então, cada vez mais, a infanta, no seu dulcíssimo delírio,
começou a percorrer as salas d’armas, as bibliotecas e as alfurjas
do castelo sinistro, chorando como as doces ovelhas a quem
roubam as crias.
Mas, ao findar o outono, quando maiores se estenderam as
névoas pelo vale, quando os plátanos, os freixos, os choupos e os
castanheiros de todo abanaram os galhos nus, aconteceu que um
dia, na hora malva de um crepúsculo ansioso, inesperadamente,
uma andorinha muito meiga atravessou a ogiva, bateu as asas, de
encontro ao vitral tríptico, tonteou e caiu no genuflexório de carvalho
da cela da Infanta... A louca tomou a andorinha, toda azul e macia,
entre as mãos belíssimas de mártir...
Nesse tempo todas as andorinhas deviam, em colônias
tímidas, estar veraneando em terras de África, lá para o sul, além do
Mediterrâneo, no beiral escuro dos aduares e cabildas dos
agarenos... Por isso a infanta, na sua ideia brumosa, cuidou que
aquela devia ser a alma dócil e saudosa do príncipe... Riu, deu
longas gargalhadas, olhando-lhe os olhinhos vivos, o peito suave, as
asas elegantes, o bico em forma de galera diminuta como os
palandrias do mar Egeu. O coração da mensageira pulsava sob as
penas de um modo tal que o seu rumor lembrava uma concha dos
mares interiores...
A louca, teve um sobressalto. Baixou as pálpebras violáceas,
mirou em seguida um crucifixo de ébano na tristeza de um altar de
linho. Riu de novo; ficou séria. Quis chorar. Encarou a andorinha...
Ah! Era ele... era bem ele, decerto: aquele coração era o seu...
Passeou pela galeria longo tempo acariciando o mimoso
entezinho...
Embalde emissários, almocadens, uns por dedicação, outros
ao preço de zagalotes, maravedis, arcas flamengas de tecidos e
promessas de sesmarias, despindo os gibões de guardalates e
apertando a musculatura heroica e mercenária nos arneses,
coxotes, ferragoulos, bacinetes, avambraços e viseiras, com lorigas,
alfanjes e espadas tudescas, derreados no arção das selas
tavarenhas, em nucelos, hacaneias, facas e ginetes, de burgo em
burgo, de terra em terra, lendo membranáceos avisos em letra
tabelioa, a entrada de cidades e condados, desde a Liga das Cem
Cidades, atravessando Mogúncia, o Palatinado, Brandeburgo, os
castelos da Dieta, até Frankfurt, desde a Flandres, o Brabante, a
Ilha de França, o Artois, a Turíngia, os Alpes, até a Nêustria e a
Borgonha, desde Savoia, o Vêneto até Nápoles e o Oriente, em
cavalgadas contínuas através de florestas e almuinhas, uns, outros
visitando portos de Espanha, Portugal e Algarve, e em bergantins e
caravelas, longos meses a bordo, encostados às gáveas, bastardas,
burdas, procuraram o Infante que, dizem códices monacais, seguira
de Clermont-Ferrand para a cruzada, ao lado de Godofredo.
Embalde voltaram, rotos, trôpegos, sem saber novas, apenas
trazendo de príncipes e papas, joias de Airão, azabas de pérolas,
axorcas e oferendas toscanas, tendo até aprendido dialetos aljamias
e algaravias pelas serras que atravessavam.
Falou-lhe da saudade com grande eloquência... Falou-lhe do
amor com grande carinho... Perguntou-lhe que terras o tinham
arredado do seu principado incomparável, onde os vales, as serras,
os rios, as searas, os burgos, tudo parecia dom de Deus...
Eis, porém, que a andorinha entrou a debater as asas, com
fúria, espaventosamente, forçando os dedos que a apertavam a
uma flexão irosa.
Então a infanta, com os olhos marejando d’água, o rosto oval
cheio de martírio, a boca semiaberta, as narinas nervosas, teimou
em prender a andorinha que cada vez mais se enrolava na polpa
das mãos com intento de liberdade.
Enraiveceu-se a infanta. Queria, pois, deixá-la, assim, esse
coração por quem perdera a serena razão?! Teimava, pois, em
voltar ao destino aventureiro dos outros condados esse príncipe azul
de roupagens macias e tépidas?!... Ousava pois tentar voo embora
dez dedos nervosos o prendessem na teia de um carinho
mansíssimo!... Era pois um réptil asqueroso o que ela cuidava ser
uma ave do céu?!...
Prendeu então na mão esquerda a andorinha irrequieta,
caminhou até a grande arca da câmara. Abriu o fecho, escancarou o
grande cofre entalhado de marfim. Procurou o estojo de ouro,
bizantino. E, com maldoso prazer, quase voluptuosamente escolheu
três alfinetes finíssimos com estranhas cabeças de esmeralda,
opala e topázio...
Abriu o Livro de Horas, diante da janela. O ar, lá fora, glacial
e fino enchia de tristeza os largos gramados, os repuxos e as
estátuas de divindades nuas...
O funeral das folhas continuava, sob as lufadas plangentes
do vento... Das muralhas e rocas dos cubelos escorria o inverno
recém-chegado. A vista mal distinguia as coutadas de caça, no
declive sensual das colinas. Dos fossos, ao redor das alas
negrejantes do muro de paralelogramos cheios de névoa, subia uma
tênue fumaça: a alma da água sofrendo... O céu baixo, côncavo,
como uma tiara de catedral imensa, predispunha ao recolhimento
das grandes melancolias.
Muito, muito mais triste que a natureza era a alma da Infanta,
quando, sobre o missal austero, abriu as asas da andorinha,
cravando na nervura tênue, entre o osso delicado e a carne rósea
um alfinete pontiagudo, assim, assim, lentamente...
Muito mais triste que o céu e que o inverno, era o olhar da
Louca quando, sobre o madeiro, juntando os pés trêmulos da
avezinha, cruzando-os um sobre o outro, os perfurou, inclinando
devagar... devagar, o terceiro alfinete de ouro, até cravá-lo na fibra
do missal, assim...
A andorinha crucificada começou então, na sua rudimentar
linguagem, à maneira dum canto, em suaves queixumes, a pedir
misericórdia.
— Meu pobre e amantíssimo Jesus!... Meu pobre Jesus!...
Pôs-se então a andorinha azul, de asas abertas e pequenos
pés cruzados, a olhar tristemente os olhos da Louca. Parecia
lembrar-se do ninho na torre da catedral gótica, lá, entre as gárgulas
híbridas e as nuvens, perto dum grande sino que às vezes, num
delírio bizarro entrava a badalar, a badalar, com grandes lágrimas de
som sobre a cidade que os invasores pilhavam, no refúgio da noite
propícia...
Parecia lembrar-se das grandes viagens, pelo céu da
Provença, e do Delfinado, sobre os portos da Itália sagrada, em
revoadas enormes, entre a colônia amiga, fugindo ao frio, buscando
o litoral do Egito adusto. E, crucificada, com o corpo estendido sobre
o missal austero, volvia dum lado e doutro a cabecinha airosa, a
procurar o segredo, a razão daquele glorioso martírio que, entre os
homens tinha divinizado um deles...
Diante dela a infanta, toda de brocado verde, rezava no Livro
de Horas, grandes versículos latinos, soletrando com dificuldade as
palavras litúrgicas. O Bobo corcunda, com um saio de guizos,
chocalhos e crótalos, bailava como um energúmeno, arranhando
com as unhas aduncas a bandurra de Damasco. Donas, cuvilheiras,
aias, um velho conde de barbas de Moisés, e um tímido frade de
maneiras dúcteis, atrás dum tabuleiro de xadrez, olhavam a cena,
com estupor.
Veio a noite. Na hora nona, quando a treva baixou aos
recôncavos do castelo, a andorinha, mártir e imaculada morreu...
Pouco a pouco o leve corpo esfriou... A infanta desprendeu então os
três alfinetes de ouro com cabecinhas de esmeralda, opala e
topázio... O corpo frio se encarquilhou, tomando mais ou menos a
forma e o tamanho dum coração que muito tivesse sofrido neste
vale de lágrimas...
Pediu então a Louca, em altos brados imperativos, que lhe
trouxessem um tumulozinho, lindo como um sacrário e rico como um
cofre, para depor o cadáver.
Obedeceram aos seus rogos. O mordomo e as donatas
trouxeram um cofre de um palmo, forrado de cetim e rendas
flamengas. O frade benzeu o pequeno mausoléu. As aias deitaram-
lhe perfumes e pétalas de goivos. O velho conde de barbas bíblicas
acariciou o corpo, ungiu-o com bálsamos olorosos, fechou de
encontro ao peito branco as asas sangrentas, beijou a cabeça
mimosa e fria, e depôs a andorinha no estojo de ouro, marfim e
pedras preciosas.
A Louca fechou o cofre. Selou-o com o seu firmal de
cabeleira, para que ninguém doravante profanasse aquele mártir
que sendo um Príncipe de sangue real, muito amado e muito
ingrato, agora ia dormir na nave da capela, entre os antepassados
heroicos, sob a forma fantástica e delicada duma andorinha azul...
Esguia, solene, arrastando pelos tapetes e escadarias a
cauda farfalhante da túnica de ciclatão de seda, as mãos em forma
de concha, a Louca seguiu, a passo, lentamente, seguida pelas
aias, donas, cuvilheiras, servos e crianças, até o altar da capela, no
fundo da ala longínqua do castelo cimeiro... Lá fora no pinhal, um
estribeiro com a sua cornamusa bucólica chamava os cães à caça...
E a Louca seguiu... O cofre lhe tremia nos dedos afilados...
As lágrimas, grossas e quentes, duas a duas, roçavam a porcelana
viva do seu rosto belíssimo... escorrendo-lhe pelo colo de garça...
O cortejo atravessou os salões onde os supedâneos,
dosséis, colgaduras e tábuas de mosaico, as chaminés e as
pêndulas exalavam guerras e glórias; atravessou as galerias de
móveis seculares, pesados e tristes; atravessou as câmaras de
dosséis graves e oratórios brancos: chegou, enfim, à capela onde o
órgão espargia toda a tristeza estrangulante duma música sublime...
Na nave, os túmulos brilhavam... A Louca depôs num degrau, diante
dum sarcófago de calcário branco, o estojo de ouro, marfim e
pedras preciosas. Dois candelabros dramatizavam o recinto...
Depois, cândida, serena, de olhar bendito e ingênuo, fixando
o cortejo caridoso que a acompanhara na sua loucura tácita, num
tom de balada palaciana, explicou que o seu Esposo e Senhor,
como um cavaleiro de São Graal, indo travar peleja em longes liças
por lá se perdera... mas, como as andorinhas do Languedoc que, às
vezes fugindo para os mares da Sicília se tomam de saudade e
voltam, regressara ao seu castelo num túmulo de glória, sob o
pranto sincero e estrangulado dos seus ricos-homens, cavaleiros,
infanções, donzéis, monges, mendigos, coudéis, arrabileiros,
menestréis e leprosos.
Paris, 1920.
A princesa Salomé

— O prato mais esquisito do festim foi a cabeça do Batista!...


— exclamou o escravo, dirigindo-se com o cântaro de cobre para a
piscina.
Os outros o ouviram taciturnos e cabisbaixos... Sentindo,
então, o silêncio alargar a indisposição pelos demais servos, o
escravo continuou:
— Nem os veios d’água de Hesebon choraram tanto como
os olhos da princesa Salomé...
— Em verdade os olhos da princesa Salomé são duas fontes
suavíssimas que retratam o céu das doze tribos... — murmurou um
estrangeiro coberto de pó, dando às palavras uma entoação de
salmo.
— Tu conheceste o Batista nas ribas do Jordão?... Ele
apascentava um rebanho felpudo e deitava a água santa na
cabeleira dos peregrinos...
O estrangeiro respondeu: — Eu conheci Iokanaan... Tinha o
porte dos ninivitas; usava hábitos primitivos e morava no deserto,
como uma fera dócil...
Os escravos cercaram o peregrino. Então, com a serena voz
entrecortada, o peregrino começou a narrar prodígios e maravilhas
do deserto...
— Naquele tempo, a multidão vinha de longe, abandonava
as portas das cidades, desde as faldas do Líbano até às fronteiras
dos Moabitas e vinha dobrar o joelho sob a bênção do filho de
Izabel... E ele, com uma concha sonora, derramava, na fronte e nas
espáduas de cada um, a milagrosa bem-aventurança... Depois, com
a voz cavernosa das grutas reboantes, Iokanaan pregava contra a
dissolução da família de Herodes... Foi assim que o Tetrarca,
exasperado, o mandou prender nos ergástulos de Maqueronte...
Depois, pela voz do povo, eu soube o que todos sabem... A princesa
Salomé bailou... E, em prêmio, recebeu, numa bandeja de ouro,
incrustada de pedras preciosas, a cabeça do profeta.
— O prato mais esquisito do festim foi a cabeça do Batista!...
— repetiu o escravo...
Houve um silêncio profundo, capaz de vergar espáduas... Os
homens emborcaram as âmbulas e hytons na toalha esmeraldina da
piscina plácida... Depois, o bando voltou para o castelo de
Maqueronte... Amanhecia... E, para as bandas do deserto, sob o
céu longínquo da Arábia árida, uma larga cor de incêndio, com raios
violetas, subia, toldando o horizonte adusto.
Em diagonal, como um recorte de sombra, uma caravana
atravessava o confim solitário da perspectiva bíblica...
Os homens entraram num caminho de tamareiras
esqueléticas. Pelo portal bárbaro da muralha bruta atravessaram o
pátio, sumiram...
Os guardas, ajaezados à maneira romano-hebraica, jogavam
os dados, sobre um escabelo. Camelos, com palanquins entre as
corcovas, esperavam os convivas retardados, e um mendigo lázaro,
com chagas no lugar dos olhos, enaltecia, num místico clamor
solitário, um certo Deus de Nazaré, que curava os cegos, fazia
andar os coxos e ressuscitava os mortos.
Foi mais ou menos nessa hora prima que um homem, com
aparência de cansaço, ofegante, coberto de pó, com as sandálias
rotas, o paludamento esburacado, apoiado a um bastão, inquiriu
qualquer coisa dos guardas...
Em seguida, com um gesto franco de aborrecimento, falou,
erguendo a voz num brado angustioso:
— Dizei, porventura já deceparam a cabeça ao Batista?!...
— Já; esta noite... Foi, depois, levada numa patena exótica
para a câmara da princesa Salomé... E lá ainda deve estar... O
corpo do embusteiro jaz sobre a masmorra. Os cães de raça de
Herodíades o roerão até os ossos... E o resto, ossos, carne e alma
do barbudo profeta, tudo será atirado ao poço maldito, no oásis...
O homem tornou a perguntar, desvairado:
— Já deceparam a cabeça do Batista?!...
Os guardas, então o expulsaram. Ele, ofegante, com um
dulçor piedoso no olhar, pediu misericórdia, rojou de joelhos,
implorou paciência e continuou com a voz molhada de pranto:
— Tendes a certeza de que já levaram a cabeça de João
Batista diante de Salomé?!... Tendes a certeza?
Um centurião, com ar de mofa, respondeu:
— Inda não; devem levá-la em breve... Será uma oferenda
opima... Dizem que a princesa ama o pregador... E, louca como é,
passará o dia nos seus coxins e tapeçarias rolando, como uma
pantera, com a cabeça hirsuta do profeta entre as mãos e a boca...
Então o homem de sandálias rotas e vestes esburacadas
tirou do cíngulo uma bolsa recheada de sestércios, abriu-a; dividiu
as moedas, os ícones e os anéis entre os dois guardiões; tirou do
vão da túnica quatro blocos de ouro de Ganges, colares fenícios e
pedras preciosas amarradas num fio de seda trácia... Deu tudo aos
dois homens; e, ofegante, com as mãos erguidas, quase de joelhos,
soluçando, com lampejos nos olhos suaves, implorou:
— Pelo que tendes de mais caro no mundo... Eu amo a
princesa Salomé!!! Matai-me, vós!... Deixei crescer a barba para
melhor subterfúgio... Cortai-me, vós caridosamente a cabeça... e,
pelo que tendes de mais caro no mundo, pelo amor de Jeová,
substitui a cabeça do Batista pela minha pobre cabeça...
Rio, 1920.
O TRISTE EPIGRAMA
Ação no Pireu — Era pagã
I

Ele costuma seguir e importunar os estrangeiros ao longo do


cais...
Quando os estrangeiros lhe dão dracmas, ele corre às
tabernas e bebe até cair de bruços sobre o basalto. E todo o seu
corpo se agita e se alvoroça como um terreno árido beneficiado por
uma chuva bendita...
Quando as dracmas e os trióbolos acabam, ele se vai postar,
humildemente, à sombra dos pórticos e à amurada do Farol, como
um cão à espera do amo. E, dentro da túnica estreita e rota, o seu
corpo magro e trigueiro lembra uma múmia enrolada em faixas e
ataduras...
Ele já não sabe andar, porque o vinho, desde muito, lhe deu
esse ar titubeante de criança...
E é comum os marujos do cais e a malta das vielas
zombarem do seu andar grotesco, quando ele passa, mostrando a
todos, como uma chaga, a miséria hedionda da sua inconsciência...
Ele recebe os motejos da plebe, com um claro sorriso de
idiotia dolorosa, e, só muito raramente, os seus lábios tortos
proferem blasfêmias sórdidas...
Quando alguma frota arriba ao Pireu, ele se toma de
amizades com os timoneiros e abusa da frívola liberalidade dos
marujos. E, à guisa de recompensa, com feliz habilidade, depois, os
leva a outras tavernas do bairro trácio, onde há abundância de
judias e efebos...
E, às vezes, em festivais de mercadores e de nobres, os
hierodulos o expulsam a bastonadas do recinto, porque, sevil como
um gato, ele roça a túnica de linho encardido pelos triclínios e
gomis, implorando, com um gesto de sofista, um trago de Samos ou
de Quios.
À noite, quando, lembrando uma comitiva de bárbaros, os
carros dos vinhateiros entram na cidade, ele recolhe das sarjetas,
no côncavo das mãos, a água glauca do vinho que se desperdiça; e,
se a sede é muita, deita-se de borco e sorve, com roncos
impetuosos, a toalha plácida dos sobejos...
Ele vive dentro da multidão, pelas praças e dédalos, pelos
pórticos e escadarias, dia e noite, ao sol e à chuva, sem rumo, como
esses barcos caducos que desconhecem a saudade dos portos e se
acostumam ao nostálgico desgarramento do mar alto.
Embora os homens o conheçam, ele desconhece todos os
homens. Quando abre as pálpebras é para olhar para si próprio.
Quando fala, fala sozinho, diz coisas que evidentemente são para
os seus próprios ouvidos, pois ninguém ainda entendeu o sentido
das suas nênias.
Ele não conhece o tempo porque parece que o tempo o
esqueceu, muito embora o vinho, na sua garganta, tenha um
sussurro lento de clepsidra...
Ele não olha o sol porque o sol lhe projeta no chão uma
sombra disforme e monstruosa, como um aborto exageradamente
impressionante... E isso lhe causa vivo rancor.
Ele não olha a lua, porque quando a lua embranquece os
mármores e cariátides das cornijas e platibandas, os seus olhos já
não veem, pois, embora muito abertos e esgazeados, são como
aquelas pedras foscas, meio azuis, que perdem o brilho quando
perto se acende alguma luz.
E, todavia, ele parece compreender que o seu destino é o
destino dos cães e dos mendigos, visto como, nos intervalos
lúcidos, ele chora, esfregando os olhos diante da estátua
criselefantina de Hermes Trismegisto.
Embora isso vos conturbe na vossa alegria, eu vos declaro
que esses intervalos lúcidos duram pouco tempo e são raros como
as chuvas no deserto... Instintivamente a sede, a lava se reacende...
E ele pede, implora, grita, soluça, agride, rouba; e, quando
tem nas mãos um odre de vinho, mesmo saburrento, toda a sua
alma, como um verniz, lhe sobe ao rosto... E o vinho, sussurrante,
lhe escorre pela garganta como a água do tempo pelo funil das
clepsidras...
Depois, como um barco caduco que desconhecesse a
saudade dos portos, ele se aventura pelo oceano marulhante da
multidão...
II

Apesar de tudo eu sei que na Grécia inteira, no mundo


inteiro, a humanidade quase toda bebe...
Os ricos, os nobres, os patrícios, os mercadores e as
cortesãs bebem em copas de ouro e prata.
Mas os pobres, a plebe, os mercenários, os marujos, os
hoplitas e as prostitutas bebem em odres de argila e cobre...
Para os ricos o vinho provém de vindimas opulentas,
festejadas sob a tutela de Dioniso, o desejo de Baco e a furtiva
assistência das raposas matreiras...
Para os pobres o vinho provém de vindimas miseráveis,
festejadas em vales áridos, entre urzes e peregrinos que
desconhecem o clangor argentino do claro evoé!...
Para uns, vinho guardado e envelhecido em subterrâneos
aprazíveis.
Para outros, vinho acumulado ao fundo das tavernas, tendo,
como os pântanos e piscinas, a vasa de impurezas que, às vezes,
do fundo sobe à tona...
Uns o bebem em festejos, orgias, jogos, amores e loucuras
estravagantes... Outros, porém, quase todos, o bebem por uma
sede estranha, sinistra, talvez porque ele tenha a cor rubra do
sangue humano ou a alvura transparente de certos venenos
feminis...
Quase sempre o vinho, com a sua atmosfera de sonhos e
rondas, vem abafar o recinto que o amor abandonou...
Quase todo o desgraçado bebe quando não pode achar nas
lâminas e nos estiletes o clarão deslumbrante da eternidade...
Mas o que nem todos sabem é que, se o vinho entristece os
alegres e atenua o anseio dos infelizes, é porque ele tem, ao
mesmo tempo, no sabor, a frescura aveludada das cantigas
bucólicas dos agricultores e o áspero azedume da canção dolorida
dos escravos do lagar...
Uns o bebem sem razão alguma... Quase todos, porém, para
obrigarem o corpo a seguir paralelamente a dança exótica da alma
humana...
III

Ele não conhece os homens porque os homens o


desconhecem como homem...
E, entanto, ele já viveu, em tempos, quando o vinho, com
aquela cor de sangue humano e aquela transparência de veneno
mortal, ainda lhe não entrara sorrateiramente pela casa adentro...
Quem for feliz atire às ondas o seu anel, para que o olhar
dos deuses continue desviado para longe...
Quem for feliz prepare as lágrimas para o dia seguinte... E
não se muna jamais de bastão e sandálias quem seguir pela vereda
da felicidade... porque, ao fim do décimo passo, o caminho será um
abismo, ao fundo do qual uma grande voz blasfemará zombando da
nossa estupidez...
Outrora ele não tinha o andar grotesco, nem o sol lhe
projetava no chão uma sombra disforme de aborto...
O vulcão das suas entranhas ainda não se abrasara... E ele
era qualquer coisa na categoria das coisas...
Outrora ele tinha um corpo... e, com o aço dos seus
músculos, a multidão, muita vez, nos jogos numídicos, o viu fazer
assombros, coroado de louros...
Outrora ele tinha alma... E, nos papiros, palimpsestos e
inscrições murais, o seu espírito ficou gravado desde Atenas até às
colônias magnas, como um sulco luminoso aberto em coralina pela
aresta dum diamante...
Outrora ele tinha fortuna... E desprezava, entediado, os seus
palácios, mulheres, escravos, quadrigas, adegas e rebanhos...
E, embora isto vos conturbe na vossa alegria, eu vos direi,
confidencialmente, que esse farrapo humano outrora amou alguém,
pois Mirtocleia, a tocadora de flauta, carpideira de cerimônias
fúnebres, é sua filha, filha do seu amor...
IV

Mirtocleia tem a beleza macia dos frutos que amadurecem


ao sol e ao orvalho nos hortos sagrados...
Quando alguém morre, nos bairros ricos, os parentes do
morto procuram Mirtocleia.
E ela, mais as suas sete amigas, todas vestidas de luto e
tristeza, ante as caçoilas aromáticas, à roda do morto, inicia a
cerimônia, segundo o rito ancestral.
E, à roda do morto que, na sua atitude irônica, olha
fixamente o teto da casa, as carpideiras se flagelam chorando alto,
descabelando-se, num bailado lúgubre...
Quando o ataúde sai a celeuma religiosa cresce de entoação
e, ao depois, quando os parentes do morto dadivosamente lhes
pagam, Mirtocleia e suas sete amigas voltam para casa, nas portas
da cidade, conversando calmamente...
As sete carpideiras compram, com o salário, perfumes,
viandas, especiarias, sandálias, espelhos e pregos de toucar. Mas
Mirtocleia, mal chega à casa, guarda amorosamente as moedas
num cofre de ébano, um cofre estranho que mais parece um
sarcófago de criança.
Nesse pequeno esquife Mirtocleia guarda as suas moedas
para o amante que está na guerra.
Às vezes, quando segue algum cortejo fúnebre, encontra o
pai pelo caminho.
Mas ele não a reconhece porque os seus olhos, embora
abertos, estão sempre separados da alma por um estranho
nevoeiro.
Se ela o acaricia, ele a repele. Se ela o arrasta para casa,
ele estrebucha, agarra-se aos varais dos postigos, aos fustes
dóricos dos vestíbulos e aos balaústres dos templos...
Em casa, deita-se como um fardo abandonado ao próprio
peso... E, alta noite, ante a beleza da filha que dorme ao pé, na sua
meia nudez alvíssima, ele blasfema, horas e horas, delirando, como
os cães que ladram à lua.
De manhã, quando sai para se ir postar à beira do molhe,
geralmente rouba as moedas do abisso de Mirtocleia...
V

E, todavia, esse farrapo humano amou alguém, pois aquela


tocadora de flauta, carpideira de cerimônias fúnebres nos bairros
ricos, é sua filha, filha do seu amor...
Embora fiqueis conturbados na vossa alegria, sabei que,
ontem, o bêbado, ao entrar em casa, ao transpor a porta,
cambaleou de encontro aos dois degraus azuis, e caiu
grotescamente sobre a lâmpada do vestíbulo pobre, espatifando-a
de encontro ao lajedo.
E, como viesse a filha, na sua meia nudez, assustada,
levantá-lo, ele agarrou-se a ela e, rindo dolorosamente, exclamou, a
custo equilibrando o corpo esquálido na aldraba: — Tu és esguia
como os punhais e, dia e noite, andas cravada, como um punhal, na
minha imaginação...
Depois, olhando-lhe os flancos luzidios e o ventre penugento,
vendo-a, trêmula, cobrir-se, a esmo, com os dedos espalmados,
atirou-lhe três imprecações, como salivadas fétidas sobre a nudez
de alabastro...
E balançando o corpo, abrindo os braços cabeludos e
mostrando os seus dentes tão corroídos de limo como os bojos das
trirremes, hirsuto, bestial e hediondo, começou a espumar e a rir,
com fios grossos de baba pelas comissuras carnosas da boca
amendoada, empastando a barbicha faunesca de mercador...
Cingindo-a, depois, pelo flanco, já a vencia e prostrava sobre
o tálamo revolto, urrando como certos lobos da Gália terceira de
César. Parecia que o grande crime ia acontecer.
Mas, subitamente, mercê dos deuses, como o bêbado se
abaixasse para desatar as sandálias, Mirtocleia, erguendo, com
ímpeto dobrado, o cofre de ébano, franzindo a face na contorção do
golpe, o esboroou de encontro ao crânio luzidio do pai.
O bêbado rolou sobre o torso... Perdeu a fisionomia num
espasmo horripilante... Depois, quase instantaneamente, caiu com
os olhos tortos como duas luzes mortiças desencontradas. Espumou
três ou quatro vezes, formando bolhas nos lábios visguentos. E,
como um terreno árido, beneficiado por uma chuva benéfica, três ou
quatro vezes se agitou num repelão esquisito. Depois morreu...
E, pelo lajedo, havia sangue e moedas. E uma substância
branca como a polpa de certos frutos, escorria da fenda óssea,
tremendo como os bolos dos festins de Catinos.
Pelo caminho de ciprestes e marcos de pedra, Mirtocleia saiu
a correr, com os dois braços abertos, formando no ar uma cruz
hebraica...
E o seu pranto durou a noite inteira, através das vias escuras
e das sendas rumorosas.
Ao vir da madrugada, a tocadora de flauta e as suas sete
amigas carpideiras, compuseram o cadáver, sobre o leito. Com água
de fonte lavaram-lhe as têmporas e a calva lívida...
Ataram-lhe à roda dos cabelos pastosos, à maneira dum
turbante hindu, uma enorme atadura azul, porque o crânio do
bêbado se fendera como um odre...
O morto, branco como o gesso da casa do escultor
Filodemo, tinha apenas de humano a auréola cianótica das olheiras
pantanosas. E a boca, muito aberta, mostrando um trecho de treva,
parecia exclamar: Oh...
VI

Pelo resto da madrugada houve no cubículo pobre um


contínuo murmúrio de flauta e um sereno ressoar de epicédio
tristíssimo.
Era tão triste o luar que os ciprestes se alongaram para o
céu num êxtase, e um enxame de abelhas penetrou no cubículo,
doidejou em torno do morto e acabou enxameando na boca
estranha, zunindo lá dentro com fúria...
Um cheiro feliz de arômatas subia até ao teto de inscrições
afrodisíacas. Mas o ébrio permanecia insensível, por isso que, em
vida, as aletas do seu nariz disforme só tremiam ao ressaibo das
adegas e das infusas.
Como o delta de luar que entrava pela porta fugisse aos
poucos, a cerimônia fúnebre começou a se movimentar. Os montes
rochosos, cor de osso de gigantes, cobriram-se de uma tênue
penugem de claridade, lembrando as espáduas de certas pastoras
da Trácia remota...
No porto, em semicírculo, junto ao promontório oblíquo, o
farol, como um olho vazado, erguia a sua inutilidade maciça... No
mar, quatro velas encarnadas, com desenhos simbólicos, curvaturas
nas popas e largos remos paralelos, saíam para o mistério ousado
da Itália longínqua...
Íbis estranhas, de colos brancos e asas triangulares,
perseguiam a noite que tombava para as bandas de Sagunto e
Zaquintos.
— Vamos atirá-lo ao mar — disse Mirtocleia. —
Guardaremos segredo. Diremos que foi a peregrinar, por aí, além.
— E a mão de Mirtocleia esboçou no ar uma forma de taça cheia de
fel...
Envolveram-no num lençol de linho perfumado de nardo.
Ataram aos pés um monolito e prenderam os braços e as pernas em
ataduras e apodesmas, para que o morto, nas águas, não tivesse os
desengonçamentos de quando andava no mundo...
— Nem tu sabes como ficas linda quando choras... — disse
uma carpideira a Mirtocleia, vendo-lhe as lágrimas até aos seios.
Puseram na destra do morto, no côncavo azulado, a senha de
Caronte.
VII

Ao longo do promontório a teoria macabra seguiu entre


riólitos abruptos e figueiras malditas. Mirtocleia chorava com
suavidade delicadíssima e as sete amigas cantavam, em surdina,
qualquer coisa de uma tristeza estrangulante...
Chegaram ao cimo da escarpa. Amanhecia. O oriente todo
se levantava num incêndio...
— É melhor assim.
E, numa hora em que o mar, como um grande seio, cheio de
melodias, subiu, deitaram-lhe o corpo, como quem despeja a
consciência para o esquecimento...
— Quando o teu amante vier da guerra aos Medos, tu lhe
dirás a verdade. E ele te perdoará, e sereis ambos felizes de
invejar...
Ela respondeu com as olheiras úmidas de pranto:
— As nereidas e os delfins vão zombar de meu pai, lá no
oceano, porque era um beberrão pior do que Sileno... — Depois,
com as mãos dóceis como cisnes, desfolhou aloendros e pâmpanos
sobre a espuma sonora... E voltaram todas para casa, pensativas,
como oito sombras de dor...
Pelo caminho de riólitos e figueiras bravas, o cortejo das
carpideiras, contornando o promontório, desceu até o cais,
atravessou a ágora, entrou na perspectiva dúbia dos peristilos, e, lá
longe, sob a brancura lantejoulante de Palas Atena, diante da
cornija triangular Parthenon, sumiu num desvão de labirinto da
cidade augusta...
E, nessa mesma tarde, num enterro nobre no bairro rico,
Mirtocleia e as sete carpideiras choraram tanto, com tão sincera
angústia e com tão patético atarantamento, mordendo de tal forma
as falanges roxas dos dedos, e de tal forma desprendendo a alma
em bolhas de soluço pela garganta, que os convivas da cerimônia
fúnebre exclamaram todos, depois, quando elas saíram: — Nem
sabe essa rapariga como fica linda quando chora!...

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