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ADOÇÃO

A NOVA LEGISLAÇÃO
DESAFIOS E ESPERANÇAS
“ADOÇÃO em 8 passos”

Carlos Fortes
Promotor de Justiça
Infância e Juventude
CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA
FEDERATIVA DO BRASIL

Art. 227. É dever da família, da sociedade e do


Estado assegurar à criança e ao adolescente,
com absoluta prioridade, o direito à vida, à
saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à
profissionalização, à cultura, à dignidade, ao
respeito, à liberdade e à convivência familiar e
comunitária, além de colocá-los a salvo de toda
forma de negligência, discriminação, exploração,
violência, crueldade e opressão. (grifo nosso)
Garantir a observação dos direitos da infância e da
adolescência é garantir o progresso, a evolução e
melhoria de vida para todas as pessoas.

É investir no futuro...
O bem estar social e a democracia somente
florescem em uma sociedade em que as virtudes
cívicas são cultivadas e prevalecem na forma de
interesse pelo bem comum. E nenhum conceito de
bem comum é compatível com o abandono ou o
sofrimento de uma criança.
É vital para o Brasil a garantia dos direitos das
crianças e adolescentes, definidos como prioridade
absoluta no artigo 227 da Constituição Federal,
especialmente o direito à convivência familiar,
através:

de auxílio às famílias carentes

incentivo à adoção e outras formas de colocação


em família substituta
Cada criança e cada adolescente devem ter uma
família, ou seja, devem ter garantido o direito
constitucional de convivência familiar, seja através da
família biológica (que deve ser assistida e apoiada),
seja através da família substituta (com adoção ou a
guarda), uma vez que a criança, inserida em família
responsável, terá, por esta mesma família, garantidos
todos os seus direitos contemplados na Carta Magna.
Juridicamente, a adoção é um ato (jurídico) solene e
complexo pelo qual se estabelece um vínculo de
paternidade e filiação entre adotante e adotado,
independente de relação natural ou biológica de ambos.
Não há filho adotivo, adoção plena ou não: uma vez feita a
adoção há SEMPRE pais e filhos.
Breve Histórico da Adoção
A adoção é um instituto milenar, que inicialmente tinha
cunho essencialmente religioso. Adotar um filho era
garantir perpetuação da família, salvação do lar pela
continuação do culto doméstico. E só era permitida a
quem não tinha filhos biológicos.

Código de Hamurabi (1750 a.C.) primeira codificação


jurídica da história, definiu regras sobre adoção, as
formas de reclamar o filho de volta, bem como
revogação da adoção se o adotando fosse ingrato.
A Bíblia indica a existência de adoção, entre os Hebreus:
“podiam adotar tanto o pai como mãe, e a adoção só se
dava entre os parentes; os escravos eram considerados
como parte da família” (Esther, II, 7, Ruth, IV, 16); “a
mulher estéril poderia adotar os filhos da serva que ela
havia conduzido ao tálamo do seu marido” (Gênesis,
XVI, 1 e XXX, 1 e 3).

Na Grécia, em Atenas, só os cidadãos teriam o direito de


adotar. O ato era solene e exigia a participação de um
magistrado, salvo se fosse adoção por testamento.
Foi em Roma que a adoção mais se desenvolveu e influiu
nos direitos dos países do ocidente... estava vinculada a
um conceito de hierarquia, além de perpetuar o culto
doméstico, atingiu também a finalidade política,
permitindo que plebeus se transformassem em patrícios
e vice-versa.

Na Idade Média a adoção caiu em desuso e quase


desapareceu – oficialmente...

Foi o Código Napoleônico (Francês) que trouxe a adoção


para a legislação moderna, para favorecer os interesses
de quem não pudesse ter filhos
O instituto da adoção entrou no Brasil através das Leis
Portuguesas – que visavam direito patrimonial e
sucessão (herança)

A adoção foi sistematizada pela Lei Brasileira pelo Código


Civil de 1916 – visava o interesse dos adotantes
maiores de 50 anos e “sem prole legítima ou legitimada”

Lei 3133/1957 – finalidade assistencial, permitida para


adotantes maiores de 30 anos, não envolvia a sucessão

Lei 4655/1965 – legitimação adotiva


Código de Menores (Lei 6697/1979) – estabeleceu a
adoção plena (adoção simples)

Constituição de 1988 (artigo 227, §6º) – proibiu qualquer


forma de discriminação da filiação biológica ou afetiva –
interesse da criança e do adolescente

“Os filhos, havidos ou não da relação do


casamento, ou por adoção, terão os mesmos
direitos e qualificações, proibidas quaisquer
designações discriminatórias relativas à
filiação.”
Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8069/1990,
arts. 39 a 52) – regulamentou a adoção de menores de
18 anos, conforme mandou a Constituição: proteção
integral à criança – adotante podia ter 21 anos

Código Civil de 2002 – aboliu de vez a adoção simples,


adotante podia ter 18 anos – trouxe a afetividade e o
interesse social como valores jurídicos (em contrapartida
ao patrimônio)
Lei Nacional da Adoção
Lei 12.010 de 03 de agosto de 2009
Lei Nacional da Adoção
(Lei 12.010 de 03 de agosto de 2009) – modificou o ECA, a
CLT e o CC, regulamentando totalmente a matéria
relativa a adoção

Foram modificados os arts. 39 ao 52 do ECA e foram


criados os arts. 52-A a 52-D

Tem como fundamento o aperfeiçoamento da sistemática


prevista para garantia do direito à convivência familiar –
com preferência à família natural – a todas as crianças e
adolescentes.
Lei Nacional da Adoção
(Lei 12.010 de 03 de agosto de 2009)

Traz melhorias e desafios a serem enfrentados

Não é uma Lei “Mágica”

Várias propostas de Lei tratando de adoção tramitaram por


anos junto ao Congresso Nacional – 15/07/2009
Senadora Patrícia Saboya – 03/08/2009 foi sancionada
pelo Presidente Lula – 04/09/2009 publicada –
02/09/2009 republicada
Alguns pontos relevantes:

 Fixação de prazo para permanência de criança ou


adolescente em abrigo (6 meses – 2 anos);
 Cadastramento indispensável;
Cadastro Nacional: a lei prevê dois cadastros nacionais
de adoção um de adotantes outro de crianças e
adolescentes em condições de ser adotados.
 Oitiva obrigatória do adotando maior de 12 anos;
 O adotado tem direito de conhecer sua origem
biológica de obter acesso irrestrito ao processo de
adoção após completar 18 anos;
 Maior rigor na adoção internacional;
O adotante estrangeiro ou brasileiro residente no exterior
precisa realizar estágio de convivência com o adotado de
no mínimo 30 dias no Brasil.
Haverá cadastros distintos para pessoas ou casais
residentes fora do país, que somente serão
consultados na inexistência de postulantes
nacionais habilitados nos cadastros estaduais e
nacional;
 Casais homoafetivos continuam não podendo adotar
crianças na condição de casais, mas não há nenhum
impedimento para que um dos dois parceiros realize a
adoção como pessoa solteira.
Requisitos básicos para adoção:

 Interesse do adotando (art. 227 da CF/1988);


 O adotante deve ser inscrito no cadastro (salvo raras
exceções, art. 50, §13º);
 Consentimento do adotando maior de 12 aos de idade;
 Consentimento dos pais ou perda do poder familiar;
 O adotante deve ter mais de 18 anos de idade;
 Diferença de 16 anos de idade entre adotante e
adotando;
 Estagio de convivência (prazo relativo);
Cadastro de pretendentes a adoção:
 qualificação completa;
 dados familiares;
 cópias autenticadas de certidão de nascimento ou
casamento, ou declaração relativa ao período de união
estável;
 cópias da cédula de identidade e inscrição no Cadastro
de Pessoas Físicas;
 comprovante de renda e domicílio;
 atestados de sanidade física e mental;
 certidão de antecedentes criminais;
 certidão negativa de distribuição cível.
Exceções ao Cadastramento (art. 50, §13º, ECA):

 Adoção unilateral;

 Parente, provados vínculos de afinidade e afetividade;

 Tutor ou Guardião de maior de 03 anos de idade,


provados vínculos de afinidade e afetividade;
Grupos de Apoio à Adoção
Grupos de Apoio à Adoção do Brasil:
Acre: GEAAC - Amapá: GEAD/MCP - Alagoas: SEMEAR
- Amazonas: GAPAAM - Rondônia: GAMA - Goiás:
GEAAGO - Distrito Federal: Projeto Aconchego - Mato
Grosso: GAIAC - Sergipe: GAASE - Mato Grosso do Sul:
Adote - Ceará: GEAAFOR - Rio Grande do Norte:
Projeto Acalanto Natal - Paraíba: GEAD-JP -
Pernambuco: GEAD-Recife - Piauí: Grupo ABRAÇAR -
Bahia: Projeto Acalanto Ilhéus e Viver Adoção em
Salvador - Rio de Janeiro: “Quintal da Casa de Ana”,
em Niterói, e também em Barra Mansa, Campos, Rio das
Ostras, capital, etc.- Minas Gerais: Alfenas, Contagem,
Juiz de Fora, Uberaba, Varginha e GAA “De Volta pra
Casa” de Divinópolis - São Paulo, Paraná, etc...
*
Grupos de Apoio à Adoção, objetivos e funções:

Prevenir o abandono;
 Apoio às famílias carentes

Estimular a guarda e adoção, como alternativas à


institucionalização de crianças abandonadas;
 Lares de transição
 Orientação de famílias pretendentes à adoção
 Divulgar a nova “cultura da adoção”
 Auxiliar as Varas da Infância e Juventude
Grupo de Apoio à Adoção “De Volta pra Casa”
Nova Lei de Adoção - ANGAAD
Grupo de Apoio à Adoção “De Volta pra Casa”
Nova Lei de Adoção
Desafios para a garantia do
Direito de convivência
familiar através da Adoção
Adoção “Intuito Personae” (Dr. Dimas Messias de
Carvalho – Adoção e Guarda);

Desinformação, Medo, Insegurança, Preconceito...


 A criança abandonada não é criminosa
 A adotante é o maior beneficiado com a adoção
 O amor verdadeiro não depende do vínculo biológico
 O relacionamento familiar é preponderante na formação
de uma pessoa (“DNA da alma” – Dr. Sávio Bittencourt)

Mudança na “Cultura da Adoção”...


Frivolidade e despreparo... Seriedade na adoção!

O labirinto burocrático... (capacitação/educação)

A indiferença em relação às crianças abrigadas...

Adoções tardias...
Adoções interraciais...
Adoções de pessoas com necessidades especiais...
Adoções de grupos de irmãos...
Algumas providências...

 Investimento nos programas de apoio à família carente


(a adoção e a guarda são medidas excepcionais);

 Investimentos para a celeridade nos processos


(judiciais ou não) de definição da situação jurídica da
criança em situação de perigo;

 Mudança na “cultura de adoção”, para por fim aos


preconceitos de idade, raça ou situação física da criança
a ser adotada;
1. Procurar um ADVOGADO de confiança e/ou
grupo de apoio à adoção (GAA) mais próximo,
para receber orientação

É importante receber orientação correta e conversar


com outras pessoas que já adotaram e que
estudam e se dedicam à causa da adoção. Refletir
sobre os motivos de querer adotar, sobre os mitos e
preconceitos da adoção, sobre os perigos das
adoções clandestinas, etc.
Existem GAAs em vários estados do Brasil. Para
localizá-los, acessar o site da Associação Nacional
dos Grupos de Apoio à Adoção – ANGAAD
WWW.ANGAAD.ORG.BR
2. Procurar a Vara de Infância e Juventude de sua
comarca para HABILITAR-SE para a adoção.

Todas as pessoas maiores de dezoito anos podem


adotar, independentemente do seu estado civil,
orientação sexual, etc., desde que a diferença de
idade entre adotante e adotado seja, no mínimo, de
dezesseis anos.

No caso da união estável homoafetiva, ainda não


existe lei que autorize a adoção conjunta (dois pais
ou duas mães), mas, também, não existe nenhuma
lei que a proíba, já existindo vários casos (STJ).
Após a ENTREGA DOS DOCUMENTOS exigidos, passa-se por
uma ENTREVISTA, para que a Psicóloga da Vara possa conhecer
o pretendente, saber sobre seu estilo de vida, renda financeira,
estado emocional, etc. Nessa etapa, será preenchido um
questionário, aonde o pretendente deverá DEFINIR O PERFIL
DESEJADO para a(s) criança(s)/adolescente(s) que deseja adotar
(sexo, idade, com ou sem irmãos, cor da pele, condições de saúde,
etc.) e indicar em quais estados brasileiros aceita adotar (de um a
todos). Se acharem necessário, enviarão uma assistente social para
visitar a casa do pretendente, para avaliar se a moradia está em
condições de receber uma criança,etc. Em seguida, o pretendente é
chamado a participar de CURSO PREPARATÓRIO, reconhecido
pela Vara de Infância de sua comarca. Após vencidas todas essas
etapas, será fornecido o CERTIFICADO DE HABILITAÇÃO, válido
por dois anos, em todo o território nacional.
3. Entrar para o Cadastro Nacional de Adoção.

Cruzando-se os dados dos pretendentes e dos


adotáveis inscritos no CNA busca-se encontrar a
família que seja adequada à criança/adolescente.

Caso o perfil traçado para a criança/adolescente


que se almeja adotar seja muito exigente,
dificilmente tal perfil estará disponível no CNA e o
pretendente terá que aguardar, por um tempo
indeterminado.
4. Saber das crianças que esperam por uma família.

O pretendente poderá pedir autorização ao Juiz da Vara da


Infância, para visitar as instituições de acolhimento e
conhecer as crianças reais que lá estão, à espera de adoção.
Crianças maiores, grupos de irmãos, crianças com problemas de
saúde ou com alguma deficiência, ficam esquecidas nas
instituições e sequer chegam a ser conhecidas pelos pretendentes,
mas são tão capazes de amar e de serem amadas como todas as
outras e de trazer muitas alegrias para seus pais/mães.

É importante que os pretendentes sejam devidamente preparados


para realizarem “visitas sem danos”, ou seja, visitas
planejadas com a equipe técnica da instituição de acolhimento, de
modo a não causarem expectativas e sobressaltos às
crianças/adolescentes lá acolhido(a)s.
5. Realizar uma aproximação com a
criança/adolescente a ser adotada(o).

Sendo identificada alguma possibilidade de adoção,


através do CNA ou das visitas às instituições, deverá
ser iniciada uma fase de aproximação dos
pretendentes e da criança/adolescente.

Nessa fase, tanto os pretendentes quanto as


crianças/adolescentes precisam ser preparados para
que o conhecimento entre eles se dê da forma mais
natural possível. Após algumas visitas, o pretendente
poderá levar a(s) criança(s) para passear, depois,
para passar o fim de semana na casa da família,etc.
6. Requerer a Guarda Provisória para o Estágio
de Convivência

O pretendente fará um requerimento ao Juiz da Vara


de Infância, solicitando a guarda da
criança/adolescente para o chamado “Estágio de
Convivência”.

Assistentes sociais e psicólogos da Vara da Infância


deverão acompanhar esse período de adaptação
para opinar se aquela adoção significa o melhor para
a(s) criança/adolescente(s) em questão.
7. Iniciar o processo jurídico da adoção .

O processo é gratuito e culminará com a


audiência de adoção, a partir da qual será
lavrado o novo registro de nascimento.

Nos casos em que o conhecimento entre o


pretendente e o adotando aconteceu fora desse
contexto, como nos casos de adoção consentida
ou de crianças/adolescentes que já mantinha(m)
vínculos afetivos com o pretendente, o processo
já iniciará nessa etapa jurídica.
8. Apoiar novos pais adotivos, participar de um
Grupo de apoio à adoção e viver a
maternidade/paternidade adotiva com
naturalidade.

A adoção é uma forma tão digna e tão bela de se ter


um filho, quanto a geração biológica. A convivência,
no grupo de apoio à adoção, de pais/mães
adotivo(a)s, pretendentes à adoção e profissionais
diversos envolvidos na causa, estudando várias
temáticas relacionadas à adoção e compartilhando
suas experiências, permitem um aprendizado
contínuo, em busca de convivência adotiva natural e
harmoniosa.
Vamos todos trabalhar juntos, com dedicação, com garra,
com Amor, pensado no que é mais importante em nossa
vida, o filho... adotivo ou biológico,... mas sempre filho.

Vamos nos lembrar que, enquanto estamos em nossas


casas, muitas crianças não tem uma família, sofrem
abusos e exploração, sofrem violência... não tem a
quem chamar de pai ou mãe...

Vamos lembrar que as crianças são tudo que temos.


Garantir seus direitos não é um favor, mas sim o único
meio de garantirmos também um futuro melhor.
Mensagem do Psicólogo Fernando Freire – Adoção, Doutrina e
prática:
Carlos Fortes
Promotor de Justiça
Infância e Juventude
case.fortes@uol.com.br