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Negrinha, publicado em 1920 contém vinte e dois contos escritos em sua maioria em uma

linguagem dramática ou cinematográfica, que conferem a seu texto maior velocidade e


promovem deslocamentos temporais e narrativos curiosos. Nesse livro, Monteiro Lobato
aborda questões humanistas a partir de críticas e análises sobre a sociedade patriarcal e com
mentalidade escravocrata do século XX. As críticas são, sobretudo, referentes à situação
desumana e de pobreza vivida por escravos e imigrantes, além da visão de inferioridade posta
sobre eles. Pode-se citar como contos com tal enfoque: O Bugio Moqueado, O Fisco – Conto de
Natal, O Jardineiro Timoteo, e principalmente o conto que dá nome ao livro, Negrinha.

Em Bugio Moqueado, o narrador conta sobre uma visita a um fazendeiro no Mato Grosso,
onde sem saber, consumiu carne humana em um jantar e após o feito, descobriu que o
fazendeiro havia matado um dos negros da fazenda, por supor de forma maldosa, que ele
tinha um caso com a sua esposa.. O conto mostra a brutal violência vinda dos donos de
escravos que maltratavam e até matavam de forma sádicas os escravos por motivos banais e
não concretos. Dessa forma, Bugio Moqueado faz uma crítica a situação desumana e violenta
a qual os escravos viviam.

Sobre a maneira como a história é escrita, é possível inferir que o começo informal, com uma
linguagem repleta de gírias e o certo exagero. “Mas lá em Mato-Grosso tudo é longe. Cinco
léguas é “ali”, com a ponta do dedo. Este troco miúdo de quilômetros, que vocês usam
por cá, em Mato-Grosso não tem curso. E cada estirão!…”

Monteiro Lobato também faz críticas á questão tributário-administrativa, á situação de miséria


vivida por imigrantes, a desigualdade da distribuição dos bens (que poderia ser amenizada por
um sistema tributário mais humano) e ao papel hipócrita dos funcionários do Estado. Tudo
isso no conto “O Fisco”
Ele se baseia na história de um menino de 9 anos, filho de imigrantes italianos, que tenta
ajudar seus pais se tornando engraxate, porém, durante sua tentativa bem intencionada, é
abordado por um fiscal da prefeitura, do qual exige uma licença municipal. O garoto não
possui a licença nem o dinheiro, dessa forma, o fiscal vai atrás dos pais dele para pagarem a
“dívida” e leva toda a economia da família.
A crítica do conto está fortemente presente durante o desfecho, onde há uma inversão de
valores porque, enquanto o garoto bem intencionado está tomando uma surra do pai por sua
ação ter acarretado prejuízos (mesmo visando algo bom), o fiscal corrupto está indo ao bar
beber uma cerveja com o dinheiro que "arrecadará”. A atitude do fiscal é vista como
totalmente contrária à de um funcionário público, pois ao invés de defender as pessoas e os
valores justos da sociedade, ele as explora sem sofrer nenhuma punição, apenas se
beneficiando. Já o garoto que só queria ajudar os pais, acabou por piorar ainda mais a situação
financeira e se prejudicou fisicamente, sofrendo um castigo.

O Conto “O Jardineiro Timoteo” relata a história de um negro descendentes de escravos que


se dedicou por 40 anos à trabalhar em um jardim, onde cada planta era como um verso que só
ele conhecia e o jardim, a memória vida da casa. Porém, após todo esse tempo, a propriedade
é vendida para uma família de luxo que decide mudar tudo que não estava nos padrões da
moda, inclusive o jardim e as flores. Timoteo vendo todos os anos de sua vida dedicados
aquele jardim sendo jogados fora, discute com o novo proprietário, amaldiçoa a todos e acaba
morrendo enlouquecido.
Há criticas em relação à forma pela qual a situação dos negros foi “amenizada” por Lobato, por
exemplo, a representação do período pós escravidão, com poucos vestígios de toda
desumanidade e prejuízo sofrido pelos escravos, já que no texto é como se todos vivessem em
harmonia sem conflito racial; Ademais, a bondade de Timóteo e sua benevolência são cada vez
mais acentuadas pelo autos, procurando desviar o foco e atenção do leitor, nunca o levando a
uma reflexão crítica sobre tal assunto: “Timóteo era feliz. (...) Sem família, criara uma família
de flores; pobre, vivia ao pé de um tesouro.(...) era feliz sim. Trabalhava por amor.”
Contudo, apesar das controvérsias, Monteiro Lobato, pretende nesse conto relatar o racismo,
mostrando que naquela época, eram raros os brancos que não se consideravam superiores.
Um trecho que pode exemplificar isso é "um preto branco por dentro" .
O autor também critica o mau tratamento aos negros no momento em que a família antiquada
vende a casa, deixando os empegados a própria sorte. Timóteo é passado para os novos
proprietários como se fosse um objeto, uma propriedade, evidenciando como ainda havia
profundos vestígios da escravidão e dessa mentalidade.

Outra crítica feita pela narração é sobre tradição destruída por modismos , quando os novos
proprietários mudam os móveis e principalmente o jardim, erguido e conservado por anos,
apenas para se encaixarem num padrão do momento.

“ O Jardineiro Timóteo” reúne diversas criticas e interpretações a certa de sua história, porém
todas elas, positivas ou negativas, estão em cima de uma visão crítica sobre o racismo em
relação a cruel condições dos negros e a mentalidade da sociedade.

“Negrinha”, conto que deu nome ao livro, é a maior prova da vocação humanista do autor,
nele está presente diversas críticas em relação a mentalidade atrasada do século XX após a
abolição da escravidão, a qual ainda percebia os negros como escravos sem identidade
própria, e eles por sua vez, sofriam com as condições após a lei Aurea, pois apesar de
concebida a liberdade, permaneciam a mercê da sociedade, sem condições de uma vida ideal.
O conto narrado é em terceira pessoa por uma linguagem formal , sem o uso de gírias,
oralidade, vícios de linguagem ou abreviações de palavras: "Dona Inácia mesmo pô-lo na água
a ferver; e de mãos à cinta, gozando-se na prelibação da tortura, ficou de pé uns minutos, à
espera. Seus olhos contentes envolviam a mísera criança”. Porém a linguagem dos
personagens é informal pois utiliza gírias e xingamentos. “— Cale a boca, diabo!”, “ —
Sentadinha aí, e bico, hein?, ” “ — Inda é o que vale...”

A começar pelo título da obra, a utilização do sufixo –inha, confere um tratamento pejorativo
dado à personagem principal no decorrer do conto, apresentada como “[…] uma pobre órfã de
sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados”.  Essa
denominação apresenta uma dimensão representativa, referente á forma como a toda
momento a personagem é chamada assim por terceiros e até por ela mesma, perdendo o seu
verdadeiro nome. Isso reflete a forma como os negros, mesmo após a abolição, continuavam
sem identidade própria, vistos ainda como escravo e, portanto, sem uma identidade real.
Ademais, a forma como é apresentada a personagem, focando nas características físicas, é
uma forma de ilustrar o principal motivo de todo sofrimento ao longo da narrativa: a sua cor.
Devido a isso ela é apelidada com diversos adjetivos pejorativos como é dito no livro:
“Pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata-choca, pinto gorado, mosca-morta,
sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa-ruim, lixo”. Perdendo sua própria individualidade.

A condição de Negrinha: órfã nascida na senzala e filha de uma escrava ( porém “livre” ou
seja, não escrava ) , confere a garota uma situação de abandono, pois não havia ninguém a
quem recorrer e a única pessoa (Dona Inácia) que “cuidava” dela, a maltratava fisicamente e
psicologicamente ao invés de realmente zelar por sua saúde e cultivar um carinho fraterno.
Tal circunstância pode se referir ao momento pós-abolição, quando os escravos finalmente
libertos, não possuíam nenhum apoio dado pelo governo ou pela sociedade e muitos
continuaram subordinados à seus ex donos.

A mulher que cria Negrinha, chamada Dona Inácia, é uma ex dona de escravos que não
aceitava o fim da escravidão e continua vendo os negros como inferiores e objetos. Ela é
descrita pelo livro de forma irônica com adjetivos como “virtuosa”, “excelente”, “ótima” e
“amimada dos padres, com um lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu”. Tal
descrição se assemelha com a hipocrisia de Dona Inácia, que apesar de se considerar uma
pessoa religiosa e dizer aos padres e familiares que criava Negrinha por caridade, na verdade, a
tinha como bode expiatório e descontava nela todas as suas indignações, a maltratando de
todas formas possíveis , e por ser uma criança órfã era indefesa e não possuía ninguém para
pedir ajuda, nem sequer entendia sua condição desumana. Esse trecho também é uma crítica
à hipocrisia religiosa e cinismo de Dona Inácia que se coloca como benevolente ao acolher a
garota, porém, o faz de forma sadista.

Um castigo extremamente sádico de Dona Inácia sobre Negrinha no livro é quando a patroa
pune a garota, colocando um ovo quente em sua boca devido á um xingamento proferido pela
menina á uma criada num momento de raiva: ““Negrinha abriu aboca, como o cuco, e fechou
os olhos. A patroa, então, com uma colher, tirou da água “pulando” o ovo e zás! na boca da
pequena. E antes que o urro de dor saísse, suas mãos amordaçaram-na até que o ovo
arrefecesse. Negrinha urrou surdamente, pelo nariz. Esperneou. Mas só. Nem os vizinhos
chegaram a perceber aquilo.”

Além das agressões sofridas, Negrinha é impedida de brincar e viver sua infância, contudo,
com a chegada de duas sobrinhas de Dona Inácia , tudo muda, a órfã vê as meninas brincarem
sem serem repreendidas e se choca, pois antes achava que qualquer tipo de brincadeira era
proibido. Negrinha vendo as meninas loiras e brancas, repletas de bonecas e com a total
liberdade para brincarem e sem nenhuma marca de agressão no corpo, percebe finalmente a
sua condição como uma criança negra, filha de ex escrava , órfã e com o corpo repleto de
machucados. Ela entende que toda a sua situação desfortuna é devido a sua cor e e nunca irá
poder viver uma plena felicidade e liberdade por não fazer parte da “esfera branca”

Durante essa passagem é perceptível uma clara critica a sociedade escravocrata no que se diz
a respeito da vida de um ex escravo, ele não era considerado como uma pessoa nem pelos
outros e, no caso de negrinha, nem por si mesma e é visto como inferior, sem as mesmas
oportunidades e digno de sofrimento; É denunciada a extrema desigualdade social a qual os
negros estavam sujeitos.
No decorrer do conto, as sobrinhas deixam que Negrinha pegue uma de suas bonecas, nesse
momento, um caráter eufórico surge diante da personagem, mesmo em condição de escrava
(não por definição, mas pelo tratamento que recebia, afinal, a historia se passa apos a abolição
da escravatura) ela se sentiu uma pessoa pela primeira vez e principalmente, uma criança
assim como as outras. Durante esse momento, as crianças brancas apenas se mostram
curiosas em relação à reação Negrinha, vendo a menina como uma igual, uma criança, sem se
importar com a cor ou origem dela; O autor pretende mostrar nesse fragmento que as crianças
tem uma consciência pura e não possuem os preconceitos impostos pela sociedade adulta.

Enquanto Negrinha brinca admirada com a boneca , tendo a esperança de um dia no futuro se
tornar mãe, Dona Inácia flagra a cena, porém ao invés de recrimina-la, a mulher se compadece
com a situação e deixa a garota brincar, tornando-se humana. Nesse breve momento há uma
experiência humanizadora em relação à elas pois ambas experimentam uma sensação de amor
materno parecido

O autor coloca grande carga emocional neste episódio, tanto que ,após Negrinha perder com a
saída das crianças de sua casa essa pequena amostra de identidade e felicidade , a órfã passa a
delirar e fantasiar a respeito daqueles dias, cujo experimentou a sensação de ser uma criança e
ser humana. Ao perceber seu lugar na sociedade, não mais como objeto e sim como pessoa,
ela se dá conta que nunca mais irá realmente viver, os dias passados não irão se repetir, e com
isso acaba morrendo em decorrência de seu estado depressivo e introspectivo.

No livro “Negrinha” Monteiro Lobato além de apresentar contos com vocação humanista , o
autor também optou por escrever contos considerados pitorescos, ou seja, considerados
inusitados, divertidos com a proximidade da narrativa oral. Esse eixo temático principal está
presente em diversos contos como: Sorte Grande, Dona Expedita e Policitemia de Dona
Lindoca.

Sorte Grande é um conto pitoresco por não apresentar uma crítica sólida, mesmo com
passagens mostrando a déficit econômico de Maricota e sua família, o conto foca, sobretudo
em mostrar ao leitor que a vida pode mudar a partir de um acontecimento considerado
"sortudo”, no caso de Maricota foi desenvolver a doença no nariz, para então viajar em busca
de uma cura e encontrar sua "sorte" (no caso o médico jovem) no meio do caminho. Além
disso, o fato de algo que era motivo de vergonha ( o nariz grande) se tornar um motivo de
conquista e sorte, devido ao desenrolar da história, é um tanto quanto cômico e inusitado.

Dona Expedita também é considerado pitoresco já que possui uma temática criativa com
enfoque no humor e nas situações imprevisíveis da vida, ao invés de apresentar uma crítica
direta a sociedade. O conto foca em duas situações cômicas que aconteceram com Dona
Expedita, que estava em busca de um emprego, uma ao se enganar em relação ao salário pago
e outra em relação à um mal entendido ocorrido após ela se deparar com um serviço
excelente, mas, mais tarde descobrir que a pessoa que falou sobre tal emprego, na verdade,
estava em busca de um emprego também.
O autor narra a história com naturalidade e humor impressionantes, revelando um controle
sobre a sintaxe, como no trecho em que apresenta de forma irônica e oblíqua a real idade de
Dona Expedita: “ E, como só tem trinta e seis  anos, veste-se à moda dessa idade, um pouco
mais vistosamente do que a justa medida aconselha. Erro grande! Se à força de cores claras,
ruges e batons, não mantivesse aos olhos do mundo os seus famosos trinta e seis, era provável
que desse a ideia duma bem aceitável matrona de sessenta… “

Dona Expedita é um conto que pretende divertir o leitor acerca das casualidades da vida, não
propor uma reflexão crítica, a linguagem no trecho anterior é um dos fatos que comprovam
isso, pois Monteiro Lobato utiliza sutilezas e um discurso robusto antes de chegar ao ponto
principal.

Policitemia de Dona Lindoca.é um conto que reafirma o estilo pitoresco por apresentar um
caráter fortemente humorístico. O conto se baseia na história de Doma Lindoca, uma senhora
infeliz por sofrer com os adultérios cometidos por seu marido e pela falta de sexo. Um dia,
Lindoca sente um mal estar e vai ao médico, onde o médico mente ao diagnostica-la com
Policitemia, uma doença que causava tais maus estares devido a elevada taxa de glóbulos
vermelhos no sangue, logo o médico recomenda que Lindoca tenha descanso e fique aos
cuidados de seu marido. Lindoca se sente feliz durante o tempo em que estava "doente", por
conta da atenção que tanto almejada e agora tinha de seu marido, porém descobrem que o
médico que a diagnosticou estava mentindo, assim, Dona Lindoca perde seus status de
"paciente" e volta a sua pacata vida. Nessa história o autor delicia os leitores com o relato de
uma senhora da alta sociedade que possui doença de "nobres", dando um tom cômico à obra.

FONTES: https://www.guiadelinguagens.com.br/vestibular/negrinha-monteiro-lobato-analise-
da-obra-e-resumo-dos-contos/

http://www.passeiweb.com/estudos/livros/negrinha_conto

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-12902012000200004 [Artigo:
Discussões sobre saúde e doença: revisitando a obra adulta de Monteiro Lobato]

http://www.beatissima.com.br/images/2015/ativ_estudo/2EM/LPORT/A_linguagem_em_Negr
inha_de_M.Lobato.pdf

Apostila Análise de Obras Literárias Poliedro