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Capítulo 2

Princípios do Direito Penal


O Direito Penal das sociedades contemporâneas é regido por
princípios constitucionais sobre crimes, penas e medidas de segurança,
nos níveis de criminalização primária e de criminalização secundária,
indispen­sáveis para garantir o indivíduo em face do poder punitivo
do Estado. A distinção entre regras e princípios jurídicos, como espé-
cies da categoria geral normas jurídicas, é a base da teoria dos direitos
fundamentais e a chave para resolver problemas centrais da dogmática
penal constitu­cional1. Normas jurídicas compreendem regras e prin-
cípios jurídicos, componentes elementares do ordenamento jurídico,
que determinam o que é devido no mundo real: as regras são normas
de conduta realizadas ou não realizadas pelos seres humanos; os
princípios são normas jurídicas de otimização (optimierungsgebote) das
possibilidades de realização jurídica dos mandados, das proibições e
das permissões na vida real2.
Os princípios constitucionais mais relevantes para o Direito Penal
são o princípio da legalidade, o princípio da culpabilidade, o princí-
pio da lesividade, o princípio da proporcionalidade, o princípio da
humanidade e o princípio da responsabilidade penal pessoal.

I. Princípio da legalidade
As Constituições dos Estados americanos de Virgínia e de
Maryland (1776) instituíram pela primeira vez o princípio da lega-

1
ALEXY, Theorie der Grundrechte, 1994, 2ª edição, p. 71, I e 72, I, 1.
2
Ver ALEXY, Theorie der Grundrechte, 1994, 2ª edição, p. 75, I, 2.

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Teoria da Lei Penal Capítulo 2 Capítulo 2 Princípios do Direito Penal

lidade, depois repetido na Constituição americana (1787) e, mais lex praevia, que incide sobre a norma de conduta e sobre a sanção
tarde, como norma fundamental do Estado de Direito, foi inscrito na penal do tipo legal: a) no âmbito da norma de conduta proíbe todas
Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789). as mudanças dos pressupostos de punibilidade prejudiciais ao réu,
A primeira legislação penal a incorporar o princípio da legalidade foi o compreendendo os tipos legais, as justificações e as exculpações; b) no
Código Penal da Bavária (1813), depois a Prússia (1851) e a Alemanha âmbito da sanção penal abrange as penas (e as medidas de segurança),
(1871), genera­lizando-se por todas as legislações penais ocidentais3 sob os efeitos da condenação, as condições objetivas de punibilidade, as
a fórmula latina do nullum crimen, nulla poena sine lege, inaugurada causas de extinção da punibilidade (especialmente os prazos prescri-
por FEUERBACH4. cionais), os regimes de execução (incluindo os critérios de progressão
O princípio da legalidade é o mais importante instrumento e de regressão de regimes) e todas as hipóteses de excarceração7.
constitucional de proteção individual no moderno Estado Demo- A única exceção à proibição de retroatividade da lei penal é
crático de Direito porque proíbe (a) a retroatividade como crimina- representada pelo princípio da lei penal mais benigna, igualmente
lização ou agravação da pena de fato anterior, (b) o costume como previsto no art. 5º, XL, da Constituição da República (ver Validade
fundamento ou agravação de crimes e penas, (c) a analogia como da lei penal, adiante).
método de criminalização ou de punição de condutas, e (d) a inde-
terminação dos tipos legais e das sanções penais5 (art. 5º, XXXIX,
CR). O significado político do princípio da legalidade é expresso nas 2. Proibição de analogia da lei penal
fórmulas de lex praevia, de lex scripta, de lex stricta e de lex certa, (in malam partem)
incidentes sobre os crimes, as penas e as medidas de segurança da
legislação penal6. A analogia, como método de pensamento comparativo de
grupos de casos, significa aplicação da lei penal a fatos não previs-
tos, mas semelhantes aos fatos previstos8. O processo intelectual
1. Proibição de retroatividade da lei penal de analogia, fundado normalmente no chamado espírito da lei,
configura significado idiossincrático que um Juiz atribuiria e ou-
A proibição de retroatividade da lei penal é o principal fun- tro Juiz não atribuiria ao mesmo fato concreto. A atribuição de
damento político do princípio da legalidade, regido pela fórmula significados fundados no espírito da lei encobre a criação judicial
de direito novo, mediante juízos de probabilidade da psicologia
3
ROXIN, Strafrecht, 1997, p. 99-101, ns. 14-17; ZAFFARONI, BATISTA, ALAGIA
individual9, assim resolvidos no Direito Penal: se o significado con-
e SLOKAR, Direito penal brasileiro, 2003, § 10, II, 1.
4
FEUERBACH, Lehrbuch des gemeinen in Deutschland geltenden Peinlichen Rechts,
1801, p. 20. 7
Ver STRATENWERTH, Strafrecht, 2000, p. 49-51, n. 7-12; também ZAFFARONI,
5
ROXIN, Strafrecht, 1997, p. 98, ns. 8-11; JESCHECK/WEIGEND, Lehrbuch des BATISTA, ALAGIA e SLOKAR, Direito penal brasileiro, 2003, § 10, V, 1.
Strafrechts, 1976, p. 131-142; GROPP, Strafrecht, 2001, p. 45, n. 2-3. 8
KELSEN, Allgemeine Theorie der Normen, 1990, p. 217.
6
Assim também ZAFFARONI, BATISTA, ALAGIA e SLOKAR, Direito penal 9
CARNAP, On inductive logic. In Philosophy of Science. 1945, v. XII, p. 72, apud
brasileiro, 2003, § 10, V, 1. KELSEN, Allgemeine Theorie der Normen, 1990, p. 218.

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Teoria da Lei Penal Capítulo 2 Capítulo 2 Princípios do Direito Penal

creto representar prejuízo para o réu, constitui analogia proibida; 4. Proibição de indeterminação da lei penal
se o significado concreto representar benefício para o réu, constitui
analogia permitida. A proteção do cidadão contra o arbítrio exclui leis penais indefini-
Hoje, a analogia pode ser equacionada deste modo : a) a analo-
10
das ou obscuras – o maior perigo para o princípio da legalidade, segundo
gia in malam partem – analogia praepter legem e analogia contra legem WELZEL13 – porque leis penais indefinidas ou obscuras favorecem
–, como analogia prejudicial ao réu, é absolutamente proibida pelo interpretações judiciais idiossincráticas e impedem ou dificultam o
Direito Penal; b) a analogia in bonam partem – analogia intra legem conhecimento da proibição, favorecendo a aplicação de penas com
–, como analogia favorável ao réu, é permitida pelo princípio da le- lesão do princípio da culpabilidade14 – outro aspecto da relação entre
galidade, sem nenhuma restrição: nas justificações, nas exculpações e os princípios formadores do conceito de crime.
em qualquer hipótese de extinção ou de redução da punibilidade do O problema de toda lei penal parece ser a inevitabilidade de
comportamento humano11. certo nível de indefinição: as palavras da lei são objeto de interpre-
tações diferentes porque os juízos de valor enunciados não admitem
descrições neutras – e qualquer tentativa semelhante seria monótona
3. Proibição do costume como fonte da lei penal ou ridícula: como descrever o conceito de injúria, por exemplo? Seja
como for, o princípio da legalidade pressupõe um mínimo de determi-
O princípio da legalidade proíbe o costume como fundamento nação das proibições ou comandos da lei penal – em geral conhecido
de criminalização e de punição de condutas porque exige lex scripta como princípio da taxatividade, mas indissociável do princípio da
para os tipos legais e as sanções penais. legalidade, como exigência de certeza da lei –, cuja ausência impede
Mas assim como a analogia e a retroatividade da lei penal mais o conhecimento das proibições e rompe a constitucionalidade da lei
favorável são admitidas, também o costume pode ser admitido in bonam penal, regida pela fórmula lex certa15.
partem, para excluir ou reduzir a pena ou para descriminalizar o fato,
nas hipóteses indicadas pela sociologia jurídica de perda de eficácia
da lei penal – e, com a perda de eficácia, a perda de validade da lei II. Princípio da culpabilidade
penal12: a existência generalizada dos motéis aboliu na prática – hoje
também na lei – o crime de casa de prostituição.
1. A relação entre o princípio da legalidade e o princípio da culpabi-
lidade pode ser assim definida: a) a culpabilidade fundamenta-se no
10
MAYER, Der allgermeine Teil des deutschen Strafrechts, 1915, p. 27.
11
JESCHECK/WEIGEND, Lehrbuch des Strafrechts, 1996, § 15, III, n. 2d, p. 136;
13
WELZEL, Das deutsche Strafrecht, 1969, § 5, II, n. 2, p. 23.
MAURACH/ZIPF, Strafrecht, v. 1, p. 127-128, ns. 21-22; ROXIN, Strafrecht, 1997, 14
Ver ROXIN, Strafrecht, 1997, p. 125, n. 67-68. No Brasil, no sentido do texto,
p. 112-114, ns. 40-44; ZAFFARONI, BATISTA, ALAGIA e SLOKAR, Direito penal FRAGOSO, Lições de direito penal (parte geral), 16a edição, 2003, p. 114-116.
brasileiro, 2003, § 10, III, 4-6. 15
STRATENWERTH, Stafrecht, 2000, p. 58-59, ns. 28-31; ZAFFARONI, BATISTA,
12
Ver KELSEN, Allgemeine Theorie der Normen, 1990, p. 87. ALAGIA e SLOKAR, Direito penal brasileiro, 2003, § 10, III, 1 e IV, 1.

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Teoria da Lei Penal Capítulo 2 Capítulo 2 Princípios do Direito Penal

conhecimento (real ou possível) do tipo de injusto, logo o princípio da não proíbe punição em situação de erro evitável sobre a proibição da
culpabilidade pressupõe ou contém o princípio da legalidade, como norma, por insuficiente reflexão ou informação do autor.
definição escrita, prévia, estrita e certa do tipo de injusto; b) existe 2.3. O princípio da culpabilidade proíbe punir pessoas imputáveis que
uma relação de dependência do princípio da culpabilidade em face realizam o tipo de injusto com conhecimento da proibição do fato,
do princípio da legalidade porque a culpabilidade pressupõe tipo de mas sem o poder de não fazer o que fazem porque a realização do tipo
injusto (princípio da legalidade), mas o tipo de injusto não pressupõe de injusto em situações anormais exclui ou reduz a exigibilidade de
culpabilidade: o juízo de culpabilidade não existe sem o tipo de injusto, comportamento diverso.
mas o tipo de injusto pode existir sem o juízo de culpabilidade.
3. Finalmente, todos os resquícios atuais do velho versari in re illicita,
2. O princípio da culpabilidade, expresso na fórmula nulla poena sine como os crimes qualificados pelo resultado16 e, especialmente, as
culpa, é o segundo mais importante instrumento de proteção indivi- versões coloniais da actio libera in causa17, são incompatíveis com
dual no moderno Estado Democrático de Direito porque proíbe punir o princípio da culpabilidade e, por isso, devem ser excluídos da legis-
pessoas sem os requisitos do juízo de reprovação, segundo o estágio lação penal ou, pelo menos, banidos da praxis penal pela consciência
atual da teoria da culpabilidade, a saber: a) pessoas incapazes de saber democrática do Ministério Público e da Magistratura nacionais.
o que fazem (inimputáveis); b) pessoas imputáveis que, realmente,
não sabem o que fazem porque estão em situação de erro de proibição
inevitável; c) pessoas imputáveis, com conhecimento da proibição do
fato, mas sem o poder de não fazer o que fazem porque realizam o tipo III. Princípio da lesividade
de injusto em contextos de anormalidade definíveis como situações
de exculpação. 1. O princípio da lesividade proíbe a cominação, a aplicação e a execu-
2.1. O princípio da culpabilidade proíbe punir pessoas inimputáveis ção de penas e de medidas de segurança em casos de lesões irrelevantes
porque são incapazes de compreender a norma ou de determinar-se contra bens jurídicos protegidos na lei penal. Em outras palavras, o
conforme a compreensão da norma, mas não proíbe a aplicação de princípio da lesividade tem por objeto o bem jurídico determinante da
medidas de segurança fundadas na periculosidade criminal de autores criminalização, em dupla dimensão: do ponto de vista qualitativo, tem
inimputáveis de fatos puníveis: a relação culpabilidade/pena possui por objeto a natureza do bem jurídico lesionado; do ponto de vista
natureza subjetiva, mas a relação periculosidade criminal/medida de quantitativo, tem por objeto a extensão da lesão do bem jurídico.
segurança possui natureza objetiva de proteção do autor (terapia) e da 2. Assim, do ponto de vista qualitativo (natureza do bem jurídico
sociedade (neutralização), segundo o discurso oficial da teoria jurídica lesionado), o princípio da lesividade impede criminalização primária
das medidas de segurança.
2.2. O princípio da culpabilidade proíbe punir pessoas imputáveis em
situação de desconhecimento inevitável da proibição do fato porque o 16
ROXIN, Strafrecht, 1997, n. 111, p. 277; JESCHECK/WEIGEND, Lehrbuch des
Strafrechts, 1966, n. 3, p. 571.
erro de proibição inevitável exclui a possibilidade de motivação con- 17
ZAFFARONI, BATISTA, ALAGIA e SLOKAR, Direito penal brasileiro, 2003, § 12,
forme a norma jurídica, que fundamenta o juízo de reprovação – mas IV, 6.

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Teoria da Lei Penal Capítulo 2 Capítulo 2 Princípios do Direito Penal

ou secundária excludente ou redutora das liberdades constitucionais a otimização das possibilidades da realidade, do ponto de vista da
de pensamento, de consciência e de crença, de convicções filosóficas e adequação e da necessidade dos meios em relação aos fins propostos,
políticas ou de expressão da atividade intelectual, artística, científica ou formulados em forma interrogativa:
de comunicação, garantidas pela Constituição da República acima de a) a pena criminal é um meio adequado (entre outros) para realizar
qualquer restrição da legislação penal18. Essas liberdades constitucionais o fim de proteger um bem jurídico?
individuais devem ser objeto da maior garantia positiva como critério
de criminalização e, inversamente, da menor limitação negativa como b) a pena criminal (meio adequado, entre outros) é, também,
objeto de criminalização por parte do Estado. meio necessário (outros meios podem ser adequados, mas não seriam
necessários) para realizar o fim de proteger um bem jurídico?
3. Do ponto de vista quantitativo (extensão da lesão do bem jurídico),
o princípio da lesividade exclui a criminalização primária ou secundá- O princípio da proporcionalidade em sentido estrito (ou princípio
ria de lesões irrelevantes de bens jurídicos. Nessa medida, o princípio da avaliação) tem por objeto a otimização das possibilidades jurídicas,
da lesividade é a expressão positiva do princípio da insignificância em ao nível da criminalização primária e da criminalização secundária,
Direito Penal: lesões insignificantes de bens jurídicos protegidos, como do ponto de vista da proporcionalidade dos meios (pena criminal)
a integridade ou saúde corporal, a honra, a liberdade, a propriedade, em relação aos fins propostos (proteção de bens jurídicos), também
a sexualidade etc., não constituem crime. formulado em forma interrogativa: a pena criminal cominada e/ou
aplicada (considerada meio adequado e necessário, ao nível da reali-
dade) é proporcional em relação à natureza e extensão da lesão abstrata
e/ou concreta do bem jurídico?
IV. Princípio da proporcionalidade Em síntese, a otimização das possibilidades reais e jurídicas ob-
jeto do Verhältnismässigkeitsgrundsatz – para continuar empregando
1. O princípio da proporcionalidade, desenvolvido pela teoria cons- a terminologia de ALEXY – tem por objetivo integrar os princípios,
titucional germânica – o célebre Verhältnismässigkeitsgrundsatz –, é os meios e os fins em unidades jurídicas e reais coerentes20 – ou seja,
constituído por três princípios parciais: o princípio da adequação harmonizar os meios e os fins da realidade com os princípios jurídicos
(Geeignetheit), o princípio da necessidade (Erforderlichkeit) e o prin- fundamentais. O princípio da proporcionalidade no Direito Penal
cípio da proporcionalidade em sentido estrito, também chamado de coincide com análises da Criminologia Crítica – como Sociologia do
princípio da avaliação (Abwägungsgebote)19. Esses princípios parciais Direito Penal –, que estuda a adequação e a necessidade da pena crimi-
têm aplicação sucessiva e complementar. nal para proteção de bens jurídicos, do ponto de vista dos princípios
2. O princípio da adequação e o princípio da necessidade têm por objeto jurídicos do discurso punitivo.
3. Assim, o princípio da proporcionalidade – implícito no art. 5o, caput,
da Constituição da República – proíbe penas excessivas ou despropor-
18
ZAFFARONI, BATISTA, ALAGIA e SLOKAR, Direito penal brasileiro, 2003,
§ 11, I, 1.
19
ALEXY, Theorie der Grundrechte, 1994, 2ª edição, p. 100-101, n. 8. ALEXY, Theorie der Grundrechte, 1994, 2ª edição, p. 75 s.
20

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Teoria da Lei Penal Capítulo 2 Capítulo 2 Princípios do Direito Penal

cionais em face do desvalor de ação ou do desvalor de resultado pessoa e a família do condenado – assim como para a sociedade, em
do fato punível, lesivas da função de retribuição equivalente do crime geral – são absurdos:
atribuída às penas criminais nas sociedades capitalistas21. O princípio a) a criminalização secundária somente agrava o conflito social
da proporcionalidade desdobra-se em uma dimensão abstrata e uma representado pelo crime – especialmente em casos de aborto, de tó-
dimensão concreta, com as seguintes consequências: xicos, de crimes patrimoniais e de toda a criminalidade de bagatela
3.1. O princípio da proporcionalidade abstrata dirige-se ao legislador: (crimes de ação penal privada ou condicionados à representação, cri-
limita a criminalização primária às hipóteses de graves violações mes punidos com detenção, crimes de menor potencial ofensivo etc.);
de direitos humanos – ou seja, exclui lesões insignificantes de bens b) os custos sociais da criminalização secundária são maiores
jurídicos – e delimita a cominação de penas criminais conforme a para a pessoa e a família de condenados de classes e categorias sociais
natureza e extensão do dano social produzido pelo crime22. Nesse inferiores – a clientela preferencial do sistema de justiça criminal,
aspecto, a proposta de hierarquização das lesões de bens jurídicos é selecionada por estereótipos, preconceitos, idiossincra­sias e outros
essencial para adequar as escalas penais ao princípio da proporciona- mecanismos ideológicos dos agentes de controle social, ativados por
lidade abstrata: por exemplo, penas por lesões contra a propriedade indicadores sociais negativos de pobreza, marginalização do mercado
não podem ser superiores às penas por lesões contra a vida, como de trabalho, moradia em favelas etc.24.
ocorre na lei penal brasileira23.
4. Por isso, o princípio da proporcionalidade concreta pode fundamentar
3.2. O princípio da proporcionalidade concreta dirige-se ao Juiz: critérios compensatórios das desigualdades sociais da criminalização
permite equacionar os custos individuais e sociais da criminaliza- secundária, com o objetivo de neutralizar ou de reduzir a seletividade
ção secundária, em relação à aplicação e execução da pena criminal. fundada em indicadores sociais negativos de pobreza, desemprego,
Assim, para usar um conceito do jargão econômico, a aplicação e a favelização etc., aplicáveis pelo Juiz no momento de estruturação dos
execução das penas criminais mostram a enorme desproporção da processos intelectuais e afetivos do juízo de reprovação do crime e de
relação custo/benefício entre crime e pena, além dos imensos custos aplicação da pena, em especial no âmbito das circunstâncias judiciais
sociais específicos para o condenado, para a família do condenado (art. 59, CP) e legais (circunstâncias agravantes e atenuantes genéri-
e para a sociedade. cas) de aplicação da lei penal, incluindo a otimização do emprego dos
A relação custo/benefício da equação crime/pena indica que a pena substitutivos penais e dos regimes de execução da pena, com generosa
criminal, como troca jurídica do crime medida em tempo de liber- ampliação das hipóteses de regime aberto etc.25.
dade suprimida, constitui investimento deficitário da comunidade,
segundo a moderna Criminologia. Os custos sociais específicos para a

21
CIRINO DOS SANTOS, Teoria da pena, 2005, p. 19-24. CIRINO DOS SANTOS, Teoria da pena, 2005, p. 37.
24
22
BARATTA, Principi del diritto penal minimo. Per una teoria dei diritti umani come Comparar BARATTA, Principi del diritto penal minimo. Per una teoria dei diritti
25
oggetti e limiti della legge penale, in Dei Delitti e delle Pene, 1991, n. 1, p. 452. umani come oggetti e limiti della legge penale, in Dei Delitti e delle Pene, 1991, n. 1,
23
ZAFFARONI, BATISTA, ALAGIA e SLOKAR, Direito penal brasileiro, 2003, § 11, II, 2. p. 453-454.

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Teoria da Lei Penal Capítulo 2 Capítulo 2 Princípios do Direito Penal

V. Princípio da humanidade e Tribunais), ou por ação direta de inconstitucionalidade (controle


concentrado, pelo Supremo Tribunal Federal)27.
1. O princípio da humanidade, deduzido da dignidade da pessoa
humana como fundamento do Estado Democrático de Direito
(art. 1º, III, CR), exclui a cominação, aplicação e execução de pe- VI. Princípio da responsabilidade penal pessoal
nas (a) de morte, (b) perpétuas, (c) de trabalhos forçados, (d) de
banimento, (e) cruéis, como castrações, mutilações, esterilizações,
1. A definição de fato punível nas dimensões de tipo de injusto e de
ou qualquer outra pena infamante ou degradante do ser humano
culpabilidade contém duas garantias fundamentais:
(art. 5º, XLVII, CR).
a) limita a responsabilidade penal aos autores e partícipes do tipo
2. A garantia da integridade física e moral do ser humano preso, im-
de injusto, com proibição constitucional de extensão da pena além
plícita no princípio da dignidade da pessoa humana definido como
da pessoa do condenado (art. 5º, XLV, CR)28;
fundamento do Estado Democrático de Direito (art. 1º, III, CR),
é instituída por norma específica da Constituição da República b) limita a responsabilidade penal aos seres humanos de carne e
(art. 5º, XLIX) e ratificada por disposições da lei penal (art. 38, CP) e osso, com exclusão conceitual da pessoa jurídica, incapaz de culpabi-
da lei de execução penal (art. 40) – além de ser inferida da norma que lidade – a proteção de direitos humanos contra violações produzidas
assegura ao preso todos os direitos não atingidos pela sentença ou pela por pessoas jurídicas deve ser feita por meios administrativos e civis
lei (art. 3º, LEP) – ou seja, a lesão generalizada, intensa e contínua adequados porque a responsabilidade penal da pessoa jurídica é in-
da dignidade humana e dos direitos humanos de homens e mulheres constitucional.
presos nas cadeias públicas e penitenciárias do sistema penal brasileiro 2. Além desses limites negativos, o princípio da responsabilidade penal
não ocorre por falta de princípios e de regras jurídicas. pessoal tem objeto e fundamento constitucionais positivos, relaciona-
3. Entretanto, o princípio da humanidade não se limita a proibir a dos com o princípio da legalidade e com o princípio da culpabilidade,
abstrata cominação e aplicação de penas cruéis ao cidadão livre, mas como se indica:
proíbe também a concreta execução cruel de penas legais ao cidadão a) o objeto da responsabilidade penal pessoal é o tipo de injusto,
condenado, por exemplo: a) as condições desumanas e indignas, em como realização concreta do princípio nullum crimen, nulla poena
geral, de execução das penas na maioria absoluta das penitenciárias sine lege (art. 5º, XXXIX, CR, que define o princípio da legalidade),
e cadeias públicas brasileiras26; b) as condições desumanas e indignas, atribuído aos autores e partícipes do fato punível, segundo as regras da
em especial, do execrável Regime Disciplinar Diferenciado – cuja
inconstitucionalidade deve ser declarada por arguição de inconstitucio-
nalidade da norma legal no caso concreto (controle difuso, por Juízes CIRINO DOS SANTOS, Teoria da pena, 2005, p. 77-78.
27

Comparar BARATTA, Principi del diritto penal minimo. Per una teoria dei diritti
28

umani come oggetti e limiti della legge penale, in Dei Delitti e delle Pene, 1991, n. 1, p.
ZAFFARONI, BATISTA, ALAGIA e SLOKAR, Direito penal brasileiro, 2003, § 11,
26
459; também ZAFFARONI, BATISTA, ALAGIA e SLOKAR, Direito penal brasileiro.
III, 1. Revan, 2003, § 11, III, 1.

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Teoria da Lei Penal Capítulo 2

imputação objetiva e subjetiva definidas pela ciência do Direito Penal:


somente o tipo de injusto pode ser objeto de responsabilidade penal;
Capítulo 3
b) o fundamento da responsabilidade penal pessoal é a culpabili- Validade da Lei Penal
dade, como expressão do princípio nulla poena sine culpa (derivado do
art. 5o, LVII, CR, que institui a presunção de inocência), indicada pelas
condições pessoais de saber (e controlar) o que faz (imputabilidade), O comportamento humano se realiza em determinado espaço
de conhecimento real do que faz (consciência da antijuridicidade) e do e tempo, onde se enraízam suas condições e se projetam seus efeitos.
poder concreto de não fazer o que faz (exigibilidade de comportamento A validade das normas jurídicas que disciplinam o comportamento
diverso), que estruturam o juízo de reprovação do conceito norma- humano é delimitada pelas dimensões de espaço e de tempo em que se
tivo de culpabilidade: somente a culpabilidade pode fundamentar a realizam os processos sociais históricos – ou seja, a relação da norma
responsabilidade penal pessoal pela realização do tipo de injusto29. penal com o espaço e o tempo indica o âmbito espacial e temporal
de validade da lei penal1.
Nessas condições, os limites espaciais e temporais de validade da
lei penal são os seguintes:
a) o espaço de validade da lei penal é definido pelo princípio
da territorialidade, que demarca os limites geopolíticos do território
de jurisdição penal do Estado – a exceção da extraterritorialidade
é representada pelos princípios da proteção, da personalidade e da
competência penal universal;
b) o tempo de validade da lei penal é definido pelo princípio
da legalidade, que demarca os limites cronológicos de leis sucessivas
do ordenamento jurídico do Estado sobre fatos iguais – a exceção é
representada pela retroatividade de lei penal mais favorável.

A) Validade da lei penal no espaço


A validade da lei penal no espaço é delimitada pela extensão
do território do Estado, como organização jurídica do poder político
29
Comparar BARATTA, Principi del diritto penal minimo. Per una teoria dei diritti
umani come oggetti e limiti della legge penale, in Dei Delitti e delle Pene, 1991, n. 1,
p. 459-46. 1
Comparar KELSEN, Allgemeine Theorie der Normen, 1990, p. 116.

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