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doi: 10.4025/bolgeogr.v29i2.

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RESENHA

CLAVAL, Paul. Epistemologia da Geografia. Florianópolis: Editora


UFSC, 2011.

Estevão Pastori Garbin

Universidade Estadual de Maringá


Departamento de Geografia
Av. Colombo, 5790 – CEP 87020-900 – Maringá – Paraná – Brasil
estevoepg@gmail.com

O que a epistemologia pode saberes-fazeres de cada povo, até


trazer a uma disciplina como a universalização de algumas estratégias
Geografia? da Geografia, que serviram de subsídio
É com esta pergunta que Paul para os recenciamentos dos Estados e
Claval inicia seu livro. Não é preciso ser aos deslocamentos dos viajantes.
um observador muito atento para Para o autor, as geografias “pré-
perceber que muitos acadêmicos e científicas” ou “vernaculares” estão
profissionais da Geografia pouco intimamente ligadas ao caráter cultural
refletem sobre sua trajetória histórica e dos diferentes povos. As necessidades
as possibilidades que seu estudo pode mais fundamentais para as comunidades
ofertar para uma compreensão mais garantirem sua sobrevivência – a
concreta da ciência geográfica. localização e orientação – tiveram um
Neste sentido, o livro de Paul grande impulso a partir dos batismos
Claval intitulado “Epistemologia da dos terrenos: as topomínias. Para o
Geografia” traz um olhar conciso e autor, “batizar o terreno e cobri-lo de
objetivo sobre os principais pontos uma cobertura de nomes transformam o
marcados na história do pensamento conhecimento dos lugares em saber
geográfico, apontando suas relações coletivo, mesmo que imperfeito” (p.32),
com o desenvolvimento científico e integrando-se, assim, a uma grade social
político de suas respectivas épocas. Sua de informações. O autor exemplifica
escrita simples e objetiva possibilita que esta importância apontando a utilização
mesmo os leitores menos familiarizados de três principais topomínias pela
com o tema se situem e compreendam cristandade na Idade Média: Jerusalém,
com clareza os rumos que a Geografia Roma e Santiago de Compostela.
seguiu ao longo de sua história. Apesar de poucos conhecerem
O livro é dividido em treze pessoalmente estes lugares, muitos
capítulos, abrangendo desde as soluções aspiravam seus destinos, perguntando-
aos problemas de orientação e de os aos moradores do trajeto para qual
localização das “geografias direção seguir, até chegar aos seus
vernaculares”, até os principais debates destinos.
epistemológicos pós-década de oitenta. A impossibilidade de
Nestas linhas, daremos destaque “universalizar” as topomínias, que
aos primeiros três capítulos de sua obra, variam de acordo com a cultura de cada
que tratam da evolução que a Geografia povo, foi vencida pela adoção do
postulou como um conhecimento sistema de informação geográfica
vernacular, intimamente ligado aos advinda das observações dos astros,

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uma herança genuinamente grega. O facilitada pela narrativa faz com que
autor considera esta a maior ruptura seus ouvintes se interessem e anseiem
epistemológica da Geografia. pelos próximos capítulos.
A partir de então, Paul Claval Entretanto, há dois principais
narra os principais acontecimentos que problemas sobre este gênero narrativo.
impulsionaram o desenvolvimento de A dramatização exigida pelo geógrafo
técnicas mais efetivas para localização e para tornar seus relatos interessantes
espacialização dos fenômenos podem acabar prejudicando o caráter
geográficos. A necessidade dos científico de suas experiências. Além
levantamentos demográficos pelos disso, a partir do século XIX, a
Estados em formação, que implicara colonização de continentes pouco
posteriormente pela aplicação de explorados – como a África e o
entrevistas e questionários para a cruzamento de países como a Austrália
caracterização demográfica, bem como – tornaram meio „radicais‟ os relatos
o desenvolvimento da Cartografia como etnocêntricos dos colonizadores. A
ferramenta indispensável à efetivação narrativa da exploração geográfica da
da Geografia são destacados pelo autor. Terra esteve fortemente ligada à
Claval é muito competente em trajetória colonialista europeia (p.88), e
apontar características inerentes ao concebê-la como uma história linear e
geógrafo, como a natureza de sentir que evolutiva é ser cumplice dos
há muito que dizer, de compartilhar as argumentos dos colonizadores. Apesar
diversas informações obtidas pelas suas destes contrapontos, as narrativas
trajetórias. Mas, desenvolver uma forma conseguem ampliar a significação dos
eficaz de tornar estes relatos eventos e dos espaços, mesmo que às
interessantes e ao mesmo tempo vezes pareça injustificada (p.109).
científicos nunca foi uma tarefa fácil Outra maneira de sistematizar o
para o geógrafo. conhecimento geográfico foi através da
É necessário que o geógrafo confecção de tabelas que agrupassem e
demonstre paixão sobre seus trabalhos, apresentassem as principais
utilizando cada célula de seu corpo para características regionais: os quadros
transmitir suas mensagens de maneira geográficos.
atrativa. Para ele, “a Geografia é uma Segundo Claval, “traçar o
ciência da observação. Aquele que a quadro geográfico de uma região é
pratica ama andar, olhar ao redor, desenhar as divisões que se podem ali
cheirar os odores e sentir a atmosfera; é reconhecer e destacar suas
também um homem de contato, sempre características específicas” (p.93).
pronto a interrogar as pessoas e a A objetividade advinda desta
escutá-las” (p.61). modalidade, que depende das
Das formas de organizar e habilidades do geógrafo em agrupá-las e
transmitir os conhecimentos apresenta-las, facilitou sua preferência
geográficos, Paul Claval aponta duas entre os Estados e viajantes que
principais maneiras. A primeira se dá necessitavam de uma fonte que lhe
pela narração de verdadeiras „epopeias garantissem êxito para compreender
históricas‟, compartilhando as “histórias melhor seu território.
da conquista da Terra” por uns e “a No decorrer da obra, é comum
transformação do espaço natural com a vir a mente do leitor algumas discussões
chegada do Homem” para outros. A trazidas pela famigerada obra de Yves
história da Geografia se confunde Lacoste em “A Geografia serve, antes
facilmente com a história das Grandes de mais nada, para fazer a guerra”,
Navegações (p.89), e a linearidade principalmente quando Claval aborda o

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fortalecimento dos Estados modernos e “Epistemologia da Geografia” é
suas implicações no desenvolver de um livro fundamental para aqueles que
métodos para o controle e domínio de anseiam aumentar seu conhecimento
seus territórios. É necessário delimitar sobre a história do pensamento
um espaço para controlá-lo (p.50). geográfico e obrigatório para aqueles
Daí podemos considerar a que estão dispostos a percorrer pelos
importância crescente da Cartografia meandros da ciência geográfica.
para o mapeamento e delimitação dos
territórios, principalmente dos Estados REFERÊNCIAS
modernos. A duas ferramentas para a
consolidação do saber geográfico como CLAVAL, Paul. Epistemologia da
ciência decisiva para o controle do Geografia. Florianópolis: Editora
espaço – o mapa e o cronômetro – são UFSC, 2011.
implicitamente compreendidos durante
os primeiros capítulos do livro, em HARVEY, David. Condição pós-
consonância com as ideias de Harvey moderna. São Paulo: Loyola, 1992.
(1992 p.209), que afirmam que o
“mapeamento do mundo abriu caminho LACOSTE, Yves. A Geografia serve,
para que se considerasse o espaço algo isto em primeiro lugar, para fazer a
disponível à apropriação de usos guerra. São Paulo: Papirus, 2001.
privados”, um ideal motriz paralelo aos
interesses dos Estados que se valiam – e Data de submissão: 25.02.2012
ainda se valem - do conhecimento Data de aceite: 27.03.2012
geográfico.

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