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Psicomotricidade – breve história (adaptado de Pinto, 2010) https://www.ufsj.edu.

br/portal2-
repositorio/File/mestradoeducacao/Disertacao8ValciriaOliveiraPinto.pdf

A Psicomotricidade é uma ciência que surgiu na França, no final do século XIX. Ao longo de sua história, foi
se desenvolvendo e se articulando com outros saberes. Seu campo de atuação abrange a educação, a reeducação e a
clínica. Fonseca (2007) assim define a Psicomotricidade: A Psicomotricidade tem por objeto de estudo a globalidade
do ser humano, no plano teórico e prático, ela combate a dicotomia do soma e do psíquico, ensaiando pelo contrário
a sua fusão e unificação complexa e dialéctica (FONSECA, 2007, p. 36). Segundo Fonseca (2007, p. 28), a
Psicomotricidade estuda e investiga as relações e as influências, recíprocas e sistêmicas, entre o psiquismo e a
motricidade. Neste sentido, o psiquismo engloba “as sensações, as emoções, os afetos, os fantasmas, os medos, as
projeções, as aspirações, as representações, as simbolizações, as conceptualizações, as idéias, as construções
mentais, etc; assim como a complexidade dos processos relacionais e sociais”.

A Psicomotricidade é uma prática corporal que prima pela superação das concepções biológicas e
normativas da motricidade humana. Nesta perspectiva, a Sociedade Brasileira de Psicomotricidade (SBP), fundada
em 1980, assim define a Psicomotricidade: A Psicomotricidade é uma ciência que tem como objeto de estudo o
homem por meio do seu corpo em movimento e em relação ao seu mundo interno e externo, bem como suas
possibilidades de perceber, atuar, agir com o outro, com os objetos e consigo mesmo (SBP, 2007). Conforme esta
definição, a Psicomotricidade concebe o homem na sua totalidade, integrando os aspectos cognitivos e afetivos aos
da motricidade. Dessa forma, corpo e mente são instâncias inseparáveis. No Brasil, notadamente a partir da década
de 1950, tem sido objeto de estudo e intervenções de diferentes áreas da educação e da saúde. Foi introduzida
inicialmente nas escolas especiais como instrumento psicopedagógico, objetivando corrigir os distúrbios
psicomotores das crianças com deficiências. Esta prática consistia em exercícios de coordenação viso-motora, ritmo,
orientação e estruturação especial, organização do esquema corporal e lateralidade, entre outros (CABRAL, 2001).
Na década de 1970, assim como na França, a Psicomotricidade no Brasil começa a evoluir de uma perspectiva de
reeducação psicomotora para um de educação psicomotora, concebendo o indivíduo na sua totalidade. Neste
período, as teorias piagetianas e as teorias psicomotoras de diversos autores, liderado por Wallon – esquema
corporal –, vão influenciar a compreensão da educação psicomotora, enfocando o desenvolvimento global da
criança. Os psicomotricistas, então, começam a repensar a sua prática, buscando estabelecer novas relações com as
instituições escolares (CABRAL, 2001). Para Levin (2003), a história da Psicomotricidade, ou melhor, a sua
“préhistória”, iniciou-se desde que o homem “fala”, pois é a partir deste momento que falará de seu corpo, como
também, o seu corpo falará do ser-homem. Como explica Roland Barthes, “não é o homem que constrói o simbólico;
é o simbólico que constitui o homem. Quando o homem entra no mundo, entra no simbólico que já está ali. E não
pode ser homem se não entra no simbólico” (BARTHES apud LEVIN, 2003, p. 21).

A compreensão do ser humano na sua totalidade é imprescindível para se concretizar uma educação que
valorize e acolha as diferenças dos educandos, entendendo-se que ser humano é mentecorpo. Portanto, uma escola
comprometida com uma formação globalizante não pode priorizar a mente, desconsiderando a unicidade
corpomente.

O termo psicomotricidade aparece inicialmente atrelado ao discurso médico, sobretudo ao neurológico, no


final do século XIX. A partir deste período e início do século XX, foram realizados estudos, principalmente, por
neuropsiquiatras e neurofisiologistas franceses, enfocando as patologias corticais. Daí surge a necessidade do campo
médico de nomear as zonas do córtex cerebrais situadas além das regiões propriamente motoras.
Henri Wallon. Este médico psiquiatra francês, em 1925, ocupa-se do movimento humano como
intencionalidade. Wallon relacionou o movimento do corpo ao afeto, à emoção, ao meio ambiente e aos hábitos da
criança. Considera o movimento humano instrumento fundante na construção do psiquismo.

De acordo com Wallon, o desenvolvimento infantil ocorre por etapas. A partir dos 6 anos, idade escolar, o
interesse da criança volta-se para as coisas. A escola, como um meio social, desempenha importante papel no
desenvolvimento da criança. “As vicissitudes da vida escolar vão possibilitar a diferenciação da personalidade da
criança. Até então engastado na constelação familiar” (WALLON apud GALVÃO, 2002, p. 121). No período entre os 7
e os 12 anos, com relação ao desenvolvimento intelectual, a criança se aproxima da objetividade, da percepção e do
pensamento dos adultos. No que se refere ao aspecto social, ela adquire mais autonomia das “constelações
puramente afetivas”. É capaz de ampliar as relações com os seus pares humanos. Assim, de acordo com as ideias
wallonianas, a família é um grupo importante para o desenvolvimento infantil. Este grupo social deixa marcas que
determinam as condutas sociais das crianças. Todavia, a família não se constitui como um único modelo de relações.
No decorrer de sua existência, o indivíduo, por ser eminentemente social, poderá entrar em contato com diversos
grupos sociais, outros modelos (WALLON, 1986).

a história da Psicomotricidade constitui-se, basicamente, de três etapas. A primeira etapa é caracterizada


pelas práticas reeducativas, sendo influenciada pela neuropsiquiatria. O foco dessas práticas é o corpo em seus
aspectos motor e instrumental. Há uma relação e correspondência do mental e do motor, o que foi denominado de
“paralelismo motor”. Na segunda etapa, recebe influência do campo psicológico. Há uma passagem da concepção do
corpo motor para o corpo instrumento de construção da inteligência. O foco da Psicomotricidade não é mais o
proposto pelas práticas reeducativas, mas o da terapia psicomotora, que se ocupa de um corpo que se movimenta,
que sente e se emociona. Esta emoção manifesta-se tonicamente. Para Levin (2003, p. 31), “o tônus muscular, as
posturas, o gesto, a emoção (representante da ordem psíquica do corpo) seriam produções do corpo que poderiam
ser abordadas num enfoque terapêutico”. Nesta abordagem, o corpo é percebido na sua globalidade, ou seja, nas
dimensões: instrumental, cognitiva e tônico-emocional, as quais são enfocadas pelo psicomotricista. A terceira etapa
é marcada pela contribuição da teoria psicanalítica, aspecto relevante para a mudança conceitual e prática da
Psicomotricidade.
A prática da Psicomotricidade atua, segundo afirmação de COSTE (1978),
sobre:“o homem é o seu corpo", trazendo a perspectiva de que precisamos atuar
nesse corpo. Para Velasco (1994) "a partir do movimento em que estamos vivos,
que existimos, somos um ser psicomotor".

O termo psicomotricidade nasceu no inicio do século XIX, na França com


o objetivo de explicar certos fenômenos clínicos estudados por neurologistas da
época, os principais responsáveis por seu desenvolvimento na Europa foram
Piaget (1982) que considerou inteligência como sendo a ferramenta mestra que
permite a um individuo lidar com o seu meio ambiente, em que a adaptação é o
fator de equilíbrio nessas trocas, de variáveis imutáveis- o individuo incorpora e
modifica internamente em sua estrutura, e que ele nomina de assinalação e
acomodação- e variáveis mutáveis, área de atuação da adaptação. Os momentos
de equilíbrio ele dominou estágios do desenvolvimento.

Na vertente afetiva e social Wallon (1949), transfere as emoções à


"raiz" da ação, sendo ela (a emoção) o fator de organização e meio de
comunicação com o mundo. Lapierre e Aucouturier (1984) questionam a
supervalorização do verbal e intelectual no desenvolvimento, dando ênfase a
vivência do movimento espontâneo, em que os fatores emocionais devem ser
levados em conta na decodificação do comportamento ali expresso, em
interação direta com o profissional. Alguns se referem ao comportamento motor
como sendo psicomotor em função do envolvimento cognitivo e afetivo na
maior parte dos movimentos executados.

3. Da concepção europeia à aplicabilidade no Brasil

No Brasil, a respectiva ciência chega no século XX, durante o período da


1ª guerra mundial época em que as mulheres começaram a trocar trabalho como
donas de casa pelo trabalho nas indústrias delegando a atividade do cuidados
com os filhos as creches. Teve-se uma maior atenção voltada a
psicomotricidade por ser no ambiente escolar o local no qual as crianças tendem
a apresentar-se e serem mais observadas em relação aos seus movimentos
corporais. Os principais difusores da psicomotricidade foram Antônio Lefévre,
influenciado pelas obras de Ajuriaguerra; psiquiatra francês que definiu um
novo conceito de patologia motora e Ozeretski. Helena Antipoff que trouxe sua
experiência teórica e prática em deficiência mental para aplicação nas escolas
brasileiras e por último a doutora Dalila de Costallat que passa a partir da
década de 70 atuar junto com o ministério da educação brasileiro e com Helena
Antipoff trocando experiências do trabalho desenvolvido na argentina com os
trabalhos desenvolvidos no Brasil.

“No Brasil, Antônio Branco Lefévre buscou junto as obras de Ajuriaguerra e Ozeretski,
influenciado por sua formação em Paris, a organizaa primeira escala de avaliação
neuromotora para crianças brasileiras. Dra. Helena Antipoff, assistente de Claparéde, em
Genebra, no Institut Jean-Jacques Rosseau e auxiliar de Binet e Simon em Paris, da escola
experimental "La Maison de Paris", trouxe ao Brasil sua experiência em deficiência mental,
baseada na Pedagogia do interesse, derivada do conhecimento do sujeito sobre si mesmo,
como via de conquista social... Em 1972, a argentina, Dra. Dalila de Costallat, estagiária do
Dr. Ajuriaguerra e da Dra. Soubiran em Paris, é convidada a falar em Brasília às autoridades
do Ministério da Educação, sobre seus trabalhos em deficiência mental e inicia contatos e
trocas permanentes com a Dra. Antipoff no Brasil” (RAPPAPORT, 2007).
[...]

A educação psicomotora é dirigida à atuação dentro do âmbito escolar, principalmente nos


segmentos da Educação Infantil e no Ensino Fundamental. Teve início na França, com o
professor de Educação Física Lê Boulch, na segunda metade da década de 60, já visando o
desenvolvimento global do indivíduo por meio dos movimentos e, mais especificamente, evitar
distúrbios de aprendizagem. Assim, a Psicomotricidade atua proporcionando ambientes que
estimulem as vivências corporais, ou seja, buscando desafiar os alunos, atingindo suas zonas de
desenvolvimentos, como defende Vygotsky. (...)Em primeiro lugar, o brincar é um ato social que
permite uma comunicação através de gestos, mesmo que não haja comunicação verbal. É no
brincar que a criança tem a oportunidade de expressar o que está sentindo ou necessitando; é
através das brincadeiras, do faz de conta, que a criança constrói o seu mundo imaginário
situado em experiências vividas. A criança utiliza-se do brincar para construir sua
aprendizagem, porque é na brincadeira que ela explora situações usando a imaginação e libera
seu eu criativo, realizando seus desejos mais íntimos.(...)Enfim, o brincar é maneira pela qual a
criança busca subsídios lúdicos para desenvolver-se. E o mais importante de tudo isso é que, por
meio do brincar, o professor assume um papel fundamental neste processo, pois é ele que
arma, de maneira planejada e não casual, as cenas mais pertinentes para que esse
desenvolvimento ocorra. É ele que fará com que o sujeito não se fragmente, pois ele se oferece
como elo de todos os aspectos que constituem um indivíduo: os aspectos psicomotores,
cognitivos e sócio-afetivos.(RAPPAPORT,2007)
[...]
https://psicologado.com.br/psicologia-geral/desenvolvimento-humano/um-breve-historico-da-psicomotricidade-e-
suas-aplicacoes-praticas-junto-a-um-grupo-de-estudantes-da-rede-publica-de-ensino-no-municipio-de-barra-mansa-
rj
A psicomotricidade é caracterizada como uma área do conhecimento que utiliza os movimentos físicos
para atingir outras aquisições mais elaboradas, como as intelectuais, e durante o processo de ensino, os
elementos básicos da psicomotricidade são utilizados com frequência, e cujo desenvolvimento psicomotor
é mal constituído, poderá apresentar problemas na escrita, na leitura, na direção gráfica, na distinção de
letras (ex:b/d), na ordenação de sílabas, no pensamento abstrato (matemática), na análise gramatical,
dentre outras. Assim os movimentos físicos são muito importantes para o desenvolvimento humano,
transmitindo sentimentos, emoções e pensamentos, ampliando as possibilidades do uso de gestos e
posturas corporais, que auxiliarão no processo de ensino-aprendizagem, considerando que um bom
desenvolvimento psicomotor proporciona ao aluno algumas habilidades e um bom desempenho escolar.
A partir do referencial teórico, obtido com as leituras de autores como Fonseca (2008) que apresenta em
sua obra um minucioso estudo sobre os três pioneiros do desenvolvimento psicomotor: Ajuriaguerra,
Wallon, Piaget, e as contribuições de Le Boulch (1982), Negrine (1986), entre outros autores, assim sendo
possível formular a hipótese de que a psicomotricidade interfere na aprendizagem dos alunos e no
desenvolvimento integral. De acordo com Fonseca (2008), a psicomotricidade pode ser definida como o
campo transdisciplinar que estuda e investiga as relações e as influências recíprocas e sistêmicas entre o
psiquismo e a motricidade. Para Le Boulch, a educação psicomotora deve ser uma formação de base
indispensável para toda criança. Assim, é importante uma analise a fim de buscar os motivos das
dificuldades encontradas no processo de ensino-aprendizagem, que não estão ligadas às questões
patológicas, e acabam se tornando uma problemática educacional nas etapas da vida escolar da criança.
Desta maneira destaca-se e a importância para o professor em conhecer a história da psicomotricidade e
seus fundamentos, a fim de compreender de fato como ela está ligada à educação e refletir sobre a
importância da área psicomotora no desenvolvimento motor e cognitivo. 1. Um Breve Histórico, Conceitos
e Fundamentos da Psicomotricidade O corpo é o ponto de referência que os seres humanos buscam
conhecer e assim interagir com o mundo, servindo como base para o desenvolvimento nos aspectos
cognitivos, sociais, físico-motor e afetivo-emocional. Fonseca (1988) informa que etimologicamente
podemos definir o termo psicomotricidade como oriundo do grego psyqué = alma/mente e do verbo latino
moto = mover frequentemente, agitar fortemente. A terminologia está ligada ao movimento corporal e sua
intencionalidade.
A motricidade humana tem sua origem na própria história social do homem, sendo fundamental às
atividades no trabalho, em casa, na caça, na comunicação e na perpetuação da espécie. Já o termo
“Psicomotricidade” apareceu pela primeira vez no discurso médico, no campo da neurologia, tendo como
pioneiro o neurologista francês Ernest Dupré (1862 – 1921), que no século XIX constatou disfunções
graves evidenciadas no corpo sem que o cérebro tivesse nenhuma lesão. São descobertos distúrbios da
atividade gestual, da atividade práxica, onde o "esquema anátomo-clínico" que determinava para cada
sintoma sua correspondente lesão focal já não podia explicar alguns fenômenos patológicos, tendo então
a necessidade de encontrar uma área que explicasse tais fenômenos clínicos, e então fez com que
surgisse a palavra “Psicomotricidade” em 1870. Em 1909, Dupré definiu a síndrome da debilidade motora
através das relações entre o corpo e a inteligência, dando partida para o estudo dos transtornos
psicomotores, patologias não relacionadas a nenhum indício neurológico estudados pela Psicomotricidade.
Somente no século XX a psicomotricidade passou realmente a ser considerada ciência. Contudo, a prática
psicomotora começou em 1935, com Eduard Guilmain, que elaborou protocolos de exames para medir e
diagnosticar transtornos psicomotores. Passa-se a ter uma visão integral do indivíduo, de forma a respeitar
suas limitações e necessidades, trabalhando-o integralmente o físico, cognitivo e o afetivo. A
psicomotricidade é sustentada por três conhecimentos básicos: o movimento, o intelecto e o afeto. Sendo
estruturada por três pilares: o querer fazer (emocional) – sistema límbico, o poder fazer (motor) – sistema
reticular e o saber fazer (cognitivo) – córtex cerebral. Sendo importante que ocorra o equilíbrio entre eles,
caso ao contrário pode acarretar uma desestruturação no processo de aprendizagem da criança. A
motricidade tem a função de levar as experiências vivenciadas até o cérebro, que fará a decodificação de
cada estimulo enviado e armazenará as informações sensoriais, afetivas e perceptivas que o individuo
presenciou. De acordo com a Associação Brasileira de Psicomotricidade, a mesma pode ser definida
como:
... a ciência que tem como objetivo de estudo o homem por meio do seu corpo em movimento e em relação ao seu
mundo interno e externo, bem como suas possibilidades de perceber, atuar e agir com o outro, com os objetos, e
consigo mesmo. Está relacionada ao processo de maturação, onde o corpo é a origem das aquisições cognitivas,
afetivas, e orgânicas.
Neste sentido Dupré, foi um dos autores que influenciaram fortemente a Psicomotricidade, assim como
Wallon, Piaget, Guilmain, Ajuriaguerra entre outros, que estudaram e comprovaram a relação entre o
movimento e a aprendizagem. Segundo Wallon (1925), seus estudos estavam voltados para a relação
entre as emoções e o certo comportamento tônico, mostrando a importância dos movimentos no
desenvolvimento psicológico da criança. Seu olhar psicobiológico influenciou os psicomotricistas que
estudam o desenvolvimento motor e mental da criança, auxiliando nos estudos relacionados à aquisição
do conhecimento da criança, em seus aspectos intelectuais, motores e afetivos.
O movimento não é puramente um deslocamento no espaço, nem uma simples contração muscular, e sim, um
significado de relação afetiva com o mundo, assim, para o autor, o movimento é a única expressão e o primeiro
instrumento do psiquismo. Neste contexto, pode-se dizer que o desenvolvimento motor é precursor de todas as
demais áreas. (WALLON, 1995, p. 01).

O que mais tarde será visto por Ferreira (1998), afirma que “não existe aprendizagem sem que seja
registrado no corpo”. (p. 18), destacando a importância dos movimentos nas ações de construção do
conhecimento. Nos estudos de De Meur & Staes (1984), assinala que “o intelecto se constrói a partir da
atividade física”. As funções motoras (movimento) não podem ser separadas do desenvolvimento
intelectual (memória, atenção, raciocínio) nem da afetividade (emoções e sentimentos). Para que o ato de
ler e escrever se processe adequadamente, é indispensável o domínio de habilidades a ele relacionado,
considerando que as habilidades são fundamentais manifestações psicomotoras.
No enfoque das pesquisas de Levin (1995), “há uma diferença entre os pensamentos de Wallon e Dupré”;
para Wallon, o movimento está relacionado ao afeto, à emoção, ao meio ambiente e aos hábitos das
crianças; para Dupré, a motricidade está relacionada inteligência. Assim é possível observar que no início
a psicomotricidade tinha seus estudos voltados para a patologia. Porém Wallon, Piaget e Ajuriaguerra
aprofundaram seus estudos voltados para o campo do desenvolvimento, nesta perspectiva Wallon se
preocupou com a relação psicomotora, afeto e emoção, já Piaget se preocupou com a relação evolutiva da
psicomotricidade com a inteligência e Ajuriaguerra consolida as bases da evolução psicomotora, de forma
mais específica para o corpo e sua relação com o meio. Para ele, a evolução da criança está na
conscientização do seu corpo. Estas contribuições muito avançaram para o conceito da psicomotricidade e
as ações metodológicas para o desenvolvimento da aprendizagem, principalmente na aquisição da leitura
e escrita. Assim para a psicomotricidade o indivíduo, para aprender, precisa sentir, pensar e agir, a
psicomotricidade é a expressão de um pensamento pelo ato motor preciso, econômico e harmonioso.
(AJURIAGUERRA, 1983) Em 1948, Ajuriaguerra redefiniu o conceito de debilidade motora e delimitou com
clareza os transtornos psicomotores no seu Manual de Psiquiatria Infantil. Ele é o responsável por
delimitar com clareza os transtornos psicomotores que oscilam entre o neurológico e o psiquiátrico. Com
estas novas contribuições, a psicomotricidade diferencia-se de outras disciplinas, adquirindo sua própria
especificidade e autonomia. O corpo é eixo comum na prática da psicomotricidade, porta-voz dos sintomas
e sede dos problemas de aprendizagem e/ou psicomotores, podendo ser trabalhados através da
reeducação, porém o profissional de educação deve se apropriar deste recurso para aplicá-lo nas rotinas
educacionais. Os pesquisadores André Lapierre e Bernard Aucouturier, são considerados os pais da
psicomotricidade relacional. Negrine (1995), afirma que com a influência desses dois professores de
educação física, a psicomotricidade passou por três períodos: continuador, inovador e de ruptura. O
período continuador é caracterizado pela primeira vertente adotada pelos autores Lapierre e Aucouturier,
onde as publicações da época expressavam a linha teórico-metodológica funcionalista, marcando a origem
da psicomotricidade como campo de estudo e como prática pedagógica, onde as crianças eram
submetidas a testes que avaliavam seu perfil psicomotor. Já no período inovador, ao contrário do que
acreditavam no estágio anterior, nesse período, o trabalho era desenvolvido com fundamento nas
potencialidades dos alunos, unindo teoria e prática com bases relacionais, pois a psicomotricidade
funcional não seria adequada quando se tratasse de educação ou reeducação. Assim surge o período da
ruptura, onde os autores Lapierre e Aucouturier acabaram tendo suas práticas distanciadas. Lapierre
trabalhou com base na potencialização dos jogos simbólicos, acreditando que sempre há uma intenção
por trás deles, e que o adulto interviria no jogo simbólico da criança. Já Aucouturier defendia a
potencialização dos jogos sensório-motor. Segundo Alves (apud SILVA, 2004), “A psicomotricidade tem
como principal propósito melhorar ou normalizar o comportamento geral do individuo, promovendo um
trabalho constante sobre as condutas motoras, através das quais o indivíduo toma consciência do seu
corpo, desenvolvendo o equilíbrio, controlando a coordenação global e fina e a respiração bem como a
organização das noções espaciais e temporais.” É uma pratica pedagógica que contribui para o
desenvolvimento da criança no processo de ensino aprendizagem. Favorece os aspectos físicos, mental,
afetivo emocional e sócio cultural. É uma forma de ajudar a criança a superar as suas dificuldades e
precaver possíveis inadaptações. (OLIVEIRA, 2002). O papel da psicomotricidade na educação é
estimular o desenvolvimento das percepções da criança e seu esquema corporal. O ato de movimentar-se
fisicamente é privilegiado com o trabalho psicomotor, porém leva-o ao trabalho mental, onde é aprendido a
ouvir, interpretar, imaginar, organizar, representar e passar do abstrato para o concreto. O
desenvolvimento é adquirido através de suas tentativas e erros. Ela transforma seus erros em
aprendizado. Portanto a atividade motora é de extrema importância no desenvolvimento da criança. A
psicomotricidade de Le Boulch (1983) justifica sua ação pedagógica colocando em evidencia a prevenção
das dificuldades pedagógicas, dando importância a uma educação do corpo que busque um
desenvolvimento total da pessoa, tendo como principal papel na escola preparar seus educandos para
vida, utilizando métodos pedagógicos renovados, procurando ajudar a criança a ser desenvolver da
maneira possível, contribuindo dessa forma para uma boa formação da vida social. Muitos estudos tem na
psicomotricidade um olhar apenas para o corpo e o movimento, porém vai além. É responsável também
pela contribuição mental e pelo comportamento, neste sentido podemos observar que: A psicomotricidade
como seu nome indica, trata de relacionar os elementos aparentemente desconectados, de uma mesma evolução: o
desenvolvimento psíquico e o desenvolvimento motor. Parte, portanto, de uma concepção do desenvolvimento que
coincide com a maturação e as funções neuromotoras e as capacidades psíquicas do individuo de maneira que
ambas as coisas não são duas formas, até então desvinculadas, na realidade é um processo. (NÚNEZ apud
COSTALLAT, 2002, p.22)

O movimento é a parte integrante do comportamento humano. No entanto, conforme os estudos de


Santos; Cavalari (2010) para que haja desenvolvimento integral é preciso que tenhamos profissionais
capazes e conscientes da importância da psicomotricidade, considerando-a como a ciência que envolve
toda ação realizada pelo individuo, que represente suas necessidades e permita suas relações com os
demais. Segundo Alves (2008), “O ser humano não é feito de uma só vez, mais se constrói pouco a pouco,
por meio da ação com o meio e de suas próprias realizações, e nessa construção a psicomotricidade
realiza um papel fundamental.” O que a cada dia torna-se essencial no processo de aprendizagem da
criança, onde ela utiliza de seu próprio corpo para o processo de interação e conhecimento do mundo. De
acordo com a afirmação de Alves (2012, p.144), “A psicomotricidade existe nos menores gestos e em
todas as atividades que desenvolve a motricidade da criança, visando ao conhecimento e ao domínio do
seu próprio corpo”. A estruturação psicomotora é a base para o processo de desenvolvimento intelectual
da criança. O desenvolvimento evolui do geral para o específico. Apresentando desta forma ser um dos
fatores essenciais ao desenvolvimento global e uniforme da criança. Alexander Romanovich Luria foi um
famoso psicólogo soviético especialista em psicologia do desenvolvimento e agrupou as bases
psicomotoras em unidades funcionais ou neuroblocos, a primeira composta pela tonicidade e o equilíbrio,
a segunda composta pela noção de corpo, lateralidade e estruturação espaço-temporal e a terceira é
composta pelas praxias global e distal. A criança não nasce pronta, tudo se constrói aos poucos, por meio
das próprias ações, cada ser tem seu eixo corporal que ao decorrer do tempo é adquirido pelo movimento
e as experiências vividas. O ser humano necessita através do seu corpo, perceber as coisas que estão ao
seu redor, adquirindo as noções de em cima, embaixo, perto, longe, na frente e atrás, sendo sempre
estimulada a se auto-independe. No entanto esses desenvolvimentos variam de criança para criança, pois
cada uma apresenta competências diferentes. A psicomotricidade trabalha os movimentos da criança,
motiva a capacidade sensitiva, cultiva a capacidade perceptiva através da resposta corporal, organiza a
capacidade dos movimentos, utilizando objetos reais e imaginários, amplia e valoriza a identidade própria,
cria segurança e respeito aos espaços dos demais. Os estudos baseados na psicomotricidade nos
auxiliam a entender a importância do corpo para o desenvolvimento global do ser humano, associando
dinamicamente o ato ao pensamento, o gesto à palavra, o símbolo ao conceito, e está relacionada ao
processo de maturação. Antigamente a educação propôs que os aspectos motores e intelectuais poderiam
ser medidos por testes, sendo o sujeito fragmentado, e assim vieram novos tempos e novas idéias, e com
isso o corpo e a imaginação só poderiam andar juntos, e o brincar passou a fazer parte da educação,
contribuindo para aprendizagem. E as relações com o outro e com o meio, o ser humano se desenvolvia
plenamente.
O Surgimento da Psicomotricidade no Brasil
No Brasil, a Psicomotricidade foi introduzida em meados da década de 70, trazida por profissionais
oriundos da Europa. Nesta época, as práticas eram direcionadas a Educação e Reeducação Psicomotora.
E em 1976, com a estada de Françoise Désobeau, uma das pioneiras em psicanálise infantil, foi
introduzida a Terapia Psicomotora que propunha a substituição das técnicas instrumentais por atividades
mais livres, valorizando o jogo e o brincar. Assim, em 1980 foi fundada a Sociedade Brasileira de
Psicomotricidade. O início da Psicomotricidade no Brasil ocorreu com profissionais que foram para a
França especializar-se em clínica infantil e, depois, em psicomotricidade com Ajuriaguerra - psiquiatra e
professor e, depois, com Bergès que era seguidor de Ajuriaguerra, no hospital Henri-Roussele, na escola
da equipe de Giselle. B Soubiranterapeuta psicomotora. Airton Negrine, é uma das primeiras referências
no Brasil na área da Psicomotricidade, passando de partidário da linha funcionalista, para defensor da
linha relacional, onde o professor deve buscar sempre estratégias para impulsionar o desenvolvimento dos
alunos que apresentam dificuldades. A educação especial foi o elo entre o surgimento da psicomotricidade
na Europa e no Brasil. De acordo com Negrine (2002), os primeiros trabalhos relacionados à
psicomotricidade no Brasil foram realizados por professores das disciplinas ligadas ao ensino de educação
física na educação infantil, em cursos superiores de educação física. Esses professores lutaram para que
a psicomotricidade fosse uma disciplina integrante do currículo dos cursos de educação física e
pedagogia. Antes que isso acontecesse, a psicomotricidade já era desenvolvida dentro de clínicas
privadas de reeducação. A história da psicomotricidade chega tardiamente no Brasil, contudo, vêm
despertando interesse de muitos estudiosos, principalmente de profissionais da área da educação que
buscam melhorar o desempenho de seus alunos no desenvolvimento global, para facilitar a aquisição de
conhecimentos, principalmente no processo de alfabetização, onde são encontradas as maiores
dificuldades trazidas pelos alunos.
As Principais Vertentes da Psicomotricidade
Com o intuito de facilitar a compreensão das características das principais vertentes da Psicomotricidade,
algumas características são analisadas e destacadas em cada uma delas. A psicomotricidade evidencia
três vertentes: a reeducativa, terapêutica e educativa.
A Reeducação atende individualmente, ou em pequenos grupos, que apresentam sintomas de ordem
psicomotora. Estes sintomas podem vir acompanhados de distúrbios mentais, orgânicos, psiquiátricos,
neurológicos, relacionais e afetivos. O trabalho de reeducação privilegia a princípio três situações, que
são: o alívio do problema, a redução do sintoma e a adaptação ao problema através de jogos e exercícios
psicomotores.
A Terapia Psicomotora é realizada individualmente ou em pequenos grupos que apresentam grandes
perturbações de ordem patológica, tem como objetivo uma ação diagnóstica dos atrasos psicomotores ou
características da personalidade com a utilização do corpo, com seus movimentos e sua expressividade. A
terapia psicomotora utiliza-se das contribuições da teoria psicanalítica. Nesta vertente os psicomotricistas
estão atentos à vida emotiva de seus pacientes, delegando importância à emoção, à expressão e à
afetividade. O corpo é considerado como uma unidade que conjuga a emoção e a motricidade (LEVIN,
1995).
A Educação Psicomotora é realizada no âmbito escolar, é uma atividade preventiva, aplicada
principalmente na Educação Infantil e no Ensino Fundamental séries iniciais. Sua intensificação como
prática pedagógica teve origem na França, com o professor de Educação física Jean Le Boulch, na
segunda metade da década de 60, tendo como foco o desenvolvimento global do indivíduo por meio dos
movimentos, evitando distúrbios de aprendizagem, proporcionando para os indivíduos, ambientes que
estimulem as vivências corporais, desafiando os alunos a alcançarem suas zonas de desenvolvimento,
como defende Vygotsky. Segundo Le Boulch (1987) “a Educação Psicomotora deve ser considerada como
uma educação básica para o ensino fundamental.” A Educação Psicomotora proporciona atividades
escolares, que não podem ser conduzidas se a crianças não tiver alcançado a consciência do seu corpo,
lateralizar-se, e se não tiver adquirido habilidades e coordenação de seus gestos e movimentos.

https://www.historiaeparcerias.rj.anpuh.org/resources/anais/11/hep2019/1569516955_ARQUIVO_84ce39886d1b5
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