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A EVOLUCAO PEDAGOGICA EM FRANCA: Aigreja primitiva e 0 ensino fi uma ideia muita divulgada que qualquer pessoa que se preocupe com a Pratica deve distanciar-se em parte do passado para concentrar no presente todas as forcas da sua atengo, dado que 0 passado j& passou, dado que jf no podemos fazer nada por ele, parece que s6 nos pode interessar por curiosi- dade, Acteditamos que pertence ao Ambito da erudigao, Nao @ 0 que jf foi, mas sim o que é, que precisamos de conhecer, e melhor ainda, é o que tende a ser aquilo que temos de tratar de prever, para poder satisfazer as necessidades que nos preocupam. Na primeira lico dedicémo-nos a mostrar que este mé- todo é decepcionante. De facto, o presente, aquilo a que nos convidam a limi- tarmo-nos, esse presente nao vale nada em si mesmo; ndo é mais do que o pro- longamento do passaido do qual nfo se pode separar sem perder em grande parte 0 seu significado. O presente € formado por inumerdveis elementos, tao estreitamente emaranhados uns nos outros, que nos é dificil perceber onde comeca um, onde termina o outro, o que é cada um deles e quais as suas rela- Ges; deles, s6 temos, depois de uma observacdo imediata, uma impressao turva e confusa. A tnica forma de os distinguir, de os dissociar, de introduzir por consequéncia um pouco de clareza nesta confusio, € procurar na histéria como se foram progressivamente ligando uns aos outros, como se foram com- binando, organizando. Do mesmo modo que a sensacdo que temos da matéria 2 apresenta como uma extensio homogénea, apesar da anilise cientifica nos mostrar a sua sébia organizacio, a sensacao directa do presente nao nos per- mite suspeitar da sua complexidade até que a anilise hist6rica a possa revelar. Extracto do livro Histirla da Bducagdo ¢ das Dowtrinas Pedagéaicas, Texto teaduzido por Isabel Peceita da obra Historia de la Bdwcacitn y de las Doctrinas Pedagogicas, la evolncién pedagogtca en Francia, 1982, Colecgio Genealogia del Poder, drigida por Julia Varela e Fernando Alvarez Uta, Las Ediciones de La Piqueta, Madid, 1982 eoUOACay sociepape & cuirunas No entanto, o que para alguns parece ser mais perigoso € a importincia exage- rada que assim tendemos a atribuir as aspiragdes da hora presente quando nao as submetemos a nenhum control. Pois, precisamente, porque sdo actuais hipnotizam-nos, absorvem-nos e impedem-nos de sentir outra coisa que ndo sejam elas mesmas. O sentimento que temos de qualquer coisa que nos falta € sempre mais forte, por consequéncia, tende a ocupar na consciéncia um lugar preponderante e remete tudo mais para a sombra. Completamente voltados para 0 objecto que orienta os nossos desejos, este aparece-nos como a coisa preciosa por exceléncia, o que importa antes de mais, 0 fim ideal ao qual todo © ser deve estar subordinado, Sendo assim, muitas vezes, 0 que nos faz falta nao é mais essencial, nem menos essencial que o que temos; deste modo esta- mos expostos a sacrificar a necessidades passageiras secundérias, necessi- dades verdadeiramente vitais. Rousseau dé-se conta de que a educaclo do seu tempo no deixa muito espago 4 espontaneidade da crianga, faz do abstencio- nismo metédico, sistematico, a caracteristica de toda a sa pedagogia. Deste modo, s6 porque a crianga nao esté suficientemente em relaco com as coisas, faz do ensino pelas coisas 0 fundamento quase tinico de todo o ensino. Para fugirmos desta influéncia prestigiosa das preocupagées presentes que so necessétias @ unilaterais, é preciso car-Thes como contrapeso 0 conhecimento de todas as demais exig@ncias que é necessdrio ter igualmente em conta, e este conhecimento s6 0 pocemos adquirir através da historia que nos ensina a com- pletar o presente relacionando-o com o passado de que € continuagio, Estas razdes pelas quais mostrmos que o estudo histérico do ensino tem a sua utilidade pratica nao sto as tinicas. Este método no s6 nos permite preve- nit bastantes ertos possiveis no futuro, mas também podemos prever que nos proporcionard os meios para corrigir certos erros que se tenham cometido no passado © cujas consequéncias ainda sofremos. De facto, 0 desenvolvimento pedagdgico, como todo o desenvolvimento humano, nao foi sempre normal. No decurso das futas que libertaram as diferentes concepgdes que se suce- deram na historia, mais do que uma ideia justa foi ensombrada, embora o seu valor intrinseco a tivesse mantido. Aqui, como em outras alturas, a luta pela vida 86 produz resultados grosseiramente aproximativos. Em geral, so os mais dotados, os mais aptos que sobrevivem. Mas, ndo obstante, a par disto, quantos Exitos ilegitimos, quantas moztes e derrotas injustificadas, lamentiveis, devidas erUOAChg SOCIEDADE && CULTURAS a alguma combinago acidental de circunstincias! Sobretudo na histéria das ideias ha uma causa que contribui mais do que nenhuma outra para produzir este resultado. Quando se constitui uma concepgio nova, seja ela pedagdgica, moral, religiosa ou politica, tem naturalmente o ardor ¢ a vitalidade combativa da juventude presente, tende a mostrar-se violentamente agressiva para com as concepcOes antigas que aspira @ substituir, Nega-as, pois, radicaimente. Os campeées das ideias novas, transportados pela luta, acreditam de bom grado que nao tém nada que conservar das ideias antigas que combatem, fazem-lhes tuma guerra sem reservas ¢ sem piedade, E, contudo, na realidade, aqui como em outras alturas, o presente surge do passado, deriva dele ¢ dé-lhe continui- dade, Entre um estado hist6rico novo € aquele que o precedeu, nao ha um yazio, mas sim um vinculo estreito de parentesco, dado que, de certo modo, o primeiro nasceu do segundo. No entanto, os homens nao tém consciéncia deste vinculo, nao sentem mais do que a oposi¢a0 que 0s separa dos seus antecessores. Acreditam, pois, que nada suficiente para arruinar por completo esta tradicao a que se opdem e que lhes resiste, Dai derivam lamentiveis destruigdes. Desaparecem elementos do passado que se deveriam ter conver: tido em elementos do futuro. O Renascimento sucede a Escoldstica; os homens do Renascimento consideraram prontamente Obvio que nao havia nada que conservar do sistema escolstico. A nés cabe-nos perguntar se esta atitude revolucioniria nao tera dado lugar a lacunas no nosso ideal pedagdgico que se transmitiram até aos nossos dias, Além disso, o estudo hist6rico do ensino, 20 mesmo tempo que nos permitica conhecer melhor o presente, oferecer-nos-4 a oportunidade de rever 0 mesmo passado ¢ por em evidéncia alguns daqueles ros; importa que tomemos consciéncia deles j que somos seus herdeiros, No entanto, 4 parte este interesse pratico que devia assinalar antes que qualquer outra coisa por ser com mais frequéncia desconhecido, a investiga- ao que vamos empreender apresenta, além disso, um interesse teérico e cien- tifico que no é de desdenhar. A primeira vista, a historia do ensino secund’- tio em Franca pode parecer que é muito especial e que s6 deve interessar a ‘um corpo restrito de professores. No entanto, devido @ uma singularidade do nosso pais, acontece que, durante a maior parte da nossa histéria, 0 ensino secundario absorveu toda a vide escolar do pais, © ensino superior, depois de hascet, ndo tardou a enfraquecer completamente para renascer apenas a partir yoUCACKS socrepans & cULTURAS da guerra de 1870, O ensino primario aparece entre nds muito tardiamente e s6 apés 2 Revolucdo teve 0 seu desenvolvimento. Assim sendo, durante uma boa parte da nossa existéncia nacional, 0 ensino secundério ocupou toda a cena Disto resulta, primeiramente, que ndo podemos fazer a sua historia sem fazer, ao mesmo tempo, a hist6ria geral do ensino e da pedagogia em Franca, Vamos, assim, descrever a evoluco do ideal pedagégico francés, no que tem de mais essencial, através das doutrinas que de vez em quando tenham tratado de tomar consciéncia de si, e através das instituigdes escolares que tiveram a fun- 0 de o realizar. E dado que fof nos nossos colégios que desde o século XIV XV se formaram as forcas intelectuais mais importantes do pais, € quase uma hist6ria do espirito francés o que tentaremos fazer. Por outro lado, este impor- tante papel do ensino secundirio no conjunto da vida social do nosso pais, € que ndo se encontra em nenhum outro sitio do mesmo modo, podemos estar seguros, desde logo, que se deverd a alguma caracteristica distinta, pessoal, a alguma idiossincrasia do nosso temperamento nacional, idiossincrasia de que temos que nos dar conta, parque temos de procurar as causas que expliquem, esta particularidade do nossa historia pedagégica. Historia da pedagogia e eto- logia colectiva estéo, de facto, estreitamente ligadas, Depois de ter determinado assim o modo como entendemos © tema que vamos tratar, necessitamos abordar agora o interesse miiltiplo que representa. No entanto, por once comegar? Em que momento devemos comegar esta his- térla do ensino secundario? Para bem se compreender o desenvolvimento de um ser vivo, para se expli- carem as formas que apresenta nos momentos sucessivos da sua historia, teria que se comecar por conhecer a constitwi¢io do gérmen inicial que € 0 ponto de partida de toda a sus evolugio. Sem diivida, hoje nao se admite que um ser esteja completamente formado no ovo de que surgiu; sabe-se que a accao do meio ambiente, das circunstincias exteriores de todo o tipo, néio sao de des- prezar. Nao € menos certo que o 6vulo tem uma influéncia considerdvel sobre toda a sucessio da transformagdo, O momento em. que se constitui a primeira célula viva € um instante radical, incomparavel, cuja acco se faz sentir durante toda a vida. O mesmo acontece nas instituigdes sociais, quaisquer que sejam, como seres vivos. O seu futuro, o sentido em que se desenvolvem, a forga que apresentam na sucessdo da sua transformacao, dependem estritamente da natu- soe eoUCAGay soctepape & cuLTURAS reza do primeiro gérmen de que surgiram. Aqui, todavia, o papel do gérmen é considerivel, Assim, para se compreender 0 modo como se desenvolveu o sis- tema de ensino que nos propomos estudar, para entender o que chegou a ser, néio podemos temer 0 ter que remeter para as suas origens mais longinquas, Nao devemos parar nem no Renascimento nem na Escolastica. H4 que nos remetermos para mais longe, até que tenhamos alcancado o primeiro nticleo de ideias pedag6gicas ¢ 0 primeiro embridio da instituigio escolar que se encontra na historia das nossas sociedades modernas. A partir desta ligéo pode- remos comprovar que estas investigacdes retrospectivas nao so indteis e que cerlas particularidades essenciais das nossas concepgSes actuais levam ainda o selo destas influéncias muito remotas. No entanto, onde podemos encontrar este nticleo, esta célula germinal? Toda a matéria-prima da nossa civilizagdo intelectual nos chegou de Roma. Pode, pois, prever-se que a nossa pedagogia, os principios fundamentais do nosso ensino vieram da mesma fonte, dado que 0 ensino nao € mais do que o resumo da cultura intelectual do adulto. Contudo, por que via ¢ sob que forma se efectuou esta transmissio? Os povos germénicos, se nao todos, pelo menos os que deram 0 seu nome ao nosso pais, eram barbaros insensiveis a todos os refinamentos da civilizacdo. Letras, artes, filosofia eram para eles coisas sem valor; sabemos inclusivamente que os monumentos de arte romana $6 suscita- vam entre eles Odio e depreciacdo, Havia, pois, entre os romanos ¢ eles um verdadeito vazio moral que devia, ao que parece, impedir entre estes dois povos toda a comunicagao toda a assimilagdo, Dado que estas duas civiliza- gOes eram até este ponto estranhas uma 4 outra, ndo podiam, parece, fazer mais do que repelirem-se mutuamente. No entanto, felizmente, houve, nio de imediato sem davida, mas muito prontamente, um momento em que estas duas sociedades, antes antag6nicas e que s6 mantinham uma com a outra relagdes de tivalidade e de exclusio miitua, se aproximaram uma da outra e se comunica- ram entre si, Muito rapidamente, um dos Orgiios essenciais do Império Romano prolongou-se até a sociedade francesa, nela se estendeu e se desenvolveu sem mudar por isso de natureza: foi a Igreja. A Igreja serviv de mediadora entre os povos heterogéneos, foi ela o canal por onde a vida intelectual de Roma pas- 30U, @ pouco e pouco, para as sociedades novas que estavam em vias de for magio. E esta transfusio fez-se precisamente pelo ensino. gr¥CACay soctepapE & CULTURAS A primeira vista, seguramente, pode parecer surpreendente que 2 Igreja, ainda que permanecesse idéntica a si mesina, tenha conseguido deixar raizes € prosperar de igual modo em meios sociais td0 radicalmente diferentes. O que caracterizava essencialmente a Igreja ea moral que defendia era 0 desprezo pelos prazeres deste mundo, pelo luxo material ¢ moral; pretendia substitu a alegria de viver pelos gostos mais severos da rentincia. Que tal dovtrina tenha sido conveniente para o Império Romano, farto de largos séculos de hiperci- vilizacio, € 0 mais natural. Nao fazia mais do que traduzir e consagrar o senti- mento de saciedade e de fastio que produzia desde hé bastante tempo a socie- dade romana e que desde 0 epicurismo € 0 estoicismo se tinham expressado a sua maneira, Tinham-se esgotado todos os prazeres que podem dar os refina- mentos da cultura; estava-se, pois, preparado para recorrer, como salvagao, a uma religio que vinha revelar 20s homens uma fonte muita diferente de felici- dade. No entanto, como é que esta mesma religito, nascida no seio de uma sociedade envelhecida e em decomposi¢2o pode ser aceite tao facilmente pelos povos jovens, que longe de terem abusado dos prazeres deste mundo, nao os haviam ainda esgotado, que, longe de estarem cansados da vida, acaba- vam de entrar nela? Como & que sociedades tho robustas, to vigorosas, lo wansbordantes de vitalidade puderam submeter-se to espontaneamente a uma disciplina t40 deprimente que hes ordenava, antes de mais nada, que se contivessem, privas- sem ¢ renunciassem? Como € que estes impulsos fogosos puderam, impacien- tes em toda a sua medida e com todo o freio, acomodar-se a uma doutrina que thes recomendava, acima de tudo, que se limitassem? A contradigao € to sur- preendente que Paulsen, no seu geschichte des gelebrien Unterricbis, nao hesita em admitir que toda a civilizacdo da Idade Média continha ém si, em principio, uma contradigio interna e constitufa uma verdadeira antinomia, Segundo ele, o contetido ¢ 0 continente, a forma ¢ a matéria desta civilizagao contradiziam-se € negavam-se reciprocamente. © contetido era a vida real dos povos germa- nicos com as suas paixdes violentas, indémitas, a sua necessidade de viver e de gozat, € 0 continente era a moral crist’ com a sua concepeao de sactficio e de reniincia, 0 seu gosto to marcado pela vida limitada e regulamentada, No entanto, s¢ a civilizagio medieval tivesse verdadeiramente encerrado no seu seio uma contradigdo téo flagrante, uma antinomia tao insoltivel, nao teria s¥eACEy socispans & cuLTuRas durado, A matéria teria rompido esta forma, que era tho pouco adequada para cla; 0 contetido teria arrebatado o continente; as necessidades sentidas pelos homens teriam, de seguida, feito esialar a moral rigida que as comprimia. Contudo, na realidade, havia um aspecto em que a doutrina se encontrava em perfeita harmonia com as aspiracées e 0 estado de animo das sociedades germinicas, Era, por exceléncia, a religito das criancas, dos humikies, dos pobres, pobres em bens e pobres de espitito. Exaltava as virtudes da humil- dade, da mediocridade tanto intelectual como material. Ponderava a simplici- dade dos coragdes das inteligéncias. Sendo assim, os germinicos, porque eram povos pequenos, eram, também, simples e humildes. Seria um erro ima- ginar-se que levavam uma vida de desenfreamento passional. A sua existéncia estava melhor composta de actos involuntirios, de privagdes forcadas, de rudes trabalhos que vinham a interromper, quando alguma ocasido surgia, orgias vio- Jentas, mas intermitentes. Povos ainda ontem némadas nao podiam ser mais do que povos pobres, miserdveis, de costumes simples, ¢ que deviam natural- mente acolher com alegria uma douttina que glorifica a pobreza, que defende a simplicidade de costumes. Esta civilizagio pag’, que a Igreja combatia, era- -lhes menos odiosa que a propria Igreja; cristdos e germanicos eram igualmente seus inimigos, e este sentimento comum de hostilidade, de aversio, unia-os estreitamente, porque uns e outros tinham a sua frente o mesmo adversario. Deste modo, a Igreja nascente nao hesitava em pér os barbaros acima dos gentis, em testemunhar-thes uma verdadeira preferéncia: «Os bérbaros, diz Sal- viano aos romanos, so melhores do que vos Havia, pois, uma poderosa afinidade, uma simpatia secreta entre a Igreja ¢ os birbaros; isto explica o facto de a Igreja ter conseguido cimentar-se e implantar-se tao fortemente entre eles. Respondia as suas necessidades, as suas aspiragdes, dava-lhes um consolo moral que nao encontravam noutro lado. No entanto, por outro lado, era de origem greco-tatina e 86 podia per- manecer mais ou menos fiel as suas origens. Tinha-se formado e organizado no mundo romano; a lingua latina cra a sua lingua; estava completamente impcegnada pela civilizagéo romana. Como consequéncia, 20 introduzir-se nos meios barbaros, introduziu neles, ao mesmo tempo, esta mesma civilizagio da qual no se podia desfazer, fosse ela o que fosse, € assim se tomou a profes sora natural dos povos que convertia. Estes s6 pediam & nova religiio uma f6, eP¥CACAG SOCIEDADE & CULTURAS uma base moral; mas, ocasionalmente, encontraram uma cultura como coro- lario desta fe. Nao obstanie, se a Igreja desempenhou realmente este papel, foi tendo em conta uma contadicao contra a qual se debateu durante séculos sem nunca poder sair dela, Com efeito, nesses monumentos literdrios ¢ artisticos da Antiguidade vivia e respirava este espitito paglo cuja destruico a Igreja consi- derava tarefa sua; sem contar que, de uma forma geral, a arte, a literatura € a ciéncia s6 podiam inspirar ao fiel ideias profanas € separi-lo do tinico pensa- mento ao qual deveria dar-se por inteiro, 0 pensamento da sua salvagio. A Igreja nfo podia deixar espaco as letras antigas sem escrapulo € sem inquieta- clo. Assim, os padres insistiram nos petigos a que se expde 0 ctisto que se entrega sem medida aos estudos profanos. Multiplicam as recomendagdes para ‘os reduzir a0 minimo. No entanto, por outro lado, nao podiam passar sem eles. A seu pesar, estavam obrigados a nao os prescrever ¢ isto confirma a regra enunciada por Minucius Felix: Si quando cogimur titterarum secularium recor- dari et aliguid ex his discere, non nostrae sit voluntatis, sed, ut ita dicam, gravissimae necessitatis. Com efeito, antes de mais nada, o latim era irremedia- velmente a lingua da Igreja, a lingua sagrada em que estavam redigidos os canones da fé. Deste modo, como aprender latim sen2o nos monumentos da literatura latina? Podiamos elegé-los com discernimento, deles admitir apenas um pequeno nimero, mas, de um modo ou de outro, era preciso a eles recor- rer. Por outro lado, enquanto que o paganismo era sobretudo um sistema de priticas riruais, além de ser indubitavelmente uma mitologia, embora vago, inconsistente © sem forca expressamente obrigatoria, o cristianismo era, pelo contrério, uma religito idealista, um sistema de ideias, um corpo de doutrinas. Ser cristo no era praticar segundo prescrigdes tradicionais tal e qual uma ope- rago material, era aderi a certas verdades da (6, partilhar certas crengas, admi- tir certas ideias. Deste modo, para inculear préticas, bastava um simples adestramento ma- quinal, era inclusivamente 0 Gnico meio eficaz; no entanto, as ideias, os senti- mentos, s6 podem comunicar-se através do ensino, € que este ensino se disija a0 coraco ou a raz4o, ou a um e a outro de cada vez. Por isso, desde que se fundou o ctistianismo, a pregagio, que ao contririo era desconhecida na Anti- guidade, nele ocupou sapidamente uma parte importante; porque pregar é ensi- gr¥CAcgy sociepane & curtuaas ‘nas, Ora, 0 ensino supde uma cultura € nao havia entao outra cultura sendo a aga. Era preciso, pois, que a Igreja dela se apropriasse. O ensino, a pregacio, pressupde naquele que ensina uma certa pritica da lingua, uma certa dialéctica, um certo conhecimento do Homem e da historia, Deste modo, onde encontrar estes conhecimentos sendo nas obras dos antigos? O tinico feito em que a dou- tina ctisté foi complexa foi nesses livros, que se expressou diariamente nas pre- ces que dizia cada fiel e das quais devia conhecer nao s6 a letra, mas também o espitito, 0 que obrigava, tanto ao sacerdote como ao laico, a adquirir uma ceita cultura. E 0 que demonstra Santo Agostinho na sua Doctrina Christiana, E preciso ver que para bem entender as Santas Escrituras temos que ter um conhecimento profundo da lingua e das mesmas coisas expressas pelas pala- vras. Porque quantos simbolos, quantas figuras so ininteligiveis se nfo tiver- mos uma nocao das coisas que entram nessas figuras ov nesses simbolos? A historia € incispensivel para cronologia. A prpria ret6rica € uma arma sem a qual nfo pode passar 0 defensor da fé; porque haveria de permanecer débil ¢ desarmado frente ao erro que deve combater? Tals silo as necessidades superiores que forcaram a Igreja a abrir escolas e a deixar espaco nas escolas & cultura paga. As primeiras escolas deste tipo foram, as que abriram junto as catedrais, Os seus alunos eram sobretudo jovens que se preparavam para 0 sacerdécio; no entanto, recebiam-se nelas laicos que ainda nao se haviam decidido a abragar o santo ministério. Os alunos viviam ali juntos em convicis, formas muito novas e muito particulares de estabeleci- meatos escolares, a cuja significacao teremos oportunidade de voltar, Sabemos, muito particularmente, que Santo Agostinho fundou em Hipona um convict deste tipo, de onde sairam, segundo informa a biografia do santo, Possidius, dez bispos ilustres pela sua ciéncia e que, por sua vez, fundaram nos seus bis- pacos estabelecimentos andlogos. Natural ¢ itremediavelmente, a instituigao propagou-se pelo Ocidente; descreveremos a sua sorte. No entanto, o clero secular nao foi o tinico a suscitar escolas. © clero regu- lar, desde a sua aparicao, teve ele proprio o mesmo papel. O monacato nao teve uma influéncia pedagdgica menos considerivel que o episcopado. Sabe-se, de facto, como desde os primeiros séculos do cristianismo a dou- trina da rentincia fez nascer a instituic¢do monacal. A melhor maneira de esca- par & corrupgao do século nao seria sair dele completamente? Assim, desde as pPPeh Gag socigpape & CULTURAS séculos III e IV vemos multiplicar-se, desde o Oriente até a Gélia, comunidades de homens e de mulheres. As invasdes, as comogdes de todo o tipo, quaisquer que tenham sido as suas consequéncias, aceleraram 0 movimento, Parecia que ‘© mundo ia acabar: orbis nuit, 0 avundo vinha abaixo por todos os lados, e as multidées salvavam-se nos lugares desertos. No entanto, 0 monacato cristao distinguiv-se, desde o inicio, do monacato hinda, por exemplo, na medida em que nunca foi meramente contemplativo. Isto porque o cristo no deve velar 86 pela sua salvag%o pessoal, mas sim pela salvagio da humanidade. O seu papel € preparar o reino da verdade, o reino de Cristo, ndo somente na sua consciéncia, mas sim no mundo. A verdade que possui nio deve guardé-la piedosa ow zelosamente para ele proprio, mas sim espalhd-la activamente em seu redor. Deve abrir para a luz os olhos que mio a veer, deve levar a palavra da vida Aqueles que no a conhecem e que no a entendam, deve recrutar para Cristo novos soldadlos. Para ele, é indispensvel que nao se encerre num, isolamento egoista, € preciso que, ainda que fuja do mundo, permanega em contacto com ele. Por isso, 0s monges no foram simples solitarios medita- dores, mas sim activos propagadores da fé, pregadores, conversores, mission’- ios, E por isso, ao lado da maioria dos mosteiros, constituiu-se uma escola onde nao s6 os candidatos & vida monacal, mas também as criangas de todas as condigdes e de todas as vocagées, iam receber uma instrugdo tanto religiosa como profana Escolas catedtais, escolas claustrais, este é 0 tipo bastante humilde ¢ bas- tante modesto de onde surgiu todo o nosso sistema de ensino. Escolas primé- tias, universidades, colégios, tudo procede dai; e por isso é preciso partir dai. E também porque a nossa organizacdo escolar com toda a sua complexidade derivou desta célula primitiva, esta € a que nos explica e a nica que pode explicar-nos certas caracteristicas essenciais que apresentou ao longo da sua historia € que conservou até aos nossos dias. Fim primeiro lugar, agora pode compreender-se, porque € que o ensino permaneceu durante tanto tempo, aqui e nos restantes povos da Europa, como coisa da Igreja e como um anexo da religtio; porque é que, inclusivamente depois que os professores deixaram de ser sacerdotes, contudo, conservaram ainda ~ ¢ durante muito tempo ~ algo da fisionomia sacerdotal ¢ inclusivamente das obsigagdes sacerdotais (principalmente a obrigagio do celibato). Quando grUOrcay sociepape & currunas observamos, numa época um pouco mais avangada, esta absor¢4o do ensino pela Igreja, poderfamos ficar tentados a ver nele o resultado de uma manobra politica; poderiamos acreditar que a Igreja se apoderou das escolas para obs- truir toda a cultura cuja natureza pudesse estorvar a f6. Na verdade, esta dependéncia procede simplesmente do facto de as escolas terem comegado por ser obra da Igreia; a Igreja trouxe a sua existéncia, e assim se encontraram, desde 0 seu nascimento, desde a sua concepgdo, por assim dizer, marcadas pelo seu caracter eclesidstico, do quat tantas dificuldades tiveram em despojar- -se depois, Se a Igreja teve esse papel foi porque s6 ela o podia desempenkhar. $6 ela podia servir de professora aos povos barbaros € inicié-los na Gnica cul- tura que entdo existia; refiro-me a cultura classic. Porque como ela continha ao mesmo tempo a sociedade romana e as sociedades germinicas, como tinha de certo modo duas caras € dois aspectos, como ainda conservasse pontos de contacto com © passado, estava, ndo obstante isso, orientada para o futuro, podia, e s6 ela podia, servir de ponto de unio entre esses dois mundos tio dispares. No entanio, vimos que, a0 mesmo tempo, esse embrido do ensino continha em si uma espécie de contradigaio. Era formado por dois elementos que, sem davida, se se atraiam num sentido e se completavam, contudo, por vezes, se excluiam mutuamente, Estava, por um fado, 0 elemento religioso, a doutrina cristé; por outro, a civilizacao antiga e todos os empréstimos que a Igreja foi obrigada a receber dela, ou seja, 0 elemento profano, Para se defender e para se estender, a Igreja, como vimos, era obrigada a apoiar-se numa cultura e esta cultura 36 podia ser paga, dado que nao havia outra. No entanto, as ideias que se desprendiam dela contrastavam evidentemente com aquelas que estavam na base do cristianismo, Entre umas e outras estava todo 0 abismo que separa o sagrado do profano, 0 laico do religioso. E assim se explica um facto que domina todo 0 nosso desenvolvimento escolar e pedagogico: se a escola come- cou por ser essencialmente religiosa, por outro lado, desde que se constituiu, viu-se tender por si mesma a assumir um cardcter cada vez mais laico, porque, desde 0 momento em que apareceu na historia, tinha em si um principio de laicismo. Nao se sabe como, nao recebeu este principio de fora, ao longo da sua evolugio; era-lhe intrinseco. De débil e rudimentar, como era no inicio, aumentou € desenvolveu-se; de um segundo plano, passou a pouco € pouco eoUC Cag SOCIEDADE && CULTURAS para primeiro, contudo existia desde a sua origem. Desde a sua origem, a escola continha em si mesma o gérmen desta grande luta entre o sagrado e © profano, o ico ¢ 0 religioso, cuja historia vamos descrever. No entanto, a organizagio exterior deste ensino nascente apresenta jé uma particularidade essencial que caracteriza todo o sistema que se seguiu. Na Antiguidade, o aluno recebia a sua instrugio de professores diferentes uns dos outros e sem nenhum vinculo entre eles. Ia a casa do gramitico ov do literata para aprender gramética, a casa do citarista para aprender misica, a casa do retrico pata aprender retérica, etc. Todos estes ensinos diversos se reuniam nele, no entanto ignoravam-se mutuamente. Era um mosaico de ensi- nos diversos que s6 se relacionavam exteriormente. Vimos que isto é muito distinto nas primeiras escolas cristiis. Toclos os ensinos estavam ali agrupados, se davam num mesmo lugar, € em consequéncia, estavam submetidos 2 uma mesma influéncia, a uma mesma direego moral. Era a que emanava da dou- trina cist, era a que formava as almas. A dispersio anterior sucedia, pois, uma unidade de ensino. No entanto o contacto entre os professores € os alu- nos era constante; de facto, esta permanéncia dle relagdes era 0 que caracteri- zava © convict, esta primeira forma de internato, Na verdade, esta concentra- cdo do ensino constitui uma inovago capital, que testemunha uma mudanga profunda vinda da concepgio que se tinha da natureza e do papel da cultura intelectual. As escolas monacais até ao renascimento carolingio ‘Vimos na Ultima licao o gérmen de que o nosso actual sistema de ensino so € 0 prolongamento, Ao lado das catedrais € nos mosteiros abritam-se escolas que se podem considerar como o primeiro embrido da nossa vida escolar. E tal como o gérmen contém jf, de forma rudimentar, as propriedades caractetisticas do ser vivo que dele deve sais, encontramos neste primeiro gérmen da nossa organizago pedagogica a origem de certas particularidades que distinguem a sua evolucio ulterior. De facto, dado que as escolas nasceram na Igreja, dado que sto obra da Igreja, explicamos sem dificuldade que foram na origem algo essencialmente religioso, que © espirito religioso predominou nelas; no entanto,