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Leitura e Escrita

no Processo de
Alfabetização
Leitura e Escrita

Responsável pelo Conteúdo:


Profa. Ms. Marianka Gonçalves

Revisão Textual:
Profa. Ms. Selma Aparecida Cesarin
Unidade Leitura e Escrita

Nesta unidade, trabalharemos os seguintes tópicos:

Thinkstock/Getty Images
• Introdução
• A relação entre leitura e escrita
• A importância da leitura e da escrita para a vida
• Princípios que devem nortear o ensino da leitura
e da escrita

O principal objetivo desta Unidade é compreender a relação entre leitura e escrita,


por que ler e escrever são capacidades muito importantes para a vida em sociedade,
e os princípios básicos que devem orientar o trabalho com leitura e escrita.

Nesta Unidade, refletiremos sobre a leitura e a escrita na Educação Infantil, na perspectiva do


letramento, a partir das discussões apresentadas por Baldi (2012), Pannuti (2012), Délia Lerner
(2007), Rosaura Soligo (2002) e Vygostky (1934).
Para isso, não se esqueça de acessar o link Materiais Didáticos, no qual encontrará o conteúdo
e as atividades desta Unidade.

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Unidade: Leitura e Escrita

Contextualização

Partindo do pressuposto de que a escola é o local privilegiado que prepara a criança para
viver no mundo letrado, concordamos com a necessidade de serem desenvolvidas práticas
pedagógicas que favoreçam a aprendizagem da leitura e da escrita para além da alfabetização,
ou seja, na perspectiva do letramento.
Nesta Unidade, portanto, você terá a oportunidade de entender em que se baseia essa
perspectiva, qual a relação entre leitura e escrita e quais os pressupostos que devem nortear o
ensino e a aprendizagem da leitura e da escrita, em contextos de alfabetização e letramento.
Para começar, sugerimos que assista ao vídeo indicado a seguir, no qual Emília Ferreiro, essa
importante especialista em alfabetização, fala sobre o que as crianças podem aprender sobre
leitura e escrita, desde cedo.

O vídeo está disponível no link


• https://www.youtube.com/watch?v=0YY7D5p97w4.

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Introdução

Nesta Unidade, falaremos sobre a relação entre leitura e escrita; veremos por que ler e
escrever são capacidades tão importantes para a vida em Sociedade e entraremos em contato
com alguns princípios que devem nortear o trabalho com a leitura e a escrita em contextos de
alfabetização e letramento1.

A relação entre leitura e escrita


O contato da criança com a leitura, desde o seu nascimento, favorece a aquisição da escrita
como código a ser decodificado e como linguagem escrita. O ambiente letrado ou o contato com
o ato da leitura, dos diferentes gêneros e suportes, faz com que a criança comece a se perguntar
sobre a escrita, como, por exemplo, sobre formatos, função e disposição das letras. E isso ajuda
o aluno a levantar hipóteses sobre o uso da linguagem escrita e a ler e escrever alfabeticamente.

Para saber mais sobre esse assunto, consulte o livro Psicogênese da Língua
Escrita, de Ferreiro e Teberosky.

Emilia Ferreiro, a estudiosa que revolucionou a alfabetização


A psicolinguista argentina desvendou os mecanismos pelos quais as crianças
aprendem a ler e escrever, o que levou os educadores a reverem radicalmente
seus métodos. Nenhum nome teve mais influência sobre a educação brasileira
nos últimos 30 anos do que o da psicolinguista argentina Emilia Ferreiro. A
divulgação de seus livros no Brasil, a partir de meados dos anos 1980, causou
um grande impacto sobre a concepção que se tinha do processo de alfabetização,
influenciando as próprias normas do governo para a área, expressas nos Parâmetros
Curriculares Nacionais. As obras de Emilia – Psicogênese da Língua Escrita é
a mais importante – não apresentam nenhum método pedagógico, mas revelam
os processos de aprendizado das crianças, levando a conclusões que puseram
em questão os métodos tradicionais de ensino da leitura e da escrita: “A história
da alfabetização pode ser dividida em antes e depois de Emilia Ferreiro”, diz a
educadora Telma Weisz, que foi aluna da psicolinguista.

Fonte: FERRARI, Márcio. Emília Ferreiro, a estudiosa que revolucionou a educação. Disponível em:
<http://revistaescola.abril.com.br/lingua-portuguesa/alfabetizacao-inicial/estudiosa-revolucionou-alfabetizacao-423543.shtml>.
Acesso em: 28 out. 2014.

1 Reflexões baseadas em Baldi (2012) e Pannuti (2012).

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Unidade: Leitura e Escrita

O contato da criança com muitos materiais escritos e com leitores e escritores favorece o seu
ingresso no mundo letrado. Mas, infelizmente, não é isso o que acontece na maioria dos lares,
o que torna necessária a adoção dessa função por parte da escola: criar ambientes letrados que
promovam o desenvolvimento das primeiras reflexões sobre a leitura e a escrita pelas crianças,
desde as séries iniciais.
Quando desafiamos uma criança, ela é capaz de interagir e responder ativamente ao desafio,
o que pode acontecer com a produção de texto, quando, por exemplo, antes de ser alfabetizada
a colocamos na posição de quem tem algo a dizer.
Conforme Baldi, ela pode, por exemplo:

[...] ditar textos a serem escritos por um adulto ou criança maior, como também
pode escrevê-los, dependendo do objetivo da proposta. Em qualquer dos casos,
a produção terá relação direta com a leitura, pela influência que as primeiras
histórias ouvidas ou lidas podem ter em seu processo de letramento ou de
apropriação da linguagem escrita. Nesse processo, a criança vai construindo
uma bagagem que a capacita à expressão e à comunicação e também o seu
repertório para a produção escrita. Pensemos, por exemplo, na criança que
diz, como se estivesse lendo, o texto de uma determinada história que ela tem
memorizada, de tanto lhe ser lida (BALDI, 2012, p.11).

É importante esclarecer que esses exemplos não corroboram a ideia de que quem lê com
frequência está mais propenso à escrita ou se tornará mais facilmente um bom escritor. Há
muitas variáveis que precisam ser consideradas e que vão além dos repertórios linguísticos e
dos conteúdos.
Acreditamos que somente quando o aluno se coloca na posição de escritor poderá recorrer
à leitura para buscar os recursos de que precisa para cumprir sua tarefa. Ou seja, somente ao se
deparar com o desafio de escrever é que o aluno se preocupará com, por exemplo, dar conta
das características do texto que irá produzir.
Entendemos ainda que ser um bom leitor não garante a apropriação das normas ortográficas
de uma língua, pois existem alunos que, apesar de bons leitores, cometem erros ortográficos.
Por isso, é necessário que se invista em trabalhos sistemáticos e de reflexão sobre as convenções
ortográficas para que aprendam sobre as regularidades e irregularidades da língua e conheçam
a escrita ortográfica correta.

Regularidades e Irregularidades da língua


A regularidade existe quando é possível prever a escrita de um termo sem nunca
tê-lo visto graças a normas que se aplicam a todos ou a muitos casos – como ocorre
com o uso do R em “carro”. Já os termos irregulares – definição de Artur Gomes
de Morais, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no livro Ortografia:
Ensinar e Aprender – têm sua escrita justificada apenas pela tradição do uso ou
pela origem das palavras. É o caso de “passear” e “casa” (…), e de outras mais,
como os casos a seguir:

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- Som de S: seguro, cidade, auxílio, cassino, piscina, cresça, giz, força e exceto;
- Som de G: girafa, jiló, geração e jeito;
- Som de Z: zebra, casa e exercício;
- Som de X: enxada e enchente;
- H inicial: hora, homem e hino;
- Com disputa entre E e I e O e U em sílabas átonas que não estão no
fim: violino (que pode ser confundida com veolino), seguro (siguro), bonito
(bunito) e tamborim (tamburim);
- Com disputa do L com o LH diante de certos ditongos: julho (que
pode ser confundida com julio), família (familha) e toalha (toália);
- Com alguns ditongos da escrita, que modificam a pronúncia: caixa
(que pode ser confundida com caxa), madeira (madera) e vassoura (vassora).

Fonte: Camila Monroe. Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/lingua-portuguesa/pratica-pedagogica/como-


ensinar-irregularidades-ortograficas-621825.shtml>. Acesso em: 28 out. 2014.

Assim sendo, destacamos nesta Disciplina a necessidade de serem desenvolvidas, em


ambientes de alfabetização e letramento, propostas de leitura para a formação de leitores
competentes, mas outras também de escrita para a formação de escritores competentes.
Emília Ferreiro (2010, apud BALDI, 2012, p.12) chama a atenção para o fato de que querer
promover a leitura significa pensar também na escrita, “à medida que produzir um texto pode
levar o aluno a compreender melhor a estrutura, a função, a força elocutória e a beleza dos
textos que outros produziram”.
Para concluir este item, destacamos que o ensino da leitura deve estar relacionado ao
da escrita, pois esta influencia aquela. Concordamos com Baldi (2012, p.12) para quem as
propostas de escrita podem ser utilizadas “não só para que os alunos aprendam a escrever ou
para ampliarem sua leitura, mas também para que adquiram conhecimentos em outras áreas,
como História e Ciências Naturais, por exemplo”.
Em síntese, leitura e escrita são capacidades que caminham juntas, uma ajuda a outra.
Delia Lerner nos que diz que:

[...] a leitura cumpre um papel fundamental na aprendizagem da escrita em


geral. A leitura assídua é condição necessária, embora não suficiente, para
aprender a escrever. Lerner exemplifica com a escrita de uma notícia, lembrando
que para escrevê-la é preciso ter lido antes esse tipo de texto, assim como é
indispensável recorrer a textos escritos, enquanto se escreve. Também sublinha
que é preciso, para aprender a escrever, “passar por várias situações de escrita,
tanto fora quanto dentro da escola”, concluindo que “aprendemos a escrever,

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Unidade: Leitura e Escrita

lendo, mas não somente lendo, pois, para aprender a escrever, é imprescindível
escrever muito, e com sentido. Mas, de forma inversa, podemos dizer que a
escrita é também uma condição necessária para o aprendizado da leitura, para
a formação do leitor (BALDI, 2012, p.12).

Delia Lerner
A pesquisadora argentina Delia Lerner trata das especificidades do ensino da escrita
em contexto de estudo nas diversas disciplinas escolares. No campo da pesquisa,
Delia comenta o trabalho que está desenvolvendo acerca da interdidática, no qual
analisa a leitura e a escrita como objetos de ensino e também como ferramentas
de aprendizagem de conteúdos de outras áreas.
Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/lingua-portuguesa/pratica-pedagogica/delia-lerner-fala-leitura-escrita-
contexto-estudo-497234.shtml>. Acesso em: 28 out. 2014.

A importância da leitura e da escrita para a vida


Ao longo da nossa história, o valor que atribuímos à leitura e à escrita foi se modificando.
Hoje, concordamos que saber ler e escrever são capacidades básicas e fundamentais para a vida
em sociedade. Mas isso não foi sempre assim.
Saber viver em sociedade não se restringe ao enfrentamento de desafios, mas também à
construção de conhecimentos para fazer dessa sociedade um local justo para se viver.
Essa ideia nos aproxima do que seja uma educação para a cidadania:

Terezinha Rios observa que a educação, muitas vezes traz o sentido de ascensão.
A distância entre o saber e o não saber teria o poder de nos elevar, nos retirar
de um lugar inferior e nos alçar a outro patamar. A autora, porém, questiona
essa ideia, ao afirmar que o exercício de aprender é contínuo, não acaba nunca.
Sempre podemos aprender mais e, assim, mudar mais uma vez de lugar. Nesse
sentido, seria melhor considerarmos cada saber como um passo adiante no
mesmo nível em que estamos um passo adiante como experiência diferente.
Um passo adiante em um movimento contínuo espiral (PANNUTI, 2012, p.22).

Partindo desse princípio, destacamos o compromisso dos profissionais da educação para


com seus alunos de modo a favorecer o desenvolvimento das capacidades de leitura e de escrita
como ferramentas para a inserção social e o exercício da cidadania.
Saber ler e escrever dá aos sujeitos condições de terem acesso à cultura, a diversas fontes
de informação, de conhecimentos científicos etc. Além disso, possibilita a interação entre as
pessoas e a resolução de questões práticas no dia a dia, como anotar um endereço, consultar
um mapa, seguir as instruções de uma bula de remédio etc.

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Aqui, não entendemos a leitura como decodificação, mas como a capacidade de atribuir
sentido. Concordamos com Délia Lerner (2007, p.72) para quem “ler é entrar em outros mundos
possíveis. É indagar a realidade para compreendê-la melhor, é se distanciar do texto e assumir
uma postura crítica frente ao que se diz e ao que se quer dizer, é tirar carta de cidadania no
mundo da cultura escrita”.
Ou seja, por meio da leitura, o sujeito se posiciona criticamente sobre o que lê, apropria-se
dos bens culturais, tem acesso à literatura, desenvolve sua sensibilidade etc.
Por isso, não podemos nos limitar ao ensino dos aspectos formais da leitura, como a
decodificação. Precisamos ajudar os alunos a usá-la de forma proficiente, sabendo da sua
importância.
Os professores – sejam eles de qualquer disciplina, uma vez que a escrita e a leitura
permeiam todas as áreas – devem estimular os alunos a compreender textos,
interpretá-los e levantar hipóteses sobre eles. Além disso, devem incentivá-los a
usar a criatividade e a desenvolver seus próprios textos, explorando os diferentes
gêneros e funções da escrita e da leitura. Com o uso sistemático da leitura e da
escrita, os alunos poderão se apropriar cada vez mais desse importante recurso
e desfrutar plenamente das possibilidades que eles oferecem.
Essa precisa ser uma responsabilidade constante da escola e dos professores que
nela atuam. Não podemos perder de vista que nossa função vai muito além de
ensinar letras e números, e também não se restringe ao ano letivo que passamos
com nossos alunos.
As experiências vividas nesse período transformam-se em memórias que
acompanharão as crianças por toda sua vida. Daí a importância de cuidar
para que elas sejam muito significativas para todos os envolvidos no processo
(PANNUTI, 2012, p.29).

Princípios que devem nortear o ensino da leitura e da escrita


Para que as crianças aprendam a usar a leitura e a escrita para a vida, precisamos desenvolver
na escola propostas significativas e que contribuam para a constituição de sujeitos capazes de
enfrentar os diversos problemas com os quais nos deparamos no cotidiano. O que exige uma
mudança de paradigma e a busca por novas experiências, novos caminhos e pressupostos.
Nossa aposta está em enxergar o potencial das crianças, que têm saberes, antes mesmo
de entrarem na escola, e abandonar a postura de detentor do saber ou daquele que precisa
controlar o que acontece na sala de aula, atuando como parceiro dos alunos no processo de
ensino e de aprendizagem. Para tanto, é preciso investir na investigação ou no mapeamento
dos conhecimentos que os alunos trazem para a escola de modo a construírem novos saberes.
Conforme Larrosa:
Se a experiência é o que nos acontece e se o saber da experiência tem a
ver com a elaboração do sentido ou do sem-sentido do que nos acontece,
trata-se de um saber finito, ligado à existência de um indivíduo ou de uma

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Unidade: Leitura e Escrita

comunidade humana particular; ou, de um modo ainda mais explícito, trata-se


de um saber que revela ao homem concreto e singular, entendido individual
ou coletivamente, o sentido ou o sem-sentido de sua própria existência, de sua
própria finitude. Por isso, o saber da experiência é um saber particular, subjetivo,
relativo, contingente, pessoal. Se a experiência não é o que acontece, mas o que
nos acontece, duas pessoas, ainda que enfrentem o mesmo acontecimento, não
fazem a mesma experiência. O acontecimento é comum, mas a experiência é
para cada qual sua, singular e de alguma maneira impossível de ser repetida. O
saber da experiência é um saber que não pode separar-se do indivíduo concreto
em quem encarna. Não está, como o conhecimento científico, fora de nós, mas
somente tem sentido no modo como configura uma personalidade, um caráter,
uma sensibilidade ou, em definitivo, uma forma humana singular de estar no
mundo, que é, por sua vez, uma ética (um modo de conduzir-se) e uma estética
(um estilo). Por isso, também o saber da experiência não pode beneficiar-se de
qualquer alforria, quer dizer, ninguém pode aprender da experiência de outro,
a menos que essa experiência seja de algum modo revivida e tornada própria
(LARROSA, 2002, apud PANNUTI, 2012, p.32).

A partir dessa citação, destacamos a importância da interação que ocorre na escola. É


interagindo com o outro que as crianças atribuem novos sentidos às suas experiências, integram
diferentes instâncias (casa/escola; singular/coletivo; conhecimentos/vivências) e constroem
significados comuns ao grupo a que fazem parte.
Segundo Pannuti (2012, p.32), a socialização está relacionada à incorporação e transformação
das normas que regem a convivência social e que são adquiridas na interação com o outro.
Sabendo disso e considerando que as aprendizagens que ocorrem na escola e fora dela têm
naturezas distintas, já que cada uma responde a intencionalidades diferentes, recorremos a Vygotsky
(1994) para destacar a importância da socialização no processo de ensino e de aprendizagem.

Lev Vygotsky, o teórico do ensino como processo social


A obra do psicólogo ressalta o papel da escola no desenvolvimento mental das
crianças e é uma das mais estudadas pela pedagogia contemporânea. O psicólogo
bielo-russo Lev Vygotsky (1896-1934) morreu há mais de 70 anos, mas sua
obra ainda está em pleno processo de descoberta e debate em vários pontos do
mundo, incluindo o Brasil. “Ele foi um pensador complexo e tocou em muitos
pontos nevrálgicos da pedagogia contemporânea”, diz Teresa Rego, professora
da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Ela ressalta, como
exemplo, os pontos de contato entre os estudos de Vygotsky sobre a linguagem
escrita e o trabalho da argentina Emilia Ferreiro, a mais influente dos educadores
vivos. A parte mais conhecida da extensa obra produzida por Vygotsky, em
seu curto tempo de vida, converge para o tema da criação da cultura. Aos
educadores interessa em particular os estudos sobre desenvolvimento intelectual.

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Vygotsky atribuía um papel preponderante às relações sociais nesse processo,
tanto que a corrente pedagógica que se originou de seu pensamento é chamada
de socioconstrutivismo ou sociointeracionismo. Surge da ênfase no social uma
oposição teórica em relação ao biólogo suíço Jean Piaget (1896-1980), que também
se dedicou ao tema da evolução da capacidade de aquisição de conhecimento
pelo ser humano e chegou a conclusões que atribuem bem mais importância aos
processos internos do que aos interpessoais. Vygotsky que, embora discordasse
de Piaget, admirava seu trabalho, publicou críticas ao suíço em 1932. Piaget só
tomaria contato com o trabalho dele nos anos 1960 e lamentou não ter podido
conhecer Vygotsky em vida. Muitos estudiosos acreditam que é possível conciliar
as obras dos dois.
Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/formacao/lev-vygotsky-teorico-423354.shtml>.

Para esse autor, o desenvolvimento do homem ocorre quando entra em contato com o outro.
De acordo com Vygotsky (1934), a aprendizagem das crianças é um processo que começa antes
mesmo de elas entrarem na escola.
Nesse sentido, toda situação de aprendizado que elas vivenciam na esfera escolar tem
uma história prévia. Isso significa que desde a alfabetização é necessário mapear e tomar por
base o conhecimento prévio da criança como ponto de partida para que se instaure de modo
significativo o processo de ensino e de aprendizagem.
Nessa perspectiva, o professor não deve se limitar aos níveis de desenvolvimento da criança.
Ele precisa “descobrir as relações reais entre o processo de desenvolvimento e a capacidade de
aprendizagem” (VYGOTSKY, 1989, p. 111).
Partindo dessa premissa foi que Vygotsky desenvolveu o conceito de Zona Proximal de
Desenvolvimento (ZPD), concebido por esse autor como:

[...] a distância entre o nível de Desenvolvimento Real, que se costuma determinar


através da solução independente de problemas, e o nível de desenvolvimento
potencial, determinado através da solução de problemas sob a orientação de
um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes (VYGOTSKY,
1989, p. 112).

Para chegar a esse conceito, Vygotsky identificou dois níveis de desenvolvimento: o real –
que indica o que a criança consegue fazer com autonomia, porque já houve internalização dos
conceitos em foco – e o proximal – que revela o que a criança consegue fazer com o auxílio de
um par mais desenvolvido.
É com base nesses pressupostos que ressaltamos a importância da interação das crianças
com outras pessoas, familiares, colegas e os próprios profissionais da educação, como parceiros
que favorecerão o seu desenvolvimento. Quando uma criança interage com uma pessoa
mais desenvolvida que ela, consegue realizar ações que, certamente, não conseguiria se
estivesse sozinha.

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Unidade: Leitura e Escrita

De acordo com Pannuti:


Ao considerarmos a participação do social na aprendizagem da leitura e escrita,
chegamos ao letramento como uma compreensão mais ampla dessa apropriação.
O letramento se define como o processo cognitivo-criativo de compreensão do
mundo. Esse processo não se limita a aprender a ler e escrever. Mas pressupõe
um uso amplo e autônomo das letras. Nesse sentido, ser letrado é mais do que
ser alfabetizado. Essa ampliação do conceito de alfabetização decorre do fato de
que as sociedades do mundo inteiro estão cada vez mais centradas na escrita.
Consequentemente, ser alfabetizado – isto é, saber ler e escrever – tem se
revelado condição insuficiente para responder adequadamente às demandas
contemporâneas. É preciso ir além da simples aquisição do código escrito, é
preciso fazer uso da leitura e da escrita no cotidiano, apropriar-se da função
social dessas duas práticas: é preciso letrar-se.
Além disso, a cada momento, multiplicam-se as demandas por práticas de
leitura e de escrita, não só na chamada cultura do papel, mas também na nova
cultura da tela, como pode ser chamado o conhecimento mobilizado pelos
meios eletrônicos. Por isso, se uma criança sabe ler, mas não é capaz de ler
um livro, um jornal, ou se sabe escrever palavras e frases, mas não é capaz de
escrever uma carta, ela pode ser considerada alfabetizada, mas não letrada. Em
sociedades grafocêntricas como a nossa, as crianças de diferentes classes sociais
convivem com a escrita e com práticas de leitura e escrita cotidianamente, o que
significa que vivem em ambientes de letramento (PANNUTI, 2012, p.34).

Para aprofundar seus estudos sobre o conceito de alfabetização e letramento, leia


o artigo Letramento e Alfabetização: as muitas facetas, da autora Magda
Becker Soares, disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n25/n25a01.pdf>.

Para começar, sugerimos que leia a resenha a seguir:

Letramento e Alfabetização: as muitas facetas


Letramento é um termo cada vez mais corrente no Brasil. Mas em que difere
de alfabetização? Nesse artigo [Letramento e Alfabetização: as muitas facetas],
a professora Magda Soares defende que, embora sejam conceitos diferentes,
letramento e alfabetização são dois processos que devem ser trabalhados
simultaneamente na escola.
Primeiramente, a autora explica que esses dois conceitos apresentam
diferenças fundamentais, pois estão relacionados com concepções distintas
de ensino de língua.
Letramento aparece sempre ligado à compreensão de leitura e escrita como
práticas sociais, que privilegia a visão de língua que usamos a todo instante
quando nos comunicamos. Alfabetização está ligada à concepção de escrita

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como sistema ordenado pelas regras gramaticais, ou mesmo de escrita
como código, que é preciso decifrar.
A autora afirma que, no Brasil, há um progressivo uso do conceito de letramento
para denominar os processos que levam as pessoas a terem um domínio
adequado da leitura e da escrita. Como exemplo, ela cita as matérias publicadas
na mídia, nas quais se considera que ser alfabetizado é mais do que saber ler e
escrever um simples bilhete, condição até algum tempo tida como satisfatória
para tirar uma pessoa da lista dos analfabetos.
Apesar de considerar essas diferenças, a autora defende a indissociabilidade
de alfabetização e letramento. Ou seja, a escola deve trabalhar com os dois
processos simultaneamente para evitar o fracasso escolar. Não basta apenas
alfabetizar, isto é, ensinar os aspectos da língua como código, também é preciso
trabalhar a língua em seus usos sociais.
Ela explica que, anteriormente, o fracasso escolar estava relacionado ao fato de
a escola privilegiar apenas o processo de alfabetização. O ensino de língua tinha
como base a relação entre o sistema fonológico e o gráfico, ou seja, entre os
sons que pronunciamos e as letras que usamos para registrar esses sons.
Por outro lado, atualmente, muitas vezes o ensino da língua como sistema
fonológico e gráfico é deixado de lado, causando da mesma forma o fracasso
escolar, ainda que por motivos diferentes.

Fonte: <https://www.escrevendoofuturo.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=173:letramento-e-alfabetizacao-as-
muitas-facetas&catid=23:colecao&Itemid=33>. Acesso em: 29 out. 2014.

Isso significa que as crianças já nascem em um mundo letrado e estão o tempo todo em contato
com a leitura e a escrita, o que favorece o reconhecimento das práticas em que ocorrem seus usos.
Ocorre, no entanto, conforme Soligo, que as crianças que pertencem a camadas desfavorecidas
“começam tardiamente a pensar sobre a escrita e desenvolvem procedimentos de análise desse
objeto de conhecimento muito depois das crianças de classe média e alta” (SOLIGO, 2002).
Por isso, o ingresso dessas crianças na escola pode ser uma oportunidade para que entrem
em contato não só com os materiais escritos como também com as práticas sociais de uso da
leitura e da escrita.
Ainda conforme essa autora:

Quando a escola não valoriza os saberes que os alunos pobres trazem, fruto
de sua experiência anterior, faz com que eles se sintam entrando em um novo
mundo, estranho e hostil. Por não poderem corresponder ao que os professores
esperam deles e, percebendo que frustram as expectativas da escola, é de se
esperar que acabem sentindo-se incapazes. Respeitar e, de fato, considerar
as diferenças, valorizar os saberes que os alunos possuem e criar um contexto
escolar favorável à aprendizagem não são apenas valores de natureza ética:
são a base de um trabalho pedagógico comprometido com o sucesso das
aprendizagens de todos (SOLIGO, 2002, p. 8).

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Unidade: Leitura e Escrita

Assim, destacamos a necessidade de a escola favorecer o contato, seja por meio da leitura
seja por meio da escrita, dos gêneros textuais que circulam nas diversas esferas e nos diferentes
suportes. Mas esse contato deve se dar sempre pelo uso ou pela vivência que deve proporcionar
ao aluno novas aprendizagens.

O conceito de gênero textual e seu uso em aula


[...] Como nos ensina Bakhtin, gêneros textuais definem-se principalmente por
sua função social. São textos que se realizam por uma (ou mais de uma) razão
determinada em uma situação comunicativa (um contexto) para promover uma
interação específica. Trata-se de unidades definidas por seus conteúdos, suas
propriedades funcionais, estilo e composição organizados em razão do objetivo
que cumprem na situação comunicativa.
Explicando melhor: isso significa que, a cada vez produzo um texto, seleciono um
gênero...
... em função daquilo que desejo comunicar;
... em função do efeito que desejo produzir em meu interlocutor;
... em função da ação que desejo produzir no meio em que me inscrevo.
Isso vale das trocas mais prosaicas do cotidiano, nos bilhetes registrados em post-its
colados nas geladeiras, passando pelas mensagens eletrônicas, entrevistas (orais e
escritas), bulas de remédio, orações, cordéis, dissertações, romances, piadas etc.
Uma das principais características dos gêneros é o fato de serem enunciados que
apresentam relativa estabilidade. É esse aspecto que permite, justamente, que
sejam compreendidos.
Um exemplo extremo disso está no gênero “bula de remédio”. Nos idos anos
1980, a linguista francesa Sophie Moirand mostrou como a estabilidade desse
tipo de enunciado permitiria que qualquer falante do francês sem conhecimento
nenhum de grego pudesse localizar informações (nome comercial, princípio ativo
e posologia, por exemplo).

Fonte: FALEIROS, Rita J. O conceito de gênero textual e seu uso em aula. Disponível em: <http://revistaescola.abril.
com.br/fundamental-2/conceito-genero-textual-seu-uso-aula-735561.shtml?page=2>. Acesso em: 29 out. 2014.

Retomando as contribuições de Vygotsky, importa considerarmos o papel do professor nesse


processo, que deve atuar como mediador, mapeando os conhecimentos prévios das crianças,
considerando o desenvolvimento real delas, sem, no entanto, limitar-se a esse nível.
Conforme Vygotsky (1989, p.95), à medida que ultrapasse os ciclos de desenvolvimento
já completados, o professor poderá criar situações e oferecer novos instrumentos às crianças,
encaminhando-as ao desenvolvimento de uma aprendizagem significativa. Esta, segundo
Pannuti, é significada pelo aluno, conforme suas experiências.

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E, para ser mediador, o professor precisa:

[...] ser leitor de processos de pensamento, ser pesquisador dos arranjos que
cada um faz internamente no exercício de construção de conhecimento, saber
interpretar o que estão querendo aprender e, para isso, precisa ser investigador,
instrumentalizando-se para atuar de forma a apoiar as descobertas de seus
alunos. É importante que o professor tome consciência de suas dificuldades e
possibilidades, pois assim pode desenvolver os conhecimentos e habilidades
necessárias para o exercício de seu trabalho (PANNUTI, 2012, p. 37-8).

Nas próximas Unidades, discutiremos os conhecimentos didáticos necessários ao ensino e


a aprendizagem da leitura e da escrita, em um contexto de alfabetização e letramento, ou
seja, em um contexto em que preservemos o sentido social da leitura e da escrita.
Para complementar seus estudos sobre o que apresentamos nesta Unidade, indicamos a
leitura do capítulo 1, do livro Interações: encontros de leitura e escrita, disponível em
<http://www.blucher.com.br/editor/amostra/06736.pdf>. A referência completa desse livro
você encontra a seguir.

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Unidade: Leitura e Escrita

Material Complementar

Magda Soares – Alfabetização e Letramento.


Neste vídeo, a professora Magda Soares fala sobre situações de aprendizagem
que colocam a criança num processo de alfabetização e letramento. Além disso,
explica o que seja o letramento. O vídeo está disponível em:
• <https://www.youtube.com/watch?v=-YP-7l6oAZM>.

Livro 1: PICCOLI, L.; CAMINI, P. Práticas pedagógicas em Alfabetização:


espaço, tempo e corporeidade. Erechim: Edelbra, 2012.
As autoras desse livro discutem a relação entre teoria e prática e contribuem com
a formação continuada, apresentando propostas de trabalho voltadas para as
práticas de oralidade, leitura e escrita, para a funcionalidade da escrita, para os
aspectos linguísticos da alfabetização e para a avaliação.

Livro 2: VERSIANI, D. B.; YUNES, E.; CARVALHO, G. Manual de reflexões


sobre boas práticas de leitura. Rio de Janeiro: UNESP, 2012.
Este livro é o desdobramento de cerca de 5.800 projetos de leitura no Brasil para
entender as propostas de formação de leitores no país, desde o início do século.
Os seus autores também procuram apresentar o que seria uma boa prática de
leitura, considerando os diferentes espaços em que ela pode acontecer (escola,
família e biblioteca, por exemplo).

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Referências

BALDI, Elizabeth. Escrita nas séries iniciais. Porto Alegre: Projeto, 2012.

LERNER, Délia. Ler e escrever na escola: o real, o possível e o necessário. Porto Alegre,
Artmed, 2007.

PANNUTI, Daniela. Interações: encontros de leitura e escrita. Josca Ailine Baroukh (coord.)
São Paulo: Blucher, 2012. (Coleção InterAções).

SOLIGO, Rosaura. Letramento e Alfabetização. Parte do Programa de Formação de


Professores Alfabetizadores (PROFA). MEC/SEF, 2002.

VYGOTSKY, L. S. (1934). A Formação social da Mente: o desenvolvimento dos processos


psicológicos superiores. São Paulo: Martins Fontes, 1989, p. 25-49.

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Unidade: Leitura e Escrita

Anotações

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