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DO CONCURSO DA EDUCAÇÃO

ou de pedras que dão leite: sobre mitos e falácias

A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer.


Mario Quintana

A
“verdade” do Concurso da Educação, realizado no último dia 25 de
outubro, cujos objetivos divulgados eram o de “suprir o déficit de

Manifesto em defesa da educação e Contra o Concurso Público realizado


professores”, que atualmente é de cerca de mais de 4 mil, e “qualificar a
educação em Goiás”, para infelicidade e indignação dos goianos, “esqueceu de
acontecer”. Esqueceu, nesse caso, deliberadamente. Isso, para o desespero dos
mais de 24 mil candidatos ao cargo de professor, lesados por um concurso de
fachada. Isso, principalmente, para o infortúnio das gerações (presentes e futuras)
de goianos que continuaram a formar-se nos escombros de uma educação que
desaba a cada dia. Escombros, aqui, não é força de expressão. Em Goiás, a despeito
de toda falaciosa prioridade do Governo em relação à educação, ainda existem, por
exemplo, muitas escolas que foram construídas com placas de cimento, em caráter
provisório, no final da década de 1980. O problema é que não são prédios
descentes, convenientes e adequados a uma educação de qualidade? Sim, também.
Mas, pior, eles ameaçam a vida de professores e alunos! Prova definitiva da
priorização da educação: há escolas sendo interditadas pela Defesa Civil, por risco
de desabamento.
Não estão convencidos da priorização da educação em Goiás? Não? Isso,
talvez, por que não conheçam as boas medidas tomadas pela Secretaria de
Educação para sanar o problema da falta de professores nas escolas, para substituir
a vergonhosa e precária prática de contratação de temporários, por exemplo. Para
tanto, na antevéspera das eleições, nossos comprometidos responsáveis pela
gestão da educação decidiram honrar o compromisso feito, em meados do ano
passado, de realizar concurso público. Parabenizamo-los.
Ocorre que para a surpresa de todos, o concurso foi um fiasco. Para a
surpresa de todos? Surpresa?! Ora, ainda hoje candidatos do último concurso lutam
na justiça para tomarem posse. Enquanto nas escolas faltam professores, nossa
secretária da educação, ilustríssima senhora Milca Severino, no lugar de nomear os
candidatos aprovados em concurso público, continua contratando temporários. Daí
vê-se que todos fomos surpreendidos com um concurso que claramente visava, tão
somente, de um lado, a atender às exigências da sociedade, e de outro, às
demandas legais, impostas pelo Ministério Público, por exemplo. Isso verdade se
“nos fartássemos como gado”, como dizia 0 filósofo grego Parmênides de Eléia.
Vamos aos fatos.
O concurso não foi um fiasco. Foi, sim, uma mentira. Foi, desde sempre,
meticulosamente planejado para que pouquíssimos candidatos fossem aprovados,
vide o altíssimo nível de exigência e provas completamente incompatíveis com o
delimitado pelo edital. Pasmem: em Goiás, dos mais de 24 mil licenciados e
candidatos no concurso, apenas cerca de 3% (três por cento!) estão aptos ao
exercício do magistério no ensino médio, isso, é claro, segundo o concurso da Srª
Milca. Fechemos, pois, todas as instituições que atualmente formam professores
em Goiás, elas de nada servem – a não ser, é claro, para formar professores pró-
labore.
A bem da verdade, como pedras não dão leite, não é fato que apenas esta

Manifesto em defesa da educação e Contra o Concurso Público realizado


ínfima parcela dos candidatos está apta para os cargos de professor. Ademais, para
suprir o déficit, quem a Secretaria vai contratar? Frise-se: precariamente? Já que não
há professores qualificados, importar-se-á, então, professores?
O discurso da “excelência”, a exigência de professores altamente
qualificados (o que não somos contra), não contradiz veementemente um edital
que sequer exige que professor de matemática seja formado em matemática? Isso
vale para todas as áreas, cumpre ressaltar.
Desejou-se, então, o melhor para a educação? Melhor em que sentido? No
sentido “econômico” e “politiqueiro”? Não é difícil perceber que nesse sentido os
atuais contratos especiais cumprem um papel muito importante, representando um
impacto menos oneroso aos cofres públicos. Mas não, não vamos nos adiantar com
respostas devidas não por nós, mas pela Secretaria de Educação, que sequer
informou no edital o número de vagas no pleito.
Diante essa realidade, convocamos a sociedade goiana em geral, e todos os
envolvidos e comprometidos com o projeto de uma educação verdadeiramente de
qualidade em Goiás, em particular, a unirem-se aos candidatos do concurso da
educação para a discussão das condições em que ele se realizou e, especialmente,
pela discussão de seu desastroso resultado. Conclamamos os Delegados da
Conferência Estadual de Educação à exigirem da Secretaria explicações e o seu
comprometimento formal com a realização de um novo e imediato concurso
público para a educação.
Que “os frutos do cerrado” sejam verdadeiros!

Goiânia, 16 de novembro de 2009.

Comissão de Candidatos do Concurso

Convidamos para Audiência Pública Sobre o Concurso


Data: 24/11/2009, às 18:30h
Local: Assembléia Legislativa do estado de Goiás