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MATERIAL DIDÁTICO – DA CONCEPÇÃO À EXPERIMENTAÇÃO:

ESTUDO DE CASO SOBRE “CASA DE MÃO PARA DESENHO CEGO”

Joelma Hemenegilda Sena1 - UFMG

Grupo de Trabalho em Ensino da Arte e Tecnologias: GT-07

Resumo
O presente artigo aborda o uso de material didático-pedagógico para o ensino/aprendizagem em Artes
Visuais a partir do relato desde a concepção e confecção do material até as experimentações ocorridas
com alunos da Disciplina Laboratório de Licenciatura II da graduação em Artes Visuais da Escola de
Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais e com alunos da educação básica: quinto ano da
Escola Municipal Wladmir de Paula Gomes e nono ano e Projeto Entrelaçando da Escola Municipal
Lourenço de Oliveira, na cidade de Belo Horizonte. O material foi desenvolvido para trabalhar o
desenho cego, técnica amplamente utilizada para melhorar a percepção espaço-visual e conferir maior
fluidez ao traço dos participantes. A partir da prática foi possível compreender que é fundamental
conhecer o perfil do público a quem se destina o material didático quando da sua concepção para que
os objetivos estabelecidos sejam alcançados de forma eficiente.
Palavras-chave: Ensino/aprendizagem em Artes Visuais. Material didático-pedagógico. Desenho
Cego.

Introdução
Quando se fala em material didático a imagem que vem à mente em primeiro
momento é, quase sempre, de um livro, mas o conceito de material didático é muito mais
abrangente. No geral, considera-se didático todo material cujo intuito seja propor experiências
que auxiliem no processo de ensino/aprendizagem.
No campo das Artes Visuais, Loyola (2016) apresenta um entendimento mais
subjetivo acerca do material didático, definindo-o como “conjunto de possibilidades de
pensamentos que levem à reflexão do que seja ensinar-aprender Arte e à produção
significativa de outros materiais-ações-ideias adequados ao contexto de cada escola-
ambiente” (p.16).
Os estudos sobre materiais didático-pedagógicos específicos para ensino/aprendizado
em Artes Visuais ainda são muito incipientes. No entanto, as pesquisas existentes apontam
para a relevância da figura do professor enquanto propositor de experiências e mediador do
processo que estimule a aprendizagem. Loyola (2016) destaca a importância do ser professor-
artista:

1
Graduanda na habilitação de Licenciatura em Artes Visuais da Escola de Belas Artes da Universidade Federal
de Minas Gerais. E-mail: jo_sena@msn.com

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Nessa perspectiva, é fundamental que o Professor seja uma pessoa envolvida
com arte, que seja capaz de provocar estímulos e não apenas cumprir tarefas
e distribuir atividades para os alunos. Quanto maior o envolvimento estético
do Professor com a arte, maiores serão as oportunidades de pensar e propor
experiências que estimulem nos alunos suas habilidades de criação e de
senso crítico. (LOYOLA, 2016, p.14-15)

Segundo Loyola (2016), os materiais devem ser pensados de acordo com o perfil do
público a que se destina, pois diferentes grupos possuem diferentes vivências bem como
diferentes demandas e, portanto, o que instiga determinado grupo pode não se mostrar tão
atraente para outro. Por isso, ressalta Loyola (2016), ninguém melhor que o professor para
propor materiais que dialoguem com a realidade de cada grupo e, ao mesmo tempo,
favoreçam o processo de aprendizagem. Segundo Loyola (2016),

a concepção de materiais didático-pedagógicos, portanto, envolve pesquisa


acerca da expressão artística, implica em reflexão estética. A estética lida
com critérios de percepção e julgamento dos valores sensíveis contidos num
objeto de arte. Além das questões formais e materiais, envolve reflexões
acerca da ideia de criação e do conceito do que seja uma obra de arte, da
temporalidade da sua produção, das proposições conceituais que a obra traz
etc. (LOYOLA, 2016, p.15)

O curso de Graduação em Artes Visuais da Escola de Belas Artes da UFMG, com


vistas a estimular essa capacidade de proposição criativa dos futuros professores de Artes
Visuais, oferta na matriz curricular do curso, na modalidade Licenciatura, as disciplinas de
Laboratório de Licenciatura I e II que promovem a pesquisa e discussão acerca de materiais
didáticos e suas possibilidades, a elaboração de projetos de materiais como recursos didático-
pedagógicos para o ensino/aprendizagem de Artes Visuais e o desenvolvimento do
pensamento artístico e crítico.
Essas disciplinas culminam em oficinas realizadas em escolas de educação básica do
município de Belo Horizonte e região metropolitana para experimentação dos materiais
didático-pedagógicos desenvolvidos no decorrer de dois semestres. Como resultado dessas
disciplinas criei um material chamado de “Casa de Mão para Desenho Cego” o qual será
apresentado a seguir.
Considerando que o público da oficina de experimentação do material era
desconhecido e, ainda, a importância de se conhecer o perfil dos alunos para conceber um
material didático-pedagógico adequado, o objeto foi pensado tendo por base uma turma de

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quinto ano – faixa etária entre nove e onze anos – da Escola Municipal Wladmir de Paula
Gomes, localizada no município de Belo Horizonte/MG, turma por mim acompanhada
durante o estágio curricular obrigatório.

O projeto e o desenho cego


A ideia surgiu após uma aula dada pela professora de Arte da Escola Municipal
Wladmir de Paula Gomes na qual foi apresentado aos alunos o artista espanhol Joan Miró
(1893-1983). Na ocasião, os alunos puderam conhecer um pouco da biografia do pintor e
algumas obras do artista e, em seguida, foram convidados a fazerem em seus cadernos
desenhos livres inspirados na obra do artista.
É muito comum no decurso das aulas de Artes Visuais que os alunos digam ao
professor que não sabem desenhar quando este lhes pede que façam um desenho. Alguns
discentes mais corajosos se lançam à experiência, outros, porém, se veem bloqueados e não
conseguem produzir, isso porque durante anos esteve introjetado no inconsciente popular que
saber desenhar é um dom e, portanto, somente os indivíduos que nasceram com esta
habilidade inata poderiam se aventurar no mundo dos desenhos e da arte. Nem todos sabem,
no entanto, que o desenho, assim como várias outras atividades cotidianas, se aprimora com a
prática.
Artistas reconhecidos mundialmente tiveram, antes de atingir o auge de suas carreiras,
o desenho como desafio. Segundo biografia do artista espanhol Joan Miró, o artista não lidava
bem com as formas, motivo pelo qual Francisco Gali, então diretor da Academia de Artes de
Barcelona, estimulou o artista à prática para aprimorar seu trabalho. Conforme Lopez (2008),

[...] Gali advirtió pronto que su nuevo alumno poseía grandes dotes para el
color, pero que su dominio de las formas era muy deficiente. Para remediarlo
obligó a Miró a tocar a ciegas los objetos que luego reproducía en el papel.
Este original método de dibujo - al tacto - dejó una profunda huella en Miró,
ya que no solo le familiarizó con el volumen, las texturas y las formas, sino
que también fijó su fascinación por los accidentes de las superfícies,
evidente también en sus desnudos y retratos (LOPEZ, 2008, p.8).

Existem muitas formas de se desenvolver a faculdade de desenhar, uma delas é o


desenho cego – técnica de desenho de observação em que o desenho é produzido sem olhar
para o papel. Esta técnica envolve observação atenta e contínua do que se pretende desenhar
do início ao fim. Não olhar para o suporte implica, necessariamente, em evitar julgamentos do

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que se está desenhando, o que leva ao rompimento com os pré-conceitos acerca do certo e do
errado. O objetivo deste tipo de exercício é treinar a percepção espaço-visual, o olhar e sua
importância, o que culmina em movimentos mais fluidos e traços mais espontâneos.
Para além de ser uma excelente técnica para melhorar o desenho, o desenho cego é,
sem dúvidas, ainda melhor para lapidar a forma como os indivíduos passam a ver o mundo.
Hoje, atarefadas, raramente as pessoas observam algo com vagar, é sempre uma visão
superficial de tudo buscando apreender o máximo de informações sem, no entanto, se ater à
essência de nada.
Assim, considerando o prévio conhecimento dos alunos sobre a trajetória de Miró que
precisou recorrer às técnicas de desenho para melhorar sua percepção das formas e,
considerando também esta dimensão mais subjetiva do desenho cego, o material didático foi
desenvolvido.

A “Casa de mão”

Fig. 1: Vista Interna da estrutura do objeto – Foto: Fabiana Soares da Silva

A “Casa de Mão para Desenho Cego” é um objeto concebido para trabalhar a técnica
de desenho cego. A estrutura (fig. 1), feita com com canos e conexões de PVC e coberta por

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tecido, tem a função de cobrir a mão que sustenta o lápis sobre o papel para que não seja
possível ver o desenho produzido enquanto se observa atentamente o modelo/objeto retratado.
A proposta trabalha o sentido da visão buscando no olhar e na observação o estímulo para
soltar e dar mais fluidez ao traço.
O objeto pode ser produzido com materiais diversos, o importante é que se forme uma
estrutura de altura suficiente, coberta por material maleável e opaco, que possibilite a inserção
da mão por baixo da cobertura de modo que a mão possa deslizar sobre o papel fazendo traços
com o lápis.
A escolha do objeto para trabalhar a técnica está ligada ao aspecto lúdico e até
misterioso que o material traz em seu cerne. Aguçando a curiosidade que é um gatilho para o
aprendizado, o material faz com que o ato de desenhar seja divertido, sem cobranças, com
leveza e em um ambiente de descontração, o que leva o participante a se abrir para a
experiência da linha.
Esta proposta dialoga com a obra de Joan Miró que, conforme já mencionado, utilizou
o desenho ao tato para melhorar sua percepção de formas. O diálogo com o artista diz sobre a
importância da técnica e da prática, e da importância de se utilizar os sentidos para trabalhar
artes.

Metodologia inicialmente proposta


O projeto foi desenvolvido dentro de uma abordagem humanista considerando o papel
do professor de criar condições para que o aluno aprenda a partir de sua experiência. Para
realização da experiência seriam necessárias carteiras e cadeiras em número igual ao de
alunos, quatro folhas de papel A4 e um lápis por aluno.
O material foi idealizado para utilização no decorrer de uma hora aula. Inicialmente a
ideia era que os alunos trabalhassem em duplas e desenhassem uns aos outros e o tempo de
duração da aula seria dividido em quatro etapas tendo a primeira e a quarta etapa quinze
minutos cada e a segunda e terceira, trinta minutos no total.
Na primeira etapa seria feita a montagem participativa do material e uma avaliação
diagnóstica com o intuito de identificar como o desenho é visto pelos alunos e, mediante os
comentários dos alunos, far-se-ia uma explanação acerca do desenho, a importância da prática
e das técnicas e, por fim, haveria uma explicação a respeito do funcionamento do material
didático-pedagógico e de como a atividade seria conduzida.

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Fig. 2: 3ª Experimentação – Foto: Murilo Araújo Rodrigues

Na segunda etapa seria trabalhada a primeira técnica: o desenho cego. Já divididos em


duplas, enquanto um dos alunos posava como modelo o outro utilizaria o material didático
para desenhar o colega. A cada cinco minutos de prática, inverter-se-iam as posições e quem
estava desenhando passaria a ser modelo para que o modelo anterior pudesse ser o desenhista.
Ao final desta etapa cada participante teria feito dois desenhos.
Já na terceira etapa seria trabalhada a segunda técnica, o desenho ao tato. Seriam
depositados objetos no interior da estrutura e os alunos, então, compartilhariam o material a
fim de tocar às cegas os objetos em seu interior para, em seguida, individualmente, reproduzi-
los em desenho no decorrer dos dez minutos destinados a esta etapa. Decorridos cinco
minutos, os participantes poderiam, se assim o desejassem, alternar os objetos ou permanecer
com os mesmos objetos durante todo o tempo disponível para realização da atividade.
Para finalizar, na quarta e última etapa, nos quinze minutos restantes, os alunos seriam
convidados a uma autoavaliação sobre seu envolvimento nas atividades propostas bem como
de sua produção e a uma avaliação do material didático-pedagógico. Sentados em círculo, os
participantes que se sentissem à vontade poderiam mostrar seus desenhos e comentar a

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respeito da experiência. Quanto à avaliação do material, os participantes poderiam falar sobre
sua percepção, se o uso do mesmo contribuira de alguma maneira para o aprendizado bem
como dar sugestões para melhorias do objeto e/ou da metodologia utilizada. Esta avaliação
feita pelos participantes auxiliaria nas futuras reformulações do material.

Primeira Experimentação – Alunos da disciplina Laboratório de Licenciatura II da


EBA
Fig. 3: Imagens produzidas durante a 1ª Experimentação – Fonte: Acervo pessoal

Os materiais didático-pedagógicos elaborados, antes de serem levados às escolas, são


previamente experimentados entre os alunos da disciplina Laboratório de Licenciatura II da
graduação em Artes Visuais da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas. Esta
primeira experimentação é uma rica oportunidade para que surjam proposições no coletivo de
melhorias dos objetos ou da própria metodologia de aplicação. É também uma maneira de
prevenir alguns desarranjos quando da experimentação com alunos das escolas de educação
básica.
Após a experimentação, duas propostas de adequações surgiram e foram incorporadas.
A primeira proposta referia-se ao tempo de pose que deveria ser reduzido de cinco para três
minutos, pois cinco minutos seria tempo demais e os alunos poderiam se dispersar, além
disso, menos tempo representaria mais prática. A segunda proposta referia-se ao uso de
apenas uma das técnicas, o desenho cego, para que esta fosse melhor apreendida pelos alunos
em virtude do pouco tempo disponível para a atividade.
Uma terceira sugestão foi deixada como possibilidade após a experimentação, que foi
o desenho coletivo. A ideia seria que folhas circulasem em sentido horário ou anti-horário e
cada aluno tivesse um minuto para fazer seu traçado de acordo com a observação para, ao
final o resultado ser uma composição construída coletivamente.

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Assim, após a primeira experimentação, a metodologia de uso do material didático se
restringiu a três etapas: montagem coletiva do objeto e conversa inicial; prática; e espaço de
fala para os alunos relatarem sua experiência. Cada etapa com duração prevista de vinte
minutos aproximadamente.

Segunda Experimentação – Quinto ano da Escola Municipal Wladimir de Paula Gomes


Fig. 4: Imagens produzidas durante a 2ª Experimentação – Fonte: Acervo pessoal

A segunda experimentação ocorreu com a turma para a qual foi idealizada, alunos do
quinto ano do ensino fundamental, com idade entre 09 e 11 anos, da Escola Wladimir de
Paula Gomes. A primeira etapa teve início com a montagem coletiva do material e ocorreu tal
qual foi planejada, respeitando o tempo de quinze minutos de duração. A montagem coletiva
foi importante, pois os alunos se sentiram incluídos no processo desde o início, o que
favoreceu a identificação com o objeto e consequente imersão na experiência. Despertou nos
alunos ainda, de maneira subjetiva, aspectos atitudinais como cooperação, organização,
respeito e envolvimento. Zabala (1998), diz que:

Em termos gerais, a aprendizagem dos conteúdos atitudinais supõe um


conhecimento e uma reflexão sobre os possíveis modelos, uma analise e uma
avaliação das normas, uma apropriação e elaboração do conteúdo, que
implica a analise dos fatores positivos e negativos, uma tomada de posição,
um envolvimento afetivo e uma revisão e avaliação da própria atuação.
(ZABALA, 1998, p. 48)

A conversa inicial também ocorreu conforme o esperado. Os alunos foram convidados


a relembrar a aula em que aprenderam um pouco sobre o artista Miró e a falar sobre suas
experiências com desenhos, sobre técnicas que conheciam e, em seguida, aqueles que não
conheciam a técnica do desenho cego obtiveram uma explicação à respeito da técnica e seus
objetivos. Todos muito curiosos queriam partir logo para a prática, então foram instruídos

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sobre o funcionamento do material didático e como a atividade seria conduzida para, então,
iniciarem as atividades.
A etapa de prática precisou ser readequada, como os alunos estavam bastante ansiosos,
para experimentar o material e queriam todos utilizá-lo ao mesmo tempo, a ideia de trabalhar
em duplas foi deixada de lado. Ao invés de um aluno posar para que o outro o desenhasse e
após três minutos houvesse o revezamento, a professora de Arte da turma e eu posamos de
modelos para que, assim, todos pudessem desenhar.
A cada três minutos os alunos encerravam os desenhos e podiam olhar os resultados.
Um momento divertido e de total descontração. Entre risos e deboches os alunos foram se
desapegando do conceito do desenho perfeito e entendendo o quanto a prática e a técnica
podem ser libertadoras.
A etapa durou cerca de vinte minutos e cada aluno fez quatro desenhos. Após a
primeira experimentação foi pensado que com menos minutos por desenho poderiam ser
feitos mais desenhos, mas, ao final, o tempo descontraído entre um desenho e outro pareceu
fazer mais sentido que se prender à quantidade de desenhos.
A existência de um planejamento de aula deve ter caráter orientador, mas nunca
enrijecidor. É importante estar atento às demandas dos alunos e, a partir daí, adequar as
atividades propostas para que a maioria seja contemplada no processo de
ensino/aprendizagem. A esse respeito, Gauthier (1998), cita Clark e Dunn (1991):

[...] Os professores que planejam de uma maneira demasiado rígida e


detalhada se concentram às vezes demais no conteúdo e não o bastante nas
necessidades dos alunos. Isso pode impedi-lo de tirar vantagem dos
momentos propícios ao ensino que surgem quando os alunos fazem
perguntas e dão respostas inesperadas (CLARK; DUNN, 1991 apud
GAUTHIER, 1998, p.200)

A terceira etapa compreendeu a fala dos alunos acerca da experiência na qual todos os
alunos participaram mostrando o desenho que julgaram ser o melhor dentre os quatro que
fizeram. Este momento de fala é duplamente importante, pois o aluno se dispõe a ouvir o
outro e com ele aprender, bem como aprende a se expressar e, ouvindo a si mesmo, ganhe
confiança em sua fala, em seu trabalho e em si mesmo. A transcrição de algumas opiniões dos
alunos sobre a experiência diz mais que qualquer relato:

Eu gostei da experiência, mas foi um pouquinho difícil... segurar para não

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olhar (IARA, 2018)

Foi legal porque é muita curiosidade (MARIANA, 2018)

Eu achei muito legal a experiência só que é um pouco difícil, eu não gostei


do meu desenho ‘por causa que’ (sic) ficou feio (GABRIELE, 2018)

Nessa parte aqui eu ‘tava’ (sic) roubando. Foi legal. (GUSTAVO, 2018)

Terceira Experimentação – Nono ano e Projeto Entrelaçando2 da Escola Municipal


Lourenço de Oliveira

Fig. 5: Imagens produzidas durante a 3ª Experimentação – Fonte: Acervo pessoal

A terceira experimentação ocorreu em forma de oficina, com duração de cinqüenta


minutos, realizada com duas turmas da Escola Municipal Lourenço de Oliveira, uma de nono
ano, cujos alunos têm entre 13 e 15 anos e a outra com alunos do Entrelaçando, com idade
entre 11 e 14 anos, ambas com perfil diferente dos alunos da Escola Wladimir de Paula
Gomes.
Como a duração da aula na escola é de cinqüenta minutos, ou seja, dez minutos a
menos que na Wladimir de Paula Gomes, e como a atividade foi realizada no pátio da escola,
espaço alternativo à sala de aula, o material precisou ser montado antes da chegada dos alunos
para se adequar tempo e espaço disponível de forma a possibilitar o andamento da atividade.
Quando os alunos chegaram, em um primeiro momento, tiveram a curiosidade característica
que o material desperta.
A conversa inicial teve origem na curiosidade dos alunos e perpassou pela prática do
desenho, a técnica de desenho cego e pela experiência do artista Miró com as formas. Foi uma
conversa mais breve já que a turma composta por adolescentes pedia algo mais dinâmico,

2
Projeto de Correção de Fluxo, para estudantes do 2° ciclo do Ensino Fundamental da Rede Municipal de
Educação de Belo Horizonte – RME/BH – implantado por meio da Portaria SMED Nº 190/2010.

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assim a prática teve início.
Na primeira rodada de desenhos os alunos se queixaram sobre o constrangimento de
observar o colega, mas ao término todos se divertiram com o resultado. Para as próximas
rodadas o tempo foi reduzido de três para dois minutos, de dois para um, de um para trinta
segundos para que a atividade ficasse mais dinâmica e não causasse constrangimentos. Em
seguida a proposta de desenho coletivo que era uma possibilidade dentro da primeira
experimentação foi retomada e passou a integrar as atividades. Esta segunda etapa durou
cerca de trinta minutos, conforme previsto.
Nos dez minutos restantes os alunos que se sentiram à vontade comentaram sobre a
experiência. Ao final, escolheram os desenhos que mais gostaram para que fosse feito um
mural. Nesta oficina foram produzidos muitos desenhos e os alunos se divertiram. Apesar das
adaptações feitas de última hora para atender ao perfil das turmas, no geral, o objeto teve boa
aceitação entre os alunos.

Considerações finais
Desenvolver/experimentar material didático-pedagógico para o ensino/aprendizagem
em Artes Visuais não é uma tarefa fácil. Demanda tempo, demanda pesquisa, demanda um
pensamento artístico acima de tudo. Os experimentos do mesmo material em espaços
diferentes ratificam o que Loyola (2016) diz a respeito da necessidade de se conhecer o perfil
do público a quem se destina: saber idades, contexto social em que estão inseridos, seus
conhecimentos prévios, para que as atividades sejam mais bem direcionadas.
O material didático-pedagógico não é uma forma na qual se pode encaixar todos os
alunos de forma homogênea. É, antes, uma estrutura vazada que permite que o conhecimento
possa expandir para além de seus limites. Não é o fim em si mesmo, mas um dos meios para
que o processo de ensino/aprendizagem se estabeleça.
Assim, ser professor é mais do que distribuir tarefas, é saber propor atividades que
conduzam ao aprendizado e, sobretudo, saber lidar com os desvios que podem ocorrer a partir
de suas propostas e ter habilidade para contornar situações. Estar no ambiente escolar é
desafiador e conviver com os alunos traz sempre muito aprendizado. Olhar atento, paciência,
criatividade, perseverança entre outros são características que devem ser cultivadas para
desempenho da atividade de forma afetuosa e harmônica.

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Referências Bibliográficas
GAUTHIER, Clermont. Por uma teoria da pedagogia: pesquisas contemporâneas sobre o
saber docente. Ijui: UNIJUI, 1998. 480 p.
LOPEZ, Emílio (Coord.). Grandes maestros de la pintura – Miró. Barcelona / Espanha.
Editorial Sol 90, 2008.
LOYOLA, Geraldo. Professor-artista-professor: materiais didático-pedagógicos e
ensino-aprendizagem em Arte. 2016. Disponível em: <http://hdl.handle.net/1843/EBAC-
A9GJ98>. Acesso em: 09 de julho de 2018.
ZABALA, Antoni. A prática educativa: como ensinar. Porto Alegre: Artmed, 1998. 224 p

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