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A psicomotricidade na prevenção das dificuldades

no processo de Alfabetização e Letramento


Liliana Azevedo Nogueira
Doutoranda em Engenharia da Informática na Sociedade da Informação e do Conhecimento – UP Salamanca/ Espanha
Professora do Curso Normal Superior do ISE/CENSA

Luzia Alves de Carvalho


Doutoranda em Sociologia-UP Salamanca/ Espanha
Coordenadora do Curso Normal Superior do ISE/CENSA

Fernanda Campos Lima Pessanha


Sâmela Carneiro Tavares Lima
Scholarship holders

Resumo
O presente trabalho tem por objetivo apontar os resultados
da pesquisa desenvolvida numa escola no Município de Campos
dos Goytacazes, que investiga a influência do aspecto psicomotor
na etapa de alfabetização, considerando as habilidades corporais e
motoras como pré-requisitos essenciais para o desenvolvimento do
ato gráfico e aquisição dos conceitos de leitura e escrita.
O trabalho apresenta as características e as defasagens cor-
porais das crianças, apontando caminhos através da prática psico-
motora em sala de aula, para reduzir as taxas de fracasso escolar e
analfabetismo.
Destaca, ainda, os dados de observação de 20 alunos, foca-
lizando o seu perfil psicomotor e, também, entrevistas com 20 pro-
fessoras, analisando suas concepções sobre a relação entre alfabeti-
zação e psicomotricidade.
O trabalho tece considerações sobre a importância da for-
mação profissional do professor, a fim de que este seja capaz de
criar estratégias e atividades para diagnosticar as dificuldades que
surgem na etapa de alfabetização, auxiliando no desenvolvimento
das potencialidades ou na diminuição das defasagens evidenciadas
por seus alunos, o que possibilitará um processo de alfabetização e
letramento efetivo e qualitativo.

Correspondência: Palavras-chave:
Rua Salvador Correa, 139 - Centro Alfabetização, Letramento, Habilidades Psicomotoras, Formação do Professor,
28035-310 - Campos dos Goytacazes - RJ Prática Psicopedagógica
Telefone:+55 (22) 2726.2727
Fax: +55 (22) 2726.2720
www.isecensa.edu.br
e-mail: isecensa@isecensa.edu.br

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Pyscomotricity to prevent dificulties in the literacy process
Liliana Azevedo Nogueira
Coursing Doctorate in Computer Engineering in the Information and Knowledge Society – UP Salamanca / Espanha
Luzia Alves de Carvalho
Coursing Doctorate in Sociology - UP Salamanca/ Espanha
Coordinator of the Normal Superior Course - ISE/CENSA
Fernanda Campos Lima Pessanha
Sâmela Carneiro Tavares Lima
Scholarship holders

Abstract
The following work hás the aim to point the results of a
research developed in a public school in Campos dos Goytacazes.
This work was done in the last eight months, investigating the
influence of the psychomotor aspect in the process of literacy,
considering the motor and physical habilities as essencial pre-
requirements for the development of the graphic performance and
the acquisition of reading and writing concepts.
The work presents the physical caractheristics and
deficiencies of children, pointing out ways through psychomotor
practice in the classroom in order to reduce the rates of schooling
failure and illiteracy.
It also highlights observation data of twenty studends,
focusing on their psychomotor profiles, as well as interviews with
twenty teachers, analysing their conceptions about the relation
between literacy and psychomotricity.
The work has considerations about the great importance of
the professional formation of the teachers, in order to enable them
to create strategies and activities to diagnose difficulties that appear
in the process of literacy, helping in the development of
potentialities or in the decreasing of deficiencies demonstrated by
their students.
It can make the process of literacy effective and qualified.

Correspondence: Key works:


Rua Salvador Correa, 139 - Centro Literacy, psychomotor abilities, teacher formation, psychopedagogical practice
28035-310 - Campos dos Goytacazes - RJ
Phone number:+55 (22) 2726.2727
Fax: +55 (22) 2726.2720
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Introdução seus conceitos sobre alfabetização psico-
motricidade e a importância destes para o
letramento.
Este artigo é o resultado da pesqui- A relevância social desta pesquisa
sa sobre “Psicomotricidade: um instru- consiste em mais uma tentativa de diminu-
mento eficaz no processo de alfabetiza- ição do fracasso escolar nas séries iniciais
ção e letramento”, que foi realizada du- da escola básica, através do resgate das
rante oito meses com o apoio dos Institutos habilidades psicomotoras. Tem como intui-
Superiores de Ensino do Centro Educacio- to criar estratégias e recursos para que o
nal Nossa Senhora Auxiliadora – ISE- processo de alfabetização seja mais praze-
CENSA. roso do que mecânico, mais construtivo do
O estudo foi motivado pela per- que repetitivo, mais reflexivo e significati-
cepção das profundas dificuldades que as vo para a criança, que dessa forma real-
crianças, principalmente na etapa de alfa- mente descobrirá a verdadeira função soci-
betização, vêm demonstrando na constru- al da língua escrita.
ção da lecto-escrita e como essas dificul- Os resultados da pesquisa mostram as
dades podem estar associadas a distúrbios características psicomotoras das crianças
e a defasagens corporais, no que se refere à de 3 a 7 anos; as defasagens psicomotoras
organização e domínio do espaço. que evidenciaram e como estas influenci-
A presente pesquisa volta-se para a am na construção do conceito e no desem-
temática da importância de se trabalhar os penho na leitura e escrita. Outro aspecto
pré-requisitos psicomotores nas classes de evidenciado consiste na apresentação das
educação infantil, como instrumentos es- concepções que os professores possuem
senciais para a construção significativa do sobre os conceitos de alfabetização, psi-
conceito de escrita e diminuição das taxas comotricidade, letramento e construtivis-
de analfabetismo dos alunos. Objetiva: mo; bem como a necessidade de desenvol-
detectar as defasagens psicomotoras de ver uma prática psicomotora a fim de pre-
crianças de uma escola; ressaltar a impor- venir dificuldades no processo de alfabeti-
tância dos movimentos corporais na aqui- zação. Sabemos que a psicomotricidade
sição da escrita e identificar os múltiplos antigamente tinha um caráter clínico e seus
aspectos psicomotores que influenciam o estudos estavam voltados para a patologia
processo de alfabetização. (Fonseca, 1996). No entanto, hoje, os pro-
Os sujeitos–objeto da pesquisa consis- fissionais da área da pedagogia (ensino
tiram em 20 professores e 20 alunos de regular e especial) ressaltam a grande rele-
uma Escola da educação infantil e 1o ano vância da motricidade ou da psicomotrici-
de escolaridade básica. Este estudo se efe- dade em diferentes contextos e em diferen-
tivou ao longo de oito meses no ano de tes faixas etárias, principalmente na etapa
2003. A abordagem teórico-metodológica compreendida desde o nascimento até os
utilizada caracterizou-se pela pesquisa sete ou oito anos de idade. É importante
bibliográfica e pesquisa-ação que se reali- destacar que, nesta etapa, se constroem
zou através de entrevistas, questionários, alguns conceitos básicos, referentes ao
anamneses e avaliações psicomotoras com pensamento lógico e às habilidades de
as crianças a fim de diagnosticar suas po- leitura e escrita.
tencialidades e defasagens corporais, cons- A este respeito Oliveira (1997)
truindo o perfil psicomotor das mesmas. afirma que “a educação psicomotora
Os professores também participaram deve ser considerada uma educa-
de entrevistas e questionários expressando ção de base na educação infantil.

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Ela condiciona os aprendizados sos materiais, capacitação e baixos salá-
escolares; leva a criança a tomar rios, além da baixa estima. Após a nossa
consciência de seu corpo, da latera- insistência, aceitaram responder à entrevis-
lidade, a situação no espaço, a do- ta, referente às concepções de alfabetiza-
minar seu tempo, a adquirir habili- ção.
dades de seus gestos e movimen- Concepções dos professores sobre a
tos”. alfabetização
Pesquisas atuais no campo da edu-
cação têm mostrado que os níveis de anal-
fabetismo funcional em nosso município e 20%
no país inteiro têm aumentado. Verifica-se Processo
que sempre existem alunos que não acom- Dom
50%
panham o ritmo acadêmico dos colegas em Descoberta
30%
sala de aula, o que leva professores a en-
caminhá-los para diversas clínicas especia-
lizadas, que os rotulam como “doentes”,
incapazes e/ou preguiçosos. Na verdade, Fig. 01: Algumas concepções dos professores
algumas dessas dificuldades poderiam ser sobre alfabetização
detectadas e resolvidas dentro da própria
escola. Percebemos que 50% das profes-
soras conceberam a alfabetização como
processo, mas não caracterizaram os ele-
II.Dados relevantes da pesquisa mentos que o compõem.
Citamos abaixo alguns depoimen-
2.1.Concepção dos professores sobre a
tos das professoras entrevistadas:
alfabetização
“Alfabetização é um processo
Iniciamos a pesquisa realizando
em construção que, para mim, não se
entrevistas com 20 professoras, sobre sua
resume em apenas um ano de
concepção a cerca do processo de alfabeti-
escolaridade”.
zação. Nota-se que a maioria das professo-
“Na minha concepção a alfabetização
ras não possui estudos regulares superiores
é um processo de iniciação de tudo, pois
na área de sua profissão, alegando falta de
todas as crianças devem buscar e
oportunidade e de recursos para realizá-los.
descobrir a leitura fazendo a
Uma minoria na época (2003) estava cur-
interpretação do que lêem”.
sando o Curso Normal Superior, devido à
oportunidade de bolsas oferecidas pela Outras 20% referiram-se à alfabe-
prefeitura de Campos, através do convênio tização como descoberta, a criança desa-
com o ISECENSA atendendo às normas brocha ou estoura como um milho de pipo-
previstas da nova LDBEN-96, em seu arti- ca. Esta concepção errônea sobre o cons-
go 63. trutivismo interpretado como um método, é
Observamos que as professoras, devido à falta de informação dada aos pro-
inicialmente, resistiram em responder à fessores ou, talvez, à má interpretação
entrevista, tendo como justificativa a gran- destes acerca de suas bases epistemológi-
de dificuldade nos estudos, a compreensão cas.
das perguntas e a falta de tempo. Na verdade, o construtivismo não
A maioria, 80%, trabalhava 40 ho- é um método, mas uma postura diante do
ras semanais e se queixa da falta de recur- conhecimento que deve ser construído a

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partir da ação e da relação dos sujeitos com formação muito técnica, sem relação entre
a realidade emergente no mundo. A pro- teoria e prática, pois no seu discurso enfa-
posta construtivista é baseada na contextu- tizaram muito a prática, descartando a
alização dos saberes escolares e os saberes validade da teoria. Isto fica claro na orali-
da vida. dade das professoras:
Capovilla (2002) afirma que o
grande equívoco do construtivismo foi a “Sinto muita
falta de preparo dos educadores, que que- insegurança nos passos a seguir”.
rem usá-lo como um método para alfabeti-
zar. Diante disso descartaram a sistemati- Sabemos que a maioria dos cursos
zação e valorização de aspectos fundamen- de formação de educadores trabalha conte-
tais como consciência fonológica, os mo- údos muito teóricos não possibilitando
vimentos gráficos das letras e a contextua- uma reflexão sobre a prática, o que gera
lização de experiências nesse processo. insegurança na hora de praticar, na hora de
Não podemos deixar de destacar ensinar e de criar estratégias para estimular
os 30% que consideraram a alfabetização a aprendizagem da língua escrita e dos
como dom, o que é evidente no discurso da diversos conteúdos.
professora abaixo: Outros professores que estavam
cursando o Curso Normal Superior mostra-
“A alfabetização ram uma visão mais ampla sobre a sua
é um processo mágico. preparação para alfabetizar, deixando cla-
Diria que começa a partir do ro, em seus depoimentos, a importância da
nascimento, quando a criança a cada dia aprende algo relação entre teoria e prática e de um pen-
que é novo, sar reflexivo sobre o dia-a-dia na sala de
necessitando de um mediador. aula, com seus imprevistos e surpresas..
Portanto, o primeiro lugar de
alfabetização é a família”. “No meu Curso Normal Superior
a cada dia estou me sentindo cada vez mais preparada, pois
As palavras desta professora mos- estudamos
tram a incoerência, o desconhecimento da disciplinas que dão uma visão
verdadeira proposta da alfabetização, con- teórico-prática da alfabetização,
siderado como um processo mágico, nos tais como: Psicogênese que trabalha
remetendo-nos ao mito da caverna, quando níveis de leitura e escrita, o contato com
os gregos, não tendo respostas e nem ações recursos escritos; Psicopedagogia que
concretas para situações inesperadas, as nos apresenta as dificuldades que
definiam como divinas e místicas. Isso podem surgir no decurso da
demonstra o desconhecimento de muitos alfabetização, e Psicomotricidade
professores dos princípios básicos da etapa que nos apresenta jogos que
da alfabetização que se inicia quando nas- desenvolvem o equilíbrio corporal e a
cemos e nunca termina. coordenação dos movimentos.
Outro aspecto relevante observado Essas disciplinas e outras nos ajudam
por nós é que muitos professores, apesar de a refletir sobre os desafios que encontramos
atuarem na área de alfabetização, só 45% no ato de alfabetizar,
se consideram competentes enquanto os nos apontando estratégias para
outros 55% afirmam não terem recebido trabalhar com mais criatividade e segurança”.
formação para esta tarefa.
Percebe-se que os professores de
uma determinada época receberam uma

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Neste sentido, é relevante destacar guagem e do raciocínio-lógico, tão essen-
que o investimento na formação profissio- ciais quanto o desenvolvimento corporal
nal é essencial e que não pode ser apenas para o processo de aprendizagem.
teórica, distante das dificuldades que os
professores encontram nas salas de aula, “Para que a alfabetização ocorra de forma positiva,
mas deve estar baseada numa articulação professor e aluno precisam partilhar aprendendo e
teórico-prática, discutindo nas universida- ensinando”. Todos ensinam e todos aprendem prati-
des, questões reais do campo educacional, cando.Tudo se aprende é na prática” (professora).
refletindo-as à luz de novas teorias, tendo
Fica evidente nos depoimentos de
em vista a melhoria da qualidade das con-
muitos professores, que a educação e a
dições de ensino-aprendizagem.
alfabetização ainda são vistas como uma
Respostas ao questionário destaca-
“vocação sacerdotal” e não como uma
ram como pré-requisitos fundamentais para
profissão. No entanto, hoje vivemos num
a alfabetização: interação (50%), a decodi-
novo paradigma, no qual o ofício do pro-
ficação (30%), as habilidades psicomotoras
fessor tem sido considerado como uma
(30%), a decodificação (30%), a interpre-
profissão.
tação (20%), o ambiente alfabetizador
(20%) e o desenvolvimento cognitivo Para confirmar as concepções evi-
(15%). denciadas por muitos professores acima,
90% dos pro-
Pré-requisitos enumerados em ordem de importância fessores entre-
para assegurar uma alfabetiz ação qualitativa
vistados afir-
Interação maram que não
12
Professores entrevistados

receberam
10 Decodificação formação nos
8 seus cursos de
Habilidade s magistério em
6 Psicomotoras
nível médio
4 Ambie nte
para alfabeti-
alfabe tizador
2 zar. Estas afir-
Interpretação
maram que,
0
Desenv olvime nto nos seus cur-
1 2 3 4 5 6 sos, a ênfase
cognitivo
era muito
Fig.02: Pré-requisitos considerados
grande na prática voltada para o ensino
pelos professores para o processo de
fundamental (1o. e 2o. ciclo). Apenas 10%
alfabetização
disseram que receberam uma formação
básica ou, então, fizeram o antigo curso
Percebe-se, também, no discurso
adicional, que antes era considerado uma
das professoras, uma desvalorização da
especialização na área de educação infan-
teoria e da fundamentação científica e uma
til. A maioria, em seus depoimentos, dei-
grande ênfase na prática como aspecto
xou claro que aprendeu a alfabetizar na
fundamental para alfabetizar. Quando
prática cotidiana, sem muita preocupação
indagadas sobre os pré-requisitos que con-
com as teorias novas e inovações de estra-
sideravam essenciais para uma alfabetiza-
tégias ligadas a esta área de conhecimento.
ção de qualidade, elegeram a interação
(troca de experiências entre professor-
aluno), desconsiderando a questão da lin-

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Indagadas sobre que autores lhes todas as dimensões do sujeito: cognitivas,
inspiravam a alfabetizar, as professoras relacionais, lingüísticas e psicomotoras.
focalizaram autores de tendência construti- Constata-se que os professores não
vista e sócio-construtivista: Ferreiro, Pia- possuiam um conhecimento efetivo do
get e Vygotsky. processo de alfabetização e letramento,
considerando-o como uma prática
Autoresqueinspiramaalfabetizar mecânica, voltada para o apren-
der-fazendo e não para o aprender
descobrindo e pensando sobre sua
experiência e sobre a realidade
emergente no mundo. Muitas
15% afirmaram que participavam de
cursos, no entanto alegavam que
EmiliaFerreiro estes não atendiam e nem respon-
JeanPiaget diam às dúvidas, aos problemas
50% existentes no âmbito escolar.
35% Vygotsky Constata-se que, as taxas
de evasão e analfabetismo cres-
cem a cada dia. A proposta de
aprovação automática segundo as
professoras, só servia para disfar-
çar o fracasso escolar, pois as
Fig. 03: Autores que os inspiram a alfabetizar
crianças eram promovidas sem saber ler e
escrever.
Na verdade é evidente a confusão Diante desses dados coletados, no-
que os professores fizeram entre tendência ta-se que para reverter essa situação, é
ou abordagem e método de alfabetizar. Na essencial investir na formação dos educa-
verdade insistem em usar o construtivismo dores, para que estes estejam preparados
como método para alfabetizar, esquecen- para acolher todo tipo de aluno, auxilian-
do-se de que construtivismo é uma propos- do-os em suas defasagens, e identificando
ta, uma postura diante do processo de ensi- as sérias dificuldades que eles trazem.
no-aprendizagem, que põe em relevo o Nesta pesquisa não se pretendeu
pensar, a lógica do aluno, valorizando a que a escola e os professores recuperassem
troca de experiências. as crianças, mas que conhecessem as habi-
É neste ponto que se encontra o lidades psicomotoras que são pré-
grande equívoco, pois a falta de clareza requisitos para a aquisição da lecto-escrita.
quanto ao processo alfabetizador tornou-o Assim, poderiam trabalhar com as crian-
sem objetivos claros e definidos, o que ças, a fim de que desenvolvessem capaci-
trouxe e traz conseqüências sérias como a dades gráficas e motoras importantes à
grande quantidade de crianças de 10 a 15 alfabetização.
anos analfabetas funcionais nas classes do
ensino fundamental (2º., 3º., 4º.anos ... do
2.2. Avaliação das habilidades psicomo-
1º. E 2º.ciclo).
toras em crianças de 3 a 8 anos.
As professoras não citaram autores
como Capovilla, Ana Teberosky e Ana
Maria Kaufman, que descrevem o processo Observando as crianças enquanto
de alfabetização como a articulação entre estavam na sala de aula ou brincando no
recreio, verificamos que havia crianças que

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brincavam, corriam e participavam de jo- tivo, mas a uma avaliação das habilidades
gos e na sala de aula não apresentavam ou defasagens evidenciadas pelas crianças.
nenhum problema de postura, de atenção, Através de jogos criativos e corporais bus-
liam e escreviam sem dificuldades, conhe- camos descobrir o desempenho corporal da
ciam a noção de tempo e espaço. criança e sua relação com o processo de
Também percebemos que havia construção da lecto-escrita, oferecendo
crianças diferentes, embora tivessem uma alternativas para a aquisição de novas con-
inteligência normal. Essas eram “desastra- dutas.
das”, derrubavam tudo quando passavam, De posse dos dados, avaliamos
possuiam movimentos lentos, pesados, não cada criança individualmente, no que se
se organizavam na carteira, seus estojos e refere à construção da imagem corporal e
lápis viviam caindo das suas mãos, tinham às habilidades psicomotoras (coordenação
dificuldades em participar de jogos. Nas global, fino, viso-motora, esquema corpo-
salas de aula não seguravam corretamente ral, organização espacial, organização
o lápis, apresentavam letra ilegível, às temporal, discriminação visual, discrimi-
vezes escreviam com tanta força que ras- nação auditiva, lateralidade).
gavam o papel, não conseguiam manusear O corpo é o ponto de partida para a
uma tesoura, pulavam letras quando liam e construção da personalidade e, assim, para
copiavam do quadro. a construção da lecto-escritura. Partindo
Conversamos com as professoras e desta concepção, iniciamos nossa investi-
elas se indagavam sobre o que exatamente gação a partir da sondagem da imagem
se passava com as crianças que tinham visual do corpo de cada criança. De acordo
essas atitudes? Além disso, nos indagamos com Le Boulch (1982), é através das rela-
ainda sobre o que tornava as primeiras ções mútuas do organismo e do meio que a
crianças mais capazes de agir no meio? O imagem do corpo organiza-se como núcleo
que se poderia fazer para ajudar as crianças central da personalidade. A atividade mo-
com essas defasagens? Qual seria o perfil tora e sensório-motora, graças à qual o
psicomotor fundamental para uma aprendi- indivíduo explora e maneja o meio, é es-
zagem mais qualitativa? sencial na sua evolução”.
Diante dessas indagações, anali- Uma avaliação permite constatar
samos um grupo de vinte crianças, dez do os progressos realizados pela criança na
sexo masculino e dez do sexo feminino, da conquista de uma imagem fiel a seu corpo:
faixa etária de 4 a 8 anos. Seu nível de o desenho da figura humana.
escolarização é do 2o. período da Educação Fizemos algumas atividades com
Infantil até o 2o ano do primeiro ciclo do as crianças enfocando sua figura, sua ima-
ensino fundamental de uma escola. gem utilizando
Com o objetivo de tecer mais deta- vários materiais,
lhes da história pessoal das crianças, inici- entre eles o espelho
almente tivemos uma conversa com as e depois desenha-
professoras destas crianças e analisamos as ram seu corpo,
fichas e os registros escolares destas. Es- selecionamos al-
clarecemos a proposta de trabalho, que era guns desenhos para
investigar as dificuldades psicomotoras 6 anos serem mostrados:
apresentadas pelas crianças e construir um
perfil psicomotor destas.
Fig.04:Desenhos infantis da figura humana
A proposta não se tratava de um
trabalho de reforço curricular ou reeduca-

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.
Fig.04B: Nos registros as crianças evidenci-
Desenhos infantis da avam dificuldade em registrar a figura
figura humana humana, pois ainda não representavam os
(8) anos detalhes do próprio corpo, só apresentando
os elementos mais perceptíveis, tais como:
cabeça e membros superiores e inferiores,
Estes registros
quando já deveriam se preocupar com os
foram elaborados por
detalhes características de seus corpos.
crianças que
A partir dos estudos sobre o con-
apresentavam
ceito de imagem visual do corpo apresen-
dificuldades na escola
tados por Le Boulch (1982), construímos
e que ainda não
um quadro de características da Evolução
conseguiam dominar
da Imagem Visual do Corpo, baseado nas
os sons das letras,
idéias do autor e também em crianças que
evidenciando
não apresentam dificuldades de aprendiza-
dificuldade na grafia e
gem.
na leitura de palavras.

• Primeira representação figurada, criança se reconhece nos movimentos circulares que realiza.
3 ANOS • Elabora uma figura circular com linhas irregulares feitas no interior do círculo.
• Movimentos globais, tenta organizar os traços em si mas não entre si.

• Desenha um círculo com os olhos, o nariz, a boca.


• A criança acrescenta ao círculo dois traços que representam os membros inferiores.
3 ½ ANOS
• Desenha os membros inferiores primeiro, embora os superiores, as mãos, sejam os primeiros
segmentos que a criança descobre e utiliza.

4 ANOS • Representa a cabeça, os olhos, a boca, as orelhas, o nariz e, às vezes, o cabelo.


• Com um segundo círculo representa o tronco de onde partem os membros.

• Surgimento da figuração das mãos e pés, dos dedos da mão. Estes aparecem sobre forma de
5 ANOS traços e os pés são desproporcionais ao corpo.
• Dedos das mãos dispõem-se em raios de roda a partir das extremidades dos braços.
• Os membros superiores estão representados por duas linhas partindo do tronco e da cabeça.

• Nesta etapa a imagem do corpo adquire suas características fundamentais, mas a precisão e a
6/8 ANOS variedade de detalhes difere de uma criança para outra.
• Outra característica é a representação do pescoço, só registrada pela criança depois da sua or-
ganização corporal e percepção do seu corpo no espaço.

Fig.05: Construção da Imagem visual da criança segundo Le Boulch (1982)

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Ao comparar os registros corporais processo de alfabetização e aprendizagem ao
das crianças com os estudos de Le Boulch longo da vida.
(1982) e com os desenhos de crianças com Posteriormente à sondagem da ima-
sucesso na alfabetização, percebemos que as gem visual das 20 crianças, iniciamos a ava-
crianças que apresentavam figuras corporais liação das habilidades psicomotoras, entre
muito aquém da sua idade, também eviden- elas: a coordenação global, coordenação
ciavam muitas dificuldades no processo de fina, coordenação viso-motora, esquem a
alfabetização. Observamos que a criança que corporal, organização espacial, organização
representou seu corpo de maneira dissociada temporal, discriminação visual e auditiva.
e sem uma organização detalhada dos ele- No que se refere ao desempenho na
mentos corporais, também evidenciava difi- coordenação motora, realizamos com as
culdades na representação de outros objetos, crianças atividades com materiais muito
tais como letras e números. acessíveis que podem ser usados por qual-
quer professor. Usamos como material auxi-
Isso acontece porque, como não con-
liar: banco de 15cm; corda de 2m; elástico;
seguem representar o próprio corpo, também
caixas de vários tamanhos; cestas de vários
não conseguem perceber e representar o
tamanhos, bolas grandes e pequenas, giz e
mundo que o cerca. A este respeito Le Boul-
jogos de encaixe.
ch (1982) afirma que a percepção do corpo
A coordenação global refere-se à ati-
ajuda no controle tônico, na atenção e nas
vidade dos grandes músculos e ajuda no
funções perceptivas, competências básicas
desenvolvimento do equilíbrio postural, na
para a alfabetização. É essencial destacar
dissociação dos movimentos e na realização
que, no ato psicomotor, há sempre a partici-
de movimentos simultâneos, tais como: boli-
pação da inteligência, através da intenciona-
che, amarelinha, acertar a bola na lixeira que
lidade e do comando da ação que se realiza.
implicam na coordenação de vários múscu-
Diante dessas constatações pergunta- los. A coordenação global é a habilidade que
mos às professoras que tipo de atividades se desenvolve na família. Entretanto, atual-
faziam para possibilitarem as crianças a co- mente, devido à falta de tempo dos familia-
nhecerem mais seu corpo e elas disseram que res, as crianças vêm evidenciando, na escola,
mostravam apenas as figuras humanas para problemas motores que muitas vezes não são
as crianças e trabalhavam a nomenclatura detectados e trabalhados na escola, o que
das partes corporais. atrapalha a aprendizagem das mesmas.
Segundo Le Boulch (1982) “o exercí- Na pesquisa percebemos que o de-
cio metódico no treinamento entre o exterior sempenho das crianças foi satisfatório (de-
e o próprio corpo é uma das debilidades de sempenho alto), pois 70% das crianças con-
nossa concepção educativa. Muitos educado- seguiram realizar bem as atividades relacio-
res acreditam que a descoberta do corpo nadas a agarrar bolas, saltar numa perna só,
deverá fazer-se pelos livros e pelos modelos equilibrar-se num banco e numa linha reta ou
externos e não pela experiência vivida e curva.
sentida através da própria atividade”. E essa As outras 30% tiveram básico de-
crença típica da moda dos métodos audiovi- sempenho regular (baixo) em ordenar obje-
suais, reforça ainda mais esta forma de edu- tos e blocos e realizar dois comandos simul-
cação dirigida ao exterior e à imagem, tra- tâneos. Percebemos que estas crianças com
zendo grandes malefícios para a constituição desempenho regular (baixo) na coordenação
corporal e afetiva dos sujeitos, proporcio- global evidenciaram defasagens no que diz
nando grandes conseqüências para o seu respeito à falta de controle corporal, proble-
mas de postura, cansaço excessivo nos mo-

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mentos de escritas e leitura e ainda a frag- organização do corpo, dos objetos e do do-
mentação dos movimentos corporais e gráfi- mínio dos gestos. Está interligado também à
cos. coordenação global e fina. As crianças inves-
Isso acontece porque a criança não tigadas demonstraram algumas defasagens
realiza automaticamente os movimentos e no esquema corporal: 50% apresentaram
não consegue coordená-los, o que torna mais lentidão na realização de gestos harmoniosos
lenta a realização das tarefas. De acordo com simples, como abotoar roupas, fechar o zí-
Oliveira (1997) quanto mais automatizado e per, jogar bola, elas não planejavam seus
natural for o movimento, mais rápido será o gestos ao agir. Quando estavam diante da
pensamento implicado na ação em questão. folha do caderno não obedeciam aos limites
As crianças também realizaram ati- do papel, não respeitavam as margens, não
vidades referentes à coordenação fina e o armavam contas de somar corretamente e
controle ocular, isto é, a visão acompanhan- não conseguiam usar vírgulas e pontos nas
do os movimentos da mão, chamada coorde- orações e textos.
nação viso-motora. Realizamos avaliações referentes à
Segundo Ajuriaguerra (in Condema- organização espacial, dentre elas jogos de
rín e Chadwick, 1987), o desenvolvimento encaixes, execução de movimentos na ordem
da escrita depende de diversos fatores: matu- e reprodução de movimentos (representação
ração geral do sistema nervoso, desenvolvi- humana). A estruturação espacial é essencial
mento psicomotor geral em relação à tonici- para que vivamos na sociedade, pois é, atra-
dade e a coordenação dos movimentos e vés do espaço e das relações espaciais, que
desenvolvimento da motricidade fina dos estabelecemos relações entre as coisas, ob-
dedos e mãos. servamos, comparamos e vemos as seme-
Apenas 50% das crianças consegui- lhanças e diferenças entre elas. Esta habili-
ram realizar todas as atividades, evidencian- dade psicomotora é pressuposto para muitas
do uma grande dificuldade em realizar ativi- atividades realizadas nas salas de aula, entre
dades que envolviam o uso simultâneo das elas a escrita. Ajuariaguerra (1988) acentua
mãos e olhos (coordenação óculo-manual). que “a escrita é uma atividade motora que
Outra dificuldade muito evidente está rela- obedece a exigências muito precisas da es-
cionada ao movimento de preensão; 60% truturação espacial. A criança deve compor
seguravam incorretamente o lápis ou o hi- sinais orientados e reunidos de acordo com
drocor. Oliveira (1997) afirma que é, através leis de sucessão que fazem destes sinais pa-
do movimento de preensão, que a criança lavras e frases. A escrita é uma atividade
descobre os objetos e que a mão é um ins- espaço-temporal muito complexa”. Primei-
trumento a serviço da inteligência. Tanto o ramente, é importante que a criança perceba
movimento de preensão quanto o controle da a posição de seu próprio corpo no espaço e
pressão gráfica sobre o lápis e o papel, são depois a posição dos objetos em relação a si
essenciais para a criança responder às exi- mesma e, por fim, aprenda a perceber as
gências de precisão na forma das letras e a posições dos objetos entre si. Para que essa
rapidez de execução. percepção seja qualitativa dependemos dos
Percebemos que as crianças apresen- órgãos sensoriais (visão, audição, tato, as
tavam grande lentidão nas tarefas que exigi- sensações cinestésicas de movimento).
am coordenação viso-motora, por isso demo- Para isso é essencial que desde os
ravam muito para realizar registros do qua- períodos iniciais da educação infantil, as
dro e cópias. crianças explorem muito os objetos ao seu
Avaliamos ainda o esquema corpo- redor, com o objetivo de construir o conhe-
ral. Este está relacionado ao conhecimento e cimento físico, pressuposto para o conheci-

PERSPECTIVAS ONLINE, Campos dos Goytacazes, v.1, n.2, p.9-28, 2007 19


mento lógico-matemático e para o conheci- Constata-se nesse depoimento da
mento social, tão enfatizados por Piaget. professora, uma certa angústia, pois sabe que
Estes três conhecimentos devem ser desen- essa não é a melhor forma de trabalhar. No
volvidos pelos professores, possibilitando à entanto, elas não têm uma devida formação
criança uma aprendizagem concreta, signifi- que as informe sobre novas maneiras de
cativa e conceitual desde a mais tenra idade. auxiliar as crianças em suas defasagens.
Através das avaliações notamos que Muitos professores, sem saber como
as mesmas crianças (60%) que apresentaram agir diante de dificuldades de seus alunos
dificuldades nas avaliações ligadas ao es- usam estratégias mecanicistas. A este respei-
quema corporal e à imagem visual do corpo, to Oliveira (1997) ressalta que muitos “pro-
também evidenciaram dificuldades nas pro- fissionais da educação, preocupados com o
vas de organização espacial. Um dado inte- desenvolvimento espacial ligado ao ensino
ressante é que 20% tiveram um desempenho da leitura e escrita, em vez de se preocupa-
médio e que apenas 10% completaram toda a rem em trabalhar estas noções em nível de
prova com sucesso. Esse dado mostra que movimentação de corpo, de interiorização
mesmo aquelas que não apresentam dificul- das ações, tentam começar esta orientação
dades na leitura e na escrita, também apre- pelos exercícios gráficos. Isto é um erro, pois
sentam algumas defasagens na organização as crianças apenas aprendem a imitar e deco-
espacial, o que evidencia um processo de rar o que é exigido delas, sem que haja qual-
aprendizagem mecânico, centrado apenas no quer transformação mental significativa”.
caráter memorístico, sem um desenvolvi- Esta habilidade de organização espa-
mento integral das habilidades cognitivas, cial deve ser estimulada desde os três anos,
motoras e lingüísticas. se estruturando aos oito ou nove anos, época
Percebemos que muitas crianças não em que ela é capaz de situar direita e esquer-
conseguiam se organizar na folha de papel. da sobre os objetos. A orientação e a estrutu-
Espelhavam letras e números e confundiam ração espaciais são importantes porque pos-
noções de lugar como em cima, em baixo, ao sibilitam à criança organizar-se perante o
lado etc. Então, indagando a algumas profes- mundo que a cerca, prevendo e antecipando
soras o que faziam diante dessas dificulda- situações em seu meio espacial.
des, uma nos respondeu assim: Intimamente ligada à organização
espacial está a organização temporal, pois
“Olha, quando tenho muitas uma pessoa só se movimenta em um espaço
e tempo determinado. É a organização tem-
crianças espelhando letras e números,
poral que garante ao sujeito uma experiência
coloco-as para visualizar muito de localização dos acontecimentos passados,
a letra e depois mando copiar. e uma capacidade de projetar-se para o futu-
ro, fazendo planos e decidindo sobre sua
Acredito que copiando, vida. Kephart (in Fonseca, 1986) afirma que
memorizam o formato da letra e do a dimensão temporal não só deve auxiliar na
localização de um acontecimento no tempo,
número e não erram mais. como também proporcionar a preservação
Na verdade não gosto de fazer isso, das relações entre os fatos no tempo. Na
verdade nunca vemos o tempo como tal,
mas é a única estratégia percebemos somente os acontecimentos, ou
que acho resolver”. seja, os movimentos e as ações, suas veloci-
dades e seus resultados. Na avaliação da
organização temporal, usamos provas basea-

PERSPECTIVAS ONLINE, Campos dos Goytacazes, v.1, n.2, p.9-28, 2007 20


das na linguagem, na organização de se- corporal, organização espacial e temporal,
qüências de letras, palavras e frases, organi- discriminação visual e auditiva.
zação de imagens, ditado e leitura. Como podemos observar, as crianças
A partir dessas avaliações notamos demonstraram um bom desempenho nas
que 80% das crianças não conseguiram com- habilidades básicas, tais como coordenação
pletar as tarefas, apenas 20% tiveram suces- global e fina. Nas habilidades mais comple-
so, necessitando de mediação na realização. xas, entre elas imagem visual do corpo, es-
Apresentaram, como maior dificuldade, a quema corporal, organização espacial, orga-
falta de percepção dos intervalos de tempo nização temporal, discriminação visual e
ao ler frases e textos, escrita sem ritmo (pa- auditiva, evidenciaram dificuldades.
lavras aglutinadas umas nas outras), lentidão A partir destes dados podemos cons-
nos registros do quadro e esquecimento das tatar que a educação escolar ainda não per-
correspondências som-letra. cebeu a importância da dimensão corporal
Realizamos as avaliações referentes no seu currículo, por isso usam tarefas alta-
à discriminação visual e auditiva de forma mente mecânicas e “treinamentos” alegando
integrada, através de ortografia, músicas, que são atividades psicomotoras. Antes do
parlendas e trava-línguas. nosso contato com os professores e com as
Constatamos que 80% das crianças crianças, estas acreditavam que estavam
não conseguiram completar, com sucesso, as usando de todos os recursos da psicomotrici-
tarefas ligadas à discriminação auditiva, pois dade para preparar os alunos para a escrita.
muitas não reconheciam os fonemas fonolo- Entretanto perceberam que usavam exercí-
gicamente, o que prejudicou o desempenho cios totalmente desprovidos de significado
destas nas atividades, principalmente na para as crianças e não eram nem precedidos
ortografia e no trava-língua. Outra dificulda- de um trabalho mais amplo de conscientiza-
de apresentada pelas crianças se relacionou a ção dos movimentos, de posturas, visando
uma carência na discriminação visual. Aca- um desenvolvimento mental maior. Para
bavam lendo várias vezes a mesma palavra, ilustrar essa concepção, perguntamos a uma
ou pulavam frases inteiras, numa verdadeira professora no ínício da pesquisa como traba-
falta de controle ocular. Um total de 60% lhava conceitos de dentro/fora, em cima/em
apresentaram dificuldades na discriminação baixo e ela respondeu:
visual das letras, evi-
denciando muitas Desempenho nas avaliações das habilidades
trocas de letras, tais psicomotoras
como: p/b; f/v; t/d; 70%
s/z; c/g; o/e; m/n etc.
Diante dessas 50%
Crianças

análises, verificamos 40% 41% 40%


que a maioria das 30%
crianças que apresen- 20% 20%

tavam dificuldades no
processo de alfabeti-
zação evidenciavam 1 2 3 4 5 6 7 8
alguma defasagem Habilidades avaliadas
nas habilidades psi-
comotoras referentes Cord. Global Coord. Viso-motora
Esquema Corporal Org. Espacial
à imagem visual do Org. Temporal Lateralidade
corpo, ao esquema Disc. Auditiva Disc. Visual
Fig. 06: Desempenho nas avaliações das habilidades psicomotoras

PERSPECTIVAS ONLINE, Campos dos Goytacazes, v.1, n.2, p.9-28, 2007 21


biente, os educadores devem organizar ativi-
“Por exemplo, para trabalhar dades a partir dos interesses, atividades e
conceitos como em cima/em baixo,uso jogos pelos quais os alunos manifestam curi-
desenhos numa folha de mimeografo. osidade, levando em consideração seu nível
Coloco o desenho numa mesa e de maturidade afetiva, cognitiva e de seu
peço para as crianças desenharem uma potencial motor.
bola em cima e desenharem Para isso os educadores tenham uma
um X em baixo. formação holística que contemple a observa-
Para trabalhar dentro/ fora, ção, a reflexão e a compreensão das necessi-
sugiro que colem bolinhas de papel dades afetivas, cognitivas e corporais dos
dentro e desenhem fora”. alunos.
Nesta perspectiva, a educação psi-
O que estes profissionais estavam comotora é essencial ao processo de alfabe-
estimulando era a aquisição de gestos auto- tização e deve ser praticada desde a mais
máticos e técnicas sem se preocupar com as tenra idade, pois o movimento é um suporte
percepções que dariam aos alunos o conhe- que ajuda a criança a adquirir o conhecimen-
cimento de seu corpo e, através deste, o co- to do mundo que a rodeia através de seu
nhecimento do mundo que os rodeiam. Os corpo, de suas percepções e sensações, além
exercícios psicomotores, através do movi- de prevenir as dificuldades e combater a
mento e dos gestos, não devem ser realiza- inadaptação escolar.
dos de forma mecânica, devem ser associa- Essa educação psicomotora, que
dos às estruturas afetivas e cognitivas. pode chamar-se, também, de educação pelo
movimento, tem que estar voltada para o
2.3. Habilidades Psicomotoras e Alfabeti- estímulo às habilidades psicomotoras, tais
zação como: coordenação global, viso-motora,
imagem corporal, esquema corporal, organi-
Um dos aspectos mais significativos, zação espacial, organização temporal, dis-
na concepção de alfabetização nesses últi- criminação visual e auditiva, pressupostos
mos anos, é o de reconhecer que este é um para a aquisição do ato gráfico e da lecto-
processo que se inicia desde os primeiros escrita.
anos de vida, se intensificando no ingresso
na educação infantil, se estruturando nas
classes de alfabetização e primeiro ciclo do Coordenação Coordenação Esquema
ensino fundamental. global óculo-manual corporal
A partir dessa nova visão, podería-
mos nos indagar: de que maneira podemos
atender, acompanhar a criança na etapa da Estrutura Processo de Construção Estrutura
educação infantil e primeiros anos de fun- espacial da Lecto-Escrita temporal
damental para que seja agente ativo na aqui-
sição do conhecimento da lecto-escrita, no
conhecimento de si mesma e conquiste sua Discriminação
Lateralidade
autonomia? visual e auditiva
O primeiro aspecto a levar em conta Fig. 7: Esquema das Habilidades Psicomotoras impli-
é a criação de um clima, de um ambiente cadas no Processo de Construção da Lecto-Escrita
educativo que lhe permita tomar consciência
de que existe a partir de suas próprias sensa-
ções, percepções e experiências. Nesse am-

PERSPECTIVAS ONLINE, Campos dos Goytacazes, v.1, n.2, p.9-28, 2007 22


Depois de analisar o desempenho de o desenvolvimento das habilidades psicomo-
crianças de quatro a oito anos de uma escola toras, mas alegavam não saber como utilizá-
da rede pública no que se refere às habilida- las nas séries iniciais da educação infantil e
des psicomotoras, notamos que a prática ensino fundamental.
psicomotora não é uma ação muito realizada A partir desta necessidade das pro-
no âmbito escola, sendo priorizadas ativida- fessoras, das características corporais das
des mais dirigidas e voltadas para a aquisi- crianças investigadas e das pesquisas sobre
ção técnica da leitura e escrita. os estudos realizados por Le Boulch(1982),
Entretanto, em encontros com as Rosa Neto (2002), Oliveira(1997) e Ajuria-
professoras e durante as entrevistas, levamos guerra(1988) construímos um quadro das
estas a perceberem que esta prática psicomo- habilidades psicomotoras em níveis de gra-
tora é fundamental, como um novo auxílio duação progressiva e que atividades podem
para facilitar o processo de alfabetização. ser realizadas para desenvolvê-las.
Muitas deixaram claro o desejo de estimular

Habilidades Psicomotoras Atividades


Coordenação Global
Rolar, rastejar, engatinhar, andar, correr, soltar, transpor, dançar e a realiza-
(0 aos 7anos)
ção de jogos imitativos.

Coordenção Fina e Viso-motora Transportar, agrupar, bater, segurar, encaixar, manipular, atar, desatar,
( 2 aos 7anos) aparafusar, lançar, amarrar, abotoar, riscar, modelagem, recorte, colagem, e
escrita (iniciação do movimento de pinça).

Imagem visual
Observação do corpo no espelho e desenho do próprio corpo
( 3 ½ a 7 anos)

Esquema Corporal
Auto-identificação, localização, abstrata corporal, reconhecimento de todas as
( 3 ½ aos 8 anos)
partes do corpo.

Lateralidade
Dominância lateral dos três níveis: olho, mãos e pés.
(6 os 7 anos)
Organização Espacial
Jogos de identificação de cores, formas, tamanhos, direcionalidades e relações
( 5 aos 7 anos)
espaciais (em cima, em baixo, lado direito, lado esquerdo, atrás , frente, etc.
Obs: esta habilidade pode ser
Amarelinha, jogos de comandos, letras e números gigantes para serem obser-
estimulada desde os 2 anos, mas
vados e manipulados corporalmente.
se consolida dos 5 aos 7 anos)

Orientação Temporal
(6 aos 8 anos) Perceber os intervalos de tempo entre as palavras, ritmos musicais, danças

Obs: esta habilidade pode ser cantadas, cirandas, construção de instrumentos musicais rítmicos (tambor,

estimulada desde os 2 anos, mas chocalho, etc), acompanhamento dos ritmos musicais com o corpo, trabalho

se consolida dos 6 aos 8 anos) com seqüências sonoras e gráficas.

Discriminação Visual e
Jogos de memória com letras e sílabas, dominó de letras e gravuras, quebra
Auditiva
cabeças de letras e palavras, seqüências de fatos, leitura de histórias, escritas
(4 anos aos 8 anos)
espontâneas de palavras, reescritas de histórias, músicas etc.
Fig 8: Quadro das Habilidades Psicomotoras a serem desenvolvidas na Educação Infantil e nas séries iniciais do Ensino Fun-
damental

PERSPECTIVAS ONLINE, Campos dos Goytacazes, v.1, n.2, p.9-28, 2007 23


Entendemos e deixamos claro para teoria e na prática, num constante processo
as professoras que a prática psicomotora, de reflexão-na-ação e sobre a ação.
deve ser entendida como um processo de
auxílio que acompanha a criança em seu “Tenho muita vontade de auxiliar
próprio percurso maturativo, que vai desde meus alunos, porque sei que algumas
a expressividade motora e do movimento dificuldades que alguns apresentam não
até o acesso à capacidade de escrever, ler, são graves, mas não sei como fazer.
ou seja, se comunicar através do ato gráfico. Acho que seria importante
Em tal processo, são atendidos os fazermos um curso que oportunizasse
aspectos primordiais que formam parte da uma visão global e integrada das
globalidade em que as crianças estão imer- dimensões das crianças.
sas nessa etapa, tais como a afetividade, a Hoje estamos percebendo que o
motricidade e o conhecimento, aspectos que corpo é muito importante”.
irão evoluindo da globalidade à diferencia-
ção, da dependência à autonomia e da im- “É engraçado a maneira
pulsividade à reflexão (García Olalla, 1995, como as coisas vão e voltam.
in Arnaiz Sánchez, 2003). Antes a base da educação infantil era
Esse trajeto é universal no desen- trabalhar o corporal da criança,
volvimento de todos os seres humanos e mas era tudo muito solto;
deve ser a base de qualquer projeto pedagó- depois deixamos o corporal de lado
gico para a educação infantil e para o pri- para trabalhar o aspecto cognitivo.
meiro ciclo da educação fundamental, a Hoje estamos chegando à
base para construir uma prática pedagógica conclusão de que ambos, corporal e
coerente. Neste sentido é essencial investir cognitivo (além do afetivo)
na formação dos educadores, para que en- têm que estar integrados,
tendam a forma como seus alunos reagem e um colaborando com o outro.
se modificam diante dos estímulos do meio Porém ficamos perdidas, muitas vezes
e como se adaptam a ele. Dessa forma, po- não conseguimos saber como criar
derão auxiliar seus alunos a tomar consci- atividades para realizar esta integração.
ência de seus próprios bloqueios e procurar Talvez se tivéssemos cursos mais
suas origens e, principalmente, criar exercí- práticos, aprenderíamos como fazer”.
cios adequados para um bom desempenho
corporal e, conseqüentemente, um desen- A concepção das professoras mu-
volvimento cognitivo, afetivo e lingüístico dou no decorrer da pesquisa. Iniciamos
integral. nossa pesquisa no 1o. Semestre de 2003, e
Durante nossa pesquisa, percebe- já no fim do primeiro semestre muitos pro-
mos que este ainda é um caminho que as fessores nos procuravam para dizer que só
escolas precisam percorrer, investir na for- através de algumas avaliações, muitos alu-
mação e informação dos seus professores, nos melhoraram seus rendimentos escola-
pois estes ainda se sentem despreparados res. Assim, estas começaram a perceber a
para lidar com certas defasagens apresenta- importância da prática psicomotora como
das pelas crianças. auxílio na aprendizagem, suscitando o dese-
A partir dos depoimentos das do- jo de conhecer mais sobre o assunto e in-
centes, percebe-se um desejo, mas também vestir na própria formação.
uma angústia, pois já estão sentindo a ne- Aliada a isto, no 2o. semestre, quan-
cessidade de uma formação baseada na do estávamos finalizando a pesquisa, a se-

PERSPECTIVAS ONLINE, Campos dos Goytacazes, v.1, n.2, p.9-28, 2007 24


cretaria municipal de educação sofreu al- estratégias utilizar e para que pro-
gumas modificações de lideranças, as quais, fissionais encaminhar seus alunos
cientes da nova visão de ensino, iniciaram com dificuldades.
uma grande campanha de formação profis- n Almejam uma capacitação maior,
sional no município, enfatizando nas atuali- ligada ao processo de alfabetiza-
zações para os professores da rede questões ção, à psicomotricidade e às difi-
relacionadas ao letramento, a alfabetização culdades de aprendizagem.
e a educação psicomotora.
n Reconheceram a importância do
Essa mudança de lideranças foi cru-
desenvolvimento psicomotor na
cial para que uma nova visão educacional
construção da lecto-escrita.
surgisse e pudesse mudar a postura e a ma-
neira de os professores encararem o proces- n Demonstraram muito interesse na
so de alfabetização, buscando novas estra- capacitação na área de educação.
tégias para realizá-la significativamente.
Diante dessas questões apresentadas
pelas professoras, reforçamos a idéia de que
III. A MODO DE CONCLUSÃO a formação do professor é essencial, pois,
estando preparado, criará estratégias e ati-
A análise do discurso dos professo-
vidades para auxiliar os alunos no desen-
res, as avaliações das habilidades psicomo-
volvimento de suas potencialidades e defa-
toras dos alunos, os estudos bibliográficos
sagens psicomotoras.
sobre a relação entre psicomotridade e alfa-
É essencial investir na profissionaliza-
betização nos propiciaram constatar alguns
ção teórico-prática dos professores, pois se
achados fundamentais relativos aos nossos
estes tiverem uma formação holística e
estudos bibliográficos, aos objetivos da
conhecerem as propostas eficazes no campo
pesquisa e à problemática levantada:
da educação, poderão criar meios para esti-
mular o desenvolvimento dos seus alunos e
n As habilidades psicomotoras, alia-
prevenir, desde os anos iniciais, o surgi-
das ao desenvolvimento da lingua-
mento de dificuldades nas classes de alfabe-
gem são pressupostos fundamen-
tização e séries iniciais do ensino funda-
tais para a aquisição do processo
mental. Foi evidente a angústia das profes-
de alfabetização e posteriormente
soras e a vontade de aprimorar suas práti-
do letramento.
cas.
n A escola e os professores, geral- Outros achados são referentes ao pro-
mente, não possuem uma prepara- blema que iniciou a pesquisa, sobre as difi-
ção para lidar e auxiliar os alunos culdades psicomotoras apresentadas pelas
que evidenciam alguma defasagem crianças de quatro a oito anos das classes de
psicomotora. educação infantil e séries iniciais do ensino
n A maioria das professoras ainda fundamental. As crianças evidenciaram
usa estratégias muito tradicionais muitas defasagens corporais, que prejudi-
para lidar com as crianças que a- cam a aprendizagem da leitura e da escrita.
presentam dificuldades no proces- Entre elas destacamos:
so de aprendizagem da leitura e es-
crita. n Dificuldade na percepção do seu
n As professoras alegaram que não próprio corpo.
têm formação para diagnosticar
tais dificuldades. Não sabiam que

PERSPECTIVAS ONLINE, Campos dos Goytacazes, v.1, n.2, p.9-28, 2007 25


n Não reconheciam, não nomeavam
e não registravam graficamente a Diante do exposto, notamos que a mai-
própria figura. oria das dificuldades evidenciadas pelas
n Imagem visual do corpo fragmen- crianças não são casos de encaminhamentos
tada, sem articulação entre os psicoterápicos, mas requerem uma reeduca-
membros. ção corporal, que pode ser realizada dentro
n Problemas de postura. da própria escola pelas professoras, durante
as aulas de educação física, nos intervalos e
n Cansaço excessivo sentiam dores até mesmo articuladas nas aulas de portu-
ao escrever, o que estava relacio- guês, matemática e outras disciplinas.
nado à defasagem na coordenação Uma outra questão é que as defasagens
global. no desenvolvimento das habilidades psico-
n Realização fragmentada da escrita; motoras gera conseqüências no desempenho
o ato gráfico não era contínuo, não e construção do conceito de leitura e escrita,
era linear, saiam da linha, ultrapas- principalmente nas séries iniciais do ensino
savam a margem. fundamental. O que se constata é que no
n Lentidão para registrar palavras e processo de alfabetização o corporal, a lin-
textos do quadro (defasagem na guagem e o cognitivo são aspectos interde-
coordenação viso-motora). pendentes e relevantes para o alcance do
sucesso na prática da escrita e leitura.
n Dificuldades em coordenar movi-
Da análise dos dados, portanto, pode-
mentos e seguir comandos ritma-
mos concluir que é importante que o profes-
dos e seqüenciados.
sor tenha uma formação necessária para
n Dificuldades na discriminação das observar e perceber as dificuldades ou po-
posições dos sinais gráficos p/b, tencialidades que os alunos apresentam no
d/t, q/p, t/f. processo de alfabetização. Antes de rotular
n Dificuldades na discriminação au- ou encaminhar uma criança para um trata-
ditiva dos fonemas v/f, t/d, c/q, mento clínico, o professor deve procurar
p/b, d/t. descobrir o que está acontecendo com seu
n Reconheciam lentamente os sím- aluno. Em vez de transferir para outros o
bolos impressos, evidenciando encargo de cuidar das suas crianças, ele
uma leitura sem ritmo, entonação. próprio deve tomar sob sua responsabilida-
de não só os bons alunos, quanto os que têm
n Escreviam palavras omitindo letras
mais dificuldades. Dentro de sua área peda-
e trocando fonemas (ex. inverno –
gógica é o professor quem tem mais condi-
iverno – inferno - iferno).
ções de desenvolver um maior aproveita-
n Escreviam com letra ilegível. mento acadêmico e não pode se alienar
n Liam várias vezes uma mesma pa- neste sentido.
lavra ou frase, ou pulavam frases Ao realizar as avaliações e instruir as
inteiras durante a decodificação. professoras sobre como trabalhar com os
n Decodificavam, mas não compre- alunos com defasagens, muitos deles se
endiam o sentido do texto. recuperaram e começaram a avançar no
processo de alfabetização. Essa situação é
n Dificuldade na organização do
ilustrada pela fala de uma professora:
tempo demoravam muito em uma
tarefa e não conseguiam terminar
as outras por “falta de tempo”.

PERSPECTIVAS ONLINE, Campos dos Goytacazes, v.1, n.2, p.9-28, 2007 26


“Nossa! É o professor com sua experiência pro-
Depois daquela avaliação fissional e prática que tem condições de
e das dicas de vocês pesquisadoras, X provocar um maior desenvolvimento cogni-
teve uma melhora significativa em sua tivo e propiciar uma alfabetização de quali-
letra, tornou-se mais ágil nas ativida- dade, que leve os alunos a interpretarem
des textos e também a escrevê-los criticamente.
de registros e ainda começou a Cabe ao educador estar sempre aberto
ler as primeiras palavras. às indagações e dúvidas, tratar os alunos
Olha que ele era uma criança com respeito e consideração, respeitar o
totalmente apática, lenta e demorava ritmo de cada um, estimulando-os de forma
a escrever e quando fazia, adequada para que se desenvolvam.
era impossível compreender seus Nosso estudo apresenta, como alterna-
rabiscos (letras sem forma). tiva, a prática da educação psicomotora no
Parece que depois ele teve um “estalo” período de quatro aos sete anos (etapa de
e aos poucos foi tomando gosto por educação infantil) que tem como objetivos
aprender a escrever e ler. básicos possibilitar:
É uma pena que ele não tenha feito n A consciência e o controle do pró-
essas avaliações antes, prio corpo;
pois tem 9 anos e só agora está se
alfabetizando. Mas valeu a pena. No n Controle e equilíbrio das funções
início achei que não ia dar em nada, físicas;
mas ele melhorou muito.”.
n O uso dos membros do corpo e a-
O depoimento mostra que a proposta quisição da lateralidade;
de inserção da psicomotricidade na realida-
de de educação infantil, com objetivos e
n Domínio do ato-gráfico;
estratégias definidas é muito válida, pois
visa provocar um aumento do potencial
psicomotor, afetivo e cognitivo do aluno, n Capacidade de interpretação e pro-
melhorando e acelerando sua aprendizagem. dução de textos;
Assim com este estudo, pretendemos
mostrar que o estímulo às habilidades psi- n Ritmo e entonação na leitura;
comotoras desde a educação infantil, pode
aumentar o potencial motor do aluno, capa- n Habilidade de registros pictóricos.
citando-o para uma compreensão de si, dos
seus movimentos e do mundo que o cerca, n Socialização;
melhorando suas construções acerca da
lecto-escrita e dando bases sólidas para suas
n Respeito às regras morais e sociais.
futuras aprendizagens.
Por isso acreditamos ser extremamente
relevante que a escola reforme sua estrutu- n Capacidade de coordenação de su-
ra, investindo na formação dos educadores e as ações para atingir um objetivo
numa educação holística, valorizando não individual ou proposto.
só os aspectos cognitivos, lingüísticos e
afetivos, mas dando ênfase também ao cor-
poral (psicomotor).

PERSPECTIVAS ONLINE, Campos dos Goytacazes, v.1, n.2, p.9-28, 2007 27


Espera-se que os dados apresenta- que contribuam significativamente para
dos e as concepções apresentadas contribu- uma alfabetização de qualidade.
am para uma reflexão sobre a importância Cremos que lançamos um alerta aos
da psicomotricidade na educação infantil educadores junto aos quais realizamos a
como suporte para o processo de alfabetiza- pesquisa, estimulando-os a almejar uma
ção e letramento que acontece nas séries formação profissional de qualidade.
iniciais do ensino fundamental.
Gostaríamos de acrescentar que a aprendi-
zagem da leitura e da escrita envolve diver-
sos outros fatores que devem ser reconheci-
LI
dos e pesquisados, tais como o aspecto cog- C
N
O
nitivo e lingüístico, conforme o esquema ao G
G
U
lado: NI
A
Ç
O estudo sobre a psicomotricidade e G
Ã
E
das habilidades psicomotoras básicas para a O
M
aquisição da leitura e escrita, não se encerra
aqui mas, certamente, suscitará discussões
no cenário educacional, servindo como
desafio para que outros educadores se lan-
cem a desvendar os caminhos da psicomo- AFETIVIDADE
Fig. 9: Processo de alfabetização e letramento
tricidade ou de outras áreas de conhecimeno

Bibliografia

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