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Rafaela Morelli - 205048

HL422 - Linguagem e pensamento: teoria e prática.

4) Cérebro: um computador? Reflexões acerca da metáfora.

Atualmente, é comum pensar sobre o cérebro e a mente como sendo


equivalentes aos computadores e eles realmente realizam muitos dos mesmos trabalhos
e processos: recuperação de informações, cálculos, associações etc. Porém, essa intuição
deve ser questionada. Metáforas para o funcionamento do cérebro baseadas nas mais
altas tecnologias disponíveis em determinada época são recorrentes na história da
ciência. Por mais que essas metáforas pareçam estranhas agora, elas não eram inúteis –
comparar algo que não se compreende, como o cérebro humano, com uma máquina que
se compreende foi uma importante parte da metodologia científica.
A fim de oferecer um ponto de partida para a discussão, recorre-se à definição
de computador feita pelo filósofo Tim Crane, no livro ​The Mechanical Mind.​ Crane
(1995) afirma que um computador é qualquer coisa que processe representações
sistematicamente. Um computador representa coisas usando o código binário, mas será
que o cérebro humano funciona assim? Pensamentos são apenas representações?
Se pensamentos contém ​qualia,​ elementos subjetivos e não representacionais,
isto é, se existe um hiato explicativo entre as qualidades subjetivas da nossa ​percepção e
o sistema físico a que chamamos ​cérebro​, então a mente não é um tipo de computador e
nenhum computador poderia ser uma mente, pois há mais coisas envolvidas no processo
do pensamento do que apenas representação.
O filósofo John Searle propõe o argumento do ​Quarto Chinês (Chinese Room,
tradução nossa). Nesse exercício hipotético imagina-se um quarto para o qual se pode
passar perguntas em chinês e do qual se pode receber respostas, também em chinês. A
hipótese natural é assumir que alguém dentro do quarto entende chinês, mas o que se
encontra dentro é uma pessoa rodeada de cartões com caracteres chineses e um livro de
regras muito preciso que o indica como responder a cada símbolo recebido com outro.
A pessoa que manipula os símbolos não entende realmente chinês e não faz a menor
ideia do que está respondendo, isto é, os pensamentos dela não possuem ​qualia.​
Deste modo, o quarto seria uma metáfora para um computador e Searle (2004)
conclui disso que a pessoa dentro do quarto nunca poderia aprender a língua chinesa.
Não importa quão precisas e aparentemente inteligentes sejam as respostas, nenhuma
quantidade de simulação poderia se equiparar ao entendimento genuíno. E o mesmo
valeria para os computadores, mesmo que eles se tornem muito bons em responder as
perguntas, mesmo que mudem suas respostas mudando o “livro de regras” de acordo
com o ​input,​ nenhuma sintaxe poderia equivaler à semântica.
Nesse sentido, sendo o cérebro um organismo vivo, diferentemente dos
computadores, é maleável e alterado pela experiência. Um exemplo famoso disso é o
caso de Phineas Cage, um trabalhador da estrada de ferro do século 19, que foi
empalado por uma haste de ferro que entrou pela mandíbula e saiu do alto da cabeça,
removendo com isso um grande pedaço do cérebro. Surpreendentemente, ele foi capaz
de se sentar e até falar dentro de alguns minutos do acidente e conseguiu viver uma vida
relativamente normal, embora com algumas mudanças de personalidade, por mais doze
anos. Em casos como esse, fica claro que o caráter orgânico do cérebro possui um
grande papel em seu funcionamento adaptável. Sobre isso, O’Shea (2010) afirma,
[...] parece muito improvável que o cérebro esteja apenas realizando
algoritmos computacionais ou que o raciocínio possa ser atingido da
mesma maneira com engrenagens e alavancas no lugar de células
nervosas. Portanto, talvez não se possa esperar que os computadores
tenham os mesmos desempenhos dos cérebros, a menos que haja uma
maneira de construí-los em um meio biológico (O’SHEA, 2010, p.
12).

De acordo com Kagan & Saling (1997) parafraseando Luria em uma crítica ao
localizacionismo, afirmam que “[e]mbora cada unidade tenha uma função singular e
específica, a cognição depende de uma colaboração íntima entre todas as três unidades”
(1997, p. 21). Esse tipo de interação é muito mais rígida nos computadores em que cada
função realmente possui uma unidade material fixa correspondente.
Portanto, pode-se notar que a metáfora, embora útil para o avanço das
Neurociências e outras áreas, não deve ser tomada como verdade absoluta para evitar o
restringimento de novas pesquisas ou visões inovadoras sobre o funcionamento do
cérebro.
REFERÊNCIAS

Crane, Tim. The Mechanical Mind: A Philosophical Introduction to Minds, Machines


and Mental Representation. London, Penguin, 1996.

Kagan, A. e Saling, M. Uma introdução à Afasiologia de Luria: teoria e aplicação. Porto


Alegre, RGS, Artes Médicas, 1997.

O’Shea, M. Cérebro. Porto Alegre, L&PM, 2010

Searle, John. "Can computers think." ​Minds, brains, and science​ (1984): 28-41.