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ARTIGO DE REVISÃO/REVIEW ARTICLE filosofia, ética e bioética

Filosofia Clínica: o que é isto?

Clinical philosophy: What is it?

Monica Aiub* RESUMO


Questões existenciais, problemas com relacionamentos, angústias,
dificuldades na vida são motivos que levam várias pessoas a procurar
um filósofo clínico. Essa atividade, ao mesmo tempo antiga – pois
data da origem da filosofia o cuidado da alma – e nova – pois se
apresenta como um novo paradigma, surgido para responder às ne-
cessidades contemporâneas do ser humano –, tem gerado muita
polêmica tanto no meio acadêmico como entre as psicoterapias. De
que se trata, afinal, a Filosofia Clínica? Uma breve apresentação de
seus fundamentos, origens e instrumental, assim como sua íntima
relação com questões éticas é o objeto do artigo Filosofia Clínica: o
que é isto?

DESCRITORES
Medicina – Filosofia; Lógica

ABSTRACT
Existential questions, problems in relationships, anxieties, life diffi-
culties… these are some of the reasons that make people see a clinical
philosopher. This activity, at the same time immemorial for the be-
ginnings of the activity of caring for the soul and the inception of
philosophical thought goes back to the same period and new because
is comes now inside a new paradigm developed to attend to human
beings contemporary needs has been lately the object of many con-
troversies both in the academy and in the field of psychotherapies.
* Filósofa Clínica. Mestranda em How can we define Clinical Philosophy? A brief presentation of its
Filosofia pela Universidade background, origins and resources as well as its intimate relationship
Federal de São Carlos. Presidente with ethical issues is the object of Clinical Philosophy: What is It?
da Associação Paulista de
Filosofia Clínica. Docente do
Curso de Filosofia do Centro KEYWORDS
Universitário São Camilo. Medicine – Philosophy; Logic

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Há momentos na vida em que não conse- intitulada Filosofia Clínica. Entre as atividades
guimos organizar nossas idéias, nos encontra- de ajuda-ao-outro, a Filosofia Clínica destaca-se
mos como que absorvidos pelos problemas, sem por não trabalhar com teorias prévias, tipologias
um distanciamento suficiente para compreendê- ou conceitos de normalidade. O homem é a me-
los. Em outras situações, as dificuldades diante dida de todas as coisas (Protágoras), e como
de uma escolha, de uma tomada de decisão, de medida, aquele que procura ajuda é quem de-
uma ação necessária parecem ser um entrave termina de que maneira poderá ser auxiliado.
intransponível, e ao mesmo tempo, insuportá- Pensar junto com o outro é o mote do filósofo
vel. Questões existenciais que geram sofrimen- clínico, norteado pelo respeito a seus modos de
tos, angústias, medos incontroláveis. Momentos ser, a suas escolhas.
difíceis, quando viver parece uma eterna luta, O que busca ajuda é chamado partilhante
uma guerra diária consigo mesmo. Momentos porque é aquele que partilha, que toma parte
em que o outro é nosso inferno, não é capaz de em, que participa ativamente de todo o proces-
compreensão, sua presença é significada como so clínico, compartilhando sua vida e suas ques-
cobrança e sua ausência como rejeição ou indi- tões com o filósofo clínico. Por sua vez, o filó-
ferença. Relacionamentos difíceis no trabalho, sofo clínico acolherá o partilhante e suas ques-
emoções conturbadas, problemas com a família, tões e partilhará com ele o conhecimento pro-
com a casa, com as contas, com a sobrevivên- duzido pela filosofia, auxiliando-o a refletir so-
cia, com o espelho. Situações difíceis, nas quais bre suas questões e dificuldades, a levantar e
os caminhos escapam, em que reina a confusão. estudar possibilidades, a definir, construir e per-
Sentimos necessidade de ajuda para organizar correr caminhos. Não se trata de teorizar sobre
as idéias, mas os amigos parecem mais confusos o sofrimento alheio, mas de auxiliar o outro a
e perdidos que nós. Aqueles com os quais con- lidar com suas questões, diante das circunstân-
vivemos parecem não ter ouvidos ou então te- cias e possibilidades existentes.
rem soluções excelentes para eles, mas péssi- A idéia de colocar a reflexão filosófica a
mas para nós. serviço da atividade de ajuda-ao-outro não é
Em situações como essas e outras precisa- novidade. Desde os primeiros momentos, a filo-
mos de ajuda. Que bom seria encontrar um sofia cumpre o papel de refletir sobre as ques-
amigo disposto a ouvir, que não nos interrom- tões cotidianas, de pensar a vida, a existência e
pesse para mostrar que suas feridas são maiores a natureza para aperfeiçoá-las e gerar benefícios
que as nossas, que nosso sofrimento é nada à humanidade. Desde os primórdios, cumpre o
diante da desgraça do mundo. Um amigo capaz papel de cuidar da alma (Platão, 2002), bus-
de acolher e ouvir, sem de imediato dizer que cando, a partir da reflexão, o equilíbrio interno
estamos errados, que a vida não é assim, que entre ser, pensar e agir; o desenvolvimento da
sonhamos demais, que pensamos demais, que virtude da alma e a conseqüente saúde integral
escolhemos demais, que trabalhamos demais, — alma, corpo, sociedade e natureza.
que somos demasiadamente tortos, rudes, lou- Na década de 1980, o papel terapêutico da
cos, insanos, insensatos, insensíveis; que falta- filosofia é resgatado por um movimento deno-
nos vontade, razão, sensibilidade, exatidão, lou- minado filosofia prática (Achenbach, 1989), com
cura também; que estamos errados, que somos vistas à construção de uma atividade de ajuda-
mesquinhos, que o caminho certo é outro… ao-outro, partindo do questionamento: se a psi-
Tantos e quantos julgamentos e observações que quiatria e a psicologia utilizam a filosofia em
recebemos e nada, nada adianta para tirar-nos seus métodos, por que um filósofo não poderia
de nosso poço interminável de sofrimento. utilizar a metodologia própria da filosofia para
Pessoas em situações como essas têm pro- ajudar as pessoas em suas questões cotidianas?
curado ajuda nos consultórios de Filosofia Clíni- O filósofo assume a função de cuidador, inves-
ca. Ajuda-ao-outro: essa é a tarefa da atividade tido do conhecimento produzido em toda a his-

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tória da filosofia. “De fato, o primeiro ‘consultó- das pelo ser humano no decorrer de sua histó-
rio de filosofia’ foi aberto na Alemanha em 1981 ria. Diante das crises contemporâneas, da insu-
e, ao que parece, existe hoje uma centena deles ficiência de respostas, das carências humanas e
no mundo” (Sautet, 1999, p. 61). Nomes como existenciais cada vez mais presentes e significa-
Gerd B. Achenbach (1989), Marc Sautet (1999) e tivas, a Filosofia Clínica coloca-se como um novo
Lou Marinof (2001) são mundialmente conheci- paradigma, tentando conciliar a tarefa do filoso-
dos por desenvolverem, de maneiras diferentes, far com a possibilidade de ajuda-ao-outro, cons-
a atividade de cuidadores, fundamentados na truindo uma terapêutica centrada na singularida-
filosofia. de, no respeito ao universo e ao modo de ser
de cada partilhante. O filósofo clínico é um
Achenbach propôs um método de entrevis-
profissional apto a pensar junto com a pessoa,
tas particulares ao longo das quais a filosofia
sem interferir em suas decisões, auxiliando-a a
recuperou seu direito de cidadania. Condição
refletir sobre si mesma e sobre o mundo que a
sine qua non: não sobrecarregar o discurso de
rodeia, sobre opções e possibilidades para lidar
conceitos inacessíveis aos comuns mortais e não
com as questões cotidianas, respeitando seus
desprezar o bom senso; deixar surgir a expe-
valores, sentimentos, necessidades e escolhas.
riência pessoal, até favorecendo sua evocação,
Não se trata de um mero aconselhamento
e incentivar o ‘cliente’ a se aventurar por terras
pautado em referenciais filosóficos, colocando
desconhecidas, utilizando ao máximo a lingua-
em risco a vida das pessoas. Há uma série de
gem que lhe é familiar. O que equivale a dizer
procedimentos clínicos, estruturados de modo a
que, nessas entrevistas, o filósofo escuta mais
permitir a identificação de sinais e sintomas que
do que fala e só introduz referências para fazer
indiquem a necessidade de um trabalho inter-
seu interlocutor progredir em seu próprio ritmo
disciplinar, pois apesar de ser a mãe das ciên-
(Sautet, 1999, p. 59).
cias, a filosofia admite os limites e as especifici-
No Brasil, o filósofo gaúcho Lúcio Packter dades de cada área do conhecimento e, por isso,
(1997), inspirado na filosofia prática, criou um o filósofo clínico não se habilita a trabalhar todo
instrumental específico, próprio, adequado à rea- e qualquer problema. Há problemas de ordem
lidade brasileira, diferente dos trabalhos dos fi- orgânica, química, que precisam ser tratados com
lósofos já citados. Packter apropria-se do conhe- medicamentos. Há situações em que o instru-
cimento filosófico de maneira seletiva, e utiliza- mental da Filosofia Clínica não possui elemen-
o para a atividade de ajuda-ao-outro, desenvol- tos adequados para o trabalho. Conferidas essas
vendo o trabalho que nomeou Filosofia Clínica. possibilidades, o filósofo clínico encaminha —
Após conhecer o trabalho de aconselhamen- mesmo que por precaução, para mera exclusão
to filosófico desenvolvido na Holanda, em Ams- de possibilidades, ou ainda para um trabalho
terdã, completamente diferente do que viria a interdisciplinar — o partilhante para um profis-
criar mais tarde, Packter começou a pensar na sional competente naquela área de atuação.
possibilidade de uma clínica filosófica. De volta Quem é esse outro que procura o auxílio
ao Brasil, ainda na década de 1980, iniciou suas do filósofo clínico? A princípio não há como
pesquisas em Santa Catarina, coletando dados, saber. Em que é possível ajudá-lo? O que ele
entrevistando pessoas, pesquisando, nos textos busca? O que lhe aflige? Diante das inúmeras
de filosofia, as possibilidades para auxiliá-las. possibilidades de resposta, não há como res-
Entre erros e acertos, uniu os dados dos relatos ponder previamente a nenhuma questão. O pri-
coletados aos estudos dos textos filosóficos, meiro passo é tomar parte, partilhar as ques-
encontrando formas para compreender e auxi- tões, o universo, os modos de ser, estar, pensar
liar as pessoas. Depois de muitos testes, pesqui- e agir do partilhante. O ponto de partida é o sei
sas teóricas e práticas, organizou um instrumen- que nada sei, de tudo quanto sei socrático. Como
tal flexível, possível de ser adaptado às necessi- o filósofo clínico nada sabe sobre aquele que o
dades de diferentes pessoas, mas que possui um procura, sua postura diante do outro é de busca
grau de segurança capaz de fornecer informa- desse conhecer e, para tal, deve permitir o
ções suficientes para o filósofo clínico auxiliar mostrar-se do partilhante.
as pessoas sem direcionar suas vidas e escolhas. Como cada partilhante é um universo a ser
Respeito à singularidade, ao modo de ser, conhecido, o filósofo clínico acolhe esse univer-
agir e pensar do partilhante é a característica so com a escuta atenta, suspendendo seus juí-
essencial desse trabalho, que surge para atender zos prévios, suas próprias concepções de mun-
as necessidades existenciais criadas e desenvolvi- do, seu próprio universo, para aproximar-se ao

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máximo do universo do partilhante, assumindo ca divide-se em três eixos centrais: Exames Ca-
a postura do amigo que acolhe, ouve, mas não tegoriais, Estrutura de Pensamento e Submodos.
julga, não interpreta ou avalia, apenas contex- Os Exames Categoriais1 são exames iniciais,
tualiza, tentando compreender a gênese da si- consistem em conhecer o universo no qual o
tuação, o que se passa e como auxiliá-lo em partilhante está inserido: seu contexto social,
suas necessidades. político, econômico, cultural, educacional, fami-
Gadamer (1997) mostra-nos que para com- liar, suas relações, como lida com o tempo, com
preender um texto é preciso deixar que ele diga o próprio corpo, com o ambiente, com suas
alguma coisa por si, posicionar-se de maneira idéias, onde mora, em que trabalha, o que estu-
receptiva a sua alteridade, o que não significa da, o que viveu etc.
neutralidade ou auto-anulamento. A abertura A Estrutura de Pensamento fornece o modo
para o outro não supõe uma dissolução de si como essa pessoa se estruturou a partir das
mesmo, um deixar-se absorver, mas um conheci- vivências de seu universo. São trinta tópicos2
mento daquilo que se é, de suas próprias opi- que abordam esse modo de ser, considerando
niões prévias e preconceitos. Quanto maior a cons- desde sua visão de mundo, até suas emoções,
ciência de seus referenciais, maior a possibilidade seus valores, a religiosidade, seus papéis exis-
de estabelecer a alteridade, de enxergar o outro tenciais, seus meios de expressão. Não se trata
tal qual se apresenta, sem se permitir ser guiado de uma abordagem puramente racional, a Estru-
por pré-juízos, mas sem ser absorvido pelo outro. tura de Pensamento é muito mais ampla, abran-
Para possibilitar essa abertura para o outro gendo o modo de ser em devir e em múltiplas
na clínica, durante o processo de formação, o fi- dimensões de cada partilhante em especial. A
lósofo clínico submete-se a um procedimento de- divisão em tantos tópicos pode sugerir a idéia de
nominado Clínica Didática ou Pré-estágio. Esse pro- um processo exaustivo de análise em detrimento
cedimento consiste em passar por todo o proces- da síntese. Mas não é esse o procedimento. A
so clínico como um partilhante, ou seja, subme- síntese é o objetivo, considerando uma leitura
ter-se à clínica, com o objetivo múltiplo de conhe- da determinância dos tópicos, das relações intra
cer seus referenciais, suas concepções prévias, seus e inter tópicos, o todo é maior do que as partes;
pré-juízos, de conhecer a si mesmo a partir do o partilhante, em seu universo, é o todo.
instrumental filosófico-clínico e, principalmente, de Os Submodos3 — intervenções clínicas —
vivenciar esse instrumental, para avaliar, a partir dividem-se em dois momentos: a observação dos
da própria vivência, as possibilidades e resultados
de todo o processo. Esse procedimento é também
1. Categorias: Assunto Imediato e Último; Circuns-
denominado Pré-estágio por ser requisito prévio tância, Lugar, Tempo e Relação.
para iniciar os estágios — atendimentos supervi- 2. Estrutura de Pensamento: 1. Como o Mundo Pare-
sionados, também necessários à formação. Após ce; 2. O Que Acha de Si Mesmo; 3. Sensorial e Abstrato;
o processo de formação, a manutenção da clínica 4. Emoções; 5. Pré-Juízos; 6. Termos Agendados no Inte-
lecto; 7. Termos: Universal, Particular e Singular; 8. Ter-
é uma necessidade, não apenas como atualização mos: Unívoco e Equívoco; 9. Discurso: Completo e Incom-
da consciência desses referenciais, mas como pleto; 10. Estruturação de Raciocínio; 11. Busca; 12. Pai-
profilaxia para o profissional. xões Dominantes; 13. Comportamento e Função; 14.
A princípio, a postura do filósofo clínico é Espacialidade: Inversão, Recíproca de Inversão, Desloca-
mento Curto e Deslocamento Longo; 15. Semiose; 16. Sig-
de escuta atenta. Ouvir interferindo o mínimo nificado; 17. Armadilha Conceitual; 18. Axiologia; 19. Tó-
possível, acolhendo, acompanhando atentamen- pico de Singularidade Existencial; 20. Epistemologia; 21.
te. Não se trata da postura neutra de um cientis- Expressividade; 22. Papel Existencial; 23. Ação; 24. Hipó-
ta que observa uma experiência provocada e tese; 25. Experimentação; 26. Princípios de Verdade; 27.
Análise da Estrutura; 28. Interseções entre Estruturas de
controlada externamente. A simples presença é Pensamento; 29. Matemática Simbólica; 30. Autogenia.
uma interferência, o encaminhamento dos pro- 3 Submodos: 1. Em Direção ao Termo Singular; 2. Em
cedimentos, mais ainda. Há interação, encontro Direção ao Termo Universal; 3. Em Direção às Sensações; 4.
desses universos como conjuntos que estabele- Em Direção às Idéias Complexas; 5. Esquema Resolutivo; 6.
Em Direção ao Desfecho; 7. Inversão; 8. Recíproca de In-
cem interseções. Há atenção e cuidado que se versão; 9. Divisão; 10. Argumentação Derivada; 11. Atalho;
fazem explícitos no decorrer dos trabalhos. 12. Busca; 13. Deslocamento Curto; 14. Deslocamento Lon-
Dentro das especificidades filosófico-clíni- go; 15. Adição; 16. Roteirizar; 17. Percepcionar; 18.
cas, há exames iniciais que permitem um conhe- Esteticidade; 19. Esteticidade Seletiva; 20. Tradução; 21.
Informação Dirigida; 22. Vice-Conceito; 23. Intuição; 24.
cimento das questões, do universo, do modo de Retroação; 25. Intencionalidade Dirigida; 26. Axiologia; 27.
ser, estar, pensar e agir, das necessidades do Autogenia; 28. Epistemologia; 29. Reconstrução; 30. Análise
partilhante. Esse instrumental da Filosofia Clíni- Indireta; 31. Expressividade; 32. Princípios de Verdade.

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Submodos Informais e sua utilização como pro- subjetivamente ruim; confusa — as pessoas en-
cedimentos clínicos. Como Submodos Informais volvidas não sabem determinar o que vivenciam;
são verificadas, no partilhante, as maneiras ha- ou indefinida — oscila com freqüência, impe-
bituais de lidar com suas questões. Nessas ma- dindo uma definição.
neiras, o filósofo clínico observa: pertinência, Após a conversa sobre o Assunto Imediato,
relevância, eficácia e aplicabilidade a outras si- o partilhante preencherá uma ficha clínica que
tuações. Como procedimentos clínicos, os Sub- contém dados sobre o partilhante, termo de
modos são maneiras, modos subordinados à esclarecimento e consentimento para o trabalho
Estrutura de Pensamento, aos Exames Catego- clínico. Caso trate-se de um partilhante que se
riais e aos Submodos Informais, isto é, só fazem encontre em acompanhamento psiquiátrico ou
sentido e somente podem ser utilizados se esti- neurológico, o filósofo clínico informará sobre a
verem de acordo com o que foi estudado e necessidade de um trabalho interdisciplinar e
observado anteriormente nos outros eixos, em entrará em contato com o médico responsável
outras palavras, se forem pertinentes às condi- para estabelecer a interdisciplinaridade.
ções, às necessidades e ao modo de ser do O próximo passo consiste em colher o his-
partilhante. tórico do partilhante, contado por ele mesmo,
Para o estudo e observação desses três ei- cronologicamente e em detalhes. Esse histórico
xos fundamentais, o filósofo clínico utiliza a servirá de fonte para a obtenção de dados sobre
história de vida do partilhante. Considerando que os três eixos fundamentais: Exames Categoriais,
o ser humano se constrói, torna-se o que é, a Estrutura de Pensamento e Submodos. Enquan-
partir de suas vivências, a história do partilhante, to o partilhante conta sua história, o filósofo
contada por ele mesmo, oferecerá dados acerca clínico limita-se a interferências mínimas, ape-
de seu universo, da gênese de suas questões, de nas para permitir a Interseção, pedindo conti-
seus modos de ser e de agir. nuidade, levando a pessoa a retomar o curso de
O partilhante chega ao consultório para uma sua história em caso de saltos lógicos ou tempo-
primeira consulta. A conversa inicial é sobre o rais. Essas interferências mínimas são denomi-
Assunto Imediato, ou seja, a queixa, o que inco- nadas Agendamentos Mínimos. Cabe ao filósofo
moda, o que moveu o partilhante a procurar clínico controlar sua curiosidade, suspender seus
ajuda. A queixa inicial pode ser apenas a ponta pré-juízos, a fim de evitar distorções, interpreta-
de um iceberg, não ser a questão que necessi- ções equivocadas, mal entendidos. Por esse
tará ser trabalhada, mas merece acolhimento, motivo, a postura adequada é calar, ouvir e
atenção, além de servir como um modo de apro- contextualizar o histórico do partilhante, lendo-
ximação, como forma de estabelecer a Interse- o a partir do instrumental filosófico-clínico.
ção. O filósofo clínico poderá perguntar sobre o Obviamente, dificuldades nesse contar a
contexto da questão apresentada, pedir mais história podem surgir: o partilhante pode consi-
detalhes, para compreender o que se passa. A derar irrelevante falar sobre sua história de vida
seguir, explicará ao partilhante os procedimen- quando seu sofrimento encontra-se no momen-
tos clínicos, com mais ou menos detalhes, de to presente, não se sentir à vontade para expor
acordo com o interesse do mesmo. dados e detalhes de suas vivências, ter passado
O conceito de Interseção, em Filosofia Clí- por experiências traumáticas e não querer revivê-
nica, tem sua origem na Teoria dos Conjuntos las, entre outras possibilidades. Nessas situações,
de Georg Cantor, em que a interseção entre cabe ao filósofo clínico ouvir, acolher, mostrar a
conjuntos equivale aos elementos comuns entre necessidade dos dados para um subseqüente
eles. Em clínica, filósofo clínico e partilhante são trabalho, explicitar que não se tratam de lem-
os universos, os conjuntos, em interseção. A In- branças traumáticas, mas de todas as vivências,
terseção não é medida pela quantidade de ele- contextos e dados do cotidiano.
mentos comuns, mas pela qualidade estabeleci- Se o partilhante tiver dificuldade em contar
da na relação. Relação esta que se estabelece um período de sua história, pode-se deixá-lo
tanto por dados verbais como por dados não para depois, afinal, nos primeiros momentos da
verbais: gestos, olhares, expressões, posturas etc clínica, o filósofo clínico é um estranho para o
Apesar de iniciada no primeiro contato, uma qual o partilhante deve contar dados que muitas
Interseção é construída a cada consulta, poden- vezes são difíceis de expor, pode faltar confian-
do tornar-se mais ou menos consistente no de- ça, pode ter medo de ser julgado, pode sofrer
correr dos trabalhos, e definir-se como: positiva com as lembranças. O filósofo clínico compre-
— subjetivamente boa para ambos; negativa — ende essas e outras dificuldades, por isso permi-

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tirá flexibilidade para que o partilhante conte nicas. Nesse momento são feitas perguntas
sua história, entendendo que ele poderá, inicial- específicas sobre dados colhidos no histórico
mente, omitir dados, distorcê-los, mentir, inven- do partilhante. Até esse momento o filósofo
tar, entre outras coisas. Ainda assim, os dados clínico somente acompanhou a história, man-
inventados, distorcidos, o são a partir de refe- tendo o partilhante no curso dela; dividiu-a em
renciais do partilhante. Sua Estrutura de Pensa- períodos determinados pelos dados colhidos
mento desvenda-se ainda que o histórico conte- no histórico e pediu que recontasse cada pe-
nha distorções. Além disso, na medida em que ríodo. Neste momento, todas as dúvidas relati-
a Interseção se estabelece e que os outros pro- vas ao histórico, questões ou termos que não
cedimentos clínicos são efetivados, novos dados estejam claros e que possuam pertinência clíni-
surgem, outros são corrigidos. Os procedimen- ca, ou seja, estejam vinculados às questões do
tos seguintes — Divisão e Enraizamentos — au- partilhante, poderão ser esclarecidos.
xiliam nesse processo. Enquanto encaminha esses procedimentos,
Há casos em que a dificuldade consiste em o filósofo clínico observará os três eixos funda-
falar. A pessoa não consegue contar a história. mentais: Exames Categoriais, Estrutura de Pen-
Nesses casos, o filósofo clínico pesquisará se o samento e Submodos Informais, atualizando os
partilhante possui outros dados de Semiose — dados a cada consulta. Com isso terá então da-
veículos de expressão como fotos, textos, poe- dos suficientes para compreender o universo do
mas, pintura, música, desenhos, gestos, expres- partilhante: seu modo de ser — considerando
sões faciais, posturas corporais, enfim, instrumen- que esse modo de ser dá-se em devir, ou seja,
tos que auxiliem nesse processo. Esses instru- está em constante movimento e, portanto, pre-
mentos podem ser utilizados não apenas em casos cisa de constante atualização —; suas maneiras
de dificuldades, mas sempre que existirem e de responder às situações; o Assunto Último,
puderem propiciar acesso a dados não oferecidos isto é, a questão a ser trabalhada, de fato, em
pela fala. Esses dados serão contextualizados na clínica. Com esses dados, o filósofo clínico pre-
história do partilhante e significados por ele. parará um Planejamento Clínico, analisando
Chegando ao momento presente, o filóso- possíveis maneiras de auxiliar o partilhante. Esse
fo clínico dividirá o histórico do partilhante em planejamento inclui a leitura do todo da Estru-
partes, pedindo que reconte, parte a parte, com tura de Pensamento: se há choques intra ou inter
mais detalhes, novos dados. Há casos em que o tópicos, quais são os tópicos determinantes, os
partilhante corrige: “Da outra vez contei que isso permeáveis, os flexíveis, os estruturais; quais as
havia ocorrido assim, mas não foi bem assim. possibilidades para trabalhar os choques; que
Depois lembrei melhor, o que ocorreu foi o modificações são possíveis e necessárias ao par-
seguinte:…”, ou ainda: “Quando contei na outra tilhante e quais as suas conseqüências. Todo esse
consulta, eu realmente pensava que ele não me trabalho é pautado em um conhecimento acerca
amava, mas depois que lhe contei, fiquei pen- dos contextos e das possibilidades concretas
sando em nosso cotidiano, em tudo o que fez existentes nesses contextos.
por mim… isso é amor, ele me amou, e muito”. O conhecimento da linguagem usual desse
em outras situações: “Na primeira consulta, fi- partilhante também é imprescindível, visto que
quei com vergonha de lhe contar, não sabia o partimos da premissa de Wittgenstein (1975) que
que pensaria a respeito, como julgaria. Agora já a linguagem é um jogo e o significado das pa-
tenho confiança, posso contar e sei que você lavras está em seu uso. O filósofo clínico, du-
não vai me recriminar por isso…”. Falas como rante a colheita de dados, pesquisa o jogo de
essas são muito comuns em clínica. linguagem do partilhante, e utiliza, para os pro-
A Divisão não serve apenas para essas cor- cedimentos clínicos, esse mesmo jogo, para que
reções, mas principalmente para a aquisição de as palavras tenham um significado unívoco, para
mais dados, pois ao contar a história, o parti- que os objetivos clínicos não se percam numa
lhante poderá optar por uma linha de raciocínio, linguagem incompreensível ao partilhante.
deixando de lado muitos outros elementos vivi- Considerando que o partilhante não pára
dos. O procedimento divisório é repetido inú- sua vida durante os procedimentos clínicos, faz-
meras vezes, até que não surjam novos dados. se necessária, a cada consulta, uma atualização,
Terminada a Divisão é o momento dos pois eventos, fatos ocorridos entre uma consulta
Enraizamentos. Trata-se de um processo episte- e outra, podem modificar dados extremamente
mológico para pesquisar o conteúdo de ter- significativos, invalidando o uso de alguns Sub-
mos, estabelecer relações, testar hipóteses clí- modos, ou ainda, modificando significados de

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questões ou relações. Assim, os primeiros mo- Em primeiro lugar na postura do filósofo
mentos da consulta são destinados a essa atua- clínico, que se dispõe a pensar junto com o par-
lização, em que o filósofo clínico pergunta so- tilhante, que usa o conhecimento em benefício
bre a semana, sobre como estão as coisas. Em do humano, que se posiciona como um constan-
alguns casos essas perguntas geram um proces- te pesquisador, em busca incessante de amplia-
so de Esteticidade — explosão, catarse. Nesses ção de seu conhecimento sobre as questões da
casos, o filósofo clínico permite esse processo, vida, utilizando-o para o cuidado do outro.
deixando o partilhante desabafar sobre o fato Em segundo, toda metodologia utilizada
ou situação que o incomoda. Há casos em que na Filosofia Clínica é construída a partir de
a necessidade de tal desabafo é tamanha que métodos filosóficos: Histórico, quando conside-
uma consulta é insuficiente para tal. Mas o filó- ra que o partilhante se constrói a partir de sua
sofo clínico deve cuidar para que as consultas história e a toma como ponto de partida para
não se tornem constantes esteticidades, o que os exames iniciais; Fenomenológico, assumin-
impediria a colheita de dados para o trabalho. do a postura de suspensão de juízos, conside-
Uma vez organizado o Planejamento Clíni- rando os dados literalmente, conforme são
co, o passo seguinte é a aplicação de Submo- descritos pelo partilhante, atendo-se a
dos. Totalmente subordinados aos Exames Cate- Agendamentos Mínimos nos momentos iniciais
goriais, Estrutura de Pensamento e Submodos da clínica; Empírico, quando considera a ne-
Informais, são aplicados esses procedimentos, e cessidade do conhecimento do universo cir-
é acompanhado o resultado. Há casos em que o cunstancial do partilhante, para levantar hipó-
resultado é imediato, mas essa não é a regra. teses realizáveis na realidade existente, quando
Em geral, faz-se necessário o acompanhamento valoriza dados sensoriais como fonte do co-
por um período, variável de acordo com a com- nhecimento; Lógico e Analítico, ao dedicar-se
plexidade das questões e as possibilidades clíni- ao estudo e pesquisa dos significados e das
cas do partilhante, até que a pessoa alcance o estruturas da linguagem do partilhante, anali-
bem-estar subjetivo. sando-a não apenas sob o aspecto lógico-for-
Entende-se aqui por bem-estar subjetivo o mal, como também acerca das possíveis análi-
bem-estar para o partilhante. Se ele sentir-se bem ses estruturais, sintáticas e semânticas; Episte-
com os resultados da clínica, o objetivo foi atin- mológico, pesquisando a gênese das questões,
gido. Parte-se então para o término do proces- dos processos de construção de conhecimento
so, que assim como todo o seu decorrer, depen- atuais e possíveis, disponíveis ao partilhante.
derá do partilhante. Há pessoas que, atingindo Mas como é possível unir metodologias tão
esse ponto, agradecem e despedem-se; há ou- distantes como, por exemplo, Fenomenologia e
tras que precisam trabalhar esse término, tor- Filosofia Analítica? É feito um recorte epistemo-
nando as consultas esparsas, outros necessitam lógico que tem como critério fundamental as
que o filósofo clínico informe o término do tra- necessidades clínicas, tal recorte apresenta pos-
balho. Isso também será encaminhado de acor- síveis poros para o estabelecimento de interse-
do com os dados pesquisados. ções, aproximando diferentes metodologias.
Os procedimentos aqui descritos são flexí- Além disso, cada Categoria, Tópico da Estru-
veis, adaptáveis às necessidades de cada parti- tura de Pensamento e Submodo têm sua funda-
lhante. Não existem, em Filosofia Clínica, proce- mentação em um filósofo ou escola filosófica, ou
dimentos clínicos predeterminados, aplicáveis a seja, todo o instrumental, considerando-se postu-
quaisquer casos, ou a determinados tipos. Ape- ra, metodologias, Categorias, Tópicos e Submo-
sar de termos uma lista com 32 Submodos, es- dos, possui fundamentação na filosofia acadêmica.
ses são mesclados, formando muitos outros. Não Não se trata de priorizar uma escola filosó-
se trata de um processo de construção de tipos: fica em detrimento da outra, mas de possibilitar
para perfis “x”, Submodos “y”. Os procedimen- a interseção entre elas, selecionando o que for
tos são exclusivos para cada partilhante, criados necessário ao partilhante. Não são as preferên-
para cada caso em especial. Cada partilhante é cias do filósofo clínico que contam para a cons-
um novo caso, um novo universo, que necessi- trução do trabalho, mas as necessidades do
tará de novos procedimentos, criados para aten- partilhante. Assim, não há filósofos clínicos com
der às suas necessidades. orientação kantiana, existencialista, aristotélica,
Diante da exposição desse instrumental o platônica, humeana, schopenhaueriana, nietzs-
leitor deve estar se perguntando: onde está a cheniana etc Há um instrumental construído com
filosofia em tudo isso? a contribuição de inúmeros pensadores. O que

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desse instrumental será utilizado em cada caso, momentaneamente como uma necessidade, mas,
depende do que for encontrado na pesquisa principalmente, que a escolha por um modo de
dos Exames Categoriais, Estrutura de Pensamen- ser no mundo cabe a cada um de nós, e que essa
to e Submodos Informais de cada partilhante. escolha traz consigo uma cadeia de conseqüên-
Assim, independentemente do filósofo clíni- cias, que serão vividas por aquele que escolheu e
co identificar-se com um autor, com um Tópico pelos que o circundam, e, portanto, cabe ao par-
ou com um Submodo, o trabalho será direcionado tilhante a decisão, sem eximir-se de sua responsa-
pelo partilhante, não pela identificação deste com bilidade diante de si mesmo e dos outros.
uma ou outra escola filosófica, mas pelo que apre- Considerando a Ética como uma atividade
senta em seu contexto, em seus modos de ser. reflexiva e não normativa, que não supõe regras
Também não é o caso de discutir textos filo- fixas e sim flexíveis, adequadas a cada situação
sóficos com o partilhante, exceto se esse for um em especial, que compreende o todo dos ele-
dado constante em sua Estrutura de Pensamento. mentos envolvidos na situação, a aproximação
Os textos filosóficos servem de fundamentação entre Filosofia Clínica e Ética dá-se porque am-
ao trabalho do filósofo clínico. As questões do bas necessitam dessa flexibilidade, dessa com-
partilhante serão discutidas dentro de seu jogo de preensão do todo e da inter-relação entre os
linguagem, ou seja, utilizando termos compreen- elementos que o compõe, porque ambas são
síveis e adequados a sua construção lingüística. essencialmente reflexivas e, principalmente,
Por sua constituição, por ter como objetivo porque é exigido do filósofo clínico a atitude
principal o bem-estar subjetivo do partilhante, ética diante do partilhante4.
sem desconsiderar que ele está inserido em um Em hipótese alguma o filósofo clínico pode
universo concreto, coexistindo com outros e, direcionar as ações do partilhante fundamenta-
portanto, é responsável por suas escolhas e do em valores ou escolhas pessoais. É inaceitá-
ações, assim como por suas conseqüências no vel que desenvolva uma relação de dependên-
todo desse universo; por não partir de um con- cia, tornando-se um orientador constante do
ceito de normalidade pré-determinado, por um partilhante, permitindo a atrofia de sua autono-
padrão pré-estabelecido, por fundamentar-se, mia. Que se necessite de ajuda em situações
principalmente, no respeito ao outro, a Filosofia difíceis é compreensível, mas que se mantenha
Clínica é uma atividade essencialmente Ética. a ajuda por toda a vida, inaceitável.
O conceito de normalidade, conforme de- Caso encontre uma situação em que auxiliar
monstrado por Foucault (1994, 1998, 2000), va- o partilhante implique afrontar seu próprio modo
ria de acordo com a época, a cultura, os interes- de ser, seus valores, a ponto de inviabilizar o
ses sociais. Assim sendo, o que é considerado trabalho, é indicado ao filósofo clínico encami-
patológico numa determinada sociedade pode nhar o partilhante a outro profissional, pois a
ser virtuoso em outra, o que foi considerado relação filósofo clínico-partilhante não exige a
anormal em outra época pode ser não somente abdicação de seu modo de ser, mas impede a
aceitável como recomendável hoje. Muitos dos imposição de um modo de ser ao outro. Pode-se
que foram considerados loucos em suas épocas, questionar, pensar junto, avaliar possibilidades,
perseguidos, excluídos, hoje são tidos como mas nunca direcionar a vida do partilhante para
gênios, grandes mestres. Assim, se o filósofo clí- caminhos que não sejam escolhidos por ele.
nico assume, de fato, a máxima socrática sei que Respeito ao outro e a seus modos de ser, a
nada sei, se assume a postura filosófica daquele suas escolhas. Ajuda ao outro, em Filosofia Clí-
que busca constantemente o conhecimento, e nica, não é sinônimo de oferecer um universo
não o do que detém o saber, visto ser impossí- pronto a esse outro, e que não lhe pertence,
vel a nossos limites de humanidade detê-lo, não transformando-o num outro eu, mas respeitar o
assumirá a postura daquele que impõe verdades seu universo, dispor-se a conhecê-lo e oferecer-
ao outro, daquele que detém o saber e portanto lhe ajuda dentro das possibilidades encontradas
indica o caminho certo, o caminho do bem. nesse universo. Ajudá-lo a acomodar, a transfor-
Será sim aquele que questiona, que interroga, mar, a modificar, a aceitar, a transmutar, a con-
que provoca o pensar. Mas também o que acolhe viver… ao que for a sua escolha, diante de
e que, principalmente, compreende que existem suas necessidades e possibilidades.
diferentes modos de ser. Que um modo de ser
não é, em si, melhor ou pior que outro. Que um 4. Conforme Código de Ética do Filósofo Clínico,
modo de ser pode ser mais adequado a um de- disponível em <http://www.filosofiaclinica.com.br>. Acesso
terminado contexto, pode ter sido estabelecido em 15 nov. 2004.

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Recebido em 16 de setembro de 2004


Aprovado em 29 de outubro de 2004

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