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CONTRIBUIÇÃO INDÍGENA E

AFRICANA NA FORMAÇÃO DO
POVO BRASILEIRO

TEMA: A IMPORTÂNCIA INDÍGENA NA FORMAÇÃO DO BRASIL


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Contribuição Indígena e Africana na Formação do Povo Brasileiro


Centro Universitário Leonardo da Vinci

Conteudista
Thiago Rodrigo da Silva

Reitor da UNIASSELVI
Prof. Hermínio Kloch

Pró-Reitora de Graduação a Distância


Prof.ª Francieli Stano Torres

Pró-Reitor Operacional de Ensino Graduação a Distância


Prof. Hermínio Kloch

Diagramação e Capa
Eloisa Amanda Rodrigues

Revisão:
José Roberto Rodrigues

Todos os direitos reservados à Editora Grupo UNIASSELVI - Uma empresa do Grupo UNIASSELVI
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A Importância Indígena na Formação do Brasil 1

1 INTRODUÇÃO
A importância da presença indígena na formação da sociedade brasileira
contemporânea é uma das principais temáticas que as crianças aprendem nas
escolas de primeiras letras. O dia 19 de abril é comemorado nos anos iniciais do
Ensino Fundamental e mesmo na pré-escola, quando as crianças usam cocares
feitos de papel nas cabeças e aprendem que o índio vive nu, tem várias mulheres
e foi muito importante para a vida brasileira, pois dele vêm muitos hábitos
cotidianos, como tomar banho todo dia e dormir na rede, além de parte de nossa
alimentação. Outra questão que se aprende nos bancos escolares, mas em geral
nos anos finais do ensino básico, é que muitos dos nossos topônimos têm origem
indígena: Maracanã, Morumbi, Paraná, Pacaembu, Paranaguá, Araguaia, etc.

O Brasil é uma nação que está em um contínuo processo de formação.


Isto porque somos um povo que teve como principal característica cultural
a mestiçagem. Todavia, a presença negra e a presença indígena não são
devidamente contempladas nos compêndios escolares de história ou mesmo
nas expressões artísticas veiculadas pela grande mídia eletrônica, como o rádio,
a televisão e o cinema. O indígena, neste sentido, é sempre representado
longe de suas características básicas como ser humano. Podemos observar dois
tipos ideais socialmente construídos no imaginário nacional sobre o índio: uma
exaltação positiva (bom selvagem) ou negativa (bárbaro), em tons exagerados.
Estas exaltações revelam muito do preconceito socialmente construído ao
longo de séculos de história.

Uma primeira visão existente e profundamente negativa sobre o indígena


é a do mesmo como um bárbaro canibal e polígamo. Pois seria esta a principal
característica de uma idealização conservadora: o índio como um depravado
sexual e ser sem dignidade, capaz até de se alimentar de carne humana. Esta
idealização conservadora, além de ver o indígena com as características já
descritas, ainda a ele se atribui outras facetas antagônicas à civilização ocidental
de matriz europeia. Enquanto o europeu colonizador seria progressista,
trabalhador e ético, o indígena seria a antítese: preguiçoso, espertalhão, um
típico mau caráter.

Uma segunda visão do indígena seria a pautada no mito do bom selvagem.


Um ser em perfeito contato com a natureza e ainda não maculado pelo mal
trazido pela civilização ocidental. Enquanto o ser humano ocidental estaria
sofrendo ou sendo agente dos males trazidos pelo progresso econômico,
como a poluição, a corrupção dos valores morais, trazidos pela ganância de
lucro traduzido em uma busca desenfreada por dinheiro e status, os indígenas
viveriam em uma espécie de paraíso: um regime de total coletividade de bens e
alimentos, sendo seu cotidiano saudável e marcado pela pureza de princípios e
caráter ilibado. A principal característica do mito do bom selvagem criado em
torno da vida indígena é o ideal de liberdade.

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FIGURA 1 – INDÍGENA

FONTE: Disponível em: <http://www.fiocruz.br/biosseguranca/Bis/infantil/


direitosdoindio.htm>. Acesso em: 20 set. 2012.

O ideal de liberdade indígena, presente tanto nos discursos positivos


e negativos sobre os primeiros habitantes do Brasil, afirma que os indígenas
não se submeteram à escravidão porque preferiam morrer a ser reduzidos
ao papel de escravos. Enquanto o negro teria pouca capacidade de viver em
liberdade (um ser passivo), o indígena seria o retrato de alguém com profunda
gana de independência, constituindo um homem ativo e dinâmico.

Estas são marcas perenes, na história brasileira, do contato entre a


civilização ocidental e os indígenas. Desde os primeiros contatos entre os
pioneiros portugueses e os indígenas, esta dupla visão, tanto do índio canibal
quanto do índio bom selvagem, estava presente. Podemos citar autores dos
séculos XV ao XVII que indicam esta dupla idealização em seus dois polos
antagônicos.

O padre jesuíta Antônio Vieira, um dos principais oradores do mundo


barroco ibérico seiscentista, possui sermões nos quais defende a necessidade
de se catequizar o indígena, recompensando com o reino dos céus para aqueles
que da catequese indígena, direta ou indiretamente, fizessem parte.
O Espírito Santo, que hoje desceu sobre os apóstolos e os
ensinou, para que ensinassem ao mundo, desça sobre todos
vós e vos ensine a querer ensinar ou deixar ensinar aqueles a
quem deveis a doutrina, para que eles por vós e vós por eles,

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A Importância Indígena na Formação do Brasil 3

conseguindo nesta vida (tão caro vos custa) a graça, mereçais


gozar na outra com grandes aumentos a glória. (VIEIRA, 1959,
p. 152)

Por outro lado, o padre jesuíta Fernão Cardim, autor do livro História
das Gentes e das Terras do Brasil, cuja primeira edição é datada do século
XVI, afirma a visão dos indígenas como canibais, descrevendo em pormenores
o ritual.
Morto o triste, levaram-no a uma fogueira que para isto está
prestes, e chegando a ela, em lhe tocado com a mão dá uma
pelinha pouco mais grossa que véu de cebola, até que todo
fica mais limpo e alvo que nem um leitão pelado, e então se
entrega ao carniceiro ou magarefe, o qual lhe faz um buraco
abaixo do estômago [...]. (CARDIM, 2009, p. 197).

Mesmo decorridos alguns séculos, a presença indígena na sociedade


brasileira é incompreendida, sendo presente a permanência de estereótipos
como os relatados nos textos acima descritos. Estas visões antagônicas são
ainda presentes no debate a respeito das demarcações das reservas, como
também nas discussões dos profissionais universitários das ciências humanas, e
revelam o quanto a permanência de mitos a respeito dos indígenas é útil para
os mais distintos posicionamentos políticos e acadêmicos.

Porém, ao invés de reduzirmos o debate a estes pontos, ou seja, a visão


positiva e negativa do indígena, nos permitiremos repensar algumas “verdades
cristalizadas” sobre o indígena na sociedade brasileira, desmentindo certos
mitos sociais, em especial o da ausência de escravidão indígena.

A escravidão indígena foi uma constante realidade no Brasil até o século


XIX. A escravidão foi muito presente nos extremos sul e norte da América
Portuguesa. Em São Paulo de Piratininga e São Vicente, os bandeirantes foram
os principais promotores de tal cativeiro. Pois muitas das entradas ao interior,
vencendo a Serra do Mar, tinham como principal função abastecer as cidades
coloniais do Brasil Meridional com os indígenas cativos (RIBEIRO, 2005, p. 98-
105).

Na região amazônica a presença indígena é culturalmente muito


marcante. Em relação à utilização da mão de obra indígena, esta foi a principal
força de trabalho nas chamadas reduções. As reduções eram um tipo de
aldeia que ficava sob a jurisdição de uma ordem religiosa. Os jesuítas foram os
principais religiosos na missão catequética na colônia luso-brasileira e foram
muitas as polêmicas que envolviam os religiosos e os colonos sobre o cativeiro
indígena. Em especial, pelos religiosos possuírem uma teologia elaborada na
Península Ibérica no século XVI e que negava ser cristão escravizar índios. Em
1561 houve a denominada grande querela entre o intelectual Sepúlveda e

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o frei Bartolomeu de Las Casas. “O frei dominicano defendia a liberdade


dos nativos americanos, enquanto Sepúlveda era favorável à utilização dos
indígenas como escravos a serviço da colonização” (HOFFNER, 1977, p. 74).

Porém, a importância do indígena para a formação do Brasil não se deu


apenas como braço cativo ao trabalho. A própria colonização do território
só foi possível devido a um complexo sistema de alianças realizadas entre
os indígenas e os portugueses, denominado pelo antropólogo Darcy Ribeiro
(2005) como “cunhadismo”. O “cunhadismo” foi uma forma de aliança entre
as tribos indígenas e o colonizador português, na qual um português se casava
com uma mulher indígena e assim possibilitava, aos lusitanos, aliados nas guerras
coloniais. Sendo o exemplo típico a Confederação dos Tamoios, na qual lusos e
franceses se aliaram a tribos distintas visando dominar a Baía de Guanabara.

FIGURA 2 – RITUAL INDÍGENA

FONTE: Disponível em: <http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/indios-brasileiros /


populacao-indigena-3.php>. Acesso em: 20 set. 2012.

Na época da colonização portuguesa, o idioma mais falado no território


do Brasil meridional era a denominada língua geral. Esta era uma normatização
do idioma tupi-guarani realizada pelos religiosos catequistas, com o objetivo
de evangelizar os indígenas. “Grande parte dos bandeirantes, responsáveis
pela penetração no interior do território, não falava português, mas sim a
língua geral” (RODRIGUES, 1985, p. 41).

A língua portuguesa se tornou o idioma falado no Brasil devido a um


decreto do Marquês de Pombal, no documento denominado Diretório dos
Índios do Grão-Pará e Maranhão, que também atingiu as reduções do sul da
colônia portuguesa. Através deste documento, a jurisdição sobre os indígenas

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saiu da tutela dos religiosos e passou para o domínio do Estado português.


Entre as disposições do novo documento legal estava a obrigatoriedade de
se ensinar a língua portuguesa aos indígenas. Este é um dos principais dados
que os estudiosos atribuem à influência indígena na formação do português
falado no Brasil.

Uma importante visão que devemos ter sobre os indígenas é que os


mesmos não foram um grupo único. Assim como na Europa existem diversas
famílias linguísticas, como os idiomas latinos, nórdicos ou eslavos, por exemplo,
entre os nativos americanos o mesmo ocorre. Existem quatro troncos
linguísticos entre os indígenas brasileiros. Os indígenas do tronco tupi-guarani
habitavam o litoral e foram aqueles com os quais os portugueses tiveram o
primeiro contato no processo de colonização. A língua geral provinha de uma
variante do tupi-guarani.

A guerra era uma presença na vida indígena colonial. Por vezes, as guerras
tinham funções sociais específicas, como no caso dos Tupinambás, em relação à
conquista de mulheres da tribo vizinha e do estabelecimento de solidariedades.
Existia também um ritual de paz denominado Kuarup, no qual se realizavam
festividades, danças, trocas de presentes e alianças realizadas através de
casamentos entre membros de tribos distintas (FERNANDES, 2005).

Com o processo de independência e a constituição do Império do Brasil,


a situação dos indígenas se agravou, pois a principal ordem que trabalhava
diretamente com os índios, a Companhia de Jesus, havia sido expulsa das terras
dominadas por Portugal por um decreto pombalino. Além disto, o papa Clemente
VII extinguiu a Ordem dos Soldados de Jesus. Os jesuítas foram substituídos por
padres da Ordem do Oratório. Porém, os oratorianos não tiveram o mesmo
destaque dos seguidores de Santo Inácio de Loiola (BOXER, 2002).

O Império promoveu uma imigração em massa de colonos europeus


trazidos das mais diferentes regiões da Europa, como os alemães, italianos
e espanhóis. Muitas das colônias formadas no Brasil Meridional e que foram
povoadas por europeus não ibéricos e seus descendentes foram criadas em
terras antes ocupadas por indígenas. No sul do Brasil foi comum a presença da
figura do bugreiro, o homem encarregado de matar índios para a colonização
do território. Uma das principais formas do bugreiro provar seus homicídios
era cortar a orelha do cadáver indígena. Esta prática comum no século XIX
contrasta com a absorção que a literatura fez do indígena.

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FIGURA 3 – ÍNDIOS

FONTE: Disponível em: <http://portalamazonia.globo.com/new-structure/view/scripts/


noticias/noticia.php?id=80592>. Acesso em: 20 set. 2012.

O romantismo foi uma corrente literária dos novecentos que tinha no


nacionalismo uma das suas principais ideologias. Uma corrente de origem europeia
e vinculada à reorientação social dos Estados Nacionais da Europa após a era
napoleônica. Os ideólogos literatos românticos tinham nos cavaleiros medievais
uma forma de exaltação da coragem, da bravura e do patriotismo. Heróis como
a francesa Joana D’arc e o espanhol El Cid eram rememorados. Como o Brasil
não teve uma Idade Média, fez-se uma vinculação destes “nobres ideais morais”
dos cavaleiros andantes com os indígenas. Assim, muito do chamado romance
indigenista, que teve em I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias, e nos romances Iracema
e O Guarani, ambos da autoria de José de Alencar, seus principais títulos, eram
adaptações à brasileira do nacionalismo europeu. José de Alencar foi senador
do Império e dono de escravos. Com isto, podemos pensar que a idealização
do indígena servia como modo ideológico de se manter as relações sociais de
exclusão que caracterizaram o Brasil no século XIX.

A situação do indígena durante o Brasil Império é atualmente alvo


de estudos de teses universitárias nas ciências humanas, que tentam suprir a
lacuna de informações sobre a atuação social das tribos indígenas. Muitas das
revoltas sociais do período regencial, como a Balaiada e a Cabanagem, tiveram
ampla participação de índios desenraizados de suas tribos originais. Também
é provável a participação indígena na Guerra do Paraguai. Porém, são estudos
novos, que ainda estão passando pelo crivo acadêmico e que lançam novas
luzes sobre a importância deste segmento social.

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A condição indígena mudou radicalmente de aspecto com o advento


da República, pois os sucessivos governos republicanos demonstraram uma
conduta distinta na relação com os indígenas daquelas dos tempos da Colônia
e do Império. Um marco fundamental da alteração da relação entre indígenas
e o Estado Nacional Brasileiro foi a Missão Rondon.
Cândido Mariano da Silva Rondon foi um militar de carreira
do Exército que em vida atingiu o posto de Marechal. Sua
contribuição para a causa indígena é inestimável e começou
quase ao acaso. Em 1898 foi incumbido, como oficial, de levar
os cabos telegráficos do Rio de Janeiro para Cuiabá, a capital
de seu Estado natal, o Mato Grosso. Porém, para realizar a
expedição em pontos até então pouco explorados do sertão,
teve de entrar em contato com diversas tribos indígenas.
Porém, ao invés de matar os indígenas, como era usual, Rondon
teria dito a frase símbolo de sua militância: “Morrerei se
preciso, matarei jamais!” Os militares da Missão Rondon tinham
métodos distintos para contatar os índios, como irradiar sons
musicais com gramofones em plena floresta. As primeiras
imagens cinematográficas feitas dos indígenas foram realizadas
pela Missão Rondon. A missão também teve a incumbência de
demarcar as fronteiras brasileiras. Isto ampliou o contato com
os indígenas das regiões do Pantanal e da Amazônia (RIBEIRO,
2005, p. 147-148).

Os sertanistas receberam este legado e foram capazes de ampliar o


contato do dito homem branco com os nativos da terra brasileira. Os irmãos
Cláudio e Orlando Villas-Boas foram os principais sertanistas brasileiros, com
uma fundamental militância a favor dos índios habitantes do Parque Nacional do
Xingu. O antropólogo Darcy Ribeiro também teve função destacada no estudo
e no contato com as sociedades indígenas. Na década de 1950 foi o fundador e
diretor do Museu Nacional do Índio, sediado na cidade do Rio de Janeiro.

No ano de 1919 foi criada a primeira instituição, pelo Governo Federal,


com o estrito objetivo de auxiliar o indígena. Trata-se do Sistema de Proteção
ao Índio (SPI). O SPI era um órgão que teve como principal articulador Rondon.
Porém, após alguns anos Rondon se afasta do órgão e o mesmo acaba sendo
esvaziado. Em 1968 o SPI foi substituído pela Fundação Nacional do Índio
(Funai), órgão do Governo Federal que até hoje tem a função de zelar pelo
bem-estar destas populações.

Com o desenvolvimentismo dos anos 1960-70, as populações indígenas


sofreram com um aumento da presença de “homens brancos” em locais
que eram tradicionalmente florestas. Desde fins do século XIX houve uma
designação para povoar o interior do Brasil comandada pelo Estado. As capitais
estaduais Belo Horizonte (1895) e Goiânia (1942), além da capital federal
Brasília (1960), foram cidades planejadas com a função de povoar o interior e

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ser ponta de desenvolvimento de áreas pouco exploradas economicamente.


Nos anos 1970 os governos militares incentivaram o povoamento do Pantanal
e da floresta amazônica, transformando estas áreas em locais de produção de
gado e soja. A floresta e seus habitantes, as tribos indígenas, sofreram muito
com a devastação e o assassinato de índios que lutavam pela demarcação das
suas terras, indevidamente exploradas pelos sulistas.

Com a Constituinte, em 1988, muita coisa a respeito dos indígenas


mudou, pois foram criadas legislações específicas. Porém, os indígenas
continuaram a ser considerados tutela do Estado. Assim, muitos indígenas não
possuem acesso à cidadania, como o direito ao voto. Um ponto polêmico é
o da não obrigatoriedade dos indígenas em aprender o português. Isto é, as
escolas nas aldeias devem ensinar a língua da tribo, não sendo obrigatório aos
professores o ensino do idioma oficial do Estado Nacional Brasileiro. Em relação
à busca por cidadania, durante a Constituinte de 1988 existiu um parlamentar
indígena, o Juruna. Porém, acabou se tornando muito mais uma figura caricata
do que um líder dos povos na luta por direitos e acesso à cidadania.

2 O COTIDIANO INDÍGENA NA ATUALIDADE


Na atualidade o cotidiano das populações indígenas é muito diferente
daqueles descritos nos relatos dos portugueses que aportaram nas terras das
costas do Pau-Brasil no século XVI. Não temos necessariamente os mesmos
rituais, as mesmas guerras e festas de paz que existiam nos séculos passados.
Toda a expansão do Brasil rumo ao interior foi feita em contato/conflito com
as populações ameríndias. Com isto, a população indígena foi se aculturando,
sendo influenciada por hábitos e costumes dos homens brancos, assim como
o homem branco também se influenciou com a presença cultural indígena. O
indígena de hoje possui uma vida que não se opera da mesma forma que nos
tempos das grandes navegações, porque a vida social e cultural se modificou
ao longo dos séculos. Muitos eventos, como a exploração da mão de obra, a
catequização e, por fim, as demarcações de terras, ocorreram.

As demarcações de terras indígenas são um grave problema social.


Isto porque muitas das aldeias têm um riquíssimo subsolo, ambicionado por
empresários nacionais e por companhias multinacionais. Entidades de defesa
do meio ambiente das mais variadas nacionalidades também utilizam os povos
indígenas como massa de manobra em suas politicagens. Assim, o indígena
sofre o duplo preconceito, pois apenas serve de modo idealizado como bom
selvagem ou então é o estorvo a impedir o lucro capitalista. Ao que parece,
não tem serventia como aquilo que é: um ser humano que merece respeito e
dignidade.

Algumas populações indígenas sofrem com problemas gravíssimos e de

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difícil solução, como os suicídios cometidos por jovens de tribos nos Estados
de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Assim como o alcoolismo impera
em algumas aldeias. Porém, existem locais nos quais o acesso às benesses
governamentais, casado com lideranças competentes e responsáveis, gerou
bons resultados. Tribos que possuem acesso à tecnologia, às informações do
mundo globalizado e, ao mesmo tempo, mantendo as suas tradições. Algumas
universidades possuem uma política de cotas para os alunos indígenas. Com
isto se busca assegurar ao indígena uma forma de acesso ao Ensino Superior.

Além do Governo Federal, através da Funai, existem outros órgãos que


atuam nesta temática. Entre os órgãos existentes podemos citar as inúmeras
Organizações Não Governamentais (ONGs), que militam de múltiplos modos
no amparo a estas populações. Outros são os órgãos ligados às igrejas cristãs e
que estão há muitos anos fazendo trabalhos, tanto os ainda ligados aos ideais
evangelizadores quanto os adeptos dos novos conceitos antropológicos de
relatividade cultural e respeito das diferenças civilizacionais.

As igrejas ligadas ao ideal evangelizador, em geral, são as denominações


evangélicas. Alguns exemplos são os das igrejas protestantes brasileiras
(Assembleia de Deus), quanto aquelas advindas dos Estados Unidos da América
(batistas, adventistas, etc.). Todavia, a Igreja Católica possui o principal órgão
não governamental que lida com os indígenas e se relaciona aos novos métodos
antropológicos de relatividade cultural. Trata-se do Conselho Indigenista
Missionário (Cimi), uma entidade que atua nas mais variadas ações em defesa
dos primeiros habitantes da terra brasileira. O bispo de São Félix do Araguaia
e Vale do Xingu, D. Pedro Casaldáliga, é um dos principais nomes em relação
aos direitos indígenas, com forte atuação junto aos órgãos dos governos
estrangeiros e brasileiros em relação à defesa das reservas indígenas.

O dia a dia indígena hoje, em muitas tribos, não faz jus às representações
sociais e escolares dos indígenas. O andar nu pelas matas foi substituído, em
muitos casos, pelas roupas e hábitos ocidentais. Assim como a escolarização
está a cada dia aumentando em relação a toda a população, e os indígenas,
apesar de em grau menor, acompanham este processo geral da sociedade
brasileira. A visão estereotipada está cedendo lugar a uma visão mais realista
dos indígenas brasileiros. Esta visão mais realista é auxiliada com as investigações
científicas a respeito dos indígenas.

3 PRODUÇÃO CIENTÍFICA SOBRE A TEMÁTICA INDÍGENA


A produção científica brasileira sobre a temática indígena é vasta e
está ainda em processo de expansão. A maior parte dos estudos é realizada

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por antropólogos, seguidos em menor monta pelos sociólogos e historiadores.


As fontes de estudo são variadas, dependendo da disciplina do conhecimento
à qual o pesquisador está vinculado.

Em relação aos indígenas históricos, como os dos primeiros anos do Brasil


Colonial, as principais informações sobre os indígenas são aquelas retiradas
dos relatos de viajantes que estiveram no Brasil nos séculos XVI, XVII e XVIII.
Existem muitas crônicas históricas sobre a vida indígena na colônia. A Carta de
Pero Vaz de Caminha, a Relação do Piloto Anônimo, a História do Brasil de
frei Vicente Salvador, o Tratado das Terras e Gentes do Brasil, de Fernando
Cardim, a História da Província de Santa Cruz, de Pero de Magalhães Gândavo,
a História da América Portuguesa, de Sebastião da Rocha Pitta, e os Sermões
do Padre Antônio Vieira, são alguns exemplos destas informações sobre os
indígenas.

As fontes de informação sobre o indígena brasileiro durante o Império


são as que estão sob a guarda dos arquivos públicos. Por vezes, certidões
de batismo e casamento das igrejas em que se reconhecem alguns indícios, as
listagens dos recrutamentos militares e congêneres. No século XX, além da
documentação produzida pelos departamentos estatais específicos, como SPI
e Funai, existem inúmeros relatos etnográficos dos antropólogos.

Os antropólogos brasileiros e estrangeiros realizam os chamados


trabalhos de campo. Trata-se de visitas às aldeias, nas quais os pesquisadores
passam por um processo de aculturação, vivendo de acordo com os hábitos
e costumes dos indígenas. Neste trabalho eles escrevem um relato diário,
em um caderno, no qual apontam suas experiências e abordam as questões
relativas às observações sobre o cotidiano, as diferenças e as semelhanças
culturais com os indígenas. Neste sentido, os relatos antropológicos auxiliam
na compreensão das diferentes nações.

A sociologia utiliza dos relatos antropológicos e históricos em seus


estudos com os indígenas. Porém, o sociólogo realiza em geral o trabalho de
gabinete, não tendo uma vinculação direta com o relato etnográfico. Por sua
vez, os historiadores trabalham tanto com os índios históricos quanto com os
do presente, utilizando as entrevistas de história oral, nas quais gravam as falas
dos indígenas sobre temas do interesse da pesquisa a ser realizada.

Muitos dos estudos realizados pelas ciências humanas sobre os indígenas


foram publicados em livros. Podemos citar alguns exemplos: A função social
da guerra na sociedade tupinambá, do sociólogo Florestan Fernandes, é um
clássico sobre o tema. Os índios e a civilização e O Processo Civilizador, de
autoria de Darcy Ribeiro, são livros importantes. Na atualidade, Viveiros de
Castro possui importantes trabalhos na área. Pierre Clastres, em O Infortúnio

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do Guerreiro Selvagem, é um exemplo de estrangeiro que trabalhou na área.


Em relação aos indígenas do sul do Brasil, Sílvio Coelho dos Santos escreveu
trabalhos importantes. John Manoel Monteiro, nos Segredos Internos, abordou
as questões sobre a escravidão indígena. Manoela Carneiro da Cunha organizou
o principal livro da atualidade. Trata-se da História dos Índios do Brasil, uma
obra coletiva, em que muitos dos principais pesquisadores retratam a história
dos indígenas brasileiros desde as remotas épocas coloniais até o presente.

Muitos outros pesquisadores trabalharam com a temática, porém


estes são alguns dos principais títulos para os que desejam aprofundar seus
conhecimentos. A importância do conhecimento sobre eles é fundamental.
Os indígenas são importantíssimos na atualidade brasileira e merecem maior
respeito e consideração por parte da sociedade brasileira.

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AUTOATIVIDADE
1 Leia a afirmação do antropólogo Darcy Ribeiro (2005, p. 58) e responda:
“O europeu que, forçando a tradição bíblica, fizera do deus dos hebreus o rei
dos homens, agora tinha que incluir aquela indianidade pagã na humanidade
do passado, entre os filhos de Eva expulsos do paraíso, e do futuro, entre os
destinados à redenção eterna”.
Qual a diferença entre as posturas das igrejas cristãs no atual relacionamento
das mesmas com as tribos indígenas?
2 Leia a afirmação do antropólogo Darcy Ribeiro (2005, p. 147) e responda:
“Fundado nos princípios políticos de Augusto Comte, mas superando-
os largamente, Rondon e seus companheiros estabeleceram um corpo de
diretrizes que por décadas orientaram uma política indigenista oficial”.
Por que as ações da Missão Rondon e dos sertanistas representaram uma
modificação radical na relação do Estado brasileiro com os indígenas?
3 Leia a afirmação do historiador José Honório Rodrigues (1989, p. 41) e
responda:
“O tupi era a língua doméstica, familiar e corrente dos colonos, e o português a
língua oficial, que as crianças, mamelucos e também filhos de índios aprendiam
nas escolas mas não falavam em casa”.
O que foi o Diretório dos Índios do Grão-Pará e Maranhão?

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A Importância Indígena na Formação do Brasil 13

REFERÊNCIAS
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VIANNA, Francisco José Oliveira. Populações do Brasil Meridional e Instituições


Políticas do Brasil. Brasília: Ed. Senado, 1982.

VIEIRA, Antônio. Sermões. Porto: Ed. Lello e Irmãos, 1959.

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14 Contribuição Indígena e Africana na Formação do Povo Brasileiro

GABARITO
1 Leia a afirmação do antropólogo Darcy Ribeiro (2005, p. 58) e responda:
“O europeu que, forçando a tradição bíblica, fizera do deus dos hebreus o rei
dos homens, agora tinha que incluir aquela indianidade pagã na humanidade
do passado, entre os filhos de Eva expulsos do paraíso, e do futuro, entre os
destinados à redenção eterna”.
Qual a diferença entre as posturas das igrejas cristãs no atual relacionamento
das mesmas com as tribos indígenas?
R.: As igrejas cristãs possuem, em geral, duas posturas distintas na
relação com as tribos indígenas. Existem aquelas que se mantêm
ligadas ao ideal de evangelização e outras que partem do conceito
antropológico de relatividade cultural e respeito às diferenças. Entre
as que se relacionam aos ideais de evangelização, podemos citar as
igrejas pentecostais (Assembleia de Deus) e vindas ao Brasil com as
missões norte-americanas (batistas e adventistas). O principal órgão da
maior igreja cristã brasileira, a Igreja Católica, é o Conselho Indigenista
Missionário (Cimi) e se relaciona aos novos métodos antropológicos de
relatividade cultural.

2 Leia a afirmação do antropólogo Darcy Ribeiro (2005, p. 147) e responda:

“Fundado nos princípios políticos de Augusto Comte, mas superando-


os largamente, Rondon e seus companheiros estabeleceram um corpo de
diretrizes que por décadas orientaram uma política indigenista oficial”.

Por que as ações da Missão Rondon e dos sertanistas representaram uma


modificação radical na relação do Estado brasileiro com os indígenas?

R.: A Missão Rondon inovou a relação com os indígenas, pois ao invés


de tratá-los com violência e ser um promotor do contínuo massacre a
estas populações, buscou métodos pacíficos no relacionamento com os
índios. Os sertanistas, entre os quais se destacaram os irmãos Villas-Boas,
continuaram o legado iniciado pelo Marechal Rondon e seus soldados.

3 Leia a afirmação do historiador José Honório Rodrigues (1989, p. 41) e


responda:

“O tupi era a língua doméstica, familiar e corrente dos colonos, e o português a


língua oficial, que as crianças, mamelucos e também filhos de índios aprendiam
nas escolas mas não falavam em casa”.
O que foi o Diretório dos Índios do Grão-Pará e Maranhão?
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A Importância Indígena na Formação do Brasil 15

R.: O Diretório dos Índios foi um documento datado do século XVIII,


expedido pelo Marquês de Pombal e que retirou a jurisdição dos
indígenas, durante o Brasil Colonial, da responsabilidade das ordens
religiosas, dentre as quais se destacaram os jesuítas. No lugar dos
religiosos, agentes do Estado português deveriam se responsabilizar
pelos mesmos. A principal consequência foi a obrigatoriedade do
ensino da língua portuguesa nas aldeias, terminando assim a utilização
da língua geral na maior parte do território brasileiro.

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