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UNIVERSIDADE CRUZEIRO DO SUL

Marcos Willian Saran

A GUERRA FRIA
NO CINEMA NORTE - AMERICANO DO SECULO XXI

São Paulo
2015
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Marcos Willian Saran

A GUERRA FRIA NO CINEMA NORTE – AMERICANO DO SECULO XXI

Monografia realizada como critério de


avaliação parcial para obtenção do titulo de
Bacharel em curso da Universidade Cruzeiro
do Sul.
Área de Concentração: História
Orientador: Edgar Gomes

São Paulo
2015
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Marcos Willian Saran

A GUERRA FRIA NO CINEMA NORTE – AMERICANO DO SECULO XXI

Monografia realizada como critério de


avaliação parcial para obtenção do titulo de
Bacharel em curso da Universidade Cruzeiro
do Sul.
Área de Concentração: História
Orientador: Edgar Gomes

_______________________________________________________________________
Edgar Gomes
Universidade Cruzeiro do Sul

__________________________________________________________________________
Silvio Pinto Ferreira
Universidade Cruzeiro do Sul
4

A todos os amantes desta coisa maravilhosa


chamada Cinema.
5

AGRADECIMENTOS

À UNICSUL pelos 4 ótimos anos que tive em contato com o conhecimento e com
pessoas que levarei pelo resto da minha vida.

Aos meus queridos professores de graduação: Ana Barbara, Edgar, Silvio, Avelar,
Maíra e Andreia pelo conhecimento transmitido nesses anos.

Aos meus colegas de graduação, em especial: Thiago Castro, Nathalie Rosa e Flávio
Rodrigo.

A minha mãe Mariana e meu pai Nelsidio por terem me criado e pelo amor
incondicional que me deram.

E em termos gerais, obrigado a todos que estiveram em apoiando desde o primeiro


dia.
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RESUMO

O trabalho aqui apresentado tem o objetivo de analisar as representações dos


acontecimentos referentes ao período da Guerra Fria nos filmes norte - americanos produzidos
durante o século 21. Serão abordados a Historia no Cinema, uma visão geral sobre a Guerra
Fria e uma analise dos filmes escolhidos dentro do contexto histórico inserido neles. As
considerações a respeito deste trabalho são: a importância de se analisar a representação de
eventos históricos no cinema atual, a relevância do Cinema como fonte histórica e portador de
discursos politico - ideológicos e a permanência da mentalidade patriótica e belicista no
cinema americano, mesmo que contenha algumas criticas contundentes as ações internas e
externas feitas durante o conflito.
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ABSTRACT

The work presented ains to analyze the representations of events related to the period in
American films produced during the century 21. The following subjects are covered: the
history in Cinema, an overview of the Cold War, and an analysis the films selected within the
historical context into them. As considerations on the work are: the importance of analyzing
this events historical representation in Cinema present, the Cinema of relevance as historical
source and carrier speeches politic - ideological and residence the patriotic mentality and
warmonger in cinema american, even if some critical contudences internal and external
actions during the conflict.

.
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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO 09

1. CINEMA E HISTÓRIA 11
1.1 Os Historiadores e o Cinema 11
1.2 Leitura e Interpretação das fontes fílmicas 11

2. GUERRA FRIA 14
2.1 As Conferências que Definiram o Conflito 14
2.2 Truman e Kennam 15
2.3 A Reação Soviética 17
2.4 A Cortina de Fero Mostra a Sua Dureza 18
2.5 A Queda do Martelo 20
2.6 O Legado da Guerra Fria e o Mundo Após Ela 21

3. ANALISE DOS FILMES 23


3.1 Boa Noite, e Boa Sorte 23
3.2 Jogos do Poder 28
3.3 X - Men: Primeira Classe 32

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS 37

BIBLIOGRAFIA 38
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INTRODUÇÃO

Um dos períodos mais conturbados da historia da humanidade foi a Guerra Fria. O


medo de uma guerra nuclear entre as potencias rivais Estados Unidos e União Soviética fazia
parte do imaginário popular da época. Este imaginário acabou sendo captado pelo cinema e
foi amplamente abordado. Nos filmes norte - americanos, os soviéticos eram retratados como
seres que pretendiam dominar o mundo para disseminar o comunismo, ao passo que os
americanos eram retratados como defensores da liberdade, justiça e democracia, sempre
vencendo seus oponentes no final, passando aos espectadores a mensagem de que somente os
Estados Unidos da América são os guardiões da paz e da liberdade no mundo.

A Guerra Fria acabou, mas os discursos político - ideológicos relacionados a ela


continuam. Chegamos ao século 21 e agora precisamos analisar como o cinema norte-
americano retrata a Guerra Fria, se há espaço para criticas aos excessos cometidos pelos
americanos e principalmente se o discurso de cunho patriótico ainda permanece.

Para se chegar a uma conclusão sobre as representações do conflito da Guerra Fria no


cinema atual serão analisados os filmes Boa Noite, e Boa Sorte, Jogos do Poder e X-Men:
Primeira Classe.

Boa Noite e Boa Sorte mostra o embate do apresentador Edward R. Murrow com o
Senador Joseph McCarthy por conta de suas táticas de perseguição a supostos comunistas
dentro do território americano. Este filme se destaca por se basear em uma historia real sobre
o Macarthismo, que foi um período de violação dos direitos civis, tão caros para a sociedade
americana.

Jogos do Poder se baseia na historia real do deputado Charles Wilson, que com a
ajuda do espião da CIA, Gust Avrakotos foi responsável pela organização e patrocínio das
guerrilhas mujahediens que lutavam contra a ocupação soviética no Afeganistão. O filme
aborda o desenrolar da politica externa norte-americana aplicada pelo então presidente Ronald
Reagan com o intuito de liquidar o “Império do Mal”, representado pela União Soviética e
seus aliados.
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X-Men: Primeira Classe se baseia nas historias em quadrinhos dos X-Men, da


Marvel Comics e conta a historia da formação dos primeiros humanos mutantes e se situa em
meio a Crise dos Misseis de Cuba. Apesar de ser um filme de ficção, ele tem a sua relevância
validada por aproveitar um evento histórico para desenvolver o seu enredo e criar uma
releitura deste.

Após estas analises concluiremos este trabalho com uma possível contribuição para o
tema.
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1. CINEMA E HISTORIA

Neste tópico será abordada a relação que o historiador tem com as fontes fílmicas e
os métodos de analise que ele usa em suas pesquisas.

1.1 Os Historiadores e o Cinema

As relações de poder refletiram por muito tempo no tipo de fontes históricas que os
historiadores usavam. Primariamente vinham os documentos de Arquivos de Estado, das
casas de poder, dos parlamentos e dos tribunais de contas. Em seguida, vinham os textos
jurídicos e legislativos e a seguir os jornais. As biografias, fontes de historia local e relatos de
viajantes ficavam por ultimo, isso quando eram usadas. (FERRO, 1992)

O filme não tinha o devido reconhecimento da parte das pessoas cultas, pois era
conhecido como “atração de feira” por não se conhecer os seus autores. Por ser uma cultura
de massa, era ignorada pelos historiadores por ser uma fonte de alienação e não de cultura.

Com a ascensão da Nova Historia e sua historia das mentalidades, a possibilidade de


utilização de novas fontes foi finalmente, afirmada no campo da História. O historiador
francês Marc Ferro teve papel importante na abordagem do Cinema como fonte histórica.

Para Ferro, o Cinema é um testemunho singular de seu tempo, pois está fora do
controle de produção de qualquer instancia. Nem a censura consegue domina-lo. Segundo o
autor, o filme traz uma tensão que lhe é propria ,trazendo elementos que viabilizam uma
analise da sociedade diversa da proposta pelos seus segmentos, tanto o poder constituido
como a oposição. O filme serve como um “contra-poder” por ser autonomo em relação aos
diversos poderes da sociedade:

O filme tem essa capacidade de desestruturar aquilo que homens de Estado e


pensadores conseguiram ordenar em um belo equilibrio.Ele destroi a
imagem do duplo que cada instituição, cada individuo conseguiu construir
diante da sociedade.(Idem, p.86)
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O autor vê que o desprezo da sociedade e dos historiadores pelo cinema reflete um


distanciamento do historiador diante de informações de alguma outra natureza como risos,
gestos e gritos, sempre considerados “produtos de discursos tidos como futeis e subalternos,
[que] escapavam do olhar do historiador, por razões tanto sociologicas e ideologicas como
tecnicas.”

1.2 A Leitura e Interpretação da Fonte Filmica

Antes de discutir a leitura e interpretação do filme, é presciso reiterar as três


possibilidades da relação entre História e Cinema: O Cinema na Historia, que trata como o
Cinema é visto como fonte primaria para a investigação historiografica;a Historia no Cinema,
que aborda o cinema como portador de “discurso historico” e como “interprete do passado” e
a Historia do Cinema, que enfatiza o estudo dos “avanços tecnicos” da linguagem
cinematográfica e das condições sociais de produção e recepção de filmes.

Sobre o uso de filmes de ficção como fonte histórica, temos dois pontos a serem
problematizados. O primeiro se refere ao tipo de realidade que o filme de ficção poderia
retratar, pois a visão que o autor do filme tem da realidade pode interferir na retratação desta.
O segundo se refere ao fato de que o imaginário de uma sociedade pode interferir na
retratação filmica da realidade.

Com relação ao segundo ponto, Marc Ferro diz que “aquilo que não aconteceu, as
crenças, as intenções, o imaginário do homen, são tão historia quanto a aprópria Historia.”
Assim, o filme de ficção se manifesta não só em questões referentes ao imaginário de uma
sociedade, mas tambem em construir discursos sobre a sociedade que o produz, apontando
para suas ambiguidades e tensões.

Outra questão se refere a forma que o historiador analisa a recepção do filme pela
sociedade. Quais são as reações do publico em relação ao filme? A recepção perante a critica
e o publico se deu de que forma? Era um filme produzido por grandes corporações ou se trata
de uma produção independente? Essas questões ajudam a esclarecer o quão significativo o
filme foi para a sociedade e o quão ele demostra dela.
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Sendo o filme um portador de discursos, uma das medidas que um pesquisador deve
tomar ao analisar um filme como fonte histórica é buscar os elementos narrativos que
poderiam ser sintetizados na dupla pergunta: “o que o filme diz e como diz”.

Pode-se também fazer perguntas de cunho sociológico: como o filme representa, por
meio de seus personagens, os papeis sociais que identificam as hierarquias e lugares na
sociedade representada? Quais os tipos de conflitos sociais descritos no roteiro? Quais as
maneiras como aparecem a organização social, as hierarquias e instituições sociais; como se
dá a seleção de fatos, eventos, tipos e lugares sociais encenados? Qual é a maneira de
conceber o tempo: histórico-social ou biográfico? O que se pede ao espectador: identificação,
simpatia, emoção, rejeição, reflexão, co-ação?

E o mais importante: Cinema é manipulação e é essa sua natureza que deve ser
levada em conta no trabalho historiográfico, com todas as implicações que isso representa.
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2. GUERRA FRIA

2.1 As Conferências que Definiram o Conflito

Durante os conflitos da Segunda Guerra Mundial, Josef Stalin, Winston Churchill e


Franklin Roosevelt – representando respectivamente os governos da União Soviética, da Grã-
Bretanha e dos Estados Unidos – encontraram-se em Teerã, Irã, de 28 de novembro a 3 de
dezembro de 1943, para anunciar ao mundo sua união com o objetivo de derrotar as forças do
Eixo, representado pela Alemanha, Itália e Japão.

O encontro parecia representar um sinal de boa vontade para os mais otimistas que
esperavam que aquela união militar evoluísse para uma nova relação de entendimento entre as
grandes potencias, assim que a guerra acabasse. A cooperação nos campos de batalha poderia
dar origem a uma nova ordem internacional baseada mais no dialogo do que no confronto,
capaz de evitar novas aventuras bélicas e expansionistas, como a do Terceiro Reich e seus
aliados italianos e japoneses.

De 4 a 11 de Fevereiro de 1945, os três se reuniram de novo em Yalta, União


Soviética, desta vez para discutir que medidas tomar depois do fim da guerra. Foram definidas
as fronteiras soviéticas e as bases dos novos regimes a serem implantados nos países da
Europa Oriental. A União Soviética adquiria os territórios pertencentes à Polônia e a Romênia
e seriam formados governos de união nacional nos países da Europa oriental liderados pelos
comunistas.

Em Abril, Roosevelt morreu de hemorragia cerebral e Harry Truman, seu vice,


assumiu a Presidência dos Estados Unidos. As tropas soviéticas cercaram Berlim, levando
Hitler ao suicídio. No inicio do mês seguinte, as forças alemãs renderam-se aos aliados.

Entre os dias 17 de Julho e 2 de Agosto de 1945, realizou-se a Conferência de


Potsdam, Alemanha, onde se definiu a divisão do território alemão em quatro áreas de
controle repartidas entre Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e União Soviética. A
conferência foi marcante pelo fato das divergências entre norte-americanos e soviéticos serem
maiores do que as convergências. A desconfiança foi o sentimento dominante entre os dois.
Stalin não aceitava retirar suas tropas do Leste europeu e os americanos não aceitavam a
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proposta uma nova fronteira ocidental para a Polônia que previa a incorporação de parte do
território alemão. Todo esse impasse impediu a concretização de um controle unificado da
Alemanha.

Assim, a Conferência da Potsdam deixou claro que a cooperação dos anos de guerra
não se manteria em tempos de paz.

2.2 Truman e Kennam

Temendo que a Grécia e a Turquia caíssem sob o domínio soviético, em 12 de Março


de 1947, Truman faz um discurso no Congresso americano onde pede ajuda financeira a esses
países:

No presente momento, praticamente todos os países tem de escolher


entre formas de vida alternativas. Muito frequentemente essa escolha não é
livre.

Uma forma de vida é baseada na vontade da maioria e se


distingue por instituições livres, governo representativo, eleições livres,
garantias a liberdade individual, liberdade de expressão e ausência de
opressão politica.

Uma segunda forma de vida é baseada na vontade da minoria,


imposta pela força, recorre ao medo e a opressão, um radio e uma imprensa
controlada, as eleições decididas de antemão e a supressão de liberdades
individuais.

Creio que os Estados Unidos devem apoiar os povos livres que


resistem a tentativa de servidão por minorias armadas ou pressões externas.
Creio que devemos ajudar os povos livres a forjarem seus destinos com suas
próprias mãos.

É necessário olhar para um mapa para saber que a


sobrevivência e a integridade da nação grega são de grande importância em
uma situação mais ampla. Se a Grécia cair sob o domínio de uma minoria
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armada, o efeito sobre seu vizinho, Turquia, será imediato e serio. Confusão e
desordem se espalharão pelo Oriente Médio.

Os povos livres olham para nós esperando apoio na manutenção


da liberdade.

Se fracassarmos na nossa missão de liderança, estaremos pondo


em risco a paz no mundo e certamente a da nossa nação. 1

Estava lançada então a Doutrina Truman. Esta tinha influencia da Doutrina Monroe,
que atribuía aos EUA um papel de liderança internacional e missão geopolítica em defesa das
áreas de influencia e do conselheiro americano na embaixada em Moscou, George Frost
Kennam, que enxergava a União Soviética como antagonista irreconciliável com o mundo
capitalista e sua tendência expansionista só poderia ser detida mediante uma hábil e vigilante
aplicação de contraforça em uma serie de pontos geográficos e políticos em constante
mudança, correspondentes às mudanças e manobras da politica soviética. Ou seja, Kennam
imaginava que era possível bloquear o avanço soviético ponto por ponto.

Na visão de Kennam, grande parte da estrutura de poder da União Soviética estava


diretamente envolvido no aperfeiçoamento da ditadura de Stalin e com a manutenção do
conceito de que a Rússia vivia em permanente estado de sitio, com inimigos se amontoando
em suas fronteiras. Por considerarem os interesses e objetivos do mundo capitalista
antagônicos aos seus, qualquer acordo firmado pelo Kremlin durante uma parceria com os
governos ocidentais seria uma mera manobra tática, permissível, para lidar com um inimigo.

As linhas da Doutrina Truman deram origem ao Plano Marshall. Formulado pelo


Secretario de Estado americano, George C. Marshall, o plano estendia o auxilio econômico
norte-americano a todos os países da Europa Ocidental. A ideia era fortalecer as economias
desses países para que tivessem condições de resistir a eventuais avanços soviéticos, Além
disso, foi organizada em 1949 uma aliança militar, com o objetivo de proteger a Europa

1
AVALOM PROJECT. Truman Doctrine : President Harry S.Turmam’s Address Before a Joint Season
Congress, March 12, 1947. Disponível em: <http: avalom. law.yale.edu/20th_century/trudoc.asp>. Acessado em
15 de Julho de 2015.
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ocidental da ameaça comunista - a Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN. Esta é


liderada pelos Estados Unidos e formada pelos países capitalistas europeus, além do Canadá.

Em Abril de 1948, foram assinados pelo presidente Turman os protocolos finais do


plano, envolvendo fundos e créditos, no valor de 17 bilhões de dólares para 16 países
europeus.

2.3 A Reação Soviética

A União Soviética reagiu ao plano fechando economicamente e politicamente os


países que estavam sob sua influencia. No lugar do Komintem, que reunia todos os partidos
comunistas do mundo inteiro, foi criado o Kominform, que reunia os partidos comunistas da
Europa oriental e da Itália e França. Em seguida, os governos de união nacional foram
substituídos por governos monolíticos e pró - soviéticos.

Em Julho de 1948, foi criado o Deutsh Mark, uma nova moeda para a Alemanha.
Essa medida foi tomada sem consulta ao conselho interaliado e tinha como objetivo dissolver
a frágil base econômica da zona soviética.

Em represália, a União Soviética dissolveu o Conselho Interaliado e bloqueou a


passagem de caminhões e trens de abastecimento no lado oeste de Berlim. Para suspender o
bloqueio, os soviéticos exigiam a revogação da reforma econômica e a aplicação do Plano
Marshall na União Soviética.

O lado ocidental de Berlin não foi prejudicado pelo bloqueio, pois foi abastecida por
uma ponte aérea por onde americanos, franceses e ingleses enviavam os suprimentos
necessários de carvão e alimentos.

Em Julho de 1949, os soviéticos suspendem o bloqueio e como consequência é


anunciada a formação da Republica Federal da Alemanha, reunindo os setores americanos,
franceses e ingleses, tendo Bonn como capital. Do lado soviético, foi criada a Republica
Democrática da Alemanha, tendo Berlim oriental como capital. Berlin ocidental ficava como
comunidade autônoma. Estavam então, enterradas as decisões tomadas na conferencia de
Potsdam.
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2.4 A Cortina de Ferro Mostra a Sua Dureza

Quando houve a substituição dos governos de união nacional por governos de partido
único pró-Moscou, o líder iugoslavo, Josip Broz Tito rompe com Stalin, o que leva a
Iugoslávia ser expulsa do Cominform. Este acontecimento levou a uma serie de repressões às
alas dissidentes dentro do partido que discordavam dos rumos tomados pelo governo
soviético.

Em Março de 1953, Stalin morre aos 73 anos de idade. Nikita Kruschev assume a
Secretaria – Geral do PCUS - Partido Comunista da União Soviética. Em Fevereiro de 1956,
Kruschev discursa no XX congresso do PCUS e ataca Stalin e o culto quase religioso dirigido
a ele, além de denunciar as impiedosas perseguições que haviam resultado na morte de tantos
inocentes. O herói tinha virado criminoso. Era o começo da desestanilização do regime, o que
levou a uma oposição entre críticos e defensores do stalinismo.

Em Julho de 1956, é criado em contraponto a OTAN, o Pacto de Varsóvia, que seria


uma organização militar formada pelos países socialistas da Europa com o objetivo de
garantir a paz e a estabilidade na região. Ela teve participação em dois eventos importantes na
Europa oriental: a revolução húngara de 1956 e a Primavera de Praga em 1968.

Em Outubro de 1956, uma manifestação de estudantes em frente a uma rádio de


Budapeste pedia a divulgação de uma lista de reivindicações. Exigiam melhores condições de
vida, eleições livres e a retirada de tropas soviéticas. O movimento se ampliou com a
realização de concentrações populares exigindo a volta ao poder de Inre Nagy, que foi
Primeiro - Ministro da Hungria de 1953 a 1955, quando foi derrubado. O movimento teve
êxito e Nagy voltou ao poder.

Nagy pretendia se retirar do Pacto de Varsóvia, como parte do seu plano de construir
seu próprio caminho em direção ao socialismo. Em Dezembro, 200.000 soldados do Pacto de
Varsóvia invadiram a Hungria para derrubar Nagy e – segundo a versão soviética – ajudar o
povo húngaro a esmagar as forças obscuras da reação e da contrarrevolução. 50.000 húngaros
morreram nos combates de rua e 160.000 se exilaram. Nagy foi deposto e depois foi
executado em 1958. No seu lugar, assumiu Janos Kadar, fiel a União Soviética, que
permaneceu no governo até 1988.
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Esta ação mostrou que a desestalinização promovida por Kruschev não significava
uma liberalização do regime. Qualquer contestação de parte dos membros do Pacto de
Varsóvia seria reprimida duramente.

Depois do fracasso da experiência húngara, foi a vez da Tchecoslováquia desafiar


Moscou Em Janeiro de 1968, Alexander Dubeck assumiu o lugar de Antony Novotny na
Secretaria - Geral do Partido Comunista da Tchecoslováquia. Dubeck ao chegar ao poder,
lançou um amplo programa de reformas vidando restaurar a economia do país, além de outras
medidas inéditas dentro de um país comunista como: liberdade de expressão, liberdade de
religião, e eleições diretas com a participação de partidos não - comunistas e a instauração de
uma incipiente economia de mercado.

No final de Julho, foi feita realizada em Moscou uma reunião entre os dirigentes
soviéticos e tchecos para discutir a questão. No encontro, os dirigentes soviéticos2 insistiam
para que Dubeck e sua equipe de governo revogassem as medidas liberalizantes. Dubeck e o
presidente tcheco Ludwig Svoboda, argumentaram firmemente em favor do seu programa e
da autodeterminação de seu povo. Ao final dos três dias de reunião, os soviéticos
interromperam as criticas. Parecia ser a vitória, mas não.

Na madrugada de 21 de Agosto, 200.000 soldados do Pacto de Varsóvia cruzaram a


fronteira da Tchecoslováquia para ocupar Praga. Os lideres pediram para que a população não
resistisse à ocupação; mesmo assim, vários manifestantes saíram às ruas para vaiar os
soldados e improvisando barreiras para deter o avanço dos tanques. Dubeck e os outros lideres
tchecos foram detidos.

Em Abril, Dubeck foi substituído por Gustav Husak, que logo promoveu o expurgo
de quatrocentos mil filiados ao partido comunista e impôs um rígido regime de censura no
país. Husak ficou no poder até 1989.

2
Kruschev havia sido removido da Secretaria- Geral do PCUS em 1964 por má condução da economia e ficou
em prisão domiciliar até sua morte em 1971. Em seu lugar, assumiu Leonid Brejnev, que interrompeu o processo
de desestalinização do regime e reendureceu-o.
20

2.5 A Queda do Martelo

Em Março de 1985, com a morte de Constantin Tchernenko, Mikhail Gorbachev


assume a Secretaria - Geral do PCUS em meio a uma onda de descontentamento popular com
relação aos problemas do socialismo soviético como: falta ou escassez de produtos básicos de
consumo devido a baixa produtividade das fazendas agrícolas estatais, falta de liberdade
politica, de expressão, de associação e de locomoção, além dos grandes privilégios dos
burocratas do PCUS. Sentindo que o povo o apoiaria nos seus esforços de reformar a vida
politica e econômica do país, Gorbachev e sua equipe anunciam já em 1985 seus planos de
governo, tendo como base a Perestroika e a Glasnost.

A Perestroika que significa reestruturação se referia a reestruturação econômica que


incluía abertura ao mercado externo, alteração do sistema econômico planejado por uma
economia de mercado e corte de empréstimos a outros países socialistas.

A Glasnost que significa transparência em russo se referia a uma abertura politica


que consistia em reabilitar dos membros do PCUS que discordavam dos rumos tomados pelo
socialismo russo, libertação de dissidentes, legalização de partidos políticos e eleições livres.

Estas reformas não ficaram restritas ao território soviético, pois se espalharam para
os países da Europa Oriental. O país mais afetado pelas reformas foi a Alemanha Oriental que
abrigava o Muro de Berlin, o maior símbolo da Guerra Fria. O êxodo maciço de alemães para
o lado ocidental pelas embaixadas da RFA em Praga e Varsóvia por conta da visita de
Gorbachev a Berlim foram o prenuncio de uma serie de protestos contra o governo. No dia 9
de Novembro de 1989, numa coletiva de imprensa, o membro do Politiburo, Gunter
Schabowiski, anunciou que as fronteiras com o lado ocidental estavam liberadas, embora essa
ordem só pudesse ser dada no dia seguinte. No mesmo dia, dezenas de milhares se dirigiram
ao muro, o que levou os guardas da fronteira a abrir as fronteiras, levando a derrubada do
muro pela multidão.

A queda do Muro de Berlim representou não só o começo do fim da Guerra Fria,


mas também do socialismo na Europa oriental, visto que o muro impedia o livre
deslocamento de pessoas para a Europa ocidental.
21

Entretanto, o fim do socialismo também representou um período de austeridade.


Houve varias greves, falta de alimentos, cortes no fornecimento de combustíveis, intervenções
militares nas revoltas pró-independência nas republicas soviéticas. Gorbachev ainda era
pressionado pelos ultrareformistas que desejavam uma reforma mais radical e rápida e pelos
ultraconservadores que eram contra elas. Estes últimos articulam um golpe de Estado no dia
18 de Agosto de 1991. Os golpistas mantiveram Gorbachev preso na sua casa de férias na
Crimeia e anunciam em cadeia de rádio e Tv que ele estava impossibilitado de assumir suas
funções por motivo de saúde. Assume o comando do Estado o vice-presidente da URSS,
Guennadi Ianev que organiza o Comitê de Estado de Emergência.

O povo reagiu desfavoravelmente ao golpe e ocupou as ruas para protestar contra os


golpistas. Quando os tanques a mando dos golpistas se dirigiam ao parlamento russo, o povo
se pôs diante deles impedindo-lhes o seu deslocamento. Com isso, os tanques voltaram aos
quarteis.

Com fracasso do golpe, Gorbachev reassume o comando da URSS. Entretanto seu


poder acaba sendo esvaziado pouco a pouco. No dia 29 de Agosto, o PCUS é posto na
ilegalidade, tem seus bens confiscados e sua sede fechada. No mês de Outubro, todas as
republicas soviéticas já tinham declarado a sua independência. Percebendo que perdeu o
poder, Gorbachev renuncia no dia 25 de Dezembro de 1991, reconhecendo oficialmente a
morte da URSS e do socialismo soviético.

2.6 O Legado da Guerra Fria e o Mundo Após Ela

O fim da Guerra Fria simbolizou o fim de uma época de medo de um holocausto


nuclear, que se manifestava de forma abrangente no imaginário popular, sendo até tema de
vários filmes que tinham como enredo um bombardeio nuclear e suas consequências para a
humanidade.

Embora o medo de um holocausto nuclear tenha atingido o ápice durante a crise dos
misseis de cuba em 1962, a sua concepção não seria real como diz o historiador Eric
Hobsbawn:
22

A peculiaridade da Guerra Fria era a de que, em termos objetivos, não existia


perigo iminente de guerra mundial. Mas que isso: apesar da retorica
apocalíptica de ambos os lados, mas, sobretudo do lado americano, os
governos das duas superpotências aceitaram a distribuição global de forças
no fim da Segunda Guerra Mundial, que equivalia a um equilíbrio de poder
desigual, mas não contestado em sua essência – a zona ocupada pelo
Exercito Vermelho e/ou outras Forças Armadas comunistas no termino da
guerra – e não tentava amplia-la com o uso de força militar. Os EUA
exerciam controle e predominância sobre o resto do mundo capitalista, além
de hemisfério norte e oceanos, assumindo o que restava da velha hegemonia
imperial das antigas potências coloniais. Em troca, não intervinha na zona
aceita de hegemônica soviética. (HOBSBAWM, 1995, p.182)

Entretanto, vários conflitos aconteceram na Europa Oriental desde o fim da Guerra


Fria. Na Iugoslávia, o choque entre o desejo dos sérvios de manter a unidade nacional e a
independência da Eslovênia e Croácia em Junho de 1991 e a da Bósnia em 1992 levou a uma
sangrenta guerra que durou até 1995. Na Rússia, o governo de Boris Yelstein sufocava com
grandes dificuldades o movimento separatista na Chechênia em 1994.

Com o encerramento da Guerra Fria, teve fim a bipolarização politica do sistema


internacional, dando lugar a regionalização, com a formação de blocos político-econômicos
competidores: a Europa busca autonomia e a China (com a Ásia Oriental) apresenta um
avanço notável, enquanto mesmo na periferia surgem (ou ressurgem) polos de poder na Índia,
Brasil e Rússia. Logo, a tendência aponta para a formação de um mundo multipolar.
23

3. ANALISE DOS FILMES

3.1 Boa Noite, e Boa Sorte.

Boa Noite, e Boa Sorte é um filme americano de drama histórico lançado no ano de
2005. Dirigido por George Clooney, roteirizado por Clooney e Grant Heslov e produzido por
Heslov. Ambientado no ano de 1953, o filme relata a historia do jornalista Edward R. Murrow
e sua equipe que desafiam seus patrocinadores e a própria emissora para esclarecer os fatos ao
publico por examinar as mentiras e amedrontadoras táticas do senador Joseph McCarthy
durante a sua caça as bruxas aos comunistas.

Com o titulo original em inglês, “Good Night, and Good Lucky”, o bordão de
Murrow em seu programa, o filme conta no elenco com David Strathain (Murrow), Clooney
(Fred Frendly, o produtor do programa), Robert Downey, Jr (Joseph Wreshba, repórter do See
it Now, programa apresentado por Murrow), Jeff Daniels (Sig Mickelson, Diretor da CBS
News) e Frank Langella (Bill Paley, chefe-executivo da CBS News) entre outros que formam
a equipe.

O filme foi aclamado pela critica, tendo uma aprovação de 93% no site Rotten
Tomates e foi indicado ao Oscar 2006 nas categorias Melhor Filme, Melhor Direção de Arte,
Melhor Fotográfia, Melhor Diretor, melhor Ator Principal e Melhor Roteiro Original.

Entretanto o filme sofreu duras criticas por parte de setores conservadores da mídia
americana pela sua abordagem do período do Macartismo e por ser um produto da ocupação
“ liberal ”3 da indústria do entreterimento. Como no caso da jornalista da rede de televisão
Fox News, Ann Coulter acusou o filme de atacar a honra do Senador McCarthy que em sua
visão era um patriota, além de ter dito que Murrow não sabia que um de seus amigos,
Lawrence Duggan era um espião soviético.4

3
O termo Liberal nos Estados Unidos se refere a Esquerda Politica, representada na sociedade americana pelo
Partido Democrata.
4
Para ver mais, veja em: http://www.anncoulter.com/columns/2005-11-16.html.
24

O filme começa em 1958, com uma homenagem da Associação de Diretores de


Radio e Televisão a Murrow onde ele faz um discurso alertando para o perigo da televisão se
tornar um meio de alienação:

O que vou dizer aqui não vai agradar a ninguém... Meu dever é
falar a vocês, mensageiros, o que está acontecendo no rádio e na
TV... Nossa historia é o resultado de nossos atos... Daqui a 50
anos, os historiadores que se basearem nas imagens da TV
encontrarão provas da decadência, alienação e falta de cobertura
da realidade em que nós vivemos. Estamos ricos, saudáveis,
gordos e complacentes, inclinados a evitar informações
desagradáveis e perturbadoras. A mídia reflete isso...

O filme em seguida corta para o ano de 1953, onde Murrow e sua equipe discutem
sobre a noticia que o oficial da força aérea, Milo Radulovich foi expulso por conta das
atividades politicas de sua irmã e de seu pai ser leitor de um jornal sérvio, o que fez eles
serem suspeitos de atividade comunista em solo americano. Murrow comenta o caso e conclui
que não houve provas suficientes para concluir que seus familiares eram comunistas.

Em seguida, o senador Joseph McCarthy acusa Murrow de ser comunista por


supostamente ter sido filiado a União Industrial dos Trabalhadores do Mundo, uma
organização sindical de Extrema - Esquerda, e no fato do professor Harold Laski, conhecido
por ser socialista, ter feito uma dedicatória a ele em um de seus livros.

McCarthy centrou sua vida publica no combate ao Comunismo. Eleito senador pelo
estado de Wisconcin em 1946, era um politico rude e oportunista. Embora seus primeiros 4
anos de mandato fossem de pouco destaque, se reelegeu em 1954 com uma cruzada
anticomunista. Em 9 de Fevereiro de 1950, num discurso no Clube das Mulheres
Republicanas, McCarthy declara que tem uma lista de 200 comunistas trabalhando no
Departamento de Estado. Apesar de só serem encontrados 3 funcionários considerados
“comunistas comprovados”, a pratica da denuncia encontrou ressonância na sociedade
americana. Na câmara e no Senado os comitês de atividades antiamericanas aliavam suas
garras e estendiam ainda mais seus tentáculos, inchados furiosamente por McCarthy e por um
25

jovem politico chamado Richard Nixon. O alvo principal do comitê era o meio artístico e
intelectual.

Milhares de artistas tiveram sua vida devassada e centenas tiveram suas carreiras
arrasadas. Dentre algumas figuras presas ou postas na lista negra constam pessoas como
Lilian Hellmann, principal dramaturga da época, Dashiell Hammett, um dos maiores
romancistas policiais de todos os tempos, que foi preso por um ano, sem fiança, na prisão
imunda de West Street, Nova Iorque, de onde saiu com tuberculose e até mesmo Charles
Chaplin, que teve que se exiliar na Inglaterra.

Todo cientista, intelectual ou acadêmico era visto como comunista em potencial, e o


termo Egg-Head (Cabeça de Ovo) tornou-se o padrão para definir pessoas de ideias. Todo
esse comportamento prejudicou a pesquisa e a atividade acadêmica norte-americana. O
comitê tinha espalhado não só o medo, mas também a mediocridade.

Murrow responde as acusações de McCarthy no programa seguinte:

Vamos analisar algumas acusações do senador: Como não fez de fato


nenhuma referencia a nenhuma declaração de fato que fizemos, deduzimos
que ele não identificou nenhum erro, mas ele provou que qualquer um que o
exponha ou não compartilhe do seu desrespeito histérico de decência, da
dignidade humana ou dos direitos assegurados pela Constituição deve ser
comunista. Isso já era de se esperar.

O senador acrescentou meu nome a uma longa lista de pessoas e instituições


acusadas de serem comunistas. A sua logica é simples: quem critica o
método usado pelo senador é comunista. Se fosse assim, haveriam muitos
comunistas neste país.

Ele afirmou sem provas, que fui membro da Industrial Workers of the
World. É mentira. Nunca fui membro, nem apresentei candidatura. O
senador afirma que o professor Harold Laski dedicou seu livro a mim. É
verdade. Ele já morreu. Ele foi socialista, eu não. Ele foi daquelas pessoas
civilizadas que não forçam ninguém a concordar com seus princípios
políticos como condição para uma conversa ou amizade. Nunca concordei
26

com suas ideias politicas. Laski, como se indica no seu prefacio, dedicou-me
o livro, não por termos os mesmo princípios políticos, mas por apreciar a
minha cobertura da guerra em Londres como ele indica de maneira clara.

Acredito há 20 anos, e ainda acredito que qualquer americano pode


conversar polemizar ou debater com comunistas de qualquer parte do mundo
sem ser contaminado ou convertido. Acredito que nossa crença, a nossa
convicção e nossa determinação são mais fortes que as deles e que podemos
competir com sucesso não só no campo das bombas, mas também das ideias.

Trabalho com a CBS há 19 anos. A empresa sempre confiou na minha


integridade e responsabilidade como jornalista e na minha lealdade como
cidadão americano. Não preciso do sermão do senador Junior de Wisconcin
sobre os perigos e temores do Comunismo. Após examinar minha
consciência e verificar meus arquivos, não posso dizer que tenha sido
sempre coreto ou não. Mas tento buscar a verdade com diligencia e
transmiti-la embora, neste caso, tenha sido alertado que estaria na mira do
senador. Espero tratar de assuntos mais relevantes na semana que vem.

Boa Noite, e Boa Sorte.

O terror de McCarthy começou a declinar depois de um tempo. Em Janeiro de 1953


ele assumiu a presidência da Subcomissão Permanente de Investigação do Senado e ao longo
de doze meses continuou a desmoralizar a nação. Em Junho de 1953, foram condenados a
morte na cadeira elétrica, o casal Ethel e Julius Rosemberg, que foram condenados em 1951,
sob a acusação de terem passado segredos atômicos a URSS. Naquele mesmo mês, McCarthy
destruiu a carreira de Robert J. Oppebheimer, o pai da bomba atômica, que foi afastado de seu
posto de consultor da Emissão de Energia Atômica sob a alegação de ter mantido estreitos
laços com comunistas e seus simpatizantes.

Um dos destaques do filme é o interrogatório de Annie Lee Moss, uma funcionária


do Pentágono, acusada de ser comunista por ter seu nome numa lista apresentada por um
membro do Partido Comunista Americano infiltrado no FBI, além do suicídio do jornalista da
CBS, Dom Hollembeck, acusado de ser comunista.
27

Políticos do próprio Partido Republicano temiam o fanatismo de McCarthy e seus


métodos; o próprio presidente Dwight Eisenhower não concordava com seus métodos, mas
não era possível enfrentá-lo sem enfrentar a opinião publica que o via com bons olhos.
McCarthy, porem, acabou cometendo um erro fatal: atacou o exercito e uma de suas figuras
destacadas, o General George Marshall. As autoridades do Pentágono conseguiram
desmoraliza-lo, televisionado seus ataques contra a suposta espionagem nas forças armadas.
Em Novembro de 1954, os republicanos perdiam o controle do Senado e McCarthy foi
retirado da presidência do Subcomitê. Logo depois, foi julgado e censurado pelo Senado,
sendo seu comportamento definido como “inconveniente para um Senador”. Morreu em 1957,
mergulhado no ostracismo.

O filme se encerra com o discurso de Murrow:

Aqueles que dizem que as pessoas não se interessam, são complacentes,


indiferentes e alienadas, na minha opinião de repórter não vejo evidencia
disso. E mesmo que sejam, o que elas tem a perder? Porque se estivermos
errados e a televisão só servir para entreter e alienar a TV está em perigo e
logo veremos que a luta foi em vão... Este instrumento pode ensinar
esclarecer e até inspirar, se as pessoas o usarem com esse objetivo... senão
será apenas fios e lâmpadas numa caixa. Boa Noite e boa sorte.

O filme em questão aborda o papel da mídia na transmissão de ideias diferentes da


politica vigente, o direito a privacidade e a liberdade de expressão. Murrow é colocado no
filme como um jornalista que sempre prezou pela veracidade dos fatos que transmite, além de
primar pela liberdade de pensamento politico, mesmo que discorde deste.

O clima de histeria provocado pelo Macarthismo é presente em todo o corpo do


filme, seja pelo temor que a equipe de Murrow tem ao confrontar o senador McCarthy , seja
pela chantagem dos anunciantes que não querem ter seu nome associado a um programa de
TV apresentado por um comunista.

Boa Noite, e Boa Sorte traz uma profunda critica aos excessos de alguns políticos
americanos ao lidar com os comunistas. Pois que logica haveria em acusar o inimigo de privar
as pessoas de liberdade se para combatê-lo violam-se as liberdades tão prezadas pela
28

sociedade americana? Apesar da critica as atitudes despóticas de McCarthy, ainda há a


permanência da crença na superioridade politico-ideológica americana, embora não de forma
agressiva, pois como Murrow declara na sua defesa que acredita que “ nossa crença, a nossa
convicção e nossa determinação são mais fortes que as deles e que podemos competir com
sucesso não só no campo das bombas, mas no campo das ideias.”.

3.2 Jogos do Poder

Jogos do Poder é um filme americano de comédia dramática lançado no ano de


2007, baseado no livro Charlie Wilson’s War: The Extraordinary Story of the Largest Covert
Operation in history, de George Crille III, roteirizado por Aaron Sorkin e dirigido por Mike
Nichols. Retrata a historia real do politico Charles Wilson que teve papel importante na ajuda
financeira e militar a resistência afegã a ocupação soviética no Afeganistão. O filme conta no
elenco com Tom Hanks (Wilson), Julia Roberts (Joanne Hering, socialite do Estado do Texas,
ativista religiosa e politicamente conservadora) e Philip Seymour Hoffmann (Gust Avrakotos,
agente da CIA).

O filme agradou a critica, tendo 82% de aprovação no Rotten Tomates, além de ter
sido indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante para Philip Seymour Hoffmann.

O filme não teve sua transmissão permitida na Russia, por mostrar a União Soviética
sob um ponto de vista desfavorável.

O ex- sub Secretário de Defesa, Fred Ilkle criticou o filme por ele passar a ideia de
que os americanos deram suporte a Osama Bin Laden e aos ataques de 11 de Setembro de
2001.

O filme começa no dia 6 de Abril de 1990, numa cerimonia privada dentro de um


hangar em homenagem ao Deputado pelo 2º distrito congregacional do Texas e filiado ao
Partido Democrata, Charles Wilson, pelos serviços prestados a nação americana e por ter
ajudado na derrubada do Comunismo.

Volta-se no tempo para a data de 6 de Abril de 1980, onde vemos um Wilson mais
interessado em festas regadas a Cocaína e playmartes da Playboy americana do que em
29

legislar. Durante uma de suas festas, algo chama sua atenção quando ele olha para um
televisor: o renomado repórter Dan Rather está fazendo uma reportagem vestindo um turbante
e conversando com homens armados. Logo, Wilson fica sabendo que se trata de uma
reportagem no Afeganistão sobre os guerrilheiros mujahediens que lutavam contra a ocupação
soviética.

A ocupação soviética do Afeganistão tem origens que remotam há um pouco depois


da Segunda Guerra Mundial. O Afeganistão sofria com uma infraestrutura precária e uma
forma politica que enfrentava grandes embates, principalmente com o Paquistão, com quem
debatia a demarcação de fronteiras. Se apercebendo disso, o Rei Muhammad Zahir Shah
convoca para seu primo Mohammed Daoud Khan para ser seu Primeiro – Ministro. Daoud
tinha como objetivo centralizar o poder e chegar a um acordo com o Paquistão sobre a
demarcação de fronteiras. Para isso Daoud precisava de capital estrangeiro e apoio militar.
Dessa forma, o governo do Afeganistão se aproximou de Washington entre 1953-54, não só
com objetivos econômicos e militares, mas também para conseguir uma mediação com o
Paquistão na questão fronteiristica. O pedido foi recusado por que o Afeganistão não tinha
relevância politica comparado aos vizinhos.

Com isso, Daoud se volta para a URSS. Nikita Kruschev lhe concede ajuda militar e
econômica para a região. Acredita-se que o montante de ajuda tenha chegado a 2,5 bilhões de
dólares entre 1955 e 1978.

Ainda sem resolver a questão das fronteiras com o Paquistão, Daoud tenta novamente
obter mediação dos Estados Unidos em 1961, mas seu pedido é negado novamente. A falta de
um acordo com o Paquistão resultou em um alto custo econômico para o Afeganistão, o que
levou Daoud a renunciar, mas logo volta ao governo após o Rei apresentar a proposta da
“experiência da Democracia” como forma de estabelecer seu próprio domínio. A experiência
conduziu a três parlamentos sem afiliação partidária e movimentos de oposição.

A partir de então, o Afeganistão se encontrava em uma crise turbulenta que envolvia


grupos pós-soviéticos, pró-islâmicos e o Partido Democrático Afegão (PDPA) entre 1960 e
1973. Depois de uma grave econômica causada por vários anos de seca, além de graves
denuncias de corrupção envolvendo a família real afegã, Daoud aproveita uma viagem do Rei
a Roma e dá um golpe de Estado e proclama a Republica.
30

Consolidado no poder, Daoud com sua Autocracia Modernista Nacionalista move-se


para a redução de dependência da União Soviética, o que é visto com preocupação pelos
soviéticos, o que resulta numa aliança da URSS com o PDPA. Esta aliança resultou num
golpe de Estado liderado por Hafizulah Amin que derrubou Daoud, que foi assassinado com
sua família no palácio presidencial em 27 de Abril de 1978.

Quando o PDPA assumiu o poder, havia rixas internas dentro do partido. A facção
Parcham era favoravel a uma evolução politica gradual com a minúscula burguesia local e a
facção Khalq propunha uma revolução fundamentada na aliança operário-camponesa. O novo
regime fez reformas radicais no país como a obrigatoriedade do ensino para as mulheres,
reforma agrária e a nacionalização de empresas o que levou o governo já impopular obter
maior insatisfação da população.

A URSS se apercebendo da incapacidade do regime pós-Daoud se estabelecer


decidiu intervir militarmente em 24 de Dezembro de 1979. Após 5 dias da invasão, centenas
de milhares de baixas – incluindo a do Presidente Amim. Assim, Babrak Kamal foi imposto
pela União Soviética como Presidente da Republica Democrática do Afeganistão. No decorrer
da ocupação, grupos mujahedins contrários a esse feito surgiram no Afeganistão para lutar
contra os aliados do novo governo.

A reação americana ao que ocorria no Afeganistão foi tímida, pois o governo de


Jimmy Carter estar desgastado por não ter sabido lidar com a Revolução Iraniana naquele
mesmo ano. O seu desgaste levou Carter a perder as eleições presidenciais de 1980 para o
republicano Ronald Reagan, que teve uma postura mais enérgica com o governo afegão e
passou a mandar ajuda militar as guerrilhas mujahediens, que recebiam a ajuda pela fronteira
com o Paquistão.

Então, sob a influencia da socialite Joanne Hering, Wilson viaja para o Paquistão
para se encontrar com o Presidente do Paquistão, Zia - Ul - Haq. Zia se queixa do baixo apoio
dos americanos no combate aos soviéticos, o que leva vários afegãos a se refugiar no
Paquistão. Ele convence Wilson a visitar os campos de refugiados. Ao visitar o campo,
Wilson fica comovido com os relatos dos abusos cometidos pelos soviéticos, crianças
mutiladas pelas minas terrestres, além da constante busca por comida.
31

Wilson sai do campo decidido a mover uma operação militar contra os soviéticos e se
reúne com o diretor regional da CIA, que frustra seus planos dizendo que era necessária uma
abordagem mais discreta para evitar uma ação direta dos EUA na região.

Com o objetivo de conseguir financiar a resistência afegã, Wilson faz amizade com
o agente da CIA, Gust Avrakotos. Este contata seu amigo e oficial da Divisão de Operações
Militares da CIA, Michael G.Vickers. Wilson contata um amigo israelense que é traficante de
armas para conseguir armamentos como lançadores de misseis para ser usados pelos
mujahediens contra caças russos. Os armamentos são mandados para o Afeganistão onde
conseguem causar um prejuízo à força aérea soviética, o que leva a um aumento constante das
verbas para a operação militar que salta de 5 milhões para 500 milhões de dólares.

A politica de financiamento de grupos guerrilheiros era um dos pilares da politica


externa americana durante a Era Reagan. Estes financiamentos faziam parte do plano de
combate ao que Reagan chamou de “Império do Mal” num discurso para a Associação
Nacional de Evangélicos em 1983:

Exorto-vos a se se manifestarem contra o que põem os Estados Unidos em


uma posição de inferioridade militar e moral (...), eu os concito a se
precaverem contra toda sorte de cobiça, a tentação de se julgarem acima
disso tudo, de rotularem da mesma maneira os mesmos lados por suas
imperfeições, ignorando os fatos da historia e os impulsos agressivos do
império do mal, simplesmente chamando a corrida armamentista de um
grande mal entendido e assim se retirar da luta entre o bem e o mal, o certo e
o errado.5

Todo esse empenho era uma forma de contornar o constrangimento causado pela
Guerra do Vietnã, como mostra Eric Hobsbawn:

5
VOICES OF DEMOCRACY. Ronald Reagan, Adress to the National Association of Evangelicals (“Evil Empire
Speech”) (8 march 1983) Disponivel em: <http: voicesofdemocracy.umd.edu/Reagan-evil-empire-speech-
text/>. Acessado em 13 de Julho de 2015.
32

(...) a politica de Ronald Reagan, (...) só pode ser explicada como uma forma
de varrer a mancha da humilhação sentida demonstrando a inquestionável
supremacia e invulnerabilidade dos EUA, se necessário com gestos de poder
militar (HOBSBAWN, 1995, p. 244).

O Governo Reagan precisava mostrar a sociedade americana poderia recuperar seu


prestigio e lutar pela sua hegemonia. Entretanto esta politica de intervenções foi seletiva, pois
o pressuposto de levar paz e democracia para todo o mundo servia apenas para combater
regimes e insurreições de Esquerda. Observa-se que a Doutrina Reagan não se volta contra
regimes de Direita que restringiam a liberdade e a democracia no Terceiro Mundo, como no
caso do Chile, durante a ditadura do General Augusto Pinochet e das Filipinas durante o
governo de Ferdinando Marcos. Ao contrário, Reagan apoiou ações de grupos paramilitares
de Direita que eram favoráveis a um regime ditatorial, como no caso da ajuda militar e
financeira aos Contras na Nicarágua, que lutavam para derrubar o governo sandinista de
Daniel Ortega.

A operação militar no Afeganistão surtiu efeitos, o que levou aos soviéticos a se


retirarem. Depois disso, Wilson pede verbas para a construção de uma escola no Afeganistão,
mas seu pedido é negado por falta de interesse. O filme volta para cena no hangar e se encerra
com uma conversa entre Wilson e Avrakotos, onde Wilson se pergunta sobre o que vai
acontecer depois da retirada das tropas soviéticas.

Em 1988, com a indefinição do conflito, a nova politica praticada por Mikhail


Gorbachev e a imagem desgastada da União Soviética perante a comunidade internacional,
esboçou-se um tratado de paz que foi assinado por EUA, URSS, Afeganistão Paquistão.
O tratado previa a retirada das tropas soviéticas do Afeganistão e que o governo afegão
possibilitasse o retorno dos 3 milhões de refugiados que viviam no Paquistão.

A empreitada soviética na região pode ser compara com a Guerra do Vietnã, tanto
pelo fato dos conflitos entre exércitos modernos e guerrilheiros que embora tivessem recursos
limitados, se beneficiavam das condições naturais, como pelo fato dos veteranos não terem o
reconhecimento da sociedade e da burocracia governamental. Vários deles sofreram com
traumas de guerra ou cometeram suicídio
33

O Afeganistão não teve paz depois da retirada das tropas soviéticas, pois mergulhou
numa guerra civil que durou até 1992. Em 1996, o grupo Talibã assumiu o poder e impôs a
Lei Islâmica a população.

Jogos do Poder mostra que Charles Wilson tinha um caráter ambíguo: era um
homem que buscava libertar povos oprimidos por seus esforçar em libertar o Afeganistão da
opressão soviética, ao mesmo tempo em que era maquiavélico, seja pelas suas manobras
ilícitas para se livrar de um processo por envolvimento com drogas como negociar compras
de equipamentos militares com um traficante de armas.

As ações dos mujahediens são mostradas de forma teatral, pois as cenas dos ataques
dos misseis disparados pelos mujahediens são intercaladas com os anúncios de aumento da
verba para a operação militar.

O filme, a priori, passa a mensagem de que a operação militar foi necessária, pois os
soviéticos estavam prejudicando a população e mostra esta operação de forma heroica, mas o
dialogo final entre Wilson e Avrakotos problematiza o que poderia acontecer depois da
operação atingir seus objetivos. Assim vemos que o filme passa uma mensagem da cautela ao
questionar mesmo que no final deste e de forma rápida as ações militares dos Estados Unidos.
A questão não é só livrar os povos da opressão, mas cuidar para que não surgissem novas
opressões no futuro, decorrentes da falta de atenção. E ao combater o inimigo soviético, os
americanos ignoraram esse ponto.

3.3 X-Men: Primeira Classe

X-Men: Primeira Classe é um filme americano de ficção cientifica lançado em 2011.


Dirigido e roteirizado por Matthew Vaughn, ele narra o processo de catalogação dos
primeiros mutantes – seres com habilidades especiais decorrentes de mutações genéticas – e a
formação da primeira turma de garotos superdotados do Professor Charles Xavier. O elenco
conta com James McAvoy (Professor Xavier), Michael Fassbender (Eric Lensherr/Magneto),
Jennifer Lawrence (Raven Darkholme/Mística), Kevin Bacon (Klaus Schimdt/Sebastian
Shaw), January Jones (Emma Frost), Rose Byrne (Moira McTaggert), Zoe Kravitz (Angel
Salvatore), Nicholas Hoult (Hank McCoy/Fera) e Lucas Till (Alex Summers/Destrutor).
34

O filme obteve 87% de aprovação no Rotten Tomates. O consenso é de que o filme tem um
bom roteiro, poderosas performances e um ótimo retorno da franquia X-Men.

A primeira tomada do filme se passa em um campo de concentração nazista na


Polônia. Vemos o jovem Erik Lensherr dobrar um portão com o poder de sua mente ao ver
oficias nazistas levando sua mãe embora. O cientista nazista Drº Klaus Schimdt observa a
tudo atentamente e traz Lensherr e sua mãe ao seu escritório. Ele lhe ordena que dobre uma
moeda e quando ele não consegue Schimdt mata sua mãe. Triste e furioso, Lensherr libera
energia magnética suficiente para matar dois guardas e destruir o escritório. Enquanto isso,
em Westchester County, Nova Iorque, Charles Xavier encontra a metamorfa Raven
Darkholme. Feliz por ter encontrado alguém diferente como ele, Xavier a convida para morar
em sua casa como sua irmã adotiva com sua família.

Os anos se passam até 1962, Lensherr está rastreando Schimdt à procura de vingança,
Xavier se gradua em Oxford com uma tese sobre mutação e se torna um especialista em
genética. Em Las Vegas, a agente da CIA, Moira McTaggert se mistura entre as strippers de
uma boate para ir atrás do General Robert Hendry. Ela consegue se infiltrar numa reunião
entre Schimdt, agora Sebastian Shaw, a telepata Emma Frost, Maré Vermelha e Azazel. Este
ultimo teletransporta o General Hendry onde manipulado pelos mutantes, vota a favor da
implantação de misseis nucleares na Turquia. McTaggert tenta avisar seus superiores sobre o
ocorrido, mas eles não acreditam nela, o que faz com que ela procure o professor Xavier a
respeito de mutações.

Xavier e Raven ficam sabendo que a CIA tem uma divisão especial pesquisando
mutantes, dentre eles Shaw. Xavier o rastreia e salva Lensherr de se afogar quando ele estava
para atacar Shaw. Xavier leva Lensherr para a divisão X da CIA, onde se encontra o cientista
de pés anormais, Hank McCoy, que desenvolveu uma maquina rastreadora de mutantes e com
ela Xavier e Lensherr a stripper alada Angel Salvatore, o taxista com poderes de adaptação
Armando Muñoz que escolhe Darwin como seu codinome, o prisioneiro do exercito, Alex
Summers que expele ondas energéticas e que atende pelo nome de Destrutor e Sean Cassidy,
que possui um grito supersônico e se batiza Banshee e Raven escolhe se chamar Mística.

Quando Emma Frost vai a Moscou para se encontrar com um general soviético,
Xavier e Lensherr a capturam. Em represália, Maré Vermelha, Azazel e Shaw invadem a
35

divisão X. Shaw convida os mutantes a se juntarem a ele, Angel aceita e Darwin é morto por
Azazel.

Os mutantes se reúnem na mansão Xavier para treinar. Shaw usa seus poderes para
fazer os militares soviéticos deslocarem seus misseis para Cuba, com o objetivo de causar
uma Terceira Guerra Mundial que levaria a um extermínio da raça humana, permitindo que os
mutantes ascendessem como raça sobrevivente, tendo Shaw como líder de uma Nova Ordem
Mundial. A ação dos soviéticos leva o presidente John F.Kennedy a anunciar que se os
misseis ultrapassarem o limite estipulado pela marinha americana haverá retaliação.

Diferente do que ocorre no filme, os misseis não foram transportados de forma


visível. Em resposta a invasão mal sucedida da Bahia dos Porcos que visava a derrubada do
regime de Fidel Castro e a recente instalação de misseis Júpiter na Itália, Turquia e Inglaterra,
o líder soviético Nikita Kruschev decide desenvolver e instalar misseis de médio alcance em
Cuba. De 17 de Junho a 22 de Outubro de 1962, por meio da secreta Operação Anadyr, a
União Soviética enviou para Cuba: 24 baterias de misseis avançados SAM-2 terra-ar, 42 caças
interceptadores MIG, 42 bombardeios Ilyushin-28, 12 submarinos lança-misseis da classe
Komar, numerosos misseis Cruise de defesa costeira, um regimento de aviões de caça para 40
aeronaves e 47.000 soldados.

No dia 15 de Outubro de 1962, um avião de espionagem norte americano fotografou


uma plataforma de misseis R-12 na região de San Cristobal de Pinar del Rio. Na manhã do dia
seguinte, o Assessor de Segurança Nacional dos EUA, McGeorge Bundy entrega ao
presidente Kennedy um relatório sobre a missão de reconhecimento que detectou a presença
de misseis soviéticos em Cuba. Kennedy convoca o Comitê Executivo do Conselho de
Segurança nacional – EXCOMM. Na reunião, três propostas são postas a mesa: Bloqueio
naval, bombardeio as bases de misseis ou invasão em larga escala da ilha.

Para disfarçar a preocupação, Kennedy vai a Chicago para acompanhar a campanha


eleitoral de renovação parcial do Congresso, mas volta para Washington alegando gripe, pois
a defesa aérea cubana, operada por militares soviéticos detectou a presença de aviões de
reconhecimento que rastreavam Cuba dia e noite.
36

No dia 18, numa reunião que fora agendada antes da descoberta dos misseis, o
Ministro das Relações Exteriores da URSS, Andrei Gromiko visitou a Casa Branca. Gromiko
diz que os misseis serviam para ajudar na capacidade de defesa de Cuba e no
desenvolvimento de sua pacifica democracia. Kennedy evita confronta-lo e deixa claro que
não aceitará a presença de misseis no país vizinho.

Depois de várias reuniões do EXCOMM, chega-se a conclusão de que um bloqueio


naval seria o caminho mais razoável para se lidar com a crise. Pelas leis internacionais, isso
seria um ato de guerra, mas para evitar critica no cenário internacional, usa-se o termo
“quarentena”.

No dia 22, Kennedy discursa em rede nacional para informar a presença de misseis
em Cuba e anuncia o bloqueio naval. Khruschev recebeu mal o discurso pelo fato dos
militares não terem escondido os misseis e pelo fato dos americanos terem decretado o
bloqueio naval.

No dia 23, a OEA – Organização de Estados Americanos aprova uma resolução


onde apoia a “quarentena” e pede a remoção imediata dos misseis.

No dia 26, o navio soviético Marcula é parado pela marinha americana e


inspecionado. Só havia carregamento de papel. Quando Kennedy não esperava solução para a
crise, Kruschev manda um fax para a Casa Branca, onde Kruschev propõe que se Kennedy
não atacasse Cuba, os misseis seriam removidos.

No dia seguinte, Kruschev faz mais uma exigência: retirar os misseis Júpiter.
Kennedy rejeita a proposta e decide atacar no dia 29.

No dia 28, Kruschev aceita retirar os misseis. As forças militares mantem o cerco à
ilha até que os misseis fossem retirados.

Apesar do cargueiro com os misseis ter sido destruído, Shaw absorve a energia do
reator nuclear para seu submarino. O jato X e o submarino de Shaw chegam à costa cubana.
Lensherr se infiltra no submarino e pega o capacete de Shaw para que Xavier o paralise com
37

sua telepatia. Lensherr mata Shaw forçando a moeda nazista do começo do filme no seu
cérebro.

As tropas americanas reagem disparando misseis contra os mutantes. Lensherr usa


força magnética para mandar os misseis de volta para os navios. McTaggert atira em
Lensherr, mas o tiro acerta Xavier que acaba ficando paraplégico. Ele quase mata McTaggert
estrangulada por ter deixado Xavier paraplégico, mas Xavier o faz perceber que ele causou
tudo aquilo. Frustrado, Lensherr foge com Maré Vermelha, Azazel, Angel e Mística. Xavier
funda uma academia de mutantes em sua mansão e Lensherr, agora Magneto invade a CIA
para libertar Emma Frost.

O diferencial do filme está no fato dele ser uma releitura de um acontecimento


histórico, mas com o mesmo desfecho. Consegue abordar temas concernentes a Guerra Fria
como: mutação, comunismo e armas atômicas. Passa a mensagem de que os Estados Unidos
foram os vencedores do conflito e não tinha como ser diferente. Os americanos são mostrados
no filme como os únicos capazes de garantir paz e estabilidade no mundo.

Há também nas entrelinhas, a ideia de que não há diferença entre os nazistas e os


comunistas, pois o vilão Sebastian Shaw no passado era um oficial nazista e anos mais tarde
faz uso do aparelho militar soviético para atingir o seu objetivo de dominação mundial.

X – Men : Primeira Classe transmite o medo de uma terceira guerra mundial tão
presente na Guerra Fria, e o fato dele começar na Segunda Guerra Mundial demonstra o
grande medo que havia dos horrores daquela guerra se repetissem.
38

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O fim da Guerra Fria não significou o fim dos discursos politico - ideológicos
presentes nos filmes norte – americanos. Na verdade houve uma mistura de permanências e
mudanças nestes discursos. Uma analise dos filmes que se passam durante o período da
Guerra Fria mostra que houve mudanças e permanências na abordagem do conflito e até
mesmo criticas aos procedimentos tomados pelos americanos para vencer os soviéticos.

Boa Noite, e Boa Sorte é o filme que possui a maior mudança de discursos e
abordagem, pois por meio do uso de vídeos de arquivos e da filmagem em preto e branco, ele
aborda o Macarthismo, que foi um período de intensa violação dos direitos civis, que são
caros para a sociedade americana. Assim o filme mostra a hipocrisia dos EUA em exigir
liberdade dos seus oponentes, ao mesmo tempo em que em terras americanas a liberdade
estava sendo posta em cheque.

Jogos do Poder coloca os EUA em uma perspectiva heroica ao abordar luta contra a
ocupação soviética do Afeganistão, mas faz uma critica muito tímida a forma como se lidou
com o país depois da retirada das tropas soviéticas, o que leva a conclusão de que o filme
mantem os discursos pró – americano e belicista.

X-Men: Primeira Classe é o filme que possui a maior permanência de discurso pró –
americano e belicista, pois mesmo sendo uma releitura de um evento histórico, ele procura
finaliza-lo da mesma maneira que aconteceu na realidade, favorecendo o lado americano do
conflito e demonstrando que os americanos são os únicos que podem garantir paz e
estabilidade no mundo.

Assim, a forma como a Guerra Fria é representada ultimamente nos filmes


hollywoodianos consiste em uma prevalência do discurso pró – americano do conflito,
embora haja - seja de forma tímida ou explicita – criticas aos métodos de combate ao inimigo
comunista.
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