Você está na página 1de 9

Poder Judiciário da União

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E DOS TERRITÓRIOS

3VAFAZPUB
3ª Vara da Fazenda Pública do DF

Número do processo: 0702592-52.2020.8.07.0018

Classe judicial: AÇÃO POPULAR (66) - Anulação (10423)

AUTOR: ELIZETE SOARES DA SILVA

RÉU: BRB BANCO DE BRASILIA SA, CONFEDERACAO NACIONAL DO COMERCIO DE BENS,


SERVICOS E TURISMO - CNC, DISTRITO FEDERAL, PAULO HENRIQUE BEZERRA
RODRIGUES COSTA

DECISÃO INTERLOCUTÓRIA

Vistos etc.

Trata-se de Ação Popular proposta por ELIZETE SOARES DA SILVA em face do DISTRITO
FEDERAL, do BANCO DE BRASÍLIA – BRB, da CONFEDERAÇÃO NACIONAL DO
COMÉRCIO – CNC e do Presidente do BRB, PAULO HENRIQUE BEZERRA RODRIGUES
COSTA, buscando provimento judicial que determine imediatamente a suspensão do contrato de aluguel,
firmado sem a observação do processo licitatório.

Narra ter sido veiculada, no dia 09 de abril de 2020, notícia no portal “O ANTAGONISTA”, segundo a
qual o BRB teria fechado contrato com a Confederação Nacional do Comércio, sem licitação, referente ao
aluguel de duas torres em Brasília, do complexo da mencionada Confederação, no valor de R$
276.000.000,00 (duzentos e setenta e seis milhões de reais), com duração prevista em 120 (cento e vinte)
meses.

Entende que tal ato configura lesão ao patrimônio público, nos termos do art. 2° da Lei n° 4.717/65, pois,
na sua concepção, seria imperativa a realização de licitação, a teor do art. 28 da Lei n° 13.303/2016, o que
revelaria a nulidade do ato, ante o vício de forma, possibilitando o manejo da Ação Constitucional
destinada a proteger a moralidade administrativa, a legalidade e o princípio do processo licitatório.

Ressalta o enquadramento do ato como lesivo, pois foi firmado contrato de locação sem o devido
processo licitatório, ofendendo veementemente a moralidade administrativa. Além disso, defende ser o
caso de requisição de todos os documentos relacionados ao contrato de aluguel firmado entre os réus, nos
termos do artigo 1º, §4º ao §7º, e artigo 7º, inciso I, alínea “b”, da Lei n° 4.717/65.

Número do documento: 20042708441794100000059105602


https://pje.tjdft.jus.br:443/consultapublica/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?nd=20042708441794100000059105602
Assinado eletronicamente por: JANSEN FIALHO DE ALMEIDA - 27/04/2020 08:44:18 Num. 61975563 - Pág. 1
Pediu medida liminar voltada a impor a imediata suspensão do contrato de aluguel, caso já tenha sido
firmado e, no mérito, seja o pedido julgado procedente, declarando-se a nulidade do contrato de locação
em discussão.

Deu à causa o valor de R$ 276.000.000,00 (duzentos e setenta e seis milhões de reais), pleiteando a
gratuidade de Justiça, nos moldes do art. 5°, LXXIII, da CF.

Determinei a prévia oitiva do Distrito Federal (art.5º, §1º da Lei da Ação Popular) e do BRB – Banco de
Brasília, no prazo de 72h, acerca do pedido Liminar, em analogia ao art. 2° da Lei n° 8.437/92, tendo me
reservado à apreciação do pleito liminar após a apresentação das informações, com a colação aos autos,
pelos réus, de toda a documentação pertinente ao objeto da lide, nos termos do art. 7º, inciso I, letra “b”
da Lei nº 4.717/65. Na mesma ocasião, "ad cautelam", suspendi todos os atos administrativos a serem
praticados visando a concretização do contrato de locação das duas torres do complexo CNC
(Confederação Nacional do Comércio), inclusive com efeitos "ex tunc", se já praticados, retornando ao “
status quo ante” (STJ – Resp 1278809/MS e AResp 141.597/MA). Por fim, no ensejo, determinei a
citação de todos os réus (ID n° 61024274).

Em seguida, por ter verificado a distribuição de outras ações populares com o mesmo objeto, determinei à
parte autora e a seu Advogado que informassem o motivo para a reiteração das demandas (ID n°
61102794).

O BRB se manifestou no ID n° 61142984. Indica que em outubro de 2019, por meio da Portaria A.GOV.
2.065/2019, foi constituído um Grupo de Trabalho (GT) cujo objetivo era avaliar alternativas, realizar
estudos financeiros e elaborar plano de trabalho para instalar o conglomerado BRB no mesmo espaço
físico, tendo tal GT produzido relatório - com base em análises e laudos, avaliações técnicas, estudo
financeiro e documentos -, conclusivo quanto à escolha do modelo e empreendimento, a partir das
diretrizes do mapa estratégico, especificamente, a atuação sistêmica do conglomerado, apontando ser a
locação a alternativa mais viável. Após isso, diz terem sido avaliados imóveis, com a obtenção de
propostas e análises quantitativas, ao final, concluiu-se que o empreendimento do Centro Empresarial
CNC era o que melhor atendia as necessidades do Banco.

Aponta que, após ter sido escolhido o empreendimento a ser locado, o tema foi submetido à apreciação da
assessoria jurídica do BRB, a qual emitiu o Parecer PRESI/COJUR – 2020/114, exarando opinativo, nos
termos da Lei n° 8.666/93 e Lei n° 13.303/2016, no sentido de não haver óbice jurídico ao
prosseguimento da demanda administrativa, qual seja, formalização do contrato de locação.

Cita a existência de Regulamento próprio de Licitações e Contratos, o qual possui normas gerais sobre tal
matéria no âmbito do BRB, dispondo acerca do contrato de locação e que estas regras estariam balizadas
nas orientações normativas previstas na Lei n° 13.303/2016.

Defende a incidência do art. 29 da Lei n° 13.303/2016 a hipótese dos autos e não do art. 28 desta Lei, não
podendo a ausência de processo licitatório ser interpretada como ato lesivo ao patrimônio público, pois a
própria legislação vigente viabiliza a dispensa de licitação quando o imóvel locado for destinado ao
atendimento das necessidades precípuas da Entidade; existam motivos justificadores relativos à
necessidade de instalação e localização do imóvel que condicionem a escolha; e o preço seja compatível
com o mercado, requisitos que, no seu entendimento, foram adimplidos a partir da Nota Executiva
DIPES/SUSEG-2020/0001.

Reforça, ainda, que a locação do imóvel decorre de trabalho multidisciplinar de grupo que atuou por mais
de 6 (seis) meses, analisando todas as possibilidades a de fim de encontrar a medida mais vantajosa para o
Banco, dotando todos os atos de legalidade, de modo que a liminar pleiteada pela autora deve ser
indeferida.

Anunciou a juntada das Notas Executivas DIPES/SUSEG – 2020/001, com a compilação de todas as
ações praticadas pelo BRB; Parecer DIRF/SUFIN/GEFIN-20250/011, com indicativo de preço
compatível com o de mercado; e Relatório Final apresentado pelo Grupo de Trabalho (Relatório GT
PORTARIA PRESI. A.GOV, 2065/2019).

Número do documento: 20042708441794100000059105602


https://pje.tjdft.jus.br:443/consultapublica/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?nd=20042708441794100000059105602
Assinado eletronicamente por: JANSEN FIALHO DE ALMEIDA - 27/04/2020 08:44:18 Num. 61975563 - Pág. 2
Determinei ao BRB que informasse as razões a fundamentar a celebração do contrato de locação pelo
período de 10 (dez) anos, quando a reforma de sua sede, pelo que foi noticiado, teria a duração de 2 (dois)
anos (ID n° 61207996), o que restou atendido no ID n° 61212619.

Aduz o BRB não haver correlação entre o tempo de reforma do edifício Brasília e a celebração do
contrato de aluguel para a nova sede, pois, o propósito do Banco ao realizar a troca de sua sede foi
promover a aglomeração de todas as empresas que compõem o BRB em um único prédio, uma vez que
atualmente se encontram espalhadas em vários edifícios, o que prejudica a integridade dos trabalhos.

Salienta ter o Grupo de Trabalho sido formado para promover os estudos, tendo concluído que mesmo
sendo reformado o Edifício Brasília, o espaço disponível seria insuficiente para acomodar o
conglomerado das empresas que compõem o Banco, o que indicaria a necessidade, para essa finalidade
específica, de locação ou aquisição de espaço físico maior.

Menciona os entraves à execução de uma obra, havendo incertezas quanto ao prazo, estimado entre 3
(três) e 5 (cinco) anos pela Gerência de Engenharia e Manutenção do BRB, considerando o prazo de
estudos, elaboração de projetos, licitação e execução da obra, caso feita pelo Banco, ou ainda se esta for
feita por investidor, após a venda do prédio, o que exigiria processo licitatório. Além disso, alude o valor
a ser despendido com a reforma do Edifício Brasília e a construção do prédio anexo, avaliado
aproximadamente em R$ 110 milhões de reais, com base em Estudo de Requalificação do Edifício
Brasília feito pela SUSEG/GEREM.

Frisa que além do prazo previsto para a obra, haveria ainda a realização de despesas durante esse período,
porquanto ao deixar o Edifício Brasília, os ocupantes deste prédio teriam que ser realocados em outro
espaço, por meio de contrato de locação, para exercer as atividades do Banco durante a execução da obra,
incorrendo no aumento de despesas, o que, no seu entender, revela que a reforma de tal Edifício não
atende a finalidade pretendida pela Instituição, qual seja, alocar todas as empresas do conglomerado BRB
em um único local, de modo que não haveria qualquer relação entre o contrato de aluguel do CNC por 10
(dez) anos e o tempo estimado para reforma da sede atual.

Em complemento, esclarece que o Edifício Brasília será reformado para acomodar toda a área de
tecnologia do Banco, pois este Departamento está em pleno crescimento, principalmente pela ampliação
significativa dos negócios do BRB e também porque a Instituição executa alguns serviços de TI
vinculados ao Distrito Federal, a exemplo dos serviços de Bilhetagem do Transporte Público.

Destaca que a aquisição de uma nova sede representaria aumento do ativo imobilizado do seu patrimônio,
um montante equivalente a R$ 276.000.000,00 (duzentos e setenta e seis milhões de reais), enquanto a
locação das torres B e C, tem custo mensal inferior a R$ 2 milhões de reais, sem a necessidade de
desembolso imediato de quantia expressiva para adquirir um bem que não geraria receitas e que
imobilizaria parte relevante do ativo do conglomerado empresarial, podendo comprometer o
gerenciamento eficiente do fluxo de caixa da Instituição, culminando em perdas.

Com aluguel inferior a R$ 2 milhões de reais, sublinha que o Banco poderá utilizar de imediato, a quantia
de R$ 276.000.000,00 (duzentos e setenta e seis milhões de reais) para conceder novas operações de
crédito ou investir em ativos do mercado financeiro e de capitais, primando pela adequada remuneração
do valor não desembolsado e mantendo os níveis mínimos aceitáveis de liquidez da Instituição.

Por fim, reiterou o pedido de indeferimento da liminar pleiteada, defendendo não estarem presentes os
requisitos legais necessários à sua concessão.

Parecer do Ministério Público do Distrito Federal no ID n° 61325450. Alude que o il. Advogado
signatário da presente ação firmou outras 5 petições iniciais com objeto idêntico, alterando apenas o nome
de cidadão que encabeça o expediente e que após a obtenção do provimento liminar, este formulou pedido
de desistência nas demais ações, o que revelaria conduta temerária do Causídico. Ademais, na sua
acepção, a conduta indevida é de responsabilidade do il. Advogado signatário das petições iniciais, sendo
as autoras das ações meros objetos.

Número do documento: 20042708441794100000059105602


https://pje.tjdft.jus.br:443/consultapublica/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?nd=20042708441794100000059105602
Assinado eletronicamente por: JANSEN FIALHO DE ALMEIDA - 27/04/2020 08:44:18 Num. 61975563 - Pág. 3
Oficiou o Parquet pela extinção do processo, sem julgamento de mérito, revogando-se a liminar
concedida, com expedição de ofício à OAB/DF relatando a prática executada pelo Advogado perante esse
juízo, e litigância de má-fé por infringência ao art. 80, V, do CPC.

Facultei a prévia manifestação da parte autora, nos termos do art. 10 do CPC, acerca do pedido formulado
pelo MP. Na mesma oportunidade, determinei ao BRB que acostasse no feito cópia do contrato de
locação celebrado com a CNC, no prazo de 48h, e que após o cumprimento desta determinação fosse dado
vista ao MP para se manifestar, caso quisesse, acerca do pedido liminar (ID n° 61336343).

Petição do BRB no ID n° 61360993, indicando a colação do contrato de locação firmado entre o BRB e a
Confederação Nacional do Comércio de bens, Serviços e Turismo.

O Distrito Federal se manifestou no ID n° 61363224. Primeiramente, aponta não possuir interesse jurídico
em atuar no feito, por não ser parte no contrato de locação questionado e, ainda, frente à autonomia da
sociedade de economia mista, a qual possui personalidade jurídica própria, constituída sob a forma de
direito privado.

Diz, ainda, se tratar de ato de gestão do Banco, não verificando, por ora, interesse público a ensejar a sua
intervenção anômala, pleiteando seja o feito extinto em relação ao poder público, ante a sua ilegitimidade
passiva e, subsidiariamente, indica não possuir interesse jurídico na demanda.

Facultei a prévia oitiva da parte autora acerca da preliminar de ilegitimidade passiva levantada pelo DF
(ID n° 61434602).

A parte autora peticionou no ID n° 61635774. Salienta que o Distrito Federal deve ser mantido no polo
passivo da lide, pois é o maior acionista do BRB, o que evidenciaria o interesse público.

Quanto à manifestação do Parquet, aduz ausência de má-fé seja por sua parte ou mesmo do Patrono da
causa, indicando que a Ação Popular pode ser manejada pelo cidadão no resguardo do interesse público.
Além disso, no que concerne à pluralidade dos processos, frisa que dentre todos os feitos distribuídos, este
Juízo foi o primeiro a despachar, a incidir o princípio da conexão e, por consequência, a prevenção,
alegando que sendo este Juízo o responsável pela reunião dos processos para o julgamento simultâneo, as
desistências formuladas nas demais ações, enseja a rejeição da alegada existência de má-fé e conduta
temerária.

Ao final, pediu a rejeição das alegações apresentadas pelo Parquet e centralidade no objeto da lide, qual
seja, a celebração do contrato de locação entre o BRB e a CNC por período de 10 (dez) anos, com o
pagamento de valores estratosféricos, sem observância ao procedimento licitatório ou mesmo robusta
justificava.

Foi intimado o Ministério Público a se manifestar especificamente quanto ao pedido de liminar, cujo
prazo ainda não se expirou.

É O RELATO. DECIDO.

Entendo que, antes de apreciar a liminar imprescindível sanar as preliminares que antecedem o
mérito.Somente depois de ouvido o MP será decidida.

No que diz respeito ao pedido de gratuidade de Justiça postulado na inicial pela parte autora,
saliento que, nos termos do art. 5º, inciso LXXIII da CF, o autor da Ação Popular é, salvocomprovada
má-fé, isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência.

Número do documento: 20042708441794100000059105602


https://pje.tjdft.jus.br:443/consultapublica/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?nd=20042708441794100000059105602
Assinado eletronicamente por: JANSEN FIALHO DE ALMEIDA - 27/04/2020 08:44:18 Num. 61975563 - Pág. 4
DA EXTINÇÃO DO FEITO POSTULADA PELO MP E LITIGÂNCIA DE MÁ-FÉ

O MPDFT indicou a prévia distribuição de outras ações populares com o mesmo objeto ao dos
autos, pleiteando, por isso, a extinção do feito.

Cabe tecer algumas considerações.

De início, ressalto que o pedido liminar não foi apreciado quando do recebimento da petição inicial,
tratando-se, em verdade, do exercício do poder geral de cautela, de maneira a preservar o interesse
público, haja vista o risco de prejuízos decorrentes da finalização do contrato de locação, com
determinação posterior de suspensão ou mesmo declaração de nulidade deste – a ocasionar despesas de
desmobilização –, viabilizando a apreciação da tutela de urgência de forma adequada, após a
manifestação da parte ré, com a apresentação de toda a documentação necessária, nos termos do art. 7º,
inciso I, letra “b” da Lei nº 4.717/65. Em suma: mandei ouvir o DF e o BRB em 72h, para somente depois
apreciar a liminar.

Aparadas essas arestas, como é sabido, o direito brasileiro não admite presunção de má-fé, de maneira que
deve o julgador sempre se orientar pela boa-fé das partes, salvo prova em sentido contrário. Na situação,
entendo que o ajuizamento de outras ações populares, sendo o polo ativo ocupado por outros cidadãos,
não constitui fato suficiente a revelar ato ardil, até porque tal ação possui natureza cívico-administrativa e
pode ser manejada por todo e qualquer cidadão. A jurisprudência do eg. TJDFT trazida à baila pelo
parquet não se aplica à espécie, isto porque não há identidade de ações, porquanto a parte autora não
é a mesma. Prescreve o §2º do art. 337 do CPC: “Uma ação é idêntica a outra quando possui as mesmas
partes, a mesma causa de pedir e o mesmo objeto”. Consequentemente, não se enquadra na hipótese de
litigância de má-fé da parte, inaplicável o art. 80, V, do CPC. A reprodução de ações idênticas leva à
litispendência, é matéria de preliminar que antecede o mérito e consequente extinção do processo (arts.
337, §3º e 485, V, ambos do CPC). Partes diversas, com o mesmo objeto (pedido) ou causa de pedir não
leva à extinção do processo, mas na sua reunião para julgamento conjunto, decorrente da conexão,
aplicando-se a prevenção como critério de competência, o que explicitarei logo a seguir. Institutos
jurídicos diferentes com decisão prevista em lei diversa.

Noutra senda, é direito do advogado ajuizar uma, duas ou até mil ações com o mesmo objeto ou causa de
pedir desde que as partes autoras sejam distintas. A lei não proíbe expressamente, e ninguém é obrigado a
fazer ou deixar de fazer algo senão em virtude de lei, consagrando o princípio da legalidade (art. 5º, II da
CF). O próprio Ministério Público reconheceu que a jurisprudência rechaça a aplicação da litigância de
má-fé ao advogado, citando julgado do col. STJ (1.331.660/SP).

Pode até ser descortesia ou outro nome que se queira dar, entretanto, não é ilegal. E também não é ilegal
porque a lei tem a solução para esses casos. Essas 6, 7, que fossem 10 ou 100 ações populares, mesmo
distribuídas ao mesmo tempo, no mesmo dia ou não, concomitantemente ou não, deverão ser reunidas
para decisão conjunta por força da conexão (art. 55 e §1º do CPC). E quem julgará? O Juízo Prevento! E
qual foi o Juízo Prevento? Onde a primeira ação foi distribuída (art. 58 do CPC e §3º do art. 5º da Lei
nº 4.717/65 – Lei da Ação Popular).

Seguindo neste raciocínio, no momento da distribuição dos autos, por sorteio, quando recebi a petição
inicial, o sistema não acusou associação ou prevenção com outra ou outras ações populares com as
mesmas partes ou objeto (pedido) ou causa de pedir.

Não fosse isso, em consulta ao sistema PJE de primeira instância, verifico que a primeira ação foi
distribuída à 5ª Vara da Fazenda Púbica e Saúde Pública do Distrito Federal, a qual, contudo, não possui
competência para processar e julgar ações coletivas, nos termos do art. 3º da Resolução nº 12 do eg.
TJDFT, de 03/10/2019, que prediz:

Número do documento: 20042708441794100000059105602


https://pje.tjdft.jus.br:443/consultapublica/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?nd=20042708441794100000059105602
Assinado eletronicamente por: JANSEN FIALHO DE ALMEIDA - 27/04/2020 08:44:18 Num. 61975563 - Pág. 5
Art. 3º. A competência para conhecer e processar as novas ações sobre saúde pública do Distrito Federal
será exercida pela 5ª Vara da Fazenda Púbica e Saúde Pública do Distrito Federal, sem prejuízo de sua
competência originária, ressalvadas:

I – as ações que versam sobre responsabilidade Civil;

II – as ações civis coletivas;

III – a competência absoluta dos Juizados Especiais da Fazenda Pública do Distrito Federal, firmada na
Lei nº 12.153, de 22 de dezembro de 2009.

Neste caso, salvo melhor juízo, deveria o nobre Julgador se declarar incompetente e mandar redistribuir
aleatoriamente o processo. Não obstante, o Magistrado da mencionada Vara Sentenciou, homologando o
pedido de desistência aviado pela parte autora, o qual, por ter sido feito antes mesmo da angularização da
relação processual, dispensa prévia oitiva das partes.

De sua vez, em consulta ao PJe, constato que todas as demais ações populares distribuídas, com o mesmo
pedido e causa de pedir, ora em análise, foram extintas, por Sentença, ante o pedido de desistência
formulado pelos autores, a atrair a incidência do Enunciado Sumular n° 235 do col. STJ, segundo o qual “
a conexão não determina a reunião dos processos, se um deles já foi julgado”.

Sendo assim, não há mais motivação legal para distribuição por dependência, tendo em vista a prolação
de sentença, fato superveniente (Súmula 235 do STJ; §1º do art. 55 do CPC e §3º do art. 5º da Lei da
Ação Popular), sobrando somente uma ação popular em trâmite, isto é, nesta 3ª VFPDF, a qual por força
das razões acima expostas se tornou preventa.

Portanto, não há de se falar em extinção do feito, sob pena de violação direta à Constituição Federal, ao
Estatuto da OAB e ao Código de Processo Civil, até mesmo porque a regra no direito brasileiro é o acesso
à Justiça. A novel Carta aderiu ao princípio do amplo acesso à Justiça, mormente no que concerne às
ações destinadas ao controle de legalidade e moralidade administrativa, quer dizer, amparadas
diretamente no Estado Democrático de Direito, não se mostrando razoável tecer interpretações voltadas à
limitação da sua utilização pelo cidadão. Isso porque, o princípio em análise deve incidir juntamente com
o princípio da função instrumental do processo, de modo que, salvo efetiva prova da má-fé ou ausência
insanável dos pressupostos processuais, deve o processo ser preservado. Muitas vezes aqueles que detém
a titularidade das chamadas ações coletivas só as ajuízam em prol de uma determinada classe a que
pertencem, obviamente. Esse instrumento da possibilidade de ajuizamento da ação popular viabiliza ao
cidadão proteger o erário quando quem deveria fazê-lo se omite. Devemos sim atacar, defender ou não o
ato em si fustigado, nunca tergiversar quanto às partes ou seus advogados. O que importa aqui é o mérito
da demanda.

O princípio do acesso à justiça está previsto no artigo 5º, XXXV da Constituição Federal, o qual
preconiza que a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça de direito, é ainda
nomeado de princípio da inafastabilidade do controle jurisdicional ou princípio do direito de ação, de
maneira que a regra é a superação das barreiras que dificultem ou mesmo inviabilizem o acesso à Justiça e
não o contrário. Observe-se que na ação popular é facultado a qualquer cidadão se habilitar como
litisconsorte ou assistente do autor (§5º do art. 6º da Lei).

Tome-se como exemplo, recentes ações populares ajuizadas na Justiça Federal em que autoridades
federais não puderam assumir o cargo/função relevante, inclusive de Ministro de Estado, por conta de
uma liminar concedida nesta modalidade de ação, com fulcro na violação do princípio da moralidade. Em
verdade, talvez o cidadão não tenha ainda o pleno conhecimento da força que tem nas mãos, haja vista
que comumente são usadas para fins eleitorais perto das eleições. Falta um pouco de amadurecimento.

Número do documento: 20042708441794100000059105602


https://pje.tjdft.jus.br:443/consultapublica/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?nd=20042708441794100000059105602
Assinado eletronicamente por: JANSEN FIALHO DE ALMEIDA - 27/04/2020 08:44:18 Num. 61975563 - Pág. 6
DA ILEGITIMIDADE PASSIVA LEVANTADA PELO DISTRITO FEDERAL

O Distrito Federal aventou a sua ilegitimidade passiva, indicando se tratar de ato de gestão praticado pelo
Banco, a afastar o seu interesse jurídico em atuar no feito.

Pois bem, no que diz respeito ao polo passivo da demanda, é sabido que a Ação Popular pode ser
intentada contra as pessoas públicas ou privadas e as entidades referidas no art. 1º, contra as
autoridades, funcionários ou administradores que houverem autorizado, aprovado, ratificado ou
praticado o ato impugnado, ou que, por omissas, tiverem dado oportunidade à lesão, e contra os
beneficiários diretos do mesmo. (art. 6° da Lei n° 4717/1965).

Assim, a ação deverá ser proposta em face da pessoa jurídica, seja pública ou privada, ou mesmo
Autoridade Pública, responsável pela apontada lesão ao erário, ou seja, o autor deve indicar em sua inicial
o agente responsável pelo ato, a figurar no polo passivo da lide.

Cabe esclarecer que a legitimidade do Distrito Federal decorre de sua participação majoritária no Capital
Social do Banco de Brasília, o que se encontra expressamente previsto no seu Estatuto Social, a saber:

Art. 14 O Distrito Federal deterá sempre, no mínimo, 51% (cinquenta e um por cento) das ações do
BRB com direito a voto, com todos os poderes, deveres e responsabilidades do Acionista
Controlador definidos nos artigos 116, 117 e 238 da Lei nº 6.404/1976.

§ 1º O acionista controlador do BRB responderá pelos atos praticados com abuso de poder, nos
termos da Lei nº 6.404/1976.

§ 2º A ação de reparação poderá ser proposta pela sociedade, nos termos do art. 246 da Lei nº 6.404/1976,
pelo terceiro prejudicado ou pelos demais sócios, independentemente de autorização da assembleia geral
de acionistas.

Além disso, a Lei Federal n° 4.545/1964, ao autorizar, à época, a criação do BRB, estabeleceu que
o Distrito Federal deteria pelo menos 51% (cinquenta e um por cento) das ações com direito a voto (art.
15, d, §1°[1]), a evidenciar o interesse direto do Ente Distrital no objeto da lide, devido ao expressivo
montante do contrato em cotejo e ainda a sua responsabilidade, no caso de prejuízos, por ter
natureza de acionista controlador. Neste diapasão, nos termos do art. 29 do Estatuto do BRB, cabe ao
Governador fazer a indicação do Presidente do Banco, com aprovação da Câmara Legislativa,
apresentando-se evidente a legitimidade do DF na lide.

Cumpre esclarecer que cabe exclusivamente aos Juízos Fazendários decidir a respeito da existência ou
não de interesse jurídico que justifique a presença do Distrito Federal ou suas entidades no processo.

Cuida-se de aplicação, por analogia, da Súmula nº 150 do col. STJ, a qual preleciona que compete à
Justiça Federal decidir sobre a existência de interesse jurídico que justifique a presença, no processo,
da união, suas autarquias ou empresas públicas. Ou seja, competindo ao juízo Fazendário o
julgamento dos feitos nos quais o Distrito Federal seja parte, a este também compete averiguar o
interesse jurídico deste Ente.

Nesse mesmo sentido, inclusive, já decidiu reiteradas vezes este eg. Tribunal:

CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA. DIREITO PROCESSUAL CIVIL. VARA DA


FAZENDA PÚBLICA. VARA CIVEL. AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER. EXCLUSÃO DE ENTE
PÚBLICO PELO JUIZO FAZENDÁRIO. COMPETÊNCIA. VARA CÍVEL. 1. De acordo o artigo 26
da Lei de Organização Judiciária do Distrito Federal, Lei n. 11.697/2008), compete ao Juízo da
Vara da Fazenda Pública processar e julgar os feitos em que o Distrito Federal ou entidades de sua
administração descentralizada forem partes. Em consequência, a ele também compete averiguar o
interesse jurídico ou legitimidade passiva dos entes públicos perante o juízo fazendário, sobretudo

Número do documento: 20042708441794100000059105602


https://pje.tjdft.jus.br:443/consultapublica/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?nd=20042708441794100000059105602
Assinado eletronicamente por: JANSEN FIALHO DE ALMEIDA - 27/04/2020 08:44:18 Num. 61975563 - Pág. 7
porque a competência, no caso, é definida em razão da pessoa. 2. Declarada a ausência de interesse
jurídico do ente público no juízo fazendário, este torna-se incompetente para processar e julgar o feito,
que deverá ser encaminhado para juízo competente, na hipótese de subsistir parte legítima para figurar no
pólo passivo e com interesse na demanda. 3. Conflito admitido e declarado competente o Juízo Suscitado.
(TJDFT, Acórdão 1150520, 07180174720188070000, Relator: GETÚLIO DE MORAES OLIVEIRA 1ª
Câmara Cível, data de julgamento: 11/2/2019, publicado no DJE: 18/3/2019).

DIREITO PROCESSUAL CIVIL. CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA. AÇÃO DE


USUCAPIÃO. DISTRITO FEDERAL. INTERVENÇÃO COMO ASSISTENTE LITISCONSORCIAL.
INTERESSE NÃO RECONHECIDO PELO JUÍZO FAZENDÁRIO. COMPETÊNCIA DA VARA
CÍVEL. 1. O TJDFT possui o entendimento no sentido de que o Juízo Fazendário é o juízo
competente para decidir sobre a existência ou não de interesse jurídico do ente distrital que
justifique a sua presença na demanda. 2. Na ação de usucapião em que se discutem interesses
eminentemente particulares, uma vez reconhecida a ausência de interesse jurídico do Distrito Federal,
pelo Juízo Fazendário, a competência para o julgamento da lide é do Juízo Cível. 3. Conflito negativo
acolhido. Declarado competente o Juízo Suscitado. (TJDFT, Acórdão 1199230, 07111657020198070000,
Relator: HECTOR VALVERDE 1ª Câmara Cível, data de julgamento: 9/9/2019, publicado no DJE:
12/9/2019)

Necessário esclarecer que o ato praticado pelo BRB, até o presente momento, não pode ser
enquadrado como mero ato de gestão, isso porque acaso demonstrada a imprescindibilidade do processo
licitatório para o bem em questão, ou valor muito acima do preço de mercado, tal ato não poderá ser
enquadrado como de gestão, alçando a natureza de verdadeiro ato de império, eis que exercido no
desempenho de função pública e desrespeitando-se a regra de licitação.

Por isso, seus gestores podem responder civilmente, administrativamente, criminalmente, bem
como também serem enquadrados na lei da improbidade administrativa, tudo nos termos da lei.

Quer dizer, a omissão da Entidade em realizar processo licitatório, nas hipóteses em que a Lei
exige, constitui violação à Lei e à própria Constituição Federal, porquanto tal determinação busca
proteger o princípio da moralidade, dentre outros, previsto no art. 37 da Carta Magna, os quais, como é
cediço, não se aplicam ao regime de contratação das pessoas jurídicas unicamente de direito privado, de
modo que esta peculiaridade é justamente o que se distingue para o caso das empresas públicas e
sociedades de economia mista, pois se submetem a um regime jurídico híbrido. Nesses termos, embora
detenham natureza de direito privado, devem obediência a alguns procedimentos de direito público, cujo
objetivo se destina à proteção do patrimônio público.

Embora implacável que, em regra, os atos praticados pelo BRB não ostentam a natureza jurídica de
atos administrativos, vez que executados na condução e gestão de sociedade de economia mista, a
qual está sujeita, quase sempre, à regulação prevista para as empresas privadas, a situação é
distinta quando os atos são praticados no curso de processo licitatório ou em violação à licitação
imposta por lei, porquanto, em tais hipóteses, a licitação está sujeita a normas de direito público e
de interesse coletivo, vez que volvidas a resguardar a legalidade do procedimento como exata
tradução do princípio da legalidade, impessoalidade e moralidade administrativa.

Assim, em se tratando de processo coletivo que possui como objeto questionamentos referentes à
licitude de dispensa de licitação, mormente em se discutindo valores vultosos, despiciendo se falar em
ilegitimidade do Ente Público, tampouco em ausência de interesse jurídico.

Nessa linha de entendimento, consoante as razões expostas, e, respeitosamente pedindo vênia aos
entendimentos contrários, rejeito o pedido de extinção da ação, de litigância de má-fé da parte
autora, de expedição de ofício à OAB/DF, da ilegitimidade passiva do DF, e firmo a competência
para processar e julgar o feito.

Número do documento: 20042708441794100000059105602


https://pje.tjdft.jus.br:443/consultapublica/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?nd=20042708441794100000059105602
Assinado eletronicamente por: JANSEN FIALHO DE ALMEIDA - 27/04/2020 08:44:18 Num. 61975563 - Pág. 8
Aguarde-se a manifestação do MP quanto ao pedido de liminar. Após, voltem conclusos para decisão.

Intimem-se.

[1] Art. 15. Fica o Prefeito do Distrito Federal autorizado a constituir, nos termos desta Lei e da
legislação que lhes for aplicável, as seguintes sociedades por ações:

[...]

d) Banco Regional de Brasília S.A. (BRB)

§ 1º Nas empresas de que trata este artigo, a Prefeitura deterá, pelo menos 51% (cinquenta e um por
cento) das ações com direito a voto, e através de seus representantes fará observar, nos atos constitutivos
de cada empresa, os preceitos legais aplicáveis.

. Intimem-se.

Brasília - DF, 27 de abril de 2020 08:40:42.

JANSEN FIALHO DE ALMEIDA

Juiz de Direito

Número do documento: 20042708441794100000059105602


https://pje.tjdft.jus.br:443/consultapublica/Processo/ConsultaDocumento/listView.seam?nd=20042708441794100000059105602
Assinado eletronicamente por: JANSEN FIALHO DE ALMEIDA - 27/04/2020 08:44:18 Num. 61975563 - Pág. 9

Você também pode gostar