Você está na página 1de 6

Nós não fomos feitos para durar.

Na testa dele eu lia “cuidado, frágil” e no meu coração ele achou um prazo de validade
vencido.

Nós não fomos feitos para durar e, mesmo assim, entramos no mercado e compramos escovas
de dentes para colocarmos no pote do banheiro.

Ele trouxe um pijama para o meu armário e eu levei uma calcinha para a gaveta dele.

Nós sabíamos que não ia durar.

E mesmo sabendo que não ia durar, nós vestimos nossas meias e preparamos omelete às duas
da madrugada. Nós inventamos apelidos um para o outro e nomes para os filhos que não
teríamos. Nós contamos as moedas do bolso e corremos de mãos dadas até a padaria. Nós
dividimos a conta do jantar e a fronha de travesseiro.

Nós sentíamos que não ia durar, então nos abraçávamos apertado durante a madrugada e nos
beijávamos de língua antes de escovarmos os dentes. Combinamos de olhar para os olhos um
do outro ao invés dos ponteiros do relógio.

Nós tínhamos certeza de que não tínhamos sido feitos para durar, mas também tínhamos
certeza de que tínhamos sido feitos para sermos felizes.

E isso nós fomos.

Até o dia em que não duramos mais.

Afinal das contas, ele era frágil e meu coração já tinha passado do prazo.

Duramos mais do que casais que prometeram a eternidade.

(Natália Nodari)
Jorge me disse que queria ser pai.

Achei que não tinha escutado direito, então pedi para ele repetir a frase.

“Eu quero um filho.”

“Um filho?”

“É, amor, um filho...” - e desatou a falar de camisetinhas do timão e de passeio no parquinho.


Falou que estava sentindo um chamado, mesmo.

Eu, que só acredito naquele chamado que é filme de terror japonês, comecei a rir. Jorge não
gostou. Falou que eu deveria levar mais a sério a ideia dele de começar uma família.

“Mas nós e a Buda não somos uma família?” (Buda é a nossa cadelinha)

Jorge respondeu que era “claro que nós éramos uma família", mas perguntou se eu não estava
sentindo falta de nada. Respondi que não, e essa resposta não serviu para porra nenhuma, já
que, a partir daquele dia, volta e meia Jorge me sugeria para parar com a pílula.

Jorge apontava para os bebês da praça de alimentação.

Jorge me lembrava que eu não era mais tão nova assim.

Jorge me dizia que a mãe dele apoiava.

Jorge falava dos filhos dos amigos.

E assim foi até que uma madrugada eu olhei pra Jorge e falei que ele tinha razão. Eu ia, enfim,
parar de tomar a pílula. Jorge só faltava pular de alegria.

Falei que tinha algumas condições.

Jorge falou que faria qualquer coisa.

Falei que pararia com a pílula desde que ele trocasse as fraldas do bebê à noite. Afinal, eu
tenho insônia e depois que acordo uma vez não consigo mais dormir. Falei que também não
abriria mão da fisioterapia que faço depois do expediente, já que ficar sentada no serviço
acaba com as minhas costas. Falei que por causa isso Jorge buscaria a criança quando ela já
tivesse idade para ir à creche. Fora isso, estaria sempre presente para o nosso filho e para
todas as necessidades que ele tivesse.

Jorge me olhou quieto. Não tomei a pílula, mas naquela noite, não transamos.

Nem na seguinte.

Nem na outra.

Uma semana depois, Jorge me disse que tinha mudado de ideia. Falou que talvez eu devesse
"voltar a tomar o remédio".

Jorge não queria ser pai. Ele só queria que eu fosse mãe mesmo.

(texto ficcional de Natália Nodari)


Flávia me perguntou por que eu não estava no Tinder, já que estava solteira.

Respondi que estar solteira é diferente de estar disponível. Quem esta no Tinder está disposto.
Quem está no Tinder quer tocar e ser tocado. Tinder é coisa de quem quer ver gente, molhar o
lábio de cima na espuma da cerveja. Tinder é coisa de quem quer deitar em um travesseiro
que não é seu.

Flávia, não me entenda mal, eu disse. Eu também quero ser tocada. Mas antes eu quero que
me olhem como quem embrulha com papel manteiga um sonho de padaria. Eu quero ser vista
como se fosse envolvida por fitas e laços. Eu quero que meus nós sejam desamarrados com a
paciência que se tinha no tempo em que se escreviam cartas.

Flávia, dizem que depois dos trinta as mulheres ficam sagradas. Deve ser isso, Flávia. Eu sinto
que a chegada das três décadas

me transformou numa vaca indiana.

Eu quero que quem me ver passar saiba que a minha carne não é para ser comida. Minhas
tetas não podem ser apertadas. Meu corpo não pode ser testado para ver se encaixa em um
estábulo. O brilho do meu pêlo não está para exposição. Eu não posso ser pesada, medida ou
comparada, Flávia. Nos meu pescoço não cabem mais as etiquetas que cabiam antes.

Eu quero andar com as orelhas pesadas de brincos e os passos de quem olha a paisagem

e se nessa paisagem eu olhar para alguém

e nessa paisagem eu decidir ficar

eu quero que esse alguém me veja e diga:

Olha, uma vaca entrou no meu quintal. Acho melhor pisar devagarinho.

Eu não estou no Tinder porque sou uma vaca, Flávia.

Natália Nodari
Pedi um amor e ele me deu um bolo mofado. “Eu pedi amor”, disse.
- Isso é amor.
- Mas não vai me fazer mal?
- Talvez.
Olhei e novo e percebi uma larvinha de mosca saindo da cobertura.
- Vai querer ou não? – Ele olhava a larva também.
- Não sei. – A larvinha agora afundava cada vez mais no bolo.
- Eu não vou ficar parado o dia todo aqui, sabe.
Lembrei que não sabia cozinhar e levei o bolo para a casa. Primeiro
tentei tirar tudo que se movia na cobertura, mas era impossível . Me
contentei em raspar o mofo, fechar os olhos e engolir uma garfada.
Vomitei.
Dormi com o estômago roncando e acordei com dor de barriga dos
infernos. Não saí de casa nos próximos três dias: sem amor, não tinha
vontade de tomar banho nem de escovar os cabelos. Não queria olhar o
céu e nem os olhos das pessoas. No quinto dia sem amor, não quis abrir
as pálpebras muito menos as janelas da casa.
Prestes a perder as forças, olhei para a mesa e resolvi tentar de novo. O
estômago reclamou, mas não devolveu. O intestino resolveu não opinar.
Fui dormir indigesta e ao mesmo tempo aliviada. Pela manhã, as
maquiagens do banheiro voltaram a fazer sentido. As roupas no chão
pediram para serem penduradas. A maçaneta da porta pedia para ser
girada e eu obedeci.
A cada passo, sentia o estômago revirar, mas também sentia que estava
viva. Segui na rua disfarçando uns arrotos enquanto olhava vitrines.
À noite, resolvi encarar o bolo de novo.
Ele não pareceu tão ruim quanto no dia anterior. Na verdade, olhando de
lado nem dava para ver a parte feia. Segui comento o bolo, segui com o
estômago revirado e mais importante: segui com vontade de entrar no
ônibus e pagar minhas contas.
Até que o bolo acabou.
Preocupada, fui até ele pedir mais amor. O bolo que ele me entregou
estava coberto de moscas.
- Está fedendo demais. – comentei.
- É o que eu tenho.
Não consegui colocar sobre a mesa da sala, já que atraía mais moscas.
Botei dentro do forno e cortei uma fatia: o cheiro era insuportável.
Tampei o nariz aproximei o garfo da boca, tentando não mastigar as
moscas mortas. Sabendo que não poderia ficar sem amor e nem me livrar
de todos os insetos, engoli. O estômago não roncou nem a garganta
contraiu: já estavam habituados.
Quando o amor acabou, ele me entregou um prato fundo.
- Mas isso é vômito!
- Eu chamo de amor.
Entendi que era bolo vomitado e resolvi guardar na geladeira. No dia
seguinte provei uma colherada antes de ir trabalhar, e, para a minha
surpresa, eu já não sentia mais gosto de nada. Tomei outra
colherada à noite, pra garantir que iria ter vontade de tomar banho e sair
com meus amigos.
No dia seguinte tive um pouco de febre, mas segui dando umas
colheradas.
Dois dias depois, a cabeça doeu.
A febre voltou.
A garganta inchou.
Sem conseguir engolir o amor, fechei as cortinas e esperei a morte bater.
Quando ouvi o som da campainha, suspirei aliviada.
Mas não era ele.
Não era alguém que eu conhecesse. Tinha cabelos encaracolados e
trazia um prato com uma espécie de massa branca. Leve, limpa, tinha
cheiro de primavera.
- Isso não é amor. - Eu disse.
- É amor, sim. - Parecia surpreso.
- Não, não é. - Eu ri.
Os olhos dele encheram de lágrimas. Antes que eu pudesse mudar de
ideia, levou a torta de creme embora.
Natália Nodari
Espero que em 2019 a gente pare de romantizar a durabilidade dos relacionamentos
amorosos.

Eu sei que essa informação é frustrante, mas o casamento eterno dos nossos avós não é um
"relationship goals".

Ter como meta de relacionamento casamentos forjados numa época em que casais não
podiam se separar não é saudável. Ter como modelo de sucesso os cinquenta anos de união da
sua avó não é bonitinho.

Espero que em 2019 a gente pare de romantizar aquele relacionamento que preocupa as
pessoas que nos amam e nos respeitam.

"nós contra o mundo" só é bacana em novela das oito e em seriado da Netflix.

Se as pessoas que te amam e te respeitam* estão desconfiados do seu parceiro(a), as chances


de você estar em um relacionamento tóxico são altas.

Não deixe o seu companheiro(a) te convencer de que só ele quer o seu bem e que vocês tem
que "lutar" pela relação. Você não está em um filme. Você tem outras pessoas que se
importam com você.

E, por último, espero que a gente entre em 2019 parando de encher o saco de casais famosos
que se separam. Eles são pessoas reais, com sentimentos reais e sofrem toda essa pressão que
vincula durabilidade do casal com ser bem sucedido. Assim como você.

(Natália Nodari)

Interesses relacionados