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Análise e esclarecimentos sobre a

Medida Provisória nº 936/2020


Programa Emergencial para manutenção de emprego e da renda

O presente documento visa elucidar de forma objetiva e direta sobre a Medida


Provisória nº 936/2020 na qual traz duas possibilidades ao empregador para manutenção dos
postos de trabalho, sendo: a) redução proporcional da jornada de trabalho e de salário; e b)
suspensão do contrato de trabalho.

Conjugando com as opções acima apresentadas, o Governo (União) auxiliará o


Empregador com o pagamento de parte do salário do empregado, utilizando como parâmetro,
determinados percentuais previstos na Medida Provisória, calculados com base no valor do seguro-
desemprego a que o empregado teria direito. Atualmente o seguro desemprego segue o seguinte:

TABELA FGTS
FAIXAS DE MÉDIA
FORMA DE CÁLCULO
SALÁRIO MÉDIO SALARIAL
Multiplica-se salário médio por 0.8 = (80%). Terá direito de
Recebe até R$ 1.599,61
receber R$ 1.279,69.
Recebe de R$ 1.599,62 A média salarial que exceder a R$ 1.599,61 multiplica-se por
até R$ 2.666,29 0,5 (50%) e soma-se a R$ 1.279,69.
Acima de R$ 2.666,29 O valor da parcela será de R$ 1.813,03, invariavelmente.

Regras aplicáveis a todas as opções trazidas pela MP:


• Deve ser acordo individual escrito entre Empregador e empregado;
• Por ser um ato bilateral, deve haver concesso entre as partes (sabemos que não prevalece
isso!);
• Compete ao empregador informar ao Ministério da Economia a redução da jornada de
trabalho e de salário ou a suspensão temporária do contrato de trabalho, no prazo de 10
dias, contado da data da celebração do acordo, sob pena de arcar sozinho com o
pagamento até que preste as informações ao Governo;1
• A primeira parcela será paga no prazo de 30 dias, contado da data da celebração do acordo,
desde que informada dentro do prazo anteriormente citado;

1
O Ministério da Economia disciplinará ainda sobre a forma de transmissão das informações e comunicações pelo
empregador, bem como sobre a concessão e pagamento do Benefício Emergencial. Provavelmente será feito pelo
portal EMPREGADOR WEB.
• O benefício emergencial será pago enquanto durar a redução da jornada/salário ou a
suspensão do contrato de trabalho.

Feita as considerações gerais, passo a discorrer sobre cada modalidade prevista


pela Medida Provisória.

1. DA REDUÇÃO PROPORCIONAL DA JORNADA DE TRABALHO E DO SALÁRIO


Durante o período de calamidade pública, o Empregador poderá acordar a
redução proporcional da jornada de trabalho e de salário de seus empregados por até 90 dias,
devendo observar os demais requisitos:

• Preservação do valor do salário-hora de trabalho: a redução da jornada não poderá afetar


este aspecto do salário;
• Celebrado por meio de Acordo Individual, que deve ser apresentado ao funcionário com
antecedência mínima de 02 dias corridos;
• Os percentuais para redução podem ser de 25%, 50% e 70%, observando também outras
regras (quadro abaixo):

VALOR DO
REDUÇÃO ACORDO INDIVIDUAL CCT/ACT
BENEFÍCIO
25%
25% seguro-desemprego
Todos os empregados

50% I – com salário igual ou inferior a R$


50% seguro-desemprego 3.135,00 (três mil cento e trinta e cinco
reais); ou Todos os
empregados
II – portadores de diploma de nível
70% superior e que percebam salário mensal
70% seguro-desemprego igual ou superior a duas vezes o limite
máximo dos benefícios do Regime Geral
de Previdência Social (R$ 12.202,12).2

Exemplo 1:
Colaborador que ganha R$ 2.500,00 por mês, e por acordo, tem o salário
reduzido em 25%. Quanto o trabalhador receberá?

➔ A empresa pagará 75% do salário de R$ 2.500,00 do empregado = R$ 1.875,00


➔ O governo paga 25% do valor seguro-desemprego para essa faixa de renda (conforme
fórmula apresentada na primeira tabela – regra 2), ficando assim:

2
Art. 12.
o 2500 - 1.599,61= R$ 900,39
o 900,39 x 0,5 (50%) = R$ 450,15
o R$ 1.279,69 (média da primeira regra) + 450,15= R$ 1.729,84 (valor do seguro que
receberia)
o 1.729,84 X 0,25 (25% que será pago pelo Governo) = R$ 432,46
o 432,46 (Governo) + 1.875 (Empresa)= R$ 2.307,46
o Logo, o trabalhador receberá no período o salário mensal de R$ 2.307,46.

Exemplo 2:
Colaborador ganha R$ 1.200,00 por mês, e por acordo, tem o salário reduzido em
25%. Quanto o trabalhador receberá?

➔ A empresa pagará 75% do salário de R$ 1.200,00 do empregado = R$ 900,00


➔ O governo paga 25% do valor seguro-desemprego para essa faixa de renda (conforme
fórmula apresentada na primeira tabela – regra 1), ficando assim:
o 1200 X 0,8 (80%) = R$ 960,00
o 960 X 0,25 (25%) = R$ 240,00 (valor que será pago pelo Governo)
o 900 + 240 = R$ 1.140,00
o Logo, o trabalhador receberá no período o salário mensal de R$ 1.140,00.

Exemplo 3:
Colaborador ganha R$ 5.000,00 por mês, e por acordo, tem o salário reduzido em
25%. Quanto o trabalhador receberá?

➔ A empresa pagará 75% do salário de R$ 5.000,00 do empregado = R$ 3.750,00


➔ O governo paga 25% do valor seguro-desemprego para essa faixa de renda (conforme
fórmula apresentada na primeira tabela – regra 3), ficando assim:
o R$ 1.813,03 X 0,25 (25%) = R$ 453,25 (valor que será pago pelo Governo)
o 3.750 + 453,25 = R$ 4.203,25
o Logo, o trabalhador receberá no período o salário mensal de R$ 4.203,25.

Agora, se ao invés de 25% o empregador propusesse redução de 50%. Pode? NÃO!


RESPOSTA: O empregado ganha R$ 5.000,00, sendo acima do limite permitido. Tanto a
regra de redução de 50% quanto a de 70%, só permitem o acordo com quem ganha até R$
3.135,00 ou ganha 2x o limite do teto da previdência social (R$ 12.202,12 3) com diploma
de nível superior.

3
A CLT qualifica esse empregado como hiper suficiente.
E quem ganha entre R$ 3.135,00 a R$ 12.202,12 pode celebrar algum acordo para redução
da jornada e do salário?
RESPOSTA: Pelas regras da MP 936/220 não! Somente por CCT ou ACT (Convenção
Coletiva de Trabalho ou Acordo Coletivo de Trabalho).

IMPORTANTE:

Observa-se que de toda forma haverá perda salarial em desfavor do


empregado, mas a medida visa preservar o emprego e aliviar o empregador.

Vale destacar, que a opção de “redução de jornada e de salário” não tem ajuda
compensatória, exceto se o Empregador por livre espontânea vontade quiser, e nessa situação a
ajuda terá natureza indenizatória.

2. DA SUSPENSÃO DO CONTRATO DE TRABALHO

Basicamente, o empregado não vai prestar serviços, logo, via de regra, não vai
receber, não conta como tempo de serviço.

Poderá suspender o contrato pelo prazo máximo de 60 dias, podendo


fracionar em até dois períodos de 30 dias.

A forma celebração deve ser mediante acordo individual por escrito e


encaminhado ao empregado com antecedência mínima de 02 dias.

A legislação em tela, informa que durante o período da suspensão temporária,


o empregado fará jus de todos os benefícios concedidos pelo empregador, porém, não traz quais
são os benefícios teria direito. Particularmente, entendo que o empregado terá direito ao auxílio-
alimentação, plano de saúde, por exemplo, que são as chamadas cláusulas sociais.

Evidentemente, durante a suspensão do contrato, o Empregador não precisa


recolher as contribuições previdenciárias (não contará para fins de aposentadora no futuro), assim,
a MP trouxe a possibilidade de o empregado recolher como segurado facultativo a contribuição
previdenciária.

Por fim, com a pactuação da suspensão do contrato de trabalho, o trabalhador


receberá um auxílio do Governo, sendo necessário saber a receita bruta anual da empresa.
RECEITA BRUTA AJUDA VALOR DO
ACORDO INDIVIDUAL CCT/ACT
ANUAL DA EMP. COMPENSATÓRIA BENEFÍCIO
I – com salário igual ou
100% inferior a R$ 3.135,00 (três
Até 4,8 milhões Não é obrigatória mil cento e trinta e cinco
seguro-desemprego
reais); ou
II – portadores de diploma de Todos os
Obrigatório 30% nível superior e que empregados
salário do percebam salário mensal (demais)
Acima de 4,8 70% igual ou superior a duas
empregado
milhões seguro-desemprego vezes o limite máximo dos
(Paga pelo
benefícios do Regime Geral
empregador)
de Previdência Social.

Exemplo 1:
Colaborador que ganha R$ 2.000,00 por mês; empresa com faturamento bruto
anual inferior a 4 milhões. Quanto e como o trabalhador receberá?

➔ Poderá ser celebrado mediante acordo individual por escrito entre empregado e
empregador.
➔ A empresa não desembolsará ajuda compensatória, somente os benefícios concedidos.
➔ O governo pagará o valor de 100% do seguro-desemprego ao empregado.

Exemplo 2:
Colaborador que ganha R$ 8.000,00 por mês; empresa com faturamento bruto
anual superior a 4,8 milhões. Quanto e como o trabalhador receberá?

➔ Neste caso, não poderá ser feito mediante acordo individual, mas somente por meio de
CCT ou ACT.
➔ A empresa pagará uma ajuda compensatória de 30% do salário do empregado= R$ 2.400,00
➔ O governo paga 70% do valor do seguro-desemprego que o empregado teria direito.
CONSIDERAÇÕES FINAIS:

A MP 936/2020 é aplicável somente aos contratos de trabalho que estão em


vigor/curso, podendo enquadrar qualquer tipo de contrato, como por exemplo: experiência,
teletrabalho, aprendizagem, intermitente, entre outros.

Durante a suspensão do contrato de trabalho, o empregado de forma alguma


poderá prestar serviços à empresa, não importando se é presencial ou remota, caso contrário
haverá consequências previstas no Art. 8º, §4º, da referida MP.

Vale destacar, que a empresa não precisa aplicar a mesma regra para todos os
empregados. Pode até reduzir a jornada e depois suspender o contrato de trabalho, desde que não
ultrapasse os limites previstos.

Outra situação que pode ocorrer, caso a empresa dispense um funcionário em


decorrência da crise, depois veio a MP 936/2020 e a empresa quer o colaborador de volta, será
possível, desde que o aviso prévio ainda esteja em curso, precisando da anuência da outra parte
para a reconsideração.

Uma questão final importantíssima, é que a Medida Provisória relata que


quando o empregado tiver a redução da jornada e do salário ou tiver o contrato de trabalho
suspenso, terá direito a garantia de emprego, ou seja, estabilidade, não podendo ser dispensado
sem um justo motivo. Por exemplo, a estabilidade será a soma do período da redução da jornada
com o mesmo período para frente (dobro).

STF - DECISÃO LIMINAR DA ADI 6.363 DE 06/04/2020:


O ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal (STF), decidiu
nesta segunda-feira (06/04/2020) que os acordos oriundos da MP 936/2020 de redução de salário e
jornada de funcionários de empresas privadas apenas terão validade após a manifestação de
sindicatos.

O ministro frisou no despacho que a eventual inércia de sindicatos


representará, na prática, uma "anuência" ao acordado pelas partes. Segundo o jornal "O Estado de
S. Paulo" apurou, dentro do governo, a avaliação era a de que a decisão de Lewandowksi "poderia
ser pior", como suspender dispositivos da medida provisória.

A decisão de Lewandowski foi tomada no âmbito de uma ação movida pela


Rede Sustentabilidade, que acionou o Supremo para suspender regras que autorizam a redução
salarial e a suspensão de contratos de trabalho mediante acordo individual.
PARECER JURÍDICO
A Medida Provisória 936/2020 tem contornos viáveis para aplicação nas
empresas, pois oferece duas alternativas simples quanto a formalidade do acordo e com regras
objetivas.

Infelizmente, o ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal,


acabou prejudicando tais tratativas ao exigir que o acordo celebrado entre empregado e
empregador passe pelo crivo da entidade sindical. Evidentemente, como a maioria das empresas
não tem bom relacionamento com Sindicato, poderá ocasionar demissões em massa pelo país.

A decisão do ministro vem sendo bastante criticada no mundo jurídico, tanto,


que muitos estão exigindo que a decisão seja submetida ao pleno do STF. O presidente do STF, Min.
Dias Toffoli, já sinalizou que colocará em pauta em data estimada de 16/abril/2020, mas até lá, o
país perderá vários dias.

Outra dificuldade carreada pela decisão do ministro Lewandowski, é que


muitos lugares sequer tem sindicatos que abarque atividade de determinadas empresas, ficando
nesse caso, a cargo das Federações, em que somente se justifica na ausência de sindicato
representativo da categoria na base territorial, ou quando o ente sindical recusar-se a assumir o seu
papel na representação de sua categoria. Considerando esse cenário, o tramite para celebração
complica ainda mais.

Por hora, se a empresa tiver forças para suportar, recomendo aguardar a


deliberação do plenário do STF em sede definitiva sobre a necessidade ou não da participação de
sindicatos para celebração de acordos autorizados pela MP 936/2020.

Ademais, na minha humilde opinião a decisão liminar foi infeliz, visto que se
trata de uma medida temporária para preservar os empregos e não algo que terá duração
indeterminada, não havendo sentido o judiciário impor regras que burocratize as coisas, pois não
há tempo a perder.

Por fim, este é o parecer. De toda forma, é válido as informações aqui


apresentadas para que a empresa se prepare melhor.

Araguaína-TO, 08 de abril de 2020.

Jairo Barros Duarte


OAB/TO 6055