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Direito Internacional Económico – 5.

º Ano (Turma da Noite)


Faculdade de Direito de Lisboa – 15 de Janeiro de 2009

TESTE DE FREQUÊNCIA

1) Defina sucintamente:
a) Lei do preço único;
b) Técnica da consolidação;
c) Acordo da Jamaica;
d) Direitos de saque especiais.

2) Comente uma, e apenas uma, das seguintes afirmações:


a) “O objectivo do comércio livre, embora constitua o objectivo último do actual
sistema GATT/OMC, não constitui um valor absoluto, que deva prevalecer
sempre sobre outros valores”.
b) “É inegável que só teremos uma situação de primeiro óptimo com o comércio
livre mundial”.

3) Comente, à luz dos acordos da Organização Mundial do Comércio, as seguintes


medidas de apoio ao desenvolvimento económico dos chamados países menos
avançados, adoptadas pela Comunidade Europeia no dia 1 de Janeiro de 2009:
a) Os produtos originários dos países menos avançados deixaram de pagar
direitos aduaneiros quando da sua entrada no mercado comunitário;
b) Os produtos originários dos países menos avançados passaram a estar isentos
do pagamento de IVA quando da sua comercialização no mercado comunitário;
c) Os produtos originários dos países menos avançados deixaram de estar
sujeitos aos acordos da OMC sobre medidas de defesa comercial.

Duração do Teste de Frequência: 120 minutos.


Cotações: 1) 6 valores; 2) 5 valores; 3) 9 valores.

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CORRECÇÃO (Tópicos)

Grupo 1:
a) A existência, ou não, de um mercado realmente global pode ser aferida
através do recurso à chamada “Lei do Preço Único”, nos termos da qual, sem barreiras
às trocas comerciais (despesas de transporte e direitos aduaneiros), os produtos
similares vendidos em diferentes partes do Globo terão o mesmo preço. Mas, apesar da
crescente integração dos mercados internacionais, estes não se encontram tão integrados
como os mercados nacionais. Como foi referido numa das aulas teóricas, um estudo
recente realizado sob os auspícios do Institute for International Economics concluiu que
a fragmentação do mercado internacional entre países industriais permanece
considerável, mesmo entre países com direitos aduaneiros de valor reduzido. Os preços
de produtos comparáveis em países adjacentes da Europa e da América do Norte
diferem, normalmente, cerca de 20% e entre países situados em diferentes continentes
diferem entre 30 e 50%. Só no caso de alguns produtos altamente homogéneos (o caso
do ouro) se tem verificado a convergência de preços a nível internacional.

b) Ao mesmo tempo que se reduzem os direitos aduaneiros, convém evitar que,


no futuro, eles sofram aumentos. Recorre-se, então, à técnica da consolidação, prevista
no n.º 1 do art. II do GATT, através da qual os Membros da OMC se obrigam, a partir
de uma determinada data, a conceder ao comércio dos outros Membros um tratamento
não menos favorável que o previsto nas correspondentes listas de concessões, anexadas
ao GATT e com o mesmo valor deste (art. II, n.º 7, do GATT).
A consolidação de um direito aduaneiro num determinado limite não significa,
contudo, que esse seja o direito efectivamente cobrado. Na prática, o direito cobrado
pode ser inferior ou igual ao valor consolidado (não pode é ser superior). Em relação
aos produtos não constantes das listas de concessões, os Membros mantêm a liberdade
de cobrar o direito aduaneiro que bem entenderem, inclusive direitos aduaneiros de
montante suficientemente elevado para impedirem todas as importações de um
determinado produto (os chamados direitos aduaneiros proibitivos).
Finalmente, apesar de a técnica da consolidação ser essencial à protecção das
concessões realizadas e ao estabelecimento de uma base estável que facilite a previsão
económica e, consequentemente, as trocas comerciais, nem por isso o GATT deixou de
prever a possibilidade de os Membros da OMC modificarem ou retirarem uma

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concessão consolidada, se observadas determinadas condições (art. XXVIII do GATT),
ou de beneficiarem de excepções (art. 2.º, n.º 2, do GATT).

c) Com o fim do sistema de Bretton-Woods, fundamentalmente consubstanciado


com a 2.º alteração aos Estatutos do FMI, surge, no plano cambial, um “não sistema”, a
saber: cada país membro passa a ter a oportunidade de escolher uma de três soluções
(art. IV, Secção 2, alínea b), do Acordo relativo ao Fundo Monetário Internacional), a
saber:
- definir a sua moeda através de uma relação fixa com os direitos de saque
especiais, ou através de outro denominador, com excepção do ouro;
- ligar o valor da moeda a uma dada divisa, no quadro de um arranjo de
cooperação;
- adoptar qualquer forma de câmbio, incluindo a flutuação totalmente livre da
moeda no mercado cambial.

Mas, apesar de o Acordo da Jamaica ter abolido o preço oficial do ouro


monetário (art. IV, Secção 2, alínea b), do Acordo relativo ao Fundo Monetário
Internacional), o ouro tem ainda um papel a desempenhar. Os membros do Fundo têm o
direito de efectuar, entre si, transacções com base no ouro e pelos preços de mercado,
mas o FMI deve abster-se de controlar o preço do ouro ou de contribuir para o
estabelecimento de um preço fixo.
As reservas de ouro constituem, apesar de tudo, mais de metade da liquidez
existente a nível internacional e o FMI um dos maiores detentores oficiais de ouro a
nível mundial.

d) Face a escassez de liquidez começada a sentir na economia mundial a partir


de meados dos anos 60, os Estados Unidos declararam, formalmente, em 1965, a
necessidade de se criar um instrumento de reserva que permitisse aumentar a liquidez
necessária às trocas comerciais. A solução encontrada passou pela criação dos
chamados direitos de saque especiais, postos à disposição dos países participantes na
proporção das suas quotas.

Os detentores de direitos de saque especiais podem obter moedas livremente


utilizáveis dos membros do FMI de duas maneiras: primeiro, através de um acordo

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voluntário de trocas entre membros; segundo, o FMI designa membros com uma forte
posição externa para comprarem direitos de saque especiais de países com uma fraca
posição externa (art. XIX, Secção V, alínea a), do Acordo relativo ao Fundo Monetário
Internacional).
Actualmente, o valor dos direitos de saque especiais é determinado com base em
quatro moedas: dólar (44%), iene (11%), libra (11%) e euro (34%), e é calculado
diariamente, como a soma do valor em dólares de todas as quantidades de moeda
inscritas no cabaz, após a aplicação da taxa de câmbio existente ao meio-dia na praça
financeira de Londres.
Os direitos de saque especiais constituem actualmente a unidade de conta do
Fundo Monetário Internacional.
A principal crítica que se pode fazer, após cerca de 40 anos sobre a sua criação,
é que os direitos de saque especiais representam um instrumento de reserva
internacional débil, devido a emissões reduzidas (em finais de 2006, os Direitos de
Saque Especiais representavam cerca de 1% das reservas totais existentes a nível
mundial. Cf Andreas LOWENFELD, International Economic Law, 2.ª ed., Oxford
University Press, 2008, p. 619). A última atribuição de direitos de saque especiais
ocorreu em 1981, o que se deve em parte ao crescimento dos mercados internacionais
de capitais, e não se estabeleceu uma ligação preferencial na ajuda ao desenvolvimento.

Grupo 2:
a) O GATT é um acordo que funciona constantemente na base da regra e da
excepção, ou seja, da necessidade de prever uma determinada regra e de consagrar
paralelamente situações em que ela possa ser afastada.
No essencial, as excepções do GATT podem ser divididas em “excepções
gerais” e “excepções particulares”. As primeiras valem para todos os princípios
fundamentais do GATT. É o caso, por exemplo, das excepções previstas nos arts. XX e
XXI. Pelo contrário, as “excepções particulares” só se aplicam a um ou alguns dos
princípios fundamentais do GATT, em situações devidamente assinaladas. É o caso, por
exemplo, dos arts. III, n.º 8, e XI, n.º 2, do GATT.

No caso, por exemplo, do art. XX do GATT, o Acordo Geral permite aos


membros da OMC a violação das obrigações decorrentes do Acordo Geral,
nomeadamente, do importante princípio da não discriminação, a fim de que certos

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valores sejam protegidos (por exemplo, a moralidade pública e a protecção da saúde e
da vida das pessoas e dos animais ou a preservação dos vegetais).
A fim de que não se verifiquem abusos quando da invovação das excepções
gerais previstas no art. XX do GATT, o prólogo desta disposição impõe, apesar de tudo,
alguns limites, designadamente, que as medidas adoptadas pelos membros da OMC
“não sejam aplicadas por forma a constituírem um meio de discriminação arbitrária ou
injustificada entre os países onde existam as mesmas condições, ou uma restrição
disfarçada ao comércio internacional”.
É de assinalar, ainda, o facto de não haver qualquer prólogo no art. XXI do
GATT a condicionar o comportamento dos membros da OMC, ou seja, a margem de
discricionariedade dos membros da OMC é bem maior quando está em causa a sua
segurança.

b) Contrariando o argumento geral, até então dado como certo, de que toda a
união aduaneira, através da eliminação dos direitos aduaneiros no comércio entre os
seus membros, conduziria necessariamente a um aumento do bem-estar para todos os
países, Jacob Viner introduziu, em 1950, os conceitos de “criação de comércio” e de
“desvio de comércio”. No caso do primeiro conceito, temos a passagem de um produtor
menos eficiente para um mais eficiente; no caso do segundo, a situação inversa. A
integração económica pode, portanto, provocar um “desvio de comércio” das fontes de
abastecimento mais eficientes exteriores à área integrada para fontes de abastecimento
do interior da área, que, embora sejam as mais eficientes dessa área, são menos
eficientes que outras do exterior.
Os efeitos benéficos da união aduaneira (e da zona de comércio livre) serão
predominantes se a “criação de comércio” for superior ao “desvio do comércio”.
Assim, apesar de a liberalização do comércio mundial levada a cabo em
sucessivas negociações comerciais multilaterais ter reduzido a amplitude do risco de
“desvio de comércio” que os blocos económicos regionais comportam e de o
regionalismo estar na moda (dos actuais 153 membros da OMC, somente a Mongólia
não faz parte de qualquer zona de comércio livre ou união aduaneira), é indubitável que,
em termos económicos, só teremos uma solução de primeiro óptimo, ou de óptimo de
Pareto, com o comércio livre mundial. Só se este existir, será seguro que “se disporá
então necessariamente - e só então - do bem pelo menor preço possível. É essa, pois, a
solução do primeiro óptimo, sendo as soluções de formação de uniões aduaneiras

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apenas soluções menos favoráveis, de segundo óptimo, dado que pode sempre estar de
fora algum país com um preço mais baixo. Num mercado comum mundial estarão
disponíveis todos os factores de produção existentes, incluindo necessariamente os
factores dos países onde o seu preço for mais baixo” (cf. Manuel Lopes PORTO, Teoria
da Integração e Políticas Comunitárias, 3.ª ed., Almedina, Coimbra, 2001, pp. 236-
237).
Seria da maior relevância, enfim, falar das disposições dos acordos da OMC
aplicáveis em matéria de blocos económicos regionais (art. XXIV, nºs 4 a 10, do GATT,
Art. V do GATS e nºs 3 e 4 da Cláusula de Habilitação).

Grupo 3:
a) Está em causa uma vantagem concedida por um Membro da OMC (a
Comunidade Europeia) aos países menos avançados (nos termos do n.º 2 do art. XI do
Acordo que Cria a OMC, os países reconhecidos como tal pelas Nações Unidas).
Normalmente, por força da aplicação da cláusula da nação mais favorecida, esta
vantagem teria de ser estendida a todos os outros membros da OMC (art. I, n.º 1, do
GATT). Acontece que o sistema GATT/OMC prevê, a título de excepção, a
possibilidade (não a obrigação) de os países desenvolvidos membros da OMC, “não
obstante as disposições do artigo I do Acordo Geral, pode[re]m conceder um tratamento
diferenciado e mais favorável aos países em desenvolvimento, sem o conceder a outros
membros” (n.º 1 da chamada Cláusula de Habilitação, de 1979).
Estando em causa países menos avançados, o n.º 2, alínea d), da Cláusula de
Habilitação prevê, ainda, a possibilidade de lhes ser concedido um tratamento especial
no contexto de qualquer medida geral ou específica a favor dos países em
desenvolvimento (no caso da OMC, temos essencialmente três categorias de membros,
a saber: países desenvolvidos (geralmente, são vistos como tal os países da OCDE),
países em desenvolvimento (vale o chamado critério da auto-eleição) e países menos
avançados (como já foi referido, os que assim são reconhecidos pelas Nações Unidas)).
Finalmente, seria importante referir a propósito da interpretação da Cláusula de
Habilitação, ainda que muito sumariamente, o importante relatório do Órgão de Recurso
da OMC no caso European Communities – Conditions for the Granting of Tariff
Preferences to Developing Countries (2004).

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b) Estando em causa o IVA, um imposto indirecto, aplica-se a cláusula do
tratamento nacional, mais exactamente, o n.º 2 do art. III do GATT. Os direitos
aduaneiros, dado serem intrinsecamente discriminatórios, não estão abrangidos pela
cláusula do tratamento nacional.
Nos termos do n.º 1 do art. III do GATT, “os Membros reconhecem que os
impostos e outras imposições internas, bem como as leis, regulamentos e prescrições
afectando a venda, a colocação à venda, a compra, o transporte, a distribuição ou a
utilização de produtos no mercado interno e as regulamentações quantitativas internas
prescrevendo a mistura, transformação ou utilização de certos produtos em quantidades
ou proporções determinadas, não deverão ser aplicados aos produtos importados ou
nacionais de maneira a proteger a produção nacional”.
No essencial, a cláusula do tratamento nacional visa evitar que, uma vez pago o
direito aduaneiro (se o produto em causa não estiver isento) e cumpridas as
formalidades alfandegárias impostas, se aplique aos produtos importados tributação e
regulamentação internas de maneira a favorecer a produção nacional (situação contrária,
pois, à que se verifica no caso da hipótese).
Passando ao n.º 2 do art. III, temos que a sua primeira frase determina que “os
produtos do território de qualquer Membro, importados no território de qualquer outro
Membro, não estarão sujeitos, directa ou indirectamente, a impostos ou outras
imposições internas, qualquer que seja a sua espécie, superiores aos aplicados, directa
ou indirectamente, aos produtos nacionais similares”. Ou seja, nada parece impedir, a
contrario, que os produtos importados dos países menos avançados gozem de um
tratamento mais favorável face aos produtos similares de origem nacional (in casu, a
isenção do pagamento de IVA). Durante a vigência do GATT de 1947, um painel
reconheceu mesmo, ainda que no contexto do n.º 4 do art. III do GATT, que “as partes
contratantes podem aplicar aos produtos importados prescrições jurídicas diferentes se,
com isso, lhes concederem um tratamento mais favorável” (cf. Relatório do Painel no
caso United States – Section 337 of the Tariff Act of 1930, 7-11-1989, parágrafo 5.11).
Ao mesmo tempo, importa ter presente que a cláusula da nação mais favorecida
é aplicável, igualmente, aos impostos e outras imposições internas (n.º 1, in fine, do art.
I do GATT), donde resulta que o regime fiscal dos produtos importados se encontra
coberto simultaneamente pelas cláusulas da nação mais favorecida e do tratamento
nacional. Assim sendo, a isenção do pagamento de IVA só seria compatível com às

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cláusulas da nação mais favorecida e do tratamento nacional se aplicável a todos os
produtos importados e não apenas aos produtos originários dos países menos avançados.

c) Estão em causa nesta alínea os acordos da OMC relativos à aplicação do


artigo VI do GATT de 1994 (medidas anti-dumping), às subvenções e medidas de
compensação e às medidas de salvaguarda.
Atendendo ao art. X do Acordo que Cria a OMC (relativo a alterações aos
acordos da OMC), não é possível à Comunidade Europeia, de modo unilateral,
suspender a aplicação dos acordos referidos aos produtos originários dos países menos
avançados. O próprio princípio da globalidade aponta no mesmo sentido, isto é, no caso
dos acordos da OMC sobre medidas de defesa comercial, estamos perante acordos
comerciais multilaterais, acordos que criam direitos e obrigações para todos os membros
da OMC (art. II, n.º 2, do Acordo que Cria a OMC).
É verdade que os acordos da OMC sobre medidas de defesa comercial permitem,
em certas situações devidamente identificadas, um tratamento mais favorável para os
produtos originários dos países menos avançados (veja-se, por exemplo, o art. 27.º do
Acordo sobre as Subvenções e as Medidas de Compensação), mas nunca a suspensão da
totalidade dos acordos. Esta, a acontecer, teria de favorecer os produtos originários de
todos os membros da OMC e teria de corresponder a uma situação de facto, nunca a
uma situação de jure. Os membros da OMC nunca estão obrigados a cobrar direitos
anti-dumping ou direitos compensadores ou a aplicar medidas de salvaguarda, mesmo
quando estão reunidas as condições previstas nos acordos da OMC para a sua aplicação
(muitos membros da OMC nem sequer têm legislação anti-dumping).
Apenas no caso do Acordo sobre as Medidas de Salvaguarda, o Órgão de
Recurso reconhece, de jure, a possibilidade de um Membro da OMC não aplicar uma
medida de salvaguarda aos produtos originários dos países menos avançados, isto desde
que observadas duas condições. A primeira seria a existência de uma zona de comércio
livre ou de uma união aduaneira entre a Comunidade Europeia e os países menos
avançados membros da OMC (art. XXIV, nºs 4 a 10, do GATT e art. IX, n.ºs 3 e 4, do
Acordo que Cria a OMC e memorando de entendimento respeitante às derrogações às
obrigações decorrentes do Acordo Geral sobre Pautas Aduaneiras e Comércio de 1994).
A segunda passaria pela observância do chamado “princípio do paralelismo” (art. 2.º do
Acordo sobre as Medidas de Salvaguarda).

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O princípio do paralelismo é violado, por exemplo, se um Membro da OMC
toma em consideração todas as importações na determinação do prejuízo grave, mas
depois exclui as importações dos seus parceiros no bloco económico regional do âmbito
da medida de salvaguarda aplicada (cf. Relatório do Órgão de Recurso no caso United
States – Definitive Safeguard Measures on Imports of Wheat Gluten from the European
Communities, 22-12-2000, parágrafo 96).

Pedro Infante Mota (Regente da Disciplina de D.I.E.)