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Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

Economia Internacional – 3.º Ano/Turmas B e Noite


21 de Janeiro de 2013

EXAME

1) Defina:
a) Zona de comércio livre;
b) Dumping;
c) Serviços prestados no exercício da autoridade do Estado;
d) Princípio da interdição de desvalorizações competitivas.

2) Comente, à luz dos acordos da Organização Mundial do Comércio, as seguintes


medidas adoptadas pelos Estados Unidos no dia 1 de Janeiro de 2013:
a) A não cobrança de direitos aduaneiros;
b) A não cobrança de qualquer imposto sobre o consumo;
c) A não atribuição de quaisquer preferências comerciais a países terceiros.

Duração de 120 minutos.

Cotações: 1) 2 valores cada; 2) 4 valores cada.

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GRELHA DE CORRECÇÃO

GRUPO 1

1) Defina:
a) Uma zona de comércio livre comporta a livre circulação de mercadorias, sem
imposição de restrições quantitativas e de direitos aduaneiros no comércio entre os
países membros da zona. Cada país membro mantém, todavia, uma pauta aduaneira
própria em relação aos países não membros, pelo que não existe uma pauta aduaneira
comum aplicável a países terceiros. Assim sendo, os direitos aduaneiros diferem
geralmente de um membro para outro e, por isso, os exportadores situados num país
terceiro, por vezes, têm interesse em entrar na zona através do mercado do membro que
tem os direitos aduaneiros mais reduzidos (é o chamado “efeito deflector do comércio”,
que só se verifica se os custos de transporte forem inferiores à diferença entre as tarifas
aduaneiras dos países em causa). Para evitar que tal aconteça, os membros da zona
adoptam regras de origem, destinadas a determinar se as mercadorias que entram num
país membro da zona de comércio livre foram produzidas ou não no seu interior. Só as
mercadorias originárias da zona de comércio livre não pagarão direitos aduaneiros.

b) Uma empresa pratica dumping se vender no mercado de outro país um


produto a um preço inferior ao preço cobrado no mercado de origem ou ao seu custo de
produção. A venda no mercado de um país terceiro de um produto a um preço inferior
ao seu custo de produção permite encontrar dumping mesmo quando o preço no
mercado daquele país é superior ao preço praticado no mercado nacional do produtor.
O dumping só é condenável se causa ou ameaça causar um prejuízo importante a
uma produção organizada de um Membro ou se retarda sensivelmente a criação de uma
produção nacional (art. VI, n.º 1, do GATT de 1994). Caso tais condições se verifiquem,
“incumbe às autoridades do Membro importador a decisão de instituir ou não um direito
antidumping” (art. 9.º, n.º 1, do Acordo sobre a Aplicação do Artigo VI do GATT de
1994), ou seja, um Membro da OMC não é obrigado a cobrar direitos antidumping
sobre as importações que causam um prejuízo importante, embora esteja autorizado a
fazê-lo.

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c) Os serviços prestados no exercício da autoridade do Estado (art. I, n.º 3, alínea
b), do GATS) correspondem a qualquer serviço que não seja prestado numa base
comercial nem em concorrência com um ou mais prestadores de serviços (art. I, n.º 3,
alínea c), do GATS). A noção de serviços prestados no exercício da autoridade do
Estado é ainda clarificada para as medidas que afectem a prestação de serviços
financeiros no anexo relativo a esta actividade.
Os serviços prestados no exercício da autoridade do Estado não se encontram
sujeitos a negociação, não são objecto de compromissos específicos por parte dos
membros da OMC e os princípios do tratamento da nação mais favorecida e da
transparência não se lhes aplicam. Além disso, a coexistência de serviços
governamentais e privados no mesmo sector (por exemplo, no da saúde) não significa
que eles se encontrem em concorrência nem invalida a exclusão dos primeiros do
âmbito do GATS.

d) O princípio da interdição de desvalorizações competitivas (artigos I, iii, e IV,


Secção 1, dos Estatutos do FMI) implica que um Estado membro do FMI não pode
proceder a uma desvalorização da sua moeda com o objectivo único de melhorar a
competitividade dos seus produtos nos mercados internacionais. Quando inevitável, a
desvalorização cambial não deve ser muito importante, sob pena de falsear as condições
de concorrência a nível internacional.
Até agora, o caso mais importante de violação desta obrigação ocorreu no início
dos anos 80. No dia 19 de Setembro de 1982, Olof Palme voltou a ser eleito primeiro
ministro do seu país. Logo no seu primeiro dia no cargo (8 de Outubro), Palme
anunciou a desvalorização da coroa sueca em 16%. Essencialmente, a desvalorização
visava melhorar as condições para a indústria nacional. Os outros países Nórdicos, que
tinham procedido, igualmente, a pequenas desvalorizações das respectivas moedas
nacionais pouco tempo antes, queixaram-se publicamente e junto do FMI que a Suécia
tinha procurado obter uma vantagem injusta, um vez que a desvalorização da coroa
sueca tinha ido além do necessário para restaurar a competitividade da sua indústria. O
Directório Executivo do FMI reuniu-se para considerar a acção sueca, mas, no fim, não
houve qualquer decisão ou sanção. Apesar disso, é entendimento generalizado que a
Suécia agiu de modo contrário ao artigo IV(1)(iii).

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GRUPO 2

a) A não cobrança de direitos aduaneiros


Nada impede que um Membro da OMC deixe de cobrar direitos aduaneiros em
relação aos produtos originários de outros membros da OMC (e de países e territórios
não membros da OMC). Hong Kong, por exemplo, já o faz. Neste caso, aplicar-se-á a
cláusula da nação mais favorecida prevista no n.º 1 do art. I do GATT. É necessário ter
presente as características desta cláusula, principalmente o seu carácter incondicional e
automático, e que as vantagens atribuídas pelos EUA ao abrigo da cláusula da nação
mais favorecida prevista no n.º 1 do art. I do GATT só são obrigatoriamente estendidas
a outros membros da OMC, não a países e territórios aduaneiros autónomos que não
sejam membros da OMC.
Caso os EUA continuem a cobrar direitos aduaneiros relativamente aos produtos
originários de países e territórios que não sejam membros da OMC, será fundamental
determinar se um produto importado é originário, ou não, de um Membro da OMC.

b) A não cobrança de qualquer imposto sobre o consumo


Está em causa a cláusula do tratamento nacional (art. III, n.º 2, do GATT) e, no
essencial, esta cláusula visa evitar que, uma vez pago o direito aduaneiro (se o produto
em causa não estiver isento) e cumpridas as formalidades alfandegárias impostas, se
aplique aos produtos importados tributação e regulamentação internas de maneira a
favorecer a produção nacional. Mas, o respeito desta cláusula não implica nunca a
harmonização dos sistemas fiscais e das legislações nacionais dos membros da OMC.
Apenas a obrigação de os membros não aplicarem impostos e outras imposições
internas aos produtos importados de maneira a proteger a produção nacional.
Consequentemente, caso a não cobrança de qualquer imposto sobre o consumo
valha quer para os produtos nacionais, quer para os produtos importados de outros
membros da OMC, nada impede que um Membro da OMC deixe de cobrar tais
impostos.

c) A não atribuição de quaisquer preferências comerciais a países terceiros


Nenhum sistema de preferências generalizadas é obrigatório, porquanto nenhum
dos países doadores está obrigado a conceder um tratamento preferencial aos países em
desenvolvimento e menos avançados; trata-se de uma mera faculdade.

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Tendo o sistema generalizado de preferências sido estruturado não como um
direito básico dos países em desenvolvimento no âmbito do GATT, mas como um favor
ex gratia por parte dos países doadores, as preferências comerciais concedidas não se
encontram consolidadas, pelo que podem ser retiradas ou modificadas, unilateralmente e
a todo o momento, pelos EUA.
Mais complexa e diferente será a situação relativa aos acordos comerciais
preferenciais recíprocos concluídos com países terceiros (por exemplo, o NAFTA, de
que são membros os EUA, o México e o Canadá).