Unidade II
3 SEGMENTAÇÃO DE MERCADO E DEFINIÇÃO DE CLIENTES-ALVO
A segmentação de mercados, por sua vez, e suas muitas formas e variáveis auxiliam as organizações
no processo de identificação de seus clientes, alocando-os em grupos semelhantes e homogêneos sobre
os quais as campanhas e medidas estratégicas tendem a surtir melhores resultados.
O conceito de segmentação de mercado, uma das ferramentas mais importantes do marketing, projetou-se
no meio acadêmico e gerencial a partir da segunda metade do século passado, quando surgiram os trabalhos
de Wendell Smith (1956) e Engel, Fiorillo e Cayley (1972). Seu objetivo era claro: diante da impossibilidade
de atingir todos os consumidores, em consequência da heterogeneidade de necessidades, valores, dispersão
geográfica, gênero ou padrões culturais, as organizações direcionaram seus esforços para grupos específicos
de consumo. Por meio dessa filosofia empresarial, fragmenta-se o mercado total em inúmeros micromercados,
cada qual englobando consumidores com particularidades que os tornam semelhantes em atitudes,
comportamentos, valores, localização, etnia, sexo, uso e emprego dos produtos (PARENTE, 2003, p. 234).
Figura 8
32
ADMINISTRAÇÃO DE RELACIONAMENTO COM O CLIENTE
No Brasil, o assunto foi abordado pela primeira vez em 1972, por meio de uma tese de doutorado de
Geraldo L. Toledo, da Universidade de São Paulo. A partir daí, as atenções para a segmentação aumentaram
significativa e velozmente. Em 1991, foi definitivamente incorporada nas opções estratégicas brasileiras
por meio da obra de Richers e Lima (Segmentação: opções estratégicas para o mercado brasileiro).
Portanto, para Churchill Jr. e Peter (2005, p. 207), a estratégia de segmentação consiste na utilização
do marketing diferenciado, isto é, no uso de ações de marketing projetadas especificamente para cada
grupo de clientes identificados.
Um exemplo de segmentação:
33
Unidade II
• quem pode interessar-se em receber esse benefício que meu produto (ou
serviço) oferece?
Para Churchill Jr. e Peter (2005, p. 204): “segmentação de mercado é o processo de dividir um
mercado em grupos de compradores potenciais, com necessidades, desejos, percepções de valores ou
comportamentos de compra semelhantes”.
É importante lembrar que os profissionais de marketing não criam segmentos; sua tarefa é
identificá-los e decidir em quais vão se concentrar (KOTLER; KELLER 2006, p. 237). A aplicação
prática dessa segmentação requer competente visão estratégica no contexto (perfil) da
organização.
A segmentação, para ser realizada de forma a garantir resultados satisfatórios para a organização e
para os próprios clientes enquadrados em grupos ou categorias com características comuns não pode
ser realizada de qualquer forma, ela precisa seguir critérios que justifiquem o porque de sua realização
e sua utilidade, portanto, não é sair segmentação o que interessa, mas sim, segmentar em função dos
interesses relevantes.
34
ADMINISTRAÇÃO DE RELACIONAMENTO COM O CLIENTE
Figura 9
O quadro a seguir, extraído da obra de Dias (2003, p. 20-23), resume forma e critérios de segmentação
de mercado:
Quadro 5
Ao seguir a mesma linha de raciocínio do quadro anterior, como outra forma de explicar a segmentação
(mercado de clientes finais), na visão de outros importantes autores, temos:
• benefício: essa variável consiste no agrupamento de clientes de acordo com os benefícios que
buscam nos produtos e serviços, como economia de tempo ou dinheiro, serviços agregados,
funcionalidade, entre outros; enfim, os motivos básicos pelos quais os clientes são atraídos
por diferentes ofertas (SHETH; MITTAL; NEWMAN, 2001; HOOLEY; SAUNDERS; PIERCY, 2005;
CHURCHILL JR.; PETER, 2005; RICHERS, 1981);
• psicografia: os compradores são separados em grupos, com base em seu estilo de vida, personalidade,
valores e envolvimento com o produto – portanto, baseado em características psicológicas dos
clientes (KOTLER; KELLER, 2006; SHETH; MITTAL; NEWMAN, 2001). Um dos critérios de classificação
psicográfica é o VALS 2, que estuda os clientes de acordo com a auto-orientação (princípio, status
e ação) e seus recursos – renda, instrução, autoconfiança, saúde, desejo de comprar, inteligência
e energia pessoal (CHURCHILL JR.; PETER, 2005);
As vantagens são muitas e maiores do que o custo de sua não aplicação. Segmentar é conhecer
melhor o mercado em que se atua ou se pretende atuar; é tornar-se mais ágil para reagir às mudanças, em
especial às mudanças de comportamento do consumidor e econômicas, e é a capacidade de concentrar
esforços em grupos cujo potencial de retorno é mais elevado.
36
ADMINISTRAÇÃO DE RELACIONAMENTO COM O CLIENTE
Saiba mais
A seguir, as principais variáveis apresentadas por Philip Kotler (1995, p. 241): as principais variáveis
de segmentação para os mercados consumidores e os mercados industriais.
Quadro 6
37
Unidade II
• variáveis demográficas;
• variáveis operacionais;
• abordagens de compra;
• fatores situacionais;
• características pessoais.
Lembremos que, quando tratamos de um mercado industrial, ou simplesmente indústria, não nos
referimos apenas a uma organização, mas sim à soma de todas as organizações que atuam e competem
no mesmo segmento. Por exemplo: indústria farmacêutica composta por todos os laboratórios
farmacêuticos. Mas atenção: cada indústria possui, a partir de seus produtos e clientes, segmentos de
atuação em seu contexto industrial maior; por exemplo: fabricação de medicamentos que tratam de
problemas pulmonares ou medicamentos que tratam de problemas do coração.
A seguir, as principais variáveis de segmentação para os mercados industriais de acordo com Kotler
(1995, p. 247):
• variáveis demográficas:
38
ADMINISTRAÇÃO DE RELACIONAMENTO COM O CLIENTE
• variáveis operacionais:
— status de usuário/não usuário: devem ser focalizados grandes, médios, pequenos usuários
ou não usuários?
— capacidade do cliente: devemos focalizar os clientes que necessitam de muitos ou poucos serviços?
• abordagens de compra:
— natureza dos relacionamentos: devemos focalizar as empresas, com as quais temos forte
relacionamento ou, simplesmente, ir atrás daquelas mais desejáveis?
— política geral de compras: devemos focalizar as empresas que buscam qualidade, serviços ou
preço?
• fatores situacionais:
— aplicação específica: devemos focalizar certas especificações de nosso produto em vez de todas?
• características pessoais:
— atitudes em relação a riscos: devemos focalizar os clientes que assumem riscos ou evitá-los?
— lealdade: devemos focalizar as empresas que demonstram alta lealdade a seus fornecedores?
39
Unidade II
Anterior à ideia de segmentar, é preciso conscientizar-se do que é e para que serve a diferenciação.
Fazer ofertas de forma diferente implica criar e implementar o composto de marketing (produto,
preço, praça e promoção). Para se diferenciar de seus concorrentes, os profissionais de marketing utilizam
três tipos de diferenciação: a genérica, a focalizada e a segmentada (SHETH; MITTAL; NEWMAN, 2001, p.
404). A seguir, a explicação de cada uma delas.
No contexto da diferenciação, que também pode ser explicada como fazer de maneira diferente
aquilo que qualquer um pode fazer, isso com o objetivo de chamar a atenção positivamente para seu
produto, marca, loja etc., veja a imagem a seguir, um caso da marca Coca-Cola.
Figura 10
Saiba mais
40
ADMINISTRAÇÃO DE RELACIONAMENTO COM O CLIENTE
É uma diferenciação global (ou geral), feita sem perfil focalizado, isto é, não se destina a nenhum
grupo específico de clientes. Em vez disso, uma empresa faz uma oferta melhorada para todo o mercado.
Esse tipo de diferenciação é adequado para empresas capazes de apresentar seus produtos e serviços
como superiores aos da concorrência em todo o mercado.
Por exemplo: Henry Ford, ao perceber que os carros disponíveis em sua época não eram bem fabricados
e, ao mesmo tempo, eram vendidos a um preço muito alto, seguiu uma estratégia de diferenciação genérica:
criou o sistema de linha de montagem, que produzia um carro mais confiável com produtividade melhorada.
Consequentemente, foi capaz de oferecer um produto melhor a um preço mais baixo (600 dólares, quando foi
lançado) que o dos concorrentes. Essa abordagem proporcionou à Ford a liderança de mercado.
É uma abordagem em que a empresa identifica um segmento de mercado específico e, então, cria
um programa de marketing, para atrair esse segmento. Tal estratégia opõe-se à diferenciação genérica,
em que um único programa de marketing indiferenciado é oferecido a todos. Ou seja: na diferenciação
focalizada, são oferecidos, geralmente, diversos programas de marketing direcionados aos segmentos.
As empresas geralmente atuam como agentes de “nicho” nesse tipo de diferenciação.
Exemplo: algumas empresas formulam produtos específicos para mercados étnicos. Tanto a Revlon
quanto a Max Factor têm uma linha de produtos de beleza específicos para a população afro-americana.
A base química é diferente para esses cosméticos, refletindo necessidades genéticas e físicas e próprias
dessa população. Essa estratégia de diferenciação também foi expandida para as populações hispânicas
e asiáticas. Naturalmente, as populações agradecem pelos produtos adequados a seu perfil.
Esse terceiro tipo de diferenciação envolve a divisão do mercado total em segmentos homogêneos
por algumas características dos clientes (como demografia, psicografia e padrões de uso) e, depois, o
tratamento de cada um desses segmentos como um mercado distinto, para o qual todos os elementos
do composto de marketing são diferentes.
Exemplo: o setor automotivo. Basta olhar para os diferentes tipos de soluções que ele oferece, como
carros utilitários, monovolumes, carros compactos, station wagon e sedans, entre outros; as diferentes
categorias de preços dos produtos ligados à marca, ao acabamento e à tecnologia empregada, dentre
outros; e, ainda, o estilo e o perfil do comprador, pois, mesmo quando o poder aquisitivo não está em
jogo, há carros para um público mais jovem e, talvez, o mesmo carro, em outra configuração, para um
público mais exigente quanto a requinte e conforto.
Outro exemplo é a Gap Inc.: a empresa começou em 1969 com o nome Gap Stores, vendendo jeans
da Levi’s, oferecendo muito mais estilos e tamanhos do que uma típica loja de departamentos. Além
disso, ali, as mercadorias eram exibidas de forma mais organizada que nas lojas de departamentos. Assim,
41
Unidade II
a loja era, em si, um exemplo de diferenciação genérica em relação a outras lojas que vendiam jeans.
Anos depois, em 1983, a empresa adquiriu a Banana Republic, vendendo roupas casuais para clientes da
classe alta. Mais recentemente, em 1994, abriu outra cadeia de lojas, a Old Navy, dessa vez tendo como
alvo clientes de baixa renda. Em 1986, a Gap também inaugurou uma nova divisão, a GapKids, tendo
como segmento-alvo as crianças (SHETH; MITTAL; NEWMAN, 2001, p. 407).
Lembrete
No livro Comportamento do cliente, de Shet, Mittal e Newmann (2001, p. 412), o capítulo 12 trata
de diferenciação e segmentação de mercado (item anterior).
Na parte relativa à identificação dos mercados para diferenciação e segmentação, esses autores
afirmam que existem três grandes bases para identificar segmentos em qualquer mercado: o quê?,
quem? e por quê? da segmentação.
Veja, agora, um quadro explicativo das três bases para identificação de segmentos de mercado, o que
ajuda a entender por que tais perguntas são realmente fáceis de aplicar e compreender.
Quadro 7
42
ADMINISTRAÇÃO DE RELACIONAMENTO COM O CLIENTE
As empresas citadas nos exemplos a seguir são vencedoras do Prêmio Nacional de Qualidade
(PNQ), e as informações aqui apresentadas constam dos relatórios de gestão por elas apresentados à
FPNQ, disponibilizados ao público após o processo de premiação. Tais relatórios de gestão constam da
bibliografia da disciplina.
• Produtos:
— motoniveladoras;
— tratores de esteiras;
— pás carregadeiras;
— moto-escrêiperes;
— compactadores e escavadeiras.
• Segmentação
• Identificação de clientes-alvo:
43
Unidade II
Quadro 8
• Produtos:
— consultas de ambulatório:
– de emergência;
– eletivas.
— internações hospitalares:
– clínicas;
– cirúrgicas.
– clínicos;
44
ADMINISTRAÇÃO DE RELACIONAMENTO COM O CLIENTE
– radiológicos;
– tomográficos;
– ecográficos;
– invasivos;
– de análises clínicas;
– hemodinâmicos.
— clientes de convênios;
—clientes médicos;
— clientes funcionários;
— cliente comunidade.
A segmentação dos clientes dá-se de acordo com suas necessidades e as de mercado, por categoria
de convênio.
Um texto que pode ajudar a entender melhor o perfil de consumidor das classes de baixa renda e,
consequentemente, sua segmentação é o artigo “O discreto charme da baixa renda”, publicado pela
revista Exame em 24 de setembro de 2003. Ela serve para entender como tais consumidores (mercados)
estão se tornando cada vez mais foco das organizações no Brasil e no mundo.
Aqui, serão explicitados alguns critérios para uma segmentação de sucesso, segundo Sheth, Mittal
e Newman (2001).
Para que um esquema de segmentação tenha sucesso, ele deve satisfazer a três critérios básicos:
45
Unidade II
• substancialidade: todo segmento focalizado deve ser grande o suficiente para trazer lucros para
a empresa. Não faz sentido para uma empresa, no setor de computadores, gastar 10 milhões de
dólares para pesquisar e desenvolver um produto com preço final de dois milhões, se a probabilidade
é que apenas dois clientes o comprem;
• identificabilidade: cada segmento deve ser identificável de modo que o profissional de marketing
possa saber quem é o cliente e quais são suas necessidades, seus desejos e seus recursos;
• atingibilidade: finalmente, esses segmentos devem ser atingíveis sem desperdício de recursos.
Ou seja: deve haver a possibilidade de discriminar os segmentos pelos hábitos de mídia e pela
demografia de seus membros de modo que o profissional de marketing saiba como anunciar e
distribuir o produto, para que possa atingir os segmentos focalizados (p. 433).
No livro A única coisa que importa: trazendo o poder do cliente para dentro da sua empresa, Karl
Albrecht (1997, p. 62), um dos pioneiros na qualidade em serviços, ao iniciar a explicação do seu modelo
Serviço de Qualidade Total (SQT), afirma que são necessários dois tipos de pesquisa para compreender
os clientes:
• pesquisa de mercado:
— A pesquisa da percepção do cliente vai, pelo menos, um passo além da pesquisa de mercado
convencional. Ela procura compreender expectativas, pensamentos e sentimentos do cliente
individual em relação ao serviço produzido e ao provedor do serviço. Seu objetivo é discernir um
ou mais fatores críticos na percepção do cliente em relação à experiência total. Isso possibilita
que você elabore um modelo de valor para o cliente, que é um conjunto de critérios que guiam
as escolhas do cliente entre você e seus concorrentes.
46
ADMINISTRAÇÃO DE RELACIONAMENTO COM O CLIENTE
Não obstante possa parecer uma preocupação óbvia, vale ressaltar que,
Há, ainda, casos de algumas empresas que não fazem nada; não porque não querem, mas porque
não sabem como; outras que pensam que sabem e assumem o caminho errado. Por isso, é importante
aprender a conhecer os clientes, ouvi-los e responder a eles, uma vez que a ideia está ligada aos atributos
valorizados por eles.
Necessidades: “conjunto de requisitos, expectativas e preferências dos clientes ou das demais partes
interessadas” (p. 52).
Os termos contidos nesta definição ajudam muito em sua compreensão; tais termos são, por sua
vez, assim definidos:
• Requisitos: necessidades básicas dos clientes ou das demais partes interessadas, explicitadas
por eles, de maneira formal ou informal. Por exemplo, o cliente “requer” que o produto possua
características que atendam a suas necessidades básicas, claramente especificadas no momento
da aquisição.
• Expectativas: necessidades importantes dos clientes ou das demais partes interessadas, em relação
à organização, que normalmente não são explicitadas. Por exemplo, o cliente ‘espera’ que o
47
Unidade II
produto possua características que atendam a suas necessidades mais importantes em função
de experiências passadas, comparações com produtos similares, nível de tecnologia disponível ou
outros fatores.
• Preferências: necessidades específicas e particulares dos clientes ou das demais partes interessadas,
normalmente não explicitadas por eles. Por exemplo, o cliente “prefere” adquirir um produto que
possui características que atendem a suas necessidades particulares em detrimento de outros
que não as possuem. A capacidade de gerir preferências está ligada à de aprender sobre clientes
e demais partes interessadas.
O importante a ser notado no conjunto de definições acima é que a palavra necessidade não está
servindo para designar aquilo que é necessário, no sentido em que ela é definida nos dicionários de
língua portuguesa, como no Dicionário Aurélio, que nos descreve necessidade como: “que não se pode
dispensar; que se impõe; essencial; indispensável”. Na verdade, a palavra necessidade, na abordagem do
PNQ, pode envolver tanto aquilo que é necessário (imprescindível), quanto desejos relacionados a status,
prazer ou quaisquer outros motivos não vitais.
No livro Comportamento do cliente, Sheth, Mittal e Newman (2001) não trabalham com uma
definição tão abrangente da palavra necessidade, como a utilizada nos Critérios de excelência do PNQ.
Para eles, essa palavra deve ser diferenciada da palavra desejos. Na abordagem desses autores:
• necessidade: é condição insatisfatória de um cliente, que o leva a uma ação que tornará essa
condição melhor. A necessidade nasce de um desconforto nas condições físicas ou psicológicas
da pessoa;
• desejo: é o afã de obter mais satisfação do que o absolutamente necessário para melhorar uma
condição insatisfatória.
Para tais autores, os desejos ocorrem quando e porque os seres humanos querem levar suas
condições físicas e psicológicas a um nível além do estado de conforto mínimo. Um estômago faminto,
um corpo desprotegido, exposto a temperaturas extremas, ou as caspas nos cabelos constituem uma
necessidade. O mesmo fato acontece com o isolamento social, o tédio, o desrespeito dos pares ou de
outras pessoas, a falta de apoio emocional por parte dos seres amados e o amor não correspondido. No
entanto, além desses estados de desconforto, a vontade de obter produtos ou serviços melhores, ou em
maior quantidade, indica desejos.
48
ADMINISTRAÇÃO DE RELACIONAMENTO COM O CLIENTE
Assim, a comida satisfaz uma necessidade, mas a comida de primeira também satisfaz um
desejo. Qualquer carro satisfaz uma necessidade de transporte do ponto A ao ponto B, ao passo
que um carro da Lexus ou um da Mercedes satisfaz também um desejo de sentir emoção com
o desempenho do carro de obter prestígio, ou de projetar a autoimagem correta para as outras
pessoas importantes. Só quando as necessidades são satisfeitas é que aparecem os desejos
(SHETH; MITTAL; NEWMAN, 2001, p. 59).
Saiba mais
A palavra atributos é o conjunto de valores (preço, atendimento, garantia, entre outros) que envolvem
ou devem envolver determinado produto (incluindo-se os serviços) de forma que ele possa atender às
necessidades dos clientes aos quais se destina.
Para os autores do livro Comportamento do cliente (2001, p. 55), os clientes têm três diferentes
papéis: usuário, pagante e comprador: “o conceito mais amplo de ‘cliente’ destaca três diferentes papéis,
que podem ou não ser desempenhados pelo mesmo indivíduo. Independente de saber se a mesma
pessoa é usuária, pagante e compradora, cada papel dita um conjunto diferente de valores buscados
pelo cliente”.
No quadro abaixo, os autores, os mesmos que diferenciam necessidades e desejos, tratam, assim, do
que é valorizado pelos clientes.
2
Observação: o quadro foi adaptado para facilitar o entendimento dos papéis dos clientes, valores universais e
valores pessoais.
49
Unidade II
Quadro 9
Lembrete
Anteriormente, tratamos, em linhas gerais, daquilo que os clientes esperam nos seus diferentes papéis,
quando buscam satisfazer às suas necessidades e/ou aos seus desejos por meio de produtos (inclusive
serviços). O que passaremos a tratar, agora, é um detalhamento dos fatores que podem provocar tal
satisfação de necessidades e desejos.
Para tanto, faremos uso, inicialmente, do livro Administração de operações de serviço, quando
os autores Robert Johnston e Graham Clark (2002, p.135-137) apresentam um conjunto de fatores
de qualidade do serviço, atributos estes sobre os quais os clientes podem ter expectativas. Tais
fatores são:
50
ADMINISTRAÇÃO DE RELACIONAMENTO COM O CLIENTE
51
Unidade II
• cordialidade: o calor e a natureza da abordagem pessoal (em vez da abordagem física) do serviço,
particularmente dos funcionários de contato, incluindo a atitude agradável, a habilidade de fazer
com que o cliente sinta-se bem-vindo;
Para reforçar o aprendizado dos atributos ou valores anteriomente mencionados, vale recorrer a H.
James Harrington, no livro Aperfeiçoando processos empresariais (1993, p. 89).), quando o autor afirma
que, para assegurar a eficácia do processo, é preciso que se definam as necessidades e as expectativas
do cliente e, então, atenda-se a essas necessidades e expectativas.
• aparência;
• pontualidade;
• exatidão;
• desempenho;
• confiabilidade;
• utilidade;
• facilidade de manutenção;
• durabilidade;
52
ADMINISTRAÇÃO DE RELACIONAMENTO COM O CLIENTE
• custo;
• receptividade;
• adaptabilidade;
• confiabilidade.
Para tratarmos das diferenças entre os clientes intermediários e os internos, comparativamente aos
clientes finais dos produtos derivados dos processos organizacionais, recorreremos à abordagem de
Sheth, Mittal e Newman (2001), apresentada anteriormente.
O que se espera dos clientes intermediários, isto é, daqueles que compram para revender ou
para transformar, é que seus requisitos refiram-se fundamentalmente a necessidades, ou seja, não
se relacionem com desejos. Por esse motivo, seus valores são classificados como valor universal.
Os clientes internos, por sua vez, têm como característica geral o fato de não atuarem como pagadores (uma
exceção a essa regra encontra-se nas organizações que trabalham na forma de unidades estratégicas de negócios,
com a prática de preços internos de transferência), restando-lhes, então, os papéis de usuários e compradores.
Os clientes internos podem ser usuários finais quanto intermediários, e, em ambos os casos, o
que se espera é que seus atributos relacionem-se às necessidades, isto é, suas expectativas tendem a
relacionar-se aos valores universais (o que, nesse caso, é desempenho). O papel de compradores dos
clientes internos pode ter ou não significado, dependendo do grau de poder de negociação de cada
cliente interno em relação a seus fornecedores.
Pelo que vimos até agora, são vários os papéis exercidos pelos clientes e são vários os atributos/
valores que eles podem esperar. Todavia, pergunta-se: como saber que atributo é requerido em cada
momento da interação do cliente com seu fornecedor?
53
Unidade II
Para ajudar a responder à questão, um conceito que pode ser útil é o de “momento-verdade”, assim
abordado por Albrecht e Bradford, na obra Serviços com qualidade (1992, p. 30):
Tenha em mente que o momento da verdade não deve envolver necessariamente um contato
pessoal. O cliente sente um momento da verdade quando entra no seu estacionamento. Existem vagas
suficientes? O lugar está limpo e bem-cuidado? É fácil achar a entrada da empresa? As placas indicativas
estão colocadas de modo lógico e são fáceis de ler? Todos esses são potencialmente momentos da
verdade e ocorrem antes que ocorra contato com o cliente.
Como podemos achar os momentos da verdade da sua empresa? Uma forma consiste em sentar-se
com os gerentes, supervisores e funcionários e fazer uma lista dos rápidos encontros que os clientes
têm com qualquer aspecto da sua empresa – mas você deve disponibilizar-se a fazê-lo de acordo com
a perspectiva dos clientes. Não tente racionalizar nem dar desculpas. Apenas faça uma relação de todos
os pontos de encontro de que conseguir lembrar, por meio dos quais o cliente pode formar uma opinião
sobre a qualidade do seu serviço (e, potencialmente, do seu produto). Você provavelmente terá uma lista
bem comprida, e isso é apenas o começo (ALBRECHT, 1992, p. 29).
54
ADMINISTRAÇÃO DE RELACIONAMENTO COM O CLIENTE
Veja a figura anterior, simples e fácil de ser replicada; faça outra desta, escolha outro segmento da
economia, por exemplo, uma escola infantil, uma concessionária de automóveis, entre outros, e refaça
o ciclo de serviço, procurando identificar o máximo de momentos-verdade possível.
Elaborado o modelo de ciclo de serviço, a tarefa agora é simples: basta verificar, para cada momento-verdade
identificado no ciclo de serviço, qual ou quais atributos são valorizados pelo cliente.
Não é fácil estabelecer regras gerais quando se trata da compreensão e do atendimento das
necessidades e desejos dos clientes. De qualquer forma, algumas generalizações podem ser úteis, como
o pacote de valor para o cliente, apresentado por Karl Albrech no seu livro A única coisa que importa:
trazendo o poder do cliente para dentro da empresa.
Na abordagem de Albrecht (1997, p. 120-121), embora o projeto específico do pacote de valor para o
cliente varie entre indústrias e organizações, as pesquisas identificaram sete componentes críticos para
um pacote “genérico” de valor para o cliente. Esses sete componentes tornam-se a estrutura natural
para avaliar a adequação do projeto de qualquer pacote de valor para o cliente:
55
Unidade II
1. ambiental: o cenário físico, no qual o cliente experimenta o produto. Pode ser um quarto de
hospital, o saguão de um banco, a cabina de um avião, uma cadeira de barbeiro, uma loja de
departamentos, a calçada diante de um caixa automático, uma academia de ginástica ou um
número ilimitado de possibilidades. No caso de serviços à distância, o ambiente pode ser a própria
casa do cliente, ampliada pelo telefone por meio do qual ele tem contato com a empresa;
2. estético: a experiência sensorial direta, caso haja, encontrada pelo cliente. Ela pode incluir
cenas, sons, sabores, sensações físicas, desconforto, sentimentos, características estéticas de uma
mercadoria e o ambiente visual ou psicológico da empresa;
3. interpessoal: as interações do cliente com funcionários ou, em alguns casos, com outros clientes,
como parte da experiência total. Essa dimensão inclui amabilidade, cortesia, solicitude, aparência
física e competência aparente na execução de certas tarefas;
4. processual: os procedimentos que se requerem do cliente, ao fazer negócios. Eles podem incluir:
esperar, explicar suas necessidades, preencher formulários, prestar informações, ir a vários locais
e estar sujeito a manipulações ou tratamentos físicos;
6. entregável: qualquer objeto que fique em poder do cliente durante a experiência do serviço,
mesmo apenas temporariamente. Aqui está incluída qualquer mercadoria comprada, também
a bandeja de comida servida a bordo do avião. O item entregue pode não ser um “produto” no
sentido comercial do termo, não obstante o cliente recebe-o. Outros exemplos são os talões de
cheques, fitas de vídeo alugadas, cardápios, documentos de viagem e coletes salva-vidas;
7. financeiro: quanto e como o cliente paga pela experiência total. Em muitos casos, isso é óbvio, é o preço.
Em outros, pode ser menos óbvio. Por exemplo: um departamento de serviços internos pode cobrar dos
outros por seus serviços; nenhum dinheiro muda de mãos, mas os fundos irão de um orçamento ao outro.
Uma companhia de seguros pode pagar as despesas médicas, mas mesmo assim o cliente sabe o preço.
Vimos que, na abordagem de Sheth, Mittal e Newman (2001), as pessoas defrontam-se com
necessidades e desejos, cujo atendimento requer diferentes atributos/valores.
Para Albrecht (1997), tais atributos relacionados a necessidades e a desejos podem ser hierarquizados
de forma “semelhante à famosa hierarquia de necessidades humanas de Abraham Maslow” (figura 5). Tal
hierarquia é composta de quatro níveis:
56
ADMINISTRAÇÃO DE RELACIONAMENTO COM O CLIENTE
• básicos: atributos absolutamente essenciais da experiência, tangíveis ou intangíveis; sem eles, é inútil
tentar fazer negócio. O carro novo deve vir adequadamente montado, acabado e preparado para ser
entregue; a refeição comestível e o local limpo. O quarto de hotel deve estar limpo e mobiliado de
forma adequada; o produto pedido pelo correio de acordo com o que promete o catálogo;
• desejados: atributos que o cliente não espera, necessariamente, mas conhece e aprecia se
a experiência os inclui. Alguém dá sugestões úteis a respeito dos cuidados com o carro. Os
atendentes sugerem pratos especiais ou fazem favores especiais para tornar a refeição mais
agradável. O pessoal da recepção pode prover informações a respeito de atividades turísticas
locais, ou ajudar em problemas especiais. A empresa de mala-direta paga o custo da devolução
do item desejado;
• inesperados: atributos “surpresa”, que adicionam valor para o cliente, além de seus desejos ou
expectativas normais. O vendedor entrega o carro na casa do cliente ou em seu escritório. O
gerente do restaurante passa pela sala com biscoitos recém-assados, oferecendo-os gratuitamente
aos clientes. O funcionário do hotel oferece ao hóspede um copo de suco para tomar enquanto
espera ser servido. Alguém da empresa de mala-direta telefona ao cliente, para saber se ele gostou
do produto.
Inesperados
Desejados
Esperados
Básicos
57
Unidade II
Essa hierarquia comunica alguns pontos óbvios a respeito do valor para o cliente. Em primeiro lugar, ela revela
que é preciso desempenhar-se bem nos níveis básico e esperado, apenas para ter o direito de fazer negócio com o
cliente. Um restaurante limpo e comida de boa qualidade não são elementos de vantagem competitiva: são um
requisito mínimo para competir. Os atributos básicos e esperados são meramente sua entrada para o jogo.
É comum as organizações afirmarem que ouvem seus clientes. De modo geral, isso até ocorre, porém
com ressalvas, por isso é importante oferecer os instrumentos (meios) que facilitem a comunicação
entre clientes e organizações. Além disso, é preciso que exista adequada preparação para filtrar as
informações dos clientes e identificar o que é necessário responder; isto é: deve-se compreender o que
de fato é relevante e o que não é, tanto para o cliente quanto para a organização.
No livro A qualidade desde o projeto, J. M. Juran (1992, p. 74) alerta para o seguinte fato:
Quadro 10
Segundo Levitt, há distinção entre a orientação para o produto e a orientação para o cliente. Em
seu ponto de vista, as ferrovias perderam uma oportunidade de expansão por seu foco em ferrovias, e
não em transportes. Os estúdios cinematográficos também perderam a oportunidade de participar da
58
ADMINISTRAÇÃO DE RELACIONAMENTO COM O CLIENTE
crescente indústria da televisão, como resultado do seu foco em filmes, e não em entretenimento (Levitt
apud Juran, 1992, p. 75).
É óbvio que os exemplos acima são simples. Quando uma pessoa quer um automóvel, ela
deseja muito mais que transporte; quando quer uma casa, também deseja muito mais do que
simplesmente um espaço para viver; e quando faz uma viagem aérea, quer muito mais do que
sair de um ponto e chegar a outro. A esse respeito, vale ver os resultados de uma pesquisa da
empresa Qantas Airways a respeito das necessidades dos clientes das companhias de transporte
aéreo de passageiros:
Quadro 11
Qantas Airways
Pesquisa de necessidade de passageiros
Ordem de prioridade
Ordem Necessidade
1 Nenhuma bagagem perdida
2 Nenhuma bagagem danificada
3 Toaletes limpos
4 Poltronas confortáveis
5 Entrega rápida da bagagem
6 Amplo espaço para as pernas
7 Refeições de boa qualidade
8 Serviço rápido de reserva
9 Tripulação de cabine amigável/eficiente
10 Cabine limpa e arrumada
11 Temperatura/umidade da cabine confortáveis
12 Assistência para conexões
13 Ser informado dos atrasos
14 Transporte aeroporto-cidade
15 Informações precisas sobre chegadas para parentes e amigos
16 Embarque bem-organizado
17 Check-in rápido e cordial no aeroporto
18 Carrinhos para bagagem
19 Chegada no horário
20 Fornecimento de travesseiros/mantas
21 Assistência com alfândega/imigração
22 Partidas no horário
Não se chega a um “rol” tão completo de necessidades, como o apresentado no exemplo acima, sem
um conjunto adequado de instrumentos para ouvir o cliente.
59
Unidade II
Vale recordar que, na abordagem de Sheth; Mittal e Newman (2001), os clientes podem exercer os
papéis de usuários, pagantes e compradores. Na tabela abaixo, adaptada como quadro (quadro 2), tais
autores apresentam suas ideias a respeito da pesquisa do comportamento dos clientes nesses diferentes
papéis.
No livro Crescimento orientado para o cliente, o consultor Richard Whiteley (1996) apresenta um
conjunto de ferramentas para ouvir o cliente, sua natureza, suas vantagens e suas desvantagens. Tal
conjunto de ferramentas é reproduzido abaixo:
60
ADMINISTRAÇÃO DE RELACIONAMENTO COM O CLIENTE
Quadro 13
Números As empresas fazem contar em Método eficaz de coleta de dados Pode ser dispendioso.
para ligações seus produtos, ou material do cliente na ocasião em que os
telefônicas promocional, números de problemas de fato estão ocorrendo.
gratuitas telefones para contato. Além disso, melhora o índice de
satisfação e gera vendas adicionais.
Registros de Pede-se aos funcionários Capta dados dos primeiros lugares, O pessoal da linha de frente
contatos com o encarregados de manter aos quais os clientes provavelmente considera muitos “relatórios
cliente contato com o cliente que recorrem quando têm problemas. de contato com o cliente” um
reportem algo de interessante desconforto burocrático. Se
ou significativo que os quiser obter boas informações,
clientes digam. devem-se avaliar os registros
sobre a qualidade das
informações e mostrar que se
age de acordo com os dados.
Linha direta com o Número telefônico para o Além de fornecer informações, Os dados devem ser gerenciados
serviço ao cliente qual o pessoal do serviço proporciona uma sensação de poder cuidadosamente para terem
ao cliente pode ligar para ao pessoal da linha de frente. utilidade.
reportar problemas. Uma
caixa de correio de voz pode
ser suficiente.
Visitas do cliente Consiste em convidar os Os clientes apresentam excelentes Não oferecem uma
às instalações da clientes para visitar suas ideias enquanto estão nas suas compreensão abrangente dos
empresa instalações e é possível instalações. pontos de vista do cliente.
oferecer-lhes um melhor
serviço.
61
Unidade II
Pesquisas de Essas pesquisas têm um menu Se bem-gerenciados, podem fornecer Obterá poucas informações
opinião por de perguntas fixo para um informações cientificamente válidas sobre qualquer outro aspecto
telefone ou grande número de pessoas. sobre o que os clientes, de um modo que não as perguntas
correspondência Muito útil para a obtenção geral, pensam. Reuniões em pequenos específicas que se fizerem.
de opiniões sobre perguntas grupos não representam de forma (embora valha a pena ser feita,
fechadas, cuja importância já se confiável o que a base de clientes a pergunta, “Você teria outras
determinou ao fazer perguntas como um todo pensa. sugestões?,” raramente gera
abertas em outras situações. respostas extensas).
Compradores Profissionais que visitam a sua Fornece informações precisas sobre o Pode fazer com que os
disfarçados empresa no papel de clientes, serviço que se oferece. funcionários não se sintam
que reportam a maneira como acreditados.
foram tratados.
Interrogatório do Em um ambiente descontraído, Recorre a um conjunto de dados que Solução parcial, mas apresenta
pessoal da linha pergunte ao pessoal da a empresa já possui. riscos.
de frente dos linha de frente sobre suas
departamentos de experiências, com a finalidade
vendas e serviço de obter uma visão do que o
cliente enfrenta e quer.
Encontro com os Método de ouvir o cliente que Atinge um número maior de clientes, Pouco tempo para conversar,
clientes nas férias economiza tempo e custos. por dólar gasto, do que qualquer atmosfera artificial.
profissionais outro método.
Percebe-se que a tabela acima apresenta um detalhamento maior das ferramentas para ouvir o
cliente do que o apresentado por Sheth; Mittal e Newman. Fica a sugestão de classificar as ferramentas
propostas por Whiteley dentro da subdivisão proposta por tais autores (pesquisa qualitativa versus
pesquisa quantitativa), como forma de integrar as duas abordagens.
Uma das publicações da Fundação Prêmio Nacional da Qualidade é o Caso para estudos – Hospital
Taquaral, um relatório de gestão de um hospital imaginário, que serviu como instrumento para preparação
dos examinadores do Prêmio Nacional Qualidade em 1999 e 2000. Nesse caso, aparece um interessante
rol de “métodos utilizados para prospecção de oportunidades de mercado e levantamento da voz do
cliente”, que reproduzimos a seguir.
Método Descrição
Técnica originada no Japão, consiste na observação, em profundidade, de todas as possíveis
interações entre clientes e serviços, realizadas no local e no momento em que essas interações
ocorrem. O responsável procura sempre “andar com os sapatos dos clientes”, observando,
1 sentindo, ouvindo e registrando as experiências do cliente e as oportunidades que surgem.
Gemba No segundo semestre de 1999, vivenciou-se uma experiência única até hoje: a realização de
gembas na UTI neonatal, com apoio de uma psicóloga especializada em recém-nascidos. Os
dados coletados, representando requisitos tanto das mães como das crianças, estão sendo
utilizados atualmente para melhorias em diversos processos que envolvem aquela UTI.
62
ADMINISTRAÇÃO DE RELACIONAMENTO COM O CLIENTE
63
Unidade II
Tal qual o conjunto de ferramentas exposto por Whiteley, o rol de métodos para ouvir os clientes,
apresentado no exemplo do Hospital Taquaral, também amplia aquilo que foi destacado por Sheth; Mittal
e Newman. Sugere-se que se enquadrem os métodos agora apresentados segundo a classificação desses
autores (pesquisa qualitativa e pesquisa quantitativa), como forma de integração de conhecimentos.
Muitos instrumentos, meios e técnicas podem ser utilizados para conhecer os clientes, especialmente
no que tange a ouvi-los e lhes oferecer respostas satisfatórias. Nesse sentido, é pertinente realizar a
seguinte apreciação crítica:
[...] de nada adianta possuir eficientes meios para ouvir os clientes (captar as
informações manifestadas por eles, que apresentam seus interesses, desejos
e necessidades), se não houver conhecimento e apuro no ato de utilizar tais
informações no momento da “construção” do relacionamento sustentável
entre organizações e clientes.
É importante lembrar que os instrumentos utilizados para ouvir os clientes também sofrem críticas,
positivas ou negativas, por parte dos próprios clientes; daí a importância de serem usados de forma
coerente e contínua, bem como de serem realizadas apreciações e revisões frequentes, cujos fins
objetivem melhoramento permanente dos meios utilizados. Além disso, os clientes podem apresentar
maior ou menor aceitação em relação a cada método utilizado, o que justifica a substituição do método
em prática por outro mais eficaz para a situação corrente.
64
ADMINISTRAÇÃO DE RELACIONAMENTO COM O CLIENTE
Pense, ainda, seguindo o exemplo proposto, se tal grupo fosse separado por:
• indivíduos que residem com os pais e indivíduos que não residem com os pais;
• indivíduos que possuem casa própria, indivíduos que estão construindo a casa própria e indivíduos
que estão guardando dinheiro para comprar a casa própria;
Ao partir dessa condição, percebe-se que é possível escolher uma ou mais categorias de
identificação (alocação) acima, como forma de identificar melhor o público-alvo que se deseja atingir.
Com isso, é mais fácil separar os membros do grupo, com o objetivo de ouvir aqueles que realmente
são mais significativos para o negócio, por exemplo, hipotético: “Minha empresa comercializa
produtos de construção civil, seria mais recomendável, portanto, direcionar meus esforços de
comunicação mercadológica para aqueles que estão de fato construindo ou iniciando a construção
de residências”.
Além disso, é importante destacar que, quanto maior o número de cruzamentos realizados
a partir das características levantadas, mais numerosas e precisas serão as informações para as
organizações, no tocante ao conhecimento de seus clientes. Ou seja: ouvir os clientes é uma tarefa
difícil, mas por meio dela é possível direcionar o foco da empresa (suas imagens, seus produtos
e serviços), em função justamente de quem se pretende atender (os clientes). Os instrumentos
utilizados para ouvir os clientes, o cruzamento das informações levantadas por categorias, entre
outros, levam ao conhecimento do que os clientes pensam, esperam e como se manifestam em
relação a você (empresa).
Do ponto de vista do marketing estratégico para o relacionamento com o cliente, essa é uma
realidade-chave, pela qual todas as organizações passam, algumas “de olhos fechados” e outras, pelo
contrário, “de olhos bem abertos”, para aprender o máximo possível com os próprios clientes – alma do
negócio.
Por fim, mais do que saber qual é o melhor instrumento a utilizar para ouvir os clientes, é importante
elencar um ou alguns que consigam realizar essa tarefa, para que a seguinte possa ocorrer: o uso de tais
informações no processo de decisão, para levar respostas positivas aos clientes e, em igual proporção, à
própria empresa.
65
Unidade II
Saiba mais
Assim, com a leitura do texto indicado, é possível refletir sobre a seguinte “moral da história”:
existem diferentes formas de praticar a diferenciação, e tal assunto é presente em todos os tipos
de organização.
Sabendo disso, é importante assumir uma postura que construa um relacionamento mais apropriado
com os clientes, e é importante que a diferenciação seja feita com base naquilo que pode melhorar a vida
das pessoas (clientes) e não apenas na comparação entre o que os concorrentes oferecem ou deixam
de oferecer. Ou seja, a diferenciação deve estar baseada no relacionamento que ajuda a sustentar e
desenvolver, e não em copiar a criatividade alheia e oferecer coisas que possam vir a confundir os
clientes ou mesmo irritá-los.
Resumo
66
ADMINISTRAÇÃO DE RELACIONAMENTO COM O CLIENTE
Exercícios
Questão 1 (Adaptada de ENADE 2006). A Quitutes da Tia Zuzu é uma pequena empresa brasileira
que produz misturas pré-preparadas para bolos e tortas. O sucesso dessa empresa é tal que os diretores
estão considerando expandir o composto de produtos, comercializando bolos e tortas prontos. Os gerentes
de produto, no entanto, temem que as novas linhas de produtos canibalizem a linha de misturas. Como
a empresa pode se proteger da possibilidade de canibalização?
I. Direcionando a comunicação do novo produto para um público com perfil psicográfico diferente
daqueles que compram as misturas pré-preparadas.
II. Concentrando a distribuição da nova linha de produtos em regiões onde as misturas de bolos e
tortas não são distribuídas.
III. Comercializando a nova linha de produtos e as tradicionais misturas de acordo com o grau de
utilização.
I. Direcionando a comunicação do novo produto para um público com perfil psicográfico diferente
daqueles que compram as misturas pré-preparadas.
Afirmativa correta.
II. Concentrando a distribuição da nova linha de produtos em regiões onde as misturas de bolos e
tortas não são distribuídas.
Afirmativa correta.
III. Comercializando a nova linha de produtos e as tradicionais misturas de acordo com o grau de
utilização.
Afirmativa incorreta.
Justificativa: não seria solução para a canibalização, pois ambas as linhas de produtos poderiam ter
os mesmos graus de utilização.
Questão 2. (Provão 1997) Você está estudando o processo de segmentação e verifica que pode
aplicar estratégias de marketing diferenciado e indiferenciado. A primeira implica diversidade de
estratégias para melhor atender a um determinado segmento de mercado. Assinale a opção que não se
refere a marketing diferenciado.
A) Após o levantamento de clientes importantes, a empresa colocou o mesmo produto em vários segmentos
de mercado. Manteve a mesma estrutura da força de vendas e desenvolveu políticas de preço, dando
descontos especiais que variavam em função do perfil de cada grupo homogêneo de clientes.
B) Numa segmentação por estilo de vida e classe social, após uma pesquisa, a empresa manteve
a estrutura organizacional interna para não arriscar o nível motivacional dos funcionários.
Replanejou o composto de produto, e passou a ofertar linhas de produto em função dos grupos
de consumidores classificados por estilo de vida.
C) Numa segmentação geográfica, a empresa decidiu manter a mesma estrutura organizacional para cada
filial. Adotou uma política de produto padronizado, independente da localização geográfica, solicitando
a cada agência de publicidade uma mensagem que considerasse a tradição dos consumidores locais.
E) Na pesquisa dos consumidores, a empresa identificou que existiam segmentos com necessidades
diferenciadas. Apesar disso, foram mantidas a estrutura organizacional de produção, as estratégias de
canal de distribuição e de campanha publicitária, mas realizadas pequenas modificações nos produtos.
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