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Elvira Lopes Nascimento

Concordância e
Regência

Concordância e Regência
Concordância e
Regência

Fundação Biblioteca Nacional


ISBN 978-85-387-2773-6
Elvira Lopes Nascimento

Concordância e Regência

IESDE Brasil S.A.


Curitiba
2012
© 2009 – IESDE Brasil S.A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização
por escrito dos autores e do detentor dos direitos autorais.

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
_________________________________________________________________________________
N193c

Nascimento, Elvira Lopes, 1946-


Concordância e regência / Elvira Lopes Nascimento. - Curitiba, PR : IESDE Brasil,
2012.
264p. : 24 cm

Inclui bibliografia
ISBN 978-85-387-2773-6

1. Língua portuguesa - Concordância. 2. Língua portuguesa - Regência. I. Título.

12-2493. CDD: 469.5


CDU: 811.134.3’36

18.04.12 27.04.12 034877


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Elvira Lopes Nascimento

Doutora em Filologia e Língua Portuguesa pela Universidade de São


Paulo (USP). Mestre em Filologia e Língua Portuguesa pela USP. Especialista
em Língua Portuguesa e Literatura pela Universidade Estadual de Londrina
(UEL). Licenciada em Letras – Português/Inglês pela UEL.
Sumário
O objeto dos estudos linguísticos ...................................... 13
Sob o ponto de vista das manifestações linguísticas no texto situado.................. 13
O texto como unidade de ensino/aprendizagem da língua...................................... 16
Sob o ponto de vista da língua como estrutura ............................................................ 21

Morfossintaxe ............................................................................ 33
Os estudos gramaticais............................................................................................................ 33
As unidades linguísticas e os níveis de análise................................................................ 36
Por que morfossintaxe............................................................................................................. 40
Os critérios formal e sintático para a classificação morfológica................................ 42

O estudo da Sintaxe ................................................................ 55


As leis sintáticas.......................................................................................................................... 55
O campo de atuação da Sintaxe........................................................................................... 57
Frase e oração.............................................................................................................................. 60
A frase é uma estrutura............................................................................................................ 63

A estrutura sintagmática do português ........................... 75


Constituintes imediatos........................................................................................................... 75
Constituintes oracionais: os sintagmas.............................................................................. 77
Os tipos de sintagmas.............................................................................................................. 79
A estrutura do sintagma nominal........................................................................................ 83
Síntese da estrutura do sintagma nominal . .................................................................... 84
Sintagma verbal.......................................................................................................................... 85
A significação na construção dos enunciados ............... 93
Componentes do significado................................................................................................. 93
Ordem das palavras................................................................................................................... 96
Ambiguidade............................................................................................................................... 98
Redundância semântica .......................................................................................................102
Paráfrase sintática....................................................................................................................102

Sintaxe e Semântica ..............................................................111


A ordem.......................................................................................................................................112
A ordem nas orações...............................................................................................................113
A ordem nos sintagmas – constituintes . ........................................................................118
Função semântica: os papéis temáticos .........................................................................120

Sintaxe de concordância nominal ....................................129


Relações de concordância: termo regente e termo regido.......................................129
Relações de concordância nominal: gênero e número . ...........................................133
Concordância nominal...........................................................................................................134

Sintaxe de concordância verbal ........................................149


Concordância verbal...............................................................................................................150
A abordagem tradicional da concordância verbal.......................................................151
As regras variáveis da concordância verbal: uma questão de estilo?....................156
Estilo e concordância verbal ideológica..........................................................................158

Sintaxe de regência ...............................................................173


Os fatos sintáticos que geram os dados de análise.....................................................173
Manifestação da relação de regência...............................................................................176
Regência de alguns verbos...................................................................................................179
Regência nominal....................................................................................................................183
Crase: questão de sintaxe de regência ...........................195
Manifestação da relação de regência...............................................................................196
Crase: combinação e contração..........................................................................................199
Preliminares: o uso do artigo definido.............................................................................201
Preliminares: o emprego da preposição “a”.....................................................................204
Identificação do uso da crase...............................................................................................205

Sintaxe de colocação ............................................................215


As funções sintáticas dos pronomes pessoais...............................................................216
Posições do pronome átono junto ao verbo..................................................................218
Colocação pronominal em norma culta:
pronomes átonos atrelados à forma simples do verbo..............................................220
Colocação pronominal em norma culta:
pronomes átonos presos às formas compostas do verbo.........................................222
Colocação pronominal no uso coloquial da linguagem............................................223
Colocação pronominal: fatores ligados à sonoridade do enunciado....................225

Pontuação .................................................................................241
A função básica dos sinais de pontuação........................................................................241
Quando pontuar.......................................................................................................................243
Ambiguidades de sentido e pontuação..........................................................................245
O uso da vírgula no período simples................................................................................247
O uso da vírgula no período composto...........................................................................250
O uso do ponto e vírgula.......................................................................................................252
O uso dos dois-pontos...........................................................................................................253
O uso das reticências..............................................................................................................254
O uso do travessão...................................................................................................................255
O uso dos parênteses..............................................................................................................255
O uso das aspas.........................................................................................................................256
Apresentação

Ao atribuirmos ao texto uma função central para o intercâmbio comunica-


tivo realizado pelos usuários da língua, consideramos que as regras específicas de
textualidade e textualização se apoiam nas unidades que compõem o texto – as
frases. Estas, para comporem o texto, aceitam uma combinação múltipla de cons-
tituintes do sistema linguístico, cuja finalidade e relevância consistem em preen-
cher também uma condição de textualidade. A frase deve ser capaz de associar
significados e sequências de sons, mas isso vai depender da escolha e do arranjo
de seus constituintes hierarquicamente constituídos. Para isso, a frase submete-
-se à força das leis que regem essa organização sintática, uma vez que a língua em
uso pressupõe combinação, adaptações ao contexto de uso, observação de con-
venções sociais por parte dos seus usuários, pois os sentidos das frases só tomam
forma nos arranjos sintagmáticos.

Em consequência, no estudo da linguagem, não se pode sufocar o fun-


cionamento discursivo da língua, o sujeito, a história, a cognição, ignorando as-
pectos que estão interligados nos estudos linguísticos, como os sentidos e a in-
teração verbal, que dão margem a diferentes estilos e variedades de registro nos
múltiplos contextos de uso da língua. Isso significaria um reducionismo do objeto
– a linguagem. O enfoque para o estudo e a descrição da linguagem vai além de
um enfoque nas estruturas formais da língua e deve caminhar em direção à lin-
guagem e seu funcionamento, articulando e harmonizando os aspectos formais
à função, à ação, ao social e ao histórico.

Inseridos nesse quadro da linguística moderna, organizamos os tópicos


que constituem a disciplina Língua Portuguesa VI: Concordância e Regência. Você
vai perceber que os fenômenos sintáticos analisados e descritos são considerados
como desencadeadores da textualidade na superfície dos enunciados e, portanto,
o conhecimento das estruturas e leis morfológicas e sintáticas da língua, consti-
tui um importante instrumento para o aperfeiçoamento de nossa capacidade de
produzir textos.

Na aula 1, discute-se o objeto dos estudos linguísticos, em que se analisa


dois pontos de vista para a abordagem, a partir do texto-discurso e da língua
como estrutura. Na aula 2, trata-se da abrangência dos estudos através do vínculo
Morfologia e Sintaxe, a partir de uma abordagem da Morfossintaxe e na aula 3
estuda-se a estrutura sintagmática do português.

Na aula 4, percorre-se os caminhos da Semântica, discutindo-se a questão


da significação na construção dos enunciados e aspectos a ela relacionados. Na
aula 5, enfatiza-se aspectos do sentido, correlacionando Sintaxe e Semântica para
enfocar a ordem nos sintagmas. Na aula 6, enfoca-se a problemática que envolve
questões de Sintaxe e Semântica, uma vez que a compreensão da relação entre
forma, ordem e significado é princípio básico para a estruturação da língua. Na
aula 7, o enfoque recai sobre os princípios de relacionamento e concordância
entre as palavras na construção da frase. Na aula 8, trata-se especificamente da
relação entre o sujeito e o verbo.

Na aula 9, o enfoque recai sobre a integridade da construção frasal e da


relação entre termo regido e termo regente, e, na aula 10, aborda-se os aspectos
ligados à crase como marca formal da sintaxe de regência. Na aula 11, o objetivo
do enfoque é o de tratar da colocação dos pronomes átonos na frase em portu-
guês. E, finalmente, na aula 12, o enfoque recai sobre as leis sintáticas, que dão ao
usuário da língua diferentes possibilidades para a construção do ritmo do enun-
ciado através da pontuação.

Você ainda pode contar com dicas de estudo para cada um desses assun-
tos, sugestões de leituras complementares, uma farta referência que dará suporte
a cada tema tratado e estudos linguísticos com os quais você irá praticar e testar
os conhecimentos adquiridos.
O objeto dos estudos linguísticos

Os estudos linguísticos na área aplicada ao ensino-aprendizagem cada


vez mais têm entendido o texto como unidade fundamental da comuni-
cação verbal. O objetivo maior das aulas de Língua Portuguesa deveria ser
sempre ensinar e aprender o que pode ser usado, com a finalidade principal
de melhorar a capacidade de expressão e de comunicação. Nessa perspec-
tiva, o texto assume a posição central dentro da interação verbal e a frase
ganha importância como unidade responsável pela boa forma linguística
desses textos: “a frase, criação indefinida, variedade sem limite, é a própria
vida da linguagem em ação” (BENVENISTE apud SAUTCHUK, 2004).

Sob o ponto de vista das


manifestações linguísticas no texto situado
Com a finalidade de situar brevemente as posições adotadas pelos es-
tudiosos da linguagem no âmbito da pragmática interacional e no âmbito
do enfoque estruturalista – gramatical – iniciaremos esta reflexão com a
abordagem que toma a linguagem como atividade interativa e não como
forma ou sistema.

A língua como trabalho social, histórico e cognitivo


Partindo do ponto de vista que toma a língua como um conjunto de
práticas enunciativas e não como forma abstrata, pensamos a linguagem
em seu funcionamento no fenômeno textual, pois consideramos impos-
sível qualquer manifestação de linguagem fora do texto produzido em
uma enunciação.

Nos estudos da linguagem na atualidade, essa concepção está situa-


da na chamada linguística enunciativa. Concepção esta em consonância

13
O objeto dos estudos linguísticos

com os estudos de Mikhail Bakhtin e Valentin Volochinov, autores fundamentais


para esse quadro epistemológico. Para os autores, mesmo a mais elementar das
enunciações humanas se “organiza fora do indivíduo pelas condições extraor-
gânicas da vida social” (BAKHTIN; VOLOCHINOV, 1929/1982, p. 107). Em nossas
palavras, a enunciação humana é sempre um ato social, é produto da interação
social. Vejamos essa tese dos autores:
A verdadeira substância da língua não é constituída pelo sistema abstrato de formas linguís-
ticas nem pela enunciação monológica e isolada, nem pelo ato psicofisiológico de sua pro-
dução, mas pelo fenômeno social da interação verbal, realizada através da enunciação ou das
enunciações. (BAKHTIN; VOLOCHINOV, 1929/1982, p. 109)

Refletindo sobre a posição dos autores quando, na mesma obra, afirmam que
“A língua vive e evolui historicamente na comunicação verbal concreta, não no
sistema linguístico abstrato das formas da língua nem no psiquismo individual
dos falantes” (BAKHTIN; VOLOCHINOV, 1929/1982, p. 121) (grifo nosso).

A “comunicação verbal concreta” configura textos – formas empíricas do uso


da linguagem verbal, oral ou escrita, no interior de práticas sociais contextuali-
zadas histórica e socialmente. Esta perspectiva de língua/linguagem leva o ana-
lista a tomar como ponto de partida o texto na interação, associando-o, a partir
das pistas materiais que se encontram em sua superfície, às práticas sociocul-
turais no interior das quais surgiu e que chamamos de contexto. E ao se referir
à “comunicação verbal concreta” que “evolui historicamente”, os autores estão
se referindo à relativa estabilidade no modo de configuração dos enunciados,
que permite o seu reconhecimento (por exemplo, conseguimos reconhecer uma
fábula, uma bula de remédio, em meio a outros textos).

A interação verbal: a língua na prática social


A importância do que acabamos de discutir se deve a uma dicotomia muito
comum entre professores de língua portuguesa quando se deparam com a di-
visão: aspectos gramaticais e/ou aspectos textuais da fala e da escrita, o que os
leva a pensar que “o que é textual não é gramatical e que o que é gramatical não
é textual” (TRAVAGLIA, 2003), posição com a qual não podemos concordar.

Se partirmos da concepção de que a interação verbal é a realidade da língua,


o enunciado concreto (que tem um autor e um interlocutor) é a unidade mínima
da comunicação verbal. A partir desse momento, estaremos assumindo uma po-
sição da linguística enunciativa, ponto de vista do qual se estudam os fatos de

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O objeto dos estudos linguísticos

“fala”, ou seja, a produção concreta de enunciados por locutores na situação real


de comunicação.

A interação entre um locutor (ou mais de um) e seu(s) interlocutor(es) produz


um efeito de sentido que configura uma unidade semântica, ou seja, uma uni-
dade de uso da linguagem (um texto) e não uma unidade gramatical. Um texto
deve produzir sentido, ou então será apenas um amontoado aleatório de ele-
mentos da língua – o que significa que o texto deve apresentar textualidade. Para
Adam (apud BONINI, 2005) e Bronckart (2003) essa textualidade teria um nível
microestrutural (o das unidades semânticas de base, isto é, das frases), um nível
macroestrutural (o dos segmentos maiores constituídos pelos tipos de discurso
que constituem o texto) e um nível superestrutural (que organiza a produção e a
interpretação dos discursos em gêneros de texto).

O que a interação verbal configura não é uma estrutura morfológica ou sin-


tática, é um texto estruturado em vários planos, tais como: fonológico, sintático,
semântico e cognitivo, interdependentes e organizados no processo de enun-
ciação pelo qual se dá a interação verbal. Assim é que “A situação social mais
imediata e o meio social mais amplo determinam completamente e, por assim
dizer, a partir do seu próprio interior, a estrutura da enunciação” (BAKHTIN; VO-
LOCHINOV, 1929/1982, p. 113) (grifos do autor).

Percebeu por que não podemos tratar a língua como um código ou um sis-
tema de sinais autônomos, sem história e fora da realidade social dos falantes?
A língua é muito mais que um mero sistema de formas fonológicas, sintáticas e
lexicais. Como afirma Franchi (1992), a língua é uma atividade constitutiva com
a qual podemos construir sentidos. Não pode ser confundida com gramática,
ortografia ou léxico, pois ela se manifesta nos processos discursivos, concreti-
zando-se em variados gêneros de texto e recorrendo a diferentes linguagens
(verbal e não verbal).

Marcuschi (2001) considera a língua como uma forma cognitiva porque com
ela expressamos sentimentos, ideias, desejos; como uma forma de ação social,
pois com ela podemos agir realizando coisas; e, também, como um sistema sim-
bólico, uma vez que é constituída por um conjunto de signos que pode significar
muitas coisas, mas cujos significados não podem ficar “prisioneiros” no interior
das estruturas morfológicas ou sintáticas, ou seja, apreendidos de forma descon-
textualizada. Para esse linguista, a atividade comum entre produtor e receptor
engajados na interação oral ou escrita não pode ser reduzida a um simples pro-
cesso de codificação (na produção) e de decodificação (na recepção).

15
O objeto dos estudos linguísticos

A linguagem é vista por esse linguista (que apresenta seu postulado a partir
de uma abordagem sociointeracionista), sobretudo, como forma de ação e, nesta
perspectiva, deve ser analisada como atividade e não como estrutura. Entretanto,
o autor nos adverte para um problema que demanda muita reflexão: como cons-
truir uma teoria que equacione estrutura e atividade, que case adequadamente,
por exemplo, sentença e enunciado ou sentença/enunciado/enunciação?

Essa questão nos remete para a problemática da interação social – enfoque


que vai além dos fenômenos estruturais da língua. O estudo da interação verbal,
mediada pela linguagem, é essencial para que possamos entender não apenas o
funcionamento da linguagem, mas também o sujeito que se constrói na intera-
ção. Nesse quadro é que estudiosos como Bakhtin retiram a estrutura da língua
do foco de suas reflexões para situar a linguagem na esfera de uso, em seu con-
texto sociointerativo. Esse é o ponto em que ocorre a “virada pragmática”, no
enfoque dos estudos da linguagem, ou seja, analisam-se muito mais os usos e
funcionamentos da língua em situações concretas do que os elementos das es-
truturas do sistema da língua.

Atualmente, muitos linguistas têm discordado da tese de que o objeto da


sua ciência seja o sistema, o código abstrato imune às circunstâncias de uso em
cada situação de interação. Cada vez mais tentam descrever, no quadro dos es-
tudos linguísticos, a língua (e a gramática que a constitui) não mais como um
objeto estático composto por estruturas do sistema, mas como manifestação
intencional de sentido, deslocando-se o fenômeno linguístico do ponto de vista
do sistema para o da atividade comunicativa.

Nesse quadro, não podemos concordar com a posição estruturalista na qual


a língua é considerada um sistema estável de formas normativamente idênticas.
Isso seria uma abstração científica que pode servir a certos fins teóricos e práti-
cos particulares, mas não para o estudo da língua e da linguagem em funciona-
mento na prática social.

O texto como unidade


de ensino/aprendizagem da língua
Não podemos ignorar uma série de aspectos que hoje são considerados
fundamentais nos estudos linguísticos aplicados ao ensino/aprendizagem da
língua. Os aspectos que estão ligados à linguagem na interação social lembram
ao professor a necessidade de reflexão sobre:
16
O objeto dos estudos linguísticos

O que é que se ensina ou se estuda quando se ensina ou se estuda língua?

A questão faz emergir tomadas de decisões quanto ao ponto de vista a ser


adotado na elaboração de materiais didáticos, na organização de currículos,
ementas e programas, nos procedimentos de avaliação (vestibulares, por exem-
plo), e nos cursos de formação de professores. Enfocar a língua sob o ponto de
vista da gramática descritiva? Da gramática normativa? Nos eixos do uso (produ-
ção e leitura/compreensão)? No eixo da reflexão linguística (análise linguística)?
No uso oral? No domínio de uma variedade linguística prestigiada socialmente?

A partir disso surgem outros questionamentos: O ensino será do tipo pres-


critivo? Será um ensino descritivo? Ou será um ensino produtivo em torno de
capacidades de uso?

Dependendo das respostas dessas questões, outras surgirão sobre os objetos


de ensino, os objetivos, a perspectiva da abordagem. Contudo, todas as respos-
tas podem ser enquadradas em uma única denominação: ensina-se ou estuda-
-se a língua portuguesa.

No entanto, há hoje um consenso entre linguistas teóricos e aplicados: o


ensino de língua deve se dar por meio de textos – e essa é a orientação central
dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) de Língua Portuguesa.

Diante das mudanças na seleção e na abordagem do objeto de estudo/apren-


dizagem da língua, temos nos deparado com o problema:

Como se pode conduzir o trabalho com a língua por meio do texto?

O texto tomado como unidade empírica dos estudos de linguagem aplicados


ao ensino apresenta muitas possibilidades, como salienta Marcuschi (2001), ao
preconizar um trabalho com base em textos. Veja algumas dessas possibilidades:

 a língua em seu funcionamento autêntico e não dissimulado;

 as variantes linguísticas;

 as relações entre fala e escrita no uso real da língua;

 a organização fonológica da língua;

 os problemas morfológicos em seus vários níveis;

17
O objeto dos estudos linguísticos

 o funcionamento e a definição de categorias gramaticais;

 os padrões e a organização de estruturas sintáticas;

 o funcionamento dos processos semânticos da língua;

 a organização das intenções e os processos interacionais;

 a progressão temática e a organização tópica;

 o treinamento do raciocínio e da argumentação;

 o estudo da pontuação e da ortografia;

 os problemas residuais da alfabetização;

 o estudo dos gêneros de texto.

O autor deixa em aberto outros possíveis enfoques pois, como ele afirma, essa
relação não é exaustiva e nem obedece a uma ordem lógica de problematização.

Contudo, devemos fazer uma ressalva: ainda que pensemos a linguagem


como um conjunto de práticas sociais, cognitivas e interacionais, isso não sig-
nifica que estamos ignorando o sistema, a gramática da língua. Como afirma
Antunes (2005, p. 85), todas as pessoas falam conforme as regras particulares da
gramática de sua própria língua. Isso porque toda língua tem sua gramática, seu
conjunto de regras. [...]. Quer dizer, não existe língua sem gramática.

O argumento da autora é pertinente e relevante. O problema que vemos é


fazer da metalinguagem e da análise formal o centro do trabalho com a língua
ou, em outra abordagem, reduzir a língua às regras gramaticais, dentro de um
objetivo pedagógico prescritivo e normativo. Uma educação linguística deve
estar centrada em capacidades a serem desenvolvidas nos aprendizes: o pro-
fessor deve decidir se objetiva desenvolver capacidades de linguagem para as
práticas sociais ou desenvolver a competência para o reconhecimento da língua
como sistema delimitado em diferentes níveis estruturais.

A abordagem textual-discursiva da língua


Como você percebeu, estamos nos referindo a abordagens da língua que
estão relacionadas a diferentes concepções de língua(gem).

18
O objeto dos estudos linguísticos

A conscientização do professor de língua é importante, uma vez que o en-


foque didático vai depender da natureza do objeto de ensino-aprendizagem,
qualquer que seja ele:

 a língua considerada em seu contexto de uso, nesse caso, os textos e os


seus níveis de organização são objeto de estudo; ou

 a língua funcionando como um sistema de regras com sua fonologia, morfo-


logia, sintaxe, léxico e semântica sem indagação sobre os seus usos sociais.

Bronckart (2003), dentro de uma perspectiva textual para o ensino de língua,


lembra que os textos são um objeto legítimo de estudo e que a análise de seus
níveis de organização permite trabalhar a maioria dos problemas relativos à
língua em todos os seus aspectos. O autor apresenta três níveis superpostos que
definem o que ele, metaforicamente, denomina de folhado textual.

A proposta do autor representa uma boa contribuição por se prestar adequa-


damente à nossa necessidade metodológica de desvendar a trama pela qual se
dá a organização dos textos. Por ela, temos uma visão geral daquilo que pode
constituir o objeto que desejamos enfocar no estudo da linguagem, ou seja, em
qual “camada” do folhado textual se encontra a questão que desejamos abordar.
Qualquer que seja o objeto de estudo (no nível da microssintaxe ou da macros-
sintaxe), ele estará sempre lá, na relação de interdependência que todos os ele-
mentos mantêm entre si e entre as representações do produtor sobre o contexto
de produção.

No que se refere ao folhado que constitui a arquitetura interna dos textos,


Bronckart (2003), considera três níveis:

 A infraestrutura geral do texto – que compreende os tipos de discurso


(narrar/expor) e os tipos de sequências (narrativa, descritiva, argumentati-
va, explicativa, injuntiva e dialogal).

 Os mecanismos de textualização – compreendendo a conexão, a coe-


são verbal e a coesão nominal.

 Os mecanismos enunciativos – nesta camada do folhado se localizam as


questões pertinentes às vozes e às modalizações.

Por ora, fiquemos apenas na camada dos mecanismos de textualização:


aqui as marcas de textualização são observáveis tanto no nível da microssinta-

19
O objeto dos estudos linguísticos

xe quanto no nível da macrossintaxe, ou seja, o texto coeso, tecido, articulado,


“amarrado” pelos mecanismos de textualização que lhe dão coesão.

Assim, para Bronckart, (2003), os três níveis da arquitetura textual resultam


das operações de linguagem acionadas pelo produtor de um texto oral ou
escrito em determinadas condições externas de produção de linguagem, que
envolvem, por um lado, a situação de ação (as representações sobre o contexto
físico, social e subjetivo de seu agir, sobre suas próprias capacidades e sobre
o conteúdo temático mobilizado). Do outro lado, essas condições externas
envolvem a preexistência de espécies de texto que ele deve selecionar para a sua
ação de linguagem – gêneros textuais – que implicam operações de linguagem
específicas para a sua textualização.

Essa articulação da abordagem das condições externas de produção e da ar-


quitetura interna dos textos permite mostrar que as operações de linguagem
são determinadas pelas representações sociais relativas às atividades de lin-
guagem em uma esfera de comunicação humana, mas deixam aos produtores
certa margem de decisão e liberdade para a escolha adequada dos mecanismos
de textualização que atendam às especificidades intencionais e interacionais
(BARROS; NASCIMENTO, 2007).

Isso significa que as pessoas, para exercer a linguagem, para usar a língua
e para produzir sentidos devem manter o cuidado com a adequação social do
produto linguístico em conformidade com as suas representações da situação
de produção.

Como afirma Neves (2000, p. 53), “só haverá exercício pleno da linguagem se
as escolhas e arranjos estiverem adaptados às condições de produção, incluin-
do os participantes do ato linguístico”. Para a autora, quanto mais a interpreta-
ção estiver próxima da intenção, mais bem sucedida terá sido a comunicação,
incluindo-se até a possibilidade de que a intenção tenha sido uma interpretação
ambígua. Dentro dessa “moldura pragmática que governa a interação”, afirma
a autora que o que se faz é produzir sentido, tanto quem produz o enunciado
quanto quem o recebe.

Dessa forma, o que fazemos em relação à gramática da língua é:

 ficarmos submissos a um núcleo duro que governa a parte estrutural dos


arranjos;

20
O objeto dos estudos linguísticos

 manejarmos um conjunto de decisões entre os possíveis, com as quais


ajustamos nossas produções para compor sentido, para obtermos sucesso
na interação, e conseguirmos, realmente, manter a comunicação.

Sintetizando: ensinar e aprender a língua implica a adoção de um ponto de


vista teórico e metodológico que vai dirigir o enfoque em duas direções: ou para
uma análise dos fenômenos linguísticos relacionados à organização interna da
língua em seus vários níveis de abordagem (fonológica, morfológica, semântica
e sintática), independentes do contexto de uso; ou para uma análise que reco-
nhece na superfície dos textos as pistas ou marcas deixadas pelos processos in-
teracionais de produção de sentidos.

Sob o ponto de vista da língua como estrutura


No tópico anterior, você percebeu que o foco era a língua relacionada ao con-
texto social de uso, aos textos e/ou discursos e aos interesses diversos dos inter-
locutores na produção textual-discursiva.

Nesta seção vamos discutir a tese assumida por Saussure (1975) ao definir
o objeto da linguística como sendo a língua (e não a linguagem) definida
como um sistema, cujas unidades são, para o autor, de natureza relacional no
encadeamento linear, ligadas por “relações sintagmáticas”.

Nos meados do século XX, predominou a visão formal da língua, culminan-


do com o estruturalismo formal introduzido por Ferdinand de Saussure, linguista
que é considerado o “pai” da linguística moderna. Essa abordagem da língua se
fundamenta em princípios teóricos, entre os quais podemos citar:

 a língua é uma totalidade organizada;

 a língua é um sistema autônomo de significação;

 a língua pode ser estudada em si e por si mesma.

Esses postulados instituíram um novo modo de fazer linguística e fizeram


eclodir diferentes vertentes dos estudos da linguagem que, mesmo sem negar
que as línguas tenham seu lado social e histórico, não consideram esses aspec-
tos como seu objeto de estudo específico.

21
O objeto dos estudos linguísticos

O estruturalismo saussuriano volta-se para a descrição das regularidades


internas ao sistema, ao código da língua (a langue, e não a parole). Para os es-
tudiosos da língua nesse modelo teórico, a fala/parole não é “controlável” pelo
analista, portanto não pode constituir objeto de estudo científico. Hoje, a visão
de língua/linguagem evita a visão estruturalista e a descrição puramente formal,
e caminha em direção a uma perspectiva do funcionamento do sistema em seus
aspectos funcionais, situacionais e contextuais do uso.

São imensas as contribuições da abordagem “estruturalista”, que polarizou


o enfoque da linguagem em dicotomias que ainda são utilizadas nos estudos
linguísticos, especialmente os de cunho formal ou estrutural. Veja algumas dico-
tomias saussurianas:

língua X fala
sincronia X diacronia
significante X significado
sintagmático X paradigmático
social X individual

As dicotomias saussureanas representam um valioso repertório de possibili-


dades para os estudos linguísticos e constituem fundamentos que precisam ser
bem compreendidos por quem se propõe a estudar o sistema da língua.

Texto complementar

Ensino de língua materna – gramática e texto:


alguma diferença?
(TRAVAGLIA, 2003)
[...]
Antes de tudo é preciso acreditar que o homem se comunica por meio
de textos. Assim, comunicar-se significa de alguma forma (linguística ou
não) produzir um efeito de sentido entre o(s) produtor(es) de um texto e o(s)
receptor(es) desse mesmo texto. Se nos restringirmos aos textos linguísti-

22
O objeto dos estudos linguísticos

cos, podemos dizer que uma sequência linguística só se transforma em texto


quando produz um efeito de sentido entre seu produtor e seu receptor, ou
seja, quando faz/tem sentido para alguém. Caso contrário, o que temos é
só um amontoado de elementos da língua, mas não um texto. Essa é a lição
que aprendemos com a Linguística Textual ao tratar da coerência. Sabe-se
também que o sentido que uma sequência linguística faz (e que a transfor-
ma em texto) depende de uma série de recursos, mecanismos, fatores e prin-
cípios internos e externos à língua. Todos esses elementos estão, de alguma
forma, inscritos e regularizados na língua, constituindo sua gramática. Por
isto é que se pode afirmar que a gramática de uma língua é o conjunto de
condições linguísticas para a significação. Portanto, o conjunto desses recur-
sos, mecanismos, fatores e princípios que usamos para produzir efeitos de
sentido é a gramática de uma língua.

Todos os recursos da língua – em todos os seus planos (fonológico, mor-


fológico, sintático, semântico, pragmático) e níveis (lexical, frasal, textual-dis-
cursivo) – em termos de unidades e estruturas (sejam elas fonológicas, morfo-
lógicas, sintáticas, textuais), funcionam como pistas e instruções de sentidos
que são coadjuvados nesta função por mecanismos, fatores e princípios.
Dessa ação conjunta surgem os efeitos de sentido possíveis para uma dada
sequência linguística usada como texto numa dada situação de interação.

A seguir daremos, utilizando os recursos da língua que muitos chamam


de artigo, um exemplo que pode evidenciar que não há uma separação sus-
tentável entre gramática e texto.

[...]

No final de um estudo sobre o chamado artigo nosso aluno pode saber:

1. dizer o que é um artigo;

2. dizer qual a classificação dos artigos;

3. listar os artigos;

4. classificar os artigos;

5. identificar artigos em sequências linguísticas;

6. discutir se o artigo é uma classe de palavras à parte ou um tipo de


pronome, inclusive apresentando argumentos como, por exemplo, o
fato de que, na sequência linguística, não se pode usar essa unidade

23
O objeto dos estudos linguísticos

da língua junto com alguns tipos de pronomes (como os demonstra-


tivos e os indefinidos, naturalmente por razões diferentes) (exemplos
1a, b), mas pode-se usá-la como outros tipos de pronomes como os
possessivos (exemplos 1a, b), mas pode-se usá-la com outros tipos de
pronomes como os possessivos (exemplo 1c). Pode-se discutir ainda
se ele nem é uma classe de palavras, mas apenas um morfema.

(1)

a. * Os estes/alguns meninos estão alegres.


b. * Uns estes/alguns meninos estão alegres.
c. * Os meus meninos estão alegres.

7. saber usar na construção e compreensão de textos os recursos da lín-


gua chamados de “artigos”, com base no conhecimento das instruções
de sentido com as quais estes recursos são capazes de contribuir para
a produção de sentido em um texto, permitindo a comunicação numa
situação de interação comunicativa. Neste caso, podemos trabalhar
com os alunos as seguintes questões:

a. as instruções de sentido básicas desses recursos da língua nor-


malmente especificados na teoria linguística, inclusive nas cha-
madas gramáticas tradicionais, seriam os artigos definidos pois
apresentam entidades como definidas, conhecidas dos interlo-
cutores e os indefinidos as apresentam como indefinidas, des-
conhecidas. Assim, só se pode usar o artigo definido para algo
que apareceu no texto ou que está disponível de alguma forma
em nossa cultura;

b. alguns efeitos de sentido mais frequentes derivados desses va-


lores básicos.

[...]

A seguir são comentados, mesmo que sumariamente, esses efeitos


de sentido.

(2)

a. O preço da entrada é X.
b. O preço de uma entrada é X.
c. O preço de entrada é X.

24
O objeto dos estudos linguísticos

O texto em (2a) poderia ser usado em qualquer situação em que se pre-


tende dizer quanto custa a entrada, o ingresso para alguém, por exemplo,
para um show, inclusive poderia responder à pergunta: “Qual é o preço da
entrada?”. Já (2b) só poderia ser usado, por exemplo, em uma situação em
que se discute o valor da entrada para se comprar uma só ou muitas. Em (2c)
não se refere ao ingresso, mas a outro tipo de entrada: é o começo de parti-
cipação em algo, como ser sócio de um clube, por exemplo: “– Quanto paga
para ser sócio de seu clube?/ – O preço de entrada é R$1.000,00 depois você
paga uma mensalidade de R$30,00.”

(3)
a. João levou seu sobrinho ao parque. O menino pulou no lago
para nadar.
b. João levou seu sobrinho ao parque. Um menino pulou no lago
para nadar.

Nos textos de (3) a diferença entre a e b é de referência e é causada pelo


uso de recursos diferentes (artigo definido ou indefinido) na segunda frase
do texto: em a “sobrinho” e “menino” são a mesma pessoa, mas em b “sobri-
nho” e “menino” são duas pessoas diferentes. Inclusive, o sobrinho de João
pode não ser um menino, pode ser um rapaz.

(4)
a. O grupo do Rio, composto pelos países latino-americanos, deci-
diu que...
b. O grupo do Rio, composto por países latino-americanos, decidiu
que...

Em (4) a diferença entre a e b é consequência do uso ou não do artigo


definido contraído com a preposição (pelos x por). O texto de a significa que
o grupo do Rio é formado por todos os países latino-americanos, enquan-
to o de b significa que o grupo do Rio é formado apenas por alguns países
latino-americanos. Dessa forma, se confrontarmos com a realidade, apenas
um texto é verdadeiro: o texto b.

(5)
a. A menina de ontem trouxe este recado para você.
b. (?) Uma menina de ontem trouxe este recado para você.
c. Uma menina trouxe este recado para você.

25
O objeto dos estudos linguísticos

Em (5) observamos que (5a) só pode ser usado com o artigo definido por
causa do identificador (de ontem) que se coloca para menina, o que marca
que é uma menina conhecida dos interlocutores. É por isso que (5b) soa estra-
nho, se tivermos uma situação em que “ontem” só se conheceu uma menina.
Para que (5b) seja visto como um texto bem construído, adequado, é preciso
que “ontem” os interlocutores tenham tido contato ou conhecido várias me-
ninas. Neste caso (5b) é adequado e indica que uma das meninas de ontem
trouxe o recado, mas se especifica com precisão qual delas. O texto (5c) só
poderá ser usado em uma situação em que o falante teve contato anterior
com a menina, o ouvinte não. Neste caso a menina é conhecida do falante,
mas não foi referida anteriormente para o ouvinte; assim, usa-se o artigo in-
definido para apresentá-la no texto, como desconhecida ou de forma impre-
cisa (se considerarmos que os dois tiveram contato com várias meninas no
dia anterior, mas não há como especificar qual delas).

(6)
a. João dançou com uma menina.
b. Jô-ão-dan-çou-com-U-MA-me-ni-na.
c. Is-so-vai-dar-UM-bo-de.
d. O- Jô-ão-tem-UM-na-riz.

Nos textos de (6) temos uma oposição entre um texto que tanto pode
ser escrito quanto oral (6a), com entonação normal de uma sequência de-
clarativa e textos que só podem ocorrer na língua oral (6b, c, d), em que
se tem uma pronúncia/entonação silabada com ênfase entonacional no
artigo (tom de voz mais alto), geralmente com um certo alongamento da
vogal “u”. Assim, (6a) significa que João dançou com uma menina X, que
o locutor não sabe quem é. Já em (6b), pela entonação silabada e ênfase,
tem-se mais o sentido de que a menina é muito especial em algum aspecto
(beleza etc.). É uma espécie de superlativo que aparece também em (6c)
(o problema que vai ocorrer é muito grande) e (6d) (o nariz de João é um
nariz muito grande, notável, muito feio). Para Nunes J. (2001), em casos
semelhantes a (6c), em que se tem uma expressão idiomática, a entonação
silabada é obrigatória. A entonação comum só aconteceria sem o artigo
(Isso vai dar bode). O texto de (6d) também não pode ocorrer sem esta
entonação a não ser que se vá qualificar explicitamente o nariz: (*João tem

26
O objeto dos estudos linguísticos

um nariz) parece não ocorrer no português, mas “João tem um nariz feio/
bonito/chato/aquilino” ocorre normalmente.

(7)
a. O meu lar é o botequim.
b. O meu lar é um botequim.

Em (7a) o texto significa que o falante mora em dado botequim específico


que ele e o ouvinte conhecem (7b), pode-se ter o sentido de que o falante
mora em um botequim qualquer que o ouvinte não conhece, mas pode-se
também ter o sentido de que o lar do falante, em sua casa, por alguma razão,
parece com um botequim em alguma característica (é desarrumado? vive
cheio de gente? o falante tem muita bebida em casa e vive bebendo só com
amigos? seu lar é popular? etc.). Nesse segundo caso, temos uma compara-
ção e uma metáfora.

Os aspectos apresentados nos itens 1 a 6, no início deste artigo, constitui-


riam uma parte da teoria linguística ou gramática que se preocupa basica-
mente com a identificação dos tipos de unidades e recursos de que a língua
dispõe, sua classificação, identificação, estruturação. Já o que foi apresenta-
do em 7 e nos comentários dos exemplos constituiria uma parte da teoria
linguística ou gramatical que se preocupa basicamente com o funcionamen-
to dessas unidades e recursos na constituição de textos para produção de
determinados efeitos de sentido, pode-se dizer num plano mais semântico
e pragmático e no nível textual-discursivo. Pode-se afirmar que a primeira
parte é apenas um requisito para a segunda, ou melhor ainda, faz parte da
segunda, e não precisa necessariamente ser conhecida pelos usuários de
uma língua para que sejam usuários competentes dessa língua.

Desta forma, acreditamos que se deixarmos de dividir essas duas partes


em gramatical e textual como se fossem coisas distintas e estivermos con-
vencidos de que texto é apenas um resultado da aplicação da gramática
da língua em funcionamento, para comunicar por meio da produção de
efeitos de sentidos, deixaremos de ter no ensino de língua materna a ati-
tude, pode-se dizer, perniciosa, de achar que gramática e texto são coisas
distintas e que têm de ser tratadas separadamente por terem pouca rela-
ção entre si. Tal atitude tem criado a síndrome da incompetência que leva
tantos falantes de português a dizerem “não sei português”.

27
O objeto dos estudos linguísticos

Dicas de estudo
 A Prática de Linguagem em Sala de Aula: praticando os PCNs, organizado por
Roxane Rojo (São Paulo, EDUC/Campinas (SP), Mercado de Letras, 2000).

Este livro é especialmente dedicado aos professores em pré-serviço e em ser-


viço, identificados com as propostas presentes nos Parâmetros Curriculares Na-
cionais (PCN), que preconizam os gêneros de textos como objetos de ensino.

 Dicionário de Linguística e Gramática, de Joaquim Mattoso Câmara Jr. (São


Paulo, Editora Vozes, 2001).

Neste dicionário, Mattoso Câmara Júnior, considerado o mais ilustre represen-


tante do estruturalismo linguístico no Brasil, oferece noções gramaticais como
base para a compreensão estrutural, funcional e histórica da língua portuguesa,
além de informar sobre fatos da língua, verbetes gramaticais, termos técnicos,
entre outros temas.

 Ferdinand de Saussure: escritos de linguística geral, de Simon Bouquet e Ru-


dolfo Emgler (São Paulo, Cultrix, 2004).

Este livro trata das novas descobertas de textos inéditos de Saussure que
estão provocando a (re)discussão sobre aquilo que se considerava a visão saus-
suriana de língua, na forma como foi interpretada pelos discípulos que publica-
ram o Curso de Linguística Geral. Os novos manuscritos de Saussure demonstram
que ele não fechou as portas para o sentido, o uso, o texto ou a enunciação.
Ao contrário, ele tinha uma visão ligada à análise da língua em uso que ia além
daquela que seus discípulos deixaram entrever no curso. Nestes novos textos,
Saussure lembra que a linguagem é discurso, ainda que para ele a unidade de
análise vá até o item lexical ou o sintagma.

Estudos linguísticos
1. Explique com suas palavras por que a língua enquanto prática social tem o
enunciado concreto como realidade fundamental.

28
O objeto dos estudos linguísticos

2. A partir do que foi tratado, complete a tabela com alguns traços diferencia-
dores das concepções de língua que foram discutidas nesta aula e que con-
duzem a diferentes abordagens.

Concepção da língua Concepção da língua


como estrutura formal como interação

29
O objeto dos estudos linguísticos

Referências
ANTUNES, Irandé. Lutar com Palavras: coesão e coerência. São Paulo: Parábola
Editorial, 2005.

BAKHTIN, Mikhail; VOLOCHINOV, Valentin N. Marxismo e Filosofia da Lingua-


gem. Tradução de: LAHUD, Michel; VIEIRA, Yara F. São Paulo: Hucitec, 1929/1982.

BARROS, Eliana M. Deganutti de; NASCIMENTO, Elvira Lopes. Gêneros textuais e


livro didático: da teoria à prática. Linguagem em (Dis)curso – LemD, Tubarão, v.
7, n. 2, p. 241-270, mai./ago. 2007.

BONINI, Adair. A noção de sequência textual na análise pragmático-textual de


Jean-Michel Adam. In: MEURER, J. L.; BONINI, A; MOTTA-ROTH, D. (Orgs.). Gêne-
ros: teorias, métodos, debates. São Paulo: Parábola Editorial, 2005. p. 208-237.

BOUQUET, S.; EMGLER, R. Ferdinand de Saussure: escritos de linguística geral.


São Paulo: Cultrix, 2004.

BRONCKART, Jean-Paul. Atividade de Linguagem, Textos e Discursos: por um


interacionismo sociodiscursivo. Tradução de: MACHADO, Anna Rachel; CUNHA,
Péricles. São Paulo: EDUC, 2003.

CÂMARA JR., Mattoso. Princípios de Linguística Geral. 4. ed. Rio de Janeiro:


Acadêmica, 1967.

FRANCHI, Carlos. Linguagem: atividade constitutiva. Cadernos de Estudos Lin-


guísticos, Campinas, IEL, n. 22, 1992, p. 9-39.

MARCUSCHI, Luiz Antônio. Da Fala para a Escrita: atividades de retextualização.


São Paulo: Cortez, 2001.

MOURA NEVES, M. H. Que Gramática Estudar na Escola? Norma e uso na língua


portuguesa. São Paulo: Contexto, 2004.

NEVES, Maria Helena de Moura. A gramática: conhecimento e ensino. In: AZERE-


DO, J. C. (Org.). Língua Portuguesa em Debate: conhecimento e ensino. Petró-
polis: Vozes, 2000. p. 52-73.

SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguística Geral. 7. ed. Tradução de: CHELI-
NE, A. et al. São Paulo: Cultrix, 1975.

30
O objeto dos estudos linguísticos

SAUTCHUK, Inez. Prática de Morfossintaxe. Como e por que aprender análise


(morfo)sintática. Barueri: Manole, 2004.

TRAVAGLIA, Luiz Carlos.Gramática e Interação: uma proposta para o ensino de


gramática no 1.o e 2.o graus. São Paulo: Cortez, 1996.

______. Gramática – ensino plural. São Paulo: Cortez, 2003.

Gabarito
1. Porque a língua, enquanto prática social, emerge na interação verbal e o
enunciado (e não a frase gramatical) constitui a realidade da língua em fun-
cionamento.

2. Língua como estrutura formal – comporta vários níveis como: fonema, mor-
fema, vocábulo, sintagma, oração e período; todos os elementos desses ní-
veis se articulam segundo regras do sistema etc.

Língua como interação – a linguagem verbal é um fenômeno interacional


que envolve múltiplos fatores: enunciador, destinatário, contexto de produ-
ção, intenções...; a interação social mediada pela linguagem verbal se faz por
meios de textos etc.

31
Morfossintaxe

Considerando que não se pode separar o conhecimento morfológico


do sintático, pode-se abordar os termos da oração num método prático
de análise que culmine com um quadro morfossintático desses termos. A
natureza morfológica de um sintagma (constituinte imediato das orações)
determina sua função sintática. Se aprendermos a reconhecer e a decom-
por os sintagmas, a tarefa de observar as funções sintáticas na oração fica
mais fácil. A proposta de abordagem da morfossintaxe é a de analisar e
descrever a estrutura da língua da maneira mais lógica e prática possível.

Os estudos gramaticais
Para o linguista inglês John Lyons (1981, p. 54) “a linguística é descritiva,
não é prescritiva”. Dizendo isso ele afirma que ela é uma ciência descritiva,
ou seja, não normativa, por tentar descobrir e registrar as regras segundo
as quais se comportam os membros de uma comunidade linguística.

Os linguistas atuais procuram distinguir regras descritivas e prescriti-


vas, enquanto que a gramática tradicional tinha um caráter predominan-
temente normativo. O gramático acreditava que sua tarefa era formular
os padrões de correção e impor aos falantes da língua as normas para
o “falar correto” de uma variante linguística, a do padrão culto da língua
portuguesa.

Perini (2006, p. 21) também se refere ao fato de que a linguística se


ocupa de muitos aspectos da linguagem e de seu uso, mas um aspecto do
uso do qual ela não se ocupa é a distinção entre o “certo” e o “errado” na
língua, pois não há a menor base linguística para tal distinção: o linguista
se interessa pela língua como ela é, e não como deveria ser.

Nesse quadro, estamos nos referindo à oposição entre dois tipos de


gramática: a gramática descritiva e a gramática prescritiva (ou normativa). A
primeira procura descrever como é que as pessoas realmente falam e escre-
vem, e a segunda tenta estabelecer normas para os modos como as pessoas

33
Morfossintaxe

devem falar ou escrever. A oposição “certo” e “errado” “avalia” o uso da língua de


acordo com as regras de um padrão de uso que a gramática normativa considera
“correto” – geralmente, o uso de maior prestígio social.

Tomando por base os estudos de vários autores, podemos sintetizar a oposi-


ção entre a gramática descritiva e prescritiva, apresentando algumas caracterís-
ticas que as distinguem:

Gramática descritiva Gramática prescritiva


 Descrição da estrutura da língua em  Critério do “bom uso” consagrado por
uso. “bons escritores”.
 Atende às regras de funcionamento  Procura prescrever as normas, discri-
da língua enquanto sistema. minando padrões linguísticos.
 Enumera e classifica a estrutura dos  Ignora as características próprias da
elementos constitutivos dos diferen- língua oral.
tes níveis da língua: fonológico, mor-
fológico, sintático e semântico.  Avalia e deprecia outras variedades
da língua com base em fatores não
 A partir de dados, registra como se linguísticos.
fala/escreve realmente.
 Seus parâmetros são os do purismo
 Levanta hipóteses baseadas em fa- e da vernaculidade, classe social de
tos linguísticos que constituem da- prestígio etc.
dos de análise.
 Apoia-se na tradição linguística.
 As hipóteses fundamentadas nos fa-
tos precisam ser justificadas nas ocor-  É encontrada nos manuais didáticos.
rências das formas linguísticas.
 Retrata e sistematiza os fatos da língua
em uso.
 É encontrada nos manuais didáticos.

Como você pode observar, a abordagem descritiva apresenta características


bem claras em oposição à abordagem normativa.

Uma distinção essencial que se deve fazer ao estudar a gramática de uma


língua é a que se estabelece entre diacronia e sincronia. Na sincronia linguística
vê-se a língua em um recorte temporal, sincronizada em um contexto socio-his-
tórico específico. Na diacronia, a língua é vista através do tempo, ou seja, na sua
historicidade. Tanto a gramática normativa como a descritiva podem utilizar-se
de estudos diacrônicos como sincrônicos. Dessa forma, podemos ter uma análi-
se linguística de cunho normativo-sincrônico, normativo-diacrônico, descritivo-
sincrônico ou descritivo-diacrônico.

34
Morfossintaxe

Estudos descritivos
Para Travaglia (1996, p. 27), a gramática descritiva faz uma descrição da estru-
tura e funcionamento da língua, de sua forma e função. Neste caso, saber gramá-
tica, segundo o autor, significa ser capaz de distinguir, nas expressões de uma
língua, as categorias, as funções e as relações que entram em sua construção,
descrevendo com elas sua estrutura interna e avaliando sua gramaticalidade.

Um linguista não deve fazer julgamentos de valor a respeito de seu objeto


de estudo. Para Travaglia (1996, p. 27), qualquer variedade da língua deve ser
objeto de estudo, desde que seja usada (ou tenha sido) por uma comunidade
linguística.

A elaboração de descrições de uma língua é relevante em função de dois


fatores:

 a necessidade de subsidiar o desenvolvimento da teoria linguística com


dados confiáveis e sistematizados;

 a necessidade de fornecer gramáticas descritivas para usos pedagógicos.

Como afirma Perini (1989), o primeiro fator se refere ao desenvolvimento de


uma teoria linguística que pressupõe a existência de “gramáticas descritivamen-
te adequadas, ” capazes de dar uma visão de conjunto de estrutura da língua. O
segundo fator de relevância do trabalho de descrição é a necessidade de ela-
borar gramáticas pedagógicas, que propiciem informação sobre a estrutura da
língua em funcionamento.

São duas abordagens da língua que evidenciam dois tipos de gramática, pois
em uma sala de aula do Ensino Fundamental ou Médio, por exemplo, diferentes
graus de detalhamento e diferentes formas de abordagem se fazem necessários
(os Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa – PCN – recomen-
dam os gêneros de texto como objeto de ensino, consequentemente, a aborda-
gem dos mecanismos linguísticos e discursivos se faz de uma forma contextua-
lizada, ou seja, relacionada ao uso). Segundo Perini (1998), o grande perigo em
reduzir a gramática a um ensino puramente normativo é transformá-la em uma
doutrina absolutista, dirigida exclusivamente à “correção” de “erros” linguísticos.
A cada passo, o aluno que procura escrever encontra essa arma apontada contra sua cabeça:
“não é assim que se escreve (ou se fala)”, “Isso não é português” e assim por diante. Daí só
pode surgir aquele complexo de inferioridade linguística tão comum entre nós: ninguém
sabe português – exceto, talvez, alguns poucos privilegiados, como os que se especializam em
publicar livros com listas de centenas ou milhares de “erros de português”. (PERINI, 1989, p. 33)

35
Morfossintaxe

Refletir sobre esse fato é importante para nós, professores em serviço ou em


formação, uma vez que os PCN de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental,
tanto os de primeiro e segundo ciclos como os de terceiro e quarto (BRASIL,
1997, 1998), salientam que, sendo o objetivo principal do trabalho de análise
e reflexão sobre a língua o de imprimir maior qualidade ao uso da linguagem,
as situações didáticas devem centrar-se nas atividades epilinguísticas (GERAL-
DI, 2003) – que se referem à reflexão sobre a língua em situações de produção
e interpretação, ou seja, a língua em funcionamento. A partir daí é que se dá
a descrição linguística, para depois introduzir progressivamente os elementos
para uma análise de caráter metalinguístico, ou seja, por meio da categorização
e sistematização dos elementos linguísticos.

Podemos, assim, definir três passos para o estudo da gramática da língua:

 a reflexão sobre os fatos linguísticos;

 a descrição desses fatos;

 a análise metalinguística, que inclui regras e definições.

Ou seja, mesmo na perspectiva de uma gramática descritiva, a normatização,


isto é, o uso de normas, acaba acontecendo, porém em um processo posterior à
reflexão e à descrição da realidade da língua que se está abordando.

As unidades linguísticas e os níveis de análise


Estudar uma língua significa descrever fatos dessa língua em todos os níveis
do sistema: o nível fonológico, morfológico, sintático e semântico. Nesta aula,
vamos nos ater aos níveis morfológico e sintático, pois o nosso objetivo é o de
integrar esses dois níveis com a finalidade de enfocar a Morfossintaxe.

As unidades linguísticas são organizadas segundo graus de posição que


seguem princípios constitutivos de uma língua. Assim, convencionou-se
chamar de hierarquia gramatical esses diferentes níveis de construção do sis-
tema da língua.

Para Flávia Carone (1986), o conjunto de relações que se estabelecem entre as


partes de um todo constitui a sua estrutura. O todo, ou seja, o objeto (linguístico
ou não) só se configura graças a essa estrutura. Os elementos que constituem
uma estrutura são a substância dessa estrutura, mas apenas se eles se inter-

36
Morfossintaxe

relacionarem adequadamente, de acordo com o padrão estrutural previsto para


aquela espécie de conjunto.

Assim, e ainda de acordo com a autora, aquilo que dá ao conjunto (o objeto)


um esqueleto, uma estrutura formada por um feixe de relações, constitui a sua
forma. Uma construção não é apenas substância formal, ou seja, dotada de forma,
ela se torna uma estrutura da língua.

Uma construção apresenta, portanto, uma estrutura formal constituída pelo


feixe de relações entre seus elementos. Numa frase como:

O filme foi interessante.

A sequência “filme foi” não é uma construção, pois não há relação entre as
duas palavras, há apenas uma “vizinhança contingente”. Mas “o filme” constitui
uma construção, pois as duas palavras contraíram entre si uma função.

Sobre esse assunto, Perini (1998, p. 44) fala em “constituintes”: “certos grupos
de unidades que fazem parte de sequências maiores, mas que mostram certo
grau de coesão entre eles”.

Por exemplo, na frase:

A bola de João é preta e branca.

Sabemos, como falantes da língua portuguesa, que “a bola de João” forma


uma unidade estrutural da língua, o que não acontece, por exemplo, com a
sequência “João é preta”. Assim, podemos dizer que, nesse contexto, “a bola
de João” é um constituinte e “João é preta”, não. Um constituinte pode também
fazer parte de outro. No nosso exemplo, o constituinte “preta e branca” está contido
em “é preta e branca”, que por sua vez faz parte de “a bola de João é preta e branca”.

Essa noção de estruturação por constituintes é de suma importância, pois,


na perspectiva sintática da língua, os constituintes geralmente recebem
uma “função”. Na frase analisada, para exemplificar, o constituinte “a bola
de João” exerce a função de sujeito enquanto “é preta e branca” funciona
como predicado.

Vejamos, agora, como a hierarquia gramatical opera na constituição do fe-


nômeno linguístico, começando pela menor unidade significativa da língua:
o morfema:

37
Morfossintaxe

 os morfemas se combinam entre si para formar a unidade imediatamente


superior: o vocábulo (ou palavra);

 os vocábulos combinam-se para formar o sintagma;

 os sintagmas constituem as unidades superiores – a frase (ou oração).

 a(s) frase(s) constitui(em) o texto, unidade significativa e comunicativa da


língua, por meio do qual o falante age pela linguagem verbal.

A sequência a seguir pode demonstrar esses diferentes níveis de construção.

Morfema Vocabulário Sintagma Frase Texto


(-o) (menino) (O menino) (O menino (O menino
chorou.) chorou!)

Na perspectiva de Silva e Koch (1986), os morfemas podem ser lexicais ou


gramaticais. Os morfemas lexicais constituem um inventário aberto, pois cons-
tantemente novas palavras surgem com a função de nomear a realidade per-
tencente ao mundo extralinguístico, nomeando os objetos (representados pelos
substantivos), as qualidades (representadas pelos adjetivos) e as ações (repre-
sentadas pelos verbos).

Os morfemas gramaticais (também denominados gramemas) constituem


um inventário fechado, porque remetem ao domínio da gramática. Quando os
gramemas compõem a estrutura de um vocábulo, são chamados de gramemas
dependentes, pois não têm autonomia vocabular. Quando os morfemas grama-
ticais (gramemas) têm autonomia vocabular e sozinhos constituem uma palavra,
recebem o nome de gramemas independentes, é o caso dos artigos, pronomes,
numerais, preposições, conjunções e dos advérbios pronominais.

Aqui se encontram as formas dependentes que, segundo Macambira (1982),


são formas que não podem aparecer sozinhas no discurso, especialmente numa
pergunta ou resposta. Veja, como exemplo, a impossibilidade de se recorrer à
preposição “de” como resposta a uma pergunta:

– Você foi ao cinema de carro?

– De, respondeu João apressadamente.

38
Morfossintaxe

Mas, segundo Macambira (1982), os morfemas gramaticais também apare-


cem na língua sob a forma de formas presas, ou seja, como afixos (prefixos e
sufixos), vogais temáticas e desinências (nominais: de gênero e número; verbais:
de modo, tempo, número e pessoa). No campo da Morfologia, são formas presas
os morfemas flexionais e derivacionais como, por exemplo:

Garotinhas: garot- (morfema lexical), -inh (morfema gramatical derivacio-


nal); -a (morfema gramatical flexional, pois indica o gênero), -s (morfema grama-
tical flexional, pois indica o número).

Assim, na frase abaixo:

As cartas estavam rasuradas.

 Temos três formas livres (cartas, estavam, rasuradas) constituídas por mor-
femas lexicais nomeando substantivo, verbo e adjetivo, respectivamente:
cart- ; est-; rasur-;

 Temos um gramema que é uma forma dependente (morfema gramatical:


artigo “as”);

 Temos oito gramemas que são formas presas (morfemas gramaticais


flexionais):

 Em relação ao vocábulo cartas: -s (as); -s (cartas);

 Em relação à forma verbal: -a (vogal temática do verbo estar); -va (desi-


nência modo-temporal do verbo ); -m (desinência número-pessoal do
verbo);

 Em relação ao vocábulo “rasuradas”: -ad (morfema gramatical deriva-


cional; -a (morfema gramatical flexional de gênero); -s (morfema gra-
matical flexional de número).

Essa classificação dos morfemas (lexicais e gramaticais) contribui para a


classificação das palavras da língua por meio de duas categoriais iniciais: le-
xemas e gramemas. É uma classificação mais eficiente que aquela tradicional
(palavras variáveis são os substantivos, adjetivos, verbos, artigos, pronomes
e numerais) e “palavras invariáveis” (advérbios, preposições, conjunções e
interjeições).

39
Morfossintaxe

Você quer ver por quê? Separe as palavras da frase, a seguir, em duas categorias:

As alunas colocaram os livros preferidos sobre a mesa.

 Grupo 1: palavras carregadas semanticamente em relação ao mundo ex-


tralinguístico.

 Grupo 2: categorias autônomas, ou seja, palavras de funcionalidade gra-


matical (gramemas independentes).

Grupo 1: lexemas alunas; colocaram; livros; preferidos; mesa

Grupo 2: gramemas as; os; sobre; a

Essas noções são importantes para que possamos compreender a noção de


morfossintaxe que implica o reconhecimento das categorias de palavras em
português que pertencem ao arquivo aberto (substantivos, adjetivos e verbos), e
as demais que constituem um conjunto fechado, que não se altera ou cresce.

Por que morfossintaxe


Dependendo dos objetivos e dos métodos de abordagem dos fatos da língua,
as classes gramaticais e as funções sintáticas podem ser estudadas separadamen-
te pela Morfologia e pela Sintaxe, respectivamente. Entretanto, uma abordagem
morfossintática dos elementos da língua tem sido frequentemente adotada pela
maioria dos professores, sobretudo, tendo em vista uma descrição e análise dos
fatos da língua para fins didáticos. Assim, podemos definir a morfossintaxe como
o estudo integrado das regras que regem a estrutura interna das palavras e as
regras combinatórias das palavras e sintagmas nas orações.

Nesta aula, vamos considerar a morfossintaxe como o estudo simultâneo da


Sintaxe e da Morfologia – sempre sem perder de vista seu contexto, ou seja, a
situação de produção do texto em que se encontram; considerando-se, portan-
to, também aspectos semânticos e pragmáticos. Para isso, vamos levar em conta
não só as funções sintáticas exercidas por expressões nessas frases, mas também
as classes gramaticais e as orações que exercem essas funções. Vamos conside-
rar, também, que um vocábulo pertence a uma ou outra classe, dependendo das
relações estabelecidas dentro da frase em que está sendo enunciado.

40
Morfossintaxe

Como vimos anteriormente, quando vistas de maneira independente, a Mor-


fologia estuda o léxico e suas formas e a Sintaxe estuda as combinações formais
ou funções sintáticas. Segundo Bechara (2004), se fôssemos nos guiar por esses
parâmetros, a gramática como um todo seria resumida à Sintaxe, uma vez que
tudo na língua se refere à combinações de “formas” (mesmo que “forma zero”),
mesmo dentro do âmbito da Morfologia.

Por exemplo, para formar a palavra “gatas” é preciso combinar/articular


formas: morfema lexical -gat + morfema gramatical flexional de gênero -a +
morfema gramatical flexional de numero -s.

Ou seja, não há Morfologia sem combinações formais, assim como não há


uma Sintaxe independente das formas linguísticas.

Cereja e Magalhães (1999) tratam da articulação entre Morfologia e Sintaxe a


partir da ideia de seleção e combinação. Tradicionalmente, a Morfologia estuda
as classes de palavras – o campo da seleção – e a Sintaxe, o campo da combina-
ção. Entretanto, para esses autores, selecionar e combinar são procedimentos
que ocorrem simultaneamente nas práticas de linguagem. Ao selecionar as uni-
dades linguísticas, nós, falantes da língua, levamos em conta:

 a forma dessas unidades (fonemas e morfemas que se articulam e for-


mam palavras);

 a forma dessas palavras: (artigo, substantivo, verbo etc.);

 a função: a articulação combinatória que as formas assumem na frase/


texto (sujeito, objeto direto, adjunto adnominal etc.)

 o sentido dessas unidades linguísticas.

Note que nesse processo de produção verbal a seleção e a combinação


são aspectos indispensáveis e, Morfologia, Sintaxe e Semântica (níveis de aná-
lise linguística, normalmente, tomados separadamente) se solidarizam. Veja o
exemplo:

Para completar estes versos famosos de Vinicius de Moraes,

“Tristeza não tem fim, _______ sim...”

Você seleciona qual palavra: ( ) feliz ( ) felicidade ( ) felizmente

41
Morfossintaxe

Provavelmente você selecionou “felicidade”, não porque você conhece os


versos do poeta, mas porque você, simultaneamente, utilizou-se do processo
verbal de seleção/combinação.

Veja que mesmo tendo o mesmo radical, essas palavras são de classes gra-
maticais diferentes, assim, foi preciso você combinar o sentido de cada “forma”
ao contexto dos versos para selecionar a palavra mais adequada, aquela que, na
articulação com os outros componentes linguísticos, produzisse sentido dentro
da nossa realidade linguística. As palavras constituem grupos morfológicos, mas
ao se combinarem em frases/textos para produzirem sentidos, adquirem uma
função sintática.

De acordo com Cereja e Magalhães (1999), não se pode desvincular a Mor-


fologia e a Sintaxe, pois forma e função coexistem e seus papéis só se definem
na superfície linguística (também chamado “cotexto”), produzindo um todo de
sentido dentro de uma interação.

Os critérios formal e sintático


para a classificação morfológica
Neste tópico veremos como os estudos morfossintáticos influenciam na clas-
sificação morfológica das palavras, a partir de um princípio básico:

“As palavras existentes da língua distribuem-se em várias classes confor-


me as formas que assumem, as funções que desempenham e o sentido que
expressam.” (MACAMBIRA, 1982). (grifos nossos).

Para isso, vamos refletir, primeiramente, sobre os conceitos: forma, função


e sentido. As formas são percebidas pelos nossos órgãos sensoriais – pelo
ouvido, quando falamos, e pela visão, quando escrevemos. Por exemplo, a
palavra “pato” é manifestada pela forma sonora /’patu/ ou pela forma escrita
“pato” (PERINI, 2006), e classificada morfologicamente, na tradição gramatical,
como “substantivo”. Por sua vez, função é o papel desempenhado por uma de-
terminada forma dentro de algum nível da estrutura da língua. Na frase “pato
come milho”, a forma “pato”, em uma perspectiva sintática, assume a função
de “sujeito” da oração.

Já os sentidos nos são revelados pela relação que estabelecemos com o


mundo extralinguístico. Sabemos, pelo nosso conhecimento de mundo, que o

42
Morfossintaxe

sentido de “pato” refere-se ao conceito de certo animal existente na nossa reali-


dade extralinguística, o qual associamos à forma “pato”. Vejamos um exemplo:

Numa interação de um filho, no dia do seu aniversário, com seu pai que acaba
de chegar, o filho diz:

“Você trouxe meu presente?”

Podemos dizer que o garoto, em sua ação de linguagem, acionou forma,


função e sentido para selecionar as palavras que iria usar em seu texto, combiná-
las de maneira gramaticalmente aceitável, levando em consideração a funciona-
lidade delas dentro da frase e do contexto, a fim de produzir o sentido pretendi-
do com seu discurso.

Observe o esquema abaixo:

Você trouxe meu presente?

Nível morfológico Pronome Verbo Pronome Substantivo


(formas) pessoal transitivo direto possessivo concreto

Nível sintático Objeto direto


(funções)
Sujeito Predicado verbal

Veja que em uma perspectiva morfossintática, as palavras são analisadas pela


classe gramatical a que pertencem e, ao mesmo tempo, pela função que de-
sempenham na oração. Podemos dizer que forma, função sintática (combina-
ção entre formas), função semântica (combinação entre forma e significado) e
função externa (combinação entre o sistema de formas e seu contexto) se unem
para construção dos sentidos do texto (NEVES, 2004).

Os conceitos de forma, função e sentido fornecem elementos valiosos dentro


de uma perspectiva morfossintática, determinando critérios distintos para a
classificação das palavras.

Vejamos, por exemplo, os critérios utilizados para essas três definições de


“verbos”. Observe que o critério mórfico está relacionado ao conceito de forma,
o critério sintático, à função sintática, e o critério semântico, ao sentido.

43
Morfossintaxe

Verbo:
É uma palavra que indica um processo situado no tempo, seja ação,
estado ou fenômeno. (critério semântico)

É uma palavra pela qual se realizam atribuições feitas ao sujeito da frase.


É um constituinte indispensável de qualquer ato de produção. (critério
sintático)

Palavras que apresentam desinências típicas para marcar pessoa, número,


tempo e modo. (critério mórfico)

Os três critérios são uma ferramenta para dissipar dúvidas relacionadas às


diferentes classes de palavras que constituem o léxico de uma língua.

Texto complementar

O objeto da Sintaxe
(AZEREDO, 2001, p. 9-13)

As pessoas falam geralmente sua língua nativa, nas situações cotidianas,


com a mesma naturalidade com que respiram, veem, andam; e assim como
não estão interessadas em saber como seu corpo funciona naquelas tarefas,
também não costumam se deter no exame dos movimentos que executam
para produzir os sons das palavras, nem tampouco na observação do que
acontece com as palavras quando elas se combinam nos enunciados. A lin-
guagem, porém, é muito mais do que articular sons e combinar palavras;
além de ter uma estrutura extraordinariamente complexa que envolve sons,
palavras e frases, seu uso nas múltiplas situações reflete condicionamentos
psicológicos, sociais e culturais. Por outro lado, o ato de dizer/escrever se dá
em um contexto que inclui ouvinte/leitor, assunto, tempo, espaço. Quem
diz/escreve normalmente o faz buscando a comunicação e só excepcional
ou maldosamente evitando-a. O ouvinte/leitor é, por conseguinte, tão de-
cisivo para o caráter do discurso quanto quem o produz. Nem tudo o que

44
Morfossintaxe

o enunciado deixa ou faz entender se acha explícito nele; parte de seu sen-
tido já está no conhecimento do interlocutor (informação implícita/impli-
cada) ou constitui um dado prévio qualquer no conhecimento do locutor
(informação pressuposta).

[...]

A cada instante pode-se estar pronunciando uma frase nova. Afinal, nin-
guém pode garantir que a frase que inicia este parágrafo e a que estou escre-
vendo agora não são inéditas. Eu não as tinha memorizadas, muito menos o
leitor, e, apesar disso, não houve qualquer dificuldade para produzi-las e en-
tendê-las. Nós não apreendemos o significado de cada uma das frases possí-
veis como se nada tivessem em comum uma com as outras. Todas elas, acei-
tas como estruturas da língua pelos usuários, se criam graças a um sistema
de unidades – sons, palavras, afixos, acentos – e regras que as combinam.

A dupla articulação da linguagem


Quem pretendesse separar as unidades constitutivas de “nós chegáva-
mos tarde”, na realidade oral da língua, teria várias escolhas: palavras (nós –
chegávamos – tarde), morfemas (nós-cheg-a-va-mos-tarde), sílabas ou fone-
mas. Dentre as unidades agora conhecidas – evidentemente sem maio rigor
– as sílabas e os fonemas são vazios de significação, e as demais providas de
significação.

Distinguir unidades significativas e unidades não significativas implica


reconhecer dois planos de estruturação linguística, que coexistem natu-
ralmente em todo enunciado. O linguista francês André Martinet chamou
dupla articulação a esta propriedade da linguagem humana (MAERTNET,
1964). Esses dois planos, o do conteúdo e o da expressão, são solidários e
interdependentes no que diz respeito à sua finalidade no discurso, embora
cada qual tenha uma organização interna própria.

[...]

Martinet chamou de primeira articulação ao plano do conteúdo (léxico-


-gramatical), que inclui proposições, palavras, raízes, afixos, e de segunda ar-
ticulação ao plano da expressão, cujas unidades – acentos, sílabas, fonemas
– são desprovidas de sentido.

45
Morfossintaxe

As unidades do plano do conteúdo: gramática e léxico


A oposição tradicional entre gramática e léxico fundamenta-se na exis-
tência de duas espécies de unidades na primeira articulação – ou plano do
conteúdo – que passamos a examinar.

A frase abaixo talvez cause estranheza a um usuário do português:


1 – Encarceravam-se os prisioneiros em bolachas.

A frase 2, no entanto, lhe parecerá normal:


2 – Encarceravam-se os prisioneiros em cavernas.

A sequência 3 abaixo, indiscutivelmente inaceitável, deve, porém, esta


propriedade a fatores distintos dos que causam a estranheza de 1.
3 – Os encarceravam prisioneiros se cavernas em.

Parece, entretanto, não haver dúvida de que, tendo de decidir entre 1 e 3,


qual das duas é mais aceitável, qualquer falante de português apontaria 1.
Agora vejamos 4:
4 – Englaufavam-se os vancioneiros em chilgartas.

Esta frase é evidentemente esquisita. Mas será a razão de sua esquisitice a


mesma de 1 ou de 3? Certamente que não. Em 1 o problema é a improprie-
dade lógica de bolachas; em 3, é a ordem das unidades. Em 4, o que será?
Seja qual for a razão, pode-se garantir que 4 tem algo que a identifica com 1
e 2, mas falta a 3. Se, considerando 3 e 4, tivéssemos que apontar a sequência
dotada de um arranjo interno aceitável, não hesitaríamos em eleger 4.

Como em 2, podemos desmembrar 4 em sujeito (os vancioneiros), núcleo


do predicado (englaufavam) e Adjunto Adverbial (em chilgartas). Englaufa-
vam é seguramente um verbo (englaufar), possivelmente derivado de um
nome (glaufo, glaufa ou glaufe) pelo processo de parassíntese. Vancionei-
ros, que se acha no plural, possivelmente deriva de um substantivo (vanção),
cujo radical se modifica de um modo regular em português (canção/cancio-
neiro, nação/nacional, exibição/exibicionista). Podemos, ainda, admitir uma
variante, como em 5:
5 – Os vancioneiros eram englaufados em chigartas.

Exatamente como em 6:

46
Morfossintaxe

6 – os prisioneiros eram encarcerados em cavernas.

Se, de outro modo, as formas novas fossem as que 2 e 4 têm em comum


(em-avam-se-os-eiros-em-s), vejamos qual poderia ser o resultado:
7 – Ascaceritar-ne chus prisionaumel ra cavernaf.

O resultado foi caótico. Não há um arranjo, uma estrutura reconhecível


que permita relacionar os elementos da sequência entre si ou com outras
unidades capazes de ocupar as mesmas posições.

Todos esses fatos mostram que uma língua como o português reúne duas
espécies de unidades mínimas no plano do conteúdo: unidades renováveis,
inventáveis a qualquer momento, cuja substituição não interfere no arranjo
interno da frase; e unidades que garantem a existência daquele arranjo. As
primeiras unidades, ditas semantemas ou morfemas lexicais, pertencem a um
conjunto aberto (léxico) e constituem a base dos substantivos, verbos e adjeti-
vos; as últimas, ditas morfemas gramaticais, pertencem a um sistema fechado
(gramática) e exprimem certas relações entre as unidades lexicais no interior
da frase (como o em 6), acionam a criação de unidades lexicais a partir de
outras (como o –eiro de prisioneiro em face de prisão) expressam distinções
obrigatórias que caracterizam os membros de certas classes (como o “m” de
encarceravam, opõe graficamente esta forma ao singular encarcerava) etc.

Os papéis desempenhados pelos morfemas gramaticais variam de língua


para língua. A diferença entre eles e os lexicais não depende a rigor do conteúdo
que exprimem, mas das condições estruturais em que se encontram. A noção
“humano”, salvo em oposições pronominais do tipo que/quem, algo/alguém,
faz parte do conteúdo lexical dos nomes em português, uma vez que, em
vocábulos como homem, mulher, menino, príncipe, alfaiate, nenhum índice
formal regular os enquadra na categoria “humano”, ao contrário da categoria
“singular”, reconhecida pela ausência regular de “s”, indicador formal da noção
“plural” (homem/homens, menino/meninos, alfaiate/alfaiates).

Léxico e gramática: uma revisão


Este modo de opor léxico e gramática tem, contudo, o inconveniente de
não reconhecer o caráter lexical dos artigos, preposições, pronomes, con-
junções, que, segundo a tradição, são desprovidos de morfema lexical. Essas
unidades, porém, pertencem ao léxico tanto como os verbos, substantivos

47
Morfossintaxe

e adjetivos. Todas vêm listadas no dicionário, todas têm um significado que


compete ao dicionário informar, cada uma precisa ser aprendida como uma
unidade lexical independente. Não há regra para a aprendizagem do signifi-
cado de esse, assim, o, quando, desde, até, como não há regra para a apren-
dizagem do que significam fosfeno, adrede, hialino, prelibar. No entanto,
sabido que desde é uma preposição, pode-se prever sua posição na frase;
sabido que o é um artigo, pode-se prever sua variação para concordar em
gênero e número com o substantivo; sabido que prelibar é verbo, pode-se
garantir que, dado o contexto apropriado, teremos prelibamos, prelibem,
prelibasse etc.

Por outro lado, embora a mesma distinção gramatical oponha chego a


cheguei e vou a fui, o conhecimento de chego conduz regularmente – na
primeira e na segunda articulação – à forma cheguei, mas o conhecimento
de vou não conduz regulamente ao de fui, motivo por que estas duas formas
fonológicas têm de ser apreendidas independentemente uma da outra.

Temos neste último fato uma questão teórica delicada. Chego e cheguei
são realizações concretas de uma diferença gramatical; lexicalmente, estamos
diante de uma mesma unidade, o verbo chegar. No caso das formas vou/fui
temos, por outro lado, uma profunda diferença fonológica que, à primeira
vista, desautoriza associá-las a uma mesma unidade lexical; porém é evidente
que os falantes do português estão aptos a elaborar a proporção segundo a
qual vou está para fui, assim como chego está para cheguei, isto é, valho-me
de fui para atribuir a um sujeito eu o ato de ir situado no passado, exatamente
como me valho de cheguei para atribuir a um sujeito eu o ato de chegar situa-
do no passado. Fui e vou diferem, portanto, fonológica e gramaticalmente,
mas não quanto ao léxico, onde representam o mesmo lexema /ir/.

Dicas de estudo
 PERINI, Mário. Princípios de Linguística Descritiva. Introdução ao pensa-
mento gramatical. São Paulo: Parábola, 2006.

O livro se concentra nos aspectos sintático-semânticos da linguagem, fazen-


do um recorte dos fundamentos necessários para que o leitor possa fazer uma
ideia do que seja “fazer linguística”.

48
Morfossintaxe

 TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Gramática e Interação: uma proposta para o en-


sino de gramática no 1.o e 2.o graus. São Paulo: Cortez, 1996.

O livro trata da gramática para fins didáticos considerando a concepção de


linguagem como interação nas práticas sociais. Apresenta uma proposta de
ensino de gramática a partir de diferentes gramáticas: “gramática de uso”, “gra-
mática reflexiva”, “gramática teórica” e “gramática normativa”.

Estudos linguísticos
1. Analise as proposições a seguir como abordagens pertencentes à gramática
normativa ou descritiva, e descreva o motivo da sua análise.

a) A frase: “Me dá dois suco e três pastel” contraria uma regra morfossintá-
tica do português. O correto, sob o ponto de vista normativo, seria dizer:
“Dê-me dois sucos e três pastéis”. Como tal construção não contradiz a
“lei” do sistema, dizemos que é uma construção gramatical.

49
Morfossintaxe

b) * “As talemas do panto mevem em fistos”. Nessa construção há evidên-


cias de leis morfológicas e sintáticas do português que nos permitem,
não só localizar flexões típicas de gênero (*As talem-a-s) e número (*A-s
talem-a-s), como também flexões verbais (*meve-m). Essa construção
contradiz as regras semânticas do sistema. Os elementos que a consti-
tuem não são lexemas do português, não se encontram dicionarizados.
Assim, é uma construção agramatical (*).

2. Explique o que você entendeu sobre a relação entre:

Morfologia + Sintaxe = Morfossintaxe

50
Morfossintaxe

Referências
AZEREDO, José Carlos de. Iniciação à Sintaxe do Português. 7. ed. Rio de Janei-
ro: Jorge Zahar Editor, 2001.

BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 37. ed. Rio de Janeiro:


Lucerna, 2004.

BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: Língua Portuguesa (ensino de pri-


meira a quarta séries). Brasília: MEC/SEF, 1997.

______. Parâmetros Curriculares Nacionais: Terceiro e Quarto ciclos do Ensino


Fundamental – Língua Portuguesa. Brasília: MEC/SEF, 1998.

CARONE, Flávia de Barros. Morfossintaxe. São Paulo: Ática, 1986.

CEREJA, William Roberto; MAGALHÃES, Thereza Cochar. Gramática Reflexiva:


texto, semântica e interação. São Paulo: Atual, 1999.

GERALDI, João Wanderley. Portos de Passagem. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes,
2003.

LYONS, John. Linguagem e Linguística. Uma introdução. Tradução de: WINKLE-


RAVERBUG, Marilda; SOUZA, Clarisse Sieckenius de. Rio de Janeiro: Guanabara,
1981.

MACAMBIRA, José Rebouças. A Estrutura Morfossintática do Português. Apli-


cação do estruturalismo linguístico. 4. ed. São Paulo: Pioneira, 1982.

NEVES, Maria Helena de Moura. A Gramática Funcional. São Paulo: Martins


Fontes, 2004.

PERINI, Mário A. Sintaxe Portuguesa: metodologia e funções. São Paulo: Ática,


1989.

_____. Gramática Descritiva do Português. 3. ed. São Paulo, Ática, 1998.

_____. Princípios de Linguística Descritiva – introdução ao pensamento gra-


matical. São Paulo: Parábola, 2006.

SILVA, M. Cecília P. de Souza; KOCH, Ingedore Villaça. Linguística Aplicada ao


Português: morfologia. 3. ed. São Paulo: Cortez, 1986.

TRAVAGLIA, Luiz Carlos.Gramática e Interação: uma proposta para o ensino de


gramática no 1.o e 2.o graus. São Paulo: Cortez, 1996.
51
Morfossintaxe

Gabarito
1.

a) Gramática normativa, pois se refere à norma culta da língua padrão, des-


considerando um uso comum na língua oral.

b) Gramática descritiva, pois descreve as unidades e categorias pertencen-


tes ao sistema de uma língua; nessa descrição o linguista está construin-
do hipóteses que explicam o seu funcionamento.

2. Morfossintaxe é o estudo das palavras nos aspectos morfológico e sintático,


simultaneamente, considerando que as palavras desempenham diferentes
funções e que estas são identificadas de acordo com a relação e a disposição
dos vocábulos nas orações.

52
Morfossintaxe

53
O estudo da Sintaxe

O estudo da gramática de uma língua, pedagogicamente, costuma ser


feito pela abrangência de quatro aspectos, conforme as unidades linguís-
ticas que estiverem em estudo: fonemas; morfemas e palavras; sintagmas
e frases; unidades semânticas em geral. A cada um desses tipos de unida-
des linguísticas corresponde uma determinada área de estudo: Fonologia,
Morfologia, Sintaxe e Semântica. Nesta aula, vamos refletir sobre a Sintaxe
da nossa língua.

As leis sintáticas
A língua, tomada como um código composto de unidades, realiza-se
pela interação perfeita e harmoniosa entre todos esses aspectos. Todos os
falantes concretizam seus atos de fala, exercem sua competência comuni-
cativa baseados nessas unidades. Contudo, nem todas as construções são
possíveis na língua, nem todas podem ser consideradas “bem formadas”.

São consideradas “bem formadas” as construções que não desobede-


cem à gramática da língua, isto é, que não desobedecem às suas leis que
sejam constitutivas dessa gramática.

Veja o exemplo a seguir, encontrado em textos produzidos por alunos


do Ensino Fundamental:

(1) No mundo de hoje a violência parece até que virou parte da rotina
que a cada dia há uma.

Nessa passagem do texto de aluno percebemos uma “incoerência local”


que certamente contribuirá para que o texto também se torne incoerente
para o leitor. Percebe-se que esse aluno tem um julgamento da “textuali-
dade” bastante insuficiente, ou seja, o seu domínio das estruturas sintá-
ticas e semânticas da língua é insuficiente e está se refletindo no uso da
língua. No exemplo, há um caso de inversão entre causa e consequência
(a causa: a cada dia há violência; a consequência: a violência virou parte da

55
O estudo da Sintaxe

rotina). A consequência aparece, nessa passagem, antes da causa, provocando o


efeito de incoerência, aliado ao problema de ambiguidade que o termo “uma”
provoca (seria um numeral? um artigo indefinido?).

O usuário da língua precisa observar que todos os elementos da estrutura


oracional devem se apresentar de acordo com os processos característicos de
associação, de concordância, de ordem na cadeia linear da frase e, consequente-
mente, no sentido do enunciado: em consonância às leis fonológicas, morfoló-
gicas, sintáticas e semânticas do português.

Percebeu? Estamos falando da força das leis ou regras que constituem a gra-
mática da língua. Mas vamos focar a nossa atenção às leis sintáticas.

A língua é formada por morfemas lexicais e gramaticais, mas também pelo


conjunto de regras e de leis combinatórias que permitem a construção de uma
mensagem. São as leis sintáticas que autorizam ou recusam determinadas cons-
truções. São as leis sintáticas que elegem as sequências como gramaticais ou
agramaticais(*)1, ou seja, aceitáveis ou não aceitáveis linguisticamente, segundo
as leis que regem a estrutura da língua portuguesa. Se as sequências forem per-
mitidas na língua, elas serão consideras frases da língua, caso contrário, serão
consideradas não frases.

Para Sautchuk (2004, p. 36), as leis sintáticas “são tão relevantes que a elas
se reserva a manutenção da própria identidade da língua”, funcionam como
“uma espécie de guardião da inteligibilidade da superfície linguística de um
texto, pois são o elemento gerador e disciplinador das unidades linguísticas
que compõem as frases de um texto”.

As leis ou regras que administram a combinação de palavras para constituir


frases são analisadas e descritas pela Sintaxe, daí a tripartição tradicional da
Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB): colocação, regência e concordância.
Como fica demonstrado no esquema a seguir, esses aspectos são apresentados
como subdivisões do fenômeno da Sintaxe:

Sintaxe

colocação regência concordância

1
A simbologia (*), colocada ao lado de uma sequência linguística, significa que ela é agramatical. Exemplo: “menino o”(*).

56
O estudo da Sintaxe

O campo de atuação da Sintaxe


O campo de atuação da Sintaxe é o estudo das leis ou regras que constituem
as relações que podem ocorrer no eixo sintagmático da língua, ou seja, no eixo
das combinações possíveis na cadeia horizontal da língua.

As relações que ocorrem no eixo sintagmático da língua podem se formar


entre palavras, gerando os sintagmas, e entre as relações que se realizam entre
os sintagmas, gerando as frases.

Para Silva e Koch (1995, p. 11), o termo frase tem uma abrangência muito
grande, assim, ela prefere ficar com a concepção de frase como unidade comu-
nicacional, ou seja, “todo enunciado suficiente por si mesmo para estabelecer
comunicação”.

Segundo Carone (1986), a frase pode tomar forma de interjeições. Para a


autora, as interjeições não são um tipo de vocábulo (embora a gramática tra-
dicional as classifique como uma classe de palavra), pois não se constituem de
morfemas. Assim, Ai! Ui! Oba! não são morfemas, mas em um contexto especí-
fico, em que são dotados de entonação que os torna capazes de exprimir um
conteúdo significativo, podem constituir uma frase que, como afirma Azeredo
(2001, p. 30) “representa globalmente a situação a que se refere”.

Como afirma Mattoso Câmara Jr. (1967), a frase deve ter um propósito defini-
do em termos comunicativos e uma entonação que lhe assinala nitidamente o
começo e o fim. Será frase, portanto, qualquer palavra ou grupo de palavras su-
ficiente para atender ao objetivo do falante: estabelecer a comunicação. Como
no exemplo:

(2) – A língua falada pelos brasileiros vai mesmo desaparecer?


– Oh! Não!

Se estivesse isolada, a palavra não constituiria uma frase. Entretanto, no texto


do exemplo ela passa a ser frase. O gesto que a acompanha, a expressão fisionô-
mica do falante, assim como os elementos da situação em que é pronunciada,
fazem com que a as palavras Oh! Não! possam ser consideradas frases.

Para Bechara (2004), mesmo assumindo formas tão variadas, as frases reser-
vam traços comuns, como:

57
O estudo da Sintaxe

 são mensagens completas, levando-se em consideração a situação esta-


belecida entre falante e ouvinte;

 são sequências linguísticas delimitadas por um silêncio precedente e uma


pausa final (ou suspensão proposital da fala);

 são proferidas com um contorno melódico particular.

A frase pode ter verbo ou não. Quando é desprovida de verbo chama-se frase
nominal, e não constitui oração.

Como nos exemplos:

(3) Adeus!
(4) Rua Belo Horizonte

Os elementos de base dessa categoria de frase são de natureza nominal (subs-


tantivos, adjetivos ou advérbios). A ausência do núcleo verbal impede que se
identifiquem entre seus constituintes as funções que se manifestam na oração.
Segundo Bechara (2004, p. 540),
[...] como são enunciados reais, apela-se para a interpretação mais ou menos próxima dos
possíveis equivalentes expressos sob forma de oração. Assim, “entende-se” que um enunciado
como Bom dia! equivale a Desejo bom dia ou Espero que tenha um bom dia!, ou Casa de ferreiro,
espeto de pau valeria aproximadamente a Casa de ferreiro usa espeto de pau ou Quando a casa é
de ferreiro, o espeto é de pau ou, ainda, Em casa de ferreiro não se usa espeto de ferro, mas de pau.
(grifos do autor)

Ainda que nas frases nominais as forças das leis sintáticas sejam exercidas, é
apenas quando a frase contiver linguisticamente em si todos os dados da comuni-
cação que chegamos ao nível da oração. A oração é a frase verbal que se presta a
uma análise sintática de seus constituintes, e nela podemos encontrar, de maneira
clara ou oculta, um núcleo verbal. Dessa forma, a oração reúne, na maioria das
vezes, duas unidades significativas, a que chamamos sujeito e predicado.

As frases verbais, que são o tipo dominante em português, podem se apresen-


tar em diversas modalidades. Luft (1987, p. 11) considera que, para compreender
as diversas modalidades de frase, é preciso ir às fontes da linguagem, ou seja, “às
três faculdades da inteligência, vontade, e sensibilidade”. Segundo o autor, delas
é que decorrem as funções básicas da linguagem: intelectiva, volitiva e emotiva,
e os três tipos essenciais de frase: declarativo, imperativo e exclamativo, além de
duas modalidades intermediárias: interrogativa e optativa (esta também conhe-
cida como um tipo de frase emotiva pela qual o falante expressa um desejo).

58
O estudo da Sintaxe

Segundo Dubois Charlier (1981), as frases declarativas ou enunciativas estão


ligadas à função referencial da linguagem, pois são utilizadas para transmitir in-
formações relacionadas ao referente, ou seja, pela frase declarativa, o emissor
busca transmitir informações objetivas sobre o referente. Quando utilizada na
forma oral, caracteriza-se por uma entoação ascendente a que se segue e, na
parte final, uma entoação descendente. Na forma escrita, as frases declarativas
predominam nos textos de caráter informativo, sendo normalmente sinalizadas
por ponto final.

Observe nos exemplos a seguir a forma como o emissor apresenta elementos


declarativos sobre o referente:

(5) Seus pais viajaram ontem à noite. Foram de avião. O carro está na oficina.

Já as frases interrogativas são as que apresentam o elemento interrogativo


que, na oralidade, é marcado pela entoação e, do ponto de vista gráfico, pelo
ponto de interrogação. A frase interrogativa pode ser direta ou indireta, como
nos exemplos:

(6) Seus pais viajaram ontem à noite? (interrogativa direta)


(7) Indaguei se os pais dele tinham viajado ontem à noite. (interrogativa
indireta)
(8) O carro de João está na oficina? (interrogativa direta)
(9) Ele perguntou se o carro de João está na oficina. (interrogativa indireta)

As frases exclamativas remetem para uma determinada entoação, ou segun-


do Dubois Charlier (1981, p. 54), “para uma determinada gama de entoações
que podem exprimir surpresa, descontentamento, medo etc.” Para esse linguis-
ta, a frase exclamativa está relacionada com a função expressiva da linguagem,
quando o emissor exprime no enunciado as marcas de sua atitude pessoal (emo-
ções, avaliações, opiniões). Essas frases são comuns nas cartas pessoais, anúncios
publicitários, poemas, canções sentimentais – gêneros de texto que, normalmen-
te, explicitam as marcas expressivas de sentimentos, emoções etc.

(10) Seus pais viajaram ontem à noite! Tiveram de ir de avião! Pudera! O


velho carro estava na oficina!

59
O estudo da Sintaxe

Ainda segundo o linguista Dubois Charlier (1981), temos as frases imperati-


vas, as quais podem estar ligadas à função apelativa da linguagem, pois expres-
sam ordens, incitação à ação, ou fazem um pedido, utilizando o verbo no modo
imperativo ou no infinitivo. Entretanto, em certos casos, podem estar ligadas
à função expressiva, quando a intenção emotiva do emissor será interpretada
pelo destinatário ao perceber a entoação, os gestos, a expressão facial (na lin-
guagem oral), e pelo contexto de produção da língua em funcionamento, como
nos exemplos a seguir:

(11) Sai já daí, menino!


(12) Contra as notas baixas, estudar, estudar!
(13) Passe-me o açúcar, por favor!
(14) Não me procure mais!
(15) Vá com Deus!
(16) Misture o açúcar com a manteiga e bata muito bem.

Para estudarmos a Sintaxe da língua, precisamos distinguir bem os três con-


ceitos: frase, oração e período.

Frase e oração
Dentro da terminologia gramatical, convém distinguir frase, período e ora-
ção. O termo mais abrangente é frase – a menor unidade autônoma da comu-
nicação.

Mattoso Câmara Jr. (1967), citando outros linguistas, também considera a


frase como a unidade do discurso marcada por uma entoação ou tom frasal, que
lhe assinala o começo e o fim. A frase não tem estrutura gramatical própria, po-
dendo ter uma formulação extensa e elaborada ou ser apenas uma interjeição,
vagamente articulada (Hum!); mas tem uma estrutura fônica particular, sendo a
entonação que faz a frase.

Em Mattoso Câmara Jr., no conhecido Dicionário de Filologia e Gramática


(1981, p. 81), encontramos a seguinte definição de frase:

60
O estudo da Sintaxe

[...] unidade de comunicação linguística, caracterizada, como tal, do ponto de vista comunicativo
– por ter um propósito bem definido e ser suficiente para defini-lo, e do ponto de vista fonético
– por uma entoação, que lhe assinala nitidamente o começo e o fim. É assim a divisão elementar
do discurso, mas pertencente à estrutura linguística por obedecer a padrões sintáticos vigentes
na língua [...].

Luft (1987) também nos ajuda a elucidar o conceito de frase definindo-a


como a menor unidade autônoma da comunicação: autonomia no plano signi-
ficativo – uma intenção comunicativa definida – e no plano significante – uma
linha completa de entoação.

Então, já podemos sintetizar: se a frase tem pelo menos um verbo, damos-lhe


os nomes de oração ou período simples (portanto, oração absoluta).

Em outras palavras: toda frase que se organiza em torno de um verbo constitui


uma oração, toda oração constitui um período. O período será simples quando
for constituído por uma oração. Será período composto quando for constituído
por mais de uma oração.

Para exemplificar, vamos analisar o texto a seguir:

(17) Ana estudou pouco. Não conseguiu um bom resultado na prova. Que
estresse!

 O texto se constitui por duas frases verbais e uma frase nominal.

 As duas frases verbais constituem duas orações.

 As duas orações constituem dois períodos simples.

 A frase nominal não constitui oração e nem período.

(18) Domingo à noite, fomos a um restaurante; quando chegamos lá encon-


tramos o pessoal.

Observe que em (18) encontramos três verbos: fomos, chegamos, encontra-


mos. Portanto, temos um período composto por três orações.

Para Perini (2006), a gramática é justamente o conjunto de instruções para


construir e interpretar as unidades da língua: sintagmas, frases, orações e períodos.

61
O estudo da Sintaxe

O autor complementa que é possível fazer uma lista de todas as palavras da nossa
língua (os grandes dicionários chegam perto disso), porém é impossível fazer
uma lista dessas unidades – sintagmas, frases, orações, períodos –, pois elas são
em número indefinido. “Todos os dias ouvimos ou lemos frases que nunca vimos,
e não obstante as entendemos perfeitamente” (PERINI, 2006, p. 61). Vejamos o
exemplo:

(19) O ovo do dinossauro caiu no meu quintal.

Embora estranha, no nível semântico, nós, como bons falantes da língua


portuguesa, não temos dificuldades em reconhecê-la como uma frase aceitável
da nossa língua. Conseguimos fazer isso porque suas partes não são novidades
para nós – elas estão de acordo com as leis gramaticais que regem a estrutura
da língua portuguesa. Essas partes podem ser distinguidas em dois níveis: o das
palavras (o/ovo/do/dinossauro/etc.) e o das construções.

No nosso exemplo, podemos ter as seguintes construções:

Sintagmas nominais – o ovo do dinossauro/o ovo/do dinossauro/no


meu quintal
Sintagma verbal – caiu no meu quintal
Frase verbal – o ovo ovo do dinossauro caiu no meu quintal
Oração – o ovo do dinossauro caiu no meu quintal
Período simples – o ovo do dinossauro caiu no meu quintal

Cada uma dessas construções é, na realidade, um tipo de constituinte lin-


guístico que se compõe de certos elementos, desempenhando funções pecu-
liares na funcionalidade da língua. Segundo Perini (2006, p. 61), “um dos papéis
das regras gramaticais é justamente descrever a maneira de montar palavras de
modo a formar constituintes”.

62
O estudo da Sintaxe

A frase é uma estrutura


Como afirma Azeredo (2001, p. 31), os vocábulos não se unem para formar uma
oração do mesmo modo que os gomos se unem para formar uma laranja. Os vocá-
bulos não formam a oração senão indiretamente, eles se associam em grupos, por
meio de sintagmas. Esses são os verdadeiros constituintes da oração.

Quando nos referimos à hierarquia gramatical de unidades linguísticas do


português, podemos apresentá-las na sequência do exemplo a seguir:

(20) O menino ganhou um livro.

Decompondo a frase/oração ou período em unidades menores teremos:

Morfema: -o

Vocábulo: menino

Sintagma: o menino

Frase: O menino ganhou um livro.

Observe: os constituintes imediatos das orações/frases são os sintagmas e


não as palavras. No exemplo, você também pode observar que o sintagma O
menino resulta da articulação de duas unidades linguísticas: o + menino (gra-
mema + lexema).

O conceito de sintagma é um conceito linguístico de Ferdinand de Saussure,


encontrado na obra clássica Curso de Linguística Geral, publicada em Paris, em
1916. Conceituando sintagma de uma perspectiva do uso da língua pelo falante,
os sintagmas são os verdadeiros constituintes da oração.

Para Dubois Charlier (1981), a frase é uma construção formada por constituintes,
ou seja, blocos significativos que funcionam no eixo horizontal da língua, formados
a partir de uma ou mais unidades linguísticas, de nível imediatamente inferior.

63
O estudo da Sintaxe

A frase é constituída pelos sintagmas, que também podem ser chamados de


constituintes imediatos, porque o sintagma é uma unidade (bloco) que entra na
composição de um bloco superior. Assim:

(21) O vizinho da casa amarela sonha com férias na praia.

a) “o vizinho” e “da casa amarela“ são constituintes imediatos do bloco supe-


rior “o vizinho da cada amarela”;

b) “com férias” e “na praia” são constituintes imediatos do bloco superior “so-
nha com férias na praia”.

c) “o vizinho da casa amarela” e “sonha com férias na praia” são constituintes


imediatos do bloco maior “O vizinho da casa amarela sonha com férias na
praia” (a oração).

A palavra sintagma pode designar tanto uma palavra (constituída por lexema
e gramema (s)) quanto uma sequência de palavras organizadas em um bloco de
sentido e mantendo relações de dependência. Como no exemplo:

(22) A menininha dormia no berço. O quarto estava lindo!

São exemplos de sintagmas:


 Na primeira oração – menininha (constituído por um lexema (menin-),
por dois gramemas (-inh; -a); a menininha; dormia (constituído pelos mor-
femas dorm-i-a); dormia no berço.
 Na segunda oração – quarto (quart-o); o quarto; estava (est-a-va); lindo
(lind-o); o quarto; estava lindo.

Os sintagmas são, portanto, conjuntos mínimos que podem se mobilizar, ou


seja, mudar de posição no eixo sintagmático, propriedade esta que lhes confere
determinadas funções sintáticas.

Os falantes de uma língua, ao processar enunciados escritos ou orais, “sabem”


dividir esses enunciados em blocos que têm significado e que podem mudar
de posição no eixo sintagmático. Esses “blocos”, ou seja, esses sintagmas consti-
tuem a estrutura sintagmática da frase/enunciado.

64
O estudo da Sintaxe

Veja os exemplos a seguir. Tomando-se o verbo como ponto de apoio pode-


-se separar os elementos que constituem sintagmas. A partir deles é que se cons-
titui a estrutura sintagmática da frase/enunciado.

1 2 VERBO 3 4
Naquela tarde, os pássaros cantavam sobre os galhos das árvores.
No outono, as folhas caíam do telhado durante a chuva.
O velho prédio da rua foi demolido pelos operários.
durante toda a
Cantaram para casa.
viagem

Observe, nos exemplos, que os constituintes imediatos constituem sintag-


mas no nível superior:

SN (sintagma nominal) SV (sintagma verbal)


Naquela tarde, os pássaros cantavam sobre os galhos das árvores.
No outono, as folhas caíam do telhado durante a chuva.
O velho prédio da rua foi demolido pelos operários.
Cantaram durante toda a viagem para casa.

O primeiro bloco constitui o sintagma nominal (sujeito da oração): o núcleo é


um nome. O segundo bloco constitui o sintagma verbal (o predicado da oração):
o núcleo é o verbo.

Ainda a respeito da estrutura frasal, Carone (1986, p. 86) apresenta um exem-


plo em que salienta a importância da distinção entre ordem estrutural e ordem
linear da frase. Por exemplo, quando um falante de uma língua depara-se com
uma sequência de palavras, ele é, intuitivamente, levado a estabelecer, em seu
conjunto, uma relação sintática. Outro exemplo é a sequência “fala viva”, fora de
um contexto específico, pode ser interpretada de diversas maneiras:

 Uma fala (expressão) viva (vivaz, fluente);


 Alguém fala (diz) a palavra viva;
 Fala (imperativo: tu) a palavra viva;
 Ela fala (estando) viva;
 Que a fala (substantivo) viva (subjuntivo optativo).

65
O estudo da Sintaxe

Para um ouvinte da língua, essas duas palavras não estão apenas dispostas
em uma ordem linear, elas estão organizadas estruturalmente dentro de um
sistema linguístico. Dessa forma, ele acaba atribuindo a elas uma gramática –
formas e funções. Em um processo de interação verbal, o enunciador, ao produ-
zir uma frase, faz uma dupla escolha: a dos conteúdos que quer veicular (plano
do conteúdo), e a do arranjo gramatical que dará forma a eles (plano da expres-
são) (CARONE, 1986).

Texto complementar

Sintaxe: eixo da textualidade


(SAUTCHUK, 2008)

[...]

[A] inabilidade operacional dos recursos da língua para construir um es-


pelho cristalino de suporte da textualidade tem, a meu ver, um ponto central
que se mostra como um eixo que serve tanto para gerar problemas no su-
porte linguístico do texto, como para disciplinar a sua elaboração. Acredito
ser a Sintaxe esse eixo da textualidade microestruturalmente manifestada.

Se é a coerência que dá origem à textualidade, é a microestrutura que


sustenta, ampara essa textualidade. O texto, unidade linguística que é,
realiza-se por meio de frases ou é codificado em frases. E sobre a organização
rigorosa dessa superfície linguística é que todas as macroestruturas se
atualizam: “é condição primeira, inerente à própria linguagem, que a ideia
não toma forma senão num arranjo sintagmático” (BENVENISTE, apud JACOB,
1973, p. 130) (grifo nosso).

As frases comportam uma combinação múltipla de constituintes do siste-


ma linguístico, visando a uma relevância comunicativa. O sentido delas é atua-
lizado na língua “em uso” através da escolha, do arranjo desses constituintes
mediante sua organização sintática, mediante a ação que eles exercem uns
sobre os outros. Acreditamos então poder considerar os mecanismos sintá-
ticos como uma espécie de matriz responsável pela força que desencadeia e
que imprime na superfície do enunciado as marcas de sua textualidade. E não

66
O estudo da Sintaxe

nos referimos apenas às leis do sistema sintático da Língua Portuguesa, que


se relacionam à concordância, da regência, à colocação pronominal ou ao
posicionamento de sintagmas na frase. As frases que se constroem linear-
mente num enunciado – futuro texto – vão-se organizando (ou devem-se or-
ganizar) em função de processos e de mecanismos que, reportados à coesão,
tramam as unidades linguísticas entre si, num movimento sintagmático con-
tínuo de referência, de recorrência e de sequencialidade.

[...]

Dubois (1970, p. 12) afirma ser necessário


[...] que o usuário da língua tenha sobre os enunciados produzidos em forma de frases
um julgamento de gramaticalidade, isto é, que possa considerar quando um enunciado
é gramaticalmente admissível ou até que ponto desvios desse tipo não comprometem a
sua inteligibilidade.

A agramaticalidade, tomada aqui como a constatação de estruturas anô-


malas ao sistema da língua, comporta graus definidos como uma adequação
maior ou menor ou uma não adequação das frases às regras pertencentes
a níveis diferentes de realização. Um enunciado poderá ser mais ou menos
gramatical, segundo o nível da regra violada (sintático, semântico ou fo-
nológico). Como é o nível sintático que conserva a própria identidade da
língua, pode-se deduzir que é neste nível que se deve proceder à melhor
adequação.

O conceito de textualidade – qualidade de que se reveste todo conjunto


de enunciados com pretensão a texto – se fundamenta sob um complexo de
propriedades que caracteriza esses enunciados como uma macroestrutura
Semântica organizada mediante uma microestrutura linguística.

Logo, as macroestruturas não podem existir senão a partir das microes-


truturas e estas não se atualizam senão por meio de um arranjo sintagmático
das unidades linguísticas. Isso torna a Sintaxe “o princípio construtivo univer-
sal das estruturas da língua” (BENVENISTE, 1986).

As leis sintáticas são as instauradoras da forma e, consequentemente, do


sentido de um enunciado: não pode haver conteúdo sem expressão. E, como
não há disponível na língua um arquivo de frases prontas (como há de pala-
vras e de regras), deve o falante criar as frases a cada vez que delas precisar
para expressar seus planos de comunicação.

67
O estudo da Sintaxe

[...]
É nítida a ausência de atuação dos professores de Língua Portuguesa em
habilitar o aluno-escritor no domínio das estruturas e das relações sintáticas
como eixo disciplinador para o qual convergem os fatores de textualidade,
ou em demonstrar como a falta desse domínio age como eixo detonador das
falhas e das imperfeições microestruturais do texto. Eis um trecho de reda-
ção de aluno universitário:
Coisas que cometemos sem pensar em nosso cotidiano, quando agimos de formas incorretas
que nos levam a ser incoerentes com nossas atitudes.

No período-parágrafo, temos as seguintes ocorrências:

1.º) sintaticamente, não há oração principal. O leitor fica aguardando


um ”fechamento” de sentido, por meio de um predicado articulado
ao núcleo do sujeito “coisas”. O período se encerra e ele não ocorre.
Há uma ruptura dos enlaces sintáticos, formando-se uma associação
de ideias desconexas. A ocorrência de frases fragmentadas (“lascas”
de períodos não concluídas) é bastante alta em qualquer corpus de
redações e pode indicar uma contaminação da escrita por traços da
oralidade, modalidade de discurso essa onde esses pedaços de perí-
odos são muito comuns. De qualquer forma, o fato demonstra uma
incapacidade de se elaborarem sintaticamente relações lógicas en-
tre as orações de um período, mesmo empregando-se, como neste
caso, conectores do tipo lógico. O aluno-escritor realizou relações de
temporalidade e de delimitação ou restrição mediante os conectivos
“quando” e “que”, porém soltas de um suporte frasal representado
pela oração principal.

2.º) inversão da ordem dos termos sintáticos na frase ou inserção de ter-


mo sem pontuação adequada. O termo “sem pensar” deveria ocupar
outra posição no eixo sintagmático ou simplesmente vir separado
por vírgulas, pois o emissor provavelmente quis dizer “coisas que
cometemos sem pensar” e não “sem pensar em nosso cotidiano”. O
termo “em nosso cotidiano” é um circunstancial que poderia articu-
lar-se a qualquer verbo do enunciado, dependendo da intenção se-
mântica do aluno, desde que ele soubesse como fazer isso.

[...]

68
O estudo da Sintaxe

Retomando o conceito de Dubois (1970) a respeito da noção de “agrama-


ticalidade” das frases, convém assinalarmos que ela pode originar-se em uma
das duas partes estruturais de que elas se compõem.

1. A base, que, por sua vez, se divide em:

1.1 componente de categoria: lista de regras que define as relações grama-


ticais entre os elementos que constituem as estruturas profundas e que são
representados pelos símbolos de categorias (SN), (SV). Interferências nesse
processo levam facilmente às discordâncias entre núcleo nominal e Sintag-
ma Verbal.

1.2 o léxico: repertório da língua em que os termos (morfemas) são defini-


dos por séries de traços, características categoriais de diversos tipos. Ex.: mãe
= nome comum (+ comum); animado (+ animado); humano (+ humano) etc.;
nome, verbo, artigo etc.

2. As transformações: cujas regras permitem passar das estruturas profun-


das (definidas pela base) às estruturas de frases como elas se apresentam na
língua (estruturas de superfície).

A base definiria as regras que permitem gerar, por exemplo, “a mãe enten-
de uma coisa”. E a parte transformacional da Sintaxe definiria as regras que
permitem que se chegue, também, por exemplo, a “a mãe entendeu por que
a criança chorava” ou a outras inúmeras possibilidades de estruturas.

Quer-nos parecer que a grande dificuldade do aluno-escritor, cuja perfor-


mance linguística é pouco desenvolvida, é justamente a passagem de uma
perfeita associação das partes componentes da base da frase para uma rea-
lização final, mediante transformações.

[...]

Dica de estudo
 HENRIQUE, Claudio Cezar. Sintaxe Portuguesa para a Linguagem Culta
Contemporânea: teoria e prática. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2005.

Nesta obra o autor aproveita cada noção da teoria gramatical para mostrar
a sua presença e a sua repercussão no uso das construções da língua, contri-
buindo para que o leitor perceba que a gramática da língua é um meio para a
aprendizagem consciente e reflexiva.

69
O estudo da Sintaxe

Estudos linguísticos
1. Explique, com as suas palavras, o que entendeu por sequências linguísticas
“agramaticais”. Dê exemplos.

2. Leia a receita culinária abaixo, identifique os tipos de frase utilizados e, com


base no seu conhecimento sobre o gênero de texto e nos estudos da aula,
explique o porquê da escolha dessas modalidades frasais na elaboração do
texto.

Receita de bolinho de chuva


Ingredientes
 2 ovos

 2 colheres de açúcar

 1 xícara de chá de leite

 Trigo para dar ponto

 1 colher de sopa de fermento

 Açúcar e canela

70
O estudo da Sintaxe

Modo de preparo
Misture todos os ingredientes até ficar uma massa não muito mole, nem
tão dura. Deixe aquecer uma panela com bastante óleo para que os bolinhos
possam boiar. Quando estiver bem quente comece a colocar colheradas da
massa e abaixe o fogo para que o bolinho não fique cru por dentro.

Coloque os bolinhos sobre papel absorvente e depois, se preferir, passe-


-os no açúcar com canela.

71
O estudo da Sintaxe

Referências
AZEREDO, José Carlos de. Iniciação à Sintaxe do Português. 7. ed. Rio de Janei-
ro: Jorge Zahar Editor, 2001.

BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 37. ed. Rio de Janeiro:


Lucerna, 2004.

CÂMARA JR., Mattoso. Dicionário de Filologia e Gramática. 6. ed. Rio de Janei-


ro: J. Ozon,1981.

CARONE, Flávia de Barros. Morfossintaxe. São Paulo: Ática, 1986.

CHARLIER, Dubois F. Bases de Análise Linguística. Tradução e adaptação ao


português de: PERES, João de Andrade. Coimbra: Livraria Almedina, 1981.

LUFT, Celso Pedro. Moderna Gramática Brasileira. 8. ed. Rio de Janeiro: Globo,
1987.

PERINI, Mário A. Princípios de Linguística Descritiva – introdução ao pensa-


mento gramatical. São Paulo: Parábola, 2006.

SAUTCHUK, Inez. Prática de Morfossintaxe. Como e por que aprender análise


(morfo)sintática. Barueri: Manole, 2004.

_____. Sintaxe: eixo da textualidade. Disponível em: <www.filologia.org.br/ixfe-


lin/trabalhos/pdf/63.pdf>. Acesso: 17 ago. 2008.

SILVA, M. Cecília P. de Souza; KOCH, Ingedore Villaça. Linguística Aplicada ao


Português: morfologia. 3. ed. São Paulo: Cortez, 1986.

Gabarito
1. Sequências linguísticas agramaticais são “sequências” de elementos que, na
cadeia sintagmática da língua, não constituem sentido e não expressam uma
mensagem. Exemplo: As Ikalkeves kazs petameh no tartes (*).

2. Na “lista de ingredientes” encontram-se frases nominais. No “modo de preparo”


encontram-se várias frases imperativas, cujos verbos no imperativo denotam a
função apelativa da linguagem, pois expressam uma incitação à ação, ou seja,
ao fazer do cozinheiro que está seguindo a receita e preparando um prato.

72
O estudo da Sintaxe

73
A estrutura sintagmática do português

A estrutura gramatical do português é constituída por vários níveis. Do


morfema – a menor unidade dessa estrutura – ao período, que é a maior,
encontra-se o nível dos sintagmas, que está entre os vocábulos e a oração.

Os sintagmas são os verdadeiros constituintes da oração. No entanto, a


estrutura sintagmática do português tem sido um nível de descrição fre-
quentemente esquecido por alguns estudos gramaticais que restringem o
foco da análise aos níveis da oração e do período. A identificação dos sin-
tagmas nominais (SN) na oração, a estrutura interna dos SN, assim como
o comportamento sintático que os SN exercem na oração, constituem a
análise sintática de uma frase. Dessas operações dependem a concordân-
cia, a regência, a colocação dos membros da frase e a pontuação, opera-
ções que estão em relação direta com a identificação dos sintagmas que
compõem um enunciado.

Constituintes imediatos
Perini (2006) dá uma grande ênfase à importância de se conhecer os
constituintes imediatos da frase, que ele denomina de “partes naturais”.

Seguindo os postulados do autor, a organização da língua em “partes


naturais” constitui o aspecto do significado das estruturas da língua e, ao
processar uma frase, o usuário atribui um significado, uma interpretação a
certas “partes”, ou seja, a sequências de palavras – os constituintes. Assim:

(1) A bicicleta de Daniel é azul.

Ao processarmos a frase, damos significado (interpretamos) as duas


sequências de palavras: “a bicicleta de Daniel” e “é azul”. Já as sequências
“Daniel é azul” ou “a bicicleta de” não recebem interpretação como “partes
naturais” da frase, pois são pedaços desconexos, não têm significado, não
podem ser interpretados.

75
A estrutura sintagmática do português

Isso acontece porque, ao receber uma frase, o receptor procura na sequên-


cia estruturas sintáticas da língua e não aceita sequências sem significado, sem
interpretação.

As “partes naturais” ou “constituintes imediatos” se compõem de certos ele-


mentos que têm uma interpretação semântica, uma identidade sintática e uma
função na frase. No exemplo:

(2) O trabalho de Pedro é bom.

O receptor não entende “o trabalho de”; também não entende “de Pedro é”,
porque esses não são blocos constituintes de sentido. Os blocos que estruturam
a frase e que ele entende são: o trabalho/ de Pedro / é bom.

As sequências ou blocos que formam constituintes são chamados sintagmas.


Assim, em (2), o trabalho de Pedro é um sintagma que, por sua vez é formado por
um sintagma interno: de Pedro.

Azeredo (2001) apresenta algumas possibilidades para verificarmos se uma


sequência é um sintagma:

 a possibilidade de deslocamento da posição de um sintagma na frase,


como no exemplo a seguir:

1 V 2 3 4

(3) O bombeiro / desatou / o nó / das cordas / com os dentes.

Observe que o deslocamento dos sintagmas é possível nas seguintes sequências,


mas haveria outras:
4, V, 2, 3, 1
2, 3, 1, V, 4
4, 1, V, 2, 3

Verifique outro exemplo:

1 V 2 3 4

(4) Aqueles meninos / fizeram / sua cabana / atrás da árvore / com flores amarelas.

76
A estrutura sintagmática do português

Estes são alguns dos possíveis deslocamentos:

3, 4, 1, V, 2
V, 2, 3, 4, 1

Os sintagmas que se movem no eixo horizontal, nas diferentes posições que


podem ocupar na frase, propiciam diferentes leituras em um número de possi-
bilidades variadas.

Observe que alguns deslocamentos não são possíveis, como por exemplo:
4/3/1/2/V; pois contradiz uma lei sintática da língua.

 a possibilidade de substituição da sequência por uma unidade simples,


como um pronome, como nos exemplos a seguir:

(5) O bombeiro / desatou /o nó / das cordas / com os dentes.

Que poderia ter dois sintagmas substituídos por um pronome, como:

(6) O bombeiro / desatou- o / com os dentes.

(7) Ele / desatou / os nós / das cordas / com os dentes.

Os procedimentos de deslocamento e de substituição são importantes porque


nos ajudam a isolar na estrutura da oração as unidades – os sintagmas – que a
constituem.

Constituintes oracionais: os sintagmas


Para Silva e Koch (1995), o sintagma consiste num conjunto de elementos que
constituem uma unidade significativa dentro da oração e que mantêm entre si
relações de dependência e de ordem. Os sintagmas se organizam em torno de
um elemento fundamental a que chamamos núcleo e que pode, por si só, cons-
tituir um sintagma. Assim, nos sintagmas Maria/ o professor/ a meninha linda/
meu livro/ você, o núcleo é um elemento nominal (nome ou pronome), tratando-
-se, pois, de sintagmas nominais.
Na estrutura da oração, em sua forma de base, aparecem os constituintes
obrigatórios: o SN e o sintagma verbal (SV). Por exemplo:

77
A estrutura sintagmática do português

SN SV
(8) As crianças / corriam pelo quintal atrás da bola.
(9) (Nós) / Vimos o desfile pela TV.
(10) / Choveu.

Nas regras de escritura do português, o SN na posição de sujeito pode não se


atualizar, ou seja, pode não ser uma posição lexicalmente preenchida, como nos
exemplos (9) e (10).

Veja mais um exemplo:

(11) Em certas tardes, as flores exalam delicioso perfume muito suave.

Tomando-se o núcleo verbal como referência, temos dois sintagmas ante-


riores a ele:

(a) em certas tardes


(b) as flores

E posteriores ao verbo:

(c) delicioso perfume


(d) muito suave

Em (b) o núcleo do sintagma é o substantivo “flores”. Por isso, dizemos que é


um SN, pois a base é uma palavra substantiva.

Em (c) o núcleo do sintagma também tem por base uma palavra substantiva,
(perfume), portanto é um SN.

Perini (1989) se refere a um SN “maximamente estendido” formado por uma


longa sequência de termos, de forma que todos tenham comportamento sintá-
tico claramente diferentes. Como no exemplo a seguir:

SN
(12) Todos os nossos muito queridos colegas professores.

78
A estrutura sintagmática do português

Observe que os elementos desse extenso sintagma nominal não são permu-
táveis livremente, o que indica que cada um tem uma função diferente. Cada
termo e cada função desse termo se caracteriza, portanto, por suas proprieda-
des posicionais únicas.

Veja, por exemplo, o elemento todos. Esse termo só pode aparecer em primei-
ro lugar, outra posição causa uma agramaticalidade:

a) (* ) os nossos muito queridos colegas professores todos

b) (* ) os todos nossos muito queridos colegas professores

c) (* ) muito queridos colegas professores todos os nossos

Esses exemplos demonstram como a estrutura do sintagma nominal é rígida,


e as funções se distinguem de maneira bem nítida para o usuário da língua.

Os tipos de sintagmas
Diante do que já foi tratado, tomando-se o núcleo verbal da oração como ponto
de referência, podemos isolar e decompor quatro diferentes tipos de sintagmas:

 Sintagmas nominais (SN).

 Sintagmas verbais (SV).

 Sintagmas adjetivais (SAd).

 Sintagmas preposicionados (SPrep).

Para Silva e Koch (1995), o SN pode ter como núcleo um nome ou pronome
substantivo (pessoal, demonstrativo, indefinido, interrogativo, possessivo ou re-
lativo). Como nos exemplos:

SN SV
(13) Eu li o livro.
(14) Esses são os meus.
(15) Quem irá hoje?
(16) (Os livros)/que li são ótimos.
(que é um pronome relativo = os livros)

79
A estrutura sintagmática do português

O sintagma adjetival (SAdj) apresenta como base nuclear um adjetivo que, da


mesma forma como ocorre com o sintagma nominal, pode ser constituído por
esse adjetivo ou circundado por outros elementos, sejam estes advérbios inten-
sificadores, modificadores adverbiais ou sintagmas preposicionados.

Observe:

(17) Esse livro é extremamente raro. (intensificador + adjetivo)


(18) Ela se mostrou surpreendentemente agradecida. (modificador adverbial
+ adjetivo)
(19) Nadar pode ser muito favorável à saúde. (intensificador + adjetivo +
sintagma preposicionado)

O sintagma preposicionado (SPrep) constitui-se de preposição + sintagma no-


minal. Esse tipo de sintagma pode articular-se a um substantivo, a um adjetivo
ou a um verbo, como nos exemplos a seguir:

SN SV SPrep SPrep
(20) As rosas / enfeitam minha casa / na primavera / nos fins de semana.
(21) Homens / taparam os buracos / da pista / na madrugada.

O sintagma preposicionado pode ser deslocado da posição normal (após o


SN e o SV), vindo anteposto a esses sintagmas ou intercalado.

Verifique os exemplos:

(22) Todas as roupas brancas caíram do varal da vizinha.


SN: todas as roupas brancas
V: caíram
SPrep: do varal
SPrep: da vizinha
Todas + as + roupas + brancas = SN (núcleo: roupas; determinantes: todas,
as, brancas)
de + o + varal = SPrep (preposição de + determinante o + núcleo varal)
de + a + vizinha = SPrep (preposição de + determinante a + núcleo vizinha)

80
A estrutura sintagmática do português

Também é possível visualizar a decomposição assim:

Todas as roupas brancas caíram do varal da vizinha.

SN verbo SPrep (circunstancializador de lugar)

Ou, como no exemplo a seguir:

Todas as roupas caíram do varal da vizinha.

Det Det núcleo verbo SPrep SPrep

Para Silva e Koch (1995) o sintagma preposicionado (SPrep) é constituído de


uma preposição seguida de um SN. Nos exemplos (20) e (21) os sintagmas pre-
posicionados expressam circunstâncias de realização do verbo, portanto, são cir-
cunstancilizadores do verbo, isto é, são sintagmas adverbiais (SAdv).

Os exemplos a seguir desempenham o mesmo papel: o de modificadores


circunstanciais (de tempo, de lugar, de modo, de intensidade etc.). Portanto, o
SPrep pode ser denominado de SAdv quando este tiver a função de circunstan-
cializador (de tempo, de modo, de lugar, de intensidade, de negação, de dúvida,
de instrumento, de companhia etc.). Verifique:

(23 ) O leiteiro sai cedinho.


(advérbio)

(24) O leiteiro sai de madrugada.


SPrep. (SAdv: locução adverbial)

(25) O leiteiro sai à mesma hora todos os dias.


SPrep (SAdv: loc. adv.) SN (loc. adv.)

(26) Saiu de casa com rapidez.


SPrep. (SAdv: loc adv.) SPrep. (SAdv: loc. adv.)

(27) Chegou muito faminto.


modificador circunst. (SAdv) modific. circunst. (SAdv)

De maneira geral, o SPrep é formado por uma preposição + um sintagma no-


minal. Entretanto, segundo Silva e Koch (1995), essa equação pode ser ampliada.
Vejamos os exemplos a seguir:

81
A estrutura sintagmática do português

(28) O padeiro sai / cedinho.


(advérbio)

(29) O padeiro sai / de madrugada.


SPrep. (SAdv: locução adverbial)

(30) O padeiro sai / à mesma hora / todos os dias.


SPrep. (ou SAdv por ser loc. adv.) / SN (SAdv por ser loc. adv.)

As sequências grifadas, embora expressas de maneiras diferentes, desempe-


nham o mesmo papel na frase: são expressões circunstanciais (no nosso caso, de
tempo). Segundo Silva e Koch (1995), levando-se em consideração que essas ex-
pressões circunstanciais são expressas, na sua grande maioria, por locuções ad-
verbiais, normalmente introduzidas por preposição, podemos atribuir aos SAdv
o rótulo de sintagmas preposicionados (SPrep). Segundo as autoras:
Há vários argumentos a favor dessa opção: a) muitos advérbios possuem uma locução adverbial
correspondente: rapidamente – com rapidez; aqui – neste lugar; agora – neste momento etc.; b)
os advérbios constituem um inventário fechado, ao passo que as locuções adverbiais formam,
praticamente, um inventário aberto, sendo, assim, mais econômico englobar a uns e outros
sob o rótulo de SPrep; c) a descrição torna-se mais coerente, uma vez que toma como base não
a estrutura, mas a função [...]. (SILVA; KOCH, 1995, p. 19)

Portanto, o SPrep pode, algumas vezes, aparecer como constituinte indepen-


dente, veiculando informações circunstanciais (tempo, lugar, modo etc.) – como
no exemplo (31) – ou indicar atitudes do falante – como no exemplo (32):

(31) No inverno, os dias são mais curtos que as noites.


(32) Infelizmente, quase ninguém foi à festa da Silvia.

Resumindo o que vimos até o momento:

SN: a base nuclear é o substantivo ou palavra em função substantiva.


SAdj: a base nuclear é o adjetivo.
SPrep: preposição + SN ou simplesmente um advérbio.

Assim, chegamos à definição do sintagma nominal. Para Sautchuk (2004, p.


42),
[...] sintagma nominal (SN) é uma unidade significativa da oração que terá sempre como
núcleo uma palavra de natureza (ou base) morfológica substantiva, podendo vir circundada
por determinantes e/ou modificadores nominais.

82
A estrutura sintagmática do português

A estrutura do sintagma nominal


Sautchuk (2004) salienta que as possibilidades de combinações no sintagma
nominal são variadas, pois os modificadores do núcleo substantivo de um sin-
tagma nominal podem ser, eles mesmos, um sintagma adjetival ou um sintagma
preposicionado.

Vejamos o exemplo da autora:

Este meu de ouro.

Aquele dourado ANEL caro demais.

Nenhum com gravação dourada.

No exemplo, podemos observar que os modificadores do núcleo substantivo


do sintagma nominal podem funcionar, eles mesmos, como sintagma adjetival
(caro demais), sintagmas preposicionados (de ouro branco/ com gravação dou-
rada), sintagmas estes internos ao sintagma nominal que é constituído por eles:

(33) Este meu anel de ouro/ aquele dourado anel caro demais/ nenhum
anel com gravação dourada.

A descrição dos sintagmas nominais, segundo Azeredo (2001), implica exa-


minar a sua estrutura interna. O autor apresenta um quadro bem completo dessa
estrutura. Conheça os elementos dessa estrutura interna que são apontados
pelo autor:

 Os determinantes – o grupo dos determinantes é formado pelas classes


tradicionalmente chamadas de artigo definido, pronome demonstrativo
(formando as subclasses dos identificadores), pronome possessivo, prono-
me indefinido de valor quantitativo, numerais cardinais, pronome indefi-
nido de outro tipo (como outro, demais, mesmo e próprio – aqui reunidos
sob o rótulo referenciadores) e o relativo cujo.

 Os modificadores – a posição de modificador do SN pode ser ocupada


por SAdj e SPrep.

Dubois Charlier (1981) demonstra que o sintagma nominal pode ser consti-
tuído por pré-determinantes + núcleo substantivo + modificadores (circunstan-
ciais e adjetivais), como nos exemplos:
83
A estrutura sintagmática do português

Sintagma nominal
Núcleo
Determinante Modificadores
do SN
(34) Os dois carteiros de farda.

(35) Esses livros infantis.

(36) Várias pessoas muito curiosas.

(37) Nossas crianças alegres.

Como você pode observar nos exemplos (34) a (37), o SN é constituído por
determinantes antepostos ao núcleo do SN e por modificadores pospostos ao
núcleo do SN.

O SN comporta necessariamente um núcleo que, sendo um substantivo


comum, poderá vir precedido de determinantes e precedido ou seguido por
modificadores (SAdj ou SPrep).

Síntese da estrutura do sintagma nominal


Diante do que foi discutido sobre a estrutura sintagmática do português, e
embasados em Sautchuk (2004), podemos construir sintagmas nominais a partir
de certas fórmulas, como as seguintes:

a) Det + núcleo substantivo + SPrep interno = SN

(Ex.: o livro de português)

b) Prep. + SN (núcleo subst. + SPrep interno + SPrep interno) = SN

(Ex.: com vestido de tecido de lã)

c) Det. + intensificador + modificador + núcleo subst. + SPrep interno = SN

(Ex.: meu muito lindo broche de strass)

d) Intensificador + núcleo adjetivo + SPrep interno + SPrep interno = SAdj

(Ex.: muito confiante no sucesso do projeto)

84
A estrutura sintagmática do português

e) Det. + núcleo subst. + SPrep interno + SPrep interno = SN

(Ex.: o desmembramento de um membro do projeto)

Como se vê, os SNs são formados por constituintes que funcionam para efei-
tos de relações internas ao SN maior. Conforme Perini (2006), o caráter hierárqui-
co da estrutura de constituintes faz com que eles se encaixem uns dentro dos
outros, de tal maneira que o maior tem as propriedades de sua classe dentro do
domínio maior, e o menor (ou os menores, porque pode haver vários) funciona
apenas dentro de seu domínio mais restrito.

Sintagma verbal
O sintagma verbal (SV) é um dos elementos básicos da oração. Esse tipo de
sintagma tem o verbo (V) ou a locução verbal como núcleo, podendo constituir-
se apenas por esse núcleo – exemplo (38) – ou apresentar diversas configura-
ções, quando acompanhado de outros tipos de sintagmas.

Exemplos:

(38) Meus pais viajaram.

(39) O vendedor entregou o pacote ao cliente.

(40) Todos gostam de sorvete.

(41) Os colegas enviaram flores à aniversariante.

O sintagma verbal não pode deixar de estar presente em uma oração, e terá
sempre a mesma função no eixo sintagmático: a de predicado.

Podemos concluir que uma estrutura gramatical é muito mais do que uma
simples sequência de elementos: é, entre outras coisas, uma hierarquia de cons-
tituintes. O conhecimento da estrutura sintagmática do português é uma impor-
tante ferramenta para o processamento dos enunciados, pois os “arranjos sintag-
máticos” representam o padrão de construção de frases em nosso idioma.

85
A estrutura sintagmática do português

Texto complementar
Categorias da descrição gramatical
(AZEREDO, 2001, p. 31-35)

[...]

A hierarquia gramatical
A estrutura gramatical do português comporta vários níveis. O morfema
é a menor unidade dessa estrutura; e o período, o maior. Acima do nível dos
morfemas acha-se o dos vocálicos; acima deste, o dos sintagmas, a que se
superpõe o das orações. Esquematicamente, temos: PERÍODO – ORAÇÃO –
SINTAGMA – VOCÁBULO – MORFEMA.

E exemplificando:

Nível do período..................os meninos brincavam com uma pazinha.

Nível das orações.................os meninos brincavam com uma pazinha.

Nível dos sintagmas.............os meninos/ brincavam com uma pazinha.

Nível dos vocábulos.............os/ meninos/ brincavam/ com/ uma/ pazinha.

Nível dos morfemas.............o/s/ menino/o/s/ brinc/a/va/m/ com/ um/a/


pa/zinh/a/.

Provisoriamente, diremos que a análise gramatical consiste em identificar


essas unidades e as regras que permitem combiná-las entre si em cada nível.
Tradicionalmente, os compêndios gramaticais têm-se referido aos níveis
da oração e do período, recobertos pela Sintaxe, e aos níveis do morfema
e do vocábulo, recobertos pela Morfologia. Manteremos esta distinção, por
considerá-la adequada à descrição da gramática do português. O único pro-
blema está em não se ter explicitado um outro nível – o dos sintagmas – que
medeia entre os vocábulos e a oração. Com efeito, os vocábulos não se unem
para formar a oração do mesmo modo que os gomos se unem para formar
uma laranja. Os vocábulos não formam a oração senão indiretamente. Eles
se associam em grupos, os sintagmas, que são os verdadeiros constituintes
da oração.

86
A estrutura sintagmática do português

Vamos ilustrar essa afirmação tomando para exemplo o seguinte período:

12 – O prisioneiro desatou o nó das cordas com os dentes.


Proporemos inicialmente a segmentação desse período nos seguintes
sintagmas: “o prisioneiro”, “desatou o nó das cordas”, e “com os dentes”. Pode-
ríamos nos perguntar por que os sintagmas são estas e não outras sequên-
cias como: 1 – “o prisioneiro desatou” e “o nó das cordas com os dentes”; 2 – “o
prisioneiro”, “desatou o nó” e “das cordas com os dentes”; ou 3 – “o prisioneiro”
e “desatou o nó das cordas com os dentes” (que, como se verá, é compatível
com a que propusemos).

É que as unidades gramaticais se definem por meio de certas peculiarida-


des distribucionais, como posição e mobilidade. Por exemplo, é possível des-
locar para a primeira posição do período toda a sequência “com os dentes”.

12b – Com os dentes, o prisioneiro desatou o nó das cordas.


A possibilidade desse movimento é suficiente para provar que esta sequência
é um sintagma. Também pelo deslocamento se identifica como sintagma o
segmento “o prisioneiro”.

12c – Com os dentes, desatou o prisioneiro o nó das cordas.


Outro procedimento é a substituição da sequência por uma unidade
simples.

Observemos:

13 – Mandaram amarrar o prisioneiro e apertar bem o nó das cordas,


mas ele (= o prisioneiro) desatou-o (o nó das cordas) com os dentes.
Sequências que se deixam substituir por unidades simples no interior das
orações também são sintagmas.

Um terceiro (e aqui último) procedimento que vamos adotar é a interpo-


sição de um “e”. Normalmente, a presença de um “e” indica a união de duas
unidades pertencentes ao mesmo nível. Isto se passa em:

14 – O prisioneiro e seu amigo desataram o nó das cordas com os


dentes.

15 – O prisioneiro desatou o nó das cordas com os dentes e fugiu.


“Fugiu” é uma unidade funcionalmente (e distribucionalmente) equivalente
à outra a que se une por meio do “e”, podendo, por isso substituí-la, como em

87
A estrutura sintagmática do português

16 – O prisioneiro fugiu.
O “e” inserido em 15 não está, por conseguinte, ligando o verbo “desatou”
à forma “fugiu”, nem tampouco a forma “fugiu” ao substantivo “dentes”, que
a precede; O “e” está unindo sintaticamente toda a sequência “desatou o nó
das cordas com os dentes” à forma capaz de substituí-la, “fugiu”. Isto constitui
prova suficiente de que toda esta sequência opera como uma unidade fun-
cional, da mesma sorte que a unidade simples “fugiu”.

Agora que sabemos por que a divisão inicial e a 3 são compatíveis, con-
clui-se que uma unidade de nível mais baixo pode combinar com uma uni-
dade superior para compor outra unidade neste mesmo nível. É o que se dá
em “desatou o nó das cordas com os dentes”: “desatou”, que é um vocábulo,
combina-se com os dois sintagmas – “o nó das cordas” e “com os dentes” –
para formar um sintagma mais complexo: verbo + sintagma + sintagma.

Em diagramas, teremos:
Divisão 1 Divisão 2

Período Período

sintagma sintagma sintagma sintagma sintagma

O prisioneiro desatou o nó com os O prisioneiro


das cordas dentes vocáb. sintag. sintag.

desatou/ o nó das/ com os


cordas dentes

Formulamos acima três procedimentos para isolar na estrutura da oração


as unidades – sintagmas – que a constituem: o deslocamento, a substituição
e a coordenação.

Convém deixar bem claro que nem sempre o sintagma resulta da união
de vocábulos, assim como o vocábulo, nem sempre resulta da união de mor-
femas. A diferença entre uns e outros é, portanto de nível e não de tamanho
ou complexidade interna. Assim, como vimos em 15 e 16, “fugiu” é um vo-
cábulo em um nível e ocupa a posição de sintagma em outro, e “os meninos
brincavam com uma pazinha” é oração em um nível e período em outro. Em
ambos os casos estamos diante de uma unidade – sintagma ou período –
formada de uma única unidade do nível imediatamente inferior.

[...]

88
A estrutura sintagmática do português

Dica de estudo
 PERINI, Mario A. Para uma Nova Gramática do Português. São Paulo:
Ática, 1991.

O autor é um dos grandes expoentes brasileiros que se dedicam à linguís-


tica descritiva e ao pensamento gramatical. Esse livro, apesar de quase duas
décadas de publicação, é um clássico para quem busca alternativas para a gra-
mática tradicional.

Estudos linguísticos
1. Apresente, no mínimo, quatro variações relacionadas às possibilidades de
deslocamento da posição de um sintagma na frase a seguir.

1 2 3 V
Todos os dias, / no quintal de casa, / as crianças / brincam /
4 5
muito alegres / com o cachorrinho.

a) Possibilidade 1:

b) Possibilidade 2:

c) possibilidade 3:

d) Possibilidade 4:

2. Faça a decomposição dos SN de acordo com o que foi tratado no item “Sínte-
se da estrutura do sintagma nominal” desta aula.

a) A caneta vermelha.

b) Com bolo de morangos com calda de chocolate.

c) Nosso muito querido amigo de longa data.

d) Bastante interessados no processo de aprendizagem.

e) O deslocamento do líder do grupo.

89
A estrutura sintagmática do português

Referências
AZEREDO, José Carlos de. Iniciação à Sintaxe do Português. 7. ed. Rio de Janei-
ro: Jorge Zahar Editor, 2001.

CHARLIER, Dubois F. Bases de Análise Linguística. Tradução e adaptação ao


português de: PERES, João de Andrade. Coimbra: Livraria Almedina, 1981.

PERINI, Mário A. Sintaxe Portuguesa: metodologia e funções. São Paulo: Ática,


1989.

_____. Princípios de Linguística Descritiva – introdução ao pensamento gra-


matical. São Paulo: Parábola, 2006.

SAUTCHUK, Inez. Sintaxe: eixo da textualidade. Disponível em: <www.filologia.


org.br/ixfelin/trabalhos/pdf/63.pdf>. Acesso: 17 ago. 2008.

SILVA, M. Cecília P. de Souza; KOCH, Ingedore Villaça. Linguística Aplicada ao


Português: morfologia. 3. ed. São Paulo: Cortez, 1986.

______. Linguística Aplicada ao Português: sintaxe. 6. ed. São Paulo: Cortez,


1995.

Gabarito
1. a) Possibilidade 1: V + 5+ 3+ 4+ 1+ 2.

b) Possibilidade 2: 2 + 1+ 3+ V + 5 + 4.

c) Possibilidade 3: 3 + 1+ V + 4 + 2 + 5.

d) Possibilidade 4: 5+ 1 + 2 + 3+ V + 4.

2.

a) A caneta vermelha: det + núcleo substantivo + SAdj/modificador = SN

b) Com bolo de morangos com calda de chocolate: Prep. + SN (núcleo subst.


+ SPrep interno + SPrep interno) = SN

c) Nosso muito querido amigo de longa data: det. + intens. + modificador +


núcleo subst. + SPrep interno = SN

90
A estrutura sintagmática do português

d) Bastante interessados no processo de aprendizagem: intens. + núcleo adj +


SPrep interno + SPrep interno = SAdj

e) O deslocamento do líder do grupo: det. + núcleo subst. + SPrep interno +


SPrep interno = SN

91
A significação na construção dos enunciados

O processo de seleção e combinação de palavras para construir


frases sofre restrições e a sua transgressão resulta em enunciados que
causam estranheza, sendo, portanto, incompatíveis ao uso em deter-
minados contextos.

Nesta aula, vamos refletir sobre como acontece a significação de uma


construção linguística, na qual todos os elementos devem estar articu-
lados para produzir os efeitos de sentido pretendidos pelo enunciador.
Assim, vamos abordar os seguintes aspectos que envolvem a construção
do sentido em um enunciado:

 os componentes do significado;

 a ordem das palavras;

 a ambiguidade;

 a redundância semântica;

 a paráfrase sintática.

Componentes do significado
O processo de interpretação de um enunciado é complexo e muitas
vezes ficamos em dúvida sobre dois tipos de fatores que interferem no
seu funcionamento: os recursos linguísticos acionados e os recursos
cognitivos ligados ao conhecimento do mundo e ao contexto. Para nós,
professores de Língua Portuguesa, trata-se de um problema comum:
ao analisar se um enunciado é bem formado em relação às regras do
português, devemos considerar os aspectos cognitivos para “explicar”
os sentidos do enunciado? Ou devemos considerar apenas aspectos
léxico-gramaticais do sistema da língua para atribuir uma interpretação
semântica ao enunciado? Perini (2006) nos dá a sua contribuição para
essa reflexão.

93
A significação na construção dos enunciados

Segundo o autor, quando se produz um enunciado, o falante organiza os ele-


mentos linguísticos de forma que constituam “pistas” para que o receptor acione
determinadas estratégias de interpretação.

Isso se deve ao fato da relação entre palavra e significado não ser unívoca,
ou seja, uma palavra não está ligada intrinsecamente a um único significado.
Embora as palavras tenham um conjunto mais ou menos delimitado de signifi-
cado (a que podemos chamar de “campo semântico”), é no funcionamento da
frase e, mais amplamente, no funcionamento do enunciado concreto, que pode-
mos atribuir-lhes significação. De acordo com Perini (2006, p. 45), o “significado
de uma palavra nem é produto inteiramente do contexto em que aparece, nem
é totalmente determinado de antemão”. Vejamos os exemplos:

(1) Os cabelos de Maria são lindos.

(2) A casa de madeira é muito frágil.

Nos exemplos, a mesma preposição (de) se repete, no entanto a relação se-


mântica expressa não é idêntica: em (1) a preposição de significa “posse”, em (2)
a preposição significa “material”.

Qual é a causa dessa diferença de sentido expresso pela mesma preposição?


Seria a estrutura do constituinte (sintagma nominal)? De onde tiramos a ideia de
que a relação expressa por de é diferente nos dois casos?

Veja que a estrutura sintagmática das duas frases é a mesma:

Em (1): SN = artigo + substantivo + de + substantivo

Em (2): SN = artigo + substantivo + de + substantivo

Segundo Perini (2006), diferentes operações mentais são aplicadas para que
possamos construir o significado de uma expressão linguística. O autor levan-
ta conjecturas sobre o processo em que se dão essas operações. Vejamos um
exemplo:

(3) Os cabelos de Maria.

94
A significação na construção dos enunciados

O receptor, para processar esse sintagma nominal, se vale de duas estratégias


básicas:

 Estratégia léxico-gramatical – o receptor atribui uma ou mais interpreta-


ções semânticas à expressão com base em seu conhecimento linguístico.

 Estratégia cognitiva – o receptor avalia cada uma das interpretações se-


mânticas resultantes da estratégia léxico-gramatical com base em seu co-
nhecimento prévio, ou seja, no seu conhecimento geral do mundo.

São estratégias que se distinguem pelo conhecimento linguístico e pelo


conhecimento de mundo. Mas, voltando ao exemplo (3), a estratégia léxico-
-gramatical resultará, para o receptor, nas seguintes considerações:

 trata-se de um sintagma nominal cuja base nuclear denota uma “coisa” e


não uma ação, uma circunstância de lugar ou tempo, uma qualidade ou
uma relação etc.;

 existe uma relação entre cabelos e Maria, porque essas palavras estão co-
nectadas pela preposição de;

 essa relação está dentro do leque de possibilidades semânticas da prepo-


sição de (por exemplo, não pode se tratar de cabelos sem Maria, nem de
cabelos contra Maria, ou cabelos com Maria; mas pode ser uma relação de
“posse”);

 dos itens lexicais usados, sabemos que cabelos pode ser uma parte do cor-
po e Maria, uma pessoa.

Essas considerações constituem um quadro interpretativo muito vago, mas


é fundamental para que se possa passar à estratégia cognitiva, que nos dá a se-
guinte informação:

 entre as relações possíveis expressas por de, a indicativa de “posse” é a que


nos dá resultado mais aceitável, e não outra. Assim, o significado “os ca-
belos sem Maria” é uma interpretação absurda. Agora, se em vez de Maria
tivéssemos seda, a interpretação do sintagma os cabelos de seda seria “ma-
terial”: “cabelos feitos de seda”.

Perini (2006) nos apresenta um exemplo interessante para ilustrar essa


questão:

(4) Você consegue fechar essa janela?

95
A significação na construção dos enunciados

O receptor tem de lançar mão dos dois conhecimentos para interpretar – o


da estratégia léxico-gramatical e o da estratégia cognitiva – caso esse enunciado
seja proferido por um amigo que está na cama com a perna engessada.

Assim, em (4), para saber o que o enunciador está querendo dizer, recorre-
mos ao nosso conhecimento da língua e vemos a forma do verbo conseguir, no
presente do indicativo, que nos informa que ele não está perguntando sobre um
fato passado.

Caso a pergunta fosse:

(5) Você conseguiu fechar essa janela?

Nós poderíamos entender que a pergunta é um pedido de informação, pois o


verbo está no pretérito, mas o nosso conhecimento de mundo (que é resultante
de uma estratégia cognitiva, portanto) nos permite entender que essa interpre-
tação não é correta, pois sabemos que ele está na cama, com a perna engessada
e, portanto, não conseguiria levantar e fechar a janela, então a pergunta é um
pedido para que nós fechemos a janela.

Como você pode perceber, o significado que conseguimos apreender de


uma sequência linguística emerge de uma confluência de fatores, nem todos
“linguísticos”. Segundo Perini (2006), em situações reais de interação, provavel-
mente submetemos todos os enunciados que devemos interpretar às estraté-
gias léxico-gramaticais e às estratégias cognitivas.

O autor afirma que os dois processos não se confundem: tanto o da estratégia


léxico-gramatical quanto o da estratégia cognitiva. Ambos são componentes da
interpretação, ou seja, do significado, mas o autor salienta que o professor de
Língua Portuguesa, em situação de ensino-aprendizagem da língua, deve se-
parar com clareza os fatores gramaticais dos fatores não gramaticais que nos
permitem pôr o processo em funcionamento.

Adotaremos esse postulado de Perini (2006) para discutir o significado de


um enunciado, enfocando, principalmente, os detalhes da estratégia léxico-
-gramatical que fazem parte dos estudos da morfossintaxe da língua, mas sem
deixar de incluir em nossa reflexão aspectos de ordem cognitiva.

Ordem das palavras


Para interpretarmos um enunciado não nos detemos somente no significa-
do que as palavras adquirem no interior do material linguístico e do contexto
96
A significação na construção dos enunciados

interacional, mas também nas diversas formas de organização dos constituintes


dentro da frase.

Por exemplo, se observarmos a ordem dos elementos em relação ao verbo,


verificamos que há elementos que vêm antes e outros que vêm depois dele. Essa
ordem tem seu próprio significado. Você pode observar que as frases a seguir
apresentam as mesmas palavras, no entanto, a ordem em que aparecem em re-
lação ao verbo faz com que tenham significados diferentes:

(6) O gato perseguiu o rato.

(7) O rato perseguiu o gato.

Observe que tanto em (6) como em (7) os elementos são idênticos: o gato/
o rato/ perseguiu. Mas a disposição dos elementos em relação ao verbo é
diferente.

Em (6), o verbo perseguiu está indicando a voz ativa, pois o sujeito o gato é o
agente do processo verbal indicado pelo verbo perseguiu, enquanto que o rato é
o objeto direto do verbo, exprimindo o paciente do processo verbal.

Em (7), a mudança de posição em relação ao verbo produz outro significado:


o verbo perseguiu está na voz ativa, mas o sujeito é o rato. Esse sujeito (o rato)
é o agente do processo verbal indicado pelo verbo perseguiu, enquanto que o
gato está agora na posição de objeto direto do verbo, exprimindo o paciente do
processo verbal.

A ordem dos termos mudou, percebeu? E a mudança de ordem provocou


mudança no significado da frase: trocando-se a ordem dos termos na frase, tro-
cou-se também o papel de cada um na interpretação da frase. Às vezes, a mu-
dança de significado é muito sutil, como no exemplo a seguir:

(8) Ela é uma grande atriz.

(9) Ela é uma atriz grande.

Em (8) e (9) houve mudança de significado, você percebeu? Em (8) temos


um enunciado exaltando a competência profissional da atriz, já em (9) a sig-
nificação do adjetivo “grande” passa a refletir o tamanho físico da atriz. Vemos
que o que determinou a mudança de significado foi a ordem desses elementos.
Isso demonstra que o usuário da língua aprende não apenas o significado das
97
A significação na construção dos enunciados

palavras, mas também o significado das estruturas da língua, das suas formas
de organização.

Como afirma Bearzoti Filho (1990), a noção de constituintes é básica para a


análise gramatical e a operação de segmentação de uma sequência em consti-
tuintes é fundamental para a compreensão do significado do enunciado.

Ambiguidade
Os fenômenos relativos à ambiguidade constituem um importante campo
de estudos da Semântica. Todo falante sabe que dar o significado das palavras
não é tarefa fácil, pois os efeitos contextuais podem direcionar o significado das
palavras para diferentes caminhos. Dentro da questão da ambiguidade, Can-
çado (2008) inclui fenômenos como a polissemia, a vagueza, a homonímia etc.
Nesta aula, vamos nos deter no fenômeno da ambiguidade, relacionando-a aos
estudos morfossintáticos. Os exemplos citados por Cançado (2008) demonstram
essa relação:

(10) Paulo quebrou a promessa.

(11) Paulo quebrou a cabeça com aquele problema.

(12) Paulo quebrou a empresa.

O verbo quebrar tem o mesmo sentido em todas as ocorrências? Será que existe
um sentido geral em que se encaixe o verbo quebrar nesses diferentes contextos?
Convidamos você a refletir sobre isso e pensar na resposta a essa questão.

O problema colocado nos exemplos é discutido pelos semanticistas como


“ambiguidade”. Quando um enunciado é susceptível de receber duas ou mais
interpretações, então dizemos que ele é ambíguo.

Para Dubois Charlier (1981) a ambiguidade pode ser:

 Lexical – sentenças que possuam palavras com mais de um significado.

 Sintática – uma sentença pode ser ambígua porque a Sintaxe prevê diver-
sas maneiras de combinação de palavras em constituintes (em sintagmas).
Dessa forma, uma frase será ambígua quando puder ter mais de uma es-
trutura sintática.

98
A significação na construção dos enunciados

Para demonstrar a ambiguidade do léxico, que também pode ser denomina-


da de polissemia (ou seja, palavra que tem mais que uma significação), recorre-
mos a Perini (2006), que apresenta um exemplo interessante:

(13) Tem um banco ali na esquina.

No exemplo, há ambiguidade léxica, porque a palavra banco é polissêmica:


pode significar “objeto que serve para a gente sentar” ou, então, “estabelecimen-
to bancário”. Pietroforte e Lopes (2003) relacionam a polissemia ao uso discur-
sivo, ou seja, o contexto é a peça-chave nessa relação semântica. Segundo os
autores, a linguagem humana é fundamentalmente polissêmica devido ao ca-
ráter arbitrário dos signos e à troca de valores que estes operam em suas rela-
ções, acarretando, com isso, alterações de significado em cada contexto. Assim,
a polissemia depende do fato de os signos serem usados em contextos distintos.
Para Ullmann (1964, p. 347), “não interessa o número de significados que uma
palavra possa ter no dicionário; não haverá confusão se apenas um deles fizer
sentido numa dada situação”.
Vejamos, nos exemplos abaixo, como é o contexto que determina o significa-
do do vocábulo banco:

(14) O empresário foi ao banco para conversar com o gerente. (estabeleci-


mento bancário)
(15) Os namorados estão sentados no banco da praça. (assento da praça)
(16) O banco de leite da maternidade está com carência de doação. (local
onde algo é guardado para utilização futura)

A relação semântica estabelecida por uma palavra dentro de uma intera-


ção discursiva também depende da esfera social de utilização dessa palavra. É
o caso dos vocábulos furto e roubo, que na linguagem informal são tomados
como sinônimos (tomar para si algo que pertence a outrem), porém, no discurso
jurídico, roubo se opõe a furto, pois o primeiro é cometido mediante intimação
por parte do assaltante, já no segundo, o assaltado é espoliado sem saber. Para
Pietroforte e Lopes (2003, p. 131), “o direito, em sua necessidade de definir dois
tipos diferentes de crime para aplicar diferentes penalidades, operou em seu dis-
curso uma redução do campo semântico das duas palavras utilizando o sema1 /
com intimação/ para fazer a distinção necessária”.

1
Unidade mínima de significação dentro de um campo semântico.

99
A significação na construção dos enunciados

Quanto à ambiguidade sintática, Perini (2006) nos dá uma ilustração com dois
exemplos:

(17) Rafael pediu bolo e sorvete de chocolate.

Segundo o autor, essa é uma frase ambígua, porque podemos entender que
Rafael pediu bolo de chocolate ou, então, qualquer tipo de bolo (mais sorvete
de chocolate). O que cria essa dupla possibilidade de interpretação é a estrutura
sintática: a expressão de chocolate é adjunto adnominal somente do termo sor-
vete ou da expressão bolo e sorvete?

Para demonstrar a ambiguidade sintática, Dubois Charlier (1981) cita o caso


das orações subordinadas substantivas completivas, em que o sujeito apagado
pode ser idêntico tanto ao sujeito da primeira oração como ao complemento;
nesse caso a oração fica com dois sentidos, como:

(18) Propus ao João ir à diretoria.

Para o autor, essa ambiguidade pode redundar em duas interpretações:

a) “sou eu que vou à diretoria” (em vez de João, por exemplo).

b) “é o João que vai à diretoria” (“em vez de mim”, por exemplo).

Ou seja, enquanto o verbo propus tem um sujeito explícito (eu – mesmo que
não expresso; neste caso, a desinência verbal é que distingue o sujeito), o verbo
ir não tem explicitado o sujeito: tanto pode ser eu como João.

Situações engraçadas podem ser provocadas pela ambiguidade sintática.


Veja o cartaz de um aluno, ao produzir um anúncio publicitário para um cartaz.
Ele selecionou uma figura (uma cabra muito robusta) e, sobre a figura, escreveu
a seguinte frase:

Beba leite de cabra em pó!

Como os colegas consideraram a frase “engraçada”, ele mudou para:

Beba leite em pó de cabra

100
A significação na construção dos enunciados

A mudança de posição dos sintagmas nominais “de cabra” e “em pó” não
corrigiu a ambiguidade da frase. No primeiro cartaz, entende-se: “cabra em pó”
(ou seja, não é o leite que é em pó, e sim, a cabra); no segundo, “pó de cabra”
(ou seja, beba leite, onde? Em pó de cabra). O receptor percebe que houve um
desvio em relação às leis sintáticas e semânticas da língua e que é preciso evitar
essa construção.

Podemos resumir, então, que a ambiguidade é um fenômeno semântico que


só pode ser resolvido no contexto, uma vez que é o contexto que pode orientar
o receptor qual dos sentidos poderá ser utilizado.

Contudo, o usuário deve ficar atento: os usos da linguagem em certas esferas


de comunicação não permitem a ambiguidade, enquanto que em outras, a am-
biguidade é uma estratégia de persuasão e convencimento. Por exemplo:
 os gêneros da esfera jurídica (como contratos, petições, escrituras, sen-
tenças judiciais) implicam sentidos claros, unívocos, sem possibilidade de
duplo sentido;
 nos gêneros da esfera da publicidade, a ambiguidade pode ser intencional,
justamente para produzir efeitos de sentido de humor, de envolvimento
com o destinatário do produto anunciado etc.

Segundo Nelly de Carvalho (1996, p. 58), “a ambiguidade – ou seja, a qualidade


que um enunciado possui de ser suscetível a duas ou mais interpretações Semân-
ticas – é muito explorada no discurso publicitário”. Porém, nesse caso, tem-se de
tomar cuidado para não confundir a ambiguidade proposital, aquela que é sus-
cetível a duas interpretações, com a vaguidão ou imprecisão, que se caracterizam
pela falta de informação ou pela confusão na elaboração da mensagem. A ambi-
guidade na publicidade é resultado de um cuidadoso planejamento e não de um
despreparo linguístico.

Por exemplo, observe o texto publicitário de uma marca de joias, ilustrado por
uma colher cheia de macarrão com os seguintes dizeres:

Joias à moda italiana: esse peso ela vai adorar ganhar

Neste anúncio, as joias italianas lembram o macarrão da mesma origem e


tradição. A ambiguidade proposital pode produzir dois sentidos: 1) o macarrão
alimenta, mas aumenta o peso de quem come (engorda); 2) as joias aumentam
o peso (alusão ao peso da joia, não ao peso corporal), mas fazem com que a
mulher se sinta bela.

101
A significação na construção dos enunciados

Redundância semântica
A redundância semântica ocorre quando o conteúdo dos constituintes nu-
cleares se repete no significado dos modificadores ou dos constituintes secun-
dários, tendo como consequências frases tautológicas (ou seja, frase que diz a
mesma coisa, que não acrescenta informação nova, que não apresenta progres-
são na informação).

Como nos exemplos:

(19) Meu casamento com Carlos deu errado porque não poderia dar certo.
(20) Genética é uma coisa hereditária.

Os dois exemplos trazem a redundância semântica através de estratégias sin-


táticas diferentes:

 em (19), através de palavras numa relação de antítese, em que ocorre a


negação da segunda a fim de estabelecer a relação de semelhança (deu
errado/não poderia dar certo);
 em (20), através de uma tentativa de definição (“Genética é uma coisa heredi-
tária”). Se fizermos uma busca no dicionário, vemos que a palavra “genética” se
refere a um ramo da Biologia que estuda as leis de transmissão de caracteres
hereditários nos indivíduos, então a frase é tautológica, afirma a mesma coisa
e, dessa forma, a tentativa de definição do conceito de genética não se realiza.

Paráfrase sintática
Segundo Ilari (2007), podemos dizer que duas sentenças são paráfrases, uma
em relação à outra, quando descrevem, de maneiras equivalentes, um mesmo
acontecimento ou estado de coisas. Para o autor, podemos classificar as paráfra-
ses em dois segmentos:

 Paráfrases baseadas no léxico – as que lançam mão de conhecimentos


do léxico, tirando proveito das equivalências das palavras e construções.

 Paráfrases sintáticas – as que aplicam transformações de caráter sintático.

Vamos nos restringir à exploração dos mecanismos de operação das paráfra-


ses sintáticas.

102
A significação na construção dos enunciados

Veja alguns exemplos de construções parafrásticas de cunho sintático privile-


giadas pela literatura semântica:

 Relação voz ativa/voz passiva – Colombo descobriu a América./A América


foi descoberta por Colombo.
 Construção de comparativo de igualdade – Maria é tão boa quanto Ali-
ce./Alice é tão boa quanto Maria.
 Construção de comparativo de superioridade/inferioridade – Maria é
mais esperta que Alice./Alice é menos esperta que Maria.
 Construções nominalizadas – A justiça ordenou que a criança fosse entre-
gue imediatamente aos pais./A justiça ordenou a entrega imediata da crian-
ça aos pais.
 Substituição de verbos por advérbios – Os ensaios do grupo de teatro
são feitos habitualmente aos sábados./Os ensaios do grupo de teatro costu-
mam ser feitos aos sábados.
 Construções com ter/ser de – Maria tem Alice como amiga./Alice é amiga
de Maria.
 Substituição de uma forma verbal finita por outra infinita – Aos 40
anos, pegaria mal eu pedir dinheiro a meu pai./Aos 40 anos, pegaria mal que
eu pedisse/se eu pedisse dinheiro a meu pai.

O uso dessas operações tem-se tornado um recurso semântico-sintático para


construir as chamadas “frases sinônimas”. Dizemos que um enunciado é paráfra-
se de outro não porque as palavras que o constituem significam a mesma coisa
ou a construção sintática de ambos é semelhante, mas porque “na situação de
uso, traduzem a mesma intenção do locutor e visam obter os mesmos resulta-
dos” (ILARI; GERALDI, 2002, p. 42). Entretanto, sabemos que não há uma relação
“pura” de sinonímia, ou seja, cada escolha linguística – seja ela no nível lexical ou
sintático – é movida por uma intencionalidade, por um propósito comunicativo,
assim, entender as paráfrases como simples processo de sinonímia frasal é des-
considerar a língua como lugar de interação e produção de sentidos.

Para Ilari (2007, p. 152), na realidade, “a escolha entre construções gramaticais


‘que tem o mesmo sentido’ nunca é totalmente indiferente”. Veja as justificativas
do autor para essa afirmação.
 As sentenças parafrásticas, quase sempre, respondem a perguntas diferen-
tes. Por exemplo, a resposta para a pergunta “Quanto são dois mais dois?”
poderia ser “Dois mais dois são quatro”, mas não a sua paráfrase “Quatro são
dois mais dois”.

103
A significação na construção dos enunciados

 As paráfrases argumentam em sentidos diferentes. Por exemplo: nas pa-


ráfrases “Pedro é mais fraco que João” e “João é mais forte que Pedro”, so-
mente a primeira argumenta em favor de que “Pedro não vai conseguir
levantar a caixa”.
 A diferença entre as duas sentenças parafrásticas pode ser usada como
um meio para alcançar certos efeitos de sentido: “Não sou eu que trabalho
na mesma sala que o Paulo, ele é que trabalha na mesma sala que eu”.

Ou seja, a escolha por uma frase dita “sinônima” nunca é um processo inocen-
te. Vejamos um caso da passagem da voz passiva para voz ativa:

(21) Pedro beijou Maria.


(22) Maria foi beijada por Pedro.

(21) é uma frase a respeito de Pedro ou a respeito do beijo dado por Pedro,
já (22) é uma frase a respeito de Maria ou a respeito do beijo que Maria recebeu.
(21) não ocorreria em uma história, por exemplo, que Maria fosse o foco narrati-
vo, da mesma forma, (22) não ocorreria em uma história que Pedro fosse o foco.

No caso das paráfrases comparativas:

(23) Alice é mais esperta que Maria.


(24) Maria é menos esperta que Alice.

Usamos (23) para argumentar discursivamente em favor da esperteza de


Alice e (24) para destacar, no discurso, a falta de esperteza de Maria. Ou seja,
embora, aparentemente traduzindo o mesmo significado, as duas construções
são utilizadas com propósitos comunicativos específicos.

Texto complementar

Ambiguidade sintática
(CANÇADO, 2008, p. 68-69)

Verifique o exemplo:

(42) Homens e mulheres competentes têm os melhores empregos.

104
A significação na construção dos enunciados

Este é um exemplo de ambiguidade estrutural ou, mais especificamente,


ambiguidade sintática. Nesse tipo de ambiguidade, não é necessário inter-
pretar cada palavra individualmente como ambígua, mas se atribui a am-
biguidade às distintas estruturas sintáticas que originam as distintas inter-
pretações: uma sequência de palavras pode ser analisada (subdividida) em
um grupo de palavras (chamado de sintagma) de vários modos. Em (42), o
adjetivo competente está modificando homens e mulheres ou simplesmente
mulheres? Uma interpretação acarreta que as mulheres que têm os melhores
empregos são competentes; outra, acarreta que ambos, homens e mulheres,
que têm os mesmos empregos, são competentes.

Outros exemplos de ambiguidade sintática são:


(43) Alugo apartamentos e casas de veraneio.
(44) O magistrado julga as crianças culpadas.
(45) O Cruzeiro venceu o São Paulo jogando em casa.
(46) Estou com vontade de comer chocolate de novo.

Em (43), teremos uma primeira interpretação, se entendermos o sintagma


de veraneio sendo relacionado ao sintagma apartamento e casas; em uma
segunda interpretação teremos um primeiro sintagma apartamentos e um
segundo, casas de veraneio. Se dividirmos as estruturas usando colchetes,
teremos as seguintes possibilidades:

(47)
a. Alugo [apartamentos e casas ] [de veraneio].
b. Alugo [apartamentos] e [casas de veraneio].

Em (44), podemos entender que as crianças culpadas vão ser julgadas; ou


temos que o magistrado julga culpadas as crianças. Alterando a ordem das
palavras, em estruturas com colchetes, temos:

(48)
a. O magistrado [julga] [as crianças culpadas] .
b. O magistrado [julga] [culpadas] [as crianças].

Em (45), temos a sentenças jogando em casa relacionada ao Cruzeiro ou


ao São Paulo. Nesse exemplo, alterando a ordem dos sintagmas para per-
cebermos quem é o sujeito da sentença com gerúndio, temos as seguintes
estruturas:

105
A significação na construção dos enunciados

(49)
a. O Cruzeiro venceu [o São Paulo jogando em casa].
b. [O Cruzeiro jogando em casa] venceu o São Paulo.

Finalmente, em (46), temos o sintagma de novo relacionado somente a


comer chocolate ou a estou com vontade. Novamente temos que mudar a
ordem dos sintagmas, para deixarmos claras as possíveis interpretações.

Veja as estruturas:

(50)
a. Estou com vontade [de comer chocolate de novo].
b. Eu estou [com vontade de novo] de comer chocolate.

Em todos os exemplos, o que gerou a ambiguidade são as diferentes pos-


sibilidades de reorganizar sentenças, ou seja, a possibilidade de ocorrência
de diferentes estruturas sintáticas na mesma sentença. Portanto, toda vez
que se tratar de uma ambiguidade sintática, conseguimos mostrar as pos-
sibilidades de interpretações da sentença, apenas alternando a posição das
expressões envolvidas na ambiguidade; o que não acontece com os outros
tipos de ambiguidade.

Dica de estudo
 ILARI, Rodolfo. Introdução à Semântica: brincando com a gramática. 7.
ed. São Paulo: Contexto, 2007.

O livro apresenta uma bem humorada explanação sobre Semântica, rechea-


da com exercícios fundamentais ao conhecimento das principais operações sin-
táticas relevantes para a significação do português brasileiro.

Estudos linguísticos
1. Diálogos como os que seguem soam estranhos, à primeira vista, pois para
negar uma fala usa-se outra com valor sinônimo. Entretanto, eles são perfei-

106
A significação na construção dos enunciados

tamente coerentes dentro de uma interação. Analise-os e explique o funcio-


namento desse tipo de interação a partir do que foi visto nesta aula. Não há
necessidade de explicar cada diálogo, explore, na sua resposta, o fenômeno
linguístico comum a todos eles.

A – João e Maria separaram-se.

B – Não foi isso. Maria é que se separou de João.

A – Alice e Joana não se falam mais.

B – Não, é a Joana que não fala mais com a Alice.

A – Alice e Maria foram ao cinema juntas.

B – Não. Foi Maria que foi ao cinema com Alice.

A – Soube que o Mário está brigado com todo o grupo.

B – Não, é o grupo que está brigado com o Mário.

2. Leia as frases a seguir e desfaça a ambiguidade existente nelas, explicitando


as interpretações possíveis. Classifique os mecanismos de ambiguidade exis-
tentes em cada uma, como: ambiguidade lexical ou ambiguidade sintática.

a) A balada de ontem foi divertida.

b) Romário tocou para Rivaldo.

c) Os alunos e os professores inteligentes participaram do simpósio.

d) O programa desta noite abordará os problemas do estresse e do casa-


mento com Hebe Camargo.

107
A significação na construção dos enunciados

Referências
BEARZOTI FILHO, P. Sintaxe de Colocação – teoria e prática. São Paulo: Atual,
1990.

CANÇADO, Márcia. Manual de Semântica: noções básicas e exercícios. Belo Ho-


rizonte: Editora UFMG, 2008.

CARVALHO, Nelly de. Publicidade: a linguagem da sedução. São Paulo: Ática,


1996.

CHARLIER, Dubois F. Bases de Análise Linguística. Tradução e adaptação ao


português de: PERES, João de Andrade. Coimbra: Livraria Almedina, 1981.

GERALDI, João Wanderley. Portos de Passagem. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes,
2003.

ILARI, Rodolfo. Introdução à Semântica: brincando com a gramática. 7. ed. São


Paulo: Contexto, 2007.

ILARI, Rodolfo; GERALDI, João Wanderley. Semântica. 6. ed. São Paulo: Ática,
2002.

PERINI, Mário A. Princípios de Linguística Descritiva – introdução ao pensa-


mento gramatical. São Paulo: Parábola, 2006.

PIETROFORTE, Antônio V.; LOPES, Ivã C. Semântica Lexical. In: FIORIN, José Luiz
(Org.). Introdução à Linguística II. São Paulo: Contexto, 2003. p. 131-132.

ULLMANN, Stephen. Semântica: uma introdução à ciência do significado. Tradu-


ção de: MATEUS, J.A. Osório. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1964.

Gabarito
1. Os diálogos são construídos a partir de paráfrases – sentenças que descre-
vem, de maneiras equivalentes, um mesmo acontecimento ou estado de coi-
sas. A diferença entre as duas sentenças parafrásticas de cada diálogo pode
ser usada como um meio para alcançar certos efeitos de sentido – como a
ênfase em um dos aspectos da frase. Por exemplo, dizer que “João e Maria
separaram-se” é diferente de dizer “Maria se separou de João”: no primeiro

108
A significação na construção dos enunciados

caso, parece que houve um comum acordo entre o casal na hora da sepa-
ração, a motivação para a separação não partiu de um sujeito apenas; no
segundo caso, é a mulher que teve a iniciativa da separação.

2.

a) Ambiguidade lexical – a frase é ambígua, porque balada pode significar


tanto um tipo de música, como um acontecimento social.

b) Ambiguidade lexical – a frase é ambígua, porque tocar pode significar


tanto passar a bola, como executar uma música.

c) Ambiguidade sintática – o adjetivo inteligentes pode estar adjetivando


alunos e professores, ou somente professores.

d) Ambiguidade sintática – 1.ª interpretação: o programa com a Hebe Ca-


margo, que passará esta noite, abordará os problemas do estresse e do
casamento; 2.ª interpretação: o programa desta noite abordará dois pro-
blemas: o estresse e o casamento com a Hebe Camargo.

109
Sintaxe e Semântica

Nos estudos sobre a língua, temos de adotar um método de análise


que só pode ser realizado a partir de dados concretos da realidade linguís-
tica: o enunciado concreto, que também podemos chamar de texto (oral
ou escrito). A partir do enunciado/texto, podemos observar o objeto lin-
guístico e suas partes em diferentes aspectos, assim, é possível identificar
os padrões formais que constituem o sistema (a língua). Esses padrões,
comuns a todos os falantes dessa língua, é que garantem a possibilidade
de comunicação. Pense um pouco: se cada um de nós tivéssemos padrões
linguísticos particulares, como poderíamos nos comunicar? Uma Torre de
Babel se instalaria entre nós e, consequentemente, as pessoas só conse-
guiriam se comunicar consigo mesmas.

A descrição da estrutura e do funcionamento da língua, ou seja, de sua


forma e sentido, deve conduzir à sistematização e à classificação de todos
os seus aspectos, inclusive dos recursos gramaticais do sistema, graças aos
quais esse sistema se atualiza no processo da comunicação. É um trabalho
que vai e que volta: sai da observação do processo (no enunciado con-
cretamente produzido em situação de comunicação) e chega ao conheci-
mento do sistema.

A questão da articulação entre forma e sentido é, sem dúvida, um dos


pontos-chave da gramática. Segundo Perini (2006, p. 77), na quase totali-
dade dos casos, um aspecto formal da língua corresponde a algum con-
teúdo semântico: “sempre que for possível descrever um traço de forma
em termos de traços de significado a ele associados, essa descrição deve
ser preferida a uma descrição que considere a forma independentemen-
te do significado”. É nesse sentido que, nesta aula, vamos estudar alguns
funcionamentos estruturais da sintaxe da língua indissociáveis da relação
semântica: a ordem das palavras no sintagma, a ordem dos sintagmas na
oração e as funções semânticas conhecidas como “papéis temáticos”.

111
Sintaxe e Semântica

A ordem
Para Carone (1986), a ordem não pode ser confundida com a linearidade:
esta é uma contingência da linguagem verbal, que se desenrola na cadeia
linear da fala, dentro da linha do tempo em que um elemento se segue ao
outro, sucessivamente.

A ordem das palavras no sintagma, ou a ordem dos sintagmas na oração, não


é arbitrária, ou seja, livre das leis do sistema. Pelo contrário, a ordem obedece a
certos padrões de colocação em cada língua, o que as torna diferentes.

A ordem das palavras pode ser o fator determinante de uma conexão sintá-
tica e constituir padrões de colocação que vão estabelecer a ordem normal da
língua. Em português, a ordem normal, ou seja, a ordem de maior frequência é a
ordem direta, tal como é apresentada a seguir.

Observe o termo central, assinalado em cada construção.

 Na oração: sujeito + verbo + complemento.


Exemplo: o aluno muito aplicado entregou a tarefa.

 Sintagma nominal (SN): determinante + núcleo substantivo + adjetivo


modificador.
Exemplo: o aluno muito aplicado

 Sintagma adjetival (SAdj): intensificador + adjetivo.


Exemplo: muito aplicado

 Sintagma verbal (SV): verbo + SN + sintagma preposicional (SPrep).


Exemplo: entregou a tarefa ao professor.

Observe a ordem dos elementos nas construções apresentadas: a ordem na


oração, no sintagma nominal, no sintagma adjetival e no sintagma adverbial.

Para Carone (1986), a ordem pode funcionar como procedimento gramatical,


como nos exemplos:

(1) O menino viu o palhaço.


(2) O palhaço viu o menino.

Nessas frases, o único índice da função sintática “sujeito” ou “objeto direto” é a


ordem em que os termos aparecem na frase.
112
Sintaxe e Semântica

Esses padrões de ordem não são rígidos, invioláveis, como ocorre com a
ordem rígida dos morfemas no vocábulo, razão pela qual a autora denomina de
sintagma bloqueado, pois sua ordem não pode ser modificada.

Entretanto, no nível de estruturação sintática, quando ocorrem inversões,


sempre haverá alteração na mensagem que se construiu dentro dos padrões da
língua. Essa alteração vai desde um pequeno efeito de expressividade até uma
profunda alteração semântica.

Veja o exemplo a seguir:

(3) João só fala comigo. (nunca fala com outra pessoa)


(4) Só João fala comigo. (ninguém mais fala comigo)
(5) João fala só comigo. (apenas comigo, com ninguém mais)

Ou, então, nestes exemplos em que a inversão produz efeitos estilísticos:

(6) Fraca foi a resistência. (realce do predicativo do sujeito)


(7) A resistência foi fraca.
(8) A ela devo toda a minha felicidade. (realce do objeto indireto)
(9) Devo toda a minha felicidade a ela.

Essa é uma das razões pelas quais é importante procedermos à análise dos
constituintes imediatos, ou seja, dos sintagmas do enunciado.

A ordem é aspecto explorado pela gramática da língua nas questões que en-
volvem a sintaxe de colocação, de regência e de concordância. Passaremos a nos
deter em outros aspectos dessa temática.

A ordem nas orações


Qualquer falante do português sabe que não basta amontoar palavras para se
ter uma frase: uma ordem se faz necessária. Na sintaxe da ordem, estudamos as
combinações possíveis para as palavras na formação dos sintagmas e das frases.

Por exemplo, há sequências impossíveis, como estas a seguir:

(10) (*) Mesa as no chegaram caminhão.


(11) (*) Ninguém com colabora menino o livros trazendo interessantes.

113
Sintaxe e Semântica

Entretanto, há certas variações que são aceitas, como no exemplo de Macha-


do de Assis:

(12) Três horas depois cerca de cinquenta convivas sentavam-se em volta da


mesa de Simão Bacamarte.

O enunciado de Machado de Assis pode ser reescrito de vários modos:

(13) Em volta da mesa de Simão Bacamarte sentavam, três horas depois,


cerca de cinquenta convivas.
(14) Sentavam-se cerca de cinquenta convivas, três horas depois, em volta da
mesa de Simão Bacamarte.

Como você pode observar, uma mesma frase pode ser escrita em várias
ordens. Analisando os enunciados, qual deles podemos considerar que está es-
crito na ordem mais comum, ou seja, no modo como normalmente falamos e
ouvimos? A resposta deverá ser de acordo com o enunciado que passa a mensa-
gem de forma mais clara. E essa clareza se deve, em grande parte, à simplicidade
e à objetividade obtida pela ordem dos termos na construção.

Veja outro exemplo, a partir de uma frase de Graciliano Ramos, apresentado


por Bearzoti Filho (1990):

(15) De jararacas e suçuaranas devia o inferno estar cheio.

A frase poderia ter as seguintes reescrituras:

(16) Cheio o inferno devia estar de jararacas e suçuaranas.

Ou ainda:

(17) O inferno devia estar cheio de jararacas e suçuaranas.

A construção mais comum é a número 17. Esta é a que parece ser mais natu-
ral aos nossos ouvidos. Essa é a chamada ordem direta.

A ordem direta nas orações é expressa por:

Sujeito + Verbo + Complemento

114
Sintaxe e Semântica

O lugar do verbo pode ser ocupado por uma locução verbal. E, por comple-
mentos, entendemos os objetos (direto ou indireto), os predicativos (do sujeito
e do objeto) e o agente da passiva.

Esse modelo pode variar de acordo com o tipo de predicado da oração. Assim:

 Predicado verbal na voz ativa – sujeito (S) + verbo (V) + objeto direto
(OD) + objeto indireto (OI):

S V OD OI
(18) Os noivos queriam / oferecer / uma festa / aos familiares

 Predicado verbal na voz passiva – sujeito + verbo + agente da passiva (AP):

S V AP
(19) O Brasil / foi descoberto / por Cabral.

 Predicado nominal – sujeito + verbo + predicativo do sujeito (PS):

S V PS
(20) As flores / são / um bálsamo.

 Predicado verbo-nominal – sujeito + verbo + objeto direto + predicativo


do objeto (PO):

S V OD PO
(21) Ele / tinha / a cabeça / coberta.

Bearzoti Filho (1990) apresenta algumas observações sobre isso:

 Quando não aparece algum dos termos da oração, não se altera a posição
dos demais, como no exemplo em que o sujeito está oculto:

S V OD
(22) Nós / merecemos / a vitória.
V OI
(23) (?) Merecemos / a vitória.

115
Sintaxe e Semântica

Neste caso, enquadram-se as orações com verbos impessoais, nas quais não
há sujeito:

V OD
(24) Haveria / uma passeata.

 Os adjuntos adverbiais (AAdv), chamados de “circunstancializadores”, são


os termos mais dotados de mobilidade dentro da oração. Mas, mesmo as-
sim, dizemos que sua posição em ordem direta é após os complementos:

S V PS AAdv
(25) O circo / estava / repleto / naquela noite.

 Todas as demais disposições são chamadas ordem inversa.

Como nos exemplos a seguir:

V PS S
(26) É / muito inteligente / seu garoto.
OI S V
(27) De flores / todas as pessoas / gostam.
S V AAdv OD
(28) O avião / recebeu / em São Paulo / os atores premiados.

Referindo-se à ordem dos elementos na estrutura oracional, há um fato in-


teressante apontado por Carone (1986) em relação à ordem e à mobilidade dos
sintagmas (constituintes, partes significativas da frase) na oração: é o que ela
chama de aderência. Para exemplificar esse fato da língua, a autora pede para
que observemos o grau de aderência entre o verbo e seus constituintes ime-
diatos: sujeito, objeto direto e objeto indireto. Dos três elementos, é o sujeito o
último a articular-se à base, ou seja, ao predicado. Dessa forma, o primeiro corte
que fazemos ao analisar uma oração, é separar o sujeito do predicado:

sujeito predicado
(29) A menina de tranças / pulou corda na pracinha.

E, pelo fato de ser o sujeito o último elemento a entrar, ele é também o pri-
meiro a sair, no momento da decomposição da oração, ou seja: o sujeito é o
constituinte que tem menos aderência em relação ao verbo.
116
Sintaxe e Semântica

A autora também faz outra observação interessante, agora sobre a relação:


verbo – objeto direto e verbo – objeto indireto. Segundo Carone (1986), a coesão,
ou seja, a articulação entre verbo e alguns objetos diretos, costuma atingir um
grau em que o conjunto dos dois constituintes começa a se cristalizar, formando
uma unidade semântica e gramatical: pular corda, levar um tombo, fazer parte etc.

Essa cristalização de um todo de sentido entre certos verbos e o seu objeto


direto é justificada pela autora, que nos alerta para o fato de que algumas frases
compostas de sujeito + OD não podem sequer sofrer transformação passiva, já
que o objeto direto não pode desgarrar-se do verbo.

Vejamos os exemplos:

(30) As meninas pulam corda. – (*) Cordas são puladas pelas meninas.
(31) Maria levou um tombo. – (*) Um tombo foi levado pela Maria.
(32) Eu faço parte da equipe. – (*) Parte da equipe é formada por mim.

Observe a diferença entre: pular corda e pular a corda. Note que pular a corda
admite a transformação para voz passiva: a corda foi pulada – mas, nesse caso, o
sentido produzido é outro.

É pertinente ressaltar que, no plano geral, e considerando as restrições da


língua padrão, só pode ser construído na voz passiva o verbo que pede objeto
direto. Dessa forma, construções como a que segue são reprovadas pela estrutu-
ração das leis da norma culta da língua, já que verbos que são regidos por objeto
indireto não aceitam voz passiva:

(33) (*) O filme foi assistido pelos meninos (os meninos assistiram ao filme).

Isso prova que há constituintes que podem atingir um grau de aderência tão
grande que acabam se tornando estáveis como um vocábulo, caracterizados
pela inseparabilidade e irreversabilidade de suas partes. É o caso, por exemplo,
do predicado nominal. Neste, temos um elemento inseparável do verbo: o pre-
dicativo do sujeito. Também são exemplos de núcleos dissociados os tempos ver-
bais compostos, a voz passiva e as locuções verbais, que não podem ser dissocia-
dos, pois o significado do constituinte é “global” (CARONE, 1986).

A tabela a seguir, baseada em Luft (1987), sintetiza a ordem direta nas orações:
117
Sintaxe e Semântica

(LUFT, 1987)
Casa 1 Casa 2 Casa 3 Casa 4
Sujeito Verbo Complemento Circunstância

Predicado
verbal ativo Objeto Objeto
direto indireto
(1)
Predicado
verbal passivo Agente da passiva
(2) Verbo ou
Adjuntos
Sujeito locução
Adverbiais
Predicado verbal
nominal Predicativo do sujeito
(3)
Predicado
verbo-nominal Objetao Predicativo
direto do objeto
(4)
(1) Os operários construíram uma ponte.
João deu uma rosa a Maria.
(2) Uma ponte foi construída pelos operários.
(3) João está apaixonado.
(4) João considera Maria uma linda mulher.
Ordem direta nas orações.

A ordem nos sintagmas – constituintes


Segundo Carone (1986), ao passo que a ordem dos morfemas dentro do
vocábulo é estável, a ordem dos vocábulos no sintagma e a dos sintagmas na
oração pode, dentro de determinados limites, inverter-se.

Agora que já tratamos da ordem dos vocábulos nas orações, vamos pensar
na ordem direta nos sintagmas, ou seja, nos grupos de palavras, pois dentro dos
termos da oração também podemos perceber uma ordem direta e uma ordem
inversa. Veja os exemplos:

(34) Alunos nossos são muito estudiosos.


(35) Nossos alunos são muito estudiosos.

Nas duas construções podemos perceber que os termos estão dispostos na


mesma ordem dentro das orações: sujeito + verbo + predicativo.

118
Sintaxe e Semântica

Mesmo com a ordem direta dos termos nessas orações, podemos perceber
que a segunda soa de um modo mais claro aos nossos ouvidos. Isso acontece
porque é mais natural, para o falante do português, que as palavras se organi-
zem de certa maneira nos sintagmas. Vejamos as disposições mais comuns das
palavras ao se organizarem em grupos:

 Adjetivos (adj.) e locuções adjetivas (loc. adj.) vêm após o núcleo substan-
tivo (subst.):

(36) Os brincos dourados / de Maria ficam lindos com os cabelos presos.


subst. adj.

(37) O menino bebeu o seu segundo / copo de refrigerante.


subst. loc. adj.

 Pronomes demonstrativos (pron. dem.), indefinidos (ind.) e possessivos


(pos.) vêm normalmente antes do nome:

(38) E desde / aquele dia / sentiu / essa preocupação / com ele.


pron. dem. subst. pron. dem. subst.

(39) Outras leituras / se faziam necessárias.


pron. ind. subst.

Perini (2006) descreve alguns fatos relacionados à ordem no interior dos


grupos de palavras da língua portuguesa, entre eles o caso da ordenação dos
grupos nominais.

Para exemplificar, o autor coloca os exemplos:

(40) Animal mamífero – (*) Mamífero animal


(41) Médico geriatra – (*) Geriatra médico
(42) Queijo mussarela – (*) Mussarela queijo

Por que será que os exemplos (40), (41) e (42) são agramaticais? Para o autor,
é a semântica desses sintagmas que explica a ordenação dos termos.

119
Sintaxe e Semântica

Nos exemplos aceitáveis pela gramática da língua, o nome que aparece em


segundo lugar pertence a um subconjunto do conjunto maior representado
pelo primeiro nome do sintagma. Perceba que: todo mamífero é animal, todo
geriatra é médico, toda mussarela é queijo. Entretanto, a recíproca não se con-
firma: existem animais que não são mamíferos, médicos que não são geriatras
e queijos que não são mussarelas. Veja que, para ordenar de maneira aceitável
esses termos, o falante precisa acionar o seu conhecimento de mundo, ou seja,
estratégias cognitivas que resgatem, em sua memória, o conhecimento extralin-
guístico de conjuntos e subconjuntos de elementos do mundo empírico.

Podemos demonstrar uma síntese da ordem direta nos grupos de palavras


na tabela a seguir:

Casa 1 Casa 2 Casa 3


Pronomes demonstrativos, Substantivos Adjetivos ou locuções adje-
indefinidos e possessivos tivas

Esse dia tranquilo de trabalho.


Todo
Nosso

Ordem direta nos elementos do sintagma.

Função semântica: os papéis temáticos


Dentro dos estudos gramaticais é necessário distinguir as funções sintáticas
(formais) das funções semânticas. No exemplo:

(43) O gato arranhou o menino.

O gato é, ao mesmo tempo, o sujeito da oração (função sintática) e o agente


da ação, aquele que pratica a ação (função semântica). Entretanto, sujeito sintá-
tico e agente da ação não são sinônimos, uma vez que nem sempre coincidem
em uma frase. Veja:

(44) O menino foi arranhado pelo gato.

Agora, o gato não é o sujeito da oração, mas sim, o menino. Entretanto, o gato
continua sendo o agente, aquele que pratica a ação.

120
Sintaxe e Semântica

Quando falamos em função semântica estamos falando também em papéis


temáticos. Segundo Perini (2006), o papel temático pode ser definido como a
relação de significação entre o verbo (ou locução verbal) e os demais sintagmas
da oração. Cada sintagma que compõe a oração (exceto o verbo) tem um papel
temático.

Para Ilari (2007), uma boa maneira de compreender a estrutura sintagmática


da língua é imaginar que ela representa “pequenas cenas” nas quais diferentes
personagens desempenham papéis para um enredo. Esses papéis são determi-
nados pelo verbo e, até certo ponto, têm um funcionamento independente das
relações sintáticas. Exemplificando:

(45) Ontem, Maria lavou a louça rapidamente.

Nessa oração, podemos demonstrar os papéis temáticos pela descrição:


Ontem é tempo, Maria é agente, a louça é paciente e rapidamente é modo.

Há casos que o mesmo sintagma desempenha mais que um papel temático,


como no exemplo dado por Perini (2006, p. 127):

(46) O cachorro se arrastou para debaixo da cama.

Nesse caso, o cachorro é tanto o agente, pois é ele que pratica a ação de arras-
tar, mas também é o paciente, pois é o elemento que sofre o movimento.

A literatura semântica apresenta vários tipos de papéis temáticos. Vamos


enumerar os mais comuns:

 Agente – o sujeito da ação (Maria beijou Pedro).

 Paciente – entidade que sofre o efeito da ação (Maria beijou Pedro).

 Instrumento – objeto de que o agente se serve para praticar a ação (o


palestrante convenceu o público com seus argumentos).

 Beneficiário – entidade a quem a ação traz proveito ou prejuízo (Maria


ajudou sua avó a atravessar a rua).

 Fonte – origem do movimento (que pode ser metafórico) (o professor en-


sinou a lição aos alunos).

 Meta – destino final do movimento (que pode ser metafórico) (o professor


ensinou a lição aos alunos).
121
Sintaxe e Semântica

Dependendo do papel temático que o sintagma nominal exerce na frase, ele


origina diferentes tipos de construções.

Observe o esquema adaptado de Ilari (2007):

X abraçou Y

O que X fez foi abraçar Y (X = agente)

O que aconteceu com Y foi que ele foi abraçado por X (Y = paciente)

Segundo Ilari (2007), mesmo os papéis temáticos não se confundindo com


as funções sintáticas, há uma hierarquia que dispõe sobre a possibilidade de os
diferentes papéis temáticos coincidirem com o sujeito da sintaxe. A hierarquia é
essa: o agente tem muito mais chance de ser o sujeito da oração do que o ins-
trumento que, por sua vez, tem mais chances de ser o sujeito do que o paciente.
Por isso, em muitas gramáticas, a definição de sujeito da oração (nível sintático)
é a mesma que a de agente da ação (nível semântico).

Texto complementar

A posição do adjetivo no sintagma nominal:


duas perspectivas de análise
(CALLOU; SERRA, 2003, p. 191-205)

A ordem dos constituintes de frases declarativas em português é variá-


vel, embora se enquadre em geral no padrão SVO. Tanto o sujeito quanto o
objeto podem ser representados por um sintagma nominal (SN), categoria
sintática cuja estrutura lexical se apresenta diversificada em função do nome
que lhe pode servir de núcleo. O SN é constituído por uma estrutura funcio-
nal que depende dos elementos que se encontram à esquerda do nome –
entre eles, artigos, possessivos, demonstrativos, quantificadores. Pode haver
também modificação do sintagma através de adjetivos, os chamados adjun-
tos adnominais, que ocorrem, de preferência, à direita do nome. Os adjetivos
partilham de algumas de suas propriedades, como a flexão, e a tradição gra-

122
Sintaxe e Semântica

matical refere-se a “nomes adjetivos” e “nomes substantivos”, sem levar em


conta critérios para distingui-los.

[...]

No âmbito da gramática tradicional, ressalta-se a relação estreita que


existe entre um nome (termo determinado) e um adjetivo (termo deter-
minante) e o fato de, em função adnominal, o adjetivo ocorrer com maior
frequência depois do substantivo, principalmente se com valor objetivo ou
denotativo (CUNHA, 1972). A associação da posposição do adjetivo à ma-
nutenção desse valor, versus a aquisição de um valor subjetivo do adjetivo
anteposto, também é apresentada por Lapa (1968): “quando o adjetivo está
logo depois do substantivo, tende a conservar o valor próprio, objetivo, in-
telectual; quando está antes, tende a perder o próprio valor e a adquirir um
sentido afetivo”.

Segundo Mateus et al (2003), a posição pós-nominal está associada a uma


interpretação restritiva, especificadora. Assim, a posição à direita do núcleo
do SN é [-marcada], por vezes, obrigatória, como nos exemplos (1) e (2), por
vezes opcional, como em (3) e (4). Em relação a certos adjetivos, essas duas
posições estão associadas a significados diferentes, como em (5). A anteposi-
ção é [+marcada] e vista como mais frequente em textos literários, produzin-
do, em geral, o efeito de maior subjetividade.

(1) A mesa retangular/*A retangular mesa

(2) A reunião anual/*A anual reunião

(3) O amigo simpático/O simpático amigo

(4) O acontecimento recente/O recente acontecimento

(5) Meu amigo pobre/Meu pobre amigo

Neves (2000, p. 200) diz que a primeira observação sobre a posição que o
adjetivo ocupa no sintagma nominal diz respeito ao fato de existirem dife-
renças no comportamento das duas grandes subclasses – os qualificadores
e os classificadores. Os classificadores, usados como adjuntos adnominais,
podem ser pospostos – posição menos marcada, como em (6) e (7) – ou ante-
postos – posição mais marcada, como em (8) e (9), frequente em textos literá-
rios. Quando anteposto, produz, em geral, o efeito de maior subjetividade.

123
Sintaxe e Semântica

(6) Luxo discreto

(7) Pancada suave

(8) Indefeso homem

(9) Falsa amizade

Os adjetivos que permitem, com maior frequência, a anteposição são


aqueles que expressam qualidades atribuídas a termos que têm uma relação
específica com o substantivo qualificado, como no exemplo (8), em que o
adjetivo não tem valor absoluto, mas sim se refere a uma característica ine-
rente ao substantivo: homem é indefeso como homem. Segundo a autora,
a ordem do adjetivo qualificador pode ser livre, como em (10), obrigatoria-
mente posposta ou anteposta, como em (11) e (12), respectivamente, ou
livre com alteração de sentido, como em (13). Os adjetivos classificadores,
em função adnominal, incluídos aí os que exercem papel na estrutura ar-
gumental do nome, aparecem, segundo a autora, normalmente pospostos,
embora haja construções cristalizadas em que o adjetivo aparece sempre
anteposto, como em (14).

(10) Homem bonito/bonito homem

(11) Tempo ruim

(12) Mero processo

(13) Velho amigo/amigo velho

(14) Pátrio poder

[...]

Dica de estudo
 GARCIA, Othon M. Comunicação em Prosa Moderna: aprenda a escrever,
aprendendo a pensar. 7. ed. Rio de Janeiro: 1978. p. 262- 271.

Trata-se de uma obra clássica, de 1978, mas que é uma fonte de consulta
importante para os estudiosos da linguagem. Veja o tópico “Como conseguir
ênfase” (4.3 a 4.3.2), no qual o autor faz uma abordagem que pode nos ajudar
a compreender o tema desta aula.
124
Sintaxe e Semântica

Estudos linguísticos
1. Escreva, com as suas palavras, como a ordem dos sintagmas na oração ou a
ordem dos termos dentro do sintagma pode alterar o sentido do enunciado.
Dê exemplos.

2. Leia o trecho a seguir, recortado do livro Com todas as Letras: o português sim-
plificado do jornalista Eduardo Martins (São Paulo: Moderna, 1999. p. 123).
Depois, analise os comentários feitos pelo jornalista – veja que ele caracteriza
um “erro” muito comum de português. Discuta esse “erro” a partir do que você
aprendeu sobre papéis temáticos.

Não é o paciente quem opera


Qualquer intervenção cirúrgica que ocupe no noticiário dos jornais, revis-
ta e emissoras de rádio e televisão serve como importante alerta para o uso
inadequado de certas palavras e expressões.

125
Sintaxe e Semântica

Você com certeza leu ou ouviu (mais de uma vez, até) frases como: pre-
sidente opera o coração./papa retira o apêndice./artista faz operação plástica./
jogador opera joelho.

Algumas delas lhe causa estranheza? Repare que todas elas apresentam
um grave erro de estilo: não é o presidente quem opera, nem o papa quem
retira o apêndice. O artista também não faz operação plástica, nem o joga-
dor opera o joelho. Todas essas são tarefas do cirurgião.

Claro, são formas populares de exprimir esse tipo de situação. Você pode
usá-las em conversa com os amigos. Mas, na linguagem formal, escrita, elas
devem ser evitadas. Assim, diga, por exemplo que o papa foi operado de apen-
dicite, ou que o presidente sofreu uma operação no coração. Ou ainda que o
artista se submeteu a uma operação plástica.

126
Sintaxe e Semântica

Referências
BEARZOTI FILHO, P. Sintaxe de Colocação – teoria e prática. São Paulo: Atual,
1990.
CALLOU, D.; SERRA, C. A variação na ordem dos adjetivos nos últimos quatro
séculos. In: RONCARATI, C.; ABRAÇADO, J. (Orgs.). Português Brasileiro: contato
linguístico, heterogeneidade e história. Rio de Janeiro: FAPERJ, 2003. p. 191-205.
CARONE, Flávia de Barros. Morfossintaxe. São Paulo: Ática, 1986.
ILARI, Rodolfo. Introdução à Semântica: brincando com a gramática. 7. ed. São
Paulo: Contexto, 2007.
LUFT, Celso Pedro. Moderna Gramática Brasileira. 8. ed. Rio de Janeiro: Globo,
1987.
NEVES, Maria Helena de Moura. A gramática: conhecimento e ensino. In: AZERE-
DO, J. C. (Org.). Língua Portuguesa em Debate: conhecimento e ensino. Petró-
polis: Vozes, 2000. p. 52-73.
PERINI, Mário A. Princípios de Linguística Descritiva – introdução ao pensa-
mento gramatical. São Paulo: Parábola, 2006.
PONTES, Eunice. Sujeito: da sintaxe ao discurso. São Paulo: Ática, 1986.

Gabarito
1. A ordem das palavras no sintagma ou a ordem dos sintagmas na oração, não é ar-
bitrária, ou seja, livre das leis do sistema. Pelo contrário, a ordem obedece a certos
padrões de colocação em cada língua, o que as torna diferentes. Por exemplo, o
artigo deve vir sempre antes do nome e nunca depois – expressão agramatical:
*menino o. Mesmo quando o sistema permite mobilização, a alteração da ordem
é sempre uma questão da escolha do falante, ela pode enfatizar certos termos,
dar expressividade a certos textos literários ou mesmo mudar completamente o
sentido da frase, como no exemplo: grande mulher/mulher grande.

2. O erro discutido pelo jornalista pode ser analisado em termos de “papéis te-
máticos”. Quando falamos, por exemplo, “o presidente operou o coração”, o
“presidente” está assumindo o papel temático de “agente” da ação de operar.
Entretanto, o papel que ele deveria estar assumindo na frase era o de “pa-
ciente” da ação de operar, porque quem faz a operação é o médico; o presi-
dente é operado pelo médico.

127
Sintaxe de concordância nominal

A língua, tomada como um código composto de unidades e de leis


que ordenam e regulamentam essas unidades, realiza-se pela interação
e harmonia entre todos os aspectos que a constituem: fonemas, mor-
femas, palavras, sintagmas, frases e unidades semânticas em geral. No
limite de cada um desses fenômenos, temos uma área de estudo cor-
respondente: Fonologia, Morfologia, Sintaxe e Semântica. Se estivermos
nos limites das relações entre palavras formando sintagmas e estes se
transformando em frases (ou orações), estaremos nos estudos coman-
dados pela Sintaxe, que pode ser: de concordância, colocação, regência,
coordenação ou subordinação.

No que se refere à sintaxe de concordância, os estudos gramaticais,


normalmente, trazem duas abordagens distintas: a concordância nominal
(que se aplica aos diversos elementos nominais) e a concordância verbal
(harmonização entre o sujeito e o núcleo do predicado). Nesta aula, iremos
restringir o nosso enfoque à concordância nominal.

Relações de concordância:
termo regente e termo regido
Em português, a concordância consiste em adaptar o termo subordi-
nado ao gênero e/ou número e/ou pessoa do termo subordinante. Perini
(1995) fala em harmonização de flexões entre os constituintes da língua.

Para Luft (1987), a concordância é um princípio, segundo o qual certos


termos (dependentes) se adaptam, na forma, às categorias gramaticais de
outros (principais). O autor está se referindo aos casos de concordância
que estabelecem duas funções: a de termo regente e a de termo regido.
Isso, em outras palavras significa:

A frase é uma sequência de termos regentes e regidos.

129
Sintaxe de concordância nominal

Com Saussure (1975) aprendemos que os sintagmas, e não as palavras, são os


constituintes imediatos das orações/frases. Falando de uma perspectiva de uso
da língua pelo falante, Sautchuk (2004, p. 39) afirma que “o sintagma é o bloco
significativo no eixo horizontal, tomando posições variadas, propiciando ordens
ou arranjos de leitura num número muito alto de possibilidade”. A força das leis
sintáticas em uma língua “dita” o padrão linguístico em uso, o que resulta em
maior familiaridade para o usuário.

Na sua clássica abordagem da estrutura morfossintática do português, Ma-


cambira (1982) descreve a oração como uma sequência de termos subordinan-
tes e subordinados, cujo ponto de partida é o sujeito:

“O sujeito é o único subordinante jamais subordinado, bem como o prin-


cípio e o fim de todas as relações sintáticas, pois tudo parte do sujeito e tudo
volta para o sujeito da oração”. (MACAMBIRA, 1982, p. 151)

Em outras palavras, podemos afirmar que o sintagma nominal (SN) em função


de sujeito é o sintagma principal da oração, nunca está subordinado a outro
termo. Segundo Macambira (1982), o sujeito, sob o aspecto sintático, é o termo
principal da oração: nunca está subordinado a outro termo, e o verbo concorda
com ele em número e pessoa. O verbo, isto é, o predicado, é o termo principal da
oração sob o aspecto semântico, porque encerra a ideia central em torno da qual
giram todas as outras. Por exemplo, se dissermos:

SN
(1) * Eu / quer comprar roupas novas.

A discordância, o que está errado, está em quer e não em eu, pois a concor-
dância parte do verbo para o sujeito, e não do sujeito para o verbo.

Por considerarmos essa noção importante para compreendermos ao fenô-


meno da concordância, você vai conhecer melhor essa relação entre termo su-
bordinante e subordinado, que será apresentada de forma esquemática, toman-
do por base Macambira (1982).

Como usaremos setas para indicar as relações de concordância entre termos


regente e regido, observe sempre a direção das setas, de onde elas partem e
para onde vão, assim, você vai perceber a relação entre os termos subordinados

130
Sintaxe de concordância nominal

e os termos subordinantes, relação que é responsável pela concordância entre


os elementos da oração.

 Do sujeito (S) como subordinante e do predicado (P) como subordinado:

(2) O homem / chegou.


S P

Veja que a seta, ao sair do subordinante para o subordinado, está mostrando


a subordinação do predicado ao sujeito.

Vamos ver os outros casos:

 Subordinação do predicado ao sujeito e do objeto direto (OD) ao nú-


cleo do predicado:

(3) Maria / ajudou / Pedrinho.

Maria.........: subordinante não subordinado com relação a ajudou.


Ajudou....: subordinado com relação a Maria, subordinante com relação
a Pedrinho;
Pedrinho.....: subordinado com relação a ajudou.

 Subordinação do predicado ao sujeito, do objeto direto e do objeto


indireto ao núcleo do predicado:

(4) Maria / ofereceu / chocolate / ao professor.

Maria..........: subordinante não subordinado com relação a ofereceu.


Ofereceu.....: subordinado com relação a Maria; subordinante com rela-
ção a chocolate e professor.
Chocolate....: subordinado com relação a ofereceu.
Professor.....: subordinado com relação a ofereceu. A subordinação é me-
diata, por causa da preposição a que rege professor.

131
Sintaxe de concordância nominal

 Subordinação do predicado ao sujeito, dos objetos e do adjunto ad-


verbial ao núcleo do predicado:

(5) Maria / ofereceu / chocolates / ao professor / com alegria.

Maria..........: subordinante não subordinado com relação a ofereceu.


Ofereceu.....: subordinado com relação a Maria, subordinante com rela-
ção a chocolate, professor e com alegria.
Chocolates..: subordinado com relação a ofereceu.
Professor....: subordinado com relação a ofereceu.
Alegria........: subordinado com relação a ofereceu.

Como você pode observar, o sujeito é o único termo que não recebe seta,
isto é, que não é subordinado. Tudo parte dele e prossegue, tudo volta para ele
conforme a indicação da seta.

Veja outro exemplo dessa relação, neste caso, o adjunto adverbial se antepõe
ao predicado, a ordem é invertida, e a seta vira-se para a esquerda, assinalando
essa inversão na ordem:

(6) O bombeiro / sem medo / salvou / o homem.

Bombeiro....: subordinante não subordinado com relação a salvou.


Medo...........: subordinado com relação a salvou, na ordem inversa.
Salvou.........: subordinado com relação ao sujeito, subordinante com rela-
ção a medo.

A ordem direta é a seguinte:

(7) O bombeiro / salvou / o homem / sem medo.

Observe que as setas estão voltadas para a direita.

132
Sintaxe de concordância nominal

 Subordinação do predicado ao sujeito, do agente da passiva ao nú-


cleo do predicado:

(8) O homem / foi socorrido / pelo bombeiro.

Homem.......: subordinante não subordinado com relação a foi socorrido.


Foi socorrido: subordinado com relação a homem, subordinante com re-
lação a bombeiro.
Bombeiro....: subordinado com relação a foi socorrido.

Acreditamos que esses casos são suficientes para demonstrar a relação entre
os termos da oração e as relações existentes, bem como o comportamento de
um termo para com outro, o que nos remete para o aspecto da língua deno-
minado processo sintático, fundamental para a compreensão das relações entre
termos determinantes e determinados que causam a concordância.

Relações de concordância nominal:


gênero e número
A concordância nominal se caracteriza como um mecanismo linguístico de
harmonização de flexões de gênero e/ou número entre termos da língua com
valor nominal – tradicionalmente classificados como substantivos, adjetivos, ar-
tigos, numerais e pronomes. Por essa razão, vamos entender um pouco o fun-
cionamento das duas categorias da língua: o gênero (masculino/feminino) e o
número (singular/plural).

Muitas palavras da nossa língua são marcadas como femininas – saia, chuva,
mão – ou masculinas – paletó, vento, pé. Segundo Perini (1995), embora essa
marca de feminino ou masculino tenha certa relação com a oposição entre o
sexo feminino e o masculino, para a descrição da gramática da língua, ela deve
ser considerada como um traço puramente formal/linguístico, pois descreve
parte do comportamento morfossintático do termo analisado.

Por outro lado, temos palavras que não são propriamente marcadas no léxico
da língua como femininas ou masculinas. Como elas não são marcadas, são sus-
cetíveis de variação de gênero, apresentando ora uma forma masculina ora uma

133
Sintaxe de concordância nominal

forma feminina – meu/minha, feio/feia, preto/preta. Para Perini (1995), mesmo


que duas palavras sejam idênticas fonologicamente, elas devem ser considera-
das distintas em relação ao gênero gramatical, como no exemplo:

(9) Um armário verde. (verde = gênero masculino)

(10) Uma mesa verde. (verde = gênero feminino)

Dessa forma, segundo o autor, o gênero é um mecanismo linguístico que se


manifesta de duas formas distintas:

 como propriedade intrínseca a um termo da língua – termos que possuem


gênero (exemplo: saia é uma palavra feminina);

 como variação flexional – termos que variam em gênero (exemplo: meu


está no masculino ou meu é o masculino de minha).

Emprestando as palavras de Perini (1995, p. 195):


Variar em gênero precisa distinguir-se de possuir gênero: a palavra “novo” varia em gênero
porque tem uma forma feminina, “nova”, cuja ocorrência é determinada pela Sintaxe. Já a
palavra gato não varia em gênero; “gata” deve ser considerada uma nova palavra, e não uma
simples variação de “gato”. Note-se que a ocorrência de “gato” e “gata” não é determinada pela
Sintaxe, mas depende de uma escolha feita pelo emissor, escolha esta que é determinada pela
Semântica da mensagem a transmitir. (grifos do autor).

Quanto à variação de número, Perini (1995) coloca que, em sua grande maio-
ria, as palavras variam em número: se um termo da língua possui a característica
linguística de número, ele pode se manifestar no singular ou no plural, mesmo
que as formas manifestadas sejam idênticas fonologicamente – (o) lápis, (os)
lápis. Na nossa língua há raríssimas exceções em que a palavra só ocorre no sin-
gular – ouro – ou no plural – férias. Dessa forma, segundo o autor, podemos dizer
“as palavras variam em número, e não que possuem número” (PERINI, 1995, p.
183). (grifos do autor).

Concordância nominal
Segundo Almeida (1988), a sintaxe regular de concordância designa o pro-
cesso pelo qual uma palavra (ou sintagma) se acomoda, na sua flexão, com a
flexão de outra palavra de que depende, ou seja, à qual se subordina. Para o
autor, os termos que devem se concordar, acomodar-se são:

134
Sintaxe de concordância nominal

 o verbo, que se acomoda ao sujeito;

 o adjetivo, que concorda com o substantivo;

 o predicativo, que concorda com o sujeito;

 o pronome, que concorda com o nome a que se refere.

No primeiro caso, temos a concordância verbal, nos demais, a concordância


nominal, esta compreendendo as combinações de gênero e número aceitáveis
entre os constituintes do sintagma nominal (SN).

No que se refere à concordância nominal, Perini (1995) propõe que não fale-
mos em concordância entre termos nominais, mas sim, em discordância.

Por exemplo, nas frases:

(11) * Essa caderno novas.

(12) Esse caderno novo de literatura brasileira.

Em (12) não se pode dizer que todos os constituintes concordam em gênero


e número – esse/caderno/novo = masculino; literatura/brasileira = feminino –
mas também não se pode falar que eles discordam, como acontece com (11).
Dessa forma, para que uma frase seja bem formada gramaticalmente é preciso
que não haja discordância na flexão nominal. Vamos explorar um pouco mais
esse aspecto.

Segundo Perini (1989, p. 158), “nunca pode haver discordância de gênero e


número dentro de um SN, ao nível de seus constituintes imediatos”. O autor sa-
lienta que, se em um SN masculino ocorrer um elemento qualquer no feminino,
este deverá necessariamente estar subordinado a um núcleo de outro sintagma,
não sendo um constituinte imediato do SN.

O exemplo que ele apresenta é:

(13) Todos os amigos de minha irmã.

Neste exemplo do autor, há termos no masculino e outros no feminino. En-


tretanto, eles não estão no mesmo nível: os termos masculinos se vinculam dire-
tamente ao SN Todos os amigos, sendo constituintes imediatos dele; já minha e
irmã se subordinam ao sintagma preposicionado (SPrep) de minha irmã que, por
sua vez, se vincula ao sintagma nominal (SN) todos os amigos de minha irmã.
135
Sintaxe de concordância nominal

O esquema a seguir pode demonstrar as relações entre os constituintes,


termos concordantes em gênero e número, ou então termos para os quais a
noção de gênero e número não se aplica diretamente (como no caso do sintag-
ma preposicionado de minha irmã). Repare que estes últimos são morfologica-
mente inadequados a tomar marcas de gênero e número:

SN / SPrep
(14) Todos os amigos / de [minha irmã].
[SN]

Neste exemplo, podemos afirmar que a frase inteira “está no masculino plural”,
uma vez que o núcleo desse sintagma é amigos, que é do gênero masculino.

Assim, aquilo que chamamos de concordância nominal vai se formular em


termos das exigências da boa formação de sintagmas nominais. A questão é:
como verificar de fato se um sintagma nominal é bem formado ou não, do ponto
de vista da concordância?

Recorrendo a Perini (1989), isso se resolve por meio da aplicação de um prin-


cípio que diz: “um sintagma nominal só é bem formado se não houver discor-
dância de gênero e número entre o núcleo do SN e seus constituintes imediatos”
(PERINI, 1989, p. 162).

Se um sintagma nominal é bem formado, todos os seus constituintes imedia-


tos terão marcas de gênero e número idênticas a ele.

Assim, a concordância nominal deve ser observada sempre que o uso da


língua em um determinado contexto pedir a opção do falante pela aplicação das
regras do “bem falar”, ou seja, segundo o padrão “culto” imposto pela gramática
normativa. Nesses contextos, “discordâncias” não são aceitas em certos gêne-
ros de texto, porém, em certos casos, a indecisão permanece, como o professor
Mattoso Câmara Jr. (1986, p. 78) observa:

“Há casos especiais (de concordância) que se prestam a dúvidas. Em


muitos até, não vigora uma norma definida e fixa, e a tradição literária nos
dá soluções divergentes, conforme certos matizes de intenção, de harmonia
ou clareza, ou meras preferências subjetivas.”

136
Sintaxe de concordância nominal

Regra geral da concordância nominal


O adjetivo, o particípio, o pronome adjetivo, o numeral e o artigo funcio-
nam como determinantes do sintagma nominal (SN) e concordam em gênero
e número com o núcleo do SN (substantivo ou pronome substantivo) a que
se referem. Exemplo:

(15) Eu sou apenas um rapaz latino-americano.


SN: um rapaz latino-americano
Núcleo: rapaz (masculino-singular)
Determinantes: um/latino-americano (masculino-singular)

No verso de Belchior, retirado da canção “Apenas um rapaz latino-ame-


ricano”, temos um predicativo do sujeito formado pelo SN um rapaz latino-
-americano, cujo núcleo é o substantivo rapaz, que aparece modificado pelo
artigo indefinido um e pelo adjetivo latino-americano (ambos, assumindo a
função de adjuntos adnominais). Se substituirmos o substantivo rapaz pela
forma plural rapazes, e, em seguida, por um substantivo feminino equivalente
– moça –, teremos:

(16) Nós somos apenas uns rapazes latino-americanos.


SN: uns rapazes latino-americanos
Núcleo: rapazes (masculino-plural)
Determinantes: uns/latino-americanos (masculino-plural)
(17) Eu sou apenas uma moça latino-americana.
SN: uma moça latino-americana
Núcleo: moça (feminino-singular)
Determinantes: uma/latino-americana (feminino-singular)

Ora, imediatamente percebemos que o artigo e o adjetivo (termos determi-


nantes do SN) concordam em número (singular/plural) e gênero (masculino/fe-
minino) com o substantivo, que é o núcleo do SN.

137
Sintaxe de concordância nominal

Casos especiais
A concordância entre o adjetivo e o substantivo pode ser uma fonte de am-
biguidades quando o adjetivo se relaciona com mais de um substantivo. Nesses
casos, é preciso estar atento com a clareza do enunciado, pois o receptor fica sem
saber se o adjetivo se refere a apenas um dos substantivos ou aos dois. A segun-
da regra é a da eufonia (isto é, som agradável), que fica por conta do estilo. Pode-
-se enumerar algumas regras gramaticais e, imediatamente, citar exemplos de
autores consagrados que contrariam essas mesmas regras. Seria, portanto, um
trabalho inútil. Entretanto, chamamos a atenção para algumas possibilidades
apresentada pela gramática normativa:

 Há mais de uma palavra determinada – segundo Bechara (2004, p. 545),


se as palavras determinadas forem do mesmo gênero, a palavra determi-
nante irá para o plural e para o gênero comum, ou poderá concordar em
gênero e número com a mais próxima:

(18) Ela admirava nele a lealdade e a dedicação dedicadas ao pai du-


rante aqueles tempos difíceis.

(19) Ela admirava nele a lealdade e o carinho dedicado ao pai durante


aqueles tempos difíceis.

Sobre esse segundo caso, diversos autores se referem à concordância atra-


tiva, ou seja, “por atração”. Observe que, no exemplo (19), fica uma dúvida:
ambos, a lealdade e o carinho são dedicados ou só o carinho é dedicado?

Os versos de Vinicius de Moraes (1975) constituem um bom exemplo:

(20) Tenho nada, minha nega, senão fome e amor ardente.

Se o adjetivo ardente estivesse no plural, saberíamos que estaria modifi-


cando os vocábulos forme e amor. No singular, a dúvida permanece.

 Quanto ao gênero – se os substantivos forem do mesmo gênero, o ad-


jetivo concordará com esse gênero. Se os substantivos forem de gêneros
diferentes, o adjetivo aparecerá no masculino plural ou concordará com o
substantivo mais próximo:

138
Sintaxe de concordância nominal

(21) Temos que optar pelo caminho e pela vida mais harmoniosos.

(22) Temos que optar pelo caminho e pela vida mais harmoniosa.

 Quando o adjetivo vem antes dos substantivos – segundo De Nicola


e Infante (1997, p. 382), em geral o adjetivo concorda com o substantivo
mais próximo:

(23) Os antigos prédios e casas da Avenida Brasil serão demolidos.

 As expressões é proibido, é bom, é preciso, significando “é necessá-


rio”– Bechara (2004, p. 551) considera que o adjetivo pode ficar invariável,
qualquer que seja o gênero e o número do termo determinado, quando
se deseja fazer uma referência de modo vago. Mas, o autor também afir-
ma que se pode fazer normalmente essa concordância. Contudo, e ainda
segundo esse autor, se forem formadas por um verbo mais um adjetivo,
essas expressões ficam invariáveis se o substantivo a que se referem tem
sentido genérico (portanto, não precedido de artigo):

(24) É proibido entrada de pessoas sem crachá.

(25) É proibida a entrada de pessoas sem crachá.

(26) É necessário saúde e bem-estar para todos os brasileiros.

(27) São necessárias várias horas de descanso para que eu me sinta


“inteira” novamente.

 Meio/meia – Bechara (2004) recomenda que, quando esse termo tiver


valor de “metade”, usado adjetivamente, concorda em gênero e número
com o termo determinado, estando ele claro ou oculto. Em outras pala-
vras, podemos dizer que, se “meio” e “meia” exercem a função de nume-
ral, apresentam a mesma concordância do adjetivo. Entretanto, quando
“meio” está empregado como advérbio, fica invariável:

139
Sintaxe de concordância nominal

(28) Era meio-dia e meia. ( = meia hora)

(29) Meia pêra estava podre. (= a metade da pêra)

(30) Ela é meio avoada. (= circunstancializador do verbo, portanto é


advérbio)

 Bastante/caro/barato/longe – essas palavras podem exercer função de


determinante (adjetivo) ou de circunstancializador (advérbio). No primei-
ro caso aceita flexão de gênero e número, no segundo, é invariável:

(31) Perguntaram bastante sobre o assunto. (bastante: advérbio)


(32) Fizeram bastantes perguntas sobre o resultado da prova.
(33) As novas bicicletas custam caro. (caro: advérbio)
(34) As bicicletas caras são as mais resistentes.

Concordância nominal com o sentido: silepse


A concordância nominal assume, em alguns casos, uma funcionalidade par-
ticular: o termo subordinado (regido) deixa de concordar em gênero ou número
com a forma do termo subordinante (regente) para relacionar-se apenas com
o seu sentido. Esse aspecto do funcionamento da língua é abordado por Kury
(2002) com a denominação de silepse. Vejamos alguns exemplos:

(35) O [vinho] champanha.


(36) O [rio] Araguaia.

Note que o artigo – termo regido – harmoniza-se morfossintaticamente em


gênero com o sentido do substantivo – termo regente – e não com sua forma.
Bechara (2004) apresenta alguns casos específicos da ocorrência de silepse na
Concordância nominal, vamos nos ater aos mais importantes.

 Concordância nominal com expressões de tratamento: por exemplo, V.


Exa., V. Sa. etc.:

140
Sintaxe de concordância nominal

(37) V. Exa. é cuidadoso com as palavras. (tendo por referência um


homem)
(38) V. Exa. é cuidadosa com as palavras. (tendo por referência uma
mulher)

É bom esclarecer que a norma culta pede que, nesses casos, a corcondância
do adjetivo, em gênero e número, deve levar em consideração a forma de trata-
mento. Exemplo: “Vossa Majestade [gênero gramatical feminino] atenciosa”.

 Concordância com a expressão “a gente” usada como pronome de se-


gunda pessoa do plural:

(39) A gente [nós] somos felizes.

Veja que a concordância do termo regido felizes (e também a concordância


verbal) leva em consideração o valor da expressão a gente – valor do nós.

 Concordância nominal com substantivos coletivos:

(40 ) A bicharada, [os bichos] alvoroçados, corriam pela mata


adentro.

Perceba que toda a concordância gramatical é regida pelo sentido de plu-


ralidade do substantivo coletivo bicharada e não pela sua forma gramatical:
feminino-singular.

É importante ressaltar que esses casos específicos de concordância são “con-


denados” pela gramática tradicional da língua. Entretanto, não podemos deixar
de descrevê-los, pois são fatos reais da funcionalidade da língua portuguesa (so-
bretudo, na modalidade da língua falada popular), passíveis de descrição, uma
vez que a língua dispõe de mecanismos linguístico-discursivos que os explicam.
Não são meros “erros” gramaticais.

141
Sintaxe de concordância nominal

Texto complementar

A (difícil/fácil) tarefa:
o ensino da concordância nominal
(BRANDÃO, 2007, p. 79-81)

Não há fórmulas quando se trata de ensino. Há apenas três requisitos para


que o processo de ensino-aprendizagem chegue a bom termo: boa forma-
ção, bom senso e boa didática da parte do professor.

Uma boa formação implica estar instrumentalizado no que toca ao tradi-


cional e ao novo, não só para transmitir conhecimentos de forma segura e
atualizada, mas também para refletir sobre cada novo fato que observa no
desempenho linguístico de seus alunos com espírito de pesquisador, isto é,
de forma isenta, sem preconceitos, procurando buscar suas possíveis moti-
vações que, certamente, serão de natureza linguística e social.

Bom senso consiste, em primeiro lugar, conhecer a turma (o grupo social)


que está sob sua responsabilidade durante um determinado período, de
modo a adaptar os conteúdos programáticos, a formular exercícios e propor
leituras adequadas aos seus interesses e às suas necessidades.

Boa didática significa ter clareza na exposição, adequar recursos meta-


linguísticos, executar a criatividade própria e a do aluno, chamá-lo a refletir
sobre as estruturas linguísticas quer dedutiva quer indutivamente, realçar as
diferentes situações de uso da língua, utilizando as mais diversas fontes para
exemplificação – textos orais formais e informais, textos escritos de diferen-
tes gêneros (selecionados de jornais, revistas, obras literárias, anúncios em
lojas, cartas, bilhetes, ofícios) – de modo que o aluno veja o ensino de portu-
guês, a aquisição de outras normas, como uma maneira de universalizar-se
sem, no entanto, minimizar a funcionalidade da gramática de seu grupo.

Um bom caminho para tratar a concordância nominal seria utilizar, entre


outros, os seguintes procedimentos:

(a) chamar a atenção do aluno para o fato de haver, em português, pelo


menos dois padrões básicos e opostos de aplicação da categoria de número
plural no âmbito do SN:

142
Sintaxe de concordância nominal

(i) um, redundante, em que se usa a marca (morfema) em todos os


constituintes flexionáveis do SN;

(ii) outro, simplificado, em que se utiliza a marca no primeiro consti-


tuinte, ou nos constituintes pré-nucleares, não se esquecendo, no en-
tanto, de apontar os demais padrões intermediários.

Os referidos padrões podem ser observados no quadro a seguir, em que


se contrastam dados do Corpus Aperj e do Corpus Nurc- RJ 1, representativos,
respectivamente, das chamadas normas popular e culta.

Corpus Aperj Corpus Nurc

(i) a gente tira [as espinhas miúdas] (i) é mais parecido com [as receitas estrangei-
ras]

(ii) [muitas pessoa] aparece aqui (ii) eles têm [muitos produtos]

(iii) tem [esses tipo de rede] (iii) eu como [essas frutas assim mais conhe-
cidas]

(iv) aparece [outras nuvens cinzenta] (iv) procuro tirar [as outras coisas]

(v) forma [aquelas onda perigosa] (v) não gosto d[esses regimes brutos]

(vi) mostrar [as minhas rede nova] (vi) todo tempo é tomado [nas minhas ativi-
dades]

(vii) esse peixe anda [nas parte mais baixa] (vii) existem [os peixes mais comuns] né?

(viii) hoje em dia [cinquenta mil cruzado (viii) tem [mil e um curso]
mais ou menos]

(ix) para o barco [naqueles cantinho] (ix) procuro tirar [as outras coisas]

(x) a gente marca [todos os ponto] (x) o ovo entra em [quase todos os produtos]

(b) enfatizar que todos esses padrões são funcionais, isto é, atingem os
mesmos objetivos comunicativos e, por isso, são igualmente válidos;

(c) delimitar as situações de uso de cada padrão, discutindo, inclusive,


com a turma suas implicações sociocomunicativas;

(d) focalizar o tema em consonância com o estudo do mecanismo de


flexão ou utilizando exemplificações/exercícios que ajudem a fixar formas
de plural que, por conta de determinados processos fonético-fonológicos,
apresentam maior ou menor grau de saliência fônica;

(e) levar o aluno a selecionar SNs de textos orais/escritos tipologicamente


diversos, mas, a princípio, próximos de sua realidade social, de modo que

143
Sintaxe de concordância nominal

ele identifique os mecanismos predominantes nas diferentes variedades e


modalidades da língua e, assim, introjete a noção de norma e, sobretudo, a
de pluralidade de normas;

(f) desenvolver no aluno o gosto e a prática da leitura, incentivando-o a ler


jornais, revistas e obras literárias as mais diversificadas, o melhor caminho para a
aquisição e fixação de normas que não fazem parte de sua variedade de base.
1
Corpus Aperj: Projeto do atlas etnolinguístico dos pescadores do estado do Rio de Janeiro; Corpus Nurc: Projeto Norma Urbana Culta,
referente à fala de cinco capitais brasileiras.

Dicas de estudo
 BRANDÃO, Silvia Figueiredo. Concordância nominal. In: VIEIRA, Silvia Ro-
drigues; BRANDÃO, Silvia Figueiredo. Ensino de Gramática: descrição e
uso. São Paulo: Contexto, 2007.

Este capítulo explora três diferentes aspectos da concordância nominal de


suma importância para o professor de Língua Portuguesa: a) o que a gramática
tradicional traz sobre a concordância nominal; b) resultados de pesquisas sobre
a categoria de número na modalidade falada popular e na modalidade falada
culta; c) a relação entre a realidade sociolinguística e o ensino.

 ANTUNES, Irandé. Lutar com Palavras: coesão e coerência. São Paulo: Pa-
rábola Editorial, 2005.

Este livro nos ensina como agir na produção textual, ou seja, não se trata de
dominar a língua enquanto uma forma, e sim, de saber como usá-la de maneira
adequada nas mais diversas situações da vida diária, nos mais diversos graus de
formalidade ou informalidade que se oferecem e nos quais devemos produzir
gêneros textuais variados.

Para a autora, escrever não é fazer frases isoladas ou combinar formas


apenas, mas produzir textos que sejam compreensíveis. Isto significa que escre-
ver também é inalienável da leitura: escrever é oferecer algo para ler. Assim, a
coesão e a coerência têm aspectos voltados tanto para o linguístico quanto para
decisões relativas ao contexto social, cultural e cognitivo, levando em conta o
interlocutor visado.

144
Sintaxe de concordância nominal

Estudos linguísticos
1. Descreva a oração a seguir como uma sequência de termos subordinantes e
subordinados, tomando como ponto de partida o sujeito:

O filho entregou o certificado ao pai com orgulho.

2. A respeito do sintagma: Aquelas alunas do professor Carlos.

a) ( ) Está correto afirmar que o sintagma nominal inteiro está no feminino


plural.

b) ( ) Está incorreto afirmar que o sintagma nominal inteiro está no femini-


no plural.

Justifique sua resposta.

145
Sintaxe de concordância nominal

Referências
ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Gramática Metódica da Língua Portuguesa.
35. ed. São Paulo: Saraiva, 1988.

ANTUNES, Irandé. Lutar com Palavras: coesão e coerência. São Paulo: Parábola
Editorial, 2005.

BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 37. ed. Rio de Janeiro:


Lucerna, 2004.

BRANDÃO, Silvia Figueiredo. Concordância nominal. In: VIEIRA, Silvia Rodrigues;


______. Ensino de Gramática: descrição e uso. São Paulo: Contexto, 2007.

CÂMARA JR., Mattoso. Estrutura da Língua Portuguesa. Petrópolis, Vozes,


1986.

DE NICOLA J.; INFANTE, U. Gramática Contemporânea da Língua Portuguesa.


São Paulo: Scipione, 1997.

KURY, Adriano da Gama. Novas Lições de Análise Sintática. 9. ed. São Paulo:
Ática, 2002.

LUFT, Celso Pedro. Moderna Gramática Brasileira. 8. ed. Rio de Janeiro: Globo,
1987.

MACAMBIRA, José Rebouças. A Estrutura Morfossintática do Português. Apli-


cação do estruturalismo linguístico. 4. ed. São Paulo: Pioneira, 1982.

MORAES, Marcus Vinícius de Melo. Balada do Morto Vivo. In: ______. Antologia
Poética. 12. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975.

PERINI, Mário A. Sintaxe Portuguesa: metodologia e funções. São Paulo: Ática,


1989.

_____. Gramática Descritiva do Português. São Paulo: Ática, 1995.

_____. Princípios de Linguística Descritiva – introdução ao pensamento gra-


matical. São Paulo: Parábola, 2006.

PONTES, Eunice. Sujeito: da sintaxe ao discurso. São Paulo: Ática, 1986.

SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguística Geral. 7. ed. Tradução de: CHELI-
NE, A. et al. São Paulo: Cultrix, 1975.

146
Sintaxe de concordância nominal

SAUTCHUK, Inez. Prática de Morfossintaxe. Como e por que aprender análise


(morfo)sintática. Barueri: Manole, 2004.

VIEIRA, Silvia Rodrigues. Colocação pronominal. In: VIEIRA, Silvia Rodrigues;


BRANDÃO, Silvia Figueiredo. Ensino de Gramática: descrição e uso. São Paulo:
Contexto, 2007. p. 85-102.

Gabarito
1. A relação entre os termos é a seguinte:

Filho......: subordinante e não-subordinado com relação a entregou.

Entregou:...: subordinado com relação a filho; subordinante com relação a


certificado e pai.

Certificado...: subordinado com relação a entregou.

Pai...............: subordinado com relação a entregou. Essa subordinação é media-


ta, por causa da preposição a que rege pai.

2. A alternativa correta é (a). Esse sintagma inteiro está no feminino plural por-
que o núcleo desse sintagma é alunas, que é do gênero feminino.

147
Sintaxe de concordância verbal

Para iniciar a aula, emprestamos as palavras do mestre Said Ali (1971,


p. 122):

“A concordância não é, como pareceria à primeira vista, uma neces-


sidade imperiosamente ditada pela lógica. Repetir, num termo deter-
minante ou informativo, o gênero, número ou pessoa já marcados no
termo determinado de que se fala, é antes uma redundância.”

Said Ali está se referindo à concordância (nominal e verbal), fenômeno


da língua portuguesa de caráter sintático que estabelece a concordância
entre o termo regente que a impõe (por exemplo, o núcleo do sintagma
nominal e os termos que a ele se referem) e submete os termos regidos
por ele. Assim, a concordância seria, para o autor, uma marca redundante
na língua portuguesa, pois marca duplamente as categorias de gênero,
número e pessoa. Observe o exemplo a seguir. Veja que a flexão é marca-
da por diferentes traços:

(1) O operário iniciou a obra.


(2) Os operários iniciaram a obra.

A concordância entre os termos do enunciado (2) está marcada de


forma redundante:

 pela flexão de gênero e número do determinante (o-s);

 pela flexão de gênero e número do termo determinado (operári-o-s);

 pela flexão de número e pessoa do verbo (iniciara-m).

Após um breve panorama do que seja a sintaxe de concordância, vamos,


agora, nos deter no funcionamento da concordância verbal, a saber, um
fenômeno morfossintático de relação entre verbo e sujeito concretizado
por meio das desinências verbais de número e pessoa.

149
Sintaxe de concordância verbal

Concordância verbal
A concordância verbal é um tema muito valorizado nas aulas de Língua Por-
tuguesa, sobretudo, na avaliação da produção textual dos alunos. Ela recebe
uma conotação intimamente relacionada à sua caracterização sociolinguística,
ou seja, ligada ao uso.

Há os que afirmam que a não realização da regra de concordância verbal


constitui um traço de diferenciação social, de cunho estigmatizante, que se
revela, com mais nitidez, nas situações de uso público e formal da linguagem.
Assim, para que o professor possa estabelecer uma metodologia de ensino da
concordância verbal, é importante o reconhecimento dos fatores que presidem
a decisão, pelo falante, da aplicação ou não de uma regra, da escolha desta ou
daquela variante de uso da linguagem.

A concordância verbal encontra na modalidade escrita da língua as suas me-


lhores condições para preservar a sua tradição, uma vez que:
Tal como se pratica, sob as vistas da gramática, é um dos caracteres linguísticos da classe
social dominante que, como camada linguística superior, a impõe aos indivíduos que nela
queiram penetrar, tendo de submeter-se ao seu estilo de vida. E a língua escrita representou
papel relevante na fixação desses caracteres, não só espelhando uma estilização dos meios
expressivos de toda a gente, como difundindo essa estilização pela escola, que se incumbiu de
transformá-la em dogma. (GALVÃO, 1967, p. 117)

Para tratar da concordância verbal, Perini (2006) se apoia em duas funções


sintáticas: a de termo regente e a de termo regido – Macambira (1982) fala em su-
bordinante e subordinado. A ideia de Perini é que um dos termos “obriga” o outro
a concordar com ele.

Observe, no exemplo a seguir, a relação de submissão do termo regido pelo


termo regente:

(3) O anzol enroscou.

(4) Os anzóis enroscaram.

Em (3), anzol é o termo subordinante do determinante o e do verbo enroscou:


concordância de número e pessoa. E em (4), anzóis é o termo subordinante do
determinante os e do verbo enroscaram: concordância em número e pessoa.

150
Sintaxe de concordância verbal

A concordância é a base para a definição de algumas funções sintáticas: o su-


jeito, que na ordem direta do português é osintagma nominal que se coloca logo
antes do verbo (ou em outras posições determinadas, conforme o caso), pode
também ser definido como um elemento com o qual o verbo concorda em número
e pessoa. Assim, o sujeito seria o termo regente e, o verbo, o termo regido. Como no
exemplo a seguir:

(5) Carlos ajudou João.

Carlos (sujeito): subordinante não subordinado com relação a ajudou.

Ajudou (núcleo do predicado): subordinado com relação a Carlos, subordi-


nante com relação a João.
João: subordinado com relação a ajudou.

No exemplo (5), você pode observar a relação de subordinação do predica-


do em relação ao sujeito. O sujeito “Carlos” está marcado morfossintaticamente
como “primeira pessoa do singular”, assim, o núcleo verbal do predicado precisa
estar preenchido por um verbo que tenha as flexões que se harmonizem com
o sujeito. E, como o verbo “ajudou” está flexionado na “primeira pessoa do sin-
gular”, a oração pode ser considerada bem formada do ponto de vista “culto” da
concordância verbal.

Para sintetizar, podemos dizer que a concordância verbal pode ser entendida
como um conjunto de condições de harmonização entre o sujeito (termo re-
gente) e o núcleo do predicado das orações (termo regido) (PERINI, 1995). E é
sobre esse fenômeno sintático estabelecido entre o sujeito e o verbo, ou seja, a
concordância verbal, que vamos continuar a nossa reflexão.

A abordagem tradicional da concordância verbal


A gramática tradicional, preocupada com a “arte de falar corretamente”, esta-
belece como regra geral para a concordância verbal das construções de um só
núcleo que:

O verbo deve se conformar ao número e à pessoa do sujeito.

(ALMEIDA, 1988)

151
Sintaxe de concordância verbal

Essa “regra geral” é postulada pela gramática tradicional e é, portanto, legi-


timada por ela, constituindo a concordância lógico-gramatical. O enunciado a
seguir demonstra a vigência desse preceito geral para a concordância entre o
sujeito (S) e o verbo (V):

Núcleo do S (singular) V (singular)

(6) A eficiência das regras gramaticais se avalia no uso diário da linguagem.

Para Vieira (2007), há outros usos que vão além dessa regra geral de concor-
dância verbal. A autora considera esses usos como “regras particulares, parti-
cularidades, exceções”, e recebem tratamento diferenciado, como os casos que
veremos a seguir1:

 Sujeito simples, com núcleo no singular – verbo no singular:

(7) O voto livre e democrático é direito inalienável do cidadão.

 Sujeito simples com núcleo no plural – verbo no plural:

(8) As crianças receberam alimentação adequada.

 Sujeito composto de dois ou mais núcleos, no singular ou no plural –


verbo no plural:

(9) A idade, o sexo, a escolaridade, a classe social, entre outros, são fato-
res determinantes das normas linguísticas.

 Sujeito composto, cujos núcleos se refiram a pessoas gramaticais dife-


rentes – verbo no plural; quanto à pessoa, prevalece aquela que tiver prefe-
rência: a primeira prevalece sobre as demais e, a segunda, sobre a terceira.

3.ª sing. 1.a sing. 1.a plural


(10) Meu irmão e eu vencemos o campeonato de tênis em duplas.

2.ª sing. 3.ª sing. 2.a plural


(11) Tu e ele conseguireis resolver esse problema.

3.ª sing. 3.ª sing. 3.a plural


(12) Mãe e filho caminham pelo parque.
1
Os casos que apresentamos aqui não esgotam a totalidade dos casos especiais de concordância verbal, mas, com certeza, abrangem os mais
importantes.

152
Sintaxe de concordância verbal

 Sujeito constituído por expressões partitivas e de quantidades aproxi-


madas (como: parte de, uma porção de, o grosso de, o resto de, metade
de e equivalentes) e um substantivo ou pronome plural – o verbo pode
ir para o singular ou para o plural (CUNHA; CINTRA, 1985, p. 487). Almeida
(1988) se refere a esse caso de concordância como uma “regra especial do
coletivo partitivo”, ou seja, quando a ação do verbo pode ser atribuída se-
paradamente à indivíduos que o coletivo representa, o verbo pode ir para
o plural, concordando com a totalidade dos indivíduos (concordância ló-
gica), ou ficar no singular, concordando com o coletivo (concordância gra-
matical). Como nos exemplos as seguir:

(13) Metade das crianças [receberam/recebeu ] a vacina naquele dia.


(14) Parte deles já [tinham/tinha] viajado.

 Sujeito constituído por pronome interrogativo, demonstrativo ou


indefinido plural, seguido da expressão de (ou dentre) nós (ou vós) –
segundo Cunha e Cintra (1985, p. 492), o verbo pode concordar com o
pronome a que serve de complemento ou ficar na 3.a pessoa do plural.

(15) Quais de nós [iremos/irão] ao desfile?

 Sujeito constituído pelo pronome oblíquo quem – segundo Rodrigues


(1982), o verbo pode concordar tanto com o próprio quem indo para a 3.ª
pessoa do singular, quanto com o antecedente do quem:

(16) Sou eu quem paga.


(17) Sou eu quem pago.

 Sujeito ligado por ou – segundo Bechara (2004), o verbo concordará com


o sujeito mais próximo, se a conjunção indicar:

 exclusão: ou seja, apenas o sintagma nominal mais próximo do verbo,


excluindo-se o outro.

(18) As promoções na empresa ou o posicionamento da família impossibi-


litou de aceitar a oferta de trabalho no exterior.

153
Sintaxe de concordância verbal

 retificação de número gramatical:

(19) Travessa dos Sonhos é o nome que o autor ou autores do conto dão
à rua do bairro.

 identidade ou equivalência:

(20) Os professores ou o secretário da escola merece a homenagem


dos alunos.

 Sujeito composto ligado por nem – o verbo pode ficar no singular ou no


plural:

(21) Nem o diretor nem o vice-diretor presidirá esta reunião.


(22) Nem o diretor nem o vice-diretor presidirão esta reunião.

 Verbo SER + predicativo – segundo Vieira (2007), quando o núcleo do Sin-


tagma Nominal – sujeito do verbo – é um dos pronomes demonstrativos
isto, isso, aquilo, tudo, o (que), ou pronome interrogativo quem, o que, que,
ou uma palavra de sentido coletivo (o resto, a maioria de etc.), e o verbo vem
acompanhado de um predicativo constituído por um substantivo no plural,
o verbo concorda, em regra geral, com o predicativo do sujeito (Pred. S):

(23) Tudo eram festas naquela vida fútil.


Pred. S

(24) Aquilo serão os resultados de tanta luta.


Pred. S

 Verbo SER empregado impessoalmente, isto é, sem sujeito, nas de-


signações de horas, datas, distâncias – o verbo ser se adapta à flexão do
predicativo do sujeito (Pred. S):

(25) São dez horas? Ainda não o são.


Pred. S

(26) Da estação à escola são três quilômetros.


Pred. S
154
Sintaxe de concordância verbal

 A concordância com os verbos impessoais – o verbo assume a 3.ª pes-


soa do singular.

(27) Há vários nomes ali.

(28) Deve haver cinco premiados no concurso.

(29) Não o vejo há meses.

(30) Não o vejo faz cinco meses.

 A concordância com pronome relativo que na função de sujeito – em


um período composto, o verbo da oração subordinada adjetiva em que
está o pronome relativo que tem sua flexão determinada pelo anteceden-
te deste, que está na oração principal.

antecedente oração subordinada adjetiva


(31) Eu, [que adiei a minha partida] para ver a formatura, acabei não indo.
o verbo concorda com o antecedente: eu

antecedente oração subordinada adjetiva


(32) As pessoas [que se manifestaram contra a construção da fábrica]
o verbo concorda com o antecedente: as pessoas

mudaram de ideia depois de compreenderem o projeto.

 A expressão haja vista – segundo Almeida (1988), ficará sempre no sin-


gular quando puder ser substituída por por exemplo:

(33) Só com o fim da permissão para fumar em lugares públicos é que pu-
demos colocar cartazes com a proibição nas últimas semanas. Haja vista as
denúncias sobre o desrespeito a essa lei que ocorrem na repartição.

 O verbo da expressão haja vista poderá ir para o plural – nesse caso,


seu significado será tenham em vista, vejam.

(34) O emprego dos tempos verbais é muitas vezes uma relação livre; hajam
vista o do presente como futuro, o presente histórico, o pretérito imperfeito em
lugar do perfeito (CÂMARA JR., 1978).

155
Sintaxe de concordância verbal

As regras variáveis da concordância verbal:


uma questão de estilo?
As regras que acabamos de apresentar poderiam ser suficientes para que as
nossas dúvidas em relação à concordância sejam minimizadas, porém a questão
não é tão simples assim. Um enunciado concreto, ou seja, um enunciado em
uma situação de interação, exige procedimentos diferenciados dependendo do
contexto em que ele está inserido. Nem sempre as regras trazidas pela gramática
tradicional são adequadas para que o enunciador expresse suas ideias. Nesse
sentido, é que podemos afirmar que a concordância verbal é menos uma ques-
tão de gramática normativa e mais uma questão de estilística, ou seja, de estilo
do produtor desse enunciado (BACCEGA, 1986).

O estilo supõe escolha por parte do enunciador, ele é “o conjunto de processos


que fazem da língua representativa um meio de exteriorização psíquica e apelo”
(BECHARA, 2004, p. 615). A estilística estuda a linguagem do ponto de vista da ex-
pressividade. Esta pode manifestar-se na entoação das frases, na Semântica, mas
também na Sintaxe da língua, como é o caso da concordância verbal.

Assim, devemos conhecer as possibilidades com as quais o enunciador pode


contar para construir os seus enunciados usando regras de concordância sintá-
tica que são aceitas pelas normas e leis que constituem a estrutura da língua,
porém, não discutidas estilisticamente pelas gramáticas normativas. Isso porque,
no ensino da concordância verbal, não podemos deixar de levantar os procedi-
mentos que a própria língua fornece e que podem colaborar para a clareza e a
eficiência da nossa capacidade comunicativa. Vamos a alguns exemplos:

 Sujeito ligado por com – o verbo fica no singular se o falante quiser enfa-
tizar o primeiro elemento ou o verbo vai para o plural se o destaque é para
o todo do que se fala:

(35) Napoleão com os franceses venceu a guerra.

(36) Napoleão com os franceses venceram a guerra.

156
Sintaxe de concordância verbal

 Na concordância do verbo SER com sujeito representado por um


nome de pessoa – normalmente, o verbo concorda com o sujeito, porém,
se o predicativo se sobrepõe ao sujeito, a concordância verbal passa a ser
regida pelo predicativo:

(37) “Santinha eram olhos míopes, quatro incisivos claros à flor da boca”
(Manuel Bandeira)

 O sujeito é uma expressão partitiva + um nome plural – já vimos, ante-


riormente, que o verbo pode ficar no singular ou no plural. A intenção de
quem fala é que vai determinar a concordância, e cada escolha vai corres-
ponder a uma nova forma de expressão. Segundo Cunha e Cintra (1985, p.
499), “deixamos o verbo no singular quando queremos destacar o conjun-
to como uma unidade e levamos o verbo ao plural para evidenciarmos os
vários elementos que compõem o todo”. Os autores nos dão os seguintes
exemplos, retirados da literatura:

(38) “Uma porção de moleques me olhavam admirados.”


(José Lins do Rego)

(39) “Para meu desapontamento, a maioria dos nomes anotados não dis-
punha de telefone.”
(Carlos Drummond de Andrade)

 O relativo que vem antecedido das expressões um dos, uma das (+ subs-
tantivo) – o verbo de que ele é sujeito, normalmente, vai para a 3.ª pessoa
do plural. Entretanto, o verbo pode aparecer no singular caso o falante quei-
ra destacar o sujeito do grupo:

(40) Você é um dos raros homens que têm amor-próprio.


(41) João foi um dos poucos alunos que não aceitou a proposta dos
professores.

 O sujeito é o pronome relativo que – como vimos anteriormente, o ver-


bo pode ir para a 3.ª pessoa do singular ou concordar com o sujeito da
oração anterior. A norma culta privilegia a primeira opção. Entretanto, na
linguagem cotidiana, a segunda opção é a que impera, justamente por
explicitar, sem mascaramentos, o sujeito efetivo da ação expressa pelo

157
Sintaxe de concordância verbal

verbo. Observe o sentido de distanciamento obtido pela frase (42) e a sub-


jetividade expressa pela (43):

(42) Sou eu quem escreve essa carta.


(43) Sou eu quem escrevo essa carta.

 Concordância com o verbo SER com sujeito representado por um dos


pronomes isto, aquilo, tudo ou o (=aquilo) e predicativo expresso por
um substantivo plural – o verbo concorda, normalmente, com o predi-
cativo. “Tal concordância explica-se pela tendência que tem o nosso es-
pírito de preferir destacar como sujeito o que representamos por palavra
nocional, pois esta alude a realidades mais evidentes” (CUNHA; CINTRA,
1985, p. 506). Entretanto, o verbo pode vir concordando com o pronome
indefinido, realçando, assim, o conjunto e não os elementos que o com-
põem.

Observe esse exemplo dado por Cunha e Cintra (1985, p. 506) no qual o
poeta Camilo Castelo Branco brinca com a concordância para conseguir a
expressividade literária que deseja:

(44) Há neles muita lágrima, e o [=aquilo] que não é lágrimas são algemas.

Estilo e concordância verbal ideológica


Devemos conhecer as regras gerais de concordância verbal que estão de
acordo com a norma-padrão, pois elas estão no ideal linguístico do uso da lin-
guagem em situações formais. No entanto, é preciso que esse conhecimento
não tenha um caráter de “sufocamento” da expressão do sujeito em situação de
comunicação oral ou escrita.

Considerando a expressividade da linguagem, Mattoso Câmara Jr. (1978) re-


conhece que há casos especiais de realização da concordância verbal em que
não vigora uma norma definida e fixa. Nesses casos, a tradição literária nos dá
soluções divergentes, conforme certos matizes de intenção, de harmonia ou cla-
reza, ou de meras preferências subjetivas.

A concordância, nesses casos especiais, pode ser determinada por questões


de estilo, ou seja, de “preferências subjetivas”, o que resulta na dificuldade de

158
Sintaxe de concordância verbal

se estabelecer um número muito grande de regras e suas possíveis exceções


quando tratamos de concordância, seja verbal, seja nominal.

Said Ali (1971, p. 280) também reconhece a existência dessas soluções diver-
gentes, quando afirma que “há, contudo, condições em que se despreza o cri-
tério da forma e, atendendo apenas à ideia representada pela palavra, se faz a
concordância com aquilo que se tem em mente”.

O autor se refere às decisões encontradas pelos bons escritores ao buscar


novas formas de correlação entre os elementos da frase que nem sempre consti-
tuem relação de concordância rigorosamente lógico-gramatical, mas que mate-
rializam a busca do escritor pela expressividade, ou seja, pelos efeitos estéticos
da expressão.

Além disso, a situação concreta em que se encontra o enunciador exige pro-


cedimentos diferenciados, nem sempre as regras da gramática normativa são
suficientes para que ele se manifeste dotando seu enunciado da expressividade,
do tom que deseja dar ao discurso. A esse respeito, afirma Mattoso Câmara Jr.
(1978, p. 70), “As exigências da manifestação psíquica e do apelo se emaranha-
ram inelutavelmente em toda enunciação: e na linguagem falada, bem como em
muitas ocasiões da linguagem escrita, atenuam ou até sufocam o teor informa-
tivo do discurso” (grifo nosso).

E é na construção sintática que mais podemos observar a “expressividade”


que se manifesta no uso individual da língua e que dá a esse uso uma personali-
dade, um estilo. Nessa perspectiva, o estilo é a definição de uma personalidade
em termos linguísticos. Como afirma Mattoso Câmara Jr. (1978), “a personalida-
de linguística caracteriza-se pelos traços não coletivos do sistema” e “pela mani-
festação psíquica no plano da emoção e da vontade expressiva”.

Para Dubois et al. (1978), o estilo supõe escolha, decisão, depende da intenção
do enunciador e se manifesta no discurso, no ato de linguagem, na execução
individual:
E como cada indivíduo tem em si um ideal linguístico, procura ele extrair do sistema de que se
serve as formas de enunciado que melhor lhe exprimam o gosto e o pensamento. Essa escolha
entre os diversos meios de expressão que lhe oferece o rico repertório de possibilidades, que é
a língua, denomina-se estilo e o campo de estudo que o abriga denomina-se estilística.

Contudo, deixamos claro que não estamos defendendo que a norma-padrão


deva ser abandonada em prol do “estilo” individual do enunciador. Defendemos
que o produtor de textos tenha claro que ele é o dono do seu texto, mas que,
conhecedor das possibilidades da norma-padrão, tome a decisão de suplantar

159
Sintaxe de concordância verbal

essas normas de forma consciente e de acordo com os seus objetivos comunica-


tivos, com o contexto de interação (que implica o destinatário) e o suporte em
que o texto vai circular.

Por exemplo, ao produzir uma carta comercial, ou um ofício a ser encami-


nhado ao prefeito da cidade, ou uma carta acompanhando um currículo, a não
observação da norma-padrão não é vista com bons olhos e, certamente, o enun-
ciador será avaliado socialmente como um sujeito “pouco letrado”. Nesses gêne-
ros de texto, há a necessidade de que haja uma razoável disciplina, uma certa
ordem, o que significa a adoção da variante culta da língua. Em outras palavras,
a norma-padrão existe para ser adaptada ao uso, mas seu conhecimento é abso-
lutamente necessário.

Observe os exemplos a seguir. Neles, você encontrará “deslizes” quanto à


concordância verbal de acordo com a gramática normativa, mas que podem ser
explicados e justificados pela gramática da estilística, assim denominada por Ro-
drigues Lapa (1982, p. 157):

(45) “Dá um aspecto interessante, os prédios com as janelas cheias de luz”.

 Um gramático censura a frase e aponta nela um erro de concordância en-


tre o verbo e o sujeito: dá está errado; deve ser corrigido para dão.

 O estudioso do estilo não se deixa levar por esse argumento e procura,


com base na psicologia, esclarecer aquela infração: quem escreveu assim,
desejava antecipar a sua visão e considerou não os prédios na sua varieda-
de, mas no seu conjunto. Daí o emprego do singular e do plural.

(46) “O emprego destes termos demonstram bom conhecimento da língua”.

 Um gramático censura a frase e aponta o desvio na concordância entre o


verbo e o núcleo singular do sujeito.

 O estudioso do estilo verifica a origem do deslize: o verbo, em vez de con-


cordar com o sujeito, foi atraído para o plural do núcleo do sintagma pre-
posicionado (destes termos).

Observe também estes exemplos apresentados por Rodrigues Lapa (1982,


p. 159):

(47) “A formosura de Páris e Helena foram a causa da destruição de Troia.”

160
Sintaxe de concordância verbal

(48) “Os povos destas ilhas é de cor baça e cabelo arredio.”

(49) “Foi D. Duardos e Flérida aposentados no aposento que tinha o seu nome.”

(50) “Pouco importa que tenha a casa cheia de pérolas e diamantes, se se


não aproveita delas.”

Considerando que o autor aponta três causas para os “desvios” na concordância:

 porque as palavras concordam não segundo a letra, mas segundo a ideia;


 porque a concordância varia conforme a posição dos termos retirados do
enunciado;
 porque há o propósito do enunciador de fazer a concordância com o ter-
mo que mais interessa acentuar ou valorizar.
Assim, de acordo com essas três causas, pode-se afirmar que:
 os exemplos (47) e (48) são um exemplo dessa concordância mental. Em
(47), como se trata de duas pessoas, consideram-se dois exemplos de for-
mosura e, por isso, se pôs o verbo no plural;
 em (49), sentimos perfeitamente que o singular foi se deve apenas à sua
localização no princípio da frase; se pusermos o verbo depois do sujeito, já
não é possível essa construção: “D. Durdos e Flérida foram aposentados...”;
 em (50), a norma-padrão indicaria deles; mas o autor preferiu referir-se a
pérolas, por ser para ele a palavra mais expressiva e poética.

Rodrigues Lapa (1982) denomina essa concordância mental como silepse.

A qual conclusão podemos chegar a partir daí? O que os gramáticos consi-


deram um erro, um desvio ou uma impropriedade foi empregado pelos nossos
escritores clássicos, podendo, então, ser considerado um “emprego estilístico”,
ou seja, um emprego que pode ser explicado como silepse – concordância que
nem sempre está de acordo com o rigor das regras da gramática tradicional.
Segundo Said Ali (1971, p.280),

“[...] a frase assim constituída e que, analisada segundo os meios de ex-


pressão, parece incongruente, os gramáticos dão os nomes de sínese ou si-
lepse. Consiste, portanto, a sínese ou silepse em fazer a concordância de uma
palavra não diretamente com outra palavra, mas com a ideia que esta sugere.”
(grifo nosso)

161
Sintaxe de concordância verbal

Veja outros exemplos de silepse, ou seja, de concordância verbal ideológica


ou mental apresentados por De Nicola e Infante (1997):

(51) “... e o casal esqueceram que havia mundo.” (Mário de Andrade)


(52) “ O povo lhe pediram que se chamasse Regedor.” (Fernão Lopes)
(53) “Dizem que os cariocas somos pouco dados aos jardins públicos.” (Ma-
chado de Assis)
(54) “A gente somos inútil.” (Ultraje a Rigor)

Você pode observar que temos quatro exemplos de concordância verbal que
fogem à regra geral já apresentada, mas que, nem por isso, estão incorretos. O
que ocorre nesses exemplos é que a concordância não é feita segundo a forma
gramatical do núcleo dos sintagmas nominais com a função de sujeito, e sim,
pelo sentido que essas palavras encerram; por isso essa concordância é chama-
da de concordância ideológica e forma uma figura de sintaxe que denominamos
silepse.

Quando a silepse se refere ao verbo, dizemos que se trata de silepse de número


e o caso mais comum ocorre quando o sujeito é um coletivo ou uma palavra que,
apesar de estar no singular, indica mais de um ser.

Observe os exemplos:

(55) O povo lhe suplicaram que não fosse embora.


singular plural

Há também o caso em que o sujeito é o pronome pessoal nós, mas referindo-


-se a uma só pessoa é chamado de “plural de modéstia”. Nesse caso, o adjetivo
pode aparecer no singular:

(56) Mesmo gripada, apresentamos os dados da pesquisa.


singular plural

Para concluir, nossa intenção foi mostrar as possibilidades de concordância


verbal aceitas pela norma-padrão, mas também alguns casos em que o uso se
faz de acordo com uma determinante psicológica, ideológica que a estilística
denomina silepse.

162
Sintaxe de concordância verbal

Texto complementar

Como apresentar a regra


variável de concordância verbal
(VIEIRA, 2007, p. 98-101)

Primeiramente, partindo do pressuposto de que o texto deverá ser


o ponto de partida para a percepção geral do fenômeno, o conceito de
concordância verbal e a percepção da regra variável poderão ser desen-
volvidos, em termos metodológicos, a partir da unidade textual, segun-
do dois procedimentos possíveis.

O primeiro deles seria o aproveitamento de materiais que exploram


o fenômeno da concordância como recurso expressivo para a constru-
ção do sentido global do texto, o que pode ser um instrumento eficaz na
apresentação do assunto. A título de ilustração e apenas para tornar mais
objetiva a sugestão, a letra da canção “Inútil”, do grupo Ultraje a rigor (LP
Nós vamos invadir sua praia, 1985), parece ser um bom exemplo de texto
que concretiza esse recurso.

Outro procedimento que poderá ser bastante útil é a análise de textos


que exploram a variação da concordância verbal para a indicação do
perfil de uma personagem da obra. Diversas canções brasileiras ilustram
esse tipo de texto, como “Saudosa maloca”, de Adoniran Barbosa (LP Eldo-
rado, 1984), só para citar um exemplo.

Com os procedimentos aqui sugeridos, o aluno deverá despertar sua


consciência quanto ao perfil sociolinguístico das variantes “concordân-
cia” e “não concordância”, o que o fará atentar para a realidade de uso em
relação a esse fato linguístico.

No trabalho com o texto e também nas atividades em nível oracional,


o professor precisa fazer opções diante da gama variada de estruturas
que ora promovem a realização da marca de número no sintagma verbal,
ora favorecem o cancelamento dessa marca. Desse modo, deve eleger

163
Sintaxe de concordância verbal

as estruturas que servem como ponto de partida para a abordagem do


fenômeno e aquelas que necessitam de maior atenção em termos de fi-
xação de conteúdo.

Em sua pesquisa, Lemle & Naro (1977, p. 50) propõem que o ensino
deve enfatizar os aspectos em que a variedade do aluno mais difere do
padrão que se pretende ensinar. Assim, sugerem, segundo os resultados
obtidos com o controle da variável saliência fônica, que os exercícios foca-
lizem os verbos regulares no presente e no imperfeito do indicativo, visto
que nesses tempos há menor diferenciação fônica entre as formas singular
e plural e, portanto, menor tendência à concordância. No que diz respeito à
posição e à distância do sujeito em relação ao verbo, propõem que os exer-
cícios privilegiem as estruturas de sujeitos pospostos e distantes do verbo, que
propiciam maior tendência ao cancelamento da marca de número do verbo.

Os autores recomendam, ainda, o “princípio didático” de que as explicações


e os primeiros exercícios devem priorizar os contextos em que o estudante já
concretiza a estrutura em questão. Posteriormente, as atividades de fixação
de conteúdo deveriam focalizar os pontos em que se verifica maior discrepân-
cia entre a norma dominada pelo aluno e a norma que se pretende ensinar.

Evidencia-se, nessa proposta, a ideia de que, didaticamente, se deve partir


dos fatos que apresentem menor dificuldade ao aprendiz para, então, alcan-
çarem os níveis de maior complexidade, conforme o “princípio da complexi-
dade crescente”. No caso da concordância verbal, o ponto de partida será a
exploração dos casos em que, normalmente, se flexiona o verbo. De acordo
com a saliência fônica, por exemplo, os verbos de maior diferenciação entre
as formas singular e plural constituirão o modelo para os menos salientes.

Graciosa (1991) parece concordar com as sugestões dos autores supraci-


tados, quando afirma ser fundamental, para a assimilação do mecanismo da
concordância verbal, que se enfatizem contextos que induzem à supressão
da marca de plural, como, por exemplo, os itens menos salientes. A autora
propõe, ainda, que, somente após essa fase, deve ser trabalhada a variação
linguística, de modo que o estudante perceba com naturalidade as amplas
possibilidades que a língua faculta ao usuário.

Mollica (2003, p. 90), a partir de resultados de outros estudos sobre a con-


cordância verbal e de experimentos realizados em escolas, adverte que “uma

164
Sintaxe de concordância verbal

proposição pedagógica sobre o português escrito pode deixar muitas lacu-


nas, se não forem levados em conta aspectos importantes dos mecanismos
que operam os fenômenos dos usos da língua oral coloquial”.

Com base no condicionamento das variáveis “posição do verbo em rela-


ção ao sujeito” e “possível distância entre o sujeito e o verbo”, a autora apre-
senta como propostas pedagógicas três sugestões:

 Deve-se dar ênfase especial à inversão sujeito/verbo, já que este é


um ponto que usualmente causa confusão no aprendiz; deve-se dar
preferência aos exercícios que apresentam sujeito e verbo distantes,
especialmente com sintagmas nominais grandes e complexos estru-
turalmente;

 Uma metalinguagem eficaz e adequada a serviço do ensino-aprendi-


zagem do fenômeno de concordância verbal pressupõe a conscienti-
zação e o exercício insistente com o falante em relação à identificação
do sujeito, esteja ele preposto, posposto, perto ou distante do verbo;

 Deve-se, portanto, começar o trabalho pelo contexto VS e, preferen-


cialmente, por estruturas em que V esteja distante de S, que não se
apresentem contíguos, como em:

 acabaram finalmente todas as propostas;

 enchem de carros, quase todos os domingos e feriados, as estradas.


(MOLLICA, 2003, p. 90)

Os resultados obtidos na pesquisa de Vieira (1995) permitiram traçar al-


gumas diretrizes para o ensino da concordância verbal, resultados que aqui
são retomados e ampliados.

Considerando-se as variáveis que se revelaram significativas para o


cancelamento da concordância e aquelas que se mostraram de impor-
tância secundária, é possível estabelecer os contextos em que o falante
tenderia mais à concordância.

[...]

Partindo do pressuposto de que o ensino deve tomar como ponto de


partida os contextos em que a norma do falante se aproxima da norma
que se quer apresentar, os fatores que propiciam a ocorrência de marca

165
Sintaxe de concordância verbal

devem constituir os contextos pelos quais se deveria iniciar o ensino da


concordância, quais sejam:

a. formas verbais no singular e no plural com alto nível de saliência fônica;

b. verbos precedidos de sintagma nominal sujeito com mais marcas de


plural;

c. verbos precedidos de verbos com marca de plural;

d. orações com sujeito anteposto, de referência animada, e próximo do


núcleo verbal.

Pela observação dos fatores que levam ao cancelamento da marca,


evidenciam­-se as construções que devem ser priorizadas nas atividades pro-
postas e que visam ao alcance do domínio do uso padrão da concordância:

a. formas verbais de baixa saliência fônica;

b. verbos precedidos de sintagma nominal sujeito com menos marcas


de plural;

c. verbos precedidos de verbo sem marca de plural;

d. orações com sujeito posposto, de referência inanimada, e distante do


núcleo verbal.

No que se refere especificamente à variável paralelismo oracional, po-


de-se sugerir que deveriam ser abordadas, primeiramente, as construções
em que se efetuam as marcas de plural do SN sujeito em seus termos de-
terminante e determinado, conforme os condicionamentos detalhados no
capítulo anterior. Sabendo-se que o cancelamento da marca de número
no SN também predomina na língua falada, pressupõe-se que o ensino da
concordância nominal deve preceder o da concordância verbal ou a ele ser
simultâneo. A relação existente entre as marcas do SN sujeito e as marcas
do SV sugere a viabilidade de se ensinar a concordância verbal aliada à con-
cordância nominal.

Os livros didáticos utilizados nos níveis escolares Fundamental e Médio


privilegiam, muitas vezes, a oração como unidade de aplicação das noções

166
Sintaxe de concordância verbal

sintáticas. Os resultados obtidos com o controle da variável paralelismo dis-


cursivo sugerem que exercícios sobre concordância devem alcançar níveis
superiores ao da oração, enfocando construções com verbos em série que
possibilitem ao aprendiz a percepção da interinfluência que exercem as
marcas de número ou a ausência delas nos sintagmas verbais.

De modo geral, as reflexões ora apresentadas sobre o ensino da concor-


dância verbal sublinham a importância do aproveitamento dos estudos lin-
guísticos para uma prática de ensino que se quer pautada em normas reais,
depreendidas dos diversificados contextos de uso da língua.

A partir dos objetivos centrais do ensino de língua portuguesa, deve-se


promover o raciocínio lógico-científico do aluno, com base em atividades
reflexivas, para que ele desenvolva o conhecimento acerca da concordância
verbal e esteja consciente da valoração sociolinguística da concordância ou
da não concordância, de modo a fazer opções linguísticas conscientes na
produção de textos orais e escritos.

Dicas de estudo
 GALVÃO, Jesus Belo. Língua e Expressão Artística: subconsciência e afe-
tividade na língua portuguesa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.

Na obra, recomendamos os capítulos “A concordância”, “A concordância


ideológica” e “A concordância afetiva”, uma vez que esses capítulos tratam do
tema desta aula sob o ponto de vista da estilística.

 VIEIRA, Silvia Rodrigues. Concordância verbal. In: VIEIRA, Silvia Rodrigues;


BRANDÃO, Silvia Figueiredo. Ensino de Gramática: descrição e uso. São
Paulo: Contexto, 2007, p. 85-102.

A autora aborda o assunto sob o ponto de vista do ensino, traçando um pa-


ralelo entre os estudos da tradição linguística e os estudos mais recentes da gra-
mática descritiva.

167
Sintaxe de concordância verbal

Estudos linguísticos
1. Explique o traço de redundância que existe na frase a seguir, em relação às
marcas de concordância verbal: “Os homens da limpeza pública chegaram
rapidamente”.

2. A gramática tradicional postula uma regra geral para a concordância verbal.


Apresente um exemplo e explique.

168
Sintaxe de concordância verbal

3. Explique a concordância ideológica/silepse em: “Mesmo com as inúmeras


atividades que apresentei aos alunos, conseguimos manter a turma atenta”.

169
Sintaxe de concordância verbal

Referências
ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Gramática Metódica da Língua Portuguesa.
35. ed. São Paulo: Saraiva, 1988.

BACCEGA, Maria A. Concordância Verbal. São Paulo: Ática, 1986.

BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 37. ed. Rio de Janeiro:


Lucerna, 2004.

BRANDÃO, Silvia Figueiredo. Concordância nominal. In: VIEIRA, Silvia Rodrigues;


______. Ensino de Gramática: descrição e uso. São Paulo: Contexto, 2007.

CÂMARA JR., Mattoso. Contribuição à Estilística Portuguesa. Rio de Janeiro:


Ao Livro Técnico, 1978.

CUNHA, C.; CINTRA, L. Nova Gramática do Português Contemporâneo. Rio de


Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

DE NICOLA J.; INFANTE, U. Gramática Contemporânea da Língua Portuguesa.


São Paulo: Scipione, 1997.

DUBOIS, J. et al. Dicionário de Linguística. São Paulo: Cultrix, 1978.

GALVÃO, Jesus Belo. Língua e Expressão Artística: subconsciência e afetividade


na língua portuguesa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.

LAPA, M. Rodrigues. Estilística da Língua Portuguesa. São Paulo: Martins


Fontes, 1982.

PERINI, Mário A. Gramática Descritiva do Português. São Paulo: Ática, 1995.

_____. Princípios de Linguística Descritiva – introdução ao pensamento gra-


matical. São Paulo: Parábola, 2006.

PONTES, Eunice. Sujeito: da sintaxe ao discurso. São Paulo: Ática, 1986.

RODRIGUES LAPA, M. Estilística da Língua Portuguesa. São Paulo: Martins


Fontes, 1982.

SAID ALI, M. Gramática Histórica da Língua Portuguesa. 7. ed. Rio de Janeiro:


Acadêmica, 1971.

VIEIRA, Silvia Rodrigues. Colocação pronominal. In: VIEIRA, Silvia Rodrigues;


BRANDÃO, Silvia Figueiredo. Ensino de Gramática: descrição e uso. São Paulo:
Contexto, 2007. p. 85-102.

170
Sintaxe de concordância verbal

Gabarito
1. A concordância entre os termos do enunciado está marcada de forma redun-
dante: a) pela flexão do determinante (o-s); b) pela flexão do termo determi-
nado (homen-s); c) pela flexão do verbo (chegara-m).

2. No exemplo, “Os alunos foram ao teatro com os professores”, o verbo con-


corda com o sujeito em número e pessoa.

3. O verbo conseguimos refere-se ao sujeito da 1.a pessoa do singular (apre-


sentei), mas se flexiona na 3.a pessoa constituindo um caso de “plural de
modéstia”.

171
Sintaxe de regência

Para estudarmos a sintaxe de regência devemos, antes, verificar onde


ela se localiza nos estudos da Sintaxe.

Mas o que é Sintaxe? Buscando a resposta em Luft (1987, p. 9), encon-


tramos que:

“Tradicionalmente, entendemos [a Sintaxe como] o estudo das


regras que presidem à combinação de palavras para constituir frases”.

Em outras palavras, Luft (1987, p. 20) define a Sintaxe como “a exposi-


ção das regras segundo as quais se constroem as frases, marcando devi-
damente as relações entre as palavras pela posição destas, por certas partí-
culas, ou pelo ajuste formal”. (grifo nosso).

Pela definição do autor percebemos que a Sintaxe abrange uma “tri-


partição” de campos de estudo: concordância, regência e colocação. Essa
composição dos estudos da Sintaxe pode ser representada pela figura:

Sintaxe

concordância regência colocação

Nesta aula, vamos enfocar um desses campos de estudos: a sintaxe de


regência.

Os fatos sintáticos
que geram os dados de análise
Os estudos de Sintaxe implicam considerar os fatos sintáticos da língua
e, a partir deles, buscar dados para as análises e descrições. Sobre isso,

173
Sintaxe de regência

levantamos alguns questionamentos que buscaremos responder com a ajuda


de Perini (1989).

 O que é um dado sintático?


 O que é um fato sintático?
 O que se pode colocar na categoria de sintático?

O autor responde a essas questões apresentando os fenômenos que consi-


dera como fatos sintáticos, porque geram os dados para os estudiosos. Assim, o
autor cita cinco categorias de fenômenos que fornecem dados acessíveis para a
observação.

 A posição linear dos termos da oração na sequência.


 A estruturação da frase em constituintes sintáticos.
 A manifestação da relação de regência.
 A substituibilidade dos termos da oração.
 A retomada anafórica.

Perini (1989) classifica os três primeiros fenômenos como sintagmáticos,


porque ocorrem no eixo das relações sucessivas na cadeia sintagmática da frase. Já
os dois últimos fenômenos citados são considerados fatos sintáticos de natureza
paradigmática, porque ocorrem no nível das relações em ausência, ou seja, no eixo
paradigmático da língua, entre termos que se substituem, pois dois termos não
podem ocorrer simultaneamente no mesmo contexto linguístico. Assim:

Quanto à posição linear na sequência, em relação aos vizinhos imediatos,


Perini (1989) considera que esse é um fato sintático importante para o analista. A
observação da posição dos termos na cadeia linear (ou seja, na cadeia sintagmá-
tica do enunciado), na forma como se sucedem uns aos outros sucessivamente,
classificam-se em sintagmáticos.

Como no exemplo:

Os – pássaros – pousam – nos galhos – da árvore – no final da tarde.

Quanto à estruturação da frase em constituintes sintáticos, Perini (1989)


considera que a estruturação dos constituintes (os sintagmas) revela importan-
tes dados sintáticos, sobretudo pelo fato de que os sintagmas (constituintes)
podem se movimentar na frase, mudando de posição, o que pode ou não causar

174
Sintaxe de regência

mudanças semânticas no enunciado. Podemos estruturar frases em português


a partir dos constituintes sintáticos, ou seja, blocos de termos que constituem
sintagmas. Assim, se tomarmos o núcleo verbal da oração como ponto de refe-
rência, podemos isolar e decompor quatro diferentes tipos de sintagmas: sintag-
mas nominais (SN), sintagmas verbais (SV), sintagmas adjetivais (SAd), sintagmas
preposicionados (SPrep).

Observe como os sintagmas se organizam de forma linear e estruturam a frase:

SN V SN SPrep SPrep

(1) As rosas / enfeitam / minha casa / na primavera / nos fins de semana.


(2) Esses homens / taparam / os buracos / da pista / na madrugada.

Em (1) e (2) observamos os constituintes imediatos daquelas orações/frases


que são combinações de formas mínimas (exemplo: as + rosas) em unidade lin-
guisticamente superior.

Quanto à manifestação da relação de regência, Perini (1989) a considera


como um fato sintático que gera dados sintáticos: a relação que se estabelece
de regência, segundo a qual constituintes incluídos em unidades maiores se re-
lacionam assimetricamente, ou seja, um constituinte determina, de alguma ma-
neira, a forma do outro. A categoria de regência compreende os fenômenos de
vinculação entre termos regentes e termos regidos.

Quanto à substituibilidade, o autor diz constituir um fato sintático que inte-


ressa ao estudioso da Sintaxe porque é útil no estabelecimento de ambientes
em que um termo pode ou não ocorrer. Exemplo:

SN: função objeto direto

(3) As crianças / levaram / o cachorrinho / ao parque.


(4) As crianças / levaram- / no / ao parque.

Quanto à retomada, como afirma Apothéloz (2003), trata-se de um fenôme-


no que se enquadra na questão da referência e seus usos no enunciado. Cons-
titui um ponto de partida para análises por se tratar de um fenômeno ligado
à dinâmica da comunicação. Na interação verbal, todos os elementos do texto
estão relacionados entre si e é essa propriedade que distingue um texto de um
amontoado de palavras ou frases. Os vínculos entre os componentes do texto se
fazem por mecanismos de coesão.

175
Sintaxe de regência

Platão e Fiorin (1996) se referem a esse fenômeno como coesão por retoma-
da anafórica e cita pronomes, verbos, numerais e advérbios como termos que
servem para retomar outros. Mas, os autores também se referem às retomadas
por palavras lexicais como substantivos, verbos e adjetivos. Perini (1989) deno-
mina a relação entre o termo referido e o termo referente como termo retomado
e termo retomante.

(5) Meus pais foram à reunião. Eles ficaram até ao final das discussões.

Eles: termo retomante que remete para o termo já expresso anteriormente


(retomada anafórica pronominal): “meus pais”.

(6) No aniversário da vovó, Maria e João ficaram noivos. Naquele dia, a fa-
mília estava feliz.

Naquele dia: termo retomante: tem um papel remissivo, ou seja, faz remissão
a “no aniversário da vovó” (retomada anafórica por uma palavra lexical, ou seja,
por um substantivo que substitui o termo referido).

(7) André e Pedro são fanáticos torcedores de futebol. Apesar disso, são dife-
rentes. Este não briga com quem torce para outro time; aquele o faz.

No exemplo (7), apresentado por Platão e Fiorin (1996), o termo isso retoma o
predicado “são fanáticos torcedores de futebol”; este recupera a palavra “Pedro”;
aquele recupera o termo “André”; o faz recupera o predicado “briga com quem
torce para o outro time”. São, portanto, termos anafóricos.

Nós nos referimos a cinco categorias de fenômenos que são considerados


fatos observáveis e que podem ser analisados e descritos com a finalidade de co-
nhecer como se dá a estrutura gramatical do português. Agora, vamos nos deter
em um desses fenômenos – a regência.

Manifestação da relação de regência


Para refletirmos sobre o fenômeno da regência, primeiramente devemos nos
lembrar que as funções sintáticas como sujeito, predicado, objeto, predicativo,
modificador, determinante resultam da relação de subordinação ou de coor-

176
Sintaxe de regência

denação das unidades (sintagmas ou vocábulos) que as desempenham. Para


Azeredo (2001), enquanto a subordinação é um processo criador de funções,
a coordenação consiste em conectar unidades da mesma função ou da mesma
natureza. No exemplo:

(8) A professora ofereceu bolos e doces à criança.

Temos em (8) três funções, cada uma proveniente de mecanismos de subor-


dinação: “bolos e doces” é um sintagma nominal na função de objeto direto,
complemento do verbo, cuja função lhe foi dada pelo verbo transitivo direto
e indireto “ofereceu”. Portanto, “bolos e doces” está em função subordinada ao
verbo. O sintagma preposicional “à criança” também é um complemento do
verbo e exerce a função de objeto indireto do verbo. Nessa construção podemos
observar três funções (sujeito, objeto direto e objeto indireto), cada qual prove-
niente de um conjunto diferente de mecanismos subordinativos.

(9) A criança nasceu saudável e linda.

Em (9), a interposição do “e” nada alterou a função das unidades que se adi-
cionam por “e”. Os dois termos ligados por “e” se apresentam na função de predi-
cativo do sujeito (saudável e linda), portanto estão em relação de subordinação
ao núcleo do SN-sujeito (criança).

Os exemplos demonstram que, na verdade, seria mais adequado afirmar que a


relação entre os elementos de (8) e (9) é de regência e não de subordinação: o verbo
rege seus objetos, o substantivo rege seus determinantes e modificadores.

Para Macambira (1982), a subordinação é uma sequência de termos subordi-


nantes e subordinados. O autor explica que:

“O termo subordinado liga-se ao subordinante imediatamente se a liga-


ção não é feita mediante preposição; mediatamente, se o é.

A ligação mediata é comparável a dois canos unidos por uma luva, como
faz o bombeiro na instalação hidráulica de nossas casas: em gramática é a
preposição que funciona como uma luva.

A ligação imediata é comparável a dois canos unidos por imã: em gramá-


tica é o sentido que funciona como ímã, como força magnética.” (MACAMBI-
RA, 1982, p. 151)

177
Sintaxe de regência

A relação entre os termos subordinantes e termos subordinados e a forma


como são ligados (com ou sem preposição) pode ser visualizada na forma como
o autor apresenta:

(10) O / filho / entregou / o / troféu / a/ o / bom / pai / com / alegria.

Filho – subordinante não subordinado com relação a entregou e o (filho).

Entregou – subordinado com relação a filho, subordinante com relação a


troféu, pai e alegria.

Troféu – subordinado com relação a entregou, subordinante com relação a o.

Pai – subordinado com relação a entregou, subordinante com relação a bom e o.

Alegria – subordinado com relação a entregou.

Como podemos observar em (10), existem termos subordinantes que neces-


sitam de preposição para fazer a relação entre eles e os termos que subordinam
(nos exemplos, preposições “a” e “com”). Quando a relação for entre verbo e termo
subordinado, dizemos que há regência verbal. Quando a relação for entre um
nome e o termo subordinado a eles, dizemos que há concordância nominal.

Com base nas relações que acabamos de ver, os esquemas apresentados por
Luft (1987) podem nos ajudar a visualizar essas relações de regência.

 Regência verbal:

(SN) V (SN) ( {SN } ) (SPrep)


{SAdj}
{Sadv}
{Sprep}

 Regência nominal: os termos regentes são o substantivo, o adjetivo, o


advérbio, de acordo com o esquema a seguir:

{substantivo/adjetivo ou advérbio} (SPrep) (Sprep) (SPrep)

Tendo em vista os esquemas apresentados por Luft (1987), observe os exem-


plos a seguir:

178
Sintaxe de regência

(11) Nós respondemos às questões.


A resposta às questões.
(12) O professor entregou o prêmio ao aluno.
A entrega do prêmio ao aluno pelo professor.
(13) Pedro pagou a prestação ao cobrador.
O pagamento da prestação ao cobrador.
(14) Muitos aspiram a esse cargo.
A aspiração de muitos a esse cargo.
(15) A criança compareceu à aula.
(16) Houve alguns imprevistos.
(17) Chove.
(18) O estudo é útil a todos.
A utilidade do estudo para todos.
(19) A alegria era grande.
(20) O aluno é rápido em responder.
A rapidez do aluno em responder surpreende o professor.

Observem os fatos sintáticos de regência. Em (11) o verbo responder requer


sujeito e objeto, é pessoal transitivo indireto. Em (12) entregar é pessoal, transiti-
vo direto e indireto; e assim também pagar em (13). Em (14), aspirar exige sujeito
e complementação com preposição a (pessoal e transitivo indireto). Em (15) com-
parecer pede sujeito, mas não complemento (nessa frase): é pessoal, intransitivo.
Pelo contrário, haver pede complemento, mas não sujeito: impessoal, transitivo.
Chover não requer nem sujeito nem complemento: impessoal, intransitivo.

Em (18) e (20), os adjetivos útil e rápido têm complemento, ao contrário de


grande, em (19) podemos falar em adjetivos transitivos e intransitivos.

Regência de alguns verbos


A regência verbal está vinculada à questão: o termo regente envolve uma re-
lação sintática da qual a preposição pode participar ou não. Neste tópico vamos
tratar separadamente dos casos de regência verbal que se referem a:

179
Sintaxe de regência

 verbos intransitivos;

 verbos transitivos diretos;

 verbos transitivos indiretos;

 verbos pronominais;

 verbos transitivos diretos e indiretos.

Regência verbal e verbos intransitivos


De Nicola e Infante (1997) recomendam que, com esses verbos, é importante
observar a preposição que introduz o sintagma preposicionado que funciona
como adjunto adverbial, a fim de indicar precisamente a circunstância a que se
refere o verbo: de tempo, lugar, instrumento etc.

 Chegar – ir: nesses verbos, o sintagma preposicionado (adjunto adverbial


de lugar) deve ser introduzido pela preposição a; a preposição em fica re-
servada para a indicação de tempo ou meio. Em outras palavras, para cir-
cunstancializadores de lugar e tempo indicados pelo adjunto adverbial.

(21) Cheguei a Estocolmo em fevereiro de 2006.

a Estocolmo: SPrep = circunstancialiador de lugar.

em fevereiro: SPrep = circunstancialiador de tempo.

 Comparecer: o circunstancializador de lugar pode ser introduzido por


em ou a.

(22) Compareceram ao ginásio (ou no ginásio) para ver a competição.

ao (no) ginásio: circunstancializador ou adjunto adverbial de lugar

Regência verbal e verbos transitivos diretos


Nesse caso, é preciso ficar atento com os pronomes pessoais oblíquos o,
os, a, as que atuam como objetos diretos, enquanto que lhe, lhes são obje-
tos indiretos.

180
Sintaxe de regência

 Abandonar, adorar, amar, conhecer, convidar, ver, visitar, entre outros.

(23) Esperei-a o dia inteiro.


OD

(24) Convidei-os para a festa, mas pedi-lhes para vir cedo.


OD OI

Regência verbal e verbos transitivos indiretos


Na norma culta, recomenda-se que os complementos verbais desses verbos
sejam introduzidos por preposição.

 Obedecer (a); responder (a); consistir (em) e outros.

(25) Não desobedeçamos às leis e respondamos positivamente às propos-


tas de preservação ambiental.

Regência verbal e verbos pronominais


Segundo Bechara (2004), há verbos que são transitivos diretos quando
não acompanhados de pronome, passando a transitivos indiretos quando
pronominais.

 Esquecer, lembrar.

(26) Não esquecemos aquelas férias, mas nos lembraremos da amizade


que ficou para sempre.
OD OI

Regência verbal e verbos transitivos diretos e indiretos


 Comparar: segundo Bechara (2004), quando seguido de dois objetos, ad-
mite as preposições a ou com para introduzir o complemento indireto.

181
Sintaxe de regência

(27) “Comparo sua chegada com a fuga de uma ilha”. (Djavan)

 Informar: Bechara (2004) recomenda que esse verbo deve apresentar ob-
jeto direto de coisa e indireto de pessoa, ou vice-versa.

(28) Informei/ -o / do acontecimento.


OD (pessoa) OI (coisa)

(29) Informei/ -lhe / o fato ocorrido.


OI (pessoa) OD (coisa)

 Pagar, perdoar, pedir, preferir: esses verbos se constroem com objeto


direto e com objeto indireto.

(30) Paguei / o favor / ao meu amigo.


OD OI

(31) Pedi-/ lhe / um abraço.


OI OD

Regência verbal e verbos cuja mudança de


regência implica mudança de sentido
Segundo Lapa (1982), as diferentes regências de certos verbos é um recurso
expressivo de quem fala ou escreve. Eis alguns verbos que se enquadram nesse
caso de mudança de regência, de acordo com a variação de sentido: agradar, as-
pirar, assistir, chamar, custar, implicar, proceder, querer, proceder, visar e outros.

 Agradar: pede objeto direto no sentido de “fazer carinho” e pede objeto


indireto no sentido de “ser agradável a”.

(32) Agrada os filhos, mas não lhe agrada as notas baixas.


(33) Aspirava o seu perfume delicioso, mas não aspirava ao cargo de
marido.
(34) Querem o melhor tratamento, mas não querem muito aos colegas.
(35) Visava os cadernos rapidamente, entretanto não visava ao bem-estar
dos colegas.

182
Sintaxe de regência

Regência nominal
A maioria dos autores aponta a relação que existe entre a regência verbal e
a regência nominal. Uma das maneiras pela qual podemos detectar a regência
dos nomes é compará-los aos verbos que relacionam com eles, uma vez que os
nomes (substantivos e adjetivos) derivados normalmente mantêm a mesma re-
gência dos verbos e adjetivos dos quais se derivam. Observe os exemplos:

 Obedecer a: é um verbo transitivo indireto “regido” pela preposição a. Ob-


serve a regência do nome que dele se deriva:

(36) Ele / obedece / às leis de Deus.


VTI OI
(verbo regido pela preposição “a”)

Ele deve / obediência / às leis de Deus.


substantivo complemento nominal
(nome regido pela preposição “a”)

A seguir, vamos observar a regência de alguns substantivos, adjetivos e ad-


vérbios. Sempre que for possível, iremos relacioná-los a algum verbo cuja regên-
cia já conhecemos.

Regência nominal e substantivos


 Aversão a, para, por
 Devoção a, para com, por
 Dúvida acerca de, em, sobre
 Horror a
 Medo a, de
 Obediência a
 Ojeriza a, por
 Respeito a, com, para com

183
Sintaxe de regência

Regência nominal e adjetivos


 Acessível a
 Acostumado a, com
 Afável com, para com
 Agradável a
 Alheio a, de
 Capaz de
 Contrário a
 Fanático por
 Parco em, de
 Próximo a, de
 Satisfeito com, de, em, por
 Vazio de

Regência nominal e advérbios


Para Bechara (2004), os advérbios terminados em -mente seguem a regência
dos adjetivos dos quais se originam como, por exemplo, “relativo a, relativamen-
te a”; “semelhante a, semelhantemente a” etc.

(37) Ele viajou para o campo, semelhantemente aos demais parentes.

(38) Relativamente à questão do pagamento dos impostos, já está tudo


resolvido.

Solecismos
Os desvios quanto à norma culta que se referem à regência nominal são en-
contrados na gramática normativa com a denominação de “solecismos”. Bechara
(2004) apresenta alguns casos de regência nominal que, frequentemente, são
causas de solecismos, como os que veremos a seguir:

184
Sintaxe de regência

 Complemento de termos com regências diferentes: o rigor gramatical,


segundo Bechara (2004), exige que não se dê complemento comum a ter-
mos de regência de natureza diferente. Dessa forma, não podemos dizer:

(39) “Entrei e saí de casa.” (porque entrar pede a preposição em e sair pede
a preposição de).

 A possibilidade de se pôr o sujeito do infinitivo antes ou depois da


forma verbal:

(40) Está na hora da onça beber água.

O fato de um sujeito ser regido por preposição caracteriza um caso de solecis-


mo. Os gramáticos recomendam a seguinte construção:

(41) Está na hora de a onça beber água.

(42) É tempo de o povo querer melhores escolas.

Segundo Bechara (2004), estamos entrando, nesse caso, no domínio da esti-


lística, ou seja, da expressividade, e saindo do domínio da gramática normativa.

Para finalizar, apresentamos a você um quadro-resumo com as regências de


alguns verbos:

Verbo Classificação Significado Exemplo


Ele afirmou várias vezes a
VTD Declarar com firmeza
mesma coisa.
Afirmar
Declarar com firmeza algo a al- Ele afirmou várias vezes a
VDTI
guém mesma coisa aos alunos.

Toda a vizinhança ajudava


VTD Dar auxílio
a velha senhora.
Ajudar
Dar auxílio a alguém (preposi- O motorista ajudou-nos a
VTDI
ção a) carregar as nossas malas.

Os atletas aspiravam com


VTD Sorver, respirar
prazer o ar do campo.
Aspirar
O vereador aspirava a um
VTI Pretender, desejar
alto cargo na prefeitura.

185
Sintaxe de regência

Verbo Classificação Significado Exemplo


Ontem assisti a um belo
VTI Estar presente, presenciar
filme.
Assistir
O médico assiste o doente
VTD ou VTI Acompanhar, prestar assistência
(ou ao doente).

VTD Convocar, fazer vir Chamem o médico!

VTI Invocar (exige a preposição por) O pai chamava pelo filho.

Chamar Chamava-o inteligente.


Cognominar, qualificar, deno- Chamava-o de inteligente.
VTD ou VTI
minar + predicativo do objeto Chamava-lhe inteligente.
Chamava-lhe de inteligente.

VTD (quando não pronominais) Esqueci o nome dela!


Esquecer/
Lembrar (quando pronominais, exigem Esqueci-me da aula.
VTI
a preposição de) Lembrei-me da aula.

Apreciar algo, ter afeição amiza- A menina gosta de maçã.


Gostar VTI
de por alguém (preposição de) O Paulo gosta da Amanda.

Os jornais informaram o
VTD Dar notícias, esclarecer
público consumidor.

Informar A professora informou a


nota ao aluno.
VTDI (mesmo significado)
A professora informou o
aluno da nota.

Dona Maria não para de


VTD Pedir ajudar, proteção
Invocar invocar os santos.

VTI Antipatizar (preposição com) Ele invocou comigo.

Morar/ Moro em Curitiba.


VI (exigem a preposição a)
Residir Resido em Curitiba.

O bom filho obedece a


Obedecer VTI (exigem a preposição a)
seus pais.

VTD (quando o objeto é coisa) Paguei a conta da farmácia.


Pagar/ VTI (quando o objeto é pessoa) Perdoei aos inimigos.
Perdoar
Paguei a conta ao farma-
VTDI (quando o objeto é pessoa)
cêutico.

Querer antes, escolher entre


VTDI Prefiro a paz à guerra.
duas ou mais coisas
Preferir
Preferimos a paz, não fala-
VTD Dar primazia a, determinar-se por
mos em guerra.

186
Sintaxe de regência

Verbo Classificação Significado Exemplo


Ela queria o CD da novela,
VTD Desejar
mas não o quer mais.
Querer
Estimar, querer bem (exige a Eu quero muito a meus ami-
VTI
preposição a) gos, sempre lhes quis bem.

Quadro-resumo com as regências de alguns verbos (VI: verbo intransitivo; VTD: verbo transitivo
direto; VTI: verbo transitivo indireto; VTDI: verbo transitivo direto e indireto).

Texto complementar

Preposições, Semântica e Regência


(LUFT, 2003, p. 10-12)

Todos os complementos nominais são indiretos, i.e.1, ligados mediante


preposição ao nome transitivo.

Na correspondência com o complemento verbal (objeto) direto [...] a pre-


posição de que gera ambiguidades: o amor do próximo = ‘o próximo ama’/
‘amar o próximo’; o temor do inimigo = ‘o inimigo teme’/ ‘teme o inimigo’. A so-
lução é substituí-la: o amor dos pais -> o amor por parte dos pais (aos filhos)/o
amor aos pais (o amor dos pais, por parte dos filhos), o amor pelos pais; o
temor do inimigo -> o temor por parte do inimigo/o temor ao inimigo.

No caso de temer o inimigo -> o temor do inimigo ou conhecer a lei -> o


conhecimento da lei, a preposição não tem Semântica própria; ela simples-
mente liga, subordina. Já em amor aos filhos, amor para (com) os filhos (E. C.
Ribeiro, SG, 671), amor pelos filhos, é difícil não perceber que a e para, além
de ligar e subordinar, implicam ‘direção’ (do afeto); e, assim, (para) com ‘re-
lação, comunicação’; por ‘tenção, desejo, impulso’; entre (amor entre pais e
filhos) ‘reciprocidade’.

Isso contraria certo pensamento tradicional de que a preposição seja


palavra vazia de sentido. Vazio é esse de citado acima (como também é em
construções como a cidade de Porto Alegre, o louco do Fulano...), mas não é o
caso normal das preposições. A própria forma de ocorre expressando ‘posse’
(a casa de alguém), ‘origem’ (homem de Portugal), ‘fim’ (caderno de exercí-

187
Sintaxe de regência

cios), ‘conteúdo’, ‘causa’ (tremer de febre), etc. – o que sugere que há várias
preposições de.

[...]

A variabilidade no uso das preposições, portanto, não é caprichosa,


aleatória, mas semanticamente governada: são os traços semânticos da
palavra regente, primários ou secundários, que comandam a ocorrência
desta ou daquela proposição. Ou seja, a preposição é efeito da palavra-
núcleo da estrutura, via Semântica.

Retranscrevo a observação do linguista dinamarquês Viggo Bröndal a


esse respeito (Nascentes, PR, 19):
para as preposições, ainda as mais abstratas..., pode-se pôr como lei que elas têm sempre
uma definição precisa (parte em razão de sua classe, parte em razão de seu conteúdo
particular)... e que há sempre uma diferença se, em dada situação, se emprega uma
preposição ou outra.

Veja-se de/sobre com palavras regentes como análise, estudo, pesquisa:


a) análise de um livro não é o mesmo que; b) análise sobre um livro; o de é
simples marca de subordinação, de objeto, ao passo que sobre traduz ideia
de ‘assunto, matéria, base’ e permite sinonímia (acerca de, a respeito de, em
relação a...), o que claramente prova seu caráter semântico.

Enfim, “as preposições contêm traços semânticos que se relacionam com


os traços das palavras que as regem” (Luft, MGB, 14).

Complemento/adjunto
Nessas questões de regência de verbos e nomes, o que se tem normal-
mente em vista é “regência em sentido restrito”, ou seja, aquela complemen-
tação determinada pelos traços semânticos do núcleo regente.

Isso não inclui casos de regência em sentido amplo, aqueles em que a


construção preposicionada independe daqueles traços semânticos: conhe-
cer (e conhecimento, conhecedor de) alguém desde a infância, em profundi-
dade etc.; falar (e a fala) a alguém com calma, na rua etc.

É a diferença que tradicionalmente se faz entre “complemento” e “adjun-


to”, “termo integrante” e “termo acessório” da oração, respectivamente, se-
gundo a Nomenclatura Gramatical Brasileira.

188
Sintaxe de regência

Normalmente esses adjuntos – nessa relação verbos: nomes – indicam


‘circunstâncias’ (modo, tempo, lugar etc.) ou sujeito subjacente: conversar/
uma conversa com desenvoltura, discutir/discussão na rua, estudar/estudo à
noite etc.; ruído de motor (motor que faz ruído), o voo dos pássaros (os pás-
saros voam) etc.

Há contudo estruturas de circunstâncias regidas por traços semânticos


do núcleo – ir/ida (de um lugar) a ou para outro, passar/passagem por um
lugar (de um ponto/a ou para outro) etc. – onde temos “complementos” (e
não “adjuntos”) adverbiais de lugar, regidos pelo verbo ou nome.

Não são poucos os casos em que não é clara a diferença entre comple-
mento e adjunto.

[...].

Certamente não há dúvidas sobre o caráter de adjunto das estruturas de


“agente da passiva”, o equivalente de um sujeito básico: algo condenado por
todos <- todos condenam algo. Mas [...] há adjetivos-particípios que se com-
binam com várias preposições, [...]: amado por (ou de) todos, respeitado pelos
(ou dos) que o conhecem, atordoado pelo (ou do, com o) que o ouviu etc.
1
i.e.: isto é.

Dicas de estudo
 Perini, Mário A. Para uma Nova Gramática do Português. São Paulo: Áti-
ca, 1991.

A partir de uma crítica das bases teóricas da gramática tradicional, esse estu-
dioso da Sintaxe do português apresenta uma proposta de renovação do ensino
gramatical. O autor dá atenção especial a três pontos: a falta de coerência inter-
na em alguns pontos, o caráter normativo e prescritivo da gramática e o enfoque
centrado em uma variedade da língua: o dialeto padrão escrito, com exclusão
de todas as outras variantes. Ele acredita que todos esses pontos necessitam ser
repensados para que tenhamos uma gramática satisfatória.

 SILVA, ROSA Mattos e. Tradição Gramatical e Gramática Tradicional. São


Paulo: Contexto, 1989.

189
Sintaxe de regência

A obra foi pensada em função de um curso de Sintaxe do português, mas


inclui uma parte em que enfoca a análise da Sintaxe nas primeiras gramáticas
do português, a de Fernão de Oliveira e a de João de Barros (século XVI); como
também na gramática de Jerônimo Soares Barbosa (século XVIII-XIX), que é, sem
dúvida, um marco na história dos estudos gramaticais do português. Assim, da
gramática tradicional à tradição gramatical a autora percorre o percurso históri-
co da gramática com base no uso que se faz dela.

 LUFT, Celso Pedro. Dicionário Prático de Regência Verbal. 8. ed. São Pau-
lo: Ática, 2003.

O dicionário de regência verbal é um instrumento de consulta que todos


devemos ter. Este dicionário registra de forma sintética, mas ao mesmo tempo
abrangente, as várias possibilidades regenciais, de acordo com a norma padrão
da língua e também, de acordo com seu uso cotidiano.

 LUFT, Celso Pedro. Dicionário Prático de Regência Nominal. 4. ed. São


Paulo: Ática, 2003.

O dicionário de regência verbal é um instrumento de consulta que todos de-


vemos ter. Neste dicionário, o autor responde à necessidade de uma descrição
competente e autorizada dos padrões de regência nominal da nossa língua.

Estudos linguísticos
1. Explique a “tripartição” de abrangência dos campos de estudo da Sintaxe
proposta por Luft (1987).

190
Sintaxe de regência

2. A manifestação da relação de regência é considerada por Perini (1989)


como um “fato sintático” que gera dados sintáticos relevantes para a aná-
lise e descrição gramatical. Explique por que o autor dá essa relevância à
relação de regência.

3. Explique como se distingue a regência verbal da regência nominal. Dê exem-


plos.

191
Sintaxe de regência

Referências
APOTHÉLOZ, Denis. Papel e funcionamento da anáfora na dinâmica textual.
In: CAVALCANTE, M. M.; RODRIGUES, B. B; CIULLA, A. Referenciação. São Paulo:
Contexto, 2003.

AZEREDO, José Carlos de. Iniciação à Sintaxe do Português. 7. ed. Rio de Janei-
ro: Jorge Zahar Editor, 2001.

BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 37. ed. Rio de Janeiro:


Lucerna, 2004.

LAPA, M. Rodrigues. Estilística da Língua Portuguesa. São Paulo: Martins


Fontes, 1982.

LUFT, Celso Pedro. Moderna Gramática Brasileira. 8. ed. Rio de Janeiro: Globo,
1987.

______. Dicionário Prático de Regência Nominal. 4. ed. São Paulo: Ática, 2003.

PERINI, Mário A. Sintaxe Portuguesa: metodologia e funções. São Paulo: Ática,


1989.

_____. Para uma Nova Gramática do Português. São Paulo: Ática, 1991.

PLATÃO, F. S.; FIORIN, J. L. Lições de Texto: leitura e redação. São Paulo: Ática,
1996.

Gabarito
1. A Sintaxe abrange três campos de estudo: a sintaxe de concordância, a sinta-
xe de regência e a sintaxe de colocação.

2. O autor dá relevância aos estudos de regência porque a categoria de regência


compreende os fenômenos de relação e vinculação entre termos regentes e
termos regidos.

192
Sintaxe de regência

3. A regência verbal abrange a relação entre o verbo (termo regente) e o sin-


tagma que o completa, com o emprego ou não de preposição (ex.: o verbo
“assistir”, no sentido de “presenciar” rege a preposição “a” – “assistiu ao filme”).
regência nominal é a relação entre o substantivo, adjetivo ou advérbio (ter-
mo regente) e um sintagma preposicionado (termo regido) (ex.: o adjetivo
“fanático” rege a preposição “por” – “fanático por filmes de terror”).

193
Crase: questão de sintaxe de regência

Perini (1989), ao enumerar os “fatos sintáticos” que geram os dados


para os estudiosos da Sintaxe, cita, entre os diferentes fenômenos que
fornecem dados acessíveis para a observação, a estruturação da frase em
constituintes sintáticos e a manifestação da relação de “regência”. Esses são
fatos sintáticos que ocorrem no eixo das relações sucessivas na cadeia sin-
tagmática da frase. O autor pensa assim porque considera que a estrutura-
ção dos constituintes (os sintagmas) revela importantes dados sintáticos.

Conforme o autor, tomando-se o núcleo verbal da oração como ponto de


referência, podemos isolar e decompor quatro diferentes tipos de sintagmas:

 Sintagmas nominais (SN)

 Sintagmas verbais (SV)

 Sintagmas adjetivais (SAd)

 Sintagmas preposicional (SPrep)

Os exemplos a seguir demonstram como os sintagmas se organizam


na cadeia sintagmática e estruturam a frase:

SN V SN SPrep SPrep

(1) Os meninos / ofereciam / os brinquedos / às crianças / do orfanato.

(2) Aqueles homens / obedeciam / às normas / da empresa / naquele país.

Observe que os sintagmas se organizam e formam blocos de significa-


ção subordinados ao termo regente. Na frase, tudo está em relação entre
termo subordinante e termo subordinante ou, em outras palavras, termo
regente e termo regido.

195
Crase: questão de sintaxe de regência

Dessa forma, em (1) temos:

Termos regentes Termos regidos

Os meninos ............ (rege o sintagma verbal) .................. ofereciam


ofereciam ............... (rege o sintagma nominal) ............... os brinquedos
ofereciam ............... (rege o sintagma preposicional) ..... às crianças (a + as)
às crianças ............. (rege o sintagma preposicional ) .... do orfanato (de + o)

Enquanto que no exemplo (2), tem-se:

Termos regentes Termos regidos

Aqueles homens .. (rege o sintagma verbal) ................... obedeciam


obedeciam ............. (rege o sintagma preposicional) ..... às normas
às normas ............... (rege o sintagma preposicional) ..... da empresa
obedeciam ............. (rege o sintagma preposicional ).... naquele país

Referindo-se à manifestação da relação de regência, Perini (1989) a considera


como um “fato sintático”, segundo o qual constituintes incluídos em unidades
maiores se relacionam assimetricamente, em outras palavras, um constituinte
determina, de alguma maneira, a forma do outro.

Conforme Luft (1987), a regência é uma das três vertentes dos estudos sintá-
ticos que compreendem os fenômenos de vinculação entre termos regentes e
termos regidos.

concordância
Sintaxe regência
colocação

Nesta aula, vamos enfocar um desses campos de estudos, a regência, sob o


ponto de vista dos estudos sobre a crase.

Manifestação da relação de regência


Para refletirmos sobre o fenômeno da crase, devemos nos lembrar que ele
resulta da relação de subordinação de unidades linguísticas – sintagmas ou vo-
cábulos – com um termo regente. No exemplo:

196
Crase: questão de sintaxe de regência

(3) A criança entregou os resultados à professora.

O exemplo (3) apresenta três funções, cada uma proveniente de mecanismos


de subordinação: “os resultados” é um sintagma nominal na função de objeto
direto, complemento do verbo cuja função lhe foi dada pelo verbo transitivo
“entregou”. Portanto, o sintagma “os resultados da pesquisa” é um termo regido
pelo verbo.

O sintagma preposicional “à professora” também é um complemento do


verbo e exerce a função de objeto indireto, portanto também é um termo regido
pelo verbo. Assim, no exemplo (3) podemos observar três funções entre o verbo
e seus dois complementos, cada qual proveniente de um conjunto diferente de
mecanismos subordinativos.

Também para Macambira (1982), a subordinação é uma sequência de termos


regentes e regidos. O autor explica que a relação entre os termos regentes e
termos regidos e a forma como são ligados (com ou sem preposição) pode ser
visualizada na forma a seguir (vamos repetir o exemplo 3):

(3) A criança entregou os resultados à professora.

A criança:............subordinante não subordinado com relação a “entregou”

Entregou:........... .subordinado com relação “a criança”, subordinante com rela-


ção a “os resultados”, “à professora”

Os resultados:..... subordinado com relação a “entregou”

À professora:........subordinado com relação a “entregou”

Como podemos observar, em (3) existem termos subordinantes, isto é,


termos regentes que necessitam de preposição para fazer a relação entre eles
e os termos que subordinam. Quando a relação for entre verbo e termo subordi-
nado, dizemos que há regência verbal. Quando a relação for entre um nome e o
termo subordinado a eles, dizemos que há regência nominal.

Com base nas relações que acabamos de ver, podemos esquematizar essas
relações da seguinte forma:

197
Crase: questão de sintaxe de regência

 Regência verbal:
SN V SN (ou SPrep)
Filhos lembram os bons conselhos.
Filhos se lembram dos bons conselhos.

 Regência nominal:
SN SPrep
Ele ficou surdo às suas recomendações.

Tendo em vista os esquemas apresentados, nos exemplos a seguir você pode


observar as relações de regência entre verbos e seus complementos e entre os
nomes derivados desses verbos e os seus complementos:

(04) O prefeito entregou o prêmio à atleta.


A entrega do prêmio à atleta pelo prefeito.

(05) Vestibulandos responderam às questões.


A resposta dos vestibulandos às questões.

(06) Pedro declarou à noiva todo o seu amor.


A declaração à noiva.

(07) O prêmio foi consagrado pelo aluno à mestra.


A consagração à mestra.

(08) O adolescente não fugiu à obrigação.


A fuga à obrigação.

(09) O artista se expõe à fama.


A exposição à fama.

Em (04) o verbo entregar é verbo transitivo direto e indireto (VTDI) e pede


objeto direto (OD) (o prêmio) e objeto indireto (OI) (à atleta). Em (05) responder é
verbo transitivo indireto (VTI) e pede OI (às questões); em (06) o verbo declarar é
VTDI e pede OD (à noiva) e OI (todo o seu amor); em (07), o verbo principal da lo-
cução verbal consagrar pede agente da passiva (pelo aluno) e este pede um sin-
tagma preposicional como complemento (à mestra). Em (08) fugiu é VTI e pede
OI (à obrigação). Em (09) o verbo expor-se é VTI e pede OI (à fama).

198
Crase: questão de sintaxe de regência

Como você observou, todos os verbos dos exemplos (04) a (09) são termos
regentes e o termo regido é introduzido pela preposição a. Da mesma forma, os
nomes (substantivos) que se derivam desses verbos também são regidos por um
termo introduzido pela preposição a.

Observe a preposição que acompanha o verbo: esta constitui um sintagma


preposicional que pode exercer a função de complemento verbal com a função
de objeto indireto ou de adjunto adverbial (circunstancializador).

Agora, observe a preposição que acompanha o nome que se originou do


verbo (processo de nominalização do verbo): esta constitui um sintagma prepo-
sicional que pode exercer a função de um complemento nominal, como em:

VTI – rege a Substantivo – rege Complemento


Sujeito OI
preposição “a” a preposição “a” nominal
(10) Ele obedeceu à professora A obediência à professora

(11) Ele agradeceu à enfermeira O agradecimento à enfermeira

A preposição é um termo invariável da língua que faz a ligação de duas pala-


vras, estabelecendo uma relação de dependência entre elas. Entre as preposições,
o “a” é uma das mais frequentes (KURY, 1982) e pode aparecer introduzindo:

 o objeto indireto: “Roberto assistiu à novela das oito”.

 o objeto direto preposicionado: “louvavam a Deus”.

 o complemento nominal: “amor aos pais”.

 adjuntos adverbiais indicando várias relações, entre elas: a) lugar – “Ele


dirigiu-se ao estacionamento”; b) causa – “Ele sucumbiu a uma grave do-
ença”; c) tempo – “Eles saíram ao amanhecer”; modo, meio – “passaram a
pão e água”.

Crase: combinação e contração


Ao observarmos os exemplos de uso da preposição no processo de trans-
posição, percebe-se que ela pode aparecer unida a outra palavra, ocasio-
nando, dessa forma, duas situações. De Nicola (1998) assim distingue essas
situações:

199
Crase: questão de sintaxe de regência

 Combinação – a preposição aparece unida a outra palavra sem perda de


nenhum elemento fonético. Como por exemplo:

Ao: preposição a + artigo o

 Contração – a preposição, unida a outra palavra, perde algum elemento


fonético:

Do: preposição d(e) + artigo o

Na: preposição em + artigo a

Mas há outros casos de contração em que acontece a fusão da preposição a


com o artigo definido feminino a(s), ou da preposição a com o a inicial dos pro-
nomes demonstrativos aquele(s), aquela(s), aquilo, ou ainda da preposição a
com o pronome demonstrativo a(s), ou então da preposição a com o a inicial do
pronome relativo a qual (as quais). A essa fusão de duas vogais idênticas, grafi-
camente representada por um a com acento grave (à), dá-se o nome de crase.

Resumindo, no processo de crase, uma das vogais contraídas será sempre


a preposição (prep.) “a”, que deverá estar presente no termo regente, e a outra
(presente no termo regido) será: a) o artigo (art.) “a”; b) ou o pronome demons-
trativo (pron. dem.) “a”; c) ou a inicial dos pronomes demonstrativos aquele(s),
aquela(s), aquilo; d) ou ainda o “a” inicial dos pronomes relativos a qual, as quais.
Vejamos os exemplos:

(12) Márcio nunca foi obediente à mãe.

prep. art.
obediente a a mãe
regente à regido

(13) Não fiz referência a esta passagem do filme, mas à seguinte.

prep. pron. dem.


referência a a seguinte
regente à regido

200
Crase: questão de sintaxe de regência

(14) Não dê atenção àquilo.

prep. pron. dem.


atenção a aquilo
regente àquilo regido

(15) A estudante, à qual foi conferida a homenagem, parecia nervosa.

prep. pron. rel.


foi conferida a a qual
regente à qual regido

Preliminares: o uso do artigo definido


Como vimos, o artigo definido é parte integrante da contração de vogais
que dá origem à crase (apenas o artigo feminino), dessa forma, ao abordarmos
esse fenômeno da língua, torna-se necessário o estudo do uso ou da omissão do
artigo na linearidade linguística.

Normalmente, o estudo funcional do artigo é abordado tanto pelo ponto de


vista da gramática – aquilo que a gramática normativa aceita ou não como cons-
trução linguística “correta” – como da estilística – possibilidades que a língua ofe-
rece para que o autor alcance seu objetivo na comunicação.

Segundo Baccega (1989), não há como opor gramática e estilística, pois elas
se completam dentro dos estudos linguísticos. Para a autora, o sujeito da in-
teração é o produtor do sentido, e disso ele deve estar consciente. Podemos
dizer, assim, que as escolhas linguístico-discursivas do falante estão condicio-
nadas a cada texto, ao sentido que ele quer expressar. E esse fato não é diferen-
te quando falamos no uso ou omissão do artigo definido. Vejamos o exemplo
dado pela autora:

(16) Ela permanecia com os olhos arregalados: as grandes, as negras pupilas


estavam fixadas no infinito.
(17) Ela permanecia com os olhos arregalados, as grandes, negras pupilas es-
tavam fixadas no infinito.

201
Crase: questão de sintaxe de regência

Tanto um quanto outro exemplo estão gramaticalmente “corretos”, porém o


primeiro suscita duas imagens – as grandes e as negras –, já o segundo expressa
um sentido de totalidade, de uma coisa una – as grandes, negras. A opção por um
ou outro modo de se expressar dependerá do contexto interativo, das intenções
que estão em jogo no ato comunicativo.

Como o uso ou omissão do artigo definido pode interferir, em muitos casos,


na colocação ou não do sinal grave (`) – indicação da crase, ou seja, da contração
de duas vogais “a” – listamos, a seguir, as principais “regras” adotadas pelas gra-
máticas tradicionais, e exploradas por Baccega (1989), no que se refere à funcio-
nalidade do artigo definido.

Com artigo Sem artigo


Substantivo  Na acepção de prédio, edifício, es-  Na acepção de residência, lar, famí-
casa tabelecimento público (A Casa da lia, quando regida de preposição:
Moeda) ou conjunto de membros Dentro de casa, estava o marido e a
de uma mesma família/grupo: mulher.
Eu não me considero responsável pe-
las despesas da casa.  Ainda que venha acompanhada
de modificador, não aceitará o
 Em qualquer acepção, desde que artigo, se empregada em senti-
na função de Adjunto Adverbial do vago:
e acompanhada de modificador: Casa de ferreiro, espeto de pau.
Maria esperava que suas colegas apa-
recessem à noite, na casa de seus pais.

 Na acepção de sede de adminis-  Como Adjunto Adverbial, sem a


tração, gabinete de trabalho ou presença de modificador:
quando aparecer como Adjunto Os presidentes convidados reuniram-
Substantivo Adverbial, sem a presença de
Palácio se no Palácio da Alvorada.
modificador:
O procurador-geral chamou o funcio-
nário a Palácio, para cumprimentá-lo.

 Na acepção de parte sólida da  Na acepção de parte sólida da


superfície do globo (em oposi- superfície do globo, ou seja, em
Substantivo ção a mar, rio), desde que acom- oposição a mar, rio etc.:
terra panhada de modificador: Os marítimos foram impedidos pela po-
A terra dos índios Yay foi invadida. lícia de descer a terra, devido à greve.

 Caso venha acompanhado do  Caso venha precedido de prono-


nome de batismo ou prenome, me adjetivo possessivo:
Nomes de ou seguido de um adjetivo que Mário comprou a fazenda que perten-
parentesco evidencie a distinção: cia a seu pai.
A minha tia florista está doente. [só
tenho uma tia florista]

 Regra geral: recebem artigos:  Podem dispensar o artigo (junto


Aos domingos, a população da cidade com a preposição), quando se tra-
Dias da semana tar de Adjunto Adverbial:
procura lazer no campo.
Segunda-feira começa meu regime.

202
Crase: questão de sintaxe de regência

Com artigo Sem artigo


 Quando acompanhados de mo-  Regra geral: não se usa artigo:
Nomes de dificador: O frio de julho é insuportável.
meses O maio das mães e também o maio
das noivas.
 Usadas adverbialmente (emprega-  Regra geral: não se usa artigo
se o artigo junto da preposição): com as palavras que designam
Horas do dia horas do dia:
Todos os dias, às seis horas da manhã, o
sino da igreja dá seis badaladas. O relógio marcava onze horas.

 Para manifestar afetividade, inti-  Regra geral: não se usa artigo


midade: (sobretudo quando se trata de
Nome próprio personagens ilustres):
de pessoas A Júlia passou no vestibular.
Madonna acabou de lançar seu úl-
timo CD.

 A coletividade familiar pede o  Regra geral: não se usa artigo,


nome próprio no plural e com principalmente quando se trata
Nomes de
artigo: de pessoas conhecidas:
famílias
Os Silvas ainda moram em Bauru? Tudo indica que Maluf será novamen-
(sobrenome)
te candidato à presidência da Repú-
blica.

 O artigo antecede os pronomes  Regra geral: não se usa artigo:


de tratamento senhor, senhora, V. Exa. acabou de chegar de viagem.
Pronomes de senhorita quando a eles se junta
tratamento um nome ou um título:
A senhora Marília recebeu um presente.

 O artigo diante do pronome pos-  Quando o pronome possessivo


sessivo no singular expressa algo se referir a substantivos que de-
que pertence a uma pessoa: signam relações de parentesco:
Só pretendo fazer valer os meus direi- Meu pai comprou um carro.
tos: quero o meu, sem investir no seu.
 Quando o pronome possessivo
 No plural, tem significado de estiver antecedido de pronome
Pronome companheiros, conterrâneos: demonstrativo:
possessivo Peço-lhe desculpas em nome de todos Esta sua mania de julgar as pessoas
os meus. antecipadamente ainda vai lhe causar
problemas.
 Usa-se sempre o artigo caso o
pronome possessivo esteja pos-
posto ao substantivo:
Os olhos teus não são mais os
mesmos.

 Outro(a)(s) virá acompanhado de  Outro(a)(s) com sentido indeter-


Pronome artigo desde que tenha sentido minado não aceita artigo:
indefinido determinado: Além da dengue, outras epidemias fo-
Os outros são sempre os outros. ram detectadas na região.

 Substantivo concreto – totalida-  Substantivo com sentido inde-


de específica: finido:
A biblioteca é um espaço de leitura. Você sabe que não tenho ambições.

203
Crase: questão de sintaxe de regência

Com artigo Sem artigo


 Substantivos com noções abstra-  Substantivos abstratos usados
tas, no singular (o artigo, quando como provérbio:
empregado junto a substantivos Amor com amor se paga.
abstratos, serve também para
personificá-los):
O alcoolismo é uma doença que pre-
cisa ser tratada seriamente.

Preliminares: o emprego da preposição “a”


Como vimos, a crase se faz por um processo fonético de fusão de duas vogais
“a” idênticas, sendo a primeira necessariamente a preposição “a”. Essa preposição
“a” está sempre presente no termo regente, que pode ser um verbo, um nome
(substantivo ou adjetivo) ou um advérbio. Dessa forma, para a colocação do sinal
grave que marca a crase é necessário que saibamos os termos que regem a pre-
posição “a”. Apresentamos, assim, uma lista (não exaustiva) com alguns nomes,
verbos e advérbios que pedem a preposição “a”1:

Advérbios
analogicamente favoravelmente preferivelmente anteriormente

paralelamente posteriormente quanto relativamente

Nomes
abandono agressão aspirante aberto ajuda assalto

abraço abrigo ajustável assistência acessível alheio

acesso ataque acréscimo acusação ameaça atribuição

adaptável auxílio adequado aviso apelo afronta

agradável apoio combate comparação comum concessão

consulta convite crítica culto dedicação defesa

desafio desfavorável desprezo direito elogio entrega

1
Lista adaptada de Kury (1982, p. 120-124).

204
Crase: questão de sintaxe de regência

estímulo estranho fadado favorável fiel flexível

grato honra ida igual importante impróprio

imune inadequado incentivo indiferente inferior inofensivo

inútil introdução juramento justiça leal nocivo

ofensa oferta oposto orientação pagamento pavor

perdão pertinente prefácio preso pronto proteção

próprio propício próximo recusa relação resistência

restrito reverência rumo semelhança sensível simpatia

solidário subsídio sujeito superior temor tributo

viagem vínculo visita volta

Verbos
abraçar-se aderir agradar agregar apegar-se assistir

atender atentar brindar chegar cheirar começar

concorrer continuar corresponder dar dedicar-se deixar

enviar ensinar escrever impor forçar indicar

informar ir levar mostrar obedecer observar

ocorrer pagar orar pertencer perguntar prestar-se

reagir recorrer referir-se renunciar resistir servir

sorrir subordinar-se telefonar tender tocar voltar

Importante: Há indica tempo passado (“Moramos aqui há seis anos”);


A indica tempo futuro e distância (“Daqui a dez anos nos
casaremos”; “Moro a sete quadras daqui”).

Identificação do uso da crase


A literatura linguística costuma apresentar algumas regras para se saber se,
em uma determinada construção, a crase é necessária ou não. Ou seja, se o “a” é

205
Crase: questão de sintaxe de regência

apenas uma preposição exigida pelo termo regente, se ele é apenas um artigo
admitido pelo termo regido, ou se ele é uma fusão das duas vogais.

A regra mais prática para se identificar o uso da crase é passar o termo regido
para o masculino (usar um termo equivalente).

Observe o exemplo:

(18) Pedro dirigiu-se à fazenda.


(19) Pedro dirigiu-se ao clube.
(20) Pedro visitou a cidade.
(21) Pedro visitou o museu.

Em (18) a crase é solicitada, pois temos a fusão de uma preposição “a” + artigo
“a” – o exemplo (19) explicita essa fusão. Em (20) temos apenas o artigo “a” – esse
fato é visível em (21). Em (18) o termo regente pede a preposição “a” – dirigiu-se
a (algum lugar) – e em (20) isso não ocorre – visitou (alguém, alguma coisa).

Podemos sintetizar essa regra da seguinte forma: somente quando aparecer


“ao” (preposição “a” + artigo “o”) na frase que foi passada para o masculino é que
teremos crase na frase no feminino.

Veja o esquema apresentado por Baccega (1989, p. 67):

MASCULINO FEMININO
a + o = ao a + a=à

prep. art. prep. art.

Passaremos, agora, a apresentar os casos em que não pode ocorrer a crase, os


casos em que a crase é obrigatória e os casos facultativos.

Casos em que não ocorre a crase no “a”


 Antes de substantivos masculinos: Andar a pé, andar a cavalo, assistir a filme.

 Antes de verbos: Demorou a chegar, caso a estudar, dispostos a trabalhar.

 Antes do artigo indefinido “uma” e dos pronomes que não admitem o


artigo “a” (pessoais, indefinidos, demonstrativos, relativos, de trata-

206
Crase: questão de sintaxe de regência

mento) e antes de numerais: Submeter a uma experiência, a mim, a ela, a


si, a V. Exa., a nenhuma parte, a cada uma, a ninguém, a nada, a quem respei-
to, a cuja autoridade submeto, de 10 a 100.

 Quando o “a” aparece sozinho antes de palavras no plural: A obras,


a pessoas.

 Entre palavras iguais: Face a face, gota a gota, ponta a ponta, parte a parte.

 Depois de preposições (ante, após, com, conforme, contra, desde, du-


rante, entre, mediante, para, perante, sob, sobre, segundo): Desde a
véspera, sobre a questão, segundo a lei, entre as árvores, após as aulas, para
a paz, contra a maré.

 Antes da palavra “casa” no sentido de lar, domicílio, quando não


acompanhada de adjetivo ou locução adjetiva: Chegavam a casa nor-
malmente às oito horas da noite.

 Antes da palavra “terra” quando se opõe a “bordo”, a “mar”: Os mari-


nheiros desceram a terra para visitarem a cidade.

 Antes de nomes próprios de lugar que não admitem o artigo “a”: Fui a
Brasília, a Belém, a Manaus, a Roma, a Paris, a Londres.

Casos em que a crase é obrigatória


Já vimos que sempre que ocorrer a fusão do “a” preposição com o “a” artigo
ou pronome demonstrativo, haverá a necessidade do acento grave (`) na vogal
“a”, ou seja, ocorrerá a crase do “a”. Vimos também que a crase pode ocorrer pela
fusão da preposição “a” com a vogal inicial dos pronomes “aquele (a)(s)”, “aquilo”,
“a qual” e “as quais”. Vamos ver agora alguns casos especiais da necessidade da
ocorrência da crase.

 Na indicação do número de horas: Chegamos às dez horas; às três horas


abrirei o escritório.

 Na expressão “à moda de”: Calçados à Luís XV; poetar à Olavo Bilac.

 Nas expressões adverbiais femininas, exceto as de instrumento: Cheguei


à tarde; falou à vontade; saiu às pressas; gosta de escrever cartas a máquina.

 Nas locuções conjuntivas e prepositivas: À proporção de, à medida que,


à força de, à procura de, à espera de.

207
Crase: questão de sintaxe de regência

Casos de uso facultativo da crase


 Antes dos pronomes possessivos: Dirija-se a (à) sua fazenda; faltava fir-
meza a (à) nossa ideia.
 Depois da preposição “até”: Dirija-se até a (à) porta.
 Antes de nomes próprios femininos: Refiro-me a (à) Gabriela.

Texto complementar

Crase
Noções preliminares
(KURY, 1982, p. 99-100)

A palavra crase, de origem grega, significa “mistura”, “fusão” – ou seja, a


união íntima de dois elementos. Em gramática, usa-se o vocábulo crase para
indicar o fato fonético de duas vogais iguais se fundirem, se unirem numa só.

É um fenômeno bastante comum na fala, como se pode comprovar com


alguns exemplos.

1.º Em grupos de palavras como Dona Ana – pronunciado Donana –, mi-


nha alma – pronunciado minhalma –, o a final de DonaA e de minhA se
fundem, por uma crase, com o a inicial de Ana e de Alma.
2.º O mesmo fenômeno pode ocorrer dentro de um vocábulo, como na
palavra caatinga (que designa um tipo de vegetação próprio do Nor-
deste) pronunciado catinga, em que os dois aa das primeiras sílabas se
fundiram num só. É a forma com crase que Graciliano Ramos emprega
no fim do primeiro parágrafo do seu romance Vidas Secas:

“A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados


da catinga rala.”

3.º Lendo-se correntemente este verso (de dez sílabas métricas) de Castro
Alves:
“Quan / do eu / pa / sso / no / Saa / ra a / mor / ta / lha / da“
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

208
Crase: questão de sintaxe de regência

Podem observar-se duas crases: a primeira na 6.ª sílaba, Sa, redução de


Sa-a, no vocábulo Saara; a segunda na 7.ª sílaba, ra, em que ocorre a fusão
numa só sílaba do a final de SaarA e do inicial de Amortalhada.
4.ª Nesta frase das Cartas Persas, traduzidas do francês pelo filólogo brasi-
leiro Mário Barreto:
“Toda a gente se compraz em dar a este e tirar a aquele.”
Na leitura corrente ocorrem duas crases, grifadas no texto: a primeira
entre o a final de todA e o artigo A; a segunda entre a preposição A e o a ini-
cial do demonstrativo aquele.
Cumpre lembrar que, nesta última crase, a norma ortográfica atual reco-
menda a escrita àquele, com acento grave (usa-se acento grave, e não tônico,
pelo fato de o a ser átono, e não tônico) no a do demonstrativo.

É este um dos três casos de dois aa que se craseiam num só, escrito à:
1.º caso – encontro da preposição a com o a inicial dos demonstrativos
aquele(s), aquela(s), aquilo – que passam a escrever-se àquele(s), àquela(s),
àquilo.
2.º caso – encontro da preposição a com o artigo definido feminino a, as,
que passa a escrever-se à, às.
3.º caso – encontro da preposição a com o pronome demonstrativo a, as
que passa a escrever-se à, às.

Obs.: conforme se pode depreender destas noções preliminares, a crase é


um fenômeno fonético da língua falada, o qual só se assinala com o acento
grave, na escrita, nos três casos enumerados.

Dicas de estudo
 NEVES, M. H. M. Que Gramática Estudar na Escola? Norma e uso na lín-
gua portuguesa. São Paulo: Contexto, 2004.

A obra reflete a “eterna” preocupação da autora (já demonstrada em outras


obras) de que se institua um tratamento escolar mais científico das atividades de
linguagem, especificamente das atividades ligadas à gramática de língua materna.
O foco de suas reflexões é com os usos correntes atuais, mas sem perder de vista as
variantes desse uso, incluindo a norma que é tradicionalmente considerada padrão.

209
Crase: questão de sintaxe de regência

 BACCEGA, Maria A. Artigo e Crase. São Paulo: Ática, 1989.

O artigo e os processos de crase são estudados pela autora de forma objetiva


e de acordo com o ponto de vista da gramática e da estilística.

Estudos linguísticos
1. Explique por que razão a crase está incluída na sintaxe de regência.

210
Crase: questão de sintaxe de regência

2. Como se pode distinguir a contração da combinação?

3. Preencha os espaços em branco com a vogal “a”, empregando o acento grave


indicador da crase, quando necessário.

a) Chegou............São Paulo o presidente da República.

b) Está prestes........morrer.

c) Foi uma homenagem.......Vossa Excelência.

d) Contarei uma história.......você.

e) Só chegaremos daqui........dez dias.

f) Não precisa perguntar..........mim, mas sim........quem esteve presente........


discussão.

g) Informe.....todos que, ........ partir de amanhã haverá expediente.....noite


211
Crase: questão de sintaxe de regência

Referências
BACCEGA, Maria A. Artigo e Crase. São Paulo: Ática, 1989.

DE NICOLA, J. Língua, Literatura & Redação. São Paulo: Scipione, 1998.

KURY, Adriano da Gama. Ortografia, Pontuação, Crase. Rio de Janeiro: FENAME,


1982.

NEVES, Maria Helena de Moura. A Gramática Funcional. São Paulo: Martins


Fontes, 2004.

PERINI, Mário A. Sintaxe Portuguesa: metodologia e funções. São Paulo: Ática,


1989.

Gabarito
1. Porque a relação entre o verbo e o termo subordinado implica a regência
verbal e a relação entre um nome e o termo subordinado implica a regência
nominal. Como a relação entre termo regente e termo regido pode ocorrer
com a presença de um transpositor, conector ou preposição, então incluí-
mos a crase na sintaxe de regência (verbal e nominal).

2. A combinação ocorre quando a preposição aparece unida a outra palavra


sem a perda de nenhum elemento fonético. Já a contração ocorre quando a
preposição unida a outra palavra perde algum elemento fonético.

212
Crase: questão de sintaxe de regência

213
Sintaxe de colocação

Podemos iniciar a nossa reflexão sobre o tema desta aula com os versos
do poema “Pronominais”, de Oswald de Andrade (1980, p. 22-33):
Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro

A questão da colocação dos pronomes oblíquos átonos em relação aos


verbos da oração já era bastante discutida na gramática da língua portu-
guesa na época em que o escritor e professor de literatura brasileira da
Universidade de São Paulo, Oswald de Andrade, escrevia e publicava seus
versos (entre os anos de 1908 a 1954). O polêmico escritor expressava sua
crítica à prescrição da gramática do português em relação às posições clí-
ticas (antes do verbo, entre o radical e a terminação do verbo ou após o
verbo) que impõe regras e normas tão “fechadas” aos usuários da língua.

Podemos compreender a sua crítica se considerarmos que os usos per-


mitem a variação de acordo com os contextos sociais – tornando inúteis
as normas e prescrições para esses usos. Os que viajam a Portugal, por
exemplo, se surpreendem com a variação das posições clíticas (são as di-
ferentes posições que vocábulos tônicos ou átonos assumem para unir-
-se a outro que os segue ou que os precede). Assim, os vocábulos clíticos
podem ser proclíticos ou enclíticos.

Em relação à posição clítica dos pronomes pessoais átonos, há diferen-


ças no uso que deles fazem os usuários da língua. Por exemplo, enquanto
no Brasil é comum o uso do pronome oblíquo átono no início da oração
nos enunciados orais (Me dê um cigarro); em Portugal, é mais comum o

215
Sintaxe de colocação

uso da colocação do pronome após o verbo, sem recorrer ao uso em posição


inicial (Dê-me um cigarro).

Por exemplo:

No Brasil, oralmente se diz: Em Portugal:

Me dê o açúcar. Dê-me o açúcar.

Te vi no shopping ontem. Vi-te no shopping.

Sabemos que a maneira de falar se renova mais rápido do que o modo como
se escreve, já que o texto escrito requer uma certa padronização para ser com-
preendido por mais pessoas durante mais tempo. Além disso, a oralidade prece-
de a escrita e é muito mais utilizada.

Bagno (2000) salienta que fenômenos de ordem social e cultural modificam


as formas de viver, as manifestações culturais e as organizações política e eco-
nômica da sociedade. Além disso, segundo o autor, os povos se deslocam, se
influenciam e se distanciam em vários aspectos, inclusive no que se refere aos
aspectos morfossintáticos da língua – foco de nossos estudos.

Você já deve ter ouvido frases em forma de tópicos, e não mais organizadas
no padrão sujeito e predicado, em que se começa a frase com um tópico e depois
passa para a ação como, por exemplo, “a casa, roubaram os portões dela”.

É uma construção oral que já chamou a atenção dos especialistas, mas ainda
não chegou às gramáticas. Esse caso comprova a ideia de que o português não
padrão – aquele utilizado informalmente – tem sua própria lógica e regras in-
ternas. Outro uso que tem chamado a atenção dos estudiosos das normas é o
que se faz com o gerúndio: “Assim que eu ler o contrato, vou estar enviando os
demais documentos”. Esse uso – denominado “gerundismo” – tem se tornado
comum, ainda que o consideremos de extremo mau gosto.

Assim, você percebeu que temos aqui uma questão polêmica sobre o uso da
língua, no caso dessa aula: onde colocar o pronome oblíquo átono em nossos
enunciados orais e escritos? E é sobre essa questão que vamos tratar.

As funções sintáticas dos pronomes pessoais


Iniciemos a nossa reflexão pensando na classe dos pronomes pessoais que, de
acordo com as gramáticas tradicionais, apresentam formas diferentes para cada
216
Sintaxe de colocação

um dos três grupos funcionais: “pronomes retos”, “pronomes oblíquos átonos”,


“pronomes oblíquos tônicos”:

 pronomes pessoais retos: eu, tu, “você”, ele/ela, nós, vós, “vocês”, eles/elas;
 pronomes oblíquos átonos: me, te, se, o/a, lhe, se, nos, vos, os/as, lhes;
 pronomes oblíquos tônicos: mim, comigo, ti, contigo, si, consigo, ele/ela,
nós, conosco, vós, convosco, eles/elas.

Azeredo (2004, p. 197) assim se refere às formas desses grupos:

 as formas do grupo dos “pronomes retos” servem às funções de sujei-


to e de predicativo;
 as formas do grupo dos “pronomes oblíquos átonos” servem às fun-
ções de complemento do verbo (objeto direto, objeto indireto e ad-
junto adverbial);
 as formas do grupo dos “pronomes oblíquos tônicos” servem às fun-
ções de complemento precedido de preposição.

 Ele/ela/eles/elas/nós/vós no registro formal:

O autor salienta que ele/ela/eles/elas/nós/vós servem, no registro formal,


tanto às funções de sujeito e predicativo, como às de complemento precedido
de preposição. Vejamos os exemplos:

No grupo dos “pronomes retos”:


(1) Ele se dignou a me ajudar. (função: ele – sujeito);
(2) O ator se transforma nele. (função: (em) + ele – predicativo do sujeito)
No grupo dos “pronomes oblíquos tônicos”:
(3) Os professores ofereceram doces e brinquedos a elas.
(função: a elas – complemento verbal, objeto indireto).

 Ele/ela/eles/elas no registro informal:

Quanto ao emprego desses pronomes no registro informal, segundo Azere-


do (2004), ele/ela/eles/elas cumprem os papéis sintáticos dos três grupos.

Por exemplo:

217
Sintaxe de colocação

(4) Com elas, a gente encontrou a paisagem mais beleza da cidade.


(com elas: adjunto adverbial de companhia)

(5) Ele pediu para nós e nós atendemos.


(para nós: complemento verbal, objeto indireto)

 Quanto ao emprego do pronome oblíquo átono o no registro formal:

A forma oblíqua átona da terceira pessoa, o, é empregada, no registro formal,


sem marca de gênero e número, substituindo sintagmas nominais derivados por
transposição de orações e sintagmas adjetivais. Como, por exemplo:

(6) Perguntei-lhe se ela aceitaria nos ajudar, mas ela não o quis.
(Sintagma nominal substituindo a oração nos ajudar)

(7) Aquelas frutas são muito procuradas e o são com razão: são deliciosas.
(Sintagma nominal substituindo o adjetivo procuradas)

Como você pode verificar, os usos dos pronomes pessoais em contextos


formais e informais está condicionado a diferentes fatores. O que nos interessa
nessa aula são o uso e a colocação dos pronomes oblíquos átonos na oração.
Vamos iniciar explorando as diferentes posições que esse pronome pode ocupar
na frase, em relação ao verbo.

Posições do pronome átono junto ao verbo


Dependendo da posição do pronome átono em relação ao verbo, podemos
ter três fenômenos linguísticos, conforme demonstra o quadro abaixo:

Ex.: É preciso acompanhá-


Ênclise O pronome enclítico é aquele colocado após o verbo.
las ao baile.

Próclise O pronome proclítico é aquele colocado antes do verbo. Ex.: Eu não a vi hoje.

Mesóclise O pronome mesoclítico é aquele intercalado ao verbo. Ex.: Calar-me-ia, se pudesse.

Antes de entrarmos nas particularidades da colocação pronominal é impor-


tante ressaltarmos alguns casos do uso das formas oblíquas o(s) e a(s).

 Quando o pronome oblíquo da 3.ª pessoa, na função de objeto direto, vier


antes do verbo, usa-se as formas o(s), a(s):

218
Sintaxe de colocação

(8) Nunca a encontramos em casa.


(9) Eu não o vejo há anos.

 Quando estiver em posição enclítica, ou seja, antes do verbo, e a forma


verbal terminar em vogal ou ditongo oral, usa-se as formas o(s), a(s):

(10) Louvava-a.
(11) Eu olhei-o, assustado.

 Quando a forma verbal terminar em -r, -s ou -z, eliminam-se estas conso-


antes e o pronome assume as formas lo(s), la(s):

dar + a = dá-la

vender + as = vendê-las

encontrar + o = encontrá-lo

ver + os = vê-los

 Quando a forma verbal terminar em ditongo nasal, o pronome assume as


formas no(s), na(s):

trouxeram + a = trouxeram-na

põe + as = põe-nas

amam + o = amam-no

dão + s = dão-nos

O pronome oblíquo nos, quando complementa formas verbais terminadas


em -s, força a supressão desta consoante:

Forremos + nos = forremo-nos

Ressaltamos que as mesmas transformações verbais e pronominais da êncli-


se valem para a mesóclise:

219
Sintaxe de colocação

darei + o = dar + o + ei = dá-lo-ei

Vamos, agora, tratar das normas de colocação dos pronomes oblíquos


átonos, privilegiadas pela norma culta da língua, a partir da bipartição: prono-
mes átonos atrelados à forma simples do verbo e pronomes átonos presos à
sequências verbais.

Colocação pronominal em norma culta:


pronomes átonos atrelados à
forma simples do verbo
Vamos dividir a exposição das regras a partir das três posições do pronome
átono em relação ao verbo: a ênclise, a próclise e a mesóclise. Vale ressaltar que,
do ponto de vista da norma culta da língua, a posição “normal” do pronome
átono é a ênclise, dessa forma, para que ocorra a próclise ou a mesóclise é neces-
sário haver “justificativas” – condições aceitas pela norma padrão. Vejamos os
principais casos.

Ênclise
Segundo Bearzoti Filho (1990), a norma culta impõe, necessariamente, a ên-
clise como sendo a posição correta sempre que o verbo iniciar um grupo de
força, ou seja, sempre que vier após uma pausa (na fala: um silêncio; na escrita:
um sinal de pontuação) ou iniciar uma oração coordenada sindética aditiva1. Ve-
jamos alguns exemplos:

(12) Trataram-na com muita simpatia.


(13) Não teve jeito, declarou-se perdedor.
(14) O viajante chegou e aproximou-se.

Próclise
A próclise deve ocorrer sempre que houver palavras, ditas atrativas, agindo
diretamente sobre o verbo, ou seja, essas palavras têm o poder de atrair o pro-
nome para antes do verbo.

1
Segundo Bearzoti Filho (1990), a norma culta não é tão rigorosa no caso das orações coordenadas, mas, ainda assim, a ênclise é a mais recomendável.

220
Sintaxe de colocação

Essas partículas atrativas são:

 pronomes substantivos, indefinidos e relativos (aquilo, isso ninguém,


nada, tudo, que, quem, onde etc.):

(15) Apesar do susto, ninguém se feriu.


(16) Todos os deixam nervosos.
(17) Aquilo me entristeceu bastante.
(18) Isso me deixa transtornado.
(19) Esse é um lugar onde me sinto mal.

 advérbios (não, agora, ainda, amanhã, antes, hoje, quase, tão, melhor,
pior etc.)

(20) Não o procurei para pedir dinheiro.


(21) Aqui se vive muito bem.

 a conjunção “nem”:

(22) Não o ouviu nem o viu.

 Gerúndios precedidos da preposição “em”:

(23) Em se tratando de mulheres guerreiras, estamos muito bem servidos.

Do ponto de vista da norma culta, a próclise também é exigida em alguns


tipos de oração.

 Orações subordinadas:

(24) Comprarei esse objeto se me for útil.


(25) Trabalho somente para pessoas que me respeitam.

 Orações interrogativas iniciadas por palavras interrogativas (quem, o que,


como, onde, por que etc.):

(26) Quem me fará uma massagem nas costas?


(27) Por que se vestiu para uma festa?

221
Sintaxe de colocação

 Orações exclamativas iniciadas por palavra exclamativa (que, como,


quanto etc.):

(28) Quanto me doeu dizer isso!


(29) Como a amo, mamãe!

 Orações optativas (que exprimem desejo), quando não iniciadas pelo verbo:

(30) Deus o guarde!


(31) A vida lhe seja grata!

Mesóclise
A mesóclise é exigida com os tempos verbais do futuro do indicativo, desde
que não haja justificativa para a próclise (é importante registrar que a norma
culta não aceita a ênclise com verbos no futuro do indicativo):

(32) Comemorar-se-á o dias das mães com uma grande festa.


(33) Procurar-me-iam caso precisassem de ajuda.
(34) Tudo lhe contarei. (embora o verbo esteja no futuro do indicativo, o
pronome indefinido “tudo” justifica a próclise).

Colocação pronominal em norma culta:


pronomes átonos presos às formas
compostas do verbo
Embora com uso pouco frequente no português do Brasil, a norma culta da
nossa língua privilegia as seguintes colocações pronominais.

Verbo auxiliar + infinitivo ou gerúndio


 Caso não haja fator que justifique a próclise, o pronome poderá ser colo-
cado depois do verbo auxiliar ou depois do infinitivo/gerúndio:

222
Sintaxe de colocação

(35) Devo-lhe mandar a encomenda amanhã.


(36) Ele vinha arrastando-se pela avenida lotada.

 Caso haja fator de próclise, o pronome pode ser colocado antes do verbo
auxiliar ou depois do infinitivo/gerúndio:

(37) Nada lhe devo dizer.


(38) Nada devo dizer-lhe.
(39) Todos nos estavam aguardando.
(40) Todos estavam aguardando-nos.

Verbo auxiliar + particípio


 Caso não haja fator de próclise, o pronome deve ficar depois do verbo
auxiliar:

(41) Haviam-me oferecido um ótimo serviço.

 Caso haja fator de próclise, o pronome deve ficar antes do verbo auxiliar:

(42) Não me haviam oferecido nada.

Colocação pronominal
no uso coloquial da linguagem
Segundo Vieira (2007), as reflexões sobre a colocação pronominal tomam
feições muito particulares, pois esse é um tema bastante implicado com o fenô-
meno sociolinguístico. Para a autora, as possibilidades de colocação pronominal
são favorecidas por fatores diversos, não só estruturais, mas também estilísticos
e rítmicos. Vejamos uma fala da autora:
[...] a ordem dos clíticos pronominais constitui forte ilustração de um fenômeno que advém da
inter-relação de diferentes níveis gramaticais, legítimo caso de interface que, por isso mesmo,
ainda não se encontra de todo elucidado na(s) gramáticas do português. (VIEIRA, 2007, p. 122)

Realmente, quando nos deparamos com diferentes gramáticas, podemos ve-


rificar posicionamentos diversos em relação ao que é “normatizado” pela norma
223
Sintaxe de colocação

padrão, ao que é aceito ou ao que é considerado “transgressão”, dentro dos estu-


dos da colocação pronominal.

Para Perini (1989), essas dificuldades estão atreladas à diferença entre as varie-
dades brasileira e europeia da língua portuguesa. Dessa forma, o usuário da língua
costuma vacilar entre o respeito à norma padrão europeia – aquela que predomina
nas gramáticas escolares e nas mais tradicionais – e a adaptação ao uso brasileiro.

Para o autor, a ênclise – posição privilegiada pela variante europeia – estaria


desaparecendo do português brasileiro, sobretudo na língua falada. Esse fato é
explicado foneticamente na pronúncia brasileira, os pronomes clíticos não são
átonos, mas semitônicos, com certa liberdade de acentuação, o que facilita o uso
da próclise. Esse uso, segundo o autor, está influenciando fortemente a modali-
dade escrita (e com tendência a se acentuar).

Dessa forma, podemos dizer que, na variante do português brasileiro, a prócli-


se é a posição “natural”, sendo a ênclise utilizada em contextos em que se busca
um maior formalismo linguístico. Vejamos alguns casos ligados ao uso efetivo da
colocação pronominal.

 Nas formas compostas do verbo ou locuções verbais, os pronomes átonos


podem aparecer em posição proclítica ao verbo principal no particípio.
Azeredo (2004), ao comentar esse uso, afirma que essa é a posição usual
em todas as variedades do Brasil:

(43) Devo lhe mandar a encomenda ainda hoje.


(44) Tinham me convidado.
(45) Ele tem se dedicado aos estudos.

 A próclise do verbo auxiliar, que não é comum no português brasileiro,


tem um “ar arcaico”, mas é frequentemente utilizada para produzir efeitos
de ironia, pelo estilo “solene” desse uso.

(46) O horário político sempre me tem trazido exemplos hilários da situa-


ção frente às câmeras.

 Segundo Bearzoti Filho (1990), a próclise em início de período é uma cons-


trução bastante usual na fala popular (e, não raramente na escrita de bons
escritores, sobretudo para reproduzir a língua falada):

224
Sintaxe de colocação

(47) Me esqueci que você não gosta de peixe.


(48) Lhe falei, doutor, já estou curado.

 Bearzoti Filho também coloca como bastante usual a colocação do prono-


me após pausa no interior do período e início de orações coordenadas:

(49) Depois, nos falta dinheiro para comprar comida.


(50) Sua filha lhe ama e lhe respeita.

Tais usos demonstram que a diferença entre a norma padrão e o uso colo-
quial da língua vem transformando a colocação pronominal num fato de estilís-
tica. Como diz Melo (1976), a gramática registra e sistematiza os fatos da língua; a
estilística os interpreta à luz da expressividade, examinando o que está adequa-
do ou inadequado à situação linguística real, de uso concreto.

Colocação pronominal:
fatores ligados à sonoridade do enunciado
A colocação dos pronomes pessoais oblíquos átonos está condicionada a fa-
tores de três ordens: prosódica, sociocomunicativa e sintática.

Do ponto de vista prosódico


Devemos considerar o padrão determinante da distribuição dos acentos de
intensidade e como os vocábulos sem acento se subordinam aos que contêm
sílaba tônica para a formação dos vocábulos fonológicos.

Por ser uma unidade que é delimitável por pausa no corpo do vocábulo, a
sílaba tem uma importância fundamental no eixo sintagmático da nossa língua.
É na sequência das sílabas, por exemplo, que podemos perceber o fenômeno da
intensidade, responsável pelo contraste entre sílabas fortes – tônicas – e fracas
– átonas.

Para Bechara (2004), essa é a preocupação maior da prosódia do português


(prosódia é a parte da fonética que trata da correta acentuação e entonação dos

225
Sintaxe de colocação

fonemas): o enfoque da prosódia é o conhecimento da sílaba predominante,


chamada sílaba tônica. Para o autor, acentuação é o modo de proferir um som
ou grupo de sons com mais intensidade que os outros. O acento de intensidade
(acento tônico) marca a intensidade de uma sílaba em relação à outra na mesma
palavra.

Observe as sílabas tônicas assinaladas nas palavras a seguir. As sílabas que


não estão assinaladas são sílabas átonas. Observe que as sílabas átonas podem
vir antes ou depois da sílaba tônica:

(51) sólida, barro, poderoso, material, café, sabiá, sabia, médico, cântico

São sílabas tônicas: só-; bar-; – ro-; -al; -fé; -á; -bi-; mé; cân-

São sílabas átonas: todas as demais, retirando as sílabas tônicas dessas palavras.

Conforme Bechara (2004), quando as palavras se sucedem na frase, deixa


de prevalecer o acento da palavra para entrar em cena o acento frásico, isto é,
o acento da frase, pertencente a cada grupo de força. Para o autor, chama-se
“grupo de força” à sucessão de dois ou mais vocábulos que constituem um con-
junto fonético subordinado a um acento tônico predominante.

A distribuição e alternância de sílabas mais fortes ou mais fracas em um grupo


de força determinam uma certa “cadência” que, conforme a intenção do enuncia-
dor, dá ritmo ao enunciado. Assim, para Bechara (2004), o “grupo de força” está
subordinado a um acento tônico predominante.

Observe o exemplo apresentado pelo autor:

grupo de força 1 grupo de força 2


(52) A casa de Pedro / é muito grande.

Em (52), há dois grupos de força que se encontram indicados por barra. No


primeiro grupo de força, as palavras a e de se incorporam a casa e Pedro, fican-
do o conjunto subordinado a um acento principal na sílaba inicial de Pedro; e
um acento secundário na sílaba inicial de casa. No segundo grupo de força, as
palavras é e muito se incorporam foneticamente a grande, ficando o conjunto
subordinado a um acento principal na sílaba inicial de grande e outro secundá-
rio, mais fraco, na sílaba inicial de muito.

226
Sintaxe de colocação

No grupo de força, pode-se observar vocábulos que perdem seu acento pró-
prio para unir-se a outro que os segue ou que os precede. Dizemos que tais vo-
cábulos são chamados clíticos (que se inclinam) ou átonos (porque se acham
destituídos de seu acento vocabular). Aquele vocábulo que, no grupo de força,
mantém sua individualidade fonética é chamado de vocábulo tônico.

Conforme já vimos nesta aula, os clíticos serão proclíticos se precedem o


vocábulo tônico a que se incorporam para constituir o grupo de força, como
nos exemplos de grupos de força apresentados por Bechara (2004): o rei // deve
estar, que se pronunciam / urrey / /devistar/.

Mas, se estiverem depois do vocábulo tônico se dizem enclíticos, como nos


exemplos a seguir: disse-me // ei-lo // falar-lhe.

Em português, segundo Bearzoti Filho (1990), assim se distribuem as classes


de palavras proclíticas e enclíticas.

 Classes de palavras átonas e proclíticas: artigos (o homem); certos nu-


merais (um livro// três livros); pronomes determinantes antepostos (este
livro// meu livro// cada livro); pronomes pessoais antepostos (ele vê// eu
disse); pronomes relativos (que, cujo etc.); verbos auxiliares (deve levar;
há de estudar etc.); certos advérbios (já vi, não posso); certas preposições
(a, de, com, por etc.); certas conjunções (e, nem, ou, mas, se etc.).

 Classe de palavras enclíticas: os pronomes me, te, se, nos, vos, o, a, os,
as, lhe, lhes, quando pospostas ao vocábulo tônico.

A prosódia que, como você já viu nesta aula, se preocupa com o conhecimen-
to da chamada sílaba tônica, classifica os vocábulos quanto ao número de sílabas
em monossílabos (se têm uma sílaba), dissílabos (se têm duas sílabas), trissílabos
(se têm três sílabas) e polissílabos (se têm mais de três sílabas).

Os clíticos são geralmente monossilábicos por não terem acento próprio,


também se dizem átonos, e os monossílabos que apresentam individualida-
de fonética se chamam tônicos. Os monossílabos tônicos são aqueles que têm
acento próprio e, portanto, são pronunciados com maior intensidade, como por
exemplo: lá, cá, pé, sol, mar, fel, gol, sal etc. Os monossílabos átonos (átono,
“sem tom”, “sem força”) não se destacam e aparecem ligados, foneticamente,
às palavras próximas, como os artigos o, a, os, as; os pronomes me, te, se; as

227
Sintaxe de colocação

preposições de, da etc. Os monossílabos átonos vêm, por isso, apoiados em


uma palavra vizinha, portadora de acento próprio e junto à qual formam um
vocábulo fonológico.

Basílio (2004), refletindo sobre os postulados de Mattoso Câmara Jr. sobre


o vocábulo formal, afirma que os vocábulos fonológicos não se separam por
pausas na corrente da fala: “em português, o vocábulo fonológico depende da
força de emissão das suas sílabas. A verdadeira marca da delimitação vocabular é a
pauta prosódica” (CÂMARA JR. apud BASÍLIO, 2004) (grifo nosso).

Ou seja, a autora cita as palavras de Mattoso Câmara Jr. quando este afirma
que, na língua portuguesa o vocábulo fonológico é definido pela pauta prosó-
dica, determinada pelo acento tônico. A autora, expert da obra de Câmara Jr.,
define como vocábulos formais a maioria dos nomes e verbos, mas também arti-
gos, preposições etc., excetuando-se os pronomes clíticos. Os pronomes clíticos,
portanto, não constituem vocábulos formais.

Macambira (1982) também se refere aos vocábulos formais que têm em


comum o fato de não serem formas presas. O autor explica que as formas
livres podem aparecer sozinhas no discurso, especialmente em uma pergunta
ou em uma resposta. O autor explicita a questão, afirmando que as formas
presas são incorporadas a algum membro da oração, ou seja, vêm apoiadas
em uma vizinha que é portadora de acento próprio e, junto com ela, formam
um vocábulo fonológico.

Vejamos o funcionamento das formas livres e das formas presas no exem-


plo de Macambira (1982). Observe a posição da preposição de e dos prono-
mes se e me:

(53) Você vai à festa?


– Sim.
– Onde?
– Lá.
– Você sequer se lembrou de me convidar...

Em (53), temos três formas livres: sim, onde, lá. Mas, também, encontramos
três formas presas: à, se, de, me.

Azeredo (2004) não se refere a “formas livres” e “formas presas”, contudo de-
monstra, no exemplo a seguir, que os monossílabos átonos, inacentuados, vêm

228
Sintaxe de colocação

apoiados em uma palavra sozinha que é portadora de acento próprio. Observe


que o autor se refere, implicitamente, às “formas presas”:

(54) Por favor, passe por lá sem pôr o pé no tapete.

Em (54), temos oito monossílabos, dos quais cinco são átonos: por, por, sem,
o, no, ou seja, se apoiam nos vocábulos vizinhos portadores de acento próprio
(/porfavor/, /porlá/, /sempôr/, /opé/, /notapete/), formando com eles segmentos
que se pronunciam como grupos coesos de sílabas: são vocábulos fonológicos.
No exemplo (54), três são monossílabos tônicos: lá, pôr, pé, ou seja, são pronun-
ciados com acento próprio.

Observe os vocábulos fonológicos no exemplo a seguir, todos eles sendo se-


parados entre si por duas barras inclinadas (//):

(55) Por favor, // passe // por lá // sem pôr // o pé // no tapete.

O autor observa que, ao enunciar essa frase de forma natural, pronunciamos


os monossílabos como se fossem sílabas inacentuadas das palavras em que se
apoiam. Esse fato explica porque algumas pessoas cometem erros ortográficos
como derrepente, em lugar de de repente.

No português brasileiro, o vocábulo átono, quando é forma presa, normal-


mente encontra apoio no outro que vem depois dele, como acontece com os
monossílabos do exemplo (55).

O fato prosódico do qual estamos tratando se apresenta com uma relativa com-
plexidade, uma vez que é a esse fator que se pode atribuir a próclise do pronome.

Segundo Azeredo (2004) e Bearzoti Filho (1990), a preferência pela adoção


da próclise do pronome se deve ao fato de que o ritmo da frase no português
favorece o uso proclítico do pronome átono (antes do verbo). Ambos os autores
concordam que o uso das formas o, a, os, as é raro, e que os uso das formas -lo,
-la, -los, -las são mais frequentes. O uso mais espontâneo da língua não admite
o uso das formas o, a, os, as no início da frase como, por exemplo, “Os convidei
para o cinema”.

Esse uso pouco frequente das formas o, a, os, as aliado ao uso mais frequente
das formas –lo, -la, -lo, -las é responsável por uma peculiaridade: justamente os
pronomes átonos mais comuns são iniciados por uma consoante (me, te, lhe,

229
Sintaxe de colocação

se (como reflexivo)). Afirma Azeredo (2004, p. 198) sobre esse fenômeno que “a
posição proclítica pela qual são usados favorece o relevo fonético desses prono-
mes, tornando-os semitônicos”.

Assim, considerando Bagno (2002), na fala brasileira, nos usos coloquiais, fica
bem nítida a pronúncia semitônica desses pronomes (em contrapartida com a
pronúncia átona dos europeus), com certa independência de acento fonético.
Esse fato leva ao uso da próclise ao invés da ênclise, o que ainda causa “horror” a
alguns professores de português:

(56) Me dá um dinheiro aí!


(57) Se manda daqui!

Do ponto de vista sociocomunicativo


Para o sociolinguista Marcos Bagno (2002), a preferência pelo uso enclítico do
pronome átono (ou seja, posição em que o pronome oblíquo átono vem após o
verbo e nunca no início do enunciado) em certos contextos de uso oral ou escrito
é um indício do formalismo exigido pela situação de interação social em que se
encontram os interlocutores (envio-te, desejo-lhe, comunico-lhe), não se trata de
um imperativo gramatical.

É importante considerar a relação entre os fatores situacionais (condições de


produção, ou seja, de uso do discurso), assim como a variante da língua que é
utilizada e que está de acordo com a base de orientação que o contexto de uso
dá ao falante, a sua decisão por uma determinada posição do pronome átono.
Assim, nos registros mais informais, quando a conversação é descontraída,
quando há maior intimidade entre os interlocutores, até mesmo os falantes mais
letrados tendem a preferir o seguinte uso:

 As formas oblíquas átonas o, a, os, as são substituídas pelo uso de ele, ela,
eles, elas, quando relativas à pessoa de quem se fala:

(58) Eu busquei ela no colégio.

 As formas oblíquas átonas te, lhe (mais raramente) são substituídas pelo
uso de você, vocês, quando se referem ao interlocutor.

(59) Eu disse a você que não gosto de peixe!

230
Sintaxe de colocação

Do ponto de vista sintático


Azeredo (2004, p. 199) salienta três aspectos:

 Se o pronome átono estiver “preso” a uma forma verbal simples ou a uma


locução verbal:

(60) Nunca se viu pessoa mais estudiosa. (verbo na forma simples: próclise)
(61) Se a seleção do Brasil vencer a final, na África do Sul, ninguém mais lhe
vai dar essa atenção. (locução verbal: próclise ao auxiliar)

 Se o pronome for complemento, ou seja, parte integrante do verbo, ou se


na forma de se participa de uma construção indeterminadora do agente
– sujeito:

(62) Disse-lhe tudo naquele momento.


(63) Alugam-se casas naquele bairro.

 Se há alguma particularidade sintagmática ou morfossintática que impo-


nha um posicionamento único do pronome:

(64) Dada a confusão daquele momento, João nem lhe perguntou onde
fora. (a partícula atrativa exige a próclise)

Como já foi dito, as formas peculiares da linguagem em uso, em um país com


tantos “falares” como o Brasil, leva a empregos dos pronomes pessoais átonos de
acordo com a norma culta padrão oriunda da tradição lusitana ou às transgres-
sões dessas normas – na fala cotidiana do português brasileiro.

Texto complementar

Por que ensinar a colocação pronominal


(VIEIRA, 2007, p. 140-144)

A finalidade do ensino da ordem dos clíticos pronominais combina-se


com os pressupostos gerais aqui assumidos, especialmente no que se refere

231
Sintaxe de colocação

aos objetivos do ensino de português, que deve privilegiar o texto em toda


a sua diversidade de gêneros, variedades e estilos, com todos os elementos
linguísticos que o compõem.

Nesse sentido, a colocação pronominal é naturalmente parte integran-


te do conteúdo das aulas de Língua Portuguesa. Dada a complexidade na
concretização da regra variável, trata-se de um assunto apropriado para que
se cumpra o objetivo de promover o domínio do maior número possível de
variantes linguísticas, de forma a tornar o aluno capaz de reconhecê-las e/ou
produzi-las, caso o deseje.

Com o objetivo de apresentar todas as estruturas presentes na língua, de


modo que os alunos não só as produzam, mas também as reconheçam, o
ensino da colocação pronominal promove a habilidade de leitura de textos
de outras variedades do PB [português brasileiro] (especialmente a escrita
mais monitorada), consoante diversos graus de monitoração estilística, ou
do PE [português europeu], da Língua Portuguesa de hoje ou de tempos
atrás. É papel da escola tornar o aluno capaz de reconhecer uma mesóclise,
de forma que possa compreender, por exemplo, o espanto da personagem
de Graciliano Ramos.
Afinal meu pai desesperou de instruir-me, revelou tristeza por haver gerado um maluco
e deixou-me. Respirei, meti-me na soletração, guiado por Mocinha. [...] Certamente meu
pai usara um horrível embuste naquela maldita manhã, inculcando-me a excelência do
papel impresso. Eu não lia direito, mas, arfando penosamente, conseguia mastigar os
conceitos sisudos:

“A preguiça é a chave da pobreza – Quem não ouve conselhos raras vezes acerta – Fala
pouco e bem: ter-te-ão por alguém.”

Esse Terteão para mim era um homem, e não pude saber que fazia ele na página final
da carta. As outras folhas se desprendiam, restavam-me as linhas em negrita, resumo da
ciência anunciada por meu pai.

Mocinha, quem é o Terteão?


(RAMOS, 1998, p. 99)

Se a escola preparar alunos que não se perguntem “quem é esse Terteão?,


cumpriu um de seus papéis no desenvolvimento da competência de leitura
textual. Desse modo, qualquer variante em função de suas especificidades
sociolinguísticas tem seu espaço apropriado.

Ademais, levando em conta o objetivo geral do ensino de desenvolver


o raciocínio científico do aluno sobre a língua, estudar a colocação prono-

232
Sintaxe de colocação

minal é uma oportunidade de evidenciar a intrincada rede de relações que


se travam entre os diversos níveis gramaticais, como se observa na seção
que se segue.

O que ensinar sobre a colocação pronominal


No que diz respeito à promoção do maior número de variantes possíveis,
é preciso que o professor apresente cada contexto variável em função da
variedade e da modalidade em uso.

Considerando-se o objetivo de desenvolver a competência intelectual


dos alunos por meio do ensino de gramática, o tema da ordem dos clíticos
pronominais enseja o estabelecimento de sua própria conceituação. Como
já se viu, o fenômeno da colocação pronominal constitui um legítimo caso
de interface dos níveis gramaticais. Fazer o aluno compreender seu conceito
é, a um só tempo, trabalhar os componentes morfológico, sintático e fono-
lógico da Língua Portuguesa. Trata-se de um fato linguístico que permite ao
professor mostrar ao aluno como a estrutura da língua revela pontos de im-
bricação dos níveis da gramática.

[...]

Em termos sintáticos, o tema da colocação pronominal permite ao profes-


sor apresentar a ordem dos pronomes em relação ao verbo (próclise, ênclise
e mesóclise) e a função sintática que esses pronomes exercem (objeto direto
e indireto, por exemplo).

No que diz respeito à Morfologia, o tema permite discutir a categoria pro-


nominal como um todo, com suas características formais na expressão de
número-pessoa e caso.

Levando em conta a oralidade, o clítico pronominal – pela característica


falta de independência acentual – viabiliza a apresentação dos padrões de
tonicidade (sílabas átonas versus tônicas).

Como apresentar o tema da colocação pronominal


No que diz respeito ao uso do texto como estratégia essencial no ensino
de português, o aproveitamento de material que explora o fenômeno da

233
Sintaxe de colocação

colocação pronominal para a construção do sentido global do texto pode


ser um instrumento eficaz na apresentação do assunto. A título de ilustra-
ção, o clássico poema “Pronominais”, de Oswald de Andrade, constitui rico
material para a abordagem do fenômeno. De forma mais localizada, o uso do
já comentado fragmento relativo a “Terteão”, no texto de Graciliano Ramos,
também pode ser utilizado no ensino.

Para que a apresentação da regra variável respeite a realidade de uso


– conforme descrita nos resultados das pesquisas e nas reflexões sobre a
natureza sociolinguística da ordem dos clíticos pronominais –, o material
didático deve conter farta documentação das variantes pré e pós-verbal
nos variados contextos morfossintáticos e em diferentes modalidades, re-
gistros e gêneros textuais.

A partir da observação dos dados concretos, ao menos três orienta-


ções gerais podem ser seguidas no que se refere ao ensino da colocação
pronominal:

(1) Tradicional-normativa
 Orientar a escolha da ênclise como opção preferencial, especialmen-
te na modalidade escrita, excetuando-se os contextos gramaticais
ditos “atratores” ou os contextos com futuro do presente e futuro do
pretérito.
 Propor o uso da mesóclise em contexto com verbo no futuro do pre-
sente ou do pretérito em início absoluto de oração.

(2) Progressista
 Orientar a opção do aluno na concretização de uma norma objetiva
do PB mais “genuína” ou original, que prevê não só a pouca produtivi-
dade de clíticos (especialmente o, a(s), lhe(s), nos, vos), mas também a
escolha da próclise sem qualquer restrição na modalidade oral e, por
consequência, na escrita. Desse modo, a ênclise seria uma variante a
ser evitada, numa espécie de combate à pressão normativa suposta-
mente causadora da variação em alguns contextos morfossintáticos.

(3) Sociolinguística inovadora


 Orientar a opção do aluno na concretização da norma de uso do PB,
que prevê a próclise como opção preferencial (sem desconsiderar a
realização da ênclise, principalmente com os pronomes o, a(s) e se in-
determinador/apassivador).

234
Sintaxe de colocação

 Orientar a escolha da próclise, na modalidade escrita, que pode respei-


tar graus diversificados de adesão à norma gramatical prescrita de pres-
tígio, consoante o contexto morfossintático, o grau de formalidade, o
gênero textual e/ou o grau de originalidade que se pretende atingir.
 Promover a compreensão de que a ênclise em estruturas com tradi-
cionais “atratores” não se justifica nem na norma prescrita nem na
norma objetiva.
 Auxiliar no reconhecimento de estruturas raramente utilizadas como,
por exemplo, a mesóclise.

Dicas de estudo
 FILHO, Paulo B. Sintaxe de Colocação. 8. ed. São Paulo: Atual, 1990.

O autor desenvolve um amplo estudo sobre a colocação dos pronomes oblí-


quos átonos na frase, enfatizando as diferenças entre a norma culta e a norma
popular.

 HENRIQUES, Claudio C. Sintaxe: estudos descritivos da frase para o texto.


Rio de janeiro: Campus, 2008.

Após uma breve introdução sobre as classes gramaticais e as funções sintáti-


cas, o livro se dedica integralmente à estrutura da oração e do período, inserin-
do as referências necessárias sobre regência, concordância e colocação prono-
minal, nos pontos pertinentes de cada capítulo.

Estudos linguísticos
1. Dê uma definição para:
 Pronome enclítico.
 Pronome mesoclítico.
 Pronome proclítico.

235
Sintaxe de colocação

2. Sobre o poema “Pronominais”, de Oswald de Andrade (1980):


Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro

a) Explique qual é a regra de colocação pronominal em norma culta discu-


tida nesse poema.

236
Sintaxe de colocação

b) Qual é o verso escrito de acordo com essa regra e qual o verso em que
ela é transgredida?

237
Sintaxe de colocação

Referências
AZEREDO, José Carlos de. Iniciação à Sintaxe do Português. 7. ed. Rio de Janei-
ro: Jorge Zahar Editor, 2001.

______. Fundamentos de Gramática do Português. Rio de Janeiro: Jorge Zahar


Editor, 2004.

BAGNO, Marcos. A Língua de Eulália: novela sociolinguística. São Paulo: Con-


texto, 2000.

______. Língua Materna: letramento, variação & ensino. São Paulo: Parábola,
2002.

BASÍLIO, Margarida. O conceito de vocábulo na obra de Mattoso Câmara. DELTA:


Documentação de Estudos em Linguística Teórica e Aplicada, São Paulo, v. 20,
2004.

BEARZOTI FILHO, P. Sintaxe de Colocação – teoria e prática. São Paulo: Atual,


1990.

BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 37. ed. Rio de Janeiro:


Lucerna, 2004.

HENRIQUES. C. Sintaxe Portuguesa para a Linguagem Culta Contemporânea.


Rio de Janeiro: EdUERJ, 2005.

MELO, Gladstone Chaves de. Ensaio de Estilística da Língua Portuguesa. Rio


de Janeiro: Livraria Editora, 1976.

SCHWARTZ, J. Oswald de Andrade. Seleção de textos de Jorge Schwartz. São


Paulo: Abril Educação, 1980. p. 22-33 (Literatura comentada).

VIEIRA, Silvia Rodrigues. Colocação pronominal. In: VIEIRA, Silvia Rodrigues;


BRANDÃO, Silvia Figueiredo. Ensino de Gramática: descrição e uso. São Paulo:
Contexto, 2007. p. 85-102.

238
Sintaxe de colocação

Gabarito
1. Pronome enclítico é aquele colocado após o verbo; pronome mesoclítico
é aquele intercalado ao verbo; pronome proclítico é aquele colocado an-
tes do verbo.

2.

a) É a regra segundo a qual não se pode iniciar frase com pronome pessoal
oblíquo átono.

b) O verso “Dê-me um cigarro” apresenta respeito a essa regra. O verso


“Me dá um cigarro” está em desobediência a essa prescrição da gramá-
tica normativa.

239
Pontuação

A pontuação, nas gramáticas escolares, tem sido enfocada de maneira


ingênua, não condizendo com a complexidade do tema e as contradições
que o envolvem. Segundo Marcuschi (2001, p. 196), “na relação entre fa-
la-escrita” a pontuação envolve contradições decorrentes das diferenças
entre a linguagem oral e a linguagem escrita. Ou, como diz Laufer (1980,
apud ROCHA, 1997), a ambiguidade do conceito de pontuação é um refle-
xo da incerteza da relação entre linguagem oral e linguagem escrita.

Na linguagem oral, dispomos de diferentes recursos para dar clareza


aos nossos enunciados, mas recorremos, principalmente, à entoação, à
linha melódica com a qual expressamos os nossos enunciados. Com a en-
toação distinguimos um enunciado declarativo de um enunciado excla-
mativo ou interrogativo:

 Ele chegou ontem?

 Ele chegou ontem.

 Ele chegou ontem!

Há certas convenções para pontuar os textos escritos, mas não há


regras obrigatórias e infalíveis: a maior parte do uso dos sinais de pontu-
ação depende da intenção de quem enuncia, uma vez que a pontuação
está ligada às relações que almejamos estabelecer em nossos textos e aos
efeitos de sentido que pretendemos dar a eles. Portanto, consideramos
que há uma boa dose de subjetividade na decisão do enunciador ao sele-
cionar os sinais de pontuação. Nesta aula, você vai refletir conosco sobre
questões semânticas, sintáticas e enunciativas ligadas à pontuação.

A função básica dos sinais de pontuação


Com base em Rocha (1997), focalizaremos a classificação da pontuação
baseada na função básica dos sinais, que é a de delimitar as sequências,
no texto escrito, em níveis sucessivos:

241
Pontuação

 palavras gráficas;
 frases e partes de frases;
 parágrafos e capítulos;
 sinalização semântica ou extralinguística.

A autora propõe as seguintes categorias para essa classificação: a pontuação


da palavra, a pontuação da frase e a pontuação metafrástica.

A pontuação da palavra
Os limites das palavras se dão pela utilização de três sinais: a) branco; b) o
apóstrofo; c) o traço de união.

Os outros sinais pontuais (que podem ser colocados entre duas palavras) só
podem aparecer onde há branco.

A pontuação da frase
Aqui podem ser incluídos quatro aspectos:

 Os sinais que delimitam a frase – de um lado está a maiúscula da frase,


de outro, os diferentes pontos do final de frase (interrogativo, exclamativo,
final, reticências).

(1) Alguém aceita fazer parte do grupo de trabalho?

 Os sinais que delimitam as partes da frase – são os que podem aparecer


entre o começo (maiúscula) e o final de uma parte da frase (ponto final,
vírgula, dois-pontos, ponto e vírgula, aspas, parênteses, colchetes).

(2) Isso é uma ideia boa, mas merece revisão.

 Os sinais que delimitam os elementos constitutivos da frase (sintag-


mas) – dois-pontos (em geral anunciam uma sequência de natureza refe-
rente àquilo que o precede – enumeração, explicação, citação etc.), vírgu-
la, ponto e vírgula.

(3) O homem: animal racional.

242
Pontuação

 Os sinais que permitem a interrupção da progressão normal da frase


para nela incluir uma frase (ou várias), ou uma parte da frase (fazer
inserções) – são as aspas, os parênteses e os colchetes, o travessão duplo
e a vírgula dupla. Para Rocha (1997), esta categoria também se aplica à
antecedente, só que chama a atenção para o fato de que, se o elemento
inserido for retirado, a frase não se torna agramatical, como por exemplo:

(4) Ele sentiu, é bem verdade, que não havia solução – as provas disso
eram evidentes –, contudo a afirmação “tentemos mais uma vez”, era
constantemente repetida por todos.

A pontuação metafrástica
São assim chamados todos os sinais que marcam os limites de sequências de
ordem superior à frase. Segundo Rocha (1997), em geral, estes sinais referem-se
à utilização do espaço em branco da página:

 alínea1 e reforço entre parágrafos;


 a mudança de página entre partes importantes do texto;
 espaços entre títulos e subtítulos;
 na falta de um melhor enquadramento, também o traço de divisão.

Quando pontuar
Consultando alguns estudiosos da pontuação, percebemos que vigoram duas
posturas para interpretar a questão: uma que vê a pontuação, dentro do sistema
geral da escrita, como “desligada” da fala, e outra que considera a pontuação
como elemento do sistema da escrita, mas sujeito a influências da oralidade.

A nossa intenção não é a de entrar no amplo terreno das relações entre o


oral e o escrito, e sim, a de contribuir para que você possa praticar as marcas
de pontuação em função da sintaxe de construção das frases e da colocação
dos termos essenciais, integrantes e acessórios das orações. Assim, vamos nos
restringir à busca de resposta para esta questão: Quando pontuar?

Ao lado da questão da subjetividade que envolve a seleção dos sinais de pon-


tuação, concordamos com Faraco (2005) quando afirma que as convenções refe-
rentes ao uso dos sinais de pontuação articulam três elementos:
1
Primeira linha de um novo parágrafo; subdivisão do texto indicada por marcadores textuais: a); b); c).

243
Pontuação

 a estrutura dos enunciados, ou seja, os limites do enunciado;


 os aspectos relacionados com a entoação;
 as opções estilísticas do enunciador.

Por exemplo, pensemos nas unidades intercaladas em um enunciado: os limi-


tes dessas unidades devem ser claramente indicados, porque eles causam uma
ruptura na cadeia linear, sintagmática do enunciado. Na língua oral, indicamos
essa ruptura por uma pausa antes e depois da unidade intercalada, alteramos a
“linha melódica da frase”, baixando ou subindo o tom.

Na escrita, podemos marcar a intercalação pelo uso de vírgulas, travessão


duplo ou parênteses, essa decisão do enunciador é baseada em critérios subjeti-
vos e depende dos efeitos de sentido que intenciona para o enunciado. Observe
as marcas da intercalação no exemplo:

1 2
(5) A palavra – dom celeste que foi dado ao homem –, que não é conce-
dida ao animal, é uma dádiva para o homem.

Unidade intercalada 1 – dom celeste que foi dado ao homem: essa unidade se
infiltra na oração principal que é : a palavra é uma dádiva para o homem.

Unidade intercalada 2 – que não é concedida ao animal: essa unidade


também interrompe a oração principal: a palavra é uma dádiva para o homem.

1 2
(6) Os livros, pouco valorizados pelos homens, contêm, muitas vezes,
sábias soluções para os problemas humanos.

Unidade intercalada 1 – pouco valorizados pelos homens: essa unidade se


intercala entre o sujeito e o predicado da oração principal do período composto:
os livros contêm sábias soluções para os problemas humanos.

Sobre esse emprego das vírgulas, De Nicola e Infante (1997) afirmam que esse
é um uso consagrado, mas que acaba por separar o sujeito (os livros) do predica-
do (contêm sábias soluções para...); por essa razão, seu emprego só se justifica por
motivos de clareza e não por motivos lógico-sintáticos.

Unidade intercalada 2 – muitas vezes: unidade intercalada que rompe a estrutu-


ra da oração principal: os livros contêm sábias soluções para os problemas humanos.
244
Pontuação

Consideramos que a intercalação de unidades em um enunciado constitui


a mais importante razão para a pontuação e a opção por esse emprego pode
ser justificada pelos três elementos citados por Faraco (2005) – a) os limites do
enunciado; b) os aspectos relacionados com a entoação; c) as opções estilísticas
do enunciador.

Observe como esses elementos se revelam nos exemplos a seguir:

(7) Aquela agressão contra a natureza, causadora de espanto e indig-


nação, repetiu-se várias vezes até que os cidadãos protestaram junto às
autoridades.

A decisão do enunciador é subjetiva e depende de vários fatores, mas ele


poderia optar pelas seguintes construções:

(8) Aquela agressão contra a natureza – causadora de espanto e indig-


nação – repetiu-se várias vezes até que os cidadãos protestaram junto às
autoridades.
(9) Aquela agressão contra a natureza (causadora de espanto e indig-
nação) repetiu-se várias vezes até que os cidadãos protestaram junto às
autoridades.

Como você pode observar, o uso dos sinais de pontuação dá diferentes opções
ao enunciador, contudo uma pontuação inadequada produz efeitos desastrosos
à comunicação e pode provocar efeitos de sentido não intencionados.

Como recomenda Faraco (2005), além de conhecer as convenções principais,


é indispensável desenvolver uma “apreensão intuitiva de seu uso”. Para isso, o
autor aconselha que, ao lermos um texto, devemos prestar atenção ao uso da
pontuação empregada pelo autor.

Ambiguidades de sentido e pontuação


Como recurso estilístico ou como organizadores textuais, os sinais de pontu-
ação delimitam as unidades do texto e, ao mesmo tempo, as organizam e as co-
nectam. Entretanto, a pontuação inadequada ou a ausência de pontuação pode
causar ambiguidades, duplicidade de sentidos no enunciado. Há diversas
causas para a ambiguidade de sentidos, mas vamos nos deter aos casos em que
a pontuação ou a sua ausência causam essa dubiedade de sentido.
245
Pontuação

Observe os exemplos apresentados por Bechara (2004):

(10) Levar uma pedra para Europa uma andorinha não faz verão.
(11) Um fazendeiro tinha um bezerro e a mãe do fazendeiro era também o
pai do bezerro.

A mudança dos sinais de pontuação poderia transformar o sentido das mensa-


gens. Em (10), bastaria uma vírgula depois de faz, sendo verão a forma do futuro do
verbo ver. Em (11), bastaria colocar uma vírgula ou ponto e vírgula depois de mãe.

Muitas vezes, um sinal de pontuação trocado muda todo o sentido de um


enunciado. O exemplo citado por Bearzoti Filho (1990) ilustra essa questão da
pontuação relacionada ao sentido. O autor se refere ao fato de que a maioria das
religiões cristãs escreve da seguinte maneira o versículo 43, capítulo 23, do Evan-
gelho de São Lucas, que reproduz a fala de Cristo, na cruz, ao “bom ladrão”:

(12) Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso.

Segundo o autor, para outros, no entanto, que creem que apenas no Dia do
Juízo Final se poderá estar no paraíso, o versículo:

(13) Em verdade, te digo hoje: estarás comigo no paraíso.

Bearzoti Filho (1990) afirma que o mesmo acontece nos seguintes períodos:

(14) Os clientes, que atendo com simpatia, sempre voltam ao meu


estabelecimento.
(15) Os clientes que atendo com simpatia sempre voltam ao meu
estabelecimento.

Em (14), a pessoa diz que seus clientes sempre retornam, porque são todos
tratados com simpatia. Em (15), fica subentendida a ideia de que há clientes
que não são tratados com simpatia, e só aqueles que são tratados desse modo
voltam ao estabelecimento comercial.

Em relação ao uso do ponto de interrogação, também há casos em que pode


surgir certa ambiguidade de sentido para o receptor, quando o ponto de interro-
gação aparece no final do enunciado com entonação interrogativa ou de incer-
teza, real ou fingida. Nesse caso, a pergunta não implica uma resposta do interlo-

246
Pontuação

cutor, pois se trata de uma “pergunta retórica”, que certamente será respondida
pelo próprio enunciador.

Como no exemplo a seguir:

(16) Você pensa que o meu pai ganhou esse dinheiro em um jogo de lote-
ria? Engano! Ele trabalhou muito!

Como você pode perceber, na escrita, os sinais de pontuação são índices


das relações entre esse código de expressão verbal e a oralidade. Como afirma
Chacon (1998, p. 167):
Sob perspectivas diferentes, procuramos demonstrar que, na escrita, os sinais de pontuação
indiciam as relações entre esse código de expressão verbal e a oralidade. Da função primitiva de
assinalarem pontos para a respiração, destacada por Catach, da tentativa de reproduzirem a língua
falada, suposta pelos gramáticos, à função de possibilitarem um recurso de interpretação para o
texto escrito, os sinais de pontuação não deixam de trazer para o texto escrito, a todo momento,
justamente os vínculos que essa modalidade de expressão linguística mantém com aquela que
historicamente a antecede: a oralidade.

A seguir, vamos tratar das convenções mais importantes para os usos de


alguns sinais de pontuação.

O uso da vírgula no período simples


De acordo com Nascentes (1967), “vírgula” é uma palavra de origem latina,
diminutivo de virga (“vara”, “chibata”, “ramo flexível e delgado”). Para o autor, esse
sinal de pontuação é, sem dúvida, o mais utilizado, e o que merece uma atenção
especial na gramática da pontuação. Para Faraco (2005), a vírgula cumpre fun-
ções básicas para marcar:

 Enumerações

(17) Escolas, hospitais, igrejas, clubes devem sediar ações de vacinação.

 Intercalações

(18) Eu, embora cansada, continuei a caminhada.

 Supressões

(19) Ana comprou as revistas; João, os jornais.

247
Pontuação

 Limites de algumas unidades no interior da sentença

(20) Na Amazônia, chove muito.

A gramática da língua recomenda que não se use vírgula entre os termos


essenciais da oração, sujeito e predicado. O emprego da vírgula entre o sujeito e
predicado é desaconselhado mesmo que o predicado anteceda o sujeito. Como
nos exemplos:

(21) [A intensa luta para proteger a Mata Atlântica] deve continuar.


sujeito predicado

(22) Deve continuar [a intensa luta para proteger a Mata Atlântica.]


predicado sujeito

Quanto ao uso da vírgula


e os termos essenciais da oração
As gramáticas normativas recomendam o seu uso limitado à separação dos
vários núcleos no caso do sujeito composto:

(23) [Revistas, jornais, discos, pipocas] se espalhavam pela sala.


sujeito composto

Se o último desses núcleos for introduzido pela conjunção “e”, não se usará
vírgula.

(24) Revistas, jornais, discos, pipocas e jornais se espalhavam pela sala.

Quanto ao uso da vírgula


e os termos integrantes da oração
Os complementos verbais (objeto direto, objeto indireto) assim como o
agente da passiva integram o significado de verbos e nomes, dando à oração
a estrutura mínima que assegura a comunicabilidade. Para Bechara (2004), a

248
Pontuação

função de integrar-se aos termos que complementam torna inapropriado o uso


da vírgula separando o verbo (V), o objeto direto (OD) e o objeto indireto (OI),
assim como o agente da passiva, termo que, segundo o autor, deve receber o
mesmo tratamento dos complementos verbais e nominais em relação à vírgula.

sujeito predicado verbal


(25) [A esperança ] [ conduz o homem a atitudes heroicas.]
V OD OI

O uso da vírgula não se justifica mesmo quando ocorrem inversões na ordem


sintática da oração:

(26) A atitudes heroicas a esperança conduz o homem.

Quanto ao uso da vírgula


e os termos acessórios da oração
Por seu caráter de adjuntos, os termos acessórios (determinantes do nome,
ou seja, os adjuntos adnominais, os circunstancializadores, ou seja, adjuntos ad-
verbiais, os apostos e o vocativo) são normalmente passíveis de serem separados
por vírgulas. O aposto pode ser separado do termo a que se refere por vírgula ou
por dois-pontos:

(27) [Na semana passada], a banda chegou ao Brasil para uma apre-
sentação única.
circunstancializador de tempo: adjunto adverbial

(28) A vida, [longa aventura do homem], é muito frágil.


aposto

(29) Pediu-me uma coisa: [amizade sincera].


aposto

Segundo Bechara (2004), o vocativo, por ser um termo que não faz parte
nem do predicado, nem do sujeito, deve sempre ser separado por vírgulas, em
qualquer posição na frase.

249
Pontuação

Observe o vocativo nos versos de Carlos Drummond de Andrade:

(30) O mundo não vale o mundo, meu bem.


(31) O mundo, meu bem, não vale a pena.
(32) Meu bem, o mundo é fechado, se não for antes um vazio. O mundo é
talvez: e é só!

O uso da vírgula no período composto


Considerando que o emprego da vírgula no período composto implica a
consideração das orações coordenadas e subordinadas, faremos esse enfoque
começando pelas orações coordenadas.

A vírgula e as orações coordenadas


As orações coordenadas assindéticas, ou seja, que não são introduzidas por
conjunção, devem ser separadas umas das outras por vírgulas. O mesmo deve
ser feito em relação às orações coordenadas sindéticas introduzidas por conjun-
ções diferentes de “e”:

(33) Não sorria, não falava, não gesticulava.


(34) Não sorria, não falava, mas gesticulava.

Se a conjunção “e” possuir valor adversativo, ou seja, ter o sentido de “mas” ou


unir orações de sujeitos diferentes, deve-se usar vírgula. Caso já apresente vírgu-
la, as orações adversativas podem ser separadas por ponto e vírgula:

(35) Tive grandes oportunidades na carreira, e as deixou escapar. (e = mas)

(36) A existência é uma construção elaborada; devemos, portanto, cons-


truí-la cuidadosamente.

A vírgula e as orações subordinadas substantivas


As orações subordinadas substantivas atuam como sujeito, objeto direto, objeto
indireto, complemento nominal, predicativo e aposto. Piacentini (2003) recomen-

250
Pontuação

da que apenas as orações subordinadas substantivas apositivas sejam separadas


por vírgula da oração principal, mas também poderia usar dois-pontos:

(37) Dei-lhe uma sugestão, que terminasse o trabalho e viajasse depois.


(38) Dei-lhe uma sugestão: terminar o trabalho e viajar depois.

A vírgula e as orações subordinadas adjetivas


Consideremos que há duas espécies de orações subordinadas adjetivas: res-
tritivas e explicativas. Segundo Piacentini (2003), as subordinadas adjetivas res-
tritivas contêm uma informação capaz de especificar, individualizar o termo a
que se ligam; as subordinadas adjetivas explicativas contêm informações que já
consideramos parte dos termos a que se ligam, constituindo simples explicação.
O autor recomenda que não se separe por vírgulas as orações subordinadas ad-
jetivas restritivas e se isole por vírgulas as explicativas.

Confira os exemplos que a autora apresenta, mas observe a presença dos


pronomes relativos:

oração subordinada adjetiva explicativa


(39) A Lei 8.078/90, que dispõe sobre a proteção do consumidor, foi san-
cionada por clamor da sociedade.
(40) Gosto de Vivaldi, cuja música suave me faz relaxar.
(41) Rebelou-se o Ministro da Saúde, que defende a volta do imposto
sobre os cheques.
oração subordinada adjetiva restritiva
(42) Os homens que são honestos merecem a nossa atenção.

A vírgula e as orações subordinadas adverbiais


Considerando que essas orações têm valor de adjuntos adverbiais, ou seja,
de circunstancializadores, a pontuação depende de sua posição no período. Se
intercaladas na principal, as orações subordinadas adverbiais devem ser separa-
das por vírgulas.

251
Pontuação

Observe os exemplos:

oração subordinada adverbial condicional


(43) Se o dia estivesse quente, iríamos à praia.
oração subordinada adverbial final
(44) Agiu rapidamente, a fim de evitar problemas.
oração subordinada adverbial temporal
(45) Percebi, quando os vi naquele dia, a aproximação do casamento.

O uso do ponto e vírgula


Segundo Faraco (2005), usamos o ponto e vírgula quando:

Precisamos separar sentenças longas, mas que constituem parte de um


mesmo pensamento e, nesse caso, a vírgula seria pouco, porque sentenças
longas geralmente apresentam outras vírgulas; mas o ponto seria muito, porque
sentenças constituem parte de um mesmo pensamento.

Observe o exemplo do autor:

(46) Depois de declarar que jamais estivera presente a qualquer dessas


reuniões porque as considerava de pouca utilidade; depois de aludir às
intermináveis discussões sobre assuntos irrelevantes, tão comuns nestas
reuniões; depois de acusar os participantes de sempre agirem apenas em
benefício próprio, atirou sobre a mesa seu pedido de demissão e abando-
nou a sala, batendo a porta com força.

Para separar sentenças com significados em contraste ou oposição:

(47) Aqui, a paisagem é verdejante; na minha região, a paisagem é árida.

No final de cada um dos itens, exceto do último, numa lista de pedidos con-
siderados, conclusões etc.:

(48) Depois de analisar os documentos, chegamos às seguintes conclusões:

252
Pontuação

 os alunos adquiriram bom domínio da pontuação;


 os alunos pontuaram seus textos de forma adequada;
 as atividades sobre pontuação devem continuar.

O uso dos dois-pontos


De acordo com Kury (1982), os dois-pontos indicam uma pausa suspensiva da voz,
mais forte que a da vírgula, e indica, em princípio, que a frase não está concluída.

Vamos ver os usos mais frequentes desse sinal de pontuação.

 Para indicar a entrada de um interlocutor:

(49) O pai disse ao filho: – Filho, você precisa estudar mais!


(50) Maria falou emocionada: “Hoje é o meu último dia de trabalho.”

 Para anunciar uma enumeração:

(51) Meus amigos são poucos: Guto, Flávio, Luiz e Vinicius.

 Para anunciar uma citação:

(52) Kury (1982) aponta: “Na tentativa de reproduzir as pausas, as cadên-


cias, o ritmo, a entoação da linguagem falada, utiliza a escrita certos sinais
de pontuação.”

 Para anunciar um aposto, uma explicação, uma consequência, uma con-


clusão, um esclarecimento:

(53) O desejo de todos os trabalhadores é o mesmo: ser reconhecido pelo


que faz.

 Segundo Kury (1982), os dois-pontos também são utilizados para substi-


tuir a vírgula na separação de orações coordenadas explicativas e subordi-
nadas causais. A vantagem desse uso, segundo o autor, é de ordem estilís-
tica, uma vez que se dispensa a conjunção, caso essa devesse ocorrer:

253
Pontuação

(54) Na verdade, eu nem tentava qualquer esforço: o exercício físico me


dava mal-estar.

O uso das reticências


Segundo Kury (1982), as reticências são usadas, principalmente, com duas
finalidades: a) com o propósito suspensivo, para assinalar uma interrupção de
uma frase; b) com o propósito expressivo, para assinalar, no fim de um período
de sentido, as mais variadas nuances emotivas (desconfiança, alegria, tristeza,
ironia, impaciência etc.) ou para sugerir continuidade, estagnação.

Primeiramente, vejamos alguns casos em que a reticências é usada com pro-


pósito de suspensão frasal.

 Para indicar suspensão do pensamento (nesses casos, o leitor pode facil-


mente completá-lo):

(55) Trabalhei, trabalhei, mas pagamento que é bom...

 Para indicar interrupção da fala por outro interlocutor:

(56) – Mas os negócios... ia dizendo o amigo.


– Deixemos de lado os negócios, vamos falar da pescaria de hoje.

 Para indicar hesitação (podendo, posteriormente, retomar o fio do discurso):

(57) Não quero ir ao cinema porque... porque... eu estou com dor de cabeça.

Agora, vamos ver alguns casos em que a reticência é usada com finalidades
expressivas:

(58) Agora estão todos perdidos...


(59) Foi um sonho daqueles...
(60) E fomos indo... indo... até chegar ao local combinado.
(61) O balão foi subindo...
(62) Não há motivo para tanto... choro.

254
Pontuação

Um emprego muito comum das reticências é como simples sinal tipográfico


indicando a supressão de palavras/trechos em uma citação (nesse caso, as reti-
cências são colocadas entre colchetes):

(63) “As armas e os barões assinalados,/ [...] Cantando espalharei por toda
a parte”. (Camões).

O uso do travessão
De forma objetiva, o travessão é usado, no discurso direto, para indicar a fala
de personagens ou a mudança de interlocutor nos diálogos.

(64) Os meninos começaram a gritar:


– Pega ladrão!
(65) – O que é isso, menina?
– Um coelhinho, não está vendo?

Com valor simultaneamente objetivo (indicando pausa) e expressivo, o tra-


vessão também é usado no lugar da vírgula ou dos dois-pontos, com a finalidade
de isolar palavras, expressões ou frases apositivas ou explicativas que se deseja
evidenciar (o travessão não se repete quando coincidir com o fim do período):

(66) Vimos um velho – provavelmente um mendigo – sentado na calçada.


(67) Reler aquelas cartas encheu-me de saudades – principalmente da
menina que eu um dia fui.

Importante ressaltar que a vírgula, quando existente, é colocada após o se-


gundo travessão:

(68) Guto, já abraçando os amigos – pois o ônibus estava para partir –, disse:
– Não chorem, daqui a três meses estou de volta!

O uso dos parênteses


“Os parênteses servem para isolar palavras, expressões ou frases, muitas vezes
acessórias, que nem sempre se encaixam na sequência lógica do período, caso

255
Pontuação

em que se proferem, de regra, em tom de voz mais baixo” (KURY, 1982). A partir
dessa proposição, podemos ter a utilização dos parênteses:

 Para separar qualquer indicação de ordem explicativa:

(69) A função emotiva (ou expressiva) centraliza-se predominantemente


no emissor.
(70) Adoro comer qualquer tipo de massa (exceto lasanha).

 Para indicar um comentário ou reflexão (muitas vezes, de natureza subjetiva):

(71) A atriz, apesar dos seus cinquenta anos, era linda (é claro que as apli-
cações de botox ajudaram bastante).

 Para separar referências ou indicações bibliográficas:

(72) “[...] uma boa pontuação é fundamental na construção de um bom


texto – principalmente no que diz respeito à sua clareza” (FARACO; TEZZA,
2003, p. 107).

O uso das aspas


O uso das aspas ora tem função tipográfica de isolar citações, ora tem função
expressiva, de realce.

Vejamos alguns casos do seu emprego.


 Para isolar vozes alheias que se estejam citando:

(73) Assim como Carlos Drummond de Andrade, “pedi o bonde e a


esperança”.

Importante: se dentro da citação feita ocorrer outra, esta virá entre aspas
simples.

 Para indicar títulos de textos em geral (contos, poemas etc.) ou capítulos


de livros:

(74) A professora pediu para ler o conto “Galeria Póstuma” de Machado de


Assis.

256
Pontuação

 Para realçar termos, expressões, conceitos, definições:

(75) O apelido “fofinho” deixava-o muito constrangido.

 Para destacar palavras que representam estrangeirismo, arcaísmos, vul-


garismo, ironia, gírias, palavras populares, formas consideradas incorre-
tas na língua:

(76) Mas que “beleza”: sujou a roupa nova!


(77) Meus pais são experts em música erudita.
(78) A “parteira” [no sentido de curiosa, sem conhecimento científico]
chegou...
(79) Ela acabou “dançando” ao pedir dinheiro emprestado para o chefe: foi
despedido.

 Para destacar palavras usadas fora do seu contexto natural (sentido figurado):

(80) Na reunião de ontem houve “guerra” de acusações.

Para concluir, podemos dizer que os sinais de pontuação, além de seu caráter
objetivo (no sentido de sinal gráfico), são revestidos também de alta subjetividade:
cada pessoa recorre a eles de modo peculiar, a partir da intencionalidade do discur-
so. Mas não podemos deixar de salientar que a observação das regras básicas aqui
apresentadas, aliada à observação da pontuação nos textos que lemos e à prática
regular da produção de textos, torna possível o emprego adequado da pontuação
de forma a enriquecer e a tornar mais claros os enunciados que produzimos.

Texto complementar

Pontuação pelo gênero do texto


(ROCHA, 1998)

Outro aspecto a se observar é que a pontuação contemporânea requer


versatilidade do escritor. Um mesmo redator precisa ter habilidade para pon-
tuar diferentemente conforme o gênero do texto. Assim, diz Chafe, um pu-
blicitário que pontuasse como um professor, em breve perderia o emprego e

257
Pontuação

um professor que o fizesse como um novelista do século XIX, poderia ter seu
texto corrigido, dele eliminando-se vírgulas a torto e a direito. (1985: 5).
Ainda sobre a flexibilidade da pontuação em relação ao gênero, Halliday
(1989: 37-38) explica que há registros em que a pontuação é reduzida ao mínimo,
como na linguagem legal. Neste caso, as marcas de pontuação, segundo ele,
seriam instáveis demais para que se ficasse na sua dependência. Além disso,
seria possível fraudar o documento, inserindo, alterando ou eliminando a pon-
tuação. Por esta razão, adotou-se como norma que o texto legal ideal restringiria
ao máximo a pontuação. Na verdade, este tipo de texto não é para ser lido oral-
mente, dispensando as pausas para respirar. E para o propósito de documentar
evidências em possíveis casos de dúvidas, bastaria a simples leitura silenciosa.
Finalmente, há que se apontar ainda a forte influência que exercem atual-
mente a pontuação publicitária, a jornalística e a dos quadrinhos, chegando a
subverter os usos clássicos. A grande variedade de impressos produzidos hoje
em dia (jornais, revistas, folhetos, catálogos, prospectos, afixos, panfletos etc.)
vai alterando as referências existentes e criando novos estilos de pontuar.
Ilustrativo dessa tendência é o emprego da vírgula violando a norma gra-
matical no anúncio publicitário seguinte:
Fast Print
Impressão Rápida
Onde a pressa,
é amiga da perfeição.
Um outro exemplo, agora no texto jornalístico é, por exemplo, o emprego
novo que Gilberto Dimenstein faz dos dois-pontos. Em matéria de A Folha de
São Paulo, datada de 22/08/93, podemos verificar como o articulista poupa
as conjunções integrantes e deixa falar os títulos pela simples aposição de
dois-pontos (ver passagens em itálico):
Como você reagiria?
Já tinha concluído ontem minha coluna mostrando como o massacre
dos Ianomamis simbolizava a vulgarização da violência. Mas mudei de ideia
depois de ler o artigo, também sobre violência, publicado ontem, escrito por
uma das personalidades mais respeitadas (justamente, diga-se) do país: Dom
Eugênio de Araújo Sales, cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro. Confesso: senti
medo. Não por mim, mas pelos outros.
Ele classifica o aborto como assassinato. Informa que nenhum defensor do
aborto pode ostentar o título de católico. A pena: excomunhão automática. O

258
Pontuação

problema é particularmente grave por dois fatores: 1) o Brasil é um país católico;


2) calcula-se que, por ano, ocorram no mínimo dois milhões de abortos.
Essa pregação estimula, portanto, uma imensa crise de consciência. Todos
concordam que o aborto deve ser evitado. Mas qual é a solução? E aqui vem
a questão: a Igreja Católica não oferece alternativa viável. As pessoas sabem,
muitas por dolorosa experiência própria, que os métodos naturais são extre-
mamente falhos, gerando o que se chama de os “filhos da tabela”.
Os políticos brasileiros tremem diante da pressão da Igreja, impedindo um
plano massivo de planejamento familiar. E aí os milhões de abortos, resultan-
do em 40 mil internações por ano. Vejam só esse dado divulgado pelo Unicef:
a principal causa de morte entre adolescentes (repito, principal) é o aborto.
Mais: milhões de mulheres têm cinco, seis, sete filhos, quando desejariam
ter apenas um ou dois. Insisto: a ausência de planejamento familiar é desuma-
no, resultando de irresponsabilidade de nossos homens públicos, apesar de
ser o único investimento social de retorno de curtíssimo prazo. Alguém se
lembra de um único presidente da República falar do assunto?
Compreensível: primeiro não se quer arrumar uma briga política com uma ins-
tituição tão poderosa como a Igreja. Depois, quem sofre mesmo são os pobres,
gente sem voz, incapazes de comprar pílulas ou camisinhas. Já está mais do
que na hora de colocar luzes nessa discussão, mesmo que implique desgaste.
P.S. Pergunta: como reagiriam os leitores desta coluna se fossem impedidos
de usar métodos anticoncepcionais como a pílula?
Neste artigo chama a atenção não apenas a frequência no emprego do dois-
-pontos, mas um uso alternativo deste signo (além de citar), de forte motivação
sintática e semântica, tornando o texto sintético e amarrado. Talvez aqui o arti-
culista Gilberto Dimenstein resgate um antigo uso do dois-pontos (século XVI):
separar com um poder intermediário entre o ponto e vírgula e o ponto. E não é
de estranhar que este estilo econômico venha a se impor em breve pela força
da mídia... (Vejam a influência em nosso próprio texto no trecho anterior...)
Fechamos essa reflexão, reportando-nos a Catach (1980:2), que destaca a in-
fluência da publicidade no uso das maiúsculas, sugerindo um estudo sociolin-
guístico sobre o assunto. A autora questiona o impacto do uso de tantos novos
caracteres, além da grande massa de brancos, sobre os rumos da pontuação.

A verdade é que não podemos fugir ao fato de já estarmos vivendo sob o


domínio de linguagens não verbais. Neste sentido, à medida que vão se alar-

259
Pontuação

gando as fronteiras de comunicação entre as sociedades, a semasiografia vai


gradativamente se generalizando como uma linguagem visual que fala por si
e que aparece cada vez mais em instruções de uso de aparelhos, carros etc
(Sampson,1996: 30). Algo similar acontece nos textos mais densos como di-
cionários, obras técnicas e científicas, em que são muito frequentes signos ca-
balísticos (quadrados, flechas, pontes, chaves), traços e pontos para orientar
o leitor ou para remeter diretamente a conceitos específicos. Resta saber se
poderemos nos comunicar de forma tão esquemática e o que isso representa-
rá para o destino da pontuação e da escrita. Talvez a linguagem do amanhã o
diga.

Dicas de estudo
 CHACON, L. A pontuação e a demarcação de aspectos rítmicos da lin-
guagem. DELTA: Documentação de Estudos em Linguística Teórica e
Aplicada, São Paulo: PUC, v. 13, n.1, 1997. Disponível em: <www.scie-
lo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-44501997000100001-
&lng=en&nrm=iso&tlng=pt>. Acesso em: 15 out. 2008.

Nesse artigo, o autor discute a posição de alguns estudiosos em relação aos


aspectos rítmicos da linguagem, fazendo uma inter-relação com a questão da
pontuação.

 PIACENTINI, M. T. Q. Só Vírgula: método fácil em vinte lições. São Carlos:


EdUSFSCar, 2003.

A autora se detém na vírgula, o sinal de pontuação mais difícil e controverso.


O livro vem recheado de exemplos analisados, de atividades práticas que trazem,
logo a seguir, uma resposta.

Estudos linguísticos
1. Reescreva as frases abaixo utilizando a vírgula se for necessário e justifique
seu emprego:

a) O carnaval é caracterizado por fantasias confetes serpentinas e batucada.

260
Pontuação

b) A menina embora suja estava linda.

c) Meu irmão foi à escola; eu ao cinema.

e) O homem animal racional é dotado de inteligência.

f) O homem contemporâneo vive em função do consumo.

2. Leia o texto abaixo:

Mais de 2 000 quilômetros quadrados de florestas espanholas viraram


poeira em apenas quinze anos dizem os especialistas em um congresso recen-
te sobre desertificação eles denunciaram que na Província de Almería sede do
evento no sul da Espanha 42% da superfície se transformou em terra estéril
constituindo o maior deserto da Europa. (FARACO; TEZZA, 2003, p. 107)

Tente responder rápido: o que aconteceu em apenas 15 anos? Quem denun-


ciou? O que dizem os especialistas? Quem são “eles”? O que foi denunciado?
Para responder a essas perguntas, pontue o texto utilizando ponto final e
vírgula. Agora, responda: qual a importância da pontuação neste texto?

261
Pontuação

Referências
BEARZOTI FILHO, P. Sintaxe de Colocação – teoria e prática. São Paulo: Atual,
1990.

BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 37. ed. Rio de Janeiro:


Lucerna, 2004.

CHACON, L. Ritmo da Escrita. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

DE NICOLA J.; INFANTE, U. Gramática Contemporânea da Língua Portuguesa.


São Paulo: Scipione, 1997.

FARACO, Carlos Alberto. Português: língua e cultura. Curitiba: Base Editora,


2005.

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2008.
262
Pontuação

Gabarito
1.

a) O carnaval é caracterizado por fantasias, confetes, serpentinas e batuca-


da. [separar as enumerações]

b) A menina, embora suja, estava linda. [intercalação frasal]

c) Meu irmão foi à escola; eu, ao cinema. [marcar a supressão de um ter-


mo: “fui”]

e) O homem, animal racional, é dotado de inteligência. [separar o aposto]

f) O homem contemporâneo vive em função do consumo. [não há justifica-


tivas para o uso da vírgula]

2. Mais de 2 000 quilômetros quadrados de florestas espanholas viraram po-


eira em apenas 15 anos, dizem os especialistas. Em um congresso recente
sobre desertificação, eles denunciaram que, na Província de Almería, sede do
evento no sul da Espanha, 42% da superfície se transformou em terra estéril,
constituindo o maior deserto da Europa. [a importância da pontuação é dar
clareza ao que é dito, caso contrário, o texto torna-se um amontoado de pa-
lavras desconexas].

263
Elvira Lopes Nascimento

Concordância e
Regência

Concordância e Regência
Concordância e
Regência

Fundação Biblioteca Nacional


ISBN 978-85-387-2773-6

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