Você está na página 1de 30

17/03/2020 Educação para o ócio: da acídia à "preguiça heroica" - Artepensamento

2012

EDUCAÇÃO PARA O ÓCIO: DA ACÍDIA À


“PREGUIÇA HEROICA”
por Olgária Chain Féres Matos

Resumo

Ligadas à história antropológica do ócio e da ociosidade, as reflexões filosóficas sobre a


preguiça interrogam a natureza da vida social e da comunidade política. Como para a
filosofia antiga todo movimento tende ao repouso, o prazer do movimento tem por fim
supremo o descanso feliz, a indolência afortunada. Nesse sentido, a vida contemplativa é,
por excelência, distensão do corpo e não perturbação da alma.

A percepção da mobilidade do tempo e da instabilidade do mundo revela os perigos que


ameaçam a liberdade e a felicidade, levando os gregos à compreensão de que viver é
sabedoria nos usos do tempo. O trabalho para além das necessidades da autoconservação
é atividade sem sentido porque desvia o homem da busca da justa vida e da
contemplação. Usar o tempo a seu favor é vivê-lo para além da preocupação com a
sobrevivência, é aprender a estar consigo mesmo, em uma temporalidade livre do negócio,
porque apenas no repouso formam-se valores espirituais.

Entre os séculos III e IV, na tradição judaico-cristã, a acídia — preguiça do coração —


surgiu como um dos sete pecados capitais. Tentação dos maus pensamentos, a Idade
Média encontra nos pecados capitais os demônios que exercem seu comando sobre as
partes fracas de nossa natureza imperfeita, suscetíveis de corrupção, como o estômago
pela gula e o sexo pela luxúria. Mal do ânimo, a preguiça-acídia, preguiça-tristeza ou
“preguiça do coração” tem poder sobre o mais nobre do homem, o espírito, em virtude da
tênue demarcação entre a meditatio e a preguiça, entre a contemplação religiosa e o
contemptus mundi. Considerada inaptidão a permanecer inativo e com o espírito livre para
chegar a Deus, à realidade verdadeira ou à transcendência, a acídia-preguiça” é a antítese
da “vida boa”.

A modernidade desconhece a preguiça por seu anti-intelectualismo que desacredita todas


as tarefas não vinculadas ao paradigma da produção e do controle do tempo. Com efeito,
até tempos relativamente recentes, as atividades intelectuais, filosóficas, científicas ou
artísticas pertenciam a um domínio privilegiado, em que o trabalho não necessitava ser
útil e, em especial, a filosofia escapava do trabalho e de suas leis. Tendo perdido essa
prerrogativa, o mundo do trabalho intelectual foi submetido à “figura imperial do
trabalhador”.

O direito à preguiça não é um combate econômico, mas reivindica o direito de fazer ou


não fazer, rompendo com a condição de Homo faber e ingressando no território do Homo
ludens. Ativa à sua maneira, a preguiça é irmã do sonho. Pois, como afirmou Heráclito:
“Aquele que dorme age e colabora também ele ao advento do mundo”.

https://artepensamento.com.br/item/educacao-para-o-ocio-da-acidia-a-preguica-heroica/ 1/30
17/03/2020 Educação para o ócio: da acídia à "preguiça heroica" - Artepensamento

A “preguiça heroica”[1] é a maneira como Lafargue compreende os usos do tempo


e procede ao elogio dos gregos, inventores da ciência contemplativa, para os quais
“pensar é o passeio da alma”. Estado de bem-estar e tranquilidade, a preguiça é o
presente que coincide consigo mesmo. Razão pela qual Levinas escreveu: “A
preguiça é a impossibilidade do começo. Ou então […] sua completude”[2].
Tempo avesso à aceleração e a finalidades, essa experiência temporal significa que
já se alcançou o que o ato aportaria, “(como se) houvesse já algo a perder, pois
este algo já se o possui no próprio instante. É porque se pertence que ele se
conserva”[3]. A preguiça é o enlevo mágico, indiferente à duração, pois tudo está
realizado: “É o castelo construído em uma noite, a aparição repentina da
carruagem de ouro com a varinha de condão”[4]. Nesse sentido, a preguiça é a
aura do tempo e das coisas: “Observar, em repouso, uma tarde de verão, uma
cadeia de montanhas no horizonte, ou um galho que projeta sua sombra sobre
nós, significa respirar a aura dessas montanhas, desse galho. Graças a essa
definição, é fácil identificar os fatores sociais específicos que condicionam o
declínio da aura (e do prestígio da preguiça). Ele deriva de duas circunstâncias,
estreitamente ligadas à crescente difusão e intensidade dos movimentos de
massa.”[5]. A sociedade de massa é afeita à “mobilização infinita”, ao fetiche da
inovação e à mudança incessante, hostis ao repouso. Piger é o latim de que deriva
pigritia, esse antivalor que desfuncionaliza o tempo do atarefamento, porque é
“lento”, “indolente”, de onde se deduz que o preguiçoso é “pouco trabalhador”.
Ligadas à história antropológica do ócio e da ociosidade[6], as reflexões filosóficas
sobre a preguiça interrogam a natureza da vida social e da comunidade política.
Nesse sentido, Aristóteles observa: “Só nos dedicamos à vida ativa em vistas a
alcançar o lazer […]. A felicidade depende dos lazeres. Porquanto trabalhamos
para podermos ter momentos de ócio”[7]. Porque viver é uma certa maneira de
usar o tempo e a vida é breve, Homero dispôs em seus versos: “Os homens são
como as folhas. Quando chega o outono, elas caem e são arrastadas pela terra, e
novamente vem a primavera e reverte tudo. Assim são os homens, nasce uma
geração e a outra perece”[8].

No horizonte da finitude, os gregos buscaram, de maneira inaugural, o


fundamento da vida, o próprio do homem, ser que vive em sociedade, exposto,
vulnerável e mortal. Como observou também Nietzsche: “O homem quer existir
socialmente e gregariamente, necessita para tanto concluir a paz (…). Por
necessidade e por tédio”[9]. Se a vida no oikos como na vida pública podem
cansar, é por exigirem esforço para a conservação da vida. O esforço exclui a
preguiça e o prazer.

https://artepensamento.com.br/item/educacao-para-o-ocio-da-acidia-a-preguica-heroica/ 2/30
17/03/2020 Educação para o ócio: da acídia à "preguiça heroica" - Artepensamento

Avessa ao esforço era a filosofia, cujo patrono, Sócrates, não tinha pressa quando
se sentava às margens do pequeno rio Ilisso, nos arredores de Atenas, elogiando os
encantos da sombra das árvores antes do início de um diálogo e de nele se
demorar. Sócrates poucas vezes se afastava da cidade, onde era sempre visto na
praça pública e nos ginásios, nas palestras e em casa de amigos. Aos atarefados
que se precipitavam para cuidar de seus negócios, interpelava-os, perguntando-
lhes em que essas atividades podiam fazê-los homens bons e virtuosos. Como para
a filosofia antiga todo movimento tende ao repouso, o prazer do movimento tem
por fim supremo o descanso feliz, a indolência afortunada. Nesse sentido, a vida
contemplativa é, por excelência, distensão do corpo e não perturbação da alma.
Fundando a democracia e a filosofia, Atenas garantiu o direito à vida
contemplativa e ao ócio (scholé).

Agente livre, mas inserido nos constrangimentos naturais, condenado assim ao


trabalho para viver, o homem age também por vontade e liberdade. Nos processos
intencionais engendrados por escolhas voluntárias (proaíresis) intervém a
fortuna (tyché): “A fortuna é uma causa por acidente, sobrevindo nas coisas que,
tendo em vista algum fim, procedem ainda de uma escolha”[10]. Porque, apesar da
constância e regularidade da natureza, nas questões humanas deve-se considerar
também o inesperado, o homem pode, por liberdade, agir, mas também por
vontade não agir. Porque viver é mais do que sobreviver, é alcançar virtude e
conhecimento, o trabalho é coerção que afasta dos fins últimos e, por isso, deve
ser feito prontamente, para logo nos liberarmos de seu fardo.

https://artepensamento.com.br/item/educacao-para-o-ocio-da-acidia-a-preguica-heroica/ 3/30
17/03/2020 Educação para o ócio: da acídia à "preguiça heroica" - Artepensamento

A percepção da mobilidade do tempo e da instabilidade do mundo revela os


perigos que ameaçam a liberdade e a felicidade, levando os gregos à compreensão
de que viver é sabedoria nos usos do tempo. O trabalho para além das
necessidades da autoconservação — não sentir fome, sede e frio — é atividade
sem sentido porque desvia o homem da busca da justa vida e da contemplação. O
trabalho como um fim em si mesmo é, para os gregos, sem sentido, e de “uma
monotonia infindável que torna, simultaneamente, os dias longos demais e a vida
por demais breve”[11]. O trabalho pelo trabalho, repetitivo e absurdo, como o de
Sísifo, é condenação divina que faz dele o “proletário dos deuses”, como o são
também, na tradição judaico-cristã, Adão e Eva: expulsos do paraíso. Tornados
mortais, devem ganhar a vida com o suor do rosto. Mas, para agentes livres e que
desejam[12], o trabalho não é o que mais importa ao homem, e sim o tempo livre
— a scholé grega ou o otium dos romanos e o do mundo medieval cristão[13].
Diante do trabalho obrigatório, o repouso e a preguiça representam um tempo
anticronológico, avesso à utilidade[14], de tal modo que a antiga maldição do
trabalho não se encontra na necessidade do trabalho para se alimentar e se cuidar,
mas no esforço para isso, no peso que se exerce sobre o ato. Eis o que faz do
presente um tempo estagnado, que custa a passar, como se o presente estivesse
atrasado com respeito a si mesmo. Nesse sentido, a preguiça é um recuo diante do
cansaço, uma recusa do esforço e da pena, como se reconhece no diletante que se
entrega à preguiça. Dilettare é, em italiano, deleitar-se, dar-se a algo por prazer.
Gosto dos diferimentos, da tranquilidade, do descanso e do lazer, o dilletare se
reúne ao licere latino, ao lazer que é “ter permissão”, e por isso o “lícito” é o
“tempo para fazer o que bem se entender”. Se lentidão e calma, indiferença e
inação, escoamento do tempo e bel-prazer se dão no limiar da despreocupação, o
tempo da preguiça não é um “matar o tempo” porque isso é propriamente o tédio,
tempo de mal-estar com qual não se sabe o que fazer. Como escreveu Baudelaire:
“É preciso trabalhar, se não por gosto, pelo menos por desespero, posto que, tudo
bem pesado, trabalhar entedia menos que se divertir”[15].

Porque o tempo da existência é um dom do tempo, mas breve, os gregos


encontraram na scholé a forma superior do bem viver e da felicidade: “a scholé é o
tempo reservado ao estudo, ao conhecimento de si e dos outros, à contemplação
apaziguadora”[16]. Esta se relaciona com o culto e os cuidados “teóricos” que ele
requer, pois teo-orein é o olhar de deus e o cuidado de Deus; teoria é “ter cuidado
como o divino”, “ter cuidado com o ver”. Contemplação e cura encontram-se na
palavra terapeuma:

https://artepensamento.com.br/item/educacao-para-o-ocio-da-acidia-a-preguica-heroica/ 4/30
17/03/2020 Educação para o ócio: da acídia à "preguiça heroica" - Artepensamento

Therapeutès é o servidor ou adorador de um deus, e aquele que cuida, médico.


Therapeutikós é quem cuida de, é o dedicado, prestativo, que se entrega aos
ofícios religiosos, que cuida com solicitude e reverência respeitosa, therapeutikós
sendo a arte de velar por algo. Therapeutos é o que se pode cultivar; é o curável;
therapeuô é tomar conta, servir, cercar de cuidados, solicitude; honrar os deuses,
os pais; fazer os serviços dos templos, ocupar-se com as coisas do culto, cultivar a
terra, cuidar da alma, da inteligência, prestar um serviço; dispensar cuidados
médicos, tratar; cuidar de si.[17]

Dedicar o tempo a algo significa conferir-lhe valor, e atribuir valor é a


quintessência do amor. A scholé refere-se, pois, “às coisas a que dedicamos nosso
tempo, ou aquilo que merece o emprego do tempo: De onde, por meio de uma
notável evolução, o sentido de ‘estudo’, encontrado em Platão”[18]. Transmitida
ao scholion, o comentário (scholion) significa lazer, tempo livre, tranquilidade e
também preguiça. Quanto ao advérbio scholei, é lentamente, com vagar e ócio, à
vontade: “Os comentários ou escólia são uma espécie de luxo, um capricho (de
aluno atencioso), uma brincadeira (de professor aplicado), um jogo nas margens
dos discursos: um convite para que o leitor se transforme também em flâneur”.[19]

https://artepensamento.com.br/item/educacao-para-o-ocio-da-acidia-a-preguica-heroica/ 5/30
17/03/2020 Educação para o ócio: da acídia à "preguiça heroica" - Artepensamento

Essa é a razão pela qual o exercício da filosofia tinha caráter lúdico e foi
apresentado como um jogo de perguntas e respostas[20], a exemplo do Sofista, em
que Platão põe em cena Teeteto levado pelo Estrangeiro de Eleia a admitir que o
sofista pertence àquele gênero de indivíduo “que se dedica a brincadeiras”[21], e
Parmênides, solicitado a se pronunciar sobre a questão do Ser e da existência,
considera essa tarefa um logo difícil de jogar”[22]. Quanto a Platão, inspirado por
Sófron, autor de farsas em forma de diálogo, compôs suas obras como os
“mimos”[23] que eram também personagens de comédia, por isso, Sócrates e
Platão, algumas vezes, foram denominados “taumaturgos e malabaristas”,
próximos nisso aos sofistas. O Crátilo de Platão é um diálogo de tom desprendido
e informal, da mesma maneira que no Sofista Protágoras narra, não sem humor, a
origem da política a partir do mito de Epimeteu e Prometeu: “Quanto à forma e
aos nomes desses deuses”, diz Sócrates, “há uma explicação ao mesmo tempo
cômica e séria, pois os deuses apreciam o humor[24]. Nos diálogos, os diversos
interlocutores consideram as investigações filosóficas um “agradável passatempo”.
Nas Leis, lê-se: “Os deuses, cheios de piedade pelos humanos, raça condenada a
sofrimentos, instituíram para os aliviar de suas fadigas e apaziguar seus tormentos
o ciclo das festas divinas. Deram-lhes por companhia e guias Apolo e Dionísio, a
fim de que, assim nutridos na festa dessa divina frequentação, recebessem
novamente a retidão e a ordem”[25]. Porque a ordem é bela e tem seu tetos, a
natureza não quer apenas que trabalhemos bem, mas igualmente que utilizemos
apropriadamente o ócio: “Para Aristóteles, a preguiça ou ócio é o princípio do
universo. É uma coisa preferível ao trabalho e é sem dúvida o fim (tetos) de todo
trabalho. […] Esta felicidade, o fim da necessidade de lutar por aquilo que não se
tem, é o tetos [algo] que não é procurado em função de um bem futuro, mas em
função de si mesmo”[26]. Tempo livre é scholazei, não se apressar, preguiçar; é
diagogé[27], “passar através” e, de maneira aproximada, “passatempo”, embora
nessa expressão se ausente o elemento lúdico que lhe é essencial: “Aquilo que não
encerra utilidade, nem valor simbólico, também não acarreta consequências
nefastas, pode ser apreciado mediante o critério do encanto (cháris) que possui e
pelo prazer que provoca. Esse prazer, dado não ter por consequência um bem ou
um mal dignos de nota, constitui um jogo — paidiá[28]. Simpósios e conversações
filosóficas eram precedidos de banquetes, libações e vinho, os comensais
alongados em uma espécie de leito. A ascholia — falta de tempo livre laboriosa e
lucrativa, era aviltante porque comportava o esquecimento de si”, o não tempo
para o autoaprimoramento. Nessa tradição, Sêneca escreveu a seu discípulo
Lucílio: “Você conhece ao menos um homem que dê valor ao tempo, a um dia, que
sabe que todos os dias ele morre um pouco?”. Dessa forma, o ócio é o reencontro

https://artepensamento.com.br/item/educacao-para-o-ocio-da-acidia-a-preguica-heroica/ 6/30
17/03/2020 Educação para o ócio: da acídia à "preguiça heroica" - Artepensamento

do tempo perdido, aquele que passou sem ser cuidado: “Melhor é estar ocioso que
se agitar sem fazer nada”. Usar o tempo a seu favor é vivê-lo para além da
preocupação com a sobrevivência, é aprender a estar consigo mesmo, em uma
temporalidade livre do negócio, porque apenas no repouso formam-se valores
espirituais. De onde a elaboração de uma techné tou biou: “Nenhuma técnica,
nenhuma habilidade profissional pode ser conseguida sem exercício, não se pode
também aprender a arte de viver, a techné tou biou, sem uma askesis (exercício)
que deve ser entendida como um exercício de si por si mesmo: eis um dos
princípios tradicionais a que muitos pitagóricos, socráticos, cínicos deram uma
grande importância. Parece que, entre todas as formas tomadas por este exercício
e que comportavam abstinências, memorizações, exames de consciência,
meditações, silêncio e escrita, o fato de escrever para si e para o Outro tenha
vindo a desempenhar bem mais tarde um papel considerável”.[29] Descanso
necessário, ele foi assim formulado por São Tomás de Aquino: “O ócio, o jogo e
tudo o que se relaciona com o repouso são coisas agradáveis, pois eliminam a
tristeza decorrente do cansaço”. Dada sua natureza finita, o homem não poderia
entregar-se ininterruptamente às atividades físicas e intelectuais e, por isso, há um
tempo para o descanso e o prazer: “Somos não ociosos para termos ócio”[30]. E sua
associação à festa revela que o tempo livre é o contrário do esforço. São Tomás de
Aquino escreve: “A virtude consiste no que é um bem, mais do que naquilo que é
difícil”[31].

Mas, porque resultados utilitários no conhecimento e na ação estão sujeitos à


contingência, saberes incertos e angústia encontram-se na origem do desejo de
estabilidade, tranquilidade e inação, pois quem quer que procure a verdade
encontra-se em estado de inquietação. O preguiçoso, não. Como escreve
Descartes:

[porque o desígnio da busca de uma verdade] é árduo e trabalhoso, certa preguiça


arrasta-me insensivelmente para o ritmo de minha vida ordinária. E assim como
um escravo que gozava de uma liberdade imaginária, quando começa a suspeitar
de que sua liberdade é apenas um sonho, teme ser despertado e conspira com
essas ilusões agradáveis para ser mais longamente enganado, assim eu reincido
insensivelmente por mim mesmo em minhas antigas opiniões e evito despertar
dessa sonolência, de medo que as vigílias laboriosas que se sucederiam à
tranquilidade de tal repouso, em vez de me proporcionarem alguma luz ou
alguma clareza no conhecimento da verdade, não fossem suficientes para
esclarecer as trevas das dificuldades que acabam de ser agitadas[32].

https://artepensamento.com.br/item/educacao-para-o-ocio-da-acidia-a-preguica-heroica/ 7/30
17/03/2020 Educação para o ócio: da acídia à "preguiça heroica" - Artepensamento

Porque o conhecimento dos fenômenos naturais é inacessível ao homem, o saber


da física incerto, nossa inteligência limitada e nossa natureza imperfeita — como o
testemunham os desacordos incessantes dos filósofos que aspiram conhecê-los
como, mais que tudo, ele é inútil e até mesmo prejudicial se se desvia das
verdadeiras questões, aquelas que se perguntam sobre o fim último das coisas,
sobre o homem.

Tudo o que dispersa da busca do bem viver é condenado também desde os


primórdios da tradição cristã, quando, entre os séculos III e IV, a acídia —
preguiça do coração — surgiu como um dos sete vitia capitalia[33]. Caput não
significa apenas “cabeça”, pecado que encabeça todos os demais, mas, antes de
tudo, é a “fonte” de que decorrem inúmeros desregramentos e extravios. Nesse
sentido, Bernard Haring escreve: “A indolência espiritual (a acídia) — o sétimo
pecado capital — denomina-se comumente preguiça; mas a tradição teológica não
quer dizer preguiça no trabalho ou desejo imoderado de repouso e de prazeres (o
que seria a preguiça propriamente dita: pigritia). Trata-se aqui de uma falta de
gosto pelas coisas espirituais e de ardor para lutar contra o peso da Terra e se
elevar às coisas divinas. Esse torpor espiritual se manifesta de forma extremada na
busca febril das coisas terrenas”[34]. A preguiça-acidia[35] é ausência de repouso
interior e, assim, uma incapacidade ao ócio, a que se associa o desespero.
Tentação dos maus pensamentos, a Idade Média encontra neles os demônios que
exercem seu comando sobre as partes fracas de nossa natureza imperfeita,
suscetíveis de corrupção, como o estômago pela gula e o sexo pela luxúria. Mal do
ânimo, a preguiça-acídia, preguiça-tristeza ou “preguiça do coração” tem poder
sobre o mais nobre do homem, o espírito, em virtude da tênue demarcação entre a
meditatio e a preguiça, entre a contemplação religiosa e o contemptus mundi.
Com efeito, o desprezo do mundo e a insignificância do homem se encontram no
Eclesiastes, em que se manifesta a vaidade própria a todo empreendimento
humano[36]. Considerada inaptidão a permanecer inativo e com o espírito livre
para chegar a Deus, à realidade verdadeira ou à transcendência, a acídia-
preguiça[37] é a antítese da “vida boa”, é incapacidade à preguiça. Ela é, sobretudo
entre os escritores religiosos, “o tédio e o desânimo que se apossam de uma alma
impossibilitada de se fixar em alguma coisa e realizar aquelas tarefas às quais
devia dedicar-se”[38].

https://artepensamento.com.br/item/educacao-para-o-ocio-da-acidia-a-preguica-heroica/ 8/30
17/03/2020 Educação para o ócio: da acídia à "preguiça heroica" - Artepensamento

A acídia tem uma história que começa nos desertos de Alexandria e nos mosteiros
do Egito. Se a vontade se esvai e o desânimo se apodera dos solitários em suas
celas de monge, a disciplina religiosa prevê o socorro espiritual de um superior. Já
o anacoreta, que voluntariamente parte para o deserto, não obedece a nenhum
superior, família ou sociedade, tampouco a um guia espiritual. Em sua solidão, a
cada instante renova sua escolha e seu retiro, permanecendo no deserto quando
poderia ajeitar sua despojada bagagem e voltar ao mundo. Lá permanecendo,
reafirma sua liberdade. Questão de homens livres, a acídia revela os limites da
busca de si mesmo, manifestando-se na instabilitas, esse mal-estar do corpo e
tentação de abandonar o lugar em que se encontra o eremita, arrastado pela
deriva dos pensamentos[39]. Se logismos é o pensamento, o plural logismoi adquire
um sentido pejorativo, pois a eles se sobrepõe a ideia de embaralhamento dos
pensamentos, naturalmente bons, do homem, identificados ao demônio que os
produz, fazendo o monge cair na tentação de desviar-se de Deus[40]. Enigma da
solidão, é difícil avaliar o que impulsiona ao desejo de estar só[41] senão que, não
conseguindo cumprir as exigências da vida em sociedade, o solitário escolhe a
solidão[42] para, no limite, tornar-se monge e finalmente encontrar a paz.
Sofrimento psíquico e dor moral, a acídia faz do deserto um “martírio
interiorizado”. Nos Apotegmas de Evágrio lê-se: “O santo abade Antônio, entre as
pedras do deserto, foi tomado pelo tédio, em grande obscuridade de pensamentos.
Ele diz a Deus: ‘Senhor, eu queria ser salvo, mas os pensamentos não o permitem.
Que devo fazer em minha aflição?'”[43].

https://artepensamento.com.br/item/educacao-para-o-ocio-da-acidia-a-preguica-heroica/ 9/30
17/03/2020 Educação para o ócio: da acídia à "preguiça heroica" - Artepensamento

Acídia é o “mal dos pensamentos” que, sem trégua, são “maus pensamentos”,
pensamentos pesados. Por isso, os padres da Igreja investigam seus mecanismos, o
que faz do logismos — supputatio, computatio, raciocinium — sinônimo de maus
pensamentos e pecado da alma. A acídia é a doença mental dos pensamentos
incontroláveis e de suas provações. A essa evagatio mentis, a essa fuga das ideias, a
esse lamento, Deus envia um anjo[44] que tece os fios de uma corda, trabalho
manual que é o modelo da atividade do santo, que ele deve alternar com orações.
Mas fabricação de cestos, trançamento de cordas e tecelagem de junco não
combatem a acídia — o trabalho manual é monótona repetição. Recusando essa
arte, o acidioso rejeita o humilde tecer, imagem da resignação cristã. Por isso, no
capítulo “Da preguiça” da Nau dos insensatos de Sebastian Brant, de 1494, a
gravura que representa a acídia não tece nem fia, segurando uma roca mas sem
utilizá-la. Fuso e roca encontram-se juntos, na mesma mão, indicando que a obra
não se realizará porque a fiandeira é preguiçosa e adormeceu. Estado de
desconsolo provindo do interior do próprio homem, a acídia é essa não
coincidência do homem consigo e, por isso, “vício do espírito”. A acídia não é
tempo livre, pois este só é possível quando o homem faz-se “um” consigo mesmo
e, sem conflitos na alma, consente em seu próprio ser, esquecendo as
preocupações e entregando-se ao lazer piedoso, semelhante ao dormente que se
abandona ao sono justamente para poder dormir[45].

https://artepensamento.com.br/item/educacao-para-o-ocio-da-acidia-a-preguica-heroica/ 10/30
17/03/2020 Educação para o ócio: da acídia à "preguiça heroica" - Artepensamento

Sono sem repouso, a acídia é instabilidade da alma e ansiedade, o contrário do


sono reparador. Sono pesado e culpado, ele se encontra sob os auspícios do
“demônio do meio-dia”[46]. Canicular, o daimon mesembrinos[47] é mais forte no
verão e, apoderando-se do ânimo, não provoca o sono, ao contrário, persegue o
acidioso com pensamentos dolorosos e obsedantes. Não se trata, em verdade, de
dormir, mesmo porque o calor é excessivamente intenso. Demônio do meio-dia,
abandono da tecelagem dos cestos, dormência ou agitação, a acídia é taedium sive
anxietas cordis, desgosto ou inquietude do coração: “Todos os inconvenientes
desta doença, o bem-aventurado Davi os experimentou com finura em um único
verso, dizendo: ‘minha alma se entorpeceu por causa do desgosto’, isto é, por
causa da acídia. Ele diz com justiça que não é o corpo, mas a alma que se
entorpeceu”[48]. Servindo-se dos pensamentos, os demônios agitam o logismos, as
paixões, provocando os pecados correspondentes: gula, concupiscência, avareza,
tristeza, cólera, desânimo (acídia), vanglória e orgulho.[49] Retornando dos
desertos de Alexandria, São Jerônimo escreve sobre os solitários. “Há monges em
quem a umidade das celas em que se encontram, seus jejuns imoderados, sua
aversão à solidão, uma leitura por demais prolongada, os ruídos que dia e noite
perturbam a audição fazem-nos cair em melancolia e têm necessidade dos
remédios de Hipócrates mais do que de nossos conselhos”[50].

O imaginário moral do Ocidente, no qual o deserto, o mundo e Deus concorriam


entre si, perde a acídia e sua majestade de pecado capital ao fim da Idade Média.
E, com o desenvolvimento do capitalismo, cujos valores procedem da vida
material e do interesse econômico, a acídia é confinada, no laico Século das Luzes,
como superstição da “moral religiosa”. Secularizada, a acídia é assimilada à
tristeza e torna-se sinônimo de indiferença[51]. Mas essa “preguiça do espírito” é
também um torpor que se manifesta nos excessos do Homo faber e sua busca febril
de coisas terrenas[52]. Nesse sentido, a preguiça se opõe à acídia, pois ela é seu
duplo positivo, a paciência de existir…[53]

https://artepensamento.com.br/item/educacao-para-o-ocio-da-acidia-a-preguica-heroica/ 11/30
17/03/2020 Educação para o ócio: da acídia à "preguiça heroica" - Artepensamento

É da percepção de um vazio que se arrasta que Pascal constrói


seus Pensamentos refletindo sobre os divertissements que preenchem os tempos
mortos. Mais preocupado com a “salvação da alma” do que com a ciência natural
matematizada que abandona a transcendência, seu Prefácio para o tratado do
vazio anuncia um trabalho que jamais foi escrito e que deveria construir um
diálogo com as teorias de seus contemporâneos. Nele, porém, não se encontra
uma “teoria do vazio”, e sim, mais propriamente, o horror vacui legado da
tradição, recusado por Galilei e Descartes na doutrina da ciência, mas acolhido por
Pascal como horror ao vazio em sentido existencial e como uma verdade da
tradição. Nesse sentido Josef Pieper observa: “Enquanto Descartes nos convida a
rejeitar tudo o que não for absolutamente certo, Pascal, ao contrário, nos sugere
ficarmos com tudo, enquanto não se tiver a prova cabal de que é falso”[54].
Descartes, diversamente de Pascal, preza o tempo vagaroso e lento, o de
permanecer preguiçosamente junto a sua lareira. Na confusão de seus
pensamentos, na indeterminação da realidade e da imaginação, Descartes medita
sobre o pedaço de cera que acaba de ser retirado da colmeia e, quando
aproximado do fogo, provoca o estupor diante de suas metamorfoses. Ao lado do
fogo, Descartes reflete também sobre o sonho que de tão realista parece real:
sonhar que está acordado. Esses “devaneios que imaginamos quando
adormecidos”[55], caprichosos e extravagantes, distinguem-se da realidade
incontestável dos pensamentos (cogitationes), pois somos nós que pensamos,
mesmo as coisas falsas.

https://artepensamento.com.br/item/educacao-para-o-ocio-da-acidia-a-preguica-heroica/ 12/30
17/03/2020 Educação para o ócio: da acídia à "preguiça heroica" - Artepensamento

Em meio à angústia das incertezas do sensível, Descartes se permite ficar


preguiçoso, desviando-se de qualquer pensar metódico. O pedaço de cera é
distração e puro divertimento, pois com tranquilidade ele o vê mudando de forma
e cor. O pensamento é, em um primeiro momento, coagitatio, cogitationes são co-
agitationes: “O que é a coagitação? Em sentido medieval, a coagitatio designa a
desordenada agitação dos fantasmas em nosso espírito. É uma sobreatividade da
imaginação, uma hipertrofia da fantasia, ligada à melancólica acídia”[56].
Descartes enfrenta a inquietação interior, a mistura de sensações, imagens e ideias
para, depois do estado de confusão mental, de dizer sim ou não, de querer e não
querer, alcançar o descanso da mente. Na intimidade bem aquecida de “sua
lareira”[57], a preguiça favorece o conhecimento. Próximo do fogo que modifica a
cera e o mundo, Descartes afirma que mesmo dormindo é bem ele mesmo quem
dorme, vê, ouve e sente o calor do fogo”[58]; mesmo falsos todos os conteúdos do
pensamento, dos sonhos e da imaginação, resta de todos uma fonte segura — o eu
pensante que não poderia ser falso. O acediasta medieval se transformou em
filósofo que não renega a preguiça. Só então Descartes estará preparado para a
Ciência. Como escreve Anne Larue: “Não é mais o tempo de cogitar, dormir,
sonhar talvez perto do fogo ou ser assaltado por logismoi, mas de afirmar, em
novas bases, um novo reino do pensamento”[59].

É a esse lazer despreocupado que o século XIX retornará, em meio ao capitalismo


moderno e à proletarização do operário, expropriado de seu saber-fazer e
reduzido a mera força de trabalho, desmotivada e sem sentido, a não ser o de
prover sua subsistência. Essa é a razão pela qual Paul Lafargue declarava o não
senso das lutas operárias de 1848 na cidade de Paris e seu lema do “direito ao
trabalho”[60]. A semana dos três oitos — oito horas de trabalho, oito horas de
descanso, oito horas de sono — não é senão o otium pervertido em otimização:
“Uma estranha loucura”, escreve Lafargue, “dominou as classes operárias das
nações onde reina a civilização capitalista. Essa loucura traz como consequência
misérias individuais e sociais que há dois séculos torturam a triste humanidade
[…]. Em vez de reagir contra esta aberração mental, os padres, os economistas, os
moralistas sacros santificaram o trabalho […]; homens fracos e desprezíveis
quiseram reabilitar aquilo que o seu Deus amaldiçoou”.

Antecipando Weber em um século, Lafargue encontra na Reforma


protestante[61] o espírito do capitalismo “sem espírito”, pois reduz o tempo e o
trabalhador a objetos da empresa capitalista. Lafargue anotou:

https://artepensamento.com.br/item/educacao-para-o-ocio-da-acidia-a-preguica-heroica/ 13/30
17/03/2020 Educação para o ócio: da acídia à "preguiça heroica" - Artepensamento

Os puritanos, pessoas sóbrias e morosas, internalizaram a maldição do trabalho


em sentido literal. Quanto mais sofriam com o trabalho, mais acreditavam agradar
a Deus. Para eles, o trabalho era meritório. Faziam suas as palavras de Jó: ‘o
homem é naturalmente feito para o trabalho como o pássaro para voar’, e do livro
III do Gênesis, adiantavam a fórmula: ‘quem não trabalha não come’. Nossa época
é, dizem, o século do trabalho; na verdade é o século da dor, da miséria e da
corrupção […]. E, no entanto, os filósofos, os economistas burgueses (…), os
intelectuais, todos entoaram cantos nauseantes em honra do deus Progresso, o
filho mais velho do Trabalho. Ouvindo-os, podia-se crer que a felicidade iria reinar
na Terra. […] Acorriam aos séculos passados para vasculhar o pó e a miséria
feudais a fim de trazer sombrios contrastes às delicias dos tempos presentes[62].

Conferindo dignidade à preguiça, Lafargue reconhece nela um direito, reavendo a


tradição grega e romana, a scholé e o otium, para medir a alienação do presente:
“Platão e Aristóteles, pensadores gigantes, (…) desejavam que os cidadãos de suas
Repúblicas ideais vivessem no maior lazer, pois, acrescentava Xenofonte, trabalho
tira todo o tempo e corn ele não há nenhum tempo livre para a República e para
os amigos. Segundo Plutarco, o grande título de Licurgo, mais sábio dos homens,
para admiração da posteridade, era ter concedido a ociosidade aos cidadãos da
República, proibindo-os de exercer qualquer trabalho”[63]. Porque a preguiça é a
condição primeira da liberdade[64], o mito de uma idade de ouro onde impera o
ócio acalentou a muitos no século XIX, trazendo de volta os utopistas da
Renascença e os contemporâneos que reagem contra o trabalho. Em seu
imaginário fantástico, reúnem-se aos protestos camponeses, mais terra a terra,
decorrentes do sobretrabalho e de sua miséria. Na França e na Inglaterra,
proliferam publicações sobre Le pays des fainéants e Le pays de Cocagne[65]. Nelas
se descreve a sociedade ideal com sua abundância de alimentos e bebidas, obtidos
sem esforço e preocupação, sem sofrimento e sem nenhum mal. Em contrapartida,
lembre-se Lênin, preocupado em atacar o Ancien Régime czarista e intensificar a
produtividade do trabalho e a acumulação do capital, quando, em seu
pronunciamento ao partido em 22 de março de 1922, declarava guerra à “eterna
preguiça dos russos”, referindo-se ao romance Oblomov de Ivan Gontcharov,
publicado nos anos 1880 na Rússia[66] e cujo protagonista, de personagem
literária, transformou-se em mito nacional.

https://artepensamento.com.br/item/educacao-para-o-ocio-da-acidia-a-preguica-heroica/ 14/30
17/03/2020 Educação para o ócio: da acídia à "preguiça heroica" - Artepensamento

Oblomov é um “Platão preguiçoso”, cuja posição preferida é estar deitado. Ele é


um contemplativo, para quem qualquer locomoção ou mudança no cotidiano
constitui uma provação moral. Menos apático do que lúcido, menos desiludido do
que clarividente, Oblomov é o romance da procrastinação e dos adiamentos, da
recusa de qualquer ação[67]. Lênin o ataca: “Oblomov sempre representou um tipo
de vida russo. Ele passava o tempo deitado em sua cama arquitetando planos.
Muita água correu desde então. Embora a Rússia tenha passado por três
revoluções [a de 1905, a deposição de Kerenski e a Revolução de 1917], ainda
existem Oblomovs porque Oblomov era um proprietário de terra mas também um
camponês, um camponês mas também um intelectual, um intelectual mas também
um operário e um comunista. Basta que nos observemos, basta ver como nos
portamos, como trabalhamos nas comissões, para verificarmos que o velho
Oblomov ainda está por aqui e que será preciso durante muito tempo lavá-lo,
sacudi-lo e esfolá-lo para mudar alguma coisa. Eis a razão pela qual devemos
examinar nossa situação atual, sem ilusões”[68]. Não passou muito tempo e
Stakhanov, esse Hércules dos trabalhos fabulosos, tornou-se o operário padrão,
modelo do revolucionário que não esmorece nunca, o mineiro que extraiu em uma
só jornada e sozinho 102 toneladas de carvão, o que deu início, em 1935, ao
movimento stakhanovista, que se espalhou por toda a produção industrial.

https://artepensamento.com.br/item/educacao-para-o-ocio-da-acidia-a-preguica-heroica/ 15/30
17/03/2020 Educação para o ócio: da acídia à "preguiça heroica" - Artepensamento

Oblomov recusa uma vida heroica, sua renúncia é elevação à tranquilidade, ao


contentamento e ao repouso. Não adere ao cotidiano agitado de seu tempo[69].
Como meio de informação possui apenas um almanaque que, com os santos do
calendário, marca o ritmo de sua existência, sem sobressaltos ou grandes paixões.
Aprecia uma boa refeição e uma sesta, devaneando enquanto fuma seu charuto. E
se não lhe seduz o luxo, aprecia o conforto; embora seu médico lhe recomende
enfaticamente exercícios físicos, não os faz. Vocacionado para a preguiça, sua
maior ambição é perseverar em seu ser: “O livro de Gontcharov é uma meditação
acerca da sabedoria inventada pelo homem para fazer frente a sua má condição
[…]. A oblomoveria é uma forma nova de sabedoria de que faz parte a acídia, uma
forma de hedonismo alimentar a serviço do sono e uma religiosidade que não o
domina, mas que ele domina […]. Aquém do esforço e do cansaço Oblomov
considera sempre evitar os extremos. Mesmo no amor, prefere uma viúva já com
filhos que uma esposa jovem e aguerrida. Próximo da aurea mediocritas, a
sabedoria de Oblomov deseja o justo meio, única dimensão em que o homem pode
estabelecer uma vida destinada, de todo jeito, à perda, sem estremecimentos […].
Ele não quer um futuro, não quer o tempo, escolhe a imutabilidade que imita a
eternidade prometida […]. O melhor comentário sobre Oblomov é o de guiar-se
por Epicuro, para quem a vida perfeita é aquela em que não mais se necessita das
coisas cuja aquisição exige esforço […]. Deixar a outros as questões insolúveis do
dever, da liberdade, eis a via que ele escolheu, sem ressentimento ou amargura.
Um homem não pode fazer muito mais, em sua busca da felicidade, que evitar as
situações de sofrimento, em cuja primeira fileira se encontram as paixões […]. As
grandes alegrias se pagam caro demais: as ambições intelectuais e os choques
afetivos são tão insuportáveis que somente uma sexualidade tranquila e sem
tensão, uma alimentação sóbria e regular podem exorcizar. O preguiçoso é um
hipersensível que desconfia do mundo”[70].

Privilegiando uma eudaimonia ao alcance do homem, sua felicidade suprime as


crises, os grandes feitos teatrais e as tempestades afetivas e políticas. Oblomov é
umindolente, aquele que dissipa em si todas as dores. Do preguiçoso o mundo não
tem nada a temer, pois a preguiça destrói a própria raiz do excesso e da
perdição[71].

https://artepensamento.com.br/item/educacao-para-o-ocio-da-acidia-a-preguica-heroica/ 16/30
17/03/2020 Educação para o ócio: da acídia à "preguiça heroica" - Artepensamento

O preguiçoso, como o filósofo contemplativo ou o poeta, não participa das artes


guerreiras ou dos jogos nas palestras, não compõe discursos sérios, não cumpre os
deveres do bom cidadão, não intervém na vida pública. No fundo de sua atitude
‘estoica’, há ceticismo. Sua afasia e apatia resultam da compreensão da finitude do
homem e dos limites de nossa inteligência para resolver a totalidade dos
problemas do mundo. Sua epoché procede da dúvida, dessa atitude própria a quem
é sensível à contingência de tudo que é humano, mau, temporal. Obcecado pela
ideia de ser obrigado a remanejar seus domínios, pagar seus impostos e organizar
suas perdas, “ele se deita em seu divã, coloca a mão na testa e pensa, e pensa até
que, esgotado por este penoso trabalho, ele murmura com boa consciência: ‘já
pensei o suficiente por hoje pelo bem comum’[72]. Estado de quietude, a preguiça
se diferencia da ociosidade e da desocupação. Na ociosidade pesa o tempo vazio; a
inatividade desocupada é tédio do qual se quer escapar, mas que resulta apenas
em evasão sem itinerário, ao termo da qual não se encontra um lugar de
acolhimento e de repouso. O ocioso sofre o tempo vazio e improdutivo sem o
preencher, enquanto o preguiçoso é seu artesão[73].

https://artepensamento.com.br/item/educacao-para-o-ocio-da-acidia-a-preguica-heroica/ 17/30
17/03/2020 Educação para o ócio: da acídia à "preguiça heroica" - Artepensamento

A modernidade desconhece a preguiça por seu anti-intelectualismo que


desacredita todas as tarefas não vinculadas ao paradigma da produção e do
controle do tempo. Com efeito, até há pouco, as atividades intelectuais, filosóficas,
científicas ou artísticas pertenciam a um domínio privilegiado, em que o trabalho
não necessitava ser útil e, em especial, a filosofia escapava do trabalho e de suas
leis. Tendo perdido essa prerrogativa, o mundo do trabalho intelectual foi
submetido à “figura imperial do trabalhador”. Para Kant, por exemplo, o
conhecimento intelectual sendo “exclusivamente discursivo” é “não intuitivo”.
Colocar em relação, comparar, distinguir, abstrair é um “esforço do pensamento”,
é “atividade”. Por isso, Kant considerou a filosofia e o conhecimento que ela
representa — o mais distanciado da percepção sensível — uma forma de trabalho.
Em seu ensaio “Sobre um tom superior recentemente tomado em filosofia”(1796),
Kant a considera segundo a lei da razão: “Não se adquire um bem senão pelo
trabalho”[74]. Desse modo, a filosofia dos românticos, como a de Jacobi, mas
também a de Bergson e Schopenhauer, orientando-se pela intuição, não constitui
um trabalho, não é uma verdadeira filosofia, como também não o é a de Platão,
“Platão é o pai de toda exaltação mística em filosofia”. Quanto à filosofia de
Aristóteles, “ela é, ao contrário, um trabalho”[75]. Não por acaso, Kant trata o ato
filosófico de “trabalho hercúleo” que encontra na personagem de Hércules, esse
herói dos esforços desmedidos, sua legitimação. Porque a “intuição” não “custa
nada”, ela é suspeita, não comportando nenhum ganho real em conhecimento,
pois, por sua natureza, ela é “fácil” e sem esforço. Nesse sentido, o bem deve ser
de natureza difícil e, assim, o critério do bem moral é o esforço da vitória sobre si
mesmo. Quanto mais difícil, “maior será o Bem”. Antecipando Kant, Antístenes, do
círculo dos frequentadores de Sócrates, não tinha o sentido do culto religioso, do
“esplendor das estátuas”, das coisas belas que eram “uma alegria para sempre”.
Com desdém “iluminista e racionalista”, dirigia-lhes palavras para mostrar aos
passantes que elas eram mudas e nada tinham de divino. Eram-lhe estranhas as
musas, pois lhe faltava a capacidade de responder a Eros: “Afrodite, eu a cravaria
de flechas se eu a encontrasse”[76]. Construindo a ideia de pensamento como pura
atividade, Kant negou o núcleo do conhecimento antigo, seu elemento não ativo e
receptivo. Receptivo mas não “passivo”, porque a um só tempo ratio e intelecto:
“Para os gregos, como para os grandes pensadores da Idade Média (como Santo
Tomás de Aquino), a percepção sensível não é a única que comporta um aspecto
receptivo, também no domínio do conhecimento intelectual existe, igualmente,
segundo eles, um elemento de acolhimento, um olhar puramente receptivo ou,
para dizer com Heráclito, uma ‘escuta da essência das coisas’[77].

https://artepensamento.com.br/item/educacao-para-o-ocio-da-acidia-a-preguica-heroica/ 18/30
17/03/2020 Educação para o ócio: da acídia à "preguiça heroica" - Artepensamento

A preguiça é a liberdade de fazer ou não fazer. Como escreveu Levinas: “A


preguiça não é nem a ociosidade nem o repouso. Ela comporta, como o cansaço,
uma atitude com respeito ao ato. Ela não é simples indecisão, um embaraço na
escolha. Não decorre de uma falta de deliberação, porque não delibera sobre os
fins. Ela se coloca para além da intenção”[78]. Nesse sentido, Bartleby, personagem
do romance de Melville, manifesta o vigor do não, com seu gosto pelo anonimato
e pela inação. O escriba que não escreve — pois Bartleby é um escrivão — é a
imagem da potência passiva que resiste tanto ao coletivo como ao indivíduo,
indecidível em sua fórmula concisa “I would prefer not to”. Celebração do nada,
seu gesto é profanatório, porque o trabalho é uma “invenção maléfica” e de
valorização recente. Por isso, Lafargue observava que os gregos o desprezavam e
se deleitavam com os “exercícios corporais e os jogos da inteligência”.

O direito à preguiça não é um combate econômico, mas reivindica o direito de


fazer ou não fazer, rompendo com a condição de Homo faber e ingressando no
território mais hospitaleiro e feliz do Homo ludens. Como escreve Lafargue: “Num
regime de preguiça, para matar o tempo que nos mata segundo por segundo,
haverá espetáculos e representações teatrais”. Quanto ao trabalho, este necessita
emancipar-se do maior narcótico do século, a devoção: “Se a classe operária se
erguesse com sua força, não para reclamar os Direitos do Homem, que não são
senão o direito à exploração capitalista, não para reclamar o direito ao trabalho,
que não é senão o direito à miséria, mas para forjar uma lei de bronze que
proibisse todos os homens de trabalhar mais de três horas por dia, a Terra,
estremecendo de alegria, sentiria surgir um novo universo”. Se o sono profundo é
reconfortante, é por se assemelhar ao repouso divino. No livro de Jó, à noite, Deus
dá ao povo bom a alegria, o descanso e os cantos. Insônia, ao contrário, é a
impossibilidade do abandono de si, abandono que permite, justamente, dormir[79].

A preguiça como um direito se exerceu no ano de 1968. Nas palavras de Boris


Groys: “Tomo como exemplo os anos sessenta, que foram um presente dos deuses.
[Em 68] muita gente, em Paris ou na Alemanha, começou a exigir: ‘Queremos
fazer alguma coisa sem fazê-la. Queremos

https://artepensamento.com.br/item/educacao-para-o-ocio-da-acidia-a-preguica-heroica/ 19/30
17/03/2020 Educação para o ócio: da acídia à "preguiça heroica" - Artepensamento

converter o tempo livre em trabalho e o trabalho em tempo livre’ […]. Duchamps


disse que no momento em que exibiu seu urinoir sentiu-se mais além do espaço e
do tempo. Repetiu, por assim dizer, um ato divino, o ato de criação absoluto mais
além do trabalho […]. Existe esse sonho divino: criar sem esforço, como Deus
[…]. É o sonho eterno do homem”[80]. Essa figuração singular de um deus
otiosus que é também um deus criador como sine opera opifex, artesão sem obra
e sine propagatione genitore, genitor sem geração[81]. Esse sabbat eterno é a
desocupação dos bem-aventurados, estado que desconhece tanto a acídia (desídia)
como a carência (indigentia). Preguiça feliz, ela não é nem um fazer, tampouco
um não fazer. Nesse sentido, 1968 foi uma exigência dirigida ao céu. E essas
súplicas a Deus não significaram outra coisa que esperar um milagre.

Toda cultura é a expectativa de um milagre e a ideia insensata de que o milagre


algumas vezes acontece. E essa loucura, essa esperança, põe em movimento toda a
história”[82].

Ativa à sua maneira, a preguiça é irmã do sonho. Pois, como afirmou Heráclito:
“Aquele que dorme age e colabora também ele ao advento do mundo”[83].

Notas

https://artepensamento.com.br/item/educacao-para-o-ocio-da-acidia-a-preguica-heroica/ 20/30
17/03/2020 Educação para o ócio: da acídia à "preguiça heroica" - Artepensamento

1. Em seu O direito à preguiça, Lafargue critica a palavra de ordem dos operários


franceses na Revolução de 1848 que reivindicou o “direito ao trabalho”,
opondo-lhe a “preguiça heroica” da cultura grega, que desprezava tudo o que
os desviasse do ócio e da contemplação. O título de seu livro, bem como as
citações de Heródoto, Platão, Xenofonte, Plutarco, Tito Lívio, Cícero, assim
como a referência aos escritos de E. Bito sobre a abolição da escravatura,
Lafargue os retirou da obra de Christophe Moreau, Du droit à l’oisiveté et
l’organisation du travail servile dons les républiques grecques et romaines, que
encontrou na biblioteca de seu futuro sogro, Karl Marx. Vale-se ainda de
referências a O capital, sem indicar essas fontes. Também o título de sua obra
se inspira no livro de Christophe Moreau, mas substitui “direito ao ócio” por
“direito à preguiça”, provavelmente para se diferenciar desse autor, que era
considerado pela esquerda da época de Lafargue como um “filantropo
burguês”, uma vez que havia participado do Consulado na Segunda República,
condecorado como acadêmico de renome por Luís Felipe. Cf. Maurice
Dommaget, Le droit à la paresse, Paris: Maspero, 1972. ↑
2. Emmanuel Levinas, De l’existence et l’existant, Paris: Vrin, 1993, P.34. ↑
3. Idem, ibidem, p. 33. ↑
4. Idem, ibidem, p. 46. ↑
5. Walter Benjamin, “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade
técnica”, Obras Escolhidas I, trad. Sergio Paulo Rouanet, São Paulo:
Brasiliense, 1996, p. 170. ↑
6. No arquivo “Ócio e ociosidade” de suas Passagens, Walter Benjamin aproxima
a scholé grega do dândi e do flâneur moderno, do estudante, do poeta e do
jogador, personagens que trazem valores de uma civilização passada em meio
a uma sociedade que se esforça em destruí-los. Diferenciando ócio e
ociosidade, Benjamin contrapõe o “ócio” tradicional à “ociosidade” moderna.
Em nota de apresentação das Passagens, Willi Bolle observa: “o ócio
tradicional, aristocrático, criativo (o otium dos romanos; o alemão Musse, o
francês loisir, o inglês leisure) é confrontado com a ociosidade moderna
(respectivamente Mussiggang, oisiveté, idleness). No sistema de valores
burguês, baseado no ‘negócio’ (no nec-otium, negação do ócio), o ócio dos
antigos e da sociedade aristocrática — isto é, o privilégio de estar livre da
obrigação de trabalhar — é visto como algo superado e depreciado como
‘ociosidade’, ou seja, ‘indolência’ e ‘preguiça’. Por outro lado, a ociosidade
moderna é um protesto contra a fetichização burguesa do trabalho. Nossa
distinção entre ‘ociosidade’ e ‘ócio’ procura reproduzir a diferenciação
entre Mussiggang e Musse, tentando expressar, ao mesmo tempo, através da

https://artepensamento.com.br/item/educacao-para-o-ocio-da-acidia-a-preguica-heroica/ 21/30
17/03/2020 Educação para o ócio: da acídia à "preguiça heroica" - Artepensamento

afinidade fonética, a dialética da mudança e da continuidade históricas”.


(Willi Bolle, in Walter Benjamin, Passagem, trad. Irene Aron e Cleonice
Mourão, Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006, p. 839). ↑
7. Aristóteles, Ética a Nicômaco, livro X , 7,1177 b 4, trad. Daniel Vallandro e G.
Bornheim, São Paulo: Abril
Cultural, 1973, pp. 428 e segs. ↑
8. Homero, Ililada, canto VI, v. 146-150, trad. Haroldo de Campos, São Paulo:
Arx, 2008, p. 241. ↑
9. Friedrich Nietzsche, Le livre du philosophe, trad. Angèle Marietti, ed. bilíngue,
Paris: Aubier, 1969, p. 175. ↑
10. Aristóteles, Physique, II, 5a-7, trad. A. e Cl. Guillaumont, Paris: Las Belles
Lettres, 1971, p. 82. ↑
11. Albert Camus, Omito de Sísifo, trad. An Roitman e Pauline Watch, Rio de
Janeiro: Record, 2008, p. 246. ↑
12. René Girard desenvolve o tema do desejo, sempre incontentável, segundo a
ideia de que todo desejo é sem objeto, por isso inextinguível, como o
manifesta o episódio narrado nos Evangelhos acerca do rei Herodes, da rainha
Herodíades e de Salomé. Tendo se casado com a mulher de seu irmão,
Herodes é interpelado por João Batista que lhe diz não dever ele se casar com
a própria cunhada. Herodíades, agora sua esposa, para se vingar de João
Batista, vale-se da filha Salomé para enfeitiçar o rei. Dançarina envolvente,
quando ela termina o bailado de “dez véus”, o rei e os convivas se encontram
fascinados. Herodes diz que lhe concederá o que ela pedir. Ao que ela se
dirige à mãe Herodíades para lhe perguntar o que ela deve desejar. É o desejo
da mãe que preenche o seu desejo; o desejo é sempre o desejo de um outro. É
então requisitada a “cabeça de João Batista”. (Cf. René Girard, Le bouc
emissaire, Paris: Flammarion, 0986). ↑
13. Os romanos recepcionaram a tradição grega, mas desconfiavam do “modo
grego de viver”, da contemplação, preferindo o “ócio com dignidade”,
laborioso e aplicado ao estudo, à leitura, à conversação, à correspondência
epistolar. Já o mundo cristão reabilitará o tempo dedicado à meditação e ao
“divino”, à especulação desinteressada com respeito à vida material
imediata. ↑
14. Emmanuel Levinas, op. cit., pp. 51 e segs. ↑
15. Charles Baudelaire, “Mon coeur mis à nu”, Paris: Gallimard, 1975, p. 682. ↑
16. No ensaio “Les problèmes des loisirs en Grèce”, Paul Demont explica as
transformações pelas quais passa o termo scholé, da ideia de jogo à sua
acepção de luxo supremo, de dedicação ao estudo, ao autoconhecimento e ao

https://artepensamento.com.br/item/educacao-para-o-ocio-da-acidia-a-preguica-heroica/ 22/30
17/03/2020 Educação para o ócio: da acídia à "preguiça heroica" - Artepensamento

conhecimento dos outros para o autoaperfeiçoamento, a autarquia espiritual e


a virtude. Seu sentido variou no tempo. Nas tragédias, como a Fedra de
Euripides, há dois gêneros de indivíduos: os que consagram a vida ao repouso
e ao ócio e os que agem. A contração de seu prefixo a-ergia—argia confere-lhe
um tom pejorativo: é preguiça e inércia, é a causa do fracasso dos mortais por
significar ora passividade, o não fazer, outra ação. A culpa trágica —
a hamartia — provém tanto de um crime cometido quanto de permanecer
passivo se a situação exige reação imediata, uma vez que não há como decidir
sobre a situação na qual há que agir ou não agir; scholé associa-se por vezes
a hedoné, ao prazer, e, nesse caso, o lazer é um prazer perigoso que se liga
ao aidos, ao pudor, à vergonha em face da estima pública. Em Esquilo a scholé
é o tempo livre mas no qual a passividade é forçada e perigosa, como no
drama Agamêmnon, em que Cliptemnestra não quer perder o tempo de agir,
isto é, o tempo para se vingar do marido, recusando, por isso, o lazer que seria
“perda de tempo”. Em Heródoto, a scholé é o lazer ligado ao repouso, a
passividade útil para a preparação de atos importantes. Na Antígona de
Sófocles, scholé associa-se à ideia de atraso, de retardamento, de hesitação,
um tempo que se ganha ou se perde quando se age mais lentamente que de
costume. Para o soldado que anuncia a Creonte a violação de seu decreto e a
consequente pena de morte, a scholé é o tempo que desperta a cólera do rei
contra ele que traz a notícia, e é o tempo que lhe resta para viver antes que a
cólera do rei recaia sobre ele. Ajax, por sua vez, pouco antes de seu suicídio,
utiliza a scholé como o tempo em que se discute; é o impedimento para agir
com prontidão e corretamente. No coro do Édipo Rei, a scholé é um período
durante o qual nada acontece; mas se trata de uma calma ameaçadora, que
não é pois nem lazer nem repouso tranquilo e despreocupado — como o
silêncio que se instala antes de uma tempestade. A scholé engrandece atos
funestos. Nas tragédias As Troianas, Medeia e Ifigênia em Tàuride, scholé é o
tempo de maus pressentimentos, marcando uma pausa ou um atraso no
desenvolvimento da ação trágica, sendo mau augúrio, o ponto de calmaria
antes do desenlace inevitável. Quem se deixa tomar por esse lazer está
condenado ao fracasso. Na Fedra, o tempo que poderia ser o de uma vida
agradável é o que serve para destruir a vida humana, como quando Fedra usa
a scholé pouco antes de suicidar-se. Não importa o ato ou o acontecimento, as
alegrias da vida podem se converter, de um momento a outro, em falta
trágica, pois nunca se está ao abrigo do desastre em parte alguma e em tempo
algum. Os momentos os mais agradáveis, a scholé, podem ser a origem da
total catástrofe. Assim, na Fedra, Teseu age impulsivamente, Hipólito não age

https://artepensamento.com.br/item/educacao-para-o-ocio-da-acidia-a-preguica-heroica/ 23/30
17/03/2020 Educação para o ócio: da acídia à "preguiça heroica" - Artepensamento

e Fedra algumas vezes age, outras permanece passiva. Em todos os casos, no


entanto, a vida está votada ao fracasso porque o homem age mal. Não que lhe
falte racionalidade — a faculdade de pensar corretamente e refletir é dada a
muitos —, mas não dispomos de critérios certos e seguros para a ação. Para
Platão, a aergia é, por vezes, o repouso merecido, outras a preguiça que
prejudica a vida. (Cf. O banquete, 19Ib.) Na tragédia, a scholé é o lazer
negligente, que perde o kairos, o momento apropriado da ação, o instante
decisivo, antes do qual nada aconteceu e depois do qual tudo estará perdido.
(Cf. Vernant, Mito e tragédia na Grécia Antiga; M. Moutospoulos,Variations sur
le thème du Kairos de Socrate à Denys, Paris: Vrin, 2002; Karsai Gyorgy, “Les
loisirs de Phèdre”, Les loisirs et l’héritage de la culture classique. Actes du _Tie’
Colloque de l’Association Guillaume Budé, ed. por J. M. André, J. Daniel e Paul
Dumont, 1993, pp. 27-31). ↑
17. Bailly, Dictionnaire grec-français, Paris: Hachette, 1950. ↑
18. “Nas Leis, 82oc, o termo scholé é aplicado às discussões científicas, por
oposição aos jogos e brincadeiras.” (Joaquim Brasil Fontes, Eros tecelão de
mitos, São Paulo: Iluminuras, 2003, p. 29). ↑
19. Joaquim Brasil Fontes, op. cit., p. 30. Eis por que o preguiçoso vem a ser o
verdadeiro leitor, aquele que lê por prazer e não por dever. Os Cahiers
Céline de 1976 publicaram uma matéria em que o entrevistado diz: “Tenho
uma biblioteca só minha, mas não a recomendo. Eu me mexo muito durante o
dia e à noite gosto de descansar no meu canto com meus livros. É meu
refúgio. […]. Há livros de todo tipo, mas, se você for abri-los, vai se espantar.
Estão todos eles incompletos, alguns só guardam dentro do encadernamento
algumas poucas páginas. Sou de opinião que se deve fazer com comodidade o
que se faz todos os dias; então eu leio de tesoura na mão, desculpe, cortando
tudo o que não me agrada. Tenho assim leituras que nunca me entediam.
Do Homem dos lobos, de Freud, conservei dez páginas, um pouco menos
de Viagem ao fundo da noite [de Celine]. De Corneille, Polieto inteiro e uma
parte do Cid. De meu Racine não suprimi quase nada. Guardei de Baudelaire
uns duzentos versos e de Victor Hugo um pouco menos. De La Bruyère, o
capítulo ‘Do coração’; de Saint Evremont, a conversação do padre Canaye com
o marechal de Hocquincourt. De madame Sevigné, as cartas sobre o processo
de Fouquet; de Proust, o jantar na casa da duquesa de Guermantes; a ‘manhã
de Paris’ de A prisioneira”. Na linhagem de Montaigne, que lia
“descosidamente” (à pièces décousues), a leitura que excede o prazer resulta
em fadiga. Em seus Ensaios, Montaigne anotou: “quanto a mim só aprecio os
livros prazerosos e fáceis, que me distraem, cuja leitura é agradável, ou então

https://artepensamento.com.br/item/educacao-para-o-ocio-da-acidia-a-preguica-heroica/ 24/30
17/03/2020 Educação para o ócio: da acídia à "preguiça heroica" - Artepensamento

os que me consolam e me fornecem regras para orientar a vida”. Seu


“método” de escrita era ainda por “saltos e cambalhotas”(à sauts et à
gambade). Confessa não respeitar nem mesmo a questão anunciada no título
do capítulo e, de um ensaio a outro, frequentemente se contradiz. Na verdade,
Montaigne não se contradiz propriamente como também não se ofende com
leitores flâneurs que só passeiam com ele por algum tempo e, se encontram
outra leitura que os contente mais, abandonam seus escritos. Diletante,
Montaigne simpatiza com os diletantes. ↑
20. Cf. J. Huizinga, Homo Ludens, trad. João Paulo Monteiro, São Paulo:
Perspectiva, 2010. ↑
21. Cf. Platão, Sofista, 232 a. ↑
22. Cf. Platão, Parmênides, 137b. ↑
23. Cf. Aristóteles, Poética, 1447 b. ↑
24. Platão, Protágoras, 384 b. Na etimologia platônica, Prometeu é aquele que
“pensa antes”, Epimeteu aquele que “pensa depois”, quer dizer, imprevidente.
Epimeteu se dá conta da má distribuição dos recursos para a sobrevivência do
homem quando estes se esgotam nos outros animais, tudo faltando ao
homem. ↑
25. Platão, Les Lois, OC, vol. XI, trad. Édouard des Places, Paris: Belles Lettres,
1976. ↑
26. J. Huizinga, Homo Ludens, op. cit., pp. 180-181. A recreação
mental (diagogé) requer que se seja educado para ela, mas não em nome do
trabalho e sim em nome dela própria. Nesse sentido, a Paideia, a educação, a
cultura não eram algo de útil ou necessário, como também não eram o ler e o
escrever, mas servem todos para ocupar bem o tempo livre (idem, p. 180). ↑
27. Na Política, Aristóteles observa que as crianças ainda não são capazes
de diagogé — de recreação mental e de serem artistas —, porque, sendo um
fim último, a diagogé constitui uma perfeição e a perfeição é inacessível ao que
é ainda incompleto, imperfeito, inacabado (Política, VIII, 1339 A, 29). ↑
28. Platão, Les Lois, op. cit. A proximidade entre jogo e jogo de criança — paidiá
— influiu para sua substituição por palavras de tratamento mais precisas e
formas mais elevadas de jogo que são o agon e a competição. J.Huizinga
observa que tanto Platão como Aristóteles refutavam os argumentos dos
sofistas justamente por considerá-los merecedores de atenção e de refutação,
já que à época o pensamento filosófico estava ainda próximo da esfera lúdica
arcaica, momento em que a filosofia tinha como ponto de partida o jogo de
enigmas religioso, ao mesmo tempo ritual sagrado e divertimento festivo. Em
sua forma mais elevada, o lúdico produziu a religião e a filosofia, o

https://artepensamento.com.br/item/educacao-para-o-ocio-da-acidia-a-preguica-heroica/ 25/30
17/03/2020 Educação para o ócio: da acídia à "preguiça heroica" - Artepensamento

pensamento mítico e o dos pré-socráticos, em suas modalidades consideradas


inferiores ou não nobres, a habilidade sofística e o engenho intelectual, sem
haver distinção absoluta entre ambos os lados. (Cf. J. Huizinga, op. cit., pp.
168 e segs.). ↑
29. Michel Foucault, “L’Écriture de Soi”, Dits et Écrits, Paris: Gallimard, 2001, p.
0236. A scholé grega, fundamento da cultura no Ocidente, tem seus sentidos
na própria memória dos idiomas. Schlolé, schola, Schule, school, escola, que
hoje designam lugares de formação e instrução, significavam, em suas origens,
lazer. Escola não quer dizer escola, mas “tempo livre”, do qual uma das
modalidades é a preguiça, envolvendo o repouso e a estabilidade, a negação
do que é laborioso ou penoso. ↑
30. Aristóteles, Ethique à Nicomaque, Livre X, trad. J. Tricot, Paris: Vrin,
1990, P. 232. ↑
31. Santo Tomás de Aquino, Suma teológica, II, H, questão 123 a, 12ª ed, Paris:
Cerf, 1985, p. 3. ↑
32. René Descartes, “Primeira meditação”, Meditações metafísicas, trad.
J.Guinsburg e Bento Prado Jr., São Paulo: Abril, 1973, P. 97. ↑
33. No século XIII os pecados capitais recebem sua caracterização duradoura:
orgulho, inveja, avareza, preguiça, cólera, luxúria e gula. Não por acaso,
houve a condenação de Adão e Eva, o consumo da maçã proibida sendo o
primeiro ato de gula. A acídia constitui um oitavo pecado. ↑
34. Bernard Haring, La loi du Christ, Paris: Desdée, 1955, p. 32. ↑
35. Os gregos condenavam a aergia — a preguiça — por esta levar o inativo à
mendicância e à miséria. ↑
36. A palavra “hebel”, traduzida na tradição como “vaidade”, não seria um bom
termo, uma vez que “vaidade” contém um juízo de valor, ausente do texto
bíblico. O original diz “fumaça”, “vapor”, “sopro”: “fumaça das fumaças, tudo
é fumaça”. O pensamento da vanidade e da evanescência de tudo que existe
— bens mundanos, saberes, prazeres sensuais — inspirou toda a iconografia
dos séculos XVI e XVII, com seus espelhos, crânios, esqueletos, ampulhetas,
vermes, moscas, candelabros, velas, naturezas-mortas, manifestando a
precariedade da vida e a onipotência da morte. ↑
37. A etimologia pode aqui ser esclarecedora. Do grego a-kedia, há o privativo “a”
e o verbo kedo que, em sentido ativo, vem a ser “lesar”, “ferir”, “perturbar”.
Em sua voz média, reflexiva, kedo significa “preocupar-se com”, “ser inquieto”,
“cuidar de”, como em Homero. No Dicionário de Chantraine lê-se: “Em suas
formas mais raras, o verbo é utilizado no contexto das cerimônias fúnebres:
ocupar-se com os funerais”. Segundo Jean-Pierre Vernant, “a aikidia (em

https://artepensamento.com.br/item/educacao-para-o-ocio-da-acidia-a-preguica-heroica/ 26/30
17/03/2020 Educação para o ócio: da acídia à "preguiça heroica" - Artepensamento

Homero, aeikeie) é a ação de aikizein, de ultrajar o cadáver”.


(Vernant, L’individu, la mort, l’amour: soi-même et l’autre en Grèce
ancienne, Paris: Gallimard, 1996.) Kedos é cuidado, luto, honras prestadas a
um morto ao qual se está unido por aliança, parentesco. Akédia torna-se
indiferença, lassidão. Tem-se também akedos: sem preocupação, sem cuidar
de, negligenciado, aquele de quem não nos ocupamos. Outros
derivados: kedeios, amado, que cuida de. Akédia é um termo menor do grego
tardio, pouco usado, encontrado em Empédocles, Hipócrates, Luciano. Sua
conotação é a indiferença e a negligência. Cícero a utiliza em uma carta
a Atticus: Akedia tua me movet, etis scribis nihil esse: espécie de inércia
intelectual diante de uma decisão a ser tomada. A raiz do verbo ked engloba e
recobre o conjunto da dimensão da vida e da morte. A ênfase é claramente o
cuidado, o ‘preocupar-se com’. “Nós nos preocupamos porque amamos o vivo
ou se amou o morto”. (Cf. Lucrèce Luciani-Zidane, L’Acédie: Le vice de forme du
Christianisme. De Saint Paul à Lacan, Paris: Cerf, 2009, P. 29). No Dicionário
de Psiquiatria de Jacques Postel (Larousse, 2003), a acídia é “depressão que se
transforma em uma aversão pela vida, uma indiferença afetiva, é inibição e
mesmo torpor considerado pela teologia da Idade Média como um pecado,
pois voluntariamente sustentado por um sujeito. Incapacidade de investimento
afetivo, a acídia é a impossibilidade de amar. A evolução do termo da Idade
Média até hoje oscila entre o pecado e a patologia, como uma tristeza
marcada pelo desânimo, por vezes cólera, descuido completo com a ação, um
desprezo do mundo, da vida e das alegrias espirituais, ódio que ofende o
Criador. Por isso, em larga medida, a acídia prefigura as depressões modernas.
A acídia-tristitia desaparece da cultura até o século XIX, quando retorna sob a
forma do tédio e da monotonia no mundo contemporâneo, tal como
compreendidos, entre outros, por Baudelaire e Benjamin. (Cf. Charles
Baudelaire, Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa, trad. Leda Tenório da
Motta, Rio de Janeiro: Imago, 1995; Walter Benjamin, Origens do drama
barroco alemão do século xvll, trad. Sergio Paulo Rouanet, São Paulo:
Brasiliense, 1983; e Walter Benjamin, Passagens, arquivo “Baudelaire” e
“Eterno Retorno”, trad. Irene Aron e Cleonice Mourão, Belo Horizonte: Ed.
UFMG, 2006). ↑
38. Cf. Dictionnaire de spiritualité ascétique et mystique, Paris: Bauchesne, 1937, t.
I, p. 166. ↑
39. Para Orígenes, na Alexandria do século in, os logismoi — a inconstância dos
pensamentos — são “a fonte e princípio de todos os pecados em que se
originam os maus pensamentos (logismoi)”. ↑

https://artepensamento.com.br/item/educacao-para-o-ocio-da-acidia-a-preguica-heroica/ 27/30
17/03/2020 Educação para o ócio: da acídia à "preguiça heroica" - Artepensamento

40. Logismos é pensamento no sentido do cálculo e de consideração, tomando,


com os estoicos, um significado ético, para quem ele designa a função mais
elevada da alma. Mas logismoi, na Bíblia dos Setenta, significa literalmente
“maus pensamentos”. Evágrio Pôntico, ao final do século iv, acrescenta-lhe um
traço pejorativo, “demonológico”, adotado pela literatura ascética do Oriente e
do Ocidente. ↑
41. Em alguns, o motivo é inconfessável — criminosos foragidos da Justiça ou os
mais ricos que se escondem do fisco; outros desejam novas aventuras, outros
têm “sede de Absoluto”. ↑
42. Alguns autores, como Peter Brown, lembram a difícil condição social das
aldeias do Egito coopta, núcleo do movimento ascético, evidenciando as
tensões no seu meio social e uma crise da solidariedade e dos valores da vida
em comum. Camponeses rudes e violentos, que vivem em proximidade
forçada uns dos outros, utilizando um mesmo rio, matam-se por nada, tanto
lhes são pesados os laços comunitários. Nesse horizonte, cresce o prestígio dos
anacoretas, com seu modo de vida autárquico, absolutamente independente
do mundo externo e do meio em que viviam. ↑
43. Sentences des Pères du désert, trad. Jean-Claude Guy, Paris: Ed. du Scud, 1976,
p. 13. ↑
44. Essa representação do anjo tecelão se encontra em praticamente todas as
imagens da melancolia a partir da Idade Média. Com Santo Tomás de Aquino,
no século XIII, a acídia assume um sentido mais espiritual: é afastamento da
alma com respeito ao bem mais valioso, o divino bem, bem que entristece
acidioso em vez de provê-lo de alegria e contentamento. ↑
45. Porque o dia se arrasta e parece insuportavelmente longo, o monge se
desespera de o sol seguir seu curso, mostrando intensa agitação, andando de
cá para lá em sua cela; ao menor ruído sobressalta-se e ao mínimo ranger de
porta abandona o lugar onde se encontra; movimenta-se sem parar e se escuta
alguma voz vai prontamente olhar pela janela. No zênite, o sol provoca
entorpecimento e furor contra a contemplação e o desprezo da caridade.
Esgotado e infeliz, o solitário acaba por dormir. Sono culpado porque o
religioso deveria ler o livro sagrado que tem com ele e, em vez disso, mal olha
as imagens ou as palavras, adormecendo onde estiver, recostado em qualquer
parede ou inclinado na mesa de leitura. Sono, preguiça e sono culpado
compõem a cena primitiva da acídia no Jardim das Oliveiras. Com efeito, os
três evangelistas — Lucas, Mateus e Marcos — relatam o mesmo episódio dos
apóstolos adormecidos: “Chegados em um lugar denominado Getsêmani,
[Jesus] diz a seus discípulos: ‘Sentem-se aqui enquanto eu faço minhas

https://artepensamento.com.br/item/educacao-para-o-ocio-da-acidia-a-preguica-heroica/ 28/30
17/03/2020 Educação para o ócio: da acídia à "preguiça heroica" - Artepensamento

orações’. E ele levou Pedro, Tiago e João com ele e começou a ficar angustiado
e a sentir medo. E ele lhes disse: ‘Minha alma está triste e pesada demais.
Fiquem aqui, velando’. E, tendo se adiantado um pouco, ele se prostrava na
terra e rezava para que aquela hora passasse longe dele. E dizia: ‘Pai, afasta de
mim esse cálice’ […]. E [Jesus] volta e os encontra adormecidos e diz a Pedro:
‘Simão, você está dormindo! Você não teve forças de velar por uma hora!
Fique acordado para não cair em tentação, o espírito é ardente mas a carne é
fraca’. E, mais uma vez, indo embora para rezar ele disse as mesmas palavras.
E, de retorno, ele os encontrou de novo dormindo pois seus olhos ficaram
pesados e eles não sabiam o que responder. E, vindo uma terceira vez, [Jesus]
lhes disse: Durmam agora e descansem em paz. Cristo aprova, por fim, os
apóstolos adormecidos, sono de descanso da tristeza. ↑
46. Originário do folclore hebraico, o demônio do meio-dia é Queteb, que
surpreende na hora da sesta, representado como uma bola de pelos e escamas
que rola até os pés do anacoreta quando o sol se encontra em seu ponto mais
alto no céu, prostrando-o no chão de terra. ↑
47. Encontra-se no Fedro de Platão uma referência ao “demônio do meio-dia”,
diálogo em que Sócrates discorre sobre o perigo que assombra o meio-dia,
quando é ensurdecedor o canto das cigarras — e o torpor do sono. Quando o
comum dos mortais se entrega à sesta, o filósofo não deve dormir, pois o

Costumes Crenças Ética História Mutações Paixões Política Técnica Tempo

Outros itens da coleção


Mutações – elogio à preguiça

SIM AO ÓCIO OU “VIVA A PREGUIÇA”


por Oswaldo Giacoia Junior
A oposição entre apolíneo e dionisíaco remete, em Nietzsche, ao antagonismo entre cultura e barbárie. Cultura, em...

EXPERIÊNCIAS DA IMPRODUTIVIDADE
por Guilherme Wisnik

O TEMPO QUE NOS RESTA


por Jean-Pierre Dupuy
A preguiça é uma noção difícil porque envolve o conceito de tempo, e, desde Santo Agostinho – pelo menos –,...

PERTO DEMAIS DA REDENÇÃO: DEPRESSÃO, FLEXIBILIDADE E FIM DA ÉTICA DO TRABALHO


por Vladimir Safatle
O final do século XX confrontou-se com a consciência do esgotamento de certos processos até então hegemônicos, de...

TRÊS OCIOSOS: SÓCRATES, MONTAIGNE E MACHADO


por José Raimundo Maia Neto
O objetivo é explorar as contribuições dadas por três pensadores ao tema em questão. São eles de perfis e épocas...

https://artepensamento.com.br/item/educacao-para-o-ocio-da-acidia-a-preguica-heroica/ 29/30
17/03/2020 Educação para o ócio: da acídia à "preguiça heroica" - Artepensamento

https://artepensamento.com.br/item/educacao-para-o-ocio-da-acidia-a-preguica-heroica/ 30/30