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História da aldeia Belontra, contada por seu José Branco Makaxe. 05/10/2017.

T.I. Nhamundá Mapuera – Rio Nhamundá.

Eu vou contar desde a história do meu avô. Antigamente meu avô vivia onde hoje é
conhecido como a cidade de Faro. Nessa época em que eles viviam junto com o pessoal do
Farukuoto, que chama-se Faro hoje em dia, era terra dos Farukuoto. Mas historicamente tem outro
nome que os não indígenas colocaram, mas aquela é terra dos Farukuoto. E lá aconteceu que
quando os atravessadores e os padres que vinham evangelizando até aquela região, naquela época,
eles levaram nossas mulheres, levaram para a cidade. E por esse motivo deixamos a nossa aldeia e
subimos nesse rio. Outras gentes baixaram e entraram noutro rio. A gente ficou espalhado. Então,
nós como Farukuoto que subiram para cá ficaram junto ao pessoal Kamarayana. Viemos subindo e
os não indígenas vieram nos persseguindo. Nos aproximamos para cá desse rio (Zé Branco fala a
partir de Belontra) e aquelas embarcações dos não indígenas que vinham naquela época, eram
barcos enfumaçados que tinham máquina e leme. Subimos até a cabeceira. (00:03:08;11).

É assim que nossos avós e bisavós contavam nossa história para nós. Inclusive que a gente
não sabia que eram não indígenas que moravam lá. Nós chamávamos de Okoymoyana.
Okoymoyanas que levavam nossa mulheres. Também falavam sobre essas transformações que
existiam. Muita gente sabe dessas histórias que existiam sim! Tipo uma Okoymoyana. Tem uma
história aqui no Espelho da Lua. Lá vivia uma gente. Uma mulher em cima da pedra. A gente
enxergava e quando se aproximava eles mergulhavam no rio. Então quando soubemos que eram
não indígenas que levavam nossas mulheres, que levavam para a cidade e nunca mais voltava,
ficamos com medo dessas pessoas e a gente pensou que era Okoymoyana. Então viemos subindo e
chegando nas aldeias antigas e subimos até acima de Kassawa. É assim que a gente tem história
[assim que passamos a existir na história do Karaiwa]. E temos muita história para contar.
(00:05:34;15).

E assim foi a nossa história. Lembro-me que o meu sogro contou que lá era nossa aldeia,
em Faro. A gente ficou fugindo dessas pessoas. A gente ficou fugindo por terra. Não havia
material para cavar canoa. Então a gente vinha acompanhando esse rio por terra. São muitos dias
até chegar à Cachoeira Porteira. Onde eles chegaram, em Cachoeira Porteira, tinha uma cachoeira
bonita com pedras lindas e foi lá que acamparam e ficaram um tempo. Fizeram roçado novamente,
pois os roçados que tinham deixaram para trás. Não podiam voltar, era muito longe. Umas duas
semanas de lá até Cachoeira Porteira. Levaram algumas mudas e plantaram de novo. Eu ainda vou
querer falar dessa história com mais detalhes. (00:07:43;22).

E um tempo depois apareceram aquelas pessoas. E lá vem de novo! Deixamos tudo para
trás novamente, casas, roçado, e subimos na cachoeira. Quando chegaram em Cachoeira da
Fumaça pensaram que aquelas pessoas não subiriam mais. Porque enxergávamos como uma
cachoeira grande. Então era para eles, os brancos, não virem mais. Nos perguntamos: Vamos
seguir um pouco adiante para fazer uma aldeia? E respondemos que sim. E lá eles se encontraram
com outros povos, Kamarayana com Forukuoto e Karahawyana. Foi lá que se encontraram. Então
os caciques logo disseram: Vamos fazer nosso roçado e morar aqui, pois para cá é difícil para eles
[os brancos] virem. Já passamos não sei quantas cachoeiras, acho que é difícil os brancos virem
aqui. E assim foi a nossa concentração lá. Eles viveram lá um bom tempo. Já tinham roçado e tudo
que precisavam, tudo o que tinham antes em sua vida. (00:09:50;11).

Tinha uma obra feita lá. Uma obra cavada que os povos fizeram. Na época a gente vivia
essa briga. Quando encontrávamos com outro povo tinha briga lá. Então me contaram dessa
história que aconteceu lá em Faro, que levaram as mulheres. Então eles fizeram uma obra, e
cavaram a terra até lá em cima. Quando o pessoal subia, cassetavam eles e jogavam na Cachoeira
da Fumaça. Esse era o pensamento desses povos. Vamos pegá-los se eles virem para cá. Vamos
matando e jogando nessa cachoeira, senão eles vão levar nossas mulheres de novo. Então ficaram
morando lá, na aldeia Mutumã. (00:11:30;13).

Aí, um tempo depois, os caciques, aqueles fortes que ficaram repensaram aquele tipo de
armação [estratégia?]. Eles envelheceram e os novos foram crescendo. Eles contam essa história,
do senhor Hekuai, que cresceu e já estava um homem. E ele estava levando seus povos. Foram lá
em cima em Anuhoyo e fizeram outra aldeia e inclusive os Farukuoto, Kamarayana e
Karahawyana também foram, mas só algumas famílias pois outras ficaram aqui. E assim os povos
foram se dividindo. (00:13:12;07).

E foi nessa aldeia, na aldeia Hoyo, que o meu pai nasceu e se criou. E quando ele cresceu
formou família e fizeram outra aldeia lá no centro do mato. Porque não adiantava eles ficarem
aqui se os brancos estavam vindo. Os brancos estão vindo pelo rio? Então tá! Vamos para dentro
do mato fazer outra aldeia. Não adianta a gente ficar na margem, na beira do rio. Se o rio é o
caminho dos brancos, então vamos nos afastar dele. Vamos fazer outra aldeia lá no centro do
mato. E era lá que papai vivia. (00:14:43;02).

No tempo depois, em que os meus pais andavam com o irmão do meu pai, quando ele já
tinha família e eu ainda não. Quando meu pai conseguiu família lá, ele se mudou. Foi lá para o
Ytxaru. Foi lá onde ele fez sua aldeia. Então ele estava se afastando do irmão para ir para outra
aldeia. Então eles fizeram duas aldeias. Wytxaru e Ewkarynon. Na mesma época eles andavam
sem parar. Eram duas aldeias que eles tinham e foi assim como ele me contou, a história. Meus
pais viviam lá, mas tinham duas aldeias. Eles faziam atividades numa aldeia e voltavam na outra
aldeia onde tinham as plantas e coisas para colher as plantas. Então é assim que foi com meu
finado pai. (00:16:53;16).

No tempo depois, quando papai já tinha formado família, foi lá que mamãe ficou grávida
de mim. Nessa época meu pai saiu do Wytxaru e foi para o Karamtu. Foi lá que eu nasci. Porque
no nosso costume tradicional não se nasce dentro da aldeia, tem que ir se afastando um pouco das
pessoas. Para poder criar as crianças bem. Lá que eu nasci e me criei. (00:18:16;11).

Um tempo depois, quando eu já havia nascido, meu pai pensou - e quem era mais novo
nesse tempo era o senhor Mahxawa que está vivo até hoje, velho mas vivo ainda. Ele pediu para
que ele pudesse sair do Wytxaru, e abrir outra aldeia no Paraíso. Então foi feita uma aldeia lá no
Paraíso, que também é nossa aldeia antiga. (00:19:42;22).

Agora vou trazer a história para cá de novo. Quando o meu pai tinha sua irmã, roubaram-
na. Isso aconteceu em Faro, e tornou a se repetir mais para cá. Talvez eles tenham trago minha
irmão de volta. Então eles vinham se encontrar com ela mas nunca mais se encontraram depois. É
assim que a gente fica em nossa experiência com não indígenas, naquela época. (00:21:43;12).

Quando encontrei minha irmã ela contou tudo. Estou viva ainda, vim aqui e trouxe meu
marido para mostrar para vocês. São pessoas que todo seu material são diferentes dos nossos.
Temos panelas de barro que é onde a gente cozinha nossa comida. Eles têm umas panelas leves,
mais bonitas. São pessoas humanas [os karaiwa, ou brancos], cuidam bem de nós. Têm uma
comida diferente da nossa também. São pessoas legais. Aí meu finado pai diz: O que os cunhados
querem agora? Vocês não têm atividade? Nós temos atividade sim! Nós tiramos castanhas. Ah
então tá. Daí meu pai pensou: Se eu for tirar castanha o que será que ele vai me dar? Será que isso
é como se eu estivesse trabalhando com ele? Ele vai me dar essa panela porque eu vou querer essa
panela também! Então tá, é só eu tirar castanha e trocar por panela. E eu tenho para mim que o
papai era dono desse ponto de castanha lá da Cachoeirinha. Aí a irmã dele falou assim: Dona
Mariquinha como que a gente faz? Ele respondeu: Vocês colhem a castanha e trazem até aqui.
Naquela época o papai tirava muita castanha. Ele trouxe a castanha para o cunhado comprar.
Então a nossa aproximação com os não indígenas foi assim, através da dona Mariquinha.
(00:24:40;11).
E é assim que papai trabalhava com ele naquela época. Então a gente já ficou querendo se
aproximar dos não indígenas parentes. E o papai se retirou e foi embora para conhecer a cidade. E
quando chegou na cidade ele pegou aquela gripe. Foi quando ele subiu foi embora de novo para o
Paraíso. Foi lá que ele morreu de gripe. (00:25:45;06).

Quando meu pai morreu fiquei sem pai. O seu Waraka disse assim: Então vou lá com meu
irmão. Vieram de lá e foram para a aldeia do Waraka. Se conversaram lá, quando eu era pequeno
ainda, ou jovem, eu cheguei lá. A mamãe era irmã do Waraka. Então ficamos lá no Tohkure. Mas
eu tinha uma outra aldeia, a do Waraka. Ele saiu da aldeia Mutumã e fez uma aldeia mais longe, a
mais longe do rio. Em frente à Kassawa só que umas três horas andando. (00:28:05;00).

Quando eu estava com doze anos, me lembro quando meu pai morreu, fui trazido pelo meu
pai. Vivia na aldeia do Waraka. Naquela época eu já estava homem. Vi quando o pessoal dos
padres vinham e chegaram para cá para evangelizar e perguntavam onde estavam os povos
espalhados e o pessoal dizia que tem outros povos Hexkaryanas, Xowyana, Xerewyana. Três
grupos também. O padre foi até a aldeia Watkáwá, que é onde vivia uma comunidade grande. O
padre chegou até lá. (00:30:15;11).

Aí, no tempo que o padre chegou na aldeia Watkáwá, ele levou algumas doenças. Tinha
muita gente Xowyana naquela aldeia e morreram quase todas lá. Então os Xowyana, Hexkaryana
e Xerewyana ficaram lá. Hoje a gente se conhece e o pai do Jonas são os próprios Hexkaryanas,
do povo Hexkaryana, que chama-se Tobias. O avô do Tobias, Atxeah, era Hexkaryana próprio.
Ele foi mais conhecido por todo mundo porque ele era pajé. No tempo que os padres chegaram
aqui morreu bastante gente. Logo que ele desceu subiu o Desmundo para cá. (00:32:12;23).

Antes de Desmundo chegar, vieram uns mensageiros da Guiana para dizer: Vamos aceitar
o Jesus! Tem o “bom” lá na Guiana Inglesa, e ele está obrigando igreja, pegando as bíblias. É tudo
o que eles fazem. Então eu quero que vocês saiam daqui para ouvir a palavra de Deus lá na Guiana
Inglesa. A maioria dos Hexkaryana, Xowyana, Karahawyana, quase todos foram para a Guiana
Inglesa ouvir a palavra de Deus. Então a gente pensou e o senhor Mahxowa também ficou de ir.
Ele estava planejando a ida dele lá. Mas um ano depois apareceu Desmundo e perguntou: Para
onde vocês vão? A gente disse que estava indo lá para a Guiana Inglesa. Desmundo respondeu:
Não! Eu também sou pastor. O mesmo “bom” que tem na Guiana eu também tenho. Então o
Desmundo passou doze anos em Mutumã e Kassawa. Foi ele que levou o povo lá e fizeram outra
aldeia em Kassawa. Foi através de Desmundo que fundaram a aldeia de Kassawa. Lá ele passou
mais de doze anos aprendendo a língua Hexkaryana. Tinham várias línguas diferentes. A palavra
dos Hexkaryanas é assim, a dos Xowyana é assim, é inversa. Ouvíamos as falas dos Karahawyana,
dos Xowyana. Então Desmundo disse que o Hexkaryana estava indo por uma linha certa, então a
gente podia falar Hexkaryana. Por isso que hoje em dia todo o nosso povo é conhecido por
Hexkaryana mas têm outros grupos. (00:35:52;12).

E assim foi com o nosso povo. Depois que o pessoal foi para lá, eles voltaram de novo. E o
Desmundo fez uma reunião e disse: Eu gostaria que vocês, cada um de vocês, se apresente, diga
qual é o povo de vocês. Então o seu Txono levantou e disse: Olha, eu sou Farukuoto! Do povo
Farukuoto. E você? Disse Desmundo. E Waraka disse assim: Eu não! Eu sou Kamarayana! Aí
veio outro povo, o seu Mahxawa, você é de que povo? Ele respondeu: Karahawyana! E você?
Disse ao Mohto, que respondeu: Sou Hexkaryana! Aí veio Merew e falou: Eu sou povo Xowyana!
Aí veio Kawyrie e ele perguntou: “E você?”. “Eu sou Yukwaryana!”. Povos diferentes. Daí
Desmundo disse: “Ih, vocês tem povo demais! Então vamos colocar um povo só. Pelo menos para
a gente colocar na história quem nem a bíblia. E vocês aceitam o nome Hexkaryana?”.
Respondemos que aceitávamos e assim ficou o nome, até hoje conhecido por todo mundo.
(00:39:53;18).

Assim foi. Lá me criei e formei família lá com a filha do seu Waraka com quem casei.
Depois, do tempo da Funai para cá, o Waraka se aposentou e já estava recebendo sua
aposentadoria. Quando já estava idoso a sua locomoção ficou difícil, para passar nas cachoeiras.
Então o filho dele trouxe Waraka do Kassawa para Cachoeirinha. (00:41:13;21).

Quando o Waraka morava em Cachoeirinha eles pensaram assim: Como você tem que
receber quase todo mês, não adianta ficar aqui e o trouxeram para Cachoeirinha. Quem o trouxe
foi Xakofya. Na Cachoeirinha junto com seu Mário Txekerefu, que era cunhado dele e que
ajudava-o. Lá tinha também não indígena, pois aquela fonte de castanha era dos não indígenas.
Depois da demarcação da Terra Indígena Nhamundá Mapuera a Funai expulsou os não indígenas
que estavam trabalhando na coleta de castanhas. Então foram expulsos e ao mesmo te po a Funai
entregou o ponto de castanha ao Xakofya. Tinha uma atividade de Xakofya ali na Cachoeirinha.
Então depois eu pensei: Vamos lá com seu pai, pois ele está lá em Cachoeirinha. Aí nos mudamos
de Kassawa para Cachoeirinha. (00:43:22;07).

E assim foi a nossa vida. Foi lá que seu Waraka faleceu. Onde nós perdemos nosso cabeça
e nosso líder que faleceu em Cachoeirinha. Seu Antônio comprou um barco enquanto comunidade,
nós tínhamos uma embarcação. Por isso a aldeia que foi formada na Cachoeirinha foi deixada e ele
desceu para o Matrinxã onde tem mais rio e no tempo da seca o barco encosta no porto dele. Em
Cachoeirinha não adianta eles ficarem lá e o barco fica abaixo, mais para cá. Então quando o rio
seca, não dá para a gente ir todos os dias lá para tirar água. Então é por isso que ele se mudou para
Matrinxã. Ele está lá. (00:45:17;09).
Nessa época, quando eu vinha junto com Antônio, acompanhei meu cunhado Antônio e
fundamos a aldeia Matrinxã. Depois perdi meu filho, que trabalhou na Funai naquela época. Ele
pegou uma doença, ele cegou. Então ele pensou que o tempo que ele estava na Funai na
demarcação da nova Terra, Trombetas Mapuera, que foi no processo de 2006. Então primeiro foi
determinada a demarcação nessa boca aqui e lá em cima, no tempo do meu filho. Então ele se
lembrou disso tudo quando já estava cego: “Poxa papai, eu estou cego aqui. E não adianta eu
chegar na aldeia Kassawa nem na Matrinxã. É melhor ter que fundar outra aldeia, aí no Belontra.
Eu não sei se posso ficar lá, se meus irmãos cuidarem bem de mim, tenho minhas filhas também.
Eu quero que você me leve lá papai, não posso ficar aqui. Eu perdi meus olhos, não enxergo mais.
Ele adoeceu assim. Então por isso que eu conversei com meu genro, dizendo: será que a gente vai
para o Kassawa? Será que a gente vem para cá? Desse planejamento que durou muito tempo.
Durante o tempo que ele ficou doente também, a gente se repensou. Então vamos fundar outra
aldeia. E por isso que viemos para cá. Fundei a aldeia e ao mesmo tempo ele faleceu.
(00:48:55;16).

E assim foi a minha vinda para cá, desde os meus avós até a presente data, em que estamos
aqui. Então quando eu fundei essa aldeia, acho que daqui para a frente não posso mais sair para
outro lugar. Eu vou estar aqui, vou morrer aqui mesmo. Isso foi no meu pensamento. Eu fundei
essa aldeia porque eu não tenho medo não. Porque eu sou lá de Faro. Eu fui fugido pelos não
indígenas de lá para cá e a gente está se aproximando da cidade agora de volta. Mas ninguém vai
tomar a cidade de Faro não. Porque aqui a gente já está dentro da Terra Indígena e daqui eu não
vou sair mais não. (00:50:27;09).

Eu nasci do lado do Pará, que é a divisão desse rio. Eu não sei porque que não fiz minha
aldeia do lado do Pará. Mas os meus filhos nasceram do lado do Amazonas. Por isso que eu vou
ficar aqui. Se eu tivesse feito a aldeia do lado do Pará, meus filhos ficariam reclamando: “Poxa, eu
não sou paraense e sim amazonense pois a maioria dos meus filhos nasceram no Amazonas. Por
esse motivo mudamos para o lado do Amazonas. (00:51:34;06).

E assim foi o nosso cotidiano. Hoje eu fico dentro da demarcação da Terra Indígena
Katxuyana Tunayana. Vocês estão vendo o que a gente está protegendo agora. Se não
protegêssemos a floresta não precisavam mais da gente. Agora vocês estão vendo o que a gente
precisa usar de madeira, palha. Qualquer envira que tem na floresta a gente não tira não. Mas tem
envira que dura muitos anos. Tem cipós aqui que a gente faz toda a armação com eles. É dessa
proteção que a gente tem. A gente protege a floresta pois é o nosso uso cotidiano. Quando a gente
precisa para fazer uma casa. Se fosse como o material dos não indígenas já tinha uma prego aqui
feito, mas não. A gente usa, nosso costume mesmo, do que fazemos a casa a muitos anos e não
podemos perder a nossa cultura. A nossa cultura está viva ainda mas o modelo que vocês estão
dormindo aí é o modelo dos não indígenas. O nosso costume mesmo é nessa casa que a gente está,
o Maya. (00:54:19;20).

Assim eu sou. Sou tão velho mas tenho muitos irmãos e irmãs espalhados. Tem lá em
Kassawa, tem no Mapuera, tem no Jatapu e assim a gente se espalhou. Eu sou do povo do Tafyena
Ewkuru. Era o Tavino que era o nosso líder. Então eu sou desse grupo de Tavino. A gente se
espalhou aqui. Está aqui o Matias. Ele próprio é meu parente, filho da minha irmã, que casou com
minha filha. Inclusive Rogério também, ele casou com minha filha e a mãe dele é minha irmã
também. Então essas gentes se espalharam. Tem gente lá no Jatapu, tem gente lá para o rio
Mapuera, tem vários parentes espalhados nesse mundo aí. (00:56:21;13).

Para finalizar minha palavra agora, que já chegou até o final: Eu vou morar aqui, eu vou
morrer aqui e talvez eu vá durar pouco tempo. Mas eu tenho minhas filhas e meus genros para
viverem aqui. É isso que eu queria contar para vocês, essa história que tenho dentro do meu
conhecimento. (00:57:10;10).

De repente tem alguns fatos de morte. Então eu quero que vocês ajudem. Eu sei que nesse
planejamento é para buscar o melhor para nossa vida. Então meus genros, meus sobrinhos e meus
netos que vão ficar aqui, eu gostaria que vocês ajudassem eles através desse projeto. É isso que eu
queria colocar para vocês. É isso! (00:58:06;05).